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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00216

Full Text
























I SECRETOICONuFIDENCIAL I


COu as ferramentas dessa guer-
ra silenciosa, n~io-declarada.
Mas alguns dos seus componen-
tes continuam os mesmos: pi-
rataria, contrabando, manipula-
gio fiscal e compra de consci-
incia ou mio-de-obra.
Numa area de cinco mi-
lhdes de quil6metros quadrados,
ocupados por 17 milh~es de pes-
soas, ha, de fato, muitas dessas
situaqies. Mas elas seriam o
element dominant? Eventuais
conspiragdes e contumazes
ilicitudes chegam ao nivel de
poderem representar uma efe-
tiva ameaga ao control do Bra-
sil sobre essa parcela maior do
seu vasto territbrio?
Quanto mais perguntas
se fizerem e mais respostas fo-
rem dadas seguindo um vi~s
conspirador, numa linguagem
cifrada, mais o component da
doutrina de seguranga national
se fortalecerai. Mais a Amaz6-
nia serai interpretada por crit6-
rios geopoliticos, engendradores de racio-
cinio por analise indireta e linhas pontilha-
das, e menos a luz dos fats, da ci~ncia.
Ha quatro d~cadas essa ameaga
latente de usurpa~go do territ6rio amaz6-
nico ao control national legitimou a ex-
pansio de ferozes frentes econbmicas,
estimuladas pelo regime military a integrar
manu military a Amazinia para nio
entrega-la ao cobigoso agent internacio-
nal. Todos os erros que se cometessem
para incrementar exponencialmente a po-


missionairios armados de contadores
Geiger disfargados, que se instalavam em
aldeias indigenas isoladas e li instalavam
suas bases avangadas atra~s de minerals
estrat~gicos. Hoje, sho as ONGs, as or-
ganizaqdes nio-governamentais, voltadas
principalmente para o meio ambiente e as
populagdes indigenas.
A tecnologia, com seus potentes
sat61ites de information em 6rbita da Ter-
ra e GPS operando no solo para usufruir
dessa sofisticada base de dados, modifi-


.9 c,


A visio official da Ama-
z6nia contmnua sujeita a doutrna
de seguranga national. Para
ela, nio importa que ha mais de
16 anos o pais se tenha redemo-
cratizado completamente, vi-
vendo na absolute normalidade
institutional. Com 60% do ter-
rit6rio national, uma baixa
densidade demografica, extensa
fronteira international, fraca
presenga governmental e
riquezas naturals ainda desco-
nhecidas, mas cujo estoque 6
considerado potencialmente
valioso, a Amaz~nia permanece
sujeita g cobiga mternacionall
A soberania national em
seus domimios contmnua a ser
considerada limitada por essa
perspective geopolitica. Cabe ao
governor consolida-la. Mas para
isso precisarb enfrentar forgas
adversas, interessadas nio ape-
nas em manter essa limitaCio,
mas em restringi-la ainda mais-
Albm de cumprir sua missio his-
t6rica de grandeza na gestio da maior
fronteira de recursos naturals do planet,
com 20% da agua de todos os rios, um
tergo das florestas tropicais e a maior das
diversidades de vida animal e vegetal que
se conhece, o Estado brasileiro tem que
enfrentar poderosos inimigos de alem-mar.
Esses advers~rios s~o perigosos
porque nio combatem g luz do sol, expos-
tos publicamente. Eles se valem de me-
canismos insidiosos. D~cadas atris, a ima-
gem simb61ica dessa sol~rcia eram falsos


01713l PeSSOa
LU C O F LAVIO PIN TO
ANO XIV N' 266 1L OUINZENA DE SETEMBRO- DE 2001 RS 2 d'~f

INTERNACIONALIZACAO


Ameaga 6 real?

A soberania brasileira na Amazdnia estai agora ameagada pelas ONGs. E o que garante a doutrina de
seguranga national, ainda a matriz da visd~o oficial sobre a regidio. NdZo serai possivel assegurar uma
Amazdnia brasileira sem teorias conspirativas. Uma Amazdnia plenamente democraitica?







2 JOURNAL PESSOAL P QINZEA TENA ODE STEBR D 20


pula~go local, via fluxos migratbrios, e
adensar a malha de atividades produtivas,
caudatarias dos pesados investimentos
estatais em infraestrutura (ironicamente
sustentado em endividamento extemno, que
engordou ainda mais os banqueiros inter-
nacionais), seriam legitimados pela preser-
va~go da maior reserve de riquezas com
que conta o Brasil para, finalmente, sair
da faixa dos paises subdesenvolvidos, em
desenvolvimento ou emergentes, atraves-
sando para o lado das poucas grandes
pottncias mundiais.
Desde entio a presenga territorial
estrangeira na regiio diminuiu. A partici-
pagio international no capital fundiario
regional, por exemplo, que havia provo-
cado a instalaeio de uma CPI na Cimara
Federal, na segunda metade da d~cada de
60, comandada por um belicoso e
ultranacionalista brigadeiro da reserva da
Aeronautica, o deputado Haroldo Veloso,
refluiu e, hoje, 6 minima.
Outros investimentos, que cresce-
ram muito, foram feitos sobretudo em par-
ceria com empresas estatais, acentuada-
mente bem dotadas pelo govemno military
para ser uma barreira national ao avango
dos alienigenas. A busca do control no-
minal das aqaes dessas empresas levou
as estatais a investor mais do que suas
parceiras estrangeiras. Estas, por~m, usu-
fruiram a larga do control de mercado
que exerciam. Imobilizaram menos capi-
tal com algo que se tornou secundirio (o
control nominal da empresa) e se bene-
ficiaram de prepos inferiores na hora de
adquirit o que produziam (especialmente
mindrios), passando para o outro lado do
balcio. Menos lucro como vendedoras e
mais como compradoras.
A Amazbnia se expandiu, passou a
ter muito mais gente, permaneceu integral-
mente parte do Brasil, os estrangeiros se
enquadraram nas normas oficiais e, ainda
assim, sofreu empobrecimento relative, por
culpa de relaqdes de troca desfavoraveis
no balango entire matbrias primas e
insumos bi~sicos que vende, aprego baixo,
e produtos finals que compra, a prego alto.
A Volkswagen, a mais famosa em-
presa alem8 teve o seu projeto agrope-
cuario aprovado em 1974, em plena era
do lema "integrar para nio entregar". O
que a colocou para fora da Amaz6nia nio
foram 6ditos nacionalistas (de cunho for-
mal ou ret6rico), mas sua incompet~ncia
no trato com a terra e as repercussdes
dos seus erros na pri~pria Alemanha. A


