Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00219

Full Text

















Jader Barbalho ac


ANO XV NP 269 2a QUINZENA DE OUTUBRO DE 2001 *R$~P

OLATTC A


b ~
'8,


sl ;~ =II sra~ ~S~ H ;~ (i~B11~ ) i(Q B~la~ 1 ~ r ~t sr ~ga~ ~a ~I ~~ I t, i :4 1 r r~B a 1 SBIII ~b~T;


P I II


OCT' 2 52:00f


A queda do ex-senador e ex-presidente do S'enado esta sendo mais fulminante do que
sua prodigiosa ascensao. Ele continuara' seguindo ate' o fundo do buraco ou recomeg-araZ
a subir? A recuperaga~o pode ainda devolv#-lo a poli'tica national ou o restringird ao seu
reduto poli'tico estadual? Muitas sdo as dzividas. Mas uma resposta para valer vai aidmz
do destiny individual do ex-governador. B o PardZ que esta em crise.


to tempo no Brasil a uma cam-
panha tao ampla e hostile quanto
Jader Fontenele Barbalho. O
N~todo-poderoso Ant6nio Carlos
Magalhies entregou os pontos mais rapida-
mente, numa situa~go muito mais confortivel
do que a do ex-governador do
ParB. Jader foi cedendo posi-
95es gradualmente, enquanto
usava sua invejavel habilida-
de para contornar os ataques
ferozes e negociar um acor-
do, capaz de salvar algo que ,
pudesse servir de base para o
seu retorno, ao nivel federal
da political ou, pelo menos, ao =~
territ6tio estadual.
Depois da presid~ncia do
Senado, ele renunciou ao ?i
mandate de senador na espe-
ranga de aplacar a ofensiva e
respirar. Mas tudo indica que
nio conseguira center a am-
pla frente de adversarios que
se formou contra ele, das "vi-
uvas" de ACM a membros do
Ministerio Pilblico, do judiciario e da poli-
cia, dispostos a it is tiltimas conseqtiincias
na apuraqio dos fats. Mesmo nos momen-
tos mais critics da via crucis descensional
parecia que Jader Barbalho ainda mantinha,
em algum grau, o control da situaqio. Mas
jB comega a se tornar mais nitida a impres-
sho de que ele pode ter iniciado um cami-
nho sem volta para o ocaso.


Parece que a desgraga s6 quer comego,
como filosofava o vereador Gongalo Duar-
te. Homiziado em suas fazendas na area da
Belem-Brasilia, depois de ter mandado para
Brasilia a carta manuscrita de ren~imcia, o
ex-senador foi alcangado por mais um lan-
ce de trucul~ncia de agents de seguranga.
Um deles estourou a tiros dois pneus do car-
ro da reportagem da TV Liberal, que fazia


ponto dentro da propriedade, atris de um
flagrante do casal Barbalho. Um incident
tio condenavel quanto atribuir a Jader res-
ponsabilidade pela iniciativa. Entre seus
defeitos nunca se incluiu o de maltratar a
imprensa, exceto pela forma sutil de sone-
gar-lhe informaqdes. Agredir rep6rteres e
algo mais afim comn o curriculo de ACM na
satrapia baiana do que na paraense.


Torna CeSSOa
LUIjC IO F LA V O P IN T ~








2 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001


) Qualquer movimenta~gio que faga acarreta
problems e inconvenientes para o ex-senador,
aprofundando o buraco no qual vai enterrando
uma carreira political bem-sucedida ate o mo-
mento em que decidiu enfrentar o establishment
politico, personificado em ACM. Certamente
seu primeiro suplente, o pr~prio pai, Laercio
Barbalho, nio assumira a vaga. Com um bom
alibi: a precaria sauide, debilitada aos 81 anos.
O segundo suplente, Femnando de Castro Ri-
beiro, garante que ird ocupar o lugar.
A decisito, entretanto, cabe ao senador
afastado. Nele 6 que respingara (se 6 que nito
lhe sera langada diretamente) a lama que co-
legas, como a inefilvel Heloisa Helena, ji
ameagam langar por antecipa~gio no ainda su-
plente, esperando assim inibi-lo de dar o pas-
so a frente. Fernando tamb~m podera sofrer a
extensito dos ataques originarios do MP, da
justiga e da imprensa, feitos contra o ex-titu-
lar da cadeira, em funCio de enriquecimento
ilicito, forma~gio de quadrilha, sonega~go e
outras p~rolas negras do Codigo Penal.
Isto significara que o defunto s6 sera decla-
rado morto quando definitivamente enterrado,
com atestado de 6bito passado em cartdrio, ou
seus restos salgados e espalhados no caminho
de Belem do Parai, como faziam question de re-
afirmar no fim de semana as tr~s revistas de
informagilo, em coro unissono. Repetido por
outros 6rglios da grande imprensa national.
Deixar que Femnando Ribeiro assumisse o
lugar para percorrer essa trilha de desgaste ate
uma cassagilo poderia ser ate interessante. Ele
e menos estigmatizado, tem um envolvimento
apenas lateral nos epis6dios em que foi asso-
ciado ao chefe e nio tem qualquer aspiradio
political para o future, ao menos declarada.
Pode submeter-se a um process de cassaglo
disposto a ir ate o fim, tornando-se o porta-
voz do seu lider, realizando que ele acabou
nito fazendo pela convic~gio de que, indepen-
dentemente do conteudo do process, sua
sentenga de cassa~go ja estava escrita. Mas
enveredar por essa trilha significaria manter
o nome Barbalho na agenda das acusaq8es e
voltar a expor seus crimes, reais ou atribui-
dos, sujeitos a mesma devassa de antes. De
qualquer maneira, ndo e: isso mesmo o que
vai continuar a acontecer?
Pode-se imaginar para Jader nos pr6ximos
meses um enredo semelhante ao que tem defi-
nido a trajet6ria recent de Luiz Esteviio? Al-
guns meses atras era Jader quem negociava
no Pal~cio do Planalto uma tr~gua em favor
do ex-senador do Distrito Federal, seu corre-
ligionario do PMDB, flado na sua condi~go
de interlocutor necessario do president Fer-
nando Henrique Cardoso. Agora Jader esta
sendo colocado no mesmo lugar de Luiz Es-
teviio e Renan Calheiros e quem participa de
entendimentos na clipula federal.
Se, nessa fun~gio, os resultados do armisti-
cio pr6-Luiz Esteviio foram pifios ou nenhum,
melhor conseqitincia havera para Jader? O fra-


