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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00227

Full Text




3 rnal Pessoal
Ul .C I O F L A V I O P I N TO
,-r XV N" 277 21 QUINZENA DE FEVEREIRO DE 2002 R$ 2,00


POLITICAL


0 bloco (ainda) nao saiu

0 goverador Almir Gabrielparecia
convencido de que, sozinho, era capaz
de eleger seu successor o seu candidate
do peito, o secretdrio especial Simdo
Jatene. Agora, estd sendo obrigado a
reaprender que eleigdo e obra coletiva. //
Quem nao ajuda pode atrapalhar. De.. ,.
trapalhada em trapalhada, a canoa de I 3 1 j
Jatene comegava afazer dgua.


o cargo at6 o fim do seu
mandate, o governador Al-
mir Gabriel sera o maior
eleitor em outubro/novem-
bro. Mas nem cor o coman-
do da maquina official conseguirai, sozinho,
eleger seu successor o economist Simao
Jatene, seu principal secretario e candida-
to pessoal. Provavelmente convencido des-


sa impossibilidade, o pr6prio Jatene tratou
de chacoalhar seu padrinho para faz&-lo
encarar a realidade, que parece se escon-
der por detras do seu espelho magico. E
precise atrair mais donos de votos para a
nau tucana. Sendo, com bandeirolas e fo-
guetes, ela pode naufragar.
Jatene deu partida a revis5o dos pianos
de campanha amea9ando pular fora da fra-


gata. Pretextando uma doenga, deixou de
comparecer a compromissos politicos du-
rante tres dias seguidos. Sua ausencia de-
sencadeou boatos desgastantes, alguns pro-
duzidos pela desinformaqdo mesmo, outros
criados pelos adversaries politicos. O se-
cretario especial da producgo teria renun-
ciado a candidatura, diziam uns, manipu-
lando um element da personalidade du- )


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2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2002


bitativa do provavel candidate do PSDB.
Outros garantiam que os problems car-
diacos de Jatene haviam se manifestado
novamente, tirando-o da maratona eleito-
ral. Terceiros admitiam que a doenga nio
passava de uma trivial inflamacio na gar-
ganta, mas destacavam o fato de que ele
fora visto tomando sorvete em pleno do-
mingo deforfait politico.
Candidate em tom de campanha acir-
rada, a nao ser que esteja seriamente doen-
te, tem que superar suas limitacqes e apa-
recer com boa apar6ncia em p6blico, ou,
ao menos, mostrar disposiiao. Pouca coi-
sa 6 mais complicada para marqueteiros
politicos do que candidate doente. Unha de
pe inchada rapidamente vira cancer na ra-
dio cip6. Uma informaago dessas pode dis-
seminar a descrenca do eleitor na seguran-
Ca do nome, algo como jogador de futebol
"bichado" ou boxeador com queixo de vi-
dro. O atleta pode ser 6timo. Sem transmi-
tir confianca, contudo, nao ira long.
A confianca talvez tenha faltado ao
pr6prio candidate in pectori do governa-
dor. Almir Gabriel declarou reiteradas
vezes que nao apenas havia escolhido seu
secretario como candidate da coligacio
situacionista: ele ja era praticamente o
novo governador do Para. "Nao tem para
ningu6m", proclamou sua excel6ncia,
como se estivesse numa geral de campo
de futebol. Cor indice sempre abaixo de
5% nas pesquisas de opiniao e mais rea-
lista do que o padrinho, Jatene deve ter
vislumbrado nao apenas o alto risco de
derrota, mas tamb6m a possibilidade de
uma derrota um tanto fragorosa.
Sua debilidade eleitoral, agravada por
seu modo.de ser, discrepante das caracte-
risticas que deve ter um campeao de vo-
tos (ainda mais num Estado pobre, gran-
de e de populaago dispersa como o Para),
teria que ser compensada por uma s6lida
retaguarda e por abre-alas eficientes,
como os que arrastaram Almir Gabriel na
sua primeira campanha vitoriosa para o
governor do Estado, em 1994. O governa-
dor, acostumado a seguir no vacuo de um
lider realmente carismatico e popular
(como o que o fez prefeito bi6nico de
Bel6m, em 1985, e senador, logo em se-
guida), era um ne6fito em nomes e locali-
dades quando teve que assumir a linha de
frente da campanha. Politicos como o ex-
governador Alacid Nunes serviram-no
como uma esp6cie de guia de cego.
O problema 6 que essa equipe estava se
desfazendo. Uns comegavam a cruzar os
bracos, descrentes de que o otimismo pala-


ciano pudesse se irradiar para os currais elei-
torais do interior. Nao por falta de dinheiro
e de ordens, mas do que serve de amalga-
ma a esses components decisivos: a po-
pularidade do candidate, suas possibilida-
des de aceitaago junto ao eleitor, sua em-
patia. Sempre a sombra dos que lidam corn
esse produto, Jatene se especializou como
um home da retaguarda, da conversa de
gabinete, da estrat6gia, da sombra. Mes-
mo num palanque, a estampa 6 a mesma.
Nao tem poder gravitacional nem forca de
irradiagAo. Vira decoraqio political.
O sinal vermelho acendeu quando se
formou um triunvirato a margem da Uniio
pelo Para, a alianga que elegeu o m6dico
Gabriel. O vice-governador Hildegardo
Nunes, candidate dissidente do PTB, atraiu
o deputado (circunstancialmente tucano)
Martinho Carmona, garantindo-lhe que se
o govemador se desincompatibilizasse para
disputar uma das duas vagas do senado,
abriria mao da sucessao para que o presi-
dente do legislative, o segundo na seqiin-
cia, assumisse o cargo por nove meses, co-
mandando a campanha eleitoral. Era a arma
que faltava a Carmona para pressionar ain-
da mais Almir Gabriel, quando nada para
aumentar seu cacife no jogo de compensa-
96es, um jogo que se tomou muito alto, es-
capando ao control do crupi6.
O esquema incluiu o prefeito de Ana-
nindeua, Manoel Pioneiro, que teria po-
sigio de forga no novo governor. Unindo
os tres, a olimpica ignorancia que o go-
vemador Ihes dedicou quando, unilateral-
mente, ungiu Jatene como o candidate da
coligacao, gostassem ou nao os seus alia-
dos. Agindo assim, imaginava minar o
poder de barganha na coligacio, deixan-
do para a negociaqio as outras posigces,
nao a de cabega de chapa. Ao precipitar a
decisao, o govemador queimou etapas e
instancias, deixando os aliados pendura-
dos na parede pela brocha.
Haveria mesmo consistencia na convic-
cao do govemador de que, ao transferir para
o seu candidate pelo menos 40% dos seus
votos, o tornava a mais forte altemativa
possivel para os situacionistas? S6 a for-
muladao da questao ja indicava um ceti-
cismo diante das garantias tao categ6ricas
do govemador. O reforqo dado a candida-
tura do vice por Carmona e Pioneiro signi-
ficava um trunfo poderoso, ainda mais se
o ex-senador Jader Barbalho, trocando de
posigao, tambem engrossasse o cordao,
fechando um acordo com Ademir Andra-
de para, mais uma vez, os dois fazerem a
dobradinha para o senado. Mesmo que


