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LUiiCIO F L A V O PINTO ANO XIV N' 267 2L QUINZENA DE SETEMIBRO DE 2001 RS 2,00 POLITICAL A sirndrome do vice O maior adversa'rio para o quase sacramentado candidate official a sucessdo do govemnador Almir Gabriel, o secretarimo Simdao fatene, poderdi vir da situagdo e ndo da oposigdo. Isto, se o vice-governador Hildegardo Nunes, contra todos os recados e ameagas palacianas, mantiver sua disposigd~o de sair para a dispute do govemno no prdximo ano. Se ao lado de fader Barbalho ou hdo, e' uma das incdgnitas. Talvez a maior delas. maior adversario ao provavel ** candidateto do governador Almir ~~/ Gabriel g sua sucessio, o secre- thrio especial Simio Jatene, do / PSDB, podera ser o vice-gover- ~ L7//nador Hildegardo Nunes, do PTB. Se isso ocorrer, sera o fim da vitoriosa coliga~go Uniao C pelo Para e mais um ataque da sindrome do \ vice, uma das mais traumiticas caracteristicas da vida politica national, com infase aguda /I no Para. O rompimento entire o governador e -rf seu vice parece ser uma questio de tempo e L { de oportunidade. Informalmente e nos basti- not dores, eles ja deixaram de ser aliados. C ) oi Depois de ter vivido no primeiro mandate a desastrosa experitncia com Helio Gueiros (, "`\~;\~\\~i~-;~ii\ ~ $L3Junior, uma companhia quase tio inc~moda [' quanto o aneurisma que sofreu, Almir Gabriel parecia ter encontrado em Hildegardo, um modelo do que popularmente se definiu como a, "Mauricinho", o companheiro certo para o / I segundo mandate. Tudo teria continuado em harmonia se o vice tivesse acatado a voz de comando do titular. Enquanto a oppgo sucess6ria do gover- nador permaneceu difusa, admitindo tanto a possibilidade de Hildegardo quanto a de Ma- noel Pioneiro, o prefeito tucano de Ananin- deua, a acomoda~go foi possivel. Mas quan- do todas as fichas da miquina official comega- ram a ser deslocadas na diregio do ne6fito Simio Jatene, Hildegardo decidiu a reagir. Ex- F~Z cluido da postula~go ao governor, parece de- cidido a abrir mio das compensaqdes (o Sena- do ou a Cimara Federal) e enfrentar o secreta- ~S~i~Z~rio da produ~go nas ruas e nas urnas. Antes, batendo de frente com o governador. 2 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE SETEMBRO/ 2001 Respeito Conheci Ademir Alfeu Federicci neste ano, num debate sobre a hidreletrica de Belo Monte, realizado no audit6rio do Nucleo de Altos Estudos Amaz~nicos da Universidade Federal do Para. Foi nosso unico contato. Mas fiquei admirador da sua inteligtncia e do seu entusiasmo de militant social na regilo de Altamira. Liderangas populares como a dele nio slo fa~ceis de former. Sgo raras. Ao cheque humane causado pelo seu assassinate, praticado no m~s passado, juntou-se o desolado sentiment da perda de um patrim~nio intellectual da sociedade. Ademir era um cida- dio na plenitude da expresso. Sua violent e estupida morte causa revolta. Nesse estado de espirito hB relutincia em aceitar a rapida verso official, de que ele foi vitima (mais uma) de um crime comum, nlo de um atentado politico. De um assalto, com presteza elucidado. Pode set at6 que, ao final de investigates adequadas, essa conclusio seja comprovada e que as suspeitas de crime de encomenda, em fun~go das denuncias feitas por Ademir, se revelem infundadas. Nem por isso a policia deve se langar a campo predisposta a um resultado com o qual parece ter said carregando-o no colete. A apuraCio deve ser rigorosa, acompanha- da por um promoter especial designado para o caso e sempre relatada com clareza g opinion puiblica. E o minimo que se pode fazer pela membria de Ademir. A todos os interlocutores mais pr6ximos, o vice tem reafirmado a disposi~go de manter sua candidatura, qualquer que seja o prego a pagar por essa ousadia. Nega que vB agir como se especula em relagio ao deputado estadual Duciomar Costa, do PSD. O candi- dato derrotado g prefeitura de Beltm no ano passado se apresenta tambbm como candi- dato ao governor, mas parece interessado mesmo e em pular um degrau, sub indo a de- putado federal. O primeiro pass na estrat~gia de consoli- da~go da candidatura de Hildegardo foram os contatos com a dire~go national do PTB, inte- ressada em ter nome pr6prio para a principal dispute majoritairia no Estado no pri~ximo ano, aumentando o cacife na dispute para a presi- dancia da republica. Se tentassem aplicar uma rasteira no filho do ex-governador Alacid Nu- nes, os Kayath (o pai, Henry, e o filho, Carlos), dons da maquina estadual petebista, seriam afastados da dire~go partidaria. Se houve al- gum dia essa possibilidade, ela ja parece re- mota ou descartada. Um indicador e o trata- mento frio ou mesmo hostile dado no circulo almirista ao secretirio de administration, Car- los Kayath, nos ultimos tempos. O segundo pass do vice-governador foi costurar aliangas possiveis, que lhe garantam uma estrutura eleitoral pr6pria, independente- mente do que fizer o governador. O contato mais important tem sido feito com o PMDB. Hildegardo Nunes e Jader Barbalho ji se en- contraram varias vezes, algumas por mera for- malidade social e outras para conversas espe- cificamente political. A ultima teria sido no apartamento do su- plente de senador Fernando Ribeiro, no bairro do Reduto, em Bel~m, em junho. Fernando nega, mas admite ter havido uma infeliz coin- cid~ncia: Jader o visitou pela manhi e Hilde- gardo esteve em seu apartamento a tarde. Lem- bra que o vice e afilhado de seu pai e a mulher dele, Zinda, e sua prima. As fazendas das duas families sio vizinhas em Soure, na ilha do Maraj6. "E se tivesse que haver um encontro reservado, nio seria no meu apartamento, 6 claro, porque 6 visado. Seria uma mancada", argument o suplente de senador. Na ultima estada simultinea em Santarem, o vice-governador e o lider do PMDB senta- ram a mesma mesa para jantar. E, como noti- ciou este journal, sem ser desmentido, um dos primeiros contatos foi feito no ano passado, no Rio de Janeiro. Muni~go, portanto, nio fal- ta para os adeptos da candidatura Jatene usa- rem como pretexto para acusar Hildegardo de trair Almir. Mas nio faltariam'razies ao vice para re- trucar nio ter praticado nenhuma discrepin- cia, ji que o govemador tambem se encontrou com Jader, que seus c~ontatos sempre foram socials e que, se ainda assim quiserem lhe co- brar uma presta~go de contas, s6 a deve ao povo paraense, como fez questio de subli- nhar na carta que enviou a O Liberal, des- mentindo nota plantada no jornal por almiris- tas sobre suas reunites secrets com o presi- dente