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OoTrn CeSSOR LUIjCIO F LAV O P N TO ANO XIV N" 250 1" QUINZENA DE JANEIRO DE 2001 RS 2,00 NOVA CAPITAL JK d~e branco O que parecia nada mais dEo que uma elucubragao mental esta' comegalndo a se tomzar um projeto oficial e pessoal do govemnador Almnir Gabriel: transfer a capital para o centro do Estadlo, mudlando-a de Belim para Belo Monte, no Xingu. Sem'a a vacinza contra os movimentos separatistas, qulepretendlem retalhar o termordwo paraense entire mais dois Estad~os. Por enquannto, o principal resultadlo dessa iddia e' unir todtos contra o govemnador. sensata a intengio de um go vernador de iniciar, na meta de final do seu segundo e der radeiro mandate, uma emprei Etada da envergadura de uma transfer~ncia da capital do Estado, pre- vendo execut8-la em 10 anos, ao custo de 500 milhaes de reais? Na semana passada, em entrevista a Raimundo Jos6 Pinto, da Gazeta Mercantil Parad, Al- mir Gabriel voltou a bater agora com i"' f,,, d, i.,, i,,,, b d da transferencia da capital paraense, de Bel~m para Belo Monte, no municipio de Senador Jos6 Porfirio, a 80 quil6me- tros de Altamira, a principal cidade da regido do Xingu. Deslocando a capital do estuirio lito- rdneo onde se encontra para exatamente o centro geografico do vasto territorio paraense, com 1,2 milhio de quilimetros quadrados, o governador acredita que afastara o risco de emancipagio da re- ,,i d,,,~ l.. f, t~~ do Estado, o segundo maior da federa- gio (podera vir a ser o primeiro, se o vizi- nho Amazonas for seccionado para a cri- a~go de dois territbrios federais, propos- ta ainda em formulagio, mas aceita pelo governador Amazonino Mendes e o es- tablishment amazonense). O governador parece ter da gestio ter- ritorial uma visio cartografica e, al~m de tudo, imediatista. Pensa que, colocada nes- sa nova posiFio, a capital ficara mais pr6~- i ,,, d ~ t~~~-;~ d, i i lnn ) mas inase o que na prmera a or a- g o oeste, agora, e o su, no uuro, xma e o os os muncpos, ao chance gem, feita no mesmo journal na tecla mantendo integralmente os atuais limits de suas reivindicaqBes e critics. Dessa 2 JOURNAL PESSOAL l' QUINZENA DE JANEIRO/ 2001 forma, seria restabelecida uma coesio in- terna ameagada por movimentos de sepa- raqio ao sul e a oeste, que tim como prin- cipal argument a excessive centralizaego da miquina publica e dos investimentos em Bel~m, cuja distincia em relaCio a boa parte das sedes municipals 6 media em centenas de quilimetros (e, em mattria de sensibilidade political, em anos-luz). O governador acredita que com a transferincia todos sair~io ganhando, in- clusive Bel~m. Na proje~go demogr~ifica privativa de sua excelincia, Bel~m pode- ra chegar a oito milhdes de habitantes (a partir de 1,2 milhio atuais) em, no mixi- mo, 40 anos. Passara entio a sofrer as conseqtiincias de uma pressio insupor- tavel por servings e empregos, que torna um inferno as megal6polis para a maioria dos seus habitantes. O deslocamento da sede administrative estadual desviaria os fluxos demogrificos, possibilitando ao municipio estruturar-se melhor. A dura mas desorientada reaqio do prefeito Edmilson Rodrigues, de ime- diato ameagando com uma nova Caba- nagem, nio deixa qualquer dilvida sobre o ceticismo diante dessa tese. Mesmo entire os que apoiaram o projeto do go- vernador, a aprovaCio veio em compa- nhia da descrenga. A maioria acha que Almir Gabriel est8 falando para a arqui- bancada, jogando ggua fria sobre os se- paratistas no Baixo-Amazonas e em Ca- rajis, atendendo a maior de suas quei- xas, mas esvaziando-a como uma promes- sa empurrada para o future. Alguns stores, portm, reagiram com uma virultncia semelhante a do prefeito da ainda capital. Consideraram de mau gosto a manobra, por lidar comn a hi- p6tese de um investimento m~dio annual de R$ 50 milhdes, ao longo de uma d~ca- da de execugio do projeto da nova capi- tal, quando demands mais urgentes nio sho atendidas por falta de recursos. O tema 6 suficientemente pol~mico para logo se poder prever que o governador, a partir de uma id~ia em tese, sem o devido aprofundamento, estar5d brincando com fogo se pretend, de fato, dar partida ao process de mudanga da capital nos dois anos que lhe restam de mandate, ji sem a graga da reeleigio (que, alias, nada tem de graciosa, muito pelo contrario) para contrabalangar a tend~ncia dominant de esvaziamento dos governantes a partir dessa marca cabalistica. No minimo esta- ra armando uma bomba de efeito retarda- do para seus sucessores, sejam eles ad- vers~rios ou correligiondrios. O primeiro ponto, de natureza preli- minar, que question suscita, 6: quanto cus- tara realmente implantar a capital num ponto distant quase 500 quilbmetros da sua posigio atual, para o interior, no ser- tcio? O governador calcula o investimen- to em meio bilhio de reais, programaveis para desembolso em 10 anos. Se como base de c~lculo for tomado o exemplo de Brasilia, at6 hoje a materializaqio mais extremada (e desfigurada) da saga da "corrida para oeste", ou, encarando a atual administration, a Esta~go das Docas, o prego vai sofrer acr~scimos em sucessi- vos aditamentos. E um valor t~io genbrico quanto falar que a criaqio de um novo Estado said por R$ 2 bilhdes. Mesmo admitindo-se como conflaveis essas estimativas, nio ser~i excessive gastar um real para mudar a capital na busca de economizar quatro reais com um novo Estado? Mesmo nos limits de percepc;io de um guarda-livros ataivico, com sua circunscrita escrituraqio de deve e haver, nio 6 vantajoso. A segunda questio: 6 correto tomar como parilmetro para decisio de tal en- vergadura apenas uma variivel geogr~i- fica? Em tese, talvez. Mas na pritica as coisas podem se complicar. Por sua lo- calizagio, Altamira esta em posigio des- confortavel em qualquer hip6tese de con- figuraqio territorial que o Para venha a ter. Ela nio foi considerada em nenhum dos dois projetos separatists, o do Tapa- jt~s e o de Carajas. Por exclusio, integrar8 o Estado que remanescera desse esquartejamento. Mas continuard bastante long de Be- 16m nesse novo desenho geogrifico, ain- da mais porque a capital, com jurisdi- gio