Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00224

Full Text





































































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que subiu para o 3" piso. O Estado manteve
essa condig8o em 1996. No ano seguinte,
porem, calu mals, para o 5" lugar, superado
desta vez pelo Acre. De 1997 ate 1999 o
Para estacionou como o quinto PIB per ca-
pita amazinico, a frente apenas de Roraima
e do Tocantins, mas a renda de cada para-
ense, de RS 2.705, se distanciou da media
da regiio, de R$ 3.380, principalmente por-


que mais do que duplicou no period o que
coube a cada amazonense, R$ 5.577.
Em 1999, segundo os dados da FundaFio
IBGE, divulgados no mis passado, o Para~
ocupava apenas a 20" posigho (em 27 possi-
veis) entire os PIB/per capita estaduais do
pais. Em terms de valor bruto do Produto
Interno, o Estado era o 13% da federaqio,
participando com 1,71% do PIB national. Era )


.0.. ~ m 1994, o Para~ tinha o terceiro
; melhor PIB (Produto lnterno Bru-
:"' to) per capita da Amaz~nia, supe-
rado apenas pelo Amazonas e o
..I Amapa. O PIB per capita regio-
nal, de 1.574 reais, era, entio, apenas ligei-
ramente superior ao do Estado, de R$ 1.509.
Em 1995, o Para desceu um degrau, para o
4" lugar, trocando posi~go com Rond~nia,


5

a~Ssg.S
5d 7~


Ornal Pessoal
L Uj C IO F LAV I O P IN T!O
ANO XV NP 274 1a QUINZENA DE JANEIRO DE 2002 s R$ 2.S0 .

PARA


O trem esta passando


Apesar do seu enorme potential de crescimenzto, o Parai estd ficando para tras na corrida do
trem da federagd~o brasileira. Os recursos naturais permitem que a massa de riqueza crespa,
mas os paraenses nd~o tedm acesso aos seus beneficios. E o que revelam as estatisticas
diuulgadas no mds passado pelo IBGE.









2 JOURNAL PESSOAL Ia QUINZENA DE JANEIRO/ 2002


regimes hegemi~nicas. O Sudeste caiu de
58,83% do PIB national para 58,25% entire
1990 e 1999, enquanto a contraqio no Sul
foi de 18,21% para 17,75%. Aproveitando-
se dessa transferincia cosmetica, o Centro-
Oeste pulou de 5,16% para 6,44% c o Nor-
deste, de 12,86% para 13,11%. O Norte fi-
cou 6~rf'ao nessa corrida: baixou de 4,94% do
PIB brasileiro para 4,45%.
Mesmo havendo maior massa bruta de
riqueza gerada pela atividade econ~mica,
alem de sua reparti~go ser concentrada, sua
ma aplicaqio acarreta indicadores socials
desastrosos. Tris dos principals sio os pio-
res do pais. Enquanto a mortalidade infantil
no Brasil caiu de 44,3 em cada mil nascidos
vivos em 1990 para 34,6 em 1999 (9,7 pon-
tos percentuais), a redughio na Amaz~nia foi
de 40,7 para 34,1 (ou 7,6 pontos percentu-
ais). Praticamente nio houve melhoria nos
servigos de agua, esgoto e lixo nos domici-
lios urbanos: o indice na regiio passou de
13,1% para 13,6%, enquanto a evolugho no
pais foi de 53,8% para 62,3%. Quanto ao
analfabetismo funcional, todas as regimes o
reduziram em propor~go maior do que o
Norte, mesmo o Nordeste (quase 9 pontos
percentuais contra menos de 5 da Amaz6-
nia), que tem ainda o maior valor absolute
na modalidade (nada olimpica).
Os paraenses vesgos podem continuar a
fazer festa para alguns nuimeros brutes, que
sho capazes de proporcionar belas manipu-
laqdes em publicidade official. Pelo critbrio
de participaglo bruta na riqueza national,
colocados em 13" lugar, somos os lideres
regionals, um degrau acima da metade na
escada federativa, que tem 27 patamares.
Mas para entender realmente o que isso
significa, e bom sempre lembrar que, demo-
graficamente falando, o Para 6 o 9" Estado
brasileiro, com o dobro da popula~go do
Amazonas. Quando se relativiza a riqueza
pelos habitantes, caimos da 13" para a 20"
posi~go, jd ai fazendo parte do terceiro Bra-
sil, o mais pobre. O Amazonas, qlue esta em
14" lugar no PIB total, sobe para 8" pelo cri-
terio de PIB per capita. O Mato Grosso, de
15" sobe para 11". Rond~nia, que esti em
22' por volume, salta para 12" posi~go em
terms relatives.
Todos os demais Estados amaz6nicos, ex-
ceto Tocantins (com ligeira queda, de 24"
para 25") tim, nesse particular, que e o mais
important, comportamento melhor: Amapa
(25' e 14" lugares), Acre (26' e 188) e Rora-
ima (27" e 22"). Isto quer dizer o seguinte:
n51o e s6 o trem de Carajas que esta levando
nosso minerio para al~m-mar, aqui deixando
apenas seu apito e o buraco na terra (e a sus-
peita gl6ria do segundo maior superavit na
balanga comercial)do pais). e tambem o com-
boio da federaqio que estb se distanciando,
deixando-nos para tras. Cheios de propagan-
da e vazios de realidade.


uma posi~go superior a registrada em 1985,
de 1,52%, mas naquele ano o Para estava na
12" posigio, tendo sido superado por Goias,
Sempre e bom nho esquecer que a populagio
paraense e a 9" maior do Brasil.
Bem interpretadas, as estatisticas do
IBGE referentes ao Pari s6 lhe dio algum
motive para comemorapho quando a situa-
Flo e vista apenas internamente e por uma
6tica meramente quantitativa. Feitas as com-
paraq~es e correlaq~es, constata-se que, se
de fato o Para cresceu entire 1985 e 1999,
cresceu menos do que os demais Estados.
Perdeu peso relative no period, nlo apenas
no conjunto national, mas no ambito regio-
nal mesmo. Os numeros mostram que, se for
mantido a forma atual de crescimento, a mas-
sa da riqueza gerada no Estado continuara a
se incrementar, mas sem beneficiary a sua po-
pula~go. Um modelo perverse e excludente.
O paraiso dos colonizadores, o inferno dos
colonizados. E o purgatbrio da elite que me-
deia essa rela~go.
Quem quiser atribuir esse desempenho
negative ao governor Almir Gabriel terA
chumbo grosso suficiente para municiar sua
artilharia. Os principals indicadores soci-
ais e economicos pioraram de 1995 para
ca, inclusive o mimero que mais agrada a
atual administra~go, a melhoria da arreca-
dagao pr~pria (fato incontestavel em ter-
mos absolutes, mas nlo relativamente a
outros Estados mais dinfimicos, como aqui
ja se mostrou). E evidence, por~m, que a
causa desse desequilibrio nio esta propri-
amente no que o governor tem feito de erra-
do, mas no que nho fez de certo. Ou da com-
binagho de ter endossado um modelo eco-
nomico voltado para o crescimento do bolo


