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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00198
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00198

Full Text























































Z.lr
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01TK1l CeSSOR
LUIjCIO F LAVIO P N TO


ANO XIV N" 248 la QUINZENA DE DEZEMBRO DE 2000 ,RS 2,00

AL('A VIARIA


E otudo ou nada


Com sua reagd~o iis critics feitas ao projeto da Alga Via'ria, o governo Almir Gabriel nos
devolve aos tempos de rodoviar-ismo e militarismo na Amazdnia, quando a decisa~o era
apresentada pronta e acabada. Restava ai sociedade aceita'-la ou ser punida pela
desobedid~ncia. Faz parecer que o tempo na~o passou no reino do Pardi.


gos do desenvolvimento do Pari,
quase dem6nios (ou mais do que de-
m6nios?). Um dos anuncios concla-
mava a populagio a nio permitir "que
fagam do Para uma mala sem alga".
JB antecipando o que devera ser a
campanha eleitoral de 2002, terminal


com uma pergunta acusat6ria: "A
quem interessa o atraso?".
A Alga Viaria, que comega com
um orgamento de 190 milhdes de re-
ais (e sabe-se la por quanto vai aca-,
bar, numa administration que nio tem
primado pela exatidio orgamentaria), )


No 61timo final de semana o
governor do Estado despe-
jou pela imprensa cinco
piginas inteiras de anunci-
os para defender a Alga Viaria dos
seus critics, transformados pela pro-
paganda official em autinticos inimi-






2 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE DEZEMBRO/ 2000


6C uma das grandes obras que o go-
vernador quer inaugurar no seu se-
gundo mandate, uma das alavancas
para fazer o seu successor. Nada me-
nos surpreendente do que ele reagir
A sua maneira, despejando raios do
seu trono, no Olimpo da Augusto
Montenegro, contra os que nio se
curvam g sua vontade imperial. Mas
o discurso estadual tem uma sensa-
boria que nos devolve quase literal-
mente g era do rodoviarismo e ao
nefando modelo de desenvolvimento
atrav~s de corredores de exportagio,
que exigiram investimentos pesados,
mas deixaram tio poucos efeitos ger-
minativos no territ6rio amazanico.
N~io se hB de querer manietar o
governador, deixando-o indefeso aos
ataques politicos dos seus adversdri-
os. Hg um plano estritamente politico
nessa queda-de-brago, a exigir cam-
panha de massa, propaganda, ataques
contundentes, malicia. Mas hi tam-
b~m um plano ttcnico a preservar.
Reagindo atrav~s da melhor defe-
sa political, que 6 o ataque, ainda as-
sim o governor nio tem o direito de
interditar um debate t~cnico aberto
sobre a Alga Viiria e seu suposto pla-
no de desenvolvimento, atrav~s do
Sistema Integrado do Leste do ParS.
O confront politico acaba se tornan-
do uma maneira de contornar o dia-
logo t~cnico e impor a obra como um
tema de salvagio estadual, aprisio-
nando-a nos estreitos limits de um
passionalismo de Remo e Paissandu.
Se tudo fosse realizado conforme
os pianos do governor, a Alga Vidria
nio passaria de uma liga~go fisica da
capital paraense com o seu novo por-
to de carga geral, que sera desloca-
do das atuais instalagdes, no cais da
baia de GuajarB, para o terminal (por
enquanto especializado em gran~is
s61idos) de Ponta Grossa, em Barca-
rena. A cidade nio poderia perma-
necer seccionada do seu porto por
terra, uma anomalia em tese, indepen-
dentemente da fundamentagio econ6-
mica da ligagio rodovibria.
A quem ela beneficiaria? Natu-
ralmente, a quem precisa utilizar si-
multaneamente a cidade e o porto.
O usudrio preferencial seria o im-
portador de bens e mercadorias a
serem utilizados e comercializados
em Bel~m. Essa carga passara a ser


desembarcada em Ponta Grossa e
serS transportada para a capital uti-
lizando a Alga, sem precisar embar-
car em balsas para a travessia flu-
vial. Fazendo percurso inverse, o
usudrio seguinte 6 o element pro-
dutivo ou consumidor que mantiver
relaqdes com o porto ou dele pre-
cisar para embarcar seus produtos
para fora, mas tendo sua base eco-
n~mico em Bel~m.
E~ duvidoso que a configuraqio
atual da Alga ViBria e do SILP re-
sista a uma andlise de custo/benefi-
cio ou a uma confrontation com for-
mas alternatives de organiza~go do
transport e da produgho. Talvez
nem tenha havido uma verificaqio de
hip6teses. A partir da premissa de
que um elo fisico entire a cidade e o
porto 6 inquestion~vel, o esquema
atual veio por gravidade, como de-
rivagio natural. Afastados, por~m,
os elements politicos (ou simples-
mente partiddrios) de perturbaqio da
andlise, evidencia-se a inconveni~n-
cia do process decis6rio adotado
pelo governor para colocar sua obra
como fato consumado.
AlCm de nio ter havido um exame
de alternatives, o projeto do governor
ressente-se de estar desligado do con-
texto envolvente, embora seja apre-
sentado como parte de um todo mai-
or que ir8 incrementar o desenvolvi-
mento estadual. No maior dos am'm-
cios publicados, em pigina dupla, a
Alga ViBria 6 apresentada como in-
tegrada a um "proj eto para o future",
ao lado do porto de Santar~m (e da
rodovia Santartm-Cuiabi), da PA-
150 e das eclusas.
Mas esse "sistema" 6 apenas um
desenho no papel, tendo sido orde-
nado e composto para efeito mera-
mente argumentative. A hidrovia do
Tapaj6s, teoricamente muito mais efi-
caz do que a BR-163, nem 6 lembra-
da no desenho do governor. A hidro-
via Araguaia-Tocantins 6 uma trilha
pontilhada, que, na ausancia da trans-
posi~go da barragem de Tucurui, ter-
mina em MarabB, deslocando-se para
leste, at6 o porto de Sgo Luis, no
Maranhio. A participa~go do gover-
no do Estado na luta pelas eclusas 6
decorative. Sempre disposto a acre-
ditar nas vis promessas de Brsilia.
Problems de ordem variada, vin-


culados a processes produtivos em
expansio (como os 500 milhaes de
d61ares que ampliario a escala dos
pdlos de alumina-aluminio e de cau-
lim) ou a regimes em decadincia,
umas por falta de infra-estrutura ade-
quada, outras por exaustio das anti-
gas funcaes econ~micas, sho simples-
mente ignorados, como se um gover-
no que renunciou ao planej amento, ri-
gorosamente falando, controlasse as
variaveis bisicas em ag~o. O que est8
muito long de ser a verdade.
Se o governor nio quer conside-
rar quanto custa o seu projeto para
a ligagio terrestre entire Bel~m e o
porto de Barcarena, e qual o seu
beneficio, se proclama ser irrele-
vante o impact negative da obra,
se interdita as hip6teses alternatives
para a pr6pria via rodoviaria (can-
celando ou mudando a localizagio
da principal e mais onerosa obra de
arte, a ponte sobre o rio GuamS) e
se consider delet~rio examiner a
alternative hidrovibria, mesmo que
exigindo uma nova forma de abor-
dagem da questio, entio 6 claro que
deve-se continuar a to car a Alga
Vibria tal como esta.
Mas para tanto 6 precise voltar no
tempo e esquecer o que se aprendeu,
a partir da decada de 70, sobre os
aspects negatives de uma estrada de
rodagem na Amaz6nia, desde sua
comparaqio ao transport hidrovi8-
rio, at6 os efeitos multiplicados (mas
nem sempre perceptiveis de imedia-
to, ou previsiveis) da sua existincia
sobre o solo, o clima, a flora, a fau-
na, a hidrologia, as populaqdes nati-
vas e as relaq8es de troca da Ama-
z6nia com o mundo externo, das
quais o Par6 tem sido como dizem
os acad~micos -um paradigma nada
edificante.
Colocando a populagio diante de
uma escolha maquiav61ica, do isso ou
nada, o governor Almir Gabriel pare-
ce-se cada vez mais aos governor do
regime military, que abriram profundas
chagas na regiso, muitas delas irre-
versiveis, a pretexto de, integrando-
a a toque de caixa (ou de corneta &
sabre), nio permitir que ela fosse en-
tregue ao pirata estrangeiro.
O pirata, de tapa-olho, palet6,
beca ou bata, jB estava aqui. Como
vemos.






