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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00212

Full Text




Journal Pessoal
L C 1 O F L A V I O P I N T O


ANO XIV N" 262 1* QUINZENA DE JULHO DE 2001 RS 2,00

BARRAGE


Xingu tambem


sera fechado


Depois de terfechado o Tocantins, a Eletronorte planeja deixar tambem barrado o Xingu,
outros dos grandes rios da bacia Amaz6nica a ser usado para produzir energia. Serd a
conseqiiOncia da execucdo do projeto da hidreletrica de Belo Monte, tal como foi concebido
pela empresa. Cor mais quatro hidrelitricas ecologicamente danosas previstas pelo
governor, a perspective e critica para as hidrovias do Pard.


BREVE NESTE LOCAL
MRS UMA OBRA:
RIO FECHADO

Eletronorte

S- A
~~`r*Jt 8s".I;,i4~~~


a porta, o govemo deixou de lado
os constrangimentos e escripu-
los ecol6gicos, responsaveis pela
suspensao, na metade da d6cada de 80,
do program de aproveitamento integral
do potential hidrel6trico da Amaz6nia.
Projetos que haviam sido condenados em
virtude do seu impact sobre o meio am-
biente foram retirados dos arquivos e es-


tao sendo retocados para voltarem a ser
executados.
Nesta semana o governor deve anun-
ciar sua intengao de construir mais quatro
hidrel6tricas de grande porte no Para.
Duas delas a de Maraba, no Tocantins,
e a de Santa Isabel, no Araguaia havi-
am sido abandonadas em fungao dos seus
efeitos ambientais negatives. Um dos prin-
cipais 6 o de impedir a manutenqao ou


melhoria da navegabilidade em alguns dos
principals rios formadores da maior bacia
hidrografica do planet.
Ha quase 20 anos, o primeiro desses
rios barrados para a geracao de energia,
o Tocantins, o 250 maior do planet, per-
manece fechado por uma grossa parede
de concrete de 74 metros de altura, re-
cordista em concrete na hist6ria da enge-
nharia brasileira. Embora o projeto da hi- )


. .* a m ... .
p*'S w w'


~c~L-

a~y=- --~La~---
~sPfY~ "J~w~
i~j4-


'-~an~L~rw;
--r;-- -
~SpC"L~LC)







2 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DEJULHO/ 2001


drel6trica tenha acabado por incorporar o
sistema de transposicgo, cedendo em 1979
a intensas presses sociais e political, a
obra caminha a passes lentos.
No final do pr6ximo ano a duplicaqgo
da capacidade de geraqao da usina, de
4,2 milhoes para 8,3 milhoes de kw, de-
vera ser concluida. Mas provavelmente
nao as obras das eclusas, que completa-
rao entao 24 anos em andamento. Para
permitirem a superaqao do grande des-
nivel de Tucurui, elas serao as maiores
eclusas do mundo, com custo final supe-
rior a 600 milh6es de d6lares.
Em Tucurui, alem da hidrovia Ara-
guaia-Tocantins, um dos projetos do
"Avanqa Brasil", (o program de infra-
estrutura do governor federal), que no
future podera ser um grande escoadouro
de mercadorias e produtos do Centro-
Oeste e do Norte para outros paises, ha
tambem ajustificativa de ter sido elimi-
nado o transito de barcas, balsas e navi-
os pelo rio Tocantins ate Belem, com a
construqao da parede de concrete, que
provocou a formaqao do_desnivel artifi-
cial atrav6s da barrage.
A situaq o e ainda mais grave no Xin-
gu, mais a oeste, onde a Eletronorte es-
pera comecar a construir, no pr6ximo ano,
a segunda maior hidreletrica do pais, abai-
xo apenas da de Itaipu, cor 11I milh6es
de kw. Veneer um desnivel de 90 me-
tros, como e previsto em Belo Monte, im-
plicara uma das maiores obras de enge-
nharia do pais.
Serao necessarios tres patamares de
parada dos "elevadores de navios", que
sao as eclusas, cada um corn cerca de
30 metros de desnivel. Em Tucurui, onde
as eclusas s.o as maiores do mundo (23,5
metros de largura por 33 metros de altu-
ra), foram necessarios dois "elevadores",
com um canal intermediario de 5,5 quil6-
metros entire eles, para veneer um des-
nivel de 70,5 metros, que e a diferenqa
entire o nivel maximo exceptional a mon-
tante, na primeira eclusa, de 74 metros,
e o nivel minimo da eclusa dejusante, de
3,5 metros.
A Eletronorte deixara de former em
Belo Monte o reservat6rio que estava
previsto inicialmente, cor area de 1.200
quil6metros quadrados, alagando toda a
grande volta do rio. Ficara cor uma pe-
quena reserve de agua, ocupando ape-
nas 400 km2, equivalent a manuten.ao
do nivel que o Xingu atinge durante o
period das cheias (como se as aguas
nunca mais baixassem, tornando-se pe-


renes). Com isso, a empresa pretend se
aproveitar do desnivel de 90 metros en-
tre o inicio da grande volta do Xingu e o
local da future casa de maquinas, ali cons-
truindo dois canais revestidos, com 50
quilometros de extensao total.
Se isso ocorrer, nem sera possivel fa-
zer como foi feito em Tucurui: construir o

-mm-MMMMMMM
mmmm-mmmmmm

Corn a execugao

do projeto atual da

hidreletrica, tal

como a Eletronorte

o concebeu, o

Xingu nao sera

mais o mesmo


BREVE NESTE LOCAL

MAS UMA OBRA:
SRIO FECHADO

4 .
Eletronorte












encabeqamento da eclusa de montante,
acoplado a estrutura da barragem, fecha-
lo e aguardar a decisao sobre a constru-
cqo do sistema de transposiqao do desni-
vel do rio naquele ponto represado, que
ficou em 74 metros. No caso do Xingu, s6
tera sentido o projeto atual da Eletronorte
se nao houver eclusa.
Como o rio sera desviado por esses
canais ate a tomada d'agua, a descida
sera lenta ao long da distdncia. Nao po-
dera haver eclusas. A partir do moment
em que comecar a construcao do canal,
as eclusas estarao inviabilizadas. O Xin-
gu ficara definitivamente bloqueado a
menos de 300 quil6metros de sua foz, onde
forma um delta interior de uma bacia flu-


