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JOrnal Pess HE U IO F L A V I O P AR Q8 2001 iI ANO XIV NP 255 21 QUINZENA DE MARCO DE 200 ESR$ 2,00 BANPARA;: Excess eescassez Um jogfo de empurra e movimentos de bastidores ainda nd~o permitem reconstituir sido aplicados em contalsparticular-es, sem retornar a conta de origemn. Parte da imprensa national julga e condena o president do senado, Jader Barbalbo, comno benecficidrio do "rombo". Outra o absolve sem examiner cr-itediosamente os dados. Onde esta' a verdade? ticulares, beneficiando "o Sr. Jader F. Bar- balho" e tambt~m "familiates, pessoas fi- sicas e juridicas" a ele ligadas. Feitas as aplicaqdes dos recursos do Banpara, o rendimento teria sido desvia- do em favor desses particulares, sem ja- mais retornar g origem. O "rombo", ca- muflado atraves de manipulaCio contaibil e manobras de despistamento com che- ques "ao portador", teria atingido o equi- valente, entio, a um milhio de reais (no aprofundamento da apuraqio, o valor vi- ria a se multiplicar por 10). Feita a denuncia nas paginas do journal paulista, "no intuito de colaborar" com a apuraqio dos fats que o envolviam, o senador Jader Barbalho repassou ao Mi- nisterio Publico do Para um dossi6 que o president do Banco Central, Gustavo Loyola, lhe havia entregue, a pedido seu. Com apenas tris paginas, o dossi8 com uma singela carta de Loyola na abertura ) m 1996, o journal O Estado de S. Paulo fez a primeira divul- gagio publica do relat6rio que um inspector do Banco Central, EAbrahio Patruni Jiinior, havia elaborado seis anos antes. Ao final de uma fiscalizaCio nas contas do Banco do Es- tado do Para relatives a 1984, o inspector teria detectado "evid~ncias" de que dinhei- ro havia sido retirado dos cofres do banco e aplicado indevidamente em contas par- 2 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE MARCO/ 2001 - informava que o nome do senador pee- medebista, governador do Pard no perio- do em que as irregularidades teriam sido praticadas no banco estadual, nito cons- tava do process concluido pelo BC em outubro de 1992. Esse mesmo dossiC fora entregue ao MP paraense no mis seguin- te ao da sua elabora~gio. De fato, o texto do relatt~rio encaminha- do ao MP e assinado pelo president do BC no govemo Collor, Francisco Gros, nito acu- sou Barbalho diretam~ente. Reuniu contmaele "evid~ncias", mas ainda niio aquele tipo de prova conclusive que tanto os advogados exigem. O lider do PMDB aparece como responsavel direto pelos desfalques apenas no titulo do document: "Banco do Estado do Pardi x Jader Barbalho -Utilizagilo inde- vida de recursos e manipula~glo de procedi- mentos operacionais e cont~ibeis, caracteri- zando fraude contabil". No relate da fraude, o inspector Paturi direcionou as conclusdes da sua investiga- glio para o ex-govemnador e atual presiden- te do senado, citado 16 vezes, e pessoas a ele vinculadas, mas nito chegou a fazer uma acusa~gio explicit contra ele, frontal e for- mal. Nem a demonstrar convincentemente os elos entire as aplicagdes do Banpara e as do ent~io govemnador, deslindando os pontos obscures das transaqdes. O inspector procurou reconstituir didati- camente o desvio de recursos. Onze che- ques administrativos, assinados e endossa- dos.por tr~s gerentes do Banpara~, foram emitidos "ao portador". como se fossem destinados ao reforgo do caixa da institui- ~gio, pagamento de despesas eventuais e rendimentos de clients. O dinheiro tinha sua principal origem no Fundepard (Fundo de Desenvolvimento do Estado do Para Mas terminava em duas contas particulares em duas ag~ncias bancairias situadas no Rio de Janeiro, uma do Itaui e outra do Citibank, e em uma terceira, do Banco EconBmico (hoje, BBVA), em Beldm. Ja entlio, foi localizado um cheque pes- soal, nuimero 541.426, emitido contra a con- ta 96.650-4 da ag~ncia 0532 do banco Itau, no bairro do Jardim Botitnico, no Rio de Ja- neiro, complementando uma das aplicaqaes, feita em letras de renda fixa, num process ainda incompreensivel tecnicamente. O titular da conta era Jader Fontenele Barbalho, que, consultado, conf irmou o fato, mas se declarou incapaz de reconstituir o significado do cheque, 17 anos depois. De qualquer maneira, ressaltava o valor infi- mo desse cheque, equivalent a um salario minimo atual. O rendimento da aplicaqlo continuou na conta. Apesar desse dado, o inspector Patruni Junior niio parece ter conseguido chegar ao original do cheque, nem rastreado todas as pistas da trajet6ria do dinheiro, para recons- tituir toda a movimentagilo financeira. Pre- feriu fazer refer~ncias indiretas ao benefici- ario das fraudes, citando, por~m, o nome de Jader como tendo partcipaglo ativa no "rom- bo" apenas no titulo do relati~rio. Das filigranas formats parecem ter se aproveitado Gros e Loyola para tangenci- at o problema e mandi-lo em frente, o que continuam a fazer at6 hoje. Loyola chegou a dizer que escreveu o oficio de encami- nhamento do document, usado por Jader como atestado de inoctncia, apenas pelo que leu na capa do process, sem exami- nar seu contetido. Suely Cals, de O Estado de S. Paulo, .diz num artigo de domingo que Loyola foi praticamente chantageado por Jader a for- necer a carta, que seria uma maliciosa de- claragilo de inocdncia. Mais do que isso: um argument a demonstrar a fragilidade do Banco Central diante das presses poli- ticas e em favor da necessidade de dar-lhe verdadeira autonomia, tilo longamente re- clamada, para poder agir com a indepen- d~ncia que hoje lhe falta (como se tamb~m nbt houvesse, independentemente das nor- mas legals, um component humane nessa embrulhada). Seria entlio o caso de perguntar por que o BC nbt intimou Jader Barbalho dos fats apurados para ele se defender regularmen- te no process, o que, estranhamento, nun- ca fez. Neste aspect, o senador tem raz~io de reclamar que estal sendo condenado num process que desconhece completamente (se nbt de fato, ao menos de direito), no qual nbt pode se defender atraves do ne- cessario contradit~rio. Somente depois de ter redigido seu pri- meiro relatt~rio 6 que o inspector Patruni Filho teria podido concluir a investigagil, fechan- do os elos pendentes do rastreamento, num segundo relatirio, no qual ja teria investido objetivamente contra o ex-govemador. A presid~ncia do Banco Central, a qual o relati~rio foi submetido, ao inv~s de levar o procedimento as ultimas conseqilancias, dando-lhe reforgo e partilhando suas con- clusdes, ou arquivando-o, por considerai-lo inepto, optou por uma