licenciado do Senado. Como s6 falta a formaliza~go da candida- tura de Jatene pela coliga~go situacionista e a de Hildegardo permanece em plena articu- lagio, o rompimento aberto depend tio so- mente de uma gota d'agua. Quanto mais ela demorar, maior sera o estrago do envenena- mento que os assessores e dulicos dos dois lads estio fazendo, espalhando bales de ensaio e enterrando minas explosives sobre no future campo de batalha. Sera uma guerra cruenta, sabem os obser- vadores mais sagazes. Toda a mbquina official sera utilizada para fazer a pesada nau de Si- mio Jatene desatracar, uma tatica que talvez venha a expor os flancos govemamentais e seus derivados e satelites, mas e a unica for- ma de levar o candidate a uma posi~go de des- taque quando as pesquisas de opiniio come- garem a ser divulgadas. Diante de tal aparato, nio e suficiente a ima- gem limpa do vice, nem ele poderb continuar a contar com os amplos beneficios do cargo que ocupa, o principal dos quais e a facilidade de deslocamento num Estado com tioextenso ter- ritbrio. O primeiro missile disparado contra seus arraiais foi a dristica redu~go, de quase 50%, da verba do seu gabinete para o pr6ximo ano, golpe que ele mostrou sentir durante entrevis- ta no program Argumento, da TV RBA (emis- sora de Jader Barbalho). O PMDB 6 o unico aliado em potential que pode lhe oferecer um aparato de expression fora da trincheira official. E claro que ha o desgaste de Jader Barbalho. No Estado, porim, as per- das do senador peemedebista foram pequenas, bem abaixo do que se podia imaginar a partir da ofensiva de ataques que tem sofrido da impren- sa national. Na pior das hip6teses, ele ainda tem um quarto do eleitorado do Para e uma en- grenagem de poder altemativa a do governor estadual. Mas Jader apoiaria Hildegardo? Certamente sera sua uinica altemativa. Com uma condi~go: se ele pri~prio ndo for candidate ao governo, pela quarta vez (com duas viti~rias e uma derrota no curriculo). Os jaderistas assegu- ram que seu lider s6 consider duas hipbteses: ser novamente candidate ao Senado (com ou sem renuncia) ou simplesmente nio disputar a pri~xima elei~go. Mas esse e um argument de- sinformado ou de despistamento. Ngo ha mais qualquer future para Jader na political national, ao menos a mtdio prazo. Se ele voltar ao Senado ou decidir it para a Cdma- ra Federal, no primeiro dia de sessio estara sujeito a alguma proposi~go de CPI, a um dis- curso de ataque ou a mattrias de den6ncia na grande imprensa. Na melhor das hip6teses, ao constrangimento de se ver apontado como reprobo. Embora continue resistindo mais do que ACM e Arruda, est8 mais manchado do que eles. Ambos renunciaram por um crime considerado bem menor, a manipula~go da vota~go no Senado, do que os atribuidos ao politico paraense, de corruppo, enriquecimen- to ilicito e trifico de influencia. Mesmo perdendo a imunidade parlamen- tar, cujo valor seri cada vez mais relative, ao voltar a political estadual Jader saird dos refle- tores nacionais e readquirira um poder efeti- vo, com possibilidades conforme o estado da membria e do interesse da midia e dos mai- ores grupos de pressio de retomar depois o caminho senatorial. Nesse caso, ele sera mais uma vez candidate a govemnador. Como com- por, entio, com Hildegardo Nunes? HA, portanto, algumas variantes ainda im- ponderaveis no jogo politico para a pri~xima elei- Fgo no Para. Sua definigfio nio depend nem totalmente e nem parcialmente, em certas circuns- tincias -da vontade dos atores locais. Eles vio ter que engolir suas raivas e ressentimentos e evitar, por enquanto, se expor publicamente. Essa tatica nio impedirdi, muito pelo contrdrio, que a dispute prossiga como uma guerra de guerrilha nos bastidores, onde a temperature continuara1 a subir rapidamente. Ate a explosio anunciada. JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE SETEMBRO/ 2001 3 O Comando Atreo (antigo Ministerio da Aerondutica) contara com uma frota de 17 avi~es no Sistema de Vigilincia da Amaz6- nia, que entrari na fase operacional no pr6- ximo ano. Oito deles sio os sofisticados jatos ERJ 145, que estio saindo do forno da Embraer, com models adaptados (e tris vezes mais cars que as verses comuns) para tender as exig~ncias do Sivam. Os oito aparelhos custario 400 milh~es de d61ares, pouco mais de um tergo do orga- mento do projeto, que e de US$ 1,4 bilhilo. Esses US$ 400 milhdes correspondem a quase seis anos de orgamento de ci~ncia e tecnologia na Amazinia. O Sivam todo ab- sorvera, apenas no qiiinqiianio da sua im- planta~gio, iniciado em 1998, o equivalent a duas decadas do que o governor aplica na produglio de novos conhecimentos na re- gitio que constitui a maior fronteira de re- cursos naturals do planet. A Amaz6nia recebe menos de 3% da verba national de C&T. Suas principals instituiq6es de pesquisa, o Inpa (Institu- to Nacional de Pesquisas da Amaz6nia), de Manaus, e o mais que centenario Mu- seu Paraense Emilio Goeldi, de Belem, ji nio estlio conseguindo responder por suas despesas do dia-a-dia porque os re- cursos de custeio minguaram ou evapora- ram completamente. Mas nilo e s6 um problema de falta de dinheiro: os funds setoriais, respiradou- ros para regimes com participa~gio residual na distribui~gio espacial de recursos, tim saldo de caixa, mas os projetos de pesqui- sa nito supreme os criterios de sele~go. HA, portanto, uma crise de criatividade e con- sistbncia de ideias na regillo do pais que mais desafia a capacidade de revelagIo dos pesquisadores. Um desafio que se univer- salizou, em funglio do fascinio amazbnico, real ou imagindrio. Aqueles que resistem em laborat6rios desaparelhados de instituiqbes marcadas por um ambiente de deterioraqio e deca- d~ncia (de que s~o modelo as universida- des federals) olham com admira~gio e inve- ja o avango em march forgada do Sivam. A leitura de alguns dos titulos da se~gio de atualidades do site do sistema na internet 6 de dar ggua na boca: a entrega dos pri- meiro C-130 (de uma frota de cinco avides cargueiros de grande porte modificados); o primeiro radar transportivel do Sivam ja esti instalado em Sinop (no norte de Mato Grosso); criado o Centro de Monitoramen- to da camada de ozbnio para o Sivam; pri- meira aeronave de vigillncia area chega aos EUA (e 6 trasladada para o Brasil); inau- gurado laborat6rio de pesquisa em guerra eletr6nica e vigiltncia eletromagn~tica da Amazinia (funcionando em Stio Jose dos Campos/SP); o recebimento da quarta ae- ronave-laborat6rio (a ultima dessa frota). Embora o Sivam tenha seus enlaces (linkages, como preferem os tecnocratas) cientificos e acadtmicos, fica parecendo que eles sio apenas acess~rios e depen- dentes, as sementes de um tipo de engre- nagem que se notabilizou com o complex militar-industrial (e tamb~m necessariamen- te cientifico e tecnol6gico) do Pentigono americano. Pesquisadores estio tendo apoio, recursos e encomendas, mas n90o para agir como livre-atiradores, para atuar autonomamente em seus proprios projetos de pesquisa, mas para responder a uma demand do Sivam. A impressito mais forte e a de preparati- vo para uma guerra, certamente nito marca- damente conventional, nem mesmo em seu "teatro de operaqdes". Uma guerra por pre- ciosidades vegetais, minerals, hidricas e animals ainda n9o identificadas ou catalo- gadas, mas que os atores envolvidos sa- bem estar escondidas no meio da floresta. Essa perturbadora floresta tropical (ou equatorial) amaz6nica, presumivel vitima de um inimigo que quer mante-la integra para saqued-la, valendo-se ainda de sua grandi- osa tessitura densa como esconderijo, e os que querem assegura-la como element da soberania national pondo-a abaixo, para que pirates e exploradores nela nio se es- condam, ou dela nito extraiam os segredos que constituem patrim~nio unico dos bra- sileiros, senhores soberanos ate das sen- tengas destruidoras. O Sivam entrard nesta guerra em alega- das condiq~es de agir entire esses extremes polarizados. A frota de 17 avides, com suas bases de apoio em terra e articulaq~es es- paciais, terl condig8es de atacar os maqui- av61icos invasores, alguns dos quais es- tiio, na verdade, interessados em benefici- ar-se do intrincado complex geografico amaz~nico apenas como rota de passage para seus produtos ilicitos, da cocaine ao contrabando, e tamb~m os destruidores na- cionais, que neste memento, a despeito da ameaga iminente de repressito teleguiada dos c~us, volta a queimar sem comiseraglo a fonte de tudo o que esta em jogo na re- gitio: a floresta. Esse clima b61ico sempre foi o sinete para o tratamento excepcional dado ao Sivam, cujos criadores nito se cansam de assinalar o perigo que frorlteiras de nove mil quilb- metros, por uma selva sub-ocupada e ul- tradesejada, representam. Ele foi o tema 6nico na agenda das duas Oinicas reunites realizadas at6 agora pelo Conselho de De- fesa Nacional, a versito (democratizada constitucionalmente em 1988) do Conselho de Seguranga Nacional, o centro nevralgi- co do regime military. Gragas a entonaqio da doutrina de seguranga national, foram dis- pensadas as cautelas administrativas pro- porcionais ao tamanho do investimento, de US$ 1,4 bilhio. O resultado foi uma s~rie de den~incias de irregularidades e al guns escindalos na esteira da dispensa de licita~go publica, aprovada a toque de caixa pela detecqilo da ameaga international latente e iminente na Amaz~nia. Cinco anos depois do pipo- car dessas controv~rsias, a CPI do Sivam foi finalmente instalada na Cimara Federal, na semana passada, e comegari a funcio- nar no prbximo dia 5, sob a ameaga de um tipo de um virus legal a que os advogados denominam de "perda de objeto". O Sivam ji caminha para a finaliza~go, o que nio sig- nifica o fim de grandes gastos, muito pelo contrario. Apenas eles se tornado rotinei- ros. Puniqdes, se houverem, tertio que ser retrospectivas. Deve ser ilustrativa uma analise com- parativa entire a implanta~gio e o funciona- mento do Sivam, na era plenamente demo- cratica (ao menos do ponto de vista ret6- rico e formal) do governor FHC, e o Projeto Radam, da decada de 70, dos presidents militares. ORadar da Amaz~nia tambem mo- bilizou militares e uma certa paraferndlia de combat, mas era comandado por civis, empenhados na primeira radiografia com- pleta, em linguagem tecnol6gica atualiza- da, da Amaz~nia, qune serviria de guia ou indice para detalhamentos posteriores e aproveitamentos econ8micos mais preci- sos. Os militares foram fundamentals na logistica e na vanguard das expediqdes pioneiras. NIio na definiptio do projeto, nem no seu uso (se foi positive ou niio, 6 outra questlio). Ja o Sivam se apresenta como civil, ci- entifico e ecolbgico, mas foi gestado, con- sumado e executado pelo antigo Ministe- rio da Aerondutica, valendo-se de uma con- ceppilo geopolitica para contornar e supe- rar as engrenagens civis de defini~gio. Com um site na rede mundial, pode-se falar a vontade dele. Concebido em subsolos fe- chados, s6 nio se consegue modified-lo, alcangar suas engrenagens decis6rias. Paradoxo esse que talvez diga alguma coisa sobre a evolu~go nito-linear e con- traditbria da hist6ria. Ao menos numa fron- teira aberta ao bizarre como a Amaz~nia. E a decis~es verticalizadas em voz de co- mando unico. De volta ao future 4 JORNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE SETEMBRO/ 2001 Arag uaia-Tocanti ns: o vale da energia eStai em ; 'tamanho ,,,F eCOnt^mico das usinas e o enfoque . exclusivamente energy &tico da Uti//Z8 Q O da Aigua Apenas duas hidreletricas estio no mo- mento em atividade no vale do Araguaia- Tocantins, cuja bacia abrange 10% do ter- ritbrio brasileiro, em cinco Estados (Mato Grosso, Goids, Tocantins, Maranhio e Para). Mas quando a primeira d~cada deste seculo terminar, as usinas serio 14, 10 no Tocantins e quatro no Araguaia. Elas terio capacidade para gerar 20 mil megawatts, o equivalent a um tergo da potincia atual de todas as hidrel~tricas bra- sileiras somadas. O vale do Araguaia-To- cantins sera, entio, a maior fonte de ener- gia de fonte hidrica do pais. Para uma area que ate 1984, quando a usina de Tucurui foi inaugurada, era zero em materia de geraCio, a transformaqio sera brutal, al~m de rapida. A segunda etapa da primeira hidrel~trica construida no vale sera concluida no pr6ximo ano. Teoricamente a potencia de Tucurui du- plicar8, dos 4,2 mil MW de hoje para 8,3 mil MW em2006, consolidando sua posi- Cgo de segunda maior hidrel~trica brasi- leira (primeira, por~m, se considerada ape- nas a metade que cabe ao Brasil em Itai- pu, ou6 mil dos l2 mil MW finals). Mas a potincia firme (aquela energia que a usina 6 capaz de produzir em qual- quer 6poca do ano), que hoje e de 2,l mil MW, s6 sera elevada para 3,3 mil MW com a declarada duplicaCgo que seri apenas nominal, portanto. Essa queda acentuada de potincia, de 8,3 mil MW no auge do inverno para 3,3 mil MW no pi- que da estiagem, deve-se a falta de aigua. Entre um period e outro a vazio do To- cantins/Araguaia diminui 60 vezes. A capacidade de armazenamento no reservat6rio de Tucurui esta chegando ao seu limited maximo, nio