decidisse concorrer ao governor, Jader
tambem se beneficiaria do alargamento da
cisao na ja entao moribunda Uniao pelo
Para. Em qualquer hipotese, ainda que
pudesse ir para o 2- turno (hip6tese que
ja se toraria problematica), Jatene sofre-
ria um dano provavelmente fatal.
Com sua ameaqa de abandonar a can-
didatura, os estrategistas da campanha ti-
veram que voltar a mesa das negociaqces
para calafetar o barco e ench6-lo de no-
vos aderecos para atrair o bloco diversio-
nista da situaqao. E a tarefa em que estao
empenhados no moment. Como Hilde-
gardo tem sido intransigente no tudo ou
nada (s6 aceita ser candidate ao governor
e nada mais), os tucanos de gabinete se-
guiram a maxima popular de atacar o pra-
to quente pelas bordas. Comeqaram a tra-
tar individualmente cor Carmona e Pio-
neiro, colocando sobre a mesa de negoci-
aqCo itens sedutores.
Detectando o movimento, Hildegardo
telefonou para Almir e marcou uma audi-
6ncia para o dia seguinte. Nenhuma das par-
tes avangou um milimetro na claudicante
aproximaaao, mas o fato politico foi criado
pelo encontro a dois. O vice reafirmou sua
disposigio de ir as ultimas conseqtiincias,
aproveitando para medir o estado de espiri-
to do govemador. Para a opiniao p6blica,
deixou mais um dado a favor da interpreta-
qao de que a candidatura Jatene estava fa-
zendo agua e Hildegardo podia acabar subs-
tituindo-o, embora os membros da corte
sustentem exatamente o contrdrio: o vice 6
que se sentiu isolado e enfraquecido, deslo-
cado do eixo principal das articulao6es.
Poderia, agora, vir a ser dobrado.
A questao que se colocava durante o lim-
bo criado pela quadra caravalesca era: o
que o govemador pode oferecer para desfa-
zer a alianga triplice dos dissidents, sem
dar o que cada um quer, mas sem deixa-los
sem algo que compense o desprezo anteri-
or, combustivel para a insatisfaiao e o en-
saio de rebeldia? Sera possivel reparar as
fraturas e projetar a image de forca e uni-
dade sem a qual nao havera abre-alas para a
atraqao principal do bloco tucano?
Independentemente da resposta, a ser
dada nos pr6ximos dias, Almir Gabriel
pode ter reaprendido a liqao de que o go-
vernador 6 o grande eleitor numa eleicao
no Para, mas isso nao Ihe autoriza cantar
vit6ria antes de contados os votos. Da
votacao, como do parto, que, este, sim,
constitui mat6ria de compet6ncia inques-
tionavel de sua excelencia, s6 se sabe de-
pois da apuracgo.







JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2002 3




A ilusao do eterno


Em 1991, das madeiras extraidas de
florestas tropicais que entraram em por-
tos europeus, menos de 1% eram origi-
narias de areas "sob exploragio respon-
savel", segundo a expressao official, re-
ferindo-se a alguma especie de manejo
capaz de assegurar a rebrota de arvores
em substituiqio as que foram abatidas;
exploracio auto-sustentavel, como se
diz. Talvez a floresta originaria nao fos-
se completamente restabelecida, mas
nesses 0,9% havia esforgo com tal obje-
tivo da parte dos extratores de madeira.
Qual o percentual 10 anos depois?
Nao encontrei nenhuma nova estatistica
atualizada nas fontes que consulted. Mas
se dessemos de present que o numero,
ainda abaixo da primeira unidade depois
de decadas ou seculos de corte em flo-
restas da faixa tropical do mundo, pu-
desse haver duplicado ou triplicado na
d6cada seguinte, a sustentabilidade es-
taria variando abaixo de 3% do universe
de madeiras oriundas do Terceiro Mun-
do e comercializadas no velho continen-
te, seu mais antigo client.
Um panorama desanimador para
quem esteja empenhado em salvar as re-
servas florestais dos tr6picos de um des-
tino que parece inexoravel: a destruigao.
Ou, no minimo, sua reducio a uma di-
mensao paisagistica, capaz, apenas, de
minorar a consciencia culpada dos que
aceitam o discurso ecol6gico da boca
para fora, enquanto mantmr a pratica
predat6ria entronizada em seus habitos.
Anos atras, uma figure rara partici-
pou da reuniao do Conselho Deliberati-
vo da extinta Sudam (Superintendencia
do Desenvolvimento da Amaz6nia), que
cedeu seu lugar a ADA (Agencia do De-
senvolvimento da Amaz6nia), criada no
papel ha quase dois anos pela burocra-
cia de Brasilia, mas ainda nao efetiva-
mente instalada. Era um importador in-
gles de madeira. Era o tipo previsivel:
forte, um tanto atarracado, careca, em
mangas de camisa, um anelao no dedo,
de poucas e diretas palavras. As que dis-
se deixaram bem claro: o importador se
preocupa cor o preqo e a qualidade da
madeira que recebe. De onde ela vem,
nao Ihe interessa.


