Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00214

Full Text

Jomal Pessoal
LUIjC O F LA V IO P N T' O
ANO XIV NP 264 la OUINZENA.DE AGOSTO DE 2001 RS '90O~


bl
i"
i.


DENUJNCIA



A fabrica voadora


Um ex-funcionario do grmpo fod~o Santos denunciou para o Ministdrio Puiblico Federal
fraudes que teriam sido praticadas pela empresa, uma das principals do setor de cimento
no Brasil. Entre elas, o uso no Nordeste de equipamentos que deveriam ter sido
instalados na faibrca de Itaituba. Tudo permanecia oculto gragas ao lobby da
corporagd~o, que teria benefi~ciado ate' mesmo o senador Jader Barbalbo.
Desta vez, ningudm, exceto o MP, se interessou pelas denu~ncias.


Santos transferiu clandesti-
namente equipamentos no
valor de 30 milh~es de d61a-
res, que deviam ser instala-
Edos em sua fabrica de Itaitu-
ba, no Park, a Caima, para outra fibrica da
empresa na Grande Aracaju, em Sergipe, a
Itaguassu. O ato era illegal: a Caima teve
direito a isen~go de impostos e recebeu co-
laboragao financeira da Sudam para implan-


tar seu projeto apenas na Amaz~nia, grea
beneficiada pela political de incentives fis-
cais. Ngo podia levar esses equipamentos
para fora da regiio, sem pagar todos os im-
postos e sem ser devidamente autorizada a
assim proceder.
No entanto, motors de grande porter,
paineis eletro-eletr~nicos, ensecadeiras,
aliangas e vitrolas de forno rotative, equi-
pamentos vitals para o funcionamento de
uma fibrica de cimento, que estavam en-


caixotados g espera de montagem em Itai-
tuba, teriam sido transportados para o Nor-
deste pela empresa Transmartins, de Ma-
naus, comn o uso de 10 carretas, cada uma
de 30 toneladas. No total, duas mil tonela-
das sairam das margens do Tapaj6s para o
municipio de Nossa Senhora do Socorro,
na drea metropolitan de Aracaju, onde pas-
saram a funcionar ilicitamente.
-Estas e outras graves demincias foram
feitas pelo engenheiro de minas Jos6 Ta-)







2 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE AGOSTO/2001


deu Ferreira da Cruz no dia 21 de junho, em
Brasilia. Ele depbs perante os procurado-
res da Republica Guilherme Zanina Schelb
e Oswaldo Jose Barbosa da Silva, que to-
maram por termo suas declaraq~es. Elas
motivaram o procurador federal no ParB,
Felicio Pontes Jlinior, a determinar a ins-
tauraqio de procedimento administrative
para apurar tudo o que Tadeu disse.
Ngo foi pouco, nem menos grave do
que muitas denuncias colocadas nas ca-
pas de jornais e revistas brasileiros nos
uiltimos meses. Apesar disso, e de tamb~m
envolver o senador Jader Barbalho, apon-
tado como um dos politicos favorecidos
pelo lobby do grupo Jolo Santos, a gran-
de imprensa minimizou ou preferiu ignorar
as revelaq~es do engenheiro paraense,
que apareceram apenas numa pigina do
Jornal do Brasil, sem suite alguma. Tadeu
forneceu mimeros e describes para deli-
mitar o grande poder do grupo Joho San-
tos, o segundo mais important do setor
cimenteiro. Ele foi gerente-geral da faibri-
ca em Itaituba a partir de 1987. Atou du-
rante 20 anos em virias misses que the
foram dadas pela empresa.
Em 1978 a Sudam aprovou duas novas
fabricas de cimento do grupo Jodo Santos
na Amaz~nia. O mais antigo era o de Itaitu-
ba, projeto que previa inicialmente sua ins-
tala~go em Monte Alegre. Mas a empresa
s6, parecia ter interesse imediato pelo pro-
jeto de Manaus. Por causa da pressio do
governor paraense, a Sudam exigiu que o
grupo implantasse simultaneamente as
duas fibricas. A de Manaus foi inaugura-
da em 1985, num dos primeiros atos do en-
tio president Jos6 Sarney.
Durante 14 anos o pretexto para o retar-
damento na operaqio da Caima-Itaituba foi
a falta de energia, embora, no compromis-
so de aprova~go do empreendimento, a em-
presa tenha se responsabilizado pelo auto-
suprimento. Toda a constru~go civil foi
concluida e os equipamentos, ainda nas
caixas, aguardavam a chegada de uma li-
nha de energia que garantisse o forneci-
mento constant de 30 mil kw. Em 1999, gra-
gas a um investimento plblico de 240 mi-
lhies de reais, a energia de Tucurui che-
gou a Itaituba. Mas a fibrica nio entrou
em operaqio ate hoje.
Depois de ter absorvido R$ 150 mi-
lh~es, a Caima-Itaituba ainda estaria pre-
cisando de mais R$ 40 milhaes para estar
em condiq6es de dar a partida. No entan-
to, segundo a denuncia do ex-gerente-ge-
ral da fibrica, o problema 6 que seus equi-
pamentos, depois de terem sido transferi-
dos clandestinamente, s6 agora esariam
retornando da mesma maneira. O que de-
viam ser peas novas, desgastaram-se no
use fora da Amaz~nia, para onde teriam
voltado sete anos depois de sairem da re-


giho e 15 anos ap6s o inicio da opera~go
da fibrica de Manaus.
Mas essa nio teria sido a 6nica fraude
desse tipo praticada pelo grupo Jolo San-
tos, o segundo maior do mercado cimentei-
ro e o de mais forte presenga em toda a
Amaz6nia: "transferincias de grande vul-
to de equipamentos adquiridos no merca-
do international comn recursos da Sudam
foram efetuadas tamb~m para outras uni-
dades de neg6cios do grupo, situadas em
outras regimes, destacando--se a transfe-
r~ncia para a fabrica da Itapessoca, em
Goiana, Pernambuco, e Itapetinga, em
Mossor6, no Rio Grande do Norte, e a fii-
brica da Itabira, em Capso Bonito, Sgo Pau-
lo", disse Tadeu aos procuradores fede-
rais. Os desvios de equipamentos de Itai-
tuba tamb~m eram feitos para a Cibrasa,
em Capanema.
Gragas a sua estrutura logistica e aos
apoios nas esferas de poder, political, bu-
rocritica e empresarial, obtidos freqtiente-
mente com o uso de suborno, a corporaqio
conseguiria tangenciar ou furar as malhas
da lei para obter maior rendimento nos seus
negocios. Com base em seus 20 anos de
trabalho, Tadeu relata procedimentos ile-
gais, ilicitos ou imorais que seriam adota-
dos pelo grupo Jolo Santos para conse-
guir vantagens, como vistoria controlada
feita por t~cnicos da Sudam, deslocados
de Beltm para Itaituba no jato da empresa,
que tamb~m era oferecido a politicos. Eles
seriam tamb~m beneficiados por dinheiro
do caixa dois, desviado para campanhas
eleitorais. Entre os politicos favorecidos
estariam o deputado federal Arthur Virgilio
Neto (do PSDB do Amazonas e lider do
governor Fernando Henrique Cardoso), o
atual governador do Amazonas, Amazoni-
no Mendes, o senador Gilberto Mestrinho
(agora presidindo a Comiss~io de Etica do
Senado), H61io Gueiros e Jader Barbalho.
Tadeu Cruz diz que um m~s depois da
inspegio viciada, o Conselho Deliberativo
da Sudam liberou para o projeto de Itaituba
432 milhaes (em moeda de meados de 1990).
Na presta~go de contas, o valor das fatu-
ras apresentadas pela Caima foi superfatu-
rado para incluir "faturas de construg~o
civil e montagem mechnica da ampliaqio da
fibrica de cimento localizada em Itaiutuba".
O engenheiro "afirma e confirm" que "os
superintendents da Sudam que mais cola-
boraram e obtiveram vantagem de forma ili-
cita do Grupo Industrial Joso Santos foram
os senhores Henry Cheeralla Kayath e Eli-
as Sefer, os quais recebiam propinas para
liberaqio de valores dos projetos solicita-
dos pelo Grupo Joso Santos atravts de
d61ares americanos em especie".
Com a interven~go na Sudam e a nome-
ag8o do coronel Roberto Klein para a su-
perintend~ncia, "minguaram os recursos


