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I SECRETOICONuFIDENCIAL I COu as ferramentas dessa guer- ra silenciosa, n~io-declarada. Mas alguns dos seus componen- tes continuam os mesmos: pi- rataria, contrabando, manipula- gio fiscal e compra de consci- incia ou mio-de-obra. Numa area de cinco mi- lhdes de quil6metros quadrados, ocupados por 17 milh~es de pes- soas, ha, de fato, muitas dessas situaqies. Mas elas seriam o element dominant? Eventuais conspiragdes e contumazes ilicitudes chegam ao nivel de poderem representar uma efe- tiva ameaga ao control do Bra- sil sobre essa parcela maior do seu vasto territbrio? Quanto mais perguntas se fizerem e mais respostas fo- rem dadas seguindo um vi~s conspirador, numa linguagem cifrada, mais o component da doutrina de seguranga national se fortalecerai. Mais a Amaz6- nia serai interpretada por crit6- rios geopoliticos, engendradores de racio- cinio por analise indireta e linhas pontilha- das, e menos a luz dos fats, da ci~ncia. Ha quatro d~cadas essa ameaga latente de usurpa~go do territ6rio amaz6- nico ao control national legitimou a ex- pansio de ferozes frentes econbmicas, estimuladas pelo regime military a integrar manu military a Amazinia para nio entrega-la ao cobigoso agent internacio- nal. Todos os erros que se cometessem para incrementar exponencialmente a po- missionairios armados de contadores Geiger disfargados, que se instalavam em aldeias indigenas isoladas e li instalavam suas bases avangadas atra~s de minerals estrat~gicos. Hoje, sho as ONGs, as or- ganizaqdes nio-governamentais, voltadas principalmente para o meio ambiente e as populagdes indigenas. A tecnologia, com seus potentes sat61ites de information em 6rbita da Ter- ra e GPS operando no solo para usufruir dessa sofisticada base de dados, modifi- .9 c, A visio official da Ama- z6nia contmnua sujeita a doutrna de seguranga national. Para ela, nio importa que ha mais de 16 anos o pais se tenha redemo- cratizado completamente, vi- vendo na absolute normalidade institutional. Com 60% do ter- rit6rio national, uma baixa densidade demografica, extensa fronteira international, fraca presenga governmental e riquezas naturals ainda desco- nhecidas, mas cujo estoque 6 considerado potencialmente valioso, a Amaz~nia permanece sujeita g cobiga mternacionall A soberania national em seus domimios contmnua a ser considerada limitada por essa perspective geopolitica. Cabe ao governor consolida-la. Mas para isso precisarb enfrentar forgas adversas, interessadas nio ape- nas em manter essa limitaCio, mas em restringi-la ainda mais- Albm de cumprir sua missio his- t6rica de grandeza na gestio da maior fronteira de recursos naturals do planet, com 20% da agua de todos os rios, um tergo das florestas tropicais e a maior das diversidades de vida animal e vegetal que se conhece, o Estado brasileiro tem que enfrentar poderosos inimigos de alem-mar. Esses advers~rios s~o perigosos porque nio combatem g luz do sol, expos- tos publicamente. Eles se valem de me- canismos insidiosos. D~cadas atris, a ima- gem simb61ica dessa sol~rcia eram falsos 01713l PeSSOa LU C O F LAVIO PIN TO ANO XIV N' 266 1L OUINZENA DE SETEMBRO- DE 2001 RS 2 d'~f INTERNACIONALIZACAO Ameaga 6 real? A soberania brasileira na Amazdnia estai agora ameagada pelas ONGs. E o que garante a doutrina de seguranga national, ainda a matriz da visd~o oficial sobre a regidio. NdZo serai possivel assegurar uma Amazdnia brasileira sem teorias conspirativas. Uma Amazdnia plenamente democraitica? 2 JOURNAL PESSOAL P QINZEA TENA ODE STEBR D 20 pula~go local, via fluxos migratbrios, e adensar a malha de atividades produtivas, caudatarias dos pesados investimentos estatais em infraestrutura (ironicamente sustentado em endividamento extemno, que engordou ainda mais os banqueiros inter- nacionais), seriam legitimados pela preser- va~go da maior reserve de riquezas com que conta o Brasil para, finalmente, sair da faixa dos paises subdesenvolvidos, em desenvolvimento ou emergentes, atraves- sando para o lado das poucas grandes pottncias mundiais. Desde entio a presenga territorial estrangeira na regiio diminuiu. A partici- pagio international no capital fundiario regional, por exemplo, que havia provo- cado a instalaeio de uma CPI na Cimara Federal, na segunda metade da d~cada de 60, comandada por um belicoso e ultranacionalista brigadeiro da reserva da Aeronautica, o deputado Haroldo Veloso, refluiu e, hoje, 6 minima. Outros investimentos, que cresce- ram muito, foram feitos sobretudo em par- ceria com empresas estatais, acentuada- mente bem dotadas pelo govemno military para ser uma barreira national ao avango dos alienigenas. A busca do control no- minal das aqaes dessas empresas levou as estatais a investor mais do que suas parceiras estrangeiras. Estas, por~m, usu- fruiram a larga do control de mercado que exerciam. Imobilizaram menos capi- tal com algo que se tornou secundirio (o control nominal da empresa) e se bene- ficiaram de prepos inferiores na hora de adquirit o que produziam (especialmente mindrios), passando para o outro lado do balcio. Menos lucro como vendedoras e mais como compradoras. A Amazbnia se expandiu, passou a ter muito mais gente, permaneceu integral- mente parte do Brasil, os estrangeiros se enquadraram nas normas oficiais e, ainda assim, sofreu empobrecimento relative, por culpa de relaqdes de troca desfavoraveis no balango entire matbrias primas e insumos bi~sicos que vende, aprego baixo, e produtos finals que compra, a prego alto. A Volkswagen, a mais famosa em- presa alem8 teve o seu projeto agrope- cuario aprovado em 1974, em plena era do lema "integrar para nio entregar". O que a colocou para fora da Amaz6nia nio foram 6ditos nacionalistas (de cunho for- mal ou ret6rico), mas sua incompet~ncia no trato com a terra e as repercussdes dos seus erros na pri~pria Alemanha. A Nixodorf, vizinha na origem e na chega- da, tambem arquivou sua fibrica de ca- bos para computador e passou em frente os 50 mil hectares que tinha na Fazenda Aldeia, em