A li9ao de anos atras continue em
vigor ate hoje, como estao aprendendo
os responsaveis pelo unico projeto de
manejo de mogno em execuqco na
Amaz6nia, na reserve dos indios Xikrin
do Catete, no sul do Para. O mogno e a
especie mais valiosa da floresta ama-
z6nica, buscada com avidez pelos que
s6 a vfem pela 6tica de ate dois mil
d6lares cada metro cubico. O ouro ver-
de, como dizem. Sua presenga foi di-
minuindo na vastidao vegetal da regido.
Restam manchas, cada vez mais isola-
das e menos densas. A maior concen-
tracao esta entire os vales do Araguaia-
Tocantins e o Xingu, a "terra do meio"
batizada pelo Greenpeace, cor menos
de 500 mil quil6metros quadrados de
area, praticamente o dobro do tamanho
do Estado de Sao Paulo.
Todos os dias, de 400 a 500 cami-
nh6es saem desse interfluvio carregan-
do toras de madeira para o sul do pais,
atraves de Mato Grosso, para benefi-
ciamento nas industries nacionais. E o
principal fluxo. Um outro, menor, po-
rem o mais visado, segue na diregao
norte, levando ate os portos da bacia
amaz6nica, principalmente o de Belem,
para embarque para o exterior. A in-
tensidade da exploraqao e as marcas na
mata revelam que em mais alguns anos
talvez ja nao haja mais mogno nas ma-
tas originals.
Nem por isso os madeireiros reco-
nhecem que a esp6cie, verdadeiramen-
te ameagada de extinq~o, precisa ser pre-
servada. Argumentam com a existincia
de plantios em expansao, sempre em
condic6es de impressionar observado-
res desatentos ou superficiais, mas nao
de convencer a quem 6 do ramo e sabe
das enormes dificuldades para fazer es-
sas plantac6es se consolidarem. E car-
tao postal para ingles ver e o governor
carimbar, assegurando a manutencio do
canal de drenagem de madeira para os
mercados que pagam sem se importar
corn a procedencia.
Depois de 10 anos de esforco, os res-
ponsaveis pelo manejo na reserve do Ca-
tet6 sabem que seus esforgos para levar
em frente o empreendimento esbarram


nessa muralha de interesses imediatos.
Antes de entrarem na mata, os partici-
pantes do experiment fizeram um in-
ventario da area (que, apesar de todo o
cuidado, apresentou falhas), participa-
ram de treinamento e adotaram meto-
dos criteriosos. Se tudo der certo, den-
tro de alguns anos atingirdo a meta, de
extrair sete mil metros cubicos anuais
de 20 especies de madeira (e nao s6 de
mogno), deixando cada lote explorado
em repouso por 30 anos, para regene-
rar, ate voltarem a ele para novo corte,
encontrando-o cor o mesmo volume (e
idWntica diversidade) de madeira.
Esse volume de sete mil metros cubi-
cos, ainda em perspective numa emprei-
tada que s6 agora chega ao seu terceiro
ano de produqCo, represent pouco mais
de um quarto do mogno extraido ilegal-
mente de areas indigenas que o Ibama
(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e dos Recursos Naturais Renovaveis)
apreendeu s6 no ano passado-e que, por
sua vez, represent uma singela fragco
do volume de madeira efetivamente co-
mercializada. Essa relacao da uma me-
dida do que represent a experiencia pi-
oneira de nao deixar atras da exploracao
florestal um rastro de devastagao.
Em favor da ameaga que paira sobre
as matas amaz6nicas funcionam como
anestesiantes dois raciocinios: um, de
que ainda ha florestas virgens em quan-
tidade suficiente para deixar para as no-
vas gerac6es a preocupagao cor a pre-
servagio, enquanto as atuais tratam mes-
mo 6 de produzir; o outro, e de que, mes-
mo sem sua cobertura vegetal, a Amaz6-
nia continuara a mesma, fadada a ser uma
fronteira de recursos e um lugar de ma-
terializaqao da riqueza (embora seu solo
seja de baixa fertilidade).
Esse devir de tranqililidade e confor-
mismo, embora fabricado por gente de
came e osso dos dias atuais, e o combus-
tivel que desencadeia os incendios reais
na floresta e a irrisao nas mentalidades.
Parecemos condenados a ser testemunhas
de uma destrui9io anunciada que se con-
suma a cada dia, independentemente das
nossas vontades. E dos sinais de demen-
cia que projeta.







4 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2002


M


Bonde
Belem teve "os mais bonitos e
confortaveis" bondes do Brasil,
atestou o monsenhor Am&rico Leal,
em artigo de 1987. Os bondes co-
meqaram a circular pela cidade em
1905, no auge da "era da borracha".
Encerraram sua curta e gloriosa
carreira exatamente 40 anos depois,
quando o servico ja estava "pre-
ag6nico", conforme o diagn6stico
de um urbanista mineiro chamado
para ser prefeito de Bel6m.
Os bondes eletricos ingleses
puseram fim ao transport atraves
de carruagens particulares de tra-
qdo animal. O percurso maximo
ia do Ver-o-Peso a Sao Bras, corn
quatro a cinco quarteirOes de ex-
tensao, em cada parada interme-
diaria (Praqa da Republica e Lar-
go de Nazare), os passageiros que
continuavam a viagem pagavam
um determinado valor. Na d6ca-
da de 30 a tarifa foi unificada em
qualquer linha (antes havia de pri-
meira classes e comum) ou percur-
so. Vantagem para os moradores
dos distantes bairros do Souza e
do Marco, que ja contavam corn
linhas de bonde.
A falta de investimento dete-
riorou a qualidade do servigo e
tornou o negocio desinteressante,
levando ao cancelamento da con-
cessao, em 1945. Alem de perder
os melhores bondes do pais, o
belenense ficou tambem sem um
motive de gozaa.o. Os bondes ba-
gageiros, identificados por dois
grandes bes em letras maiusculas
e cor cor vermelha, eram usados
como motivo de troqa lus6foba.
O BB virou "Bai e Bolta".
Nao boltou mais, ora pois.


