Jornal pessoal

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00215

Full Text




Ornal essoal
LUCIO FL V O P NTO
ANO XIV *N= 265 2. OUINZENA 'DE AGOSTO DE 2001 R~3~~~j
ARAGUAIA



Uma guerra suja



--u Investida do
L ~c3/L7, Ministe'rio
Pziblico Federal
~-rc\ P" ~~ C;~r-U r~"7em Marabd
1 mostra que a
s" C irguerrilha do
Araguaia ainda
ndo e um tema
Sdo passado.
,Mesmo extinta hd
*27 anos, ainda
mobilize a
\1 *atengd~o da
~S~6~~CP-Cr~~-r~in teligd~n cia
\\' ,f M military,
1 \1 empenhada em
impedir que os
pllLC ~1 ,V~ Ifatos sejam
( esclarecidos para
que um
acontecimento
traumdtico se
normalidadenoro e
-7.democrd'tica
do pai's.


guerrilha do Partido Comunista to. Para a fama que conquistou, 6 tempo
I B do Brasil no Araguaia, entire curto demais. Mas para os meios de que
f f Goids (hoje Tocantins)e o Paril, dispunham os militants do PC do B, a
ojX~i5 Io durou mais do que cinco longevidade do movimento foi excepcio-
anos, entire o final de 1969 e setembro de nal. Ele n~io contou com mais do que 70
1974, quando o 61ltimo guerrilheiro foi mor- pessoas, a maioria jovens, sem uma for- )








2 JORNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE AGOSTO/ 2001


magli t~cnica adequada, movidos pelo ide-
alismo, guiados pela obtusidade ideologi-
ca. Em tris campanhas sucessivas de
combat, as forgas armadas brasileiras
deslocaram para a regillo cinco mil ho-
mens, entire 1972, quando comegaram os
combates, e 1975, quando a operaqio de
rescaldo atestou que nio havia mais "ter-
roristas" na Area. Todos os combatentes
(mas nio todos os guerrilheiros, ji que uns
poucos haviam escapade a solugio final
determinada pelos militates: a"queima de
arquivo") estavam eliminados.
Mas a histi~ria da guerrilha do Araguaia
nito 6 uma pagina virada, como estlio ve-
rificando tr~s procuradores federals (de
Stio Paulo, Distrito Federal e Pard), que
instauraram em junho uma ag5o civil pu-
blica para apurar os fats. Os procurado-
res Marlon Weichert, Guilherme Schelb e
Felicio Pontes Jr. se defrontaram com uma
estrutura military quase clandestine em ple-
na atividade. Entre seus objetivos, esta o
de impedir que a mem6ria daquele tempo
seja reavivada e os pap~is que registra-
ram os acontecimentos, revolvidos.
A 23" brigada de selva do Ex6rcito, se-
diada em MarabB, a principal cidade do vale
do Araguaia-Tocantins, alcangado pela
guerrilha, mantem foma dos seus limits ofi-
ciais um setor de intelig~ncia operoso. Mi-
litares nito fardados tomaram como base
casas comuns em um sub~irbio da cidade,
a Nova MarabB, disfargando sua atividade
sob a fachada de uma agencia de noticias
(a Free Lance). Embora o principal de sua
agenda se relacione aos movimentos soci-
ais e politicos presents, como o MST (Mo-
vimento dos Trabalhadores Rurais Sem-
Terra), nIho negligenciam o acompanha-
mento do acervo da guerrilha.
Sempre que surgem visitantes na d~rea,
algu6m da inteligtncia do Exbrcito vai
atris. Quer saber quem 6 o estranho, o
que esti perguntando e o que lhe foi dito.
Se necessi~rio, faz propostas para com-
pensar o silancio daqueles que foram per-
sonagens da histi~ria. Ou simplesmente
procura intimidd-los, quando n~io afasta o
intruso. S6 que desta vez a ofensiva ex-
terna 6 feita pelo Minist~rio P~iblico Fe-
deral, uma instincia bem mais persuasive
e forte do que eventuais historiadores e
circunstanciais jornalistas.
Os procuradores federals nio se as-
sustaram. Alem de revelar a estranha
anomalia institutional, com a qual a forga
armada regular parece conviver sem pro-
blema (talvez ainda anestesiada pela con-
cep~gio de "guerra internal) os represen-


tantes do MP decidiram aprofundar a
apreciaCio legal dessa part da histi~ria
recent do pais que o Estado parecia pre-
ferir continuar a tangenciar, por se tratar
de um vespeiro. Algumas entidades da so-
ciedade civil, altm das families de guerri-
theiros que jamais tiveram seus paradei-
ros definidos regularmente, jii empreen-
deram buscas na area. Coletaram muitas
informages, mas o resultado pritico des-
sas iniciativas foi quase nenhum.
Desta vez com muito mais Cnfase, a
a~go civil pliblica que tramita na Procura-
doria da Repdiblica apresenta, g parte seus
possiveis efeitos legals, um dado novo: a
revela~gio dos danos que os combates na
floresta acarretaram B popula~gio civil. E
verdade que alguns moradores locals,
emigrantes vindos do Maranhio ou que
cruzaram o Araguaia da parte entlio goi-
ana para a paraense, foram maltratados
ou mortos por guerrilheiros, em atos clas-
sificados de "justigamento" (notabilizados
no Gulag sovi~tico).
Mas foi a exceglio. A esmagadora
maioria dos natives foi vitima das forgas
militares nacionais. Os que cederam a atos
de tortura e intimidagio, descambando
para uma brutalizaglo animal, acabariam
sendo usados como guias, os "bate-paus".
Os que resistiram seriam mortos ou car-
regariam para sempre seqtielas, a mais
freqiiente das quais sendo a loucura. Fo-
ram epis6dios marcantes. Provocados
pelos procuradores, que peregrinaram pela
mata durante duas semanas, os testemu-
nhos fluiram com abund~incia, na exten-
slio e no detalhe. Ningu~m esqueceu aque-
les cinco anos. E ainda nio houve um rito
da passage, mesmo porque permane-
cem insepultos virios cadi~veres.
A consult aos depoimentos coletados
pelos procuradores devolve o leitor mais
atento a epis6dios semelhantes do passa-
do, como Canudos, de Ant~nio Conselhei-
ro, no inicio do sdculo XX. As forgas ar-
madas brasileiras, urbanizadas, doutrina-
das por uma elite, que esparge suas con-
vicqaes sobre a massa dos recrutados,
parecem estruturalmente despreparadas
para entender o serttlo, ele se express
mimetizado por radicals de esquerda infil-
trados no meio natural, ou por rdsticos ho-
mens com suas mentes fundidas no isola-
mento e no abandon, a distincia das pai-
sagens mirificas da outra face dessa Be-
lindia, cujos extremes de pobreza e rique-
za nto cessam de sedistanciar.
Aquela foi uma guerra suja, definiu o
coronel da reserve e ex-senador Jarbas


