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Journal Pessoal L C IO FLA V P IN T ANO XIV NO 261 2a QUINZENA DE JUNHO DE 2001 'R$ 2,00 POLITICAL Todos no picadeiro Jader Barbalho pode estar sendo condenado ndo pelo que realmente fez, mas pelo que seus adversarios, muitos deles ainda ocultos, dizem que fez. A sentenga precede o devido process legal. Se o president do Senado merece ser cassado, antes disso as hist6rias devem ser devidamente esclarecidas, expostas a luz do dia. Sem definigdo antes da apuraado dosfatos. Osenador Jader Barbalho per- deu seu ultimo aliado na gran- de imprensa brasileira: nesta semana, a revista Istoe, a unica que Ihe vinha dando tratamento favoravel, colocou sua foto na capa (repetida, com mais agressividade editorial, na abertura da materia) e oito paginas de reportagem feita para causar impact. Ecoava, assim, uma nova de- nuncia, tao ou mais grave que as anteri- ores, contra o president do legislative brasileiro: de que ele foi o beneficiario da comercializagao de TDAs (Titulos da Divida Agraria), emitidos quando era mi- nistro da reform agraria, no governor Jos6 Sarney, para bancar as benfeitorias de im6veis rurais desapropriados por in- teresse s6cia, diretamente por ele ou por sua indicacqo. At6 entao, Istoe vinha caminhando em parelha com o senador do PMDB, contra- ditando as mat6rias escritas contra ele ou atacando seus inimigos, principalmente o ex-senador Ant6nio Carlos Magalhaes. Dizia-se que, alem do interesse estritamente jornalistico, havia um component ainda mais forte nessa posiqao: o ex-governador de Sao Paulo, Orestes Qu6rcia, que sem- pre foi extremamente generoso corn a re- ........ 1 11 :{c r .r i11 LCL.] L :1 E .i a u 2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DEJUNHO/ 2001 vista, destinando-lhe verbas publicitarias ou prestando-lhe outras gentilezas. Se tal in- terferencia existia e persiste, o que mudou para alterar o sentido do vento dominant na redadao da revista? Segundo as especulacqes, o apoio que Jader deu ao deputado federal Michel Te- mer na dispute pelo control do PMDB paulista. Temer 6 adversario de Qu6rcia, a quem deseja afastar para poder apre- sentar-se como candidate ao governor de Slo Paulo, objetivo que voltou a fazer parte da estrat6gia de Qu6rcia. O texto, cujo tom extrapolou a tecnica da reportagem para assumir uma entonacgo editorializa- da, seria o troco. Qu6rcia rompeu ou esta ameacando romper com seu antigo alia- do, Jader Barbalho, a quem tanto ajudou no passado e com quem vinha mantendo identidades, voluntarias ou nao. Essa hip6tese 6 plausivel. O conteu- do da mat6ria a reforga. Istoe aceitou e deu desproporcional repercussao a uma hist6ria fragil, cheia de lacunas e contra- dicqes. Seu principal element de credi- bilidade 6 o pr6prio enredo da desapro- priacao da Fazenda Paraiso, em Viseu, no Para, feita pelo Mirad em 1988, que este journal foi o primeiro a denunciar, naquele mesmo ano (13 anos antes da grande imprensa). O chefe da Secretaria de Recursos Fundiarios, Ant6nio Pinho, na 6poca um dos homes mais pr6ximos e influentes junto a Jader, atropelou o bom senso, as normas legais e a pr6pria seqtiUncia re- gular da tramitagao do process para con- cluir a desapropriaqao de um im6vel cuja existencia era posta em d6vida e a domi- nialidade, questionada. Era, no minimo, uma agao temeraria, que acabou levan- do-o a condenaqao pela justiqa federal (ver, a prop6sito, JP 259). A reportagem publicada por Istoe sus- tenta que por tras da operaqco estaria o pr6prio Jader Barbalho. A ele o suposto proprietario da Fazenda Paraiso, Vicente de Paula Pedrosa da Silva, teria levado o 'dinheiro apurado com a venda das TDAs que recebeu do Mirad por conta da desa- propriaqao. Um irmao de Jader (nao iden- tificado pela revista, que simplesmente re- passou a documentaqao recebida de ter- ceiros, limitando sua investigaqao pr6pria a ouvir alguns dos principals envolvidos) teria sido apenas o intermediario e Pedro- sa funcionou como "laranja". Como esse 6 um esquema triangular usual nesse tipo de corrupcgo, o enredo tem verossilhanca. S6 nao tem consist6ncia. As 55,2 mil TDAs entregues pelo Mi- rad a Pedrosa no final de 1988 valem atu- almente 5,3 milhoes de reais, segundo a revista. O banqueiro e pecuarista Serafim Rodrigues de Moraes diz, na conversa te- lef6nica que teve com seu advogado, o pro- curador aposentado da Republica Gildo Corria Ferraz, ter pago 4 milh6es por es- ses titulos. Serafim iria usar as TDAs para amortizar a divida do Agrobanco, de sua propriedade, com o Portus, o fundo de pre- vid6ncia privada dos portuarios. Esse tipo de operamo, muito praticada at6 hoje, nao 6 illegal, mas 6 moral. Sem considerar a possibilidade de desapropria- cqes superdimensionadas ou irreais (pela inexistencia das benfeitorias pagas), a imo- ralidade result da compra desses titulos por um preqo muito abaixo do valor de face e sua plena utilizagao na quitaqAo de dividas, principalmentejunto a instituic6es publicas, cor o minimo (ou ne- nhum) desembolso. A diferenga entire o valor efetivamente pago pelo devedor e o que ele apropria nominalmente para fazer face ao debi- to 6 tao brutal que as A InatI rit TDAs se tornaram os revela o s mais desacreditados den- q s o tre os papeis podres do mercado. A podridao torm monetaria contaminou o comerci cheiro moral dessas de moedc transagqes. Ai comega a apare- cer o p6 quebrado da hist6ria trombeteada como coisa s6ria por Istoe, tao inconsistent no ataque a Jader Barbalho quanto o foi na sua tendenciosa defesa (o que reforqa as sombras de Qu- 6rcia por tras da revista). Se as TDAs va- liam R$ 5,3 milh6es, pagar R$ 4 milh6es (na hip6tese de que a mulher do banqueiro se equivocou e estava se referindo a real e nao a d6lar) por elas ja seria um neg6cio desinteressante para o dono do Agroban- co. Se alguma vez chegou a ser praticado, um tal desagio s6 pode ter havido no inicio da emissao de TDAs, feita aos turbilh6es. Rapidamente o desagio desceu abaixo de 50%, tendo chegado a at6 30% do valor de face (ou 70% de desagio), a taxa mais comum. Pagar com desagio de apenas 20% 6 algo que nao se ajusta a experi8n- cia e ao conhecimento, nao s6 do banquei- ro Serafim, mas tamb6m de sua mulher, Vera Arantes Campos, ex-operadora da Bolsa de Valores de Sao Paulo. Tamb6m nao seria a forma esperta (e imoral). Pa- gando 80% do valor declarado, dificilmen- te o casal usaria TDAs para amortizar o passive do Agrobanco. Buscaria outros pap6is de maior rentabilidade. E Istoe as- segura