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L I r8 0 0 :c "t1~1a, ,~ j 8BII ~ l ~n~~~~I CIO ANO XIV NP 246 18 QUINZENA DE NOVEMBRO DE 2000 RS 2,00 ELEICA~O Um pinoquio na PMB? O episd'dio do diploma falso n~o pode ser mais cobrado na justig~a de Duciomar Costa. Ele e' importante, porim, n~o por representar um incident superado na vida do candidate a prefeitura de Beli'm, mas por revelar o cara'ter de um hbomem que pode assumir um orgamento de mais de meio bilbd~o de reais. Duciomar Gomes da Costa, 45 feitura de Bel~m, empatado nas pesquisas referentes ao 2* Dturno com Edmilson Rodri- gues, do PT, pensa que eu, vocC e todos n6s somos completes idiotas. Orientado por seus marqueteiros, ele responded a - muito mal-feita, por sinal campanha de denuncias do seu advers~rio sobre suas falsidades sustentando que esta completamente limpo. O PT, fiel ao estilo do seu candidate a reeleiCgo, investiu com sofreguiddo contra o advers~rio. Ao inv~s de for- necer informaF~es ao pilblico para que ele as examinasse, decidiu fazer tudo, da apresenta~go dos fats ao julgamen- to final do acusado. Para esses petis- tas, basta ndo ser um igual para mere- cer a condenaq~o. Acham que tudo o que disserem 6 verdade e tem que ser acatado como tal. Ngo toleram a con- trov~rsia, nio aceitam a critical. Por isso, permitiram a Duciomar vestir a pele de vitima (ou de ovelha) e rever- ter a acusagio contra os acusadores, desviando o eleitor da reflexio sobre o principal element disponivel para ava- liar a qualidade da sua candidatura. Duciomar nio cometeu um simples deslize, um erro a que todos estamos su- jeitos. Quem, quando joyem, jb ndlo "fu- rou" uma festa, mostrou para o porteiro uma carteira vencida ou declarou-se de- tentor de um titulo que efetivamente nio possuia? Ha erros que sho produto da imaturidade. Hsi outros que, cometidos ja na idade avangada, resultam de uma ir- reflexho ou de um impulse incontido, sen- do, entretanto, veniais. Mas hi tamb~m erros essenciais, que podemos cometer em qualquer fase da vida. Uma vez consumados, trata- mos de admitir a falha, pedimos per- dio, nos submetemos a pena e prome- temos levar em consideraqio a li~go. Isto, se somos pessoas de bom carter, merecedoras de confianga. Mais do que o erro em si, hB posturas diante dos erros que definem uma pessoa. Torna CeSSOR FLAIV IO PINT 2 JORNAL. PESSOAL la QUINZENA DE NOVEMBRO/2000 Duciomar Costa, entire os varios ofici- os que exerceu, a partir de uma origem tio humilde quanto a minha, a sua e da esmagadora maioria dos cidadios desta cidade que ndo nasceram em bergo es- plendido, era comerciante. Tinha uma 6ti- ca, a Guanabara (a outra, a Ipanema, es- tava em nome do irmlo), onde, natural- mente, vendia 6culos. Atividade honrada, como qualquer outra quando 6 exercida com honestidade, decincia,, consciencia. Duciomar queria mais. Otimo, elogi8- vel. Mas, ao inv~s de se matricular no exame de sele~go de uma institui~go de ensino superior, o caminho natural para uma graduaqgo universitaria, procurou al- gu~m que se dispis a vender-lhe um di- ploma de m~dico. Jg entio com 30 anos de idade, Duciomar foi atris de um falsi- ficador de documents, que a policia nio conseguiu localizar porque o atual candi- dato a prefeito forneceu uma pista para nlo variar falsa. Duciomar pagou a esse contraventor 500 mil cruzeiros (valor da 6poca) por um falso diploma de medico, que teria sido expedido pela Universidade Federal do Paraiem dezembro de 1979, assinado pelo reitor Aracy Barreto (ji falecido). Ao de- por na Policia Federal, em outubro de 1985, Duciomar confirmou tudo. A linica men- tira que contou foi apontar como criador do document um representante comer- cial, Luiz Carlos. No mais, confirmou que realmente, em 18 de julho de 1985, solici- tou sua inscriplo no Conselho Regional de Medicine, apresentando o diploma que havia comprado. Constatada sem maior indagaqlo a falsidade do document, a partir de information prestada pelo Cen- tro de Citncias de Sadide da UFPA, admi- tiu perante o CRM seu erro. Mas conti- nuou clinicando, prescrevendo receitas e aviando 6iculos, para isso usando os im- pressos que havia mandado fazer. Mesmo depois de haver reconhecido o crime cometido perante o CRM e a Po- licia Federal, Duciomar continuou a prati- ca-lo. No relat6rio das dilig~ncias que fez a pedido do juiz federal, para instruir o pro- cesso criminal, em abril de 1986, o dele- gado da PF, Geraldo Aradijo, informou: "Tive recentemente noticia que Duciomar anda clinicando gratuitamente no interior do Estado visando sua eleigio a Deputa- do Estadual no pleito deste ano". Isto, seis meses depois de Duciomar ter reconheci- do o delito perante~a policia. O juiz federal Edison Messias de Al- meida nlo hesitou, por tal motive, em de- clarar na sua sentenga condenat6ria que Duciomar agiu com "dolo". Quer dizer que seus atos foram praticados com mi- f6, com adeliberada intenq~o de tirar pro- veito do crime, plenamente ciente do que fazia. Que tipo de beneficios queria? "Marcadamente argentarios", diz o titu- lar da l' vara da justiga federal na deci- sio, de 1994. Ou seja: Duciomar queria ganhar dinheiro. No inicio, era sd dinhei- ro. Mas logo em seguida ele decidiu ser politico. Para conseguir votos, atendeu gratuitamente pessoas necessitadas de cuidado medico, mas sem dinheiro para pagar pelo serving. Duciomar nio se perturbou com a "imensa carga de potencialidade lesiva" do seu ato, do qual resultaria o "risco de levar os incautos B invalidez por ceguei- ra e outros agravos", conforme a sen- tenga do juiz federal. Se quisesse real- mente ajudar os desvalidos, o donor da 6tica poderia pagar um medico verdadeiro para manter um consult6rio no seu esta- belecimento commercial, assumindo os cus- tos desse encargo. Ao declarar-se habilitado para o de- sempenho de uma tarefa que nio exige apenas experi~ncia e vontade, mas for- maqio