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Jader Barbalho ac ANO XV NP 269 2a QUINZENA DE OUTUBRO DE 2001 *R$~P OLATTC A b ~ '8, sl ;~ =II sra~ ~S~ H ;~ (i~B11~ ) i(Q B~la~ 1 ~ r ~t sr ~ga~ ~a ~I ~~ I t, i :4 1 r r~B a 1 SBIII ~b~T; P I II OCT' 2 52:00f A queda do ex-senador e ex-presidente do S'enado esta sendo mais fulminante do que sua prodigiosa ascensao. Ele continuara' seguindo ate' o fundo do buraco ou recomeg-araZ a subir? A recuperaga~o pode ainda devolv#-lo a poli'tica national ou o restringird ao seu reduto poli'tico estadual? Muitas sdo as dzividas. Mas uma resposta para valer vai aidmz do destiny individual do ex-governador. B o PardZ que esta em crise. to tempo no Brasil a uma cam- panha tao ampla e hostile quanto Jader Fontenele Barbalho. O N~todo-poderoso Ant6nio Carlos Magalhies entregou os pontos mais rapida- mente, numa situa~go muito mais confortivel do que a do ex-governador do ParB. Jader foi cedendo posi- 95es gradualmente, enquanto usava sua invejavel habilida- de para contornar os ataques ferozes e negociar um acor- do, capaz de salvar algo que , pudesse servir de base para o seu retorno, ao nivel federal da political ou, pelo menos, ao =~ territ6tio estadual. Depois da presid~ncia do Senado, ele renunciou ao ?i mandate de senador na espe- ranga de aplacar a ofensiva e respirar. Mas tudo indica que nio conseguira center a am- pla frente de adversarios que se formou contra ele, das "vi- uvas" de ACM a membros do Ministerio Pilblico, do judiciario e da poli- cia, dispostos a it is tiltimas conseqtiincias na apuraqio dos fats. Mesmo nos momen- tos mais critics da via crucis descensional parecia que Jader Barbalho ainda mantinha, em algum grau, o control da situaqio. Mas jB comega a se tornar mais nitida a impres- sho de que ele pode ter iniciado um cami- nho sem volta para o ocaso. Parece que a desgraga s6 quer comego, como filosofava o vereador Gongalo Duar- te. Homiziado em suas fazendas na area da Belem-Brasilia, depois de ter mandado para Brasilia a carta manuscrita de ren~imcia, o ex-senador foi alcangado por mais um lan- ce de trucul~ncia de agents de seguranga. Um deles estourou a tiros dois pneus do car- ro da reportagem da TV Liberal, que fazia ponto dentro da propriedade, atris de um flagrante do casal Barbalho. Um incident tio condenavel quanto atribuir a Jader res- ponsabilidade pela iniciativa. Entre seus defeitos nunca se incluiu o de maltratar a imprensa, exceto pela forma sutil de sone- gar-lhe informaqdes. Agredir rep6rteres e algo mais afim comn o curriculo de ACM na satrapia baiana do que na paraense. Torna CeSSOa LUIjC IO F LA V O P IN T ~ 2 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001 ) Qualquer movimenta~gio que faga acarreta problems e inconvenientes para o ex-senador, aprofundando o buraco no qual vai enterrando uma carreira political bem-sucedida ate o mo- mento em que decidiu enfrentar o establishment politico, personificado em ACM. Certamente seu primeiro suplente, o pr~prio pai, Laercio Barbalho, nio assumira a vaga. Com um bom alibi: a precaria sauide, debilitada aos 81 anos. O segundo suplente, Femnando de Castro Ri- beiro, garante que ird ocupar o lugar. A decisito, entretanto, cabe ao senador afastado. Nele 6 que respingara (se 6 que nito lhe sera langada diretamente) a lama que co- legas, como a inefilvel Heloisa Helena, ji ameagam langar por antecipa~gio no ainda su- plente, esperando assim inibi-lo de dar o pas- so a frente. Fernando tamb~m podera sofrer a extensito dos ataques originarios do MP, da justiga e da imprensa, feitos contra o ex-titu- lar da cadeira, em funCio de enriquecimento ilicito, forma~gio de quadrilha, sonega~go e outras p~rolas negras do Codigo Penal. Isto significara que o defunto s6 sera decla- rado morto quando definitivamente enterrado, com atestado de 6bito passado em cartdrio, ou seus restos salgados e espalhados no caminho de Belem do Parai, como faziam question de re- afirmar no fim de semana as tr~s revistas de informagilo, em coro unissono. Repetido por outros 6rglios da grande imprensa national. Deixar que Femnando Ribeiro assumisse o lugar para percorrer essa trilha de desgaste ate uma cassagilo poderia ser ate interessante. Ele e menos estigmatizado, tem um envolvimento apenas lateral nos epis6dios em que foi asso- ciado ao chefe e nio tem qualquer aspiradio political para o future, ao menos declarada. Pode submeter-se a um process de cassaglo disposto a ir ate o fim, tornando-se o porta- voz do seu lider, realizando que ele acabou nito fazendo pela convic~gio de que, indepen- dentemente do conteudo do process, sua sentenga de cassa~go ja estava escrita. Mas enveredar por essa trilha significaria manter o nome Barbalho na agenda das acusaq8es e voltar a expor seus crimes, reais ou atribui- dos, sujeitos a mesma devassa de antes. De qualquer maneira, ndo e: isso mesmo o que vai continuar a acontecer? Pode-se imaginar para Jader nos pr6ximos meses um enredo semelhante ao que tem defi- nido a trajet6ria recent de Luiz Esteviio? Al- guns meses atras era Jader quem negociava no Pal~cio do Planalto uma tr~gua em favor do ex-senador do Distrito Federal, seu corre- ligionario do PMDB, flado na sua condi~go de interlocutor necessario do president Fer- nando Henrique Cardoso. Agora Jader esta sendo colocado no mesmo lugar de Luiz Es- teviio e Renan Calheiros e quem participa de entendimentos na clipula federal. Se, nessa fun~gio, os resultados do armisti- cio pr6-Luiz Esteviio foram pifios ou nenhum, melhor conseqitincia havera para Jader? O fra- casso seria resultante do fato de que FHC quer distincia de politicos carimbados pelo selo da campanha anticorrupplio ou porque a frente de combat ja e: tiio ampla que escapa ao po- der de control ou ate de interfer~ncia do pre- sidente da Repdblica? De uma resposta satisfatdria podem surgir outras respostas para a attitude que Jader Bar- balho vai tomar em relaglio a political nacio- nal: se tentara a volta por cima atravts do seu suplente ou se aceitard sumir de circulaglio, na expectativa de que o esquegam, protelan- do a definigio sobre a suplencia pelo tempo necessario para esgotar o prazo para a reali- zagio de nova elei~gio para o preenchimento da vaga que abriu com sua renuincia. Qualquer que seja a hip6tese vencedora, hd uma outra questio cobrando elucida~gio: ele continuara a contar comn algum beneplacito da administragilo federal? Mesmo que por inter- posta pessoa (como o senador Calheiros), vai ser ouvido e receber retornos do Planalto? Vai manter o melhor cargo federal com que conta no Para, entregue ao ex-deputado Manoel Ri- beiro, a