casso seria resultante do fato de que FHC quer
distincia de politicos carimbados pelo selo da
campanha anticorrupplio ou porque a frente
de combat ja e: tiio ampla que escapa ao po-
der de control ou ate de interfer~ncia do pre-
sidente da Repdblica?
De uma resposta satisfatdria podem surgir
outras respostas para a attitude que Jader Bar-
balho vai tomar em relaglio a political nacio-
nal: se tentara a volta por cima atravts do seu
suplente ou se aceitard sumir de circulaglio,
na expectativa de que o esquegam, protelan-
do a definigio sobre a suplencia pelo tempo
necessario para esgotar o prazo para a reali-
zagio de nova elei~gio para o preenchimento
da vaga que abriu com sua renuincia.
Qualquer que seja a hip6tese vencedora, hd
uma outra questio cobrando elucida~gio: ele
continuara a contar comn algum beneplacito da
administragilo federal? Mesmo que por inter-
posta pessoa (como o senador Calheiros), vai
ser ouvido e receber retornos do Planalto? Vai
manter o melhor cargo federal com que conta
no Para, entregue ao ex-deputado Manoel Ri-
beiro, a frente das BRs no Estado, com verbas
para asfaltamento e melhoria de estradas, que
podem render votos?
Esse e um dos esteios com que Jader deve
contar para uma campanha majoritbria. Se ele
pretend reaver ao menos uma parte do poder
que esta perdendo, por etapas,~ sim, mas rapi-
damente, em escala sucessiva e cumulative, tera
que disputar elei~gio majoritaria. Talvez voltar
ao Senado seja mais faicil da perspective dos
votos a conquistar, mas seria uma temeridade
do ponto de vista estrategico, sujeitando-o a
retomada dos ataques que tem sofrido, nto com
a mesma abundlncia, mas em condigaes de
desgasti-lo intensamente.
A hip6tese mais provivel parece ser a dis-
puta do governor psela quarta vez, exceto se
Jader Barbalho optar por uma tatica beiran-
do o suicidio politico: niio participar das elei-
95es do pr6ximo ano. Nesse caso, ele podia
compor coligaq8es no mais amplo espectro
possivel de aliang~as no Para. Uma delas po-
dia ser com Hildegardo Nunes, garantindo
estrutura partidaria, reduto eleitoral e supor-
te financeiro para o vice-governador ser um
candidate auti~nomo e romper com Almir
Gabriel numa posiqilo de forga, formando
uma coligagilo oposicionista encabegado por
PMDB e PTB, com mais forga do que as sem-
pre desunidas esquerdas.
Sem Jader na cabega da chapa, nito have-
ria a polarizaglio que o tema anticorruppio
acarretaria. O lider do PMDB podia manejar
nos bastidores para eleger uma bancada fede-
ral forte e conquistar maioria na Assembleia
Legislative. Mas ele resistiria a pelo menos
dois anos de ostracismo, sujeito a subitos man-
dados de priislio ou a seguidos depoimentos
na justiga ou na policia?
Quando deixou o governo, em 1987, e se
arrastou por alguns mess antes de ser chama-


do ao minist~rio de Jose Samney, Jader expe-
rimentou desse fel. Seu aliado, o governador
Helio Gueiros, combinava declaraq~es publi-
cas de fidelidade com uma guerra de bastido-
res para desgastar o patrimonio politico do an-
tecessor e correligionario. Os compromissos
da campanha political costumam ser esqueci-
dos pelo vencedor ja no dia da posse. Supor-
taria esse teste de fogo?
Para voltar por cima na sua terra Jader
vai empunhar o estandarte do caboclismo.
Um ensaio dessa campanha saiu na imprensa
na semana passada. Osvaldo e Valbria Silva,
dons de hotel e motel, patrocinaram um
am~incio, "tjuntamente comn seus 150 funcio-
narios", para manifestar "irrestrita solidarie-
dade" ao ainda (entso) senador, "que enfren-
ta com a coragem de que sho dotados os ver-
dadeiros paraenses dessa campanha fanitica
e vingativa em represa~lia a sua attitude de
desafiar e veneer aqueles que se julgando
dons do poder nio aceitam a presenga do
nosso aguerrido Para no ponto mais brilhan-
te do Legislativo Nacional". A mensagem
terminava comn um compromisso: "Conte
conosco para o pr6ximo pleito".
De fato, como president do Senado e ter-
ceiro na lista de sucessito do president da Re-
puiblica, Jader podia multiplicar a capacidade,
que jb havia demonstrado, de conseguir verbas
federals para o Estado e ser intermediario de
interesses estaduais junto ao poder central. O
corte e costura de bastidores, ele o fez com uma
efici~ncia que s6 o senador Jarbas Passarinho
superou. Mas essa participa~glo efetiva, mas
nio olimpica foi justamente um dos elemen-
tos que o arrastaram para escindalos, como a
troca de incentives fiscais da extinta Sudam por
apoio politico, funds de campanha e comis-
s6es de corretagem.
Niio foi propriamente por defender teses e
id~ias em favor do Pard qune ele se notabilizou,
a causa da idiossincrasia da elite national ao
seu nome. Do politico de program que se fi-
liou a ala dos "autinticos" do MDB na metade
da decada de 70, numa posi~gio de centro-es-
querda, Jader se transformou no canal de con-
verg~ncia indistinta de interesses puiblicos e
privados, numa promiscuidade que haveria de
deixar pistas de ilicitude para os que rastreas-
sem sua trajetbria. Suas muitas virtudes como
politico se enquadraram no esquema de neg6-
cios que ele foi montando a media que pro-
gredia na carreira, o politico financiando o
empres~irio -e o sufocando.
O home que chegou ao mais alto nivel
de poder que um politico do Norte ja alcan-
gou na Republica esta deixando, na reversito
dessa progressilo, um acervo de constrangi-
mentos e feitos negativamente ineditos na his-
t6ria. A queda estd sendo mais fulminante do
que a ascensito e o choice mais forte do que o
suficiente, ou at6 merecido. O ParB, depois de
dar o primeiro politico que renunciou a presi-
dancia do Senado, pode se tornar o primeiro








JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001 3


1~11 _


Estado brasileiro a nio poder dispor das tres
cadeiras asseguradas pela Constitui~go a cada
unidade federativa, caso a indenifi~go sobre a
substitui~go de Jader perdure alem de 15 me-
ses do fim do seu mandate. Senatorialmente
falando, o Para serfi ent~o um Estado menos
igual do que os outros.
Culpa s6 de Jader Barbalho? Seus inimi-
gos bem que gostariam de que assim fosse,
mas assim n~io 6. Nem foi ainda apagado o
nome do ex-governador paraense da retina da
Cbmara Alta e j8 o foco dos investigadores se
concentra em mais um senador paraense, Luiz
Otavio Campos, integrante da banda da poli-
tica que se diz sadia, em contrast com a ban-
da podre do clB Barbalho.
Nada assegura que o "senador do gover-
nador", de volta ao PPB, oferecer6 a menor
capacidade de resistir a apuraqio de sua par-
ticipa~go num emprestimo do Banco do Bra-
sil a1 firma do seu sogro para a constru~go
de balsas invisiveis. Poderd ser a segunda
cabeg~a paraense a rolar na assepsia que o
Senado se viu obrigado a fazer, afastando
at6 agora quatro dessas cabegas, algumas
coroadas de poder.
Essa revisio de hibitos e corre~go de cos-
tumes ficar8 restrita a Brasilia? O Pard con-
tinuara a ser um corpo estranho, fecundo,
como outros uteros federativos, a ma politi-
ca e as pessimas elites, que dela fazem um
instrument de neg6cio para seus interesses?
Quem centralizar a resposta em Jader Fonte-
nele Barbalho, condenando-o ou o absolven-
do, estara servindo ao jogo dos que usam o
boi de piranha para fazer a manada passar pelo
rio da vida publica no Estado. O buraco e mais
em cima e a culpa e muito mais ampla. Mas se
e custoso remi-la, nio e impossivel dar o pri-
meiro pass. A hora e esta.


