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Journal Pessoal L C 1 O F L A V I O P I N T O ANO XIV N" 262 1* QUINZENA DE JULHO DE 2001 RS 2,00 BARRAGE Xingu tambem sera fechado Depois de terfechado o Tocantins, a Eletronorte planeja deixar tambem barrado o Xingu, outros dos grandes rios da bacia Amaz6nica a ser usado para produzir energia. Serd a conseqiiOncia da execucdo do projeto da hidreletrica de Belo Monte, tal como foi concebido pela empresa. Cor mais quatro hidrelitricas ecologicamente danosas previstas pelo governor, a perspective e critica para as hidrovias do Pard. BREVE NESTE LOCAL MRS UMA OBRA: RIO FECHADO Eletronorte S- A ~~`r*Jt 8s".I;,i4~~~ a porta, o govemo deixou de lado os constrangimentos e escripu- los ecol6gicos, responsaveis pela suspensao, na metade da d6cada de 80, do program de aproveitamento integral do potential hidrel6trico da Amaz6nia. Projetos que haviam sido condenados em virtude do seu impact sobre o meio am- biente foram retirados dos arquivos e es- tao sendo retocados para voltarem a ser executados. Nesta semana o governor deve anun- ciar sua intengao de construir mais quatro hidrel6tricas de grande porte no Para. Duas delas a de Maraba, no Tocantins, e a de Santa Isabel, no Araguaia havi- am sido abandonadas em fungao dos seus efeitos ambientais negatives. Um dos prin- cipais 6 o de impedir a manutenqao ou melhoria da navegabilidade em alguns dos principals rios formadores da maior bacia hidrografica do planet. Ha quase 20 anos, o primeiro desses rios barrados para a geracao de energia, o Tocantins, o 250 maior do planet, per- manece fechado por uma grossa parede de concrete de 74 metros de altura, re- cordista em concrete na hist6ria da enge- nharia brasileira. Embora o projeto da hi- ) . .* a m ... . p*'S w w' ~c~L- a~y=- --~La~--- ~sPfY~ "J~w~ i~j4- '-~an~L~rw; --r;-- - ~SpC"L~LC) 2 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DEJULHO/ 2001 drel6trica tenha acabado por incorporar o sistema de transposicgo, cedendo em 1979 a intensas presses sociais e political, a obra caminha a passes lentos. No final do pr6ximo ano a duplicaqgo da capacidade de geraqao da usina, de 4,2 milhoes para 8,3 milhoes de kw, de- vera ser concluida. Mas provavelmente nao as obras das eclusas, que completa- rao entao 24 anos em andamento. Para permitirem a superaqao do grande des- nivel de Tucurui, elas serao as maiores eclusas do mundo, com custo final supe- rior a 600 milh6es de d6lares. Em Tucurui, alem da hidrovia Ara- guaia-Tocantins, um dos projetos do "Avanqa Brasil", (o program de infra- estrutura do governor federal), que no future podera ser um grande escoadouro de mercadorias e produtos do Centro- Oeste e do Norte para outros paises, ha tambem ajustificativa de ter sido elimi- nado o transito de barcas, balsas e navi- os pelo rio Tocantins ate Belem, com a construqao da parede de concrete, que provocou a formaqao do_desnivel artifi- cial atrav6s da barrage. A situaq o e ainda mais grave no Xin- gu, mais a oeste, onde a Eletronorte es- pera comecar a construir, no pr6ximo ano, a segunda maior hidreletrica do pais, abai- xo apenas da de Itaipu, cor 11I milh6es de kw. Veneer um desnivel de 90 me- tros, como e previsto em Belo Monte, im- plicara uma das maiores obras de enge- nharia do pais. Serao necessarios tres patamares de parada dos "elevadores de navios", que sao as eclusas, cada um corn cerca de 30 metros de desnivel. Em Tucurui, onde as eclusas s.o as maiores do mundo (23,5 metros de largura por 33 metros de altu- ra), foram necessarios dois "elevadores", com um canal intermediario de 5,5 quil6- metros entire eles, para veneer um des- nivel de 70,5 metros, que e a diferenqa entire o nivel maximo exceptional a mon- tante, na primeira eclusa, de 74 metros, e o nivel minimo da eclusa dejusante, de 3,5 metros. A Eletronorte deixara de former em Belo Monte o reservat6rio que estava previsto inicialmente, cor area de 1.200 quil6metros quadrados, alagando toda a grande volta do rio. Ficara cor uma pe- quena reserve de agua, ocupando ape- nas 400 km2, equivalent a manuten.ao do nivel que o Xingu atinge durante o period das cheias (como se as aguas nunca mais baixassem, tornando-se pe- renes). Com isso, a empresa pretend se aproveitar do desnivel de 90 metros en- tre o inicio da grande volta do Xingu e o local da future casa de maquinas, ali cons- truindo dois canais revestidos, com 50 quilometros de extensao total. Se isso ocorrer, nem sera possivel fa- zer como foi feito em Tucurui: construir o -mm-MMMMMMM mmmm-mmmmmm Corn a execugao do projeto atual da hidreletrica, tal como a Eletronorte o concebeu, o Xingu nao sera mais o mesmo BREVE NESTE LOCAL MAS UMA OBRA: SRIO FECHADO 4 . Eletronorte encabeqamento da eclusa de montante, acoplado a estrutura da barragem, fecha- lo e aguardar a decisao sobre a constru- cqo do sistema de transposiqao do desni- vel do rio naquele ponto represado, que ficou em 74 metros. No caso do Xingu, s6 tera sentido o projeto atual da Eletronorte se nao houver eclusa. Como o rio sera desviado por esses canais ate a tomada d'agua, a descida sera lenta ao long da distdncia. Nao po- dera haver eclusas. A partir do moment em que comecar a construcao do canal, as eclusas estarao inviabilizadas. O Xin- gu ficara definitivamente bloqueado a menos de 300 quil6metros de sua foz, onde forma um delta interior de uma bacia flu- vial 6nico no mundo, e a mais de 1.700 quilometros de sua nascente, que fica em outro Estado, o Mato Grosso. O desnivel natural do Xingu realmente ja existe. S6 que ele ocorre numa longa curva, que reduz o impact das aguas e cria um declive menor. Ha pouca nave- ga go, mas ha sempre alguma. Ela pode- ria ser incrementada, em calado e tonela- gem dos comboios que passariam a utili- za-la como hidrovia, se ao sistema de transposigao de Belo Monte fossem acres- centados sistemas semelhantes nas bar- ragens seguintes, rio acima. Ja corn a execugao do projeto atual da hidreletrica, tal como a Eletronorte o con- cebeu, o Xingu nao sera mais o mesmo. Aldm dos canais concretados de adugao de agua para a casa de maquinas, abertos aproveitando o curso de dois pequenos afluentes, retificados e barrados, havera um vertedouro artificial no leito natural do rio. Sera o fim da navegaq o de hoje e, mais do que isso, das possibilidades de navegagio no future. No rio Xingu, no local onde esta sendo prevista