frente das BRs no Estado, com verbas para asfaltamento e melhoria de estradas, que podem render votos? Esse e um dos esteios com que Jader deve contar para uma campanha majoritbria. Se ele pretend reaver ao menos uma parte do poder que esta perdendo, por etapas,~ sim, mas rapi- damente, em escala sucessiva e cumulative, tera que disputar elei~gio majoritaria. Talvez voltar ao Senado seja mais faicil da perspective dos votos a conquistar, mas seria uma temeridade do ponto de vista estrategico, sujeitando-o a retomada dos ataques que tem sofrido, nto com a mesma abundlncia, mas em condigaes de desgasti-lo intensamente. A hip6tese mais provivel parece ser a dis- puta do governor psela quarta vez, exceto se Jader Barbalho optar por uma tatica beiran- do o suicidio politico: niio participar das elei- 95es do pr6ximo ano. Nesse caso, ele podia compor coligaq8es no mais amplo espectro possivel de aliang~as no Para. Uma delas po- dia ser com Hildegardo Nunes, garantindo estrutura partidaria, reduto eleitoral e supor- te financeiro para o vice-governador ser um candidate auti~nomo e romper com Almir Gabriel numa posiqilo de forga, formando uma coligagilo oposicionista encabegado por PMDB e PTB, com mais forga do que as sem- pre desunidas esquerdas. Sem Jader na cabega da chapa, nito have- ria a polarizaglio que o tema anticorruppio acarretaria. O lider do PMDB podia manejar nos bastidores para eleger uma bancada fede- ral forte e conquistar maioria na Assembleia Legislative. Mas ele resistiria a pelo menos dois anos de ostracismo, sujeito a subitos man- dados de priislio ou a seguidos depoimentos na justiga ou na policia? Quando deixou o governo, em 1987, e se arrastou por alguns mess antes de ser chama- do ao minist~rio de Jose Samney, Jader expe- rimentou desse fel. Seu aliado, o governador Helio Gueiros, combinava declaraq~es publi- cas de fidelidade com uma guerra de bastido- res para desgastar o patrimonio politico do an- tecessor e correligionario. Os compromissos da campanha political costumam ser esqueci- dos pelo vencedor ja no dia da posse. Supor- taria esse teste de fogo? Para voltar por cima na sua terra Jader vai empunhar o estandarte do caboclismo. Um ensaio dessa campanha saiu na imprensa na semana passada. Osvaldo e Valbria Silva, dons de hotel e motel, patrocinaram um am~incio, "tjuntamente comn seus 150 funcio- narios", para manifestar "irrestrita solidarie- dade" ao ainda (entso) senador, "que enfren- ta com a coragem de que sho dotados os ver- dadeiros paraenses dessa campanha fanitica e vingativa em represa~lia a sua attitude de desafiar e veneer aqueles que se julgando dons do poder nio aceitam a presenga do nosso aguerrido Para no ponto mais brilhan- te do Legislativo Nacional". A mensagem terminava comn um compromisso: "Conte conosco para o pr6ximo pleito". De fato, como president do Senado e ter- ceiro na lista de sucessito do president da Re- puiblica, Jader podia multiplicar a capacidade, que jb havia demonstrado, de conseguir verbas federals para o Estado e ser intermediario de interesses estaduais junto ao poder central. O corte e costura de bastidores, ele o fez com uma efici~ncia que s6 o senador Jarbas Passarinho superou. Mas essa participa~glo efetiva, mas nio olimpica foi justamente um dos elemen- tos que o arrastaram para escindalos, como a troca de incentives fiscais da extinta Sudam por apoio politico, funds de campanha e comis- s6es de corretagem. Niio foi propriamente por defender teses e id~ias em favor do Pard qune ele se notabilizou, a causa da idiossincrasia da elite national ao seu nome. Do politico de program que se fi- liou a ala dos "autinticos" do MDB na metade da decada de 70, numa posi~gio de centro-es- querda, Jader se transformou no canal de con- verg~ncia indistinta de interesses puiblicos e privados, numa promiscuidade que haveria de deixar pistas de ilicitude para os que rastreas- sem sua trajetbria. Suas muitas virtudes como politico se enquadraram no esquema de neg6- cios que ele foi montando a media que pro- gredia na carreira, o politico financiando o empres~irio -e o sufocando. O home que chegou ao mais alto nivel de poder que um politico do Norte ja alcan- gou na Republica esta deixando, na reversito dessa progressilo, um acervo de constrangi- mentos e feitos negativamente ineditos na his- t6ria. A queda estd sendo mais fulminante do que a ascensito e o choice mais forte do que o suficiente, ou at6 merecido. O ParB, depois de dar o primeiro politico que renunciou a presi- dancia do Senado, pode se tornar o primeiro JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001 3 1~11 _ Estado brasileiro a nio poder dispor das tres cadeiras asseguradas pela Constitui~go a cada unidade federativa, caso a indenifi~go sobre a substitui~go de Jader perdure alem de 15 me- ses do fim do seu mandate. Senatorialmente falando, o Para serfi ent~o um Estado menos igual do que os outros. Culpa s6 de Jader Barbalho? Seus inimi- gos bem que gostariam de que assim fosse, mas assim n~io 6. Nem foi ainda apagado o nome do ex-governador paraense da retina da Cbmara Alta e j8 o foco dos investigadores se concentra em mais um senador paraense, Luiz Otavio Campos, integrante da banda da poli- tica que se diz sadia, em contrast com a ban- da podre do clB Barbalho. Nada assegura que o "senador do gover- nador", de volta ao PPB, oferecer6 a menor capacidade de resistir a apuraqio de sua par- ticipa~go num emprestimo do Banco do Bra- sil a1 firma do seu sogro para a constru~go de balsas invisiveis. Poderd ser a segunda cabeg~a paraense a rolar na assepsia que o Senado se viu obrigado a fazer, afastando at6 agora quatro dessas cabegas, algumas coroadas de poder. Essa revisio de hibitos e corre~go de cos- tumes ficar8 restrita a Brasilia? O Pard con- tinuara a ser um corpo estranho, fecundo, como outros uteros federativos, a ma politi- ca e as pessimas elites, que dela fazem um instrument de neg6cio para seus interesses? Quem centralizar a resposta em Jader Fonte- nele Barbalho, condenando-o ou o absolven- do, estara servindo ao jogo dos que usam o boi de piranha para fazer a manada passar pelo rio da vida publica no Estado. O buraco e mais em cima e a culpa e muito mais ampla. Mas se e custoso remi-la, nio e impossivel dar o pri- meiro pass. A hora e esta. O primeiro ndimero de O Paraense circulou no domingo com uma tiragem pr~xima das me- lhores ediq~es de O Liberal, o lider dispamado do mercado de jomal impresso no Pardi: 50 mil exem- plares. Gmande parte dos exemplares da ediio inaugurlal do novo semanaio foi distribuida gra- tuitamente g populagio. JSA