Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00196

Full Text






L I


r8 0 0 :c "t1~1a, ,~ j 8BII ~ l ~n~~~~I


CIO


ANO XIV NP 246 18 QUINZENA DE NOVEMBRO DE 2000 RS 2,00

ELEICA~O



Um pinoquio na PMB?
O episd'dio do diploma falso n~o pode ser mais cobrado na justig~a de
Duciomar Costa. Ele e' importante, porim, n~o por representar um incident
superado na vida do candidate a prefeitura de Beli'm, mas por revelar o cara'ter
de um hbomem que pode assumir um orgamento de mais de meio bilbd~o de reais.


Duciomar Gomes da Costa, 45
feitura de Bel~m, empatado
nas pesquisas referentes ao 2*
Dturno com Edmilson Rodri-
gues, do PT, pensa que eu, vocC e todos
n6s somos completes idiotas. Orientado
por seus marqueteiros, ele responded a
- muito mal-feita, por sinal campanha
de denuncias do seu advers~rio sobre
suas falsidades sustentando que esta
completamente limpo.
O PT, fiel ao estilo do seu candidate
a reeleiCgo, investiu com sofreguiddo
contra o advers~rio. Ao inv~s de for-
necer informaF~es ao pilblico para que
ele as examinasse, decidiu fazer tudo,


da apresenta~go dos fats ao julgamen-
to final do acusado. Para esses petis-
tas, basta ndo ser um igual para mere-
cer a condenaq~o. Acham que tudo o
que disserem 6 verdade e tem que ser
acatado como tal. Ngo toleram a con-
trov~rsia, nio aceitam a critical. Por
isso, permitiram a Duciomar vestir a
pele de vitima (ou de ovelha) e rever-
ter a acusagio contra os acusadores,
desviando o eleitor da reflexio sobre o
principal element disponivel para ava-
liar a qualidade da sua candidatura.
Duciomar nio cometeu um simples
deslize, um erro a que todos estamos su-
jeitos. Quem, quando joyem, jb ndlo "fu-
rou" uma festa, mostrou para o porteiro


uma carteira vencida ou declarou-se de-
tentor de um titulo que efetivamente nio
possuia? Ha erros que sho produto da
imaturidade. Hsi outros que, cometidos ja
na idade avangada, resultam de uma ir-
reflexho ou de um impulse incontido, sen-
do, entretanto, veniais.
Mas hi tamb~m erros essenciais,
que podemos cometer em qualquer fase
da vida. Uma vez consumados, trata-
mos de admitir a falha, pedimos per-
dio, nos submetemos a pena e prome-
temos levar em consideraqio a li~go.
Isto, se somos pessoas de bom carter,
merecedoras de confianga. Mais do que
o erro em si, hB posturas diante dos
erros que definem uma pessoa.


Torna CeSSOR


FLAIV


IO PINT






2 JORNAL. PESSOAL la QUINZENA DE NOVEMBRO/2000


Duciomar Costa, entire os varios ofici-
os que exerceu, a partir de uma origem
tio humilde quanto a minha, a sua e da
esmagadora maioria dos cidadios desta
cidade que ndo nasceram em bergo es-
plendido, era comerciante. Tinha uma 6ti-
ca, a Guanabara (a outra, a Ipanema, es-
tava em nome do irmlo), onde, natural-
mente, vendia 6culos. Atividade honrada,
como qualquer outra quando 6 exercida
com honestidade, decincia,, consciencia.
Duciomar queria mais. Otimo, elogi8-
vel. Mas, ao inv~s de se matricular no
exame de sele~go de uma institui~go de
ensino superior, o caminho natural para
uma graduaqgo universitaria, procurou al-
gu~m que se dispis a vender-lhe um di-
ploma de m~dico. Jg entio com 30 anos
de idade, Duciomar foi atris de um falsi-
ficador de documents, que a policia nio
conseguiu localizar porque o atual candi-
dato a prefeito forneceu uma pista para
nlo variar falsa.
Duciomar pagou a esse contraventor
500 mil cruzeiros (valor da 6poca) por um
falso diploma de medico, que teria sido
expedido pela Universidade Federal do
Paraiem dezembro de 1979, assinado pelo
reitor Aracy Barreto (ji falecido). Ao de-
por na Policia Federal, em outubro de 1985,
Duciomar confirmou tudo. A linica men-
tira que contou foi apontar como criador
do document um representante comer-
cial, Luiz Carlos. No mais, confirmou que
realmente, em 18 de julho de 1985, solici-
tou sua inscriplo no Conselho Regional de
Medicine, apresentando o diploma que
havia comprado. Constatada sem maior
indagaqlo a falsidade do document, a
partir de information prestada pelo Cen-
tro de Citncias de Sadide da UFPA, admi-
tiu perante o CRM seu erro. Mas conti-
nuou clinicando, prescrevendo receitas e
aviando 6iculos, para isso usando os im-
pressos que havia mandado fazer.
Mesmo depois de haver reconhecido
o crime cometido perante o CRM e a Po-
licia Federal, Duciomar continuou a prati-
ca-lo. No relat6rio das dilig~ncias que fez
a pedido do juiz federal, para instruir o pro-
cesso criminal, em abril de 1986, o dele-
gado da PF, Geraldo Aradijo, informou:
"Tive recentemente noticia que Duciomar
anda clinicando gratuitamente no interior
do Estado visando sua eleigio a Deputa-
do Estadual no pleito deste ano". Isto, seis
meses depois de Duciomar ter reconheci-
do o delito perante~a policia.
O juiz federal Edison Messias de Al-
meida nlo hesitou, por tal motive, em de-
clarar na sua sentenga condenat6ria que
Duciomar agiu com "dolo". Quer dizer
que seus atos foram praticados com mi-
f6, com adeliberada intenq~o de tirar pro-
veito do crime, plenamente ciente do que
fazia. Que tipo de beneficios queria?