estranha attitude de cautela. Nessa 6poca, o Banparai ja havia atravessado um periodo de quase quatro anos sob gestlio compartilhada com direto- res indicados pelo BC e que eram tam- bem seus funcionarios -, ap6s uma inter- vengliobranca do govemo federal, eml1987. No dossit encaminhado ao Ministbrio Puiblico do Para~ (diz uma das verses que brotam a larga das paginas da grande im- prensa national), Francisco Gros teria ex- cluido esse relatbrio de Patruni. Transferiu ao MP paraense a responsabilidade de dar andamento ao process e produzir novas provas, inclusive voltando ao pr~prio BC atris de provid~ncias, como obter o extrato da conta do Fundepara, ci~pias dos cheques apontados e, conforme o caso, a quebra do sigilo bancirio dos arrolados na inspeglio, ou mesmo submeter a um teste de consis- tancia o trabalho realizado pelo inspector. Certamente, o promoter ao qual o caso fosse entregue chegaria at6 o relatbrio Pa- truni e, mesmo se o considerasse insufici- ente ou insatisfati~rio, teria que solicitar o prosseguimento das investigaqges. Isso, se aconteceu, acabou ficando apenas na es- fera administrative internal do BC, 18 ter- minando conforme comegou: em mondlo- go. Ref~m de normas que s6 tim san~go dentro da institui~go. Patruni finalizou sua inspeqiloprometen- do entregar "oportunamente em relat6rio a parte" os documents relativess is sucessi- vas reaplicaq8es e/ou novas aplicaqaes, bem como dos resgates parciais e/ou integrais (cheques administrativos e ordens de paga- mento)". Mas esse segundo relatbrio (ou complement daquele que seria o primeiro e 11nico), se existe, foi mantido sob sigilo den- tro do Banco Central ate ser vazado atra- ves da imprensa national, na semana pas- sada, quase nove anos depois, talvez pelo prC~prio Patruni. Valor foi o primeiro jomal a divulgar esse possivel segundo relatbrio, se- cundado pela Folha de S. Paulo. Agora, ja no clima da dispute political, a imprensa pa- rece estimulada pelos invisiveis corddes dos grupos de pressio e, eventualmente, servin- do a seus aliados, sem dar conta dessa ali- anga aos interessados: os leitores. Ao receber o dossia do BC, em novem- bro de 1992, o Minist~rio Publico do Parai preferiu niio ir alem das obser-vagdes cons- tantes do dossia remetido por Francisco Gros. Considerando que as informagdes disponiveis nbt sustentariam uma denun- cia, niio incriminando Jader Barbalho, ar- quivou o process, deixando de lado a pos- sibilidade de promover a produglio de no- vas provas. A batata parecia quente de- mais nas miios de quem preferia nito me- xer nessa panela de muitas miios, mesmo que por tras da alegoria houvesse uma coi- sa simples: o dever funcional. A retomada da question agora, em fun- glio da guerra que Jader trava com o sena- dor Ant6nio Carlos Magalhiles, espalhando proj~teis para todos os lads (inclusive so- bre o ji combalido Banpara, empenhado numa operagilo de ressuscitamento que nito parece ter fim, ou esta ameagada de vir a ter um fim indesejado), pode gerar efeitos morals e politicos, mas niio legals. O crime, se existente, por ter ocorrido ha mais de 16 anos, ja prescreveu. Ou seja: o criminoso, mesmo que pudesse ser caracterizado na forma da lei, tomnou-se inimputaivel. Mas ainda pode merecer que se faga uma complete apuragilo dos fats, atraves de uma CPI, por exemplo. O senador Jader JOURNAL PESSOAL *2P QUINZENA DE MARCO/ 2001 3 governador e o senador, foi carimbada a verso de que "Pepeca" votou em Jader a pedido do seu chefe politico, em beneficio dos superiores interesses do Para. Ou seja: ambas as parties querem que seja assim, mesmo que assim nio tenha sido. Menos atado a political nacional do que Jader, cada vez mais preso (em sentido figurado, naturalmente) a Brasilia, o go- vernador esta se antecipando a um en- tendimento formal para um acordo cri- ando fats consumados. Ele ja tem seus candidates a suced6-lo. Se quiser coli- gar, Jader Barbalho tera que apresentar seus candidates, que nio tem. Ou ser, ele pr~prio, candidate. Isto significa que en- trara na chapa em situaCio de inferiori- dade, aceitando a composi~go porque a outra alternative seria pior. A nio ser que o president do PMDB desista de vez da rampa national e volte inteiramente a political planiciaria. Se ainda quiser voar, Jader tera que voar bem rasteiro no Para, restabelecen- do uma alianga que, para dar certo, tera que ser engolida com o prazer que um re- m~dio para os intestines costuma propor- cionar a quem e obrigado a toma-lo. uma tendencia. O governador tucano s6 apoiara seu vice petebista se nio tiver outra said. Mas, como tem poder, arran- ja novas saidas quando as que tinha lhe faltam. Seu ideal seria de que Hildegardo se candidatasse a deputado federal, libe- rando a dispute majoritaria. Uma das rotas mais fortes nessa dire- gio e a composipio entire Almir Gabriel e Jader Barbalho, apesar dos desejos mais intimos em contrairio de ambos. Se se uni- rem, sera por puro realismo politico, ou impure oportunismo politico, se a question for vista de outra perspective. Alem dos acertos para a composigio da Assembl~ia Legislative e da Cimara Municipal de Belem, o fato mais important nesse sen- tido foi oapoio -ainda que nada volunta- rio dado pelo governador a elei~go do president do Senado. Fontes jaderistas juram que o senador Luiz Otavio Campos (ainda sem partido) nio votou no lider do PMDB, como teria mandado dizer na vlspera da votaFio. Fon- tes almiristas tamb~m sustentam essa in- formaqio. O que importa, porem, e que, no conjunto de contatos que precederam e levaram a uma conversa telef~nica entire o Cardoso, avesso visceralmente (e nio bem fundamentadamente) a esse tipo de media no atmbito federal. Se nem o MP e nem o BC foram capa- zes de elucidar satisfatoriamente a contro- versa question, 6 hora de abrir tudo diante da opiniho p~iblica para chegar a verdade dos fats. Inclusive convocando personagens decisivos, sobretudo na movimenta~go do dinheiro do Pani na praga financeira do Rio Barbalho, que apoiou a iniciativa, como for- ma de provar sua inocincia, podia dar con- seqtiincia pratica imediata a esse gesto re- comendando essa diretriz aos deputados do seu partido na Assembl~ia Legislativa do Para, o unico lugar onde a CPI pode ser propostato pr~prio senado niotem tal com- petencia, ja que o banco 6 estadual). Essa solughio n~iocolidiria com amanifestagio em contiraio do president Fernando Henrique de Janeiro naquele period, mas que ate ago- ra nio foram lembrados (nem, obviamente, deram o ar da sua