O primeiro ndimero de O Paraense circulou
no domingo com uma tiragem pr~xima das me-
lhores ediq~es de O Liberal, o lider dispamado do
mercado de jomal impresso no Pardi: 50 mil exem-
plares. Gmande parte dos exemplares da ediio
inaugurlal do novo semanaio foi distribuida gra-
tuitamente g populagio. JSA seria o bastante para
garantir seu impact. Mas o prego davenda avul-
sa tamb~m causava forte impression: 50 centavos
por um jomal de format conventional (ou stan-
dard), de 12 paginas. Metade do prego do mais
bamato jomal de domingo, A Provincia do Parai.
Seis vezes abaixo do que custa O Liberal.
Ronaldo Brasiliense, editor e donor da publi-
capso, diz que n~io ha segredos nos niumeros des-
se langamento. A impressio do jomal, feita nas
modemas oficinas do Correio Braziliense, na ca-
pital federal, custaria R$ 10,5 mil. Mais R$ 2 mil
seriam gastos no frete rodoviatio. O ponto de ni-
velamento, admitindo esses nuimeros, seria alcan-
gado com a venda de 40 mil exemplares, des-
contados 40% da intermediaqio. O encalhe teria
que ser de 20%. S~o metas invejaiveis. Em ter-
mos proporcionais, nenhum dos jomais em cir-
culaio em Belem as aicangou. Alguns est~io com
encalhe acima de 50%, por exemplo.
Isso, s6, para bancar o custo de impressio.
Mas ainda ha os demais custos, de pessoal a ope-
racional. Vio requerer publicidade. O primeiro
numero circulou sem um ~inico anu~ncio, total-
mente ocupado por materias jomalisticas. Essas
caracteristicas e mais o porte do langamento ati-
gam a interpretagio de que o govemno do Estado
age por trais da nova publica~go, direta ou indire-
tamente, financiando-a ou estimulando-a. OPa-
raense iria servir de instrument para a campa-
nha de Simio Jatene ao govemno do Estado.


No primeiro n~imero nio ha uma s6 foto do
secretdrio especial da promogio social, ou do go-
vernador. Isso ndo quer dizer muita coisa, consi-
der-ando-se a experi~ncia e a intelig~ncia de al-
guns dos jornalistas arrolados no expediente do
jomal. Fotos e noticias poderao vir depois. E ainda
que o apoio nio se tome explicit nem haja um
elo objetivo entire o jomal e a miquina official,
uma das diretrizes do semandrio parece ser a de
atacar o ex-senador Jader Barbalho e destacar os
meritos da administration Almir Gabriel, fazer
coro as ideias tucanas e o contracanto B oposi-
gio, nela incluido o PT.
Se, entretanto, ainda ha duividas quanto its ori-
gens mais profundas de O Paraense, o grupo Li-
beralnio titubeou: esti contratando, pamadirigir o
Amazd~nia Jornal, o jornalista Oliveira Bastos, pa-
raense ha muito estabelecido em Brasilia, que ul-
timamente esteve envolvido comn a Construtora C.
R. Almeida (na grilagem do Xingu) e a govema-
dora Roseana Samey, do Maranhio, candidate a
candidate B presidencia da Repuiblica pelo PFL.
Conforme o andar da carruagem, ojornal
televisivo dos Maiorana pode virar O Liberal
do B. Ou seja: incumbido de devolver e ante-
cipar ataques. Um pass adiante na velha tati-
ca que o grupo sempre adota quando se apro-
xima uma eleigio: criar dificuldades para ven-
der facilidades, impondo o prego.
Depois de ter sofrido essa estrattgia, o go-
vernador Almir Gabriel parece decidido a se
antecipar para nlo ficar na inc~moda situaqio
daquela famosa pega teatral de Oduvaldo Vi-
anna e Dias Gomes: se correr o bicho pega, se
ficar o bicho come. Colocou seu bicho no ter-
reiro para ciscar, a espera do adversario que se
apresentar na rinha.


O primeiro nimnero do fasciculo
da histi~ria do Pardi escrita por Be-
nedicto Monteiro e publicada pelo
grupo Liberal foi um sucesso. O en-
calhe nas bancas ficou entire 10 e
15%, um indice excepcional, sobre-
tudo no atual period de vacas ma-
gras. No segundo nimero a sobra
dobrou em terms absolutes e cres-
ceu ainda mais em terms relatives
porque as encomendas diminuiram.
Uma banca que havia recebido 300
exemplares do primeiro n~imero, s6
aceitou 200 a partir dai. No terceiro
nuimero o encalhe ji havia passado
de 40%. Chegou a quase 60% no
niumero quatro. A expectativa em
relago ao quinto fasciculo 6 ruim.
Quem fizer uma rigorosa pesqui-
sa nas principals bancas vai ficar
sabendo que os vendedores nio acre-
ditam mais no produto. O grapo Li-
beral desperdigou rara oportunida-


de de produzir um acontecimento
editorial por visar apenas objetivos
comerciais e subestimar o discemi-
mento do pdiblico. A receptividade
inicial atesta a catincia de uma obra
de refer~ncia sobre a histiria geal
do Parci. um campo propicio pam
projetos que sejam capazes de com-
binar qualidade grafica e de contei-
do com prego just e ficil acesso.
O jomal O Liberal seria um vei-
culo adequado para abrigar uma
publicaqio desse tipo, tanto por sua
tinagem como pela forga da sua ima-
gem. Mas nao houve criterio seleti-
vo naadoao do texto, embora o pe-
sidente do Instituto Hist~rico e Ge-
ogrif ico do Pardi e director do Arqui-
vo Pliblico, Geraldo Coelho, tenha
emprestado seu nome para referen-
dar a obra. Quem leu os primeiros
fasciculos com alguma exigtncia
critica se frustrou e, em numerosos


casos, ficou indignado comaprima-
riedade do texto escrito por Bene-
dicto Monteiro.
Talveza fraqueza do conteuidonlo
se destacasse tanto se o prego do
produto nio fosse t~io carol. Prova-
velmente os fasciculos chegamam ks
bancas a custo zero (e, quem sabe,
ji deixando um lucro) para o grupo
Liberal, grag~as as cotas pagas por
cinco patrocinadores, entire os quais
o govemno do Estado. A coleglo de
15 fasciculos, a R$ 4,50 a unidade,
saird por R$ 67,50, mais cara do que
alisctdria do Brasil, de Boris Faus-
to, publicada pela Edusp (da Uni-
versidade de Sio Paulo), considea-
da a melhor obra de referencia dis-
ponivel sobre a histCbria brasileira.
Mas quem quiser a capa dur-a da obm
terd que comprar tambem 15 exem-
plares da edigio de quinta-feira de
OLiberal, ao custo de R$ 25.50. O


livro said, assim, por R$ 93, ou
meio sal~rio minimo.
E um absurdo de carol para tio
pouca qualidade. A esta conclus~lo
estio chegando cada vez mais lei-
tores. A maioria comegou a aban-
donar a colegio no terceiro ndmne-
ro. Como chegardi ao fim? Prova-
velmente langando no descredito
iniciativas que podiam ser ao mes-
mo tempo s~rias e de apelo comer-
cial. O governo, que entrou nessa
canoa fur~ada talvez para agradar os
Maiorana, faria melhor ao povo pa-
trocinando a reedigio, com novo
tratamento editorial e uma melhor
revision, da hist6ria do Pardi de Ge-
rard Prost, que a Secretaria de Edu-
cagio do pri~prio Estado langou
entire 1997 e l998. Sem o espalha-
fato do empreendimento do grupo
Liberal, um decadente urubu com
penas de pavio.