a construcgo da hidreletrica de Belo Monte, o desnivel ja esta criado e nao ha navegacao expressive nesse tre- cho. Tecnicos do setor energdtico dizem que seria precise recorrer a muitajustifi- cativa, tanto tecnica como ambiental, para obrigar a construcao das eclusas e da es- cada de peixes. A Eletronorte ja declarou que essa ta- refa, se precisar ser executada, nao esta na sua esfera de responsabilidade. Tera que ser assumida por outra entidade. Pre- ventivamente, porem, a empresa tem pre- ferido destacar que o Xingu s6 e nave- gavel da foz at6 um pouco antes de Belo Monte e que a barrage, por isso, nao tera efeito sobre a navegaqgo. Ou a fal- ta de navegacgo Para reforcar essa posiq o, a Eletro- norte tem evitado tratar do aproveitamento de toda a bacia do Xingu, restringindo-se a abordar apenas a barrage de Belo Monte. Ora, se outros aproveitamentos forem realizados, numa hip6tese perfeita- mente factivel diante do grande potential energetico do rio, que s6 ter equivalent na vizinha bacia do Araguaia-Tocantins, nao incluir as eclusas e a escada de pei- xes no projeto da primeira hidrel6trica equivalera a consolidar essa lacuna nos empreendimentos seguintes. Corn isso, o pais perdera a grande oportunidade de conferir plena navegabilidade a um dos maiores rios do pais-e do mundo. JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DEJULHO/ 2001 3 Os oitenta anos do cidadao Otavio E impossivel, mesmo aos contrarios, como eu, nao deixar de levantar a taga para brindar os 80 anos bem vividos e produtivos do pensador E stava eu nos dias iniciais emA Pro- vincia do Para, no j distant ano de 1966, quando fiz minha primeira cobertura no quartel-general da 8a Regiao Militar (ainda combinada cor o Co- mando Militar da Amaz6nia, depois transferi- do para Manaus, em funcgo da nova geopoli- tica regional). Nao me record mais como a orientacao de pauta chegou ao nome do ad- vogado Otavio Mendonca. O que entao ouvi me fez desenvolver uma ideia pr6pria de adolescent interessado em melhorar o mundo: cada vez que o doutor Ota- vio era convocado para uma palestra no QG, o regime military se fortalecia mais um pouco. Corn sua verve brilhante e raciocinio rapido, a ser- viqo de uma cultural de raiz, o advogado forne- cia as fontes de legitimidade para o regime de exce~go, como o fazia Francisco Campos (in- justamente tratado como "Chico Ciencia", melhor retratado no romance A Montanha, do tambem mineiro Cyro dos Anjos) no Rio de Janeiro,junto ao marechal Humberto de Alen- car Castelo Branco, o primeiro president do ultimo ciclo castrense da Rep6blica (e, espe- ramos, o derradeiro mesmo). Nio sei se criei o fato ou se ele realmente existiu: antes dos anos vividos no Rio de Ja- neiro e Sdo Paulo, lembro-me de ter cruzado cor o doutor Otavio numa de suas palestras para o audit6rio de quepes e dragonas, que o ouvia sob um silencio absolute, indicador do interesse pelas palavras do orador attitudee inevitavel para qualquer pessoa cor o privile- gio de ouvir o advogado falar). S6 fui reen- contra-lo varios anos depois, o que signifi- cou, na verdade, o primeiro encontro, quando voltei a Belem e fui trabalhar em OLiberal. Um contato mais profundo, entretanto, so quando me pediu para ir conversar cor ele em seu escrit6rio, um dos baluartes que ainda re- siste no edificio Comendador Pinho, no dete- riorado centro antigo de Belem. Queria trocar ideias para a saudagao que me faria, escolhido por Romulo Maiorana como o apresentador do meu primeiro livro, Amaz6nia: o anteato da destruido, em 1977. Apreciei de pronto seu profissionalismo. Queria checar informaq6es e avivar lembrangas para ter dominio sobre o tema que iria tratar, sabendo que o lancamento, realizado nas ofici- nas dojornal, em plena atividade de impressio da ediaio dominical, seria um acontecimento. Nao por mim, e claro, mas pelo empenho de Romulo e pelo inusitado em que se veriam os muitos convidados, circulando entire res- folegantes rotativas, que, provavelmente, a maioriajamais havia visto de tao perto, e mais ainda: em atividade. Ideia que eu tivera num lampejo, endossada cor entusiasmo e alegria juvenis pelo dono do journal. Oliveira Bastos, um dos convivas, escreveria corn malicia, em 0 Estado do Para, que minha intenqfo tinha sido a de provocar uma confraternizaqao dos socialites cor a rale, sujeitos a mesma tinta e ao mesmo calor, ao menos por algumas horas. Alguns chamariam a isso provocaqao. Mas seu nome memorial era outro: democracia. Exaltada enquanto nao passa de desejo ou utopia. Mal aceita ou maltratada quando vira pratica, sempre exigindo mais. Otavio Mendonqa disse, no seu discurso, tudo o que eu gostaria de ouvir sobre o meu trabalho dejornalista. Nao por ser-me agrada- vel, mas por ser verdadeiro. Aquele tipo de elogio que faz bem a alma e nao exacerba a vaidade, cabendo cor justeza numa avalia- qao honest e perspicaz. Nenhum dos meus companheiros de viagem fez aquelas obser- vac6es, nem antes e nem depois. Mais esti- mulantes elas se tornaram para mim por terem said da cabeqa privilegiada de um contrario, de alguem que pensa muito diferente de mim, mas cuja visAo ultrapassa as miserias do coti- diano e os detalhes das divergencias para cap- tar e valorizar o que ha de bom e ttil na atua- gao do personagem em exame. Sem circunlo- quios nem rapapes. A admiragao por Otavio Mendonca, que vinha penetrando progressivamente dentro de mim, a media que o paladar intellectual se foi depurando, continuou a se consolidar e a se ampliar, sem desalojar a abordagem critical que continue e continuo- a fazer dele. Pode-se - e deve-se critical a pessoa que se admira ou da qual se gosta, sem que um movimento anule o outro, muito pelo contrario: da convi- vencia result nosso grau de civilidade. Quando a critical e um produto do criterio da verdade, querer bem e amizade continuam suas vidas independents enquanto a visao critical se aperfeiqoa, a serviqo do bem coleti- vo. Assim, felizmente, tem sido na relacio que o doutor Otavio e eu temos tido. Ambos res- peitando o direito alheio e resistindo as esto- cadas inevitaveis na luta de florete que even- tualmente travamos. Nao a teriamos senao sob esse patrim6nio de todos nos, o regime democratic. Durante o ciclo military, o component autoritario do pensamento de Otavio Mendonqa foi mais forte do que sua evidence tendencia democra- tica. Mas ele nao defended a centralizaqio