Nixodorf, vizinha na origem e na chega-
da, tambem arquivou sua fibrica de ca-
bos para computador e passou em frente
os 50 mil hectares que tinha na Fazenda
Aldeia, em Santana do Araguaia, rendida
a pr6pria inapet~ncia.
Foi tamb~m sob o pleno imp~rio da
doutrina de seguranga national que os
grandes grupos multinacionais do alumi-
nio estenderam seu cartel g Amaz6nia, se
apossando das grandes jazidas de bauxita,
e que osjaponeses utilizaram aregiio como
um dos eixos principals da nova base de
produ~go do aluminio, no mais bem suce-
dido process de transfer~ncia industrial
de que se tem conhecimento. Sem falar
na mina cativa de minbrio de ferro de
Carajbs e outras faganhas tio pouco com-
pativeis com os gritos de guerra nativista
dos guerreiros frios amaz6nicos.
O dado mais impressionante de tudo
foi a expansio da grea natural alterada
no period, de menos de 1% para 17% da
extensio da regido, ou 740 mil quil6me-
tros quadrados destituidos da valiosa co-
bertura vegetal original. Mata fechada e
seu mundo natural, ou pr6-colonial, inclu-
indo indios, 6 algo incompativel com a dou-
trina de seguranga national, que, nesse
aspect, realmente produziu seu maior
resultado: a radical alteraCio da paisagem
em 17% da superficie amaz~nica. A region,
por tal entendimento, ficou mais "segura".
Uma evid~ncia 16gica dos elemen-
tos basicos desse process de ocupagio
massive da Amaz6nia 6 a dilapidagio, o
empobrecimento ou o esgotamento de
volumes (e variedades) crescentes do es-
toque possivel de riquezas naturals da re-
giio. O que ainda resta 6 suficientemente
grande para justificar a importincia que a
Amaz~nia assume em qualquer analise
projetiva que se faga sobre o future do
planet, mas a cada novo ano 6 impressi-
onante a expansio do invent~rio das per-
das acumuladas.
De uma forma caricata, pode-se
concluir que, quando todas as conspira-
95es e ameagas se consumarem, nio ha-
veri muito o que aproveitar da Amaz~nia
que atualmente fascina capitalistas, cien-
tistas, sonhadores e poetas. Ela sera uma
savana ou uma floresta prim~ria igual a
outras parties do globo.
E claro que a conseqilbncia dese-
jivel dessa previsio nem 6 a de relaxar e
aproveitar as ondas de saque, nem a re-
mincia a um projeto vigorosamente naci-
onal em sua mais decisive regiio. A me-


thor coisa que se podia desejar para ela 6
sua emancipa~go. A Amaz6nia ja tem um
passado suficientemente rico e um pre-
sente satisfatoriamente maduro para en-
frentar todos os desaflos, especialmente
o da verdade.
O desaflo maior, evidentemente,
cabe ao govemno, que 6 o de regulamen-
tar e controlar as atividades humans num
espago geogra~fico extremamente comple-
xo. Mas fara pouco, e fara, na pratica,
at6 o contratrio do que sua ret6rica pro-
clama, se continuar a esquadrinhar a
Amaz6nia atrav~s de lentes geopoliticas.
A Amaz6nia e um enorme desaflo
politico, diplomatico, burocra~tico, empre-
sarial. Mas 6, acima de tudo, um desaflo
ao conhecimento. A maturidade do gover-
no sera provada pelo grau da sua capaci-
dade de desentocar os insidiosos inimigos
internacionais e seus aliados nacionais,
atraindo-os de cavemnas sotumnas para a
planicie dos fats, seja do didlogo como
do confront. Pode ter apelo emotional o
trabalho de sapadores da intelig~ncia mi-
litar, espionando ONGs, abordando-as com
tecnicas de guerra, inclusive psicol6gica.
Mas 6 de eficicia duvidosa. Tanto para a
regiio como para o pais.
HE organizaC~es nio-governamen-
tais perfeitamente legals e incompetentes.
HE as que sio completamente ilegais e
eficientes. Entre os dois pblos do espec-
tro germina um amplo leque de variaqaes.
Mas o governor nio precisa recorrer a es-
piaes nem a linguagens criptograficas para
conhec6-las combat2-las. Pode fazer seus
levantamentos atrav~s de produgio, an8-
lise e interpretaCio de informaqaes
coletiveis pela via ordindria, legal e com-
pulsdria que esta ao alcance de qualquer
governor menos suscetivel a visagens do
meio-dia. Democracia plena nio 6 incom-
pativel comn soberania national, mesmo
numa fronteira como a amaz6nica.
Isso nio quer dizer que seja possivel
expurgar da Amazi~nia toda e qualquer pira-
taria, contrabando eilicitude, ou impedir que,
de forma sbria ou c~mica, algu~m li fora
(como individuo, instituig~io ou govemo) pen-
se em enviar tropas para anexar a region a
uma potencia extema. Mas que isso se tor-
nard residual. Com o beneficio inovador de
que, a pretexto de defender a regihio, nio se
continuard a descaracterizi-la irremediavel-
mente, como vem ocorrendo ha quatro d6-
cadas, sob o rufar da doutrina de segumanga
national. Um som tiio estranho a hiltia quan-
to o grito de um Tarzan colonial.








JOURNAL PESSOAL P' QUINZENA DE SETEMBRO DE 2001 3


bela grea do Utinga-Aura? Esta e uma ques-
tio a ser discutida com seriedade. Mesmo que
se deva optar pela Agua subterrinea, espalhan-
do as estaq8es de tratamento e as fontes de
suprimento, setorizando-as, Belem ngo pode
mais deixar para depois o desafio de salvar a
tiltima floresta native da grea metropolitan.
Se isso ainda e possivel, as prefeituras
deBel~m e IAnani deua, junto com o g verts

para essa area, agindo comn rigor e vontade
para center e corrigir o avango das frentes de
ocupa~go das matas remanescentes de igap6
e varzea. O efeito indireto dessa decidida a~go
sr oosal amento od sistem hi rio muito
governor acham que sim, cabe a sociedade
forca-los a pensar diferentemente.


Olimpico
Amaro Klautau parece ter cometido um
erro na chefia da estrategica fungo de coor-
denador do program de baixadas de Bel~m:
formulou e divulgou pianos de sair candidate
a deputado estadual, aproveitando-se dos di-
videndos que o cargo lhe possibilitara. Com
motives ou sem motives, concorrentes poten-
ciais trataram de intrigar Amaro com seu super-
chefe, o governador Almir Gabriel.
O engenheiro teve que voltar a cuidar
de esporte e lazer. Onde, pelo menos, tera o
console de que competir e o que interessa.