"Marcadamente argentarios", diz o titu-
lar da l' vara da justiga federal na deci-
sio, de 1994. Ou seja: Duciomar queria
ganhar dinheiro. No inicio, era sd dinhei-
ro. Mas logo em seguida ele decidiu ser
politico. Para conseguir votos, atendeu
gratuitamente pessoas necessitadas de
cuidado medico, mas sem dinheiro para
pagar pelo serving.
Duciomar nio se perturbou com a
"imensa carga de potencialidade lesiva"
do seu ato, do qual resultaria o "risco de
levar os incautos B invalidez por ceguei-
ra e outros agravos", conforme a sen-
tenga do juiz federal. Se quisesse real-
mente ajudar os desvalidos, o donor da
6tica poderia pagar um medico verdadeiro
para manter um consult6rio no seu esta-
belecimento commercial, assumindo os cus-
tos desse encargo.
Ao declarar-se habilitado para o de-
sempenho de uma tarefa que nio exige
apenas experi~ncia e vontade, mas for-
maqio t~cnica, conhecimento especi-
fico, ele foi muito al~m do que a cari-
dade ou a solidariedade autorizariam.
Dai o juiz ver na per-
sonalidade do falso
medico "desvio dos
padres de normalida-
de, revelando caracte-
res tipicos de pessoa 31
extremamente ambici- .
osa, ousada e solerte".
Uma pessoa com
tais desvios de persona-
lidade deixa de ser ho- \
nesta, decent, cons-
cenciosa, confiavel. I
Pode agir com cortesia, gentileza e at6
mesmo corre~go at6 o ponto em que co-
megam seus interesses pessoais, o prin-
cipal dos quais, conforme o diagn6stico
do magistrado, que apteciou o caso ao
long de oito anos de instru~go proces-
sual, 6 o "marcadamente argentario", de
ganhar dinheiro, mesmo que para isso
precise agir com "dolo", mb-f6.
Duciomar Costa era r~u primbrio quan-
do foi condenado em primeira instincia
pela justiga federal, em 1994. Nessa con-
diqdo, devia receber uma pena mais leve.
No entanto, considerando as "circunstin-
cias e conseqiiancias do crime, desfavo-
riveis face o refinamento com que agiu",
o juiz Edison Messias de Almeida houve
por bem "impor-lhe condena~go no grau
m~dio" da pena prevista pelos delitos que
praticou, de uso de document falso (arti-
go 304 do C6digo Penal brasileiro), com-
binado com o de falsificaq~lo de document
pliblico (artigo 297). Recebeu a "pena pri-
vativa de liberdade de tras anos de reclu-
slo, em regime aberto, e ao pagamento
de 97 dias de multa, g raz~o de um e trinta
avos (1/30) do saldrio minimo".


Embora o condenado fosse r~u con-
fesso do crime de que foi acusado, a lei
lhe permitia recorrer em liberdade. E ele
recorreu. NTio houve um segundo julga-
mento: antes que chegasse esse momen-
to, a pena aplicada prescreveu (o que eqiii-
vale a um produto perder sua validade) e
ele se tornou inimputaivel. Ou seja: embo-
ra tivesse reconhecido o crime que come-
teu e por ele tivesse sido condenado na
Ainica instincia do process judicial em que
um juiz decide sozinho (o que se chama
de decisio monocritica), o nome de Du-
ciomar nio poderia ser inscrito no rol dos
culpados e ele estaria livre para todos os
efeitos legals, inclusive ode poder conti-
nuar a carreira political, que ji iniciara.
Seus marqueteiros, portanto, nio men-
tem quando garantem que Duciomar pode
obter a qualquer memento uma certidiio
negative da justiga. A condena~go de l'
instincia, nio tendo sido apreciada (nem
confirmada nem negada) na etapa seguin-
te da tramita~go de um process regular, a
partir do memento em que a decisdo inicial
nio foi aceita, deixou de ter validade legal.
Duciomar pade ser
novamente candidate e,
se veneer a eleigilo do dia
29, assumird o cargo de
<1,*-prefeito normalmente.
: *Mas os documents pro-
0- duzidos no curso dopro-
cesso, sendo o element
-emais important da sua
!~~VC~17 biografia (ao menos a co-
-t~c~rnhecida), revelam a face
verdadeira da sua perso-
nalidade, causando inqui-
etagio aos que receiam vC-lo comandan-
do a prefeitura da capital do Para.
A ningu~m mais 6 dada a prerrogativa
de querer que Duciomar Costa venha a
ser novamente processado por um crime
ji prescrito. Mas qualquer pessoa mais
atenta tem todo o direito de ndo querer
vt-lo como ordenador de despesas sobre
um orgamento pliblico de mais de meio
bilhio de reais. Duciomar decidiu friamen-
te cometer um crime (apresentar-se como
medico a partir de um diploma falso, com-
prado de um contraventor) quando ji es-
tava com 30 anos de idade. Por causa
dessa habilita~go esp~iria, tornou-se um
charlatio. Flagrado no delito, admitiu-o.
Mesmo assim, continuou a pratic8-lo.
Primeiro, para ganhar mais dinheiro
na sua 6tica. Depois, para se tornar poli-
tico. S6, quando jd havia conseguido o
primeiro mandate, o de vereador, 6 que
parece ter deixado de se apresentar como
m~dico. Mas, experimentado nos mean-
dros, criou uma funda~go para receber
recursos, nem sempre de fonte identifi-
cada, e assim ampliar um assistencialis-
mo at6 entio praticado amadoristicamen-)






JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE NOVEMBRO/2000


te por politicos que dele se valiam para
montar suas carreiras e seu poder,
Mas nlo deixou de delinqiiir. O diplo-
ma que o Conselho Regional de Medicina
e a Policia Federal provaram ser forjado
serviu para Duciomar se tornar aluno do
cursor de direito da Unama sem passar pelo
vestibular. Usou oatalho do chamado 'ves-
tibulinho", ao qual s6, t~m acesso os can-
didatos com nivel superior complete. Du-
ciomar nao se vexou, como dizem os nor-
destinos, em tirar do cofre um document
falso que, no depoimento a PF, dissera que
havia destruido.
Desta vez o diploma ndio era falso. Mas
s6 assegurava ao portador o titulo de ba-
charel em direito. Para advogar, Duciomar
precisava se submeter a um exame da
OAB. Ele nio fez isso, por~m. Muita gen-
te, como ele, nio faz o exame da ordem.
Nem por isso compete um delito. Basta que
n~io advogue ou nio se declare advogado.
Depois de ter entrado por um atalho irre-
gular na graduaqio, Duciomar abriu seu site
na Internet apresentando-se como advoga-
do. S6, apagou a qualificaqiio quando de-
nunciado. Um novo escorregio, confirman-
do o desvio de personalidade apontado pelo
juiz que o condenou-
Ao inv~s de repetir, de piiblico, a con-
fissio que fez perante o CRM, a Policia
Federal e ojuiz, diante dos quais, em ne-
nhum memento, negou as acusaFges que
lhe foram feitas, o candidate Duciomar
Costa mente e delinqiie. Como mentiu e
delinqiiiu ao continuar clinicando como
medico mesmo depois de iniciados os pro-
cessos administrative, policial e judicial
contra ele. Como cometeu fraude delibe-
rada ao fugir do vestibular da Unama e ao
se dizer advogado no seu site de candida-
to a prefeito de Bel~m.
As raz~es para ele continuar a mentir
e a tentar enganar a opinihio pxiblica de-
vem ser as mesmas que levaram seus
marqueteiros a desaconselhar o seu com-
parecimento ao debate na TV RBA, na
semana passada, o primeiro programado
para a campanha do segundo turno. A ten-
tativa inicial de fuga foi feita atraves da
mentira, mais uma vez: de pronto, o can-
didato alegou nio haver recebido convite
da emissora. Provada a mentira, recorreu
a outro ardil: ndo iria se confrontar com
um advers~rio que pratica a baixaria, ca-
luniando-o, injuriando-o e difamando-o.
Mas a verdadeira raz~Lo 6 que Ducio-
mar nio esti~ preparado para debater. Ele
6 vazio de id~ias. E ele 6 vulnerrivel de-
mais para se expor numa controversial para
valer. N~io que the faltem de todo qualida-
des. Ele 6 sagaz, esperto, trabalhador, vo-
luntarioso. Sabe muito bem desempenhar
o papel que lhe deram, de bom vizinho, de
amigo aninimo, de pessoa sensivel ao dra-
ma alheio, prestativo, solid~rio.