seria o bastante para garantir seu impact. Mas o prego davenda avul- sa tamb~m causava forte impression: 50 centavos por um jomal de format conventional (ou stan- dard), de 12 paginas. Metade do prego do mais bamato jomal de domingo, A Provincia do Parai. Seis vezes abaixo do que custa O Liberal. Ronaldo Brasiliense, editor e donor da publi- capso, diz que n~io ha segredos nos niumeros des- se langamento. A impressio do jomal, feita nas modemas oficinas do Correio Braziliense, na ca- pital federal, custaria R$ 10,5 mil. Mais R$ 2 mil seriam gastos no frete rodoviatio. O ponto de ni- velamento, admitindo esses nuimeros, seria alcan- gado com a venda de 40 mil exemplares, des- contados 40% da intermediaqio. O encalhe teria que ser de 20%. S~o metas invejaiveis. Em ter- mos proporcionais, nenhum dos jomais em cir- culaio em Belem as aicangou. Alguns est~io com encalhe acima de 50%, por exemplo. Isso, s6, para bancar o custo de impressio. Mas ainda ha os demais custos, de pessoal a ope- racional. Vio requerer publicidade. O primeiro numero circulou sem um ~inico anu~ncio, total- mente ocupado por materias jomalisticas. Essas caracteristicas e mais o porte do langamento ati- gam a interpretagio de que o govemno do Estado age por trais da nova publica~go, direta ou indire- tamente, financiando-a ou estimulando-a. OPa- raense iria servir de instrument para a campa- nha de Simio Jatene ao govemno do Estado. No primeiro n~imero nio ha uma s6 foto do secretdrio especial da promogio social, ou do go- vernador. Isso ndo quer dizer muita coisa, consi- der-ando-se a experi~ncia e a intelig~ncia de al- guns dos jornalistas arrolados no expediente do jomal. Fotos e noticias poderao vir depois. E ainda que o apoio nio se tome explicit nem haja um elo objetivo entire o jomal e a miquina official, uma das diretrizes do semandrio parece ser a de atacar o ex-senador Jader Barbalho e destacar os meritos da administration Almir Gabriel, fazer coro as ideias tucanas e o contracanto B oposi- gio, nela incluido o PT. Se, entretanto, ainda ha duividas quanto its ori- gens mais profundas de O Paraense, o grupo Li- beralnio titubeou: esti contratando, pamadirigir o Amazd~nia Jornal, o jornalista Oliveira Bastos, pa- raense ha muito estabelecido em Brasilia, que ul- timamente esteve envolvido comn a Construtora C. R. Almeida (na grilagem do Xingu) e a govema- dora Roseana Samey, do Maranhio, candidate a candidate B presidencia da Repuiblica pelo PFL. Conforme o andar da carruagem, ojornal televisivo dos Maiorana pode virar O Liberal do B. Ou seja: incumbido de devolver e ante- cipar ataques. Um pass adiante na velha tati- ca que o grupo sempre adota quando se apro- xima uma eleigio: criar dificuldades para ven- der facilidades, impondo o prego. Depois de ter sofrido essa estrattgia, o go- vernador Almir Gabriel parece decidido a se antecipar para nlo ficar na inc~moda situaqio daquela famosa pega teatral de Oduvaldo Vi- anna e Dias Gomes: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Colocou seu bicho no ter- reiro para ciscar, a espera do adversario que se apresentar na rinha. O primeiro nimnero do fasciculo da histi~ria do Pardi escrita por Be- nedicto Monteiro e publicada pelo grupo Liberal foi um sucesso. O en- calhe nas bancas ficou entire 10 e 15%, um indice excepcional, sobre- tudo no atual period de vacas ma- gras. No segundo nimero a sobra dobrou em terms absolutes e cres- ceu ainda mais em terms relatives porque as encomendas diminuiram. Uma banca que havia recebido 300 exemplares do primeiro n~imero, s6 aceitou 200 a partir dai. No terceiro nuimero o encalhe ji havia passado de 40%. Chegou a quase 60% no niumero quatro. A expectativa em relago ao quinto fasciculo 6 ruim. Quem fizer uma rigorosa pesqui- sa nas principals bancas vai ficar sabendo que os vendedores nio acre- ditam mais no produto. O grapo Li- beral desperdigou rara oportunida- de de produzir um acontecimento editorial por visar apenas objetivos comerciais e subestimar o discemi- mento do pdiblico. A receptividade inicial atesta a catincia de uma obra de refer~ncia sobre a histiria geal do Parci. um campo propicio pam projetos que sejam capazes de com- binar qualidade grafica e de contei- do com prego just e ficil acesso. O jomal O Liberal seria um vei- culo adequado para abrigar uma publicaqio desse tipo, tanto por sua tinagem como pela forga da sua ima- gem. Mas nao houve criterio seleti- vo naadoao do texto, embora o pe- sidente do Instituto Hist~rico e Ge- ogrif ico do Pardi e director do Arqui- vo Pliblico, Geraldo Coelho, tenha emprestado seu nome para referen- dar a obra. Quem leu os primeiros fasciculos com alguma exigtncia critica se frustrou e, em numerosos casos, ficou indignado comaprima- riedade do texto escrito por Bene- dicto Monteiro. Talveza fraqueza do conteuidonlo se destacasse tanto se o prego do produto nio fosse t~io carol. Prova- velmente os fasciculos chegamam ks bancas a custo zero (e, quem sabe, ji deixando um lucro) para o grupo Liberal, grag~as as cotas pagas por cinco patrocinadores, entire os quais o govemno do Estado. A coleglo de 15 fasciculos, a R$ 4,50 a unidade, saird por R$ 67,50, mais cara do que alisctdria do Brasil, de Boris Faus- to, publicada pela Edusp (da Uni- versidade de Sio Paulo), considea- da a melhor obra de referencia dis- ponivel sobre a histCbria brasileira. Mas quem quiser a capa dur-a da obm terd que comprar tambem 15 exem- plares da edigio de quinta-feira de OLiberal, ao custo de R$ 25.50. O livro said, assim, por R$ 93, ou meio sal~rio minimo. E um absurdo de carol para tio pouca qualidade. A esta conclus~lo estio chegando cada vez mais lei- tores. A maioria comegou a aban- donar a colegio no terceiro ndmne- ro. Como chegardi ao fim? Prova- velmente langando no descredito iniciativas que podiam ser ao mes- mo tempo s~rias e de apelo comer- cial. O governo, que entrou nessa canoa fur~ada talvez para agradar os Maiorana, faria melhor ao povo pa- trocinando a reedigio, com novo tratamento editorial e uma melhor revision, da hist6ria do Pardi de Ge- rard Prost, que a Secretaria de Edu- cagio do pri~prio Estado langou entire 1997 e l998. Sem o espalha- fato do empreendimento do grupo Liberal, um decadente urubu com penas de pavio. JOrnal novo A est~ria do Pard 4 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001 Na semana passada, a Eletronorte promoveu um encontro em Belem entire alguns dos seus prin- cipais tecnicos e dirigentes e a imprensa local. No inicio da sessio havia uma rela~go mais ou menos equilibrada numericamente entire o pessoal da empresa estatal e os jornalistas. No