podendo ir alem de 15 bilhaes de metros cubicos de agua fitil, a que esta no nivel de captagio da tomada que conduz as turbines (para um total de quase 50 bilhdes de m3 de volu- me global do lago, o maior do pais sob essa perspective). Assim, metade das 23 miquinas que estatio instaladas na casa de forga quando ela for duplicada permanecerlo completamente paradas durante dois ou tr~s meses do ano. Isto significara um fator de capacidade bem inferior aos 50% considerados como limited minimo aceitavel internacionalmente. Por enquanto, apenas uma outra hidre- 16trica est8 em atividade, tamb~m no To- cantins, a de Serra da Mesa, com pot~n- cia de 1,3 mil MW. Mas, al~m da segunda etapa de Tucurui, estio em construgho mais duas usinas menores (Lajeado, com 850 MW, e Cana Brava, com 450 MW). Mais quatro no Tocantins vio ser licita- das (a maior delas 6 Serra Quebrada, com 1,2 mil MW) e outras quatro no Araguaia. Se todas forem construidas at6 2010, nes- se ano o Tocantins estara com capacida- de nominal instalada de 15,3 mil MW o Araguaia com 3,9 mil MW. Nenhuma ba- cia fluvial sera mais important como cen- tro energ~tico no Brasil. Favorecidos pela conjuntura de crise aguda, os engenheiros e economists es- tio dando um andamento acelerado a esse planejamento. Ao tratar da viabilidade dos empreendimentos caso a caso, parecem ter colocado em plano secundario a visio de conjunto e integrada da gestio das manter, a pass de cigado, a constru~go do sistema de transposi~go da barragem. Tudo indica que as eclusas ainda estario incompletas quando a concretagem da casa de miquinas for arrematada. Com o deslocamento das duas frentes de servi- go, mantidas pela mesma empreiteira, a Camargo Corr~a, o orgamento das eclu- sas vai crescer individualmente. Isso pode provocar nova paralisa~go de uma obra que ji se arrasta ha mais de 20 anos. Em grande media, o porte da hidre- letrica inviabilizou a sua pr6pria trans- posiCio. Para gerar muita energia num rio de planicie como o Tocantins, Tucu- rui teve que se valer de um grande des- nivel artificial, criado pela barragem. A contrafaqio desse desnivel foi a neces- sidade de construir um sistema muito carol para veneer essa diferenga de 70 metros entire os pontos de jusante e de montante da barragem. Quando (e se) concluido, ele serd o maior do mundo, a um custo nio inferior a 400 milhdes de d61ares. Ha enorme re- aguas dos dois rios, que sho grandes indivi- dualmente e se tornam ainda maiores ao jun- tarem suas aguas, na divisa entire o Mara- nhio e o Para~. O que esta em foco 6 o ta- manho econ~mi- co das usinas e o enfoque exclusi- vamente ener- g~tico da utiliza- 950 da Agua. O lutincia em Brasilia em cumprir esse orga- mento sem uma res- posta econbmica ime- diata. As eclusas fica- ram patinando no tem- po enquanto a usina la queimando etapas. Veneer o descompas- so parece coisa fora de perspective no uni- verso da duplicaqio, que se completard no final do pr6ximo ano. A pr6pria usina, en- tretanto, tamb~m 6 vi- tima dessa busca de quantidade mhxima de uso do rio como meio de transport esti sendo considerado, mas por outra instin- cia governmental e como se as duas for- mas de aproveitamento fossem estanques, como se a ggua nio fosse uma s6. Essa forma de esquizofrenia 6 bem exemplificativa em Tucurui: enquanto a Eletronorte toca a jato as obras da ampli- ag~o da hidrel~trica, o Ministerio dos Transportes recolhe sobras de verbas para energia. Projetando barragens de grande queda, sem a qual turbines gigantescas nio poderiam ser acionadas, provocaram a submersio de areas extensas. O lago de Tucurui tem niuneros impressionantes, como o maior volume de agua entire os reservat6rios do pais, a segunda maior extensio, sete mil quil6metros de perime- tro e infludncia ao long de 200 quil6me- tros Tocantins acima. Mesmo com esse JOURNAL PESSOAL 2.QUINZENA DE SETEMBRO/ 2001 5 porte, a variaCio do regime hidrol6gico na Amaz~nia impossibilitara o reservat6rio de manter em operaqio, no auge do verio, mais do que 10 das 23 gigantescas ma- quinas da usina, quando ela chegar a sua plenitude produtiva, em 2006. Como havera outras 13 usinas rio aci- ma, seria de se imaginar que essa enorme deplegio em Tucurui seria compensada pelos represamentos de montante, tanto no Tocantins quanto no Araguaia. Uma operaqio conjugada integraria os diver- sos reservat6rios, assegurando uma po- tancia firme mais alta comn a regulariza- 950 do fluxo de agua. Esta, entretanto, e uma inc6gnita no plano de aproveitamento energ~tico da bacia. A Eletronorte diz que a maioria das novas usinas sera a flo d'agua, ou seja, sem reservatorio. A agua que chegar a barragem passarai imediatamente pelos condutores para as turbines e sera des- carregada a jusante, sem acumula~go. Se isso for verdade, a queda de pot~ncia des- sas hidrel~tricas entire o inverno e o verio sera ainda maior e todo o fabuloso siste- ma energ~tico do Araguaia-Tocantins se transformara~, no pique da estiagem, numa visagem do que alcanqard no period matximo de chuvas. Mas, e se nio for verdade? Como po- derio chegar as suas pot~ncias nominais as hidrel~tricas de Maraba (2,1 mil MW) e Santa Isabel (pouco mais de mil MW) sem reservat6rio? A de Santa Isabel, por exemplo, no projeto original, mesmo ten- do menos de um quarto da potincia da l' etapa de Tucurui, ia former um lago de area equivalent ou superior aos 2.850 quil6metros quadrados do reservat6rio da maior hidrel~trica do vale. Na atual ver- sio, Santa Isabel continue aparecendo com a mesma capacidade (1.080 MW), mas nenhuma refer~ncia e feita ao seu reservat6rio, um pesado custo ambiental (e social) que fora o responsivel pelo ar- quivamento do projeto na decada de 80. Houve modificaqio de fato no projeto, melhorando incrivelmente o seu desenho, ou trata-se apenas de manipula~go de in- formaqio? Quando esta em causa modi- ficaqio tio profunda do uso de uma bacia como a do Araguaia-Tocantins, com area de 800 mil quil6metros quadrados, maior do que a da maioria dos paises do planet, responder a essa duivida nio 6 exatamen- te uma tarefa acad~mica. RespondZ-la satisfatoriamente parece exigir, antes, abrir as caixas pretas do setor eletrico bra- sileiro. Como sempre, herm~ticas. Ao participar da inauguragio da ponte do Mosqueiro, mais de duas d~cadas atras, o entio president da Republica, general Ernesto Geisel, se virou para seus com- panheiros de palanque e perguntou pela utilidade econ6mica da obra. O que se produz nessa ilha? O governador Aloysio Chaves engoliu a resposta. O prefeito Ajax d'Oliveira