Sa 6 de
Em sete anos de governor, cinco secre-
tirios de saude. Ja seria uma m~dia animala
para qualquer governante. Torna-se inc~moda
quando a frente do governor esti um medico.
Mas e essa a marca da administraqio Almir
Gabriel no setor no qual ele devia deixar uma
marca inquestionlvel.
As mudangas na Sespa foram quase
sempre traumaticas. A primeira delas significou
o rompimento nio s6 de uma
antiga rela~go de trabalho como de ami-
zade. Em outras, alias, o que fora a "equipe
Almir Gabriel" sofreu significativas redugbes
quantitativas e qualitativas. A ultima ocorreu
quando o titular, Eduardo Loureiro, depois de
um autintico golpe de mio na recomposi~go
do Conselho Estadual de Sauide, era tido como
prestigiado.
Sua defenestraqio evidenciou ainda
mais cristalinamente um fator fundamental para
a sobrevida de secretgrios estaduais de sauide
sob Almir Gabriel: acertar-se com a primeira
dama, a enfermeira Socorro Gabriel, uma emi-
nincia parda a perpassar por todos os escani-
nhos da secretaria. A tal ponto que um medico
observou que talvez tivesse sido melhor o ma-
rido ter indicado desde o inicio a esposa para a
Sespa, dando-lhe uma boa assessoria para po-
der comandar diretamente a secretaria.
As crises podiam deixar de ser cr~nicas
e traumaticas. Mesmo que a satide nSio viesse a
apresentar melhores indices de desempenho do
que os razo~veis ou mediocres que tem tido.


Salvar o centro

At6 o final do ano um ou mais pr~dios de
valor hist6rico ou arquiteti~nico vio desabar no
centro velho de Belem.E~a conclusion aque qual-
quer pessoa pode che-gar depois de uma cami-
nhada pela area mais antiga da cidade. A partir
dessa premissa, a pergunta associada 6 6bvia:
nada se pode fazer paraimpedi resse aparente
destiny manifesto? Aapatia geral responded em
unissono que nito.
Mas nio 6 tilo dificil reverter esse qua-
dro de ruina e decad~ncia, que se pode vislum-
brar em torno do centro commercial da capital
paraense. A prefeitura (ou, se nio ela, um vere-
ador) podia elaborar um proj eto de lei para de.
sencadear uma ofensiva nessa area. A lei obriga-
ria a administration municipal a elaborar um ca-
dastro complete dos pr~dios de valor nessa Area,
identificando os proprietarios, acondipio legal
do im~vel efazendo um rapido diagn6stico de
sua situaqio fisica.
Cada um dos dons de im6velecadastra-
do seria notificado a apresentar, num prazo ra-
zoavel (dois ou tris meses), suas intengies so-
bre a edificaptio. A lei ja teria estabelecido que,
decornido mais um tempo da notificaqlio (um
mis), o proprietirio que nito respondesse a
intimaqio seria passivel de multa em fungio da
ameaga que oimi~vel estaria representando para
o bem estar coletivo.
Os proprietirios interessados em recu-
perar obem teriam acesso auma linha de cr~dito
especial, em condiqdes favorecidas, formada a
partir de umfundo com recursos de baixo custo.
Osqcue niotivessem interesse poderiam assinar
um contrato de comodato com uma empresa mu-
nicipal, a ser eniada com o fim especifico de re-
cuperar ocentro histbrico. Aempresa receberia
o bem em comodato por tantos anos, compro-
metendo-se a recupera-lo. A partir do memento
em que alugasse o im6vel, uma parcela do rendi-
mento (20%/, talvez) seria transferida para odono.
Pode-se imaginar tantas variag~des quanto
a imagina~gio permitir. O plano s6, daria certo,
por~m, se a prefeitura fizesse a efetiva
revitalizagilo da area, trazendo de volta os mora-
dores que abandonaram ocentro porque ele se
tomou um lugar perigoso oudesinteressante. Es-
timulos seriam dados parainvestimentos em ati-
vidades de suporte aumbairro residential, como
padarias, restaurants, farmaicias, mercadinhos ou
quitandas, sobretudo no period noturno, eaum
com~rcio especializado em artesanato, produtos
regionals, roupas,1lazer, divers~io.A~noite ocen-
tro nao permaneceria mals morto, como hoje.
Enf im, uma mniciativa ampla e motivadora,
capaz de estancar essa sangria urbana desatada de
uma das parties mais bonitas evaliosas de Bel~m.


Ag ua de Bel~m

A aradoxal situa Ro de uma cidade
comn 1,2 milhio de habitantes affigida por strios
problems de abastecimento de agua potaivel,
embora cercada de agua por todos os lads
(inclusive por cima, como sempre gostam de
cehm rr does ap eiad ors ia emaray lhsas
incompet~ncia de Belem na gestio dos seus
recursos hidricos, sua insensibilidade diante
da sua localizaqio geogrifica.
Periodicamente, como agora faz de
aooOLbrl aL Idi penad prel ian t
popula~go belenense: contaminaqio das
aguas em indices alarmantes, avango da ocu-
pa~go humana nas~margens do conjunto de
lagos do complex Agua Preta-Bolonha e cres-
cente assoreamento dos reservat6rios. Ha ain-
da a polui~go do rio Guamai, cada vez mais a
fonte principal da coleta de Agua.
Uma bombastica reportagem parece
abric a possibilidade para medidas profundas
de combat ao problema, mas logo o interesse
e amortecido e as coisas voltam a ter sua apa-
rtncia de normalidade. Um novo retorno ao
mesmo assunto, porem, confirm que a situa-
Cgo segue uma tendincia de agravamento
ininterrupta. Os lagos vio se tornando meros
reservatbrios para as aguas do Guami, bom-
beadas em volumes sempre maiores para se-
rem acumuladas em greas que encurtam cons-
tantemente. Nessa progressio, havera um dia
em que a agua ira diretamente do rio para o
tratamento quimico, sem qualquer possibili-
dade de estocagem intermediaria.
O governor deveria discutir a questgo
abertamente comna sociedade e buscar as for-
mas de combat mais eficientes que existem
no mercado. E pouco provivel que um muro,
ainda mais porque concebido originalmente
em fun~go do jB agonizante projeto do prolon-
gamento da l' de Dezembro, contenha o avan-
Fo dos invasores, seja na instala~go de novas
resid~ncias em local impr6prio como atrav~s
de infiltraq~es subterrineas.
A pergunta que os mais atentos acom-
panhantes do problema se fazem 6: ha future
para os lagos como manancials de agua potivel
para Bel~m? Ainda que tecnicamente exista um
meio de preseryb-los, a solugio e econi~mica? O
poder puiblico esti em condiqBes de banca-la?
E claro que o prego tem rela~go direta
comn o beneficio. Os belenenses estio sendo
atacados por um inimigo mnsidioso: a mi qua-
lidade da agua que lhes 6 fornecida. Por um
lado ha a presenga de microorganisms e at6
de coliformes fecais numa propor~go de cau-
sar arrepio e pinico. De outro lado, ha o feroz
tratamento quimico, feito para atacar a material
orglnica e qUe traz como subproduto agents
agressivos ao organismo humane. Os ameri-
canos, que introduziram o cloro no tratamento
de agua, estio revendo o uso desse compo-
nente, associado ao incremento do checer.
Se o complex Agua Preta-Bolonha
esta condenado, a unica said seria descen-
tralizar as fontes de Agua de Belem, hoje total-
mente concentradas na castigada mas ainda