Passarinho, numa reminisctncia sobre a
guerrilha do Araguaia. Sujeira 6 o que
abunda nos documents de 6poca, que os
procuradores estio agora compulsando,
depois de terem-nos conseguido gragas a
um in~dito mandado de busca e apreen-
sho expedido pelo juiz federal Jefferson
Schneider, de Mato Grosso, respondendo
pela seglio judicidria de Marabg.
Essa arma lhes permitiu, com a co-
bertura armada da Policia Federal, inva-
dir a dependtncia semiclandestina do
setor de intelig~ncia da 23" Brigada de
Infantaria da Selva do Ex~rcito, em Ma-
rab8. Mas nito foi s6 uma guerra suja:
foi uma guerra burra, estuipida, que mul-
tiplicou desnecessariamente a amplitude
da sua face ruim sobre tantos inocentes,
como parece ser a triste regra da inter-
vengdo do Estado nas paragens remotas
e abandonadas do serttlo brasileiro, es-
fmnge esta que 6 destituida do poder de
retaliaqilo da mitologia.
O foco guerrilheiro, do qual poderia re-
sultar a revoluglio, num movimento de on-
das expansivas do campo para as cidades,
era uma obtusa reproduFgho de condiqaes
exi~genas e ex6ticas de um partido comui
nista sem autonomia intellectual. Apesar do
desvelo e da generosidade dos seus mili-
tantes, sobre os quais os natives fazem tanl
tos elogios ainda hoje, a guerrilha era uma
criaqilo natimorta. O Brasil nho era a Al-
b~inia, nem a China, ou Cuba, o laborat~rid
dos revoluciondrIios do PC do B, para os
quais seu prbprio e imenso pais era poucq
mais do que uma inc6gnita.
Mas as for gas armadas brasileiras
nso eram mais bem habilitadas nessq
campo. As tropas foram mandadas pardl
a mata desconhecida como se o draglio
da maldade as esperasse e houvessa
mil Che Guevaras atri~s de cada drvordi
(por sinal, invariavelmente posta abai-
xo, seja pelo colono, o guerrilheiro ou oi
military, com propbsitos diferentes e titid
ca igual). Se era uma guerra suja (e
burra), os que comandaram e os quei
executaram as misses repressivas abu-
saram na mlo, que foi pesadissima e
cega na sua ira punitive.
Sera isso, talvez, que a c61ula de in-
telig~ncia military camuflada estard eml
penhada em evitar que seja trazido a pdi-
blico, controlando o "teatro de opera-
95es", conforme a linguagem castren-
se, at6 que o tempo apague as cinzas da
hora e possa prevalecer a versito do
vencedor? A ele, as batatas, como diria
o bruxo do Cosme Velho. *








JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE AGOSTO/ 2001 5


Para "sanear" a rede de 42 bancos estaduais
que funcionavam no Brasil, o Banco Central pre-
cisou gastar 60,3 bilh~es de reais em seis anos.
Mais da metade dessa dinheirama toda, R$ 33,6
bilhdes, foram colocados no Banespa. S6 assim o
charmoso Banco do Estado de Sgo Paulo p~de
ser vendido aos espanh6is, que pagaram um agio
muito superior ao prego minimo da licita~go, mas
se beneficiaram com os efeitos dessa milionaria
lavagem fmnanceira previa. Com a nota de despe-
sa mandada a caridosa viuiva, e claro.
Seis anos depois, um pouco mais da metade da
rede bancaria original continue administrada pelos
Estados, mas somente oito na forma traditional de
bancos; outros 16 ex-bancos foram transformados
em ag~ncias de fo- 4
mento. Sete dos aL '
antigos bancos -
estaduais ja foram

prvtzdscomo o Banespa. Y
Dez estio em fase
de extin~go ou liquidagio. Seis foram federaliza-
dos e encontram-se prontos para ir a leilgo.
O Banpara e um dos oito bancos que continu-
am sob o control do Estado, agora sob o foco
dos holofotes nacionais por conta dos desatinos
cometidos durante os oito anos em que Jader
Barbalho foi o governador do Estado. Desatinos
que podem ter tido valores mais expressivos do
que em qualquer outra epoca, mas nio destoaram
das caracteristicas gerais da gestio estatal em 40
anos de existancia da institui~go.
Conseguirai o Banpara sobreviver ao desgaste
que a abertura dos armaros e a limpeza dos tapetes
velhos lhe acarretadio? Deve sobreviver? Merece
outra oportunidade? Tem said? Sgo perguntas que
a opinigo publica devia fazer, nio s6 em rela~go ao
banco paraense, mas a todo o remanescente da rede
e ao inventariante das providencias ja adotadas,
fazendo um balango do custo-beneficio.
O caso do BanparB esta tendo uma notorieda-
de desproporcional ao alcance dos prejuizos cau-
sados, alguns deles irremediaveis. E uma pena que
a sofreguidso e a vontade dos que hoje apuram as
ilicitudes seja desproporcional ao tempo decorri-
do. Se tal interesse tivesse sido imediato, prova-
velmente nio teria restado sujeira para colocar
debaixo do tapete, nem esqueletos para esconder
em armarios soturnos. Houve neglig~ncia, coni-
vencia ou prevarica~go. Se o senador Jader Barba-
lho deve ser cobrado pelos crimes eventualmente
nho prescritos e pela devolu~go do dinheiro desvi-
ado ilicitamente, hB varias outras contas a apre-
sentar e responsabilidades a cobrar. Para tal, nio
basta rastrear os 1 1 cheques administrativos inde-
vidamente emitidos a portador oculto. E necess8-
rio reconstituir histdtias mal contadas.


Esclarecidos todos os pontos vitals desse
enredo tortuoso e punidos os personagens com
culpa provada em cart6rio, e bom nio esquecer
a dimensio dessa pega de um quebra-cabega
muito maior. A conta maior ate agora referida
nio vai alem de R$ 40 milhies. Digamos que o
valor chegue ao dobro, com as cominaqdes pos-
siveis e os desdobramentos previsiveis. E uma
soma expressive para um horizonte de oito anos
(R$ 10 milhaes desviados do Banpara a cada
ano) e para a economic local (algo como 10%
da receita mensal de ICMS). Os paraenses t~m
que cobrar os crimes cometidos e os valores
apropriados com o maximo rigor. Mas o Banpa-
rB nio pode ser colocado no centro do picadei-
~ro.Nem como ator

menos como Ju-
das unico.