sobre apenas um tergo do Estado que sogobraria da redivislo, ficara sem condiqaes de alcangar aquele que se tornarl o limited oeste extreme do seu novo tragado. Para Altamira e sua microrregido, por- tanto, receber a nova capital seria como ser premiada com a solvincia, exceto se os transamaz6nicos todos desse eixo ti- verem inimo e razdes para tamb~m que- rerem virar um novo Estado. Ngo 6 plau- sivel gastar tanto e a tanto levar para ata- car um problema menor, como nio 6 fac- tivel a viabilidade do Estado Transama- z6nico (ou 6?). O simples element da centralidade geogrifica nio 6 suficiente para justificar a transfer~ncia da capital e usa-la como fator de inibiCio da rear- rumaqio territorial no Pard. Uma r~gua aplicada a um mapa certa- mente dard a resposta imediata do proble- ma, mas nio sera por estarem mais pr6xi- mos da nova capital que os municipios do sul e do oeste arrefecer~io seus impetos seperatistas. Pelo simples fato de que ambos, o Tapaj6s e Carajis, n~io t~m elos socials, econbmicos e culturais comn o cen- tro geogrifico paraense, do qual Altamira 6 a expresso. Foi exatamente por isso que o excluiram dos desenhos que tragaram para os novos Estados pretendidos. Eqiiidistante dos seus coestaduanos na nova capital, o govemador poderia agir na reversio desse estado de coisas. Para tan- to, na conceppio de Almir Gabriel, tera a ajuda involuntairia do governor federal e de empreiteiras particulares. O governador deslocou espacialmente um pouco seus sonhos de .iK, optando por Belo Monte e nio por Altamira, como pareceria mais 16gico. Fez isso para tirar proveito das obras da hidrel~trica hom6nima, na gran- de curva do rio Xingu depois de Altamira, que suplantara Tucurui como a maior usi- na de energia inteiramente national (ji que a maior de todas, Itaipu, no ParanB, 6 par- tilhada ao meio com o Paraguai). A obra, orgada inicialmente em R$ 4 bilhdes, vai precisar de uma grande in- fraestrutura. Mas nio ser~i mais do porte da que a Eletronorte montou em Tucurui. Ngo s6 porque o padrio mudou, recicla- do pela necessidade em que se viram os tradicionais barrageiros de uma inser~go social e ambiental, inexistente no velho modelo anterior, autoritirio e tecnocrata, mas porque agora quem estara a frente sera uma empresa privada e nio estatal (ao menos 6 o que diz a Eletronorte). Deverai ser uma obra mais enxuta, nio s6 por engenho & arte, mas por atualiza- Cg0 de mentalidades. Belo Monte ainda tem um inconveni- ente. Ngo vai gerar energia para uso lo- cal, na verticalizacio produtiva,jarg~io que teima em ngo passar dos discursos ofici- ais para a realidade no Pari. Ela vai ser transportada em blocos de alta tensio para o sul do pais. Consolidara uma mar- ca colonial do Para, de se tornar a maior provincia energetica national (e, cada vez mais, internacional, comn aluminio e cobre no abre-alas da industrializa~go). Belo Monte, se as iracundas fabula- 95es do governador se realizarem, sera a capital de uma provincia energ~tica, ou de uma col6nia. Ngo de um Estado aut6- nomo. A simbologia ngo podia ser mais desastrosa. Ou mesmo ofensiva. Ainda que nio intencional, Ha, por fim, a sorte de Bel~m. Perder a condigio de sede administrative do Es- tado poderia ser bom para a cidade, dis- cursa o governador, porque ela nio esta- rB exposta a um crescimento demogr~ifi- co desestruturador, deslocando-se as cor- rentes migratbrias para Belo Monte. Ngo sei qual a base documental da projegio de at6 8 milhdes de habitantes em 20040. Mas certamente ela nio parte dos dados oficiais existentes. Na pigina seguinte, desta edig~io, dou a questio a aten~go que ela merece, a JOURNAL PESSOAL* la1 QUINZENA DE JANEIRO/2001 3 Lacuna Por enquanto, a TV a cabo do grupo Liberal 6 apenas uma "obra em progresso. Sua inauguraCqio foi o que os marqueteiros gostam de chamar de soft opening, em- bora ningudm tenha assumido essa realidade. Ou seja: funciona mais para ingl~s ver. O sistema s6 se tornarii plenamente viivel com uma inje~go de dinheiro maior do que tudo o que at6 agora foi aplicado. Os Maiorana nio tim essa disponibilidade de caixa, o que nio e de surpreender diante da necessidade (de 50 milh~es de reais). Mas tamb~m eles nio se prepararam para it buscar esses recursos no mercado, mesmo sob a pressio forte do seu poderoso parceiro, a TV Globo. O BNDES recusou o pedido de empr~stimo que o grupo the fez. A principal res- trigio foi quanto aos n6meros da empresa. O ativo estava inflacionado para cima. As contas nio se ajustavam aos esquemas formats. Foi necess~rio refazer tudo, para isso trazendo consultor de fora e recorrendo a um escritbrio de advocacia especializa- do em Bel~m. Ais pressas, foi votado o balango do ano passado e constituido um conselho fiscal, que simplesmente inexistia. Para que os papeis a serem apresentados de novo ao banco possam ser lidos sem sobressaltos. Certos gigantes costumam ter pes de barro. Ou calcanhar de Aquiles. "Batraquada" Deve-se creditar ao director de reda~go, Walmir Botelho, o editorial de primeira pigina de O Liberal do dia 30 contra o "palpite infeliz" do governador pela mudanga da capital paraense. AlCm de ser "um estupro hist6rico contra esta exuberante Be- 16m", a id~ia, segundo o editorial, 6 uma foliaa financeira fora de 6poca e de possibi- lidades, com seqtielas para virias geraqdes". Ai vem o pior aos ouvidos (geralmente de mercador) de sua exceltncia: "Capitais de proveta ttm-se revelado, neste pais, muito boas para empreiteiras; ptssimas, po- r~m, para o cidadio". Dezenas de sapos subiram a mesa para aguardar os convivas de uma possivel reconciliaqio no future. Impossivel nio 6, ao menos tem sido assim no Gr~io Para, mesmo quando as agress8es descem ao nivel pessoal. Mas que seral indigesta depois de tantas alfinetadas, disso algu~m tem d~ivida? O partir das informagaes ja reveladas do censo 2000. Por aqui, basta dizer que Bel~m tem experimentado um crescimen- to demografico relativamente decrescen- te, que tem apenas um quinto da popula- Cgo do Estado e que o Para possui a se- gunda menor taxa de urbanizaFio do Bra- sil, abaixo apenas do Maranh~io. Ou seja: a pressio