4 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE SETEMBRO DE 2001




Jader n~o 6 Dreyfuss,


nem a smprensa e santa


Ao ser pronunciado,
desde tr~s anos atras, o nome
de Jos6 Osmar Borges sem-
pre era associado ao do sena-
dor Jader Barbalho. O meio de
liga~go era o superintendent
da Sudam, Jos6 Arthur
Guedes Tourinho, colocado no
cargo por indicaqio absoluta-
mente pessoal de Jader. Foi na
era de superintendents que
ascenderam gragas a cata-
pulta do senador paraense que
Borges transfigurou-se em
campedo de pol~micos proje-
tos aprovados pela extinta Su-
perintend~ncia do Desenvolvi-
mento da Amaz6nia, laurel que
ja passou por outras cabegas
nio menos bem coroadas no
passado, quando Jader nem
chegava perto da Sudam, sem
provocar o escarc~u formado
em torno do atual "mega-
fraudador".
Um politico forte quase
sempre atrai sat61ites empre-
sariais para sua 6rbita, da
mesma maneira como empre-
sarios poderosos engendraram
seus sat61ites politicos. Os ne-
xos causals e que raramente
sgo estabelecidos. A grande imprensa
national, trazendo a reboque as institui-
95es oficiais, tem agora a possibilidade de
reconstituir os elos entire Jader Barbalho
e seus possiveis satblites, ou vice-versa.
Esta seria a grande contribuigio da midia
para a vida pdblica national.
Como jamais viu-se tanto empenho
combinado das principals publicaq8es pe-
ri6dicas do pais, mis apos m~s empenha-
das em esquadrinhar todo o territ6rio
barbalheano de poder, seria a rara opor-
tunidade de responder tanto as duividas ji
formuladas em torno dessas parcerias
espuirias como fazer novos questiona-
mentos para chegar is devidas conclu-
s~es. Nao deixando, pela primeira vez, que
restassem restos a pagar, como sempre
acabou acontecendo nas blitzkriegs con-


tra Adhemar de Barros, Orestes Quercia
ou Paulo Maluf, para ficar apenas em tr~s
not6rios exemplos, acidentalmente todos
paulistas.
Para quem sempre acompanhou
mais de perto a carreira political de Jader
Barbalho, como o cidadio m~dio paraense,
a enxurrada de mat~rias jornalisticas des-
pejada a partir de Sgo Paulo e Rio de Ja-
neiro nos uiltimos 15 meses trouxe pouca
novidade. Quase todos os casos que for-
mam essa marginalia, repetidos ad
nausam nos boxes de jornais e revistas,
slo cafe requentado.
Ngo que devam ser ignorados ou
encarados como fats normals, que nio
sho. Devem ser reexaminados e esclare-
cidos devidamente, o que s6 agora 6 pos-
sivel fazer, dado o desinteresse da grande


imprensa national pelos assuntos dessa
barbalhinalia at6 que o cacique
paraense enfrentou o babalorix8 baiano,
batendo nos calos dos jornalistas que ti-
nham em ACM uma fonte de insiders ou,
mais acima na hierarquia, que o toma-
vam como associado.
Mesmo que a origem do shibito e
fren~tico interesse da midia dominant pe-
las irregularidades do ex-governador seja
suspeita, e efetivamente o 6, nio interes-
sa: deve-se aproveitar a inusitada colabo-
raqio para submeter a teste de consis-
t~ncia todas as hist6rias associadas do ex-
ministro com suas sombras (e vice-ver-
sa), como Jose viaria da Costa Mendon-
Ca, Jair Bernardino de Souza, Construto-
ra Andrade Gutierrez, Jos6 Osmar Borges
et caterva.








JOURNAL PESSOAL. 1' QUINZENA DE SETEMBRO DE 2001 5


No entanto, quase todos ou mes-
mo todos os crimes estio prescritos. Se
estio realmente, a apuraCio tem um sen-
tido moral. Se nio est~io, que se acelerem
aqueles procedimentos em vias de cadu-
car para dar-lhes efeito praltico, tudo con-
forme as normas legals. Se o que resta 6
buscar a restituig~io do dinheiro puiblico ili-
citamente desviado, vamos aproveitar o
furor midiatico para conseguir essa faga-
nha in~dita, de que permanecem virgens
as Georginas, os Nicolaus, os Estevios,
os Calmons de Sa e outros muito mais
votados que, alias, nio apenas nio de-
volveram o que foi sacado do eiraio, como
se credenciaram a receber mais.
Os velhos escindalos do Banpara,
do governor do Park, do Mirad ou da Pre-
vid~ncia Social, todos com o selo Jader
Barbalho, admitem revises e devem ser
revistos para que as falhas do passado
sejam supridas e as inovaq6es do presen-
te possam ser acionadas. Ja as aut~nticas
novidades, constituidas pelos atos recen-
tes praticados por superintendents da
Sudam (ou a partir deles), que se abriga-
ram sob as longas asas do president li-
cenciado do Senado, estes a Procurado-
ria Geral da Repdblica e a Policia Federal
estio apurando com extrema diligincia.
Deverio ter conseqitincias mais profun-
das do que meros relates acad~micos ou
perfunct~rios. Talvez at6 criminosos perma-
negam na cadeia e dinheiro volte ao tesouro
national. Talvez.
Mas essa vasta agenda nio deve
se restringir a um acerto de contas em
tomno da presidtncia do Senado ou do
mandate de um senador que se tornou
r~probo por haver enfrentado uma besta
sagrada do sistema ou nio se ter curvado
aos ditames de uma manada sagrada de
jornalistas, seja os que mandam como os
que obedecem, transformados, para fins
de anti-Jader Barbalho, em vestals da
Repuiblica. Em tribunals de excegio.
Ei bom ler mat~rias bem apuradas,
que confirmam, ampliam ou inovam o
contencioso de acusaqaes sobre os ilici-
tos praticados por Jader Barbalho, apani-
guados, protegidos, aderentes e parents.
Mas 6 triste ver a imprensa deixar de lado
todas as normas profissionais para se
meter uma briga de rua, num vale-tudo
que se parece a rixa de marginais, numa
pelada de quintal na qual tudo o que est~i
acima do joelho de cada jogador 6 canela,
um futebol mediocre como esse que nos-
sa sele~go outrora canarinha pratica, sob