graga). Esti na hora de aplicar aquele ve- lho ditado popular: quem for podre que se quebre. Podridio, ao que parece, e o que nio falta nesse enredo de novela mexicana, mas que lembra o soturno reino da Dinamarca concebido por Wi- lliam Shakespeare. Sucessaio: Almir continue na frente governador Almir Gabriel con tinua liderando a movimentag~io para a elei~go do pr6ximo ano. 8Seu candidate preferencial a sua sucessio continue a ser o secretario es- pecial Simlio Jatene. Mas o governador nio quer ficar na depend~ncia de uma hi- pbtese que ainda nio demonstrou a me- nor viabilidade eleitoral. Ele decidiu criar uma nova alternative, trazendo Nilson Pin- to da Camara Federal para a critical Se- cretaria de Promogio Social, que tem duas vertentes de grande apelo popular (a edu- caqio e o trabalho) e a maior fatia do or- gamento estadual. Nilson, ex-reitor da Universidade Fe- deral do Para, nio e exatamente um campeso de votos, mas tem mais apeti- te para a dispute eleitoral do que Jate- ne, e apresenta um biotipo politico bem mais leve. Se o amigo do peito nio de- colar, o novo secretario estadual sera a hip6tese seguinte. O vice-governador Hildegardo Nunes desceu para um dis- tante terceiro lugar entire as oppies de trabalho do governador. Circula na corte a informaglio de que o vice se encontrou reservadamente com o senador Jader Barbalho, no Rio de Janeiro, para uma conversa political. Teria cometido o pecado mortal de nio pedir a autorizagio pr~via de sua exce- lancia e o delito venial de nio relatar- lhe o ocorrido, depois. A informaCio continue a ocupar o sta- tus de versito, mas em political, ao menos como 6 rotineiramente praticada, a ver- sito pode valer mais do que um fato. So- bretudo quando indica uma vontade ou 4 JORNAL, PESSOAL 2' QUINZENA DE MARCO/ 2001 "LComunica5go militante: uma publicitario Francisco Cavalcante 6 um desonesto. No seu primeiro - e, at6 agora, unico-livro, Comuni- Ocacilo Militante, escrito a quatro mitos com Ruth Vieira e publicado pela Labor Editorial no final do ano passado, ele inclui a intervengli que fez na mesa-redonda "Comuni- captio e democracia", durante o I F6rum Muni- cipal de Cultura de Belem, realizado em novem- bro de 1998. A desonestidade intellectual do donor da Vanguarda Propaganda, detentora da conta de publicidade da prefeitura petista da capital, e multipla nessa insergilo. Ele se permitiu "corrigir" a transcri~gio da sua intervenglio. Mas nito se obrigou sequer a reproduzir as manifestagies dos outros parti- cipantes da mesa, Alex Fidiza de Melo e eu, com os quais manteve pol~mica na ocasilio e que ago- ra, na versilo unilateralmente "corrigida", se pro- pi~e a atacar como se todos estiv~ssemos num ringue de boxe Alex e eu de punhos amarra- dos, naturalmente. Se Chiquinho Cavalcante tivesse escrito um artigo expondo suas id~ias e combatendo as mi- nhas, eu estaria aqui respondendo aos seus ar- gumentos como se estiv~ssemos no cursor de um dialogo, de uma controversia ou mesmo de um duelo, em igualdade de condigies, numjogo limpo e leal. Ele ate poderia ter optado por uti- lizar sua interven~gio como ponto de partida para um novo texto, escrito com a intenglio de ser um capitulo do seu livro. Apresentaria meus arguments e os contestaria da forma que qui- sesse, mas garantindo a idoneidade do discurso e o necessario contraditbrio. Ao invbsdisso, atranscriptioeCapresentada como se expressasse, com um grau aceitivel de fidelidade, um debate travado "ao vivo", reve- lando a capacidade de Chiquinho de me veneer diante do audit6rio. Os impulses patolbgicos (sintomas de uma doenga infantil do narcisis- mo) revelam-se quando, na versito "corrigida", sujeita ao arbitrio absolute de uma das parties, o publicitairio, sem esperar pelo reconhecimento alheio, proclama sua gl6ria: "Reconhego [sic] como um ato de cora- gem, de ousadia, eu vir aqui e debater com o mais premiado jornalista do Para, assim, de maneira franca, fazendo afirmaqBes duras, des- mentindo-o em publico, quando sei que boa parte da plat~ia nio veio aqui para me ouvir e sim para ouvi-lo". Menas verdade, camarada. O encontro foi promovido pela Fumbel, a funda~gio cultural da prefeitura. A esmagadora maioria do auditbrio era de militants petistas. Louvo o espirito plu- ralista dos que me incluiram na programa~glo, mesmo sem desconhecer minha condiglo debate noire do edmilsonismo, versito caricatamente stalinista de socialismo. S6, que o local do en- contro, originalmente o colegio Rego Barros, na avenida J~lio C~zar, foi transferido para o audi- t6rio do col~gio Nazar6, muito distant dali, sem que eu tivesse sido informado. A condu~go que me conduziria foi prometida (em funglio da dis- tincia) e nito veio. Nenhum contato de confir- magilo. S6 fui para o Nazar6 (gratuitamente) porque, ao abrir o journal de sabado, enquanto esperava pelo carro que nito vinha, li uma noti- cia sobre o encontro. Niio vejo um toque de malicia nesses desa- certos. Podem ter acontecido sem prop6sito algum, por desatenglio ou desleixo. Mas se hou- ve transcrigilo das fitas gravadas e essa transcri- glio foi cedida a um dos participants, devia ter sido oferecida tamb~m aos demais integrantes da mesa, dando-lhes condi~gio de recorrer a elas como element de prova, caso necessario. Fi- cou agora apenas a transcriptio "corrigida" do Goebbels da administragilo Edmilson Rodrigues. Vou dar-lhe de ganho que ele foi mais co- rajoso ao enfrentar um joyem audit6rio pe- tista, mobilizado pela administragilo munici- pal; que foi garboso no confront comn o appa- ratchick acantonado na PMB, e que foi mais inteligente no duelo comigo. Mas desde logo 6 precise deixar de lado essa bobagem de que o Gramsci de Chiquinho 6 "mais verdadeiro" do que oapresentado pormim oupelo pro- fessor Alex Fidiza de Melo. Alex escreveu um livro criativo e provoca- dor sobre o grande pensador italiano. Eu publi- quei meu primeiro artigo sobre Gramsci antes que sua primeira obra tivesse sido traduzida no Brasil, lendo-0 em edigies da revista Rinacita (que tenho ate hoje, para quem quiser conferir) adquiridas no Rio de Janeiro. Eml1973 (oul1974), publiquei em O Jornalista, jornal do nosso sin- dicato, um long artigo sobre o principio do jornalismo orginico de Gramsci, talvez o pri- meiro a explorer suas ideias por esse prisma entire nbs. Foi com essas ideias, claramente apre- sentadas, que organize o Bandeira 3, em 1975. Posso ser um n~scio em Gramsci, um dos autores que maisli na minha vida, autor de um document (Cartas do Carcere) que