que, antes de fechar o neg6cio, Se- rafim resolveu pechinchar". Diz a atual esposa do banqueiro que pa- gou Vicente Pedrosa com um cheque da ag6ncia central do Bamerindus em Sao Paulo, na rua XV de Novembro. Nao diz o numero do cheque, a data certa da sua emissao, quando foi sacado, se foi retirado no caixa do Bamerindus ou depositado em outra conta de outro banco, e detalhes as- sim que enriqueceriam a reportagem. A revista nao se importa com tais lacunas. Afinal, mesmo sem esses fatos importan- tes, seria facil fazer "o levantamento das contas pelas quais passou o milionario che- que do Bamerindus, preenchido e assinado a de Istod ubmaundo rnnou emi o da alizafdo s pobres rasil estranha relagAo, por Vera Arantes". Seu marido aposta tamb6m nessa trivialidade, at6 porque Vera "emitiu no maximo dez cheques de valores elevados". Qual 6 mesmo o va- lor de refer6ncia, nem as fontes e nem a revista se preocupam em precisar. Vera Arantes, ap6s cer- to embaraco cor a ma- tematica e a lingua por- tuguesa, diz que o cheque tinha, em 1988, valor equivalent a quatro mi- lh6es de d6lares, numa de um para um, que nao guard coer6ncia com a temporalidade e a cronologia cambial. Nao ha qualquer refe- rnncia ao valor do cheque que ela subscri- tou, na moeda de entao. Tudo o que ela diz a respeito 6 na comparacio ao d6lar. Atualizado monetariamente e cambi- almente, esse valor gravitaria, hoje, em tor- no de R$ 10 riilhoes. Mesmo se apenas fosse feita apenas a equiparacao cambi- al, bacteria em R$ 9 milhoes. Nesse pata- mar, a hist6ria 6 nao s6 ridicule, mas pri- maria. Era melhor o banqueiro meter a mao no bolso e fazer o que raro capitalis- ta aceita fazer no Brasil: tirar dinheiro para pagar em esp6cie divida que contraiu, re- cebida igualmente em esp6cie. No nosso capitalism, tal movimento 6 considerado her6tico. Os executives de Jader Barba- lho que o digam. Nao 6 menos risivel a reconstituiqao que Vera Arantes faz do ato de pagamento das JOURNAL PESSOAL .2 QUINZENA DEJUNHO/ 2001 3 TDAs. Vicente Pedrosa recebeu o che- que no saguao de um hotel paulistano (qual? E irrelevant para Istoe). Colocou o papel no bolso, atravessou caminhando o hall ("bem grandao", assinala Vera) e foi entregar o cheque a Jader Barbalho, que o esperava sentado do outro lado (em mais um detalhe insignificant, fica-se sem sa- ber se Barbalho ainda era ministry da re- forma agraria ou ja havia assumido o mi- nisterio da previdencia social, em qualquer das hip6teses sendo razoavelmente passi- vel de identificaq o em ambiente publico. Mesmo um colegial, ouvindo semelhante relato, se perguntaria: para que, entao, usar intermediario, "laranja"? Ora, Jader Barbalho andou cada vez mais mal acompanhado a media que foi acumulando poder, principalmente a partir do seu primeiro mandate de goverador, conquistado em 1982, quando era um dos "autenticos" do MDB na Camara Federal. Auxiliares, parents e amigos seus se me- teram em encrencas, varias das quais ter- minaram najustiga, no Minist6rio Publico ou najustica. "Terminando" e algo mais do que forca de expressao. Nenhum deles, po- rem, acusou o chefe, lider ou amigo, inclu- sive os que trocaram de barco (como o empresario Jos6 Maria Mendonca, agora na nau tucana). Ou 6 uma regra do silen- cio (ormeth) capaz de fazer qualquer ma- fioso babar de inveja, ou, a parte essa pos- sibilidade, 6 tamb6m porque Jader se com- porta como um senhor medieval: abre um fosso em tomo do seu castelo, isolando-o com um lago cheio de piranhas oujacar6s. E claro que o senhor do castelo precisa ocasionalmente sair do seu reduto ou deixar entrar quem Ihe interessa. Os muitos atos de improbidade, comprovados ou sob sus- peiqdo, apontados na passage de Jader Barbalho pela vida public, atingiram gente que estava pr6xima dele, um tanto ou de- masiadamente. S6 ele d imaculado nesses circulos conc6ntricos de sujeira e lama? Por tras da pergunta esta a 16gica que move a enxurrada de investidas contra ele nos tiltimos meses. Fatos fdtidos resvalam nele, respingam-lhe, mas nao ha uma co- nexao cor ele, nao ha um elo objetivo, do- cumentado, conclusive. As suspeitas, por mais abundantes que se tenham tornado, por mais inc6modas que sejam, nAo sao munidio bastante para fulmina-lo. A Fazenda Paraiso, as TDAs, Vicen- te Pedrosa e um banqueiro querendo di- minuir seu prejuizo (ou obrigado a reduzir sua rubrica de perdas e ganhos) poderi- am ser o elo que faltava para, finalmente, chegar ao ponto de origem e de chegada de todas essas hist6rias que, mesmo sem fechar, cheiram mal. Mas se realmente esta ai o nexo, Istoe nao foi apenas incompetent para demons- tra-lo: agiu de ma-fd, tendenciosamente, com dolo. O que talvez sirva de impulse para ir atras de suas relac6es nebulosas de bastidores, com Orestes Quercia, quem sabe. Qudrcia, as pessoas parecem haver esquecido, foi uma continuacao mais bem sucedida de um modelo, o do tambdm pau- lista Adhemar de Barros, que ter servido de inspiraqgo para politicos como Jader Barbalho, embora sem o mesmo sucesso (Qudrcia posa, hoje, de cidadao notavel e o centenario de Adhemar tem comemora- 9go em Sao Paulo). Jader nao esta apenas sendo submeti- do a uma revisao hist6rica ou a um exer- cicio acaddmico: ele responded a procedi- mentos em curso e ex- poe-se a um process definitive de cassagao de um mandate que o povo Ihe conferiu e a uma honraria que a mai- . oria absolute dos seus pares Ihe conferiu (pa- Quenm e, res em um sentido mais prdxi profundo do que a ret6- verdade rica da expressao). Re- vendo um caso do pas- do ran sado pode-se corrigir mulh um erro hist6rico ou preside confirmar o acerto de uma condenaqco. Num caso vivo, envolvendo pessoas de came e osso, deve-se evitar decidir contra as provas ou precipitar uma decisao para servir a um interesse tao condenavel quanto o que se apura. A rigor, alias, Istoe quase nao apurou: repassou ao seu leitor o que suas fontes dizem ser a verdade, aplicando-lhe o si- nete dojomalismo para ter aceitagao. Essa renuncia a verificaqao independent pro- voca erros graves. A revista se refere a desapropriaqao dos im6veis compreendi- dos no que se convencionou chamar de Poligono dos Castanhais como se eles fos- sem localizados em Mato Grosso e nio em Maraba, no sul do Para. Repete a la- dainha de sempre: teria sido uma desa- propriacio fraudulent. Mas nao foi uma desapropriacao: foi uma prosaica operacao de compra e ven- da. Corn a qual Jader Barbalho transfor- mou a reform agraria em neg6cio agra- rio, sem precisar desapropriar e sem pro- jetar