demografica, especialmente via migraqio, ainda nio 6 um problema tio grave, a ser resolvido por um remedio tio drastico como a mudanga da capital. Um rem~dio com contra-indicaqdes tio rigorosas que provoca a duivida: vale a pena usa-lo? Qualquer que venha a ser o future do Para, como esti constituido hoje ou retalhado depois, Bel~m continu- arai ajustificar a manutengio da sua con- di~go de nucleo central, seja do Estado remanescente como dos derivados do ParB atual, e, amnda, de toda a Amaz~nia. Desde que, ao invds de inflA-la ou esva- zii-la por atos de irreflexio, seus admi- nistradores decidam enfrentar o enorme desafio de reestrutura-la para atualizar essa fungo estrat~gica. Ser capital 6 uma condi~go indescar- tivel para Bel~m retomar sua condigio de metr6pole regional, capaz de drenar necessidades e anseios do hinterland e ser interlocutora credenciada em relagio ao ultramar metropolitan. Bel~m 6 a ci- dade melhor aparelhada na Amazinia para desempenhar essa fun~go vital. Dis- pie de universidades, centros de pesqui- sa, bibliotecas, mio-de-obra qualificada, tradigio e a presenga do aparato official, que apresenta demands e, ao mesmo tempo, pode ser cobrado de perto. Nio tendo possibilidades de se industrializar, nem podendo retomar a condi~go de en- treposto commercial, a cidade precisa dar um salto para a economic da informa- Cgo, redefinindo seu perfil a partir dessa matriz. Ou entio nio passara de Calcu- tb amaz~nica. Com seus sulties bicu- dos e trombudos. Belem estb muito long de jB ser a "metr6pole das luzes" da propaganda municipal, mas deixar de ser capital de unidade federativa seri um golpe terrivel para a cidade, comprometendo de vez as suas melhores possibilidades de future. Isso porque, sem outro recurs de mais densidade e extensio, o governador de- cidiu se agarrar aum delirio de ver~iocomo se fosse um projeto capaz de ser levado a sbrio al~m do circulo palaciano. E pou- co provivel que ultrapasse essa cerca- dura. Mas, se venc&-la, espera-se que se submeta ao teste da verdade, junto a so- ciedade, antes que o medico Almir Ga- briel possa aspirar ao titulo que foi de Pedro, o grande, entire os russos. Ao tu- cupi, naturalmente. ( O Para tem a segunda menor taxa de urbanizaqio do Brasil, de 66,5%, s6 su- perior g do Maranhilo, que 6 de 59,51%, segundo os dados do censo 2000. Isto sig- nifica que a migraqio do campo para a cidade, embora em taxas crescentes nos ultimos anos, ainda nio esvaziou o meio rural e, nio havendo alcangado seu pi- que, talvez ainda possa ser controlada. No caminho do campo para a cidade, porem, os migrants j8 nio procuram tio intensamente Bel~m. A capital paraense abriga apenas um quinto da popula~go do Estado. Por esse crittrio, esta em 16" lu- gar entre as capitals brasileiras. Sua ri- val, Manaus, tem a primazia national nes- se item, comn praticamente metade da populaCio do Amazonas, o maior Estado da federaqio. Manaus at6 ja passou Bel~m em po- pulaCio. E a nona maior cidade do Bra- sil, com 1,4 milhio de habitantes, enquanto Bel~m caiu dessa posiCio, que ocupava no censo de 1991, para o 11" lugar, abai- xo de Porto Alegre, a 10' maior cidade. Mas o Para continue a ser o 9" Estado em popula~go (o Amazonas e s6 ol 6", com menos da metade dos 6,2 milhdes de paraenses), tendo aumentado, no pe- riodo intercensitario, a distincia que o separa do Estado mais pr6ximo, o Mara- nhio (de 20 mil para 500 mil habitantes de diferenga). Ainda assim, a taxa de crescimento do Parat nos uiltimos cinco anos (de 2,54% em m~dia) foi a s~tima national e a me- nor da Amazbnia. Os Estados da region, caracteristicos de fronteira, ocuparam os primeiros lugares nacionais em incremen- to relative da populagio, B frente o Ama- pa (5,74%), Roraima (4,57%), Amazonas (3,43%) e Acre (3,29%). Por tudo isso, o govemnador Almir Ga- briel deve dar uma olhada nos recentes da- dos do recenseamento antes de fazer suas projegaes demograficas de meia sola. O Para" mnenOS emn 200 0 4 JOURNAL PESSOAL* l aQUINZENA DE JANEIRO/ 2001 Grileiro ataca justiga No dia 7 do mas passado o em- pres~rio Cecilio do Rego Al- meida, donor da Construtora C. R. Almeida, do Parana, e pre- tenso donor de uma area de 5 ou 7 mi- lhdes de hectares no Xingu, protocolou no Tribunal de Justiga do Estado uma in- terpelaCio dirigida a desembargadora Raimunda do Carmo Gomes. A pega nio preenchia um dos requisites indispensa- veis do process judicial: a fundamenta- glio legal. Nenhuma lei foi citada, nenhu- ma doutrina, nenhum julgado. O objetivo do papel era afastar a de- sembargadora do process que estava relatando, o segundo dos habeas corpus que a advogada Angela Salles impetrou para trancar uma queixa-crime apresen- tada contra mim, com base na lei de im- prensa, pelo mesmo C. R. Almeida. Ele alegou ofensa a sua honra em artigos que escrevi neste journal sobre a grilagem de terras no Xingu, feita em beneficio da- quele empresirio. O primeiro HC ja ha- via sido deferido pela desembargadora Heralda Rendeiro, determinando o tran- camento de uma das duas aCges penais (ha uma terceira, civel, em andamento). Segundo a interpelagio, a magistrada devia "reconhecer a existancia de moti- vo que a impossibilite de julgar com ab- soluta isengho de Pnimo" e declarar de oficio sua suspei~go, saindo do process. O motive do pedido seria a formaa es- trondosa" que eu teria adotado para noti- ciar a primeira vit6ria. Ao manifestar a convicgio de que resultado id~ntico seria dado ao segundo HC, eu teria antecipado o resultado do julgamento, fazendo "peri- clitar um dos mais comezinhos principios do direito, o da imparcialidade". O procurador do empreiteiro tamb~m estranhava "a forma com que o resulta- do deste segundo habeas corpus vem sendo antecipado publicamente", obser- vando que se impunha "questionamen- tos quanto a uma eventual antecipagio de voto" por parte da relatora "e dos demais Membros Julgadores", que iriam apreciar a questio nas cimaras crimi- nais reunidas do TJE, "o que nio se co- aduna com os principios que regem o devido process legal, mais especifica- mente o da imparcialidade". O papel, assinado pelo advogado An- t6nio Figueiredo