JOrnal novo


A est~ria do Pard







4 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001


Na semana passada, a Eletronorte promoveu
um encontro em Belem entire alguns dos seus prin-
cipais tecnicos e dirigentes e a imprensa local. No
inicio da sessio havia uma rela~go mais ou menos
equilibrada numericamente entire o pessoal da
empresa estatal e os jornalistas. No final, a Ele-
tronorte tinha sete tecnicos no audit6rio da Fiepa
contra um unico jornalista. Os poucos rep6rteres
enviados ao local foram saindo a media que a
exposiCgio avangava. A maioria permaneceu ali
apenas uns poucos minutes, o suficiente para le-
var uma declaraqio dos personagens visados.
Ha pouca gente nas redagaes da grande impren-
sa paraense. Cada jornalista vai para a rua com uma
pauta carregada. Para cumpri-la, os reporteres pou-
sam em cada event como beija-flores apressados.
Voltam comn as informaq~es que essa s~frega ex-
cursio permit coletar no rapido contato com o
tema. Nilo podem garantir que hajam recolhido as
perolas disponiveis. Nem mesmo que entenderam
o assunto sobre o qual fario relates burocriticos.
A culpa maior por essa superficialidade, ou
mesmo impropriedade documental, que se espa-
lha como praga pelas paginas dos jornais, mais
desinformando do que informando os leitores, nio
e dos rep6rteres. Eles, porem, nso estio isentos
de culpa. Com o tempo apertado para tantos itens
na pauta que carregam na missio, certamente nlo
podem aprofundar as quest~es. Mas teriam que se
obrigar a criar uma combinaqio de rapidez com
acuidade para dar conta do desaflo. O que ji nio
se preocupam em fazer. Submetem-se docilmente
a essa mechnica da irresponsabilidade.
Quanto as empresas, descuram completamen-
te das suas responsabilidades para com a opinion
publica. O Para e o quinto maior produtor e o ter-
ceiro maior exportador de energia do Brasil. Sua
importancia nesse setor devera crescer ainda mais
nos proximos anos. Logo, o tema e crucial para os
interesses do Estado. A principal empresa ener-
getica, a Eletronorte, tem sede em Brasilia (e a
linica do sistema Eletrobras a nascer e se manter
nessa anomalia: ter sua matriz fora dos limits da


sua jurisdi~go). Ngo da ao Para a importlincia que
ele tem para si e para o pais.
Excepcionalmente, porem, a Eletronorte deci-
diu sediar em Belem um encontro especifico comn
a imptensa, trazendo para ca profissionais de alta
compete~ncia, em condiq~es de responder a todas
as perguntas que lhes fossem feitas (se satisfatori-
amente, e outro aspecto. A imprensa nio podia
considerar esse fato como prosaico ou irrelevan-
te, embora sem render anuincios ou coqueteis. Ti-
nha que mandar gente com alguma qualificaqio e
tempo suficiente nio s6 para repassar ao leitor tudo
de important que fosse dito no encontro, mas tam-
bem para instruir a si pr6prio. Se o setor energeti-
co e e sera cada vez mais vital ao Para, desenvol-
vendo-o ou consolidando-o como provincia ener-
getica nationall e mundial), a imprensa precisa ter
profissionais capazes nessa area.
O que se viu, porem, foi um espeticulo melan-
c61ico: apenas dois rep6rteres acompanharam toda
a exposi~go dos tecnicos da Eletronorte, com um
time bem maior (no palco da exposi~go ou no ban-
co de reserve) do que o da imprensa, para cuja in-
formaqio aquela sessio fora organizada. Na fase
dos debates, o grande audit6rio tinha apenas um
jornalista, cercado de tecnicos da empresa por to-
dos os lads. Memento excepcional para esse so-
litario reporter, que teve ao alcance de suas duivi-
das tantos profissionais de uma estatal normalmen-
te claudicante no trato com a imprensa, mas triste
para a dignidade do jornalismo.
Se a imprensa paraense nio pode investor nes-
sas ocasi~es um dos seus profissionais, com a
agenda inteiramente dedicada ao assunto, nio
merece o respeito dos cidadios que habitam esta
fantastica fronteira e fazem pateticos esforgos
para escrever sua historia, evitando o destiny co-
lonial para o qual conspira a incuiria e o despre-
paro dos que tbm poder decisbrio em uma das
principals trincheiras da formaqio da opinion
pfiblica: as redaqbes da imprensa.
Ou elas se reduziram a meras quitandas de
neg6cio?


Lapso
O Liberal p ublicou nro u/wnmo dia 2 mrateria soble ea reabertlura o/icial dlo Colegio Estladuail
Paes de Carra/hllo, depois de, umna ampla reforma do, prdio. Durante o ato de enreg~a, o
governadr~or Almerr Gabhrrel "reccheul os cumrprimentos do ex~-govefrnador A4loisio Charets.
'Depotsi de mrim, nringue~ Im haia posio nem~ um~ prego aqui ', alirmrou Chrarets a Gabrie~l. rnuma
crulical aos3 governor anrterrorese ". registrour a nlotic ia do jornal.
Tres d~ias detpois a fam~ilia de Aloy~sio da Costa Chavers publionr amlrrinc/io lebre no me~smo
O Liberal, convridand~o parnterrs e amrigos para a mlisira em memorcia do exr-got ernador, que
morreu hal se~le. anos. comno i' public e notorio.
NGio m~e lemr~o de terI lido) alntes uma1 maclteria coml esFsa ''ha, n-ga ": umfrnlirlallsta e~rntrevirar
urm mrorto, onr arnburir a um~ errevisado a ir~o a ident'lidadej de~ amn morto, ou colocar na boca de
umr mrorto asj declaragoes de umr rviro. Qua/quer reporerm pode se lracinrar contra esse erro
decsc~orc~erilrant pe~rguntrando pelo nromre das pessoas. entrevistadas ou re/endastr~u. consultando uma
segund~a folruequano, emr dur~ida E te~ndol o cuidado de graUfar. corretamenteI L a) nIome jornecido.
AlaisF do quer rir; dever-re c-horar diante de~ste nor~o feito conrsegurido por O Liberal -
purblica umau materials psicograla~da Outro Glune~ss para a Iloclh dos Alauioranar. Sem a
inlteng~do de consegui-lo, nremr direiro a1 comremolra-lo.


