Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00193

Full Text


omnal essoal
SU C O F LA VIO PIN T O
ANO XIV NP 243 21 QUINZENA DE SETEMBRO DE 2000 RS 2,00
ELEICAO


O pov o:

uma ficqaAo

A eleigd~o deste ano em Bele'm estdi manchbada por vairias neddoas. Uma delas, e'a
manipulagd~o das pesq~uisas pelo maior grulpo de comunicagd~o do norte dio pais, O Liberal.
Outra, por candidates que ndao respeitam seu eleitor. Um deles vai para a cadeia r1indo. O
outro diz que fraudar ndoe e' mim se atende a uma necessidade coletiva.
0 a Com o voto, o povo pode mostrar que estai vivo. E que e' digno.









st oe e rier le- sguao d api o a eqia uocmgo o rmiapsus
gho na qual oPr i eao elioasssets Es iuo umo doVxPplu o di ntttscn
capeo aconldoatas cnqito fi ga o Lbrl rtdspl mrs ootofioIo
naauai osvtsen mirepea ecmncqo o p) oo atl eop~sarsn
supit emao pai anto nrte do pas goad ersetn aa o nrvsao rvaonm
"mpsm" prnialfadeps-lio- d oiio rbiccotmno am eClyo Coffy cn idt doPTU



trnca as um trste tulja pari ecae as- peigiro sobre suaspesquisas eleuitoais. Tdiugo do resou ltomado.mia eq







2 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000


A segunda pesquisa efetivamente di-
vulgada pelos veiculos da familiar Maiora-
na, tambem de responsabilidade do Vox
Populi, causou um forte impact na opi-
niio puiblica: ela registrava uma queda de
10 pontos percentuais do prefeito Edmil-
son Rodrigues em relagio ao seu indice
anterior, medido pela primeira pesquisa que
foi divulgada, a do Ibope. Talvez para ate-
nuar esse impact, O Liberal informou que
o Vox Populi havia aplicado seu questio-
nario uma semana depois do Ibope.
Nio era verdade. O Ibope fez sua
primeira sondagem entire os dias 15 e 17
de agosto. Ja o Vox Populi entrou em
campo entire 18 e 20 de agosto. Foram,
portanto, pesquisas sucessivas. Qual a
explicaqio para o candidate da coligagio
liderada pelo PT ter chegado ao final de
uma pesquisa com 47% das opgbes de
voto e, ao fimn da outra, tr~s dias depois,
cair para 37%, sem um unico fato que
pudesse ser associado a essa radical
mudanga na posiCio do eleitorado, inclu-
sive porque o program eleitoral gratuito
estar apenas comegando?
Naturalmente, o PT pediu para ver
todos os documents da pesquisa, con-
forme a lei eleitoral lhe faculta. O pedido
foi feito, mas ate hoje nio foi atendido
(como nio foram atendidos as solicita-
95es seguintes). O Vox Populi enviou o
modelo do formulario de pesquisa, mas
nio os formularios preenchidos, nem a
amostragem, a distribuigio por bairros, a
documenta~go, enfim, suficiente para
demonstrar que a pesquisa foi efetiva-
mente realizada e, a partir desse ponto,
permitir aos partidos checar sua consis-
tincia e conflabilidade,
Dez dias depois, nova pesquisa do Vox
Populi voltava a ter o mesmo impact, s6
que por motive exatamente inverse: Ed-
milson Rodrigues teria recuperado oito
pontos percentuais, voltando a se posici-
onar no patamar que lhe coubera na pri-
meira pesquisa do Ibope, dentro da mar-
gem de erro ad nitida pela metodologia
utilizada (de tres pontos percentuais).
Outra vez era impossivel detectar fats
que explicassem esse subito e radical zi-
guezague. T~o improvavel quanto a pri-
meira queda de Edmilson era a sua res-
surrei~go seguinte.
Para analistas honestos e competen-
tes, a hipbtese mais plausivel, ante a im-
possibilidade de detectar causes objetivas
para uma evolugho tio ins61ita do candi-
dato do PT, subindo e descendo como se
estivesse numa montanha russa, era a
readequaCio da pesquisa a realidade.
Havia sido construido aquele primeiro
resultado da pesquisa autorizada do Vox
Populi? Se verdadeira a hip6tese, o que


teria havido: aplicaqio incorreta da pes-
quisa ou pura e simplesmente inexistin-
cia de pesquisa?
Como o institute nio depositou no TRE
os documents que a lei lhe impde forne-
cer, e que duas coligagies ja cobraram,
todas as especulagies sio possiveis. Mas
nio ha a menor duivida num ponto: o gru-
po Liberal procurou induzir a vontade do
eleitor manipulando a divulgagio dos re-
sultados das pesquisas que encomendou.
Primeiramente, tentando mostrar que a
candidatura de Edmilson entrara em que-
da livre, perdendo 10 pontos em uma se-
mana (embora as pesquisas tivessem sido
imediatamente sucessivas).
Mas se houve fraude, ela nio produziu
os resultados desejados e exp~s os res-
ponsaveis pela pesquisa as san95es legals,
caso fique demonstrada a manipulaCio e
a justiga cumpra o qlue lhe determine a lei.
Foi precise recuar. Algum tipo de estrago,
por~m, ja estava feito. Ate: que ponto a
perda real de posiCio do prefeito (de 47%
para 41%, conforme as duas pesquisas do
lbope) nio foi, ao menos em parte, induzi-
da pelo noticiario do grupo Liberal?


I~-SO as empresaS

da familiar Maiorana O

privilegio da ds'svida em

relaq~io a essa quest~io.
Mas seguramente o desempenho da cor-
poraqio foi decisive para que o candida-
to do governador, Zenaldo Coutinho, ul-
trapassasse a pessoa menos grata a
"casa", o candidate do PFL, Vic Pires
Franco, que passou do terceiro para o quar-
to lugar. Atrav~s de "lapsos" na ilustraqio
do ranking de candidates e da utilizaqio
dos resultados ora da pesquisa estimula-
da, ora da esponti-nea finall expurgada
na uiltima divulgagio de resultados), o gru-
po Liberal influiu na formaqio de uma ten-
dtncia: de que Zenaldo estava crescendo,
enquanto Vic descia. Na verdade, o can-
didato do PFL podia estar a frente ou na
mesma posiCio do tucano, mas o journal e
as emissoras dos Maiorana tudo fizeram
para a inversio das posiqaes, recorrendo
a mais tosca das fraudes,
Mesmo que o grupo Liberal nio inter-
ferisse no cursor normal dos fats, nio se-
ria impossivel que Vic caisse e Zenaldo
crescesse porque a campanha do primei-
ro nio parece ter conseguido convencer o
eleitor de que Vic 6 um candidate para valer,
Mas a evidence manipulagio de informa-
95es dos Maiorana deu ao candidate do
PFL arguments para denunciar a corpo-