para o Grupo Joio Santos", diz o engenheiro
no seu depoimento. Mas a empresa conse-
guiu abrir outra porta, atraves do Banco do
Brasil, depois que levou o entio presiden-
te da institui~go, Mgrio Berardo, para uma
visit a Itaituba. Um mts depois o BB teria
liberado 85 milhdes (em moeda de entgo)
para a empresa.
O grupo funciona como um super-po-
der na Amazbnia, no entendimento do en-
genheiro, por dispor de um sistema de
transport complete. Ad-fotal-de baltsas e
empurradores da Itaiguara Transportes Flu-
viais, constituida pelo grupo em 1987, ser-
viria tanto para o transport regular de pro-
dutos declarados, como calcirio, argila,
gesso e minbrio de ferro, insumos princi-
pais para a produ~go de cimento, como para
"contrabandear equipamentos eletro-ele-
tr6nicos ou ate mesmo carros importados
para algum alto executive do grupo".
Tadeu diz que "video-cassetes e toca-
fitas para carro em quantidades elevadas",
fugindo g fiscaliza~go aduaneira, eram em-
barcadas no porto da Caima em Manaus e
desembarcadas em Santartm, Itaituba ou
Belem. A tripula~go que fazia essas viagens
aproveitava para desviar o combustivel dos
motors. Os altos executives da corpora-
F8o "tinham conhecimento desta pratica ile-
gal e com ela compactuavam, pois solicita-
vam que lhes fossem trazidas mercadorias
de Manaus, para usufruto pr6prio ou para
parents pr6ximos". A empresa chegou a
transportar grande quantidade de explosi-
vos pelos rios amaz6nicos sem obedecer
is normas impostas pelo Ministbrio do
Exercito.
Todas essas irregularidades seriam pos-
siveis porque as balsas, com 800 a 1.200
toneladas de capacidade cada uma, saem
de ports privativos e descarregam em ou-
tros ports particulares da empresa, aos
quais nio tem acesso "nenhum 6rgio de
fiscalizaglo". Nesses terminals, al~m dis-
so, "nlo havia balangas rodovibrias para
efetuar a medi~go do peso efetivo trans-
portado at6 as balsas", o que eximiria a
empresa de pagar os impostos efetivamen-
te devidos, calculados com base no peso
da carga a ser transportada.
Naturalmente, as denuncias que o ex-
funciondrio fez em Brasilia, atendendo a no-
tificaglo do Ministerio Publico Federal, po-
dem ser interpretadas como uma represilia
por desentendimentos internos que leva-
ram A sua demissio. Mas o MP fez bem em
oficializi-las e instaurar procedimento para
apurar a veracidade e a extensio das gra-
ves revelaqbes de Tadeu Cruz. Quest~es
que at6 entilo nio passavam de rumor de
bastidores ou tema de boatos podem ago-
ra, g luz do dia, assumir sua verdadeira face
durante o contencioso, gragas ao contra-
ditbrio que o MP instalou. *








JOURNAL PESSOAL *la QUINZENA DE AGOSTO/ 2001 3


1


Acima da Bahia, o jornal de maior circula-
gio no Brasil e O Liberal, com uma media de
50 mil exemplares de tiragem. E lido por 85%
dos leitores de jomais da capital paraense, que
tem 1,2 milhio de habitantes. HE pelo menos
trts semanas os 250 mil leitores de O Liberal
nio 16em um texto de autoria da pr6pria reda-
Fgo do journal sobre o principal tema politico
da imprensa national: a sorte do president
do Congress Nacional, o senador paraense
Jader Barbalho. Todas as materias ttm origem
nas ag~ncias nacionais de noticias, com seu
crtdito bem destacado. Mesmo quando, como
no caso de uma dessas ag~ncias, o corres-
pondente Ctambtm reporter deOLiberal, que,
para tais efeitos, deixa de s6-lo.
Os leitores mais perspicazes devem estar
atras de uma explicaqio para esse fato intri-
gante. Ainda mais porque o journal, o mais an-
tigo dos veiculos das Organizaq6es Romulo
Maiorana, detentoras de um quase-monop6-
lio das comunicaq~es no Pard~ (sobretudo pela
afiliaqio a Rede Globo de Televisio), sempre
foram anti-Jader. Especialmente em periods
eleitorais, quando costumam abrigar ataques
virulentos ao lider do PMDB.
Por duas vezes Jader se elegeu govemna-
dor do Estado enfrentando a poderosa mdqui-
na de information da familiar Maiorana. S6 con-
seguiu estabelecer uma tregua com ela a base
de farta publicidade official, o bastante, por~m,
para ter direito a alguma boa vontade apenas
at6 uma nova elei~go. Na hora da votagio, o
grupo Liberal gostaria de se livrar do desafeto
e se tem empenhado com esse objetivo. Sem
muito sucesso, alis.
Alem de evitar que materias de denlucias
contra o senador peemedebista saiam de sua
reda~go, o jomnal, quando a onda de acusa-
95es se tomnou abundante dema'is, tratou de
barrd-la em espagos menos am-
plos do que se podia imaginar.
Como se estivesse querendo
mandar um recado ao indigita-
do personagem: de que estava
publicando apenas o inevitl-
vel, noticias que, se suprimidas,
langariam sobre a empresa a
clara conivincia com os ilici-
tos do mais influence politico
no Parii nas duas 6dtimas d~ca-
das. Talvez um novo acerto de
contas fique para depois que
os interesses comerciais da
corporaqio sejam atendidos.
No memento, o grupo Li-
beral depend de uma linha
de credito do BNDES para a


ORM Cabo, empresa criada como extensio
dos pianos da Globo para a televisio fecha-
da, por cabo. Menos de um quinto do cabe-
amento foi instalado ate agora, um atraso
que irrita os parceiros nacionais, atormenta-
dos, por sua vez, pelo alto endividamento
em moeda estrangeira.
Para atualizar o cronograma, o grupo Libe-
ral precisa dos 50 milh~es de reais solicitados
ao banco estatal, mesmo que s6 consiga ajus-
tar os prazos (a defasagem tecnol6gica do sis-
tema 6 outra questio). Certamente Jader Bar-
balho, como president do Senado, tinha a mio
o poder de fazer andar ou obstruir a tramita-
950 do process e de outras demands que
passam pela camara alta. Convinha nio desa-
grada-lo. Agora, as coisas podem mudar.
Vgo mudar tambtm para a rede de comuni-
cagLo que o ex-governador comegou a former
em 1982, quando montou, precariamente, o
Diairio do Parai. Desde entio, seu maior desa-
flo tem sido a profissionaliza~go. A linha edi-
torial estava sujeita ao calenddio eleitoral: mal
se aproximavam novas corridas ao voto, se
transformava em jornal de campanha, deixan-
do de lado as normas redacionais para fazer o
jogo politico. Perdia o que havia conquistado
de credibilidade. E leitores, naturalmente.
A custa de cortar na pr6pria care, pu-
blicando integralmente o farto material das
ag~ncias de noticias que contratou, inclusi-
ve gcidos coment~rios de colunistas sobre
o donor da empresa, o Diairio do Parai havia
conseguido assumir o segundo lugar entire
os didrios de Belem, diminuindo a distincia
que o separava de O Liberal, antes abissal
(posi~go que perderia para o Amazdnia, o
mais novo dos jornais didrios, que tambem
tirou leitores do irmio mais velho).