do mando, algo que soa como musica em audit6- rios militares, para se vingar de desafetos ou torturar adversarios. O autoritarismo do dou- tor Otavio integra um conjunto de pensamen- to (um corpus, como se diz em filosofia e em direito, ou na filosofia do direito, o estofo ca- paz de distinguir um jurista, como o doutor Otavio, de meros aplicadores de f6rmulasjuri- dicas, como a esmagadora maioria dos seus companheiros de oficio). Pensadores como ele se propiem a mudar e modernizar o mundo dos homes num con- texto de relacqes estruturadas e estaveis, mas cor mando controlado por uma elite presumi- damente ilustrada. Esse pensamento e muito mais profundo e sofisticado do que o relho (e o ralho) de um ditador. E, a despeito do seu format autoritario, uma forma de humanismo, um projeto de sociedade, um program de aqio. Nao e algaravia de palanque. A temperanqa do tempo e a prevalencia de um sistema baseado na tolerancia e na pluralidade permitiram que duas pessoas de- siguais cultivassem uma relaaio fecunda, a mim cabendo a capacidade de saber apren- der e ao doutor Otavio a modulaiao no en- sinar, seja atraves de suas brilhantes aulas orais (nao necessariamente sob um teto ins- titucional), como de seus meticulosos arti- gos dejornal, quejamais deixam de expres- sar uma determinada weltanschaaung, infe- lizmente reduzida, em nossa lingua, a ideo- logia ou, menos elipiticamente, a visao do mundo, mas muito mais complex no verna- culo alemao (s6 no qual se pode filosofar, ja cantava Caetano Veloso). Por tudo isso, e impossivel, mesmo aos contrarios, como eu, nao deixar de levantar a taca, junto corn Reginaldo Cunha e Rohan Lima, promotores da festa da semana passa- da, para brindar os 80 anos bem vividos e pro- dutivos do cidadao Otavio Mendonca, um home citadino exemplar daquilo que a citas express, em seus aspects positives e nega- tivos, elogiaveis ou criticaveis, mas, nessa complexidade, vitais diante de um balanco fi- nal altamente superavitario. A cidade toda ter que levantar tambem esse brinde. Com pr6s e contras, Santa Maria de Belem do Grao Para, como o Grao todo, de resto, cresceu mais um pouco graqas A contribuiqAo desse ja vene- rando cidadao de 80 anos ainda 16cidos. 4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DEJULHO/2001 0 arquivo judicial nesta questao Durante anos estive a caqa do process judicial em torno do qual se armou uma ver- dadeira guerra em Santarem, entire 1967 e 1968, infelizmente cor mortos no seu 6pice. Meu pai, Elias Pinto, eleito pelo MDB no segundo principal municipio do Estado, numa eleiqao em que a Arena situacionista arrasou a opo- si~io (a outra vit6ria emedebista foi no pe- queno municipio de Santa Isabel do Para), acabou sendo afastado do cargo, poucos meses depois de hav&-lo assumido. Irregula- ridades apontadas pelo Tribunal de Contas pretextaram o afastamento. Mas a justiqa autorizou sua volta, aco- Ihendo um mandado de seguranqa patroci- nado pelo advogado Moura Palha, que tam- bem era politico. O cumprimento da ordem judicial foi atropelado por um desastrado ato de forqa do entao governador Alacid Nunes, que se colocou acima da lei (algo nao exata- mente raro nesta terra infeliz). A demand acabou inconclusa porque o governor fede- ral, assumindo o patrocinio da exceqio, en- quadrou Santarem como area de seguranqa national, retirando-lhe o direito de eleger seus administradores publicos e a autono- mia political. Na reconstituicgo dos fatos, tentei inutil- mente ter acesso ao process judicial. Tive a providencial ajuda do juiz que concede o mandado, Manoel Christo Alves, quando ele assumiu a presidencia do Tribunal de Justiqa do Estado, oito anos atras. Apesar do esfor- Co do doutor Christo, entretanto, os autos nio foram localizados nos arquivos do TJE, para onde subiram quando um recurso foi im- petrado na comarca de Santarem. Nao se tra- ta de um document que interesse apenas as parties demandantes. E uma peqa de signifi- cado maior, para a pr6pria hist6ria paraense. Mas parece perdida entire a montanha de pa- peis que se formou no arquivo judicial cen- tral, em Belem. Se enfileirados, esses processes se es- tenderiam por mais de cinco quil6metros. Pa- rece muito. Mas e pouco se o acervo for comparado ao de outros Estados, como Sao Paulo, o volume seria 30 vezes maior. Ou mesmo se os quase 130 anos de hist6ria do judiciario paraense, iniciada em 1874, tives- sem sido integralmente preservados. Milha- res de documents ja devem ter sido des- truidos ou estdo perdidos, como o proces- so de Santarem. Esse passado de incuria e coisa mesmo do passado. O TJE criou uma Divisdo de Documentadao de Arquivo, vinculada ao Departamento de Informaqdo e Documen- taqao, para impedir a repetiqFo dessas de- sastradas perdas. Um pass important foi dado cor a contrataqio de pessoal especi- alizado e a aquisicqo de um espaqo muito maior do que o impr6prio dep6sito que fun- cionava no terreo do f6rum de Belem. Mas outros muitos passes precisam ser dados -e com urgencia. Um desses passes, agora contido por uma controversial internal, atraiu minha atencqo. Envolve uma funcionaria com 25 anos de ser- viqos no TJE, Vilma Lobato Reis. Ela foi para Portugal ha cinco anos para freqUentar cur- sos de especializaqAo e, agora, doutorado em arquivologia na Universidade de Coimbra, em Portugal. E a unica tecnica do setor a haver tomado essa iniciativa. Durante esse tempo continuou a receber integralmente seu sali- rio, como apoio da instituiq~o para retornar a justiqa do Para e nela aplicar os conhecimen- tos adquiridos. A conclusAo do doutorado em andamen- to foi interrompida e esta ameaqada pela de- cisao do 6rgio pleno do TJE, adotada no mes passado, de nao renovar a autorizaq o dada a Vilma para sua atividade academica em Coimbra. O motive formal foi a apresen- taqao do pedido de renovagao em maio, ja fora do prazo legal, que se encerrou em 31 de dezembro do ano passado. Outros moti- vos de natureza subjetiva tambem foram ar- guidos nas duas sessoes que examinaram a questio, desde o tempo da demora da fun- cionaria no exterior, o cumprimento de suas obrigaq6es para com o TJE e a possibilida- de de ela nao retornar ao Para, aproveitando sua qualificaqao, ainda incomum no Brasil, para buscar uma situaqao melhor em outro Estado. A doutoranda admite a falha do pra- zo, para a qual tem sua explicaqgo pessoal. Contesta as demais restrioqes. At6 