Contra a imagem de um concorrente
arrogante, furioso, escondido atras de
uma mi~scara de falso otimismo e confi-
anga, de um histrionismo enrijecido, ele
se apresenta como aquela pessoa pr6xi-
ma, pacata, que traz uma solugio sim-
ples, domestica, um projeto feijio-com-
arroz contra a culindria complicada que
quer mais um mandate.
Mas o grande erro de campanha do
PT foi achar que Duciomar era apenas
um pobre coitado, produto do marketing,
filhote dos abundantes recursos bombea-
dos por tris dos panos pelo governador,
uma fraude total. O eleitor que esta dan-
do o seu voto a tal candidate d~o e uma
fraude. A situaqio na qual a mensagem
de Duciomar germinou como trigo bomn,
mesmo ngo passando de joio, 6 real, as-
sustadoramente real. Nio foi apenas o
acaso e a vontade que criaram essa figu-
ra: ela responded tamb~m a uma necessi-
dade. Ela 6 o retrato de uma cidade cada
vez mais pobre, cada dia mais dilacerada
entire contrastes e paradoxes, marcada por
um sentiment crescente de impotencia,
mas, como seria de se esperar, empenha-
da em sobreviver. De qualquer maneira.
OPT correspondeu a essa expec-
tativa quatro anos atris. Edmil-
son Rodrigues, com todos os seus
defeitos e vicios, 6 um politico me-
lhor do que Ductomar. Mas ele nio
foi eleito por ser o melhor candida-
to. Ele foi eleito porque o povo que-
ria dizer nhio is velhas liderangas po-
liticas do ParSk. O eleitor deixou fora da
prefeitura as criaturas dessas liderangas,
a deputada federal Elcione Barbalho e o
economist Ramiro Bentes. O povo que-
ria experimentar o novo.
Em 1996 Edmilson era o novo. Esque-
cendo essas circunst~incias, ele achou que
era o lider, o grande lider do povo, que,
na corrente de pensamento dele, significa
dizer o 6nico. Edmilson nio desceu do
palanque. Continuou a falar para audito~ri-
os com sua verborragia oca, sua sintaxe
de cliches, seu raciocinio dogmitico.
Apesar dele, pessoas que ocuparam
cargos p~blicos na prefeitura de Bel~m em
conseqaiincia da vitibria do PT trabalham
bem, ou pelo menos razoavelmente. Nio
fizeram muito, nem tanto quanto seria ne-
cess~rio para que a misdria de Bel~m fos-
se atenuada, para que nio continuasse a
ser o element decisbrio numa eleigio, para
que nio permitisse a um Duciomar Costa
se apresentar em 2000 como o novo, um
novo retardati~rio, atrasado em relagio a
1996, mas um novo revitalizado pelos er-
ros da administraqio Edmilson Rodrigues
quatro anos a frente da PMB (erros que


nio discrepam de anteriores administra-
95es, mas nio sio t~io lamenta~veis).
Sem descer do palanque, nosso alcaide
comegou a tratar da candidatura seguinte,
a governador do Estado, em 2002. Essa sua
postura sempre me trouxe a imagem do
goleiro de time de futebol que, ao se prepa-
rar para receber uma bola dentro da sua
area, deixa de olh8-la e ji encara o campo
1 sua frente, imaginando para quem vai
passar a bola quando a pegar. O resultado
dessa precipitagio slio alguns dos mais fe-
nomenais frangos do futebol: a bola passa
pelas miios do goleiro enquanto ele tenta
encontrar o jogador a quem vai servir uma
bola que ainda nio 6 sua. O mesmo erro
de contar os frangos, na situaqio real e nio
na linguagem simb61ica, antes que a gali-
nha tenha posto os ovos.
Edmilson cometeu esse erro por sua
empafia, autoritarismo e arrogincia, tipi-
cas de um ditador, mesmo de ditador pos-
to no cargo (para ele um trono) pelo voto,
mas incapaz de encarar com realismo (e
a necessiria humildade) a histibria verda-
deira da sua vit6ria eleitoral.
Julgando-se o mais esperto e o mais
preparado de todos, ou, mais ainda do que
isso, o escolhido (por ele mesmo, claro)
para ser o guia do povo, o profeta das
multid~es, um novo messias, enfim, o al-
caide fez obras eleitoreiras e de ocasigo,
buscando adesIso imediata e voto para logo
em seguida. As obras de maior fblego fi-
caram para depois ou est~o sendo toca-
das sem o apoio devido, ou foram iniciadas
de s~ibito. As ameagas de competing em
brilho foram devidamente ofuscadas: um
messias nunca aceita sombra. Os critics
foram punidos por nio ecoarem a voz do
lider. Os dulicos foram premiados. O espe-
Ilho se tornou o interlocutor do eleito. Ave,
Edmilson (ou heil?)
O resultado 6 que Edmilson engrossou
o caldo de cultural para o assistencialismo,
o solidarismo estreito e a demagogia. Um
novo messias como Duciomar esti mais
perto do povo. Ele nlo quer fazer a revo-
lu~go (embora o adversario dele esteja em-
penhado em fazer a revolu~go apenas na
virulincia do discurso e na contundancia
dos gestos), mas resolver problems do
dia a dia do seu eleitor potential, ainda que
a custa de nio resolver problema algum
da sociedade. O eleitor 6 concrete, a so-
ciedade 6 ab strata. Viva o individualism,
6 o lema nlo escrito dessa gesta.
E chegamos onde estamos: a possibili-
dade de que a fraude tome conta da admi-
nistraC~o da mais important cidade da
Amaz~nia. Se tal ocorrer, Bel~m, a idilica
"metri~pole das luzes" de um prefeito que se
deixou enganar por sua pr~pria propaganda,
ate poderd vir a ser considerada, al~m de
uma nova Calcuth, a Cartago tropical se
para tanto sobrarem as pedras.