final, a Ele- tronorte tinha sete tecnicos no audit6rio da Fiepa contra um unico jornalista. Os poucos rep6rteres enviados ao local foram saindo a media que a exposiCgio avangava. A maioria permaneceu ali apenas uns poucos minutes, o suficiente para le- var uma declaraqio dos personagens visados. Ha pouca gente nas redagaes da grande impren- sa paraense. Cada jornalista vai para a rua com uma pauta carregada. Para cumpri-la, os reporteres pou- sam em cada event como beija-flores apressados. Voltam comn as informaq~es que essa s~frega ex- cursio permit coletar no rapido contato com o tema. Nilo podem garantir que hajam recolhido as perolas disponiveis. Nem mesmo que entenderam o assunto sobre o qual fario relates burocriticos. A culpa maior por essa superficialidade, ou mesmo impropriedade documental, que se espa- lha como praga pelas paginas dos jornais, mais desinformando do que informando os leitores, nio e dos rep6rteres. Eles, porem, nso estio isentos de culpa. Com o tempo apertado para tantos itens na pauta que carregam na missio, certamente nlo podem aprofundar as quest~es. Mas teriam que se obrigar a criar uma combinaqio de rapidez com acuidade para dar conta do desaflo. O que ji nio se preocupam em fazer. Submetem-se docilmente a essa mechnica da irresponsabilidade. Quanto as empresas, descuram completamen- te das suas responsabilidades para com a opinion publica. O Para e o quinto maior produtor e o ter- ceiro maior exportador de energia do Brasil. Sua importancia nesse setor devera crescer ainda mais nos proximos anos. Logo, o tema e crucial para os interesses do Estado. A principal empresa ener- getica, a Eletronorte, tem sede em Brasilia (e a linica do sistema Eletrobras a nascer e se manter nessa anomalia: ter sua matriz fora dos limits da sua jurisdi~go). Ngo da ao Para a importlincia que ele tem para si e para o pais. Excepcionalmente, porem, a Eletronorte deci- diu sediar em Belem um encontro especifico comn a imptensa, trazendo para ca profissionais de alta compete~ncia, em condiq~es de responder a todas as perguntas que lhes fossem feitas (se satisfatori- amente, e outro aspecto. A imprensa nio podia considerar esse fato como prosaico ou irrelevan- te, embora sem render anuincios ou coqueteis. Ti- nha que mandar gente com alguma qualificaqio e tempo suficiente nio s6 para repassar ao leitor tudo de important que fosse dito no encontro, mas tam- bem para instruir a si pr6prio. Se o setor energeti- co e e sera cada vez mais vital ao Para, desenvol- vendo-o ou consolidando-o como provincia ener- getica nationall e mundial), a imprensa precisa ter profissionais capazes nessa area. O que se viu, porem, foi um espeticulo melan- c61ico: apenas dois rep6rteres acompanharam toda a exposi~go dos tecnicos da Eletronorte, com um time bem maior (no palco da exposi~go ou no ban- co de reserve) do que o da imprensa, para cuja in- formaqio aquela sessio fora organizada. Na fase dos debates, o grande audit6rio tinha apenas um jornalista, cercado de tecnicos da empresa por to- dos os lads. Memento excepcional para esse so- litario reporter, que teve ao alcance de suas duivi- das tantos profissionais de uma estatal normalmen- te claudicante no trato com a imprensa, mas triste para a dignidade do jornalismo. Se a imprensa paraense nio pode investor nes- sas ocasi~es um dos seus profissionais, com a agenda inteiramente dedicada ao assunto, nio merece o respeito dos cidadios que habitam esta fantastica fronteira e fazem pateticos esforgos para escrever sua historia, evitando o destiny co- lonial para o qual conspira a incuiria e o despre- paro dos que tbm poder decisbrio em uma das principals trincheiras da formaqio da opinion pfiblica: as redaqbes da imprensa. Ou elas se reduziram a meras quitandas de neg6cio? Lapso O Liberal p ublicou nro u/wnmo dia 2 mrateria soble ea reabertlura o/icial dlo Colegio Estladuail Paes de Carra/hllo, depois de, umna ampla reforma do, prdio. Durante o ato de enreg~a, o governadr~or Almerr Gabhrrel "reccheul os cumrprimentos do ex~-govefrnador A4loisio Charets. 'Depotsi de mrim, nringue~ Im haia posio nem~ um~ prego aqui ', alirmrou Chrarets a Gabrie~l. rnuma crulical aos3 governor anrterrorese ". registrour a nlotic ia do jornal. Tres d~ias detpois a fam~ilia de Aloy~sio da Costa Chavers publionr amlrrinc/io lebre no me~smo O Liberal, convridand~o parnterrs e amrigos para a mlisira em memorcia do exr-got ernador, que morreu hal se~le. anos. comno i' public e notorio. NGio m~e lemr~o de terI lido) alntes uma1 maclteria coml esFsa ''ha, n-ga ": umfrnlirlallsta e~rntrevirar urm mrorto, onr arnburir a um~ errevisado a ir~o a ident'lidadej de~ amn morto, ou colocar na boca de umr mrorto asj declaragoes de umr rviro. Qua/quer reporerm pode se lracinrar contra esse erro decsc~orc~erilrant pe~rguntrando pelo nromre das pessoas. entrevistadas ou re/endastr~u. consultando uma segund~a folruequano, emr dur~ida E te~ndol o cuidado de graUfar. corretamenteI L a) nIome jornecido. AlaisF do quer rir; dever-re c-horar diante de~ste nor~o feito conrsegurido por O Liberal - purblica umau materials psicograla~da Outro Glune~ss para a Iloclh dos Alauioranar. Sem a inlteng~do de consegui-lo, nremr direiro a1 comremolra-lo. Imprensa invertebrada Idi~ias urbanas As empregadas domesticas dlo um toque de originalidade ao amanhecer em Belem. Elas surgem nas ruas com a luz do dia em seu traje padrio (camiseta, short e sandalia), atras do pho ainda quente e cheiroso ou do leite forta- lecedor para seus patries. Desfilam para os profissionais do alvorecer, provocando suspi- ros e fugidias declaraqdes de amor: padeiros, entregadores de jornais, vigias ou integrantes da geraqio saude, no seu jogging matutino. Algumas parecem ter pulado da cama para a ma. Outras fizeram baldeaqio diante do espe- lho, incorporando os beneficios da maquila- gem para melhor impressionar aplateia ocasi- onal. A mua que comega a se iluminar para a atividade cotidiana e seu remno. Parasaudar essa contribui~go colorida ao nosso alvorecer, a prefeitura bem que podia promover um concurso annual, algo como miss simpatia, exclusivamente para empregadas domesticas. Elas se mnscreveriam na Fumbel, a funda~go cultural do municipio, submeten- do-se a uma sele~go previa. Um determinado numero delas (30?) participaria de um desfile em traje tipico (o tal conjunto camiseta-short- sandalia) em um local (ginasio de esportes, talvez) que pudesse abrigar um grande pui- blico. As tris primeiras receberiam o mesmo primio, em quantidade decrescente, confor- me a classificaqio: roupa, bolsa de estudo e dinheiro. Os patries teriam