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LUi]C O F LA~V O PIN TJ O f ANO XV NP 275 28 QUINZENA DE JANEIRO DE 2002 R -2 00 POLiTICA A voz do trono O governador Almvrir Gabhrel e~ umn novo Magalbaes Barata, podendo eleger qu~e~m quliser? Sua contade pode ser lei no Para~? Sa~o as qulestoes qure u~ma entrevista dada pelo governador a TV/ Cultura provocam. Se dependesse apenas do personagem, pore'm, essas questdes nemn seriam surscitadas. E mesmo na~opodendo ser mais potoca, a lei fi~caria suljeita ai contade do pretenso novo cauldilbo. 44kmedico Almir Jose de Oliveira ." Gabriel nao gosta de jornalistas. Ou, para ser mais exato: nao gos- -ta dejomalistas independents; so de chapas brancas. E um direito dele. Se pessoal, torna-se direito absolute. Mas um politico e um home puiblico. Umjornalista tambem o e. Como uma das principals mate~rias primas do trabalho de ambos e a informaqgo, ela os aproxima, ou os distancia, conforme o caso. Ganha a sociedade quando politicos e jor- ':'- --am informaqdes de releviincia para o interesse coletivo. Elas podemn embasar boas decisdes e, ao mesmo tempo, manter a socieda- de atenta aos movimentos e atos do govemo, quando ele tent sonegar a sociedade o direito de saber o que os governantes estio fazendo. F o melhor alimento da democracia. O govemador Almir Gabriel e daqueles poli- ticos que aprecia receber, mas nio dar. Ouve com aten~go, mas sempre sob franciscano sil~ncio. 1sso, em contatos reservados, ou offthe-reco-ld, con- forme o jargio anglicizado da imprensa. Em en- trevistas coletivas costuma ser expansive, desde que lhe fagam as perguntas que quer ouvir e ca- lem sobre as respostas que quiser dizer. Mas, como observou Jules Feiffer numa e~poca em que Richard Nixon blefava a vonta- de nas coletivas na Casa Branca, se voc2 qui- ser uma mentira va a uma entrevista coletiva; se quiser a verdade, roube-a (o governo Nixon entrou na curva descendente quando oNew York Times comegou a publicar os documents se- cretos do Pentagono sobre a guerra no sudeste asiatico, vazados por Daniel Ellsberg, um dos autores da papelada). C 1S3d~3 Li[L~I L~.LiL-L;L~:L\I'L.I'L;1:: C! L~~LL-LLL'I ~lt'l'LILiLiL~ (L`t~~, ~I 2 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE JENEIRO/ 2002 Digo isso a partir de tres conversas infor- mais, travadas em passado ja remote, com o doutor Almir. Sai dos encontros comn todas as algibeiras vazias: deixei o que tinha e nito trou- xe umna s6 pataca de informacqio do interlocu- tor. Quando um intermediario me props um novo contato, agradeci a lembranga e recusei. De nada vale a um jornalista encontrar-se com um politico se dai nito resultam informaqdes relevantes para seu pr6prio juizo ou para re- transmitir a opinillo publica. E triste quando um professional da area transform essas oportuni- dades em instrument de beneficio pessoal, permite que o usem como langador de bales de ensaio ou se reduza a um supridor de inside in!formlation, a tal da informagrio privilegiada. Niio estou dizendo que essa ea rela~gio que o governador Almir Gabriel cultiva com a imprensa paraense. Preocupa-me, porem, ver que um dos tragos marcantes nesse rela- cionamento e o poder de iniciativa, control e manipulaqflo que o governor exerce sobre a midia. Mesmo quando ela o fustiga, quase sempre por motiva~go nada relevant, o si- lIncio tem ulm prego, negociado por debaixo dos panos, nada tendon a ver com projeto de governo ou linha editorial. Colegas comn melhor triinsito pelo poder slio incapazes de se referir a um encontro ma- duro comn o governador, no qual tenham po- dido dialogar com ele numa posi~go de equi- librio, sem se sujeitarem aos estouros de pa- clencia de sua excel~ncia, sempre latentes, e podendo cobrar-lhe, com os bons modos pro- tocolares, o qule em outros lugares a impren- sa exige, por ser de seu direito, sedimentado em legitimidade social conferida e cons- tantemente sujeita a renovagilo. Infelizmente, o governador foi mal acos- tumado nas suas relaqdes externas. Foi indu- zido a considera-las sininimo de relaqdes pu- blicas. A midia tem que ser um reflexo do que ele quer, pensa ou espera, como, alias, ultimamente, a pr6pria sociedade, na 6tica de sua excelancia. S6 assim, supostamente imnu- nizado contra situaqbes como na celebre fii- bula sobre o rei nu, o governador Almir Ga- briel pi~de se permitir o desempenho que teve na entrevista coletiva concedida a TV Cultu- ra no inicio do mes, sob perguntas monocor- dias e consensuais de jornalistas convidados para o program Sem Censulra. Falando sobre a questflo da sua sucesslio, mas podendo aplicar a acrimi~nia a todos os assuntos, o governador-me~dico receitou aos divergentes ou adversarios "uma boa quanti- dade de cha de bomn sensor naturalmerite, produto fabricado com exclusividade nos la- boratbrios do Palacio dos Despachos (ah, nome sugestivo!) ou na Granja do Icui. Com a calma que tinham os monarcas de origem divina, na epoca do absolutismo, sua excelencia sagrou como seu candidate e o candidate do bom sensor -o secretario espe- cial Simlio Jatene, nilo admitindo titubeios, vacilaqdes, contestaqbes e muito menos opo- sigio. Se houvesse coroa e nito houvesse voto, El-Jatene ja teria sido sagrado delfim, com toda a pompa e circunstt~ncia. Ao agir dessa maneira, o governador nto o faz por teimosia ou capricho, prepoten- cia ou arrogancia, conforme ressalvou, mas por "firmeza de posiqilo". E -para usar uma imagem recorrente em tais situaqdes o ti- moneiro seguro, como o foram o camarada Mao, o papai Stalin ou o fibrher- Adolfo (e o principle Fernando?) em passado mais recen- te, nem indo para a esquerda, nem para a direita, "mas para frente". Isso porque sua excelencia e donor de um projeto coletivo, o melhor a que qualquer pa- raense pode aspirar, que nito e pessoal, de grupo ou familiar, como tambe~m fez question de sublinhar, na pratica recorrente de langar pedras indiscriminadas a um passado nivela- do por baixo, na generalizagilo, embora a mulher seja secretaria e duas filhas, assesso- ras especials (sem esgotar, ou sequer prota- gonizar, o principal do possivel nepotismo. O governador tem uma obra realizada e outra a realizar. Niko pode ficar a meio cami- nho, mesmo que esse "meio" represent oito anos. Precisa do farctotum Jatene para dar "continuidade