os olhares bovines de muitos jornalistas,
sempre dispostos a condescender.
Se a imprensa acha que tudo o que
ja publicou deveria ter sido o suficiente
para a destitui~go de Jader Barbalho da
presidtncia do Senado e a cassa~go do
seu mandate, devia bradar aos c~us por
providencias em candentes editorials. Mas
nilo editorializar as reportagens, como esta
sendo feito.
Outro dia, os cosmopolitas apresen-
tadores do Bom dia, Brasil, da TV Glo-
bo, desceram de sua fleugma para
anatematizar os pares do senador
paraense, que nio o cassam de pronto,
obedecendo B voz de comando do notici-
ario da emissora, cheio de pontos de ex-
clamaCges (o que teria feito a alegria de
N61son Rodrigues, indignado com a im-
parcialidade do novo jomnalismo introduzi-
do pelo Jornal do Brasil na d~cada de 50).
JB, alias, que diante da alegada ca-
radura dos senadores, relutantes em cum-
prir seu dever civico de cassar Jader, ba-
tizou logo de "ilibados" todos os senado-
res que se posicionaram contra o presi-
dente escolhido por maioria absolute no
inicio do ano, como se a assinatura do re-
p6tter tivesse a f6 do seu oficio, escrivio
ad-hoc de uma justiga privada. Jader se
transformou em marco moral da grande
imprensa, o que serve para dar uma me-
dida desse c6digo utilitairio.
Como venceu o unilateral prazo de
carancia dado pela grande imprensa para
o Senado resolver o problema, indepen-
dentemente do amplo direito de defesa e
do contradit6rio que a constitui~go fede-
ral (como, de resto, todas as normas de
direito) assegura a qualquer cidadio, a
imprensa partiu para aquele tipo de luta
desesperada que um boxeador trava quan-
do v6 a iminancia do gongo final e o ad-
vers~rio, mesmo cambaleante e machu-
cado, teima em permanecer em pC. Esse
6 o estagio da ignorincia.
E~o que esti vivendo a revista Isto6,
vitima do seu pri~prio paroxismo, o pr6, de
antes, quando Qu~rcia era aliado de Jader,
e o contra de hoje, quando os interesses
dos dois politicos de biografias similares
entraram em cheque. Flagrada em erro
indefensavel ao tratar da compra dos
castanhais de Maraba, quando Jader era
ministry da reform agrdia (uma ilegali-
dade ficil de provar, com o ofiz ha 13
anos), a revista reagiu de uma das formas
mais tristes que jb vi em 37 anos de pro-
fissio: entregando sua fonte.


Obrigada a publicar cartas que lhe
foram remetidas por duas pessoas cita-
das ou referidas indevidamente na repor-
tagem, Reginaldo Cunha, tabeliio do Car-
t6rio Condurd, e Maria Eug~nia Barros,
ex-funcionaria do Incra, a revista, sem
contestar as retificaqdes feitas por am-
bos os missivistas, retrucou que as in for-
maqdes vieram de duas fontes: "um dele-
gado da Policia Federal e Silvio Sa".
O delegado nio foi identificado, pro-
vavelmente por se ter mantido fiel B re-
vista (mas quem acompanha os fats nio
precisa fazer muito esforgo para saber de
quem se trata). Ja o nome de Silvio Sg foi
entregue por ele haver escri-to "em jomnais
locais reportagens desmentindo as infor-
maqdes por ele mesmo prestadas", abso-
lutamente falsas em rela~go ao Cart6rio
Condurd, onde trabalhara por tantos anos,
ate dois meses atris, e Maria Eug~nia, sua
amiga.
Silvio, que 6 advogado e nio jomna-
lista, escreveu um unico artigo, publicado
em um s6 journal, O Liberal. Se eram fal-
sas as informaC~es que deu em conflan-
ga a revista, com promessa de anonimato
da fonte, eram verdadeiras as considera-
95es que fez em artigo assinado. Se e
verdade o que alega, Istod tem motives
para se sentir traida e, a partir dai, romper
o compromisso verbal com a fonte.
Mas foi leviana tanto no primeiro
memento, quando deu tanta credibilidade a
uma u~nica fonte, fazendo-a refer~ncia ini-
ca para informaC~es que deviam ser che-
cadas em umsegundo lugar, quanto na triste
consumaq~io da farsa, desnudando a fonte
de confianga que se tornara subitamente
inconflavel. Um espetaculo de p~ssimo jor-
nalismo, do qual a revista nio p~de esca-
par, na insia de cassar Ja'der Barbalho de
qualquer maneira, independentemente dos
metodos jornalisticos, dos crit~rios da ver-
dade e do respeito ao leitor.
Esse exemplo deve servir de pa-
rametro para a opinilo pdblica. Jader
Barbalho deve prestar contas de todos os
seus atos e pagar pelos crimes que hou-
ver cometido, um a um, tost~io a tost~io.
Mas a instincia competent para esse jul-
gamento niio 6 a grande imprensa brasilei-
ra, que est8 se revelando tlo
desproporcionalmente tendenciosa e vicia-
da. Jader n~Lo 6 Dreyfuss, para ter direito is
reclamaq~es de injustigamento que tem fei-
to, mas a imprensa bem que estii a merecer
um E~mile Zola. Jg tardio e ainda nio
visualiziivel no horizonte.








6 JOURNAL PESSOAL 0QUINZENA DE SETEMBRO DE 2001


Cartas

Anivershrio

Jos6 Carneiro e Edineide Coelho
nio deixaram passar nas chamadas bran-
cas nuvens o 14" aniversario do Jornal
Pessoal. Sou-lhes grato pelas generosas
palavras de estimulo. Sempre contei com
o apoio desses leitores, ao mesmo tempo
fi~is, atentos e critics, sem os quais fa-
zer jornalismo independent, nos nossos
dias de adesho ao poder e a projetos ape-
nas individuals, seria ainda mais duro. Mas
a voz da maioria silenciosa tamb~m pre-
cisa ser levada em consideraqio. Mesmo
um empreendimento minimo como este
precise do seu ponto de equilibrio, que esti
cada vez mais dificil de alcangar.
Como meus mais cars leitores,
espero que este journal prossiga. O mes-
mo, infelizmente, nio podera acontecer
com a Agenda Amaz6nica. Pretendo, no
pri~ximo mas, tirar seu uiltimo niumero, exa-
tamente quando a publica~go iniciava seu
terceiro ano de vida. Para cB deverio vir
as seqbes fixas que saiam na Agenda, se
para tanto houver espago. Aumentar as
paginas do JP exigiria tambem elevar seu
prego, que se mant~m o mesmo hi quase
sete anos, em praticamente metade da
existincia deste jornal. O exemplar fica-
nia carol, como se quelxam alguns leitores,
desatentos para a rela~go entire indepen-
dancia editorial e venda avulsa numa pu-
blicaqio que optou por rejeitar a publici-
dade, principal fonte de faturamento numa
publica~go conventional, para nho dimi-
nuir em um milimetro o grau da sua auto-
nomia.
Assim, vamos resistindo come C
possivel, reinventando o bom combat
quando ele ameaga se tornar vil, recor-
rendo i imaginaqio quando a realidade se
torna dura demais. At6 quando? At6 o
tiltimo dia.