toda pes- soa devia ler quando estivesse ameagada pelo ceticismo e a desesperanga nos homes. Mas minha produ~gio sobre ele esta disponivel para quem quiser contesti-la, a vontade, concreta- mente. Se alguma vez o publicit~rio Cavalcante colocou em letra de forma o que aprendeu com o fundador do Partido Comunista Italiano, essa sabedoria ainda nito foi servida a opinitio pdbli- ca. At6 la, continuaremos ignorando o "verda- deiro Gramsci" que ele descobriu. O donor da Vanguarda Propaganda acha que me diminui ou humilha ao me tratar, na versto "corrigida" (a maneira dos processess de Mos- cou", obviamente), como uma pessoa "conser- vadora e de direita". E dai, cara-pilida? Quando entrei na universidade, era o que me diziam de alguns autores que me haviam impressionado muito quando os li, sem verificar-lhes os rotu- los (para mim, sem serventia). Eram "conserva- dores e de direita", por isso deviam ser deixa- dos de lado, sepultos vivos no index do fanatis- mo milenarista da esquerda. Como eu me considerava iconoclastamente "de esquerda" (mais por exclusion), nunca de partido (sem desmerec6-lo), tratei de reler e re- avaliar todos aqueles intelectuais que me havi- am feito descobrir um Brasil novo, um Brasil perturbadoramente diferente do que era descri- to pelo catecismo dos manuals, dos tratados oficiais, que meus "companheiros de viagem" etiquetavam como series despreziveis. Era a eles que eu estudava no meu proj eto de dissertagilo de mestrado na USP, estimulado pela convivin- cia com meu orientador, Oliveiros S. Ferreira, um intellectual "conservador e de direita" que tinha, na sua sala de estudo, os retratos de Rosa Luxemburgo e Leon Trotsky, duas das minhas maiores admiraqdes humans, tambem. Se estou em compa- nhla de Gilberto Freyre, UllV1Tra Vianna, Azevedo Amaral, Octavio de Faria, Lourival F onte s, Almir de Andrade ou Gustavo Bar- TO S ent Ro nio me ab or - reg o, nem me imp or to C Om as cat al oga q6es do publicitirio Cavalcante. Foi ao ler esses autores, de par com Caio Pra- do Junior, Celso Furtado, S~rgio Buarque de Holanda ouNelson Werneck Sodrer, que apren- di a descobrir um Brasil que nito cabe no dis- curso reducionista de marqueteiros politicos de p6 quebrado. Francisco Cavalcante e um desse tipo, que amolda os fats a sua conveniincia, dis- posto a caluniar quando serve aos seus inte- resses. Num dos trechos da sua "reconsti- tuigilo" (bem ao estilo de ditadores, de di- reita ou de esquerda, Stalin ou Hitler), ele diz que eu nito tenho o direito de acusar o prefeito Edmilson Rodrigues de se ter sub- metido ao grupo Liberal, ap6s arreganhos de independincia, porque eu teria sido um servigal de Romulo Maiorana: JOURNAL PESSOAL *2' QUINZENA DE MARCO/ 2001 5 Reduto redivivo Inclui no roteiro da 61tima caminhada domingueira pela cidade a Companhia Athl~tica, uma combinaCgo de centro es- portivo, de ginastica e de lazer que est8 tendo sua constru~go concluida, no Re- duto. Um amigo que cruzou comigo pelo local perguntou se era obra do governor. Respondi que nio. Na inspiraqio da per- gunta estava implicita uma critical sutil ao governor e um elogio desbragado ao donor do empreendimento. Depois da Esta~go das Docas (cujo custo, global e definitive, superou 30 mi- lh~es de reais), o morador de Bel~m pare- ce convencido de que s6 os cofres pdbli- cos slo capazes de suportar uma obra que quadruplica seu valor original (sem con- tar o capital de terceiros), se aprimora na qualidade do material de construglo e no acabamento e tem sofisticaglo incomum para os padr2Tes do mercado local. Se o construtor da Companhia Athl6- tica fosse dar ouvido aos seus interlocu- tores, jamais erigiria a obra prestes a ar- rematar. Beltm nlo estaria'em condiq8es de remunerar e sustentar uma obra com tal qualidade, visivel para quem passa ao lado mesmo antes da inauguraga[o, gragas aos vidros panor~imicos que exp~em B cu- riosidade pliblica o enorme salso de gi- nistica. Mas Miro Gomes encasquetou: ou faria uma obra de primeiro mundo, ou nada faria. Fez. E esti de parabens. Masj agora sua academia paretee uma p6rola incrustada na lama. A lama abstra- tale tambem concrete, a cada.aguaceiro) deriva da aus~ncia do governor. A Compa- nhia Athl6tica esti cercada por dep6si- tos de contgineres e o acesso est8 blo- queado porque fecharam a rua da Paz, deixando as artbrias circundantes esbura- cadas. Se 6 para mudar a zona portuaria, alo 6 suficiente investor (ainda~que des- bragadamente) apenas no cais. E precise mudar a concepFio de toda a Area at6 ago- ra classificada de retro-porto. Ali ji hB es cola, centro de atendimento medico, bares, restaurants, boates. A silica au- sancia 6 a do governor. Como os particulares fizeram ou es- tio fazendo a sua parte, aplicando capi- tal de risco e tendo uma presenga pionei- ra, 6 a vez de o governor, na retaguarda que lhe cabe em tais situag8es, comple- mentar os investimentos, planejar e or- denar o uso para que equipamentos e ati- vidades se integrem no usufruto da cida- de e espraiem os seus beneficios. O velho e querido Reduto, maltratado nos 61timos tempos, pode ressurgir no as- falto como a flor drummondiana. interesses do donor. No period, o R-70 deu muitos "furos". Vou citar apenas um: a reve- la~go, com total exclusividade, do encontro de Sahid Xerfan com Jarbas Passarinho, man- chete de primeira pigina, que deu ao entio governador Jader Barbalho o pretexto para demitir o "prefeito de botas", que nomeara, por se encontrar com seu maior adversbrio politico de ent~io, sem o consultar, antes, nem avisar, depois. 4 -Nunca fui "escudeiro" de Romulo, na companhia de quem raramente estive fora dos limits do journal, nem jamais exerci "fungdes de mando" na empresa dele. O miximo a que cheguei, como mostrars o exame da minha fi- cha funcional, foi ser redator ou articulista (nunca escrevi nem mesmo um editorial). Sem- pre estive na posiglo de reporter e colunista, antes e hoje, sem ocupar qualquer funq~o de mando nas organizagaes do grupo Liberal. Ngo tenho nem jeito para dar ordens. 