Quando, porem, as eventuais critics fo-
ram substituidas por uma cascata de ac usa-
95es, despejada diariamente a partir das se-
des das agtncias, a liberalidade passou a
ser vista como suicide. Subitamente, sumi-
ram das colunas reproduzidas pelo journal as
refer~ncias ao polemico senador. Materias,
s6 as que expressavam as iniciativas dele,
sempre na defensive.
Mesmo ngo havendo eleigio desta vez, o
Diairio voltou a ser um journal de campanha.
Nlo mais para eleger Barbalho e seus apani-
giiados, mas para tentar preservar o ultimo
mandate que conquistou, ha seis anos e meio,
ameagado como nunca, que pode arrasti-lo
do poder. Ainda que, agora, a custa de voltar
a perder os leitores que o ensaio de profissio-
naliza~go havia permitido conquistar.
Quanto ao leitor, bitolado pela timidez edi-
torial convenient que os interesses do grupo
Liberal lhe impuseram e impedido de uma mai-
or amplitude de cobertura, que se tornou sui-
cida ao Didirio, mesmo que o leve a uma nova
crise, a said para a melhor information esti
nos jornais, revistas e noticiosos das redes
nacionais, lidos e vistos como nunca. Neles,
os fats sho relatados com muito mais abun-
dlncia do que na imprensa local.
E claro que se Jader Barbalho acabar cas-
sado, os que ainda receiam atacb-lo, temendo
que, mais uma vez, sua incontestivel habili-
dade e sua sagacidade political lhe permitam
sair do xeque-mate em que foi posto pela gran-
de imprensa national, vio colocar o bloco na
rua. Para abrir alas a todo o noticiatio que, por
um motive ou por outro, esti reprimido na ter-
ra em que o nome de Jader Fontenele Barba-
lho ainda inspira respeito, ou intimida. O uni-
co territ6rio, neste memento, em que tais ca-
racteristicas podem ser observadas no Brasil.
Qualquer que venha a ser
o desfecho da novela, uma
verdade mais uma vez se evi-
denciou: os 6rgios da gran-
de imprensa no Pardi colocam
seus interesses particulares
acima do interesse da opinion
publica. Ngo se vexam de ser
contradit6rios, incoerentes,
vol6veis ou levianos. No ho-
L rizonte, nlo ha indicios de
mudanga nessa attitude. Ao
que tudo indica, a informaqIo
continuard sujeita ao contro-
tle e d manipulagiio decorren-
tes de algo que tem sido tan-
to virtual como real: o mono-
p61io da informa~go. *


A voz da imprensa


na terra do Barbalho














0 tribunal especial


A malha~go do Judas perdeu os parfime-
tros tecnicos e eticos que um bom trabalho de
investigation jornalistica exige. Basta langar as
acusaqdes na dire~go dos imensos costados
do politico paraense para que o vento se in-
cumba de fixa-los no alvo. Ngo haver8 uma
posta-restante para tanto lixo que tem sido
colocado na porta de entrada do leitor, um
corregedor-geral para deslindar a verdade da
meia-verdade, da quase-verdade, da falsidade
e da mentira pura e simples.
No deslinde das teias em que se enredam
as cadeias dominiais de todos os im6veis ru-
rais do lider do PMDB, Veja deixa de lado as
complicaqdes intrinsecas e as aderancias tipi-
cas da grilagem para apresentar explicaq~es
prontas e acabadas, mas de pt quebrado e
rima pra IA de pobre. E um bom ponto de parti-
da supor que o poderoso politico paraense
tenha sido beneficiado, por portas e traves-
sas, laranjas e testas-de-ferro, por alguns dos
atos que realizou ou patrocinou em instfincias
oficiais. Mas 6 precise apurar cada um dos
elos dessa teia, evitando generalizaC~es in-
corretas.
Segundo 0 julgamento de Veja, a fazenda
Rio Branco foi passada de present ao sena-
dor em uma operaqio triangular, na qual Os-
mar Borges foi intermedidrio na transferencia
da propriedade da Estacon para o ex-governa-
dor. Era a retribuigao da empresa "pelas duas
maiores obras no Minist~rio da Previdencia
Social na gestio de Jader, no fim da decada de
80", que teriam custado 15 milhdes de d61ares,
superfaturados. Nenhuma dessas obras teria
sido concluida: "A mais cara, erguida em Be-
16m. Sofreu imploslo. Era t~io malfeita que nio
compensava sequer tentar recupera-la", afir-
ma a revista.
Uma coisa 6 fato incontestavel: ainda nio
houve uma unica implosio em Belem. O fato
poderia ser checado por telefone junto ao Crea,
o sindicato de engenharia, as secretaries de
obras estadual e municipal, uma construtora
ou um jornalista local. Logo, todo o enuncia-
do da revista estl contaminado por esse deta-
lhe, absolutamente falso. Como faltam outros
dados relevantes (qual a outra grande obra, a
data de sua execu~go, o valor unitairio, compa-
raqio entire as obras da Estacon e as outras do
ministerio), o que podia ser uma pista segura
para desvendar uma alegada tram6ia de toma-
ld-d6-c6 entire empreiteiro e autoridade p~ibli-
ca, comn o uso de um biombo alaranjado, para
fraudar o erario, acaba parecendo uma recons-
titui~go inverossimil, mesmo que possa estar
na dire~go certa.
Ja a Istoe desta semana, a partir de mais
uma gravagao clandestine, feita tris anos
atrds, revela a rede de cinco operadores


Jader Barbalho se tornou um cachorro
morto: ninguem tem mais medo de bater nele.
Tambem virou uma etiqueta gomada: em
quem dele se aproxima ou com ele e relacio-
nado fica colada a imagem de corrupt ou
venal. Abusando dessas duas condiqdes, a
grande imprensa national passou a atirar a
esmo na dire~go do president licenciado
do Congress Nacional. Sabe que acertara
pela regra das probabilidades. Mesmo que
erre, nio havera conseqitincia: ninguem te-
ria coragem de remar contra a onda de exe-
cu~go do ex-governador do Para.
Mesmo que acabe pagando uma conta
superfaturada pela adigio de denuncias mal
apuradas, ou simplesmente destituidas da
mais elementary verificaqio, Jader Barbalho
tem culpa no cart6rio. Achou que a con-
quista de um promont6rio de poder, como
a cadeira de president do Senado, apaga-
ria as sujas marcas do passado. EstB come-
gando a guitar a divida moral e financeira
com juros, corre~go monetiria e todos os
gravames possiveis e imagindrios, devidos
ou abusivos.
Assistiu quieto e calado, como bom ca-
brito, que jamais berra, a onda ir se forman-
do. Comegou a reagir tardiamente, mas, ain-
da assim, reage calculadamente, sem proces-
sar ningutm, sem enfrentar cada um dos
acusadores g luz da razio e do dia. Ngo e a
imediata, just e mais cabal indignaqio por-
que o terreno diante dele e pantanoso. N~o
uma reta s61ida, que leva a largos horizon-
tes, com a qual conta o home honrado, ain-
da quando vitima de armaqdes.
Jader tem que avangar com cautela, me-
dindo o terreno. Sem que esses cuidados o
isentem de poder ser surpreendido em uma
areia movediga. Que, ali~s, ele mesmo per-
mitiu que se formasse em tantos anos de
sil~ncio conivente diante de acusaq6es con-
tinuas sobre malversa~go de recursos pu-
blicos colocados sob sua gestio, supervi-
sio ou responsabilidade direta.
Ainda assim, a grande imprensa esta
prestando um desservigo a democracia bra-
sileira ao se transformar num tribunal de ex-
ce~go, que dispensa desde o que 6 exig~n-
cia formal ate o que 6 substantive no pro-
cesso de apuraqio da verdade, na instincia
civil ou political, e o devido process legal,
no timbito judicial. Jornais e revistas se in-
vestiram das prerrogativas de Ministtrio
Puiblico, da parte, do julgador, da instbncia
recursal e, por fim, do executor da condena-
Fgo, que tanto pode ser o carcereiro como o
pr6prio carrasco.
A chamada de capa da revista Veja des-
ta semana diz tudo: "Jader Agora 6 s6 cas-