um dem6nio para os empedemidos fazendeiros. A partir da vantajosa opera- 5Ao de aquisicgo dos castanhais, vantajosa para o vendedor e ruinosa para o compra- dor (em ultima instancia, o contribuinte), fazendeiros passaram a se acotovelar nos corredores do Incra, em Brasilia e Beldm, oferecendo seus im6veis para o govemo. Algo tao grave quanto outras negociatas, mas cor a marca da inventive de um poli- tico populista que trocou seu carisma pela fortune pessoal. O ajuste de contas nao pode ser feito, pordm, a custa da verdade, que deve ser buscada tanto na seara do acusado quanto na do acusador, tudo exibido sobre a mesa da opiniao public, a quem cabera ojulga- mento. E evidence que as principals perso- nagens da matdria de Istoe nao intervieram na trama olimpicamente ou movidas pelo su- perior interesse public. Ha bandido demais para mocinho de menos nesse script. A peca fundamental e uma fita, que teria sido gravada clandestina- mente por um policial federal e por ele entre- td mais gue a revista (outro con- to da to da carochinha). Se a novela verdade, mais uma vez a PF estaria extrapolan- rio da do sua missao e agindo r do conforme um padrao Wte do tecnico vulgar. Veja re- do? produziu trechos de fi- tas que a mesma PF teria gravado e, ao in- ves de transcrever integralmente, decidiu editar, inutilizando a peca como prova para fins de instrucgo processual emjuizo. Mas nem mesmo como fonte para trabalhosjor- nalisticos serviria. Jamais uma fita grava- da clandestinamente-e, sobretudo, as fi- tas utilizadas por Veja e Istoe deviam receber o cr6dito que as duas publicaq6es lhes deram, sob pena de lanqar-lhes um pouco da lama que atiram sobre tercei- ros. Nao imerecidamente, alias. No caso de Istoe, abstraindo a muito plausivel hip6tese de que a conversa foi adredemente armada para gravaqao, a fita devia servir como provocaqco para uma checagem verdadeiramente jornalistica. Comecando pelo levantamento da hist6ria do Agrobanco e de sua divida. Nada, ex- ceto a boa vontade da revista, sugere que o banqueiro seja o empresario correto des- crito por seu advogado, desejoso de resol- ver seu problema financeiro licitamente. A sl n d a Gci 4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DEJUNHO/ 2001 operaago da qual ele participou 6 uma das muitas negociatas feitas a sombra de moe- da podre, divida cor o setor public, trafi- co de influencia, informaqao privilegiada, caixa 2 e enriquecimento espurio, elemen- tos caracteristicos de grande parte das his- t6rias ocultas desta Republica apodrecida e sua elite doidivanas. E precise aprofundar a apuraqdo do en- volvimento do senador Jader Barbalho, tio caricatamente demonstrado no texto. Mas nao viciar a investigagao no nascedouro, em fun- cio de um limited pre-estabelecido, de uma diretriz obtusa por opao. Se for estabelecido o nexo do ex-govemador cor a sucessao de ilicitudes que o seguem como fauna acom- panhamente, sem fechar a cadeia (como sim- bologia e realidade), deve-se puni-lo adequa- damente. Sem esquecer, por6m, os demais personagens que participam da trama. A esposa do banqueiro, por exemplo, diz que obteve os quatro milh6es de d6- lares (como ela diz) atuando na Bolsa de Valores de Sao Paulo. E precise consta- tar tal rendimento, que esta muito long de ser rotineiro. Da mesma maneira como o rastreamento dos seus cheques independe de ter ou nao o senador pee- medebista num dos pontos finals, ja que ela assinou "alguns cheques" com valor aproximado de US$ 4 milh6es (quantos tmr tal poder no Brasil?). Esses "alguns" podem ser um trunfo no rastreamento. Embutidos numa fortune pessoal, passam a ser numerosos. Nessa hist6ria, segu- ramente nao ha mocinhos. Ejusto que uma instituicao formadora de opiniao public como a imprensa, uma vez convencida da nocividade de deter- minado politico, se empenhe em expurga- lo da vida p6blica. Esse 6 um compromis- so enobrecedor. Mas quando alcanca-lo passa a ser uma meta obsessive, indepen- dentemente dos m6todos adotados, o per- seguidor se equipara ao perseguido, ojus- to ao vilao. Se o crit6rio de diferenciaqao 6 o da verdade, os fatos devem prevalecer, mes- mo que eventualmente eles favorecam o personagem considerado nocivo. Ele deve pagar pelo que fez, nao pelo que Ihe atribu- iram. Do contririo, sendo a boa intenqgo a pedra de toque da hist6ria, o lobo pode apre- sentar-se travestido de cordeiro. E o cida- dao, preso num maniqueismo viciado, to- mar por seu salvador quem nao passa de saqueador com nova roupagem. Os novelos dos "casos" Banpara, Fa- zenda Paraiso, Poligono dos Castanhais e outros que turvam o passado de Jader Bar- balho e comprometem seu future continuam a ser desastradamente desfiados pela imprensa, que, atacando cor fiu- ria e objetivos nem sem- pre limpamente defini- Depo dos, nao ataca bern, des- consegui perdicando o grande ta- cabega d lento de seus rep6rteres e o material de arquivo grande i que se acumula aos mi- national shares de centimetros sua ca nos recortes. A impetu- osidade, o passionalismo noralize e a tendenciosidade po- dem acabar servindo a fuga do bandido es- perto. Ou de alibi para o candidate a bandi- do, que v6 sua hora chegar, protegido pela barulheira desbragada. Tome-se o escandalo em tomo do ra- nario da atual esposa do senador, Marcia Zahluth Centeno. O projeto se tornou mo- tivo national de escrneo e deboche. O su- perintendente-interventor da extinta Sudam cancelou-o unilateralmente por haver cons- tatado um desvio de recursos, algo inacre- ditavel para um empreendimento que teria recebido 9,6 milh6es de reais de incentives fiscais e ainda nao passava de um conjun- to de galpoes risticos, sem qualquer ativi- dade produtiva. A imprensa aproveitou o mote para uma enxurrada de mat6rias sobre a fraude pra- ticada pela mulher do president do Con- gresso Nacional na criaqao de ras e a in- terfer6ncia do pr6prio Jader para favore- c6-la junto a Sudam. S6 agora 6 que a empresa, depois de uma pat6tica e contra- producente tentative de desmentir as acu- saq9es com uma inconsistent pagina de mat6ria paga em O Liberal, apresenta ar- gumentos de peso em sua defesa. Em primeiro lugar, desde a semana pas- sada, com o protocolamento da defesa na Ada (a intragavel sigla da nova ag6ncia, que substituiu a Sudam), o caso passou a ter o curso da legalidade, com a ampla defesa e o contradit6rio. At6 entao, era um ato de forga de um burocrata nomea- do para exercer um poder que nao pode ser discricionario, mesmo tendo sido as- sim na pratica. O burocrata pode ter