5 Sai duas vezes da empresa por nlo aceitar censura, numa limpida divergbncia editorial. Na primeira vez, eu ji em A Pro- vincia do Parci, Romulo foi me buscar para voltar a O Liberal. Antes que ocorresse a segunda vez, em 1986, fui ao Rio de Janeiro, onde ele se recuperava de um terrivel trata- mento de sadde, para entregar-lhe todas as minhas funF~es na empresa naquele momen- to: o Rep6rter 70, um program de televislo e minha coluna. Queria poupi~-lo da presslo dos maiores alvos da minha critical na ocasitlo: o governa- dor Jader Barbalho, o senador H61io Gueiros e o factdtum Henry Kayath, que se aproveita- vam da amizade com Romulo para tentar me calar. Indiferente aos meus arguments, ele lo aceitou meu pedido de demissso e me mandou voltar com tudo o que eu lhe tinha levado. Continue no meio de um tiroteio pesado, at6 que ele vetou um artigo meu, menos con- tundente do que virios outros que euj jhavia escrito. Tivemos entilo nossa maior discus- s~io. Eu peguei meu bon6 e fui embora. Nunca fui demitido em toda a minha carreira profis- sional, de 35 anos. Sempre tomei a iniciativa de sair quando a situaqio se tornou inaceiti~- vel para meus principios. Quem nlo quiser acreditar que investigue. Alids, pode checar tudo o que disse at6 aqui. E mais nlo digo sobre o cometimento in folios do publicitbrio Cavalcante porque eu mesmo me pergunto se vale a pena. E eu mes- mo, como naquela piada, me respond que nio vale. Mas admito que pensem o contrdrio e digam o contrdirio. Nlo tenho a veleidade de "corrigir" a posteriori a histi~ria que me desa- gradar, como faz o home da conta de propa- ganda do governor Edmilson. Um tartufo tingi- do de vermelho, envernizado de cultural. "[Luicio] nlo apenas almogou, tomou caf6 da manhi e jantou muitas vezes com os mai- orana [em mimliscula no original], de quem partilhou a amizade at6 seu brusco falecimen- to; escreveu durante anos a principal coluna do journal, o Rep6rter 70; foi correspondent international; teve um program de tevC com o seu nome, enfim, exerceu como subordina- do de Romulo e seu fiel escudeiro, funq8es de mando no grupo. Agora, que perdeu a vaga, vira opositor ferrenho, talvez tentando re- tornar na marra". Mais do que as 195 paginas desse op~iscu- lo propagandistico, destituido de qualquer va- lor ttcnico ou cientifico, o trecho citado des- nuda por inteiro o"modo edmilsoniano" (muito mais do que petista, ao qual n~io faz justiga) de lidar com a comunica~go social. Deve ser destrinchado por seu valor pedag6gico. As mentiras: 1 Romulo Maiorana n~o teve "brusco falecimento". A evolu~go da doenga foi, infe- lizmente, ripida. Mas n~o apanhou de sur- presa os que o acompanhavam mais de perto. 2 -Nunca almocei, tomei caf6 da manh5 ou jantei comn Romulo, sua esposa ou qual- quer dos seus filhos. Houve uma excegio, no nosso derradeiro encontro, no Rio de Janei- ro, um almogo a s6s, testemunhado apenas por D~a Maiorana (Roberta chegou depois e permaneceu ao largo). Freqiientei o gabinete dele no journal, is vezes diariamente. Ali, chegivamos a conver- sar por longos periods, com total informali- dade e absolute lealdade, offs que respeito at6 hoje, mesmo quando revelar alguma coisa podia me trazer grandes vantagens em certas situaqBes, sobretudo judiciais. Mal comega- vam a chegar os participants do "bir6", po- r~m, eu me retirava do gabinete. Nunca fiquei para o uisque amigo de todos os dias. Por gostar dele, o que implicava aceitar suas muitas falhas (e valorizar suas iniumeras virtudes), eu evitava que o aspect profissio- nal se confundisse comn o pessoal. Havia mui- tas diverg~ncias entire n6s, a serem resolvidas profissionalmente, de tal maneira a nLo sacri- ficar a relag~lo pessoal, o que s6 seria possivel se eu me mantivesse g distitncia do stquito. Fiz at6 grosserias, como recusar presents que ele me dava com sincera afei~go. Qualquer um que testemunhou nossa convivincia rejeitard o que o publicitbrio Cavalcante diz, comn supi- na (ou eqiiina?) leviandade. 3 Durante os quatro ou cinco anos em que participei como um dos redatores do Re- pbrter 70, fui responsivel apenas pelas no- tas na parte de cima da coluna, onde sempre fiz jornalismo, sem qualquer interferencia sobre os valorizados gossisps da dos "em poucas linhas", onde havia o dedo, a voz e os hist~,ria "Lcorrigida" G JOURNAL PESSOAL 2= QUINZENA DE MARCO/ 2001 I A Provincia de volta tou a icur io domig 6et: sado, porque o empreszirio Miguel Arrais, mais conhecido como Mi- guel do barulho, por sua maneira extrovertida de ser, entrou com o dinheiro que Gengis Freire ndo ti- nha ou alegou nlo dispor -para pagar os salirios em atraso dos funciondirios do journal, do Grafi- centro e da Cejup, que funcionam no mesmo local. O atraso, ao con- traio do que disse um editorial de primeira pigina na ediq~o de vol- ta, nlio era de 9 dias. Ficou faltan- do um zero depois. O movimento de paralisaqlo, a mais demorada de que tenho conhe- cimento na atual grande imprensa paraense, nio foi induzido por par- tido politico ou pela prefeitura de Bel~m, que, segundo o mesmo edi- torial (mas sem dar nomes, apenas sugerindo), estaria devendo um milhio de reais g empresa, Hg realmente um contencioso entire A Provincia, que apoiou (nem sempre eticamente, ou profissio- nalmente) o candidate Duciomar Costa na eleiCglo do ano passado, e a administraFio Edmilson Rodri- gues. Mas se os petistas se alegra- mam com a greve ou a estimularam, a motivagio real foi o colapso final do diilogo entire os empregados e a direio do jomal, contumaz em ata- sar salirios, pag~i-los em conta-go- tas, n~io respeitar acordos e violar normas de trabalho. De outro lado, o governodo Es- tado deu aA Provincia o mesmo tratamento publicit~rio de OLibe- ral, esquecendo as diferengas de tiragem e penetraCgo entire os dois jornais. O governador manifestou sua preocupagiio com a possibili- dade de A Provincia desaparecer, deixando a imprensa polarizada entire o Didrio do Pardi e O Libe- ral, situagio que Almir Gabriel consider indesej~ivel. O aporte de capital do donor da RM Midia (com 550 pontos de out- door espalhados pela cidade) e da MTV ainda n~io se refletiu no ex- pediente do journal ou na razfio so- cial da empresa, que permaneceram inalterados. Na informalidade, Mi- guel Arrais entrou emA Provincia em parceria comn o radialista Wla- dimir Costa, detentor de um con- ecia um capricho da hist6ria: quando president do CREA (Conselho Re- gional de Engenharia e Arquitetura) do PPari, Messias Filho, estava passando o microfone para o president da Eletronorte, Jos6 Ant~nio Muniz Lopes, iniciar sua pales- tra sobre a nova grande obra hidrel~trica do Bra- sil, a usina de Belo Monte, no Xingu (quase do tamanho de Itaipu, com 11 mil megawatts), na quarta-feira da semana passada, em Bel~m, a luz faltou. O blecaute durou uma hora. Esse tempo no esouro complete dentro do auditi~rio do CREA parecia ter um obj etivo: lembrar o apagio de exatamente 10 anos antes. O mais traumitico da hist(,ria recent