Basto, arrematava: "Exi- ge o exercicio da jurisdigio que o juiz nio mantenha sentiments pessoais que pos- sam influir no julgamento. Assim, na even- tualidade de ter ocorrido antecipagio de e at6 mesmo de julgamento a parte inte- ressada por parte de V. Exa., emergem os sentiments pessoais que justificam a suspei~go". Atenuando a contundancia da afirma- tiva, mas ainda com malicia, o papel res- saltava "que de forma alguma" estaria a atribuir a desembargadora-relatora "a ausincia de imparcialidade na condu~go do julgamento", mas somente buscava "Ijusto esclarecimento face a destempe- rada divulgagio no Jornal Pessoal". No entanto, suscitava sua suspei~go. Embora protocolada no dia 7, a inter- pela~go s6 veio a puiblico no dia 11. Em plena session das cimaras criminals, o de- sembargador Jaime Rocha, que havia pedido vistas do process no dia 4, ao devolver os autos informou seus pares de que lhe havia chegado a- digamos assim - pega an6dina, sem detalhar como isso ocorrera. Por nio ser o relator, encami- nhou a peticgio g desembargadora Rai- munda Gomes, No caminho de passage, o desem- bargador Felicio Pontes tomou o papel em suas mios, leu-o e reagiu. Disse que aquilo nio podia ser juntado aos autos, que era uma manifestaCio completa- mente extemporinea e, alem disso, uma ofensa a relatora e ao judicidrio. Sua pronta reaq2io foi referendada pela pre- sidente das cbmaras, Climenie Pontes. Com o apoio dos demais desembarga- dores, ela decidiu concluir o julgamento, iniciado na sessio anterior. Meu HC foi concedido, contra, mais uma vez, o voto do desembargador Werther Coelho. O desembargador Jaime Rocha nio mais se manifestou, nem para justificar o pe- dido de vistas, e acompanhou a maioria na concessio da ordem para o tranca- mento da aCgo. Este niio e um caso de gravidade apenas pessoal. Por sua significagio para a causa geral da justiga, merece um aprofundamento. Quando C. R. Almeida formulou sua interpela~go, os autos do process a que se referia ji estavam de ha muito conclu- sos. Mais do que isso: a questio estava marcada para julgamento, ji em anda- mento, e s6 nio se havia efetivado antes porque a ausincia justificada da relatora provocara o adiamento do feito. Nada mais, portanto, podia ser aduzido ao pro- cesso, que devia seguir seu cursor, imper- turbivel, at6 o julgamento final. Dentro do rito processual, a pega era espuria. Devia ser rejeitada de pronto (li- minarmente, segundo o jargio) pelo or- ganismo saudivel da justiga, como, alias, acabou acontecendo. Para livrar-se do papel, contaminado pelo vicio de origem, a desembargadora Raimunda Gomes des- pachou-o nio nos autos, mas atravbs de edital. Indeferiu-o: a materia ja havia sido decidida, "sendo a referida decisio auto- explicativa". Ainda que a an6dina interpelaCio es- tivesse conforme as normas e nio tives- se sido incorporada clandestinamente B tramita~gio do process, por via obliqua, falta-lhe a mais remota proced~ncia. Nem you considerar a noticia do Didrio do Pardi sobre os processes, citada na interpelagio, em rela~go a qual nio te- nho qualquer tipo de interfer~ncia ou control. A noticia, de fato, continha um erro, mas era formal: considerava finali- zado um julgamento que, na pritica, es- tava decidido, porque cinco dos sete de- sembargadores que podiam votar jB ha- viam se manifestado a meu favor, mas requeria a conclusion da vota~glo para ser dado como acabado. O equivoco, de todo modo, foi corrigido logo em seguida pelo pr6prio journal, atrav~s de sua setorista no TJE. Vou tratar do que me cabe: a formaa estrondosa" que eu teria usado para noti- ciar a vit6tia no primeiro HC. Ela ocupa apenas uma das 32 colunas (coluna como a refer~ncia t~cnica para efeito de medi~gio de espago) que este journal tem, ou um quarto da uiltima das suas oito piginas (cada uma tem quatro colunas) na edi~go da primeira quinzena de dezem- bro. Do ponto de vista quantitative, por- tanto,jamais essa noticia poderia ser con- siderada "estrondosa". E quanto ao conterido? O trecho grifado pela interpelagilo, no uiltimo dos tres parigrafos que a matbria tem, 6 o seguinte: "Depois da s61ida e judiciosa mani- festagio da desembargadora Heralda Rendeiro, referendada por seus pares, a exceglio do desembargador Werther Co- elho, voz dissonante nesse coro de luci- dez, tenho a convicq;8o de que sera a mesma a acolhida ao segundo HC, im- petrado por motives semelhantes, con- tra o mesmo autor da perseguigio, sob JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE JANEIRO/2001 5 Pedagogia Tudo o que o prefeito Edmilson Rodrigues fez ap6s o susto eleitoral de outubro/ novembro (susto que nio admite) reforga um trago do seu perfil: ele 6 daqueles que nio esquecem o que aprenderam e nada aprendem. Ao que parece, esta disposto a construir a desgraga do PT a sombra do seu monument, em cuja base de bronze se podera ler: "o resto 6 o resto". Sem querer Uma grande li~go que o depjutado Duciomar Costa deu (e que ja parecia supera- da) foi a de que o diploma, para qualquer efeito, ainda faz diferenga, ou faz alguma diferenga. Pode ter sido sua maior contribui~go a vida publica em Bel~m. E uma das maiores do pais, depois da do senador Luiz Estevio, raro caso de colarinho branco colocado em cela comum por austncia do popular canudo. Algum fetiche a sociedade precisa ter. ~ a relatoria da desembargadora Raimun- da Gomes. Assim, minha energia sera renovada para enfrentar outras seis de- mandas do mesmo jaez". E claro que escrevi a matbria como part interessada, mas sem deixar de ser jornalista. Se o voto da desembargadora Heralda, ainda que a meu favor, tivesse sido fraco, sem densidade, eu nio teria registrado minha conflanga. Nio apenas li atentamente a manifestaFio como con- sultei quatro competentes advogados e magistrados, que partilharam, enquanto profissionais, minha opiniio de leigo. A questio havia sido praticamente esgota- da naquele voto. Mas havia, sobretudo, um fato con- creto: os dois HC tinham sido pautados para a mesma sessio das cimaras cri- minais. Na preced~ncia, estava o pedido do qual a desembargadora Heralda era a relatora. Seus pares, excetuado o