Santana do Araguaia, rendida a pr6pria inapet~ncia. Foi tamb~m sob o pleno imp~rio da doutrina de seguranga national que os grandes grupos multinacionais do alumi- nio estenderam seu cartel g Amaz6nia, se apossando das grandes jazidas de bauxita, e que osjaponeses utilizaram aregiio como um dos eixos principals da nova base de produ~go do aluminio, no mais bem suce- dido process de transfer~ncia industrial de que se tem conhecimento. Sem falar na mina cativa de minbrio de ferro de Carajbs e outras faganhas tio pouco com- pativeis com os gritos de guerra nativista dos guerreiros frios amaz6nicos. O dado mais impressionante de tudo foi a expansio da grea natural alterada no period, de menos de 1% para 17% da extensio da regido, ou 740 mil quil6me- tros quadrados destituidos da valiosa co- bertura vegetal original. Mata fechada e seu mundo natural, ou pr6-colonial, inclu- indo indios, 6 algo incompativel com a dou- trina de seguranga national, que, nesse aspect, realmente produziu seu maior resultado: a radical alteraCio da paisagem em 17% da superficie amaz~nica. A region, por tal entendimento, ficou mais "segura". Uma evid~ncia 16gica dos elemen- tos basicos desse process de ocupagio massive da Amaz6nia 6 a dilapidagio, o empobrecimento ou o esgotamento de volumes (e variedades) crescentes do es- toque possivel de riquezas naturals da re- giio. O que ainda resta 6 suficientemente grande para justificar a importincia que a Amaz~nia assume em qualquer analise projetiva que se faga sobre o future do planet, mas a cada novo ano 6 impressi- onante a expansio do invent~rio das per- das acumuladas. De uma forma caricata, pode-se concluir que, quando todas as conspira- 95es e ameagas se consumarem, nio ha- veri muito o que aproveitar da Amaz~nia que atualmente fascina capitalistas, cien- tistas, sonhadores e poetas. Ela sera uma savana ou uma floresta prim~ria igual a outras parties do globo. E claro que a conseqilbncia dese- jivel dessa previsio nem 6 a de relaxar e aproveitar as ondas de saque, nem a re- mincia a um projeto vigorosamente naci- onal em sua mais decisive regiio. A me- thor coisa que se podia desejar para ela 6 sua emancipa~go. A Amaz6nia ja tem um passado suficientemente rico e um pre- sente satisfatoriamente maduro para en- frentar todos os desaflos, especialmente o da verdade. O desaflo maior, evidentemente, cabe ao govemno, que 6 o de regulamen- tar e controlar as atividades humans num espago geogra~fico extremamente comple- xo. Mas fara pouco, e fara, na pratica, at6 o contratrio do que sua ret6rica pro- clama, se continuar a esquadrinhar a Amaz6nia atrav~s de lentes geopoliticas. A Amaz6nia e um enorme desaflo politico, diplomatico, burocra~tico, empre- sarial. Mas 6, acima de tudo, um desaflo ao conhecimento. A maturidade do gover- no sera provada pelo grau da sua capaci- dade de desentocar os insidiosos inimigos internacionais e seus aliados nacionais, atraindo-os de cavemnas sotumnas para a planicie dos fats, seja do didlogo como do confront. Pode ter apelo emotional o trabalho de sapadores da intelig~ncia mi- litar, espionando ONGs, abordando-as com tecnicas de guerra, inclusive psicol6gica. Mas 6 de eficicia duvidosa. Tanto para a regiio como para o pais. HE organizaC~es nio-governamen- tais perfeitamente legals e incompetentes. HE as que sio completamente ilegais e eficientes. Entre os dois pblos do espec- tro germina um amplo leque de variaqaes. Mas o governor nio precisa recorrer a es- piaes nem a linguagens criptograficas para conhec6-las combat2-las. Pode fazer seus levantamentos atrav~s de produgio, an8- lise e interpretaCio de informaqaes coletiveis pela via ordindria, legal e com- pulsdria que esta ao alcance de qualquer governor menos suscetivel a visagens do meio-dia. Democracia plena nio 6 incom- pativel comn soberania national, mesmo numa fronteira como a amaz6nica. Isso nio quer dizer que seja possivel expurgar da Amazi~nia toda e qualquer pira- taria, contrabando eilicitude, ou impedir que, de forma sbria ou c~mica, algu~m li fora (como individuo, instituig~io ou govemo) pen- se em enviar tropas para anexar a region a uma potencia extema. Mas que isso se tor- nard residual. Com o beneficio inovador de que, a pretexto de defender a regihio, nio se continuard a descaracterizi-la irremediavel- mente, como vem ocorrendo ha quatro d6- cadas, sob o rufar da doutrina de segumanga national. Um som tiio estranho a hiltia quan- to o grito de um Tarzan colonial. JOURNAL PESSOAL P' QUINZENA DE SETEMBRO DE 2001 3 bela grea do Utinga-Aura? Esta e uma ques- tio a ser discutida com seriedade. Mesmo que se deva optar pela Agua subterrinea, espalhan- do as estaq8es de tratamento e as fontes de suprimento, setorizando-as, Belem ngo pode mais deixar para depois o desafio de salvar a tiltima floresta native da grea metropolitan. Se isso ainda e possivel, as prefeituras deBel~m e IAnani deua, junto com o g verts para essa area, agindo comn rigor e vontade para center e corrigir o avango das frentes de ocupa~go das matas remanescentes de igap6 e varzea. O efeito indireto dessa decidida a~go sr oosal amento od sistem hi rio muito governor acham que sim, cabe a sociedade forca-los a pensar diferentemente. Olimpico Amaro Klautau parece ter cometido um erro na chefia da estrategica fungo de coor- denador do program de baixadas de Bel~m: formulou e divulgou pianos de sair candidate a deputado estadual, aproveitando-se dos di- videndos que o cargo lhe possibilitara. Com motives ou sem motives, concorrentes poten- ciais trataram de intrigar Amaro com seu super- chefe, o governador Almir Gabriel. O engenheiro teve que voltar a cuidar de esporte e lazer. Onde, pelo menos, tera o console de que competir e o que interessa. Sa 6 de Em sete anos de governor, cinco secre- tirios de saude. Ja seria uma m~dia animala para qualquer governante. Torna-se inc~moda quando a frente do governor esti um medico. Mas e essa a marca da administraqio Almir Gabriel no setor no qual ele devia deixar uma marca inquestionlvel. As mudangas