Aeroporto
Foi na Semana da Asa de
1955, em outubro, que a 1" Zona
Area inaugurou a avenida Julio
Cesar, interligando a Tito Franco
(atual Almirante Barroso) ao ae-
roporto. Inaugurou tambem a
nova estaqao de passageiros, que
perdurou, com ligeiras modifica-
96es, ate recentemente, no curso
de mais de cinco decadas.


Artista
Em outubro de 1945 boiou
um artist em Bel&m: o "cinegra-
fista" Zygmunt Sulistrowski, pro-
dutor-diretor de filmes internaci-
onais da International Films En-
terprise, associada a Warner
Bros. Veio diretamente de Ho-
llywood, junto corn mais tries tec-
nicos da Warner, para examiner
locac6es para um filme ambien-
tado na Amaz6nia. O primeiro de
uma s6rie de 20 a 30, "cor his-
t6rias baseadas nos tipos amaz6-
nicos e marajoaras, abordando
aspects e locais puramente bra-
sileiros", conforme declarou a
imprensa, em entrevista, conce-
dida no Amazon Room do Gran-
de Hotel (atual Hilton).
O cineasta, cor nome cheio
de consoantes, denunciando, tal-
vez, a origem polonesa, disse
que esperava repetir, corn o
novo filme, o "grande sucesso
de bilheteria" alcancado por
"Feitigo da Amaz6nia", sua re-
alizaqao anterior. A future peli-
cula apareceria cor o titulo de
"Comerciante da Amaz6nia",
nada atraente, por sinal.
Alguem viu?


C




Modernidade
inma das nclhornil registradas pelo croni-ta da cidade
de Pro,'vil,. t do Par, na "Bclem progressista" de 194-
era o -uruLimento do 6nibus "pro\ ido de duas portas", ino-
\aqao "realmente pro ellosa. intereranle. que cheir a i o-
dcrnismo", por posibilitar ao passageiro "entrar pela por-
ta traseira e sair pela diantcira"
AplauuoN gerai-." Nemr lano, obser'a\a o meticuloso
cronis,,t. ) pas1aremi da "cozminha". no ultimo hanco. por
causa o od rno noder das duas portas. "tern que percorrer
todo o interior do onibus". Admitia o ornmalI'a que exiglr
sair pela porta mals promima era excesso de comodismo",
mas. de qualquer mnaneira. ha\ia os descontcntes coin o
que atrapalha a pouco. "mas atrapalha".
E o desconrtentamieno de hole?


Papagaio
Primeiro colunista social a
rigor da imprensa paraense, in-
ventado por Haroldo Maranhao,
Armando Pinheiro noticiou, em
uma de suas colunas de outubro
de 1955, na Folha do Norte, que
havia recebido um papagaio de
present, gentileza do "jovem"
Romulo Maiorana. O animal ha-
via sido recolhido em Caic6 e
trazido de 6nibus, na viagem
Natal-Belem, pelo pr6prio Ro-
mulo, "decididamente Maiora-
na", trazendo "em sua carteira
de identidade uma filiacao res-
peitavel", como brincava o fic-
ticio Armando. O papagaio pas-
saria a auxiliar o colunista na
arrecadagao de informag6es do
"grand monde", debaixo do
nome de "Jiji".


Casamento
Cor toda a pompa e circuns-
tfncia, ojovem engenheiro Joa-
quim Rodrigues Porto casou
com Maria Celeste Passarinho
Pinto de Sousa em 3 de outubro
de 1956. Ele era filho de Edgar
Pinheiro Porto, inspector federal
do ensino superior; ela, de Raul
Pinto de Sousa, socio da firma
A Eletro Radio. A cerimonia re-
ligiosa foi na cathedral e a recep-
qao na residencia da noiva, na
rua Apinag6s, "ambas muito


concorridas". Entre as testemu-
nhas estava o entao major Jar-
bas Passarinho, irmao da mae da
noiva, Marissanta Passarinho
Pinto de Sousa.


Juventude
O Gardenia Clube, destinado
a reunir a "juventude dourada"
de Belem, surgiu em 1960, cor
uma festa no Autom6vel Clube,
ao som do conjunto de Alberto
Mota e de sua novidade, o "so-
lovox". Comandando a anima-
0ao, Maria da Graqa Dantas Ri-
beiro, festeira ate hoje, fundado-
ra e president perp6tua. Cor um
detalhe: s6 mulheres integravam
a diretoria do Gardenia.


Colunista
Quando ainda era a senhori-
ta Vera Licia Cardoso, Vera
Castro estreou, em novembro de
1965, como colunista social da
Radio Guajara, a terceira emis-
sopa do Para, que havia sido lan-
qada apenas alguns meses antes.
Um coquetel no Hotel Vanja ser-
viu para a apresentagao da nova
contratada, que deveria dar "um
novo impulse ao colunismo so-
cial da nosssa terra". Dos tres
envolvidos (a radio, a colunista
e o hotel), Vera 6 a unica ainda
em plena atividade. Agora, no
journal Diario do Para.


Condor
Os moradores da Belem de 1947 tinham, na Condor, "um
dos mais belos e pitorescos reffigios". Transformada no "re-
canto encantado da cidade" pelo dinamismo de Joao de Barro,
a Praqa Princesa Izabel "anima-se extraordinariamente" aos do-
mingos e feriados. Uma das grandes atraq6es era o "endiabra-
do jazz-band Martelo de Ouro". Com seu "ritmo enlouquece-
dor", o conjunto deliciava os habituess" do Palacio dos Bares,
desde a manha ate a noite, "apresentando um repert6rio novo
de mtisicas de sucesso". O "Martelo de Ouro" tinha contrabai-
xo, trompete, saxofone, banjo, bacteria e, naturalmente, um pan-
deiro. Jazz, sim, mas corn ritmo brasileiro.







JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2002 5


Belem que era
Duas paisagens de Belem em
meados da decada de 50.
A Praqa Justo Chermont (ou
Largo de Nazare) ainda corn o
seu pavilhao central, cor colu-
nas de marmore, ao fundo, e um
dos coretos secundarios, em fer-
ro e alvenaria, em primeiro pia-
no. Como se sabe, na decada se-
guinte os coretos foram desmon-
tados e levados para endereqo
incerto e nao sabido, em Petr6-
polis, provavelmente por quern
era o menos indicado para tal
delito cometer, mas podia efeti-
vamente faze-lo, como fez.
Alem da perda dos coretos, cho-
ramos a descaracterizacqo da
praqa por um projeto completa-
mente equivocado. Da paisagem
foi corretamente expurgada a
presenqa do quiosque, na late-
ral esquerda, mas nela persiste
a deformadora incrustaqgo na
basilica, que ja merecia ser li-
vrada desse parasita lateral, cri-
ado apenas para gerar receita


Tambem em mat6ria de arbori-
zacgo a praqa perdeu. O inico
element mais present e o con-
creto. Um simbolo da mentali-
dade dominant.
O "dedo mindinho" do edi-
ficio Manoel Pinto da Silva, "o
maior do norte do Brasil", visto
a partir do Teatro da Paz. O em-
brido do conjunto de tres blocos
tinha menos da metade da altu-
ra do bloco principal, cuja edi-
ficacqo sacrificaria a bela cons-
truqdo em estilo mourisco na
esquina da avenida Nazar6 cor
a Serzedelo Correa. Para os pa-
droes de uma cidade de predios
de nao mais do que cinco anda-
res, ja entao o "manoelpintinho"
era um arranha-c6u. Belem ain-
da tinha horizontes para ver,
desfrutando o vento que corria
solto, vindo da baia (antes que
uma teoria utilitarista proclamar
sua origem na Cidade Nova,
cor o que o emparedamento da
orla podia continuar).
Duas imagens raras da cida-
de. Que era rara.


Aprovagao

superior
0 "semblante" atestava que
o govemador Aurelio do Car-
mo aprovara "plenamente" o
Sacy, o novo guarana da Para
Refrigerantes, langado em ju-
nho de 1961. O govemador foi,
"naturalmente, uma das pri-
meiras pessoas a receber o
guarana", para o que, hoje, se
chama degustagao. Afinal, ele
"tanto ter incentivado a in-
dtfstria paraense". Por isso


mesmo, posou sorridente, com
sua "conhecida simpatia e gen-
tileza", para o Foto Leite, per-
mitindo ser usado como pro-
pagandista do novo produto,
mais um na rica colecao de
refrigerantes produzidos no
Estado. A foto tem pouco mais
de 40 anos. Aurelio do Carmo
completou 80 recentemente,
com o aplomb de sempre, ele-
gante e simpatico. Prometen-
do escrever suas mem6rias,.
nas quais o que ndo faltara sera
assunto.


4 .




. .- .


--;; I*~~~ulLlrrulr~~ Lrr







6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2002


Comegar, final


A demora na ativagio da ADA, a
ag6ncia de desenvolvimento que substi-
tuiu a Sudam, submersa em um mar de
fraudes e corrupqao, e incompreensivel.
Se esse retardamento se deve a busca da
perfeiqco e da assepsia burocratica, e
melhor dar por encerrada a experi6ncia
e fazer do superintendent o administra-
dor da massa falida at6 a quitacgo de to-
dos os seus compromissos, enterrando de
vez a political de incentives fiscais.
A ADA podia comecar a funcionar
centrada numa novidade saudavel: a ges-
tao por orcamento. Ela p6e fim a selva-
geria da captagao de recursos dos incen-
tivos fiscais junto aos maiores devedo-
res de imposto de renda, no "mercado",
origem de uma cadeia de irregularidades
e desvios que decretaram o fim da Su-
dam, como um dos itens da agenda ne-
gativa do seu fiador politico, o ex-sena-
dor Jader Barbalho, do PMDB.
O orgamento devia ser montado pe-
los t6cnicos, oferecido as contribuic6es
publicas, discutido e consolidado no
novo Conselho Deliberativo, sem as
amarras corporativas, institucionais ou
governamentais de antes. Nao um mero
orcamento contabil, mas ferramenta de
um piano de desenvolvimento operacio-
nal. As dores do part ja se alongaram
demasiadamente, comprometendo a cri-
atura em nascimento. Pode acabar nati-
morta. Dessa indefinigao surgirao novos
problems e complicadores, dentre os


quais ac6es regressivas dos prejudicados
contra os danos provocados pela razzia
da intervengao federal. O volume das in-
denizac6es pode engolir grande parte do
dinheiro que foi sobrestado e esta ente-
sourado nos cofres federais, fazendo falta
a circulaqCo de riquezas nos lugares onde
devia ser aplicado.
Antes de completar dois anos de imo-
bilizaCgo, a ag6ncia regional podia tra-
tar de definir a fracqo do orcamento que
reservara para cumprir os compromissos
pendentes com os projetos em andamen-
to e quanto aplicara nos projetos que vi-
erem a ser enquadrados no novo modo
de ver a atividade produtiva na Amaz6-
nia, vinculada a novos parametros e ba-
lizas, sem os vicios do sistema antigo.
Em 35 anos, a custa de alguns bilhoes
de reais de renincia fiscal da Uniao, o
folheto de projetos saudaveis deixados
pela Sudam 6 diminuto. Aproximada-
mente 200 receberam certificado de im-
plantaqCo, alguns apenas por esperteza,
para se livrarem da amortizagao da cola-
boracdo financeira atrav6s da recompra
de aq6es na ficticia bolsa de pap6is do
Finam, o fundo estatal. Quando sofreu a
intervengao do governor federal que lhe
deu cabo, a Sudam tinha em sua carteira
548 projetos ativos, nos quais a colabo-
raqao financeira official somava mais de
R$ 1 bilhao. Esta na hora de ajustar essa
conta para comeqar vida nova. Enquan-
to ha possibilidade de vida.