de riquezas, mas nio para sua partilha, e
fazer de conta que esse resultado esta de
acordo com as melhores expectativas lo-
cais. A voz do governor passou a ser a voz
do donor. No caso, donor do grande projeto,
do enclave, da visio colonial.
E o modelo geral adotado para a Amaz6-
nia, com a exclusao parcial do Amazonas, um
temeratio ensaio de industrializagilo a titulo
precario, que apresenta desempenho muito
melhor no memento, mas cujo carter de tran-
sitoriedade pode vir a ser fatal. Como as mais
refinadas estatisticas do IBGE nho deixam
duivida, Mato Grosso e Amazonas foram os
Estados mais favorecidos pela pequena des-
concentraqio do poder economico da region
Centro-Sul, sobretudo de Sgo Paulo, O Ama-
zonas na vertente industrial e o Mato Grosso
comn o brago agropecuario.
Mas enquanto Mato Grosso conseguiu ar-
rastar consigo o Centro-Oeste, a regilo de
melhor desempenho no period, o Amazo-
nas, pela pr6pria 16gica da Zona Franca, nho
conseguiu espraiar suficientemente os efei-
tos inibidores dos enclaves exportadores cra-
vados em territ6rio paraense. Nem mesmo foi
capaz de se estender ao restante do territorio
do Amazonas, omais extension de todos os Es-
tados brasileiros, concentrando em Manaus
metade de sua popula~go e mais de 90% do
seu PIB. O resultado e que Norte e Nordeste
estio se distanciando das outras regimes como
o locus do subdesenvolvimento estruturado
e da fronteira colonial.
O pior, para n6s, 6 que ao long da deca-
da de 90, fomos a tinica regiso periferica que
teve diminuido sua participa~go na riqueza
national, deixando de nos beneficiary da pe-
quena redugio de tamanho das tradicionais


Estagio portubria

Em 2000 o governo do Estado gastou 154 mil reais para fazer do primeiro ri~veillon da
Estapho das Docas a melhor festa de fim-de-ano de Bel~m, inesquecivel para as 40 mil
pessoas atraidas por fogos, dangas, muisica e flores para a polbmica e cara (20 milh~es de
reais, s6 de verba estadual) obra concebida e executada pelo arquiteto Paulo Chaves Fer-
nandes para a administration Almir Gabriel.
Em 2001, o tIltimo reveillon antes da elei~go geral deste ano, o mesmo governor nho
soltou um tostio dos cofres pilblicos para a festa. E s6 aceitaria ceder os galpdes de ferro
climatizados e envidragados se os seis inquilinos sobreviventes no armazem da gastrono-
mia se dispusessem a pagar 16 mil reais para a Parai 2000, a Organiza~go Social criada e
composta em circuit fechado e a dedo pelo secretirio Paulo Chaves. A justificativa e de
que, para efeito interno, a segunda-feira corresponde a feriado para a Esta~go, que normal-
mente fecha nesse dia. S6 abriria com o pagamento dobrado das despesas, como se 31 de
dezembro nio fosse um dia excepcional no calendirio, embora rotineiro (para o mundo
externo e para efeito legal, nio e: feriado).:
Resultado: o mais novo e mais badalado "cartio postal" da cidade ficou fechado e as
escuras, enquanto no mundo inteiro esses locals aproveitam nio s6 para faturar o movimento
commercial especifico (e altamente renti~vel), mas o efeito promocional da data. Em materia de
turismo, em qualquer lugar do mundo, uma verdade acaciana. Mas nio em Belem do Para.
Cumpre, portanto, rever a existincia da Esta~go das Docas, da sua feitora, a estranha
OS Para 2000, e as verdadeiras intengbes do seu principesco criador. Sensro, os artistas vio
continuar a se acabar por aqui. Os turistas, tambem.





la QUINZENA DE JANEIRO/ 2002 3


JOURNAL PESSOAL


teiro, quica o mundo, tem visto serem pratica-
das contra o M. S. T.". Ou seja: que a prefeitura
nao cometesse contra a empresa os excesses que
critical quando vergastam os costados do movi-
mento dos sem-terra, seus aliados.
Dos excesses cometidos tanto pela adminis-
traqio municipal quanto pelo governor estadual
podiam ter resultado mais do que escoriaqdes
generalizadas entire os envolvidos nas cenas de
violencia e atrabiliariedade. Tudo isso por con-
ta de uma area de 2, I mil metros quadrados, sem
qualquer outra benfeitoria particular que nio
portio e muros, na confluincia de uma rua ja
existente com uma praga em formaqio, para os
quais seria o prolongamento natural e pacifico
se houvesse acatamento ao interesse publico e
boa vontade entire as parties.
A Sanave podia muito bem renunciar as suas
expectativas de direito sobre a area em troca de
alguma compensagio, material ou simb61ica, e
estaria aderindo aos compromissos sociais de
uma empresa modern, que ja nio pode ser mais
apenas lucro. A prefeitura podia renunciar aos
dividends politicos do litigio em proveito da
celeridade de uma providencia que comegou em
1993, quando o prefeito era Helio Gueiros, o
antonimo de Edmilson Rodrigues. O SPU devia
ter descido de sua incontinencia burocratica e
arbitrado uma negociaqio amigavel.
Mas nada disso foi feito. A demand teve seu
desfecho como 6pera-bufa: a prefeitura, preterin-
do a lide, partiu diretamente para o decreto de
desapropriaFio do terreno por motive de utilida-
de puiblica, credenciando-se a imissio imediata
na area e presumindo haver apenas o direito de
ocupa~go e nio de dominio sobre a ela, transfe-
rindo para administraC~es posteriores mais um
precatorio e o 6nus do risco pendente em torno
do valor da indenizaCio, quando nem indeniza-
pio devia haver se entire os oponentes houvesse
um denominador comum: a causa puiblica.
Mas quando nem esse elementary elo de am8l-
gama institutional e capaz de sustentar uma a~go
comum entire a prefeitura e o governo estadual
para garantir os 10 milhdes de reais do Projeto
Monumenta reservados para o centro hist6rico
de Belem, o espago se tornou propicio para a
prolifera~go de predadores e parasitas, a sombra
dos dois chefes de rixa em qjue, sob esse aspec-
to, se tornaram a prefeito Edmilson Rodrigues e
o governador Almir Gabriel.
Advertidos de que s6 em conjunto podiam se
credenciar a receber os recursos do BID (Banco
Intermaericano de Desenvolvimento), cada uma
das parties tentou passar a perna na outra, man-
dando em surdina seu proprio projeto. A tipica
busca da solu~go atraves do "Ijeitinho", que es-
barrou nas inflexiveis regras da institui~go finan-
ceira, estabelecidas comn base num acordo de ca-
valheiros entire parties nada cavalheiras. Elas pre-
ferem travar uma guerra sem quarteis, suja, des-
gastante. O cidadio pode tirar proveito, desde que
se enquadre em uma das duas turmas, doidivanas
em sua competi~go, esquecidas de que estio onde
estio para servir, nio para servir-se.