sem continuismo" ao que ja fez, servindo de ponte para outro tucano da- qui a dois anos na prefeitura de Belem (Al- mir Gabriel?)l e, dois anos depois, no gover- no do Estado (Almir Gabriel?), e assim, su- cessivamnente, na ampliada familiar de soci- ais-democratas, nemn tito crua quanto cozida (pouco democrat e mnenos ainda social). O doutor Almir e um excelente guarda- livro. Como ja demonstrou, seja na PMB quanto no governor, suas contas fecham e os que dependem dos seus pagamentos recebem. Isso e bom, 'mas nio o bastante, inclusive porque al guns pagam imposto demais e ou- tros, de menos. E quem 6 isentado, ninguem fica sabendo do motive, adotado em gabine- te fechado, sem publicidade, (desta vez) nem presta~gio de contas. Mas ele tambem tem feito obras, e varias sio boas. Mas ou porque sflo insuficientes, ou por- que sio caudatarias dos "grandes projetos", que monopolizam os beneficios ou os mandam para fundar "cadeias produtivas" alem-mar, nesse aspect o governor paraense lembra a monarquia francesa anterior a revoluqilo de 1789. Vai chegar um dia em que uma Maria An- tonieta, lato sensor ou avantr-lar-lettre, recomnen- dara ao povo que coma brioches, ou minerio, ou dividas, ou o apito do tremn de Carajas, en- quanto outra Antonieta anotara em seu diario (ironicamente, liberal de nomenclatura) que nilo ha nada que valha a pena fazer, Niio haduivida de que aadministraqlo atu- al e melhor do que a anterior e da que veio antes e de todas as que se seguiram a Aloy- sio Chaves, ainda a melhor referincia do pe- riodo, mesmo quando sujeita a chuvas e tro- voadas. Mas so um pouco melhor. Niio um marco, nho um delimitador de epocas. E, mesmo quando bem melhor, nito melhor na media necessaria para impedir que o Para vire uma Africa do Sul dentro do sistema fe- derativo brasileiro, com o amiudamento e o agravamento dos conflitos e tenses dos quais jja somos contemporaneos. Vaidoso e autocrata, o governador esta su- jeito ao banzo de suas luas pretas, ou a se tor- nar satelite de planets que nem conseguimnos ver, tiio distantes eles se encontram do nosso raio de visto (nem porisso perdendo sua efica- cia de polvos, com longuissimos tenta~culos). Porque soj ouve e s6 vZ o que quer, elimi- nando, as vezes com brutalidade, o que niio lhe e espelho, como aconteceu com o finado Idesp, o governador niio v6 a miseria cres- cente e a crescente contradi~go entire o po- tencial de riqueza e a realidade do Para, re- gistrada nos estudos, levantamentos e esta- tisticas produzidos fora da satrapia, de ori- gem s6j posta sob suspeita por nito ser "da casa" (que e despida de autocritica). Por isso, na entrevista ao Semt CensuraI. (e sem critical) sua excelincia se permitiu de- safiar o process eleitoral como se tudo nilo fosse mais do que um jogo de futebol entire o Brasil e a Namibia, e ainda fosse possivel ga- nhar sem entrar em campo, sem seqluer haver partida. "Qualquer um que venha, n6s ganha- mos. Niio tem para ninguem", tonitroou o go- vernador, como se fosse um Juquinha solene. Sua autoridade, ele pr6prio a outorgou: vem desde 195 1, da political estudantil, meio seculo que sofreu intercalagies e lacunas, de sentido ascendente, e verdade, mas num e noutro memento o avango tendo decorrido de ulma topada no acaso ou da ajuda de uma miio ja nito mais lembrada, que puxou on empurrou, arrastou ou segurou. Foi essa experiencia que permitiu ao dou- tor Almir, como ele fez question de frisar, po- der indicar o melhor candidate, Simito Jatene, trio bom que ja mudou a ret6rica propagan- distica do governor, agora empenhado nho mais com o social ou o infraestrutural, mas com a produ~go, nito por acaso o titulo da secretariat que abriga o candidate dos tucanos (e, depois da confirmagao universal, dos paraenses to- madores de cha de bomn sensor . Sera assim porque todos se resignarrio a se- guir os "sinais" que sua excelancia emitiu para que todos efetivamente o sigam, como se fosse aquela estrela solitaria que represent o Para na constelaglio federativa brasileira. Ele diz ter toda a paciencia possivel para administrar a co- ligagilo partidaria que the possibilitou duas vi- t6rias pessoais, em 1994 e 1998, e outras duas coletivas, nas disputes municipals intermedia- rias. Desde que seja para receber, depois, o apoio que lhe cabe por tudo o que julga ser de seu merecimento, por ter feito o bem para o Estado, por ter recebido quase um milhtto de votos recorde em terms absolutes, mas nilo proporcionalmente, detalhe esquecido no dis- curso triunfalista). Se niio for assimn, aos anti- podas resta o fogo dos infernos, ou, quando muito, a penitencia do purgat6rio. D. Almir, o Supremo, falou e disse. Ago- ra ea vez de o Para responder. JOURNAL PESSOAL 2d QUINZENA DE JENEIRO/ 2002 3 EleiGqio: cartas marcadas e cartas ainda semn marca Deve ter sido comn a intenio de queimar pelo menos dois obstaculos que o governador Almir Gabriel fez questflo de transformar em um claro ato de poder o langamento do nome do secreta- rio especial da produ~go, Simio Jatene, como seu candidate pessoal it pri~pria sucessio. A pri- meira queima foi do PSDB e da coligagao elei- toral a frente do qual se mantem. Se ela estives- se monoliticamente unida, a ultrapassagem nio passaria de formalidade. Mas ja ha duas dissi- dencias abertas na "Uni~o pelo Para": a do vice- governador, Hildegardo Nunes, ea do presiden- te da Assembleia Legislativa, Martinhlo Carmo- na. Atras delas comegam a fonnar fila os des- contentes, mas incapazes de assumir de puiblico a diverg~ncia. A porta da rua e serventia da casa, disse para eles o governador, indicando-lbes como sendo esse ocamninho natural de quemn io obedece a suas ordens. A segunda barreira ultrapassada pelo mzodus farciendlido governador eo pr6prio 10 tumor elei- total. Almir anunciou Jatene nio como um pre- tendente a vit6ria, mas ja como um vitorioso. Certamente esse entusiasmo e um tanto excessi- vo, ate pela 6tica dos mais realistas freqiientado- res do Palacio dos Despachos. Mesmoeum inimi- go figadal do govemador, porem, nflo havera de negar, se quiser ser realista, que s6 um imprevisto catastri~fico impedira o secretario de ser um dos candidates ao 2" tumor. Ele e um necifito como politico (embora nho exatamente em political) e seu perfil nflo se ajusta ao que se