os melhores prop6sitos. Mas a lei 6 peqa in- dissociavel do regime democratic, a pe- dra no caminho da mutag~o de burocra- tas bem intencionados em d6spotas, de que a hist6ria 6 pr6diga. A leitura isenta da defesa de Marcia Centeno nao deixa dfivida de que sua em- d r e presa foi vitima de um ato arbitrario do superin- tendente da Sudam. Ele passou por cima de um process administrative em curso, sujeito ao de- 'S que vido process legal, ain- COrtar a da pendente da defesa Jader, a do acusado, e simples- mente puniu o ranario, wprensa com base num laudo de acabard inspegao do pr6prio 6r- tpanha gao que nao definira mo- tivos suficientes para dora da esse ato ne pedira o seu cancelamento. Constatando irregulares, os fiscais da Sudam fizeram seis exig6ncias para que o empreendimento se ajustasse. A principal falha observada era o descompasso entire o indice de liberaqao de recursos compro- metidos pela superintend6ncia com o pro- jeto, que era de quase 80%, com o indice de implantagao do ranario, que era de 55%. A defasagem, de 25%, ultrapassava o li- mite de tolerancia estabelecido pela legis- laqao da Sudam, que 6 de 20%. Na sua defesa, a empresa question e explica essa extrapolagao, atribuindo-a a obras nao previstas que precisou fazer para ajustar tecnicamente o criat6rio diante de uma mortandade quase complete do plan- tel em 1997, quase liquidando o neg6cio, mas que nao foram aceitas pelos t6cnicos. As justificativas para essa e para as demais irregularidades serao examina- das, analisadas e contraditadas, se for o caso. O important 6 que quase todas as exig6ncias da Sudam ja foram atendidas pela empresa e o indice de implantagao foi recolocado na faixa da normalidade, de 8% segundo a defesa. Se ha manipulagao nos dados ou nos arguments, o contradit6rio vai esclarecer. Mas do confront entire a defesa agora apresentada pelo ranario e as acusaq6es publicadas pela imprensa national a partir de declaraqces prestadas pelo superintendent da Sudam ou infor- maq6es que tiveram origem no 6rgao, o pendulo da inverdade pende mais para o lado do sr. Jos6 Cyrillo. Independentemente do resultado do pro- cesso, j a esta fora de d6vida que o calculo apresentado pelo superintendent sobre o total das liberaq es 6 irreal e indevido. Ao cancelar arbitrariamente o projeto, ele sim- plesmente aplicou o indexador mais pesa- do para reajustar valores, adicionando-lhe juros e multas que caberiam se, compro- vadas as irregularidades no devido proces- JOURNAL PESSOAL 2. QUINZENA DEJUNHO/2001 5 so legal, o process tivesse sido regular- mente cancelado. A empresa mostra que recebeu R$ 830 mil, um valor que poderia quase dobrar (para R$ 1,5 milhao) no calculo de atuali- zaqao normativo da Sudam, pela Ufir. Ain- da assim, distant dos R$ 9,6 milhoes apon- tados por Jos6 Cyrillo. O indice de implan- taqao que ele informou tambem esta muito aquem do indice apurado pelos pr6prios fis- cais da superintend6ncia. Ainda que as 22 paginas de texto da de- fesa e seus 27 anexos de documents fos- sem s6 mentira, duas provid6ncias deviam separar o process punitive movido contra Jader Barbalho da apuracqo da verdade. A primeira competia a Sudam: seria reconhe- cer o direito de defesa antes do sentencia- mento do caso, com o cancelamento unila- teral do projeto, sem o contradit6rio. A se- gunda 6 mat6ria da imprensa: se tanto espa- go foi dado ao ataque da superintendencia, alguma atengao pelo menos teria que ser concedida ao outro lado. Esse principio cons- ta de todos os manuais de redagao. Mas parece abolido sempre que o assunto for Jader Barbalho. No entanto, neste aspect, os joralis- tas precisam ser objetivos. Lembro que no segundo capitulo da investigagao sobre o assassinate do ex-deputado Paulo Fonte- les de Lima, a inacreditavel hist6ria levan- tada pelo delegado Bertolino Neto, de que o mandante era o empresario Josiel Mar- tins, foi endossada por todos. Menos por este jomal. Sustentei que Josiel tinha ou- tras contas a acertar com a policia e a jus- tica, mas era inocente no assassinate de Paulo. Minha convicqao resultara de ex- tensa apuraqao dos fatos. Nio importavam minhas impresses sobre o entao dono vir- tual de Capanema, nem o empenho da fa- milia Fonteles em incrimina-lo. Daquele crime ele era inocente, como, final, aca- bou demonstrado, corn a decisive partici- pacgo deste journal, o que, a sua maneira, o pr6prio Josiel acabou reconhecendo. Sao numerosas e diversificadas as con- tas que Jader Fontenele Barbalho preci- sa prestar ao cidadao brasileiro. Algu- mas ja est.o colocadas na agenda, ou- tras estao mesmo no moment da co- branca no lugar competent, ajustiga, ou em andamento por escaninhos do poder executive e do Ministerio P6blico. Se esse contencioso anda lento demais ou se os 6rgdos plblicos sao omissos, deve- se pressionar para que cumpram sua par- te nesse acerto de contas. O que ndo se pode 6 executar o acusado sem o devido process legal, cor o contradit6rio e a ampla defesa assegurados. Muita gente deve-se perguntar como urn politico do Pari chegou tao long, ocupando a presid6ncia do poder legislative national, mesmo contra a vontade do politico entao o mais poderoso do pais, cuja ascensao tern um rastro cristalino, de adesdo ao poder es- tabelecido, independentemente de sua cor ou feicio. Jader Barbalho foi um politico de centro-esquerda que, no exercicio do poder, subordinou sua identidade mal definida a um prop6sito maior, o de ser cada vez mais rico e poderoso. A qualquer preco. At6 chegar a presidencia do Senado, entretanto, teve que atravessar o rio que separa a sociedade brasileira em duas mar- gens, sempre mais distantes entire si. Nao esteve do outro lado desde o inicio. Nao era um antigo iniciado nas praticas e cos- tumes dos que se estabeleceram na mar- gem incrivelmente rica desta naqgo, cri- minosamente rica. Ao passar para o outro lado, nAo p6de se desvencilhar de todos os compromissos e afinidades da margem ex- cluida do usufruto do bolo do poder, para o qual gente como Delfim Neto, agora posan- do de democrat, tanto contribuiu, em atos (fazendo a diferenca social se acentuar, num padrao africano ou asiatico) e em pensa- mentos (dizendo que o bolo precisava pri- meiro crescer para depois ser distribuido). Ja Ant6nio Carlos Magalhaes, o home que continue a influir poderosamente na pauta dos jornais, como raros, mesmo ja sem mandate politico, sempre esteve do lado de la. Camufla essa posiq~o com seu enor- me carisma, cor o lado abertamente mo- demizante do seu despotismo, com