Lf JOURNAL PESSOAL, P QUINZENA DE NOVEMBRO/2000




A fortune de Jader:


nador Jader Barbalho foi a
principal matbria national das
duas maiores revistas de infor-
maqio do pais, ambas acusando de ili-
cita ou irregular a formaqio do seu pa-
triminio pessoal. A primeira delas foi a
Ep~oca, a revista de Roberto Marinho,
o donor da Rede Globo de Televisio,
que dedicou sete pi~ginas ao lider do
PMDB. A segunda foi Veja, da Editora
Abril: al~m das mesmas sete piginas, a
revista- a quarta em tiragem do mundo
no seu gtnero colocou uma foto de
Jader Barbalho na capa e no indice, de-
dicando-lhe ainda a Carta ao leitor, de
responsabilidade do seu editor. Pelo
menos sete milh~es de brasileiros, lei-
tores das duas revistas, tiveram acesso
i~s reportagens. E 20% mais do que toda
a populagio do Pard.
O fato 6 raro na histi~ria da imprensa
brasileira. Quando um concorrente sai na
frente com uma mat~ria forte, como fez
Epoca, a mat~ria do outro concorrente
costuma cair, conforme o jarg~io das re-
da95ies. Indiferentemente, por~m, ao
destaque dado ao tema uma semana an-
tes na revista da Editora Globo, Veja
manteve o seu petardo jornalistico na se-
mana imediata. Sua maior novidade foi ter
feito a atualizagSio do patriminio. Ep~oca
acatou o valor que Jader declarou g re-
ceita federal, de 2,6 milh~es de reais. Mas
Veja,ouvindo especialistas na mat~ria,
corrigiu os valores hist~ricos (ou seja, da
6poca da primeira incorporaqio do bem
g declarag~io de rendimentos) e chegou a
um patriminio 10 vezes maior, de quase
R$ 30 milhaes (mas que teria chegado,
em 1995, a quase R$ 38 milhdes).
"Como um politico refine 30 milhdes
de reais?", 6 a pergunta do editor. Por
dever de oficio, a revista saiu atris da
resposta. Garante n~io haver se baseado
nos dossits acusat6rios trocados entire
Jader e seu maior desafeto no memento,
obaiano Anti~nio Carlos Magalhies, em-
penhado em n~io t8-lo como successor na
presid~ncia do Senado, em eleigio que
acontecera em fevereiro do pr~ximo ano.
A "natureza dos fatss, que a revista diz
ter apurado, "C, infelizmente para o se-
nador Jader Barbalho, muito mais con-
tundente" do que as inconvincentes pro-
vas contidas no dossib de ACM.


Com o amaior beneficiado pela di-
vulgagio da reportagem 6 o senador bai-
ano, o editor de Veja responded logo A
elementary pergunta que se costuma fazer
em tal situaq~io ("a quem interessa?"): "A
resposta 6 simples: ela serve aos interes-
ses do pais e Aqueles do leitor de Veja,
que, ao long dos 32 anos de histi~ria da
revista, se acostumou comn a tradigio de
jornalismo s~rio e independent que pra-
ticamos- sem medo, e sem favoritismo".
Jader Barbalho reagiu de duas ma-
neiras ao ataque. Quando Epoca che-
gou is bancas de Bel~m, um decidido
comprador se apoderou de todos os
exemplares entregues. Disse o Rep~rter
Didirio, a principal coluna do journal do
senador, que era gente "do outro lado"
se apossando da revista para espalhi-la
pelo interior, hoje o grande reduto eleito-
ral do peemedebista. No entanto, nenhum
voraz comprador fantasma estava apos-
tos nas bancas quando os exemplares de
Veja foram desembarcados. Simultanea-
mente, contudo, gente "do outro lado" ras-
pava os exemplares de Istod com uma
matbria que deixava mal Duciomar Cos-


ta, o candidate "do outro lado" A prefei-
tura de Bel~m. JA o senador Jader Bar-
balho trocou o mutismo da semana ante-
rior por uma resposta g sua maneira, de
jogador de p~quer, nesta semana.
Quando os jornalistas chegaram ao
seu gabinete, em Brasilia, para a entre-
vista coletiva por ele convocada, rece-
beram de Jader a c6pia de uma procu-
raqio feita em cartbrio e uma nota es-
crita. Atrav~s desses documents, cre-
denciava a Editora Abril e o autor da
matbria, Alexandre Oltramari (apresen-
tado pelos jdderistas como genro do
deputado federal Josu6 Bengtson, com-
panheiro tucano na chapa de Zenaldo
Coutinho g prefeitura) a venderem to-
dos os seus bens pelo valor que diziam
que eles valiam.
Obviamente, nem a editor e nem o
jornalista sho corretores de im6veis. A
blague 6 sagaz, mas nio responded a
pergunta que, ali~s, perpassa sem
uma clara definigio todo o texto da re-
portagem, mas se insinua o tempo todo:
Jader, ao long de 34 anos sempre um
politico, s6 se tornou rico porque o)






JOURNAL PESSOAL e la QUINZENA DE NOVEMBRO/2000 5





a quem interessa?


poder lhe deu acesso a certos meca-
nismos de favorecimento.
A comprovag5io 6 cristalinaj jno pri-
meiro grande investimento que ele fez,
com o qual abriu as portas do enrique-
cimento. Em agosto de 1980 obteve um
financiamento da Sudhevea (a extinta
Superintend~ncia do Desenvolvimento
da H~vea), atravQs do Banco do Brasil,
para plantar seringueira em uma das
duas fazendas que possuia, obtidas atra-
v~s de trocas com outra propriedade que
recebeu em pagamento de servings
prestados como advogado. O empr~s-
timo venceria em 14 anos e os juros
eram de 12% ao ano.
O ent~io deputado federal deu como
garantia duas casas suas, no conjunto
Bela Vista. Apenas dois meses depois de
fechar o neg~cio, Jader teve acesso a um
novo cr~dito, agora para para custeio,
com o qual iria extrair quatro mil metros
cuibicos de madeira de lei na Fazenda Po-
liana. Sobre esse dinheiro incidiriam ju-
ros de 2% ao ano e correg~o monetiria
annual de 28%. Como garantia, deu em
penhor a pr6pria madeira e, em hipote-
ca, uma das duas casas do conjunto Bela
Vista, que ji estava penhorada.
Nada de excepcional na operaq2io
(embora generosamente deferida), ji
que sobre um bem pode incidir dupla
hipoteca. O problema 6 que os dois
imi~veis valiam apenas 20% do primei-
ro dos dois financiamentos. Para melho-
rar as coisas, a Sudhevea baixou de-
pois uma norma quitando pelo valor his-
t6rico as dividas de financiamento em
heveicultura que nio deram certo por
fatores climiticos, mas resultaram em
uma estupenda aplicag~o de capital.
Transa95es semelhantes, acrescidas
de virias outras facilidades que um de-
tentor de cargo de mando politico pode
ter, explicam o vertiginoso incremento pa-
trimonial de Jader do inicio de sua car-
reira, em 1966, at6 hoje, depois de ter
sido deputado estadual, deputado fede-
ral, govemnador do Estado (duas vezes),
ministry (duas vezes) e senador, al~m de
president national do maior partido po-
litico do pais. A formaq~io da sua fortune
ao long de 21 anos entiree 1974 e 1995,
segundo os c~lculos feitos pela revista),
passando de R$ 61 mil para R$ 29,7
milhies (deduzidos os R$ 8 milh~es que