vial 6nico no mundo, e a mais de 1.700
quilometros de sua nascente, que fica em
outro Estado, o Mato Grosso.
O desnivel natural do Xingu realmente
ja existe. S6 que ele ocorre numa longa
curva, que reduz o impact das aguas e
cria um declive menor. Ha pouca nave-
ga go, mas ha sempre alguma. Ela pode-
ria ser incrementada, em calado e tonela-
gem dos comboios que passariam a utili-
za-la como hidrovia, se ao sistema de
transposigao de Belo Monte fossem acres-
centados sistemas semelhantes nas bar-
ragens seguintes, rio acima.
Ja corn a execugao do projeto atual da
hidreletrica, tal como a Eletronorte o con-
cebeu, o Xingu nao sera mais o mesmo.
Aldm dos canais concretados de adugao
de agua para a casa de maquinas, abertos
aproveitando o curso de dois pequenos
afluentes, retificados e barrados, havera
um vertedouro artificial no leito natural do
rio. Sera o fim da navegaq o de hoje e,
mais do que isso, das possibilidades de
navegagio no future.
No rio Xingu, no local onde esta sendo
prevista a construcgo da hidreletrica de
Belo Monte, o desnivel ja esta criado e
nao ha navegacao expressive nesse tre-
cho. Tecnicos do setor energdtico dizem
que seria precise recorrer a muitajustifi-
cativa, tanto tecnica como ambiental, para
obrigar a construcao das eclusas e da es-
cada de peixes.
A Eletronorte ja declarou que essa ta-
refa, se precisar ser executada, nao esta
na sua esfera de responsabilidade. Tera
que ser assumida por outra entidade. Pre-
ventivamente, porem, a empresa tem pre-
ferido destacar que o Xingu s6 e nave-
gavel da foz at6 um pouco antes de Belo
Monte e que a barrage, por isso, nao
tera efeito sobre a navegaqgo. Ou a fal-
ta de navegacgo
Para reforcar essa posiq o, a Eletro-
norte tem evitado tratar do aproveitamento
de toda a bacia do Xingu, restringindo-se
a abordar apenas a barrage de Belo
Monte. Ora, se outros aproveitamentos
forem realizados, numa hip6tese perfeita-
mente factivel diante do grande potential
energetico do rio, que s6 ter equivalent
na vizinha bacia do Araguaia-Tocantins,
nao incluir as eclusas e a escada de pei-
xes no projeto da primeira hidrel6trica
equivalera a consolidar essa lacuna nos
empreendimentos seguintes. Corn isso, o
pais perdera a grande oportunidade de
conferir plena navegabilidade a um dos
maiores rios do pais-e do mundo.








JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DEJULHO/ 2001 3




Os oitenta anos


do cidadao Otavio

E impossivel, mesmo aos contrarios, como eu, nao deixar de levantar a taga
para brindar os 80 anos bem vividos e produtivos do pensador


E stava eu nos dias iniciais emA Pro-
vincia do Para, no j distant ano
de 1966, quando fiz minha primeira
cobertura no quartel-general da 8a
Regiao Militar (ainda combinada cor o Co-
mando Militar da Amaz6nia, depois transferi-
do para Manaus, em funcgo da nova geopoli-
tica regional). Nao me record mais como a
orientacao de pauta chegou ao nome do ad-
vogado Otavio Mendonca.
O que entao ouvi me fez desenvolver uma
ideia pr6pria de adolescent interessado em
melhorar o mundo: cada vez que o doutor Ota-
vio era convocado para uma palestra no QG, o
regime military se fortalecia mais um pouco. Corn
sua verve brilhante e raciocinio rapido, a ser-
viqo de uma cultural de raiz, o advogado forne-
cia as fontes de legitimidade para o regime de
exce~go, como o fazia Francisco Campos (in-
justamente tratado como "Chico Ciencia",
melhor retratado no romance A Montanha, do
tambem mineiro Cyro dos Anjos) no Rio de
Janeiro,junto ao marechal Humberto de Alen-
car Castelo Branco, o primeiro president do
ultimo ciclo castrense da Rep6blica (e, espe-
ramos, o derradeiro mesmo).
Nio sei se criei o fato ou se ele realmente
existiu: antes dos anos vividos no Rio de Ja-
neiro e Sdo Paulo, lembro-me de ter cruzado
cor o doutor Otavio numa de suas palestras
para o audit6rio de quepes e dragonas, que o
ouvia sob um silencio absolute, indicador do
interesse pelas palavras do orador attitudee
inevitavel para qualquer pessoa cor o privile-
gio de ouvir o advogado falar). S6 fui reen-
contra-lo varios anos depois, o que signifi-
cou, na verdade, o primeiro encontro, quando
voltei a Belem e fui trabalhar em OLiberal.
Um contato mais profundo, entretanto, so
quando me pediu para ir conversar cor ele em
seu escrit6rio, um dos baluartes que ainda re-
siste no edificio Comendador Pinho, no dete-
riorado centro antigo de Belem. Queria trocar
ideias para a saudagao que me faria, escolhido
por Romulo Maiorana como o apresentador
do meu primeiro livro, Amaz6nia: o anteato
da destruido, em 1977.
Apreciei de pronto seu profissionalismo.
Queria checar informaq6es e avivar lembrangas
para ter dominio sobre o tema que iria tratar,
sabendo que o lancamento, realizado nas ofici-
nas dojornal, em plena atividade de impressio
da ediaio dominical, seria um acontecimento.
Nao por mim, e claro, mas pelo empenho
de Romulo e pelo inusitado em que se veriam


os muitos convidados, circulando entire res-
folegantes rotativas, que, provavelmente, a
maioriajamais havia visto de tao perto, e mais
ainda: em atividade. Ideia que eu tivera num
lampejo, endossada cor entusiasmo e alegria
juvenis pelo dono do journal. Oliveira Bastos,
um dos convivas, escreveria corn malicia, em
0 Estado do Para, que minha intenqfo tinha
sido a de provocar uma confraternizaqao dos
socialites cor a rale, sujeitos a mesma tinta e
ao mesmo calor, ao menos por algumas horas.
Alguns chamariam a isso provocaqao. Mas
seu nome memorial era outro: democracia.
Exaltada enquanto nao passa de desejo ou
utopia. Mal aceita ou maltratada quando vira
pratica, sempre exigindo mais.
Otavio Mendonqa disse, no seu discurso,
tudo o que eu gostaria de ouvir sobre o meu
trabalho dejornalista. Nao por ser-me agrada-
vel, mas por ser verdadeiro. Aquele tipo de
elogio que faz bem a alma e nao exacerba a
vaidade, cabendo cor justeza numa avalia-
qao honest e perspicaz. Nenhum dos meus
companheiros de viagem fez aquelas obser-
vac6es, nem antes e nem depois. Mais esti-
mulantes elas se tornaram para mim por terem
said da cabeqa privilegiada de um contrario,
de alguem que pensa muito diferente de mim,
mas cuja visAo ultrapassa as miserias do coti-
diano e os detalhes das divergencias para cap-
tar e valorizar o que ha de bom e ttil na atua-
gao do personagem em exame. Sem circunlo-
quios nem rapapes.
A admiragao por Otavio Mendonca, que
vinha penetrando progressivamente dentro de
mim, a media que o paladar intellectual se foi
depurando, continuou a se consolidar e a se
ampliar, sem desalojar a abordagem critical que
continue e continuo- a fazer dele. Pode-se
- e deve-se critical a pessoa que se admira
ou da qual se gosta, sem que um movimento
anule o outro, muito pelo contrario: da convi-
vencia result nosso grau de civilidade.
Quando a critical e um produto do criterio
da verdade, querer bem e amizade continuam
suas vidas independents enquanto a visao
critical se aperfeiqoa, a serviqo do bem coleti-
vo. Assim, felizmente, tem sido na relacio que
o doutor Otavio e eu temos tido. Ambos res-
peitando o direito alheio e resistindo as esto-
cadas inevitaveis na luta de florete que even-
tualmente travamos.
Nao a teriamos senao sob esse patrim6nio
de todos nos, o regime democratic. Durante
o ciclo military, o component autoritario do