raqio e atribuir-lhe o insucesso que vier a
ter na dispute eleitoral. Basta que apre-
sente didaticamente em seu program as
provas da ma-f6 dos seus inimigos ao no-
ticiar seu desempenho nas pesquisas, sem
as tentativas de maquilagem adotadas em
rela~go a Edmilson Rodrigues.
Essa e:a principal nC~doa da campa-
nha eleitoral deste ano em Belem. Mas
ha outras. O que deve pensar o eleitor ao
ver um dos candidates, o tal do Sheyk, ir
para a cadeia acusado de cometer crime
hediondo contra os seus pr6prios filhos -
e entrar na cela rindo, como se essa acu-
sagio pudesse enriquecer seu curriculo,
curriculo que nada vale na selegio de
candidates? Qualquer um pode, democra-
ticamente, se apresentar para pleitear um
cargo eletivo, inclusive quem ja se apro-
veitou de um titulo falsificado (o de medi-
co), como Duciomar Costa, o candidate
alternativo do governador, e, pela conde-
naqio imposta nos tribunals haver transi-
tado em julgado sem a execugho da pena,
reagir afirmando que receitar 6culos sem
habilitaFgo e melhor do que nio oferecer
essa possibilidade a pessoas sem outro
meio de acesso aos 6culos.
O raciocinio e cinico, mas nio desti-
tuido de fundamentagio pratica. Um povo
ignorado (por gente como os Maiorana),
desassistido (por geraqaes de politicos
oportunistas) e manipulado (atrave~s de
novas praticas populistas, com oocanhes-
tro orgamento participation, as dirigidas
bolsas-escola e remendos urbanos da for-
ga socialista, tende a acreditar em fal-
sos profetas, em medicos charlat~es e
magicos de araque, desde que eles lhe
oferegam algo ja, agora, mesmo que esse
algo tenha a solidez de um castelo de car-
tas e a consistincia de uma constraqio
na areia da praia.
A long prazo todos estaremos mor-
tos, ja disse Lord Keynes. O long prazo
saiu das cogitagies dos belenenses, le-
vados a acreditar que habitam a metr6-
pole das luzes, que serio levados e trazi-
dos do trabalho de graga, com escolas 24
horas para suas criangas e empregos des-
de a porta da sala de aula. Se nio esta-
mos mortos, 6 assim que os dons do po-
der e os pretendentes a esse inquilinato
nos consideram, mera figuraqio para a
realizaqio dos seus apetites.
A eleigio, com todas as suas limita-
95es, ainda 6 o memento mais elevado
desse regime que seria tio ruim se nio
fosse melhor do qlue todos os outros ja
inventados pelo home, a democracia. E
a hora de o povo mostrar que, ao contra-
rio do que pensam os seus feitores, ainda
esta vivo. E nho e: burro, nem tio indi-
gente que esteja impedido de pensar. 8






JOURNAL PESSOAL*2" QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000 3





O porto fantasma


da ilha do Outeiro


O porto da Sotave, qule o governo federal desaproprioue em 1988, estaria
sendo invadido, saqueado e utilizado para atividades cland'estinas,
entire elas o traifico de drogas. Seguidas denu~ncias nzesse sentido te^mv
sido feitas por viz~inhos e observadores do terminal, construi'do na ilha
de Caratateua, a 20 quild metros do centro de Beld'm, integrado ao
projeto da Sotave Amazdonia Qui'mica e Mineral da Amazinia.


empresa pretendia instalar no
local uma grande fabrica de adu
bsquimicos, comn capacidade
para tender o consume de toda a Ama-
z8nia. A Sudam, que aprovou o projeto
em 1 976, liberou para ele 60% dos incen-
tivos fiscais que havia comprometido, re-
presentando 40% do investimento total.
O Banco Mundial emprestou mais 16
milhdes de d61ares (valor da epoca).
Quando a Sotave enfrentava dificul-
dades econ~micas e financeiras para
dar continuidade ao empreendimento, o
president Jos6 Sarney, em julho de
1988, autorizou a Portobras a desapro-
priar o porto e assumir seu control.
Desde entio, a Uniio ja pagou o equi-
valente a 44% do valor da desapropria-
Cho, dinheiro repassado aos credores da
Sotave. Estranhamente, porem, nio se
imitiu na posse do bem, embora o de-
creto desapropriat6rio tenha sido revi-
gorado tris anos atras.
Em fungio dessa inusitada situaqio,
as autoridades do setor t~m se recusado
a adotar provid~ncias diante das reite-
radas demincias de que as instalaqdes
portuarias, parcialmente concluidas, mas
em franco estado de abandon, numa
area de 321 mil metros quadrados, es-
tio sendo pilhadas. Nao s6, bens e equi-
pamentos tem sido roubados, pore~m.
Pelo menos duas fontes suscitaram a
hip6tese de que embarcaqdes transpor-
tando cocaine ja teriam aportado nos pi-
eres, aproveitando-se da ausincia de f is-
caliza~go. Guardas da Norsegel faziam
a seguranga da area, mas a empresa nio
recebe h6 meses. A divida ja teria atin-
gido 1,2 milhio de reais.
O donor da Sotave, Romildo Couti-
nho, ja relatou o problema ao ministry
da Justiga e ao pr6prio president Fer-
nando Henrique Cardoso, mas nenhu-


ma provid~ncia foi adotada. A justifi-
cativa e de que, sem a imissio de pos-
se, legalmente a responsabilidade pelo
patriminio e da Sotave. No entanto,
como a Uniko ja pagou quase metade
do valor desapropriado, 6 claro que, pelo
menos em tese, entire os bens roubados
podem estar os que ja lhe pertencem.
Al~m disso, contrabando e trafico de
drogas, duas das serventias clandesti-
nas dadas ao terminal abandonado,
constituem assuntos da competencia do
governor federal.
O projeto da Sotave e um tema polC-
mico desde seu surgimento, na metade
da d~cada de 70. Em plena regiko ama-
zinica, a empresa se propunha a produ-
zir adubo quimico a partir de insumos im-
portados. A fabrica foi locada numa ilha
de estuario, razoavelmente habitada (qua-
se 40 mil moradores), as proximidades da
maior cidade da regiio, desenvolvendo
uma atividade comn grande potential po-
luidor e contrairia ao que progressivamente
foi se constituindo uma das vocaqdes re-
gionais:0oecoturismo.
A decisio de desapropriar o porto e o
calculo de avaliaqio do bem geraram ain-
da mais discusses. Passada mais de
uma d~cada da interven~go da Portobras,
que at6 ja foi extinta, o ato ainda nio foi
concluido. A ag~o expropriat6ria tramita
por uma das varas da justiga federal de
Bel~m, na fase de execu~go de senten-
ga. Enquanto o patrimbnio da Sotave se
deteriora ee6 saqueado sem uma defini-
950 clara de Brasilia sobre o seu uso, a
prefeitura de Bel~m vem procurando sen-
sibilizar o governor para a municipaliza-
950 do porto. Assumindo-o, o prefeito
Edmilson Rodrigues pretend reciclar seu
uso, adaptando-o para funcionar como
ponto turistico.
Nao hi drivida que 6 uma destinaqio