na Sespa foram quase sempre traumaticas. A primeira delas significou o rompimento nio s6 de uma antiga rela~go de trabalho como de ami- zade. Em outras, alias, o que fora a "equipe Almir Gabriel" sofreu significativas redugbes quantitativas e qualitativas. A ultima ocorreu quando o titular, Eduardo Loureiro, depois de um autintico golpe de mio na recomposi~go do Conselho Estadual de Sauide, era tido como prestigiado. Sua defenestraqio evidenciou ainda mais cristalinamente um fator fundamental para a sobrevida de secretgrios estaduais de sauide sob Almir Gabriel: acertar-se com a primeira dama, a enfermeira Socorro Gabriel, uma emi- nincia parda a perpassar por todos os escani- nhos da secretaria. A tal ponto que um medico observou que talvez tivesse sido melhor o ma- rido ter indicado desde o inicio a esposa para a Sespa, dando-lhe uma boa assessoria para po- der comandar diretamente a secretaria. As crises podiam deixar de ser cr~nicas e traumaticas. Mesmo que a satide nSio viesse a apresentar melhores indices de desempenho do que os razo~veis ou mediocres que tem tido. Salvar o centro At6 o final do ano um ou mais pr~dios de valor hist6rico ou arquiteti~nico vio desabar no centro velho de Belem.E~a conclusion aque qual- quer pessoa pode che-gar depois de uma cami- nhada pela area mais antiga da cidade. A partir dessa premissa, a pergunta associada 6 6bvia: nada se pode fazer paraimpedi resse aparente destiny manifesto? Aapatia geral responded em unissono que nito. Mas nio 6 tilo dificil reverter esse qua- dro de ruina e decad~ncia, que se pode vislum- brar em torno do centro commercial da capital paraense. A prefeitura (ou, se nio ela, um vere- ador) podia elaborar um proj eto de lei para de. sencadear uma ofensiva nessa area. A lei obriga- ria a administration municipal a elaborar um ca- dastro complete dos pr~dios de valor nessa Area, identificando os proprietarios, acondipio legal do im~vel efazendo um rapido diagn6stico de sua situaqio fisica. Cada um dos dons de im6velecadastra- do seria notificado a apresentar, num prazo ra- zoavel (dois ou tris meses), suas intengies so- bre a edificaptio. A lei ja teria estabelecido que, decornido mais um tempo da notificaqlio (um mis), o proprietirio que nito respondesse a intimaqio seria passivel de multa em fungio da ameaga que oimi~vel estaria representando para o bem estar coletivo. Os proprietirios interessados em recu- perar obem teriam acesso auma linha de cr~dito especial, em condiqdes favorecidas, formada a partir de umfundo com recursos de baixo custo. Osqcue niotivessem interesse poderiam assinar um contrato de comodato com uma empresa mu- nicipal, a ser eniada com o fim especifico de re- cuperar ocentro histbrico. Aempresa receberia o bem em comodato por tantos anos, compro- metendo-se a recupera-lo. A partir do memento em que alugasse o im6vel, uma parcela do rendi- mento (20%/, talvez) seria transferida para odono. Pode-se imaginar tantas variag~des quanto a imagina~gio permitir. O plano s6, daria certo, por~m, se a prefeitura fizesse a efetiva revitalizagilo da area, trazendo de volta os mora- dores que abandonaram ocentro porque ele se tomou um lugar perigoso oudesinteressante. Es- timulos seriam dados parainvestimentos em ati- vidades de suporte aumbairro residential, como padarias, restaurants, farmaicias, mercadinhos ou quitandas, sobretudo no period noturno, eaum com~rcio especializado em artesanato, produtos regionals, roupas,1lazer, divers~io.A~noite ocen- tro nao permaneceria mals morto, como hoje. Enf im, uma mniciativa ampla e motivadora, capaz de estancar essa sangria urbana desatada de uma das parties mais bonitas evaliosas de Bel~m. Ag ua de Bel~m A aradoxal situa Ro de uma cidade comn 1,2 milhio de habitantes affigida por strios problems de abastecimento de agua potaivel, embora cercada de agua por todos os lads (inclusive por cima, como sempre gostam de cehm rr does ap eiad ors ia emaray lhsas incompet~ncia de Belem na gestio dos seus recursos hidricos, sua insensibilidade diante da sua localizaqio geogrifica. Periodicamente, como agora faz de aooOLbrl aL Idi penad prel ian t popula~go belenense: contaminaqio das aguas em indices alarmantes, avango da ocu- pa~go humana nas~margens do conjunto de lagos do complex Agua Preta-Bolonha e cres- cente assoreamento dos reservat6rios. Ha ain- da a polui~go do rio Guamai, cada vez mais a fonte principal da coleta de Agua. Uma bombastica reportagem parece abric a possibilidade para medidas profundas de combat ao problema, mas logo o interesse e amortecido e as coisas voltam a ter sua apa- rtncia de normalidade. Um novo retorno ao mesmo assunto, porem, confirm que a situa- Cgo segue uma tendincia de agravamento ininterrupta. Os lagos vio se tornando meros reservatbrios para as aguas do Guami, bom- beadas em volumes sempre maiores para se- rem acumuladas em greas que encurtam cons- tantemente. Nessa progressio, havera um dia em que a agua ira diretamente do rio para o tratamento quimico, sem qualquer possibili- dade de estocagem intermediaria. O governor deveria discutir a questgo abertamente comna sociedade e buscar as for- mas de combat mais eficientes que existem no mercado. E pouco provivel que um muro, ainda mais porque concebido originalmente em fun~go do jB agonizante projeto do prolon- gamento da l' de Dezembro, contenha o avan- Fo dos invasores, seja na instala~go de novas resid~ncias em local impr6prio como atrav~s de infiltraq~es subterrineas. A pergunta que os mais atentos acom- panhantes do problema se fazem 6: ha future para os lagos como manancials de agua potivel para Bel~m? Ainda que tecnicamente exista um meio de preseryb-los, a solugio e econi~mica? O poder puiblico esti em condiqBes de banca-la? E claro que o prego tem rela~go direta comn o beneficio. Os belenenses estio sendo atacados por um inimigo mnsidioso: a mi qua- lidade da agua que lhes 6 fornecida. Por um lado ha a presenga de microorganisms e at6 de coliformes fecais numa propor~go de cau- sar arrepio e pinico. De outro lado, ha