Smento" dos banO" ane -
cos estaduais
engoliu R$ 60,3 bilh~es, provisionados pelo era-
rio atraves de endividamento publico e, prova-
velmente, de emissilo de moeda, acarretando
maior carga tributaria ou pressio inflacionaria.
Ou seja: bnus que pesa e pesara, agora e no fu-
turo, no bolso do desavisado contribuinte.
A bagatela de R$ 33,6 bilhdes foi sacada do
tesouro (ou deixou de nele ingressar, mas cance-
lando debitos) para cobrir o rombo dos cidadios
da avenida Paulista, que empinaram seus colori-
dos papagaios no Banespa, deixando o agent
bandeirante a ver navios. E~ mil vezes mais do que
o que o Banco Central diz haver apurado (sem
demonstrar os calculos B opiniio pdblica) de des-
vio no Banpara na era Barbalho. Sem que igual
interesse se oriented para os Barbalho de la, que
tanto atendem por Quercia quanto Maluf e, ate,
Montoro ou Covas, em pecados certamente me-
nores, veniais, quem sabe, mas pecados.
Os bancos estaduais tem sido a guard pre-
toriana financeira dos governadores, satrapas
(ou sobas) de uma federaqio envergonhada.
Talvez R$ 60 bilhaes seja um prego aceitavel para
estancar essa sangria desatada e desavergonha-
da, que nio justifica nenhuma saudade dos ban-
cos extintos. Mas tambem nio deve servir de
gazua para o arrombamento do patriminio naci-
onal ou para que qualquer outra alternative, por
ser menos ruim, seja aceita sem maior verifica-
F50. Principalmente quando a sutura de um feri-
mento que sangra nlo e garantia contra a aber-
tura de outra hemorragia. Como, olhando melhor
para o panorama financeiro p6s-privatiza~go,
parece ser o caso brasileiro, hoje.
Banpara rima com panama, mas nio rima
com boi de piranha.


Linha paralela
A guerrilha do Araguaia foi extinta
ha 27 anos. Ja e tempo suficiente para
ser considerada um acontecimento his-
t~rico. Mas a questio esta distant de
se reduzir a um tema acad~mico. Ainda
envolve paixbes e responsabilidades,
civeis e criminals. As imputaq6es de
natureza political foram apagadas pela
anistia, alcangando ambos os lads da
dispute, sob o compromisso do perdio
e do esquecimento. Permanecem de p6,
entretanto, os direitos individuals e as
razdes de Estado.
Os procuradores federals, atraves
da a~go civil pdiblica instaurada, irio
fornecer elements nio s6 para a hist6-
ria como para eventuais provid~ncias
oficiais. A iniciativa e, portanto, legiti-
ma, alem de legal. Ela podera reenqua-
drar o epis6dio da guerrilha na normali-
dade democritica do pais, possibilitan-
do-lhe encara-la sem passionalismos,
ainda vivos e fortes. A estrutura semi-
clandestina da intelig~ncia military em
Maraba e uma dessas sobrevivtncias
espuirias do passado.
O serving de inteligtncia e uma ne-
cessidade vital do Estado contemporl-
neo. Os governs e particularmente
suas forgas armadas nio podem ser
surpreendidos por acontecimentos que
resultam de processes, que tim acon-
tecimentos encadeados nas suas ori-
gens. O Estado precisa acompanhar com
aten~go, acuidade e precisio tudo o que
acontece de essencial na vida em soci-
edade. li a maneira de se antecipar a cri-
ses e prevenir problems.
O governor pode ser bem informado
sem que sua inteligtncia extrapole a or-
dem legal e violent os direitos essen-
ciais, ao menos enquanto o cotidiano
segue seu ritmo normal. Se o serving de
intelig~ncia da 23" brigada estivesse
obtendo e processando informaq~es
sobre os acontecimentos presents re-
gistrados na sua jurisdi~go, estaria rea-
lizando sua missio professional. Mas
quando recorre a truques e ardis para
interferir nos fats ou interditar o co-
nhecimento de situaq8es publicas, esta
indo alem do que a lei the faculta.
Mais grave ainda quando utiliza tec-
nicas de sedugio ou de intimidagio para
manter-se incolume ou alcangar os seus
prop6sitos. Em tais circunstincias, agen-
tes com identidades falsas, usando car-
ros com chapa fria, instalados em falsas
resid~ncias particulares, presenteando
armas e obstruindo o trabalho de agents
oficiais nos trazem de volta a triste mem6-
ria de anos recentes, que pareciam supe-
rados. E deveriam estar superadas.


Banpard: boi de


piranha financeiro


.r*


F









4 JoRNAL. PESSOAL 2" QUINZENA DE AGOSTO/ 2001


gradavel incident para refletir sobre as rela-
Fdes entire o poder e a imprensa, entire as prer-
rogativas do individuo e as necessidades co-
letivas. Ele ajuizou no ano passado contra
mim duas agaes, uma civel e outra penal, de-
clarando-se ofendido por artigos que escrevi
neste jornal. Nos artigos, eu criticava o magis-
trado por haver restabelecido, em media limi-
nar, os registros imobilidrios em nome da C. R.
Almeida existentes no cart6rio de Altamira.
Com base nesses registros, a empresa se
diz dona de uma area que pode ir de cinco a
sete milhies de hectares. Contestando tal do-
minialidade, O Iterpa prop6s uma a~go de nuli-
dade e cancelamento dos registros. O juiz Tor-
quato Alencar, acolhendo o pedido, determi-
nou cautelarmente a averbaqio desse 6nus.
A conseqilincia pratica da providencia era uma
advert~ncia a possiveis interessados na vas-
tissima gleba de que a validade do document
estava sendo combatida judicialmente pelo 6r-
gao fundibrio do Estado.
A empresa, porem, permanecia com o do-
minio de fato da drea. Se existisse, o seu proje-
to ecol6gico-cientifico podia continuar a ser
desenvolvido sem problems. O que ela esta-
va temporariamente impedida era de transaci-
onar com as terras, terras essas que todas as
instincias oficiais pertinentes, federals e es-
taduais, consideram nio ter sido desmembra-
da regularmente do patriminio publico.
Na minha critical, argumentei que o desem-
bargador podia ter deixado de conceder a limi-
nar requerida, considerando o grande debate,
de repercussio ate international, sobre essas
terras, com mais do que fundados receios de
ela estar sofrendo um process de grilagem
grosseiro. Podia ter solicitado informaqBes ao
Minist~rio Publico, que viria a se pronunciar
contra a decisio do desembargador Paiva,
quatro meses depois de ter sido ela adotada.
Por fim, se a empresa tinha boa fe, nenhum
prejuizo a tutela antecipada do juiz Alencar
lhe causaria. Exceto, naturalmente, se sua in-
ten~go era especular com terras de titularida-