mais compativel comn a area, mas nio
estabeleceria uma rela~go custo/bene-
ficio deficitaria? Nio se dispie de um
valor atualizado da desapropriaqio ou do
quanto a Uniko ja amortizou desse va-
lor, mas e algo a contar por varios mi-
lhiies de reais. Em grande parte, esse
dinheiro seria jogado fora com a perda
da fungio original das instalaqaes, pro-
jetadas para servirem de terminal gra-
neleiro especializado.
Mesmo com a ameaga ecol6gica
subjacente, mas passivel de prevengho
se houver preocupa~go antecipada a
respeito, nio deveria o porto ser apro-
veitado numa fungo pr6xima da origi-
nal, ainda que parcialmente convertida?
E uma questio dificil, principalmente
diante da limitada capacidade de supor-
te de 25 toneladas da ponte do Ou-
teiro, que faz a ligagio entire Bel~m e o
porto da Sotave.
Um outro dado impressionante nessa
hist6ria 6 que, apesar de o porto existir e
representar uma significativa imobilizaqio
de recursos (na maior pate publicos,
oriundos do tesouro national), e comple-
tamente desconsiderado no plano director
para o sistema portuario da Grande Be-
lem. As alternatives sio o deslocamento
de parte da carga do porto traditional de
Bele~m para Vila do Conde, onde a aco-
moda~go desse novo tipo de carga e pro-
blematica, e a "revitalizaCio" das docas
da capital paraense.
Mesmo sem uma defmigiio explicit,
o terminal da Sotave parece condenado
a perpetuar-se, pela omissio dos respon-
saveis, dentro e fora do governor, na sua
triste fungio atual, de porto semi-clandes-
tino. Pelo menos at6 que, confirmando-
se dentincias e suspeitas, um escindalo
estoure ali. E possivel que, nesse momen-
to, aparega um bombeiro. ()






4 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000





AGlo contra a Cthel:


--res promotores publicos estadu-
aj i5 ajuizaram no forum de Bel~m,
bj no dia 23 de agosto, uma aao
civil publica para apurar e punir os res-
ponsaveis por um crime que, se compro-
vado, seria um dos mais grosseiros e ci-
nicos assaltos ao patriminio publico no
Para nos ultimos anos. Em margo de
1998, o Detran teria decidido pagar a
empresa cearense Fontossensores Tec-
nologia Eletr~nica 70 reais por cada
multa aplicada atraves do uso das impo-
pulares "araras", quando a pr6pria em-
presa, ao veneer concorr~ncia puiblica
para a instala~go desse servigo, poucos
meses antes, apresentara o prego mini-
mo R$31,90 por multa.
Entre a proclamaqio do resultado da
licita~go e a assinatura do contrato, o
Detran tomara a iniciativa de reajustar o
valor em 120%, executando uma illegal ,
imoral e abusiva majoraqio do prego em
desrespeito aos terms da licitagio e da
proposta da pr6pria empresa", segundo a
ag8o, assinada pelos promotores Jos6
Vicente Miranda Filho, Hamilton Noguei-
ra Salame e Sumaya Morhy Pereira. O
contrato, de cinco anos, poderia render
R$ 5 milhdes nesse period.
O principal responsavel pelo ato, o
entio superintendent do Detran, Joho
Marques, ex-presidente do Sindicato dos
Jornalistas do Para, ja morreu. Mas des-
de setembro de 1998 a Companhia de
Transportes do Municipio de Bel~m, a
Ctbel, em fungio da municipalizagio do
transito, assumiu a titularidade do contra-
to. A partir desse memento, a responsa-
vel pelo pagamento a Fotossensores pas-
sou a ser a president da Ctbel, Cristina
Baddini Lucas.
Ao receber um contrato "que violen-
ta, no varejo, os mais cars principios do
Caderno Constitucional, tais como o da
legalidade, o da finalidade e o da morali-
dade", praticando uma lesio "monstruo-
sa e aviltante" ao erario, a president da
Ctbel -na linguagem de libelo dos repre-
sentantes do Ministe~rio Publico deve-
ria ter declarado imediatamente a nulida-
de do document, "ante o flagrante vicio
de ilegalidade e imoralidade que o fulmi-
nava". Ao inv~s disso, continuou a fazer
os pagamentos, "mesmo ante constantes
denuncias de sua irregularidade nos vei-
culos de comunicaqio de massa desta
Comarca, como 6 fato puiblico e notbrio",
proclama a agio.
Nela, os promotores pediram liminar-
mente o afastamento de Baddini do car-


go, para que nio pudesse vir a prej udicar
a apuraqio dos fats e porque seus inte-
resses seriam colidentes com os da pr6-
pria Ctbel, "principal lesada pela conduta
omissiva da citada administradora". No
fmnal da a~go, comprovados os terms da
denuncia, todos os responsaveis arcari-
am com o anus do dano. Baddini seria
afastada de vez do cargo publico, perdendo
os direitos politicos e proibida de manter
relaq~es com o poder publico, pelo crime
de improbidade administrative. O contra-
to teria que ser anulado.
A partir do recebimento da ag8o pela
juiza Dahil Paraense de Souza, da 15" vara
civel, a ofensiva dos promotores entrou
para a agenda da campanha eleitoral e
para o largo noticiario da imprensa. Para
os adversarios do PT, era a prova de que
o partido nio s6 e incompetent para as-
sumir a administration publica, como se
enredou nas teias da corruppio atravets
do exercicio do poder. Para a prefeitura
de Belem, os promotores estio a serving
dos seus adversarios, levando a question
as barras da justiga exatamente no auge
da dispute pelos votos na capital paraen-
se, fornecendo farta muni~go aos adver-
sarios de Edmilson Rodrigues.
Uma leitura superficial da pega pre-
parada pelos tras promotores dificilmen-
te chegara ao fim sem que o leitor seja
tomado pela fuiria e a indignaqio. Afinal,
basta confrontar a proposta apresentada
pela Fotossensores a comissio de licita-
950 do Detran ao contrato assinado en-
tre as parties para verificar que, entire um
e outro memento, o valor envolvido sal-
tou de R$ 31,90 para R$ 70,06. Nesse
caso, os responsiveis teriam que ser pu-
nidos nio s6 por lesar o eratio, mas por
nio saberem roubar, por serem relapses
ladrdes de galinha.
Mas nio e exatamente assim como
deduziram os promotores de pronto (tio
convencidos do crime que a exposi~go dos
fats consumiu tio-somente tras das 27
paginas da peti~go inicial). Para a Fotos-
sensores receber os R$ 31,90 que ofere-
ceu a concorr~ncia, o Detran estabele-
ceu em R$ 70,06 o valor da multa, ja que
apenas 45,53% desse total ficariam com
a empresa, cabendo ao pr6prio Detran a
fatia maior da arrecadagio, de 54,47%.
Os 45,53% aplicados sobre R$ 70,06 dio
exatamente nos R$ 31,90 propostos pela
Fotossensores. E por isso que em todas
as faturas remetidas pela Ctbel ao juizo
ha um s6 valor pago a empresa: R$ 31,90.
Nesse caso, nio houve discreptincia al-