pensamento de Otavio Mendonqa foi mais
forte do que sua evidence tendencia democra-
tica. Mas ele nao defended a centralizaqio do
mando, algo que soa como musica em audit6-
rios militares, para se vingar de desafetos ou
torturar adversarios. O autoritarismo do dou-
tor Otavio integra um conjunto de pensamen-
to (um corpus, como se diz em filosofia e em
direito, ou na filosofia do direito, o estofo ca-
paz de distinguir um jurista, como o doutor
Otavio, de meros aplicadores de f6rmulasjuri-
dicas, como a esmagadora maioria dos seus
companheiros de oficio).
Pensadores como ele se propiem a mudar
e modernizar o mundo dos homes num con-
texto de relacqes estruturadas e estaveis, mas
cor mando controlado por uma elite presumi-
damente ilustrada. Esse pensamento e muito
mais profundo e sofisticado do que o relho (e
o ralho) de um ditador. E, a despeito do seu
format autoritario, uma forma de humanismo,
um projeto de sociedade, um program de aqio.
Nao e algaravia de palanque.
A temperanqa do tempo e a prevalencia
de um sistema baseado na tolerancia e na
pluralidade permitiram que duas pessoas de-
siguais cultivassem uma relaaio fecunda, a
mim cabendo a capacidade de saber apren-
der e ao doutor Otavio a modulaiao no en-
sinar, seja atraves de suas brilhantes aulas
orais (nao necessariamente sob um teto ins-
titucional), como de seus meticulosos arti-
gos dejornal, quejamais deixam de expres-
sar uma determinada weltanschaaung, infe-
lizmente reduzida, em nossa lingua, a ideo-
logia ou, menos elipiticamente, a visao do
mundo, mas muito mais complex no verna-
culo alemao (s6 no qual se pode filosofar, ja
cantava Caetano Veloso).
Por tudo isso, e impossivel, mesmo aos
contrarios, como eu, nao deixar de levantar a
taca, junto corn Reginaldo Cunha e Rohan
Lima, promotores da festa da semana passa-
da, para brindar os 80 anos bem vividos e pro-
dutivos do cidadao Otavio Mendonca, um
home citadino exemplar daquilo que a citas
express, em seus aspects positives e nega-
tivos, elogiaveis ou criticaveis, mas, nessa
complexidade, vitais diante de um balanco fi-
nal altamente superavitario. A cidade toda ter
que levantar tambem esse brinde. Com pr6s e
contras, Santa Maria de Belem do Grao Para,
como o Grao todo, de resto, cresceu mais um
pouco graqas A contribuiqAo desse ja vene-
rando cidadao de 80 anos ainda 16cidos.








4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DEJULHO/2001


0 arquivo judicial


nesta questao


Durante anos estive a caqa do process
judicial em torno do qual se armou uma ver-
dadeira guerra em Santarem, entire 1967 e 1968,
infelizmente cor mortos no seu 6pice. Meu
pai, Elias Pinto, eleito pelo MDB no segundo
principal municipio do Estado, numa eleiqao
em que a Arena situacionista arrasou a opo-
si~io (a outra vit6ria emedebista foi no pe-
queno municipio de Santa Isabel do Para),
acabou sendo afastado do cargo, poucos
meses depois de hav&-lo assumido. Irregula-
ridades apontadas pelo Tribunal de Contas
pretextaram o afastamento.
Mas a justiqa autorizou sua volta, aco-
Ihendo um mandado de seguranqa patroci-
nado pelo advogado Moura Palha, que tam-
bem era politico. O cumprimento da ordem
judicial foi atropelado por um desastrado ato
de forqa do entao governador Alacid Nunes,
que se colocou acima da lei (algo nao exata-
mente raro nesta terra infeliz). A demand
acabou inconclusa porque o governor fede-
ral, assumindo o patrocinio da exceqio, en-
quadrou Santarem como area de seguranqa
national, retirando-lhe o direito de eleger
seus administradores publicos e a autono-
mia political.
Na reconstituicgo dos fatos, tentei inutil-
mente ter acesso ao process judicial. Tive a
providencial ajuda do juiz que concede o
mandado, Manoel Christo Alves, quando ele
assumiu a presidencia do Tribunal de Justiqa
do Estado, oito anos atras. Apesar do esfor-
Co do doutor Christo, entretanto, os autos
nio foram localizados nos arquivos do TJE,
para onde subiram quando um recurso foi im-
petrado na comarca de Santarem. Nao se tra-
ta de um document que interesse apenas as
parties demandantes. E uma peqa de signifi-
cado maior, para a pr6pria hist6ria paraense.
Mas parece perdida entire a montanha de pa-
peis que se formou no arquivo judicial cen-
tral, em Belem.
Se enfileirados, esses processes se es-
tenderiam por mais de cinco quil6metros. Pa-
rece muito. Mas e pouco se o acervo for
comparado ao de outros Estados, como Sao
Paulo, o volume seria 30 vezes maior. Ou
mesmo se os quase 130 anos de hist6ria do
judiciario paraense, iniciada em 1874, tives-
sem sido integralmente preservados. Milha-
res de documents ja devem ter sido des-
truidos ou estdo perdidos, como o proces-
so de Santarem.
Esse passado de incuria e coisa mesmo
do passado. O TJE criou uma Divisdo de
Documentadao de Arquivo, vinculada ao
Departamento de Informaqdo e Documen-


taqao, para impedir a repetiqFo dessas de-
sastradas perdas. Um pass important foi
dado cor a contrataqio de pessoal especi-
alizado e a aquisicqo de um espaqo muito
maior do que o impr6prio dep6sito que fun-
cionava no terreo do f6rum de Belem. Mas
outros muitos passes precisam ser dados
-e com urgencia.
Um desses passes, agora contido por uma
controversial internal, atraiu minha atencqo.
Envolve uma funcionaria com 25 anos de ser-
viqos no TJE, Vilma Lobato Reis. Ela foi para
Portugal ha cinco anos para freqUentar cur-
sos de especializaqAo e, agora, doutorado em
arquivologia na Universidade de Coimbra, em
Portugal. E a unica tecnica do setor a haver
tomado essa iniciativa. Durante esse tempo
continuou a receber integralmente seu sali-
rio, como apoio da instituiq~o para retornar a
justiqa do Para e nela aplicar os conhecimen-
tos adquiridos.
A conclusAo do doutorado em andamen-
to foi interrompida e esta ameaqada pela de-
cisao do 6rgio pleno do TJE, adotada no
mes passado, de nao renovar a autorizaq o
dada a Vilma para sua atividade academica
em Coimbra. O motive formal foi a apresen-
taqao do pedido de renovagao em maio, ja
fora do prazo legal, que se encerrou em 31
de dezembro do ano passado. Outros moti-
vos de natureza subjetiva tambem foram ar-
guidos nas duas sessoes que examinaram a
questio, desde o tempo da demora da fun-
cionaria no exterior, o cumprimento de suas
obrigaq6es para com o TJE e a possibilida-
de de ela nao retornar ao Para, aproveitando
sua qualificaqao, ainda incomum no Brasil,
para buscar uma situaqao melhor em outro
Estado. A doutoranda admite a falha do pra-
zo, para a qual tem sua explicaqgo pessoal.
Contesta as demais restrioqes.
At6 me interessar pelo caso, eu conhe-
cia apenas por contato atrav6s da inter-
net e nio por relaqio pessoal a filha de
Vilma, a quem tenho dado ajuda no seu va-
lioso mestrado em comunicaqao social, em
Coimbra, sobre a imprensa paraense. A mre,
s6 vim a conhecer agora, durante sua esta-
da atual em Bel&m, e com ela conversei pes-
soalmente uma unica vez, na biblioteca do
TJE. Mas acho just sua luta pela conclu-
sao do doutorado. Nao s6 para que nio
haja a perda de tanto investimento huma-
no e material numa atividade queja Ihe con-
sumiu cinco anos, como pelo superior inte-
resse do Estado.
Vilma Reis me garantiu que voltard ao
Para para aqui nao apenas retomar suas