transferiu B ex-esposa e aos filhos quan-
do se separou de Elcione Barbalho) exi-
giria uma poupanga mensal de R$ 150
mil, algo muito acima das fontes de ren-
dimento declaradas do parlamentar.
Em sua defesa, Jader esgrime um fato:
tudo o que possui esti registrado em seu
nome. A nio ser que surjaprova em con-
trdrio, ele n~io tem "laranjas", nem apli-
cap6es secrets. Durante periods de
cinco anos, a receita federal tem condi-
95es de examiner sua variag~o patrimo-
nial e verificar se ela 6 incompativel com
sua renda, exigindo comprovag~io.
Ao que parece, a declaragio de ren-
dimentos do senador nio foi glosada at6
hoje. Ele usa essa situaqio como certi-
d~io negative. Para manter esse status
quo, nem mesmo se aproveitou de um
dispositivo recent criado pelo govemo
para a atualizagio dos valores patrimo-
niais sem a incidincia tribut~ria. Muita
gente corrigiu valores defasados dos seus
bens para poder vend6-los, quando ne-
cessirio, sem ter que arcar com impos-
tos pesados. Mas Jader deixou tudo
como estad. Talvez seguindo aquela famo-
sa m~xima futebolistica: nio se mexe em
time que esti ganhando. E o senador (dis-
so ningumm tem d~vida) esti ganhando.
Poderd sofrer uma fragorosa derrota
agora? O impact da mat~ria de Veja nao
pode ser minimizado. Mas a revista ji
teria interrompido a carreira political na-
cional de Jgder se o tivesse abordado de
forma mais sistematica, indo is 61ltimas
conseqii~ncias, apurando com precisio
maxima tudo o que se diz (de verdadeiro
ou de falso) sobre Jader Barbalho. A re-
vista o tem atingido como uma abelha:
diduma ferroada e depois voa. As vezes
o ataque temumngancho, aautentica mo-
tivag~io jomalistica, em cima de fats ime-
diatos. As vezes serve a uma encomen-
da, ou, pelo menos, a um interessado na
cena do crime, para usar a velha frase
dos policiais. Tenha ou nio as iniciais de
ACM, um contumaz freqilentador de
bastidores jornalisticos.
No final de 1988, por exemplo, a re-
vista deu as mesmas sete piginas e capa
semelhante a Jader, a partir da revelaqio
de um prontu~rio sobre ele formado pela
ag~ncia do SNI to polbmico Servigo Na-
cional de Informages do regime military)
em Bel~m. Grande parte dos 139 regis-


tros desse prontudirio nio passavam de
recortes de jomnais, coletados sem qual-
quer critbrio seletivo, sem verificaqio dos
dados. O document nem chegou a ser
oficializado porque a ag~ncia central o
refugou, por sua evidence inconsistancia.
Mas foi levado em miios a sede de Veja
em S~io Paulo. A revista divulgou os da-
dos sem chegar a realizar plenamente
aquilo que define um servigo de intelig~n-
cia ou uma investigag.o jornalistica: se-
parar o que 6 verdadeiro do que 6 falso,
checar com rigor.
O que os arapongas queriam de fato
com a repercuss~o do prontudrio era
impedir a limpeza que o general Ivan de
Souza Mendes estava tentando entio
fazer nos ponies do SNI, na busca da
profissionalizag5io do 6rgio. Jg a revis-
ta, ao cobrar do entio president Jos6
Sarney (hoje tentando ser candidate al-
ternativo a Jader dentro do PMDB) a
contradigio de nomear para o minist6-
rio um politico que um organismo auxi-
liar da pr6pria presid~ncia da Repuibli-
ca considerava corrupto, talvez visasse
mais a re forma agrairia.
Pois foi justamente quando a re for-
ma agrdria ameagava de desapropria-
950o as inataciveis propriedades rurais
brasileiras que Veja descobriu os des-
vios do ent~io governador paraense, res-
ponsivel pela indicagio para o rec~m-
criado Minist~rio da Re forma Agrdria
do advogado Nelson Ribeiro, ex-pre-
sidente do Banpar6 (outra fonte de es-
cindalos no period, com seus cheques
administrativos voadores).
Uma vez afastado o ministry, a fuiria
reveladora declinou. Mas os fats por
apurar continuaram pendentes. ,E perma-
necem imprecisos at6 hoje. Epoca re-
pete que o esc~indalo do chamado "poli-
gono dos Castanhais",em Marabi, deve-
se auma desapropriaCgo fraudulent feita
por Jader quando ministry. O esc~indalo
realmente existe, mas diz respeito a uma
prosaica operagio de compra e venda,
n~io a uma desapropriag~o.
Ao dar o golpe inteligente, ali~s, Ja-
der provocou uma mudanga s~ibita, apa-
rentemente (e s6 aparentemente) mila-
grosa: proprietirios rurais, que antes fu-
giam da reform agrdria como o diabo
da cruz, passaram a se amontoar nos
corredores do Mirad oferecendo seus






O JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE NOVEMBRO/2000


Correqlo

Algumas gralhas pequenas
por~m chatas pousaram sobre
textos da edig~o anterior. Fizeram
com que o consultor-geral do Esta-
do na segunda administra~go Jader
Barbalho, Joto Roberto Cavaleiro
de Macedo, se transformasse em
corregedor-geral (cargo, alias, que
lhe cairia muito bem se tivesse sido
escolhido desembargador). Pelas
gralhas, perdio, leitores.


imi~veis B negociagio do minist~rio. E
permitindo ainda a Jader proclamar' ha-
ver estabelecido a paz no campo (quan-
to ao prego, ah, isso 6 detalhe).
Da mesma maneira, o "esc~indalo do
Aurd devia-se menos a nio existir fisi-
camente a Area desapropriada por inte-
resse pdiblico e mais ao pass seguinte,
de naquela direa construir 35 mil casas
populares, servigo que, apbs a devida
licitag~io pdiblica, seria entregue ao prin-
cipal financiador da campanha ao go-
verno do Estado em 1982, um amigo
de Jader que tamb~m atendia como
donor de uma construtora.
Talvez esses equivocos continue
a ser repetidos para sempre, tanto
porque as grandes empresas jorna-
listicas nio parecem empenhadas em
chegar tio long, como porque essa
6 tamb~m uma preocupagio do se-
nador do ParB, as parties mostrando
suas armas (ou insinuando-as) para
nio ter que chegar A complete con-
flagraqio b61ica. Sua forma de enca-
rar os fats como um jogador de p6-