de privada incerta e nio sabida, com quase
toda certeza da Uniio e do Estado do Para.
Eu n9o acusei o desembargador de ter con-
cedido a liminar requerida pela C. R. Almeida
para tirar proveito pessoal. Ngo fiz qualquer
associaqio extra-autos entire o magistrado e a
empresa. E nio fiz isso por algum receio de
represalia: foi simplesmente por nlo dispor de
informagdes que pudessem colocar em dlivi-
da a lisura da deliberaqio do desembargador.
Para mim, ele estava errado. Mas presumi, a
falta de fats em contrario, que seu erro fora
cometido, a meu juizo, de boa f6. Nio avancei
um milimetro altm na apreciaqio do conteuido
do seu julgamento. Circunscrevi-me a andlise
do que ele escreveu nos autos.
A reaqio do desembargador, propondo
queixa-crime com base na lei 5.250/67 (a triste-
mente celebre lei de imprensa) e a~go civel de
reparaqio de dano moral, me surpreendeu. Joso
Alberto Paiva nio me mandou uma carta, nem
mesmo um recado. Deixou de lado o direito de
resposta para litigar de pronto na justiga, para
isso contratando um credenciado escritbrio de
advocacia de Brasilia.
Essa e uma prerrogativa pessoal dele. Mas
eu presumia que um magistrado, consciente do
significado de sua missio de home publico,
atentaria para o significado da critical e o inte-
resse da sociedade na questio, prestando os
esclarecimentos devidos, aceitando o exercicio
da liberdade de imprensa e a superveniencia da
mais legitima causa publica. Sem suscetibilida-
des excessivas, nem privacidade afetada.
O magistrado parece, nesse particular, par-
tilhar as ideias de Cecilio do Rego Almeida.
Ao inv~s de entrar numa poltmica stria e res-
peitosa, como as que aqui se praticam, ele de
imediato recorreu ai justiga, atraves de tr~s
aqbes (duas penais e uma civel), para ca man-
dando procurador do ParanB e mobilizando na
retaguarda escritbrio paulista de advocacia.
Considero-me injustigado nessa rela~go.
Mais prejudicada, por~m, est6 a opiniio pu-
blica, privada de conhecer o que agora se
circunscreve aos autos dos proces-
sos, que, ademais, consomem tem-
po precioso das minhas apuraqdes
e reflexes, em prejuizo da riqueza
de informaqdes deste journal. Esse
acaba sendo o efeito mais nocivo
(e, certamente, desejado pelos meus
eventuais inimigos) dessas deman-
das judiciais. Mas se e o prego a
pagar para defender os interesses
socials, que venha a conta. As ji
apresentadas e as que se apresenta-
rem, definindo a verdadeira autoria
e os verdadeiros prop6sitos por tris
de uma ret6rica de ocasiio. *


Na cagada da grande imprensa ao senador
Jader Barbalho, o desembargador Joso Alber-
to Paiva foi acusado de favorec6-lo com um
despacho, retribuindo, assim, um favor: foi
Jader, quando governador, em 1992, que esco-
lheu Paiva para o desembargo, a partir de uma
lista triplice que lhe foi submetida pelo Tribu-
nal de Justiga do Estado.
A associagio e ficil de fazer, mas nem por
isso pode ser considerada automaticamente
verdadeira. O nome pelo qual o entio gover-
nador trabalhava era o do seu consultor-ge-
ral, Joio Roberto Cavaleiro de Macedo. Mas
"Macedio" desagradara o TJE com alguns de
seus atos e opini~es. O tribunal o excluiu da
lista triplice, ao receber os seis nomes indica-
dos pela OAB, dona do quinto constitucio-
nal. Em represilia, Jader fez a op~go surpreen-
dente por Joio Alberto, com quem nio tinha
maiores relaqdes. O nome preferido pelo TJE
era o de Haroldo Guilherme da Silva, que nes-
se epis~dio sofreria a primeira da dupla prete-
ri~go a magistratura, entrando no enredo como
Pilatos no Credo.
Embora sempre se estabelega nessas situ-
aFges pelo menos uma rela~go de aprego, isso
nio quer dizer que a partir da posse no cargo
o novo desembargador vi ter que ficar sem-
pre ao lado das causes do governador res-
ponsavel por sua nomeaqio. No caso especi-
fico de Paiva, ngo houve uma negociaqio pr6-
via em favor do nome dele junto a Jader, nem a
escolha do governador resultou de sua von-
tade: impedido de exercer a sua verdadeira pre-
fer~ncia, Jader decidiu dar o troco ao tribunal,
mandando para o colegiado superior alguem
que o tribunal nio esperava. Especialmente
porque nio havia intimidade entire Jader e Pai-
va. Portanto, a rigor, o desembargador nada
ficou a dever pessoalmente. Estava em plenas
condiqdes para apreciar e julgar as causes a si
submetidas conforme seu livre arbitrio.
A imprensa poderia acus8-lo de favorecer
indevidamente o ex-governador, na dificil si-
tuaqio em que ele se encontra, sob a saraiva-
da de dentincias da midia, se fundamen-
tasse a acusa~go. Mas limitou-se a fazer
a associaqio de fats, sem um nexo cau.
sal entire eles, sem provas de que a deci-
sio do desembargador foi acertada com
o ex-govemador, uma aglo entire amigos.
Com toda razao, o desembargador pro-
testou contra a suspei~go, baseada em
meras suposiq6es, costuradas com um
rango de leviandade, a sofreguidso acu-
sat6ria que se tornou uma das marcas
da imprensa na campanha contra o pre-
sidente licenciado do Senado.
Mas o desembargador Joso Alberto
Paiva bem que podia aproveitar o desa-


0 prego da verdade








JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE AGOSTO/ 2001 5


A said de J6rio Dauster da presidin-
cia da Companhia Vale do Rio Doce pode
significar que, quatro anos depois da pri-
vatiza~go do seu control acionario, a em-
presa esta privatizando o seu comando ad-
ministrativo. O embaixador era um remanes-
cente da epoca em que a estatal atuava
combinando sua face de empresa particu-
lar com seu papel de ag~ncia de desenvol-
vimento, recrutando executives bifrontes,
com um olho no calculo econ~mico e outro
na estrategia political, buscando um equili-
brio que estava nas suas origens e servia
de aval ao seu future.
Mas para que o novo perfil tenha clara
definiCio, a Vale tera que deixar de ser uma


empresa de bolsa, obsedada pelo pagamen-
to de dividends e por retorno de curt pra-
zo, para ser o que seus cola-
rinhos brancos gostam de
chamar de player, uma au-
t~ntica multinational brasi- ,
leira, respeitada etemida por
sua competencia no merca-
do, por sua autonomia, in- i
dependentemente da reta- li
guard oficial, do jeitinho ,
brasileiro.
A said de Dauster 6 uma
perda para o sentido dessa
hist6ria centenaria da CVRD,
ou seu epilogo, sem choro