JORNAL, PESSOAL la QUINZENA DE DEZEMBRO/ 2000 3




Os mnisterios do miercado


Quando querem almogar fora, muitos
belenenses costumam procurar restauran-
tes nos quais possam "saborear um peda-
go de charque ou de peixe frito acompa-
nhado de uma tigela de agai sem aqucar".
Se voc6 ainda nI~o se permitiu esse
hibito, azar o seu: voc6 nio faz parte do
"mercado muito especial" do Park, que tem
sido uma esfinge para os grandes grupos
nacionais de supermercado. Sem se dar
conta de especificidades como a dos "co-
medores" de agai, esses gigantes de papel
acabam sendo devorados pelo monstro ao
agai e tucupi, segundo o diagn6stico da
revista Exame, da Editora Abril.
E~ assim que, em sete piginas fartas
de fotos e elogios, a uiltima edigio da re-
vista (da segunda quinzena de novembro)
explica o sucesso de grupos locals, so-
bretudo o Y. Yamada, e o fracasso de
conglomerados econ~micos que se deram
bem em outros Estados e aqui naufraga-
ram, como o Pgo de AF6car e o Bom
Prego. Por aqui, s6 conseguiram sopo-
brar B porotoca de consume a C & A,
Arapud, Riachuelo e Lojas Americanas.
Talvez, pensando bem, nio menos nume-
rosos do que os casos de insucesso total
das mesmas proporC~es.
A explicaqio, por~m, 6 dada sem
maior indaga~go, sem it atris de razies
mais profundas. Levada pelo embalo de


teorias oportunistas ou interesseiras, a
autora da reportagem tomou como se fora
um almogo especial dos belenenses habi-
to alimentar de outra natureza. Se ha be-
lenense que sai de casa para almogar agai
com peixe frito, esse 6 um excantrico. O
belenense padrio toma o agai como so-
bremesa e nio lhe da o status de chama-
riz para um "almogar fora". Mesmo por-
que depois do agai vem o embalar na rede,
sob cafune da nhanti, com uma arara no
punho e um jacare bocejando por baixo
(ou seria uma onga ronronando?).
Se, como qualquer mercado, o bele-
nense tem seus mist~rios e manias, tal-
vez eles ajudem a explicar parte do su-
cesso de grapos locais, como o nunca
suficientemente festejado Yamada, ou o
agora menos em evid~ncia Lider, mas nio
todo o sucesso e muito menos o apa-
rente fracasso dos concorrentes nacio-
nais. A capacidade de adaptagio e in-
ventiva das quatro gerag~es de descen-
dentes de Yoshio Yamada nio pode ser
minimizada. Ela 6 responsive por par-
cela expressive dos resultados do grupo
em meio s~culo de empreitada.
Mas na terra do agai, como na do
Marlboro, determinadas regras de comer-
cio, mesmo quando basicamente imuti-
veis, ajustam-se g rolanga do tempo. Num
mundo de contabilidade globalizada, o que


as redes de supermercados do restante
do pais podem estar enfrentando com
maior dificuldade sho os procedimentos
gerenciais e administrativos dos grupos
locais e o poder de influincia que eles
exercem sobre autoridades encarregadas
da regulamentagio dessas praiticas ou da
fiscaliza~go do seu exercicio, comn a de-
vida cor local, 6 claro.
Talvez um Pio de Agucar ou um Bom
Prego nio pudessem adotar, em sua base
belenense, uma -digamos assim -male-
abilidade e inventividade de empreende-
dores que controlam suas derivaqdes lo-
cais com r~dea curta, ou podendo alcan-
Fg-las comn as pr6prias mios. Quem sabe
nio 6 a causa de tanto estudo e vacila-
950 do mais recent dos grandes do se-
tor, a multinational Carrefour, ainda a
soleira das nossas casas-grandes do co-
m~rcio varejista?
Nessas contas, muito mais do que nos
nossos habitos (que nossos visitantes nio
conseguem captar com fidelidade, prova-
velmente porque sua generosidade 6 um
tanto menor do que seus preconceitos e
estere6tipos, disfargados de superior bono-
mia e benevolincia), 6 que devem ser bus-
cadas causes mais profundas, por~m mais
simples e claras, de toda essa etnologia da
desculpa e da enrolagio. Mesmo quando
cifrada com econombs de orelha. I)


Advogados em foria


Durante alguns dias dois
trios el~tricos foram mantidos
em frente ao forum de Be-
16m. O barulho que faziam ul-
trapassava o limited legal, me-
dido em decib~is. Mas isso
parecia ser detalhe para as
duas chapas em apaixonada
dispute pelo comando da Or-
dem dos Advogados do Bra-
sil, segio do ParB. Embora o
prestigio da OAB derive tan-
to da protegio corporativa
aos associados, como de sua
fungio institutional, de p6lo
ativo na defesa das leis e do
sistema democratic, no qual
elas funcionam como ossatu-
ra, os candidates e seus sim-
patizantes nio tomaram as
normas legals como limited ao
jogo da dispute. Nem o bom
sensor. Sequer a civilidade.
O cidadio comum deve


ter-se espantado com a pro-
porgio que a eleigio deste ano
na OAB assumiu. AlCm dos
inconvenientes trios el~tricos
em frente ao pr~dio da justiga,
outdoors as centenas espalha-
dos pela cidade, panfletos dis-
tribuidos nas ruas, anuincios nos
jomais, mensagens publicit~rias
pelo radio e a televisio, ca-
bos eleitorais percorrendo o
interior, acirramento dos 8ni-
mos, comicios inflamados. Tal-
vez essa exterioridade sirva a
causa da divulga~go e da pro-
paganda da OAB, mas o risco
e de que o cidadio tenha to-
mado conhecimento da exis-
tincia da Ordem pelo lado
ruim, do nivelamento por bai-
xo de uma atividade political
que, quando segmentada,
quando restrita, deveria servir
de exemplo demonstrative.


Se uma chapa venceu,
como tinha que ser, quem saiu
perdendo mesmo foi a pr6pria
OAB, a imagem dos advoga-
dos como categoria profissio-
nal essencial e o aprego do
home de rua pelas leis e a
democracia. Convinha a todas
as parties apagar as divisees
de ontem e os improperios di-
tos at6 a v~spera e se empe-
nhat numa tarefa comum: re-
cuperar o conceito pdblico nio
s6 de uma entidade de classes,
a de maior status, por obra e
graga de uma disposigio cria-
da pelos pr6prios advogados,
os redatores dos textos legals,
mas de umsistema sem oqual
os advogados costumam se
tornar meros rabulas dos do-
nos absolutes do poder, exer-
cendo-o nio com o simbolo da
democracia, a pena com que


se redigem as leis, mas o dos
regimes de excegio, a espada
- com a qual sio cortados nio
s6 os textos das leis, mas as
cabegas dos que as redigem.
Ou para afastar da socie-
dade a desconflanga de que,
por trais de tantas causes no-
bres, o que haja mesmo 6 o
desejo de tomar as redeas de
uma entidade que pode indicar
candidates ao cargo superior de
carreira de um dos poderes da
Repuiblica, a justiga, que tem
um orgamento expressive e
que represent uma apreciavel
fonte de poder, podendo ser
utilizada em um jogo maior e
mais pesado. Seria bom que,
como naquela muisica de car-
naval, os advogados tratem de
garantir que a pr6xima elei~go
jamais se parega a esta que,
felizmente, passou.