COT no esporte

Salvo alguns arranh~es grdf icos, que
creditamos e/ou debitamos 21 conta das
atribulaqdes e afazeres do seu redator,
revisor e editor, as matbrias do nP 244
estio excelentes., Particularmente aque-
la (pag. 07) que voct compare nossas
mazelas maiores g inoperante seleqdo
de Luxemburgo. Foi um fiasco total. O
desempenho brasileiro foi assaz decep-
cionante. Perfeita a imagem "se arras-
tando como sombras". O Chico Buar-
que usou recurs semelhante em uma
de suas letras.
Tenho dois reparos e uma observa-
950 a fazer sobre o tema. Os reparos: o
virtuoso Djalma Santos n~o foi zaguei-
ro, ele atuava no setor intermedidrio, ri-
gorosamente na lateral esquerda. Que
eu saiba, o Jair Rosa Pinto, foi apenas
um embrito goleador, gragas ao seu te-
mivel e potente chute. Quanto ao Zizi-
nho, concordo, um g~nio.
A observagaio vai por conta da predis-
posiCqlo dos negros para o futebol, em de-
trimento dos seus irm~os brancos. Como
sou um individuo comndeterminada viv~n-
cia nos meios futebolisticos, pego vbnia
para discordar de sua colocago. AtC por-


quer diante das cartas, auda
frio o bastante para blefar (
tudo esti aparentemente perd:
dele o maior politico vivo do :
Vivo tamb~m em sentido sim
se a grande imprensa brasilei
faz6-lo passar aos olhos da
como um novo Adhemar de B
politico que roubava mas fazii
ao menos resta como console
o destiny de Adhemar, que jam;


cioso e seguiu chegar g presid~ncia da Repdi-
quando blica, seu maior sonho, mas mandou e
ido, fez desmandou ao long de duas d~cadas
Estado. no maior Estado da federaqio. Fazen-
Ib61ico: do ao menos uma parte do tanto que
ra quer apregoava haver feito e nio roubando
nagio tanto quanto lhe imputavam os ferozes
arros, o advers~rios (da legendiria fortune s6
a, entio se teve uma id~ia mais precisa quando
a Jader guerrilheiros urbanos saquearam o es-
ais con- p61io de sua amante, que, ali~s, tinha
codinome masculine de dr. Rui).
Portanto, se foi Jader Barbalho
quem mandou comprar todos os exem-
plares de Epoca chegados a Bel~m e
responded a Veja comn a engenhosa
procuraqio, 6 sinal de que, se nio con-
seguir chegar g presid~ncia do Senado
e do Congresso Nacional, tornando-
se o quarto na linha sucess6ria do pre-
sidente da Rep~iblica, ji esti em cam-
panha para voltar ao governor do Esta-
do pela terceira vez, batendo um re-
corde no Par8. Com ou sem o cargo
que ACM e os barges da imprensa nio
querem que ele ocupe. I






,mundo curecendo, inclusive no aristocraitico
rmativa. tinis de quadra. Mas nd~o na natagd'o.
valores A falta de maior aprofundamento ci-
;unto de entifico e melhor exam (e mesmo
a, sejam quando e se o tivermos), recomendei
itural da que se evite substituir um preconcei-
to por outro. Atleta L atleta, indepen-
dentemente da cor (uma oportunida-
:erveira de de cair no pior que Jesse Owens
ofereceu aos alemd~es e eles nd~o apro-
veitaram). Assim como o ser humane
ompleto em geral. O resto e o democraitico di-
eria za- reito de se gostar de macarronada na
artro jo- terra do pato no tucupi.


~t;CGm


ra zaga
gueiros.

sdo me-
cos. Li-
sa mui-
liddnci-
grande
esados,
zeio st-
lo atle-
ro fute-
r~icanos
a didis-
os es-
vai es-


que, salvo engano, nio ha nada no
cientifico que justifique a sua afire
Como este pais vive uma crise de
e de afirmaqdes, espero que o ass
seu texto e o fecho desta missive
entendidos como um desabafo na
humilhagio imerecida.

Rodolfo Lisboa C


Minha resposta O titulo cc
da posigd~o de Djalma Santos sc
gueiro lateral-esquerdo. Os quc
gadores da defesa, estejam n
central ou nas laterals, sdo za~
Ao menos desde o 4-2-4.
Ncdo afirmei que os negros ~
chores atletas do que os brane
mitei-me a registrar o que pen:
ta gente, a partir de certas ev
as. Como a de que ndo hh um
campedio branco de pesos-pe
no boxe, desde Joe Louis, ha m:
culo. Os negros predominam ni
tismo, no basquete e, agora, n
bol, com o crescimento dos af;
(sendo decisivos nos paises d
pora negra). Em quase todos
portes a cor dos vencedores






JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE NOVEMBRO/2000 7



O embaixador americano fala.


Fala em nome de quem?


O intervencionismo americano e um
fato. Sem ele, o cidadio m~dio dos Esta-
dos Unidos nTio teria nas prateleiros dos
seus supermercados produtos do mundo
inteiro a prepos acessiveis, freqtiente-
mente inferiores aos dos mercados de
origem. A expansio desse intervencio-
nismo no continent latino-americano e
outro fato, derivado do desejo dos EUA
de encontrar novas fontes de suprimento
do que necessitam e novos compradores
para o que produzem. Agora, se desse
crescimento da presenga americana na
AL derivara uma ocupa~go military ou
formas intermedidrias de ocupa~go, te-
mos, por enquanto, uma inc6gnita ou
uma hip6tese ainda em aberto.
A pax americana se express na Alca,
a zona de livre combrcio envolvendo o
Canada e o M~xico, mas que se insinua
para o sul do hemisfbrio americano. Os
Estados Unidos nio admitem mais paises
dotados de gravidade pr~pria na sua area
magn~tica. Como todos participam, ativa
ou passivamente, de um bloco hist6rico,
ainda estamos na fase de convencimento.
Mas o didlogo tem premissas, ou, como
diriam os juristas, cliusulas p~treas. Que,
por isso mesmo, sso invariaveis. Contra
uma Europa unificada, ao menos como
prop6sito, os EUA n~io parecem dispos-
tos a admitir uma Ambrica fracionada.
Muito menos pulverizada.
Mas atC que ponto os americanos es-
tlo dispostos a it para alcanqar seus ob-
jetivos estrat~gicos? A voz official da Casa
Branca garante que nem um pass al~m
da normalidade institutional. O que 6 bom
para os EUA, como a democracia repre-
sentativa, tem que ser bom tamb~m para
os seus parceiros. Mas esse reconheci-
mento ao livre-arbitrio alheio nio inter-
fere na formaqio dos pregos do super-
mercado de esquina na terra do Tio Sam?
E o que fiquei a me perguntar ao final
da leitura da entrevista dada a revista Veja
pelo embaixador americano no Brasil,
Anthony Harrington. Na entrevista, que
mereceu as piginas amarelas da revista,
ha dois trechos que devem ser examina-
dos com aten~go por quem mora na Ama-
zdnia ou se interessa pela regigo, ainda
mais porque o embaixador 6 apresentado
como democrata de carteirinha, amigo
pessoal dos Clinton, al~m de ser um dos
dons do "maior e mais traditional escri-
tbrio de advocacia nos Estados Unidos" .
O embaixador consider absurda a
id~ia de uma intervengdo americana na