Os portugueses construiram Belem como
uma cidade medieval, voltando-a para dentro e
fazendo das pragas centrals o element mais im-
portante da paisagem urbana. O rio foi esqueci-
do pelos construtores, exceto como umn elemen-
to de agressio e de mas surpresas, trazidas pelos
invasores indesejados. Para dar-lbes estrondosa
receppio, literalmente falando, existiam as for-
tificaqdes, sentinelas na contra-mio do sentido
da nucleaC51o humana, apenas para efeitos mili-
tares, os dominantes em quase todo o period
colonial.
Dessa inversio se aproveitaram sempre os
espertos e audaciosos. A capital regional plan-
tada as margens de um dos mais originals estua-
rios do planet foi perdendo a identidade ou a
afinidade com essa aranha hidrografica, rendi-
lhada de ilhas, permeada por miriades de curses
d'agua. Foi assim que esta cidade amazonica
acabou emparedada por trapiches, atracadouros
e ports privatizados ilicitamente, uma muralha
de agressio legal que s6 recentemente comegou
a ser vazada por timidas "Ijanelas para o rio", em
moldura de vidro climatizado, a maneira dos
chaves & gabriel, ou em tranga de palmeira, con-
forme o diktat dos rodrigues & junior.
No ritmo atual, essas modestas frestas s6 se
transformario em varandas visuals em muitas de-
cadas ou alguns seculos. Ngo basta aproveitar a
perda de fungdo de al guns dos elements dessa
paligada para converti-los de butim particular
em usufruto coletivo. A nova plastica de Belem,
com efeito mais funcional do que apenas embe-
lezador, requer a intervenqio ciruirgica da admi-
nistraqio publica, utilizando seu poder de poli-
cia para ajustar as coisas, tio desajustadas elas
ficaram em longos anos de ignominia privada e
omissio (ou conivincia) governamenrtal.
Os dois poderes puiblicos com jurisdi~go so-
bre a capital dos paraenses fizeram essa inter-
venqio no mis passado. Estado e municipio agi-
ram simultaneamente na area ocupada pela Sa-
nave, no prolongamento do porto de Belem. Mas,
como ja e de praxe, chocaram-se mutuamente.
O Estado recrutou tropa da PM e da policia civil
em favor do particular, enquanto a prefeitura
mobilizou sua guard municipal e a militincia
petista para p~r abaixo o alegado patrimi~nio
desse particular, que nio era um aninimo, em
nome dele se movimentando a deputado Cipria-
no Sabino, aliado do governador Almir Gabriel,
comandante-em-chefe da policia estadual.


O que devia ter sido o cumprimento de uma
decisio judicial transformou-se em mais uma
arenga entire inimigos politicos, que se extrema-
ram em seu antagonismo, perdendo contato com
os dominios da 16gica, da razio e do bom sensor,
para nio falar do que devia ser o m6vel de suas
agaes: o interesse coletivo.
A instrugho do conflito entire a Sanave, em-
presa de navega~go da familiar do parlamentar, e
a PMB revelou que a area ocupada pelo particu-
lar e, de fato, bem ptiblico. Por ali devia passar
a Travessa D. Pedro II. Devia, porque parou na
sua ultima transversal antes da baia do Guajara,
a avenida Pedro A~lvares Cabral. Foi secionada
arbitrariamente por particulares que se sucede-
ram, registrando essa sucessio em cadeia domi-
nial, como posseiros em area de marinha, sob a
jurisdigio da Uniio, mas com direito a papel
passado em cartorio, tal qual dons de verdade.
Todos falharam nessa histbria. A prefeitura,
porque se acomodou com a extirpa~go da uiltima
quadra da rua (que deveria ser a primeira, em fun-
950 do sentido da numeraqio dos im6veis, toman-
do o cursor d'agua como referencia). Os particu-
lares, por terem se apossado de fato do terreno,
sem completar sua legalizaqio. O SPU, represen-
tante da Uni~o, por ter dormido sobre o process,
satisfeito com suas meras formalidades.
Mas se nio ha direito absolutamente positi-
vado, e sim pretensdes de direito, deve prevale-
cer o interesse coletivo, que 6 o de impedir a
apropriaqio indevida de bem do patrimonio co-
letivo da cidade. Logo, a prefeitura esta com a
razio, como lhe reconheceu o juiz federal que
apreciou a demand.
Escrevendo quase i margem de sua senten-
ga, favoravel a um dos recursos da PMB, justa-
mente o que reconheceu a justiga federal como
unico foro competent da questio, o juiz em
exercicio da 14' vara penal de Belem, Altemar
da Silva Paes, um dos que se manifestaram so-
bre a pendincia nos varios incidents judiciais
suscitados, foi ponderado, previdente e ir~nico
no comentario que aduziu a decisio. Sentiu-se
obrigado a eselarecer que sua decisio "nio deve
set interpretada no sentido de autorizar a reque-
rida [a PMB] a proceder no seu poder de poli-
cia, que se vier a fazer, corre por conta finica e
exclusive da discricionariedade da Administra-
gio Pilblica, recomendando-se para tanto o bom
uso da cautela, para que nio ocorram cenas de-
gradantes de viol~ncia, como as que o Brasil in-


aPenas um campo


de b at a h a









4 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE JANEIRO/ 2002







Xingu: o 20 capitulo


Muito pelo contrairio: os Eias-Rimas da funda-
Cao para as hidrovias Araguaia-Tocantins e Ta-
paj6s-Teles Pires foram rejeitados judicialmen-
te, por complete inconsistincia.
Albm da ausancia de licitapho, o MP fede-
ral apontou mais duas faltas cometidas pela Ele-
tronorte: os estudos ecolbgicos sopoderiam ser
realizados depois de previa autorizaqio do con-
gresso national, que nlo foi consultado, e a
competincia para esse tipo de licenciamento
seria do orgio ambientalista da Uniso, o Iba-
ma, e nho da secretaria estadual do Parg, a Sec-
tam, aonde o process vinha tramitando, ja que
o Xingu banha o territ6rio de dois Estados, o
Pard e Mato Grosso.
Atingida por esse duro golpe, a Eletronor-
te anunciou que prosseguira na justiga a defe-
sa de suas teses, que deram respaldo ao gasto
de mais de quatro milhdes de reais atraves do
conv~nio com a Fadesp para a elaboraqio do
Eia-Rima. Mas as possibilidades de que ve-
nha a derrubar a decision ja adotada sho mini-
mas. Por isso mesmo, a empresa tomou uma
iniciativa ainda mais drastica: anunciou, de
suibito, a suspensso temporaria de suas opera-
96es em Belo Monte, desmobilizando os 35
tecnicos e servidores que atuavam no escrito-
rio da empresa em Altamira.
O anuncio foi a senha para mobilizar seto-
res locals em defesa da obra para fazer frente
aos critics do projeto da Eletronorte, exata-
mente como ocorreu na primeira batalha, em
1989. A estatal acusa os ambientalistas de ra-
dicais, insensatos e instruments de interesses
estrangeiros. Garante que o retardamento pro-
vocara prejuizos a economic da regiso e do
Estado, alem de pesar sobre o equilibrio nacio-
nal da oferta e consume de energia. Alerta para
a perda das oportunidades de emprego e renda
que resultariam de um investimento de 6 bi-
lhaes de d61ares. Numa 6poca de crise, esse dis-
curso e um aut~ntico canto de sereia.
Independentemente do desfecho desse novo
capitulo do contencioso em torno de Belo Mon-
te, o episddio tem sentido pedag6gico para
quem estiver disposto a dele tirar boas liqdes.
Ficou claro que, pelo menos em rela~go a obras
de grande porte, a avaliaqio do seu impact
ecol6gico deve ser feita numa instincia neutra,
arbitral, independent. O realizador da obra re-
colheria uma determinada taxa para a forma-
950 de um fundo, a ser administrado pelo Iba-
ma.
O institute elaboraria os terms de refer~n-
cia e organizaria a licitagio pxiblica para a con-
tratagio do agent que assumiria a responsabili-
dade pelos estudos ecol6gicos. O trabalho fica-
ria acessivel a todas as partes interessas ou en-
volvidas, inclusive a empresa, num process no