sar". No texto, sentencia: "Agora, com a
comprova~go de que o president do Sena-
do mentiu aos cole gas, e so abrir o proces-
so e cassar".
Na verdade, a revista est8 dizendo que o
senador mentiu. A revista julga ter demons-
trado que Jader merece ser cassado pelos fa-
tos que arrola. Mas a decisio, ao menos no
process politico, 6 de seus pares. Ngo que
eles devam se julgar metidos numa torre de
marfim e ignorar a voz das ruas, de onde veio
seus mandates. Devem considerar a tudo. Mas
nalo podem iniciar um process que ja nasceu
decidido pela revista. Yeja s6 reconhece, como
papel dos parlamentares, preencher as reticin-
cias da oraqio,ahmaneira do tristemente famo-
so vestibular com questdes objetivas. E~ colo-
car o xis e pronto.
Numa imagem bem popular, seria como se
o jogador cobrasse o escanteio, corresse para
a pequena area, cabeceasse na dire~go da tra-
ve e admitisse apenas que o goleiro fizesse
pose para valorizar o gol. Mas n~io e esse o
papel da imprensa numa sociedade democra-
tica: cabe-lhe fornecer informag~es, contextos,
interpretaq6es e opinides para a decisio da
sociedade. Mas nio ser o agent formador e a
opinigo puiblica ao mesmo tempo.
Veja parece j8 nlio ter o menor escrlpulo
de ser quarto poder, nio um poder a mais,
simplesmente, mas o poder, o supra-poder.
Acusada por Jader de se haver transforma-
do num instrument da vinganga do ex-se-
nador Ant~nio Carlos Magalhies, uma de
suas viuvas (como se dizia, em passado re-
cente, dos integrantes da banda de m6sica
da UDN, as eternas vivandeiras de quarteis,
a clamar por um golpe), a revista se defended
do alto do seu trono, acima dos cidadaos
comuns: "Se existe 'campanha orquestrada',
seu maestro 6 a opiniao pdiblica, que n~o
tolera mais homes publicos com o curricu-
lo de Jader, e a orquestra tem exibido uma
afinaqio impar".
Ha, e claro, uma saudavel reaqio dos cida-
dios g carreira de desmandos e abuses dos
homes puiblicos, tenham ou nio mandate
politico. Talvez a roubalheira nunca tenha sido
tio grande quanto chegou agora. Talvez, jus-
tamente por isso, ultrapassou o limited da tole-
rincia, da omissio ou da conivtncia social.
Os malversadores, que julgavam tudo poder,
estio se surpreendendo ao ver seus delitos
denunciados e comegarem a pagar pelo que
fizeram. Mas 6 tambtm evidence que, no caso
de Jader Barbalho, a personifica~go do mal nio
resultou de uma iniciativa da opinion plblica,
mas de uma sugestio (para nio dizer indu~go,
intense e sistematica) da imprensa, com des-
taque para Veja.







JOURNAL PESSOAL *la QUINZENA DE AGOSTO/ 2001 5






da grande imprensa


bem pessoas honradas e honestas, enfladas
de cambulhada num saco sem fundo antes de
serem ouvidas e poder se defender.
Saco do qual talvez nio consigam mais sair
porque os juizes do tribunal especial da im-
prensa nio estio nem ai para essas coisas,
esses "detalhes". Ainda mais porque todos
os indigitados sio do Norte, terra de bugres e
selvagens, de gente ruim como Jader Barba-
lho, que, neste particular, esta fazendo por seu
povo, o povo humilde que lhe deu votos na
presun~go de que "rouba, mas faz", um des-
servigo do tamanho do que a grande imprensa
presta g democracia.
Do enredo pode-se chegar g triste mo-
ral de que, nessa hist6ria, s6 hA um ausen-
te: o mocinho. *



Direito

Constituigdio e democracia (Max
Limonad, Sgo Paulo, 290 plginas)
reproduz as interven95es durante um
seminirio international promovido em
Bel~m, em 1988, pelo Programa de
P6s-Graduaqio em Direito do Centro
de Ciincias Jursdicas da
Universidade, para comemorar os 10
anos da atual constitui~go brasileira.
A coletinea, organizada pelo
professor Antonio Moreira Mau~s,
redine 15 palestras, nove proferidas
por especialistas nacionais e
estrangeiros e seis por advogados e
bachareis paraenses.
Pode parecer umna correlagilo
desigual, mas nio e: o livro atesta a
maturidade de uma certareflexlo
juridica no Para sobre temas
permanentes no mundo do direito e
situagdes emergentes, algumas delas
associadas a fronteira, que uma
instituigio do
saber situada na
ponta da linha
precisa iluminar
com sua
anahise
sistemitica e
recorrente.
Uma obra
litil para os
estudantes
da pr6pria
UFPA e das
demais -
universidadesrgoas


"hoje no departamento financeiro das empre-
sas de Jader". Uma informaqio tio falsa quan-
to afirmar que Joercio Barbalho, outro opera-
dor, e o "irmso cagula de Jader".
A revista pode alegar que tudo isso 6 de-
talhe. Talvez. Ngo e a hierarquia do fato que
est6 em jogo, entretanto: e a circunstincia de
serem fats elementares, que podiam ser che-
cados na mais primiria das apurag8es, num
trabalho de jornalismo e nio de caqa g bruxa,
ainda que a perseguida seja, de fato, bruxa.
Se esses detalhes nio influem na ess~ncia
das irregularidades e ilicitudes em que se acha
mergulhado o president licenciado do sena-
do, podem servir de sentenga condenat6ria
contra pessoas que poderiam ser classifica-
das como raia miuda, mas que podem ser tam-


responsaveis pelas atividades subterrtne-
as de Jader Barbalho. Ngo consegue grafar
corretamente o nome complete de um de-
les, Antinio Jose Guimaries. Quatro des-
ses alegados operadores podem ser inclui-
dos no rol porque sempre estiveram na ilhar-
ga do ex-governador.
Mas como agregar a esses apparatchicks
ao tucupi uma pessoa como Maria Eug~nia
Barros, que atuou no Incra, na epoca em que
Jader foi o ministry da reform agrdria, exata-
mente na mio oposta de gente como Henri-
que Santiago, que a revista garante ter sido
parceiro dela na divisio de cadastro e tributa-
gio do 6rgio, e que qualquer pessoa bem in-
formada sabe ser seu contratio? Para dar forga
9 demincia, Istot diz que Maria Eug~nia estd


passadismos imobilistas e memorialistica vici-
ada, aproximaqio e refuga.
Lamento nio ter conseguido tirar meus lei-
tores de sua letargia, da quadratura viciada de
uma cidade que s6 se apercebe da sua hist6ria
para lamentar, quando um pr~dio desaba, um
monument e desfigurado, um espago e com-
prometido, uma chaga 6 aberta no tecido urba-
no, apodrece e more. E assim caminha a desca-
racterizaCio -e assim rompem-se os elements
de identidade da pessoa com sua cidade.
Se fosse prefeito, eu nomearia o arquiteto
Paulo Cal ouvidor-geral do municipio, com
mandate de dois anos, direito a uma reelei~go,
salario decent e sem poder ser demitido, ex-
ceto nos casos excepcionais previstos legal-
mente. Paulo teria um carro e uma verba de
representagio para desempenhar uma mission
para a qual foi talhado como ratos dentre n6s:
andar pela cidade, observando-a e conversan-
do com seus moradores.
Uma vez por semana, Paulo seria levado a
um audit6rio para relatar suas atividades, ou-
vir perguntas, responder e bater papo. Qual-
quer um teria acesso a essas saisons. Depois
delas, Paulo escreveria um relatbrio a respei-
to, mais uma memoire do que exatamente uma
prestagio de contas. Podia dizer o que qui-
sesse. E teria que estar em condiq6es de res-
ponder a tudo, inclusive o que nio estivesse
disposto a ouvir.
Bel~m ganharia muito com isso. E esse
negbcio de transparancia deixaria de ser um
jargio em vocabulario de marqueteiro e dis-
curso de prefeito para ser uma agradavel reali-
dade, num jogo de sensibilidade, humor e in-
telig~ncia do qual esta cidade tem sido priva-
da, para prejuizo de todos, exceto dos que cul-
tivam a bilis ruim.