me interessar pelo caso, eu conhe- cia apenas por contato atrav6s da inter- net e nio por relaqio pessoal a filha de Vilma, a quem tenho dado ajuda no seu va- lioso mestrado em comunicaqao social, em Coimbra, sobre a imprensa paraense. A mre, s6 vim a conhecer agora, durante sua esta- da atual em Bel&m, e com ela conversei pes- soalmente uma unica vez, na biblioteca do TJE. Mas acho just sua luta pela conclu- sao do doutorado. Nao s6 para que nio haja a perda de tanto investimento huma- no e material numa atividade queja Ihe con- sumiu cinco anos, como pelo superior inte- resse do Estado. Vilma Reis me garantiu que voltard ao Para para aqui nao apenas retomar suas atividades no arquivo dojudiciirio, como para criar uma cultural arquivistica na ins- tituiqCo. Este projeto, tema de sua tese de doutoramento, corn uma s6lida base te6ri- ca, graqas a orientaqdo de Armando Ma- Iheiro e Maria Jose de Azevedo Santos, e muito mais amplo e profundo do que per- mite avaliar uma visio leiga. Que ainda nio tern intimidade cor uma ciencia nova, mas ja complex. O projeto nao consiste apenas em man- ter os papeis limpos e os documents acessiveis a uma consult imediata e se- gura, o queja nao seria pouco na situacqo present. Ele possibilitara tambem uma gestio informacional no TJE, de tal ma- neira que haja um control tecnico dos processes desde o moment em que eles forem gerados no protocolo judicial, dan- do-lhes tramitaq o celere e visibilidade, o curso legal (e formal) de que sao frequen- temente carentes. Com tal program, ajus- tiqa do Para se modernizara e aperfei9oa- ra, em beneficio de todos. Nao you entrar no merito da decisao do TJE, que denegou o pedido de Vilma. Acho que a falha formal existe, mas, por ser for- mal, pode ser reparada sem problems. Ad- mito o receio da instituiqao em relagqo ao future, ja que a tentaqio de buscar uma me- Ihoria professional ter freqiientemente dado causa ao descumprimento dos compromis- sos assumidos por pessoas que se benefi- ciam do dinheiro pfiblico e depois nao Ihe dio o retorno devido. Mas acho tambem que essa pode ser uma clausula contratual im- positiva, a ser cobrada e nao s6 moral- mente-em caso de descumprimento, inclu- sive pela via da imprensa. Acho, contudo, que o projeto assumi- do por Vilma Reis 6 tdo mais important que a direq~o do tribunal deveria reconsiderar sua decisao e proporcionar as condiqoes para sua servidora concluir o doutorado e voltar bem habilitada ao Para, aqui pondo em pratica a important e inovadora emprei- tada que concebeu para sua tese academi- ca e posterior atividade professional. Se nao fizer isso, cor todos os beneficios que ja recebeu do poder public, estara deson- rando seu nome e se tornando suscetivel a devida cobranqa contratual. Por acreditar na palavra e no projeto de Vilma, como ci- daddo e como eventual client que sou do arquivo da justi9a, faqo este registro, jun- tamente com a public reivindicaqdo ao TJE, deixando-lhe a palavra final, e sua conse- qiente responsabilidade. JOURNAL PESSOAL *1" QUINZENA DEJULHO/2001 5 0 fim e o fim de Jader Barbalho Qual politico brasileiro resistiria a uma ofensiva de various meses de investigaqao concentrada por parte da grande imprensa national? Raros, talvez. Jader Barbalho se- guramente nao esta entire eles. Nao parece ter fim a serie de mat6rias de denuncias que os maiores jornais, revistas e emissoras de radio e televisao do pais tim di- vulgado contra ele, desde que decidiu desafi- ar o ate entao mais poderoso dos politicos, Ant6nio Carlos Magalhaes, at6 presidir a ses- sao que excluiu o babalorixa baiano da camara alta. O armario que guard as irregularidades e ilegalidades do president do Senado, ou por ele amparadas, ter tantos esqueletos que es- vazia-lo ainda demandara muito tempo. E qua- se um poqo sem fundo. Ate pela lei das proba- bilidades, algum dia um tiro certeiro saira da saraivada de disparos aleat6rios, tortos ou s6 superficialmente danosos. Resistirao a instituiqao legislative e o parti- do politico de Jader Barbalho a essa remissio de culpas e identificaqao de responsaveis, pro- movidas cor a sofreguidao de carpideiras e impeto moralista de conveniencia? Suportara o cidadao a essa continue lavagem de roupa suja, ainda que algumas peas sejam indevidamente atiradas a tina de agua salobra? Que surpresas ainda nao estao escondidas nesse acervo de sujeiras? O que nao guardara Jader Barbalho na manga para alcanqar seus adversarios no moment final do sacrificio, que, se vier, sera desmoralizador? Ou o balao de ensaio sera tao murcho quanto o de ACM (e, em compensa- qgo, o opr6brio da puniqao tao leniente)? Independentemente da sorte de um indivi- duo, esta em questao um padrao de moralidade ptblica. O Brasil nao podera voltar as velhas praticas depois que a cabeca do ex-govemador paraense tiver sido decepada, quase como uma clausula p6trea imanente ao sacrificio de Arruda e ACM. Mas o sangue dessa fase do justo terror" nao podera ser segmentado por acerto tacito: quantas cabeqas esp6rias e indignas ain- da terao que rolar no parlamento para expurga-lo do vicio originado do compromisso politico mar- ginal, dos antecedentes comprometedores, dos biombos mantidos indevassados quando isso interessa aos donos da informaqao? Volta a pergunta: quantos politicos sairi- am ilesos ou absolvidos de uma sabatina se- qienciada e intense como a que a grande im- prensa vem impondo a Jader Barbalho? Tera que ser assim a partir de agora, para que os politicos brasileiros tenham um atestado de bom comportamento? Tudo o que e podre colocado sobre uma mesa coletiva e que en- tao se arrebente, quem nao puder resistir? Se for assim, Jader Barbalho passara A his- t6ria nao como o politico oportunista e apro- veitador que se saiu bem de todas as compli- caqbes, graqas a sua sagacidade e experien- cia, mas como a pedra de toque para uma pro- funda mudanqa na vida p6blica brasileira. Para desencadear uma nova era, essa transforma- q9o tem que alcanqar tambem a imprensa, que nao pode exercer a funqao dejuiz ad-hoc sem a contrafaqao desse poder, o de tambem pres- tar contas a sociedade sobre seus atos, sendo submetida ao control social externo. Um Brasil que seja limpo nao apenas no ma- rketing dos publicitarios ou na fraseologia de um Zeus eletr6nico de boca mole. Um Brasil sa- neado nas entranhas e no bolso, a parte mais vulneravel do corpo das dezenas de milhoes