desem- bargador Werther, a acompanharam, in- cluindo a desembargadora Raimunda. Quando chegou sua vez de se manifes- tar, ela pediu o adiamento do feito, argu- mentando que iria refazer o seu voto. Se decidiu agir assim, era porque, ao tomar conhecimento da fundamentagio apre- sentada pela desembargadora Heralda, se convencera de que sua colega estava certa, aderindo a ela. O que, por via de conseqtiincia, a obrigaria a rever o en- tendimento mantido ate entio, que so po- dia ser contra a concessio do HC. Uma attitude nio muito freqilente e sempre merecedora de elogio: um ser humane, no dificil exercicio da prerroga- tiva de julgar seu semelhante, ter sensibi- lidade para captar a verdade numa posi- gio alheia e a capacidade de mudar, re- conhecendo o erro que ia cometer. No meu caso, o erro podia ate ser derivado de uma posi~go doutrinaria, de principio, que alguns magistrados costumam ado- tar, deixando de lado as especificidades eventuais das demands para orientar seu julgamento por uma diretriz geral (como nio conceder efeito suspensive a recur- sos que nio tim originalmente esse po- der, ou nio trancar aqaes atrav~s de HC). Ngo sei. Simplesmente porque nio tive acesso -nem antes, nem depois -ao voto que a desembargadora Raimunda Gomes havia levado para aquela sessio, que n~io leu naquele memento e que viria a refor- mular, ap6s haver acompanhado a maio- ria das cimaras no primeiro HC. Aqui acrescento meu testemunho: antes da primeira das cinco sessies re- alizadas para a decisio sobre os dois HC, eu nio tivera nenhum contato pessoal com qualquer das duas desembargado- ras que iriam relatar os processes. Nem mesmo as conhecia. Jamais haviamos sido apresentados. Nunca estiv~ramos no mesmo ambiente. Por nenhuma de- las, enquanto juizas ou ja como desem- bargadoras, havia passado at6 entio um so dos muitos processes, originatios ou derivados de recursos, que contra mim foram propostos, a meu ver por mera retalia~go ou para intimidar. Tudo o que soube sobre a posiFio dos HC foi atra- v~s de consult junto a secretaria das cimaras criminals reunidas. Jamais fui ao gabinete das relatoras. Quem nio acreditar que investigue junto gs fontes competentes para refe- rendar ou desmentir o que aqui est8 dito. O conteudo da descabida interpela- Cgo e sua estranha forma de insergio mostram at6 que ponto meu contender est8 disposto a descer para fazer valer seus prop6sitos contra um jornalista in- dependente, inteiramente dedicado a causa puiblica e que, na defesa da ver- dade, nio se submete a caprichos e in- teresses, principalmente quando eles nio visam o bem da sociedade ou, pelo con- trario, vio causar-lhe dano irreparivel (como a apropriaqio de milhdes de hec- tares de terras pdblicas). Fica este registro assinalado para todos os efeitos, atuais e futures, reais ou imaginados. Continue a ser ator- mentado pelas perseguiqdes. Mas sem medo delas. ( In alvel O PT, ao menos no Para, 6 um parti- do autofagico. Conseguiu arruinar o que parecia vit6ria certa: fazer a vereadora mais votada da hist6ria de Bel~m presi- dente da Cimara Municipal. Com tris vezes mais votos do que seu concorrente mais pr6ximo, Ana Julia Carepa podia fazer de sua elei~go mera aclamaqio, tal a forga da sua legitimidade. Mal comegou a acertar os apoios, po- r~m, descobriu que emissarios do seu correligiondrio, o prefeito Edmilson Ro- drigues, ja haviam circulado com a ver- sio de que ela nio pretendia o cargo para evitar comprometer seus pianos futures. A presid~ncia devia ficar com algudmque pudesse adotar as decis~es necessarias para equilibrar a administration do parla- mento municipal, inclusive recorrendo a demissdes, para prevenir os efeitos da lei de responsabilidade fiscal sobre o gestor. Desfazer esse plantado mal-entendi- do implicaria em reconhecer que, enfra- quecida dentro do partido, Ana Jdilia nio podia apresentar-se em posi~go de forga junto aos demais. Nio sem antes esbra- vejar em circuit fechado, a vereadora mais uma vez recuou. Depois de 500 mil votos na dispute para o senado e a con- sagradora vit6ria na camara, a submis- sho de Ana Julia s6 6 inteligivel de uma maneira: ela nio quer dar pretexto a pu- ni~go, que pode chegar a expulsio, para nio perder a legend do PT, sem a qual fica sem identidade political. E~uma situaqio tiodelicada que permit a um grupo minoritario no PT, como a Forga Socialista, impor-se aos demais, inclusive aos maiores. Niocom ouso de uma biblica fun- da, mas de duas ferramentas que, mesmo entire os petistas, parece imbativel: a chave de acesso aos cofres do erdrio e a caneta que nomeia e demite servidores puiblicos. Ob pa rae nse 6 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE JANEIRO/ 2001 al Roberto Campos, como pretend, jun- tando alhos e bugalhos onde s6 cabem Carvalhos. E parent, nio muito distant, de Torquemada, ou, quem sabe, o elo per- dido nessa cadeia de inquisidores que re- agem a critical com o dedo em riste e a panela de 61eo fervente. Sendo sua pagina um show de co- nhecimento livresco, haurido, talvez, em gabinete desligado do mundo (por isso, tendo ou nio diploma, nio 6 jornalista), com excess que prej udica a lucidez do raciocinio, reagiu como prima-dona. Provavelmente por isso se importou tan- to com o meu sobrenome, outro com- ponente freudiano do seu discurso. Mas se julga que me ofende, tratando-me apenas por sr. Pinto, do alto de sua ilu- sbria torre de marfim, um sub-Paulo Francis que nunca foi a rua, sinto-me na obrigagio de informi-lo, para fins de direito, e outros eventuais, que te- nho sido merecedor do meu sobreno- me. Pelo menos isso. O Falta Dois municipios paraenses es- tio entire os 10 com maior quanti- dade de homes no Brasil. Em Novo Progresso, no oeste do Esta- do, campeho dessa suspeita moda- lidade, hB um home e meio para cada mulher. Quer dizer que em cada grupo de cinco homes, um vai ter que buscar mulher fora, se nio resolver partir para a ignorin- cia HE cinco mil mulheres a menos numa popula~go total de 25 mil ha- bitantes, o que da uma id~ia do pro- blema para os homes (e da deli- cia para as mulheres). Em Cumaru do Norte, na sofri- damente destacada 