4 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE DEZEMBRO/2000


de personalidade para nos igualar numa irman-
dade alegre, de fresca jovialidade?
Por isso, em noite avangada de um s~ibado,
la estavamos no deteriorado centro velho da
cidade para testemunhar o reconhecimento ao
espirito empreendedor de Anna Maria pela as-
sociaCio de classes, numa solenidade em que os
poucos segundos do agradecimento da home-
nageada a concessio do titulo eqilivaleram a
alegria de uma ora~gio de DemC~stenes para os
seus amigos, uma confraria desigual cujo ponto
de encontro e harmonia e justamente a energia
dessa bela mulher de 75 anos, um patriminio
vivo da cidade que tanto ama.
Na passage do s~culo e do milinio, premi-
ada, Anna continue a set a inspiraqio para ousa-
dias. Como a tapioquinha recheada com caran-
guejo (sem falar na pupunha ao rochefort, ji in-
corporada ao cardapio e ao gosto citadino), que
nos foi servida inauguralmente, dando-nos a im-
pressio de sermos os verdadeiros distinguidos
naquela solenidade, sendo esse, alids, o segredo
dos grandes anfitrides e o que diferencia os sim-
ples restaurants dos lugates nos quais concede-
mos ao corpo eag alma o superior prazer da mesa,
da conversa e da amizade. No nosso caso, sob a
protegilo de Anna Maria Leal Malcher Martins,
nessa forma de poesia que comega ja pela suave
aliteraglo do nome.
Todos os que fomos g sede da Associaqilo
Commercial do Para no ultimo dia 18 s6, queria-
mos dizer o que saiu da boca de Anna Maria
como resposta ao titulo recebido: muito obri-
gado. Muito obrigado por tudo, Anna. Que sua
juventude se estenda ao infinite. *


Anna Maria tem tres sobrenomes nobili-
arquicos. E Aradijo e Malcher por nascimento
e Martins pelo casamento. Teve bergo de ouro,
que lhe garantiu uma forma~glo de qualidade.
Mas livrou-se de preconceitos derivados da
origem quando, por um dos caprichos de que
a vida costuma ser pr6diga, precisou traba-
lhar. Foi para o forno e o fogilo, ate entlo
referincias remotas para ela. Mostrou uma
rapida maestria na arte da cozinha. Mas tam-
b~m nilo reduziu esse universe a domesticida-
de. Fez dos quitutes uma arma de autonomia
e independancia, numa 6poca em que a mulher
s6 costumava avangar al~m dos limits famili-
ares para os compromissos do mundanismo,
geralmente no papel de figurante. Criou um
restaurant no porilo da mansito construida
pelo av8, que deu nome a avenida em frente
quando, para homenage8-lo, os politicos nio
titubearam em abolir a bela denominaqio an-
terior, de Stio Jer~nimo.
O restaurant Ldi em Casa deu certo por-
que na retaguarda, com o apoio providencial do
filho, Paulo, que a vocapilo natural de gourmet
arrastou da arquitetura e do servigo pilblico,
Anna Maria comandava todo o process. Des-
de a escolha de frutas, verduras e carnes nas
fontes de suprimento, sobretudo a Ceasa, aces-
sada diariamente, na manhli ainda imprecisa,
com heroismo proporcional ao avangar dos
anos, a inclemtncia da via, sistematicamente


esburacada, e a rusticidade da necessiria Kom-
bi de transport. Passando pelo balanceamen-
to e tempero dos pratos, no ponto certo. At6 o
fidalgo tratamento dispensado aos fregueses,
chamados pelos nomes, atendidos em prefe-
rincias, gostos e manias,
Anna Maria realizou uma faganha quase
impossivel: criar uma clientele cativa na cidade
onde funciona seu restaurant e conquistar o
respeito dos turistas, satisfazendo duas cor-
rentes que costumam seguir em paralelas, en-
contrando-se, portanto, no infinite. Paulo
Martins que me perdoe: sem Anna Maria ele
talvez estivesse condenado a admiragilo das
confrarias, dos apreciadores da inventividade e
pericia que inegavelmente nosso arquiteto glu-
tito possui nos mistbrios da culindria.
Mas sem a mile, quem estaria nos receben-
do g porta da casa com um sorriso nos libios,
eterno sem ser artificial, irradiante sem ser
desmedido, afetuoso, amigo, cativante? Quem
chamaria um gargom distraido para nos aten-
der de pronto e, compensando nossa eventual
timidez, corrigisse o pedido para melhor, mais
adequado? Quem ofereceria sua f6 de oficio
para nos permitir conflar no sucesso da dele-
ga~gio de poderes para fazer o pedido? E quem
nos daria a graga de contar com uma restaura-
ter que extravasa o profissionalismo da mesa
para ser nossa amiga e nossa igual, interlocu-
tora que desconhece as diferengas de idade e


IIIIIIIIIIIIIIIIIII IIIIIIIIIIIIIIIIIII IIIII


mentos hidraulicos. Se muito for
pressionado, o governor talvez che-
gue ao fim, mas seguindo um crono-
grama de perfil muito mais alongado
do que o exigido pelos paraenses,
destinando menos verbas do que as
necessirias. Se e que a obra chegard
ao seu termo final algum dia.
O Crea (Conselho Regional de
Engenharia, Arquitetura e Agrono-
mia) ea OAB (Ordem dos Advoga-
dos) do Para decidiram nio esperar
mais pelo cumprimento de velhas e
sempre renovadas promessas. Pedi-
ram ao Ministtrio Publico federal
para ajuizar uma a~go civil pdblica
obrigando a Eletronorte a acelerar as
obras das eclusas, sob pena de ter
que suspender a execu~go da dupli-
caqio da hidrelttrica de Tucurui, ja
em andamento. Em 2002 a primeira
das 1 1 maquinas da nova casa de for-
ga devera entrar em opera~gio. Seria
quando o rio tamb~m ja deveria es-
tar desbloqueado.
Do ponto de vista legal, 6 uma
media elementary: ao manter, ji por


16 anos, a interruppo da navega~go
no Tocantins, a Eletronorte violou o
C6digo de Aguas, de 1934, que de-
termina o restabelecimento da nave-
gabilidade ap6s a conclusilo da bar-
ragem. A hidrel~trica esti, portanto,
illegal. O MP se mostrou receptive a
denuncia das duas entidades. Mas a
batalha judicial nao tera desfecho
imediato porque vai evoluir num pro-
cesso sujeito ao contradit6rio, ad-
mitindo vlrios tipos de recursos in-
termedidrios ou protelatbrios.
O que esti em causa 6 um confli-
to de concepgdes. Para Brasilia, a
Amaz~nia e uma fonte de mattrias
primas e um caminho de passage
de produtos de exporta~go para o li-
toral, onde serioembarcados em por-
tos freqiientados por navios intero-
celnicos do tipo Panamax. Os tec-
nocratas brasilienses nito sabem li-
dar com plano de desenvolvimento
integrado, voltado para dentro do
pais, destinado a agregar valor e ge-
rar a maior quantidade possivel de
emprego aqui e nio 18 fora.


Se talvez jag paregam proceden-
tes as suspeitas de que o projeto
original das eclusas foi superdimen-
sionado para aumentar o faturamen-
to da empreiteira, ainda assim defi-
nir a viabilidade da obra em fungo
de um cruzamento singelo de vari8-
veis (custo versus demand de car-
ga) e uma proje~go timida do cres-
cimento do transport hidroviario,
e aceitar como legitimo e imutavel
o modelo exportador de desenvol-
vimento (desenvolvimento de quem
compra, subdesenvolvimento de
quem vende).
O Crea e a OAB fizeram sua par-
te, dando o pontap6 inicial. Agora
devem as outras associates, cate-
gorias profissionais, politicos e ci-
dadios em geral entrar em campo
para participar do jogo. Ele envolve
a mudanga dessa diretriz que nos tem
feito inchar, mas nito nos desenvolve
verdadeiramente. Se essa corre~gio for
feita, as eclusas de Tucurui deixatio
de ser encaradas em Brasilia como
OVNIs tropicais.