de brasileiros submetidos aos donos do poder, os de sempre, cada vez mais ricos e cinicos.Masja nao impunes. Novo reitor (velho reitor?) Alex Fiiza de Melo 6 o primeiro reitor da Universidade Federal do Para originario da area de ciencias humans e sociais, um soci6logo que acaba de voltar de um doutorado em cien- cia political, com dois livros de alto nivel te6rico produzidos no percurso da p6s-graduaqao. Mas pode nao ser o primeiro bom intellectual a se afundar nos assuntos administrativos de uma institui~ao complex e contradit6ria. O exemplo mais recent 6 o do seu pr6prio antecessor, Cris- tovam Diniz, excelente como pesquisador e pes- soa, mas sofrivel como reitor. Interrompendo uma s6rie de quatro profissio- nais das ciencias exatas e naturais na reitoria da UFPA (a "era dos ge6logos", criada por Jos6 Sei- xas Lourenqo), antecedida por medicos e bacha- reis em direito, Alex enfrenta tambem o ceticismo dos brasileiros em relaqgo a elite national depois do que fez na :Presid6ncia da Reptiblica um ho- mem cor a qualificaqao de Femando Henrique Cardoso, colega de oficio de Alex na sociologia Mas seu maior desafio imediato 6 desfazer os n6s politicos que podem ter sido armados para vincular sua escolha ao process eleitoral de 2002. Depois de ter sido o mais votado na consult geral, por uma diferenca insignificant (menos de meio por cento), Alex se tomou o segundo da lista quando a escolha se tomou indireta, atraves do conselho consultivo da Universidade. Rever- teu a fltima hora o favoritismo de Carlos Manes- chy, cabega da lista, graqas a dois apoios: o do atual secretario estadual Nilson Pinto, do PSDB, e o de Jader Barbalho, do PMDB. A interpretaqao imediata dada a esse fato e mais ou menos 6bvia: Alex pode ser um dos pontos de ligaqao entire uma future e possivel alianqa entire peemedebistas e tucanos no Para. Ou, na pior das hip6teses, um cabo eleitoral em favor de uma candidatura de Nilson Pinto (de volta a Camara Federal, mais provavel, ou ao Govemo do Estado, cada dia menos factivel), ou do candidate para o qual o president do Senado requerer seus pr6stimos. Se fizer isso, Alex Fifiza de Melo estara con- firmando as expectativas de razao dos que, sa- cando contra o future, mas sem motive real hoje, ja o acusam de vir a ser marionete desses dois p6los do poder politico no Para. Evidentemente, num process claudicante nas bases e autorita- rio na consumaqio, afunilando tanto que se tor- na solitario na decisao, a political, aquela que e real, praticada todos os dias, tem seu peso. Mas se ele se tomar um compromisso excessive, ar- rastara o novo reitor para o final negatives, tris- te ou melanc6lico dos que o antecederam no posto nos mandates mais recentes. Se for igual, Alex sera pior do que eles e traira sua biografia, o que foi e o que podia ser. O compromisso que tem cor os que influi- ram para sua designaqgo deve acabar quando assumi-lo implica transport os limits da dec6n- cia, da lisura, da honestidade ou da eficiencia. Um bor executive da dividends politicos pelo bom trabalho que realize, nao pelas relacqes es- purias que o mantem. Se quiser ser uma saudavel novidade na UFPA, Alex tem que comeqar lim- pando e arrumando a casa para que ela funcione debaixo de uma exig6ncia basica: a do m6rito. Isto significa professors dando efetivamen- te aulas, num padrao de qualidade aceitavel; pes- quisadores aplicados nas suas investigaq6es; a funqao administrative subordinada aos fins de ensino, pesquisa e difusao da academia; compa- drios e fisiologismos desfeitos; alvura nas rela- q9es dentro e fora do campus; e respeito. A UFPA 6 a segunda maior em alunos do pais. Mas isso s6 quer dizer que e inchada. Cabe ao novo reitor, a partir do primeiro dia de trabalho, dar um sinal de esperanqa a sociedade: de que a universidade fe- deral vai tentar conciliar grandeza quantitativa com qualidade. Tudo rimando com dignidade. 6 JOURNAL PESSOAL l -QUINZENA DEJULHO/ 2001 Cartas A casa de Beatriz Enchente Prezado Lucio. Teu artigo, Sinal das Aguas (ver Jornal Pessoal 260), fez eu me reencontrar novamente cor minha infancia. Eu tinha 5 anos em 1953 e morava na fazenda do meu pai, perto de Obidos, quando esse mundareu de Agua nos atingiu. Perdemos quase todo nosso gado mas a cheia pra mirn foi uma grande e inesquecivel farra. E tambem a epoca mais farta do ano. Os igap6s transbordam de tambaquis e pirapitingas, dai eu concordar contigo que a palavra flagelado talvez seja um pouco forte para denominar a situaqo do nosso ribeirinho. Flagelo me lembra logo fome.Ha ausncia do basico, e muito, mas nao ha fome. A cheia de 53 nos obrigou a mudar para a casa do retire, com esteios mais altos, pois o assoalho da nossa havia sido lambido pelas aguas. Toigas de capim entra- vam pela porta da frente e varavam na cozinha. Tern razo o escri- tor amazonense, Marcio Souza, quando diz que "o Amazonas nao e um rio, e urna gafe geol6gica". Falta i parar com os improvises de todo ano, estuda-lo e conheci-lo melhor. Quando fiz a cadeira de Portos, Rios e Canais, na Escola de Engenharia, aprendi que rios como o nosso Amazonas, ainda tontos em busca do seu destino, sem leito totalmente definido, criando e "descriando" ilhas em curtos periods, sao rios ditos de vidajovem. Sendo assim, como qualquerjovem encharcado de hormnnios, ele e impaciente, algu- mas vezes inconstante e sujeito a crises existenciais. E nos anos ern que a crise se toma aguda, ele avanca cheio de impeto, se apossando das varzeas, deixando-as firteis e a disposiqAo de alguma aqao mais competent dos tecnocratas da Republica. Ha uns cinco anos, acossado por essas lembrancas da infancia, escrevi um pequeno texto que eu cometo a ousadia de te mandar.Desculpa os erros e a ma caligrafia [o textofoipubli- cado na ultima Agenda Amazbnica]. Com um abraqo do Ademar Ayres do Amaral Aluminio O Para nao c o tnico Estado da Federaqao a abrigar o ciclo complete do aluminio. A Alcoa e produtora de bauxita, alumina e aluminio primrrio em Poqos de Caldas (MG). Penso que o ciclo complete deveria contemplar os produtos denominados de "transformados" ou semi-elaborados, compreendendo chapas, folhas, cabos e vergalhdes e extrudados. A Abal (Associaqao Bra- sileira de Aluminio), corn sede em Sao Paulo, produz um Relat6- rio Estatistico Anual (estatisticas national e intemacional). Atenciosamente, Carlos Romano Ramos Ronmano tern razdo na retijicacdo. 