10" posi~go na- cional, a relagio 6 de 1,3 homes para cada mulher. Ou seja: de cada grupo de 10 homes, um vai sobrar nesse jogo. A razio? Provavelmente a de- sativagio dos garimpos de ouro, deixando homes a deriva. Jg as mulheres, 6 claro, ttm mo- tivos para comemorar. Bem que o turismo podia aproveitar essa cir- cunstincia e organizer excursies casamenteiras, sob as ban~gos de Santo Ant~nio. ra intellectual deslumbrante como pou- cas na hist6ria da humanidade. Isso nio interessa. O que importa 6 que sua excelincia, um auto-proclamado fil6sofo, encantado com o pr6prio umbi- go e circunscrito aos limits do seu nariz, empinado e empoado, nio pode ser tira- do do pedestal (de barro ordinirio, por sinal) para ser cobrado a explicar-se. Vergasta o infiel (na edigio 136), de- sinteressado de falar para seus leitores, de argumentar e instruir. O que conta 6 seu suposto show pessoal, menos uma convicqgo do pr~prio valor do que um sintoma de esquizofrenia em grau adi- antado. Seu mundo 6 sua pigina. Tanto que nem se da ao trabalho de exercer o alegado direito de resposta que minhas critics teriam autorizado, desde ja jul- gando-me econdenando-me, em seu mo- nocritico tribunal medieval, pelo crime de difamaqio. Olavo de Carvalho nio pertence g tra- digio que nos deu o esgrimista intelectu- Em futebol, quase sempre a melhor defesa e o ataque. Isso qualquer Luxem- burgo sabe. Em pol~mica, nem sempre. A agressividade costuma servir a defesa do polemista acuado, mas nio B forma- Cgo e esclarecimento da opiniio publica. Olavo de Carvalho reagiu as minhas critics, formuladas atraves da revista Epoca (edi~go 135), onde escreve um artigo semanal na condigio de fil6sofo (enquanto em Humanus se apresenta como "escritor e jornalista"), como se elas fossem um crime de lesa-majesta- de. Ngo lhe interessou o conteudo do que eu disse, tentando mostrar que o estudo de Karl Marx nio result apenas em militincia revoluciondria, fanatismo ou totalitarismo, como sentenciou Olavo numa das suas aulas semanais; e tam- b~m um dos melhores caminhos meto- dol6gicos para compreender e interpre- tar o mundo, concordando-se ou nio com as conclusdes do autor, que, independen- temente disso, nos oferece uma aventu- A expresso "dourar a pilula" quer dizer que nem tudo que reluz 6 ouro, como nem tudo que balanga cai. Por fora 6 uma coisa. Por dentro, outra. Para consume externo, o governador Almir Gabriel esta dizendo que sua complete austncia das reunides do Conselho De- liberativo da Sudam, em seis anos, e um protest contra os erros e vicios na con- du~go da superintend~ncia por homes indicados pelo senador Jader Barbalho e, por isso mesmo, do seu esquema poli- tico e negocial. Menas verdade. Sua excelancia pas- sou a ignorar a Sudam quando sua indi- caqio para a chefia do 6rgio, o empre- sario Fernando Flexa Ribeiro presidente regional do PSDB e candidate derrotado ao senado), foi vetado por Brasilia, de- pois de ter sua confirmaCio anunciada, o que o levara at6 a dar entrevista g im- prensa como se ja fosse o chef"ao da Su- dam. Quem colocou o dedo no suspiro, como diz o povo, foi lui-mime, a besta- fera do PMDB. Desde entio pela Sudam ja passa- ram Frederico Andrade, Alcyr Meira, Arthur Tourinho, Mauricio Vasconcelos e Hugo de Almeida. O 6nico element de ligagio entire eles e o mesmo Jader. Mas se com Tourinho e, em menor es- cala, com Vasconcelos, a costura do se- nador era forte e estreita, com os ou- tros, nem tanto, ou muito menos. Frede- rico, por exemplo, paraense que havia se transferido para a Zona Franca de Manaus, deve sua nomeaqio mais g sus- tentag5io political amazonense (Mestrinho e Amazonino g frente) do que ao apa- drinhamento de Jader. Seu desempenho g frente da Sudam foi muito mais t~cni- co do que politico. Todos, sem excegio, foram ao gabi- nete do governador convid8-lo a it ao Condel. O governador, invariavelmente cortes e desenvolto nessas ocasides, sem- pre prometia aparecer, um dia. Jamais apresentou critics ou fez restriC~es, nem nesses encontros reservados, nem numa apari~go ainda que ~inica no Condel, para tocar a fera pessoalmente. Muito menos de piiblico, como agora faz, quan- do o caldo ja esta entornado e hai cachor- ros doidos atris de muitas e sortidas - latas de lixo nas esquinas de incentives fiscais permissivos e lenientes. As razdes que o governador apresen- ta, a posteriori, perderam aquele flo con- dutor a que se costuma dar o nome de autoridade moral. Que, como se sabe, mas nem sempre se lembra, nio 6 sinini- mo de autoritarismo. * Dorian Gray Autoridade JORNALPESSOAL*PlaQUINZENA DEJANEIRO/2001 7 A opinigo p~iblica paraense tomou dois sustos na semana passada. O primeiro foi comn um editorial de primeira pigina do Dicirio do Parai, abrindo uma campanha desencadeada nos demais veiculos de comunicaCio do senador Jader Barbalho contra os aumentos de 6nibus em Bel~m, em vias de aprovagio pela prefeitura do PT. O outro susto veio com outro editori- al de primeira pagina, mas na capa de O Liberal, criticando e ironizando o projeto do governador Almir Gabriel de transfe- rir a capital do Estado para Belo Monte. A primeira surpresa derivava do apoio que o president national do PMDB vi- nha dando, inclusive na campanha eleito- ral, implicita ou explicitamente, ao prefei- to Edmilson Rodrigues. A mudanga, se- gundo um porta-voz official do grupo, deve- se a que as empresas jornalisticas de Ja- der decidiram embarcar numa questio de grande apelo popular (a reaCio ao pre- tendido reaj uste das tarifas) para conquis- tar mais publico. De fato, a posigio assumida 6 muito simpatica. No entanto, sua causa maior seria a inadimplincia da prefeitura, que deve e nio paga anuncios ja veiculados pelo journal e as emissoras de r~dio e tele- visio do senador. Enquanto a conta cres- ceu, a tolerbncia da empresa acabou. A campanha prosseguira at6 o d~bito ser quitado. Se for interrompida a partir de entio, a relaFio de causa e efeito estara automaticamente estabelecida. Mas pode ser camuflada, com ou sem sofisticaCgo. O mote do grupo Liberal e outro: os Maiorana nio engoliram a ausincia do governador na solenidade de inaugura- gio da