Carnava
Na busca da independ6ncia gerencial, o combalido camaval de Bel6m acabou se
tomando dependent politicamente. Numa tend&ncia que 6 gen6rica e tamb6m natural, as
escolas de samba e correlates formaram uma liga para assumir o control da festa, como
ja acontece em outros centros. Casava cor a ret6rica official, de passar a responsabilidade
para os camavalescos. Talvez isso at6 venha a ocorrer, mas nao em ano eleitoral.
A prefeitura empurrou com a barriga e fez ouvidos de mercador is tentativas de
contato da Liesge, a liga autodeclarada independent. Imaginava que, deixando tudo
para a und6cima hora, conseguisse que tudo continuasse como dantes no quartel do
Edmilson. Mas a liga foi seduzida pelo canto de sereia do govero do Estado e embar-
cou na nau do patrocinio atrav6s do projeto Semear. O que devia ser um faz-de-conta
transformou-se em rompimento pelo maquiavelismo inicial da PMB petista e pelos
compromissos bancados pela liga, que a levaram a assumir uma posigo intransigente.
O resultado desse enredo nada festive: o camaval belenense, que j nao tem gas para
preencher toda a quadra momesca, se bipartiu, dividindo a indigente folia. A dissid6ncia
virou micareta involuntAria. O desfile official realizou-se no verdadeiro tumulo do samba,
que Caetano Veloso viu em Sao Paulo. Por nao ter vindo A Aldeia Cabana.
Agora 6 cinzas. Marca infeliz do "camaval" de Bel6m.


Neg6cio

O apagAo desencadeado no ano pas-
sado mostrou que political energ6tica da
bons resultados quando obedece a um
planejamento de long prazo, bem con-
cebido e executado cor seriedade. O
vacuo de iniciativas dos ultimos anos
permitiu que a sociedade fosse surpre-
endida pelo descompasso entire a oferta
e a procura, ameaqando com o risco de
colapso os centros de maior consume
ou mais sujeitos a depend6ncia das fon-
tes de hidreletricidade.
Mas sera que o pais ja nao esta indo
alem da realidade, submetendo-se aos
manipuladores do panico? Para se preve-
nir blecautes, o governor pensa em aplicar
16 bilhoes de reais at6 2005, atrav6s de
uma nova ag6ncia estatal, a CBEE (Co-
mercializadora Brasileira de Energia Ele-
trica), para dispor de 38 usinas termel6-
tricas de reserve em 13 Estados, com ca-
pacidade de suprir o mercado cor 2,1 mil
megawatts. Faltando energia por insufi-
ci6ncia de agua nos reservat6rios das hi-
drel6tricas, elas entrariam no circuit. At6
os reservat6rios alcanqaram seus niveis
normais de estocagem de agua.
Cada MWh dessas t6rmicas custard
R$ 240, mais de cinco vezes o custo equi-
valente em uma hidrel6trica, que 6 de R$
45. Sera um neg6cio para la de atraente
para 24 empresas privadas, tr6s delas es-
trangeiras, com as quais a CBEE assinara
contratos. E este o sentido da volta de
maior presenqa do governor no setor ele-
trico. Uma estatizagao como suporte a
apropriaqao privada do lucro.
Nessa onda, a Eletronorte anuncia a
disposicao de instalar uma t6rmica de
1.500 MW ao lado da hidrel6trica de
Belo Monte (ou seria em Bel6m? Uma
d6vida persiste), que tera 11 mil MW,
incluindo-a no projeto global. Sera um
acr6scimo de nada menos que 500 mi-
IhOes de d6lares num orcamento que ti-
nha sido estabelecido em US$ 3,7 bi-
lhoes, ou 15% a mais. Cor essa reser-
va, Belo Monte nao sofreria a forte de-
ple~go dos periods de estiagem, pro-
vocando uma reduq o de 60% entire a
pot6ncia nominal e a potencia firme. Ou
entao a Eletronorte se habilitaria a con-
tinuar abastecendo a Albras, agora com
uma fonte termica e nao mais hidrica,
repassando a conta para o financiamen-
to estatal, do BNDES.
Quem 6 contra essa estatizaqao?







JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2002 7




Jornalismo que vale



entiree gargalhadas)


Em metade do seu livro Isto ndo deu
nojornal (Editora do Brasil, 190 pagi-
nas), Jos6 Louzeiro e um causeur di-
vertidissimo. As hist6rias hilariantes
que relembra da sua passage pelos
principals jornais cariocas, entire as
d6cadas de 50 e 60, equivalem a uma
boa conversa de botequim, a melhor
que existe. Sua mem6ria afiada e seu
estilo tranqiuilamente ir6nico emoldu-
ram situacoes propicias a saudaveis
gargalhadas. A beira da lagrima, levan-
tei meu brinde ao maravilhoso Louzei-
ro. Depois, entretanto, suas hist6rias
encompridam demais e, buscando uma
tematica, perdem a fruiCgo prazerosa.
Ainda assim, chega-se em boa compa-
nhia ao fim do texto.
Ele deixa uma pergunta na mente de
quem riu muito sem perder a atendao
no enredo: o que provocou a visivel di-
ferenga entire o jornalista do period
aureo dos cinco principals jornais ca-
riocas em cujas redaq6es Louzeiro bri-
lhou (tres ja extintos: Diario Carioca,
Correio da Manha e Ultima Hora; e
dois no vai-e-vem das circunstancias:
Jornal do Brasil e Tribuna da Impren-
sa) e o atual? No meu ponto de vista, a
regulamentacao da profissao, estabele-
cida via decreto (e por isso imposta)
pela tristemente obscura Junta Militar
de 1969, que preencheu o vacuo insti-
tucional (um golpe dentro do golpe) en-
tre o impedimento e morte do marechal
Costa e Silva e a ascensao do general
Garrastazu M6dici.
A junta inventou uma roda quadra-
da: somente pessoas formadas pelos
cursos superiores de comunicacao so-
cial poderiam exercer a profissio de
jornalistas. Iria ser fechado, nos anos
seguintes, o principal canal de drena-
gem de talents para as redac6es: o im-
pulso vocacional, o sortil6gio das cir-
cunstancias, o feliz acaso, o estalo. As
empresas se valeram dessa vertente na-
tural para esvaziar movimentos reivin-
dicat6rios, conquistas profissionais e
independ6ncia editorial. Recrutavam
colaboradores para tapar buracos e en-