o feroz tratamento quimico, feito para atacar a material orglnica e qUe traz como subproduto agents agressivos ao organismo humane. Os ameri- canos, que introduziram o cloro no tratamento de agua, estio revendo o uso desse compo- nente, associado ao incremento do checer. Se o complex Agua Preta-Bolonha esta condenado, a unica said seria descen- tralizar as fontes de Agua de Belem, hoje total- mente concentradas na castigada mas ainda 4 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE SETEMBRO DE 2001 Jader n~o 6 Dreyfuss, nem a smprensa e santa Ao ser pronunciado, desde tr~s anos atras, o nome de Jos6 Osmar Borges sem- pre era associado ao do sena- dor Jader Barbalho. O meio de liga~go era o superintendent da Sudam, Jos6 Arthur Guedes Tourinho, colocado no cargo por indicaqio absoluta- mente pessoal de Jader. Foi na era de superintendents que ascenderam gragas a cata- pulta do senador paraense que Borges transfigurou-se em campedo de pol~micos proje- tos aprovados pela extinta Su- perintend~ncia do Desenvolvi- mento da Amaz6nia, laurel que ja passou por outras cabegas nio menos bem coroadas no passado, quando Jader nem chegava perto da Sudam, sem provocar o escarc~u formado em torno do atual "mega- fraudador". Um politico forte quase sempre atrai sat61ites empre- sariais para sua 6rbita, da mesma maneira como empre- sarios poderosos engendraram seus sat61ites politicos. Os ne- xos causals e que raramente sgo estabelecidos. A grande imprensa national, trazendo a reboque as institui- 95es oficiais, tem agora a possibilidade de reconstituir os elos entire Jader Barbalho e seus possiveis satblites, ou vice-versa. Esta seria a grande contribuigio da midia para a vida pdblica national. Como jamais viu-se tanto empenho combinado das principals publicaq8es pe- ri6dicas do pais, mis apos m~s empenha- das em esquadrinhar todo o territ6rio barbalheano de poder, seria a rara opor- tunidade de responder tanto as duividas ji formuladas em torno dessas parcerias espuirias como fazer novos questiona- mentos para chegar is devidas conclu- s~es. Nao deixando, pela primeira vez, que restassem restos a pagar, como sempre acabou acontecendo nas blitzkriegs con- tra Adhemar de Barros, Orestes Quercia ou Paulo Maluf, para ficar apenas em tr~s not6rios exemplos, acidentalmente todos paulistas. Para quem sempre acompanhou mais de perto a carreira political de Jader Barbalho, como o cidadio m~dio paraense, a enxurrada de mat~rias jornalisticas des- pejada a partir de Sgo Paulo e Rio de Ja- neiro nos uiltimos 15 meses trouxe pouca novidade. Quase todos os casos que for- mam essa marginalia, repetidos ad nausam nos boxes de jornais e revistas, slo cafe requentado. Ngo que devam ser ignorados ou encarados como fats normals, que nio sho. Devem ser reexaminados e esclare- cidos devidamente, o que s6 agora 6 pos- sivel fazer, dado o desinteresse da grande imprensa national pelos assuntos dessa barbalhinalia at6 que o cacique paraense enfrentou o babalorix8 baiano, batendo nos calos dos jornalistas que ti- nham em ACM uma fonte de insiders ou, mais acima na hierarquia, que o toma- vam como associado. Mesmo que a origem do shibito e fren~tico interesse da midia dominant pe- las irregularidades do ex-governador seja suspeita, e efetivamente o 6, nio interes- sa: deve-se aproveitar a inusitada colabo- raqio para submeter a teste de consis- t~ncia todas as hist6rias associadas do ex- ministro com suas sombras (e vice-ver- sa), como Jose viaria da Costa Mendon- Ca, Jair Bernardino de Souza, Construto- ra Andrade Gutierrez, Jos6 Osmar Borges et caterva. JOURNAL PESSOAL. 1' QUINZENA DE SETEMBRO DE 2001 5 No entanto, quase todos ou mes- mo todos os crimes estio prescritos. Se estio realmente, a apuraCio tem um sen- tido moral. Se nio est~io, que se acelerem aqueles procedimentos em vias de cadu- car para dar-lhes efeito praltico, tudo con- forme as normas legals. Se o que resta 6 buscar a restituig~io do dinheiro puiblico ili- citamente desviado, vamos aproveitar o furor midiatico para conseguir essa faga- nha in~dita, de que permanecem virgens as Georginas, os Nicolaus, os Estevios, os Calmons de Sa e outros muito mais votados que, alias, nio apenas nio de- volveram o que foi sacado do eiraio, como se credenciaram a receber mais. Os velhos escindalos do Banpara, do governor do Park, do Mirad ou da Pre- vid~ncia Social, todos com o selo Jader Barbalho, admitem revises e devem ser revistos para que as falhas do passado sejam supridas e as inovaq6es do presen- te possam ser acionadas. Ja as aut~nticas novidades, constituidas pelos atos recen- tes praticados por superintendents da Sudam (ou a partir deles), que se abriga- ram sob as longas asas do president li- cenciado do Senado, estes a Procurado- ria Geral da Repdblica e a Policia Federal estio apurando com extrema diligincia. Deverio ter conseqitincias mais profun- das do que meros relates acad~micos ou perfunct~rios. Talvez at6 criminosos perma- negam na cadeia e dinheiro volte ao tesouro national. Talvez. Mas essa vasta agenda nio deve se restringir a um acerto de contas em tomno da presidtncia do Senado ou do mandate de um senador que se tornou r~probo por haver enfrentado uma besta sagrada do sistema ou nio se ter curvado aos ditames de uma manada sagrada de jornalistas, seja os que mandam como os que obedecem, transformados, para fins de anti-Jader Barbalho, em vestals da Repuiblica. Em tribunals de excegio. Ei bom ler mat~rias bem apuradas, que confirmam, ampliam ou inovam o contencioso de acusaqaes sobre os ilici- tos praticados por Jader Barbalho, apani- guados, protegidos, aderentes e parents. Mas 6 triste ver a imprensa deixar de lado todas as normas profissionais para se meter uma briga de rua, num vale-tudo que se parece a rixa de marginais, numa pelada de quintal na qual tudo o que est~i acima do joelho de cada jogador 6 canela, um futebol mediocre como esse que nos- sa sele~go outrora canarinha pratica, sob os olhares bovines de muitos jornalistas, sempre dispostos a condescender. Se