Imprensa invertebrada


Idi~ias urbanas
As empregadas domesticas dlo um toque
de originalidade ao amanhecer em Belem. Elas
surgem nas ruas com a luz do dia em seu traje
padrio (camiseta, short e sandalia), atras do
pho ainda quente e cheiroso ou do leite forta-
lecedor para seus patries. Desfilam para os
profissionais do alvorecer, provocando suspi-
ros e fugidias declaraqdes de amor: padeiros,
entregadores de jornais, vigias ou integrantes
da geraqio saude, no seu jogging matutino.
Algumas parecem ter pulado da cama para a
ma. Outras fizeram baldeaqio diante do espe-
lho, incorporando os beneficios da maquila-
gem para melhor impressionar aplateia ocasi-
onal. A mua que comega a se iluminar para a
atividade cotidiana e seu remno.
Parasaudar essa contribui~go colorida ao
nosso alvorecer, a prefeitura bem que podia
promover um concurso annual, algo como miss
simpatia, exclusivamente para empregadas
domesticas. Elas se mnscreveriam na Fumbel,
a funda~go cultural do municipio, submeten-
do-se a uma sele~go previa. Um determinado
numero delas (30?) participaria de um desfile
em traje tipico (o tal conjunto camiseta-short-
sandalia) em um local (ginasio de esportes,
talvez) que pudesse abrigar um grande pui-
blico. As tris primeiras receberiam o mesmo
primio, em quantidade decrescente, confor-
me a classificaqio: roupa, bolsa de estudo e
dinheiro. Os patries teriam direito a um cer-
tificado de participa~go e foto official com as
vencedoras. Apenas as trasvitoriosas niopo-
deriam participar do concurso seguinte.
Paraanimar acidade, aPMB tambem po-
dia ressuscitar o concurso annual sobre os me-
lhores jardins de Bel~m e criar premiaqio para
o melhor trabalho de restauraqio de imbveis
de valor hist~rico e arquitet~nico. Finalmen-
te, langar um program de apoio a associa-
95es de amigos de bairros, de monumentos
ou de atividades culturais na cidade. A prefei-
tura podia adquirir predios tombados e ced6-
los, por comodato, a essas entidades, impon-
do-lhes como contrapartida a manuten~go da
edificaqio. Podia tambem assumir a legaliza-
gBo e o apoio ttcnico as associates ja exis-
tentes ou com sede pr~pria adquirida. Um se-
tor na Fumbel seria incumbido de acompanhat
as atividades dessas associates ereuni-las em
congress uma vez por ano.
Ideias simples, mas que podem ter uma
boa repercussio na vida de uma cidade en-
golida pela retina da indiferenga ou da in-
consci~ncia de si.













Belo Monte: a primeira



hidreletrica estrateg aca


Pela primeira vez um empreendimento el6-
trico 6 declarado de interesse estrategico para
o pais. Desde 17 de setembro essa posigio
inedita e ocupada pela hidreletrica de Belo
Monte, reconhecida em resolu~go do presiden-
te do Conselho Nacional de Politica Energeti-
ca, Jose Jorge de Vasconcelos Lima, como
estrategica "no planejamento de expansio da
hidreletricidade ate o ano 2010".
Se defender do governor federal, a usina
comegard a ser construida no pr6ximo ano no
rio Xingu, no Parai. Ela est8 sendo projetada
para se tornar a quarta maior hidreletrica do
mundo e a primeira completamente national,
com 11 mil megawatts de potincia, o equiva-
lente a 15% da atual capacidade de geraqio
energetica brasileira. Incluindo o sistema asso-
ciado de transmissio, o custo previsto da obra
6 equivalent a 6,5 bilh8es de d61ares (mais de
16 bilh~es de reais ao cimnbio de hoje).
Ao reconhecer o interesse estrategico da
usina, o president do CNPE props que fos-
se autorizada a continuidade de todos os estu-
dos de viabilidade econ8mico-financeira, am-
biental e de engenharia do empreendimento.
A Eletronorte, responsavel por esses trabalhos,
devera entregar ate o final do mes, antes do
prazo final definido na resolug50 do Conse-
lho, de 17 de dezembro, quase todos os docu-
mentos necessaries para permitir a outra ag~n-
cia estatal, a Aneel, langar a concorr~ncia pu-
blica. Mas n~o o relatdrio de impact ambi-
ental, suspense pela justiga federal em aten-
dimento a uma ag8o civil puiblica proposta pela
Procuradoria da Republica, em fungo de ir-
regularidades no contrato assinado com a exe-
cutora dos estudos, a Fadesp, a fundagio de
pesquisa da Universidade Federal do ParB.
O governor nio ignora que Belo Monte e
uma obra pol~mica. Ao conferir-lhe um status
especial, porem, indica sua disposi~go de exe-
cuta-la de qualquer maneira, num memento em
que o balango energetico do pais da sinais de
desequilibrio. Para dispensar a hidreletrica, se-
ria precise construir usinas termicas a gas na-
tural que consumiriam 42 milhies de metros
c~bicos por dia. Essa demand exigiria dobrar
a oferta atual de gas do pais. Ou entio recorrer
a oito usinas nucleares iguais a Angra II.
A importtncia estrategica de Belo Monte
decorre das vantagens que ela ira incorporar
ao sistema interligado national. Como as ne-
cessidades de energia internal ao Para sho
consideradas minimas, Belo Monte poderia
transferir quase toda a energia gerada no pri-
meiro semestre do ano, permitindo as usinas
do Nordeste e do Sudeste armazenar nesse
period agua em seus reservatdrios para fun-
cionar a plena carga no period seco do ano.
Alem disso, como os calculos da Eletro-
norte garantem que o custo da energia na hi-
drelttrica do Xingu sera baixo, Belo Monte


permitira ao governo postergar a implanta~go
de empreendimentos de custos mais elevados
previstos para as regimes Sul, Sudeste e Cen-
tro-Oeste. Combinando esses atrativos, a nova
hidreletrica reduziria o risco de d&/icit no sis-
tema nos proximos anos.
Os tecnicos da Eletronorte nio economi-
zam entusiasmo. Eles dizem que Xingo, no
Nordeste, e o unico aproveitamento energeti-
co melhor do que o de Belo Monte no Brasil.
Querem comegar o mais cedo possivel a obra
para que o primeiro dos 20 grandes geradores
a serem instalados na usina comece a operar
em margo de 2008. A cada tr~s ou quatro me-
ses uma nova miquina entrara em funciona-
mento, comn energia gerada suficiente para
tender a mais da metade da popula~go de
Belem, com 1,2 milhio de habitantes, nos pi-
ques de consume da capital paraense, a IF
mais populosa do pais.
A largada podia ter sido dada em 1989,
quando o projeto de Belo Monte entrou pela
primeira vez na agenda das decisies. Mas nes-
se ano a Eletronorte perdeu a batalha da opi-
niio pdiblica para indios, ambientalistas, mili-
tantes politicos e ate mesmo banqueiros inter-
nacionais, assustados com o perfil negative do
complex hidreletrico que a estatal havia con-
cebido. A usina teria dois enormes reservat6-
rios, que inundariam quase 7.500 quil~metros
quadrados de floresta, formando o maior lago
artificial do planet, e afetando a vida de al-
gumas comunidades indigenas.
Com o apoio de muita gente, os Kayap6
organizaram o I Encontro dos Povos Indige-
nas. Atraindo nomes famosos, o encontro co-
locou frente a frente nas ruas de Altamira, que
nio ficavam nada a dever ao decor de faroes-
te americano made in Hollywood, opositores
e defensores da obra. O memento mais tens
foi quando a india Tuira esfregou um faclo
no rosto do t~cnico Jose Antinio Muniz Lo-
pes, que subiu de posto desde entio e agora
preside a Eletronorte. O flagrante correu mun-
do, disseminando a ma fama da mega-usina.
Ela foi colocada para hibernar.
Ao ser reaquecida agora, como uma respos-
ta sonora de Brasilia a perspective de desequi-
librio na matriz energetica national, Belo Monte
arrasta consigo essa fauna acompanhante inc6-
moda, o dano ambiental e o prejuizo antropo-
16gico, que tinha levado instituicqbes multilate-
rais, como o Banco Mundial, a retirar o finan-
ciamento de grandes hidreletricas na Amaz6-
nia do seu portfoilio de neg6cios. Os debates
readquiram o tom aceso das campanhas e ate o
assassinate de um dos lideres desse movimen-
to em Altamira, a principal cidade da regido de
influencia direta da obra, foi colocada no cal-
deirio da controversia, que esti aquecendo.
Ciente desse fato, a Eletronorte desenca-
deou uma ofensiva para nio perder de novo a


