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omnal essoal SU C O F LA VIO PIN T O ANO XIV NP 243 21 QUINZENA DE SETEMBRO DE 2000 RS 2,00 ELEICAO O pov o: uma ficqaAo A eleigd~o deste ano em Bele'm estdi manchbada por vairias neddoas. Uma delas, e'a manipulagd~o das pesq~uisas pelo maior grulpo de comunicagd~o do norte dio pais, O Liberal. Outra, por candidates que ndao respeitam seu eleitor. Um deles vai para a cadeia r1indo. O outro diz que fraudar ndoe e' mim se atende a uma necessidade coletiva. 0 a Com o voto, o povo pode mostrar que estai vivo. E que e' digno. st oe e rier le- sguao d api o a eqia uocmgo o rmiapsus gho na qual oPr i eao elioasssets Es iuo umo doVxPplu o di ntttscn capeo aconldoatas cnqito fi ga o Lbrl rtdspl mrs ootofioIo naauai osvtsen mirepea ecmncqo o p) oo atl eop~sarsn supit emao pai anto nrte do pas goad ersetn aa o nrvsao rvaonm "mpsm" prnialfadeps-lio- d oiio rbiccotmno am eClyo Coffy cn idt doPTU trnca as um trste tulja pari ecae as- peigiro sobre suaspesquisas eleuitoais. Tdiugo do resou ltomado.mia eq 2 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000 A segunda pesquisa efetivamente di- vulgada pelos veiculos da familiar Maiora- na, tambem de responsabilidade do Vox Populi, causou um forte impact na opi- niio puiblica: ela registrava uma queda de 10 pontos percentuais do prefeito Edmil- son Rodrigues em relagio ao seu indice anterior, medido pela primeira pesquisa que foi divulgada, a do Ibope. Talvez para ate- nuar esse impact, O Liberal informou que o Vox Populi havia aplicado seu questio- nario uma semana depois do Ibope. Nio era verdade. O Ibope fez sua primeira sondagem entire os dias 15 e 17 de agosto. Ja o Vox Populi entrou em campo entire 18 e 20 de agosto. Foram, portanto, pesquisas sucessivas. Qual a explicaqio para o candidate da coligagio liderada pelo PT ter chegado ao final de uma pesquisa com 47% das opgbes de voto e, ao fimn da outra, tr~s dias depois, cair para 37%, sem um unico fato que pudesse ser associado a essa radical mudanga na posiCio do eleitorado, inclu- sive porque o program eleitoral gratuito estar apenas comegando? Naturalmente, o PT pediu para ver todos os documents da pesquisa, con- forme a lei eleitoral lhe faculta. O pedido foi feito, mas ate hoje nio foi atendido (como nio foram atendidos as solicita- 95es seguintes). O Vox Populi enviou o modelo do formulario de pesquisa, mas nio os formularios preenchidos, nem a amostragem, a distribuigio por bairros, a documenta~go, enfim, suficiente para demonstrar que a pesquisa foi efetiva- mente realizada e, a partir desse ponto, permitir aos partidos checar sua consis- tincia e conflabilidade, Dez dias depois, nova pesquisa do Vox Populi voltava a ter o mesmo impact, s6 que por motive exatamente inverse: Ed- milson Rodrigues teria recuperado oito pontos percentuais, voltando a se posici- onar no patamar que lhe coubera na pri- meira pesquisa do Ibope, dentro da mar- gem de erro ad nitida pela metodologia utilizada (de tres pontos percentuais). Outra vez era impossivel detectar fats que explicassem esse subito e radical zi- guezague. T~o improvavel quanto a pri- meira queda de Edmilson era a sua res- surrei~go seguinte. Para analistas honestos e competen- tes, a hipbtese mais plausivel, ante a im- possibilidade de detectar causes objetivas para uma evolugho tio ins61ita do candi- dato do PT, subindo e descendo como se estivesse numa montanha russa, era a readequaCio da pesquisa a realidade. Havia sido construido aquele primeiro resultado da pesquisa autorizada do Vox Populi? Se verdadeira a hip6tese, o que teria havido: aplicaqio incorreta da pes- quisa ou pura e simplesmente inexistin- cia de pesquisa? Como o institute nio depositou no TRE os documents que a lei lhe impde forne- cer, e que duas coligagies ja cobraram, todas as especulagies sio possiveis. Mas nio ha a menor duivida num ponto: o gru- po Liberal procurou induzir a vontade do eleitor manipulando a divulgagio dos re- sultados das pesquisas que encomendou. Primeiramente, tentando mostrar que a candidatura de Edmilson entrara em que- da livre, perdendo 10 pontos em uma se- mana (embora as pesquisas tivessem sido imediatamente sucessivas). Mas se houve fraude, ela nio produziu os resultados desejados e exp~s os res- ponsaveis pela pesquisa as san95es legals, caso fique demonstrada a manipulaCio e a justiga cumpra o qlue lhe determine a lei. Foi precise recuar. Algum tipo de estrago, por~m, ja estava feito. Ate: que ponto a perda real de posiCio do prefeito (de 47% para 41%, conforme as duas pesquisas do lbope) nio foi, ao menos em parte, induzi- da pelo noticiario do grupo Liberal? I~-SO as empresaS da familiar