dir que fosse dado o tiro de largada do plano
global. Conseguiram.
A Eletronorte ainda tentou convencer a opi-
nilo puiblica de que nio iria al~m da hidreletri-
ca de Belo Monte no vale do Xingu, e que dela
tiraria toda a energia necess~ria para cobrir as
necessidades do pais por algum tempo, ao me-
nor custo do kw instalado. Mas a primeira ba-
talha estava perdida. O Bird cancelou toda a
linha de financiamento para hidreletricas na
Amaz~nia. A Eletronorte desviou a dire~go das
suas baterias para a duplicaqio da capacidade
de geraqio de Tucurui, ji em fase final.
Mas retomou a plena carga as presses, es-
timulada pela crise national de abastecimento
energetico, que imp6s o "apagFio". Reapresen-
tou o projeto original com um novo perfil. Ao
inves de represar o Xingu em sua pr~pria ca-
lha, na grande volta que o rio da logo depois de
Altamira, inundando-a, se propunha agora a
desviar a Agua por dois canals laterals, diminu-
indo 9 metade a area do reservat6rio, de 1.300
para 650 km2 (menos de um quarto do tama-
nho do lago de Tucurui). Apenas uma pequena
comunidade indigena poderia ser afetada, ain-
da assim indiretamente. O alagamento provo-
cado pelo represamento coincidiria com a
abrang~ncia das inundaqbes anuais do Xingu.
A u~nica mudanga seria que, a partir da constru-
950 da represa, as aguas n5ho voltariam B posi-
950o original do period de vazante.
Desta vez, nho foram os indios que blo-
quearam o andamento do projeto, mas o Mi-
nisterio Publico Federal. Sensibilizados pe-
los arguments de entidades civis, procura-
dores regionals da Re-
pliblica acabaram con-
seguindo sustar na justi-
ga o andamento do proces-
so de licenciamento ambien-
tal da obra. A justiga federal
acolheu os arguments do MP
sem entrar no merito da questio.
Ficou nas preliminares, tio con-
vincentes elas erant
Para liberar a construgbode
um complex hidreletrico
que, com a linha de trans-
missio associada, para o
centro-sul do pais, exi-
gird o equivalent a 6
bilhdes de d61ares (quase 15 bilhbes de reais), a
Eletronorte entregou o Eia-Rima (Estudos de
Impacto Ambiental-Relati~rio de Impacto Am-
biental) a Fadesp, a fundagiio de pesquisa da Uni-
versidade Federal do Para, com sede em Bel~m.
Fez contratagio direta, sem licitagio pilblica,
baseada no pressuposto de uma notbria compe-
tincia que, na verdade, a Fadesp nio possuia.


engenheiro maranhense Jos6 Anto-
mel Muniz Lopes, atual president
c1a Eletronorte, pode estar testemu-
nhando a segunda derrota na em-
preitada de construir, no baixo cursor do rio Xin-
gu, no Parai, a quarta maior hidrel~trica do mun-
do. Ha 12 anos, quando era director da empresa,
Muniz Lopes foi surpreendido pelo facio que a
india Tuira esgrimiubhem perto de seu rosto, num
teatral gesto de hostilidade, contra o prop~sito
da empresa, de barrar o grande rio para gerar 1 1
milhaes de quilowats de energia, quase tanto
quanto Itaipu. Foi o ponto alto do I Encontro
das Naqbes Indigenas do Xingu, em 1989, reu-
nindo, durante nove dias, na Transamazo~nica,
quase 600 indios. Unidos contra a hidrel~trica.
A foto, que circulou pelo mundo todo, foi a
Bastilha da Eletronorte. Embora a empresa es-
tatal exibisse nuimeros atestando as vantagens da
usina de Belo Monte sobre praticamente todos
os outros aproveitamentos energeticos em pers-
pectiva no Brasil, exceto Xing6, no Nordeste, a
esgrima de facho de Tuira causou mais impact.
Ela arrematava iniciativa de alguns meses antes
dos caciques kayap6 Paulinho Payakan e Kube-
i. Ciceroneados pelo etnobiblogo americano
Darrell Posey (recentemente falecido), eles fo-
ram a sede do Banco Mundial, em Washington,
torpedear o pedido de 250 mithbes de d61ares
para o program energt~tico brasileiro, acusan-
do-o de destruir a natureza e violar os direitos
dos habitantes natives da regi~o.
O impact direto da barragem de Belo Mon-
te era relativamente pequeno, afetando apenas
550 families (200 das quais de indios), em uma
area equivalent a metade
do reservat6rio da hidre-
letrica de Tucurui, a primei-
ra de grande porte da Amazo-
nia. Mas os efeitos das duas ou-
tras barragens complementares, a
serem construidas para acumular
agua e regularizar o regime do rio,
seriam desastrosos: elas inundariam
6.500 quil~metros quadrados, o
dobro da grea do maior lago ar-
tificial do mundo, o de Sobra-dno noNret. as

Alem disso, no restan-
te da bacia do rio Xingu
viriam a ser instaladas
mais cinco usinas, provocando o alagamento
de 14 mil quilbmetros quadrados em uma das
regimes mais ricas e complexes da Terra. Quan-
do todo o aproveitamento do rio estivesse con-
cluido, tribes indigenas distantes mil quil6me-
tros de Belo Monte seriam prejudicadas. Ante-
cipando-se, elas mandaram aguerridos repre-
sentantes ao encontro de Altamira para impe-








JOURNAL PESSOAL l= QUINZENA DE JANEIRO/ 2002 5






da novela hidreletrica


qual seriam sempre possiveis a consult, o dia-
logo e mesmo a controversial. A empresa sujeita
ao licenciamento fomeceria as informaqbes e
poderia questioner a qualidade dos estudos, mas
na condigiode terceira interessada-e no, como
agora acontece, de dona dos resultados.
Grande parte dos Eias-Rimas tem sentido
meramente utilitbrio. O contratado, de alguma
maneira, acaba fazendo exatamente o que quer
o contratante. A sociedade civil, convocada para
auditncias pdiblicas, tem um poder de interven-
Fgo limitado, inclusive por sua pouca informa-


Fgo sobre o tema a ela submetido. O 6rgio p6-
blico intervem apenas formalmente, ou, em ge-
ral, para sacramentar uma decisio previamen-
te acertada. O process e, por esse aspect, tio
nominalmente democritico quanto essencial-
mente inconsistent.
Talvez por isso, a Eletronorte imaginou con-
seguir o apoio da sociedade local, que antes
lhe faltara, contratando a universidade estabe-
lecida na area, ao invest de recrutar empresa es-
pecializada ou institui~go de fora, mesmo (ou
sobretudo) nho estando essa universidade tec-


nicamente habilitada a desincumbir-se da tare-
fa, que seria mais de relaq8es pliblicas do que
exatamente de ci&ncia.
A interveni~ncia do MP federal, endossada
pela justiga, tirou a eficacia dessa estrategia.
Na melhor das hip6teses, a Eletronorte vai ter
que recomegar tudo do principio e talvez pre-
cise devolver os R$ 4 milhdes considerados in-
devidamente aplicados. Se isso realmente acon-
tecer, ficara a questio: como sera~ a terceira
batalha da guerra pela quarta maior hidrel~tri-
ca do mundo?