Nossa Anna


Fan tas ia

feder al
Brasilia ji firmou uma posi~go
definitive sobre as eclusas de Tucu-
rui: elas nio slio necessbrias para
manter o fluxo de carga no rio To-
cantins a altura da barragem, ao me-
nos num horizonte previsivel. Essa
crenga tem dois fundamentos: o vo-
lume atual de carga, que 6 incompa-
ravelmente inferior g capacidade no-
minal do sistema de transposi~glo, e
o custo da obra, de 300 milhies de
d61ares, que a tornaria a maior do
mundo. Seria como edificar um pa-
lacio na mais erma floresta.
Por pensar assim, Brasilia vai
continuar empurrando com abarriga
o movimento pela conclusio da
transposi~go, que apenas foi inicia-
da, com a cabega da eclusa de mon-
tante, incrustada na estrutura de con-
creto da barragem, faltando construir
a segunda eclusa e o canal de concre-
to, alem de instalar todos os equipa-







JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE DEZEMBRO/2000 5


Desde a semana passada o Pardi ji tem uma grande poeta.
Aos 49 anos, ela langou seu primeiro livro. E todars as onluestras
acenderam a lua nio 6 apenas o livro de uma grande poeta esta-
dual: 6 um dos melhores livros de poesia brasileira que eu li nos
uiltimos anos. Lilia Silvestre Chaves estreia como uma criadora
madura, forte, unica, com o frescor da novidade e da surpresa,
com um impact que recomenda fruigio lenta depois da primeira
leitura, febril, appassionata.
Talvez coubesse dizer que se Anna Karenina tivesse escrito
verses, pelas m~os de Leon Tolst6i, ela assinaria varios dos 99
poemas (com sete agrupamentos tematicos) que ocupam as 142
piginas desse livro pequeno e precioso, inclusive pelas ilustraqdes
e o acabamento grafico. Clarice Lispector tamb~m se acharia em
excelente companhia, n~io s6 na verso definitive de sua poesia
em prosa, como pelo dialogo afinado da pessoa (siamesa do Pes-
soa em camuflagem e de Borges em alquimia).
Ngo foi por capricho que Lilia vasculhou gavetas e juntou es-
critos para former um livro, como costuma acontecer na provin-
cia. Seus poemas sho quase sempre curtos, alguns encantadora-
mente elipticos. E provivel ter varado madrugadas solitairias a
submeter seus ais, sua memoria e seus desejos a um rigoroso
artesanato da palavra, a um exigente process de depuragilo, a
uma "outra" infernal, saturniana com a qual convive, na qual
se funde na fimbria indivisivel das letras ("s6, encontro a completu-
de na poesia").
Anos de leitura (especialmente dos simbolistas franceses) e
transpiraq~io ardente lhe permitem manejar como poucos a rima e
a m~trica, em decassilabos maiores ou menores, uma maestria
que a faz enveredar pelo verso livre (a sombra de Rimbaud, atiga-
da por Baudelaire) sem ser traida pela impericia dos que desco-
nhecem o ritmo, a melodia, os brancos da pagina, os silincios da
palavra, sua descamada ossatura e seu enchimento significant.
Em poucos mementos da literature national houve uma pene-


traqio tho harmoniosa do erotismo e da sensualidade com o liris-
mo como neste faustiniano (e dionisiaco) E todas as orquestras
acenderam a lua, romintico e realista, spiritual e carnal, sutil e
direto, inginuo e malicioso, contido e desbragado, revelando mes-
mo quando tenta ocultar, sugerindo tudo o que uma mente recep-
tiva pode captar ("E cultivo o silencio/ na membria,/ que 6 muito
mais/ que o esquecimento...") e a vohipia pode imaginar (como a
saudade "de toques despudorados,/ de uma flor que nio se abriu")..
Lilia deixa um rastro de si em forma de palavras, mas monta
labirintos, constrdi castelos, tanto para aumentar o encantamento
quanto para provocar ilusaes. Se "nio existo, sou palavra", ela et
tamb~m "Fogo que acalma./ Corrosio perdida." A poeta cria em
solidio, g noite, circulando por seus dominios: as palavras, a me-
mbria, as impresses, as marcas, o que podia ter sido e nio foi, a
frustraqio que nio incomoda porque a lembranga vivida adoga.
Mas ela vai li fora e vb a "6mida cidade que se arrastal Ao rumo
deste rio, que vai morrendo". Vb ainda mais long, em Viena e
Praga. VC com um olhar amante, intimo, obsequioso e doador.
Mas a protetora distincia: "Pontes ruindo/ Quando tu fores...".
Para os apressados e superficiais, obcecados pelo context
e o engajamento, pela vontade de agredir ou de impressionar,
uma ligio do mais natural erotismo entire series que amam cri-
ando simbolos:
"(o remo ama a agua sem ruido e
eu escorro liquid a procura
deste remo que me espera,
que viaja em mim na noite escura...".
Finalmente o Para tem um novo grande poeta, que 6 mulher.
Nio era sem tempo. Lilia nos fez esperar tanto que se apresenta
comn um livro que nio e de comego, mas de chegada. De uma
estrela para brilhar em qualquer firmamento, mesmo sendo (ou
sobretudo por ser) uma estrela da tarde, da tipica tarde belenense:
brilhante e luminosa ao entardecer. *)


os governos ao long de 15 anos. S6 voltou ao
quartel em 1989, para exercer atividades buro-
cra~ticas, cumprindo exig~ncia regimental. Mas
no inicio de 1991 estava de volta g chefia da
casa military do governo, permanecendo no car-
go quando Jader passou a faixa ao seu vice,
Carlos Santos. Foi este quem, numa leva de 19
nomes, promoveu Gomes a coronel.
Mas, ao assumir, Almir Gabriel "despromo-
veu-o", alegando que o ato fora praticado fora
do prazo legal. O mandado de seguranga impe-
trado por Gomes deu-lhe ganho de causa, mas
Almir nio assinou o ato de promo~go, deixan-
do que essa tarefa fosse cumprida por seu vice,
Hildegardo Nunes.
Tudo indica que a political ji penetrou o
bastante nos quarteis, esvaziando seus con-
tingentes para servigos nio relacionados com
a razio de ser da forga (inclusive fazendo as
vezes de seguranga privada para medalhdes e
medalinhas), a ponto de engendrar conflitos
como o que envolveu o finalmente coronel
Flaviano Gomes,
Muito ganharia o Estado no dia em que
as misses dadas aos militares voltassem a
se basear exclusivamente no regimento da
corpora~go.


vemo de Alacid Nunes, oficiais da PM passa-
ram a ser convocados para desempenhar mis-
sdes political e administrativas que nada ti-
nham a ver com suas fun95es profissionais.
Por causa da facilidade com que a Uniho e o
Estado podiam intervir em Estados e municipi-
os, sempre que era precise designer um inter-
ventor municipal, Alacid Nunes recorria a um
official da PM. Parecia achar que havia algo como
uma gen~tica de bom caraiter e lucidez nos limi-
tes das fronteiras castrenses. Ou talvez porque
militares cumpririam mais fielmente suas ordens,
sem vacilaqbes, ainda mais porque o governa-
dor era tenente-coronel da reserve do Exercito.
Logo esse crescimento alcangou a casa mi-
litar da governadoria, que passou a controlar
nio apenas a ajudincia de ordens do chefe do
executive, mas, aos poucos, todas as despesas
do gabinete, tornando-se uma important fon-
te palaciana de poder. Esse expansionismo in-
formal atingiu seu ponto maximo comno gover-
nador Jader Barbalho, quando houve mais PM
por metro quadrado da histbria do palicio Lau-
ro Sodre.
No ano seguinte a sua chegada a Bel~m, em
1974, como 28 tenente, o alagoano Gomes ji
estava trabalhando em palacio. Serviu a todos


Poeta, enfim


Os q arteiss
Flaviano Gomes Melo e, finalmente, coro-
nel da Policia Militar. Ngo seria se sua ascen-
slo ao ultimo posto da carreira dependesse do
governador do Estado. Almir Gabriel preteriu
Gomes em tr~s mementos em que decidiu fazer
outros oficiais passarem B frente. Gomes deci-
diu entito recorrer a justiga. Depois de tris anos
de litigio, ganhou a causa, obtendo a promo-
950.
O veto do governador era de natureza poli-
tica: Gomes se notabilizou como um dos princi-
pais elements de ligaqio do senador Jader Bar-
balho dentro da PM (e tamb~m fora dela), de-
pois de ter servido no gabinete military durante
os dois mandates de Jader como governador.
Na elei~go municipal deste ano, Gomes tentou
ser vereador, mas recebeu menos de dois mil
votos, ficando numa distant suplincia do
PMDB na C~mara de Belem.
Se a justiga mostrou que as sucessivas pre-
teriq~es de Gomes nio passavam de persegui-
Fgo political, seu curriculo express um tipo de
distor~go tambem political que se instalou
na corpora~go military. A partir do primeiro go-