atividades no arquivo dojudiciirio, como
para criar uma cultural arquivistica na ins-
tituiqCo. Este projeto, tema de sua tese de
doutoramento, corn uma s6lida base te6ri-
ca, graqas a orientaqdo de Armando Ma-
Iheiro e Maria Jose de Azevedo Santos, e
muito mais amplo e profundo do que per-
mite avaliar uma visio leiga. Que ainda nio
tern intimidade cor uma ciencia nova, mas
ja complex.
O projeto nao consiste apenas em man-
ter os papeis limpos e os documents
acessiveis a uma consult imediata e se-
gura, o queja nao seria pouco na situacqo
present. Ele possibilitara tambem uma
gestio informacional no TJE, de tal ma-
neira que haja um control tecnico dos
processes desde o moment em que eles
forem gerados no protocolo judicial, dan-
do-lhes tramitaq o celere e visibilidade, o
curso legal (e formal) de que sao frequen-
temente carentes. Com tal program, ajus-
tiqa do Para se modernizara e aperfei9oa-
ra, em beneficio de todos.
Nao you entrar no merito da decisao do
TJE, que denegou o pedido de Vilma. Acho
que a falha formal existe, mas, por ser for-
mal, pode ser reparada sem problems. Ad-
mito o receio da instituiqao em relagqo ao
future, ja que a tentaqio de buscar uma me-
Ihoria professional ter freqiientemente dado
causa ao descumprimento dos compromis-
sos assumidos por pessoas que se benefi-
ciam do dinheiro pfiblico e depois nao Ihe
dio o retorno devido. Mas acho tambem que
essa pode ser uma clausula contratual im-
positiva, a ser cobrada e nao s6 moral-
mente-em caso de descumprimento, inclu-
sive pela via da imprensa.
Acho, contudo, que o projeto assumi-
do por Vilma Reis 6 tdo mais important que
a direq~o do tribunal deveria reconsiderar
sua decisao e proporcionar as condiqoes
para sua servidora concluir o doutorado e
voltar bem habilitada ao Para, aqui pondo
em pratica a important e inovadora emprei-
tada que concebeu para sua tese academi-
ca e posterior atividade professional. Se nao
fizer isso, cor todos os beneficios que ja
recebeu do poder public, estara deson-
rando seu nome e se tornando suscetivel a
devida cobranqa contratual. Por acreditar
na palavra e no projeto de Vilma, como ci-
daddo e como eventual client que sou do
arquivo da justi9a, faqo este registro, jun-
tamente com a public reivindicaqdo ao TJE,
deixando-lhe a palavra final, e sua conse-
qiente responsabilidade.








JOURNAL PESSOAL *1" QUINZENA DEJULHO/2001 5


0 fim e o fim


de Jader Barbalho


Qual politico brasileiro resistiria a uma
ofensiva de various meses de investigaqao
concentrada por parte da grande imprensa
national? Raros, talvez. Jader Barbalho se-
guramente nao esta entire eles.
Nao parece ter fim a serie de mat6rias de
denuncias que os maiores jornais, revistas e
emissoras de radio e televisao do pais tim di-
vulgado contra ele, desde que decidiu desafi-
ar o ate entao mais poderoso dos politicos,
Ant6nio Carlos Magalhaes, at6 presidir a ses-
sao que excluiu o babalorixa baiano da camara
alta. O armario que guard as irregularidades e
ilegalidades do president do Senado, ou por
ele amparadas, ter tantos esqueletos que es-
vazia-lo ainda demandara muito tempo. E qua-
se um poqo sem fundo. Ate pela lei das proba-
bilidades, algum dia um tiro certeiro saira da
saraivada de disparos aleat6rios, tortos ou s6
superficialmente danosos.
Resistirao a instituiqao legislative e o parti-
do politico de Jader Barbalho a essa remissio
de culpas e identificaqao de responsaveis, pro-
movidas cor a sofreguidao de carpideiras e
impeto moralista de conveniencia? Suportara o
cidadao a essa continue lavagem de roupa suja,


ainda que algumas peas sejam indevidamente
atiradas a tina de agua salobra? Que surpresas
ainda nao estao escondidas nesse acervo de
sujeiras? O que nao guardara Jader Barbalho
na manga para alcanqar seus adversarios no
moment final do sacrificio, que, se vier, sera
desmoralizador? Ou o balao de ensaio sera tao
murcho quanto o de ACM (e, em compensa-
qgo, o opr6brio da puniqao tao leniente)?
Independentemente da sorte de um indivi-
duo, esta em questao um padrao de moralidade
ptblica. O Brasil nao podera voltar as velhas
praticas depois que a cabeca do ex-govemador
paraense tiver sido decepada, quase como uma
clausula p6trea imanente ao sacrificio de Arruda
e ACM. Mas o sangue dessa fase do justo
terror" nao podera ser segmentado por acerto
tacito: quantas cabeqas esp6rias e indignas ain-
da terao que rolar no parlamento para expurga-lo
do vicio originado do compromisso politico mar-
ginal, dos antecedentes comprometedores, dos
biombos mantidos indevassados quando isso
interessa aos donos da informaqao?
Volta a pergunta: quantos politicos sairi-
am ilesos ou absolvidos de uma sabatina se-
qienciada e intense como a que a grande im-


prensa vem impondo a Jader Barbalho? Tera
que ser assim a partir de agora, para que os
politicos brasileiros tenham um atestado de
bom comportamento? Tudo o que e podre
colocado sobre uma mesa coletiva e que en-
tao se arrebente, quem nao puder resistir?
Se for assim, Jader Barbalho passara A his-
t6ria nao como o politico oportunista e apro-
veitador que se saiu bem de todas as compli-
caqbes, graqas a sua sagacidade e experien-
cia, mas como a pedra de toque para uma pro-
funda mudanqa na vida p6blica brasileira. Para
desencadear uma nova era, essa transforma-
q9o tem que alcanqar tambem a imprensa, que
nao pode exercer a funqao dejuiz ad-hoc sem
a contrafaqao desse poder, o de tambem pres-
tar contas a sociedade sobre seus atos, sendo
submetida ao control social externo.
Um Brasil que seja limpo nao apenas no ma-
rketing dos publicitarios ou na fraseologia de
um Zeus eletr6nico de boca mole. Um Brasil sa-
neado nas entranhas e no bolso, a parte mais
vulneravel do corpo das dezenas de milhoes de
brasileiros submetidos aos donos do poder, os
de sempre, cada vez mais ricos e cinicos.Masja
nao impunes.