espera de um vencedor de elei~go. Mas e provavel que a ma- quina official va ser usada como nunca nesta elei- 950. So assim tinrar o leite de votos da pedra (ou poste) que e Sim~o Jaten~e. Um dos pontos altos da entrevista do gover- nador Almir Gabriel foi quando ele, comn um at de triunfo, anunciou dispor de dinheiro suflciente (e a~go planejada) para inaugurar mais de umna obra por dia em 2002. Par-a machucar um pouco mais seus inimigos, garantiu que no cofre ainda restavamn95 milhdes dereais dos R$450milhdes arrecadados na venda da Celpa, que os politicos privados de cha de bom sensor diziam ter sido in- tegralmente torrado na reeleiCio do governador. A verba de investimento sera de R$ 600 milhdes neste ano, proclamou Almir, qlue ainda tera melo bilhio de reais para repartir entire os prefeitos do interior atravbs de convenios. S6, esses trunfos ja sho suficientes para assegurar a Jatene um dos pdlos no pindulo eleitoral. Essa perspective desestimulara os projetos dissidents do vice-governador? Ele foi refor- gado pela adesio do deputado Carmona, que de- cidiu apostar tudo numa possibilidade hoje um tanto remote: o governador aceitar a candidatu- ra de Hildegardo, convencido da inviabilidade eleitoral de Jatene, e se candidatar a uma vaga praticamente certa no Senado; Hildegardo se de- sincompatibilizar do cargo, deixando que o pre- sidente da AL seja o governador por nove me- ses (uma reedigio tucana do furacito Carlos San- tos?); e Carmona se comprometer a trabalhat pelos dois comn toda a lealdade. A resposta, por via indireta, Almir esta dando com o maximo empenho aplicado naginlkana em favor do seu delfim. Se ele nto possui atualmente consistencia eleitoral, com as iscas de dinheiro, a mnaratona de inauguragdes e arepercussio ampli- ada das inauguraqdes programadas, logo estara entire os tr~s mais lembrados pelos eleitores que forem entrevistados pelos institutes de pesquisa, comnpossibilidade plena de pelo menos subir mais um degrau. E do que o esquema tucano no Para precisa para apresentar latene como um candida- to a vencedor na conven~go de abril. Ate: la, porem, esse esquem~atera qlue cor- rer riscos. O mais evidence e imediato deles e a transgressor legal. O senador Ademir Andra- de, do PSB, pretendente ao cargo de governa- dor, ajuizou quatro aqdes tentando demonstrar que a propaganda official, veiculada fartamente nos 6rgflos de comunicag8o, sobretudo na tele- visrio, e feita para dar beneficios pessoais ao governador e ao seu candidate virtual, consti- tuindo-se emn propaganda illegal, por ser inde- vida e estar sendo feita antes do prazo. Ate: pouco tempo atras essas iniciativas se revelavam in6cuas: colidindo com uma es- trutura refrataria a elas, ricocheteava na len- tid~o da tramita~go dos pedidos, nos vaza- mentos recursais ou na ma vontade do julga- dor. Mas de uns tempos para ca certas auto- ridades tim pagado o preg~o da atuaqio pio- neira da justiga e do Ministerio Puiblico na repressio ao abuso das verbas e dos recursos ptiblicos. Essa nova situaqio chegara ao Para? A evolu~go e o destiny das quatro aqdes judiciais propostas por Ademir Andrade vio ajudar a responder a essa drivida. Se tudo continuar como dantes ou as mu- dangas s6 tocarem na superficie do process politico, umna inc6gnita da equaqflo eleitoral estara preenchida. A outra e de decifrac;io mais problematica: quemn sera o oponente do pre- tendido "governador do governador"? Ne- nhum ensaio mais consistent de resposta po- dera ser dado sem uma defini~go preliminary: o que vai fazer o ex-senador Jader Barbalho? As fontes mais prbximas dele dizem, guardan- do hierarquia na seqiiencia, que ele saira no- vamente candidate ao senado, a deputado fe- deral, a governador ou a nada, preferindo pou- par-se de desgaste, certamnente o maior dentre todos os possiveis candidates. 11 bem provavel que o pr6prio Jader ainda nio tenha reunido dados suficientes para deci- dir sobre o seu destiny politico, depois do ter- remoto que o fez cair da cadeira de president do Senado e da pr6pria Camara Alta. Sua mo- vimenta~go, embora nos bastidores, indica, contudo, que ele age como candidate. Se mantera. essa disposigio, isso ainda vai defender dos contatos que vem fazen- do. Al guns sho de cupula e visam a forma- qFlo de uma coligagito partidaria, com vari- os ensaios de composiq8o e acomodaCgo de interesses. Outros sjo de base e tem por objetivo trazer para o seu lado quem e ca- paz de transformar retbrica em votos no in- terior, seu maior reduto. A definiCio do ex-governador vai influ- enciar as tres outras alternatives ao candi- dato official. A mais explicit e a do vice- governador, Hildegardo Nunes, o terceiro melhor posicion~ado nas pesquisas ate ago- ra. Por estar sujeito aos raios irados do go- vernador e a descoberto de uma protegio "do outro lado", ele e tambem aquele que mais pode se desgastar a partir do memento em que a guerra eleitoral estiver declarada. Ainda mais por continuar sem total imuni- zagio a traiqdes de ultima hora em seu pr6- prio partido, o PTB. Mesmo assim, Hilde- gardo diz que sua candidatura ira ate as uil- timas conseqiiencias, sejam quais forem. Um quarto p6lo seria o da oposiCio formal ou da esquerda, um tanto difusa. O PT ea sua imagem classica, mas, absorvido e desgastado nas lutas internas, nio tem um candidate de for- ga ao govemo. A vereadora Ana Julia Carepa nio quer pensar em outra coisa que nflo o lugar quase cativo que a espera no Senado, gragas ao passaporte de vitima que a eleigio anterior the conferiu e ao seu carisma pessoal. O vice-prefeito de Belem, Valdir Ganzer, vi- tima do Brutus palaciano, ja so pode aspirar a um mandate de deputado estadual. Todas as outras possibilidades seriam apenas umna formna de nio aceitar a candidatura de Ademnir Andra- de e, mantendo a ja traditional (e pouco sensa- ta) idiossincrasia petista, de partido escolhido, expor-se a mais uma derrota acachapante. Desta vez estaria o PT condenado a colo- car sua eficiente maquina political (e, agora, tam- be~m administrative) a servigo de Ademir, en- golido, as vezes, mas descartado em outras, nas chapas-camnario que o partido diz que ap6ia? Em favor dessa relutancia esta a desconflanga de que o senador do PSB acabe sendo mais ali- ado do PMDB do que do PT. Contra ela, contudo, ha uma situaqflo de fato: a autofagia deixou os petistas sem opprio de ver- dade. A noiva tem um bom dote, mas nio tem parceiro. E precise voltar a trabalhar para que ele se materialize, talvez nlo em 2004, mas, quem sabe, em 2006, se os homes do poder no PT do Para nio estiverem condenados a ser mais Fon- teneles e Erundinas do que Dutras e Genros. 