veio em seu socorro. Explicou ao prussiano president que a ponte ia favorecer o la- zer dos belenenses, obrigados at6 entio a servir-se de um navio ou de balsa para desfrutar dos prazeres da "buc61ica", como os colunistas sociais tratavam a ou- trora paradisiaca ilha. Se ressuscitasse e voltasse ao Para para inaugurar a ponte sobre o rio Gua- ma, em meio a fanfarras e apoteoses de period eleitoral, como o do pro~ximo ano, provavelmente o aplicado general faria a mesma pergunta: qual o uso econbmico dessa cara obra de arte e do sistema ro- dovibrio do qual faz parte? Mais adestra- do para esse tipo de discurso, o governa- dor Almir Gabriel haveria de citar nuime- ros e entoar arguments para sustentar que a Alga Viaria sera uma revoluFgio na paisagem da Grande Bel~m. Tera ainda papel important na integraqio do Estado do Para. A ladainha ji 6 bastante conhecida, quando nada pela intense propaganda fei- ta em torno da obra. Toda a ret6rica, po- rem, tangencia o ponto fundamental: ao decidir executar o projeto, o governor pa- raense optou por uma formula convenci- onal e pela mesmice, mais facil de engolir porque ja vem numa embalagem pr6-fa- bricada. Um modelo ex6tico de interven- ~go, cujo dano s6 nio 6 bem avaliado por- que apenas os beneficios sho alardeados, nio os seus custos. . Tocada em ritmo acelerado para po- der render votos, impressionando as pes- soas convidadas para visits dirigidas ao canteiro de obras, a Alga Viaria ji engen- drou dois fats concretes, um de valor mais simb61ico e outro de crueza nada metafi- sica. O primeiro 6 a topada da frente de constru~go da rodovia da margem direita da ponte sobre o Guama. Os servigos es- tio parades porque ainda nio se decidiu o que fazer com um posto de gasoline ins- talado exatamente no leito da rodovia. O posto ja estava ali quando os t~cnicos pro- jetaram o tragado da Alga. Por que dei- xaram o problema interferir no andamen- to da obra? A solu~go nio podia ter sido antecipada? Ngo sairia mais barata com essa antecipa~go? O segundo fate mais grave: habitan- tes rurais de municipios sem perspective econ~mica do nordeste do Estado e da regido do Salgado, sofrendo inf luencia mais direta da capital, ji estio se estabelecen- do ao long do tragado da rodovia, inva- dindo terrenos para ter seu lote quando a obra estiver concluida. Isto significa que o efeito imediato da Alga seri a amplia- ~goe inchamento dos problems urbanos de Belem, a consolidagio da anemia so- cial, atraindo mais pessoas para habitar a periferia da cidade e tangenciar as possi- bilidades de incorporaqio econbmica. Essa perverse agitagio social erra t~io previsivel e inevitavel quanto o impact econibmico das pontes e da estrada a elas associada. E claro que elas beneficiariio varios stores e atores. Mas prejudicar~io outros. Podem prejudicar mais do que beneficiary. Admitamos que os efeitos po- sitivos existirio: parte da carga que atual- mente vem para o porto de Bel~m sera~ deslocada para Vila do Conde, de li vol- tando para ca. Talvez a mudanga fosse vantajosa se essa nova pernada fosse fei- ta em barcacas ou alvarengas.Mas o meio de transport ser8 o caminhio. Um custo a mais, um impact adicional, um elemen- to aduzido a descaracterizaqio da fungio de uma cidade estuarina. Raciocinios apressados na condenaFio do sitio portuario de Bel~m serio refor- Cados e outras fantasias adquirir~io con- tornos de verdade. Bel~m ficara ainda mais rodoviaria e menos fluvial, um desti- no que nio estava escrito nas estrelas, que at6 podia ser reescrito, desde que tiv~s- semos uma administration puiblica mais identificada com a geografia da cidade. E com sua paisagem social. A a198 rod ovia rea da cidad e f lu via I 6 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE SETEMBRO/ 2001 Ant i-un ivers idad e Alex Fiuiza de Melo ainda nem p~de assumir plenamente a reitoria da Universidade Federal do Park, cargo ao qual chegou depois da mais disputada eleigao na hist6ria da institui~go. A greve chegou antes dele, vitima de um motor continue com origens e motivag8es tio longinquas que o movimento se prolonga por in~rcia, perdendo em racionalidade o que ganha em impetuosidade. Estigmatizado por uma mancha que the foi langada, sem tempo e espago para se explicar, Alex protagonizou uma cena de tristeza e infeli- cidade, que prejudice mais a UFPA do que a ele mesmo, sem deixar de causar-lhe serios prejuizos. Obrigado a se manifestar perante os grevis- tas, ele desceu do seu gabinete em manga de camisa e, afivel, tentou sustentar um didlogo civilizado entire antagonistas. Foi maltratado e des- respeitado. Teve que se retirar do ambiente sob apupos. Objetos foram atirados contra ele. Talvez s6 um criminoso tivesse tratamento pior. A cena de inicio de mandate se nivelava a de meio de mandate do seu antecessor, Cristi~vam Diniz. Ele apareceu na foto de primeira pagina de jornal atras de sua mesinha, menor do que 6 naturalmente, acuado por manifestantes recebidos em seu gabinete. Um deles portava uma faixa com os dizeres foraa o reitor". Pessoa tio atenciosa quanto Alex, CristC~vam nio devia ter permitido o gravame. Nio podendo preveni-lo, devia ter impedido que perdurasse. Ficou, por~m, impotente detris de sua mesa. Alex cometeu o despauterio de chamar a Policia Federal para dentro do campus. N~io devia ter feito. Mas tambtm os grevistas nio deviam ter-lhe retirado qualquer outra altemativa para a manutengio da sua autoridade e de servigos essenciais da universidade. A policia, que nio devia ter entrado, no exercicio de sua fungao (ou mesmo exorbitando-a), reprimiu um ato que uma lider de greve jamais poderia ter cometido, desse duplo equivoco resultando um desentendimento ainda mais gra- ve: todos perderam a razio. A situaqio prof issional de professors e funciondirios 6 triste, embora mantenham-se no campus as ilhas de mandarinato e os circuitos de coni- v~ncias. Eles causam males quase tio profundos quanto as agressdes externas que engendram as greves. Os servidores tem todo o direito de reivindicar o que lhes 6 de direito, ate os limits da desobediincia civil, respondendo por isso dentro do ordenamento legal. Mas nio podem fazer da selvageria o element arbitral de controv~rsias e contends, criando uma academia de maus costumes, mB educaqio, incivilidade e grosseria, que constituem a antitese do que devia ser uma instituigno do saber. A universidade nio deve deixar de ser universidade a pretexto de se manter como universidade. Para voltar a ver essas cenas tristes, de habi- tantes das cavernas (pr6-histi~ricas