do Park. A 8 de margo de 1991, a energia el~trica foi interrompida ao meio-dia, em plena sexta-feira. S6, voltou a meia-noite. A causa official foi atri- buida a um raio, que teria atingido uma das mais de 700 torres metfilicas (cada uma com 30 me- tros de altura) da linha de transmissio de 330 quil~metros entire a hidrel~trica de Tucurui e a subestagio de Vila do Conde. Um dos ramais dessa linha serve Bel~m. O outro, A Albris, a maior fiibrica de aluminio do continent, na qual a Companhia Vale do Rio Doce e um consircio japonbs slo s6cios. Sozinha, a Albris (Alumi- nio do Brasil S/A) represent 1,5% de todo o consume de energia do Brasil e uma vez e meia a demand da capital paraense, com seus 1,2 milhio de habitantes. Sua conta de energia 6 equi- valente a 7 milhbes de d61ares (quase 15 mi- lh~es de reais) ao mis. Por causa da interrupglo de 12 horas no fornecimento, a Albrris foi vitima do maior aci- dente causado pela falta de energia que uma ind~istria de aluminio ji sofreu no mundo em toda a sua hist6ria. Nos Estados Unidos ocor- reu um desligamento maior, na Alumax (em Monte Holly, na costa Oeste), provocada pela aproximaqlo de um furacio. No entanto, a fii- brica foi desligada com programaqio, em con- diq8es bastante diferentes de um desligamento intempestivo. O problema surgiu um mis depois que a Al- bris alcangou sua plena capacidade de produ~go (de 340 mil toneladas de lingote de aluminio), desde o inicio das suas operaq6es comerciais, em julho de 1985, ap6s investimento de US$ 1,4 bi- Ihio (ou quase R$ 3 bilhdes). Os 854 fornos da fibrica ja comegavam a entrar na fase de perda total quando a energia foi restabelecida. trovertido program na ridio Rau- land. Passou g frente de Ronaldo Maiorana, que tentou assumir o journal apenas se responsabilizan- do por seus encargos, sem aplicar dinheiro na aquisiCgio. O novo sicio diz ter pianos de dinamizagio do jomal, que tem uma folha mensal de 70 mil reais, um passive a curto prazo de R$ 500 mil e tiragem real inferior a 9 mil exemplares, bem abaixo do que che- gou a ter quando langou uma cam- panha popular de assinaturas. Ele acredita que A Provincia encontra- 'ri seu lugar no mercado como um jornal independent e combative, situa~go que constitui o desej o de seus velhos leitores e uma necessi- dade para a opini~o pdiblica. Mas, at6 agora, uma utopia de improvi- vel realizaio. Univ6erSid ade Sob o olhat vigilante do meu acompanhante, contemplei com fervorreligioso a citedra que havia sido de Galileu Galilei na Univer- sidade de Bolonha, na It~lia, a pri- meira do mundo, criada em 1088. Depois de assistir a uma tipica ceri- m~nia de formatura, umaluno qua- se nu sendo perseguido ao long dos corredores por parents e ami- gos, terminando por subir num pi61pito improvisado e ler uma lon- ga edesconexa mensagem extraida de um papiro arrevesado, sentei para contemplar as velhas instala- 95~es 21 minha frente e pensar sobre a realidade que me esperava do ou- tro lado do oceano. Em sua trajet~tia, j8 quase mi- lenar, a universidade permanece centrada no eixo que a define: os professors ensinam e os alunos aprendem. E claro que mudam as formas de ensinar e aprender. Bo- lonha surgiu como produto da re- agZo ao exclusivismo das ordens religiosas na formaFglo de quadros intelectuais. Contemporanea- mente, exige-se da universidade que esteja relacionada com a so- ciedade, respondendo is suas in- dagag Bes e propondo-lhe novos temas. Mas o essencial 6 que alu- nos s6 aprendem tendo bons pro- fessores. E professors s6 se adestram se slo cobrados por alu- nos aplicados. Sou contra esse iluminismo fora de 6poca que pretend pas- sar por cima do element que dis- tingue a universidade de outros produtos da inventive humana. Alunos e funciondrios nio podem ter um peso igual ao dos profes- sores na hora de escolher a reitor. Esse 6 um process que deve ser feito sobretudo entre pares, em- bora n~io exclusivamente por eles, para nio ficar tlo sujeito ao cor- porativismo e is igrejinhas. Nio sei se 70% do universe para os professors 6 uma proporglo jus- ta. Sei 6 que o minimo devia ser pelo menos de 50% mais um. E certo que uma pessoa nio vota certo apenas por ser um pro- fessor, nem simplesmente por essa condig~io se torna mais consciente do que um aluno ou um funciona- rio. Mas o corpo docente 6 a espi- nha dorsal de uma institui~go de ensino (e pesquisa, naturalmente), 6 o que a distingue da sociedade civil como um todo. Se hd profes- sores que ensinam mal e descum- 0 blecaute record da Albr~s: 10 anos JOURNAL PESSOAL *2a QUINZENA DE MAR('O/ 2001 7 O prejuizo foi calculado oficialmente em US$ 42 milh~es (quase R$ 90 milh~es), dos quais US$ 26 milh~es foram indenizados pelo seguro. Mas a empresa levou seis meses para restabelecer a plena produ~go. Houve uma perda de 38 mil toneladas de metal. Outras 43 mil toneladas foram produzidas fora das especificaFBes, sendo comercializadas a pre- go inferior. 0 prejuizo teria sido muito menor se a Albris (que no ano passado faturou um bi- lhlo de reais e teve lucro de R$ 111 milhaes) nd~o dependesse, at6 hoje, depois de 15 anos de funcionamento, de uma linha singela para receber energia da usina de Tucurui, a maior inteiramente national. S6, agora essa linha vai comegar a ser duplicada, com previslio de 14 meses para a conclusio da obra e investimen- to de R$ 155 milhdes. Foi a primeira grande linha de transmis- s~o de energia licitada para a iniciativa pri- vada na Amazinia, no mbs passado. Mas a Albris, que durante muitos anos manteve em suspense um projeto para fazer ela pr6- pria a duplicaqio, comn financiamento do Eximbank japonbs, acabou ficando de fora. A Alumar, outra grande f~ibrica de aluminio que se implantou simultaneamente em Slo Luis, produto da sociedade entire a Alcoa e a Billion, conta com linha dupla de energia hB quase 10 anos. Na 61tima quarta-feira, o blecaute -que deixou tras milh~es de pessoas sem energia - foi atribuido novamente a raios. Desta vez, eles ndo cairam sobre a torre. A linha 6 que foi desligada automaticamente para prevenir exatamente ser atingida por raios, devido ls descargas eletricas que acompanham as chu- vas pesadas que caem na regillo durante o atu- al period. Mas a Aneeel, a agtncia estatal que control o setor, prometeu cobrar com rigor uma explicaq~io da Eletronorte. Embora a causa official do acidente de 10 anos atri~s tambem tenha sido atribuida a rai- os, na verdade o desligamento da energia se deveu ao rompimento de uma haste de susten- tagio de um dos