O que deve dizer um leitor assi-
duo do JP, nestes 14 anos decorridos?
Sou suspeito para falar, pela amizade
de bancos escolares e pela admirag'o
ao grande jornalista em que te tornas-
te. Mas ndo posso ficar calado diante
do fato histdrico que b a manuteng'o
desse inedito journal entire nds. Conti-
nuo vibrando com a seriedade do que
escreves e torcendo para que consigas
manter a forga e o entusiasmo neces-
sdrios ai sobrevivancia do journal. Meus


leitora ate hoje.Conhecer seu trabalho
tem me feito olhar para a Amazdnia com
mais compromisso e desejo de transfor-
magao.
O Jornal Pessoal e seu trabalho
como um todo s sdo uma verdadeira
fonte de pesquisa acadimica, em todos
os niveis. Nrao se pode escrever sobre
a Amazdnia sem passar por seus arti-
gos, livros e palestras transcritas. Vocd
e um profissional que tem a grandeza
amazdnica. Certamente podia estar
morando nas maiores e melhores me-
tropoles do planet, mas vocd e impres-
cindivel para a nossa regido.
Parabins, Luicio, por sua forga.
Continue resistindo firmemente, para
que ndo flquem em branco as paiginas
que a verdade dos fats exige que se-
jam escritas.
Edineide Coelho

Beatriz

No numero 263 do Jornal Pesso-
al escrevi um artigo sobre o impact que
me causou o desmoronamento de um ve-
lho casario do Largo da Trindade, de gran-
de valor sentimental (al~m de sua impor-
tincia como testemunho arquitet6nico da
cidade). Motivada por esse artigo,
Roberta Chiari Ferreira de Souza, a
prima de Beatriz, a principal personagem
do artigo, escreveu a carta abaixo, que
amplia e aprofunda a reminisc~ncia de
6poca. Seu belo texto fez o computador,
em sua obtusidade digital, grifar de ver-
melho palavras completamente estranhas
g sua membria utilitiria, como eletrola,
bom-bocado e Mosqueiro. Sinal de que
ainda nio entramos no universe da rede,
cabendo-nos, ate como ato de defesa,
avivar a lembranga das coisas especifi-
cas do nosso mundo, que o Big Brother
quer engolir.
A carta de Roberta:

Lucio Fldivio:
Sou prima de Beatriz, minha md~e
e a dela sdio irma~s, filhas de Abel
Miranda, que morava no casard2o do
Largo da Trindade (que em verdade
pertencia ao Dr. Adriano Guimard~es,
de quem meu av6 foi locatdirio por 23
anos e amigo a vida inteira).
Somente no uiltimo domingo de
julho, ao voltar de frias, li a matbria
sobre a casa em que moramos, e on-
tem, ao passar pela Rua Gama Abreu,


filhos e netos e toda a geragdo que
vai nos seguir hdo de agradecer: Nos
264 exemplares destes 14 anos (alguns
verdadeiramente antologicos, aulas de
jornalismo e redagd'o) a Amazdnia esta
bem registrada, como nunca esteve em
journal nenhum. E so isso jai justificou
a existincia do Jornal Pessoal. Meu
. abrago solidairio na tua destemida luta.
JosC Carneiro

Para uns, personalista. Para ou-
tros, radical ou pessimista. Mas como
ele incomoda!
Nesses 14 anos de informag'o
qualitativa, o Jornal Pessoal tem sido
alvo de pesadas critics, vindas dos
muitos que se sentiram atingidos em
seus interesses. Sem falar nos mais
inconformados, que ignoram o direito
de resposta (disponivel constantemente
e sem restrigdes neste journal) e recor-
rem de pronto a justiga, agarrando-se
comn unhas e dentes na famigerada lei
de imprensa, com o uinico e obsessive
propdsito de silenciar a verdade.
Lucio, se o impact causado por
seu journal se resumisse a isso, que n'o
h pouca coisa, voc& ja seria merece-
dor de todo o meu reconhecimento e
admiragdo, mas b muito mais. Voc# pra-
tica um jornalismo digno, resistente e
corajoso. Vocb escreve com seus valo-
res e suas emogdes. Isso tudo sdoe ca-
racteristicas marcantes de sua atuagio
profissional. Embora o prego desse
exemplo de profissionalismo lhe esteja
sendo muito carol, voc& tem consegui-
do nadar contra a corrente da medi-
ocridade da grande imprensa brasileira.
Aldbm disso, voc& t um
interlocutor arguto, inteligente e cons-
ciente do papel social do jornalista.
Seu texto tem um espirito vivo, inventive
e sutil, que leva seus leitores por ca-
minhos que vado desde o jornalismo
factual, muitas vezes antevendo e se
antecipando aos fats, atb a literatu-
ra e a poesia. Voc& realmente desen-
v~olve um trabalho de qualidade e de
imenso valor.
Repbrter-jornalista-escritor,
considero voc& um profissional com-
pleto. Acompanho seu trabalho desde
1987, conhego o Jornal Pessoal quan-
do ele foi criado e sou leitora assidua
desde 1992. E stio sua inquietagdo, in-
dignagdio, capacidade de luta e de re-
ntincia que me tim mantido como sua








JORNAL PESSOAL I QUINZENA DE SETEMBRO DE 201 7


Tambdm passamos bons momen- madrinha Held, as visits semanais,
tos na casa do Mosqueiro e na da Gen- como as Dd~ris (Franco e Conceigdio)
til, ambas do pai de Beatriz, mas nada ds tergas e a Maria Rocha aos domin-
igual & casa do vov6 Abel, ath o cheiro gos depois da missa. Taio important foi
era diferente. Sinto muito por minhas essa epoca que ate hoje, quando nos
filhas nd'o terem conhecido a casa por reunimos essas lembrangas sd'o motive
dentro, e nem terem iddia de como era de horas de conversas e de muitas gar-
bom morar num lugar assim, cheio de galhadas, inclusive por conta das fu-
coisas antigas e pitorescas. Mas o me- gas da Bia e outras historias.
thor de tudo, eram as pessoas que ha- Agradego-lhe, em meu nome e no
bitavam e freqiientavam aquela casa: de nossa familiar, pela referdncia d casa
meu ava, minha tia-avd~, minha tia e e a parte de nossa vida na pessoa da Bia.