TV a cabo, nem os recados mal- criados que lhes foram enderegados a partir do epis6dio da pesquisa do Ibope. Segundo uma fonte da casa, "nio adi- anta prestar 999 servigos, favors e gen- tilezas ao governador. Ele quer todos os mil. Se nio 6 atendido nesse ultimo pe- dido ou expectativa, se zanga e acusa o outro de ingrato". Naturalmente, Almir Gabriel nio con- corda com o diagni~stico (nio por acaso, 6 medico e costuma tratar a si). Tanto nilo aceita que resolve abrir um pouco as torneiras da publicidade official para o Diairio do Parai do seu inimigo Jader Barbalho e A Provincia do Parai de Gen- gis Freire, um problematico interlocutor da administration estadual. Ao que tudo indica, vai comegar mais um cabo-de-guerra nos bastidores do poder no Para. Os tras principals lideres politicos do Para vio comegar o ano/d~cada/seculo/ milinio de mal, sem perspective de que a paz possa ser para eles mais do que uma formal inscri~go em cartio de festas. Mas a m~dio prazo esse clima de beligerlncia poderA vir a ser obrigatoriamente amai- nado entire o governador Almir Gabriel e o senador Jader Barbalho. Uma das variiveis principals seri a evoluCio das relaqdes entire o governor e o grupo Liberal, que esfriaram e pode- rio comegar a azedar se um mediador ngo conseguir apaziguar as parties. Se tal tend~ncia se confirmar, 6 bem pro- vavel que o governador, transformando umn castigo em retaliaqio, aplique mais verba publicit~ria nos veiculos do presi- dente do PMDB para faz6-lo investor contra o grupo Liberal. Ai os Maiorana terio que buscar outro pousio politico, quem sabe o do prefeito. Ja Edmilson Rodrigues ficou muito mais long de Almir com a dura reaqio ao pro- jeto da nova capital, que levou o governa- dor a subir alguns decib~is no troco. Se o prefeito ficar sozinho, todo e qualquer pla- no de expansio political estard comprome- tido seriamente, at6 mesmo por falta de unidade interna no PT. A quem, entio, se aliarb (ou serai aceito como aliado)? A resposta vai defender dos outros ter- mos da equaCio. Qualquer que venha a ser sua formulaCio final, a argamassa dos pro- jetos dificilmente sera o interesse puiblico.9 Na vespera de viajar para Bel~m, onde finalmente inauguraria a duplicaqio de 40 quilimetros da BR-316, a said da capital paraense, no final do mis passa- do, o ministry dos transportes, Eliseu Pa- dilha, consultou a assessoria palaciana. Queria se informar sobre a possibilidade de um encontro com o governador Almir Gabriel, mesmo sabendo que sua exce- 1Cncia havia, as presses, criado um com- promisso para o mesmo hor~rio da inau- guraqio (recolheu empresbrios e autori- dades para uma visit as futuras obras da Alga Viaria). Uma esp~cie de alibi pr~vio para sua ausincia. Mas foi s6 ao chegar ao aeroporto de Val-de-Cans, no dia seguinte, que o mi- nistro avisou o protocolo de que iria mes- mo ao Pal~cio dos Despachos para uma visit de cortesia ao governador. Nao se tem certeza do que o ministry tratou com seu convidado especial, o senador Jader Barbalho, president national do partido de ambos, o PMDB, no percurso entire Brasilia e Bel~m. Oficialmente, Jader acompanhou o ministry porque seria de- selegante desligar-se da comitiva naque- le memento para reatar com ela na BR. Padilha e Jader ficaram meia hora no gabinete governamental. O ministry e o governador conversaram sobre temas de uma pauta em aberto, com cuidado para nio tocar em arestas pontiagudas, como o asfaltamento da BR-163, a recusa em delegar a inaugurada BR-316 ao Estado para privatizaFio, o nio ressarcimento de adiantamentos estaduais para estradas federals e outras cositas mas que fazem mal ao sensivel figado de sua excelancia. Com o senador, o governador se limitou a um cumprimento formal. Jader saiu do local rouco de tanto ouvir. Com qual intengio ele foi at6 la, nio se sabe. Talvez a verso official seja a verdadeira: o estimago de um politico de carreira faz inveja ao de um camelo. Mas talvez o senador tenha aproveitado a circunstincia para aferir o estado real e potential das suas relaqaes com o go- vernador, quem sabe uma informaqio util no memento em que a dispute pela pre- sidincia do senado se torna infernal. Ou apresentando-se a opiniio pdblica naci- onal como um peemedebista capaz de ser recebido por um adversario gover- nador tucano. Mas se Almir Gabriel tinha algum re- cado a dar, ele deixou passar a oportuni- dade de surpreender a todos, passando a integrar a comitiva ministerial, quando nada, numa prova de que os interesses do Estado tocam mais forte na sua von- tade do que diferengas pessoais e ate: programaticas. O governador continue o mesmo, ir- redutivel, turrio e sem o refrigerio que a biografia political da ao seu modelo, o paulista Mario Covas. Rugem os le6es Hor6scopo O~portunidade perdida De mal O governador Almir Gabriel nio entendeu e nio engoliu a decision do grupo Liberal de publicar a pesquisa do Ibope sobre a dispute pela prefeitura de Bel~m na v~spera da eleigi~o. Por achat a pesquisa tenden- ciosa ou francamente falaciosa, o governador, por interpostas pessoas, tentou impedir sua publicaCio, convencido de que ela provocaria estra- gos na horta de Duciomar Costa, seu apadrinhado. Parecia que o grupo Liberal acataria o pedido, mas a tiltima hora o jornal optou pela publicaqio, tamb~m divulgada pela TV Liberal. Nio a mera reprodugio dos dados, que davam a Edmilson Rodrigues uma vantagem bem acima do resultado real da vota~go no dia seguinte, comn isso induzindo indecisos a se bandear para o candidate do PT, segundo a unlnime interpretagio do "outro lado". Mas fazendo divulgaCio con- siderada espalhafatosa pelos porta-vozes palacianos, contribuindo ainda mais para a indugio de voto. A alegagio da empresa foi de que a pesquisa ji estava no site do jornal O Estado de S. Paulo e seria divulgada pelo Jornal Nacional, da TV Globo. Diz-se que a palavra final veio mesmo da diregio da Globo, empenhada em dar reforgo as combatidas (e combalidas) previas eleito- rais do Ibope, seu parceiro nessa perigosamente important ferramenta de poder. Mas os recalcitrantes em Bel~m estio acostumados a ver a corporaCio dos Maiorana pisar