direito a um cer- tificado de participa~go e foto official com as vencedoras. Apenas as trasvitoriosas niopo- deriam participar do concurso seguinte. Paraanimar acidade, aPMB tambem po- dia ressuscitar o concurso annual sobre os me- lhores jardins de Bel~m e criar premiaqio para o melhor trabalho de restauraqio de imbveis de valor hist~rico e arquitet~nico. Finalmen- te, langar um program de apoio a associa- 95es de amigos de bairros, de monumentos ou de atividades culturais na cidade. A prefei- tura podia adquirir predios tombados e ced6- los, por comodato, a essas entidades, impon- do-lhes como contrapartida a manuten~go da edificaqio. Podia tambem assumir a legaliza- gBo e o apoio ttcnico as associates ja exis- tentes ou com sede pr~pria adquirida. Um se- tor na Fumbel seria incumbido de acompanhat as atividades dessas associates ereuni-las em congress uma vez por ano. Ideias simples, mas que podem ter uma boa repercussio na vida de uma cidade en- golida pela retina da indiferenga ou da in- consci~ncia de si. Belo Monte: a primeira hidreletrica estrateg aca Pela primeira vez um empreendimento el6- trico 6 declarado de interesse estrategico para o pais. Desde 17 de setembro essa posigio inedita e ocupada pela hidreletrica de Belo Monte, reconhecida em resolu~go do presiden- te do Conselho Nacional de Politica Energeti- ca, Jose Jorge de Vasconcelos Lima, como estrategica "no planejamento de expansio da hidreletricidade ate o ano 2010". Se defender do governor federal, a usina comegard a ser construida no pr6ximo ano no rio Xingu, no Parai. Ela est8 sendo projetada para se tornar a quarta maior hidreletrica do mundo e a primeira completamente national, com 11 mil megawatts de potincia, o equiva- lente a 15% da atual capacidade de geraqio energetica brasileira. Incluindo o sistema asso- ciado de transmissio, o custo previsto da obra 6 equivalent a 6,5 bilh8es de d61ares (mais de 16 bilh~es de reais ao cimnbio de hoje). Ao reconhecer o interesse estrategico da usina, o president do CNPE props que fos- se autorizada a continuidade de todos os estu- dos de viabilidade econ8mico-financeira, am- biental e de engenharia do empreendimento. A Eletronorte, responsavel por esses trabalhos, devera entregar ate o final do mes, antes do prazo final definido na resolug50 do Conse- lho, de 17 de dezembro, quase todos os docu- mentos necessaries para permitir a outra ag~n- cia estatal, a Aneel, langar a concorr~ncia pu- blica. Mas n~o o relatdrio de impact ambi- ental, suspense pela justiga federal em aten- dimento a uma ag8o civil puiblica proposta pela Procuradoria da Republica, em fungo de ir- regularidades no contrato assinado com a exe- cutora dos estudos, a Fadesp, a fundagio de pesquisa da Universidade Federal do ParB. O governor nio ignora que Belo Monte e uma obra pol~mica. Ao conferir-lhe um status especial, porem, indica sua disposi~go de exe- cuta-la de qualquer maneira, num memento em que o balango energetico do pais da sinais de desequilibrio. Para dispensar a hidreletrica, se- ria precise construir usinas termicas a gas na- tural que consumiriam 42 milhies de metros c~bicos por dia. Essa demand exigiria dobrar a oferta atual de gas do pais. Ou entio recorrer a oito usinas nucleares iguais a Angra II. A importtncia estrategica de Belo Monte decorre das vantagens que ela ira incorporar ao sistema interligado national. Como as ne- cessidades de energia internal ao Para sho consideradas minimas, Belo Monte poderia transferir quase toda a energia gerada no pri- meiro semestre do ano, permitindo as usinas do Nordeste e do Sudeste armazenar nesse period agua em seus reservatdrios para fun- cionar a plena carga no period seco do ano. Alem disso, como os calculos da Eletro- norte garantem que o custo da energia na hi- drelttrica do Xingu sera baixo, Belo Monte permitira ao governo postergar a implanta~go de empreendimentos de custos mais elevados previstos para as regimes Sul, Sudeste e Cen- tro-Oeste. Combinando esses atrativos, a nova hidreletrica reduziria o risco de d&/icit no sis- tema nos proximos anos. Os tecnicos da Eletronorte nio economi- zam entusiasmo. Eles dizem que Xingo, no Nordeste, e o unico aproveitamento energeti- co melhor do que o de Belo Monte no Brasil. Querem comegar o mais cedo possivel a obra para que o primeiro dos 20 grandes geradores a serem instalados na usina comece a operar em margo de 2008. A cada tr~s ou quatro me- ses uma nova miquina entrara em funciona- mento, comn energia gerada suficiente para tender a mais da metade da popula~go de Belem, com 1,2 milhio de habitantes, nos pi- ques de consume da capital paraense, a IF mais populosa do pais. A largada podia ter sido dada em 1989, quando o projeto de Belo Monte entrou pela primeira vez na agenda das decisies. Mas nes- se ano a Eletronorte perdeu a batalha da opi- niio pdiblica para indios, ambientalistas, mili- tantes politicos e ate mesmo banqueiros inter- nacionais, assustados com o perfil negative do complex hidreletrico que a estatal havia con- cebido. A usina teria dois enormes reservat6- rios, que inundariam quase 7.500 quil~metros quadrados de floresta, formando o maior lago artificial do planet, e afetando a vida de al- gumas comunidades indigenas. Com o apoio de muita gente, os Kayap6 organizaram o I Encontro dos Povos Indige- nas. Atraindo nomes famosos, o encontro co- locou frente a frente nas ruas de Altamira, que nio ficavam nada a dever ao decor de faroes- te americano made in Hollywood, opositores e defensores da obra. O memento mais tens foi quando a india Tuira esfregou um faclo no rosto do t~cnico Jose Antinio Muniz Lo- pes, que subiu de posto desde entio e agora preside a Eletronorte. O flagrante correu mun- do, disseminando a ma fama da mega-usina. Ela foi colocada para hibernar. Ao ser reaquecida agora, como uma respos- ta sonora de Brasilia a perspective de desequi- librio na matriz energetica national, Belo Monte arrasta consigo essa fauna acompanhante inc6- moda, o dano ambiental e o prejuizo antropo- 16gico, que tinha levado instituicqbes multilate- rais, como o Banco Mundial, a retirar o finan- ciamento de grandes hidreletricas na Amaz6- nia do seu portfoilio de neg6cios. Os debates readquiram o tom aceso das campanhas e ate o assassinate de um dos lideres desse movimen- to em Altamira, a principal cidade da regido de influencia direta da obra, foi colocada no cal- deirio da controversia, que esti aquecendo. Ciente desse fato, a Eletronorte desenca- deou uma ofensiva para nio perder de novo a guerra da opiniao publica e garantir a implan- tagio da primeira hidrele~trica reconhecida