guerra da opiniao publica e garantir a implan-
tagio da primeira hidrele~trica reconhecida for-
malmente como estrategica no Brasil. Normal-
mente avessa a curiosidade publica e hostil nos
entreveros, a empresa se abriu para tender as
consultas e se antecipar aos critics com in-
formaq~es, atendendo-os conforme as regras
do figurine de relaq~es pilblicas.
Mas nso ficou restrita aos salamaleques
protocolares. A &nfase maior da empresa esta
sendo dada ao capitulo da inser~go regional do
empreendimento. Essa preocupa~go inexistia
quando Tucurui, a uinica grande usina operada
pela empresa (e a segunda maior do pais no
memento), foi iniciada, em 1975. No final da
obra, em 1984, apareceu como tintura comple-
mentar, mais para dourar a pilula, que ja estava
praticamente pronta. Agora sera um dos ele-
mentos fundamentals do discurso, pr6, e con-
tra, exatamente porque os grandes projetos se
consolidaram na Amaz~nia como enclaves clas-
sicos, de pouco ou nenhum efeito local, desti-
nados a se multiplicar economicamente no
mercado comprador da materia prima ou insu-
mo bdsico, nio no sitio de produgio.
Nio ha ddivida alguma que Belo Monte sera
um providencial desafogo gs dificuldades de
suprimento energ~tico que a parte mais antiga
e mais desenvolvida do pais jB esta enfrentan-
do (e devera se defrontar no horizonte do pla-
nejamento energetico, que vai ate 2010), qual-
quer que seja o custo de produzir e levar essa
enorme quantidade de energia por uma distan-
cia de tres mil quil~metros, da fronteira ama-
z~nica ate os grandes centros consumidores.
Mas e para a Amaz~nia, Belo Monte sera~ um
novo cavalo de Tr~ia instalado na jungle, no
ainda relativamente intocado -e belo -vale do
rio Xingu, cuja bacia de drenagem se espraia
por mais de 7% do territ6rio brasileiro?
O projeto de inser~go regional montado
pela Eletronorte para seu novo paquiderme de
megawatts 6 muito mais sofisticado do que o
arranjo da decada de 80. A empresa esta mais
bem preparada para o confront de ideias (e
nio s6 de ideias, naturalmente, como esses
mementos de cheque acabam se tornando).
Resta verificar outros dois components da
equaqio de Belo Monte: o significado real da
obra, se de fate ium aprimoramento na abor-
dagem ecol6gica, social, de engenharia e so-
cial de uma hidreletrica construida na Ama-
z~nia, e o prepare dos que ainda acham que
deixar para depois, reduzir o tamanho e alte-
rar a concepCio desses projetos e o melhor
que se pode fazer quando a inten~go e usar
inteligentemente os recursos naturals dessa
vasta e complex region.
Se Belo Monte ji 6 de importincia estra-
tegica para o governor, a tarefa, agora, e veri-
ficar se pode ser tamb~m estrategica para a
sociedade e se pelos mesmos motives.





6 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001


urante o meio seculo em que foi pro
fessor, Francisco Paulo do Nascimen
D~to Mendes deu suas melhores e mais
proficuas aulas nlo numa sala de aula con-
vencional, mas numa mesa de cafe, numa roda
de conversa de mua, num canto de livraria ou
em textos de ocasiio, escritos para apresentar
um catilogo de exposigio, prefaciar um livro
ou registrar uma data na imprensa. Seu posto
mais marcante foi o Cafe Central, uma das
mais autinticas (e raras) reprodugdes entire n6s
das arenas intelectuais europeias, reduto da
cultural entiree goles de cafe, cha, uisque ou cer-
veja) que experimentou seu apogeu entire as
decadas de 40 e 50. Como s6i acontecer, eclip-
sou-se quando a inteligincia se tornou mote
policial, nos idos de abril de 1964. Feneceu
no contracanto da rebeldia, ainda que no tom
intimista de uma bossa nova.


De ois do album


~da 0br 0


Prof0 TB


C~ OC


I~l8n S









JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001 7


o poder aquisitivo medio. Essa restrigio, con-
tudo, e inevitivel diante das caracteristicas do
livro, um Album com capa dura, sobrecapa, for-
mato grande, papel de primeira e farta icono-
grafia. Tinha que ser carol mesmo.
O prego s6 nio se tornou mais proibitivo
ainda porque a Secult, que s6 com a impres-
sio de mil exemplares precisou gastar 90 mil
reais, bancou o rebaixamento do prego de ven-
da ao pdiblico para R$ 50. Com suas eventuais
falhas, o album e um resultado altamente po-
sitivo tal como foi entregue g sociedade. Cum-
pre com mbritos sua finalidade: registrar a gra-
tidio e a divida do Para em relaqio ao seu
notavel filho. Estio de parabens o organiza-
dor e toda a equipe envolvida na empreitada.
Mas acho que a secretaria devia tratar
de um novo livro, sem luxo, em format pa-
drao, que trouxesse a obra reunida de Fran-
cisco Mendes, complementada por andlises
e comentarios com outro propbsito que nio
a memorialistica desigual dos testemunhos
publicados no album. Tratando o profes-
sor nio como uma lembranga pessoal, mas
como um poderoso intellectual que cabe a
n6s, os que prosseguiram na vida, situar em
seu context e aproxima-lo das geragbes
seguintes, evitando que elas o encarem como
uma esfinge dourada.
A trajet6ria do professor Mendes seguiu
ou resultou de tr~s eixos e acontecimentos.
O primeiro deles foi a passage da ditadura
do Estado Novo para a democracia, sob a
tutela da constitui~go de 1946. Chico foi sem-
pre um libertario, praticamente um anarquis-
ta, contririo B autoridade baseada no simples
poder de mando -e, este, abominavel quan-
do derivado para o arbitrio.
Sem se tornar militant politico nem che-
gar a uma filia~go partidaria, investiu em sua
esfera de atuaqio contra o ditador de plantio.
Aqui, era Magalhies Barata. O tenente meta-
morfoseado em caudilho nao tinha motives
para temer o franzino e energico professor que
comegava a carreira, mas segurou o quanto
p6de a nomeagao dele, que lhe era imposta
pela aprova~go no concurso da Escola Nor-
mal. Ja1 os militares que puseram fimn a essa
democracia em 1964 contariam com o repu-
dio e, por vezes, o asco de um home que
tinha prazer orgistico em pensar sem peias,
em sonhar e voar nas asas da sua imagina~go
f~rtil, s6 prestando contas ao saber,
A segunda diretriz na vida intellectual de
Francisco Mendes foi a primeira liga~go fi-
sica de Belem com o resto do pais, constru-
ida entire o final da d~cada de 50 e o inicio
dos anos 60, a estrada Belem-Brasilia. O
professor passava temporadas de atualiza-
gio fora da uiltima grande cidade portugue-
sa do pais, ou a mais tardia das capitals lu-
sitanas da naqio brasileira. Ia sobretudo ao
Rio de Janeiro, de onde voltava abastecido
de livros importados para alargar seus hori-
zontes e o dos seus interlocutores.