nem vela. A nova face, contudo, ainda nio
esta definida. Vai defender do amadureci-
mento do process iniciado.
Apesar da venda do control
acionario que a Uniio detinha,
~pJ~F~os funds de pensio, g frente
b ?ntrPl o Previ, permanecem sendo o
U maior s6cio. Os pr6prios fun-
dos ainda estio trocando de
couro, como uma serpente em
--- busca de nova identidade (que
eige enfrentar a realidade dos
ntimeros). Os executives que
expressavam a simbiose (ou
promiscuidade) entire cofres
publicos e privados estio sen-
do substituidos. Por quem?
Esta e a duvida. A CVRD conseguiu re-
alizar seu rito de passage, no qual os fun-
dos ainda patinam? Aparentemente, sim. A
said de J6rio Dauster, neste aspect, com-
plementa o desligamento de Benjamin
Steinbruch, que, por sua vez, era o resulta-
do da teia de ligaF~es, umas claras e outras
obscuras, na qual foi tecida a privatiza~go
da empresa federal. O component especu-
lativo desse process foi muito alto, do que
dio ideia as retiradas de dividends ao lon-
go dos tres primeiros anos de gestio pri-
vada (ou semi-privada).
Esse component acabou? Aparente-
mente, sim. Mas como explicar que o Bra-
desco, um dos responsaveis pela modela-
gem da venda da Vale, na condi~go de con-
sultor contratado, tenha se tornado o prin-
cipal s6cio privado, a despeito da proibi-
950o legal a essa muta~go camale6nica? Foi
um artificio de advogado, uma daquelas
brechas deixadas depois da virgula de uma
norma para ser utilizada pelo autor do dis-
positivo quando ele passa para o outro lado
do balcio? Ou foi uma evolu~go, altm de
legal, legitima?
O poderoso jornalismo investigative da
grande imprensa, que concentrou sua arti-
lharia em cima do senador Jader Barbalho,
nio se tem mostrado tio obstinado e curi-
oso quando esta em pauta um assunto que
exige mais do que fitas gravadas e dossibs
de documents orientados. Os jornalistas
parecem jai ter virado a pigina de suas agen-
das na qual a sigla CVRD foi escrita. E o
tema parece recent demais para os analis-
tas academicos, que preferem dedicar sua
competencia a fen6menos mais distancia-
dos no tempo, mais passiveis de en quadra-
mento em suas "bases te6ricas".
A sorte de uma empresa cinqtientenaria,
comn uma trajet6ria tio rica, permanece sob
o dominio da mesma elite de sempre. *


A participagio de Belem na receita
do ICMS, a principal fonte de receita tri-
butaria do Estado, ja est8 do tamanho da
sua dimensio demogrifica. O indice da
capital na cota-parte do ICMS para o pr6-
ximo ano, definida em decreto do gover-
nador Almir Gabriel no final do m~s pas-
sado, sera de 23,96%. Antes, Bel~m reti-
nha mais receita do que o corresponden-
te em populagao, o que significa menos
ICMS "per capital ao menos na redistri-
bui~go dos 25% do bolo do imposto que
o Estado redistribui entire os municipios.
Os indices revelam a nova distribui-
gio econbmica paraense, que nio tra-
duz literalmente a sua fisionomia demo-
grafica ou tem sintonia com a tradi~go
hist6rica. Esses crittrios foram interrom-
pidos e substituidos pela emergtncia
dos projetos de impact da integra~go
econ~mica da Amazgnia, que reordena-
ram (ou estabeleceram novo caos) no
espago regional.
Como conseqtiincia, o segundo mai-
or indice de participa~go 6 o de Paraua-
pebas, com 9,57% do ICMS (mais de um
tergo do que cabe a Belem), em fungo
da extra~go do minerio de Carajas (fer-
ro, manganbs e ouro), que 6 um residue
se comparado aos terms de trocas in-
ternacionais que engendra, mas tem ex-
pressio no context estadual. Sobretu-
do de um Estado pobre e desequilibra-
do como o Pari.


O terceiro maior indice e o de Barcare-
na, com 6,40%, por causa do pblo indus-
trial (de aluminio, alumina e caulim). Ain-
da sob a influtncia de um grande projeto,
Tucurui tem o quarto indice, de 5,16%.
A quinta posi~go 6 de Ananindeua (se-
gundo municipio em populagio), que in-
tegra a Brea metropolitan de Belem, com
4,33%. No lugar seguinte volta um muni-
cipio associado a um grande projeto, o de
Oriximina, onde estl a maior mina indivi-
dual de bauxita do mundo (operada pela
Mineraqio Rio do Norte), com 3,30%. E
apenas em s~timo lugar desponta Santa-
rem, provavel capital do possivel novo
Estado, um municipio da linha traditional,
que ja foi o segundo mais important do
Estado, mas ficou num purgat6rio vocaci-
onal, com 3,1 1%. No oitavo lugar esta um
municipio com grande projeto (o comple-
xo agroindustrial da Jari), Almeirim, cujo
indice 6 de 2,77%, vindo a seguir Marabi,
com 2,46%. Nas posiq6es seguintes de
maior destaque ficaram Paragominas
(1,67%)e Altamira(1,66%).
Assim, cinco municipios nos quais fo-
ram instalados grandes projetos, com di-
reito a 27,20% da cota-parte do ICMS, e
seis municipios que, tradicionais ou nio,
nio receberam grandes projetos, incluin-
do a capital, com 34,73%. Numeros e cor-
relaq8es a serem examinadas pelos que se
preocupam com o perfil e a integridade d6
Estado do Par~.


Perfil da CVRD


Um ret rato


t O ES 8dd E








G JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE AGOSTO/2001


ria de pagina inteira para comemorar seu
amplo dominio no jornalismo impresso.
OSo que os nuimeros do indice de prefer~n-
cia do jomal se inverteram: os 98% de leitura regis-
trado ate trts anos atras se transformaram, em maio
deste ano, data da ultima pesquisa do Ibope, em
89%. Esses 9% provavelmente foram engolidos pela
nova cria da casa, o Amazdnia Jornal, apontado na
sondagem como o segundo mais lido, com 22%.
Se o mais recent dos veiculos das OrganizaC~es
Romulo Maiorana tiou leitores do concorrente na po-
sigio seguinte, essa conquista foi de pouca expresso:
o Diairio do Parai aparece com 14%, apenas um pouco
menos do que o pique da sua participa~go nesse seg-
mento, que chegou a atingir 18%. Na ultima posi~go
entire os diarios ests A Provincia do Parai, com 5%,
um percentual que n9o chega a ser insignificant, da-
das as dificuldades da empresa, sua opC5opela econo-
mia de papel e por uma circula~go restrita nos dias de
semana (atenuada um pouco aos domingos).
E claro que os indices confirmam o macigo do-
minio dos veiculos do grupo Liberal na dispute dos
diarios. Mas o tamanho dessa hegemonia provavel-
mente esta superdimensionado, tarefa facilitada pela
recusa sistematica da empresa em publicar a integra
da pesquisa encomendada.
Com 89% da prefertncia, O Liberal seria lido
por 91 1 mil pessoas, ou 15% de toda a popula~go do
Para, incluindo criangas ainda totalmente incapazes
para a leitura. Se reduzido o alvo aquela parte da
populagio com possibilidade teorica de ler um jor-
nal, mesmo que na pratica nio tenha condiqdes de
acesso a um exemplar, significaria que um em cada
tris paraenses 18 OLiberal. E faganha que nenhum
jomal do mundo conseguiu. Quando souber do fato,
o pessoal do New York Times ficara deprimido.
O feito seria ainda mais notavel se ouniverso de
refer~ncia deixasse de ser todo o Estado e passasse a
ser considerado apenas a capital. Ngo menos de 80%
da circulagio de O LiberaleC em Belem. Isto significa-
ria que quase 800 mil leitores que homram o journal
com sua leitura diaria sio belenenses. O que equivalia
a dizer que todo morador desta muy heroica cidade lI
a folha dos Maiorana, excluindo-se as criangas e os
incapacitados totals a mera leitura de um papel im-
presso. O Liberal tem todo o direito a reivindicar sua
presenga do livro do Guinesse. E~ recordista absolute
em materia de leitura de jornais. Ao menos se o que
diz na sua pega publicitaria traduzisse a verdade.
Calcula-se em, no maximo, cinco leitores por
jomnal (outras estatisticas usam como parimetro trts
leitores por jornal). Nesse caso, a tiragem media de
O Liberal seria de mais de 180 mil jornais. Ou seja:
seria superior a tiragem do Jornal do Brasil, do Rio
de Janeiro, em plena campanha para recuperar o se-