a imprensa acha que tudo o que ja publicou deveria ter sido o suficiente para a destitui~go de Jader Barbalho da presidtncia do Senado e a cassa~go do seu mandate, devia bradar aos c~us por providencias em candentes editorials. Mas nilo editorializar as reportagens, como esta sendo feito. Outro dia, os cosmopolitas apresen- tadores do Bom dia, Brasil, da TV Glo- bo, desceram de sua fleugma para anatematizar os pares do senador paraense, que nio o cassam de pronto, obedecendo B voz de comando do notici- ario da emissora, cheio de pontos de ex- clamaCges (o que teria feito a alegria de N61son Rodrigues, indignado com a im- parcialidade do novo jomnalismo introduzi- do pelo Jornal do Brasil na d~cada de 50). JB, alias, que diante da alegada ca- radura dos senadores, relutantes em cum- prir seu dever civico de cassar Jader, ba- tizou logo de "ilibados" todos os senado- res que se posicionaram contra o presi- dente escolhido por maioria absolute no inicio do ano, como se a assinatura do re- p6tter tivesse a f6 do seu oficio, escrivio ad-hoc de uma justiga privada. Jader se transformou em marco moral da grande imprensa, o que serve para dar uma me- dida desse c6digo utilitairio. Como venceu o unilateral prazo de carancia dado pela grande imprensa para o Senado resolver o problema, indepen- dentemente do amplo direito de defesa e do contradit6rio que a constitui~go fede- ral (como, de resto, todas as normas de direito) assegura a qualquer cidadio, a imprensa partiu para aquele tipo de luta desesperada que um boxeador trava quan- do v6 a iminancia do gongo final e o ad- vers~rio, mesmo cambaleante e machu- cado, teima em permanecer em pC. Esse 6 o estagio da ignorincia. E~o que esti vivendo a revista Isto6, vitima do seu pri~prio paroxismo, o pr6, de antes, quando Qu~rcia era aliado de Jader, e o contra de hoje, quando os interesses dos dois politicos de biografias similares entraram em cheque. Flagrada em erro indefensavel ao tratar da compra dos castanhais de Maraba, quando Jader era ministry da reform agrdia (uma ilegali- dade ficil de provar, com o ofiz ha 13 anos), a revista reagiu de uma das formas mais tristes que jb vi em 37 anos de pro- fissio: entregando sua fonte. Obrigada a publicar cartas que lhe foram remetidas por duas pessoas cita- das ou referidas indevidamente na repor- tagem, Reginaldo Cunha, tabeliio do Car- t6rio Condurd, e Maria Eug~nia Barros, ex-funcionaria do Incra, a revista, sem contestar as retificaqdes feitas por am- bos os missivistas, retrucou que as in for- maqdes vieram de duas fontes: "um dele- gado da Policia Federal e Silvio Sa". O delegado nio foi identificado, pro- vavelmente por se ter mantido fiel B re- vista (mas quem acompanha os fats nio precisa fazer muito esforgo para saber de quem se trata). Ja o nome de Silvio Sg foi entregue por ele haver escri-to "em jomnais locais reportagens desmentindo as infor- maqdes por ele mesmo prestadas", abso- lutamente falsas em rela~go ao Cart6rio Condurd, onde trabalhara por tantos anos, ate dois meses atris, e Maria Eug~nia, sua amiga. Silvio, que 6 advogado e nio jomna- lista, escreveu um unico artigo, publicado em um s6 journal, O Liberal. Se eram fal- sas as informaC~es que deu em conflan- ga a revista, com promessa de anonimato da fonte, eram verdadeiras as considera- 95es que fez em artigo assinado. Se e verdade o que alega, Istod tem motives para se sentir traida e, a partir dai, romper o compromisso verbal com a fonte. Mas foi leviana tanto no primeiro memento, quando deu tanta credibilidade a uma u~nica fonte, fazendo-a refer~ncia ini- ca para informaC~es que deviam ser che- cadas em umsegundo lugar, quanto na triste consumaq~io da farsa, desnudando a fonte de confianga que se tornara subitamente inconflavel. Um espetaculo de p~ssimo jor- nalismo, do qual a revista nio p~de esca- par, na insia de cassar Ja'der Barbalho de qualquer maneira, independentemente dos metodos jornalisticos, dos crit~rios da ver- dade e do respeito ao leitor. Esse exemplo deve servir de pa- rametro para a opinilo pdblica. Jader Barbalho deve prestar contas de todos os seus atos e pagar pelos crimes que hou- ver cometido, um a um, tost~io a tost~io. Mas a instincia competent para esse jul- gamento niio 6 a grande imprensa brasilei- ra, que est8 se revelando tlo desproporcionalmente tendenciosa e vicia- da. Jader n~Lo 6 Dreyfuss, para ter direito is reclamaq~es de injustigamento que tem fei- to, mas a imprensa bem que estii a merecer um E~mile Zola. Jg tardio e ainda nio visualiziivel no horizonte. 6 JOURNAL PESSOAL 0QUINZENA DE SETEMBRO DE 2001 Cartas Anivershrio Jos6 Carneiro e Edineide Coelho nio deixaram passar nas chamadas bran- cas nuvens o 14" aniversario do Jornal Pessoal. Sou-lhes grato pelas generosas palavras de estimulo. Sempre contei com o apoio desses leitores, ao mesmo tempo fi~is, atentos e critics, sem os quais fa- zer jornalismo independent, nos nossos dias de adesho ao poder e a projetos ape- nas individuals, seria ainda mais duro. Mas a voz da maioria silenciosa tamb~m pre- cisa ser levada em consideraqio. Mesmo um empreendimento minimo como este precise do seu ponto de equilibrio, que esti cada vez mais dificil de alcangar. Como meus mais cars leitores, espero que este journal prossiga. O mes- mo, infelizmente, nio podera acontecer com a Agenda Amaz6nica. Pretendo, no pri~ximo mas, tirar seu uiltimo niumero, exa- tamente quando a publica~go iniciava seu terceiro ano de vida. Para cB deverio vir as seqbes fixas que saiam na Agenda, se para tanto houver espago. Aumentar as paginas do JP exigiria tambem elevar seu prego, que se mant~m o mesmo hi quase sete anos, em praticamente metade da existincia deste jornal. O exemplar fica- nia carol, como se quelxam alguns leitores, desatentos para a rela~go entire indepen- dancia editorial e venda avulsa numa pu- blicaqio que optou por rejeitar a publici- dade, principal fonte de faturamento numa publica~go conventional, para nho dimi- nuir em um milimetro o grau da sua auto- nomia. Assim, vamos resistindo