Amaz~nia em fungi~o da ameaga que a
ocupa~go desordenada represent para a
regido. "Os americanos diz ele slo
fascinados pela floresta, tanto quanto a
maioria das pessoas em todo o mundo.
N6s sabemos que existem tecnologias de
desenvolvimento sustentado das florestas
tropicais e que o Brasil esti genuinamen-
te interessado em preservar a Amaz6nia".
Nio e exatamente assim. Os Estados
Unidos destruiram no passado quase tan-
ta floresta quanto n6s, na Amazbnia, nas
tras 61timas decadas. O "quase" result
do nivel tecnol6gico existente durante o
pique de desmatamento nos EUA, entire o
seculo passado e o inicio deste s~culo, ain-
da sem a motosserra. A diferenga com-
parativa atual, desfavoravel a n6s, 6 fun-
950 da menor area florestada que restou
em territ6rio americano, onde ja nio ha
tanto o que destruir quanto na Amaz~nia.
Mas fiquei escandalizado com
o que vi durante uma visit
que fiz hB 10 anos ao Oregon, no
extreme noroeste do pais, como
conVidado official do Departamen-
to de Estado (essa maravilhosa contra-
di~go, de raizes jeffersonianas, 6 o que
mais me fascina no sistema americano).
Os madeireiros nio apenas estavam pon-
do abaixo o que restava da 61ltima reser-
va de floresta native dos EUA, como po-
diam exportar madeira em toras, o que
faziam, i larga, para o Japio. No Brasil,
desde 18 anos antes, estava proibida a
exporta~go de toras,
A tradi~go americana n~io 6 propria-
mente a da conviv~ncia ou mesmo inte-
raqio com florestas, exceto em parques
e reserves, um modo de ver e agir res-
ponsavel tamb~m pelas reservations
para os indios. Mas interpretemos restri-
tivamente a afirmaqio do embaixador: os
EUA c o mundo sio fascinados nio pela
floresta em geral, mas pela floresta ama-
zinica. At6 algum tempo atris o fascinio
tinha causes determinadas: a necessida-
de de madeira e a atraqio pela "vida sel-
vagem", esta uma combinaqio de Rous-
seau com relag~es pdiblicas e marketing
adaptada ao bandeirantismo made in
USA, do qual Theodore Roosevelt foi um
prot6tipo (ou emblema?).
Hoje, esse fascinio se explica pelo ris-
co do aquecimento global do planet. A
principal fonte do problema 6 a ind~istria
americana, que reluta em investor (o in-


vestimento e deveras pesado) no com-
bate e tratamento da poluigio que ocasi-
ona, e o cidadio do imperio, que nio abre
mio do way of life ainda suntuirio, prin-
cipalmente se referido a maioria da po-
pulagio deste globo terrestre, n6s inclui-
dos, apesar da posigIio de liderang~a em
que o generoso embaixador nos coloca.
A reducgio na atmosfera das emissies
poluentes originadas do Primeiro Mundo,
sobretudo dos Estados Unidos, nio guard
proporgio com a gravidade do problema,
que ameaga perigosamente a habilitabili-
dade da Terra nas pr6ximas decadas.
Exagerado ou nio, o problema 6 real. Os
mais ricos nio querem que ele cres~a,
mas nio querem reduzir sua riqueza.
Uma das saidas mais consideradas 6 usar
a floresta amazbnica para o seqtiestro de
carbon. Em terms tedricos, ji se sabe
mais ou menos bem medir a rela~go en-
tre a emissio gravosa das chamin~s das
fabricas ou dos escapamentos dos car-
ros ea massa florestal necessaria para
compensar a inexistencia de sbrios con-
troles de emissdes, que exigiriam conver-
sio industrial pesada. O que nio se sabe
6 como p~r em pritica esses c~lculos. E,
mesmo que essas relaqdes fossem do-
minadas, como assegurar a seriedade
desse process compensat6rio.
Como a ameaga avanga, o que inte-
ressa agora 6 segurar floresta para ter
volume capaz de suprir a insufici~ncia dos
outros mecanismos de absor~go do car-
bono gerado pelo home. O balcio de
neg6cios com o seqtiestro de carbon ji e
ativo, mexendo com centenas de milhdes
de d61ares. Do lado dos ricos h9 a deman-
da por floresta. Do lado dos pobres, ha a
busca por dinheiro. Sem uma instincia
arbitral e controladora, hi um cenario fa-
voravel a especula~go eag manipula~go,
sobre cuja tend~ncia ja temos entire n6s
sinais indicadores (de minha parte, estou
carregando tras cruzes por ter me colo-
cado contra um desses especuladores).
O embaixador tem razio quando diz
que hi "tecnologias de desenvolvimento
das florestas tropicais", em tese, em ex-
perimentos restritos ou em atividades ain-
da pioneiras, algumas enredadas no en-
saio e erro. Jg nio 6 tio incontroversa
sua afirmativa seguinte, de que o Brasil
"esta genuinamente interessado em pre-
servar a Amaz~nia". Se os EUA dizem
que, movidos pelo fascinio para com a
floresta amaz8nica, est~o dispostos a dar
toda a colabora~go possivel para salvi-)










































