cabos em uma das torres, de qualidade inferior ao que as especificaq8es t~c- nicas exigiam. Em vez de ser de ferro fundido, a pega, por ser de ferro forjado, entrou em colapso de fadiga antes do tempo previsivel, pegando de surpresa a Eletronorte e a Albri~s. Apenas este jornalista, na 6poca, contestou os terms da nota official da empresa, revelan- do a causa verdadeira do acidente. A paralisaqgo de quarta-feira passada foi de apenas uma hora, mas esquemas de emer- gancia foram logo acionados, como efeito da sindrome de 1991. Numa avaliaqio exigente, por~m, ela parece nito ter sido suficiente para fazer o governor dar ao problema a gravidade que ele sempre teve. Todos os que dependem de Tucurui para ter energia, num bico de luz ou num super-forno de fundi~go, ainda vio ter que esperar at6 meados de 2002 para nio ficar dependendo de uma linha isolada. prem seus demais deveres funcio- nais, ai, sim, estb o papel funda- mental do corpo discente, de obri- g8-los a sair, principalmente atra- vbs do mais legitimo dos constran- gimentos em uma instituigio do conhecimento: colock-los diante de sua ignorincia, flagrd-los no que nito sabem. Estou, portanto, entire os que nbt se sensibilizam com o discurso sedutoramente democritico do voto universal sem barreiras na universidade para a escolha de rei- tor. Nem perfilho entire os que se curvam diante dos poderes de deus ex-machina da citedra. Tambtm nbi me deixo levar por jesuitismos e leninismos de algibeira, que re- duzem a cidadania universitirria A tomada do poder reitorial. Ainda acho que a melhor definiglo para a vida acad~mica 6 a perseguigo do inalcanq~vel ideal do maior saber. J or nalis mo Sempre fui contra o monop6- lio do jornalismo por diplomados do cursor de comunicaglo social. Qualquer diploma de cursor supe- rior poderia habilitar o profissio- nal que quisesse a exercer o jorna- lismo. Nbo quero a volta ao status quo ante, no qual mesnlo quemMo tivesse diploma algum podia ser jornalista, para nlo dar aos pa- tri~es uma arma para achatar ainda mais os salirios da categoria, de regra miserriveis. . Sem o monop61io, os curses de comunicapilo social teriam que jus- tificar sua existincia pelo critbrio da verdade: o da competancia. Nos Estados Unidos, metade dos jor- nalistas t~m diploma especifico de jornalismo, mas nito conquistaram seus lugates nas redag Ges por uma clausula de lei. Procuraram um cur- so superior de j ornalismo por sa- berem que dessa maneira estariam melhor habilitados para a dispute de mercado. Outra metade chega & imprensa trilhando os caminhos da vocagio ou do acaso, sem trombar numa pedra burocritica num cami- nho sem verses (caiu de uma espa- da num dos periods mais negros da repbblica, em 1969). Tambtm sustento que devam existir curses de comunicaqio so- cial e jornalismo. Os primeiros formariam comunicadores em ge- ral (e em cada irea especifica des- se vastissimo campo do conheci- mento) e os segundo, apenas jor- nalistas. Se essa divisio ja esti- vesse consagrada, Paulo Zing nto cometeria uma injustiga contra Marise Morbach, considerando-a desqualificada para ocupar a co- ordenadoria do cursor de comuni- caq~io social da Unama (Universi- dade da Amaz~nia) apenas por niio ser jornalista. No caso, a 6nica coisa que Marise precisa provar para continuar onde estit 6 que tem competincia especifica. No mais, est8 perfeitamente apta. O que, at6 agora, n~io est~iapta 6 a ponte do entendimento entire o jornalismo, o mercado e a universi- dade. Nem 6 de estranhar tais trom- badas: a maior parte da regulamen- tagso a respeito ainda 6 o que resta do entulho autoritirio. Material do qual, alibs, as empresas jornalisti- cas estilo cheias. T~lo repletas que o material vaza pelo ladrl~o-cons- trativamnente falando, 6 claro. Vang uarda m un icipal Se, por acaso, a prefeitura le- vasse a sdrio a sugest~io aqui feita, de criar uma empresa imobilitria municipal, o primeiro teste a que poderia submeti-la seria faz&-la participar de concorrencia puiblica para a elabora~go de um cadastro dos im6veis de valor hist6rico e arquitet~nico da cidade e um plano de uso para esses bens. A empresa municipal participaria sem privi- 16gios dessa licitaFio national, atra- v~s da qual surgiria uma listagem complete e rica de informaqBes so- bre todas as construgdes com - vamos supor mais de 50 anos, remontando aos pr~dios coloniais. Simultaneamente, a empresa ven- cedora faria um plano de agilo que a prefeitura seguiria para conse- guir manter e valorizar esses im6- veis, integrando-os inteligente- mente (e harmoniosamente tam- b~m) 9 vida da cidade. Qualquer pessoa habituada a caminhar por Bel~m descobrir8 p~rolas arquitet~nicas e de grande valor para amembria da cidade per- didas em Areas is quais nio se atri- bui maior significado, ou mesmo conjuntos que n~io slo corretamen- te avaliados. Muitas vezes, nem seus proprietarios ou moradores se dilo conta do valor dos im6veis. Temos uma tendincia de chorar (liigrimas de crocodile, para muitos) sobre as ruinas colonials e o massa- cre do circuit do centro commercial velho, mas esquecemos do restante da cidade. Ela apresenta, ao obser- vador mais atento, um caleidosco- pio de estilos, a partir da segunda metade do sdculo 19, que nito pode ser desprezado, nem mantido sob uma icncra cnrminosa. Mesmo nas direas mais velhas, fora do quadrilaitero das manguei- ras, que tanto encanta os visitantes (As vbsperas do baile da ilha fiscal), ha verdadeiras preciosidades da ar- quitetura que vem desde o art-nou- yeau. O trabalho de consultoria, que poderia testar a empresa municipal, daria partda a uma nova political mu- nicipal para Belem, se na PMB ain- da houver pessoas dotadas de non- chlalance suficiente para ouvir os outros, mesmo que anatematizados bom belzebus. Ou, pelo menos, ca- pazes de escapar 1 quadratura ed- mihsoniana do circulo. Edior:L~slo ~dva Pnto Foes:(09) 2 -690 (lone-lex) e 241-7626 (fax) Contato: Tv.Benjamin Constanl 845/203/66 053-040 .e-mail: larnaloaemazon.comn.br Predulo: Angellm Pinto Ed~g~o de Arte: Luizantoniodefariapintol230-1 304 extremidades do Largo da Trindade, eu estabe- lecido do outro lado, vizinho ao Movimento de Jovens, que cheguei a presidir, sob a coordena- 950 do padre (hoje, ex) Carlos Coimbra. Na pri- meir-a vez que fui g casa dele, antes ouvi o cur- riculo da professor Guilhermina, "que conhece mais gramattica do que tu", dizia, sem empafia, por puro orgulho -justo, alii~s. Wilson foi pega chave para a renovagio do jornal, que Cl~zudio Leal e eu fizemos