come C possivel, reinventando o bom combat quando ele ameaga se tornar vil, recor- rendo i imaginaqio quando a realidade se torna dura demais. At6 quando? At6 o tiltimo dia. O que deve dizer um leitor assi- duo do JP, nestes 14 anos decorridos? Sou suspeito para falar, pela amizade de bancos escolares e pela admirag'o ao grande jornalista em que te tornas- te. Mas ndo posso ficar calado diante do fato histdrico que b a manuteng'o desse inedito journal entire nds. Conti- nuo vibrando com a seriedade do que escreves e torcendo para que consigas manter a forga e o entusiasmo neces- sdrios ai sobrevivancia do journal. Meus leitora ate hoje.Conhecer seu trabalho tem me feito olhar para a Amazdnia com mais compromisso e desejo de transfor- magao. O Jornal Pessoal e seu trabalho como um todo s sdo uma verdadeira fonte de pesquisa acadimica, em todos os niveis. Nrao se pode escrever sobre a Amazdnia sem passar por seus arti- gos, livros e palestras transcritas. Vocd e um profissional que tem a grandeza amazdnica. Certamente podia estar morando nas maiores e melhores me- tropoles do planet, mas vocd e impres- cindivel para a nossa regido. Parabins, Luicio, por sua forga. Continue resistindo firmemente, para que ndo flquem em branco as paiginas que a verdade dos fats exige que se- jam escritas. Edineide Coelho Beatriz No numero 263 do Jornal Pesso- al escrevi um artigo sobre o impact que me causou o desmoronamento de um ve- lho casario do Largo da Trindade, de gran- de valor sentimental (al~m de sua impor- tincia como testemunho arquitet6nico da cidade). Motivada por esse artigo, Roberta Chiari Ferreira de Souza, a prima de Beatriz, a principal personagem do artigo, escreveu a carta abaixo, que amplia e aprofunda a reminisc~ncia de 6poca. Seu belo texto fez o computador, em sua obtusidade digital, grifar de ver- melho palavras completamente estranhas g sua membria utilitiria, como eletrola, bom-bocado e Mosqueiro. Sinal de que ainda nio entramos no universe da rede, cabendo-nos, ate como ato de defesa, avivar a lembranga das coisas especifi- cas do nosso mundo, que o Big Brother quer engolir. A carta de Roberta: Lucio Fldivio: Sou prima de Beatriz, minha md~e e a dela sdio irma~s, filhas de Abel Miranda, que morava no casard2o do Largo da Trindade (que em verdade pertencia ao Dr. Adriano Guimard~es, de quem meu av6 foi locatdirio por 23 anos e amigo a vida inteira). Somente no uiltimo domingo de julho, ao voltar de frias, li a matbria sobre a casa em que moramos, e on- tem, ao passar pela Rua Gama Abreu, filhos e netos e toda a geragdo que vai nos seguir hdo de agradecer: Nos 264 exemplares destes 14 anos (alguns verdadeiramente antologicos, aulas de jornalismo e redagd'o) a Amazdnia esta bem registrada, como nunca esteve em journal nenhum. E so isso jai justificou a existincia do Jornal Pessoal. Meu . abrago solidairio na tua destemida luta. JosC Carneiro Para uns, personalista. Para ou- tros, radical ou pessimista. Mas como ele incomoda! Nesses 14 anos de informag'o qualitativa, o Jornal Pessoal tem sido alvo de pesadas critics, vindas dos muitos que se sentiram atingidos em seus interesses. Sem falar nos mais inconformados, que ignoram o direito de resposta (disponivel constantemente e sem restrigdes neste journal) e recor- rem de pronto a justiga, agarrando-se comn unhas e dentes na famigerada lei de imprensa, com o uinico e obsessive propdsito de silenciar a verdade. Lucio, se o impact causado por seu journal se resumisse a isso, que n'o h pouca coisa, voc& ja seria merece- dor de todo o meu reconhecimento e admiragdo, mas b muito mais. Voc# pra- tica um jornalismo digno, resistente e corajoso. Vocb escreve com seus valo- res e suas emogdes. Isso tudo sdoe ca- racteristicas marcantes de sua atuagio profissional. Embora o prego desse exemplo de profissionalismo lhe esteja sendo muito carol, voc& tem consegui- do nadar contra a corrente da medi- ocridade da grande imprensa brasileira. Aldbm disso, voc& t um interlocutor arguto, inteligente e cons- ciente do papel social do jornalista. Seu texto tem um espirito vivo, inventive e sutil, que leva seus leitores por ca- minhos que vado desde o jornalismo factual, muitas vezes antevendo e se antecipando aos fats, atb a literatu- ra e a poesia. Voc& realmente desen- v~olve um trabalho de qualidade e de imenso valor. Repbrter-jornalista-escritor, considero voc& um profissional com- pleto. Acompanho seu trabalho desde 1987, conhego o Jornal Pessoal quan- do ele foi criado e sou leitora assidua desde 1992. E stio sua inquietagdo, in- dignagdio, capacidade de luta e de re- ntincia que me tim mantido como sua JORNAL PESSOAL I QUINZENA DE SETEMBRO DE 201 7 Tambdm passamos bons momen- madrinha Held, as visits semanais, tos na casa do Mosqueiro e na da Gen- como as Dd~ris (Franco e Conceigdio) til, ambas do pai de Beatriz, mas nada ds tergas e a Maria Rocha aos domin- igual & casa do vov6 Abel, ath o cheiro gos depois da missa. Taio important foi era diferente. Sinto muito por minhas essa epoca que ate hoje, quando nos filhas nd'o terem conhecido a casa por reunimos essas lembrangas sd'o motive dentro, e nem terem iddia de como era de horas de conversas e de muitas gar- bom morar num lugar assim, cheio de galhadas, inclusive por conta das fu- coisas antigas e pitorescas. Mas o me- gas da Bia e outras historias. thor de tudo, eram as pessoas que ha- Agradego-lhe, em meu nome e no bitavam e freqiientavam aquela casa: de nossa familiar, pela referdncia d casa meu ava, minha tia-avd~, minha tia e e a parte de nossa vida na pessoa da Bia. levei um susto ao ver o buraco que la ficou. Na~o tenho muita certeza quanto ao valor histdrico-arquitetanico do prd- dio, mas o valor sentimental para toda nossa familiar b imenso. Para mim, em especial, 4 talvez a melhor lembranga da minha infancia. Meus pais e eu moramos na casa da Trindade por quase trds anos, logo que viemos de mudanga da Argentina (pais onde nasci) ati a construpd'o da nossa. A casa era imensa, d direita da entrada ficavam a biblioteca