Maiorana O privilegio da ds'svida em relaq~io a essa quest~io. Mas seguramente o desempenho da cor- poraqio foi decisive para que o candida- to do governador, Zenaldo Coutinho, ul- trapassasse a pessoa menos grata a "casa", o candidate do PFL, Vic Pires Franco, que passou do terceiro para o quar- to lugar. Atrav~s de "lapsos" na ilustraqio do ranking de candidates e da utilizaqio dos resultados ora da pesquisa estimula- da, ora da esponti-nea finall expurgada na uiltima divulgagio de resultados), o gru- po Liberal influiu na formaqio de uma ten- dtncia: de que Zenaldo estava crescendo, enquanto Vic descia. Na verdade, o can- didato do PFL podia estar a frente ou na mesma posiCio do tucano, mas o journal e as emissoras dos Maiorana tudo fizeram para a inversio das posiqaes, recorrendo a mais tosca das fraudes, Mesmo que o grupo Liberal nio inter- ferisse no cursor normal dos fats, nio se- ria impossivel que Vic caisse e Zenaldo crescesse porque a campanha do primei- ro nio parece ter conseguido convencer o eleitor de que Vic 6 um candidate para valer, Mas a evidence manipulagio de informa- 95es dos Maiorana deu ao candidate do PFL arguments para denunciar a corpo- raqio e atribuir-lhe o insucesso que vier a ter na dispute eleitoral. Basta que apre- sente didaticamente em seu program as provas da ma-f6 dos seus inimigos ao no- ticiar seu desempenho nas pesquisas, sem as tentativas de maquilagem adotadas em rela~go a Edmilson Rodrigues. Essa e:a principal nC~doa da campa- nha eleitoral deste ano em Belem. Mas ha outras. O que deve pensar o eleitor ao ver um dos candidates, o tal do Sheyk, ir para a cadeia acusado de cometer crime hediondo contra os seus pr6prios filhos - e entrar na cela rindo, como se essa acu- sagio pudesse enriquecer seu curriculo, curriculo que nada vale na selegio de candidates? Qualquer um pode, democra- ticamente, se apresentar para pleitear um cargo eletivo, inclusive quem ja se apro- veitou de um titulo falsificado (o de medi- co), como Duciomar Costa, o candidate alternativo do governador, e, pela conde- naqio imposta nos tribunals haver transi- tado em julgado sem a execugho da pena, reagir afirmando que receitar 6culos sem habilitaFgo e melhor do que nio oferecer essa possibilidade a pessoas sem outro meio de acesso aos 6culos. O raciocinio e cinico, mas nio desti- tuido de fundamentagio pratica. Um povo ignorado (por gente como os Maiorana), desassistido (por geraqaes de politicos oportunistas) e manipulado (atrave~s de novas praticas populistas, com oocanhes- tro orgamento participation, as dirigidas bolsas-escola e remendos urbanos da for- ga socialista, tende a acreditar em fal- sos profetas, em medicos charlat~es e magicos de araque, desde que eles lhe oferegam algo ja, agora, mesmo que esse algo tenha a solidez de um castelo de car- tas e a consistincia de uma constraqio na areia da praia. A long prazo todos estaremos mor- tos, ja disse Lord Keynes. O long prazo saiu das cogitagies dos belenenses, le- vados a acreditar que habitam a metr6- pole das luzes, que serio levados e trazi- dos do trabalho de graga, com escolas 24 horas para suas criangas e empregos des- de a porta da sala de aula. Se nio esta- mos mortos, 6 assim que os dons do po- der e os pretendentes a esse inquilinato nos consideram, mera figuraqio para a realizaqio dos seus apetites. A eleigio, com todas as suas limita- 95es, ainda 6 o memento mais elevado desse regime que seria tio ruim se nio fosse melhor do qlue todos os outros ja inventados pelo home, a democracia. E a hora de o povo mostrar que, ao contra- rio do que pensam os seus feitores, ainda esta vivo. E nho e: burro, nem tio indi- gente que esteja impedido de pensar. 8 JOURNAL PESSOAL*2" QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000 3 O porto fantasma da ilha do Outeiro O porto da Sotave, qule o governo federal desaproprioue em 1988, estaria sendo invadido, saqueado e utilizado para atividades cland'estinas, entire elas o traifico de drogas. Seguidas denu~ncias nzesse sentido te^mv sido feitas por viz~inhos e observadores do terminal, construi'do na ilha de Caratateua, a 20 quild metros do centro de Beld'm, integrado ao projeto da Sotave Amazdonia Qui'mica e Mineral da Amazinia. empresa pretendia instalar no local uma grande fabrica de adu bsquimicos, comn capacidade para tender o consume de toda a Ama- z8nia. A Sudam, que aprovou o projeto em 1 976, liberou para ele 60% dos incen- tivos fiscais que havia comprometido, re- presentando 40% do investimento total. O Banco Mundial emprestou mais 16 milhdes de d61ares (valor da epoca). Quando a Sotave enfrentava dificul- dades econ~micas e financeiras para dar continuidade ao