sua face de mecenas, pr6digo para os que o acei- tam como Oxala. E baiano por circunstan- cia e ess6ncia, mas se aculturou ao centro hegemonico do pais com a esperteza de um Jos6 Sarney, um Itamar Franco que esconde o topete afetado dentro do casa- cao sagazmente sisudo. Um cidadao se perguntara quantos acer- tos Jader tera feito para sentar na cadeira presidential do senado e quantas jangadas nao armou antes, para singrar o mar revolto entire as margens. Legitimo 6, portanto, o desejo de revisar essa trajet6ria para apon- tar-lhe os vicios. Os que estio cansados de saber toda a ladainha da ascensao e exerci- cio do poder, porque sempre estiveram la, olham incomodados para esseparvenu ines- perado (ou nao esperado, indesejado). O que nAo aceitam nao e a sujeira de m6todos (mesmo porque sAo os unicos sancionados para a travessia do rio social), mas o fato de nao ser da confraria, nAo haver beijado o anel da Fiesp, nao ter sido ungido nos 6leos das velhas elites, transeuntes em carro blin- dado pela avenida Paulista. Quem, nesse meio, reagiu a Collor, reage a Jader. Nao propriamente pelos tantos moti- vosjustos de reagir a ambos, em proveito da sociedade, na defesa de causes nobres. Mas (e disso nao deixa d6vida Istoe, incorporan- do-se ao coro unissono daquela boa gente que tanto provocou a ira de Emile Zola na Franca do seculo XIX) como int6rpretes (e marione- tes) de personagens ocultas nos camarins ou nos camarotes. A briga s6 estara na media certa se todos forem levados ao pi- cadeiro, querendo ou nao. Ali expostos, com suas verdades e mentiras, o dito e o escon- dido, a luz do dia e a inquiriqao de todos. Para que o Brasil aprenda a verdadeira li- q o e nao a repita, a imprensa aplicando a orientacgo de Batista Campos: mostrando querm o patife e quemn 6 o boi. Suspense Sempre que urn commercial do govermo do Estado vai ao ar na televised quando estou diante dela, presto muita atencqo. E para nfo deixar restrito ao meu sub- consciente uma aparicqo que, quando nao e clara e explicila, em cima do palanque official, acontece em fundo de cena, rapida c incisiva coino a passagcm de Alfred Hitchcock mete6rico figurante dos seus proprios filmes. E o candidate do governador. Sim.o Jatene, dando uma de Willy para Hildegar- do Nunes. Pergunto: essas incursoes sao contabilizadas na divisao pretensamente salomonica dos horanos entire os dois fidalgais (ainda) ri\ ais, pagas pelo contribu- inte na ilusio de que veiculam mensagens de efetivo interesse public e nao propa- ganda pessoal disfarqada? Na tentative de resposta, cabe outra pergunta: o Mlinisterio Publico nao acha que essa veiculacao conslitui propaganda electoral indevida e fora do prazo legal, uma concorrencia desleal aos possiveis adversarios no fururo? Fica a pergunta a quem, sendo de direito, tambem esteja no ar. 6 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DEJUNHO/ 2001 O velho bordio de que energia e desen- volvimento vem sendo posto em questio no Para. Ha mais de uma d6cada o Estado 6 o quinto maior produtor e o terceiro maior ex- portador de energia do pais. Ocupou essa posiq~o graqas a uma unica hidreletrica, a de Tucurui, no rio Tocantins, responsavel por 8% da capacidade instalada de geraq~o de todo o Brasil. Alem da bacia Tocantins/Araguaia, que pode receber mais duas grandes usinas ainda em territ6rio paraense, o Estado dispoe de outras duas bacias hidrograficas na margem esquerda do Amazonas, a do Xingu e a do Tapaj6s, ja inventariadas para aproveitamen- to hidreletrico. Se a Eletronorte pudesse im- por sua vontade, no final desta d6cada o Para j6 estaria gerando mais de um quarto da ener- gia brasileira. Nem com ntmeros tio impressionantes, entretanto, a sina de subdesenvolvimento crescente estaria abolida na terra do senador Jader Barbalho. A expansio do parque hidre- letrico continuara seguindo a diretriz da ex- portaqio. A usina de Belo Monte, por exem- plo, que pelo cronograma da Eletronorte deve come9ar a gerar em 2007, vai transferir para o sul do pais todos os 11 milh6es de kw que ira produzir, uma quantidade que equivaleria a quase 20% da atual produqCo energetica bra- sileira. Para 3,8 bilhoes de d6lares de investi- mento na usina, a empresa (ainda) estatal pre- ve US$ 2,7 bilhoes na linha de transmission, com tris mil quilometros de extensio. E um paradoxo amargo para os paraenses que esse acelerado incremento de energia re- suite em exportagio. Energia s6 e desenvolvi- mento quando fomenta processes econ6mi- cos no mesmo lugar, criando efeito multiplica- dor na atividade produtiva internal. Por forqa dos pianos federais, o Para tem sido obrigado a passar em frente energia bru- ta, no maximo ligeiramente transformada. Qua- se um terqo da energia produzida pelas turbi- nas de Tucurui vai para outros Estados, onde e transformada em bens de maior valor agre- gado. No Estado produtor ficam apenas os royalties, uma gorjeta municipal. O Estado consumidor nio paga o ICMS, cobrado ape- nas (com aliquota de 17%) nas operaq6es in- ternas do gerador da energia. Nio 6 uma boa 16gica, nem fornece moral edificante. A maior consumidora individual de ener- gia do Brasil tambem esta no Para. I a Albras, que divide essa posiq~o com a vizinha Alu- mar, instalada em Sao Luis do Maranhao. As duas responded por 3% do consume energe- tico national. Em 1984 receberam do governor uma tarifa subsidiada, que custa 200 milh6es de d6lares ao ano por cada uma, o dinheiro necessario para cobrir a diferenga entire o cus- to da geraqto e o pagamento da tarifa. No pra- zo de validade do contrato, de 20 anos, a con- ta do subsidio ira parar em US$ 5 bilhoes. S6 do lado da Albras, o valor corresponde a 10 anos de receita de ICMS, a principal fonte de tributes do Estado, com a qual o governor co- bre sua folha de pessoal, com mais de 100 mil servidores puiblicos. Ha mais de 15 anos a Albras export alumi- nio bruto, principalmente para o Japio, s6cio da Companhia Vale do Rio Doce no empreen- dimento, que tem direito a metade da produ- 9qo. Com o subsidio energ6tico, a empresa poderia construir uma outra fabrica, inteira- mente nova. O tnico investimento que fez no period foi ampliar a capacidade da plant de aluminio bruto. A verticalizatao, feita por um grupo argentino instalado no mesmo distrito industrial, tem significado simb6lico. O efeito multiplicador desse que 6 o maior p6lo alumi- nifero do continent, cor investimento de quase US$ 2,5 bilhoes, continue a ocorrer na sede do pais importador. O Japao, a 25 mil qui- lometros