e o quar- to de meu avd, h esquerda as duas sa- las de visits, separadas apenas por grandes arcos. A sala de jantar ocu- pava toda a largura da casa e era de assoalho feito de longas tdibuas de sucupira e pau amarelo, que rangiam quando caminhdvamos por ele. Esse assoalho era encerado d moda antiga, pela Raimunda, que primeiro raspava, depois passava cera e por uiltimo pas- sava o escovdo, para dar brilho. Vocd sabe o peso desse escovdo? Faz mais efeito que qualquer sessdo de musculagdio... A seguir, se dividia em duas alas, a esquerda os dois quartos e ao final do corredor o banheiro ed c direita, a copa, o quarto das emprega- das e a cozinha. No meio ficava o jar- dim e ao fundo o quintal. Algumas coisas me encantavam na casa de meu av8, a comegar pela cordinha amarrada ao trinco da porta e presa ri parede, para evitar o sobe e desce de degraus toda vez que algudm chegava ou saia. O sabonete de bola pendurado sobre as pias do banheiro e da copa. O chuveiro que abria e fe- chava por duas pequenas correntes. A eletrola em que meu av6 ouvia operas, sentado numa poltrona da sala de visi- tas com os pis sobre uma banquet. A bica no canto do jardim, que me ren- deu bons banhos em dias de chuva. Os sabids que meu av8 tinha e que canta- vam tdo0 alto que o Padre Miguel dizia ouvir da Igreja. O bastidor onde T. Gracinda bordava coisas maravilhosas e que me parecia said de um conto de fadas. As festas eram um capitulo d parte. Dias de preparativos, pois tudo era feito em casa, da comida aos pa- pdis em que se enrolava os bom-boca- dos. Tirar as lougas, passar as toalhas, trazer as plants do quintal para colo- car nos vasos... O Ministerio Publico bem que po- dia ajudar a colocar em pratos limpos toda a celeuma em torno da Alga Viaria. O governo diz que a obra, a mais important a ser inaugurada at6 o final da adminis- traqio Almir Gabriel, com evidentes divi- dendos, a serem cobrados no period elei- toral, esti sendo vitima de boicote por dois grupos que por ela ser~io prejudicados, os dons de balsas e os praticos da barra, e por seus adversarios politicos. Esses tr~s personagens teriam cri- ado, propagado e utilizado como instru- mento de manobras virios arguments contra a ponte sobre o rio Guama, a obra de arte mais important do Sistema Inte- grado do Leste do ParB, permitindo a li- gagio entire Bel~m e o seu future porto, em Vila do Conde, conectando-os com o sul do Estado. Alguns dos arguments apareceram durante as audiencias publi- cas para o licenciamento ambiental da obra, cujo impact ecol6gico nio estaria sendo bem avaliado. Outros surgiram du- rante o inicio da constru~go, quando foi questionada a altura da ponte, de 23 metros, abaixo do gabarito conventional, de 26 metros, criando assim restriqaes a nave- ga~go. A discussgo t~cnica dessas ques- ties esta sendo prejudicada por interfe- rtncias political e um pesado jogo de presses. Talvez nio muito seguro do seu poder de convencimento, o governor, al~m de patrocinar uma maciga campanha de propaganda, resolve atacar os opositores da obra. A esse papel se tem prestado o lider situacionista na Assembl~ia Legislative. A cada reavivamento da po- lImica, o deputado Mario Couto reage com a ameaga de uma CPI sobre as irre- gularidades na praticagem da barra. A esse tipo de attitude da-se a de- nominaqio tecnica de chantagem. Se o parlamentar sabe de irregularidades, ilicitudes, imoralidades ou ilegitimidades na utilizaqio de praticos em navios que de- mandam o porto de Belem, devia denun- ciar os fats e indicios de forma clara e proper a CPI independentemente dos ru- mos da Alga Viaria. O mesmo se aplica ao transport por balsas a partir de Bel~m (alias, sob a jurisdi~go de uma ag~ncia es- tadual, a Arcon). Esse negocio de falar ou calar conforme as conveni~ncias, se- guindo os movimentos do jogo de pres- sdes, tem coer~ncia com certo tipo de pra- tica political. Ngo com o interesse publico. Os praticos da barra sho is vezes acusados de cobrar demasiado por seus servigos. HE quem sustente que seu pa- pel se tornou ocioso com os mais moder- nos instruments de navegagio. Ou que estio condenados a desaparecer se os navios de maior calado passarem a anco- rar em Vila do Conde e nio mais em Bel~m, o que os leva a boicotar o projeto da Alga ViBria. Do lado de la tamb~m se diz que os navios de maior tonelagem, dis- pensando priticos locals, estio livres para poluir as Aguas da baia (ou das baias do estudrio) e prejudicar a pesca, o que jB estariam fazendo. Ha, portanto, suspeitas e acusaqaes em demasia para poucas e precarias con- clusdes. Arma-se a oportunidade para o MP juntar todos os personagens no mes- mo cendrio e arrancar deles os fats, rastreando o interesse pfiblico em toda essa co-ntrov~rsia. Dessa maneira com- batendo as ervas daninhas, que se apro- veitam de lacunas e retictncias para tirar proveito de uma causa so aparentemente ligada ao bem coletivo. P rova d os nove JomalPessoal c ., Edllor: Luao Flave Pimo* Fenus: (0951 223-7690.2624 26148& a27ILZ Comatfo. Tv Benaemvn Constant.845t203r6053-0- MHal: oratmzrfdp P~ouo *ngqiia PinM dbAl: aogdfraal Era proibido ler Jorge Amado quando seu primeimo livro chegou as minhas milos, em tomo de 1960. Era precise encapar o volume para ivni-lo do olho censor dos pais. A mesmna coisa que fizcam OAmantede Lady~ Chaltedey de D. H. Lawrence, osmanulasdal~mi de ntmi o doutor Fritz Kahn e os folhetos de Carlos Zefiro. Mlenmnos de 1 1 para 12 anos linham delirios comn esse material, espirituais e manu- ais. Nito era s6 a lubricidade e a visualizaglo do corpo, com e sem pecado, o que essas publica- Cies nos razjam: nocasode Amado,arum Bra- sil velado pelas elites, que nossal solidariedade moaqba eia alcangar, urm pis mesigo, sublami- neo, de fascinio inreprimivel pa~que perigoso. Ngo e de surpreender que tenhamos vivido essa liteiura e alravbs dela nos liberta- do de algumas das interdiqdes sociais. Reconstitui w;irias vezes o ritual de flores pubianas de Lady Charterley em seu cottage, emoldurada par campinulas e miosi~tis, enuanuto ia