fraquecer lideran9as. Mas o contrario
em extreme nao atendeu as antigas as-
piraq6es de profissionalizacao e tornou
a emenda muito pior do que o soneto.
Nao por acaso, alias.
Escolas de jornalismo ha em todos
os paises ocidentais, algumas delas
notaveis. Mas nenhuma precisou de
reserve de mercado para se estabele-
cer. Metade dos jornalistas nas reda-
q6es da imprensa americana (ainda
nosso espelho, a nos refletir e distor-
cer) prov6m dessas escolas. A outra
metade segue o curso espontaneo da
oferta e da procura. S6 a nefanda jun-
ta brasileira estabeleceu a via 6nica do
canudo, nao de um curso de jornalis-
mo especifico, mas de uma delet6ria,
inodora e insossa comunicagao soci-
al. Feita mais para explicar (sem ne-
cessariamente ser entendida) do que
para fazer jornalismo.
A preocupacio, obviamente, era
com os elements inc6modos nas re-
dacoes, pessoas acostumadas a pensar
com o pr6prio c6rebro, dispostas a ini-
ciativas pessoais, desacostumadas ao
vies imposto a suas cabecas por um
pensamento 6nico (ou centralizado),
anarquicas e irreverentes, indiscipli-
nadas mas obsessivas, sujeitas a cor-
rupcqo e compromissos anti6ticos,
mas tambem a rompimentos; enfim,
impossiveis de enquadramento. Mal-
acostumadas pelo long (para o pa-
drao brasileiro) period democratic,
de 1946 a 1964.
Pensado no quarter, o enquadra-
mento seria dado nas universidades,
sob o control de um big brother para
valer, nao esse ser minimalista a ca-
voucar excrementos da alma via TV
escancarada pelo comercialismo. O
jornalista sairia dessa lata de sardinha
acad6mica ou sob viseira ou sem chdo
debaixo dos p6s. O jornalismo bateu
pendularmente entire os projetos de
yuppies celebrizados pelas lentes da
camera ou aqueles ousiders desnorte-
ados. Seus parametros passaram a ser
releases, dossi6s de papel, fontes em


off, e muito pouco a visao da realida-
de, o contato direto com os fatos, a
malicia formada e testada no testemu-
nho, na sensibilidade para a voz das
ruas, raramente capazes de sair das pa-
ginas de livros de comunic6logos e an-
trop6logos equivalentes.
Essa avaliacio nao desemboca num
discurso saudosista do "bons tempos
eram aqueles". Havia gente execravel
naqueles tempos, como David Nasser
e seu patrao, Assis Chateaubriand, e
pecados mortais em instituioses nota-
veis, como a idiossincrasia do Correio
da Manha com Lima Barreto, liquida-
do em vida por ter cometido a heresia
de satirizar (e que satira inesquecivel)
Edmundo Bittencourt, o patrao mais
important do jornalismo brasileiro
at6 1964.
Ha pr6s e contras antes e agora. O
problema 6 que o "agora" ainda e o fal-
sete montado pela junta em 1969 e in-
corporado como conquista pelos pro-
fissionais de hoje, esquecidos daquela
maxima lusitana de que 6 a competen-
cia a base s6lida do estabelecimento
professional, nao a confraria do canu-
do do curso de comunicaiAo social.
Talvez s6 quem usufruiu os ventos
da liberdade e da autonomia pode rir a
bandeiras soltas (infladas ao vento do
espirito) dos causes de Louzeiro. Os
demais, depois de rir, podem cair na
prostragAo que a sensaqgo da perda, ir-
remissivel, provoca.
S6 se levantarao se, revigorados
pelo exame realista do passado, aju-
darem a construir um presente'com as
sementes do future e nao com o vene-
no da escuridao, incompativel com a
meridiana clareza do finico jornalis-
mo que vale a pena: o independent,
critic, livre. Ainda que at6 a pr6xi-
ma trombada.
Viver sempre foi perigoso para esse
jornalismo. Mas essa e a unica manei-
ra de viv6-lo de fato, imunizando-se
contra o pior virus que pode ataca-lo,
o da burocracia, que grossa como epi-
demia desde 1969.













Basa
Um ex-presidente, Raimundo
de Alcantara Filgueiras, morreu,
dois meses atras, mas o Banco da
Amaz6nia nao divulgou nem uma
nota funebre. Em junho o banco
completara 60 anos de vida. Cer-
tamente aparecerao peas publi-
citarias na imprensa. Tudo berm.
Mas quem conhece realmente a
hist6ria do Basa, se o pr6prio ban-
co a ve transcorrer sem maior in-
teresse public por ela?
O Basa vive mais um momen-
to decisive da sua complicada his-
t6ria. Se quiser continuar a exis-
tir, ao menos na sua feiqCo atual,
precisara do apoio da opiniao pu-
blica amaz6nica. Mas como me-
dir a necessidade de manter vivo
o Basa estatal sem conhece-lo?
Convinha a sua direqao apro-
veitar a data redonda dos 60 anos
para estimular um debate sobre a
instituiqio. Quem sabe, ate patro-
cinando a publicaqao de um livro
realmente independent sobre as
seis decadas de trajet6ria do Basa,
capaz de orientar a sociedade na
decisao em conjuminacao?


Rio
O Para, em cujo territ6rio o
Tocantins entra no seu curso
medio e desagua, parece nao
estar dando a minima atengao a
execugao do projeto de trans-
posiqgo das aguas desse rio
para o Sgo Francisco. Nenhum
representante do Estado apare-
ceu na ultima reuniio a tratar
da empreitada, no final do mas
passado, em Brasilia. Os nor-
destinos e os burocratas fede-
rais estao comandando a von-
tade a delicada e polemica ini-
ciativa. O unico estranho no
ninho d Tocantins, talvez por
estar apoiando a ideia.
Todos os participants mini-
mizam o significado da transfu-
sao hidrica. Em terms proporci-
onais, de fato, pode parecer des-
prezivel: de 1% a 2% do volume
medio de aguas do Tocantins. Mas
em valores absolutos a quantida-
de e merecedora de atencgo: de
200 mil a 300 mil litros de agua a
cada segundo. E isso na cabecei-


ra do rio, nao a partir trecho em
que ele ja esta hidrologicamente
amadurecido.
Vamos acabar pagando o pre-
9o da omissao: caro.