0 que ndo invalida o argument da mnateria, antes o reforba. Nossa producio em baiuita, alumina e aluminio e muito maior do que a de Pocos de Caldas. A Alcoa, alias, esta nas duaspontas, la e aqui, integra- da como nenhuma outra (ndo e d toa que comanda o cartel international). E apesar de nas tresfrentes ter havido crescen- tes incrementos deproducdo desde que osprojetos entraram na fase operacional no Par,, entire 1979e 1991, ainda ndo ingres- sainos na etapa que agrega maior valor, a do beneficiamento da inateria prina e do instumo basico. A tese de Carlos Romano e a mesma que estejornal sustenta ha muito tempo: ndo ultrapas- sar a producdo de aluminio primdrio, ou s fazer um simbdlico avanCo, comofaz a Soinco, e deixar o ciclo incomplete. Eja temos mais de 20 anos no costado para ter direito a reclamar desse peso, que onera nossas reladoes de troca. Beatriz estava proibida de atravessar a praca e entrar no saldo paroquial da Trinda- de. Nos sibados a tarde e domingos de ma- nha faziamos ali festas danqantes, brincadei- ras ou palestras, as atividades que congrega- vam a moqada no Clube de Jovens, orientado pelo padre (hoje, ex) Carlos Coimbra, a con- trafaqco amigavel ao monsenhor Miguel InA- cio, o paroco que desafiou Barata ao manter o sino repicando, contra a ordem de silencio do caudilho. A autonomia de Beatriz nao ia alem do percurso de 30 ou 40 metros da casa da av6 a igreja. Nos fins de semana, naquela metade dos anos 60, ela aparecia, liberta da casa dos pais, uma mansao de muros altos com tijo- los vermelhos na Gentil Bittencourt, mas ficava quase o tempo todo na batente do casarao da av6, a mais bela edificaqco do Largo da Trindade, ao menos para mim, que ja gostava dessas construqoes antigas, corn seu alto pe direito e suas salas espaqosas, um con- vite ao misterio ou ao pe- . cado venial ao abrigo dos seus muitos cantos. 1 | La eu sentava para .-. - conversas recatadas, que se estendiam por horas, ate a v6 manda-la entrar, com jeito e energia. Acho que so cruzei os limits ex- ternos da casa duas ou tres vezes. Fora uma ou outra amiga, talvez eu fosse o unico con- fidente de Beatriz, moqa doce, de olhos pro- fundos e brilhantes, um pouco cheinha de- mais entao (adiposidade que desapareceu completamente na maturidade, conform pude observer na unica vez em que cruza- mos rapidamente pela rua, muitos anos de- pois), adiposidades, contudo, que eram bem-vindas para compor seu perfil de mo- delo de pintor impressionist, de manequim de uma era em que as mulheres ainda nao tinham obsessio atletica. Duas semanas atras, quando fazia urn dos roteiros das minhas caminhadas, depa- rei corn o queja vinha prenunciando hi tem- pos: o casarao da av6 de Beatriz, minha ver- sAo da musa de Dante Alighieri pelas ruas desta Belrn nada florentina, desabou. Pelo buraco que se abriu em uma das laterais con- templei novamente uma paisagem queja era uma image borrada na minha mem6ria. Pude voltar a ver Beatriz andando rente as paredes, silenciosa e obediente, passaro da calida manha ansiando por uma liberdade que eu prenunciava, mas nao sabia ou nao pude ajuda-la a conquistar. Quase 20 anos depois da ultima vez em que conversei com Beatriz na batente da casa de sua av6, li em Doulor Fausto uma descri- cAo que Thomas Mann fez de seu persona- gem nesse romance, Adrian Leverkhiin, a qual cu poderia ter dado um sentido pratico sc dessa condicqo tivesse tido consciencia no tempo oportuno: "A quem teria Adrian aberto seu cora- qFo? A quem teria jamais acolhido em sua vida? Tais attitudes nao existiam para ele. Accitava a dedicacqo de outrem, as vezes, juro, scm percebe-las. Sua indiferenca era tAo grande que apenas raras vezes se dava conta da companhia em que estava e do que se pas- sava ao scu redor, e o fato de ele quase nunca ter chamado pelo nome a nenhum dos seus interlocutores me faz supor que ele o ignora- va, ao pass que estes tinham boas razdes para pensar o contrario. Inclino-me a compa- rar sua solidho a um abismo, no qual se apro- fundavam, sem ruido ncm rastro, os senti- mentos que os outros Ihe ofereciam". Sc lesser mais literature, talvez as pes- soas precisassem menos de terapias ou de livros de auto-ajuda, de lexotans e prozacs, e fossem mais felizcs, acei- tando a tristeza e a melan- S colia evcntuais como acon- tecimento natural, a outra face da mocda. Foi no que mais uma vez pensei en- quanto deixava o Largo da Trindade para tras. Se as primeiras ruinas do que antes fora a sede de uma solida familiar de classes media no centro de Belem me provo- caram tantas reminiscencias pessoals, aos demais citadinos deviam levar a reflexes mais objctivas e consequentes. Por exemplo: a prcfeitura devia se ante- cipar, ao inves de esperar que predios de va- lor hist6rico e arquitet6nico (alem de senti- mental), desabem. Um inventario das edifi- caqces abandonadas ou maltratadas que mc- recem ser preservadas scria a tarefa inicial. Depois, contatar scus proprietarios. Ofere- cer-lhes ajuda e vantagens para que conser- vem, reformcm ou restaurem scus im6veis a tempo, antes da destruiqio ou antes que seja tardiamente demais para uma recuperaqao plena, como no caso do solar dos Faciola, s6 para ficar no exemplo mais recent. E neccssario convencer esses proprieti- rios, muitos dos quais sao gatos escaldados pela impericia e ineficiencia do poder pibli- co, ou viciados por experiencias equivoca- das, de que e melhor para todos e rentavel para eles mesmos que essas edificaqdes man- tenham suas linhas originals, tirando provei- to de uma riqueza que ja possuem, sem se deixarem levar por scduqces suspeitas e te- merarias de lucro imediato. Uma tal iniciativa teria poupado o belo casario da av6 de Beatriz, moldura parajuma vida que bateu a porta e se foi, banida pela insensibilidade em volta e, sobretudo, atras da porta imaginaria. JOURNAL PESSOAL -1* QUINZENA DEJULHO/2001 7 Guerra na Estagao O tempo das flores chegou ao fim na Estacio das Docas. Agora 6 a vez dos espinhos. Com o inconvenient de so co- meqar a descobrir que o jardim era artifi- cial: s6 continuaria a desabrochar comn mais dinheiro official, as flores tratadas numa estufa especial, a distancia da curi- osidade public. O problema 6 que os es- pinhos passaram a estourar na via judici- al, quebrando o encanto do que devia ser uma confraria fechada. Chegou a 9" vara civel da capital uma demand capaz de destruir