Novo reitor (velho reitor?)


Alex Fiiza de Melo 6 o primeiro reitor da
Universidade Federal do Para originario da area
de ciencias humans e sociais, um soci6logo
que acaba de voltar de um doutorado em cien-
cia political, com dois livros de alto nivel te6rico
produzidos no percurso da p6s-graduaqao. Mas
pode nao ser o primeiro bom intellectual a se
afundar nos assuntos administrativos de uma
institui~ao complex e contradit6ria. O exemplo
mais recent 6 o do seu pr6prio antecessor, Cris-
tovam Diniz, excelente como pesquisador e pes-
soa, mas sofrivel como reitor.
Interrompendo uma s6rie de quatro profissio-
nais das ciencias exatas e naturais na reitoria da
UFPA (a "era dos ge6logos", criada por Jos6 Sei-
xas Lourenqo), antecedida por medicos e bacha-
reis em direito, Alex enfrenta tambem o ceticismo
dos brasileiros em relaqgo a elite national depois
do que fez na :Presid6ncia da Reptiblica um ho-
mem cor a qualificaqao de Femando Henrique
Cardoso, colega de oficio de Alex na sociologia
Mas seu maior desafio imediato 6 desfazer os
n6s politicos que podem ter sido armados para
vincular sua escolha ao process eleitoral de 2002.
Depois de ter sido o mais votado na consult
geral, por uma diferenca insignificant (menos de
meio por cento), Alex se tomou o segundo da


lista quando a escolha se tomou indireta, atraves
do conselho consultivo da Universidade. Rever-
teu a fltima hora o favoritismo de Carlos Manes-
chy, cabega da lista, graqas a dois apoios: o do
atual secretario estadual Nilson Pinto, do PSDB,
e o de Jader Barbalho, do PMDB.
A interpretaqao imediata dada a esse fato e
mais ou menos 6bvia: Alex pode ser um dos
pontos de ligaqao entire uma future e possivel
alianqa entire peemedebistas e tucanos no Para.
Ou, na pior das hip6teses, um cabo eleitoral em
favor de uma candidatura de Nilson Pinto (de
volta a Camara Federal, mais provavel, ou ao
Govemo do Estado, cada dia menos factivel),
ou do candidate para o qual o president do
Senado requerer seus pr6stimos.
Se fizer isso, Alex Fifiza de Melo estara con-
firmando as expectativas de razao dos que, sa-
cando contra o future, mas sem motive real hoje,
ja o acusam de vir a ser marionete desses dois
p6los do poder politico no Para. Evidentemente,
num process claudicante nas bases e autorita-
rio na consumaqio, afunilando tanto que se tor-
na solitario na decisao, a political, aquela que e
real, praticada todos os dias, tem seu peso. Mas
se ele se tomar um compromisso excessive, ar-
rastara o novo reitor para o final negatives, tris-


te ou melanc6lico dos que o antecederam no
posto nos mandates mais recentes. Se for igual,
Alex sera pior do que eles e traira sua biografia, o
que foi e o que podia ser.
O compromisso que tem cor os que influi-
ram para sua designaqgo deve acabar quando
assumi-lo implica transport os limits da dec6n-
cia, da lisura, da honestidade ou da eficiencia.
Um bor executive da dividends politicos pelo
bom trabalho que realize, nao pelas relacqes es-
purias que o mantem. Se quiser ser uma saudavel
novidade na UFPA, Alex tem que comeqar lim-
pando e arrumando a casa para que ela funcione
debaixo de uma exig6ncia basica: a do m6rito.
Isto significa professors dando efetivamen-
te aulas, num padrao de qualidade aceitavel; pes-
quisadores aplicados nas suas investigaq6es; a
funqao administrative subordinada aos fins de
ensino, pesquisa e difusao da academia; compa-
drios e fisiologismos desfeitos; alvura nas rela-
q9es dentro e fora do campus; e respeito. A UFPA
6 a segunda maior em alunos do pais. Mas isso s6
quer dizer que e inchada. Cabe ao novo reitor, a
partir do primeiro dia de trabalho, dar um sinal de
esperanqa a sociedade: de que a universidade fe-
deral vai tentar conciliar grandeza quantitativa com
qualidade. Tudo rimando com dignidade.









6 JOURNAL PESSOAL l -QUINZENA DEJULHO/ 2001


Cartas


A casa de Beatriz


Enchente
Prezado Lucio.
Teu artigo, Sinal das Aguas (ver Jornal Pessoal 260), fez eu
me reencontrar novamente cor minha infancia. Eu tinha 5 anos em
1953 e morava na fazenda do meu pai, perto de Obidos, quando
esse mundareu de Agua nos atingiu. Perdemos quase todo nosso
gado mas a cheia pra mirn foi uma grande e inesquecivel farra. E
tambem a epoca mais farta do ano. Os igap6s transbordam de
tambaquis e pirapitingas, dai eu concordar contigo que a palavra
flagelado talvez seja um pouco forte para denominar a situaqo do
nosso ribeirinho. Flagelo me lembra logo fome.Ha ausncia do
basico, e muito, mas nao ha fome. A cheia de 53 nos obrigou a
mudar para a casa do retire, com esteios mais altos, pois o assoalho
da nossa havia sido lambido pelas aguas. Toigas de capim entra-
vam pela porta da frente e varavam na cozinha. Tern razo o escri-
tor amazonense, Marcio Souza, quando diz que "o Amazonas nao
e um rio, e urna gafe geol6gica". Falta i parar com os improvises de
todo ano, estuda-lo e conheci-lo melhor. Quando fiz a cadeira de
Portos, Rios e Canais, na Escola de Engenharia, aprendi que rios
como o nosso Amazonas, ainda tontos em busca do seu destino,
sem leito totalmente definido, criando e "descriando" ilhas em
curtos periods, sao rios ditos de vidajovem. Sendo assim, como
qualquerjovem encharcado de hormnnios, ele e impaciente, algu-
mas vezes inconstante e sujeito a crises existenciais. E nos anos ern
que a crise se toma aguda, ele avanca cheio de impeto, se apossando
das varzeas, deixando-as firteis e a disposiqAo de alguma aqao mais
competent dos tecnocratas da Republica.
Ha uns cinco anos, acossado por essas lembrancas da
infancia, escrevi um pequeno texto que eu cometo a ousadia de
te mandar.Desculpa os erros e a ma caligrafia [o textofoipubli-
cado na ultima Agenda Amazbnica].
Com um abraqo do
Ademar Ayres do Amaral


Aluminio
O Para nao c o tnico Estado da Federaqao a abrigar o ciclo
complete do aluminio. A Alcoa e produtora de bauxita, alumina e
aluminio primrrio em Poqos de Caldas (MG). Penso que o ciclo
complete deveria contemplar os produtos denominados
de "transformados" ou semi-elaborados, compreendendo chapas,
folhas, cabos e vergalhdes e extrudados. A Abal (Associaqao Bra-
sileira de Aluminio), corn sede em Sao Paulo, produz um Relat6-
rio Estatistico Anual (estatisticas national e intemacional).
Atenciosamente,
Carlos Romano Ramos
Ronmano tern razdo na retijicacdo. 0 que ndo invalida o
argument da mnateria, antes o reforba. Nossa producio em
baiuita, alumina e aluminio e muito maior do que a de Pocos de
Caldas. A Alcoa, alias, esta nas duaspontas, la e aqui, integra-
da como nenhuma outra (ndo e d toa que comanda o cartel
international). E apesar de nas tresfrentes ter havido crescen-
tes incrementos deproducdo desde que osprojetos entraram na
fase operacional no Par,, entire 1979e 1991, ainda ndo ingres-
sainos na etapa que agrega maior valor, a do beneficiamento da
inateria prina e do instumo basico. A tese de Carlos Romano e
a mesma que estejornal sustenta ha muito tempo: ndo ultrapas-
sar a producdo de aluminio primdrio, ou s fazer um simbdlico
avanCo, comofaz a Soinco, e deixar o ciclo incomplete. Eja
temos mais de 20 anos no costado para ter direito a reclamar
desse peso, que onera nossas reladoes de troca.