6 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE DEZEMBRO/ 2000


a qualidade da administraqio? Ngo ttm
credibilidade as instituigies que deram
os primios (a ONU, a Funda~go Abrinq,
o pr6prio governor federal do partido
advers~irio)?
Eu nio vi Edmilson classificar de
"hist6rica monumental" avit6ria,
mas mesmo que ele tenha dito isso,6
de somenos importincia. A vit6ria foi
dificil e se deveu nio s6 a compet~ncia
da equipe professional como aos brios
(mesmo tardios) da militincia. Mes-
mo com o bom trabalho da prefeitura,
houve um boicote generalizado da mi-
dia nestes quatro anos; a fabricaqio de
fats contra a prefeitura (a metafisica
"Milicia Cabana", o contrato das ara-
ras); um derrame de propaganda estadu-
al (chegando at6 As "vias do fato", on
seja, critical a prefeitura em pleno co-
mercial institutional); um preconceito
arraigado anti-petista (mostrado nas
pesquisas de opiniho, numa curva des-
cendente de prefer~ncia pelo PT B medi-
da que subia a faixa etiria); um adversa-
rio de perfil popular (ou populista); e o
uso dos velhos metodos de compra e
aliciamento de votos (a autuaqio de Ex-
pedito Fernandez mostra isso).
Por isso mesmo, a vitbria foi subs-
tantiva. VocZ se engana redondamente
sobre a diferenga de votos nio ter "pa-
ralelo no 2n turno de todas as capitals
brasileiras". Em Recife e no Rio (ges-
tbes bem avaliadas) os atuais prefeitos
PERDE RAM, por diferengas menores
do que essa. Em varias outras os prefei-
tos atuais nio concorreram, pois nio
tinha condigaes de veneer. E no geral as
eleigies foram bem parelhas (como em
Curitiba, cidade tambem bastante pre-
miada). Nio di para dizer que em Be-
16m foi a eleigio mais dificil para as
atuais ad ministraq~es.
Eu posso garantir, petista pode ser
meio sectdrio mas nio dB tiro no p6.
Mesmo que eventualmente estejam com
discurso triunfante, o "recado das umas"
foi sim entendido, e existem mais qua-
tro anos para corrigir o que esti errado.
Muitas orelhas devem estar sendo puxa-
das nas internas. Lula se encarregou de
puxar algumas quando esteve aqui.
Vou ficando por aqui, para nlo
tomar demais seu espago. S6 gostaria
de relembrar as critics alcidas de Al-
berto Dines ao oposicionismo pato-
16gico da "Folha de Stio Paulo" a
todo e qualquer governor. E dizer que,
muitas vezes, ler seu (de resto, exce-
lente) journal, me dl a sensa~go de que
voct faz a mesma coisa.
Atenciosamente,
Marcus Pesson de Aratijo

MINHARESPOSTA
Para Marcus meu journal e excelen-
te, exceto quando trata do PT e da
adminisruagio Edmilson Rodrigues. Em
relagdio a esses temas, eu estaria con-
taminado de ma vontade, reduzindo o
que escrevo apuro "opinionismo".
Lamento que tal ponto de vistaseja
o de um estudante de jornalismo. Mar-
cus critical o que diz ser um editorial,
quando, com mais rigor, deveria ser
tratado como artigo de opinid'o. Acei-
temos, porem, que seja um editorial.


Na~o e esse o lugar certo para dar opi-
nid~o? Opinidio, em um jornalista, nio
e palpite de jogo do bicho, extraido do
sonho. Fundamenta-se em fatos, resul-
ta de uma anailise logica sobre razdes
claras. O leitor tem todo o direito de
ndo concordar com oquepenso. Mas
ndio o de transformar um pensamento
divergente do dele em pecado, suspeito
simplesmente por existir.
Se eu me limitasse a tratar do sexo
dos anjos, ndio estaria, neste momen-
to, respondendo a oito processes judi-
ciais, um dos quais proposto por Ed-
milson Rodrigues (sem sequer exercer
o direito de resposta), por cometer de-
lito de opinido. Todos os artigos con-
siderados ofensivos trataram de rele-
vantes temas de interesse coletivo. Em
nenhum deles a intimidade, a privaci-
dade, as caracteristicas subjetivas da
personalidade, a correspondancia, as
relagdes pessoals e familiares foram
sequer tocados. Neles tratei de grila-
gem de terras, comportamento precipi-
tado da justiga, em desfavor dos inte-
resses difusos da sociedade, attitudes
ditatorials de governantes, promiscui-
dade do poder publico comn a impren-
sa, etc.. Estou sendo e tenho sido -
punido por tratar de temas muito mais
cabulosos do que o sexo dos anjos.
Pago carol por abordar assuntos dos
quais a grande imprensa foge como o
diabo da cruz. O prego inclui ser in-
justigadopor meus leitores. Alas, como
diria um enforcado: tudo bem.
Um dos objetivos mais insistentes
que procure alcangar na atividade
professional e a isengd'o de ainimo ao
escrever: Ndio pretend agradar a to-
dos e sei que a perfeigdio ndio passa de
uma meta. Jai estaria imensamente fe-
liz em ser reconhecido como um ho-
nesto professional da informagdo,
passivel de erros, menos o da parcia-
lidade. Os diferentes grupos de inte-
resse podem utilizar o que escrevo.
Eventualmente favorego um lado con-
tra o outro. Mas ndo h6 nenhum pro-
posito deliberado nesse sentido. A vida
e que L mesmo pendular.
Foi assim que ajudei Jader Bar-
balho a se eleger governador em 1982
(e a se livrar de Sahid Xerfan, tris
anos depois, colocando Almir Gabri-
el no lugar do dileto prefeito de bo-
tas) e assim dei alguma contribuigio
ai vitoria de Edmilson Rodrigues em
1996, colocando contra a parede o
seu adversario, Ramiro Bentes, du-
rante o debate eleitoral na TVRBA
(com a presenga de jornalistas, hoje,
quem diria, uma utopia saudosista).
Fiz isso ndio porque quisesse prejudi-
car ocandidato do entio prefeito He-
lio Gueiros, mas porque minha tarefa
ali era confrontai-lo com uma verdade
que passara a incomodai-lo (uma li-
gagdio com o execrado governador Ja-
der Barbalho atraves de uma poldmi-
ca desapropriagdio de uma empresa de
Ramiro). Individualmente, ele estava
mais preparado para ser prefeito. Alas
seus compromissos politicos o pren-
diam ao passado, do qual era uma
expressdo remanescente. JaEdmilson
era uma incdgnita, mas ndo tinha rabo


preso ao passado. Por isso foi eleito.
Ndio porque eu quisesse. Ou, como
diria Gueiros, desquisesse.
Concluida a eleigdio e empossado
o novo governor, eu ndio tinha motive
para cobrar-lhe algum credito pesso-
al, nempara antipatizai-lo. Como sem-
pre fiz, procurei ouvir o prefeito, estar
present aos seus atos mais importan-
tes, sentir suas intengdes, observer
suas attitudes. As primeiras critics,
Edmilson comegou a reagir com intole-
ra~ncia, desde a falta de civilidade e
educagdio (como ensaiar recusa a cum-
primento numa participagdio comum no
langamento de um livro de Emir Sader
no auditorio do Centur) ate atos mais
substantivos, como fechar as torneiras
da informagdiopuiblica, mantendo qua-
se como clandestine a circulagdio do
Diarino Oficial do Municipio, e tornan-
do "personas non gratas os critics.
Este journal jamais desrespeitou o
direito de resposta das pessoas que cri-
tica, submetendo-se ate mesmo aiquele
ditado popular, segundo o qual quem
diz o que quer deve estar sujeito a ou-
vir o que ndio quer. A tudo o que criti-
quei, a prefeitura do PT podia respon-
der, integralmente, sem pagar um cen-
tavo por isso (como o leitor deve sa-
ber; este jornalsempre recusou publi-
cidade, por principio).
Os cofres puiblicos foram usados
para engordar os ja bem nutridos or-
gdios da grande imprensa, que efetiva-
mente boicotaram a administr~ago mu-
nicipal quando seus desejos n~o foram
atendidos. Edmilson Rodrigues foi o
primeiro prefeito na face desta terra
azulada a conceber verba publica (100
mil reais) para aumentar o lucro de
um grupo de Comunicagdo (o Liberal)
na venda ao publico de fitas de video
descaradamentecomercials. Quitou com
o mesmo grupo a divida formada com
intengdo ruinosa e deixada como res-
tos a pagar pelo antecessor, que seu
primeiro secretarino de finangas (hoje
desembargador) glosou, considerando-
a exorbitante e interditando-a, ate ser
defenestrado do cargo. Eja comegou a
fazer nova quitagdo de uma divida de
valor equivalent que fez em seu pri-
meiro quatridnio, tdio despropositada
quanto a de Gueiros.
Basta ao leitor compulsar a cole-
gio destejornalpara verificar que te-
nho acompanhado ndo apenas a parte
adjetiva (de incivilidade) do governor
municipal, acessoria sem sersuperfua,
mas tambem a substantive. Sopara re-
frescar sua memoria, basta lembrar
textos mais recentes sobre o transport
coletivo e sua tarifa, o langamento do
IPTU 2000 e oaffaire Ctbel-Detran.
Em todas, se minha interpretaagdo estai
sujeita (e sempre esta)l a questiona-
mentos, minhas informagdes nio fo-
ram desmentidas. Ninguem se apresen-
tou para o diailogo, em aberto. Logo,
ndo e "opinionismo ", mas jornalismo
de investigagdio, interpretagdo e criti-
ca ancorado em fatos, nd o pon to de
agenda ou propaganda.
Se eu praticasse esse jornalismo
inconseqilente, tenho certeza de que
Marcus ndio me leria, ndio incorpora-