Muitos mimeros atras convoquei meus
leitores a relacionar aquelas casas, conjuntos
de casas, logradouros publicos ou monumen-
tos com os quais tivessem uma rela~go senti-
mental, afetiva ou intellectual mais forte. Que-
ria que dessem vida is construg8es da cidade
e ajudassem a inventariar aquelas gs quais fre-
qtientemente nio dams maior importincia,
embora sejam realmente importantes.
Parece que a memo~ria social s6 consegue
incorporar como bens de valor as edificaqdes
colonials. Ou, no maxtimo, as que surgiram na
epoca da borracha. No entanto, a cidade est~i
cheia desses marcos fisicos da boa engenharia,
da boa arquitetura, da histi~ria (coletiva ou indi-
vidual) e do gosto de pessoas de care e osso,
surgidos em 6pocas mais recentes. Marcos cujo
desaparecimento acarretard uma grandes perdas
para a cidade. Algumas, irreparaveis.
Infelizmente, ningutm responded ao ape-
lo. Trbs m~imeros atris eu pr6prio chorei a
queda do casario da av6 de Beatriz, querida
companheira dos dias jri longinquos da ado-
lesc~ncia. Paulo Cal ecoou esse lamento em
sua coluna no Didrio do Parai, com a verve e
a sensibilidade de sempre. Depois de d6ca-
das de vida em Belem, cada um de n6s tem
nela extensbes de si, marcas vivas de mo-
mentos da sua hist6ria, anexos do seu que-
rer, escaninhos da membria. E assim que uma
cidade vive, pulsa.
E assim que mantemos nossos lagos mais
estreitos comn ela, numa rela~go de simbiose e
de energia, numa dial~tica da contempla~go,
do prazer e do usufruto. Se ngo somos capa-
zes de defender esse patrim6nio, nio somos
merecedores da cidade que escolhemos para
viver. A rela~go passa ser patol6gica, guar-
dando migoas e ressentimentos, alimentando


Nossa cidade








4 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE AGOSTO/ 2001


posta de trabalho e que n~io poderiam
ser frustrados por attitudes politica-
mente omissas de minha parte. Nbo
tivesse vencido a consult, ainda que
por margem insignificantt" -se "in-
significante" 6, sem estar em cargos,
veneer o poder da miquina adminis-
trativa instalado, o poder econbmico
canalizado pela Fadesp e aquele do
principal journal da cidade, que se asso-
ciou ao advers~rio-creia, carol L~cio,
ji teria me retirado da dispute desde a
publicagio official do resultado das ur-
nas. O que en nio esperava era que
colegas que, como eu, haviam se com-
prometido de puiblico em desistir da
dispute em caso de derrota, para justi-
ficar sua permanbncia apelariam a re-
cursos escusos e pouco 6ticos, na ver-
dade uma farsa jamais vista na hist~ria
eleitoral de nossa Universidade, trans-
formada uma Resolugio inicua e sem
valor juridico (a malfadada 601) em
centro do picadeiro, devidamente or-
namentado por panfletos, faixas e no-
tas e matirias jornalisticas de quinta
categoria, vergonhosas, confundindo o
pliblico menos informado e toda a so-
ciedade paraense, numa exposipio ne-
gativa da imagem da Universidade.
Como cientista politico, ndo ig-
noro que, em torno das eleiq8es de
reitor de uma Universidade como a
Federal do Pard com quase trinta
mil alunos espalhados em todo o es-
tado e o poder de influenciar a opi-
niho piblica -, interesses outros que
aqueles estritamente internos B ins-
tituigio est~o sempre transpassan-
do-a, sobretudo em conjunturas di-
retamente condicionadas pelos jo-
gos mais amplos das sucess~es nas
vdrias instincias da arena political.
Nilo acredito, contudo, que um rei-
tor possa ser "ponto de ligaqilo"
fundamental de alianga political en-
tre partidos, no context em que
vivemos. No meu caso, dlo condi-
cionei minha aceitapio g candidatu-
ra a reitor nem a interesses partidi-
rios (nlio tenho filiaqio alguma), nem
muito menos a interesses de politi-
cos em particular. Desde o momen-
to em que entrei em cena, chegado
do p6s-doutoramento, recebi, sim,
o apoio do professor, ex-reitor e hoje
Dep. Nilson Pinto (de quem ji fui
Pr6~-Reitor de Extensho e que conhe-
ce o meu trabalho e minha postura),
mas nso fui candidate porque ele
assim o desejou. Quando precise,
encerradas as eleigdes e composta a
lista triplice (e apenas entho!)- de-
pois do pr6prio CONSUN n9o ter
honrado seu compromisso pr~vio de
manter o resultado da consult na
ordem de votagio -, na ausbncia do
apoio do Reitor e sabedor das arti-
culagaes political de meu advers8-
rio, recorri entio nio apenas ao
apoio do Dep. Nilson, como ao Sen.
Jader Barbalho e tantos outros po-
liticos com influincia no Plan alto,
com o ~inico objetivo de garantir a
manutenglo do resultado da consul-
ta direta, condigio principal de mi-
nha legitimidade e de minha reivin-
dica~go. De nenhum deles recebi
qualquer constrangimento no apoio
ou cobranga de "prtstimos". Qual-
quer afirmaqio neste sentido nio
condiz com a verdade e serb fantasi-
osa. Nlo trafiquei o cargo, nem pa-
guei moedas antecipadamente. Se co-
brancas viriio no future, no momen-
to oportuno saberei avaliar, mas ja-


mais venderei a autonomia e os in-
teresses da comunidade acadbmica.
No passado, jB havia declinado
duas vezes convites para me langar a
reitoria, em mementos que, teorica-
mente, teria tido muito mais chances
de veneer o pleito, pelos cargos que
ocupava. Preferi investor nos estudos
e na pesquisa, pois a carreira acad&-
mica sempre foi a minha opg~o pro-
fissional e minha vocaCgo. Ngo entrei
na Universidade para ser Reitor, mas
Professor. Ngo sou, portanto, opor-
tunista nem carreirista. N~o vendo
minha autonomia acad~mica a nin-
gubm, nem jamais comprometeria a
autonomia universitaria a projetos
politicos estranhos ao interesse pu-
blico do desenvolvimento da ci~ncia e
do conhecimento. Os apoios politi-
cos sio importantes, mesmo neces-
sarios o problema maior sera sem-
pre a falta de apoios e nio os apoios!
-, mas devem ser conduzidos com
autonomia, transparincia, 6tica e es-
pirito pliblico. Se os politicos, depois,
tiram vantagens dos acordos com a
Universidade, isto 6 natural e faz par-
te do jogo: como pretender que os po-
liticos nso exibam seus esforgos? O
important 6 que a Universidade tam-
btm tire vantagens das articulaaes
political que sera sempre obrigada a
proceder, sem, contudo, vender sua
autonomia. A Universidade tem a fun-
gio social de servir a sociedade, for-
mar quadros profissionais e produzir
conhecimento. Por natureza, 6 uma
instituiq~o political (lato sensu): ndo
pode pretender sobreviver no reino
da fantasia e do falso puritanismo. Ao
contrairio, precisa engajar-se.
Meu compromisso 6 com a qua-
lidade do ensino, com a expansdo das
vagas plblicas, com a interiorizaqgo
da formaeho universitiria, com o en-
gajamento do conhecimento cientifi-
co em programs e projetos de de-
senvolvimento do estado e regional,
com a produ~go de tecnologias alter-
nativas adaptadas a nossa realidade,
com a garantia da liberdade de ex-
press~o e do pensamento, com a arte,
a boa literature, com o pluralismo fi-
los6fico e ideol6gico, enfim, com o
Homem. Uma Universidade plblica
deve ser parceira, jamais concorren-
te de outras instituiC~es no context
em que se insere. Deve ser adminis-
trada com transparencia, com espiri-
to piblico, com firmeza de propbsi-
tos, com critbrios meritocriticos, com
o compromisso de ser alavanca de
desenvolvimento material e social, ga-
nhando o reconhecimento e o respei-
to da sociedade por aquilo que pro-
duz e nlo pelo marketing vazio da
propaganda enganosa.
Carol LMcio, de tudo apenas o
tempo dirl. Assimilo suas palavras,
pois concordo com suas teses fun-
damentais. Recebo seus comenta-
rios como um alerta pessoal e fago-
o com o espirito aberto de algu~m
que, tendo assumido um cargo des-
ta envergadura, precisa sempre
aprender a escutar e a ponderar.
Tenho plena clareza do desaflo que
se me coloca no horizonte e das
adversidades nele desenhadas. N~o
temo o future, pois os desafios da
sociedade em que vivo devem ser
enfrentados sem receios e com de-
terminaqio: nio poderia optar pela
tranqiiilidade dos omissos. Farei a
minha parte e, com a ajuda de cole-


gas que compaem a minha equipe e
dos demais de boa vontade, tenho
a convicqio que ajudaremos a soer-
guer a UFPA, que 6 patrim~nio de
toda a sociedade paraense.
Receba, como colega de profissio,
meus sinceros votos de sucesso em seus
projetos prof issionais e felicidades em
sua vida pessoal, e conte sempre com
canal direto de interlocugso. Seus co-
mentbrios e suas critics serio sempre
bem-vindos, pois 6 assim que se cons-
troi a democracia e 6 assim que se exer-
cita, com maturidade, as relaq~es numa
sociedade aberta e pluralista. A liber-
dade de imprensa, se exercida com 6ti-
ca eprofissionalismo, serrd sempre um
dos pilares de uma sociedade livre. E a
Universidade existe para ajudar a cons-
truir esta utopia.
No compromisso com a liberda-
de e a dignidade,
Alex Filza de Mello