O risco Jatene

S6 um imprevisto permitira uma nova mio Jatene estando present (por pouco
tentative de entendimento entire o governa- tempo, alias, como de habito).
dor Almir Gabriel e seu vice, Hildegardo Os campos ja estio delimitados. O
Nunes. No unico encontro que tiveram para governador trata como inimigo o alia-
tratar da questio sucess6ria no governor do do de ontem, que reagiu a sua ordem
Estado, no mas passado, um ficou rouco de de apoio a Jatene. Embora sendo cI-
tanto tentar ouvir o que o outro se recusou a vil, o governador tem das ordens uma
dizer. O governador esperava que o vice ao concep~go estritamente military: dada
menos procurasse justificar sua insistdncia por quem pode, e para ser obedeci.
em contrariar a vontade do chefe e ser can- da por quem tem juizo, e pronto.
didato a sua sucessgo, mesmo sabendo que Numa noite em que cumprimentou
ele jB tem um candidate em plena campa- efusivamente todos os seus auxili- )r
nha, o secretario especial da produ~go, Si- ares convidados para o encontro,
mio Jatene. JB a expectativa de Hildegardo Almir cedeu apenas a gelida pon-
era de que Almir o liberasse para seguir o ta de dedo para o secretario de
pr6prio caminho, mantendo uma certa cor- administra~go, Carlos Kayath,
dialidade em suas relaq~es. ignorando-o a partir dai. Carlos
O dialogo de surdo e mudo s6 fez acirrar a e o pai, o ex-superintendente da Su-
ma vontade entire ambos. Em conversas reser- dam, Henry Kayath, controlam o PTB, que fez
vadas e mesmo ja em atos publicos, como no parte da Uniho pelo Para na ultima eleigio ma-
jantar oferecido ao deputado A~cio Neves, joritaria, mas agora esti endossando a candi-
presidente da Climara Federal, Almir trata datura dissidente (e ja agora declarada inimi-
Hildegardo de traidor, num tom cada vez mais ga) de Hildegardo Nunes.
agressivo. Na reuniko de confraternizagio de Como ja esti acontecendo com o vice,
fim de ano do primeiro escalho, o governador despojado de todas as franquias antes con-
se referiu, com ironia, a combina~go do pai, cedidas B fungho, o secretario tamb~m vai re-
"que ja teve voto" (o ex-governador Alacid ceber tratamento hostile dentro da equipe. O
Nunes, que nio conseguiu se reeleger deputa- chefe espera que ele interpreted dessa situa-
do federal, abandonando a carreira political gio a indicaqio de que sua presenga e ape-
com o filho, "que nunca teve voto" (Hildegar- nas suportada, masqcue todos os ex-colegas
do (n90 conseguiu se eleger deputado estadu- ficariam felizes em dispensa-la. E isso, tal-
al na tinica eleigio da qual participou). vez porque ainda haja uma esperanga de que
O governador aproveitou a ocasido para a dire~go national do PTB, caso murche a
enfatizar seu direito de escolher o candidate da candidatura de Ciro Gomes g presid~ncia da
coligag~io situacionista para disputar sua suces- reptiblica, em alianga com o PPS, acabe vol-
s~o, "com base no um milhio de votos que re- tando a coliga~go estadual liderada pelo
cebi". No entanto, quando a secretaria executi- PSDB, endossando Jatene e rifando Hilde-
va de educaqio, Izabel Amazonas, pediu a pa- gardo. Ngo sem uma compensa~go, 6 claro.
lavra para assegurar que o candidate do PSDB Mas essa hip6tese, nio de todo desearth-
"serbi o pr~ximo governador", seu discurso foi vel, 6 tso improvilvel quanto Simio Jatene con-
recebido em sil~ncio, sem palmas, mesmo Si- seguir empolgar atC mesmo seus correligio-


n~rios tucanos. O secretario especi-
al, que nho cultivou a simpatia
alheia em seis anos de govemno, nlo
ii'" pode colher agora o entusiasmo de
seIrrceiros, nem mesmomitemamen-
te, seja no partido como na admi-
nistraqio puiblica. Seu nome 6 to-
lerado e serd trabalhado enquan-
lo a voz de comando de Almir
\Gabriel tiver forga e tamb~m
enquanto ele puder apresentar
provas da factibilidade de vit6-
1ria de um candidate unanime-
mente considerado problemati-
Sco eleitoralmente; o que, at6
::\ agora, nho fez.
Jg com significativos apoi-
os na elite empresarial e po-
litica, Hilde- gardo decidiu assumir defini-
tivamente sua candidatura acreditando que o
nome imposto pelo governador, do alto do
seu milhio de votos, serai corroido por den-
tro, a media que o tempo passar, desgastan-
do o poder de mando de Almir, principalmen-
te se sua pr6-viabilidade eleitoral nio for
demonstrada. Se isso ocorrer, dever8 haver
deserq8es na nau tucana, explicitas ou nhio,
assumidas ou camufladas.
Caso fique provado que desta vez a miqui-
na official ngo serrb capaz de arrastar um poste
para o topo da votagio, tamb~m o caixa secre-
to da campanha altemativa, inimiga ou oposi-
cionista, comegar aareceber maiores contribui-
95es. Sera aquele raro memento em que o go-
vemo poderd perder num Estado cuja pobreza
6 o terreno fbrtil para o fisiologismo. Mesmo o
govemador estando com todas as redeas na mio
para usa-las em favor do seu delfim, um aut&n-
tico estranho no ninho buscando a aclimataCio
ao ambiente com a graciosidade de um rinoce-
ronte dangando o minueto.








G JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE JANEIRO/ 2002


se tratava de um ardil para me imobilizar, ndzo
consegui serenidade suficiente para dissoci-
ar o politico, que logo depois voltaria a ocu-
par um cargo puiblico, o de prefeito de Be-
16m, do missivista torpe.
Fiquei demasiadamente 21 distincia dos
seus quatro anos na PMB, preocupado em
evitar um incident danoso para os envolvi-
dos, incluidos os s6 relacionado circunstanci-
almente (mas que, parents ou aparentados,
foram contaminados pela baba f~tida daquela
carta triste). O prejuizo s6, nio foi maior por-
que jb entio eu contava com os anos de expe-
ri~ncia e aprendizado, mais o patrim~nio das
boas fontes, que s6 o tempo permit acumular
no jornalismo, al~m de atuar mais como ana-
lista do que reporter de rua, fazendo imprensa
que nio era mais didria.
Considero-me feliz beneficiario de uma
regra de ouro ao long da carreira: os pode-
rosos de ontem, que eventualmente me trata-
ram mal, sentindo-se incomodados por mim,
passaram a ter um trato muito mais cordial
quando perderam uma parte, grande parcela
ou todo o poder de que desfrutavam. Se nio
eram ocos e se nio tinham da coisa pxiblica a
visio de meros pirates, as subidas e descidas
impostas pela gangorra do poder lhes permi-
tiram encarar de forma menos restritiva e em-
pobrecedora o significado de uma imprensa
critical. Como nunca exigi dos meus interlo-
cutores ter as minhas id~ias e opinides, o
contato a partir dai se tornou mais estimula-
dor, ao menos intelectualmente falando. Cito
como exemplos Aloysio Chaves, Jarbas Pas-
sarinho e Jose Lopes Oliveira.
A sociedade precisa contar com um jorna-
lismo verdadeiramente independent, capaz de
errar nio por deliberaqio perverse, para al-
cangar fins ilicitos, mas por querer contribuir
para desfazer erros, corrigir rumos ou punir
os responsiveis por tais desvios, dando fim
positive ao seu quarto poder. O jornalista cri-
tico nio 6, s6 por isso, um inimigo, um estor-
vo, uma pega inc~moda a ser eliminada do
tabuleiro da vida pilblica. O melhor do jorna-
lismo consiste na sua capacidade de provocar
respostas a partir das quest~es e temas que
suscita, sobretudo os assuntos indesejiveis,
aquele sujo que os responsiveis pela limpeza
gostariam de colocar debaixo do tapete, ou os
esqueletos insepultos que os coveiros preferi-
riam guardar no armbrio.
Por outro lado, um jornalista combative
nio deve ver num home publico que erra
apenas a personificaqio do ladriho, do apro-
veitador, do manipulador. A sociedade se
adestra na controversia, consolidando sua or-
ganiza~go democritica, quando o criticado
se confront civilizadamente com o critic -
e este 6 capaz de rever suas critics atravts
do dialogo esclarecedor com aquele que 6 o
"outro lado", mas nio necessariamente o
oposto. Quando e onde, por~m, isso 6 possi-
vel, se at6 o verniz da civilidade 6 raspado