Beatriz estava proibida de atravessar a
praca e entrar no saldo paroquial da Trinda-
de. Nos sibados a tarde e domingos de ma-
nha faziamos ali festas danqantes, brincadei-
ras ou palestras, as atividades que congrega-
vam a moqada no Clube de Jovens, orientado
pelo padre (hoje, ex) Carlos Coimbra, a con-
trafaqco amigavel ao monsenhor Miguel InA-
cio, o paroco que desafiou Barata ao manter
o sino repicando, contra a ordem de silencio
do caudilho. A autonomia de Beatriz nao ia
alem do percurso de 30 ou 40 metros da casa
da av6 a igreja.
Nos fins de semana, naquela metade dos
anos 60, ela aparecia, liberta da casa dos
pais, uma mansao de muros altos com tijo-
los vermelhos na Gentil Bittencourt, mas
ficava quase o tempo todo na batente do
casarao da av6, a mais bela edificaqco do
Largo da Trindade, ao menos para mim, que
ja gostava dessas construqoes antigas, corn
seu alto pe direito e suas
salas espaqosas, um con-
vite ao misterio ou ao pe- .
cado venial ao abrigo dos
seus muitos cantos. 1 |
La eu sentava para .-. -
conversas recatadas, que se estendiam por
horas, ate a v6 manda-la entrar, com jeito e
energia. Acho que so cruzei os limits ex-
ternos da casa duas ou tres vezes. Fora uma
ou outra amiga, talvez eu fosse o unico con-
fidente de Beatriz, moqa doce, de olhos pro-
fundos e brilhantes, um pouco cheinha de-
mais entao (adiposidade que desapareceu
completamente na maturidade, conform
pude observer na unica vez em que cruza-
mos rapidamente pela rua, muitos anos de-
pois), adiposidades, contudo, que eram
bem-vindas para compor seu perfil de mo-
delo de pintor impressionist, de manequim
de uma era em que as mulheres ainda nao
tinham obsessio atletica.
Duas semanas atras, quando fazia urn
dos roteiros das minhas caminhadas, depa-
rei corn o queja vinha prenunciando hi tem-
pos: o casarao da av6 de Beatriz, minha ver-
sAo da musa de Dante Alighieri pelas ruas
desta Belrn nada florentina, desabou. Pelo
buraco que se abriu em uma das laterais con-
templei novamente uma paisagem queja era
uma image borrada na minha mem6ria.
Pude voltar a ver Beatriz andando rente as
paredes, silenciosa e obediente, passaro da
calida manha ansiando por uma liberdade
que eu prenunciava, mas nao sabia ou nao
pude ajuda-la a conquistar.
Quase 20 anos depois da ultima vez em
que conversei com Beatriz na batente da casa
de sua av6, li em Doulor Fausto uma descri-
cAo que Thomas Mann fez de seu persona-
gem nesse romance, Adrian Leverkhiin, a


qual cu poderia ter dado um sentido pratico
sc dessa condicqo tivesse tido consciencia no
tempo oportuno:
"A quem teria Adrian aberto seu cora-
qFo? A quem teria jamais acolhido em sua
vida? Tais attitudes nao existiam para ele.
Accitava a dedicacqo de outrem, as vezes,
juro, scm percebe-las. Sua indiferenca era tAo
grande que apenas raras vezes se dava conta
da companhia em que estava e do que se pas-
sava ao scu redor, e o fato de ele quase nunca
ter chamado pelo nome a nenhum dos seus
interlocutores me faz supor que ele o ignora-
va, ao pass que estes tinham boas razdes
para pensar o contrario. Inclino-me a compa-
rar sua solidho a um abismo, no qual se apro-
fundavam, sem ruido ncm rastro, os senti-
mentos que os outros Ihe ofereciam".
Sc lesser mais literature, talvez as pes-
soas precisassem menos de terapias ou de
livros de auto-ajuda, de lexotans e prozacs, e
fossem mais felizcs, acei-
tando a tristeza e a melan-
S colia evcntuais como acon-
tecimento natural, a outra
face da mocda. Foi no que
mais uma vez pensei en-
quanto deixava o Largo da
Trindade para tras. Se as primeiras ruinas do
que antes fora a sede de uma solida familiar de
classes media no centro de Belem me provo-
caram tantas reminiscencias pessoals, aos
demais citadinos deviam levar a reflexes
mais objctivas e consequentes.
Por exemplo: a prcfeitura devia se ante-
cipar, ao inves de esperar que predios de va-
lor hist6rico e arquitet6nico (alem de senti-
mental), desabem. Um inventario das edifi-
caqces abandonadas ou maltratadas que mc-
recem ser preservadas scria a tarefa inicial.
Depois, contatar scus proprietarios. Ofere-
cer-lhes ajuda e vantagens para que conser-
vem, reformcm ou restaurem scus im6veis a
tempo, antes da destruiqio ou antes que seja
tardiamente demais para uma recuperaqao
plena, como no caso do solar dos Faciola, s6
para ficar no exemplo mais recent.
E neccssario convencer esses proprieti-
rios, muitos dos quais sao gatos escaldados
pela impericia e ineficiencia do poder pibli-
co, ou viciados por experiencias equivoca-
das, de que e melhor para todos e rentavel
para eles mesmos que essas edificaqdes man-
tenham suas linhas originals, tirando provei-
to de uma riqueza que ja possuem, sem se
deixarem levar por scduqces suspeitas e te-
merarias de lucro imediato.
Uma tal iniciativa teria poupado o
belo casario da av6 de Beatriz, moldura
parajuma vida que bateu a porta e se foi,
banida pela insensibilidade em volta e,
sobretudo, atras da porta imaginaria.