M est re
Carissimo Ldcio FlIvio,
Entre as mensagens que neutrali-
zaram a inevitaivel melancolia do en-
velhecer, poucas me comoveram
como a tua. Nenhuma distinguiu com
maior nitidez as convergentes diver-
g~ncias que, ao mesmo tempo, nos
aproximam e distanciam.
Jb se vai um quarto de s~culo
quando comecei a ler e admirar a colu-
na do Informe Amaz~nico, que subs-
crevias em O Liberal. Pouco depois,
coube-me falar no langamento desse
ensaio notivel que 6 Amazdnia o
anteato da destruigdio. Nunca mais
abandonei o gosto, a curiosidade, o
aprendizado que derivam das infor-
maq8es e id~ias contidas em teus tra-
balhos. Disse entio, e hoje repito:
pode-se discordar das tuas opinides,
porim nunca desmentir os fats em
que se baseiam, a honestidade com
que sho transmitidos.
Essa, Liicio Flivio, 6 a essincia
da liberdade e, portanto, da democra-
cia. Mas 6, tamb~m, o lastro irreduti-
vel das amizades como a nossa, que o
tempo niro dissolve e as controversi-
as nao apagam.
Muito afetuosamente,
Otivio Mendonga

A inteligincia eagrandeza domes-
tre Otavio estio ai demonstradas mals
uma vez: homenageado no meu artigo,
eleme transforma no homenageado do
seu agradecimento, indo muito alim do
meu merecimento. Acaba dando um
present, ao invis de ser o presentea-
do. Alidis, a melhor homenagem que se
poderia ter feito a Otaivio Mendonga
pelos seus 80 anos seriapromover um
seminairio (ou um coldquio)sobreasua
atuagdio de home plblico, ndo sd to-
mando-ocomotlemapara uma andilise
intrinseca de sua obra, mas tambim
como motivagdiopara vero context de
sua epoca esuar correlages. Seriaumna
oportunidade de colocar lado a lado
Otdvio Mendonga e Orlando Bitar, que
foram sdcios no mesmo escritbrio e
companheiros de uma viagem profun-
dapelo mundodasletrs~eassej rjudidi
cas como as filosdf~icas e literdrias. E
fazer uma retrospective sobre outros
grandes advogados paraenses, como
Samuel MacDowell e Otaivio Meira.
Todos ganhariamos comn reflexdes em
torno dessestemas.


Cartas

Reitor com

independ~ncia
Onovoreitorda UniversidadeFe-
deral do Pardi, Alex Fiuiza de Melo,
promete: "fiamais venderei aautono-
mia e os interesses da comunidade
acadimica ". Em carta a estejornal, ele
diz que ndio vende sua independdncia
a ningubm, "nem jamais cmpompromte
ria aautonomia universitriria aproje-
tos politicos estranhos ao interesse
pliblico do desenvolvimento da cidn-
cia e do conhecimento ". Responden-
do a artigo aquipublicado, Alex reno-
va o compromisso de desempenhar
plenamente a fungdio puiblica que as-
sumiu, admitindo que uma de suas exi-
gincias epreccisarsempre "aprendera
escutar e a ponderar".: A renovagio
desse compromisso com a causa pi-
blica e uma plataforma universitairia
de alto nivel credencia Alex ao cargo
que comegou a exercer e ddi aos que
acompanham sua trajetdria um termo
de referdncia para cobrara aplicagio
na prditica do que esta se comprome-
tendo a fazer.

A integra da carta do reitor:
Carol Lcio FlBvio,
O respeito e a admira~go que lhe
devo comojornalista professional obri-
ga-me a um comentikio pessoal sobre
a matbria Novo reitor (velho reitor?),
de seu Jornal Pessoal da la quinzena
de julho passada. E fago-o justamen-
te para lhe repassar informaq~es que,
penso, devem ser p~iblicas, e que por
voc6 serlio tratadas com o respeito
devido aos fats -postura, ali~s, cada
vez mais rara num meio jornalistico
que, em sua maioria, durante toda a
recent campanha para a reitoria de
uma Universidade pdiblica (a maior e
mais important de toda a regilo ama-
z~nica), revelou-se, no minimo, ama-
dor, senso leviano. Aos fatos, enthio.
E verdade que sou o primeiro rei-
tor da hist6ria da UFPA origindrio da
grea das Humanidades, mas em seu
sentido mais restrito: das ciencias so-
ciais jB que o Direito (que ji teve
representantes na reitoria) tambim faz
pate desse caleidoscbpio, se amplia-
do. Imagine que isto crie expectativas
positivas em certos stores da Uni-
versidade e da sociedade, mas tam-
bim desconflangas em outros, de as-
piraq6es mais "tecnicistas" que "hu-
manistas". Como soci6logo e cientis-
ta politico, devo dizer que, na minha
visio, a vida (no sentido historico),
no limited, d~o 6 um produto da t~cni-
ca, mas da political, a ag~o que dl sen-
tido atoda forma de materialidade (ain-
da que a ticnica condicione sempre a
ag8o humana) e, portanto, antes de
mais nada, a Universidade 6 o Ho-
mem e assim deve ser concebida e
defendida. Ngoestou preocupado com
minha condigio professional ou se ela
est prejudicada por uma imagem ne-
gativa da atuaqgo governamental, que
tem um sociblogo na Presid~ncia da
Repirblica. Tudo isto, em minha opi-
niho, 6 absolutamente relative.
Quero declarar que lutei at6 o fim
para assumir a reitoria, primeiro em
respeito ao processo eleitoral de esco-
lha por consult direta, da qual sai ven-
cedor; segundo, para honrar todos
aqueles que apostaram em nossa pro-