Apesar de todo seu comercialismo, fre-
qiientemente cruel, o natal 6 uma bela festa,
talvez a mais universal do calendario huma-
no. Para mim, seu trago mais digno 6 aproxi-
mar as pessoas, ou reaproxima-las. As vezes
por pura formalidade, manifestada nos car-
tdes com enderegamento em serie, seguindo
um mailing cuja principal preocupa~go 6 ras-
trear a trajet6ria do poder, mesmo atraves de
sua poeira dispersa, em beneficio do reme-
tente. Ainda assim, a oportunidade de conta-
tar conhecidos distanciados ou distantes co-
nhecidos vale a pena. Melhor ainda quando
a confraternizaCio, esticada ate o reveillon,
real ou imagindria, transmite calor, afetivi-
dade, querer bem.
Com esse sentiment, abro uma excegio
para agradecer a todos aqueles que se lembra-
ram de mim nesta rara saison de alegria, ge-
nuina ou inventada, gratuita ou onerosa, mas
;ovre, leve e solta. Sem precisar individuali-
zar o agradecimento, retribuo a esses amigos
ou conhecidos que me mandaram seus carties
postais, suas mensagens eletr~nicas ou seu al6
telef~nico. Mesmo quando a iniciativa foi um
ato de etiqueta, fez-me bem-
Entre os remetentes, ha os que ja critiquei
ou mesmo travaram polimicas comigo. Ain-
da assim, nioreduziram adivergencia de id~i-
as a ofensa pessoal, a malquerenga, que por
eles n9o tenho, muito pelo contr~irio. Soube-
ram discernir o interesse ptiblico que impulsi-
ona meu jornalismo e preservar nossa relaq8o
pessoal, respeitando seus limits divis6rios.
Prestaram-me dupla ajuda: permitindo-me
continuar a desfrutar de suas companhias e
endossando o compromisso professional que
tenho procurado colocar acima de tudo quan-
do escrevo, dirigindo-me ao priblico.
Provavelmente essa minha necessidade de
abrir o ano comn uma nota bem pessoal (o que
ocorre com periodicidade muito menor do que
sugere o titulo deste jornal) deve-se a mais uma
temporada em que meu aprego pelos amigos,
.a importincia que lhes dou, chocou-se com
meu sentido de dever, com os principios pro-
fissionais que assumi desde o inicio da minha
carreira de jornalista.
Essa questio surgiu diante de mim, de for-
ma aguda, ja no terceiro ano como profissio-
nal de imprensa, num memento em que pre-
cocemente (e interinamente) assumi uma fun-
Fgo de chefia na reda~go, substituindo o se-
cretirio efetivo, o saudoso Carlos Gomes Lo-
pes, em viagem pelos Estados Unidos. A Pro-


vincia do Parai estava contra o meu pai, pre-
feito de Santar~m pela oposiCio, do MDB (o
atual PMDB). Quase todos os dias saiam ma-
teriasoriundas dos que ocombatiam. Quando
sua tentative de reassumir a prefeitura, com
um mandado de seguranga concedido pelo
entlo juiz (posteriormente desembargador)
Christo Alves, foi impedida a m~o armada por
uma tropa da Policia Militar mandada para
Santarem disposta a tudo, resultando em cho-
que e mortes, A Provincia continuou favore-
cendo a verso dos inimigos dele. A uinica
coisa que defend foi a publicaqio tambem dos
fats, o que foi feito.
Meu pai jamais aceitou essa posi~go. Nem
o seu algoz de entio, o governador Alacid
Nunes. Nos contatos que tive com ele depois,
sempre ficou-me a sensa~go de que o coro-
nel desconflava de que eu tentaria alguma
vinganga, por um meio qualquer. Parecia o
tempo todo desconfortavel diante de mim, na
defensive. No entanto, procurei comportar-
me com objetividade durante todo o epis6-
dio, e em seguida, para nio comprometer o
meu oficio de jornalista. Se naquele momen-
to eu me deixasse levar pelos impulses de
filho nio poderia cobrir os atos do governo.
Sem acesso a esse important setor, limitaria
a minha capacidade de obter informaq8es,
prejudicando o ptiblico. Gragas a isso, pude
manter as fontes oficiais que ja tinha e criar
outras, flando nossa relagio num compromis-
so comn a informaqio.
Algumas dessas fontes, preservadas ate
hoje, sabem que a verdade era e continue a
ser-a pedra de toque na nossa relagio. Vgri-
as delas, press a seus pr6prios compromis-
sos com a mi~quina do governor e a convicqdes
pessoais, ou obrigadas a seguir as normas de
seguranga e sigilo, jamais me anteciparam
novidades, os cobigados "furos". Mas sempre
confirmaram as informaqdes que eu conseguia
em outros canals, avalizando com sua serie-
dade um dado at6 entio incerto ou temerdrio.
E nunca me mentiram. "Eu te omito, mas nho
te intoo, dizia uma delas. Com todas as nos-
sas diferengas, havia algo a nos unir: o respei-
to pela opiniio ptiblica. Do qual derivava o
respeito muituo.
Somente em 1991, um quarto de sdculo
depois de ter comegado no jornalismo, uma
diferenga pessoal afetou meu trabalho pro-
fissional: foi quando H61io Gueiros me man-
dou aquela carta imunda, que ele jamais ima-
ginou que eu publicaria. Mesmo sabendo que


m S um 8 0 Ol









JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE JANEIRO/ 2002 7


nos mementos em que ocorre a discrepincia
e os opostos se manifestam?
Ainda sob os respingos da temporada de
festas e de confraternizaqio, fago uma ob-
servaqio que, mesmo sendo pessoal, ha de
ter seu valor coletivo, valendo mais pelo que
simboliza do que pelo que efetivamente e.
A partir do segundo ano do primeiro man-
dato do doutor Almir Gabriel deixei de ser
convidado para a ji traditional recep~go do
governador B imprensa. Entendo a exclusio
como resposta as critics que tenho feito a
sua exceltncia. Mas vejo nessa suposta pu-
ni~go uma demonstraqfio, entire outras coi-
sas, de intolerlncia, uma face (talvez mais
verdadeira) oculta pela propaganda oficial,
a bater na tecla de que o doutor Almir e um
democrat. Alem do mais, 6 uma prova de
reduzida inteligtncia.
Mesmo quando convidado, poucas ve-
zes fui ao convescote, como a maioria dos
que, por etiqueta, me sio propostos. O con-
vite, por~m, sugeria que a contrariedade do
chefe nio chegara a ponto de tornd-lo inci-
vilizado. E prova de incivilidade (e algo
mais) desfazer o que se fazia. Os beneficia-
rios das minhas cortesias a receberdo ate o
dia em que este journal deixar de circular ou
eu deixar de ter sequer o dinheiro para a
postagem dos exemplares que sempre lhes
enviei, possam (ou devam) eles pagar pela
publicaqio. Mais do que agradd-los, me
honra t&-los como leitores in pectori, infe-
lizmente nio tio largo quanto gostaria.