4 JOURNAL PESSOAL 2La QUINZENA DE JENEIRO/ 2002 Pal mei ra A cena tem exatamente 30 anos: e de fevereiro de 1971. Uma enorme fila de pessoas querendo comprar cafe, que estava em falta (como periodicamente acon- tecia em Bele~m, por problems na navega~go de cabo- tagem e, a partir de certo tempo, como ocorre agora, por acidente na Belem-Brasilia). A fila se estende pela calgada da Palmeira, uma das mais importantes em- presas de alimentagio da hist6ria do Para, que ocupa- va todo um quarteirio ao lado da igreja de Santana. No local restou um buraco, depois da demoligio do belo predio, que era umna das principals refer~ncias da cidade, completada pela caixa d'agua de estrutura metitlica, ao lado, desmontada no primeiro governor de Alacid Nunes, como de praxe na metr6pole dos es- combros da histdria e da arquitetura. No lugar, ouvindo apenas a pri~pria voz, a prefeitu- ra quer construir um centro de convenqi~es e teatro. A muda, na cidade das mangueiras, tem sido invariavel- mente deficitaria. Muda para pior. Novidade O Jorna/ Pessorl incoipora, ar partir deste numiv, lr eml ~formatrro mrenor, as seqdes ~fixas dar finadalr Agendla Amalzdnica. Como2 arpenas quarrro leitorecs r-espondleram p~or scr~ito c) conIsulta jeitaI na ediqdio arnteriot, a forma ( ac/otada e piv~isoria. Mantemr-se o mlesmro mIimlero de pagbinars eoprego. P.CIProcweido pr-ejudicar o noticiairio dlojornal, malcs talvez o c~usto de comlpr~imi-lo possa ndro agb,'rackr: Aguarldo malis anifel!JLstag~des parar ver se se che- Em 1969 ruiu um dos mais velbos predios fora do centro commercial, na es- quina da avenida Governador Jose Malcher (Sgo Jer~nimo na epoca) comn a Assis de Vasconcelos, onde funcionava uma loja da Materco (e hoje foi levanta- da uma edificaFgo moderna. Dois funcionarios ficaram feridos e o pai dos dois proprietarios, Albino Morgado Carrasco, morreu soterrado. O perimetro ficou semn luz e sem telefone: as fiaqbes que passavam em frente ao pre~dio foram destruidas. A trage~dia serviu de advertencia para as precarias condiF~es de varias outras construgbes antigas, algumas delas ja condenadas, como a desativada sede do Tribunal Regional Eleitoral, no "canto" da Manoel Barata com a Padre Euti- quio. Apesar de varios pequenos desabamentos, um dos quais quase atingiu o secretario do TRE na e~poca, Edgar Franco, a Uniio alegava nio dispor de re- cursos para efetuar a demoli~go do predio, de tr~s andares, que seria um marco de epoca se o abandon n~io o tivesse transformado em um pardieiro (como se dizia), ameagando a segurang~a dos transeuntes pela zona commercial. Com o acidente da Materco, o governor federal tratou de arran~jar recursos e a demoli~go foi feita logo depois. Como quase sempre no Brasil, trancando-se a porta depois da passagemn do ladrio. E sem recuperar o produto do roubo. JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE JENEIRO/ 2002 5 PUBLICIDADIE Pr 6m io Numa epoca em que crian- g~as e adolescents caqavam fi- gurinhas coloridas para pregar emn albuns de estampas e tam- pinhas carimbadas debaixo da cortig~a de tampas de refrigeran- tes, pela atividade emn si e pe- los primios que os fabricantes ofereciam, Bernardino Rezen- de, filho do casal Urbino (Ro- salina) Rezende, aluno do Co- legio Moderno e resident a avenida Indeap n~ ia b(ata va sorte. Ele aparece no antin- cio dos refrigerantes Guarasu- co e Larasuco amboss extintos) como um dos trbs felizardos ga- nhadores de monaretas Honda. Berna, irmlio de Augusto Re- zende, ex-prefeito de Belem em epoca posterior, ganhou sua motor em dezembro de 1969. Com direito a foto individual, por sua origem. Os outros dois aparecem numa foto uinica. I MEMC)1UBl)C COTIDIANO Festival Afmnada com a tendencia da epo- ca. Bele~m realizou em 197 1 o Primei- ro Festival Estudantil da Can~go. Dezenas de muisicas foram submeti- das a um juri presidido pelo maestro Waldemar Henrique e composto por Nivaldo Santiago, Jogo de Jesus Paes Loureiro, Adelermo Matos, Paulo Chaves Fernandes, Hildeberto Bitar e Reginaldo Cunha. Waldemar garan- tiu, ao final, que o nivel das criacgdes havia sido "muito bom". Casamento Foi "suntuosa", em setembro de 1953, a festa de casamento de Her- m6genes Urbininea Condur0, filbo de Adelermo Leio Conduru (ja entio falecido) e Zaida Urbininea Condu- ru, com Lea Ribeiro Velbo, um dos melhores "partidos" da cidade, filha de Antonio Alves Velho e Amazilia Ribeiro. Os ainda aristocraiticos sa- 16es da Assembleia Paraense estavam "um brinco" para receber os perso- nagens do "grand mond" paraense convidado para a receppio, custeada pelos pais da noiva, conforme man- dava o figurine e cra o natural: afi- nal, Ant~nio Velho era donor do gmt- po Importadora, uma das mais pode- rosas emnpresas de entio. Foram registradas as presengas de Antni oMartniorsoniMr AdonanoBGa^ deira Coelho, Bolivar Barreira, Jodo Queiroz, Acrisio Fulvio de Miranda, Raimundo Farah, Aldebaro Klautau, Aled Parry, Silvio Teixeira, Celso Mal- cher, Paulo Azevedo, Alberto Pinhei- ro, Marcos Athias "e tantos outros", com as respectivas esposas, c claro. Os festej ados noivos "fixaram re- sidencia" numnapartamento do recem- construido Edificio Importadora, na avenida 15 de Agosto (hoje, Presi- dente Vargas), present do pai da noi- va, donor do predio, um dos pionei- ros da erra idons "a ranha-ceus" na "ci- Tinta Em abril de 1967 Ocyr Proenga inaugurou a Atinco como "a mais mo. dema filbrica de tintas do Brasil". Ocu- pava uma threa de 6.432 metros qua- drados no quilbmetro dois da BR-316, na said de Bele~m, gragas aos incenti- vos fiscais da extinta Sudam, para pro- duzir "dois produtos de alta qualida- de": o Antitex c o Antical, que seriam comercializados em varias cores. Alem de Ocyr, a empresa tinha Odom Go- mes da Silva como director commercial, Decyr Riodades como director adminis- trativo, Augusto Mendes como dire- tor tecnico e Laszlo Oitavanty como gerente de produ~go. Hoje, a induistria, como de