empreendimento, o president Jos6 Sarney, em julho de 1988, autorizou a Portobras a desapro- priar o porto e assumir seu control. Desde entio, a Uniio ja pagou o equi- valente a 44% do valor da desapropria- Cho, dinheiro repassado aos credores da Sotave. Estranhamente, porem, nio se imitiu na posse do bem, embora o de- creto desapropriat6rio tenha sido revi- gorado tris anos atras. Em fungio dessa inusitada situaqio, as autoridades do setor t~m se recusado a adotar provid~ncias diante das reite- radas demincias de que as instalaqdes portuarias, parcialmente concluidas, mas em franco estado de abandon, numa area de 321 mil metros quadrados, es- tio sendo pilhadas. Nao s6, bens e equi- pamentos tem sido roubados, pore~m. Pelo menos duas fontes suscitaram a hip6tese de que embarcaqdes transpor- tando cocaine ja teriam aportado nos pi- eres, aproveitando-se da ausincia de f is- caliza~go. Guardas da Norsegel faziam a seguranga da area, mas a empresa nio recebe h6 meses. A divida ja teria atin- gido 1,2 milhio de reais. O donor da Sotave, Romildo Couti- nho, ja relatou o problema ao ministry da Justiga e ao pr6prio president Fer- nando Henrique Cardoso, mas nenhu- ma provid~ncia foi adotada. A justifi- cativa e de que, sem a imissio de pos- se, legalmente a responsabilidade pelo patriminio e da Sotave. No entanto, como a Uniko ja pagou quase metade do valor desapropriado, 6 claro que, pelo menos em tese, entire os bens roubados podem estar os que ja lhe pertencem. Al~m disso, contrabando e trafico de drogas, duas das serventias clandesti- nas dadas ao terminal abandonado, constituem assuntos da competencia do governor federal. O projeto da Sotave e um tema polC- mico desde seu surgimento, na metade da d~cada de 70. Em plena regiko ama- zinica, a empresa se propunha a produ- zir adubo quimico a partir de insumos im- portados. A fabrica foi locada numa ilha de estuario, razoavelmente habitada (qua- se 40 mil moradores), as proximidades da maior cidade da regiio, desenvolvendo uma atividade comn grande potential po- luidor e contrairia ao que progressivamente foi se constituindo uma das vocaqdes re- gionais:0oecoturismo. A decisio de desapropriar o porto e o calculo de avaliaqio do bem geraram ain- da mais discusses. Passada mais de uma d~cada da interven~go da Portobras, que at6 ja foi extinta, o ato ainda nio foi concluido. A ag~o expropriat6ria tramita por uma das varas da justiga federal de Bel~m, na fase de execu~go de senten- ga. Enquanto o patrimbnio da Sotave se deteriora ee6 saqueado sem uma defini- 950 clara de Brasilia sobre o seu uso, a prefeitura de Bel~m vem procurando sen- sibilizar o governor para a municipaliza- 950 do porto. Assumindo-o, o prefeito Edmilson Rodrigues pretend reciclar seu uso, adaptando-o para funcionar como ponto turistico. Nao hi drivida que 6 uma destinaqio mais compativel comn a area, mas nio estabeleceria uma rela~go custo/bene- ficio deficitaria? Nio se dispie de um valor atualizado da desapropriaqio ou do quanto a Uniko ja amortizou desse va- lor, mas e algo a contar por varios mi- lhiies de reais. Em grande parte, esse dinheiro seria jogado fora com a perda da fungio original das instalaqaes, pro- jetadas para servirem de terminal gra- neleiro especializado. Mesmo com a ameaga ecol6gica subjacente, mas passivel de prevengho se houver preocupa~go antecipada a respeito, nio deveria o porto ser apro- veitado numa fungo pr6xima da origi- nal, ainda que parcialmente convertida? E uma questio dificil, principalmente diante da limitada capacidade de supor- te de 25 toneladas da ponte do Ou- teiro, que faz a ligagio entire Bel~m e o porto da Sotave. Um outro dado impressionante nessa hist6ria 6 que, apesar de o porto existir e representar uma significativa imobilizaqio de recursos (na maior pate publicos, oriundos do tesouro national), e comple- tamente desconsiderado no plano director para o sistema portuario da Grande Be- lem. As alternatives sio o deslocamento de parte da carga do porto traditional de Bele~m para Vila do Conde, onde a aco- moda~go desse novo tipo de carga e pro- blematica, e a "revitalizaCio" das docas da capital paraense. Mesmo sem uma defmigiio explicit, o terminal da Sotave parece condenado a perpetuar-se, pela omissio dos respon- saveis, dentro e fora do governor, na sua triste fungio atual, de porto semi-clandes- tino. Pelo menos at6 que, confirmando- se dentincias e suspeitas, um escindalo estoure ali. E possivel que, nesse momen- to, aparega um bombeiro. () 4 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000 AGlo contra a Cthel: --res promotores publicos estadu- aj i5 ajuizaram no forum de Bel~m, bj no dia 23 de agosto, uma aao civil publica para