guma entire os terms da concorr~ncia e
os do contrato. Os promotores e que nio
teriam sabido ler os documents, confor-
me reagiu Cristina Baddini.
Lamentavel erro tecnico ou injun~go
political do governo sobre o MP visando
desgastar a candidatura a reelei~go do
prefeito do PT, que se mant~m a confor-
tavel distancia do candidate tucano, Ze-
naldo Coutinho, e ainda com alguma pos-
sibilidade de decidir o jogo no primeiro
turno (e, se nio o conseguir, como favo-
rito para o 2" turno)?
E uma questio (ou, conforme for, uma
chaga) ainda em aberto. Mas ha pouca
duvida de que os promotores, 17 meses
depois de terem iniciado um procedimento
extrajudicial, com base em denuincia do
vereador Jader Dias, teriam feito melhor
se aprofundassem a instruFho do proces-
so antes de remete-lo a justiga, forgando
nas tintas da acusagio. O pr6prio denun-
ciante deixou de depor no MP, assim como
os principals acusados. Conforme indicam
os autos da aCgo civil publica, algumas
peas essenciais a formaqio de um juizo
s6 agora estio sendo juntadas.
Os promotores podem ter-se deixa-
do levar por um outro tipo de erro, que
nio parecem haver percebido e que os
fez apresentar conclusdes tio categ6ri-
cas quanto falsas. A proposta da Fotos-
sensores se baseava no seu prego, na
sua receita. O contrato com o Detran
tomou como referencia o valor da mul-
ta, estabelecendo os percentuais desti-
nados ao departamento de transito ea~
empresa. Os R$ 31,90 nio foram refe-
ridos expressamente: eles surgiriam
como decorrancia do calculo.
A forma de consignar o valor pode ter
sido um laps, mas tamb~m poderia ser
um ralo atrave~s do qual, reajustando-se o
valor da multa, majorado estaria tamb~m
o ganho da empresa, acima do prego que
a credenciou a ser a vencedora da licita-
gho (inclusive por ter sido a linica a apre-
sentar proposta, ja que os dois outros con-
correntes potenciais desistiram). Mas
nem mesmo essa hip6tese pode ainda ser
comprovada como lesiva, ja que a dife-
renga a mais pode ter outra destinaqio,
dentro do org~amento publico.
At6 o dia 8, todos os documents exis-
tentes nos autos comprovavam que a Ct-
bel s6 pagou mesmo os R$ 31,90 (num
total de R$ 2,5 milhaes at6 agora). Argu-
mentaram os promotores que a documen-
taCgio espontaneamente enviada pela
empresa municipal esta incomplete e suas







JOURNAL PESSOAL *2" QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000 5


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Elsr*a~i~ahlmnr~a*l~dBEIIIIIIIIIIEls~l


informaqdes sho insuficientes, o que e
verdade. A primeira das faturas e: de fe-
vereiro de 1999. Faltam as de 1998, quan-
do a responsabilidade era do Detran. Pode
ser que o 6rgio estadual nio tenha trans-
ferido ao 6rgio municipal esses documen-
tos. Mas seria precipitado deduzir dessa
lacuna que haja a deliberada inten~go de
camuflar a verdade, escondida por detras
de numeros manipulados.
Talvez ate haja alguma transgressor
a desvendar nessa relag~o, mas at6 ago-
ra inexiste uma s6 prova de que a Ctbel
tenha pago mais do que R$ 31,90 por cada
multa registrada pelas "araras", monta-
das em 35 pontos da cidade, conforme
ficou defmnido na licitagio. Certamente a
terceirizagilo de servigos putblicos e a
delegagio de poderes caracteristicos do


Estado, excessivamente diminuido pelo
chamado neoliberalismo, sho um tema a
apreciar com mais vagar e profundidade,
afastando os riscos de fraudes e desvios
que sempre oneram o poder publico (e
costumam aborrecer o cidadio, forgado
a ceder sua parte para o faturamento de
terceiros credenciados pelo poder putbli-
co). Foi justamente uma combinaqio de
maturaqio e discernimento que faltou a
iniciativa dos representantes do Ministe-
rio Publico contra a Ctbel.
A pratica tem mostrado que a munici-
paliza~go do triinsito foi apenas parcial e
defeituosa. E claro que a empresa ter-
ceirizada tem interesse em aumentar a
incid~ncia de multas para elevar a sua
receita. O problema e que um mimero
cada vez menor de infratores vem pagan-


do as multas registradas pelas "araras".
Segundo uma information oficiosa, esse
percentual ja e de 40%. A maioria s6 faz
o recolhimento ao renovar o licenciamen-
to annual do seu veiculo, junto ao Detran e
nio a Ctbel. O Detran estaria fazendo o
recolhimento, sem repassar a parte da
companhia municipal, apesar de um con-
vanio assinado entire as parties, em abril
do ano passado, atraves do qual a Ctbel
aceitou preservar R$ 10 por multa ao 6r-
gho estadual.
Logo, nio faltam motives para averi-
gua~gio dos fats e corre~go das distor-
95es, originadas na pr6pria regulamenta-
950 do triinsito. Mas, ao tomar um ata-
lho, o Minist~rio Publico pode ter-se des-
viado do interesse ptiblico na questio,
enveredando por um ramal politico. *


Escrevi o te~vio abai.ro palra
ap]tt'rsntrl7 o CD Ori,
BELl 51. CANhTOS D)O PORTL\L D.
Assl.4zoNIA. produ-ido por
Carlos Lna1( e' annCado no
inicio d~o mics emr Be/el.