t~cnica, conhecimento especi- fico, ele foi muito al~m do que a cari- dade ou a solidariedade autorizariam. Dai o juiz ver na per- sonalidade do falso medico "desvio dos padres de normalida- de, revelando caracte- res tipicos de pessoa 31 extremamente ambici- . osa, ousada e solerte". Uma pessoa com tais desvios de persona- lidade deixa de ser ho- \ nesta, decent, cons- cenciosa, confiavel. I Pode agir com cortesia, gentileza e at6 mesmo corre~go at6 o ponto em que co- megam seus interesses pessoais, o prin- cipal dos quais, conforme o diagn6stico do magistrado, que apteciou o caso ao long de oito anos de instru~go proces- sual, 6 o "marcadamente argentario", de ganhar dinheiro, mesmo que para isso precise agir com "dolo", mb-f6. Duciomar Costa era r~u primbrio quan- do foi condenado em primeira instincia pela justiga federal, em 1994. Nessa con- diqdo, devia receber uma pena mais leve. No entanto, considerando as "circunstin- cias e conseqiiancias do crime, desfavo- riveis face o refinamento com que agiu", o juiz Edison Messias de Almeida houve por bem "impor-lhe condena~go no grau m~dio" da pena prevista pelos delitos que praticou, de uso de document falso (arti- go 304 do C6digo Penal brasileiro), com- binado com o de falsificaq~lo de document pliblico (artigo 297). Recebeu a "pena pri- vativa de liberdade de tras anos de reclu- slo, em regime aberto, e ao pagamento de 97 dias de multa, g raz~o de um e trinta avos (1/30) do saldrio minimo". Embora o condenado fosse r~u con- fesso do crime de que foi acusado, a lei lhe permitia recorrer em liberdade. E ele recorreu. NTio houve um segundo julga- mento: antes que chegasse esse momen- to, a pena aplicada prescreveu (o que eqiii- vale a um produto perder sua validade) e ele se tornou inimputaivel. Ou seja: embo- ra tivesse reconhecido o crime que come- teu e por ele tivesse sido condenado na Ainica instincia do process judicial em que um juiz decide sozinho (o que se chama de decisio monocritica), o nome de Du- ciomar nio poderia ser inscrito no rol dos culpados e ele estaria livre para todos os efeitos legals, inclusive ode poder conti- nuar a carreira political, que ji iniciara. Seus marqueteiros, portanto, nio men- tem quando garantem que Duciomar pode obter a qualquer memento uma certidiio negative da justiga. A condena~go de l' instincia, nio tendo sido apreciada (nem confirmada nem negada) na etapa seguin- te da tramita~go de um process regular, a partir do memento em que a decisdo inicial nio foi aceita, deixou de ter validade legal. Duciomar pade ser novamente candidate e, se veneer a eleigilo do dia 29, assumird o cargo de <1,*-prefeito normalmente. : *Mas os documents pro- 0- duzidos no curso dopro- cesso, sendo o element -emais important da sua !~~VC~17 biografia (ao menos a co- -t~c~rnhecida), revelam a face verdadeira da sua perso- nalidade, causando inqui- etagio aos que receiam vC-lo comandan- do a prefeitura da capital do Para. A ningu~m mais 6 dada a prerrogativa de querer que Duciomar Costa venha a ser novamente processado por um crime ji prescrito. Mas qualquer pessoa mais atenta tem todo o direito de ndo querer vt-lo como ordenador de despesas sobre um orgamento pliblico de mais de meio bilhio de reais. Duciomar decidiu friamen- te cometer um crime (apresentar-se como medico a partir de um diploma falso, com- prado de um contraventor) quando ji es- tava com 30 anos de idade. Por causa dessa habilita~go esp~iria, tornou-se um charlatio. Flagrado no delito, admitiu-o. Mesmo assim, continuou a pratic8-lo. Primeiro, para ganhar mais dinheiro na sua 6tica. Depois, para se tornar poli- tico. S6, quando jd havia conseguido o primeiro mandate, o de vereador, 6 que parece ter deixado de se apresentar como m~dico. Mas, experimentado nos mean- dros, criou uma funda~go para receber recursos, nem sempre de fonte identifi- cada, e assim ampliar um assistencialis- mo at6 entio praticado amadoristicamen-) JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE NOVEMBRO/2000 te por politicos que dele se valiam para montar suas carreiras e seu poder, Mas nlo deixou de delinqiiir. O diplo- ma que o Conselho Regional de Medicina e a Policia Federal provaram ser forjado serviu para Duciomar se tornar aluno do cursor de direito da Unama sem passar pelo vestibular. Usou oatalho do chamado 'ves- tibulinho", ao qual s6, t~m acesso os can- didatos com nivel superior complete. Du- ciomar nao se vexou, como dizem os nor- destinos, em tirar do cofre um document falso que, no depoimento a PF, dissera que havia destruido. Desta vez o diploma ndio era falso. Mas s6 assegurava ao portador o titulo de ba- charel em direito. Para advogar, Duciomar precisava se submeter a um exame da OAB. Ele nio fez isso, por~m. Muita gen- te, como ele, nio faz o exame da ordem. Nem por isso compete um delito. Basta que n~io advogue ou nio se declare advogado. Depois de ter entrado por um atalho irre- gular na graduaqio, Duciomar abriu seu site na Internet apresentando-se como advoga- do. S6, apagou a qualificaqiio quando de- nunciado. Um novo escorregio, confirman- do o desvio de personalidade apontado pelo juiz que o condenou- Ao inv~s de repetir, de piiblico, a con- fissio que fez perante o CRM, a Policia Federal e ojuiz, diante dos quais, em ne- nhum memento, negou as acusaFges que lhe foram feitas, o candidate Duciomar Costa mente e delinqiie. Como mentiu e delinqiiiu ao continuar clinicando como medico mesmo depois de iniciados os pro- cessos administrative, policial e judicial contra ele. Como cometeu fraude delibe- rada ao fugir do vestibular da Unama e ao se dizer advogado no seu site de candida- to a prefeito de Bel~m. As raz~es para ele continuar a mentir e a tentar enganar a opinihio pxiblica de- vem ser as mesmas que levaram seus marqueteiros a desaconselhar o seu com- parecimento ao debate na TV RBA, na semana passada, o primeiro programado para a