Jornal Pessoal
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6) r9~(l I r( fIr8 l


la, o governor brasileiro adiciona sua voz
ao coro dizendo que age nessa mesma
diregao. Mas estamos apenas no plano
do discurso, da ret6rica. E a realidade?
A realidade n~o e exatamente essa.
Nem o Brasil mostrou capacidade (e
empenho conseqtiente) em sequer com-
preender a Amaz~nia, nem as interfe-
rancia dos EUA sho para corrigir esse
desvio, ji que o know-how histbrico da
casa nio 6 esse. Se os dois paises real-
mente querem tirar a Amazinia da pira
do modelo de desenvolvimento econ8-
mico que a tem sacrificado, entilo o pon-
to de partida saudavel 6 o de investor
numa escala compativel com o desafio
que a Amaz~nia represent para o co-
nhecimento cientifico e tecnolbgico e
assegurar um grau m~ximo de democra-
cia nesse process, de tal maneira que
nio haja dogmas nem proibiq9es na ta-
refa de enfrentar essa inc6gnita. O pro-
cesso, portanto, precisa urgentemente
de profundas mudangas.
Mais adiante, o embaixador reafir-
ma que os Estados Unidos estario
"prontos a ajudar o Brasil a desenvol-
ver a regido de uma maneira que seja
inbcus para o meio ambiente e faea
justiqa nos formidiveis recursos
naturais que os brasileiros possuem".
E complete, como se nio quisesse nada,
tudo querendo: "Algumas pessoas di-


zem que a agio das madeireiras asitti-
cas naquela regilo esti fora de con-
trole. Isso seria um risco considerivel.
Mas nio tenho informaCio suficiente
para fazer uma avaliaqio da situaqio".
Ou seja: os EUA querem ser o grbi-
tro de programs bipartites com o Bra-
sil. Os brasileiros contario com toda a
boa vontade dos Estados Unidos desde
que seguirem um clnone fixado em Wa-
shington, de onde viria a avaliaqio do
que 6 in6cuo ao meio ambiente e faz jus-
tiga g fabulosa reserve de recursos na-
turais do pais, localizada na Amazinia.
Nenhuma relagio de equilibrio pode re-
sultaram dessa ostpolitik. Ricos, os
Estados Unidos podem apoiar os brasi-
leiros com seus recursos materials e seu
conhecimento, mas para ajudar os bra-
sileiros a chegar gs suas pr6prias con-
clus~es e encontrar suas pr6prias sai-
das. Essa e uma attitude boa ao mesmo
tempo para a humanidade, os EUA, o
Brasil e a Amaz~nia. Mas ela s6 6 pos-
sivel com tolerbncia para com o dife-
rente, respeito ao contrbrio e aceita~go
da auto-determinapgo alheia. E uma
equaqlo viivel?
E, de qualquer modo, um grande desa-
flo, duro e ao mesmo tempo fascinante.
Tio fiicil quanto impor os interesses ame-
ricanos atrav~s do big-stick 6 reagir a ele
com o estigma do imperialismo. Contra


Juracy Magalhaes, o triste autor da frase
"o que 6 bom para os Estados Unidos, 6
bom para o Brasil", vale pouco carimbar
que o que vem dos EUA ndo nos serve.
Com o Projeto Col~mbia, os Esta-
dos Unidos deram um pass muito gra-
ve dentro do nosso continent. Esse
tipo de passada costuma ser dada pe-
los americanos com botas. Se assim
for, de novo, sera um erro de conse-
qtiincias funestas, se nio de imedia-
to, certamente a m~dio prazo. Mas nio
se pode esperar os desdobramentos do
erro: para que ele nio assuma a esca-
la de uma trag~dia, 6 precise retifick-
10 de imediato, a partir da premissa de
que existe e 6 um fato aninomalo na
evoluqdo end6gena da AL.
Ao inv~s de aceitar como fato con-
sumado a americanizaglo da AL, con-
trapondo-a comn a latino-americanizaqio
do continent. Jg nio mais com as fra-
ses empoladas dos nossos d~spotas e os
floreios formats dos diplomats. Mas in-
terligando nossas riquezas e fazendo-as
convergir nio mais para fora, enquanto
mat~ria bruta, mas para dentro, enquanto
element de um process mais amplo.
Sera exportada quando a tivermos ree-
laborado, sejam as mercadorias, seja o
conhecimento. Tudo carimbado com o
selo da nossa identidade e a marca da
nossa capacidade. g


os dois digamos assim favorites. O
TJE colocou Geraldo em sua lista para
poder excluir dela o candidate que ti-
nha a prefer~ncia pessoal do governa-
dor, Haroldo Guilherme Pinheiro da Sil-
va. Geraldo passou a ter boa cota~go
quando deixou o PT, rompido com o pre-
feito Edmilson Rodrigues, de cuja ad-
ministra~go foi o primeiro secretirio de
finanqas, e assumiu o comando juridi-
co da campanha de Zenaldo Coutinho,
o derrotado candidate tucano Q prefei-
tura de Bel~m, servindo aos interesses
politicos do governador. Mas os desem-
bargadores nio pareciam acreditar que
o governador levaria a gratidio a pon-
to de optar pelo ex-petista.
Almir parece ter agido exatamente
assim para mandar sua mensagem de
desagrado aos desembargadores, repe-
tindo o que Jader Barbalho fez em 1992,
quando responded ao tribunal escolhen-


do uma zebra, que havia entrado na lis-
ta triplice para permitir o expurgo do fa-
vorito, no caso, o ex-consultor geral do
Estado, Joso Roberto Cavaleiro de Ma-
cedo. Almir ji havia mandado recados
contra a indica~go de Edmundo, um con-
traparente de Jader Barbalho (ao me-
nos enquanto ele foi casado com Elcio-
ne Barbalho), cujos maiores servings
foram prestados a partir de Miami, de
onde exercia uma assessoria do Minis-
tbrio P~blico estadual, promovendo cur-
sos e visits para integrantes do MP e
da magistratura nos Estados Unidos (e
que pretendia usar o desembargo para
alcangar a c~rte international de Haia).
Assim, Geraldo Lima foi um aut~nti-
co azargo. Assumindo o alto posto que
conquistou, cabe-lhe agora reafirmar sua
independencia, decidindo conforme a le-
tra da lei c o seu context, mas nio suas
circunstincias e condicionantes. g


Para escolher o advogado Geraldo
Lima como novo desembargador, o 61lti-
mo no col~gio de 30 integrantes do Tri-
bunal de Justiga do Estado, o governador
Almir Gabriel teve que resistir a dois gru-
pos de pressio. O mais forte era o do
prbprio tribunal: os desembargadores
queriam que seu novo par fosse Edmun-
do Oliveira, que havia ficado no terceiro
lugar na vota~go feita pela OAB (Ordem
dos Advogados do Brasil/Seqdo ParB)
para a composi~go da lista stxtupla (ver
Jornal Pessoal 245) e passou para a
cabega da lista triplice remetida pelo TJE
ao governador. A outra pressio era da
Igreja, ou especificamente do arcebispo
de Bel~m, d. Vicente Zico, que trabalhou
em favor de Joho Maroja, o terceiro da
lista submetida a Almir Gabriel.
O governador preferiu Geraldo Lima
nio exatamente por um crit~rio salo-
minico, escolhendo quem estava entire