e tripudiar sobre a coer~ncia quando um neg6cio esti em questio. Na prova dos nove, o governador acha que n~o houve boa vontade. Ou houve exatamente o oposto. Sendo assim, nio foi g inauguraqio da televisio a cabo dos Maiorana, sendo representado na festival solenida- de pelo vice, Hildegardo Nunes. Que, a prop6sito, nio represents Almir Gabriel. Muito pelo contairio. JO fil PeSSOfll Editor: Lucl0 FIavl0 PinlO* Fones: ~(i31) ?23 7t.90 (10rne-far) e 241-7626 (lar) Contato: TJ.Ber.jamln Conslan i 845 203 66 OtJU50 *ii e-mail: liornal~amazon comn tar Edigao de Arte: Lulizahnio~ej~pnodlsrsap3coo.30130 quadrar as empresas de bnibus eim- por-lhies uma political capaz de esa- belecer um equilibrio entire as neces- sidades do capital e as possibilidades do trabalho. Mesmo as premissas da analise sobre a procedincia dos pedi- dos de aumento estio viciadas. Uma passage de inibus atual traz embutido um acr~scimo que re- sultou nos 70 centavos em vigor, por conta da future instala~go de catra- cas eletr~nicas, que os empresarios nio fizeram e a prefeitura nio foi capaz de cobrar. E agora ela nho dis- pde de uma estrutura paralela a qual recorrer para enfrentar os empresa- rios, caso a tensio do contencioso tivesse que ser levada ao limited do rompimento. Ainda oferece esse triste e anacrinico espetaiculo de sofrimen- to no credenciamento e obten~go da meia-passagem, de cujas folgas ins- titucionais se aproveitam os que njo querem um sistema sadio. Em matbria de transport cole- tivo, a cidade marcou pass ou in- voluiu, relativamente ao agravamen- to das necessidades pilblicas. E o saldo mais negative de um govemo impetuoso na ret6rica, mas nio nas conseqtiiincias dosseus atos. Saldo negative O ponto mais negative do pri- meiro govemo Edmilson Rodrigues esta ai, escancarado: nio acrescen- tou um palito g gestio do transpor- te coletivo em Bel~m. Tudo conti- nua igual ou pior do que antes, ex- ceto, talvez, pelo acrescimo de per- sonagens ao cabalistico process de negociaFio dos reaj ustes de prego. Os dons de inibus, comn base em planilhas que ainda contim uma margem de imponderabilidade e ma- nipula~go, continuam a pe dir o ab- surdo para obter o excessive. A prefeitura faz que se coloca como anteparo para, final, ceder num jogo de pressio e contra-pres- sio a cujo enredo a opiniio puiblica nio consegue ter pleno acesso. Mas sobre cujo resume sabe o bastante para que campanhas de descre~dito e suspeita, como a patrocinada pe- los veiculos de comunicaqio do se- nador Jader Barbalho, medrem em terreno fertilissimo. Ainda que fosse absolutamente seria, transparent e competent, a administration municipal pouco po- deria fazer neste memento para en- melhor conhecimento que existe sobre o tema, do qual e um dos pioneiros e permanece sendo um dos mais autorizados inti~rpretes. Faganha que di orgulho e pro- voca a boa inveja, aquela que nos faz seguir os bons exemplos. MAe Dona Angelina Marques, es- posa de Joio Marques, recente- mente falecido, escreveu, na se- mana passada, um dos textos mais comoventes que li nos ultimos tempos na imprensa de Belbm, simples, sincere, sensivel. Foi para lembrar a brusca e precoce morte do seu filho, Augusto. Se estivesse vivo, ele certamente fa- ria um acrbscimo ao conterido da mensagem: se foi um filho exem- plar, como escreveu com toda a infase d. Angelina, Augusto foi, sobretudo, uma pessoa privilegi- ada. Pela m~e que teve. Vo ntade Doeu no figado do governador a declaraCio do president da As- sociagao Comercial e Industrial de MarabB, de que o projeto de mu- dar a capital do Para 6 um blefe. Almir Gabriel cuspiu fogo. Ainda mais porque um pouco antes Ser- gio Nunes da Silva havia posado ao lado do governador numa foto festival. A contundancia do empre- sirio expde a disposipio dos que defendem a criaqio do Estado de Carajas. Ngo querem pilula doura- da, nem bombons aqucarado. Mais problema para 2002. BraXi leiros A ma id~ia de trocar o nome da Petrobris para Petrobrax mostra ate que ponto uma certa elite bra- sileira criou um pais proprio para morar, que pouco ou nada tem a ver com o solo sobre o qual assen- ta seus p~s. Cosmopolita, tem di- ficuldade em lidar com o Brasil real, a comegar por nome, sobrenome e companhia. Esta sempre disposta a entregar os ativos nacionais, ain- da que precise recorrer a m~todos sutis. Sutis como aquela promessa de que a coisa nio ird alem da por- ta de entrada. Quem aceitou exp~e- rimentar, sabe bem no que da. As vezes, nove meses depois. PiOn eir ismo A Ferronorte, um projeto do ex-rei da soja, Olacyr de Moraes, para escoar a produ~go de grios (sobretudo soja) do Centro-Oes- te para o literal, ja deve 800 mi- lhdes de reais ao BNDES eah sua extensio, o BNDESpar. Mas o banco estatal consider que ainda 6 risco pouco para tanto pionei- rismo. No mis passado, mais R$ 232 milhdes foram liberados para a conta da empresa, que agora ba- teu em R$ 1 bilhio. O proj eto original previa que a ferrovia, que cresce do Sul para o Centro-Oeste, um dia chegaria a Santarem, criando uma via al- ternativa de escoamento. Prova- velmente quando al guns outros bilhdes tiverem migrado dos co- fres do BNDES. Recado Como ja havia feito em rela- Fio a macrodrenagem das baixa- das de Belem, o BID (Banco Inte- ramericano de Desenvolvimento) mandou avisar que s6 sairi dinhei- ro do projeto Monumenta, para a recuperaqio do centro hist6rico de Bel~m se a prefeitura e o go- verno do Estado se entenderem. Embora atuem sobre o mesmo es- pago, parece que um esta em Mar- te e outro em Netuno. E precise que haja um minimo de civilidade e espirito publico para que as duas administraqdes sejam capazes de sincronizar suas iniciativas para acabar com a atu- al superposigio. Tipica de bicu- dos -e cabegudos. E xem lo Ao completar 83 anos, Rubens Rodrigues Lima realizou duas pro- ezas: foi escolhido o engenheiro do ano no Para pela sua representa- Cio de classes e participou da ela- boraqio de um livro, Varzeas Flu- vio-Marinhos da Amzazdnia Bra- sileira (FCAP, 342 paginas),jun- tamente com Manoel Tourinho e Jose Paulo da Costa, reunindo o |
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