campanha do segundo turno. A ten- tativa inicial de fuga foi feita atraves da mentira, mais uma vez: de pronto, o can- didato alegou nio haver recebido convite da emissora. Provada a mentira, recorreu a outro ardil: ndo iria se confrontar com um advers~rio que pratica a baixaria, ca- luniando-o, injuriando-o e difamando-o. Mas a verdadeira raz~Lo 6 que Ducio- mar nio esti~ preparado para debater. Ele 6 vazio de id~ias. E ele 6 vulnerrivel de- mais para se expor numa controversial para valer. N~io que the faltem de todo qualida- des. Ele 6 sagaz, esperto, trabalhador, vo- luntarioso. Sabe muito bem desempenhar o papel que lhe deram, de bom vizinho, de amigo aninimo, de pessoa sensivel ao dra- ma alheio, prestativo, solid~rio. Contra a imagem de um concorrente arrogante, furioso, escondido atras de uma mi~scara de falso otimismo e confi- anga, de um histrionismo enrijecido, ele se apresenta como aquela pessoa pr6xi- ma, pacata, que traz uma solugio sim- ples, domestica, um projeto feijio-com- arroz contra a culindria complicada que quer mais um mandate. Mas o grande erro de campanha do PT foi achar que Duciomar era apenas um pobre coitado, produto do marketing, filhote dos abundantes recursos bombea- dos por tris dos panos pelo governador, uma fraude total. O eleitor que esta dan- do o seu voto a tal candidate d~o e uma fraude. A situaqio na qual a mensagem de Duciomar germinou como trigo bomn, mesmo ngo passando de joio, 6 real, as- sustadoramente real. Nio foi apenas o acaso e a vontade que criaram essa figu- ra: ela responded tamb~m a uma necessi- dade. Ela 6 o retrato de uma cidade cada vez mais pobre, cada dia mais dilacerada entire contrastes e paradoxes, marcada por um sentiment crescente de impotencia, mas, como seria de se esperar, empenha- da em sobreviver. De qualquer maneira. OPT correspondeu a essa expec- tativa quatro anos atris. Edmil- son Rodrigues, com todos os seus defeitos e vicios, 6 um politico me- lhor do que Ductomar. Mas ele nio foi eleito por ser o melhor candida- to. Ele foi eleito porque o povo que- ria dizer nhio is velhas liderangas po- liticas do ParSk. O eleitor deixou fora da prefeitura as criaturas dessas liderangas, a deputada federal Elcione Barbalho e o economist Ramiro Bentes. O povo que- ria experimentar o novo. Em 1996 Edmilson era o novo. Esque- cendo essas circunst~incias, ele achou que era o lider, o grande lider do povo, que, na corrente de pensamento dele, significa dizer o 6nico. Edmilson nio desceu do palanque. Continuou a falar para audito~ri- os com sua verborragia oca, sua sintaxe de cliches, seu raciocinio dogmitico. Apesar dele, pessoas que ocuparam cargos p~blicos na prefeitura de Bel~m em conseqaiincia da vitibria do PT trabalham bem, ou pelo menos razoavelmente. Nio fizeram muito, nem tanto quanto seria ne- cess~rio para que a misdria de Bel~m fos- se atenuada, para que nio continuasse a ser o element decisbrio numa eleigio, para que nio permitisse a um Duciomar Costa se apresentar em 2000 como o novo, um novo retardati~rio, atrasado em relagio a 1996, mas um novo revitalizado pelos er- ros da administraqio Edmilson Rodrigues quatro anos a frente da PMB (erros que nio discrepam de anteriores administra- 95es, mas nio sio t~io lamenta~veis). Sem descer do palanque, nosso alcaide comegou a tratar da candidatura seguinte, a governador do Estado, em 2002. Essa sua postura sempre me trouxe a imagem do goleiro de time de futebol que, ao se prepa- rar para receber uma bola dentro da sua area, deixa de olh8-la e ji encara o campo 1 sua frente, imaginando para quem vai passar a bola quando a pegar. O resultado dessa precipitagio slio alguns dos mais fe- nomenais frangos do futebol: a bola passa pelas miios do goleiro enquanto ele tenta encontrar o jogador a quem vai servir uma bola que ainda nio 6 sua. O mesmo erro de contar os frangos, na situaqio real e nio na linguagem simb61ica, antes que a gali- nha tenha posto os ovos. Edmilson cometeu esse erro por sua empafia, autoritarismo e arrogincia, tipi- cas de um ditador, mesmo de ditador pos- to no cargo (para ele um trono) pelo voto, mas incapaz de encarar com realismo (e a necessiria humildade) a histibria verda- deira da sua vit6ria eleitoral. Julgando-se o mais esperto e o mais preparado de todos, ou, mais ainda do que isso, o escolhido (por ele mesmo, claro) para ser o guia do povo, o profeta das multid~es, um novo messias, enfim, o al- caide fez obras eleitoreiras e de ocasigo, buscando adesIso imediata e voto para logo em seguida. As obras de maior fblego fi- caram para depois ou est~o sendo toca- das sem o apoio devido, ou foram iniciadas de s~ibito. As ameagas de competing em brilho foram devidamente ofuscadas: um messias nunca aceita sombra. Os critics foram punidos por nio ecoarem a voz do lider. Os dulicos foram premiados. O espe- Ilho se tornou o interlocutor do eleito. Ave, Edmilson (ou heil?) O resultado 6 que Edmilson engrossou o caldo de cultural para o assistencialismo, o solidarismo estreito e a demagogia. Um novo messias como Duciomar esti mais perto do povo. Ele nlo quer fazer a revo- lu~go (embora o adversario dele esteja em- penhado em fazer a revolu~go apenas na virulincia do discurso e na contundancia dos gestos), mas resolver problems do dia a dia do seu eleitor potential, ainda que a custa de nio resolver problema algum da sociedade. O eleitor 6 concrete, a so- ciedade 6 ab strata. Viva o individualism, 6 o lema nlo escrito dessa gesta. E chegamos onde estamos: a possibili- dade de que a fraude tome conta da admi- nistraC~o da mais important cidade da Amaz~nia. Se tal ocorrer, Bel~m, a idilica "metri~pole das luzes" de um prefeito que se deixou enganar por sua pr~pria propaganda, ate poderd vir a ser considerada, al~m de uma nova Calcuth, a Cartago tropical se para tanto sobrarem as pedras. Lf JOURNAL PESSOAL, P QUINZENA DE NOVEMBRO/2000 A fortune de