Mas Belem tinha identidade e unidade an-
tes da B-B, era um mundo ao gosto do seu
ilustre morador. A estrada de integraqio na-
cional teria como contrapeso de terrivel ex-
pressio o incremento da selvageria, em suas
varias modalidades, pondo fim a um univer-
so com o qual o professor se sentia em har-
monia. E, com ele, os caboclos do Norte,
agora tomados de emprestimo, a revelia, por
um caboclo em apuros, atr~is de um estan-
darte para as pr6ximas batalhas.
Um terceiro detonador de fats foi o nas-
cimento da Universidade Federal do Pari, a
primeira da Amaz6nia. Chico Mendes foi um
dos esteios principals de uma das ramifica-
95es originals, o cursor de filosofia, que, para
nio variar na tragicamente ir6nica hist6ria do
nosso ensino superior, nasceu dentro de uma
escola de agronomia. Tanto quanto por seus
conhecimentos, foi important para a ainda
engatinhante autonomia universitaria pelo seu
sensor de dignidade e de respeito, mantendo
os macacos a distincia da loja de lougas es-
culpidas pela cultural.
Ele semeou com abundlncia no ambien-
te academico, mas os melhores e mais ex-
pressivos frutos germinaram nas ruas, no
ambiente publico, sem vies institutional ou
formal. Acho que esse e o mais significati-
vo resultado da muiltipla vida intellectual do
professor Francisco Mendes: sua obra ex-
pressa o paradoxo entire o corpo de saber
que se organizava e se estruturava para ser
continue, sistematico, cumulative, a Univer-
sidade, e o corpo informal de conhecimen-
to, aberto a todos e selecionando em condi-
95es de absolute liberdade.
Chico encontrou seus melhores discipu-
los na mesa de cafe e nao na sala de aula.
Melhores nio por qualquer criterio formal,
mas pelo produto de suas biografias e
obras. Os alunos das escolas em que o pro-
fessor Mendes ensinou sho figures palidas
quando comparados aos que, primeiro como
aprendizes, depois como iguais, estiveram
ao lado do mestre fora dos muros instituci-
onais, embora aqueles se considered auto-
rizados a julgar (e, quando o caso, interdi-
tar) a estes. Estes, mais antigos, tinham mais
brilho pr6prio do que aqueles, mais recen-
tes, marcados pela fungo de reprodugho
intellectual, mais do que pela de criaqio, sa-
telites e nio estrelas.
Nalo diz essa hist6ria muito mais sobre o
empobrecimento do intellectual publico,
aprisionado na carreira acadtmica, do que
qualquer disserta~go de mestrado e tese de
doutoramento? E o trabalho que falta rea-
lizar agora que Francisco Paulo do Nasci-
mento Mendes ja tem um luxuoso Album
para registrar a perenidade da sua vida, que
se tornou eterna por algo mais vivo: a pr6-
pria vida dos que seguiram em frente, ar-
mados por ele com fats, raciocinios, refe-
rancias e testemunho pessoal.


O poeta Max Martins, um dos freqiienta-
dores do sal~o enfumagado para o qual tanta
contribui~go deu com suas industrials bafora-
das, lembra que das mesas do cafe sairam duas
revistas (Encontro e Norte), um cine-clube (Os
Espectadores), um grupo teatral (o Norte Te-
atro Escola) e academias ou associates cul-
turais (como a G. K. Chesterton, em homena-
gem ao ins61ito escritor inglis). A agenda dos
debates abrangia todos os temas do conheci
mento humane, do passado, do present e do
future. As cadeiras eram ocupadas principal
mente por advogados, professors, jornalis-
tas e beletristas em geral.
Os nomes expressavam um amplo espec-
tro de filiaqio ideol6gica ou estetica, mas in-
variavelmente carregados de brilho. Gente
como (na rememoraqio de Max) Ruy Barata,
Paulo Plinio Abreu, Benedito e Maria Sylvia
Nunes, Angelita Silva, M~rio Faustino, Ma
rio Couto, Frederico Barata, Cauby Cruz, Rui
Coutinho, Haroldo Maranh~io, Robert Stock,
Jurandyr Bezerra, Alonso Rocha, Simio Bi-
tar, Raimundo Souza Moura, Orlando Costa,
Floriano Jaime, Napoledo Figueiredo e Ar-
mando Mendes. Os da primeira gerag8o.
Francisco Mendes foi o mais important
intellectual paraense do seculo passado, a des-
peito de nio haver sido publicado nenhum
dos verses que lhe atribuiram, nio ser roman-
cista e seu finico livro com essas caracteristi-
cas ser um volume magro, Raizes do Roman-
tismo, a tese que lhe deu, por concurso, o lu-
gar de professor catedritico na antiga Esco-
la Normal (hoje, Instituto de EducaqSio do
Para), em 1945. Como S6crates, Chico Men-
des se prolongou e se perpetuou atraves de
seus discipulos, que absorveram suas idtias,
seguiram suas sugestdes e se multiplicaram,
individualizando-se, em variadas direqdes.
Mesmo quando antagbnicas, ou mesmo con-
flituosas, elas tinham um ponto em comum:
o mestre de origem.
Sua lembranga esta agora perpetuada no
album O amigo Chico, fazedor de poetas, or-
ganizado por Benedito Nunes, maior amigo e
principal interlocutor vivo do professor, pu-
blicado no mas passado pela Secretaria Exe.
cutiva de Cultura do Estado (284 paginas, R$
50,00). Como livro de homenagem, e uma bela
edi~go, concebida e executada com inteligin-
cia, sensibilidade e competancia. Depois de
1C-la, porem, fiquei com uma duvida: se esti-
vesse vivo, Chico Mendes teria aprovado o
trabalho, nio como homenageado, mas na sua
condigio de leitor e critic? Como reagiria ao
ver os fac-similes de noticias de jornal sobre
a morte do personagem, mal escritas e insos-
sas, alem, evidentemente, de funestas e fuine-
bres? Ou a depoimentos de pessoas que tal-
vez tenham abusado da generosidade da som
bra do homenageado, flagrado em fotografias
cuja insergio talvez nio autorizasse?
Questdes subjetivas e, talvez, completamen.
te laterals. Objetivamente, o produto 6 carol para



















































































Jornal Pessoal
Edilor: Lddo F~vio Pinto* Fones: (091) 223-7690, 261-4284 e 261-4827 Contato: Tv.9enjambn Consadnt84920t~~a340EG40 eeall:jomselmamaznm m~s Produgio: Angeran Pinto Edigo de ArterLuizanionlodefaipi