Coluna
Diante de varias consultas,
pode ser de utilidade esclarecer
que minha "Carta da Amaz6-
nia", publicada semanalmente
no journal O Paraense, e escrita
originalmente para o site da
Agnncia Estado, a ag6ncia de
noticias do journal O Estado de
S. Paulo, que a coloca no ar to-
das as tercas-feiras. Atraves de
contrato com a AE, O Paraense
adquiriu o direito de reproduzir
a coluna, que tambem sai em ou-
tras publicaq6es.
Agora, onde sai a coluna, se
em pagina inteira ou % de pagi-
na, se corn retratinho do autor ou
sem retrato, se no primeiro ou no
segundo caderno, esses detalhes
sao prerrogativas exclusivas do
editor dojornal, seu direito e sua
responsabilidade.


Agai
Por seu valor energetico no
combat do dia-a-dia e por ser an-
tioxidante, ajudando a retardar a
chegada da velhice, o agai e, de fato,
o primeiro produto de exportaqgo
da cozinha paraense. O preqo a pa-
gar pela aceitaqCo do mercado pode
ser a perda da sua condigao de ori-
gem, paraense.. Assim, ojornalista
americano Mac Margolis, num tex-
to publicado no ultimo numero da
revista Icaro, nao se peja em inclui-
lo entire as coisas boas oferecidas
pelo Rio de Janeiro ao turista.
"Da licenqa, Belem, mas sao
os cariocas os maiores usuarios
dessa frutinha roxinha, natural
da Amaz6nia. No Rio, quase a
cada esquina toma-se acai gela-
do e batido corn xarope de gua-
rana ou com mel, o que seja",
avanga Margolis, sugerindo ao
visitante que va ate a rua Ataul-
fo de Paiva, em Ipanema, "e
peqa uma tigela deste verdadei-
ro sorbet a brasileira".
Na foto que ilustra a material
do jornalista, ha muitos anos es-


Solil6quio petista
0 modo de governor do prefeito Edmilson Rodrigues nada
tem a ver com a ret6rica democrirtica do PT: profundamente
autocrdtico. Julgando-se iluminados, o alcaide e seus luas-
pretas transformam suas ideias e vontades emfatos prontos e
acabados. 0 "resto ", como disse o gestor em uma entrevista
tristemente celebre, que se adapte as circunstdncias criadas.
Nesse ponto, seu modo de agir e siames cor o do tambem
arquiteto (6 raga!, como diria Tutty Vasques) Paulo Chaves
Fernandes, secretdrio de cultural do Estado. Cor o desconto,
em favor do Landi tucano redivivo na cabeca do governador,
de que sua imagina(do e mais fjrtil e de melhor qualidade.
A prefeitura do professor Edmilson jd decidiu enterrar 10
milhoes de reais no "buraco" da Palmeira, delejazendo
emergir um teatro municipal. Corn mais esse, haverd excess
de casas de espet6culo para escassez de talents artisticos,
talvez na maior relagdo metro ctbico/homem de teatro do pais
(quigc do mundo?), sem que da intensidade quantitativa
result necessariamente qualidade. A fixado em instalacges
fisicas sufoca o estimulo ao talent pessoal, uma forma estreita
de reduzir a agdo public a construqdes, e a cultural a cimento
e tijolo. Embora proporcione outras serventias.
No caso do projeto engendrado intramuros pela PMB,
serviria apenas para justapor o teatro municipal (Jodo
Amazonas? Carlos Lamarca? Enver Hoxha? Josef
Dughailivitch?) ao estadual, numa dispute de bicudos, ainda
que o bico do alcaide esteja condenado a pequenez diante da
6pera dos seringalistas de outrora (viuvas carpideiras de
hoje). Um espaCo inico e vital no deteriorado centro da cidade
vai ostentar uma supimpa edificagdo, que, corn o tempo e as
vacas magras do custeio, tambem irc se deteriorar, ajustando-
se ao cen6rio decadente do sitio hist6rico da capital paraense,
entregue a selvageria de um darwinismo social residual.
Sera que ndo da, desta vez, para ouvir os municipes, exmo.
sr. dr. alcaide-arquiteto? Municipes parvos, talvez, mas
contribuintes do erdirio.

^ ^ ^ ^ ^ *^ ^ ^

tabelecido no Rio, uma pessoa
aparece mexendo seu acai, meti-
do numa cuia marajoara, con co-
Iher de plastic.
Passado mais esse engulho,
propiciado pela inventive cario-
Sca, cabe aos paraenses uma re-
Sflexao: pouco ou quase nada ten-
Sdo feito para conquistar essa fa-
tia do mercado, o que podem ain-
da fazer para que o acai renda di-
videndos a terra de origem?
Sem uma resposta satisfat6-
ria e providencias imediatas,
logo nao sera precise vir ao
Para provar o aqai (e ficar). O
hibito, seus modismos e a re-
ceita da venda, tudo isso ficara
na terra que aproveitar a onda
para se estabelecer.


E como diz aquele ditado por-
tuguis: quem nao tem competen-
cia nao se estabelece.


Corregao
Nosso computador LAFP se
aproveitou da falta de uma revi-
sao final da ediqao anterior deste
jomal, fechada no esquema vapt-
vupt por causa do deslocamento
da redac~o, por alguns dias, para
a capital paulistana, e perpetrou
um crime: repetiu, na material "Be-
lem: capital sem energia", parte
do artigo de capa, mandando para
o espaqo o texto que deveria es-
tar no espaco usurpado. Mais uma
faqanha negative de LAFP para o
Guiness. Perdao, leitores.


Jornal Pessoal
Editor: Lcio FIAvio Pinto- Fores: (091) 241-7626 Contato: Tv.Benjamin Constant 845203/66.053-l040 e-mail: jomal@amazon.com.br Produlao: Angelim Pinto Edi.o de Arte: Luizantoniodelariapinto