No alvo, o PT
Prezado Lcio,
Ngo estava querendo retrucar em re-
lagio a sua recorrente mi-vontade para
com Edmilson e o PT, mas seu editori-
al da edigio 247 ("Onde a Esperanga?")
foi a gota d'ggua. Como estudante de
jomalismo, fico decepcionado comn essa
oppgo preferencial pelo puro opinionis-
mo d~esprovido de comprovagio fitica.
E risivel voc& dizer que quem votou
em Edmilson foram "eleitores que tapa-
ram os olhos, a mente e o nariz". O
apoio ao PT este ano foi muito maior e
mais orgdnico do que hB quatro anos
atrais, quando Edmilson ganhou meio que
no susto e na base da novidade. Foi um
apoio que derivou do trabalho real e con-
creto que a Prefeitura fez nesses quatro
anos, trabalho do qual voci nem fala,
preferindo discutir o sexo dos anjos, so-
bre se Edmilson devia ter sido ou ngo
cortis com Almir na festa da Yamada.
As obras de saneamento que a pre-
feitura fez na periferia nesses quatro anos
nlo ttm paralelo na hist6ria recent da
cidade. Isso e substantive, a cortesia
political com o adversirio 6 adjetiva.
Com o trabalho do orgamento partici-
pativo (onde ate a direita esti disputan-
do agora, legitimando o process de
fato), da bolsa escola, do banco do
povo, coisas reais, que funcionam mes-
mo, independentemente das critics dos
adversarios, todo um novo contingent
de pessoas passou a apoiar o PT. O
partido saiu da sua adolescincia nessa
experitncia administrative.
Nio estou fazendo discurso triun-
falista ou ufanista, ate porque tenho
inumeras critics a gestio, mas s6 um
cegonio v&que, numa comparaqio com
as gestdes anteriores, a do PT foi mui-
to melhor.
Esse antagonismo acirrado entire PT
e direita, que voce tanto critical, e mais
do que natural. O projeto politico e ad-
ministrativo de Almir e companhia 6
completamente antag~nico aodo FF.Voc6
mesmoja demonstrou oprofundo elitis-
mo que permeia tudo que ogovernador
faz. Mesmo assim, ainda poderia haver
algum entendimento (e isso foi tentado),
mas 6 6bvio que Almir age como um
suserano que s6 aceita conversar com
quem the presta vassalagem. O que ele
quer e faturar politicamente comn tudo,
mesmo o que nioeC de sua algada (obras
conseguidas com empenho de toda aban-
cada federal, obras do govemno federal,
ate empreendimentos financiados pela
iniciativa privada). O que ele nio pode
faturar, ele boicota os exemplos de
boicote ao trabalho da Prefeitura sto ind-
meros e 6 ocioso relembrrd-los.
E engragado vocC falar em "novo
populismo" petista quando aqui sio apli-
cados todos os principios do modo
petista de govemar", tio elogiado nos
quatro cantos do pais. Serique as deze-
nas de pr~mios nbobastam para atestar







JOURNAL PESSOAL la QU~INZENA DE DEZEMBRO/ 2000 7


ria o que digo ais suas proprias opini-
des e nd'o classificaria este journal de
excelente, exceto nos aspects diver-
gentes dele. Reconhego, por exemplo,
que bolsa-escola ou banco dopovo sdo
inovagd'es na gestd~opuiblica. Mas sera
que em Belem o recheio dessa forma
teoricaetde boa qualidade? A forma
njo se tornou umafd~rma? Primio in-
ternacional buma via de reconhecimen-
to, mas ndio e tudo, principalmente
quando se multiplica seu nuimero ese
distorce seu significado.
Marcus devia relersua carta eme-
ditar: as justas acusagdes que faz ao
despotismo do governador Almir Ga-
briel, aqui relatados e criticados d
exaustd'o, n'o se aplicam como luva ao
modo de governor doprefeito Edmil-
son Rodrigues? Quemn se comporta
como "um suserano, quesd aceita con-
versar com quem the presta vassala-
gem "? Ou que "quere faturar politi-
camente com tudo, mesmo oque ndoe
desua algada "?
Marcusaqfirma que as obras desa-
neamento da PMB na periferia "n'o
tim paralelo na histaria recent da ci-
dade ". Sua declaragdio sopode ser le-
vada a strio se ele se refereac macro-
drenagem das baixadas, uma obra es-
sencialmente do governor do Estado, da
qual oprefeito quis se apossar atraves
de iniciativas espertas, mas ilegitimas
(que deram certo pelo abulicismo da
administragdo estadual). A participa-
gd~o da prefeitura, embora efetiva, e re-
sidual. Deve-se, sobretudo, aexigincia
do agent financiador, o BID (Banco
InteramenicanodeDesenvolvimento). 0
governofoi quemfez todo oprojetoee P
quem vaipagar toda aconta do capital.
Independentemente do quepenso sobre
a obra (epenso criticamente sobre ela),
e a maior intervengdio do setor publico
em saneamento desde que os ingleses
construiram os primeiros (e quase to-
dos, ateagora) esgotos de Belem.
Dizer que ignore os meritos da
atual gestd'o municipal por mri vontade
C uma injustiga, que soposso atribuir
afalta de leitura (ou d mdi leitura) do
que escrevo. Procure ser um critic
equilibrado (embora incisive), ponde-
rado epositivo. Basta Marcus irai co-
legdio do JP para verificar quantas
sugestdes e propostas ja apresentei,
nenhuma delas merecedora da menor
das atengdes da administragdo munici-
pal, mesmo que fossepara considerai-
las imprestaiveis.
Quando critiquei olangamento
precipitado dolIPTUpara antecipar a
formagdo de caixa, um dos principals
responsciveispela base informativa do
tnibuto me telefonou eme convidoupara
ver o cadastro multifinalitairio. Eu la
ful. Conversamos civilizadamente, fiz
meus questionamentos, ele prestou as
informagdes evoltei ame manifestar
repassando oque captei, confrontando
as explicagd~es com minha critical, cor-
rigindo oque estava imprecise rea-
firmando oque ainda me parecia cor-
reto. Por que ndio P assim em todos os
casos? Por que, quando criticado em
materia public, sem apresentar res-
posta, sem mandar seus assessores da-