Jader: nador Jader Barbalho foi a principal matbria national das duas maiores revistas de infor- maqio do pais, ambas acusando de ili- cita ou irregular a formaqio do seu pa- triminio pessoal. A primeira delas foi a Ep~oca, a revista de Roberto Marinho, o donor da Rede Globo de Televisio, que dedicou sete pi~ginas ao lider do PMDB. A segunda foi Veja, da Editora Abril: al~m das mesmas sete piginas, a revista- a quarta em tiragem do mundo no seu gtnero colocou uma foto de Jader Barbalho na capa e no indice, de- dicando-lhe ainda a Carta ao leitor, de responsabilidade do seu editor. Pelo menos sete milh~es de brasileiros, lei- tores das duas revistas, tiveram acesso i~s reportagens. E 20% mais do que toda a populagio do Pard. O fato 6 raro na histi~ria da imprensa brasileira. Quando um concorrente sai na frente com uma mat~ria forte, como fez Epoca, a mat~ria do outro concorrente costuma cair, conforme o jarg~io das re- da95ies. Indiferentemente, por~m, ao destaque dado ao tema uma semana an- tes na revista da Editora Globo, Veja manteve o seu petardo jornalistico na se- mana imediata. Sua maior novidade foi ter feito a atualizagSio do patriminio. Ep~oca acatou o valor que Jader declarou g re- ceita federal, de 2,6 milh~es de reais. Mas Veja,ouvindo especialistas na mat~ria, corrigiu os valores hist~ricos (ou seja, da 6poca da primeira incorporaqio do bem g declarag~io de rendimentos) e chegou a um patriminio 10 vezes maior, de quase R$ 30 milhaes (mas que teria chegado, em 1995, a quase R$ 38 milhdes). "Como um politico refine 30 milhdes de reais?", 6 a pergunta do editor. Por dever de oficio, a revista saiu atris da resposta. Garante n~io haver se baseado nos dossits acusat6rios trocados entire Jader e seu maior desafeto no memento, obaiano Anti~nio Carlos Magalhies, em- penhado em n~io t8-lo como successor na presid~ncia do Senado, em eleigio que acontecera em fevereiro do pr~ximo ano. A "natureza dos fatss, que a revista diz ter apurado, "C, infelizmente para o se- nador Jader Barbalho, muito mais con- tundente" do que as inconvincentes pro- vas contidas no dossib de ACM. Com o amaior beneficiado pela di- vulgagio da reportagem 6 o senador bai- ano, o editor de Veja responded logo A elementary pergunta que se costuma fazer em tal situaq~io ("a quem interessa?"): "A resposta 6 simples: ela serve aos interes- ses do pais e Aqueles do leitor de Veja, que, ao long dos 32 anos de histi~ria da revista, se acostumou comn a tradigio de jornalismo s~rio e independent que pra- ticamos- sem medo, e sem favoritismo". Jader Barbalho reagiu de duas ma- neiras ao ataque. Quando Epoca che- gou is bancas de Bel~m, um decidido comprador se apoderou de todos os exemplares entregues. Disse o Rep~rter Didirio, a principal coluna do journal do senador, que era gente "do outro lado" se apossando da revista para espalhi-la pelo interior, hoje o grande reduto eleito- ral do peemedebista. No entanto, nenhum voraz comprador fantasma estava apos- tos nas bancas quando os exemplares de Veja foram desembarcados. Simultanea- mente, contudo, gente "do outro lado" ras- pava os exemplares de Istod com uma matbria que deixava mal Duciomar Cos- ta, o candidate "do outro lado" A prefei- tura de Bel~m. JA o senador Jader Bar- balho trocou o mutismo da semana ante- rior por uma resposta g sua maneira, de jogador de p~quer, nesta semana. Quando os jornalistas chegaram ao seu gabinete, em Brasilia, para a entre- vista coletiva por ele convocada, rece- beram de Jader a c6pia de uma procu- raqio feita em cartbrio e uma nota es- crita. Atrav~s desses documents, cre- denciava a Editora Abril e o autor da matbria, Alexandre Oltramari (apresen- tado pelos jdderistas como genro do deputado federal Josu6 Bengtson, com- panheiro tucano na chapa de Zenaldo Coutinho g prefeitura) a venderem to- dos os seus bens pelo valor que diziam que eles valiam. Obviamente, nem a editor e nem o jornalista sho corretores de im6veis. A blague 6 sagaz, mas nio responded a pergunta que, ali~s, perpassa sem uma clara definigio todo o texto da re- portagem, mas se insinua o tempo todo: Jader, ao long de 34 anos sempre um politico, s6 se tornou rico porque o) JOURNAL PESSOAL e la QUINZENA DE NOVEMBRO/2000 5 a quem interessa? poder lhe deu acesso a certos meca- nismos de favorecimento. A comprovag5io 6 cristalinaj jno pri- meiro grande investimento que ele fez, com o qual abriu as portas do enrique- cimento. Em agosto de 1980 obteve um financiamento da Sudhevea (a extinta Superintend~ncia do Desenvolvimento da H~vea), atravQs do Banco do Brasil, para plantar seringueira em uma das duas fazendas que possuia, obtidas atra- v~s de trocas com outra propriedade que recebeu em pagamento de servings prestados como advogado. O empr~s- timo venceria em 14 anos e os juros eram de 12% ao ano. O ent~io deputado federal deu como garantia duas casas suas, no conjunto Bela Vista. Apenas dois meses depois de fechar o neg~cio, Jader teve acesso a um novo cr~dito, agora para para custeio, com o qual iria extrair quatro mil metros cuibicos de madeira de lei na Fazenda Po- liana. Sobre esse dinheiro incidiriam ju- ros de 2% ao ano e correg~o monetiria annual de 28%. Como garantia, deu em penhor a pr6pria madeira e, em hipote- ca, uma das duas casas do conjunto Bela Vista, que ji estava penhorada. Nada de excepcional na operaq2io (embora generosamente deferida), ji que sobre um bem pode incidir dupla hipoteca. O problema 6 que os dois imi~veis valiam apenas 20% do primei- ro dos dois financiamentos. Para melho- rar as coisas, a Sudhevea baixou de- pois uma norma quitando pelo valor his- t6rico as dividas de financiamento em heveicultura que nio deram certo por fatores climiticos, mas resultaram em uma estupenda aplicag~o de capital. Transa95es semelhantes, acrescidas de virias outras facilidades que um de- tentor de cargo de mando politico pode ter, explicam o