gundo lugar na antiga capital do 1I
Brasil, onde o mercado de leito-
res de jornais e muito maior do
que o de Beltm.
Sabe-se, pelo boletim do IVC I I;~~
(Instituto de Verificaqio de Cir- acusado de
culagio), que a tiragem media de vo~ anpr
O Liberal gravita em tomo de 50
mil exemplares (bem abaixo em
al guns dias da semana e um pou-
co acima no domingo). Para ser verdildelro a un I r -
so de leitores indicado na pega publicitaria, seria
precise que quase 20 pessoas lessem cada exemplar
do jornal, subvertendo a novio estabelecida interna-
cionalmente sobre padrio de leitura de jornais.
Expurgadas as fantasias e manipulaqdes, contu-
do, ainda fica um indice invejivel, que nenhum con-
corrente tem conseguido derrubar. O leitor continue
a optar macigamente pela leitura dos veiculos das
ORM, o que diz bastante sobre o estado da informa-
Co no Para. O pulo que o Amazdnia Jornal deu,
para o segundo lugar, o mais prC~ximo que qualquer
veiculo ji chegou de OLiberal em tantos anos, deve-
se a entrada no mercado de um novo tipo de leitor,
que antes simplesmente nio se interessava por jor-
nais, informando-se apenas atravts do radio e da te-
le visgo. Ele 6 fisgado pelo visual da publicaqio,
pelo mundo do entretenimento (e sua cultural da futi-
lidade), pela tal da virtualidade, que a publicaqlo
explore sem o menor escrlipulo. E, rigorosamente, o
mundo da fantasia, tanto no conteudo como na sus-
tentabilidade desse consumidor. Ele pode evaporar
mais rapidamente do que perfume vagabundo-
Alem do menu que oferece e de sua apar~ncia, o
Amazdnia se segura no seu prego, inferior ao dos


dema;is concrrentes E um palel mluno be~m
frito, mas oco. Por isso o anunciante nio se
entusiasma por essa midia. Sua equaqio s6 dar8
certo com vendagem ainda maior, mas num ponto
de equilibrio em que o consume de mais papel nio
engula sua receita da venda avulsa, um item sem-
pre inferior do faturamento global em todas as em-
presas jornalisticas solidas. Conseguira o journal
caqula dos Maiorana conquistar maior quantidade
de novos leitores, ou incursionara na seara do ir-
mgo por afinidade? Chegara ao ponto de equilibrio
ou morrera na beira?
O sucesso que alcangar na resposta a essas per-
guntas nada tera a ver, entretanto, com qualidade da
informaqio, contribui~go da imprensa para a cidada-
nia e outras quest~es mais nobres. O anuncio de
pagina inteira para comemorar o sucesso das folhas
das ORM tem pouco a ver com temas transcenden-
tais, embora a pega atribua essa lideranga a um jor-
nalismo "feito com seriedade" (a ironia, portanto, e
involuntaria). Tem a ver comn o que lhes interessa:
os cifr~es. Um simbolo tio concrete e decisive quanto
fugidio e perigoso nesse ramo sensivel de neg6cio
com a informaqio. Jornal nio e quitanda, mesmo
quando tratado por esse prisma. *


E se Jader nao renunclasse

tido como certo em Brasilia que o senador perpetraqio de injustigas contra si. Com todos os
Jader Barbalho tera o mandate cassado por seus sigilos quebrados, um home ptiblico com a
seus pares se nio renunciar logo. O presiden- trajetbria do ex-govemador dificilmente resistiria a
te licenciado do Congresso Nacional ainda mandava um precise trabalho de anatomia investigative, de
dizer no meio da semana que resistira ao destino ja esquartejamento e cruzamento e informaqdes, de au-
tragado pela imprensa. Iria abandonar a attitude ante- ditagem meticulosa. E quem mais conseguiria tal
rior, de defender o indefensaivel, para adotar uma proeza no Brasil dos nossos dias-e, alias, de qual-
posi~go de ataque contra os que o atacam. A premis- quer dos dias que ja passaram?
sa dessa posi~go e de que nio hB mocinhos nesse O quadro do memento e um tanto bizarre. Seria
filme. Todos, indistintamente, ttm o que temer. como se a imprensa antecipasse o final de uma nove-
Para o bem do Brasil, seria bom se, desta vez, la, guardado a sete chaves, mas que efetivamente ja
um senador da Reptiblica nlo estivesse blefando -e foi gravado. Os produtores iriam irritar-se com o
mentindo com uma competincia de grande ator, como "furo", mas nada poderiam fazer para defender o se-
foram os desempenhos de Ant~nio Carlos Magalhies gredo porque o capitulo final js estava efetivamente
e Jose Roberto Arruda. Nada indica, porem, que Ja- gravado e pronto para ir ao ar.
der Barbalho possa ocupar uma posi~go elevada, na A diferenga e que, no caso de Jader Barbalho,
qual haveria de montar uma trincheira para resistir a esse derradeiro memento ainda ngo foi gravado. A )


A quitanda da



sm rensa "








JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE AGOSTO/2001 7


~r --_7T _L -?
r- ( O ) a






Ha um outro aspecto grave na bhizrkrieg da o que foi uma compra direta (verdadeiramentee s-
grande imprensa national so senador Jadetr Bar- candalosa na sua execucgio e anibuir a TDAs (Ti -
balho, desvilo que pode alcangar qualgluer pesson rulos da Divida Agraria) uma possibilidade ficti-
escolhida para Judas desse ulpo de ofesnslra; as cla. de poderem formar cadeias dominiais (o que
paginas das publicaq~es envolvldas na campa- so care a litulos de domino Imobillaino).
nha njo re letem o contradIitorlo das qluesties. Se o objeti to das publicavies e polI tico, cer-
Ale~m de al guns dos personagens citados nso le- tamente elas estio consegulndo consencer a clda-
rem o direito de serem oun dos no curso da In- djio comum de: que o senator Jader Barbalho e
vestigaglio journalistic, suas manlfestaqess sio um conrumaz e rasteiro ladrdo de dinheiro plibli-
Ignoradas qua ndo eles con tesam a s refe~rencias co, um aurentico ladrso de galinha. Tudo e es-
qure lhes slio fe ltas. O leitor desa vi sado corntinua candaloso e enfatlico, seml conrradigoes, axioma-
a receber textlos unilineares. O silnc~lo fo~rrado IIsco, definitivo, lapidar. Essa unanlmidade. po-
seria a conlirmaq~o da t erdde. rem.e onseguida a custa de suf'ocar o contradi-
injusug~ada per Istoc;, Maria Eug~nia Barros to~rio, mesmo quando as reportag~ens sho inleira-
nj~o conseguiu l'azer a rev~ista public sua crtanr de menle mconsinsentes.
esclareclmenlo, env iada dua veze~s a redaga~o pau- Ao leltor mass alento e: quali ficado. como
lisia. O evcartoratio Silvio Sa. salendo-se de aos personagens coadjut antes e laterais, varies
suas amizardes, saiu logo com um caustico artlgo- deles arrastados injustificadamenle a senda (eai
Treposla. publicado na semana passada em O Li- san ha) do senador peemedebi sta, jai condenado
beral, e anuncla a contrata~go de um respeitado pelo tribunal da midia, nito passam dejsprcebl-
advogado paulista parar processar a revlsta. dos lantos erros e~lementares nas materias. Erros
Os reparos que SIll io Sa f'ez a dentincia de qlue slio ditos, repenldos e nunca corngidos, me'S-
Isrtoe sobre a panicilpagao do C'ani~rio Condurti na mo quando as publicaCbe s do prot ocajds por
prosaica Ie polemrca) operapso de compra e vendal trcealros a fazer uma erralra
dos castanhaisde haraba pelo hlrad. na epoca Esse Ilpo deleilorjaulnha juizo felto sobre
em que: Jader era a ministro, sjho do0 definital os Jader Barbalho. com um pronrualrio suficienle, eml
qlue o advogado se permuuu todo upoH de iromla no tempo e espago, para lal a~allapgo. Agora tem ele-
artigo, aproteiando para desanca3r desafelos que: mnemos para fazer um noo juizo. sobre: um certo
Identi icou por tr~is dla primaria matena. tipode, impre~nsa que, para cassar o ex-governador
De falo. mass um pouco de auldado na apura- do Para. estd jsposta a ignomrar oda a deontologia
go, teri poupado has de: tantos erroj grossearos, da prollssjio, desde assegurar o dlrello de resposta
c~omo confundlr cannon de notas com caanono de a~t corriglr erro-, demonstrados como tal.
reglrtro, Imobillario?. tratar c~omo deiapropriaqao Jader Barbalho vale esse prego?'


)imprensa, no entanto, trata do assunto na condi~gio
de caso consumado. O senador paraense que nio se
meta a besta de contrariar a antecipagilo do desfecho.
Ele que trate de corresponder ao papel de grande
villio national que a midia lhe conferiu, sem consul-
ta -e nem seu pedido, e claro.
Mas podiamos imaginar que o grito de guerra
de Jader Barbalho fosse para valer; que ele, por
convicqio pr6pria ou por desvio esquizofrtnico,
nada visse nos seus antecedentes na vida publica
capaz de incrimina-lo, e incorporasse o espirito
de um Dreifuss, ji por ele citado. O pais so teria
a agradecer por essa decision.
Finalmente seriam submetidas g prova dos
nove todas as graves acusaq8es que surgiram e
foram ficando pelo caminho na vitoriosa carreira
do ex-governador, que nunca se permitiu respon-
dC-las, ou contests-las satisfatoriamente. Agora,
com toda a grande imprensa em cima, mais o po-
der judiciario, o Ministerio Puiblico, a policia e
demais instincias do executive, nenhum escorre-
glio do senador ficaria impune.
Jamais -ou pelo menos raramente -um bomem
puiblico foi submetido no Brasil a uma devassa dessa
amplitude e profundidade. Se sobrevivesse a esse
monumental check-up, Jader Barbalho ganharia um
atestado de idoneidade 6mico na hist~ria brasileira.
Ou a definitive execra~gio publica.
Se se dispusesse realmente enfrentar todas as
instancias acusatorias, Jader tambem poderia possi-
bilitar a revela~gio das quadrilhas de predadores que
agem a sombra do poder pliblico, sangrando o era-
rio, pilhando-o de uma forma t~io selvagem como em
poucas naq~es se hadeencontrar paralelo. Se osena-
dor foi agent, veiculo ou instrument do desvio de
dinheiro publico, certamente nio agiu s6. E bem
provavel at6 que nito seja o personagem principal.
Niio e do interesse da na~gio, portanto, que a trama
seja restrita a sua pessoa. E precise revelar todos os
personagens, especialmente os ocultos, porque mais
inteligentes e, talvez, mais poderosos.
E~ certamente enganosa a presun~gio de que de
um lado estariam os bandidos e de outro, os moci-
nhos. Os papeis se embaralham, as posiq8es mu-
dam. Se esta provado de fato que dinheiro do Ban-
co do Estado do Para acabou em conta particular do
entlio governador, o Banco Central foi conivente
com essa ilicitude. Se nio foi conivente, e espan-
tosamente incompetent para detectar manobras
bancarias ou descaradamente leviano no desempe-
nho do seu papel. Este 6 um capitulo a exigir ur-
gente apura~gio, sobretudo no memento em que vol-
tam a intensificar as reivindicaqdes pela autonomia
do BC. Ele deve possui-la. Mas estara em condi-
95es de merect-la? A sociedade brasileira tem con-
fianga suficiente na institui~go para reforgar o seu
poder de autoridade monetaria?
A mesma duivida se aplica ao Ministerio Publi-
co, em particular ao MP do Para. E notbria a irres-
ponsavel busca de notoriedade entire representantes
do MP na capital federal. Deve-se estender as con-
quistas inscritas na constituiCtio de 1988 a a~gio de
promotores e procuradores a frente das investiga-
95es policiais como garantia da execu~gio (e do res-
peito) da lei. Mas causa espanto ver um represen-


tante do MP a dar entrevistas seguidas a imprensa,
antecipando o que ainda vai fazer, dando como ver-
dade elements ainda pendentes de verificapilo. Pior
e ver a omissIlo convenient do MP estadual, enre-
dado nas teias que teceu para evitar encarar de fren-
te os documents que de Brasilia lhe foram manda-
dos pelo Banco Central.
Se Jader Barbalho renunciar agora, manchando
a credibilidade do Senado com mais um blefe, o
quarto desde a cassa~gio de Luiz Esteviio, ele pode-
ra at6 voltar ao cargo em dois ou tris meses, se
nenhum dos seus dois suplentes assumir, numa
elei~giosuplementar paramandato de umano emeio,
enroscado na dispute seguinte, do pr6ximo ano,
num faz-de-conta que so mal fari a moral political
do pais (se e que o eleitor assistira impassivel a
toda essa pantomima, votando pelo cabresto).
Se, por uma dessas sempre bem-vindas impro-
babilidades, o ex-governador levar a sdrio o desa-
fio de provar sua inconvicente inocincia, o Brasil
lucrara-e muito-com essa surpresa. As barreiras