Todas as cidades do mundo sdo
difere~ntes umas das ourras. Alas
poucas sdo unicas. Paris e umra
delas: toda a sua be~leza e uma constru-
Cgo humana, que deixou a natureza do
lado de: fora. Ou l'eneza, acampyada em
palacios sobre canals de um plintano
saline. Ou. apesar de tudo-. Bel~m.
O qu: f'az Beleim ser unica no plane-
ta? O engenho de umna arqluiterura 'u-
roptia transplantada ipisis lite~ris para
o tr~rpico amazanico, eml scu interior. mas
esnobando-o (ficonl are de: c`sta parra o
rio-rua'). O empenho de uma elite mno-
menraneamente endinheiraida de conri-
nuar esse projeto. um seculo depois, na
elastica era da borracha. A sintese de
uml sincretismo acasalado na maletolin-
cia. Disso surgindo a cor, a rchiro, o gin-
gado, ia ncam. a cozinha, a rua, a calgl-
da. os be~irais, o telhado. os ais.
Quem chega a Belem pe~rce~be logo
essa dife~renga, ve~ndo e: sentindo. razio
e Instinto, um mundo aquem e alemn do
caclc~ulo. As ruas podeml estar esburac~a-


das, o lixo e capaz de star esparramiado,
o e~sgoto lisivel a ceu aberto, as marcas
do abanidono e: da incuria. hlas essa gata
borrallheira. que ja foi princesa. pode: vol-
rar aos seus eincantos num zaz-rraz. Eles
estio e~scondidos, mas ainlda existe~m. la-
tejalntes, pe i ntes. Temos fei to mnuito para
acatbar comn a que reSta, mas nem essa
terri\el elite dirigetnte: conseguiu de~ixar a
terra comlpletamnente arrasada. A~ terra
fertil ainda Se: oferece is fecunda~go.
Como a desse: disc. Ou\indo com
atengio, temos a se~nsagio de que sio
mtisicas do evilio. Cantoreis e composi-
tores reunidos nesrte CD canltam a sau-
dade, 13lamntam a perda. Alas nio de~i-
xam de registrar a beleza, de acreditar
no future, mesmo que ele sejas a tolra.
Estio e\ilados no Rio de Janeiro ou em
Sao Paulo, mas tambe~m na propria Be-
lem. sob os esjcomnbros da mais bela ci-
dade que os portugueses construiram
fora da terra natal, como se estivessem
na ilharga do Tejo. e que indios e cabo-
clos de~coraram com suas floreS e en-
cheram dos odores dais suas pripriocas,
para as festas de Semlpre, feSti~;a me~s-
mo ou guerreiras. de t erdaide. N~o sur-
pre~ende que cantem o me~rengue. o ca-
rimbo e o bolero como se manejassecm o
fado. abrindo portas para o Caribe (pela
verve de Paulo &F Ruy Barata) e para


as noitres boamias se'm fim (com Eloi
Iglesias) e com um tema langado ao ar
(de Chico Sena.).
Se e lso grande a nossa riqueza e
150 tinica a nossa idenridade. por que:
temos que invejair a Bahia? propdre Os-
valIdo OlIit e i ra. fazendo uma correlaqdo
que nio nos deixa mial. O CancI1loner
deste disco e de prime~ira linhla, coml seus
hinos sentimentals (ao inves da conten-
dional grandiloqtiancia), presents de
Ed\r Proenga (um deles com Adakcin-
da 'Camarito, cabocla de exportagio), e
as dife~rentes visies desta cidade a bei-
ra da idade quatrocent8, encantadora
para peregrinos mais antigos, como Luiz
Gonzag~a, e para exilados musicais do
passadoltorustico Orvaldo ~liveira, voz
dos subuirbios agitad-os), t erso de trova-
dores como Jodo de Jesus e Alcir. Se~r-
rio e Guilhenne.
O nego~cio e seguir os artistss deste
CD. 1autistas de Be~lem: nr e chorar, can-
lar e danrgar.astrav~es de qualquer forma,
e.1pressar o nosso amor sofrido e resis-
tenre por San1ta Masria de Bele~m do Grilo-
Para, a flor amazonica da Terra, deste
pais que se chama Para, de Paranatin-
ga, das barrancas do Guamd, receben-
do as aguns do Alo~ju. do To~cantins. do
Aceara, do Guajar1. da Gaia &r de todo o
planeta do rio-marr amen. Alem.


um golpe eleitoral?






6 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000




Tucurus: milhoies de dolares


ocultos pela nevoa do tempo


Eletronorte gastou quase 60 milhdes
de reais para recuperar e complemen-
Atar o canteiro das obras de duplicaCio
da hidreletrica de Tucurui. Esse investimento
equivale a 10% do orgamento previsto -de
R$ 580 milhdes -para a eleva~go da capaci-
dade de geraqio da usina, dos atuais 4,2 mi-
lhies de quilowatts para 8,3 milhdes de kw.
Numa auditoria realizada entire agosto e se-
tembro do ano passado, tecnicos da Secreta-
ria Federal de Controle Interno do Ministbrio
da Fazenda anotaram que quase metade des-
ses recursos -ou R$ 27 milhdes -foram apli-
cados no canteiro com distorqdes, ou irregu-
larmente. Alem disso, levantaram suspeitas
sobre 21 itens da construgao.
Ao inspecionar o local, os tecnicos cons-
taram que os R$ 58,8 milhdes empenhados
pela Eletronorte comn a Construtora Camargo
Corria, a principal empreiteira, tanto da pri-
meira fase quanto da segunda, ja haviam sido
integralmente pagos, em seis parcelas anuais.
Mas 30 dos 38 itens contratuais ainda nio
haviam sido realizados, estavam parcialmen-
te realizados ou nio tinham equipamentos no
cart6rio. Os t~cnicos tambem suspeitaram dos
prepos acertados.
O journal Valor teve acesso ao relatbrio da
secretaria do Ministerio da Fazenda e anun-
ciou, no mis passado, que uma comissio de
sindicincia havia sido instalada para apurar
os fats, ja que a Eletronorte contestou as
conclusdes dos auditors, acusando-os de nio
terem compreendido o que examinaram. Qual-
quer que venha a ser o desfecho do tema, a
vigilincia dos stores competentes parece in-
di car que, desta vez, uma grande obra nio
passara ao largo de um control externo mais
rigoroso. Assim, sera possivel impedir que,
pelos muitos canals de vazamento que podem
surgir em fungic da grandiosidade dos valores
envolvidos, passem irregularidades.
Infelizmente, essa sincronizagio entire o ato
de fazer e o de controlar nio houve na primeira
etapa da obra nem no memento em que ela
era executada, nem posteriormente. Muitos tim
questionado o custo de implantagio da hidrel6-
trica de Tucurui, apresentando d~ividas quanto
ao rigor do orgamento. Nenhuma foi mais con-
tundente do que o engenheiro Eliezer Baptista,
um dos personagens mais atuantes na hist6ria
recenlte dos grandes projetos na Amazbnia.
O ex-ministro de minas e energia e ex-pre-
sidente da Companhia Vale do Rio Doce disse
que a usina teria custado muito menos e nio
teria obrigado o governor a subsidiary os dois
maiores consumidores individuals de energia do
pais, as fibricas de aluminio da Albris, em