vertiginoso incremento pa- trimonial de Jader do inicio de sua car- reira, em 1966, at6 hoje, depois de ter sido deputado estadual, deputado fede- ral, govemnador do Estado (duas vezes), ministry (duas vezes) e senador, al~m de president national do maior partido po- litico do pais. A formaq~io da sua fortune ao long de 21 anos entiree 1974 e 1995, segundo os c~lculos feitos pela revista), passando de R$ 61 mil para R$ 29,7 milhies (deduzidos os R$ 8 milh~es que transferiu B ex-esposa e aos filhos quan- do se separou de Elcione Barbalho) exi- giria uma poupanga mensal de R$ 150 mil, algo muito acima das fontes de ren- dimento declaradas do parlamentar. Em sua defesa, Jader esgrime um fato: tudo o que possui esti registrado em seu nome. A nio ser que surjaprova em con- trdrio, ele n~io tem "laranjas", nem apli- cap6es secrets. Durante periods de cinco anos, a receita federal tem condi- 95es de examiner sua variag~o patrimo- nial e verificar se ela 6 incompativel com sua renda, exigindo comprovag~io. Ao que parece, a declaragio de ren- dimentos do senador nio foi glosada at6 hoje. Ele usa essa situaqio como certi- d~io negative. Para manter esse status quo, nem mesmo se aproveitou de um dispositivo recent criado pelo govemo para a atualizagio dos valores patrimo- niais sem a incidincia tribut~ria. Muita gente corrigiu valores defasados dos seus bens para poder vend6-los, quando ne- cessirio, sem ter que arcar com impos- tos pesados. Mas Jader deixou tudo como estad. Talvez seguindo aquela famo- sa m~xima futebolistica: nio se mexe em time que esti ganhando. E o senador (dis- so ningumm tem d~vida) esti ganhando. Poderd sofrer uma fragorosa derrota agora? O impact da mat~ria de Veja nao pode ser minimizado. Mas a revista ji teria interrompido a carreira political na- cional de Jgder se o tivesse abordado de forma mais sistematica, indo is 61ltimas conseqii~ncias, apurando com precisio maxima tudo o que se diz (de verdadeiro ou de falso) sobre Jader Barbalho. A re- vista o tem atingido como uma abelha: diduma ferroada e depois voa. As vezes o ataque temumngancho, aautentica mo- tivag~io jomalistica, em cima de fats ime- diatos. As vezes serve a uma encomen- da, ou, pelo menos, a um interessado na cena do crime, para usar a velha frase dos policiais. Tenha ou nio as iniciais de ACM, um contumaz freqilentador de bastidores jornalisticos. No final de 1988, por exemplo, a re- vista deu as mesmas sete piginas e capa semelhante a Jader, a partir da revelaqio de um prontu~rio sobre ele formado pela ag~ncia do SNI to polbmico Servigo Na- cional de Informages do regime military) em Bel~m. Grande parte dos 139 regis- tros desse prontudirio nio passavam de recortes de jomnais, coletados sem qual- quer critbrio seletivo, sem verificaqio dos dados. O document nem chegou a ser oficializado porque a ag~ncia central o refugou, por sua evidence inconsistancia. Mas foi levado em miios a sede de Veja em S~io Paulo. A revista divulgou os da- dos sem chegar a realizar plenamente aquilo que define um servigo de intelig~n- cia ou uma investigag.o jornalistica: se- parar o que 6 verdadeiro do que 6 falso, checar com rigor. O que os arapongas queriam de fato com a repercuss~o do prontudrio era impedir a limpeza que o general Ivan de Souza Mendes estava tentando entio fazer nos ponies do SNI, na busca da profissionalizag5io do 6rgio. Jg a revis- ta, ao cobrar do entio president Jos6 Sarney (hoje tentando ser candidate al- ternativo a Jader dentro do PMDB) a contradigio de nomear para o minist6- rio um politico que um organismo auxi- liar da pr6pria presid~ncia da Repuibli- ca considerava corrupto, talvez visasse mais a re forma agrairia. Pois foi justamente quando a re for- ma agrdria ameagava de desapropria- 950o as inataciveis propriedades rurais brasileiras que Veja descobriu os des- vios do ent~io governador paraense, res- ponsivel pela indicagio para o rec~m- criado Minist~rio da Re forma Agrdria do advogado Nelson Ribeiro, ex-pre- sidente do Banpar6 (outra fonte de es- cindalos no period, com seus cheques administrativos voadores). Uma vez afastado o ministry, a fuiria reveladora declinou. Mas os fats por apurar continuaram pendentes. ,E perma- necem imprecisos at6 hoje. Epoca re- pete que o esc~indalo do chamado "poli- gono dos Castanhais",em Marabi, deve- se auma desapropriaCgo fraudulent feita por Jader quando ministry. O esc~indalo realmente existe, mas diz respeito a uma prosaica operagio de compra e venda, n~io a uma desapropriag~o. Ao dar o golpe inteligente, ali~s, Ja- der provocou uma mudanga s~ibita, apa- rentemente (e s6 aparentemente) mila- grosa: proprietirios rurais, que antes fu- giam da reform agrdria como o diabo da cruz, passaram a se amontoar nos corredores do Mirad oferecendo seus O JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE NOVEMBRO/2000 Correqlo Algumas gralhas pequenas por~m chatas pousaram sobre textos da edig~o anterior. Fizeram com que o consultor-geral do Esta- do na segunda administra~go Jader Barbalho, Joto Roberto Cavaleiro de Macedo, se transformasse em corregedor-geral (cargo, alias, que lhe cairia muito bem se tivesse sido escolhido desembargador). Pelas gralhas, perdio, leitores. imi~veis B negociagio do minist~rio. E permitindo ainda a Jader proclamar' ha- ver estabelecido a paz no campo (quan- to ao prego, ah, isso 6 detalhe). Da mesma maneira, o "esc~indalo do Aurd devia-se menos a nio existir fisi- camente a Area desapropriada por inte- resse pdiblico e mais ao pass seguinte, de naquela direa construir 35 mil casas populares, servigo que, apbs a devida licitag~io pdiblica, seria entregue ao prin- cipal financiador da campanha ao go- verno do Estado em 1982, um amigo de Jader que tamb~m atendia como donor de uma construtora. Talvez esses equivocos continue a ser repetidos para sempre, tanto porque as grandes empresas jorna- listicas nio parecem