JOURNAL PESSOAL -1* QUINZENA DEJULHO/2001 7


Guerra na Estagao


O tempo das flores chegou ao fim na
Estacio das Docas. Agora 6 a vez dos
espinhos. Com o inconvenient de so co-
meqar a descobrir que o jardim era artifi-
cial: s6 continuaria a desabrochar comn
mais dinheiro official, as flores tratadas
numa estufa especial, a distancia da curi-
osidade public. O problema 6 que os es-
pinhos passaram a estourar na via judici-
al, quebrando o encanto do que devia ser
uma confraria fechada.
Chegou a 9" vara civel da capital uma
demand capaz de destruir reputacqes,
quebrar elos de amizade e desencadear
um contencioso de improperios. A Orga-
nizaqao Social Para 2000, que recebcu por
delegadao o direito de gerir a Estagio das
Docas, sem que houvesse um process
de selecao e de discuss.o p6blica do em-
preendimento, lanqou um torpedo judicial
contra os proprietarios de uma das lojas
do galpao nimero dois do estabelecimen-
to, especializado em gastronomia.
A aqao props a rescisao contratual,
complementada pelo despejo do rdu, cu-
mulada cor cobranqa de alugudis e obri-
gaq es contratuais e indenizacio de da-
nos morais, corn pedido liminar de tutela
antecipada. Tanta coisa drastica num s6
pedido indicaria o estado de animo dos
dirigentes da OS contra o advogado Silvio
Sa, fiador da empresa acionada e, na ver-
dade, seu proprietario.
A Para 2000 o acusa de relapso, levia-
no, irresponsavel e estelionatario, por nio
haver pagado os alugudis de sua loja, a Her-
mitage, nem as demais taxas incidents so-
bre a ocupaaio do espaco, num ddbito de
quase 30 mil reais acumulado atd fevereiro
deste ano, e ainda ter efetuado compras em
nome da instituiq o, mas sem o conhecimen-
to dela, que acabou sendo acionada em 10
projetos propostos pelos credores lesados.
Ao se negar a assumir suas responsabili-
dades de cond6mino, a empresa de Silvio Sa
podia vir a inviabilizar o empreendimento ad-
ministrado pela Pari 2000, "que tanto engran-
dece a cidade de Beldm, como um ponto tu-
ristico sem igual, no norte e nordeste do pais".
Em sua defesa o advogado diz que de-
cidiu iniciar sua atividade de comerciante
e investor na Estaqao das Docas depois de
um convite verbal que Ihe fez o secretario
de cultural do Estado, Paulo Chaves Fer-
nandes, que o levou para conhecer as obras
quando elas ainda estavam em andamen-


to. O secretario Ihe teria garantido exclusi-
vidade no fornecimento de vinhos aos res-
taurantes do complex e que suas despe-
sas de implanta o seriam ressarcidas atra-
ves de um financiamento do FDE (Fundo
de Desenvolvimento do Estado), com ju-
ros subsidiados e outras vantagens (dois
anos de cardncia e cinco para pagar).
Na peqa, Silvio Sa diz que todos os acer-
tos foram feitos ver-
balmente e as pres-
sas porque o secre-
tario estava aflito Na pega, 4
para concluir a obra
e responder a ofen- que todos
siva de critics que fora
vinha sofrendo de
politicos e da im- verbal
prensa, por conta
da elevaqao do or- pressas
camento da Esta-
cio das Docas, de secretly
6,2 milhoes para 20
mrilhes de reais. aflito pare
Garante ter gastado
quase R$ 140 mil obra e re
para poder inaugu- fens
rar a Hermitage, ofensiva
uma loja de vinhos que vinha
finos, caprichosa-
mente instalada, no politic
prazo de 25 dias.
Como s6 o fatu- imp7
ramento bruto, de
R$ 7 mil por mes,
no daria para
amortizar o capital imobilizado e assegurar
a rentabilidade do neg6cio, depois que per-
deu a exclusividade, Silvio Sa diz ter insisti-
do em receber o emprdstimo do FDE, ad-
ministrado pela Secretaria de Gestao do Es-
tado, a que os donos das lojas ancoras teri-
am tido acesso. Mas foi informado de que
sua atividade commercial nao se enquadra-
va no regulamento do fundo.
Tambem nao p6de receber o alvara de
localizaqgo. A Secretaria de Financas da
prefeitura de Beldm Ihe comunicou que a
Estaaio das Docas nao estava legaliza-
da, transgredindo tanto o C6digo de Pos-
turas quanto a legislaqgo referente a Ct-
bel. Silvio diz ainda que a inscriqao esta-
dual para as demais empresas instaladas
no local foi forecida "mediante um con-
chavo entire a Secretaria de Cultura e a
Secretaria de Fazenda".


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S

C
rs
sO


O advogado garante que fez as com-
pras de vinhos importados usando o nome
e o CGC da Para 200 cor a autorizacgo
de Paulo Chaves Fernandes, na expec-
tativa de sanar essa falha em seguida.
Mas a situaqAo teria mudado quando o
emprestimo nao saiu e os restaurants,
quebrando a promessa de exclusividade
que Ihe teria sido dada, comecaram a
comercializar vi-
nhos adquiridos
em supermerca-
ilvio Sa diz dos da cidade. Ao
reclamar da que-
os acertos bra do compro-
feitos misso numa reu-
niao public, teria

Wnte e as sido contraditado
pela assessoraju-
porque o ridica da OS, per-
cebendo que, na-
O estava quele moment, a
falencia do seu
concluir a neg6cio "foi ina-
S pelavelmente de-
;pondera cretada".
Analisando o
e critics seu case o de

ofrendo de quase todosospe-
quenos negocios
is e da montados no local,
que acabaram fa-
ensa lindo, Silvio Sa
constata: "A Esta-
cqo foi estrutura-
da para albergar
amigos diletos do Rei. Os diletos seriam
aqueles que iriam explorer as lojas anco-
ras, tais como cervejaria e restaurants.
Os pequenos lojistas foram convidados
para, de maneira impiedosa, pagar as con-
tas de uma administraqao cara, inoperan-
te e incompetente.
Diz o advogado que a Para 2000 foi
criada "cor o iinico objetivo de dar em-
pregos para 'mauricinhos' e 'patrici-
nhas' incompetentes, todos filhos, clien-
tes, parents ou apaniguados do Chefe
de Plantao". O president da entidade
receberia R$ 6 mil mensais "para dar
expediente diario, mau humorado, de
apenas uma hora".
Corn o contencioso estabelecido, sera
possivel agora retirar a maquilagem da
Estaqio das Docas e vd-la a luz do dia.
Distinguindo os gatos pardos dos pretos.












Se o governor realmente retomar o progra-
ma hidreletrico na Amaz6nia, aprontando o
gatilho para mais quatro usinas de grande
porte, os 6rgdos ligados a agua, desde a Ana,
a agencia national do setor, ate o Ministerio
Publico, tem que adotar medidas para ajustar
rapidamente o context em que essas obras
serao realizadas. Do contririo, embora o nivel
da consci&ncia humana sobre o uso desse re-
curso natural tenha evoluido bastante desde
a metade da d6cada de 70, quando foi iniciada
a construc o de Tucurui, a situaqao na Ama-
z6nia permanecera basicamente a mesma de
antes.
O uso multiple de um rio nao pode ser con-
dicionado, limitado ou impedido por uma uni-
ca das suas serventias. Os barrageiros certa-
mente nao tem duvida de que um rio serve,
acima de tudo, para produzir energia. Mesmo
admitindo-se como verdadeira essa premissa,
cada vez mais questionada, ha virias outras
utilidades, inclusive uma que crescerd de im-
portfncia com o tempo: os rios como fonte de
agua potavel. Dentro de duas d6cadas, um
bilhao de series humans ja nao dispordo de
dgua suficiente para suprir suas necessida-
des bdsicas, segundo cdlculos da ONU.