de distAncia. Nao surpreende que sendo o 6nico Esta- do da federaqto a abrigar o ciclo complete do aluminio, desde a mineraqao de bauxita at6 a fundiqao do metal, o Para continue em reta descendente no ranking national. Pelo IDH (Indice de Desenvolvimento Humano), esta numa positao melanc6lica para a grandeza do seu estoque de recursos naturais: 17' lugar. Principalmente porque nio consegue reter uma parcela expressive da energia que brota dos seus caudalosos rios. Enquanto a curva da quantidade de energia exportada evoluir com mais desenvoltura do que a da produq o, sig- nificara que o Estado caminha para a consoli- da go de provincia energ6tica national. Um titulo que nao rima com desenvolvimento. Nesse context, nio deve ser considerada como prova de insensibilidade ao drama brasi- leiro da energia a relutincia dos paraenses em aderir ao program de racionamento do govemo federal, relutincia que o govemador Almir Ga- briel simplesmente ignorou, na capitulaq o que fez aos burocratas federais em Brasilia. Dos 4,2 milhoes de kw que constituem a potencia maxi- ma de Tucurui, o Para fica apenas com 15%, dis- tribuido numa proporgo africana com 4 milhoes de consumidores, que representam 60% da po- pulaqto do Estado. Uma proporqio escandalo- sa dela, 40%, ainda depend de usinas t6rmicas a 6leo diesel, uma despesa que, no ano passado, correspondeu a toda a folha de pessoal da Ele- tronorte, de mais de R$ 200 milh6es. Albras e Alumar somadas representam o dobro do consume do Para e um pouco mais do que absorvem de energia esse Estado e 6 ERA PO seus dois vizinhos dependents de Tucurui, o Maranhao e o Tocantins (que em breve, cor a usina do Lajeado a plena carga no Tocan- tins, vai se torar auto-suficiente). Cor duas diferengas essenciais: o consume medio do Estado cai muito em relag o aos piques, en- quanto numa redug~o de aluminio o registro e uniform, sempre la em cima. Isto seria bom para a fornecedora se a conta fosse superavi- taria. Mas a tarifa equivalendo a um tergo do custo de geraqgo, 6 prejuizo certo, que s6 nao estourou a Eletronorte porque a Eletrobras banca o vermelho. Uma redugao na producgo das duas fabri- cas de aluminio teria repercussao muito maior do que qualquer program de conservagdo, racionamento ou mesmo corte para os consu- midores nao privilegiados. O prejuizo nao se- ria tao grande porque o valor agregado no pro- cesso produtivo 6 baixo. Uma negociag.o em torno do subsidio abrandaria o efeito negati- vo da media. Uma media amadurecida, obti- da em negociagao honest e corajosa, tiraria as duas fabricas da condicgo em que se colo- caram: de intocaveis. Tudo isso, naturalmente, nho para que burocratas ptbblicos desperdicem energia, nem o consumidor residential ignore que a era da racionalizagdo pode ter chegado para ficar de vez. A racionalizacgo do uso da energia pode ser um efeito ben6fico dessa crise cabulosa, se nao perdemos de vista o paradoxo de que, mesmo possuindo o 8" maior PIB do planet, o Brasil 6 o 82" em consume per capital de ener- gia. Ou seja: mais sensatez no uso nao 6 sin6- nimo de contraqAo na aplicaaio da energia.". Se nao, vamos continuar podres de marred, marr6, marred. Como o FMI quer. Pode ser que agora os paraenses consi- gam tambr m se dar conta de outro fato des- concertante: embora no auge do "invero" a barrage de Tucurui tenha que liberar agua sem gerar energia porque o reservat6rioja esta com sua capacidade maxima de armazenamen- to e as turbines nao dao conta de todo o volu- me descartavel, no ver.o o ingresso de agua no reservat6rio torna-se inferior as necessi- dades das maquinas (de pelo menos 6 milhbes de litros por segundo), ate que o nivel do lago comega a descer. A quantidade de energia gerada pode se lmrnar, entio, inferior a deman- da. E quando Tucurui recorre a complementa- cao do sistema Chesf, justamente na fase de enchimento dos reservat6rios nordestinos, em condiq6es normais (nao em situaq6es de esti- agem exceptional, como agora). Viver em sinergia corn o Nordeste parece ser um condicionante hist6rico da Amaz6nia e particularmente do Para. Nao podemos es- quecer da solidariedade, compuls6ria ou voli- tiva, que viver numa rept~blica federativa nos impoe. Mas temos que tender esses compro- missos na media mais favoravel para n6s. De 1981 a 1984, toda a energia de fonte hidrica que recebemos veio do Nordeste, 6 verdade, e JOURNAL PESSOAL *2- QUINZENA DEJUNHO/ 2001 7 alguma ainda vem num period restrito, quase todos os anos. Mas a transferencia dessa ener- gia nao causa problems aos nordestinos, nem ao restante do sistema integrado energ6tico brasileiro. Nao 6 uma violentaoao ao seu equi- librio interno ou a sua 16gica de vida. Logo, temos que definir nossas necessi- dades e prioridades antes de poder estabele- cer em que media vamos tender a demand dos nossos irmros e vizinhos deste pais. Uma redu go em 15% do consume das fabricas de aluminio tornara dispensavel qualquer mu- danqa no perfil do consume de uns 4 milh6es de cidaddos nao privilegiados no recebimen- to da energia de Tucurui. Albras e Alumar certamente retrucarao que corte de 15% na produqgo e insuportavel. Salvando os com- promissos de long prazo com clients tradi- cionais, o resto pode-se negociar, montando um esquema de indenizaqdo ajustado aos gan- hos das empresas atraves das tarifas leoni- namente a seu favor. Enfim, 6 precise impor a nossa perspecti- va quando ela colidir com o decalogo de Bra- silia. Para que o Para nao continue a ser tao vilipendiado. E, se tal ainda e possivel, apro- veite para tentar entronizar nos seus limits uma relagio mais saudavel entire energia e desenvolvimento, transformando energia bruta em aco ou laminados de aluminio. En- quanto 6 tempo. Ou entao a energia vai nos condenar, ao inves de nos redimir. Suspenso Rima de Belo Monte Numa epoca em que a ameaqa de falta de energia atormenta o cotidiano do cidaddo ou e fonte de angustia para mais da metade da populacgo do pais, aparecera quem reprove a attitude do Ministerio Publico Federal no Pari, de pedir a suspensao dos estudos sobre o impact ambiental da hidrel6trica de Belo Monte, no Xingu, projetada para ser a segun- da maior do pais, corn 11 milhoes de quilowat- ts, abaixo apenas de Itaipu. Mais polemica ain- da seria a decisao do juiz Rubens Rollo d'Oliveira, da 4" vara federal no Estado, que concede a suspensao solicitada, na semana passada. Cor isso, a obra podera perder me- ses do seu cronograma original. E sair mais cara. Ou nunca sair. O clima emotional criado pela