praxe em Belem7, e mais mate~ria de arqueo- logia do que de produpho. Livro Nove barracas funcionaram na Feira do Livro de Bele~m, em novem- bro de 1962, sete delas ocupadas por livrarias em funcionamento (Vitidria, Martins, D. Quixote, Biblia, Nobel, Li- vro do Norte e Selo de Ouro) e duas tematicas (do estudante e do escritor paraense). Os frequientadores tinham direito a desconto de 20%. De dar agua na boca em relailo as feiras de hoje. Planejamento O historiador Arthur Cezar Ferrei- ra Reis comandou, no dia 12 de outu- bro de 1953, a primeira reuniso de tra- balho da Superintendincia do Plano de Valorizaqio Econo~mica da Amazo- nia, a SPVEA, qlue antecedeu a Su- dam, sua sucessora, 13 anos depois. Primeiro superintendent do 6~rgio, Arthur Cezar havia regressado a Be- lem depois de uma audiencia com o president da Repuiblica, Getullio Var- gas. Dois dias depois de ler o regula- mento da SPVEA, qlue ficaria encar- regada de inaugurar o planejamento re- gional no Brasil, Getuilio convocou o superintendent e conversou com ele durante uma hora. No final, prometeu uma breve visit a Amazo~nia. Fortalecido, o future govemnador do Amazonas promoveu a reunion com os demais "planificadores" e de- signou uma comissrio para elaborar o Regimento Intemo da SPVEA, da qual faziam parte Stelio Maroja (que viria a ser deputado federal e prefeito de Bele~m), So~crates Bonflm (depois em- pres~rio, criador da Siderama, a side- rurgica de Manaus), Ricardo Borges (tecnico e escritor baiano, pai do de- sembargador Ricardo Bordes Filho e do procurador Cezar Borges), Pereira da Silva e Waldir Bouhid (pouco de- pois tambem superintendente. Secre- tariando oencontro estava Flaivio Mo- reira, qlue se tomaria politico, chegan- do a presidir o "maior partido do Oci- dente", a extinta Arena. Estudante As mses de Edson Luiz Lima Sou- to (a natural, empregada dome~stica pobre, e a adotiva, uma viuiva com 11 fllhos) s souberam que ele tinha mor- rido ao ver sua foto nos jornais de Be- lem, depois dos sangrentos aconteci- mentos no Rio de Janeiro, em margo de 1968, quando ele ja estava enterra- do. Edson foi atingido por uma bala perdida quando ia comer no Calabou- go, o restaurant estudantil no centro da ex-capital federal. Havia conflito entire estudantes, que protestavam con- tra o govemo, e a policia, que os re- primia com violencia, no "ano que nio terminou" (segundo o titulo do livro de Zuenir Ventura sobre o period, marcado pelo Al-5). E~dson deixou Bele~m dois anos antes para fazer o artigo 91, o cursor para alunos atrasados na conclusion do ensino secundario. Tentou em Bra- silia e depois foi para o Rio. Vi via com dificuldades, mas era inteligen- te e esforgado ("tocava piano de ou- vido"). Queria ser "gente importan- te". Entrou, de fato, para a histi~ria, mas nito por vontade proipria, nem da maneira que queria: por acidente, que the tirou a vida aos 18 anos. ESTAMOSi TROCANDO g IgVNREA F VI TAMPINHAS MARICADAS -~a C .s ;; - 1- , a to n case no a 2=& so~~~~~~ 4,,.,0. P..r-nr av n n ""'""' ... suc ssn swa a ~ go,,es ,a . ,no m n. ..u '' w- 1 move r "* ~g ra.c(sseu nhnm yrl-" e n". C M i;. l Lit 'r on -** I**0 S(l L ,cla .'al ~ "R~.l ler """{ "~lz: .Y )i""'l~ ir.r. bu~~~~~~rl~ ~ **~do trr/u hr `J aLo dwI.ir~ l n~ l Iir.;: C *uti~n.r~. l~n~ur GUA; ;RASUCO~Zrnt e~l ~ti.ARASUCO i~ 'ir y~ ~~~~ae maidulul~ tulnw c~e..r...... malm sses rres es.. rmin so l~ G JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE JENEIRO/ 2002 Como se tratava de um suple- mento, o Estaddio se recusaria a sub- mete-loaBcensura. Preferia cancela- lo. O mesmo arauto da ameaga deu para Pedreia, entio redator-chefe da folba da familiar Mesquita, a boa e surpreendente noticia: o general Geisel decidira acabar de vez coma censura. O jomal estava livre. Duas ou tris semanas depois do fim da censura, Pedreira escre- ve no seu artigo que encontrou num saguio de aeroporto "um de- putado pelo Parai, multo ligado ao general Golbery. 'Voces ate pare- cem que nao ficaram satisfeitos', exclamou ele; 'so fazem, agora, meteu opau nogovemno!' Respon- di simplesmente: 'E voce acha que n6s queriamos o firm da censura para falar bem do governor" ' Pedreira nio revela o nome do interlocutor, mas e quase certo se tratar do deputado federal (naeCpo- ca, da Arena) Ubaldo Conea, ex-pre- feito de Santarem. Ubaldo tentava, entio, sair candidate a governador comno apoio do general Golbery do Couto e Silva, a eminencia parda do govemo Geisel. N~oconseguiu: ou porque Golbery nio quis, ou porque nio pade fazer o nome de Ulbaldo prevalecer sobre o de Aloy- sio Chaves, que acabou no cargo. sagemn de i~nibus, do gas de cozi. nha. Aumentou a tarifa de ener- gia eletrica, a assinatura das linhas telefo~nicas, ao mesmo tempo em que os servigos correspondents pioraram, gerando reclamagdes mil por causa do mau atendimen- to das empresas privatizadas. Por tudo isso, Sr. Governador, humildemente e com todo o res- peito, pego que o Sr. se sensibilize com os pobres e necessitados ser- vidores publicos, os quais querem, sim, bem servir a popula~go, como tambem anseiam merecer do Sr., que e: nosso Patrio, tratamento dig- no, de acordo com a imagem de home honrado e preocupado comn o bem estar de todos que Vos- sa Excelencia transmite sem ne- nhum esforgo quando aparece nas propaganda oficiais do Governo. Assim esperamos, Sr. Governa- dor, para podermos retribuir vos- sa benevol~ncia nas pr6ximas elegides, mediante as quais V. Exa pretend continuar dispensando a n6s, servidores ptiblicos e por ta- bela a nossos queridos familiares, demonstrates grandiosas de res- peito e consideraqio. Com esperangas, Clovis Luz da Silva R.G. 1402705 Conj. Cidade Nova VIII, WE43, 552. Ananindeua Fone 263-9906 O leitor. decidiu usar este jor-nal como mensageiro da "carta que um funcionario puiblico gostaria de entregar ao Sr. Govemador". Tratando-se de questaio de alto interesse publico,oaJP decidiu prestar-se a esse sempio, esperandio esrtabelecer um dicilogo produtivo entire as partes. Segue-se a corresponddncia. A Sua Exc. o Sr. Governador. Sr. Governador, em nome dos mais de cem mil funcionarios pti- blicos estaduais, venho a puiblico solicitar de Vossa Excelencia que use de sua benevolencia e miseri- c6rdia e nos contemple comn a boa dadiva de um aumento salarial. Estamos, como