levei um susto ao ver o buraco que la
ficou. Na~o tenho muita certeza quanto
ao valor histdrico-arquitetanico do prd-
dio, mas o valor sentimental para toda
nossa familiar b imenso. Para mim, em
especial, 4 talvez a melhor lembranga
da minha infancia.
Meus pais e eu moramos na casa
da Trindade por quase trds anos, logo
que viemos de mudanga da Argentina
(pais onde nasci) ati a construpd'o da
nossa.
A casa era imensa, d direita da
entrada ficavam a biblioteca e o quar-
to de meu avd, h esquerda as duas sa-
las de visits, separadas apenas por
grandes arcos. A sala de jantar ocu-
pava toda a largura da casa e era de
assoalho feito de longas tdibuas de
sucupira e pau amarelo, que rangiam
quando caminhdvamos por ele. Esse
assoalho era encerado d moda antiga,
pela Raimunda, que primeiro raspava,
depois passava cera e por uiltimo pas-
sava o escovdo, para dar brilho. Vocd
sabe o peso desse escovdo? Faz mais
efeito que qualquer sessdo de
musculagdio... A seguir, se dividia em
duas alas, a esquerda os dois quartos
e ao final do corredor o banheiro ed c
direita, a copa, o quarto das emprega-
das e a cozinha. No meio ficava o jar-
dim e ao fundo o quintal.
Algumas coisas me encantavam
na casa de meu av8, a comegar pela
cordinha amarrada ao trinco da porta
e presa ri parede, para evitar o sobe e
desce de degraus toda vez que algudm
chegava ou saia. O sabonete de bola
pendurado sobre as pias do banheiro
e da copa. O chuveiro que abria e fe-
chava por duas pequenas correntes. A
eletrola em que meu av6 ouvia operas,
sentado numa poltrona da sala de visi-
tas com os pis sobre uma banquet. A
bica no canto do jardim, que me ren-
deu bons banhos em dias de chuva. Os
sabids que meu av8 tinha e que canta-
vam tdo0 alto que o Padre Miguel dizia
ouvir da Igreja. O bastidor onde T.
Gracinda bordava coisas maravilhosas
e que me parecia said de um conto de
fadas. As festas eram um capitulo d
parte. Dias de preparativos, pois tudo
era feito em casa, da comida aos pa-
pdis em que se enrolava os bom-boca-
dos. Tirar as lougas, passar as toalhas,
trazer as plants do quintal para colo-
car nos vasos...


O Ministerio Publico bem que po-
dia ajudar a colocar em pratos limpos toda
a celeuma em torno da Alga Viaria. O
governo diz que a obra, a mais important
a ser inaugurada at6 o final da adminis-
traqio Almir Gabriel, com evidentes divi-
dendos, a serem cobrados no period elei-
toral, esti sendo vitima de boicote por dois
grupos que por ela ser~io prejudicados, os
dons de balsas e os praticos da barra, e
por seus adversarios politicos.
Esses tr~s personagens teriam cri-
ado, propagado e utilizado como instru-
mento de manobras virios arguments
contra a ponte sobre o rio Guama, a obra
de arte mais important do Sistema Inte-
grado do Leste do ParB, permitindo a li-
gagio entire Bel~m e o seu future porto,
em Vila do Conde, conectando-os com o
sul do Estado. Alguns dos arguments
apareceram durante as audiencias publi-
cas para o licenciamento ambiental da
obra, cujo impact ecol6gico nio estaria
sendo bem avaliado. Outros surgiram du-
rante o inicio da constru~go, quando foi
questionada a altura da ponte, de 23 metros,
abaixo do gabarito conventional, de 26
metros, criando assim restriqaes a nave-
ga~go.
A discussgo t~cnica dessas ques-
ties esta sendo prejudicada por interfe-
rtncias political e um pesado jogo de
presses. Talvez nio muito seguro do seu
poder de convencimento, o governor, al~m
de patrocinar uma maciga campanha de
propaganda, resolve atacar os opositores
da obra. A esse papel se tem prestado o
lider situacionista na Assembl~ia
Legislative. A cada reavivamento da po-
lImica, o deputado Mario Couto reage
com a ameaga de uma CPI sobre as irre-
gularidades na praticagem da barra.


A esse tipo de attitude da-se a de-
nominaqio tecnica de chantagem. Se o
parlamentar sabe de irregularidades,
ilicitudes, imoralidades ou ilegitimidades na
utilizaqio de praticos em navios que de-
mandam o porto de Belem, devia denun-
ciar os fats e indicios de forma clara e
proper a CPI independentemente dos ru-
mos da Alga Viaria. O mesmo se aplica
ao transport por balsas a partir de Bel~m
(alias, sob a jurisdi~go de uma ag~ncia es-
tadual, a Arcon). Esse negocio de falar
ou calar conforme as conveni~ncias, se-
guindo os movimentos do jogo de pres-
sdes, tem coer~ncia com certo tipo de pra-
tica political. Ngo com o interesse publico.
Os praticos da barra sho is vezes
acusados de cobrar demasiado por seus
servigos. HE quem sustente que seu pa-
pel se tornou ocioso com os mais moder-
nos instruments de navegagio. Ou que
estio condenados a desaparecer se os
navios de maior calado passarem a anco-
rar em Vila do Conde e nio mais em
Bel~m, o que os leva a boicotar o projeto
da Alga ViBria. Do lado de la tamb~m se
diz que os navios de maior tonelagem, dis-
pensando priticos locals, estio livres para
poluir as Aguas da baia (ou das baias do
estudrio) e prejudicar a pesca, o que jB
estariam fazendo.
Ha, portanto, suspeitas e acusaqaes
em demasia para poucas e precarias con-
clusdes. Arma-se a oportunidade para o
MP juntar todos os personagens no mes-
mo cendrio e arrancar deles os fats,
rastreando o interesse pfiblico em toda
essa co-ntrov~rsia. Dessa maneira com-
batendo as ervas daninhas, que se apro-
veitam de lacunas e retictncias para tirar
proveito de uma causa so aparentemente
ligada ao bem coletivo.


P rova d os nove












































































JomalPessoal c .,
Edllor: Luao Flave Pimo* Fenus: (0951 223-7690.2624 26148& a27ILZ Comatfo. Tv Benaemvn Constant.845t203r6053-0- MHal: oratmzrfdp P~ouo *ngqiia PinM dbAl: aogdfraal