reputacqes, quebrar elos de amizade e desencadear um contencioso de improperios. A Orga- nizaqao Social Para 2000, que recebcu por delegadao o direito de gerir a Estagio das Docas, sem que houvesse um process de selecao e de discuss.o p6blica do em- preendimento, lanqou um torpedo judicial contra os proprietarios de uma das lojas do galpao nimero dois do estabelecimen- to, especializado em gastronomia. A aqao props a rescisao contratual, complementada pelo despejo do rdu, cu- mulada cor cobranqa de alugudis e obri- gaq es contratuais e indenizacio de da- nos morais, corn pedido liminar de tutela antecipada. Tanta coisa drastica num s6 pedido indicaria o estado de animo dos dirigentes da OS contra o advogado Silvio Sa, fiador da empresa acionada e, na ver- dade, seu proprietario. A Para 2000 o acusa de relapso, levia- no, irresponsavel e estelionatario, por nio haver pagado os alugudis de sua loja, a Her- mitage, nem as demais taxas incidents so- bre a ocupaaio do espaco, num ddbito de quase 30 mil reais acumulado atd fevereiro deste ano, e ainda ter efetuado compras em nome da instituiq o, mas sem o conhecimen- to dela, que acabou sendo acionada em 10 projetos propostos pelos credores lesados. Ao se negar a assumir suas responsabili- dades de cond6mino, a empresa de Silvio Sa podia vir a inviabilizar o empreendimento ad- ministrado pela Pari 2000, "que tanto engran- dece a cidade de Beldm, como um ponto tu- ristico sem igual, no norte e nordeste do pais". Em sua defesa o advogado diz que de- cidiu iniciar sua atividade de comerciante e investor na Estaqao das Docas depois de um convite verbal que Ihe fez o secretario de cultural do Estado, Paulo Chaves Fer- nandes, que o levou para conhecer as obras quando elas ainda estavam em andamen- to. O secretario Ihe teria garantido exclusi- vidade no fornecimento de vinhos aos res- taurantes do complex e que suas despe- sas de implanta o seriam ressarcidas atra- ves de um financiamento do FDE (Fundo de Desenvolvimento do Estado), com ju- ros subsidiados e outras vantagens (dois anos de cardncia e cinco para pagar). Na peqa, Silvio Sa diz que todos os acer- tos foram feitos ver- balmente e as pres- sas porque o secre- tario estava aflito Na pega, 4 para concluir a obra e responder a ofen- que todos siva de critics que fora vinha sofrendo de politicos e da im- verbal prensa, por conta da elevaqao do or- pressas camento da Esta- cio das Docas, de secretly 6,2 milhoes para 20 mrilhes de reais. aflito pare Garante ter gastado quase R$ 140 mil obra e re para poder inaugu- fens rar a Hermitage, ofensiva uma loja de vinhos que vinha finos, caprichosa- mente instalada, no politic prazo de 25 dias. Como s6 o fatu- imp7 ramento bruto, de R$ 7 mil por mes, no daria para amortizar o capital imobilizado e assegurar a rentabilidade do neg6cio, depois que per- deu a exclusividade, Silvio Sa diz ter insisti- do em receber o emprdstimo do FDE, ad- ministrado pela Secretaria de Gestao do Es- tado, a que os donos das lojas ancoras teri- am tido acesso. Mas foi informado de que sua atividade commercial nao se enquadra- va no regulamento do fundo. Tambem nao p6de receber o alvara de localizaqgo. A Secretaria de Financas da prefeitura de Beldm Ihe comunicou que a Estaaio das Docas nao estava legaliza- da, transgredindo tanto o C6digo de Pos- turas quanto a legislaqgo referente a Ct- bel. Silvio diz ainda que a inscriqao esta- dual para as demais empresas instaladas no local foi forecida "mediante um con- chavo entire a Secretaria de Cultura e a Secretaria de Fazenda". 7 'I( S C rs sO O advogado garante que fez as com- pras de vinhos importados usando o nome e o CGC da Para 200 cor a autorizacgo de Paulo Chaves Fernandes, na expec- tativa de sanar essa falha em seguida. Mas a situaqAo teria mudado quando o emprestimo nao saiu e os restaurants, quebrando a promessa de exclusividade que Ihe teria sido dada, comecaram a comercializar vi- nhos adquiridos em supermerca- ilvio Sa diz dos da cidade. Ao reclamar da que- os acertos bra do compro- feitos misso numa reu- niao public, teria Wnte e as sido contraditado pela assessoraju- porque o ridica da OS, per- cebendo que, na- O estava quele moment, a falencia do seu concluir a neg6cio "foi ina- S pelavelmente de- ;pondera cretada". Analisando o e critics seu case o de ofrendo de quase todosospe- quenos negocios is e da montados no local, que acabaram fa- ensa lindo, Silvio Sa constata: "A Esta- cqo foi estrutura- da para albergar amigos diletos do Rei. Os diletos seriam aqueles que iriam explorer as lojas anco- ras, tais como cervejaria e restaurants. Os pequenos lojistas foram convidados para, de maneira impiedosa, pagar as con- tas de uma administraqao cara, inoperan- te e incompetente. Diz o advogado que a Para 2000 foi criada "cor o iinico objetivo de dar em- pregos para 'mauricinhos' e 'patrici- nhas' incompetentes, todos filhos, clien- tes, parents ou apaniguados do Chefe de Plantao". O president da entidade receberia R$ 6 mil mensais "para dar expediente diario, mau humorado, de apenas uma hora". Corn o contencioso estabelecido, sera possivel agora retirar a maquilagem da Estaqio das Docas e vd-la a luz do dia. Distinguindo os gatos pardos dos pretos. Se o governor realmente retomar o progra- ma hidreletrico na Amaz6nia, aprontando o gatilho para mais quatro usinas de grande porte, os 6rgdos ligados a agua, desde a Ana, a agencia national do setor, ate o Ministerio Publico, tem que adotar medidas para ajustar rapidamente o context em que essas obras serao realizadas. Do contririo, embora o nivel da consci&ncia humana sobre o uso desse re- curso natural tenha evoluido bastante desde a metade da d6cada de 70, quando foi iniciada a construc o de Tucurui, a situaqao na Ama- z6nia permanecera basicamente a mesma de antes. O uso multiple de um rio nao pode ser con- dicionado, limitado ou impedido por uma uni- ca das suas serventias. Os barrageiros certa- mente nao tem duvida de que um rio serve, acima de tudo, para produzir energia. Mesmo admitindo-se como verdadeira essa premissa, cada vez mais questionada, ha virias outras utilidades, inclusive uma que crescerd de im- portfncia com o tempo: os rios como fonte de agua potavel. Dentro de duas d6cadas, um bilhao de series humans ja nao dispordo de dgua suficiente para suprir suas necessida- des bdsicas, segundo cdlculos da ONU. Atualizagao A definiqgo de um