empenhadas em chegar tio long, como porque essa 6 tamb~m uma preocupagio do se- nador do ParB, as parties mostrando suas armas (ou insinuando-as) para nio ter que chegar A complete con- flagraqio b61ica. Sua forma de enca- rar os fats como um jogador de p6- COT no esporte Salvo alguns arranh~es grdf icos, que creditamos e/ou debitamos 21 conta das atribulaqdes e afazeres do seu redator, revisor e editor, as matbrias do nP 244 estio excelentes., Particularmente aque- la (pag. 07) que voct compare nossas mazelas maiores g inoperante seleqdo de Luxemburgo. Foi um fiasco total. O desempenho brasileiro foi assaz decep- cionante. Perfeita a imagem "se arras- tando como sombras". O Chico Buar- que usou recurs semelhante em uma de suas letras. Tenho dois reparos e uma observa- 950 a fazer sobre o tema. Os reparos: o virtuoso Djalma Santos n~o foi zaguei- ro, ele atuava no setor intermedidrio, ri- gorosamente na lateral esquerda. Que eu saiba, o Jair Rosa Pinto, foi apenas um embrito goleador, gragas ao seu te- mivel e potente chute. Quanto ao Zizi- nho, concordo, um g~nio. A observagaio vai por conta da predis- posiCqlo dos negros para o futebol, em de- trimento dos seus irm~os brancos. Como sou um individuo comndeterminada viv~n- cia nos meios futebolisticos, pego vbnia para discordar de sua colocago. AtC por- quer diante das cartas, auda frio o bastante para blefar ( tudo esti aparentemente perd: dele o maior politico vivo do : Vivo tamb~m em sentido sim se a grande imprensa brasilei faz6-lo passar aos olhos da como um novo Adhemar de B politico que roubava mas fazii ao menos resta como console o destiny de Adhemar, que jam; cioso e seguiu chegar g presid~ncia da Repdi- quando blica, seu maior sonho, mas mandou e ido, fez desmandou ao long de duas d~cadas Estado. no maior Estado da federaqio. Fazen- Ib61ico: do ao menos uma parte do tanto que ra quer apregoava haver feito e nio roubando nagio tanto quanto lhe imputavam os ferozes arros, o advers~rios (da legendiria fortune s6 a, entio se teve uma id~ia mais precisa quando a Jader guerrilheiros urbanos saquearam o es- ais con- p61io de sua amante, que, ali~s, tinha codinome masculine de dr. Rui). Portanto, se foi Jader Barbalho quem mandou comprar todos os exem- plares de Epoca chegados a Bel~m e responded a Veja comn a engenhosa procuraqio, 6 sinal de que, se nio con- seguir chegar g presid~ncia do Senado e do Congresso Nacional, tornando- se o quarto na linha sucess6ria do pre- sidente da Rep~iblica, ji esti em cam- panha para voltar ao governor do Esta- do pela terceira vez, batendo um re- corde no Par8. Com ou sem o cargo que ACM e os barges da imprensa nio querem que ele ocupe. I ,mundo curecendo, inclusive no aristocraitico rmativa. tinis de quadra. Mas nd~o na natagd'o. valores A falta de maior aprofundamento ci- ;unto de entifico e melhor exam (e mesmo a, sejam quando e se o tivermos), recomendei itural da que se evite substituir um preconcei- to por outro. Atleta L atleta, indepen- dentemente da cor (uma oportunida- :erveira de de cair no pior que Jesse Owens ofereceu aos alemd~es e eles nd~o apro- veitaram). Assim como o ser humane ompleto em geral. O resto e o democraitico di- eria za- reito de se gostar de macarronada na artro jo- terra do pato no tucupi. ~t;CGm ra zaga gueiros. sdo me- cos. Li- sa mui- liddnci- grande esados, zeio st- lo atle- ro fute- r~icanos a didis- os es- vai es- que, salvo engano, nio ha nada no cientifico que justifique a sua afire Como este pais vive uma crise de e de afirmaqdes, espero que o ass seu texto e o fecho desta missive entendidos como um desabafo na humilhagio imerecida. Rodolfo Lisboa C Minha resposta O titulo cc da posigd~o de Djalma Santos sc gueiro lateral-esquerdo. Os quc gadores da defesa, estejam n central ou nas laterals, sdo za~ Ao menos desde o 4-2-4. Ncdo afirmei que os negros ~ chores atletas do que os brane mitei-me a registrar o que pen: ta gente, a partir de certas ev as. Como a de que ndo hh um campedio branco de pesos-pe no boxe, desde Joe Louis, ha m: culo. Os negros predominam ni tismo, no basquete e, agora, n bol, com o crescimento dos af; (sendo decisivos nos paises d pora negra). Em quase todos portes a cor dos vencedores JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE NOVEMBRO/2000 7 O embaixador americano fala. Fala em nome de quem? O intervencionismo americano e um fato. Sem ele, o cidadio m~dio dos Esta- dos Unidos nTio teria nas prateleiros dos seus supermercados produtos do mundo inteiro a prepos acessiveis, freqtiente- mente inferiores aos dos mercados de origem. A expansio desse intervencio- nismo no continent latino-americano e outro fato, derivado do desejo dos EUA de encontrar novas fontes de suprimento do que necessitam e novos compradores para o que produzem. Agora, se desse crescimento da presenga americana na AL derivara uma ocupa~go military ou formas intermedidrias de ocupa~go, te- mos, por enquanto, uma inc6gnita ou uma hip6tese ainda em aberto. A pax americana se express na Alca, a zona de livre combrcio envolvendo o Canada e o M~xico, mas que se insinua para o sul do hemisfbrio americano. Os Estados Unidos nio admitem mais paises dotados de gravidade pr~pria na sua area magn~tica. Como todos participam, ativa ou passivamente, de um bloco hist6rico, ainda estamos na fase de convencimento. Mas o didlogo tem premissas, ou, como diriam os juristas, cliusulas p~treas. Que, por isso mesmo, sso invariaveis. Contra uma Europa unificada, ao menos como prop6sito, os EUA n~io parecem dispos- tos a admitir uma Ambrica fracionada. Muito menos pulverizada. Mas atC que ponto os americanos es- tlo dispostos a it para alcanqar seus ob- jetivos estrat~gicos? A voz official da Casa Branca garante que nem um pass al~m da normalidade institutional. O que 6 bom para os EUA, como a democracia repre- sentativa, tem que ser bom tamb~m para os seus parceiros. Mas