No pr~ximo ano a Mineraqio Rio do Nor-
te chegard ao mhximo que poderd produzir de
bauxita a partir das jazidas que possui no vale
do Trombetas, no Parid: 16,3 milhaes de tone-
ladas, provavelmente a maior produgho mun-
dial em uma finica mina. Se n~o avangar a
partir dai n~io serd por falta de minbrio, cujas
reserves suportariam maior demand, mas pela
exaustio da capacidade de transport pelo rio.
Serri impossivel colocar mais navios em tri-
fego no Trombetas e em operaqio no porto da
empresa, sem grandes riscos de seguranga.
Este 6 um problema rigorosamente novo na
Amaz~nia: um rio do porte do Trombetas che-
gou ao limited de uso para navios de maior cala-
do e, por conseqiiancia, de maior tonelagem.
Em pouco mais de 20 anos de produ~go conti-
nua de bauxita, no primeiro dos grandes proje-
tos do novo ciclo de extraqio mineral na re-
giso a entrar em atividade, a produgio da MRN,
controlada pela Companhia Vale do Rio Doce,
em associagd comn as maiores empresas de
bauxita do mundo, se multiplicou oito vezes.


Mesmo se convidado, eu dificilmente
iria a um ato patrocinado pelo governa-
dor Almir Gabriel para nio lhe criar cons-
trangimento. Sei o quanto minhas critics
o desagradam. Ngo escrevo, entretanto,
para agrada-lo, ou a qualquer outro que o
povo escolher para estar no posto. Gosta-
ria que, quando errar, meus erros sejam
corrigidos, em beneficio dos meus leito-
res, que sio tamb~m cidadfios, pagadores
de impostos. E se uma denuncia for even-
tualmente procedente, que sirva para eli-
minar a situaqio denunciada.
Continue a desempenhar aqui o que ima-
gino ser meu dever. Hb anos, entretanto, nio
recebo o contracanto do governor, auto-su-
ficiente e imponente, acima do bem e do mal
- e ate, como mostra o interdito proibit6rio
no protocolo, da civilidade. Essa falta de re-
torno 6 ainda mais grave porque o governa-
dor costuma sentir o lado amargo da rela-
Fgo promiscua que o poder e a imprensa
grande costumam desenvolver. Certas criti-
cas sho feitas com o prop6sito de forgar o
caixa do tesouro a se abrir e nio o governor
a acertar. Sho epis6dicas. Mas slo desgas-
tantes. Dai alguns sinais, um deles suficien-
temente exteriorizado, de que o governador
gostaria de ser mais seriamente apreciado.
Embora a iniciativa venha a acabar resul-
tando numa contrafaqio viciada. A critical
como cheque em branco g espera do emi-
tente substituida pelo critic chapa branca,
jogador de cartas marcadas.


A descortesia nio me afeta, mesmo por-
que as gentilezas do poder, invariavelmente a
mim concedidas com certa condescend~ncia
(e magnanimidade) ate a primeira critical, e
depois retiradas. tambem nio me seduzem.
Elas nada dizem sobre meus mbritos e deme-
ritos, estes incomparavelmente maiores do que
aqueles. Dizem muito, contudo, sobre a qua-
lidade de um administrador puiblico por de-
mais sensivel a menor contrariedade, mesmo
que ela result da busca do bem publico, em
tese objetivo comum de ambos os persona-
gens dos dois lads do balcio, o que tem que
acertar e o que tem que fiscalizar.
A desinteligencia dos poderosos, contudo,
6 coisa que se esquece facilmente quando a
compreensio dos verdadeiros amigos e dos
homes pdiblicos superiores 6 uma voz que se
alevanta mais alto, como no imortal poema
6pico daquele que fundou esta lingua inculta
e bela, que assim havera~ de continuar, a des-
peito dos que a maltratam e dos que gostari-
am de imperar extirpando a lingua dos Gre-
g6rio de Matos Guerra em prosa, bem peque-
ninos em comparaqio com o vate national,
mas pequeninos como aquela pedra que per-
turba o salto alto dos maus homes pdiblicos,
ou interceptando a pasmaceira no meio do
caminho drummondiano. Como tem que ser.
A todos os amigos, camaradas e compa-
nheiros de viagem, retribuo os votos felizes,
desejando-lhes que 2002 nos faga a justiga
que ficou faltando em 2001. Da qual conti-
nuamos merecedores.


Para que isso ocorresse, a mmeradora inves-
tiu na sua mina o equivalent a 620 milh~es de
d61lares entire 1983 e 2001, dos quais US$ 419
milhdes de secursos pr6prios e R$ 281 milhdes
derivados da isendlo ou redugio de impostos con-
cedida pelo governo como incentive fiscal. Nes-
se total se incluemtambem US$ 15 milhdes que a
Rio do Norte aportou para a ampliaqo daprodu-
gi-o de alumina (produto derivado da bauxita e
usado para a fabricaFgo do metal de aluminio)
pela Alunorte, da qual 6 acionista. S6 na derra-
deira ampliagio da mina de bauxite, dos atuais 11
milh~es de toneladas para os 16,3 milh~es de
2003, os investimentos sio de US$ 200 milhbes.
Como a demand mundial por minerio
continuard crescendo e nenhuma nova adiCao
de produgio seril possivel na maior jazida, o
pri~ximo pass serii dado sobre as concentra-
95es de minbrio do vale do rio Capim, no Park,
localizadas a uma distincia quatro vezes mais
pr6xima de Bel~m, e sobre as ocorr~ncias ji
mensuradas na provincia de Carajhs. Com es-
sas novas frentes, o Park, que j6 6 o terceiro


maior produtor mundial desse mintrio, pode-
rd subir para o segundo lugar, ou at6 mesmo,
dependendo de deslocamentos no mercado in-
ternacional, para a primeira posi~go.
Para garantir essa situaghio, o porto de Via do
Conde, em Barcarena, teri a sua capacidade ope-
racional elevada de 6,5 milhdes para 10 milh~es
de toneladas anuais de carga. Mais da metade
desse volume ser6 o minbrio trazido do Trombe-
tas para ser beneficiado pela Alunorte, que em
janeiro de 2003 se tomard a maior produtora de
alumina do pais e do continent. Parte de suapro-
dugso serA transformada no mesmo local em alu-
minio prim~irio pela Albras, que tamb~m consoli-
darria posigio de principal ind~istria de aluminio
da Ambrica do Sul. Em ambas as empresas a
CVRD estli associada a grupos nacionais e es-
trangeiros, pr~incipalmentejaponeses. Em conjun-
to, as tris companhias do setor de aluminio no
Pard representam um investimento de 4 bilhaes
de d61lazes (ou 9 bilhdes de reais). Um ciclo que
sefecha e eexpande, sem engender rentretanto,
a industrializaq~ possivel a partir dele.