Barcarena, e da Alumar, em Sio Luis, em valor
ao redor de dois bilhdes de d61ares (correspon-
dente a duas fabricas inteiramente novas), se
nio tivesse havido corruppio na obra.
Revelei as declarapies de Eliezer no Jor-
nal Pessoal da la quinzena de junho de 1997.
Voltei mais duas vezes ao assunto, tentando
sensibilizar a sociedade para a gravidade das
palavras de um cidadio com a responsabilida-
de do ex-ministro. A 6nica repercussio foi
uma representagio que o entio deputado fe-
deral Geraldo Pastana, do PT, encaminhou ao
president do Tribunal de Contas da Uniso,
em novembro de 1997.
Em janeiro de 1998, apreciando a denun-
cia, o assessor da Secretaria de Controle Ex-
terno do TCU no Pari, Daniel Eliezer Rodri-
gues, props o arquivamento dos autos. Se-
gundo ele, os "graves dados" submetidos ao
tribunal pelo deputado paraense, "que, alias,
foram e sho amplamente conhecidos da socie-
dade brasileira, escapam a [sic] apuraqio de-
sejada uma vez que a constru~go dessa usina
ocorreu num memento politico diverse do atu-
al vivido pelo pais. Naquela ocasiio, de liber-
dade restrita, o control externo nio apresen-
tava algumas das atuais caracteristicas esta-
belecidas somente em 1988, quando da pro-
mulga~go da nova Carta Magna brasileira".
Ja agora, "al~m de ser significativa a dife-
renga political em relaCio a [sic] vigente a 6poca
dos fats, ha ainda todo um process de pri-
vatizaCio em andamento que tem alterado pro-
fundamente a rela~go das citadas entidades com
o Tribunal", argumentou o assessor. Para ele,
e "razoivel supor que se deu em outras epo-
cas a oportunidade e conveniancia de apurar
os fatss, mas hoje "devemos ser realistas a
ponto de compreender que dificilmente uma
investigation sobre o caso ha tanto ocorrido,
cujas possiveis provas dissiparam-se nas ne-
voas do tempo, ocasionara no desfecho dese-
jado pelo ilustre parlamentar".
Como compensa~go, o assessor espera que
venha a ser feita "a avaliaqio do desempenho
present das atuais instituiFies federals sob
jurisdi~go do TCU que tenham relaFgio direta
comn a usina de Tucurui, cujas atividades pos-
sam afetar esta e futuras geraqbes". Mas essa
tarefa, tranqililiza o funcionario do tribunal,
"tja vem continuamente sendo realizada", uma
vez que "graves irregularidades e ilegalidades
surgem com freqilincia".
Como discurso moral, 6 consolador. Mas
restringir-se a ele nio significa admitir um esta-
do de impottncia desestimulador, como se as
conquistas do regime democritica s6 valessem
para frente e nio mais para tris? Foi a attitude


do Tribunal de Contas da Uniio: seu presiden-
te, Marcos Vinicios Villaga, acatando o parecer
do t~cnico de Bel~m., determinou o arquiva-
mento dos autos, como se a questio se referis-
se a um tema do passado remote, que ja esti-
vesse confinado a um arquivo morto.
No entanto, a d6vida diz respeito a pelo
menos centenas de milhdes de d61ares que po-
dem ter sido sangrados do eratio por superfa-
turamento, desvios, irregularidades, fraudes e
outros ilicitos. O contencioso permanece ati-
vo: nem todas as dividas internacionais con-
traidas para a construgio da usina foram in-
teiramente pagas. Tucurui ainda e um livro
em process, com paginas abertas ou em bran-
co. Mas, por sua historia tortuosa, serve de
alibi para fraudes que continuam a ser perpe-
tradas, aproveitando-se da dissipagio das pro-
vas pelas "nevoas do tempo", conforme en-
tendimento de muita gente, como o assessor
do TCU, mas insubsistente, a meu ver,
A revisio da primeira etapa de Tucurui, a
maior obra publica de toda a histbria da Ama-
z6nia (e uma das maiores da histbria brasilei-
ra), nio e uma tarefa acadimica, estabelecida
apenas para reconstituir o passado, ou um
quisto de autoritarismo que nada mais tem a
ver com o organismo democra~tico. E uma exi-
gancia do mais alto interesse publico, para
recuperar recursos dilapidados, identificar os
responsiveis, punir os culpados e utilizar as
liC~es em proveito da administration da coisa
publica, para que os erros cometidos atris das
costas largas do autoritarismo nio se repitam
entire biombos decorativos de um regime de-
mocratico puramente formal.
Uma das alternativas em exame no proces-
so -em cursor -de privatizaqio da usina, que o
assessor do TCU talvez nio queira perturbar
com o revolver de lama ainda inconsolidada de
um passado velho de d~cada e meia, no maxi-
mo, 6 justamente a higieniza~go da segunda eta-
pa. A duplicaqio da capacidade de geraCio, pela
adigio de 11 novas maquinas is 12 em opera-
950, nio seria contaminada pelos custos multi-
plicados da primeira etapa. Isso, embora o ope-
rador da nova casa de forga va usar a estrutura
de concrete ja construida, a peso de ouro, qua-
se literalmente falando. Essa conta exagerada
seria repassada ao fundo perdido do tesouro
national, como de habito, praxe que e admitida
quase coma fatal natural porque nio se leva a
reconstituiCio ate suas origens, em busca de
suas raizes mais profundas.
Uma rigorosa revisso serviria at6 para es-
tabelecer uma base comum entire as diversas
analises feitas sobre a hidreletrica de Tucu-
rui. Recentemente a Eletronorte anunciou que)






JOURNAL PESSOAL *2a QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000 7




No Xingu, a energia


do su bdesenvolvi mento


e tudo transcorrer conforme seus pla-
nos, a Eletronorte espera concluir o
Sprojeto da hidrel~trica de Belo Mon-
te, no Xingu, no final de junho do pr6ximo
ano. Sera a maior usina brasileira (e uma das
maiores do mundo), com capacidade de gera-
Fgo tris vezes superior a atual de Tucurui (e
50% maior se considerada a duplicaptio da hi-
drel~trica do rio Tocantins, apenas iniciada) e
quase do tamanho de Itaipu, que o Brasil di-
vide em parties iguais com o Paraguai.
Quando entregar a Aneel (a agincia official
reguladora do setor eletrico) os estudos defini-
tivos de Belo Monte, a Eletronorte espera ter
formado um ambiente favoravel a execupilo da
obra. Seu orgamento foi reduzido do estratos-
ferico valor inicial, de 11 bilhbes de d61ares,
para fascinantes US$ 3 bilhdes, sem que a ca-
pacidade de geraglio-de 1 1 mil megawatts, ou
1 1 milhdes de quil~owatts -tenha sofrido qual-
quer diminuigilo. E o menor custo de kw insta-
lado de hidreletricidade que se pode alcangar
num empreendimento de grande porte. Algo que
s6 tem semelhanga com a usina de Xing6, no
Nordeste, a mais recent das mega-hidreletri-
cas a entrar em opera~gio.
Para aumentar o glamour, o lago artificial
que se formara com o represamento das aguas
do Xingu terai metade do tamanho inicialmente
previsto. Alem do mais, os 600 quilimetros
quadrados (ou 60 mil hectares) do reservatdrio
correspondedio as cheias normals do rio. Ei uma
area quase cinco vezes menor do que a do lago
da hidreletrica de Tucurui. Nenhuma das aidei-
as indigenas pr6ximas sera atingida. A mata
afetada ja sofre semestralmente a aglodas aguas
nos periods de enchente.
O (mnico remanejamento significativo atin-
gira um bairro de Altamira, mas esse desloca-
mento ja estava previsto porque o local et peri-
odicamente inundado. Como Altamira esta bem
pr~xima, nho seri necessario construir uma nova
cidade ao lado do canteiro de obras: quem tra-
balhar na usina ir8 morar na sede do municipio,
reduzindo a necessidade de investimentos na
infraestrutura e favorecendo Altamira, se me-