esse reconheci- mento ao livre-arbitrio alheio nio inter- fere na formaqio dos pregos do super- mercado de esquina na terra do Tio Sam? E o que fiquei a me perguntar ao final da leitura da entrevista dada a revista Veja pelo embaixador americano no Brasil, Anthony Harrington. Na entrevista, que mereceu as piginas amarelas da revista, ha dois trechos que devem ser examina- dos com aten~go por quem mora na Ama- zdnia ou se interessa pela regigo, ainda mais porque o embaixador 6 apresentado como democrata de carteirinha, amigo pessoal dos Clinton, al~m de ser um dos dons do "maior e mais traditional escri- tbrio de advocacia nos Estados Unidos" . O embaixador consider absurda a id~ia de uma intervengdo americana na Amaz~nia em fungi~o da ameaga que a ocupa~go desordenada represent para a regido. "Os americanos diz ele slo fascinados pela floresta, tanto quanto a maioria das pessoas em todo o mundo. N6s sabemos que existem tecnologias de desenvolvimento sustentado das florestas tropicais e que o Brasil esti genuinamen- te interessado em preservar a Amaz6nia". Nio e exatamente assim. Os Estados Unidos destruiram no passado quase tan- ta floresta quanto n6s, na Amazbnia, nas tras 61timas decadas. O "quase" result do nivel tecnol6gico existente durante o pique de desmatamento nos EUA, entire o seculo passado e o inicio deste s~culo, ain- da sem a motosserra. A diferenga com- parativa atual, desfavoravel a n6s, 6 fun- 950 da menor area florestada que restou em territ6rio americano, onde ja nio ha tanto o que destruir quanto na Amaz~nia. Mas fiquei escandalizado com o que vi durante uma visit que fiz hB 10 anos ao Oregon, no extreme noroeste do pais, como conVidado official do Departamen- to de Estado (essa maravilhosa contra- di~go, de raizes jeffersonianas, 6 o que mais me fascina no sistema americano). Os madeireiros nio apenas estavam pon- do abaixo o que restava da 61ltima reser- va de floresta native dos EUA, como po- diam exportar madeira em toras, o que faziam, i larga, para o Japio. No Brasil, desde 18 anos antes, estava proibida a exporta~go de toras, A tradi~go americana n~io 6 propria- mente a da conviv~ncia ou mesmo inte- raqio com florestas, exceto em parques e reserves, um modo de ver e agir res- ponsavel tamb~m pelas reservations para os indios. Mas interpretemos restri- tivamente a afirmaqio do embaixador: os EUA c o mundo sio fascinados nio pela floresta em geral, mas pela floresta ama- zinica. At6 algum tempo atris o fascinio tinha causes determinadas: a necessida- de de madeira e a atraqio pela "vida sel- vagem", esta uma combinaqio de Rous- seau com relag~es pdiblicas e marketing adaptada ao bandeirantismo made in USA, do qual Theodore Roosevelt foi um prot6tipo (ou emblema?). Hoje, esse fascinio se explica pelo ris- co do aquecimento global do planet. A principal fonte do problema 6 a ind~istria americana, que reluta em investor (o in- vestimento e deveras pesado) no com- bate e tratamento da poluigio que ocasi- ona, e o cidadio do imperio, que nio abre mio do way of life ainda suntuirio, prin- cipalmente se referido a maioria da po- pulagio deste globo terrestre, n6s inclui- dos, apesar da posigIio de liderang~a em que o generoso embaixador nos coloca. A reducgio na atmosfera das emissies poluentes originadas do Primeiro Mundo, sobretudo dos Estados Unidos, nio guard proporgio com a gravidade do problema, que ameaga perigosamente a habilitabili- dade da Terra nas pr6ximas decadas. Exagerado ou nio, o problema 6 real. Os mais ricos nio querem que ele cres~a, mas nio querem reduzir sua riqueza. Uma das saidas mais consideradas 6 usar a floresta amazbnica para o seqtiestro de carbon. Em terms tedricos, ji se sabe mais ou menos bem medir a rela~go en- tre a emissio gravosa das chamin~s das fabricas ou dos escapamentos dos car- ros ea massa florestal necessaria para compensar a inexistencia de sbrios con- troles de emissdes, que exigiriam conver- sio industrial pesada. O que nio se sabe 6 como p~r em pritica esses c~lculos. E, mesmo que essas relaqdes fossem do- minadas, como assegurar a seriedade desse process compensat6rio. Como a ameaga avanga, o que inte- ressa agora 6 segurar floresta para ter volume capaz de suprir a insufici~ncia dos outros mecanismos de absor~go do car- bono gerado pelo home. O balcio de neg6cios com o seqtiestro de carbon ji e ativo, mexendo com centenas de milhdes de d61ares. Do lado dos ricos h9 a deman- da por floresta. Do lado dos pobres, ha a busca por dinheiro. Sem uma instincia arbitral e controladora, hi um cenario fa- voravel a especula~go eag manipula~go, sobre cuja tend~ncia ja temos entire n6s sinais indicadores (de minha parte, estou carregando tras cruzes por ter me colo- cado contra um desses especuladores). O embaixador tem razio quando diz que hi "tecnologias de desenvolvimento das florestas tropicais", em tese, em ex- perimentos restritos ou em atividades ain- da pioneiras, algumas enredadas no en- saio e erro. Jg nio 6 tio incontroversa sua afirmativa seguinte, de que o Brasil "esta genuinamente interessado em pre- servar a Amaz~nia". Se os EUA dizem que, movidos pelo fascinio para com a floresta amaz8nica, est~o dispostos a dar toda a colabora~go possivel para salvi-) Jornal Pessoal Editor: L~oco Fldvio Plnto Fones: (091) 223-7690 (fone-fax) e 241-7626 (lax) Conlato: Tv. Benjamln Constant 845i203/66.053-040 e-mail: ]ornal@amazonncom.br Edlgho de arte: Lulzantoniodefarlaplnto:230- 1304 6) r9~(l I r( fIr8 l la, o governor brasileiro adiciona sua voz ao coro dizendo que age nessa mesma diregao. Mas estamos apenas no plano do discurso, da ret6rica. E a realidade? A realidade n~o e exatamente essa. Nem o Brasil mostrou capacidade (e empenho conseqtiente) em sequer com- preender a Amaz~nia, nem as interfe- rancia dos EUA sho para corrigir esse desvio, ji que o know-how histbrico da casa nio 6 esse. Se os dois paises