rem-nas, reage o grdio-vizir petista com
process na justiga, coisa que o majes-
tatico doutor Almir ndo fez, nem, an-
tes dele, emepocas muito mais turvas,
Aloysio Chaves, Jarbas Passarinho ou
A lacid Nunes, tambem contrariados
frontalmente? Oprofessor sem drago-
nasePmais coronel do que eles?
Na question da Ctbel, recebi um dos-
siO da empresa, passei uma manhd len-
do oprocesso najustiga, ouvi oMinis-
terio Publico efui afonte diversas antes
de expor minha posigdo. Divulgada e
reiterada, ninguem mais se mamfestou.
Serd que estou certo? Nio sei, mas e
assim que se estabelece o criterio da
verdade. Naoecompropaganda. Naioe
comprando jornalistas. Nado k se sub-
metendo ddoutrina ouao catolicismo.
Nem anatematizando os que ndo pen-
sam como nos. Epor isso que continua-
mosa defender democracia, sem adje-
tivo acompanhante relativea, integral,
socialista. Porque to melhor regime
politico intrinsecamente eporque ndo
apareceu concorrente melhor
Para criticar; &preciso captar com
fidelidade o que diz a outra parte,
evitando-se delurpar sua posigdio e
desnaturar suaspalavras. Eu ndodis-
se, por exemplo, quetfodos os que vo-
taram em Edmillson "taparam os
olhos, a mente e o nariz". Eu estava
me referindo apenas aos "votos que
asseguraram a magra e suada vitoria
do alcaide ". Ou seja: aos menos de
10 mil votos da diferenga entire ele e
Duciomar Costa. Tambem ndo escrevi
que essa foi a menor de todas as dife-
rengas no 2n turno nas capitals brasi-
leiras. Disse quefoi amenor diferen-
ga entire osprefeitos reeleitos. Ospre-
feitos de Recife e do Rio de Janeiro
ndiose reelegeram. Dos que consegui-
ram o segundo mandate, Edmilson foi
o que teve amenor vantagem.
Uma anailise realista dos fatos,
travada inclusiveaotravis do confron-
to com posigdes divergences ecaptan-
do as critics (como as "inuimeras"
que Marcus diz ter, sem expd-las de
puiblico) e necessairia para o PTcor-
rigir os evidentes erros cometidos no
primeiro mandate de Edmilson e ndo
distorcer osigmylicado da eleigio des-
te ano em Belim. Com a maiquina mu-
nicipal nas mdos e com um acervo de
realizagdes que, se ndo esta ai altura
das suas possibilidades edo desaflo
que o memento historico the impds,
tambem ndio Pinferior ao deadminis-
tragdes antecessoras(4 um pouco me-
lhor do que a mdia ou umpouco abai-
xo das raras melhores, sem ser excep-
cional para mais ou para menos), o
PTsaiu-seplor numa reeleigio no 29
turno deste ano do que em l996, quan-
do sua situag'o era muito mais desfa-
vordivel. Como serd em 2002 e 2004
pelo andor da carruagem do nosso
alcaia'e-mor?
Eapergunta quefica, como uma
proposta dereflexdiopara todos os que
querem ver Belem melhorar, indepen-
dentementedesabera quem deve-seatni-
buir esse merito. Jai basta cada ano
anterior ser melhor do que o seguinte,
deixando saudades imprecisas.


Eleig ho m elhor
Ngo concordo com suas pro-
postas para regulamenta~go das
eleiqbes. Quanto aos debates em
radio e tev2, por exemplo, nio vejo
por que tornar obrigat6ria a parti-
cipa~go dos candidates a cargos
majoritarios, sob pena da impug-
naqio das candidaturas.
A praxe e que, no primeiro
turno, nio comparegam aos de-
bates os candidates com maiores
chances de passar ao turno se-
guinte. Desse modo, eles tentam
evitar um possivel massacre pe-
los demais. E compreensivel,
embora isto nIo garanta a vit6-
ria a ningubm. E s6 checar os
fats aqui em Bel~m. Nas elei-
95es de 1996, Ramiro Bentes nlo
compareceu aos debates no pri-
meiro turno e, nem por isto, dei-
xoudelevarbombanosegundo.
Neste ano, Edmilson tambem nlo
compareceu a um debate no pri-
meiro turno; mesmo assim, saiu-
se vencedor.
A ausdncia dos candidates
mais bem colocados nas pesqui-
sas, nos debates do primeiro tur-
no nio impede que eles sejam cri-
ticados pelos demais, e ainda pro-
porciona mais tempo e oportuni-
dade para que os cand idatos me-
nos cotados exponham suas criti-
cas e propostas.
No segundo turno, o proble-
ma e que, pel a re gul amenta~g o
atual, a ausincia de um dos con-
tendores inviabiliza debate. Mas
dai a impugnar a candidatura do
fujio e pular uma passage! Isto
atribuiria ao debate no radio e na
tevt, uma importincia que ele nio
tem, nem deve ter. A melhor pu-
ni~go seria realizar o debate com
o candidate que comparecesse. Se
esta fosse a regra, s6 um idiota
deixaria de comparecer...
Concordo que os debates no
radio e na tev& deveriam contar
com a participa~go de represen-
tantes credenciados da imprensa
peri6dica local, indicados e sor-
teados para esse fim. A nio parti-
cipa~go de jornalistas locals tem
concorrido para que os debates se
tornem cada vez mais chatos, e
menos esclarecedores. Com eles,
os debates ganhariam em interes-
se, mesmo que um s6 candidate
comparecesse.
Creio que os debates do se-
gundo turno ficariam mais inte-
ressantes se cada bloco, ao seu
final, fosse comentado por um
jornalista sorteado (cada jornalis-
ta s6 comentaria um bloco). Can-
didatos especialistas em lero-
lero, desses que quanto mais fa-
lam, menos dizem, poderiam se
meter numa encrenca de bem ta-
manho... Os candidates teriam di-
reito a replica, para rebater al gum
comentario do qual discord asse.
Ao comentarista, por seu turno,
caberia a treplica.


N Ro acho que a realizaqio de
debates deva se tornar obri gat6ria
para as emissoras de radio e teve.
Isto faria com que as campanhas
political ficassem ainda mais de-
pendentes desses meios de comu-
nicaqio, em prejuizo do contato
direto com os eleitores.
De quebra, haveria um monte
de debates em cada turno, torran-
do os paises baixos de todos, can-
didatos e eleitores. Na melhor das
hip6teses, a obrigatoriedade con-
duziria a formaqio de redes, e os
debates se converteriam numa ver-
slo eleitoral da nio menos chat
Voz do Brasil.
Final mente, consider absolu-
tamente dispensavel a tutela do
Ministerio Publico sobre os de-
bates. O MP que cuide de bem
realizar as tarefas que ji sio suas.
O que, alias, nem sempre ocorre.
Um abrago
Elias Tavares

MINHA RESPOSTA
Estdo ai novas iddias para
uma discussdo necessairia. Eu so
gostaria de esclarecer que, ao
impor a participagdio de candi-
datos, eu sugeria que a austn-
cia fosse punida com o pedido
de impugnagdio da candidatura
perante a justiga eleitoral, fei-
to pelo Ministerio Puiblico, e
ndio com a cassagdio pura e sim-
ples. O candidate impugnado
iria se defender, apresen tando
suas justificativas.
Acho que a corregio feita
pelo leitor tem o inconvenient
de permitir a um candidate fa-
vorito evitar o debate, mesmo
que o encontro se realize com os
outros (ou outro) candidates. No
segundo turno, faltar pode ser
uma temeridade, embora com
risco sujeito a algum grau de
control. Mas no primeiro turno
o perigo e incomparavelmente
menor, ou nenhum, para quem
estiver com folga na lideranga
das pesquisas.
A participagd'o do MP fede-
ral nos debates pela radio e a
televisdo garantiria um arbitra-
mento independent e uma audi-
tagem externa, impedindo que as
emissoras de comunicagd'o mani-
pulassem esses debates arbitra-
riamente, ou os submetessem a
regras tdo rigidas que os conti-
nuem a transformar em progra-
ma insipido, inodoro e in color,
usado conforme o interesse da
empresa. A auditoria popular do
MP ndo se preocuparia apenas
com debates, mas tambem com as
terriveis pesquisas e toda espe-
cie de falcatrua, que se benefi-
cia da sazonalidade da estrutu-
ra eleitoral puiblica para criar
uma impunidade que tem desser-
vido a democracia, mesmo man-
tendo-a formalmente.
Mas ndo quero fechar o tema,
que permanece em aberto.










































































Jornal Pessoal
cm nondu Lucl FIo rt-ni F ons (09r) 2269 n ~la r a 246 r lv
EdiCao de Arte: Luizanionieelarlapirdo.230-1304


tannbd6m see tiselemocsonad

gulho'", publicado com a assi-
natura de Romulo Jr., na capa
da edigio de aniversario.
"Existem lagos tio fortes que
nem o tempo e o afastamento
podem romper", observa o re-
c~m-candidato a prefeito de
Bel~m.
Aparentemente, nio houve
reaproximaqio, nem prepara-
t6tia g carta, nem dela decor-
rente. Muito pelo contrario.