JORNALPESSOAL laQUINZENA DE AGOSTO/2001 7


Em17 de maio enviei um oficio ao Procura-
dor Geral de Justiga do Estado. Pedi-lhe c6pia
de quatro oficios que tras diferentes presiden-
tes do Banco Central (Francisco Gros, Pedro
Malan e Arminio Fraga) haviam enviado ao
MP paraense entire 1992 e este ano, dando to-
dos os dados que possibilitariam a rdpida iden-
tificaqilo dos pap~is. Esses oficios apenas
encaminhavam documents anexados pelo
BC, que resultaram de inspeqbes feitas pela
institui~go no Banco do Estado do Para.
Ngo pedi nenhum desses documents.
Queria apenas ler o inteiro teor dos oficios de
encaminhamento, todos bastante breves.
Como justificativa do meu pedido, lembrei que
"a information de interesse publico 6 direito
de todos os cidadios" e que "fornecer ii opi-
niio pdblica informaqdes exatas sobre fats
de interesse coletivo 6 uma das misses mais
nobres da imprensa".
Tais documents dizem respeito ao proce-
dimento extrajudicial instaurado no MP para
apurar desvio de recursos do Banco do Estado
do Parsi. Como nio slo documents particula-
res nem sigilosos, mas peas informativas de
interesse piiblico, necessarias para uma melhor
apreciaqio dos fats pela imprensa, expressed
minha convicqio de que o procurador fornece-
ria as c6pias solicitadas, cumprindo, assim,
"uma das finalidades da existancia do Minist6-
rio Pliblico: a defesa da sociedade".
S6 no dia 5 de julho os promotores plibli-
cos Agar Jurema, Hamilton Salame e Joso Gual-
berto Silva concluiram a aprecia~go da minha
solicita~go, negando-a. Alegaram que a docu-
mentagio "acha-se protegida pelo sigilo ban-
c~rio". Os pap~is que eu requerera nio eram
simpless peas informativas". Caso revelasse
"algum dado sigiloso", a comissio de promo-
tores encarregada do procedimento extrajudi-
cial instaurado poderia "incidir em crime ape-
nado com reclusio, al~m de responder pesso-
al e diretamente pelos danos decorrentes".
Os promotores aproveitaram para ressal-
tar que "se algum segment da imprensa bra-
sileira teve acesso ao procedimento extrajudi-
cial em questio nio foi por intermtdio desta
Comissio". Por conseqilancia, "se algum meio
de comunicaqio conseguir as peas do pro-
cedimento extrajudicial em refer~ncia, fatal-
mente toda a imprensa exigirai o mesmo trata-
mento, sob pena de ocorrer privil~gio". Finali-
zavam lembrando a lei que regular o funciona-
mento do MP, impondo a cada um dos seus
membros responsabilidade "pelo uso indevi-
do das informag6es e documents sigilosos
que requisitar".
No dia 5 de julho os tres promotores assi-
naram o parecer. No dia 23 (duas semanas e
meia depois) subscreveram o oficio de enca-
minhamento do document, com tr~s linhas,


quando dele tomei conhecimento. Fazendo
uma analogia com a documenta~go do Banco
Central, o que eu teria pedido, em relagio ao
tal procedimento extrajudicial, seria o oficio
de tr~s linhas e nio o parecer, de 28 linhas.
Se os integrantes da comissio tivessem
atendido minha solicitag~io, nio me teriam con-
cedido nenhum privil~gio em rela~go aos ou-
tros jomalistas. Nenhum deles at6 aquele mo-
mento (e provavelmente at6 hoje) havia feito
um pedido por escrito. O meu, ademais, esta-
va muito bem especificado, com o nimero ori-
ginal do oficio, a data do protocolo no MP
paraense e quem subscreveu o document.
Sei, como os promotores sabem, que nesses
encaminhamentos nio ha um 6nico dado ca-
paz de ser enquadrado na lei que resguarda o
sigilo banc~rio. Alids, nem mesmo hi juizos
de valor nos paptis. Sua finalidade 6 exata-
mente encaminhar os anexos.
Serb que encaminharam mesmo, ao menos
na ocasiio anunciada? Sera que o Banco Cen-
tral agiu com rigor e lisura t~cnica nos momen-
tos em que se comunicou comn o MP, repas-
sando-lhe elements para decidir, na qualida-
de de donor da aglo penal, se cabia ou ndo
proper den6ncia contra as pessoas suposta-
mente beneficiadas com o desvio de dinheiro
plblico? Serb que as explicaq6es verbais dos
vlrios personagens que tomaram parte nessa
novela como representantes do BC correspon-
dem aos dados objetivos dos documents?
As datas indicadas casam realmente com as
datas registradas? Os oficios se referem A
quantidade de piginas nos anexos? Descre-
vem-nos de alguma maneira?
Posso fazer ainda mais algumas perguntas
para tender minha curiosidade professional,
aplicada a um tema de alto interesse p~iblico. Se
defender do Minist~rio P~iblico do Parki, elas
nlo serilo respondidas. Nenhuma de tais inda-
gaq6es tem a ver com a movimentago dos che-
ques administrativos do Banpara ou qualquer
aspect do conteddo do procedimento extraju-
dicial. Estio relacionadas as obrigag8es funci-
onais tanto do Banco Central quanto do pr~-
prio MP. Serbi que eles cumpriram o que suas
normas thes determinam, ou foram relapses,
claudicantes, omissos, coniventes nesse caso?
Infelizmente s6 agora poderemos comegar
a dispor de dados para uma avaliaqio mais
adequada. Alguem, do MP (estadual ou fede-
ral), do BC (aqui on em Brasilia), do governo
federal ou de alguma instincia privilegiada
repassou g revista Veja peas do process,
que deveria continuar a tramitar sigilosamen-
te no Ministbrio P~blico do Parrd. S6, algumas
peas e s6 para um 6rg~io da imprensa e,
isso, s6, depois que, a colegio complete dos
pap~is saiu do BC de forma a nlo deixar mais
duvida alguma, em margo deste ano, detalhe


que nio deve ter passado despercebido aos
observadores mais atentos.
Como nio e just que o senador Jader
Barbalho receba a saraivada de denrincias
derivadas da atuaqio do BC sobre o Banpard
sem ter conhecimento da muni~go desse tiro-
teio, a juiza Rosileide Barros ja lhe garantiu
acesso ao process que se encontra no MP.
A deputada federal Elcione Barbalho recorreu
a um habeas data para chegar ao mesmo resul-
tado. Agora a correlagio de forgas vai ser igua-
lada e todos poderio tirar duas ddvidas e fa-
zer a prova dos nove. Ter os dados brutes
deixara~ de ser privil~gio dos adversirios do
ex-govemador, e dificilmente ficard como ex-
clusividade dos advogados de Barbalho. Ana-
listas independents poderio definir a natu-
reza, a amplitude e a extensio dos ilicitos co-
metidos com dinheiro do Banpard (e, em se-
guida, da reserve banciria national).
O Banco do Estado do Pard 6 um problema
desde a sua origem, hri40 anos. Foi se transfor-
mando num caixa de campanha e num instru-
mento de political dos governadores paraen-
ses, que o usavam para compensar apoios em-
presariais on realizar metas eleitorais. O proble-
ma se agravou durante a primeira gestio Jader
Barbalho. Mas quando pessoas como eu criti-
caram duramente a institui~go no mesmo mo-
mento em que os fats aconteciam, o governo
responded com dois arguments: o Banpard
havia sido considerado uma das melhores ins-
tituiq8es financeiras do pais pela revista Exa-
me, da Editora Abril, e era um dos poucos ban-
cos ofocoaos nos quais o Estado nio tinha
dtbito, nio sacara dinheiro para si.
A explica~go para o primeiro paradoxo es-
tava na manipula~go contibil dos balangos,
por mim denunciada e depois comprovada ofi-
cialmente. A razio do segundo fato era que a
divida era dos clientss especiais", autoriza-
dos a sacar sem cobertura, muito altm do limi-
te e contrariando as mais elementares normas
banc~rias. Especiais porque o governador as-
sim os considerava, enflando o priviltgio go-
ela abaixo dos diretores do banco, com escas-
sa ou nenhuma autonomia, obrigados a deixar
de lado os regulamentos para tender o "pedi-
do" governamental.
O Banco Central de Belim (e, por presun-
glo, tamb~m o de Brasilia) nunca ignorou esse
permanent estado de anemia do Banpard. A
partir de 1987, quando H61io Gueiros quis usar
o BC como instrument para golpear o seu
antecessor (escondendo a mlo, naturalmen-
te), o Banco Central teve um home de confi-
anga dentro do banco estadual, em regime de
administraqio compartilhada. P~de corrigir os
rumos ou sobresti-los quando a temperature,
depois de ligeira queda, subiu de novo. Os
interesses politicos, entretanto, continuaram)


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Jomnal Pessoal
Edilor. Lucrrs FI1l.0 pi=lD* FOfte i]10Pl 223 7690 2r1 r264r a ;r a621 Coritao Tw Ba..iamlrnin Conr.IUIani~ (42 16500 04iJ nall pmirnl~a.r~azoacorr Prodg~a A~ngelin Panlie Edig8 de Arle Lul.lar.Ionanselphrlo