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f."~~m~~-iSYA:n-,~,i,,." :l?~j~~L~Ti~i~S4~J~~~




























































































Jornal Pessoal
EMlo*lo Lmt41Fmb P lo-Foe:10 i 2 7626Conme: T. Bena Constat 849203@053440 e-und:lor~nalamz cornbe roc mRe. AgemPslo dgADA Ats.Lananioniode~anapar


vel it por terra de Macapa ate Oriximina, pela
margem esquerda do rio Amazonas.
Esse e o maior program de investimentos
pliblicos na maltratada Laranjal. Como aconte-
ceu na hist6ria de todos os enclaves econBmicos
formados no interior da Amazbnia, a cidade sur-
giu como subproduto do impirio de Ludwig. Os
excluidos do modern empreendimento, desti-
nado a produgho de chlulose, caulim e arroz, se
agruparam primeiro no Beiradiio e, depois, no
Beiradinho, que brotou tamb~m do outro lado
do Jari, do lado amapaense, em frente ao distri-
to industrial de Munguba.
A linearidade da ocupa~go humana na mar-
gem do rio (na sua "beira" ou "beirada") con-
trastava com o desenho urban da "cidade in-
dustrial", Monte Dourada, projetada para o in-
terior, espraiada conforme uma concepqio nu-
cleada e estratificada do staff de Ludwig. Os
Contrastes, a uma distincia tio pequena, eram
brutais. Os servigos eram de qualidade em Monte
Dourado e pissimos no Beiradio. Sem o olhar
vigilante e castrador do Big Brother, por~m, o
estar era melhor na cidade livre, ainda que ca6-
tica e pobre, do que na cidade fechada.
Fiz amizade comn um engenheiro canadense
da fibrica de celulose que s6 se dispunha a falar
quando atravessivamos de Munguba para o Bei-
radinho, e depois que ele dava o primeiro e lon-
go gole no copo de cerveja. Na primeira vez que
fui so Beiradio, comigo, na "voadeira", is um
peio. Estava bamburrado. Levava todo o dinhei-
ro recebido em quatro meses de trabalho para


gastar "no puteiro". Arrastou-me para uma ver-
dadeira tasca, sobre palafitas, e li comegou a pe-
regrinaqio alco61ico-er6tica.
Consegui me desvencilhar dele na sexta ou
setima garrafa para pegar de novo o barco e vol-
tar ao meu hotel (privativo da companhia), em
Monte Dourado. Na manh8 seguinte, quando desci
de novo a Beiradio, encontrei-o derrubado. Jun-
tei o que restara da longa farra, fi-lo (como diria
Jlnio Quadros) tomar cafe e paguei-lhe o trans-
porte de retorno a mais um period de derruba-
das no meio da mata, para nova incursio alisado-
ra do outro lado, "com as putas", como repetia,
sem pejo, nem arrependimento, destituido da lill-
tima moeda em questio de poucas horas.
Mesmo quando eventualmente tristes, ricas
sho as hist6rias vividas por gente de care e osso,
de estofo, dona do seu nariz, ainda que para arre-
benta-lo em barreiras negligenciadas. Toda vez
que ha uma intervengdo corretiva nesses "beira-
dBes" marginais aos "grandes projetos", sempre
me pergunto se nio haveria uma forma alternativa
so modus faciendi official e conventional. A cida-
de nio podia continuar a ser amaz6nica, perfilha-
da ao rio, menos hierarquiza e hieratica? O jeito
folgazio e benfazejo que constituiu o fascinio do
Beiradinho para o engenheiro canadense sera pre-
servado nessa interven~go saneadora, que traz comn
seus beneficios um certo sentido punitive?
Fica a pergunta, em homenagem a tanta gente
boa e an~nima que conheci nessas conurbaq~es
de beira de rio, vitimas tanto do desprezo quan-
to da aten~go insensivel.


Abandonando os secos & molhados que ji a carac-
terizam, a coluna "Rep6rter 70", a principal de O Libe-
ral, abriu a se~go "Em poucas linhas" de 16 de dezem-
bro com a seguinte nota bombistica:
"Ninguem consegue ser facilmente um Magalhies
Barata (que elegia at6 poste, quando queria) na vida
political. As pesquisas mostram que nem o sucesso
do real consegue levantar politico sem forga, como
Jos6 Serra. Nem real, nem Alga Vibria, nem Manguei-
rio e companhia".
Os bois ficaram sem seus nombs, como de habito na
casa, ao menos na primeira abordagem. Mas a identifi-
caglo 6 ficil. O imitador barato de Barata 6 o governa-
dor Almir Gabriel, naturalmente. O novo poste politico
e seu candidate a sucessio estadual, a secret~rio especi-
al Simio Jatene, tio pesado que nent as obras de maior
impact popular da atual administration conseguirio -
como se diz no meio tucano "alavancar".
A nota com um tom inusualmente agressivo, baixada
at6 a redaCio pela diregio do journal, foi coadjuvada pela
ordem de expurgar fotos e registros de Simlo Jatene das
priginas de O Liberal. Mas a inclusio do-agora -simp8-
tico secretirio no index maiorandimico durou pouco: dois


dias depois da edi~go dominical, IA ele
voltava a ser noticia na folha da famiha. i e
A mi-vontade da casa seria uma resposta g desele-
gincia, descortesia, desaten~go ou intencional desprezo
do governor a uma agenda de compromisso obrigat6ria:
a inauguraqio, dois dias antes, da fabrica de refrigeran-
tes e sucos de Ronaldo Maiorana, a Bis!.
Nem o governador, nem seu candidate, nem qual-
quer membro do seu primeiro escallo responded pre-
sente g solenidade. Uns por estarem viajando na oca-
siio. Outros, talvez, por nio terem recebido a tempo
(ou no prazo que consideram civilizado) o convite, ex-
pedido de afogadilho.
Nesse illtimo caso se incluiria o governador, bipolar
em materia de Maiorana (e vice-versa, heranga da mi
vontade de Romulo Maiorana pai para.com o entio pre-
feito nomeado de Belem, que nio mandava recolher o
lixo na frente da casa do empresirio, na praga Batista
Campos, provavelmente por birra socialista.
Todos submetidos ao puxio de orelha, comn ameaga
.de algo mais, o desencontro parece ter-se esclarecido,
ou a prenda paga. Tio fulminante quanto chegou, a mi
vontade se foi. Por enquanto, pelo menos.


Bei ra does
A I



Quase 20 milhdes de reais serio investidos
para modificar a paisagem de Laranjal do Jari.
A cidade, na divisa do AmapB com o ParB, tem
o menor indice de desenvolvimento humane de
toda a Amaz~nia, embora figue do outro lado de
um dos "grandes projetos" concebidos para de-
senvolver a regido, o complex agroindustrial
idealizado, executado e posto para funcionar, no
final da dicada de 70, pelo milionario america-
no Daniel Ludwig. Uma parte do dinheiro (R$
5,l milhdes) sera usada para acabar com as pa-
lafitas que se estendem pela beirada do Jari e
que inspiraram o batismo da cidade, mais co-
nhecida, na epoca de Ludwig, como Beiradio.
No lugar das casas de madeira fincadas sobre a
varzea lodosa surgira um passeio pliblico, abrin-
do uma janela para os moradores. Numa das ex-
tremidades sera construido um novo porto, com
melhores condiq8es de operaqio.
Outra parte do dinheiro (R$ 3 milhaes) servi-
rii para melhorar a coleta e tratamento do lixo,
um dos mais graves problems locais (e de todas
as cidades da regido). A maior parcela das verbas
(R$ 6 milh~es) seri aplicada numa ponte ligando
Laranjal a Monte Dourado, ji do lado do munici-
pio paraense de Almeirim, cruzando o rio Jari.
Com essa perna rodovibria, em breve sera possi-


0 Liberal


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lhe mais pigina, com o con.
seqilente aumento de prego.
Como diria Vladimir Ili-
tch Ulianov: o que fazer?
(Lnin era melhor na pergun-
ta do que na resposta) Antes
de fazer. porem. g~ostaria de
ouvlr a opiniso do leitor Se
ele se dispuser a falar.