D iSCriCiO
Enquanto o deputado Vic
foi adjetivo nas suas congra-
tulaqdes, o governador Almir
Gabriel foi apenas protocolar
na mensagem que mandou a
O Liberal pela passage dos
54 anos de vida do journal. O
registro nas paginas do matu-
tino foi tio discrete quanto.


Jatin ho
Depois de t6-lo usado uma
primeira vez para ir a Brasi-
lia, o governador Almir Ga-
briel voltou a servir-se do Ci-
tation, o modern j ato da
ORM Air, a verso do grupo
Liberal para a aviaqio. Como
na ocasiio anterior, o jatinho
foi fretado pelo governor do
Estado para permitir ao go-
vernador ir num dia e voltar
no outro sem as condicionan-
tes dos vios comerciais re-
gulares. Almir foi visitar seu
amigo, o governante paulista
Mario Covas.
Enquanto o dispendioso
Citation voava por conta do
erdrio estadual, a president
das Organizagies Romulo
Maiorana, Dba, desembarca-
va em Val-de-Cans de um pro-
saico vao da Varig do Rio de
Janeiro, com escala em Bra-
silia. Uma semana antes seu
filho, Romulo Ju~nior, vice-pre-
sidente das ORM, fora com
sua corte de amigos para uma
festa em Sho Luis e, dias an-
tes, para um jantar no Rio de
Janeiro, usando o jatinho da
empresa.


JUStiga
Ha vit6rias que mais se pare-
cem a derrotas. Sgo as famosas vi-
t6rias de Pirro. Mas hi aquelas
que engrandecem, merecendo ser
comemoradas, porque sho legiti-
mas e justas. Veneer uma batalha
judicial gragas a um voto como o
que a desembargadora Heralda
Rendeiro deu, na semana passada,
acolhendo habeas corpus para
trancamento de aqiopenal, em meu
favor requerido pela advogada An-
gela Salles, revigora a crenga de que
a justiga ainda pode ser anteparo
eficaz is arbitariedades e persegui-
95es, aoabuso de poder.
Como relatora do process, nas
cimaras criminals do Tribunal de
Justiga do Estado, a desembarga-
dora Heralda acolheu afundamen-
taFgio do HC, de que falta just cau-
sa ao empresario Cecilio do Rego
Almeida para me processar por cri-
me de imprensa, determinando o
arquivamento de uma das duas
queixas-crime ajuizadas por ele
contra mim. Se todas as minhas in-
formaqdes foram obtidas em fon-
tes oficiais e se, em unissono raro,
todos os 6tgios publicos, nas tras
instaincias de poder, consideram ter
havido grilagem de terras na apro-
priaqio de uma enorme area no
Xingu (com pretensio a algo entire
5 e 7 milh~es de hectares), nio
posso ser acusado de injuria, calti-
nia ou difama~go. Estou apenas
exercendo um direito fundamental
no regime democratico: aliberdade
de imprensa, atrav~s da informa-
gI~o e da critical. Nio cometi qual-
quer crime, muito pelo contrario:
prestei um relevant serving de in-
teresse publico.
Depois da s61ida e judiciosa
manifesta~go da desembargadora
Heralda Rendeiro, referendada por
seus pares, a exce~go do desem-
bargador Werther Coelho, voz dis-
cordante nesse coro de lucidez, te-
nho aconvicSio de que ser-iaames-
ma a acolhida ao segundo HC, im-
petrado por motives semelhantes,
contra o mesmo autor da persegui-
Fio, sob a relatoria da desembar-
gadora Raimunda Gomes. Assim,
minha energia sera renovada para
enfrentar outras seis demands do
mesmojaez.


Anivers~rio

liberal
Romulo Maiorana J~inior,
president em exercicio das
Organizaqdes Romulo Maio-
rana, assinou o editorial da
edigio comemorativa dos 54
anos do mais antigo dos vei-
culo de comunicaqio do gru-
po e o de maior circula~go no
norte do pais, nou~ltimo dia 15.
Prometeu "fazer da verdade
o element essencial" da linha
editorial de O Liberal. E um
bom compromisso para o pre-
sente e o future. Mas nio e
um acervo de que o journal dis-
ponha. Nio tem sido essa a f6
do seu oficio.
Se realmente estivesse
comprometido com a verdade,
O Liberal seria um journal plu-
ralista, nio manteria um index
de nomes, nem despejaria das
suas paginas os temas consi-
derados indesejiveis, que afe-
tam seus interesses comerci-
ais e irritam seus dirigentes,
embora digam respeito a toda
a coletividade. S6 assim o jor-
nal seria mais atento aos com-
promissos com a opiniko pu-
blica, sem renunciar a fungio
pedag6gica que lhe cabe.
Mas tais observaqdes nio
estio entire as preocupagdes
dos responsiveis pela publi-
caqio. No editorial que assi-
nou, sem o apuro de estilo do
ghost-writer de outros anos,
mas com a inefivel fotogra-
fla de sempre, o executive
presidente interino assumido
na primeira pigina, mas ain-
da ausente do expediente do
journal na pagina seguinte) ga-
rante que O Liberal mant~m
o "firme prop6sito de fazer
sempre o melhor, atendendo
as expectativas de nossos
milhares de leitores e sem
perder a humildade que s6 os
verdadeiramente grandes e
vencedores podem ter".
Diz o ditado popular que
elogio em boca pr6pria 6 vitu-
p~rio. Nio importa: como nio
e dado a essas superficialida-
des, Romulo Junior canta o
parab~ns, bate palmas, apaga
a vela, reparte o bolo, leva a
melhor parte e fica com o pre-
sente. Nem Dorian Gray faria
melhor.


Trin sito
Mais de tris anos depois
do inicio das obras, o governor
finalmente conseguiu concluir
a construCho da sede do De-
tran na avenida Augusto Mon-
tenegro. O prego de largada
era de 4,5 milhbes de reais. O
de chegada, ao fim de uma
cascata de aditamentos, foi de
R$ 6,2 milhdes. Era necessC-
rio chegar a esse investimen-
to? Justifica-se imobilizar tal
dinheiro no Detran quando a
determinaqio superior 6 para
a municipalizagio do trinsito?
Municipalizaqio em ter-
mos. O trinsito continue a ser
um monstro bifronte. Al~m de
as atribuiqdes serem reparti-
das entire a Ctbel e o Detran,
em parties irracionais, um 6r-
gio costuma avangar na sea-
ra do outro. A dispute se vale
das imprecisas fronteiras e se
alimenta da rivalidade entire as
administraq~es municipal e
estadual.
Quem paga a conta o
pato, isto 6, o cidadio.



A se~go criada em O Li-
beral para registrar as congra-
tulaqdes ao jornal, pelo seu 54'
aniversario, apresentou no dia
21 uma inovagio: a reprodu-
gio, ipisis litteris, de uma car-
ta enviada a Romulo Jdnior,
president das Organizagies
Romulo Maiorana, pelo depu-
tado federal Vic Pires Franco,
do PFL publicada, em tama-
nho desproporcional em rela-
950 a todas as demais. A car-
ta, al~m de reproduzida em fac-
simile, foi levada ao Cart6rio
K6s Miranda para o reconhe-
cimento da firma do missivis-
ta, como se Rominho nio
acreditasse que aquela era
verdadeiramente a assinatura
de Vic, de amigo intimo trans-
formado em inimigo figadal, e
que ele estivesse escrevendo
tudo aquilo.
No trecho mais incisive de
sua carta, Vic reconhece que
"o espirito do pai [Romulo
Maiorana] ficou como heran-
ga para o filho, identificado na
visio empreendedora de sem-
pre fazer de 'O Liberal' um
grande journal O parlamentar