) mantendo opronto-socorro finan-
ceiro em funcionamento, apesar
da sangria do tesouro national.
A era Jos6 Samney foi o auge da
conurba~go politico-empresarial..
Pelo mesmo motive, o BC nunca
enfrentou de frente o problema do
Banpard, um lixo sempre colocado
debaixo do tapete. Consumido um
tapete, partia-se para outro, ao inves
de vira-lo para ver o que estava em-
baixo e limpa-lo. O comportamento
do banco orad foi ambiguo, ora opor-
tunista. Se as inspeqdes e dilig~nci-
as resultaram no que a imprensa tem
noticiado, pingando trechos dos do-
cumentos, o procurador-geral da
instituigio nio podia ter chegado
itquela conclusion de l992, iltima ma-
nifestagio do banco sobre os pro-
cedimentos realizados ate entio,
entire 1990 e 1991, que se transfor-
mou na arma de defesa de Jader Bar-
balho, excluido de responsabilizaFgio.
Qualquer que tenha sido o pa-
drio de comportamento do Banco
Central, nas sucessivas administra-
95es provocadas a se manifestar so-
bre o imbroglio, o MP do Paral rea-
giu as remessas de Brasilia como se
elas fossem uma batata quente, um
animalpegonhento ouum finojarro
de porcelana chinesa. Tratou-as de
uma forma cediga, nbomenos meli-
flua do que o BC. Ao invbs de agir
como um autintico fiscal da lei e
defensor da sociedade, o MP op-
tou pelo exame de conveniencias e
acomodagies.
N~ioe de espantar numa institui-
Flo que ainda nio alcangou sua efe-
tiva independ~ncia, nem funcional
torquee o govemador continue es-
colhendo oprocurador geral emuma
list triplice) e nem financeira (sem
autonomia para reelaborar seu orga-
mento). Sua posiCio ainda depend
muito das pessoas as quais shio dis-
tribuidas as quest~es, algumas ja im-
buidas da filosofia defmnida pela
constituigio de 1988, mas outras ain-
da press aos compromissos do
passado. Ja e um m~imero crescente,
mas, infelizmente, ainda nio parece
ser predominante na cilpula e nos
cargos de confianga do MP, onde
os elos do compromisso institucio-
nal permanecem atados a regras que
s6 serio modificadas quando a so-
ciedade se conscientizar da distan-
cia que perdura entire o que deveria
ser e o que e o Ministerio Pmiblico,
particularmente noPard.


Sramos felizes e nio sabiamos quando abriamos
um joral e liamos artigos de Otto Maria Carpeaux,
Agripino Grieco, Alvaro Lins, Ant~nio C~indido, Al-
ceu Amoroso Lima, Livio Xavier, Jose Lino Griinewald,
Augusto ou Haroldo de Campos, Osbrio Borba e mui-
tos outros que freqiientavam, todos os dias ou sema-
nalmente, paginas ou suplementos de cultural da im-
prensa brasileira. Hoje, esses lugares foram ocupados
por jornalistas que mal sairam das fraldas literarias, se
algum dia chegaram a usa-las, ou acadtmicos (univer-
sitarios ou nio) que lidam com as palavras como quem
vai para a cama de meia e ceroula.
Muitos desses rep6rteres culturais sho pessoas
"Lantenadas"), como se diz, que costumam circular
pelos redutos culturais e acumular informaqdes em
seus samburals ciberneticos. Mas nio tim estrada,
hist6ria ou intimidade com os temas sobre os quais
debulham suas opinides. A pobreza, em alguns ca-
sos, beira a indigtncia intellectual. Mesmo quando o
personagem 6 honest, tem bons prop6sitos e faz
nitido esforgo para dar conta do recado. O problema
6 ter recebido uma tarefa que ultrapassa sua capaci-
dade de executa-la.
Tenho feito leituras escandalizadas de textos que
aparecem nos cadernos culturais da grande impren-
sa national. Outro dia, a Gazeta Mercantil deu pagi-
na dupla central a uma materia sobre a briga que
surgiu entire editors e herdeiros de autores quando
estes tomaram consci~ncia do patriminio que pas-
saram a ter em mios. A reedi~go das obras desses
escritores passou a ser um lance de diplomacia, de
neg6cio ou mesmo de guerra judicial. O tema 6 inte-


ressante, mas ao autor da reportagem faltava o do-
minio do assunto.
Ao tratar das reediqbes, ele escreveu que "a pro-
sa e a poesia de Cora Coralina esti sendo reformula-
da pela Global". A expresso nilo e feliz: a editor
estaria reescrevendo os textos da escritora goiana,
um daqueles casos de vocaqio tardia e brilhante -
para as letras? O correto seria dizer que a editor Glo-
bal esta fazendo a revisio dos textos de Cora Coralina
para uma edigio mais bem cuidada do que as anterio-
res. Uma edigio principle, quem sabe, ou critica.
Coisa um pouco pior aparece algumas linhas de-
pois. O jornalista diz que "Ferreira Gullar finalmente
tem sua poesia complete reunida pela Jose Olym-
pio". Bolas: ou a editor estS organizando a poesia
completa do grande bardo maranhense (autor de
Poema sujo, a mais bela homenagem que Slo Luis
ou qualquer outra cidade brasileira ja recebeu), ou
entio vai editar sua poesia reunida (o malximo de
poemas, sem ser tudo).
E o que quer dizer o reporter quando informa que o
editor Carlos Leal "acha normal que o autor, quando
vivo, mude de editora por se tornar instigante para as
duas parties ? Instigante 6 uma das p~rolas que os
jornalistas culturais de hoje mais gostam de usar, caiba
ou nio na frase (como fazia um colega com a bela ex-
pressio russa, que imaginava americana, leitmotiv).
Na de cima, evidentemente, nio cabe. Mas quem
se importa com isso? Cultura, nos nossos tempos de
eu minimo e narcisismo m~ximo, 6 para usar como
aderego e cartio de visit, nio para ter. Uma bolha
que vale pelo que mostra na face de fora, nilo pelo
que contem por dentro. Feita para produzir cores e
sons quando estourada, nio para durar.


Esta rudo cor des rosa
na Assembleia Legislai-
va do Estado. Ao menos
nas paredes da fachada.
que recebeam uma demo
de: tinta eml clima de julbo.
Por dentro, as cores sno
outras. Quando ha cores.




L in gua
Um outdoor espalhado pela ci-
dade comemora o aniversario do
senador Ademir Andrade, do
PSB: "o Para te abraga por sua co-
ragem", proclama a pecga. Convi-
nha ao senador recomendar aos
seus admiradores que, antes de
colocar uma mensagem na m~a,
submeterem-na a uma revisio gra-
matical. Se a inten~go e ajudar e
nso atrapalhar.


Cultura, hoje


Energla
Jg nio ha arguments legitimos para a exclusio do Pard do progra-
ma de redu~go do consume de energia. Por um fator fundamental: nos-
so governor nio executou uma political de intensificaqio do uso da
energia bruta como indutor de maior beneficiamento dos recursos na-
turais do Estado. Se existisse, essa political ngo nos teria deixado de
calgas curtas no memento em que a federaqio exige a nossa solidarie-
dade. Nao alcangada pelas mensagens publicitbrias, a popula~go dei-
xou de se sensibilizar pelo drama dos seus vizinhos. Vai sofrer o trata-
mento draconiano do governor federal. N~o ha, de imediato, outra for-
ma de minorar o deficit energetico do Nordeste.
Isso nio aconteceria se o governor do Estado niio fizesse eco, em
falsete e comn desafina~go, g political central que imp~e ao Para a condi-
950 de provincia energttica national. Deveria estar agindo ha muito
tempo em sentido contrario, estimulando as atividades que impediriam
a said de energia bruta, desviando-a para o setor produtivo e fomen-
tando inovagaes tecnol6gicas.
Caudataria da Eletronorte, batedora de palmas para o Planalto, ca-
paz de engolir tudo, ate uma usina metropolitana como Belo Monte, a
administration Almir Gabriel deixou passar a oportunidade de conver-
ter a abundlncia de energia no ParB em fator de redugito da distincia
que a separa de outros Estados, abastecidos pela energia de Tucurui,
com custos menores e possibilidades de maior agrega~gio de valor na
transformaqio industrial que realizam.
O trem passou e os tucanos de algibeira niio perceberam.