perspective de racionamentos programados ou blecautes de surpresa, por conta do colapso no forneci- mento de energia, deve colocar em quarente- na o regime legal, como parece ser o raciocinio sofismatico por tras da mais recent Medida Provis6ria, que tentou suspender a vigencia dos direitos do consumidor enquanto a politi- ca de emerg6ncia para o setor el6trico estives- se em uso? Se o respeito a lei ainda 6 pedra basilar do edificio democratic, sua clausula petrea, o projeto da hidreletrica de Belo Mon- te nio pode deixar de ser considerado illegal. Passivel, portanto, de puniqgo. As razbes listadas pelos procuradores da Republica Felicio Pontes e Claudio Chequer, do Para, e Suzete Bragagnolo, de Mato Gros- so, foram fortes o suficiente para serem en- dossadas pelojuiz, que deferiu liminarmente a ag o public proposta pelo representante do MP national. Com a usina de geraqio e a linha de transmissao de energia a ela associ- ada, de mais de tr6s mil quil6metros de exten- sao, do Para ate Sdo Paulo, o projeto repre- senta um investimento de 13 bilh6es de reais seiss vezes o orgamento annual paraense) e 20% de acr6scimo a capacidade instalada de energia do Brasil. A represa vai barrar o Xingu, o quinto mais caudaloso (e o sexto em extensao) rio do Bra- sil, que comeqa no Mato Grosso e terminal no Para. A legislaggo ambiental preve que quan- do um rio tem curso em mais de um Estado, a competencia para o seu licenciamento ambi- ental 6 do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renova- veis). No entanto, a Eletronorte entregou a tarefa a Sectam, a Secretaria de Meio Ambien- te, Ciincia e Tecnologia do Para. Poderia at6 submeter-lhe o trabalho, como a similar mato- grossense. Mas a defini go legal teria que ser do 6rgao federal, o Ibama, a 6nica instancia competent para esse tipo de licenciamento. Alem disso, a Eletronorte contratou a Fa- desp para a realizagao dos estudos ecol6gi- cos. A Fundaqao de Amparo e do Desenvol- vimento da Pesquisa da Universidade Federal do Paria uma entidade de direito privado. Para delegar-lhe a tarefa, a Eletronorte teria que contrata-la. Ao inv6s disso, assinou cor ela um convenio, no valor de 3,8 milhOes de reais, quando a modalidade certa era o contrato (o convenio serve para fomento, nao para a dele- gaqao de service public, observa o procura- dor). E, evidentemente, a contrataqio nao foi precedida de um process licitat6rio. A Eletronorte alegou, em favor da dispen- sa da concorr6ncia public, aberta a todos os interessados, que a Fadesp desfrutaria de "in- questionavel reputacgo 6tico-profissional", condiq~o contestada pelos procuradores. Eles lembram que os Eias-Rimas elaborados pela Fadesp para as hidrovias Araguaia-Tocantins e Teles Pires-Tapaj6s nao foram aprovados, por insuficiencia t6cnica, e as obras acabaram embargadasjudicialmente, tal a fragilidade do trabalho feito pela fundacqo universitaria., "sem habilitagao necessaria" para uma tarefa do porte da encomendada, admitiu ojuiz Ru- bens d'Oliveira. Talvez a fundaqio nem pos- sua profissionais inscritos no Cadastro Tec- nico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental, habilitaqao exigida para a realizacAo de estudos de natureza ecol6gica, especulou o procurador federal. Em sua petigqo, ele criticou a persistincia da politicala autoritaria" da Eletronorte, acu- sando-a de ignorar as orientaoqes estabeleci- das pela legislacgo ambiental para impor ape- nas seus interesses. Por forqa desse autorita- rismo, a empresa "desconsiderou os aspects social, cultural e ambiental, excluindo de sua atividade preliminary peas fundamentals para a feitura de um verdadeiro Estudo Pr6vio de Impacto Ambiental". Quem fosse elaborar o Rima, no entendimento do representante do Minist6rio Publico, deveria comeqar o traba- lho a partir de um bom termo de referencia. Alem de nao haver definido tais pressu- postos, a Eletronorte teria cometido "erro gra- vissimo no planejamento dos estudos" ou agido "de ma-fe", ao estabelecer marqo deste ano como data para a finalizaqgo do Eia-Rima, enquanto o cronograma da Fadesp previa cam- panhas de campo at6 novembro de 2001. As suspeitas do Minist6rio Publico federal au- mentaram quando ele observou que uma clau- sula do convenio vedava a Fadesp de "qual- quer divulgacio dos estudos" at6 a expedi- qgo da licenca pr6via da obra. O que implicava na limitacao da autonomia cientifica da funda- cgo e no cerceamento do debate public. Se a Eletronorte nao conseguir desfazer os arguments do MP, que convenceram o juiz federal a atende-lo liminarmente, sem se- quer ouvir a outra parte, o Eia-Rima tera que serreiniciado por inteiro, o tempo ja gasto tera sido perdido (a empresa esperava apresentar o trabalho neste m6s) e quase quatro milhoes de reais terao sido desperdiqados. Talvez a Eletronorte nem mesmo consiga se favorecer do clima emotional do pais,ja que mesmo cor seu seu atual cronograma, irrealisticamente apertado, a primeira maquina da usina s6 en- trara em operaqao em 2007. Ja entao, outras alternatives de soluqgo para o atual deficit energetico brasileiro terao sido encontradas. O preco a ser pago por tantos e tao prima- rios erros, contudo, talvez ajudem a modificar o perfil da Eletronorte, que os procuradores diagnosticaram como autoritario, e de outras assemelhadas nessa desatenq~o, minimizaqio ou desprezo pelas normas ecol6gicas. Perfil de uma empresa que continue a encarar as aguas de um rio exclusivamente como fonte de energia mecanica- e nada mais. Algo ante- diluviano no mundo contemporaneo e um des- prop6sito no cenario amaz6nico. Operaqao O que os grupos Lider e Big Ben tanto tmr a esconder que os tornam suscetiveis a / chantagem? E o que qualquer cidadao deve se pergun- tar ao deparar com farta publicidade das duas empresas nas paginas do Jornal Popular. A publicagAo e de baixa tiragem e nenhuma cre- dibilidade. Trata-se de um tipicojomalismo de . escroqueria. Quem la anuncia nao ter a inten- gao de corn essa iniciativa aumentar o fatura- mento. Mas deve ter alguma pratica inconfes- savel, algum pecado que nto Ihe convem ver abordado. Sera sonegaqgo fiscal? Sera super- faturamento de preqos? Ou, quem sabe, ori- gem ilicita de capital? Iho ditado popular sobre Quando um patrocinio empresarial fo- tivas de domesticadao da menta sujeira, o material fetido espalhado sa. O medico e atacado pe pode alcangar qualquer um, inclusive quem dor maquiavelico pela cri o despeja. Pode ser que essas duas empre- da. O chantagista e insaci sas queiram patrocinar