e instintivas), no hall da reitoria como na frente do hospital universit~rio, 6 melhor trancar de vez os portdes do campus e jogar a chave nas gguas do rio Guamb, cada um voltando 21 sua falta de sonhos e utopias do lado de cB do muro, ao barbarismo a que nossa suposta elite quer nos condenar. gos, com interrupg~esque descos- turam o flo narrative linear, dando ao leitor munigio para reflexio so- bre hist6ria, sociologia, economic, nio s6 da Amaz6nia como tamb~m do Brasil e do mundo. Um verda- deiro exercicio critic que o leitor nio encontra t~io facilmente na gran- de imprensa. Nesse aniversirio do JP temos muito a comemorar! Afinal, s~io 14 anos de compromisso com a verda- de. Como aluna de mestrado, 6 uma honra ter o Jornal Pessoal como objeto de pesquisa na Pontificia Universidade Cat61ica de Shio Pau- lo. Prambens, Lticio Flarvio Pinto, por produzir quinzenalmente este nani- co, polbmico, complex, rico. Cblia Tkindade PREZADo Ljcto, Gostaria de estar ai em Belem, em primeiro lugar para estar comn a minha familiar e depois para para- beni~za-lo pelos 14 anos de luta do Jornal Pessoal n" 266. Acho que e desnecessario co- mentarios meus a respeito dos ru- mos do journal, pois em materia de assuntos paraenses e amaznm- cos ganha de outras publicaq~es e jomais. Parabens novamente e espero ver os 28 anos de aniversario. Um abrago, Trajano Oliveira Palmas-Tocantins O JOURNAL PESSOAL Sempre foi sininimo de 6tica e compromisso com a verdade para muitos estudan- tes de jomalismo. Na sociedade, o JP ganhou proje~go e credibilida- de ao oferecer informaqdes que circulam nos bastidores da political, da economic e do segment empre- sarial. Informaq~es que simplesmen- te nlo chegam gs piginas dos jor- nais por interesses diversos. Inte- resses que nunca estiveram a fren- te das noticias que publicas. Como jomalista e cidadi para- ense, experimentei o privilegio de vivenciar as duas situaq6es. Ago- ra, o Jornal Pessoal me oferece mais um present: acompanhar a tio amada Bel~m, ainda que g distin- cia.Equeestacompanhiaduremuito mais de uma decada. Um grande abrago, Daniela Damaso Rio de Janeiro -RJ **************** CARO SR. Lljcio FLAVIO: Meus sinceros parabens pe- los 14 anos do seu JP. Desde que voc6 levou o jor- nal g livraria "Apolo", do meu fi- lho Daniel, sou assidua, atenta e afetuosa leitora. Aprendo muito com voc6 sobre velhas e novas political paraenses. Moro neste Estado faz 37 anos. Ultimamente estou interessada na alga viiria. Morei na Pirelli por 15 anos com meu marido italiano, Giorgio, e muitos domingos iamos a pescar por onde se esta construindo a ponte. Faz muitos e muitos anos que nio you por 16, pois meu ma- rido faleceu h6 21 anos e, alids, est8 enterrado na capela da Pire- Ili, que era linda e agora esti com- pletamente abandonada. Daniel manda um abrago e pa- rabens. Admire voce muito, sua forma equilibrada e serena de anali- sar os assuntos e pedir paz e enten- dimento entire os que, infelizmente, nos "govemam". Forte abrago, Renata Rebisso JL I Pe los 1 4 an os NAO SE PODE FALAR hoje de im- prensa alternative brasileira sem mencionar o Jornal Pessoal, de Lucio Flavio Pinto. S9o 14 anos de jomalismo investigative na Amaz6- nia paraense. Um verdadeiro ban- co de dados com informaqdes im- portantissimas sobre a regiho. En- tre elas, destacam-se garimpagem, conflito de terra, massacres, caba- nagens, devastagio, narcotrifico, enfim, assuntos pouco explorados pela imprensa conventional, mas que representam o cotidiano da Amaz~nia. Na obra Jornalistas e revolu- cionairios, nos tempos da impren- sa alternative, o chefe do Departa- mento de Jornalismo e Editoraqio da Universidade de Sgo Paulo, Ber- nardo Kucinski, cita este peri~dico amaz~nico como um altemativo que sobrevive at6 hoje. Dos 160 jomais pesquisados para o desenvolvi- mento do trabalho, no period de 1964 a 1980, Kucinski verificou que "um em cada dois jomais altemati- vos n5ao chegava a completar um ano de exist~ncia. Varios ficaram apenas nos dois ou'tris mimeros". Apenas uns 25 desses pequenos jomais "tiveram vida relativamente longa, de ate cinco anos". O context hist6rico da impren- sa altemativa em pleno regime mili- tar Ato Institucional no 5 e outras formas de intimida~go a liberdade dos individuos nos faz questio- nar a a~go jomalistica que Liicio Flavio Pinto pratica nos tempos de democracia na region amaz6nica: o que leva o jomalista a langar um ve- iculo alternative em plena liberda- de political? Sera que as dtcadas de 80 e 90 poderI~o ser consideradas como uma era de pleno acesso a informaqio? O que faz um jomal al- temativo, de c6digo refinado, atin- gir 14 anos de existincia, numa re- giso de tslo baixa escolaridade? Esses questionamentos sur- gem, de imediato, a cabega de um leitor consciente, paciente, atenci- oso. Qualidades que permeiam a vida do leitor do Jornal Pessoal. Algumas vezes, as reportagens pre- cisam ser lidas duas vezes, dada a complexidade narrative de Liicio Flavio Pinto. Seus textos sio lon- JORNAL PESSOAL 2= QUINZENA DE SETEMBRO/2001 7 amilia, os parents e os amigos extraido a pega da imprensa regular erio la seus justos e legitimos cara sem autorizaglo, que nio sel notivos para chorar a morte e exal- Naquele mesmo instant, entire 6ria de Silas Assis, que morreu no sessoria de imprensa do governor do, aos 64 anos. A imprensa para- truida a pagar o andncio pirata. E m, nio. HE muito Silas nada mais grediu o jornal, aproveitando-se ( va para o jornalismo local. Sua prin- gio dos ordenadores das despesa , o Jornal Popular, nio seria ca- de fazer political rasteira e suja, api recer um epitaflo decent em qual- origem, e de empresas suscetiveis serio do planet. Indiferentes ao ensinamento sobr anto, algumas carpideiras andaram va de domestica~go de serpentes. :omo se a perda fosse de um grande Ngo ha uma unica entrada do llistico. Disseram que Silas era um pular nos registros da imprensa, m rajoso. Se o fosse, nio andaria com nas a local, que conte para valer. I ;e nem colocaria como responsa- circunstancialmente a publica~gi ua publicagio meros titeres, pesso- fats verdadeiros e acolheu at6 al sonalidade ou moral, que empresta- nuncias procedentes. Mas esse m; ome para poupar o verdadeiro res- viu de instrument para o uso do ,elo jomal de ser processado deze- interessava ao editor: como gazua es na justiga. cofres alheios. mo redator-chefe de aluguel e J. R. Ou, quando encontrando algum jo nome verdadeiro, alias, e Ugui, cia aos seus prop6sitos ultrajantes: ;go de batismo ao pseudonimo. O tudo de s6rdido