confeir as coisas nas estampas do lIvro do doutor Fritz.Pe~ronri desbragadrnamete as vie- las e becos da cidade da Balhia, como Salvador ema tmtada nos bons livros de Jorge Amado, e pude estar ao lado dos trbalhadores da lavoura cacaueira do litor al baiano, partilhando sua li- bertaqio, que principiava pela epidenne, fonna sensual e prazesa se escapar no jugo do quase senhor feudal. O usufruto dessas coisas pmoibidas aca- bava ocorrndo na vizinba mansio de L adislau & Babai~deAlzir& Annamaria Bar~osa Rodri- gues, sob o aroma das flores do jardim e a luz derramada pela lua athdves das janelas abertas a madmugada inteira, enqurioanocnversivamos e ouviamos mlisica, clissica de prefert~ncia. Nesse ambiente li o livro de Jorge Amado que mais apreciei, Os vlelhos marinheiros, motivador das minhas lilltimas tentiliais litenii- rias soble o autor. Parecia que ele ia se ivmr de vez do realismo socialist, Anna a paradoxal- mente bitolar sua alma popular, mas acabou descobrindo n founula do exotismo de expor- OFio, que oconsagraria.Ainda fu ial Gabriela, amv~eamela, sem chegar ao fmdo livro. Tudo ja parecia igual, estandardizado para turista e compmdor. Como a proipria Babia. Jorge Amado foi contemnporineo de multo escritormelbor do que eleno Bra~sil, mas 'sem umiiti mo do seu sulcessoo inquestionzivel. . ': Nem sempre a consagr~ago popular (ou de mer- cado) esta conjugads com q ualidade liteniria' uma nho 6 a exata tradugho da outra. Pesson como eu lemam Jorge Amado com proveito e at com paixio, m as qiase se srempre o e- teza de estarem diarge de um escritor menor, um grande escritor m~enor, para usar o velbo conceito. Tanroem fina do contexto socialque fazia dos romances um canal de passage pm o proibido, quantlo da qualidade intrinseca do textrocomo narrative, como uma magnifica recontl~i-tuigio de hist~ias de todas as gentes, Jog$e Amadotev~e tend valor autntico,ono e- nos ath alcomodar sua criatividade na bitola da firmula renlavel a partirde Gabriela. Milhasres de pessoas devem ter septido sua morte como eu asenti: umfalo que maviva opassado, ilumi- nanodo um pouco da nossa trajetoria. Porque foi nosso companheiro de viagem e gula de certos Deve ter alguni.valor simbo~lico a prr- tensdo de Paulo Coelho de ser o successor de Jorge Amado. Em taens quantitatives,de ven- dagem de livro, ath o supemou. O sucesso do mago postigo, contudo, tem context diverse dos anos 30, quando Jorge comnegou sua can-ei- racom OPais do Carnasal, e das duas dci~a- das seguintes em que sua obra leve vigo e vi- gor: a alq uimia ndlo 6 um produlo de Paulo Coe~lo; no contrdrio, ele 6 que 6 o pmoduto da alquimia da sua epoca. Uma piLnda de charlatanismo, outra de c~pia, mais uma de oportunismo, audicia pard aniscar, combinada com uma 6poca em que se buscacompensar odominio tecnol~gico do ra zio com os f luidos de mistbrio imanentes ao serhumano, e tem-se umia f~acil explicopio para o riufo desse sub-naHermnHsse sobre pa quem niio leu Hesse (a vantagemde Coelho, na nossa epoca de inculturra, e que nio se precisa ser leitor pams 16-lo). Eu dgo in escrever sobre a morte de Jorge Amado, dissecado por todos as veiculos de imprensa. Mas coiod seu antigo leitor, vi- vente esoblevivente ~d~sues pdginas emotives, achei qu ele merecia como Quincas Baero D'Aigua, umna morte me~lbor assinalada do que ser revezedo por nosso Paulo Coelbo, on me- recer-lhe o necrol~gio. Mais respeito com o mallo,cam~aradinba. 4; i Os bicudos Quando bicudos de palet6, e gmavata brigam quem perde e o povo. Invariavelmente, quem tam- b~m paga a conta. Os bicudos da Rede-Celpa estabeleceram unilateralmente um plano de reduio da iluminaCio pliblica em Bel~m pam chegar a uma poupanga de consumo de 35% ecomegaram aexecutah-lo. Ja os bicudos municipals reagiram dizendo que a capital paraense nio se enquadrani nas normas impostas pelo comity national de macionamento, indo als bar- ras da justiga para sustentar esse desaflo-e estio perdendo, como, aliars, eraprevisivel. A intolerincia mutua deve resultar da pre- sunglo de que por tras de um como de outro ha o inimigo. A prefeitura deve ver o govemo tucano manobrando a concessionaia de energia, enquanto a administration estadual pode ter encontrado neste memento a forma de desgastar o comando do pre- feito petista, que parecejulgar-se capaz de isolar Belem do restante do territ6rio brasileiro (quem sabe, numa aplicaqio empiricista da teoria do foquismo). Do que a opinion puiblica precisa e de uma regulaCgio das decisies porpress~io e contrapless~io, com uma instincia recutsal capaz de expurgar inte- resses particulares no resguardo do superior inte- resse purblico. O apagio veio como mand dos cdus para as empresas de energia, que gastariio menos e poderio faturar mais, com tarifas reajustadas bem acima da inflaCio. Abre-se ainda pamaelas um cam- po de arbitrio excepcional em fu~ngao do estado de emerg~ncia declarado, a partir de um questionivel diagn6stico da crise de energia. Essas concessionarias privatizadas (e mal privatizadas, como esti~ cada vez mais claro) tbm que encontrar uma barreira no poder puiblico, mas na~o uma baragem intransigente evoluntariosa.A aC~es tim que ser acertadas na mesa de negociaFgio com a presenga de umarbfitro, que existe (6 a Aneel), mas cuja presenga parece ser metafisica, um mos- quito administraindo uma aguia. As pessoas estiio se sentindo lesadas na sua dimenio de cidadis e de consurmidoras. Mas gestos insensatos, comoa invasiio das iastalaC~es daRede- Celpa, sho condenaveis: da just indignaqio, eles extrapolam para o vandalism e o terror. A reagio tem que ocorrer no imbito da sociedade civil e das regras democraiticas, indo aos limits extremes da legalidade, at6 que eles sejam revistos e reescritos. Infelizmente, entire ni~so que tem faltado 6 a qualify icaptio dos atores, que preferem o confront intolerante, porque baseado na presungli unilate- ral de justeza, do que a controversial aberta como element de convencimento e persuasilo. Respeito ao morto |
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