os metodos de cali- Os amigos insisted pa nia, injiiria e difama go que a gangue do mdo essa nojeira impress Jornal Popular adota contra os incautos, os tnm razdo: nao ha a mais re que tnm a temer e os obliquos, aqueles ga- no que ali se public. Ojo tos pardos que deambulam por teto de zin- gazua para intimidar as pe co quente em noites escuras. saquear as que nao sao c Ha muitos numeros a maior vitima desses ao achaque. Nao adianta t esquartejadores da honra alheia tem sido a to racional cor esse tipo familiar Maiorana. Uma s6rdida montagem, mana. E malhar em ferro fi queja teve sua origem numa talentosa mente nao me sentiria bem corn a fronteiriqa, langa lama sobre a sagrada priva- se um estranho a Belem, c cidade dos donos do grupo Liberal. O Lider e ro, me cobrar sobre o que a Big Ben aprovam e sancionam esse jorna- essa animalidade travesti lismo de pocilga? E essa forma de acerto de eu nada puder responder. contas de sarjeta que desejam promover ma mais torpe de vilania. quando cedem descomunal espaqo publici- 0 Jornal Popular e m trio, nao numa rela~go commercial normal, de- imprensa marrom. Os tabl6 limitada pela boa tecnica mercadol6gica, mas exemplo, invariavelmente 1 rum acerto promiscuo, que nivela o chanta- delo para esse tipo de publ geado ao chantageador, o corruptor ao cor- tro para analisa-la, cultiva rupto, o criminoso ao coonestador? xericocom competenciapr Ja esta na hora de cobrar a responsabili- redacges ha jornalistas qu dade social de empresas que se interessam afinco as investigac6es. \ apenas pela preservaqao dos seus interes- das pessoas famosas, rev ses, inclusive os ilegitimos ou ilicitos, e se mulado a porta dos locais lixam para os danos coletivos dessa attitude mente inventam e erram p irresponsavel. O Jornal Popular nio teria se privacidade das pessoas qi estabelecido em Belem se Helio Gueiros, quan- sonalidades mundiais ou I do governador, nito Ihe tivesse aberto os co- qio a que nio escapa a fres do erario estadual e, depois, a verba pu- humans. Na Inglaterra, a blicitaria municipal de Belem. O journal nio neira de os plebeus penetr teria continuado miseravelmente vivo se essa realeza e da nobreza, levan leviandade corn dinheiro:publico nao fosse narquia desacreditada em seguida por Jader Barbalho, Almir Gabriel e gares fora da ilha da p6rfid; Edmilson Rodrigues. fung~o social. Hoje, todos eles sentem as mordidas da Mas essa coisa s6rdid cobra. Mas foram os que criaram-na. A sedu- Popular s6 serve para m< gao do poder, e a busca do poder absolute, qualificadasefomecerumc combinada cor vaidades desmedidas, fize- sima qualidade para abaste ram esses homes publicos esquecer o ve- pidas. Ali, 10% sao verda limpeza desastradas tenta- serpente veneno- lo monstro, o cria- atura descontrola- avel. ra que eu large de a. Pela fria 16gica, emota boa intenq~o rnal e usado como ssoas inc6modas e :apazes de resistir entar um confron- de deformagito hu- io, admito. Mas eu minha consci&ncia )u alguem no futu- fiz para combater da de jornalismo e A omissto e a for- uito pior do que a ides londrinos, por tomados como mo- icaiao ou parame- m a fofoca e o me- ofissional. Em suas e se dedicam corn tisam as entranhas olvem o lixo acu- celebres, mas rara- pouco. Penetrar na ie se tornaram per- ocais e uma tenta- maioria dos series fofoca e uma ma- arem no mundo da do a serio uma mo- quase todos os lu- a Albion. Ter uma a chamada Jornal anter pessoas des- :ombustivel de pes- cer mentes corrom- de, 20% sao meia- verdade e 70% sao invenqio pura, como os relates de um intemauta espiAo infiltrado em ambientes fechados da familiar Maiorana, transformada em peqa de ficqio para prevenir mais processes judiciais, que sempre recaem nio no dono daquela birosca de letras, mas no falso redator-chefe (que, a prop6sito, nem incomodado & pela delegacia do Ministerio do Trabalho, embora sua situaqito illegal ja tenha sido denunciada ao 6rgAo pelo sindicato dos joralistas; o que impede a DRT de cumprir o seu dever? Serio motives assemelhados aos dos Rodrigues e dos Aguillera?). O perigo e a meia-verdade, capaz de en- ganar aqueles poucos e pobres inocentes que ainda l1em o journal (a maior parte de sua re- duzida tiragem, enormemente distant dos 10 mil exemplares trombeteados, e distribuida gratuitamente para similar amplitude). Na ultima edigao, o valhacouto mais uma vez ten- ta me intimidar, com o ramerrio de sempre. Primeiro, me chamando de veado. Depois, for- qando a viola~io da mem6ria do meu pai. E, finalmente, dizendo (de novo) que me vendi a Jader Barbalho. Prova disso seria a publi- caq~o de "varios artigos assinados" meus que o Diario do Para teria publicado. Ojornal do senador do PMDB publicou um inico artigo meu. Nao o escrevi para a publicaito, mas para o journal eletr6nico da agencia de noticias de O Estado de S. Pau- lo, onde tenho uma coluna semanal sobre a Amaz6nia. O Di6rio comprou a materia dire- tamente da Agencia Estado, sem meu co- nhecimento, que nem era necessario porque qualquer um pode se habilitar a receber o material. O problema e que o Dicrio nio deu o credito da origem do artigo, condiiao exi- gida pela ag&ncia e por mim cobrada. Foi esse o 6nico artigo publicado ate agora. Se o journal reproduzir os demais, nio havera nenhum problema, desde que as regras de publica9io sejam seguidas. At6 pessoas que eu supunha term discer- nimento vieram me perguntar se eu havia sido contratado pelo journal do presideI @ do. Para elas e as outras em igual situaqao, esta feito o esclarecimento. Para toda a sociedade paraense, fa9o eu o repto: esse Jornal Popularl represent algum de seus segments? Ter al- gum tipo de utilidade para a causa public? Alem dos Rodrigues, dos Aguillera e dos de- mais que la aplicam seu dinheiro, sabendo que o retorno commercial & zero, se lixando para os dramas pessoais que estio induzindo, alguem se identifica com a publicaqAo? Caso todas as perguntas tenham respos- ta positive, ja esta na hora de retirar o oxig&- nio artificial do tubo de alimentagao desse paciente terminal e deixar que ele se extinga em sua pr6pria lama. Ou no outro tipo de ali- mento, ainda mais fetido e nojento, do qual se vale para vegetar. E que o define, como aos seus patrons e padrinhos. Journal Pessoal Editor: Luco Flvco Pnrilo Fones: (091) :23 7690, 241 428- e 261 4827 Contato: Tv Benjamin Conslar 845 2103 66.053-040 e-mail: jornal@amazon.com.br Produg o: Angelim Pinto Ediq;o de Arte: Luizanioniooelarapinlo |
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