Atualizagao

A definiqgo de um aproveitamento hidrel6-
trico deve ser precedido de um piano de uso
mais amplo, abarcando toda a bacia. Isso nao
foi feito no Tocantins por falta de um conheci-
mento adequado a respeito na 6poca. Mas o
erro terd que ser repetido no Xingu, quando jd
temos ciencia de tal necessidade? Para realizi-
la, e precise constituir, urgentemente, os comi-
tes de bacia. Debaixo de sua jurisdiq~o e que
deverdo atuar as empresas de energia el6trica,
desalojando-as da posigao indevida de coman-
do e lideranqa que, por in6rcia das demais insti-
tuiq6es, elas ocuparam. Quanto ao monop6lio
que se outorgaram, nunca mais.
Nao se pode levantar uma barrage de
concrete no leito de rios do porte do Tocan-
tins, do Araguaia e do Xingu sem dispor de
um inventdrio complete de suas bacias e de
uma lei, devidamente aprovada pelo Con-
gresso Nacional, prevendo quantos aprovei-
tamentos hidrel6tricos neles serdo feitos e
sua descrigAo sumaria. Do contrario, uma hi-
drel6trica mal dimensionada acabard tornan-
do obrigat6rios outros barramentos a mon-
tante do rio, nao s6 para assegurar um fator
de capacidade minimo necessdrio, como para
a regularizaq~o hidrol6gica.


Para garantir o projeto de Tucurui, o govemo
assegurou que a barrage de Maraba havia se
tornado dispensavel e, em seguida, cancelou a
construcao de Santa Isabel, no Araguaia, dois pro-
jetos de impact ecol6gico negative. Agora que o
reservat6rio de Tucurui chega a niveis critics no
verao e que se tomara completamente insuficiente
corn a duplicago das necessidades de agua das
maquinas, a inevitabilidade da barrage de Mara-
ba comeca a ser empurrada goela adentro.
O mesmo deverd acontecer no Xingu. A Ele-
tronorte comega dizendo que s6 vai construir
uma hidreletrica (ainda mais uma corn as caracte-
risticas de Belo Monte, que durante dois meses
do ano nao tera agua para gerar energia) e de-
pois acaba apresentando um ou mais projetos
complementares. Do ponto em que se chegou
no conhecimento da importdncia das aguas dos
rios, nio se deve mais admitir o inicio de ne-
nhum empreendimento hidrel6trico sem antes
dispor de um piano global para toda a sua bacia.
Assim, Belo Monte deve voltar ao come-
Co nao s6 porque a Fadesp foi incompetent
na realizaqdo do estudo de impact ambiental
da obra, mas porque ela estd completamente
defasada em relacgo ao s6culo XXI. Estacio-
nou no passado convenient.


Desconhecimento
A nota ruim da promoqro da
TV Liberal sobre o paraense do
seculo XX foi o tultimo lugar em
que ficou o escritor Dalcidio Ju-
randir entire os nove pr&-selecio-
nados para a votaqgo.
Felizmente, a Unama realize nes-
ta semana o segundo ciclo de pales-
tras sobre aquele que 6 um dos mai-
ores escritores paraenses de todos
os tempos, dos raros de tamanho
universal,justamente porter explo-
rado suas profundas raizes locais.
Pela diversidade de abordagens e
sugestoes dos palestrantes da para
ter uma ideia da riqueza e originali-
dade do romancista do Maraj6 (e, a
partir dele, do mundo). 0 que os pa-
renses nio sabem. Ainda.


Quadrilhas
As quadrilhas juninas deste
ano nao estiveram com nada. Pro-
duto da concorr6ncia literalmente
desleal das quadrilhas fora de 6po-
ca. Aprontando como sempre, to-
mando no couro pela primeira vez.
Tomara que no pr6ximo ano a qua-
drajunina volte a ser o melhor lu-
gar para a atuaqio das quadrilhas.


Reconciliagao historic


A escolha de Gaspar Viana como o paraense do
seculo XX, na eleiq~o patrocinada pela TV Liberal,
nao traduz o estado do conhecimento dos paraen-
ses sobre seu her6i. O que a opinido public sabe
sobre o m6dico nao vai muito alem do que esta ins-
crito na sinalizaqgo da antiga rua da Industria, que
corre exatamente em frente A sede antiga dojoral O
Liberal e, mais remotamente, do que era o quartel-
general da Folha do Norte.
Mas e muito bom que, pelo empenho sobretudo
da classes m6dica, e especialmente de Habib Frahia
Neto, Gaspar Viana tenha sido o vencedor, mesmo
que, no rigor da avaliaqAo, nao possa ser conside-
rado o paraense mais influence em seu pr6prio Esta-
do, ou o de mais destacada atuaqAo fora dele no
ultimo s6culo, que acabou de passar (posiq~o que
Lauro Sodre, Ant6nio Lemos ou Magalhaes Barata
poderiam ocupar, se a promoq o nao tivesse tido
bases metodol6gicas tdo frdgeis). Gaspar Viana
pode, entretanto, ser um bom motive para os para-
enses reverem a biografia do homenageado e sua
hist6ria recent.
A tarefa 6 recompensadora. Gaspar Viana, um
home bonito, morreu muito novo, aos 29 anos, e
de maneira trdgica, por contaminaqdo do bacilo da
tuberculose num terrivel acidente de trabalho. His-
t6rias em torno dele estavam repletas nessa &poca
de enredos semelhantes: sua bela cunhada, uma
destacada professor da rede public do nascente


ensino republican, morreu com 24 anos, e novo
tambem morreu seu marido, irmio mais velho de Gas-
par, Arthur Viana (injustamente esquecido).
Com mais algum tempo de vida, o paraense teria
se ombreado as grandes personalidades da saide
public de um Brasil que se urbanizava e melhorava
o estado das suas cidades, gragas as rendas (ainda
que residuais) da exportaqto, como Carlos Chagas e
Oswaldo Cruz, com os quais Gaspar Viana trabalhou
no Rio de Janeiro. Sua mete6rica carreira deixou tan-
tos pontos de destaque, no aprendizado que fez, na
difusio dos conhecimentos acumulados e nas des-
cobertas efetuadas em pesquisas pioneiras, que ine-
vitavelmente Ihe daria a dimensdo just, de grande
nome da hist6ria brasileira.
Para que isso aconteqa agora, pordm, nio basta
esse moment de lembranqa, que vem em boa hora
para a classes m6dica local, abalada pelas ameaqas
que pesaram sobre a Faculdade de Medicina da
Universidade Federal do Para e o clamor contra a
mercantilizacqo da atividade. Falta uma biografia
decent e competent, capaz de provocar o interes-
se e socializar o conhecimento sobre uma pessoa
rara e um moment rico da hist6ria paraenses, to
mal conhecidos, apesar da festividade occasional em
toro deles. A Fundaiao Romulo Maiorana bem que
poderia, com a seriedade necessaria a realizagao da
tarefa, cuidar de preencher essa lacuna. Aduziria
perenidade a esse fogo-fatuo promocional.


Jornal Pessoal
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