que pudesse inv uiz Solano, condenado com sen- intimidar e afastar os desafetos or s~itada em julgado, em um dentre veis. A colegio do JornalPopular cessos, tentou, de Brasilia, fonte de refer~ncia para nenh ilio, escapar a responsabili- ~Dsito decent e positive: 6 um osta. Teve o troco corrente ii I de numeros escabrosos do ci: aques impiedosos e ferozes.' rores nele montado. ovemnador Helio Gueiros escreveu, Ao seu estilo, Silas Assis foi, vincia do Para, que Silas era um mento inicial da sua carreira, uma oposi~go, que brigava com os go- talent para um tipo de jornalismo e ajudava a eleger. Ngo e verdade. co e panfletario. Era o unico com :a elegeu ninguem. O ex-prefeito dade na troupe. Mas esses predict :eu" de acrescentar tambem que o deixados de lado ou serviram ape: to se devia sempre nio a razies trumento para o que lhe interessa a divergincias sobre a coisa pu- ganhat dinheiro. Mesmo tendo cr~ e id~ias, mas a falta de acerto co- zero e influincia pr6xima desse r astava o dinheiro do eratio deixar uma circula~go fantasiosa, conse rsferido para o journal, por inteiro prop6sito. Digamosquneesse sejau ida exigida pelo donor da publica- reconhecer. Quanto a jornalismo, p le trocar-e de imediato-o elogio de muito tempo atris nio havia ne agressio despropositada. E voltar la~go entire ele e Silas Assis. de antes se o ervario florescesse Quem procurou, em necrolbgio m sua horta. E romper tantas vezes ni~ncia, estabelecer esse nexo, con ossem necessbrias para a drena- mesma e rasa insignificincia, ofend ceira ser restabelecida. timas dos excesses contumazes di articularr, Gueiros fala com conhe- todos os que estilo empenhados el e causa. Silas Assis s6 voltou a se mo serio. O morto tem direito ao si r em Belem, depois de um long pranteamento, que este artigo, esc o Amapa, onde esgotou o merca- pordeverdeoficio, niotemainten( A farta publicidade official do Es- testar. Mas os que derramaram dia~ er o primeiro exemplar do Jornal grimas de crocodile nio tem o dire :om anuncios do Estado, fui ao ferir-lhe o que nio fazia parte dos s ernador e lhe perguntei se a publi- sits. Vivos desse tipo slo o que a autorizada. Com aquele seu jeito dores e aproveitadores de cada~ver , Helio disse que ngo. Silas havia sionais da necrofilia em proveito p A me tar a meme mis passal ense, pore represent~ cipal obra paz de mel quer lugar No ent; chorando c valor joma home co segurangas veis pela s as sem per vam seu ne ponsavel p nas de vez O uiltin Avelar, cuj uma vocal anterior, L tenga tran~ varios pro seu domic zagio imp na casa: at; O ex-gl em A Prol home de vernos qu~ Silas nunc se "esquec rompimen editorials, blica ou de mercial. B de ser tran ou na med Fgo, para e facil pela ao elogio de novo en quantas fe gem finance Neste p cimento de estabelece period ne do, gragas tado. Ao v Popular c ent~io gov~ cidade for galhofeiro r e a publi- ria dada. :tanto, a as- jb fora ins- assim pro- da disposi- Is publicas agando sua a ameagas. e a tentati- Jornal Po- lesmo ape- E claro que o divulgou gumas de- aterial ser- jornal que Ipara abrir na resist~n- , recorrer a rentar para u indeseja- Snio e uma um prop6- la sucessio rco de hor- , num mo- Spessoa de folhetines- essa quali- Idos foram nas de ins- va, que era edibilidade nada, com eguiu esse Im mrito a ,or~m, des- :nhuma re- sde conve- denou-se a lendo as vi- e Silas e a m jomalis- l~ncio e ao rito apenas glode con- nte dele la- ito de con- ;eus prop6- sio: viola- res. Profis- ,r6prio. Uovo journal Ha espago para uma terceira via na impren- sa paraense, entire o monop61io commercial da familiar Maiorana e os interesses politicos do senador Jader Barbalho, os dois extremes em que se polarizou o jornalismo local. O Paraen- se, semanario que comegard a circular no dia 9, e sempre aos domingos a partir dai, pretend se aproveitar desse vacuo. Ai frente da empreitada esta Ronaldo Brasi- liense, um professional que conseguiu se esta- belecer no concorrido mercado national, ha varios anos circulando entire os principals vei- culos brasileiros e ha algum tempo editando um um site especializado em Amaz6nia. Ao seu lado, 14 jomalistas empenhados em viabilizar o projeto editorial. Ojornal, que recupera, 180 anos depois, o titulo da primeira publica~go peri6dica do Para, criada por Filippe Patroni em 1 821,teni 12pI~ginas standard, uma tiragem de 20 mil exemplares (o dobro no langamento promocional do prC~ximo domingo) e sera impresso nas oficinas do Cor- reio Braziliense, em Brasilia. Pretende chegar aos principals municipios do Estado e competir com os dois jomaldes diatios, inclusive em influincia. Certamente o novo jomal poderia capitalizar as insuficiencias elimitagies daconcorrincia, mas enfrentaria muito mais dificuldades se nio con- tasse com ocalor da administrag~xoestadual, como, de fato, vai ter. O govemador Almir Gabriel sabe que nio pode contar com o apoio incondicional dos veiculos do president licenciado do Senado e que a condi~go imposta pelos seus aliados, os Maiorana, costuma ser pesada demais, alem de inconstante e sujeita a caprichos. Dizer que o novo O Paraense sera~ apenas um 6rgio de campanha de Sim~io Jatene e me- nosprezar o curriculo de varios dos jornalistas que integram a redagio. Mas inegavelmente dar apoio a Almir Gabriel e a seu candidate, fazendo o contracanto aos ataques que eles receberem, sera uma de suas metas prioritairias. Esse tipo de arranjo n~io e exatamente novo na imprensa em qualquer lugar do mundo. S6 para ficar entre n6s, houve experi~ncia seme- lhante no Acre e esta havendo atualmente no Amapa, onde circula um jomal semanal ostensi- vamente ligado ao governador. O Diario do Parai surgiu em condiqdes se- melhantes, em 1982, als de OParaense: Jader Bar- balho, candidate ao govemoe, nio podendo con- tar nem com O Liberal e nem com A Provincia do Parai, teve que criar seu prbprio veiculo, pre- cariamente alojado e rusticamente impresso na epoca, uma remota matriz do que e hoje. Espera-se que, podendo aspirar a igual su- cesso, o novo jomal nio seja apenas a outra face, com efigie tucana, da trajet~ria do jomal de Jader Barbalho, surgindo como uma promessa em tese para se tomnar, na pratica, mais uma con- firmaqio dos velhos metodos dos poderosos de plantilo e seus satelites mal disfargados. I~ I I tara re O govemnador Almir Gabriel e o deputado Martinho Carmona, president da Assembleia Legislativa, travaram uma autantica ba- talha de Itarar6, aquela que ficou famosa por nunca ter havido. O governador demitiu Raimundo Sena, um protegido de Car- mona, do