apurar e punir os res- ponsaveis por um crime que, se compro- vado, seria um dos mais grosseiros e ci- nicos assaltos ao patriminio publico no Para nos ultimos anos. Em margo de 1998, o Detran teria decidido pagar a empresa cearense Fontossensores Tec- nologia Eletr~nica 70 reais por cada multa aplicada atraves do uso das impo- pulares "araras", quando a pr6pria em- presa, ao veneer concorr~ncia puiblica para a instala~go desse servigo, poucos meses antes, apresentara o prego mini- mo R$31,90 por multa. Entre a proclamaqio do resultado da licita~go e a assinatura do contrato, o Detran tomara a iniciativa de reajustar o valor em 120%, executando uma illegal , imoral e abusiva majoraqio do prego em desrespeito aos terms da licitagio e da proposta da pr6pria empresa", segundo a ag8o, assinada pelos promotores Jos6 Vicente Miranda Filho, Hamilton Noguei- ra Salame e Sumaya Morhy Pereira. O contrato, de cinco anos, poderia render R$ 5 milhdes nesse period. O principal responsavel pelo ato, o entio superintendent do Detran, Joho Marques, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Para, ja morreu. Mas des- de setembro de 1998 a Companhia de Transportes do Municipio de Bel~m, a Ctbel, em fungio da municipalizagio do transito, assumiu a titularidade do contra- to. A partir desse memento, a responsa- vel pelo pagamento a Fotossensores pas- sou a ser a president da Ctbel, Cristina Baddini Lucas. Ao receber um contrato "que violen- ta, no varejo, os mais cars principios do Caderno Constitucional, tais como o da legalidade, o da finalidade e o da morali- dade", praticando uma lesio "monstruo- sa e aviltante" ao erario, a president da Ctbel -na linguagem de libelo dos repre- sentantes do Ministe~rio Publico deve- ria ter declarado imediatamente a nulida- de do document, "ante o flagrante vicio de ilegalidade e imoralidade que o fulmi- nava". Ao inv~s disso, continuou a fazer os pagamentos, "mesmo ante constantes denuncias de sua irregularidade nos vei- culos de comunicaqio de massa desta Comarca, como 6 fato puiblico e notbrio", proclama a agio. Nela, os promotores pediram liminar- mente o afastamento de Baddini do car- go, para que nio pudesse vir a prej udicar a apuraqio dos fats e porque seus inte- resses seriam colidentes com os da pr6- pria Ctbel, "principal lesada pela conduta omissiva da citada administradora". No fmnal da a~go, comprovados os terms da denuncia, todos os responsaveis arcari- am com o anus do dano. Baddini seria afastada de vez do cargo publico, perdendo os direitos politicos e proibida de manter relaq~es com o poder publico, pelo crime de improbidade administrative. O contra- to teria que ser anulado. A partir do recebimento da ag8o pela juiza Dahil Paraense de Souza, da 15" vara civel, a ofensiva dos promotores entrou para a agenda da campanha eleitoral e para o largo noticiario da imprensa. Para os adversarios do PT, era a prova de que o partido nio s6 e incompetent para as- sumir a administration publica, como se enredou nas teias da corruppio atravets do exercicio do poder. Para a prefeitura de Belem, os promotores estio a serving dos seus adversarios, levando a question as barras da justiga exatamente no auge da dispute pelos votos na capital paraen- se, fornecendo farta muni~go aos adver- sarios de Edmilson Rodrigues. Uma leitura superficial da pega pre- parada pelos tras promotores dificilmen- te chegara ao fim sem que o leitor seja tomado pela fuiria e a indignaqio. Afinal, basta confrontar a proposta apresentada pela Fotossensores a comissio de licita- 950 do Detran ao contrato assinado en- tre as parties para verificar que, entire um e outro memento, o valor envolvido sal- tou de R$ 31,90 para R$ 70,06. Nesse caso, os responsiveis teriam que ser pu- nidos nio s6 por lesar o eratio, mas por nio saberem roubar, por serem relapses ladrdes de galinha. Mas nio e exatamente assim como deduziram os promotores de pronto (tio convencidos do crime que a exposi~go dos fats consumiu tio-somente tras das 27 paginas da peti~go inicial). Para a Fotos- sensores receber os R$ 31,90 que ofere- ceu a concorr~ncia, o Detran estabele- ceu em R$ 70,06 o valor da multa, ja que apenas 45,53% desse total ficariam com a empresa, cabendo ao pr6prio Detran a fatia maior da arrecadagio, de 54,47%. Os 45,53% aplicados sobre R$ 70,06 dio exatamente nos R$ 31,90 propostos pela Fotossensores. E por isso que em todas as faturas remetidas pela Ctbel ao juizo ha um s6 valor pago a empresa: R$ 31,90. Nesse caso, nio houve discreptincia al- guma entire os terms da concorr~ncia e os do contrato. Os promotores e que nio teriam sabido ler os documents, confor- me reagiu Cristina Baddini. Lamentavel erro