aproveitamento hidrel6- trico deve ser precedido de um piano de uso mais amplo, abarcando toda a bacia. Isso nao foi feito no Tocantins por falta de um conheci- mento adequado a respeito na 6poca. Mas o erro terd que ser repetido no Xingu, quando jd temos ciencia de tal necessidade? Para realizi- la, e precise constituir, urgentemente, os comi- tes de bacia. Debaixo de sua jurisdiq~o e que deverdo atuar as empresas de energia el6trica, desalojando-as da posigao indevida de coman- do e lideranqa que, por in6rcia das demais insti- tuiq6es, elas ocuparam. Quanto ao monop6lio que se outorgaram, nunca mais. Nao se pode levantar uma barrage de concrete no leito de rios do porte do Tocan- tins, do Araguaia e do Xingu sem dispor de um inventdrio complete de suas bacias e de uma lei, devidamente aprovada pelo Con- gresso Nacional, prevendo quantos aprovei- tamentos hidrel6tricos neles serdo feitos e sua descrigAo sumaria. Do contrario, uma hi- drel6trica mal dimensionada acabard tornan- do obrigat6rios outros barramentos a mon- tante do rio, nao s6 para assegurar um fator de capacidade minimo necessdrio, como para a regularizaq~o hidrol6gica. Para garantir o projeto de Tucurui, o govemo assegurou que a barrage de Maraba havia se tornado dispensavel e, em seguida, cancelou a construcao de Santa Isabel, no Araguaia, dois pro- jetos de impact ecol6gico negative. Agora que o reservat6rio de Tucurui chega a niveis critics no verao e que se tomara completamente insuficiente corn a duplicago das necessidades de agua das maquinas, a inevitabilidade da barrage de Mara- ba comeca a ser empurrada goela adentro. O mesmo deverd acontecer no Xingu. A Ele- tronorte comega dizendo que s6 vai construir uma hidreletrica (ainda mais uma corn as caracte- risticas de Belo Monte, que durante dois meses do ano nao tera agua para gerar energia) e de- pois acaba apresentando um ou mais projetos complementares. Do ponto em que se chegou no conhecimento da importdncia das aguas dos rios, nio se deve mais admitir o inicio de ne- nhum empreendimento hidrel6trico sem antes dispor de um piano global para toda a sua bacia. Assim, Belo Monte deve voltar ao come- Co nao s6 porque a Fadesp foi incompetent na realizaqdo do estudo de impact ambiental da obra, mas porque ela estd completamente defasada em relacgo ao s6culo XXI. Estacio- nou no passado convenient. Desconhecimento A nota ruim da promoqro da TV Liberal sobre o paraense do seculo XX foi o tultimo lugar em que ficou o escritor Dalcidio Ju- randir entire os nove pr&-selecio- nados para a votaqgo. Felizmente, a Unama realize nes- ta semana o segundo ciclo de pales- tras sobre aquele que 6 um dos mai- ores escritores paraenses de todos os tempos, dos raros de tamanho universal,justamente porter explo- rado suas profundas raizes locais. Pela diversidade de abordagens e sugestoes dos palestrantes da para ter uma ideia da riqueza e originali- dade do romancista do Maraj6 (e, a partir dele, do mundo). 0 que os pa- renses nio sabem. Ainda. Quadrilhas As quadrilhas juninas deste ano nao estiveram com nada. Pro- duto da concorr6ncia literalmente desleal das quadrilhas fora de 6po- ca. Aprontando como sempre, to- mando no couro pela primeira vez. Tomara que no pr6ximo ano a qua- drajunina volte a ser o melhor lu- gar para a atuaqio das quadrilhas. Reconciliagao historic A escolha de Gaspar Viana como o paraense do seculo XX, na eleiq~o patrocinada pela TV Liberal, nao traduz o estado do conhecimento dos paraen- ses sobre seu her6i. O que a opinido public sabe sobre o m6dico nao vai muito alem do que esta ins- crito na sinalizaqgo da antiga rua da Industria, que corre exatamente em frente A sede antiga dojoral O Liberal e, mais remotamente, do que era o quartel- general da Folha do Norte. Mas e muito bom que, pelo empenho sobretudo da classes m6dica, e especialmente de Habib Frahia Neto, Gaspar Viana tenha sido o vencedor, mesmo que, no rigor da avaliaqAo, nao possa ser conside- rado o paraense mais influence em seu pr6prio Esta- do, ou o de mais destacada atuaqAo fora dele no ultimo s6culo, que acabou de passar (posiq~o que Lauro Sodre, Ant6nio Lemos ou Magalhaes Barata poderiam ocupar, se a promoq o nao tivesse tido bases metodol6gicas tdo frdgeis). Gaspar Viana pode, entretanto, ser um bom motive para os para- enses reverem a biografia do homenageado e sua hist6ria recent. A tarefa 6 recompensadora. Gaspar Viana, um home bonito, morreu muito novo, aos 29 anos, e de maneira trdgica, por contaminaqdo do bacilo da tuberculose num terrivel acidente de trabalho. His- t6rias em torno dele estavam repletas nessa &poca de enredos semelhantes: sua bela cunhada, uma destacada professor da rede public do nascente ensino republican, morreu com 24 anos, e novo tambem morreu seu marido, irmio mais velho de Gas- par, Arthur Viana (injustamente esquecido). Com mais algum tempo de vida, o paraense teria se ombreado as grandes personalidades da saide public de um Brasil que se urbanizava e melhorava o estado das suas cidades, gragas as rendas (ainda que residuais) da exportaqto, como Carlos Chagas e Oswaldo Cruz, com os quais Gaspar Viana trabalhou no Rio de Janeiro. Sua mete6rica carreira deixou tan- tos pontos de destaque, no aprendizado que fez, na difusio dos conhecimentos acumulados e nas des- cobertas efetuadas em pesquisas pioneiras, que ine- vitavelmente Ihe daria a dimensdo just, de grande nome da hist6ria brasileira. Para que isso aconteqa agora, pordm, nio basta esse moment de lembranqa, que vem em boa hora para a classes m6dica local, abalada pelas ameaqas que pesaram sobre a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Para e o clamor contra a mercantilizacqo da atividade. Falta uma biografia decent e competent, capaz de provocar o interes- se e socializar o conhecimento sobre uma pessoa rara e um moment rico da hist6ria paraenses, to mal conhecidos, apesar da festividade occasional em toro deles. A Fundaiao Romulo Maiorana bem que poderia, com a seriedade necessaria a realizagao da tarefa, cuidar de preencher essa lacuna. Aduziria perenidade a esse fogo-fatuo promocional. Jornal Pessoal Edl ur LU'rO F' a.o0 P.-..lo F0Dn. s iu 'lt tl 2 1 AI 2 J. i I4: 1 Conlalo T. Er ..T... .. i.;'..i ~5i 2( 66L .] I:4U e-mI al l ridu ma', 65dT. .:..- Pi oai;flO AI.I'.. P.n." Edit o de Arne Lui I1r.t. nlad..a.ii L |
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