didas preparatbrias forem adotadas a tempo e
na escala necessaria.
Maravilha da engenharia? Talvez. A inova-
Cgio introduzida na Amazo~nia pelo projeto de
Belo Monte esta na distincia, de 50 quilbme-
tros, entire a barragem e a casa de maquinas. Em
Tucurui, as maquinas foram instaladas na es-
trutura da pr6pria barragem. No caso do Xin-
gu, dois rios serio usados para ligar o local do
represamento ao de geraqio. Mas, para desem-
penhar essa fungilo, terilo que ser alargados e
receber concrete numa extensio de 13 quilb-
metros. Nada absolutamente inedito em mate-
ria de engenharia, mas trabalho complicado, ain-
da mais na Amazbnia, em funglio da enorme
movimentaCio de terra que acarretara.
Esse e um ponto novo a considerar. Ha
outros, que ja constituem acervo hist6rico
depois de Tucurui, Samuel, Balbina, Coaracy
Nunes e Curua-Una, mas que exigem aborda-
gens novas, distintas de varias das solugdes
adotadas. Os rios da Amazi~nia sho volumo-
sos, mas tim uma declividade pouco acentua-
da, de problematica vazlio diante do seu por-
te. A partir de suas margens costuma desen-
volver-se uma densa e rica cobertura vegetal.
A formagilo do solo e do subsolo de suas are-
as e complex, escondendo misterios e ofere-
cendo surpresas. O equilibrio e dintimico, mas
delicado. Os desdobramentos de qualquer al-
tera~glo podem desafiar a imaginagilo.
No caso de Belo Monte, os engenheiros des-
cobriram que a sinuosa curva do Xingu a altura
de Altamira cria um desnivel de 90 metros en-
tre o ponto de barramento do rio e o lugar ideal
para a construgho da casa de maquinas, desni-
vel quase 20 metros superior ao de Tucurui,
dispensando a elevagilo da barragem a um nivel
tal que levaria a uma inundagilo em grande es-
cala (como a prevista no primeiro proj eto para
a area, que incluia a desastrosa barragem de
Babaquara). E um pass adiante na cultural dos
barrageiros. Sua incorporagilo a cultural geral da
regitio e do pais, entretanto, requer um compe-
tente questionamento do projeto. Ela precisa
resistir a testes de consistincia.


Este eo aspect fundamental das liqdes que
a hist6ria da hidreletricidade na Amazinia nos
oferece: e precise acompanhat pari passu os
idealizadores e executores da obra para evitar
que, ao ser apresentado o proj eto basico, como
a Eletronorte pretend fazer dentro de menos
de um ano, ele seja uma autintica caixa preta
para a sociedade -e, por outro lado, uma arma
para os que dominam os c6digos de decifragilo.
A mais autoritaria das empresas federals
da regitio (na qual, aliis, resisted em instalar sua
sede, passados 27 anos da sua criaqio), a Ele-
tronorte se recusa a antecipar, ampliar ou se-
quer instalar debates a respeito. Prefere so, anun-
ciar a obra quando seu desenho estiver conclu-
ido, como sempre tem feito. Mas a sociedade
amazonica, que tem sido tio prejudicada quan-
to beneficiada pela a~go da empresa, numa es-
cala incompativel com o grau de democratiza-
Fgo e inser~gio regional de outras empresas (in-
clusive as corporaC~es privadas), niio pode mais
tolerar a arrogfincia e a auto-sufici~ncia da Ele-
tronorte. E precise forga-la a baixar entire os
seus jurisdicionados, que a empresa talvez pre-
fira tratar como suditos.
Uma relagilo mais amadurecida e civilizada
mostraria que essa e ate mesmo a maneira de
evitar mal-entendidos, partidarismos e radica-
lismos decorrentes, na maioria das vezes, pura
e simplesmente da desinforma~glo- ou, quando
nito, da ma informa~glo. Se a primeira vista pa-
rece que Belo Monte serat uma obra bem menos
agressiva a populagio e ao meio ambiente do
que Tucurui ou qualquer outra usina similar,
nito se deve deixar de considerar a possibilida-
de de que, do ponto de vista econbmico, ela
represent uma sangria muito maior para o Para.
Com linhas de transmissito na maior tensilo exis-
tente no pais, enormes blocos de energia bruta
serilo transportados por mais de dois mil qui-
lImetros para o grande centro consumidor bra-
sileiro, deixando como saldo um Para defmniti-
vamente "vocacionado" -e, por isso, espolia-
do -como provincia energetica national. Ener-
gia nito para desenvolver, mas para subdesen-
volver, de vez. ci


~-"~*rry"V~RIYa~rVy:rs~~
ir~.l,.,~rp~~;~h:~wc--r~I~i~i~j~;~.;,~ .! ........... ;.U.'L-, ,l.i~fk'?';."L: Yir ~:"L
rr~r~ Ub~'r ~.,r...... ~cr~,,~...-i.........


)o custo final da primeira etapa, a prepos do
final de 1997, era de 5,7 milhdes de reals.
Quando a usina foi inaugurada, no final de
1984, o custo, incluindo apenas os juros pa-
gos durante a constru~gio, era calculado em
5,4 bilhdes de dblares. Feitas as amortiza-
95es ate o finalde 1998, algumas fontes admi-
tiam um valor minimo de US$ 7,5 bilhdes.
Outras ja se aproximavam de US$ 10 bilhdes.


Como pide a Eletronorte chegar agora
a R$ 5.7 bilhdes apenas (algo pr6ximo de
US$ 3 bilhdes)? E como conseguiu reduzir
o orgamento da segunda etapa dos R$ 911
milhdes inicialmente previstos para os R$
580 milhaes que anunciou?
Mesmo com essa expressive diminui-
glio de custo, gragas a "otimiza~gio do pro-
jeto" e "negociaglio dos pregos", o setor


de control externo esta suscitando sus-
peitas de irregularidades. Convinha que
outros 6rgilos ptiblicos, seguindo caminho
inverse ao do TCU neste caso, topassem
enfrentar as "nevoas do tempo" e buscar
as pistas capazes de os conduzir at6 a ver-
dade de um dos capitulos mais importan-
tes e cars da hist6ria recent da adminis-
tra~gl pxiblica no Brasil. 9












































































JOrnal Pessoal
Editor: LirClo FI~viO Pinlo- Fones: (0911 223-7690 (lone-laxl e 241-7626 (fax)
Contato: Ty.Benlamin Conslant 8415'203:66 053-040 *e-mail: lornalc~amazon.com br
Edig~o de Arte: Lulzanionilodefariapintoi230 1304