Sem interlocugho
Diga-se em favor da Eletronorte: se desta
vez a opiniho publica paraense se mantiver
desinformada sobre mais um grande projeto,
a culpa n~io sera da estatal, reincidente em au-
toritarismo em varios epis6dios anteriores.
Nos 61ltimos dias a empresa fez exposiq8es
sobre a hidreletrica de Belo Monte para en-
genheiros, arquitetos, jornalistas e advogados.
Disp~s-se a responder perguntas pelo tempo
que fosse necess~rio e tender todos os que
se manifestassem. Teve que se circunscrever
ao espago limitado do audit6rio e a uma agen-
da com graves lacunas.
Preso a voca~go colonial que the impuse-
ram, o ParB nio esta habilitado a enfrentar com
compet~ncia os temas mais importantes da sua
histbria imediata, mal vislumbrada nas n~vo-
as do cotidiano. Questdes da amplitude da bi-
odiversidade, da extraqio de min~rios, do
melhor process de transformaqio das mat6-
rias primas, do uso inteligente da energia, do
circuit international de mercadorias e alguns
outros ainda sio tratados de forma acanhada,
numa perspective provinciana, sem conextio
comn seus elos mais profundos e mais distan-
tes, que, nem por isso, slio invisiveis (embora
s6 visualizaveis quando encarados por pris-
mas adequados). A rota do dia-a-dia do Esta-
do segue em parallel, por baixo, rasteiramen-
te, a linha das grandes decis~es sobre o apro-
veitamento dos seus recursos.
Lembro quando, no auge da discussito so-
bre a localiza~gio da metalurgia de aluminio, toda
a diretoria da Salobo Metais desceu do Rio de
Janeiro em Maraba disposta a enfrentar todos
os questionamentos do lugar que disputava a ins-
tala~go da industria, na epoca com investimen-
to previsto de dois bilh~es de d61ares. Os pre-
sentes nito foram capazes de fazer a 6nica per-
gunta que iria colocar em pratos limpos as al-
ternativas locacionais da fabric.
Nem sempre e suficiente estar cheio de in-
dignaglio, proclamar-se o int~rprete da hist6-
ria ou buscar inspiraqio na boa causa: e pre-
ciso armar-se das informaqdes necessarias, em
amplitude, profundidade e atualidade. Como
ter essas informaqdes a mso, a tempo e a hora,
se o ParB nio tem conscitncia de sua posi~go
como Estado minerador, provincia energeti-
ca e supridor de materias primas? Se tem
muitos min~rios no subsolo, mas ngo a cultu-
ra da minerag8o? Se de seus rios saira cada
vez mais energia, mas a energia 6 tema do-
mestico nas suas preocupaq6es?
Sera impossivel conciliar a agenda do Esta-
do com o da sua hist6ria? Tomando como base
a reconstitui~go da continuidade da tradi~gio co-
lonial das fronteiras mundiais, a resposta talvez
seja sim. Mas pelo menos se nos impde o dever
de tentar o contrdrio. Pior do que o que se ca-
lou, como diz Drummond num dos seus poe-
mas, e aquele que nunca falou. Quantos no Para
ja falaram? Quantos parecem ter nascido cala-
dos e assim se mantam sempre? Somos um pou-
co de surdos, mudos e eunucos?


Pe rguntas
A ex-superintendente regional
do Iphan (Instituto do Patrimbnio
Histbrico e Artistico Nacional),
Elizabeth Neno Soares, nessa fun-
gio ha seis anos, soube de sua de-
missio do cargo quando estava vi-
ajando. Voltou para transmitir seu
lugar ao arqueblogb, Luis Severi-
no da Silva J6nior, que estava lota-
do no Iphan em Recife, sem qual-
quer afinidade professional at6 en-
tio com a Amaz6nia.
Havia um certo mal-estar e ten-
sito na~ solenidade de posse, no fi-
nal do mis passado. Os novos diri-
gentes do Iphan no Pard e o presi-
dente do institute, que veio empos-
sa-lo, tinham dificuldades de se re-
ferir is autoridades presents, que
aparentavam desconhecer pelo
nome, e nenhuma intimidade com
sua nova jurisdi~go, mesmo estan-
do al um conselheiro do Iphan, o
arquiteto Paulo Chaves, secretdrio
de cultural do Estado e responsivel
pela indicaptio de Elizabeth para o
posto que havia sido dele, alias.
Sera que para o Para tornou-se
irrelevant se a dire~go do Iphan 6
ocupada por pessoa bem qualifica-
da ou por um estranho no ninho,
precisando recomegar do zero? Fi-
cou sendo de nenhuma importin-
cia se o professional 6 da area que
mais interessa no memento ao pa-
trimcinio histbrico e artistic na re-
gitio, como a arquitetura e a hist6-
ria, ou de uma especialidade mais
lateral, como a arqueologia?
O Para, final, voltou a ser
um bom campo de provas para
para-quedistas?
Com a palavra, quem souber
das respostas.


Desembargadora, enfim
O Tribunal de Justiga do Pard apagou um antece-
dente negative na sua hist6ria ao, finalmente, promo-
ver a juiza Martha Inbs Antunes Jadio ao desembargo,
na semana passada, apC~s duas preteriq8es e uma des-
gastante pol~mica em torno delas. O ato expurgou do
procedimento os criterios subjetivos e infundados que
haviam at6 entio impedido a magistrada de alcangar o
estigio final de sua carreira. Os fatores da recusa, mais
mnsmuados do que declarados, ate caberiam se o crit6-
rio da ascensio fosse o do merecimento. Mas Martha
Inis chegou aos umbrais do desembargo por ser a mais
antiga a oficiar em primeira instincia.
Era injustificavel e absolutamente injusto que uma
juiza de grau inferior fosse permanentemente chamada
a atuar na corte superior do TJE, para completar nume-
ro ou substituir titular, e continuasse a ser considerada
indigna de dar o pass derradeiro da carreira judicid-
ria, transformando-se em permanent o que vinha sen-
do tempor~irio. Agora essa nC~doa foi removida. Ainda
assim, nove desembargadores votaram contra a promo-
Fgo de Martha In~s por antiguidade, dos quais sete
mulheres. N~o me lembro de tantas bolas pretas atira-
das no caminho de um novo desembargador.
A ficha funcional da magistrada e limpa. Nenhu-
ma anota~go negative e muitos registros positives, ates-
tando o reconhecimento da sociedade a seriedade do
seu trabalho no desempenho da fungio judicante. N~o
havia, portanto, materia capaz de embargar a aplica-
gio do principio da antiguidade, qune estava em causa.
Martha In~s 6 temperamental, emotiva e as vezes ex-
cede os limits em que a personalidade pode se mani-
festar sob equilibrio. Mas esses desvios jamais influi-
ram sobre o desempenho professional, ou ao menos
nio se tem provas nesse sentido.
Ela pr6pria costuma reconhecer esse aspect pro-
blemitico do seu modo de ser. Mas ate agora mnexis-
te demonstra~gio de que essa interfer~ncia subjetiva
mudou uma sentenga ou influiu no Inimo da magis-
trada na instrugho de processes. Logo, essas falhas
nilo podiam servir de fundamento para impedir o re-
conhecimento do direito objetivo da juiza de subir
ao desembargo. Velhos acompanhantes de sua traje-
tdria na magistratura lamentam que a ascensito nio
tenha sido em fun~gio dos muitos meritos da juiza,
suficientes para credencia-la ao ato e multo mais
numerosos do que os de diversos magistrados que,
por essa via, chegaram ao TJE.
Os nove votos slio, assim, em substancia, injus-
tos. Entre os que se negaram a promov&-la (e dois
que se abstiveram de tomar partido), deve haver um
ou outro que se manifestou a just titulo. Mas a aver-
sito, na maioria dos casos, deveu-se provavelmente a
idiossincrasias de natureza pessoal, subjetiva e qua-
litativamente menor, lateral. De qualquer maneira, a
nova desembargadora deve levar em conta essa ma-
nifesta~go de seus pares e tomi-la como estimulo para
corrigir os excesses de temperament e os impulses
voluntariosos, todos elements secundarios na ma-
triz de seus atos, mas capazes de permitir a quem os
queira manejar transformii-los em elements decisi-
vos de juizo e avaliaqio.
Agora que o TJE se reconciliou com a letra da lei e a
diretriz normativa, esperam todos os bons cidadios pa-
raenses que Martha Inis Antunes Jadlio supere, como
desembargadora, a respeiti~vel juiza que foi ate agora.