V. Exa. sabe, ha mais de sete anos sem reaj uste de vencimentos, tendo o poder aqui- sitivo de nossos salarios se torna- do menos poder a cada dia, quan- do confrontado com o poder mai- or daqueles que reajustam os pre- gos de bens e servigos, com a complacencia do Governo Fede- ral, em indices muito superiores ao da inflaglio. Nesses anos todos, Sr. Governador, o prego do fran- go aumentou, como tambem o do peixe, o da farinha, o do charque e at6 o do agai, alimento que mui- to nos serve em horas de aperto. Subiu tambem o prego dos com- bustiveis, e de quebra, o da pas- "LRefo rmra" Quase tr~s anos atras o governor federal pagou 28 milhdes de reais para ficar com 25 mil hectares (mais de RS 1 mil por hectare) do que havia sido a maior plantaqao de soja do pais (quiga do mundo?), do empresario Olacyr de Moraes, em Mato Grosso do Sul. Na area deviam ser assentadas 1,3 mil families (ou quase 7 mil pessoas), clients da reform agraria. Passado tanto tempo, o assentamento so existe, de fato, na propaganda official. Quem continue em atividade no local e o pr6prio donor original das terras, o badalado empresario Olacyr, cabega, tronco e membro do grupo Itamaraty. Ele arrendou pouco menos da metade da area vendida ao governor, devendo pagar o arrendamento (vinculado ao resultado da produ~go, de cujo valor representara 5%) com a prestaqio de servigos e insumos ao future arrendamento. Ou seja: escambo de pai pra filho. Nio foi a toa que na saison de fim de ano, o antigo rei da soja (hoje sem a majestade, mas com a mesma pompa) se esbaldou nas festas, abrindo alas para mulheres bonitas e joyens, como se seu estilo, enquanto os sem-terra esperavam pela sua parte no latifuindio na beira da estrada. Algo que combinaria Joao Cabral de Melo Neto com Roberto Carlos, se a parabola necessitasse de um fundo litero-musical. C ar a Hist6ria A censura eo acontecimen- to mais traumatico na vida pro- fissional de um jornalista que sabe o que faz. Mas os jornalis- tas falam demasiadamente pou- co sobre essa experiencia, que acaba nao servindo a pedagogia dos sucessores, se eventualmen- te eles se virem diante da ativi- dade censorial. A resistencia pa- rece estar sempre comegando. Ja a repressao parece acumular co- nhecimento. Sai invariavelmen- te na frente. No seu artigo dominical, Fernando Pedreira comnemorou mais um aniversario de O Es- rado de S. Paulo, of 27", no dia 4, lembrando o f~im da censura imposta ao traditional matuti- no paulista pelo regime military instaurado em 1964. Assim como chegou, sem aviso previo, o censor se foi, emn 1975. Um pouco antes, parecia ate que a situaqio ia piorar: o governor havia mandado um recado de que pretendia censurar o cader- no especial de aniversario do journal, alem do noticiario do dia a dia, retina do Torq uemada inoculado na reda~go. Antiquirio A loja do antiquario Elias Ohana, na rua 28 de Novembro, era um lugar raro em Belem: uma casa antiga, nio tio bem conservada, mas decent, a qual se tinha acesso por um estreito corredor ladeando uma sala de exposi~go; no fim do corredor, uma sala mais larga, ponto de encontro de mulheres (principalmente) e homes interessados em an- tiguidades e correlates, todos quase sempre sofisticados, bem traja- dos, de conversa agradavel, ativos. Servia-se cha nessas reunides, em tudo assemelhadas a saraus. Dis- creto como todo perfeito anfitriio, "seu" Elias animava aquela conf lu- encia de gente identificada pelo bom gosto, tanto com os objetos que oferecia, quanto com seus comentarios sardbnicos, nem sempre per- ceptiveis porque a ironia parecia ficar contida na sua barba branca. Uma vez fui la ver uns livros que ele mantinha na primeira sala. Estavam em algumas caixas de papelso. Todos sobre a Segunda Guer- ra Mundial, muitos em lingua estrangeira, varios cobigados pela mi- nha gula. Estava verificando a "mercadoria" quando "seu" Elias, comn aquele misto de inocencia e picardia, pr6prio das pessoas que enve- lhecem como os bons vin~hos, maturando por dentro a sabedoria e a experi~ncia acumulada ao long da vida, fez uma bela proposta. Sus- pendi a inspegio e arrematei de pronto o lote, sem o menor vacilo, num leilio que nem chegou a haver. A oferta era irrecusavel, porque generosa. Minha alegria de levar aquele acervo precioso s6 foi menor do que a dele, de me proporcionar alegria sem sofrer prejuizo. Talvez, quem sabe, com algum lucro. O "seu" Elias se foi na semana passada, ao fimn de uma doenga que o maltratou. Mas sua boa lemnbranga permanece na memoria dos que tiveram o privilegio de, alguma vez, dispor de sua fidalguia sem eti- queta, registrando esse memento naquela agenda que nos acompanha- ni ate o memento em que tambem nos tornarmos lembranga. Boa, se possivel, como a dele. JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE JENEIRO/ 2002 7 O Norte e a regifto mais pobre do pais, superando comn folga o Nordeste. Em 199)3, 52% dos nortistas eram pobres, contra 45% dos nordestinos. Em 199'7, os pobres ainda representavam 42% de toda a populagilo do Norte. No Nordeste, esse percentual havia baixado para 31%. No Sudeste, I5%/; no Cen- tro-Ocste, 9%; e no Sul, 8%. A media brasi- leira cra de 20%, pouco menos da metade da faixa de pobreza na Amazbnia. Os dados foram apurados pelos econo- mistas Roberto Cavalcanti de Albuquerque, do Institute Nacional de Altos Estudos (Inae), e Sonia Rocha, do Ipea (o institute de pes- quisa da Presidencia da Republica). Em seu estudo, divulgado no ano passado, eles con- sideram pobres as pessoas cuja renda famili- ar per capital e insuticiente para o atendimento de suas necessidades basicas. Para quantifi- ca-las, os dois pesquisadores utilizaram para o pais 23 diferentes "linhas de pobreza", ex- pressas em valores monetarios abaixo dos quais se caracterizam situagdes de pobreza critical por insuficincia de renda. O Norte lidera a pobreza emn todos os niveis levantados. Ela era, em 1993, prati- camente igual a do Nordeste nas regimes metropolitanas: em torno de 46%/; da popu- laglio. Quatro anos depois, a proporqCto de pobres metropolitanos ficou emn 35% no Norte e baixou para 30% no nordeste. Fi- cou em 21% no Nordeste, 16% no Centro- Oeste e 10%/ no Sul. A media national era, cmn 1997, de 22%. A faixa da pobreza nas zonas urbanas nortistas ultrapassava 