for- malmente como estrategica no Brasil. Normal- mente avessa a curiosidade publica e hostil nos entreveros, a empresa se abriu para tender as consultas e se antecipar aos critics com in- formaq~es, atendendo-os conforme as regras do figurine de relaq~es pilblicas. Mas nso ficou restrita aos salamaleques protocolares. A &nfase maior da empresa esta sendo dada ao capitulo da inser~go regional do empreendimento. Essa preocupa~go inexistia quando Tucurui, a uinica grande usina operada pela empresa (e a segunda maior do pais no memento), foi iniciada, em 1975. No final da obra, em 1984, apareceu como tintura comple- mentar, mais para dourar a pilula, que ja estava praticamente pronta. Agora sera um dos ele- mentos fundamentals do discurso, pr6, e con- tra, exatamente porque os grandes projetos se consolidaram na Amaz~nia como enclaves clas- sicos, de pouco ou nenhum efeito local, desti- nados a se multiplicar economicamente no mercado comprador da materia prima ou insu- mo bdsico, nio no sitio de produgio. Nio ha ddivida alguma que Belo Monte sera um providencial desafogo gs dificuldades de suprimento energ~tico que a parte mais antiga e mais desenvolvida do pais jB esta enfrentan- do (e devera se defrontar no horizonte do pla- nejamento energetico, que vai ate 2010), qual- quer que seja o custo de produzir e levar essa enorme quantidade de energia por uma distan- cia de tres mil quil~metros, da fronteira ama- z~nica ate os grandes centros consumidores. Mas e para a Amaz~nia, Belo Monte sera~ um novo cavalo de Tr~ia instalado na jungle, no ainda relativamente intocado -e belo -vale do rio Xingu, cuja bacia de drenagem se espraia por mais de 7% do territ6rio brasileiro? O projeto de inser~go regional montado pela Eletronorte para seu novo paquiderme de megawatts 6 muito mais sofisticado do que o arranjo da decada de 80. A empresa esta mais bem preparada para o confront de ideias (e nio s6 de ideias, naturalmente, como esses mementos de cheque acabam se tornando). Resta verificar outros dois components da equaqio de Belo Monte: o significado real da obra, se de fate ium aprimoramento na abor- dagem ecol6gica, social, de engenharia e so- cial de uma hidreletrica construida na Ama- z~nia, e o prepare dos que ainda acham que deixar para depois, reduzir o tamanho e alte- rar a concepCio desses projetos e o melhor que se pode fazer quando a inten~go e usar inteligentemente os recursos naturals dessa vasta e complex region. Se Belo Monte ji 6 de importincia estra- tegica para o governor, a tarefa, agora, e veri- ficar se pode ser tamb~m estrategica para a sociedade e se pelos mesmos motives. 6 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001 urante o meio seculo em que foi pro fessor, Francisco Paulo do Nascimen D~to Mendes deu suas melhores e mais proficuas aulas nlo numa sala de aula con- vencional, mas numa mesa de cafe, numa roda de conversa de mua, num canto de livraria ou em textos de ocasiio, escritos para apresentar um catilogo de exposigio, prefaciar um livro ou registrar uma data na imprensa. Seu posto mais marcante foi o Cafe Central, uma das mais autinticas (e raras) reprodugdes entire n6s das arenas intelectuais europeias, reduto da cultural entiree goles de cafe, cha, uisque ou cer- veja) que experimentou seu apogeu entire as decadas de 40 e 50. Como s6i acontecer, eclip- sou-se quando a inteligincia se tornou mote policial, nos idos de abril de 1964. Feneceu no contracanto da rebeldia, ainda que no tom intimista de uma bossa nova. De ois do album ~da 0br 0 Prof0 TB C~ OC I~l8n S JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE OUTUBRO/ 2001 7 o poder aquisitivo medio. Essa restrigio, con- tudo, e inevitivel diante das caracteristicas do livro, um Album com capa dura, sobrecapa, for- mato grande, papel de primeira e farta icono- grafia. Tinha que ser carol mesmo. O prego s6 nio se tornou mais proibitivo ainda porque a Secult, que s6 com a impres- sio de mil exemplares precisou gastar 90 mil reais, bancou o rebaixamento do prego de ven- da ao pdiblico para R$ 50. Com suas eventuais falhas, o album e um resultado altamente po- sitivo tal como foi entregue g sociedade. Cum- pre com mbritos sua finalidade: registrar a gra- tidio e a divida do Para em relaqio ao seu notavel filho. Estio de parabens o organiza- dor e toda a equipe envolvida na empreitada. Mas acho que a secretaria devia tratar de um novo livro, sem luxo, em format pa- drao, que trouxesse a obra reunida de Fran- cisco Mendes, complementada por andlises e comentarios com outro propbsito que nio a memorialistica desigual dos testemunhos publicados no album. Tratando o profes- sor nio como uma lembranga pessoal, mas como um poderoso intellectual que cabe a n6s, os que prosseguiram na vida, situar em seu context e aproxima-lo das geragbes seguintes, evitando que elas o encarem como uma esfinge dourada. A trajet6ria do professor Mendes seguiu ou resultou de tr~s eixos e acontecimentos. O primeiro deles foi a passage da ditadura do Estado Novo para a democracia, sob a tutela da constitui~go de 1946. Chico foi sem- pre um libertario, praticamente um anarquis- ta, contririo B autoridade baseada no simples poder de mando -e, este, abominavel quan- do derivado para o arbitrio. Sem se tornar militant politico nem che- gar a uma filia~go partidaria, investiu em sua esfera de atuaqio contra o ditador de plantio. Aqui, era Magalhies Barata. O tenente meta- morfoseado em caudilho nao tinha motives para temer o franzino e energico professor que comegava a carreira, mas segurou o quanto p6de a nomeagao dele, que lhe era imposta pela aprova~go no concurso da Escola Nor- mal. Ja1 os militares que puseram fimn a essa democracia em 1964 contariam com o repu- dio e, por vezes, o asco de um home que tinha prazer orgistico em pensar sem peias, em sonhar e voar nas asas da sua imagina~go f~rtil, s6 prestando contas ao saber, A segunda diretriz na vida intellectual de Francisco Mendes foi a primeira liga~go fi- sica de Belem com o resto do pais, constru- ida entire o final da d~cada de 50 e o inicio dos anos 60, a estrada Belem-Brasilia. O professor passava temporadas de atualiza- gio fora da uiltima grande cidade portugue- sa do pais, ou a mais tardia das capitals lu- sitanas da naqio brasileira. Ia sobretudo ao Rio de Janeiro, de onde voltava abastecido de livros importados para alargar seus hori- zontes e o dos seus interlocutores. Mas Belem tinha identidade e unidade an- tes da B-B, era um mundo ao gosto do seu ilustre morador. A estrada de integraqio na- cional teria como contrapeso de terrivel ex- pressio o incremento da