tecnico ou injun~go political do governo sobre o MP visando desgastar a candidatura a reelei~go do prefeito do PT, que se mant~m a confor- tavel distancia do candidate tucano, Ze- naldo Coutinho, e ainda com alguma pos- sibilidade de decidir o jogo no primeiro turno (e, se nio o conseguir, como favo- rito para o 2" turno)? E uma questio (ou, conforme for, uma chaga) ainda em aberto. Mas ha pouca duvida de que os promotores, 17 meses depois de terem iniciado um procedimento extrajudicial, com base em denuincia do vereador Jader Dias, teriam feito melhor se aprofundassem a instruFho do proces- so antes de remete-lo a justiga, forgando nas tintas da acusagio. O pr6prio denun- ciante deixou de depor no MP, assim como os principals acusados. Conforme indicam os autos da aCgo civil publica, algumas peas essenciais a formaqio de um juizo s6 agora estio sendo juntadas. Os promotores podem ter-se deixa- do levar por um outro tipo de erro, que nio parecem haver percebido e que os fez apresentar conclusdes tio categ6ri- cas quanto falsas. A proposta da Fotos- sensores se baseava no seu prego, na sua receita. O contrato com o Detran tomou como referencia o valor da mul- ta, estabelecendo os percentuais desti- nados ao departamento de transito ea~ empresa. Os R$ 31,90 nio foram refe- ridos expressamente: eles surgiriam como decorrancia do calculo. A forma de consignar o valor pode ter sido um laps, mas tamb~m poderia ser um ralo atrave~s do qual, reajustando-se o valor da multa, majorado estaria tamb~m o ganho da empresa, acima do prego que a credenciou a ser a vencedora da licita- gho (inclusive por ter sido a linica a apre- sentar proposta, ja que os dois outros con- correntes potenciais desistiram). Mas nem mesmo essa hip6tese pode ainda ser comprovada como lesiva, ja que a dife- renga a mais pode ter outra destinaqio, dentro do org~amento publico. At6 o dia 8, todos os documents exis- tentes nos autos comprovavam que a Ct- bel s6 pagou mesmo os R$ 31,90 (num total de R$ 2,5 milhaes at6 agora). Argu- mentaram os promotores que a documen- taCgio espontaneamente enviada pela empresa municipal esta incomplete e suas JOURNAL PESSOAL *2" QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000 5 -L J--. -*- -i*-: ~?LZZI~ ~-~LtL I LLld-L3 F, ,Ls L ~ ItL~L Elsr*a~i~ahlmnr~a*l~dBEIIIIIIIIIIEls~l informaqdes sho insuficientes, o que e verdade. A primeira das faturas e: de fe- vereiro de 1999. Faltam as de 1998, quan- do a responsabilidade era do Detran. Pode ser que o 6rgio estadual nio tenha trans- ferido ao 6rgio municipal esses documen- tos. Mas seria precipitado deduzir dessa lacuna que haja a deliberada inten~go de camuflar a verdade, escondida por detras de numeros manipulados. Talvez ate haja alguma transgressor a desvendar nessa relag~o, mas at6 ago- ra inexiste uma s6 prova de que a Ctbel tenha pago mais do que R$ 31,90 por cada multa registrada pelas "araras", monta- das em 35 pontos da cidade, conforme ficou defmnido na licitagio. Certamente a terceirizagilo de servigos putblicos e a delegagio de poderes caracteristicos do Estado, excessivamente diminuido pelo chamado neoliberalismo, sho um tema a apreciar com mais vagar e profundidade, afastando os riscos de fraudes e desvios que sempre oneram o poder publico (e costumam aborrecer o cidadio, forgado a ceder sua parte para o faturamento de terceiros credenciados pelo poder putbli- co). Foi justamente uma combinaqio de maturaqio e discernimento que faltou a iniciativa dos representantes do Ministe- rio Publico contra a Ctbel. A pratica tem mostrado que a munici- paliza~go do triinsito foi apenas parcial e defeituosa. E claro que a empresa ter- ceirizada tem interesse em aumentar a incid~ncia de multas para elevar a sua receita. O problema e que um mimero cada vez menor de infratores vem pagan- do as multas registradas pelas "araras". Segundo uma information oficiosa, esse percentual ja e de 40%. A maioria s6 faz o recolhimento ao renovar o licenciamen- to annual do seu veiculo, junto ao Detran e nio a Ctbel. O Detran estaria fazendo o recolhimento, sem repassar a parte da companhia municipal, apesar de um con- vanio assinado entire as parties, em abril do ano passado, atraves do qual a Ctbel aceitou preservar R$ 10 por multa ao 6r- gho estadual. Logo, nio faltam motives para averi- gua~gio dos fats e corre~go das distor- 95es, originadas na pr6pria regulamenta- 950 do triinsito. Mas, ao tomar um ata- lho, o Minist~rio Publico pode ter-se des- viado do interesse ptiblico na questio, enveredando por um ramal politico. * Escrevi o te~vio abai.ro palra ap]tt'rsntrl7 o CD Ori, BELl 51. CANhTOS D)O PORTL\L D. Assl.4zoNIA. produ-ido por Carlos Lna1( e' annCado no