* Walter Rodrigues e um jor-
nalista paraense ha muitos
anos radicado em Srio Luis.
Sua mais recent empreitada
e o Colunio, um journal que
semanalmente escreve, sozi-
nho, encartado no Jornal Pe-
queno, um dos diairios da ca-
pital maranhense. Walter tem
um dos melhores textos que
o jornalismzo paraense ja
produziu. ES uma pena que
ndo disponhamzos mais de sua
competincia entire nos. Mas
e bom que continue firmze no
batente jornalistico vizinho.
De la, ele mandou sua nota
de solidariedade, que aco-
lho com prazer

* CARO L~cto FLAVIO,
Nio sei nem quero saber o que
foi que o pornocrata de aluguel
do "Jornal Popular" vomitou
contra ti. Aceita minha mais
absolute solidariedade diante de
semelhante facinora e da lamen-
tavel participagio financeira da
prefeitura petista nesses crime.
Ainda e tempo de o PT reco-
nhecer o erro e penitenciar-se.
Mais do que janelas para o rio,
precisamos de janelas para a uto-
pia e a esperanga. E a isso nI~o
se chega cavalgando um Silas
Assis. O fim justifica os meios,
talvez, mas os meios iluminam
os fins que se quer alcangar.
Com um abrago do
Walter Rodrigues.

Com uma fldalguia que ja
ndo se encontra na praga,
Luis Faria mandou um tele-
grama de felicitagd~es a este
journal por seus 13 anos de
vida. Mais Luis existissem e
seria muito mais leve a cruz
que cabe a um jornalismo ver-
dadeiramente independent.

* Parabens pelos 13 anos de
exist~ncia! Realmente, n6s,
leitores, somos deveras mal-
agradecidos. Tanto tempo este
important jornal nos ajuda,
dando informaqbes e nos ques-
tionando sobre tantos assun-
tos, e nos mantivemos mnertes.
Perdoe-nos.
Sua leitora assidua,
Bettina Florenzan'o


nica. Nio pude conversar com
ele, mas, pelo que noticiou a
imprensa, Wagensberg esta
enfrentando resistincias e
seus parceiros brasileiros tam-
b~m. Por conta das cautelas
com a bioparataria, at6 mes-
mo a cooperaqio cientifica se
tornou empreendimento pro-
blematico entire n6s. Suspei-
95es, nem sempre fundadas,
mas largamente propagande-
adas, podem inviabilizar uma
empreitada binacional.
E claro que e precise ter
muita atengio e ser rigoroso
antes de autorizar a coleta de
material ou projetos de pesqui-
sa. A legislagio ainda e per-
missiva ea conscitncia -eti-
ca e moral claudicante, alem
da imorredoura corruppio.
Mas deve-se tratar desigual-
mente os desiguais.
Isto nio deve significar
maior condescendincia, mio
na cabega ou exceqdes inde-
vidas. Nio se pode, porem,
deixar de considerar o passa-
do, com seu acervo de reali-
zagies. A partir da compre-
ensio de que sem cooperaqio
international caminharemos
sempre mais lentamente do
que os paises mais adiantados.
O resultado sera que, a des-
peito de uma retbrica nacio-
nalista e protetora, ou mesmo
por causa dela, s6 aprofunda-
remos o fosso que nos man-
t~m no atraso.
A maneira de separar o
joio do trigo e desvendar os
misterios 6 submeter todos
esses programs e projetos ao
debate publico, sem sonegagio
de informaqdes e sem estra-
tagemas de camuflagem. O
Museu da Ciincia ja fez pela
Amazania, em matdria de di-
fusio e divulgagio cientifica,
mais do que muita instituigio
national. Tem um conceito
estabelecido. A Amaz6nia
pode ganhar muito nesse in-
tercimbio. Basta que ele evo-
lua a luz do dia, aberto ao exa-
me e a investigation, quando o
caso, e sempre prestando con-
tas do que realize.
O mundo tem explorado a


Amazinia. Mas sem intera-
gir com o mundo, a Amazo-
nia nio encontrara uma al-
ternativa valida para a utili-
zaFio do seu fantastico po-
tencial de recursos naturais.
Este 6 o seu grande desafio.
Sem enfrenta-lo, virara as
costas ao seu future.


CorreCgo
* Como o atento leitor deve ter
percebido, nosso editor grafi-
co, mais rapido do que o tem-
po, datou a edi~go anterior
como se fora referente B se-
gunda quinzena de setembro,
quando se tratava da primeira
quinzena. Felizmente o erro
nio se propagou pelas paginas
internal, que sobreviveram
com a data correta. O mesmo
indigitado deixou de seguir a
ordem hierarquica da prefe-
rancia do eleitor pelos candi-
datos a prefeitura de Bel~m,
colocando Augusto Rezende a
frente de Zenaldo Coutinho,
quando a vontade dos entre-
vistados, manifestada nas pes-
quisas, 6 favorivel ao candi-
dato do PSDB em relagio ao
do PMDB. Como punigio,
nosso editor grafico fara um
estagio em O Liberal, onde tal
tipo de erro, cometido na 61ti-
ma edigio dominical, foi mui-
to mais grave (e em cores),
sem a cercadura risonha e
franca do cochilo do nosso ar-
tista, que, como tal, tem ha-
beas corpus preventive.
Perdio, cars leitores e
candidates.


Estar no mundo
* Foi no Museu da Ciincia de
Barcelona, na Espanha, cinco
anos atrais, que eu vi a melhor
exposigio sobre a Amaz~nia.
Os pontos altos foram uma
enorme grvore amaz~nica
transplantada viva para ocu-
par o centro de exposiqdes e
uma maquete computadoriza-
da simulando todo o ciclo da
ggua na regi~o a partir de trts
perspectives: em terra, desde
a copa das grvores e do alto
de um satblite. A exposi~go
foi uma realizaCio herculea de
Jorge Wagensberg.
Como faz ha sete anos, ele
circulou novamente por aqui,
agora tamb~m como assessor
do Museu Goeldi para o novo
parque da instituigio, ao mes-
mo tempo que esta montando
uma nova exposi~go amaz8-


Mensagem
*Hg um outdoor nas ruas
que diz mais sobre os costu-
mes politicos desta elei~go do
que mil editorials. Sobre uma
foto do ex-representante do
Ibama no Para, Paulo Caste-
lo Branco, com seu nuimero
de registro de candidate a ve-
reador, os seguintes dizeres:
"Flagrante? Extorsio? Trafi-
Sco de influincias? O povo nio
e mas burro".
Se hB burrice na frase, e a
de quem confunde a conjun-
~go mas com o adve~rbio mais.
No fundo, o autor nio acredi-
ta na intelig~ncia do povo. Ja
o povo, pelo que p~de saber
do caso, dar8 a resposta a
oportunista mensagem.