selvageria, em suas varias modalidades, pondo fim a um univer- so com o qual o professor se sentia em har- monia. E, com ele, os caboclos do Norte, agora tomados de emprestimo, a revelia, por um caboclo em apuros, atr~is de um estan- darte para as pr6ximas batalhas. Um terceiro detonador de fats foi o nas- cimento da Universidade Federal do Pari, a primeira da Amaz6nia. Chico Mendes foi um dos esteios principals de uma das ramifica- 95es originals, o cursor de filosofia, que, para nio variar na tragicamente ir6nica hist6ria do nosso ensino superior, nasceu dentro de uma escola de agronomia. Tanto quanto por seus conhecimentos, foi important para a ainda engatinhante autonomia universitaria pelo seu sensor de dignidade e de respeito, mantendo os macacos a distincia da loja de lougas es- culpidas pela cultural. Ele semeou com abundlncia no ambien- te academico, mas os melhores e mais ex- pressivos frutos germinaram nas ruas, no ambiente publico, sem vies institutional ou formal. Acho que esse e o mais significati- vo resultado da muiltipla vida intellectual do professor Francisco Mendes: sua obra ex- pressa o paradoxo entire o corpo de saber que se organizava e se estruturava para ser continue, sistematico, cumulative, a Univer- sidade, e o corpo informal de conhecimen- to, aberto a todos e selecionando em condi- 95es de absolute liberdade. Chico encontrou seus melhores discipu- los na mesa de cafe e nao na sala de aula. Melhores nio por qualquer criterio formal, mas pelo produto de suas biografias e obras. Os alunos das escolas em que o pro- fessor Mendes ensinou sho figures palidas quando comparados aos que, primeiro como aprendizes, depois como iguais, estiveram ao lado do mestre fora dos muros instituci- onais, embora aqueles se considered auto- rizados a julgar (e, quando o caso, interdi- tar) a estes. Estes, mais antigos, tinham mais brilho pr6prio do que aqueles, mais recen- tes, marcados pela fungo de reprodugho intellectual, mais do que pela de criaqio, sa- telites e nio estrelas. Nalo diz essa hist6ria muito mais sobre o empobrecimento do intellectual publico, aprisionado na carreira acadtmica, do que qualquer disserta~go de mestrado e tese de doutoramento? E o trabalho que falta rea- lizar agora que Francisco Paulo do Nasci- mento Mendes ja tem um luxuoso Album para registrar a perenidade da sua vida, que se tornou eterna por algo mais vivo: a pr6- pria vida dos que seguiram em frente, ar- mados por ele com fats, raciocinios, refe- rancias e testemunho pessoal. O poeta Max Martins, um dos freqiienta- dores do sal~o enfumagado para o qual tanta contribui~go deu com suas industrials bafora- das, lembra que das mesas do cafe sairam duas revistas (Encontro e Norte), um cine-clube (Os Espectadores), um grupo teatral (o Norte Te- atro Escola) e academias ou associates cul- turais (como a G. K. Chesterton, em homena- gem ao ins61ito escritor inglis). A agenda dos debates abrangia todos os temas do conheci mento humane, do passado, do present e do future. As cadeiras eram ocupadas principal mente por advogados, professors, jornalis- tas e beletristas em geral. Os nomes expressavam um amplo espec- tro de filiaqio ideol6gica ou estetica, mas in- variavelmente carregados de brilho. Gente como (na rememoraqio de Max) Ruy Barata, Paulo Plinio Abreu, Benedito e Maria Sylvia Nunes, Angelita Silva, M~rio Faustino, Ma rio Couto, Frederico Barata, Cauby Cruz, Rui Coutinho, Haroldo Maranh~io, Robert Stock, Jurandyr Bezerra, Alonso Rocha, Simio Bi- tar, Raimundo Souza Moura, Orlando Costa, Floriano Jaime, Napoledo Figueiredo e Ar- mando Mendes. Os da primeira gerag8o. Francisco Mendes foi o mais important intellectual paraense do seculo passado, a des- peito de nio haver sido publicado nenhum dos verses que lhe atribuiram, nio ser roman- cista e seu finico livro com essas caracteristi- cas ser um volume magro, Raizes do Roman- tismo, a tese que lhe deu, por concurso, o lu- gar de professor catedritico na antiga Esco- la Normal (hoje, Instituto de EducaqSio do Para), em 1945. Como S6crates, Chico Men- des se prolongou e se perpetuou atraves de seus discipulos, que absorveram suas idtias, seguiram suas sugestdes e se multiplicaram, individualizando-se, em variadas direqdes. Mesmo quando antagbnicas, ou mesmo con- flituosas, elas tinham um ponto em comum: o mestre de origem. Sua lembranga esta agora perpetuada no album O amigo Chico, fazedor de poetas, or- ganizado por Benedito Nunes, maior amigo e principal interlocutor vivo do professor, pu- blicado no mas passado pela Secretaria Exe. cutiva de Cultura do Estado (284 paginas, R$ 50,00). Como livro de homenagem, e uma bela edi~go, concebida e executada com inteligin- cia, sensibilidade e competancia. Depois de 1C-la, porem, fiquei com uma duvida: se esti- vesse vivo, Chico Mendes teria aprovado o trabalho, nio como homenageado, mas na sua condigio de leitor e critic? Como reagiria ao ver os fac-similes de noticias de jornal sobre a morte do personagem, mal escritas e insos- sas, alem, evidentemente, de funestas e fuine- bres? Ou a depoimentos de pessoas que tal- vez tenham abusado da generosidade da som bra do homenageado, flagrado em fotografias cuja insergio talvez nio autorizasse? Questdes subjetivas e, talvez, completamen. te laterals. Objetivamente, o produto 6 carol para Jornal Pessoal Edilor: Lddo F~vio Pinto* Fones: (091) 223-7690, 261-4284 e 261-4827 Contato: Tv.9enjambn Consadnt84920t~~a340EG40 eeall:jomselmamaznm m~s Produgio: Angeran Pinto Edigo de ArterLuizanionlodefaipi Sem interlocugho Diga-se em favor da Eletronorte: se desta vez a opiniho publica paraense se mantiver desinformada sobre mais um grande projeto, a culpa n~io sera da estatal, reincidente em au- toritarismo em varios epis6dios anteriores. Nos 61ltimos dias a empresa fez exposiq8es sobre a hidreletrica de Belo Monte para en- genheiros, arquitetos, jornalistas e advogados. Disp~s-se a responder perguntas pelo tempo que fosse necess~rio e tender todos os que se manifestassem. Teve que se circunscrever ao espago limitado do audit6rio e a uma agen- da com graves lacunas. Preso a voca~go colonial que the impuse- ram, o ParB nio esta habilitado a enfrentar com compet~ncia os temas mais importantes da sua histbria imediata, mal vislumbrada nas n~vo- as do cotidiano. Questdes da amplitude da bi- odiversidade, da extraqio de min~rios, do melhor process de transformaqio das mat6- rias primas, do uso inteligente da energia, do circuit international de mercadorias e alguns outros ainda sio tratados de forma acanhada, numa perspective provinciana, sem conextio comn seus elos mais profundos