inicio d~o mics emr Be/el. Todas as cidades do mundo sdo difere~ntes umas das ourras. Alas poucas sdo unicas. Paris e umra delas: toda a sua be~leza e uma constru- Cgo humana, que deixou a natureza do lado de: fora. Ou l'eneza, acampyada em palacios sobre canals de um plintano saline. Ou. apesar de tudo-. Bel~m. O qu: f'az Beleim ser unica no plane- ta? O engenho de umna arqluiterura 'u- roptia transplantada ipisis lite~ris para o tr~rpico amazanico, eml scu interior. mas esnobando-o (ficonl are de: c`sta parra o rio-rua'). O empenho de uma elite mno- menraneamente endinheiraida de conri- nuar esse projeto. um seculo depois, na elastica era da borracha. A sintese de uml sincretismo acasalado na maletolin- cia. Disso surgindo a cor, a rchiro, o gin- gado, ia ncam. a cozinha, a rua, a calgl- da. os be~irais, o telhado. os ais. Quem chega a Belem pe~rce~be logo essa dife~renga, ve~ndo e: sentindo. razio e Instinto, um mundo aquem e alemn do caclc~ulo. As ruas podeml estar esburac~a- das, o lixo e capaz de star esparramiado, o e~sgoto lisivel a ceu aberto, as marcas do abanidono e: da incuria. hlas essa gata borrallheira. que ja foi princesa. pode: vol- rar aos seus eincantos num zaz-rraz. Eles estio e~scondidos, mas ainlda existe~m. la- tejalntes, pe i ntes. Temos fei to mnuito para acatbar comn a que reSta, mas nem essa terri\el elite dirigetnte: conseguiu de~ixar a terra comlpletamnente arrasada. A~ terra fertil ainda Se: oferece is fecunda~go. Como a desse: disc. Ou\indo com atengio, temos a se~nsagio de que sio mtisicas do evilio. Cantoreis e composi- tores reunidos nesrte CD canltam a sau- dade, 13lamntam a perda. Alas nio de~i- xam de registrar a beleza, de acreditar no future, mesmo que ele sejas a tolra. Estio e\ilados no Rio de Janeiro ou em Sao Paulo, mas tambe~m na propria Be- lem. sob os esjcomnbros da mais bela ci- dade que os portugueses construiram fora da terra natal, como se estivessem na ilharga do Tejo. e que indios e cabo- clos de~coraram com suas floreS e en- cheram dos odores dais suas pripriocas, para as festas de Semlpre, feSti~;a me~s- mo ou guerreiras. de t erdaide. N~o sur- pre~ende que cantem o me~rengue. o ca- rimbo e o bolero como se manejassecm o fado. abrindo portas para o Caribe (pela verve de Paulo &F Ruy Barata) e para as noitres boamias se'm fim (com Eloi Iglesias) e com um tema langado ao ar (de Chico Sena.). Se e lso grande a nossa riqueza e 150 tinica a nossa idenridade. por que: temos que invejair a Bahia? propdre Os- valIdo OlIit e i ra. fazendo uma correlaqdo que nio nos deixa mial. O CancI1loner deste disco e de prime~ira linhla, coml seus hinos sentimentals (ao inves da conten- dional grandiloqtiancia), presents de Ed\r Proenga (um deles com Adakcin- da 'Camarito, cabocla de exportagio), e as dife~rentes visies desta cidade a bei- ra da idade quatrocent8, encantadora para peregrinos mais antigos, como Luiz Gonzag~a, e para exilados musicais do passadoltorustico Orvaldo ~liveira, voz dos subuirbios agitad-os), t erso de trova- dores como Jodo de Jesus e Alcir. Se~r- rio e Guilhenne. O nego~cio e seguir os artistss deste CD. 1autistas de Be~lem: nr e chorar, can- lar e danrgar.astrav~es de qualquer forma, e.1pressar o nosso amor sofrido e resis- tenre por San1ta Masria de Bele~m do Grilo- Para, a flor amazonica da Terra, deste pais que se chama Para, de Paranatin- ga, das barrancas do Guamd, receben- do as aguns do Alo~ju. do To~cantins. do Aceara, do Guajar1. da Gaia &r de todo o planeta do rio-marr amen. Alem. um golpe eleitoral? 6 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000 Tucurus: milhoies de dolares ocultos pela nevoa do tempo Eletronorte gastou quase 60 milhdes de reais para recuperar e complemen- Atar o canteiro das obras de duplicaCio da hidreletrica de Tucurui. Esse investimento equivale a 10% do orgamento previsto -de R$ 580 milhdes -para a eleva~go da capaci- dade de geraqio da usina, dos atuais 4,2 mi- lhies de quilowatts para 8,3 milhdes de kw. Numa auditoria realizada entire agosto e se- tembro do ano passado, tecnicos da Secreta- ria Federal de Controle Interno do Ministbrio da Fazenda anotaram que quase metade des- ses recursos -ou R$ 27 milhdes -foram apli- cados no canteiro com distorqdes, ou irregu- larmente. Alem disso, levantaram suspeitas sobre 21 itens da construgao. Ao inspecionar o local, os tecnicos cons- taram que os R$ 58,8 milhdes empenhados pela Eletronorte comn a Construtora Camargo Corria, a principal empreiteira, tanto da pri- meira fase quanto da segunda, ja haviam sido integralmente pagos, em seis parcelas anuais. Mas 30 dos 38 itens contratuais ainda nio haviam sido realizados, estavam parcialmen- te realizados