cargo que ocupava na Secretaria de Saude. Em repre- silia, Carmona mandou preparar a demissio da chefa da consul- toria da AL, Arlene Rocha, indicada para a fun~go por pedido pessoal do governador no primeiro mandate do deputado do PSDB, que esta bisando o feito. Mas antes de mandar o docu- mento para publicaqio no Diririo Oficial, o deputado tratou de fazer chegar a noticia aos ouvidos de Almir. O memento de tensio que se seguiu nao levou ao cheque. O governador voltou atris, embora parcialmente, algo inusitado para seu estilo mandio e turrio. Sena nio foi devolvido g Sespa, mas ganhou seu lugar em Marituba, na administration de Antd- nio Armando. A demissio de Arlene nio se consumou. Embora no comando de uma consultoria comn mais de 30 funci- ondrios, acomodados entire apadrinhamentos e conveni&ncias, sua principal tarefa e political. Ela se transformou numa das mais im- portantes arregimentadoras femininas de votos para o tucanato. Solteira, com pouco mais de 40 anos, pedagoga por profis- sio, Arlene arregaga as mangas quando chega o period elei- toral, trabalhando em favor de Almir Gabriel, de quem e intima ha varios anos. Dintimica, atraiu para si o Projeto Cidadania, fazendo-o migrar progressivamente de sua 6rbita original, a Secretaria de Justiga. Tirar documents e entregar cadeiras de rodas sempre rende dividends eleitorais. Nessas tarefas ela mostra sua competin- cia. Na consultoria da AL, nem 6 precise. O 6rgio tem a sua igualmente farta procuradoria, responsavel pela parte propria- mente juridica, e sua assessoria, que faz o trabalho tecnico. A consultoria nio e privativa nem de advogados nem de tecnicos legislativos. E abrigo para amigos do rei, de principles e outras cabegas privilegiadas, coroadas ou nio. Joma~l Pessoal Ednlor. Luslr Far*l Pimo-~ Fones (ir911 223-7.90 2o~bi2da N 4,* I ICOnuIO Ter~R .IT~gr. Cor*Bnl 84EEM6 *5-U wll 100 ld~amira Mn PFMdUg Aysllrn Phlnl Ediga del Are* Lud.~iarderlafnaDunl Obsessio O senador Jader Barbalho pode ate demonstrar que algumas acusagies feitas contra ele sao improcedentes, mas nio que e inocente em todas as situaq8es irregulares jB levantadas. E nem todas as possiveis foram catalogadas at6 agora. Ainda resta o que raspar no fundo do tacho das denuncias. Mesmo quando uma bala se mostra de festim ou a polvora fica molhada, o impeto cassat6rio nio arrefece. O f~nix moralista renasce. Nesses terms, a cassa~go do president licenciado do Senado seria apenas uma questlo de tempo e oportunidade, independentemente do conteudo. Mas ao se desviarem dos fats mais substanciosos do poldmico curriculo de Jader Barbalho e procurarem pretextos menores, como a obstru~go na tramita~go de um pedido apresentado a mesa do Senado, os contendores do ex- governador ameagam fazer a montanha parir um rato. Ainda que rats devam ser exemplarmente punidos. Ao menos para deixarem de servir de padrio e emblema da elite brasileira, particularmente a political. Parede Numa epoca em que se busca abrir janelas para o rio em Belem, uma nova muralha est8 sendo levantada na mna Sgo Boaventura com o canal da Almirante Tamandare, na area do Porto do Sal. Nio ha indica~go do responsavel pela obra, nem do seu donor. As fileiras de tijolos sobem rapidamente, quase clandestinamente, 6 tentador dizer. Vai bloquear de vez uma paisagem que ainda podia se tornar atrativa, principalmente com a redefiniqgo do uso da Area do canal da Tamandar6. Convinha a prefeitura e ao CREA dar uma olhada no local. Enquanto 6 tempo. Se e que ainda h6 tempo. No mis passado participei de um debate radio- f~nico sobre a crise energetica brasileira, num pro- grama transmitido a partir de Brasilia. Fui contesta- do pelo director da Eletronorte, Jorge Palmeira, quan- do disse que dos 4.100 megawatts a serem adicio- nados a atual capacidade de Tucurui (de 4.200 MW) pelas obras de duplica~go da usina, apenas 1.100 MW seriam energia firme, que a hidreletrica pode- ria produzir o ano inteiro. Nesse caso, o fator de capacidade da 2" etapa seria muito baixo, de apenas um quarto da potincia nominal (quando o indice minimo internacional e de 50%). Palmeira disse que eu estava desatualizado. Na ultima revisio feita pela empresa, a potencia firme havia sido elevada para 2.400 MW, ou mais de 50%, dentro do padrio mundial. Fiquei surpre- so e sem argument. Mas pedi, "ao vivo", que o director da Eletronorte, o linico paraense na admi- nistraqio superior da estatal (baseada em Brasi- lia), me remetesse o document que continha o dado. Seu irmio, Clayton Palmeira, sempre solici- to, ainda me telefonou imediatamente ap6s o en- cerramento do program, prometendo enviar os dados. Estou esperando ate hoje. Mas o president da Eletronorte, Jose Ant~nio Muniz Lopes, acabou, sem querer, naturalmente, me dando razio na pol~mica. Em carta que escre- veu a Oziel Carneiro, a prop6sito de artigo do ex- diretor do Banco do Brasil e ex-secret~rio executi- vo do Programa Grande Carajas, publicado em O Liberal, Muniz diz que dos 4.125 MW de Tucurui II, a energia firme serai de 1.063 MW. Ou seja: enquanto a capacidade nominal da usi- na complete sera de 8.300 MW, a energia assegu- rada o ano inteiro nio passara de 3.300 MW. Exa- tamente como tenho escrito e disse durante o de- bate, no estuidio da Ridio Nazare, em cadeia com emissora de Brasilia. Nio edI toa que a Eletronorte la continue com a sua sede, embora tenha sua jurisdi~go na AmazB- nia. Sua fidelidade 6 devida aos homes do Pla- nalto Central, nio aos da Planicie Amaz~nica. Mestre As vezes, quando estou na Elf, a galeria de arte do Gileno Muller Chaves, como um membro daquela confraria sobrevivente dos amantes de livro de Farenheit 451, a ficqgo cientifica de Ray Bradbury. O grupo nio e numeroso, muito pelo contrario. Mas todos os seus integrantes tem, entire seus pontos em comum, o gosto pela arte, seja a da expresso pict6rica, como a da conversa. A galeria tem pouco a ver com o padrio desse tipo de neg6cio. O acess6rio foi ignorado em beneficio do essencial: os convidados dispostos em torno do marchand, tio critic (ou cttico) em relaCio ao mundo quanto de si, mas sem levar as coisas muito a serio para nio ter que perder o bom humor, a t6nica com gosto de eternidade na galeria de Gileno, que se assina curAdor. Estivamos la, rentes que nem pio quente, para comemorar a 200Fexposi~go, com vernissage no uiltimo dia 29. Com uma dosagemnetilica record, levantamos muitos brindes aos txitos do mestre ea sua longevidade, pessoal c professional. Energia |
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