53%/ emn I993 e era de 44%/; no Nordestc. Eml 1997, os pobres urbanos do Norte eram 42%/ da populaglo. No Nordeste, 30%; no centro-Oeste, 14%/; no Sul e no Sudeste, em torno de 10%. A media national era de 20%, tambem mne- nos da mnetade do indice amazo~nico. Os pobres do Norte eram exatamente mne- tade de toda a populac;lo rural da regillo em 1993. Em 1997, o indice era de 35%, enquan- to a media national baixava de 37%/; para 25%/. E este o resultado do desenvolvimento da Amazi~nia? O senador Ademir Andrade me recebeu comn uma proposta: "que tal colocar suas jideias em pratica?" Arrematou esse convi- te, ao mesmo tempo tentador e desafiador, comn uma proposta: coordenar a equipe de tecnicos por ele contratados para elabo- rar uma proposta de progr-ama de governor. "O qlue for aprova- do sera cumprido, se cu me ele- ger governador", promneteu. "E a oportunidade de voce aplicar o que tem proposto, ao inves de apenas escrever sobre isso". O filtimno governador que se deu a esse elementary e salutar trabalho foi Aloysio Chaves, mais de um quarto de seculo atras. Nilo como simples candi- dato (que, por ser do partido do governor, a Arena, era quase si- ni~nimo de vitoria em eleigio indireta por um parlamento controlado), mas ja como go- vernador eleito. O senador do PSB estli lon- ge de ser o mais forte dos aspi- rantes it sucessito de Almir Ga- briel, mas reunir tecnicos para preparar-lhe um verdadeiro program~a de governor e convi- dar-me para integrar a equipe foi, para mim, uma agradavel surpresa. Normalmente tenho rechagado de imediato tais abordagens. Nunca fui filiado a um partido politico e jamais participei de campanha cleito- ral. Mas desta vez resolvi exa- minar a hip6tese, Uma condigrio preliminary para accita-la, que me impunha, era a suspensilo deste journal. Mesmo tendo uma funglio te~cnica, nela trabalhando como sociblogo e nto comojornalista, semqcualquer ati- vidade externa, nem envolvimen- to direto comna campanha, ainda assim, havia incompatibilidade entire a assessoria e ojornalismo. Depois de muito refletir, f~ui ao segundo encontro com uma deci- sito, logo comunicada: nrio podia aceitar a oferta. Preferia manter o Jornal Pessoal. A situaqflo material deste pe- ri6dico so nito e pior do que aquela em que terminou a Agen- da Amaz~nica e por isso per- manece vivo. Mas ele ainda pre- ci sara sobreviver pelo menos por este period eleitoral. A im- prensa grande dificilmente cum- prira scol dever diante da socie- dade. Mesmo o formador de opinitio piiblica terai problems de informaglio e orientac;lo. Cer- tamente este journal niio dara conta de toda a demand, mas talvez consiga obrigar as parties a se explicar ou al guns dados basicos a sairem da toca emn que slio confinados pelos poderosos. Ja sera o bastante. O governador Almir Gabri- el precisa ser confrontado com situaqdes e vontades distintas ou ate antagonicas its dele. Nlo pode, como lemnbrou O Liberal, num lampejo de verdade (ainda que nilo desinteressada), imagi- nar-se um novo Barata, capaz de, it revelia de todos, eleger um poste. Duas coisas, no meu en- tendimento, sito fundamentals para que a eleigilo de outubro nito se torne ulm fator de regres- sito political no Para: o esquemna de poder montado pelo gover- nador tem que sofrer alternfin- cia, sob pena de entrar numn pro- cesso de degenerescencia, que ja comega a se revelar; essa alter- niincia n~io pode ser o ex-sena- dor Jader Barbalho, cujo papel no Estado se exauriu. E hora de renovar, em proveito da refor- mulaio de erros comnetidos pela atual administragilo, agravados por seu centralismo autoritario, c da rejoic;io de um passado que nito deve mais retornar. Este journal nito tem candida- to. Seu leitor pode escolher o candidate de sua preferincia. Mas sei os candidates que nito devo ter: Simito Jatene e Jader Barbalho. N1Tovai nessa rejeig~io nenhum comnponente pessoal. E uma attitude political em proveito do interesse coletivo, da resolu- glio do impasse basico que temn feito o Para crescer sem deixar de ser subdesenvolvido. A mes- ma attitude que me fez decidir por este journal e recusar o convite do senador Ademir Andrade, man~- tendo esta trin~cheira de indepen- de~ncia jornalistica. Norte e o campeaiO national da pobreza Energla O suprimento de energia hidr-eletrica a Be- le~m completou 20 anos comn um castigo e niio comn uma comemorailo: o blecaute de cinco horas, na tarde-noite do dia 10, ainda mal ex- plicado. A energia hidraulica velo inicialmente do Nordeste. Tres anos depois, passou a ser fornecida pela hidreletrica de Tucurui. Ao lon- go dessas duas de~cadas, o mneio de transporte continuou a ser a linha singela Tucurui-Vila do Conde-Belem, comn aproximadamente 350 qui- lImetros, disseminando-se por "linhdes" para 60%~ do Estado. A cada interrupqlio, quase sem- pre de causa obscure, a duplicac;io e prometi- da. Find a agonia, o comnpromisso se desfaz no eter da acomodac;io parnense. A nova linha deve sair agora, a ulltima a ser duplicada, den- tre todas as que saem de Tucumui. Mas nito para atender as necessidades do cidadlio comnum par-acnse. E por causa do crescimnento da de- manda dos clients especiais, parceiros do modelo que tira o bom dos paraenses sem re- por-lhe o devido. Se hai quase 30 anos a Eletro- norte mantem sua sede em Brasilia, indiferen- temente ao just e r-azoavel, qlue e basear-se em Belem, do qlue seremnos capazes em materia da energia, qlue temos em abundlincia, mas que nito e, de fato, nossa? Nem a tratamento de cheque saimos da ine~rcia, raziloa justificar os maus tra- tos qlue sofremos. E continuaremnos a sofrer. Pelo jornalismo Estre ateza Embora ogoverno Almir Ga- briel ntio admita critics a sua obra prima (que nito 6 sua, ali- as: remonta aFernando Gui- lhon, pelo menos), a cada dia fica mais nitido um anacronis- mo na Alga Viaria. Justificada como uma infraestrutura de "alavancagem" do desenvolvi- mento (para usar um jargilo ao gosto do nosso mandarinato), ela se reduzahobra fisica. S6 ago- ra, comn as pontes e as estradas em obras j6 avangadas, a CDI e a CDP estlo encomendando es- tudos para "reorientar" o distri- to industrial de Barcarena. Essa devia ser uma provi- dtncia de antecipa~gio, nio de remediaqilo. Se nio estivesse de mal-a-morte com a prefei- tura (e vice-versa), bem que