ou nio tinham equipamentos no cart6rio. Os t~cnicos tambem suspeitaram dos prepos acertados. O journal Valor teve acesso ao relatbrio da secretaria do Ministerio da Fazenda e anun- ciou, no mis passado, que uma comissio de sindicincia havia sido instalada para apurar os fats, ja que a Eletronorte contestou as conclusdes dos auditors, acusando-os de nio terem compreendido o que examinaram. Qual- quer que venha a ser o desfecho do tema, a vigilincia dos stores competentes parece in- di car que, desta vez, uma grande obra nio passara ao largo de um control externo mais rigoroso. Assim, sera possivel impedir que, pelos muitos canals de vazamento que podem surgir em fungic da grandiosidade dos valores envolvidos, passem irregularidades. Infelizmente, essa sincronizagio entire o ato de fazer e o de controlar nio houve na primeira etapa da obra nem no memento em que ela era executada, nem posteriormente. Muitos tim questionado o custo de implantagio da hidrel6- trica de Tucurui, apresentando d~ividas quanto ao rigor do orgamento. Nenhuma foi mais con- tundente do que o engenheiro Eliezer Baptista, um dos personagens mais atuantes na hist6ria recenlte dos grandes projetos na Amazbnia. O ex-ministro de minas e energia e ex-pre- sidente da Companhia Vale do Rio Doce disse que a usina teria custado muito menos e nio teria obrigado o governor a subsidiary os dois maiores consumidores individuals de energia do pais, as fibricas de aluminio da Albris, em Barcarena, e da Alumar, em Sio Luis, em valor ao redor de dois bilhdes de d61ares (correspon- dente a duas fabricas inteiramente novas), se nio tivesse havido corruppio na obra. Revelei as declarapies de Eliezer no Jor- nal Pessoal da la quinzena de junho de 1997. Voltei mais duas vezes ao assunto, tentando sensibilizar a sociedade para a gravidade das palavras de um cidadio com a responsabilida- de do ex-ministro. A 6nica repercussio foi uma representagio que o entio deputado fe- deral Geraldo Pastana, do PT, encaminhou ao president do Tribunal de Contas da Uniso, em novembro de 1997. Em janeiro de 1998, apreciando a denun- cia, o assessor da Secretaria de Controle Ex- terno do TCU no Pari, Daniel Eliezer Rodri- gues, props o arquivamento dos autos. Se- gundo ele, os "graves dados" submetidos ao tribunal pelo deputado paraense, "que, alias, foram e sho amplamente conhecidos da socie- dade brasileira, escapam a [sic] apuraqio de- sejada uma vez que a constru~go dessa usina ocorreu num memento politico diverse do atu- al vivido pelo pais. Naquela ocasiio, de liber- dade restrita, o control externo nio apresen- tava algumas das atuais caracteristicas esta- belecidas somente em 1988, quando da pro- mulga~go da nova Carta Magna brasileira". Ja agora, "al~m de ser significativa a dife- renga political em relaCio a [sic] vigente a 6poca dos fats, ha ainda todo um process de pri- vatizaCio em andamento que tem alterado pro- fundamente a rela~go das citadas entidades com o Tribunal", argumentou o assessor. Para ele, e "razoivel supor que se deu em outras epo- cas a oportunidade e conveniancia de apurar os fatss, mas hoje "devemos ser realistas a ponto de compreender que dificilmente uma investigation sobre o caso ha tanto ocorrido, cujas possiveis provas dissiparam-se nas ne- voas do tempo, ocasionara no desfecho dese- jado pelo ilustre parlamentar". Como compensa~go, o assessor espera que venha a ser feita "a avaliaqio do desempenho present das atuais instituiFies federals sob jurisdi~go do TCU que tenham relaFgio direta comn a usina de Tucurui, cujas atividades pos- sam afetar esta e futuras geraqbes". Mas essa tarefa, tranqililiza o funcionario do tribunal, "tja vem continuamente sendo realizada", uma vez que "graves irregularidades e ilegalidades surgem com freqilincia". Como discurso moral, 6 consolador. Mas restringir-se a ele nio significa admitir um esta- do de impottncia desestimulador, como se as conquistas do regime democritica s6 valessem para frente e nio mais para tris? Foi a attitude do Tribunal de Contas da Uniio: seu presiden- te, Marcos Vinicios Villaga, acatando o parecer do t~cnico de Bel~m., determinou o arquiva- mento dos autos, como se a questio se referis- se a um tema do passado remote, que ja esti- vesse confinado a um arquivo morto. No entanto, a d6vida diz respeito a pelo menos centenas de milhdes de d61ares que po- dem ter sido sangrados do eratio por superfa- turamento, desvios, irregularidades, fraudes e outros ilicitos. O contencioso permanece ati- vo: nem todas as dividas internacionais con- traidas para a construgio da usina foram in- teiramente pagas. Tucurui ainda e um livro em process, com paginas abertas ou em bran- co. Mas, por