e mais distan- tes, que, nem por isso, slio invisiveis (embora s6 visualizaveis quando encarados por pris- mas adequados). A rota do dia-a-dia do Esta- do segue em parallel, por baixo, rasteiramen- te, a linha das grandes decis~es sobre o apro- veitamento dos seus recursos. Lembro quando, no auge da discussito so- bre a localiza~gio da metalurgia de aluminio, toda a diretoria da Salobo Metais desceu do Rio de Janeiro em Maraba disposta a enfrentar todos os questionamentos do lugar que disputava a ins- tala~go da industria, na epoca com investimen- to previsto de dois bilh~es de d61ares. Os pre- sentes nito foram capazes de fazer a 6nica per- gunta que iria colocar em pratos limpos as al- ternativas locacionais da fabric. Nem sempre e suficiente estar cheio de in- dignaglio, proclamar-se o int~rprete da hist6- ria ou buscar inspiraqio na boa causa: e pre- ciso armar-se das informaqdes necessarias, em amplitude, profundidade e atualidade. Como ter essas informaqdes a mso, a tempo e a hora, se o ParB nio tem conscitncia de sua posi~go como Estado minerador, provincia energeti- ca e supridor de materias primas? Se tem muitos min~rios no subsolo, mas ngo a cultu- ra da minerag8o? Se de seus rios saira cada vez mais energia, mas a energia 6 tema do- mestico nas suas preocupaq6es? Sera impossivel conciliar a agenda do Esta- do com o da sua hist6ria? Tomando como base a reconstitui~go da continuidade da tradi~gio co- lonial das fronteiras mundiais, a resposta talvez seja sim. Mas pelo menos se nos impde o dever de tentar o contrdrio. Pior do que o que se ca- lou, como diz Drummond num dos seus poe- mas, e aquele que nunca falou. Quantos no Para ja falaram? Quantos parecem ter nascido cala- dos e assim se mantam sempre? Somos um pou- co de surdos, mudos e eunucos? Pe rguntas A ex-superintendente regional do Iphan (Instituto do Patrimbnio Histbrico e Artistico Nacional), Elizabeth Neno Soares, nessa fun- gio ha seis anos, soube de sua de- missio do cargo quando estava vi- ajando. Voltou para transmitir seu lugar ao arqueblogb, Luis Severi- no da Silva J6nior, que estava lota- do no Iphan em Recife, sem qual- quer afinidade professional at6 en- tio com a Amaz6nia. Havia um certo mal-estar e ten- sito na~ solenidade de posse, no fi- nal do mis passado. Os novos diri- gentes do Iphan no Pard e o presi- dente do institute, que veio empos- sa-lo, tinham dificuldades de se re- ferir is autoridades presents, que aparentavam desconhecer pelo nome, e nenhuma intimidade com sua nova jurisdi~go, mesmo estan- do al um conselheiro do Iphan, o arquiteto Paulo Chaves, secretdrio de cultural do Estado e responsivel pela indicaptio de Elizabeth para o posto que havia sido dele, alias. Sera que para o Para tornou-se irrelevant se a dire~go do Iphan 6 ocupada por pessoa bem qualifica- da ou por um estranho no ninho, precisando recomegar do zero? Fi- cou sendo de nenhuma importin- cia se o professional 6 da area que mais interessa no memento ao pa- trimcinio histbrico e artistic na re- gitio, como a arquitetura e a hist6- ria, ou de uma especialidade mais lateral, como a arqueologia? O Para, final, voltou a ser um bom campo de provas para para-quedistas? Com a palavra, quem souber das respostas. Desembargadora, enfim O Tribunal de Justiga do Pard apagou um antece- dente negative na sua hist6ria ao, finalmente, promo- ver a juiza Martha Inbs Antunes Jadio ao desembargo, na semana passada, apC~s duas preteriq8es e uma des- gastante pol~mica em torno delas. O ato expurgou do procedimento os criterios subjetivos e infundados que haviam at6 entio impedido a magistrada de alcangar o estigio final de sua carreira. Os fatores da recusa, mais mnsmuados do que declarados, ate caberiam se o crit6- rio da ascensio fosse o do merecimento. Mas Martha Inis chegou aos umbrais do desembargo por ser a mais antiga a oficiar em primeira instincia. Era injustificavel e absolutamente injusto que uma juiza de grau inferior fosse permanentemente chamada a atuar na corte superior do TJE, para completar nume- ro ou substituir titular, e continuasse a ser considerada indigna de dar o pass derradeiro da carreira judicid- ria, transformando-se em permanent o que vinha sen- do tempor~irio. Agora essa nC~doa foi removida. Ainda assim, nove desembargadores votaram contra a promo- Fgo de Martha In~s por antiguidade, dos quais sete mulheres. N~o me lembro de tantas bolas pretas atira- das no caminho de um novo desembargador. A ficha funcional da magistrada e limpa. Nenhu- ma anota~go negative e muitos registros positives, ates- tando o reconhecimento da sociedade a seriedade do seu trabalho no desempenho da fungio judicante. N~o havia, portanto, materia capaz de embargar a aplica- gio do principio da antiguidade, qune estava em causa. Martha In~s 6 temperamental, emotiva e as vezes ex- cede os limits em que a personalidade pode se mani- festar sob equilibrio. Mas esses desvios jamais influi- ram sobre o desempenho professional, ou ao menos nio se tem provas nesse sentido. Ela pr6pria costuma reconhecer esse aspect pro- blemitico do seu modo de ser. Mas ate agora mnexis- te demonstra~gio de que essa interfer~ncia subjetiva mudou uma sentenga ou influiu no Inimo da magis- trada na instrugho de processes. Logo, essas falhas nilo podiam servir de fundamento para impedir o re- conhecimento do direito objetivo da juiza de subir ao desembargo. Velhos acompanhantes de sua traje- tdria na magistratura lamentam que a ascensito nio tenha sido em fun~gio dos muitos meritos da juiza, suficientes para credencia-la ao ato e multo mais numerosos do que os de diversos magistrados que, por essa via, chegaram ao TJE. Os nove votos slio, assim, em substancia, injus- tos. Entre os que se negaram a promov&-la (e dois que se abstiveram de tomar partido), deve haver um ou outro que se manifestou a just titulo. Mas a aver- sito, na maioria dos casos, deveu-se provavelmente a idiossincrasias de natureza pessoal, subjetiva e qua- litativamente menor, lateral. De qualquer maneira, a nova desembargadora deve levar em conta essa ma- nifesta~go de seus pares e tomi-la como estimulo para corrigir os excesses de temperament e os impulses voluntariosos, todos elements secundarios na ma- triz de seus atos, mas capazes de permitir a quem os queira manejar transformii-los em elements decisi- vos de juizo e avaliaqio. Agora que o TJE se reconciliou com a letra da lei e a diretriz normativa, esperam todos os bons cidadios pa- raenses que Martha Inis Antunes Jadlio supere, como desembargadora, a respeiti~vel juiza que foi ate agora. |
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