entire 1967 e 1968, depois que voltei do Rio de Janeiro, are- jando a primeira pigina (antes, atulhada de ma- tbrias), criando um novo tipo de cademo especi- al (inspirado, naturalmente, numa combinaq~io de Caderno B e Informe Especial, do Jornal do Brasil, comn o Quarto Cademno, do Correio da Manhil). Precisei descer is oficinas no inicio e acom- panhar a paginacio at6 o fim para consolidar inovaqdes entiree nC~s, 6 claro), como o uso de espago branco, que provocava arrepios nos grdi- ficos tradicionalistas. Depois de uma ligeira re- sistencia, Wilson incorporou a mudanga e se tor- nou seu defensor criativo. Sua atuaqSio a partir de entio the garantiria a posigio de o mais im- portante gnifico na histi~ria recent do jomalis- mo paraense. Mas nunca usou-o. E, infelizmen- te, ningu~m lhe fez essa justiga. Na sucessio dessas mudangas, criei uma coluna, Viramundo, com uma seCqio de notas curtas, as "notissancias", reveladoras da influ- incia de Guimarfies Rosa, para dar uma volta pelo planet a partir do meu observatcirio lite- ralmente provinciano. Um dia, discrete como de hiibito, Wilson parou ao lado da minha mesa, como sempre fazia, e observou: "At6 parece coisa de agencia, menino". E foi embora. Re- cebi suas palavras como um dos melhores elo- gios da minha vida, dito por quem estava auto- rizado a dizer aquilo, algu~mpnor quem tive tanto respeito e carinho. Desencontros da vida, quej jnos haviam dis- tanciado, me impediram de acompanhar mrestre Wilson Corr~a na sua illtima incursio entire nC~s, desta vez sem volta, nem mesmo aquela tortuo- sa e demorada voluta que nos levava em espiral de esquina em esquina, papeando como se, numa de suas generosas defer~ncias, eu fosse um igual. Mas Wilson foi muito maior, "mais igual". E~ s6 por isso que me atrevo, neste adeus, a tomar de empr~stimo seu nome para valorizar este jornalzinho feio, que ele lia sempre e para o qual n~io deixava de mandar generosos sinais de estimulo, oque seria de esperar de algu~m como ele: um verdadeiro mestre. Cisco Um leitor escreveu ao journal O Estado de S. Paulo para fazer a pergunta: "sera pura coincid~ncia o fato de os principals atores da comedia pastello que se desen- volve no Congresso serem politi- cos de uma certa regiio do Pais?". Outro proclamou que o Pard "6 o Estado mais corrupt da Federago". Tudo bem: assumimos anos- sa parte, na qual nlo passamos de vitimas, e tiramos de letra os efeitos do velho preconceito sulista contra os Estados mais pobres e atrasados do pais. Mas onde mesmo nasceram Adhemar de Barros e Paulo Maluf? COffecciO O president do senado 6 o ter- ceiro e nio o quarto na linha suces- si~ria do president da repuiblica. Ao contribrio, portanto, do que escrevi aqui, porpura leseira amaz~nica. Na mesma edigio, um erro t~c- nico na mat~ria sobre o subsidio de energia: o custo de geraqio da hi- drel~trica de Tucurui 6 de 54 d61la- res o MWh, o que di US$ 36/MWh quando deduzida a tarifa m~dia de subsidio, de US$ 18/MWh, desfra- tado pelas ind~istrias eletrointen- sivas. Esse valor, multiplicado~ pelo somatorio de toda a energia forne- cida g Albras/Alunorte e I Alumar, projetada at6 2004/2005, quando chegam ao fim os contratos em vi- gor, di os 5 bilh~es de dolares de subsidio acumulado que o povo brasileiro concede e ainda conce- der8 aos dois empreendimentos, conforme c~ilculo do professor Ruy Bahia, citado na mat~ria. Seri que algu~m se espantou comn esse valor, de US$ 5 bilhdes, ou mais de R$ 10 bilh~es? Equi- vale a 10 anos de receita de ICMS do ParS Pobreza Um terg:o dos paraenses, que moram emn 60% dos municipios do Estado, estio entire os mais pobres do pais. Desde o mbs passado, eles slo clients do Pro- jeto Alvorada, no qual o governor federal se comprometeu a inves- tir 13,2 bilh~es de reais, at6 o fi- nal do ano passado, para tentar reduzir a pobreza e as desigual- dades regionals no Brasil. 0 ParB 6 um dos 14 Estados Mestre W~ilson A voz de tenor era gentil, mas categ6rica: Quando terminar, tu vais sair conosco. Obedeci, incontinente, a convocaCgo de Wilson Corr~a. Era um inicio de tarde de sa- bado de maio de 1966, fim do primeiro expe- diente no journal. Deixei a redagio um tanto inibido e acompanhei-o na primeira, para mim, adolescent de 16 anos que comegava a ganhar as ruas incursio a um bar situado na Zonaa". Junto, Oswaldo Ferreira, o cliche- rista de A Provincia do Pari. Ainda estivamos na primeira garrafa de cerveja quando Wilson comegou a preencher a imagindria ficha biogrifica que preparara para mim. Eu lia? Sim, eu lia. O que lia? "De um tudo", como diria Edwaldo Martins, que abria o caminho da fama. Poesia? Tamb~m. Enth~o que recitasse um verso, disse, de bate-pronto. Meio sem jeito, vacilei. Mas nio podia fa- lhar na minha estr~ia ao lado dos primeiros companheiros. Pensei e achei que "Eu", de Augusto dos Anjos, talvez viesse a calhar na- quele ambiente. Fechei os olhos e comecei a declamar o que sabia de cor. Quando voltei a olhar para os meus acompanhantes, ambos cho- ravam, emocionados. "Eu" ema o poema preferido de Wilson, como de Oswaldo. N~io s6 deles: de geraqCes de ope- rdrios instruidos e ilustrados como eles, emtodo o pais. Mas nio eram muitos entire os grificos, apesar de a categoria ser, entio, uma elite na empresa jomalistica. Jornalista s6 podia fazer qualquer coisa, greve, sobretudo, tendo o apoio da oficina. Mas raros jornalisticas desciam at6 elas, os intestines de um jomal, segundo a maio- ria, seu pulmsio, na verdade. LA, imperava Wilson Cor~a, um home fino e elegant, uma alma nobre, um gmande compa- nheiro, que morreu no si~bado passado, aos 82 anos, 30 a mais do que seu fiel acompanhante em algumas dessas incurs8es etilico-literdirias. Se tais jornadas ---a tinhamprincipio, nem sempre so- bre seu fim se podia dar teste- G` munho, ao me- masse...Freqilente- ~dl~id~BL~mente, por~m, Cr i3 fmosn a aaos despedia- rt Ldele, numa das que t~m um IDH (Indice de De- senvolvimento Humano) abaixo da m~dia national e, por isso, re- ceber8 recursos do projeto. Jun- to com ele, mais tris Estados amaz~nicos (Rond~nia, Acre e RoQraima), 9 nordestinos (Alago- as~, Bahia, Cearid, Maranh~o, Pa- fiba, Pernambuco, Piaui, Rio Grande do Norte e Sergipe) e Tocantins (que, para efeito de in- centivos fiscais, tamb6m 6 con- siderado, amazcinico), formando o bolst~o de pobreza. O.IDH 6 formado pela renda pitr capital, o indice de escolaridade eg expectativa de vida. Mas nlo pela ret6rica publicitilria. |
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