o governor podia ter planejado o conjunto de obras fisicas para transferit o que resta do pobre p61o manufatureiro-industrial de Belem, confinado a Estrada Nova, caoticamente em torno da Bernardo Saylio, para o ou- tro lado do Guama. As melhores condigaes de in- fraestrutura seriam um atrativo para os empresirios se desmo- bilizarem daquela Calcuta ao tu- cupi e funcionarem com maior rentabilidade num distrito in- dustrial voltado para eles e nio apenas para os enclaves meta- hirgicos e minerals. A cidade, ai, sim, ganharia uma estrada beira-rio de verdade, uma va- randa panoramica, inclusive protegida de alagamentos. Ao inves disso, os maiores beneficiarios das obras, incluida a amplia~gio do porto de Vila do Conde e suas extensbes e com- plementos, sertio os "grandes projetos". Eles abririo uma fres- ta no terminal para alguma car- ga geral, mas a demand maior sera oriunda da amplia~gio da produ~gio de caulim, nos ports privativos, e da chegada de uma nova produglio de bauxita. O di- nheiro gasto nos piers, que pre- cisariam fazer de qualquer ma- neira, ainda vai ser compensado num encontro de contas que se prolongard por anos. O Paris e isso. Jornal Pessoal Editor: Lrido FI~avo Pinto* Fone: (091) 241 7826 Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040 e-mail: jornal~amazon.com.br Produqdo: Angelim Plnto Edig~o de Arte: Luizantoniodefanapinto respeito. Por que niio simplesmente fazer novo contrato, claro que depois de novo process licitat6rio? Comn aresposta, quem de direito. O ise Em epoca de crise funda-se um bar, previu, em belos verses, o poeta W. H. Auden. Em epoca de crise a TFP (Tradi~gio, Familia e Propriedade) manda seus militants em peregrina- Fgio argentaria, recolhendo contribui- 95es para suas "atividades estatutari- as", que viio do culto fanatizante a Maria ate a guerra politico-ideol6gi- ca, com todas as suas derivaC6es. Como das outras vezes, o Levia- tB surge da crise provocando crise, novamente com a hierarquia cat6- lica. A personificaqilo imediata des- se conflito tem se traduzido em tro- ca de cartas e notas entire os tefe1- pistas e a Associaqilo Cultural Nos- sa Senhora de Fatima, um produto local da busca do leigo na Igreja a maneira de Jolio Paulo II, que nio comunga exatamente da mesma h6stia do jai extinto Plinio Correa de Oliveira, fundador e inspirador da medieval TFP. Em latim ouportu g u s, vade r~etro. Alg a Um ponto j~i e fato: a Alga Via- ria, a maior obra do segundo gover- no de Almir Gabriel, tratada para ser a de maior impact no period pre-eleitoral, estai comn seu crono- grama atraso de dois meses pelo menos. A festival inauguragilo foi transferida de abril para junho, mas ainda sem confirma~gio definitive. O outro ponto em muta~gio e o do custo. Os 160 milhdes de reais do orgamento inicial foram para o espago. A cifra em considera~gio va- ria agora prbximo de R$ 200 mi- thies. Como a lei de licitaqdes ad- mite aditamentos ate o limited de 50% do valor original, ainda ha gordura em condiqi~es de crescer ate chegar a R$ 240 milhbes. Essa e uma novela que vale a pena acompanhar. Sobretudo o contribuinte. Blecaute O blecaute do dia 10 sabotou a exposiglio, que se realizaria na- quela noite, de pintores inspira- dos no "apagio" de FHC, comn a curadoria (ou seria mais exato fa- lar de tutela?) do marchand Gile- no Miller Chaves. Depois os ho- mens, nito agiientando a represa- lia, viio querer convencer o infla- mavel mecenas de que esse nego- clo de teoria conspirativa e fan- tasia. Como Prometeu, Gileno venceu os abutres da escuridio: o vernissage se realizou. Energia E um jatro que o Para nio preccisavaI ter sido incluido no plano nacionaldte rancionamnento de energia paraque oNorte pudessetIransferir seusvex-cedentes par~aoNonieste. Inversamnente, agora ndio har motives mlais consistentes pain excluir- o Nordeste no momento eml que a ban-agemnde Tucunruicomlegaa verter agulapelas comlporas paramalnter o equilibr~iodo reservatojrio, a tris mnetrosde sua crista ,masos reservatorios das hidreletr~icas nordlestinals esid~o comn apenas 20%/ de sua capalcidade de acumulagdio, metade do que tinham em igual periodlo do ano parssadro. Exceto se har umra inltengio political de favorecer perigosamente o nod-estino para sedluzir-lhe o voto. Se a hidrologia mantiver seu desequilibrio pelos proximlos meses, e beml capaz de pagannos por essa im~prudencia em 2003, sojiendo novo racionamento punitivo para comlpensar a cardnciar dos vizinhos. Comt o apolo e a cortina de firmaga do nosso governor. CO nt rato SEm 1996 a Secretaria da Fazenda assinou um contrato de locadio de carro com a Braz & Braz no valor de 223,5 mil reais. Nesse mesmo ano o contrato foi aditado tres vezes, para um pequeno acrescimo de valor e prorrogaglio de prazo. Desde que en- trou em vigor, o contrato ja foi adita- do 18 vezes, a uiltima delas para es- -tende-lo por mais meses, ate margo. Sem examiner o contelido desses aditivos, o que me perguntoei se cabe uma nova prorroga~go depois de completados cinco anos do contrato, limited estabelecido na legislagilo a CObre De m~ius daijs can .1 calall ihle~na Codel~ les a Comlpjnhu ne~rado~ra de iibre noChile du qlual a Eiw~n Mlobll t al we Jewr\nr um1 blhilh,1 Je Julare-. umT quarlo Jo. que~ cusilu jo conso~rcle pn- t odo pr? C adquirerlll nol Br3l a co-lnt role aionatio 1Jo propyria C\'RD, cu~llost~ quandoi ivomegar a pro~dullr n:1 mnll JoI 'sessego. eml ouiroj qua10ro mpree~ndamenies posiiesi na proud ncia mine~ral paraense N;1io e njda Ilmputate~ll Imaglnar a \ale cheganlll o JoI 11ml Ja jecada comel~ uma~ do malores emnpresas Jo~ ,elor ro B ra- sI il nre 0,~ Irres malo~res expona~dores de cobre. algo simnple>- .0l c]ue P-lr'cei.~ Io Para 31nda mei *r Jeu co~nia de que am ma insistun; 10 pcoJIa \o incumblr Je e>alar 1?> dedesI purJ o> pard en\es Jepr~ipcnlem para a rlidullJell. promotndO\'jC umn 52eminanoC que Introduiria1 II\ nallior no miundo Je-ss metal whloie qlue rlLlorl, sintoma~jli~ncameme Parlce hale~lr ncomlrade umaj cur\3 em was. n~io querem parillhar estr co~nhecominenio Come dl/ uma~ m1usli cla (Je eldol \.lndre. "quemir \Jbe l'z a holra njio expra .Irconlcr'~" Esta na hlard Jc' cania-la, idlodJICammeI I fa.lando we~ Pelllrmlem a~ neoloismo~lh. |
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