Era proibido ler Jorge Amado quando
seu primeimo livro chegou as minhas milos, em
tomo de 1960. Era precise encapar o volume
para ivni-lo do olho censor dos pais. A mesmna
coisa que fizcam OAmantede Lady~ Chaltedey
de D. H. Lawrence, osmanulasdal~mi de ntmi o
doutor Fritz Kahn e os folhetos de Carlos
Zefiro. Mlenmnos de 1 1 para 12 anos linham
delirios comn esse material, espirituais e manu-
ais. Nito era s6 a lubricidade e a visualizaglo do
corpo, com e sem pecado, o que essas publica-
Cies nos razjam: nocasode Amado,arum Bra-
sil velado pelas elites, que nossal solidariedade
moaqba eia alcangar, urm pis mesigo, sublami-
neo, de fascinio inreprimivel pa~que perigoso.
Ngo e de surpreender que tenhamos
vivido essa liteiura e alravbs dela nos liberta-
do de algumas das interdiqdes sociais.
Reconstitui w;irias vezes o ritual de flores
pubianas de Lady Charterley em seu cottage,
emoldurada par campinulas e miosi~tis, enuanuto
ia confeir as coisas nas estampas do lIvro do
doutor Fritz.Pe~ronri desbragadrnamete as vie-
las e becos da cidade da Balhia, como Salvador
ema tmtada nos bons livros de Jorge Amado, e
pude estar ao lado dos trbalhadores da lavoura
cacaueira do litor al baiano, partilhando sua li-
bertaqio, que principiava pela epidenne, fonna
sensual e prazesa se escapar no jugo do quase
senhor feudal.
O usufruto dessas coisas pmoibidas aca-
bava ocorrndo na vizinba mansio de L adislau
& Babai~deAlzir& Annamaria Bar~osa Rodri-
gues, sob o aroma das flores do jardim e a luz
derramada pela lua athdves das janelas abertas
a madmugada inteira, enqurioanocnversivamos
e ouviamos mlisica, clissica de prefert~ncia.
Nesse ambiente li o livro de Jorge Amado que
mais apreciei, Os vlelhos marinheiros,
motivador das minhas lilltimas tentiliais litenii-
rias soble o autor. Parecia que ele ia se ivmr de
vez do realismo socialist, Anna a paradoxal-
mente bitolar sua alma popular, mas acabou
descobrindo n founula do exotismo de expor-
OFio, que oconsagraria.Ainda fu ial Gabriela,
amv~eamela, sem chegar ao fmdo livro. Tudo
ja parecia igual, estandardizado para turista e
compmdor. Como a proipria Babia.
Jorge Amado foi contemnporineo de
multo escritormelbor do que eleno Bra~sil, mas
'sem umiiti mo do seu sulcessoo inquestionzivel.
. ':


Nem sempre a consagr~ago popular (ou de mer-
cado) esta conjugads com q ualidade liteniria'
uma nho 6 a exata tradugho da outra. Pesson
como eu lemam Jorge Amado com proveito e
at com paixio, m as qiase se srempre o e-
teza de estarem diarge de um escritor menor,
um grande escritor m~enor, para usar o velbo
conceito.
Tanroem fina do contexto socialque
fazia dos romances um canal de passage pm
o proibido, quantlo da qualidade intrinseca do
textrocomo narrative, como uma magnifica
recontl~i-tuigio de hist~ias de todas as gentes,
Jog$e Amadotev~e tend valor autntico,ono e-
nos ath alcomodar sua criatividade na bitola da
firmula renlavel a partirde Gabriela. Milhasres
de pessoas devem ter septido sua morte como
eu asenti: umfalo que maviva opassado, ilumi-
nanodo um pouco da nossa trajetoria. Porque foi
nosso companheiro de viagem e gula de certos

Deve ter alguni.valor simbo~lico a prr-
tensdo de Paulo Coelho de ser o successor de
Jorge Amado. Em taens quantitatives,de ven-
dagem de livro, ath o supemou. O sucesso do
mago postigo, contudo, tem context diverse
dos anos 30, quando Jorge comnegou sua can-ei-
racom OPais do Carnasal, e das duas dci~a-
das seguintes em que sua obra leve vigo e vi-
gor: a alq uimia ndlo 6 um produlo de Paulo
Coe~lo; no contrdrio, ele 6 que 6 o pmoduto da
alquimia da sua epoca.
Uma piLnda de charlatanismo, outra de
c~pia, mais uma de oportunismo, audicia pard
aniscar, combinada com uma 6poca em que se
buscacompensar odominio tecnol~gico do ra
zio com os f luidos de mistbrio imanentes ao
serhumano, e tem-se umia f~acil explicopio para
o riufo desse sub-naHermnHsse sobre pa
quem niio leu Hesse (a vantagemde Coelho, na
nossa epoca de inculturra, e que nio se precisa
ser leitor pams 16-lo).
Eu dgo in escrever sobre a morte de
Jorge Amado, dissecado por todos as veiculos
de imprensa. Mas coiod seu antigo leitor, vi-
vente esoblevivente ~d~sues pdginas emotives,
achei qu ele merecia como Quincas Baero
D'Aigua, umna morte me~lbor assinalada do que
ser revezedo por nosso Paulo Coelbo, on me-
recer-lhe o necrol~gio. Mais respeito com o
mallo,cam~aradinba. 4; i


Os bicudos


Quando bicudos de palet6, e gmavata brigam
quem perde e o povo. Invariavelmente, quem tam-
b~m paga a conta.
Os bicudos da Rede-Celpa estabeleceram
unilateralmente um plano de reduio da iluminaCio
pliblica em Bel~m pam chegar a uma poupanga de
consumo de 35% ecomegaram aexecutah-lo. Ja os
bicudos municipals reagiram dizendo que a capital
paraense nio se enquadrani nas normas impostas
pelo comity national de macionamento, indo als bar-
ras da justiga para sustentar esse desaflo-e estio
perdendo, como, aliars, eraprevisivel.
A intolerincia mutua deve resultar da pre-
sunglo de que por tras de um como de outro ha o
inimigo. A prefeitura deve ver o govemo tucano
manobrando a concessionaia de energia, enquanto
a administration estadual pode ter encontrado neste
memento a forma de desgastar o comando do pre-
feito petista, que parecejulgar-se capaz de isolar
Belem do restante do territ6rio brasileiro (quem
sabe, numa aplicaqio empiricista da teoria do
foquismo).
Do que a opinion puiblica precisa e de uma
regulaCgio das decisies porpress~io e contrapless~io,
com uma instincia recutsal capaz de expurgar inte-
resses particulares no resguardo do superior inte-
resse purblico. O apagio veio como mand dos cdus
para as empresas de energia, que gastariio menos e
poderio faturar mais, com tarifas reajustadas bem
acima da inflaCio. Abre-se ainda pamaelas um cam-
po de arbitrio excepcional em fu~ngao do estado de
emerg~ncia declarado, a partir de um questionivel
diagn6stico da crise de energia.
Essas concessionarias privatizadas (e mal
privatizadas, como esti~ cada vez mais claro) tbm
que encontrar uma barreira no poder puiblico, mas
na~o uma baragem intransigente evoluntariosa.A
aC~es tim que ser acertadas na mesa de negociaFgio
com a presenga de umarbfitro, que existe (6 a Aneel),
mas cuja presenga parece ser metafisica, um mos-
quito administraindo uma aguia.
As pessoas estiio se sentindo lesadas na sua
dimenio de cidadis e de consurmidoras. Mas gestos
insensatos, comoa invasiio das iastalaC~es daRede-
Celpa, sho condenaveis: da just indignaqio, eles
extrapolam para o vandalism e o terror. A reagio
tem que ocorrer no imbito da sociedade civil e das
regras democraiticas, indo aos limits extremes da
legalidade, at6 que eles sejam revistos e reescritos.
Infelizmente, entire ni~so que tem faltado 6
a qualify icaptio dos atores, que preferem o confront
intolerante, porque baseado na presungli unilate-
ral de justeza, do que a controversial aberta como
element de convencimento e persuasilo.


Respeito ao morto