sedio rompidas e a historia com enredo pre-defini-
do escapara ao comando do presumido autor, arras-
tando tudo o que for podre, criando a possibilidade
de puni~gio para todos os que delinqiliram -e niio
s6 para aquele que a grande imprensa brasileira
escolheu, em comit& fechado, como bode expiato-
rio, ou boi de piranha.
Jader Fontenele Barbalho encerraria sua car-
reira political com algo que dela sumiu ja ha bas-
tante tempo: o sensor da honra. Desceria quase so
as escadas da glbria passada, mas teria a certeza
de encontrar do outro lado, no sitio da desgraga,
que iria ser sua morada pelos prbximos anos,
amigos verdadeiros, interpretes da gratidito deste
pais, generoso com os ingratos representantes po-
liticos que costuma eleger.
Mas isso, infelizmente, ja e materia para so-
nhos, ou delirios. O circo esti armado eet uma ses-
sbt circense o que esta programado para os pr~ximos
dias-e para o silancio que se seguirai a rentincia do
senador Jader Barbalho. *











Tr~gua
Algu~m com trlnsito livre entire o governador Almir Gabriel e o prefeito Edmilson Rodrigues
devia incumbir-se de uma tarefa de alto interesse ptiblico: convencer os dois a abrir um
canal de dialogo, acima das divergencias political, para nio prejudicar os cidadios
sujeitos aos seus atos. Poderiam ate criar uma comissio parit~ria, formada por auxiliares
de conflanga dotados de elementary compettncia professional e bom sensor, para examine~
desapaixonadamente as pendtncias das parties em assuntos de trato comum.
Os 1,2 milhio de belenenses merecem respeito suficiente para que aceitaveis
desentendimentos de natureza tecnica sejam tratados pelo criterio unico do bem coletivo,'
\ evitando-se que contenciosos, como os que envolvem a Ctbel e o Detran, derivem para
algo que ofende os brios da cidadania: a pura molecagem entire autoridades pxiblicas.
As assumidas e as enrustidas. As que mandam e as que executam.

aberta, com data certa para ocorrer: a partir da campanha eleitoral do prdximo ano.tsqeocmod atlae u et etanfro cb uager


Jornal Pessoal
Editor* Luto Flavi Pir.Io Fones: (091) 223-7690. 261-528 e 261 4827 Contale: Twvenarners Conhslan 84VJ31~66 0'a-04 e-nal. lorna~amraronc r or Prduglo Angom Pilmo Edigo de Arte: L~uantor~ioel~anaam


Imortal idade

O arquiteto Paulo Chaves Fernandes pode alcangar,
enfim, a imortalidade que tanto busca. Basta que seja
inteligentemente fiel ao original nas obras de
restauraqio do Teatro da Paz. E o tipo do trabalho para
o qual o perfeccionismo e o olho critic de Paulo
poder~io contribuir decisivamente, eliminando as
agressbes que a bela 6pera paraense sofreu no cursor de
reformsa" anteriores. Quanto mais fiel for ao original,
resolvendo com competincia os impasses decorrentes
dessa restauraqio (como esta fazendo ate agora) e
deixando de lado maneirismos e "atualizaq8es", vidros,
metals e climatizaq~es, mais o secretirio de cultural do
Estado marcara a sua interven~go.
O Teatro da Paz teri, entio, um novo marco: o P. P. (ou
seja, P6s-Paulo). Desde que, evidentemente, o brilhante
arquiteto nio queira dar a sua participa~go um grau
alem da perfeita recuperaqio do teatro. Servindo de
instrument a restauraCio da integridade de um
monument violentado ao long do tempo, ao inves de
perpetrar nova viola~go. Quanto menos se sentir a
mnterven~go da sua milo, mais present estarai o
arquiteto. Sera~ a exemplar aplicadio da velha boutade:
uma ausincia preenchendo uma lacuna.


Anivers~rio
No proximo nfamero o Jornal
Pessoal complete 14 anos de i Idal.
Comlo sempre faqo, gostaria que:
os lelrores aproveitassem a data
para uma avaliagao do journal e
opinassem sobre os rumos da
publica~go. Em c~aras o mais ob-
jenvras que for possi\ el. E a tncale
nianeira interesslnrte de comemo-
rar a data. Alesmo porque nio ha
muito quecomemorar.




Divida
A president do Tribunal de
Justiga do Estado, Climenie Pon-
tes, determinou, no m~s passado,
o seqilestro de quase 100 mil re-
ais do fundo de participag~o de
Bel~m no FPM, depositado no
Banco do Brasil, para o pagamen-
to de um precatbrio da Betubel'
em trds parcelas. A empresa re-
clamou da protela~go da prefeitu-
ra no pagamento da divida desde
1999, dois anos o tr~nsito em jul-
gado da ag8o de cobranga.


Smnal
No dia 4 O Liberal voltou a
publicar mat~rias de sua pr6pria
autoria sobre Jader Barbalho, ate
entio abordado atravts de des-
pachos das ag~ncias de notici-
as, mesmo quando a fonte era
Belem (ver Jornal Pessoal 264).
Sinal de que a sorte do senador
esta mesmo decidida, permitindo
ao journal da familiar Maiorana
apear do muro?


Trabalho
Os salarios de soldados e ca-
bos da Policia Militar do Para es-
tio em oitavo lugar no ranking
national. Na Amaz6nia, esse ni-
vel fica abaixo do Acre, Rond6-
nia, Amazonas e Roraima, este,
o Estado amaz~nico que melhor
remunera as patentes inferiores
da PM. Dados de um levanta-
mento national'
Mas a posi~go 6 ainda pior
para os trabalhadores com car-
teira assinada no setor privado
no Estado: eles tem a 15" mtdia
salarial do pais, ganhando 533
reais por mes. Na Amaz~nia, ela
s6 supera as medias de Rond6-
nia e Tocantins. O mimero che-
ga a It$ 718 no Amazonas. Na
cabega da fila est8 o trabalhador
privado do Distrito Federal, que
ganha, em media, R$ 972, um
pouco mais do que os R$ 937 do
empregado do setor privado
paulista. O que diz alguma coisa
sobre o peso da burocracia no
Brasil e a falacia da participa~go,
principalmente econdmica, do
empregado nos resultados da
atividade da empresa.
Em materia de trabalhadores
com carteira assinada, a posi-
F50 do Para no quadro national
e no 13" lugar. Com 260 mil em-
pregados regulars, o Estado
lidera regionalmente, bem A
frente do Amazonas, que tem
137 mil trabalhadores com car-
teira assinada no setor privado
(mas tambtm possui populagio
inferior a do Para).
Niio sio ntimeros brilhantes,
muito pelo contratio.