real- mente querem tirar a Amazinia da pira do modelo de desenvolvimento econ8- mico que a tem sacrificado, entilo o pon- to de partida saudavel 6 o de investor numa escala compativel com o desafio que a Amaz~nia represent para o co- nhecimento cientifico e tecnolbgico e assegurar um grau m~ximo de democra- cia nesse process, de tal maneira que nio haja dogmas nem proibiq9es na ta- refa de enfrentar essa inc6gnita. O pro- cesso, portanto, precisa urgentemente de profundas mudangas. Mais adiante, o embaixador reafir- ma que os Estados Unidos estario "prontos a ajudar o Brasil a desenvol- ver a regido de uma maneira que seja inbcus para o meio ambiente e faea justiqa nos formidiveis recursos naturais que os brasileiros possuem". E complete, como se nio quisesse nada, tudo querendo: "Algumas pessoas di- zem que a agio das madeireiras asitti- cas naquela regilo esti fora de con- trole. Isso seria um risco considerivel. Mas nio tenho informaCio suficiente para fazer uma avaliaqio da situaqio". Ou seja: os EUA querem ser o grbi- tro de programs bipartites com o Bra- sil. Os brasileiros contario com toda a boa vontade dos Estados Unidos desde que seguirem um clnone fixado em Wa- shington, de onde viria a avaliaqio do que 6 in6cuo ao meio ambiente e faz jus- tiga g fabulosa reserve de recursos na- turais do pais, localizada na Amazinia. Nenhuma relagio de equilibrio pode re- sultaram dessa ostpolitik. Ricos, os Estados Unidos podem apoiar os brasi- leiros com seus recursos materials e seu conhecimento, mas para ajudar os bra- sileiros a chegar gs suas pr6prias con- clus~es e encontrar suas pr6prias sai- das. Essa e uma attitude boa ao mesmo tempo para a humanidade, os EUA, o Brasil e a Amaz~nia. Mas ela s6 6 pos- sivel com tolerbncia para com o dife- rente, respeito ao contrbrio e aceita~go da auto-determinapgo alheia. E uma equaqlo viivel? E, de qualquer modo, um grande desa- flo, duro e ao mesmo tempo fascinante. Tio fiicil quanto impor os interesses ame- ricanos atrav~s do big-stick 6 reagir a ele com o estigma do imperialismo. Contra Juracy Magalhaes, o triste autor da frase "o que 6 bom para os Estados Unidos, 6 bom para o Brasil", vale pouco carimbar que o que vem dos EUA ndo nos serve. Com o Projeto Col~mbia, os Esta- dos Unidos deram um pass muito gra- ve dentro do nosso continent. Esse tipo de passada costuma ser dada pe- los americanos com botas. Se assim for, de novo, sera um erro de conse- qtiincias funestas, se nio de imedia- to, certamente a m~dio prazo. Mas nio se pode esperar os desdobramentos do erro: para que ele nio assuma a esca- la de uma trag~dia, 6 precise retifick- 10 de imediato, a partir da premissa de que existe e 6 um fato aninomalo na evoluqdo end6gena da AL. Ao inv~s de aceitar como fato con- sumado a americanizaglo da AL, con- trapondo-a comn a latino-americanizaqio do continent. Jg nio mais com as fra- ses empoladas dos nossos d~spotas e os floreios formats dos diplomats. Mas in- terligando nossas riquezas e fazendo-as convergir nio mais para fora, enquanto mat~ria bruta, mas para dentro, enquanto element de um process mais amplo. Sera exportada quando a tivermos ree- laborado, sejam as mercadorias, seja o conhecimento. Tudo carimbado com o selo da nossa identidade e a marca da nossa capacidade. g os dois digamos assim favorites. O TJE colocou Geraldo em sua lista para poder excluir dela o candidate que ti- nha a prefer~ncia pessoal do governa- dor, Haroldo Guilherme Pinheiro da Sil- va. Geraldo passou a ter boa cota~go quando deixou o PT, rompido com o pre- feito Edmilson Rodrigues, de cuja ad- ministra~go foi o primeiro secretirio de finanqas, e assumiu o comando juridi- co da campanha de Zenaldo Coutinho, o derrotado candidate tucano Q prefei- tura de Bel~m, servindo aos interesses politicos do governador. Mas os desem- bargadores nio pareciam acreditar que o governador levaria a gratidio a pon- to de optar pelo ex-petista. Almir parece ter agido exatamente assim para mandar sua mensagem de desagrado aos desembargadores, repe- tindo o que Jader Barbalho fez em 1992, quando responded ao tribunal escolhen- do uma zebra, que havia entrado na lis- ta triplice para permitir o expurgo do fa- vorito, no caso, o ex-consultor geral do Estado, Joso Roberto Cavaleiro de Ma- cedo. Almir ji havia mandado recados contra a indica~go de Edmundo, um con- traparente de Jader Barbalho (ao me- nos enquanto ele foi casado com Elcio- ne Barbalho), cujos maiores servings foram prestados a partir de Miami, de onde exercia uma assessoria do Minis- tbrio P~blico estadual, promovendo cur- sos e visits para integrantes do MP e da magistratura nos Estados Unidos (e que pretendia usar o desembargo para alcangar a c~rte international de Haia). Assim, Geraldo Lima foi um aut~nti- co azargo. Assumindo o alto posto que conquistou, cabe-lhe agora reafirmar sua independencia, decidindo conforme a le- tra da lei c o seu context, mas nio suas circunstincias e condicionantes. g Para escolher o advogado Geraldo Lima como novo desembargador, o 61lti- mo no col~gio de 30 integrantes do Tri- bunal de Justiga do Estado, o governador Almir Gabriel teve que resistir a dois gru- pos de pressio. O mais forte era o do prbprio tribunal: os desembargadores queriam que seu novo par fosse Edmun- do Oliveira, que havia ficado no terceiro lugar na vota~go feita pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil/Seqdo ParB) para a composi~go da lista stxtupla (ver Jornal Pessoal 245) e passou para a cabega da lista triplice remetida pelo TJE ao governador. A outra pressio era da Igreja, ou especificamente do arcebispo de Bel~m, d. Vicente Zico, que trabalhou em favor de Joho Maroja, o terceiro da lista submetida a Almir Gabriel. O governador preferiu Geraldo Lima nio exatamente por um crit~rio salo- minico, escolhendo quem estava entire |
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