sua historia tortuosa, serve de alibi para fraudes que continuam a ser perpe- tradas, aproveitando-se da dissipagio das pro- vas pelas "nevoas do tempo", conforme en- tendimento de muita gente, como o assessor do TCU, mas insubsistente, a meu ver, A revisio da primeira etapa de Tucurui, a maior obra publica de toda a histbria da Ama- z6nia (e uma das maiores da histbria brasilei- ra), nio e uma tarefa acadimica, estabelecida apenas para reconstituir o passado, ou um quisto de autoritarismo que nada mais tem a ver com o organismo democra~tico. E uma exi- gancia do mais alto interesse publico, para recuperar recursos dilapidados, identificar os responsiveis, punir os culpados e utilizar as liC~es em proveito da administration da coisa publica, para que os erros cometidos atris das costas largas do autoritarismo nio se repitam entire biombos decorativos de um regime de- mocratico puramente formal. Uma das alternativas em exame no proces- so -em cursor -de privatizaqio da usina, que o assessor do TCU talvez nio queira perturbar com o revolver de lama ainda inconsolidada de um passado velho de d~cada e meia, no maxi- mo, 6 justamente a higieniza~go da segunda eta- pa. A duplicaqio da capacidade de geraCio, pela adigio de 11 novas maquinas is 12 em opera- 950, nio seria contaminada pelos custos multi- plicados da primeira etapa. Isso, embora o ope- rador da nova casa de forga va usar a estrutura de concrete ja construida, a peso de ouro, qua- se literalmente falando. Essa conta exagerada seria repassada ao fundo perdido do tesouro national, como de habito, praxe que e admitida quase coma fatal natural porque nio se leva a reconstituiCio ate suas origens, em busca de suas raizes mais profundas. Uma rigorosa revisso serviria at6 para es- tabelecer uma base comum entire as diversas analises feitas sobre a hidreletrica de Tucu- rui. Recentemente a Eletronorte anunciou que) JOURNAL PESSOAL *2a QUINZENA DE SETEMBRO/ 2000 7 No Xingu, a energia do su bdesenvolvi mento e tudo transcorrer conforme seus pla- nos, a Eletronorte espera concluir o Sprojeto da hidrel~trica de Belo Mon- te, no Xingu, no final de junho do pr6ximo ano. Sera a maior usina brasileira (e uma das maiores do mundo), com capacidade de gera- Fgo tris vezes superior a atual de Tucurui (e 50% maior se considerada a duplicaptio da hi- drel~trica do rio Tocantins, apenas iniciada) e quase do tamanho de Itaipu, que o Brasil di- vide em parties iguais com o Paraguai. Quando entregar a Aneel (a agincia official reguladora do setor eletrico) os estudos defini- tivos de Belo Monte, a Eletronorte espera ter formado um ambiente favoravel a execupilo da obra. Seu orgamento foi reduzido do estratos- ferico valor inicial, de 11 bilhbes de d61ares, para fascinantes US$ 3 bilhdes, sem que a ca- pacidade de geraglio-de 1 1 mil megawatts, ou 1 1 milhdes de quil~owatts -tenha sofrido qual- quer diminuigilo. E o menor custo de kw insta- lado de hidreletricidade que se pode alcangar num empreendimento de grande porte. Algo que s6 tem semelhanga com a usina de Xing6, no Nordeste, a mais recent das mega-hidreletri- cas a entrar em opera~gio. Para aumentar o glamour, o lago artificial que se formara com o represamento das aguas do Xingu terai metade do tamanho inicialmente previsto. Alem do mais, os 600 quilimetros quadrados (ou 60 mil hectares) do reservatdrio correspondedio as cheias normals do rio. Ei uma area quase cinco vezes menor do que a do lago da hidreletrica de Tucurui. Nenhuma das aidei- as indigenas pr6ximas sera atingida. A mata afetada ja sofre semestralmente a aglodas aguas nos periods de enchente. O (mnico remanejamento significativo atin- gira um bairro de Altamira, mas esse desloca- mento ja estava previsto porque o local et peri- odicamente inundado. Como Altamira esta bem pr~xima, nho seri necessario construir uma nova cidade ao lado do canteiro de obras: quem tra- balhar na usina ir8 morar na sede do municipio, reduzindo a necessidade de investimentos na infraestrutura e favorecendo Altamira, se me- didas preparatbrias forem adotadas a tempo e na escala necessaria. Maravilha da engenharia? Talvez. A inova- Cgio introduzida na Amazo~nia pelo projeto de Belo Monte esta na distincia, de 50 quilbme- tros, entire a barragem e a casa de maquinas. Em Tucurui, as maquinas foram instaladas na es- trutura da pr6pria barragem. No caso do Xin- gu, dois rios serio usados para ligar o local do represamento ao de geraqio. Mas, para desem- penhar essa fungilo, terilo que ser alargados e receber concrete numa extensio de 13 quilb- metros. Nada absolutamente inedito em mate- ria de engenharia, mas trabalho complicado, ain- da mais na Amazbnia, em funglio da enorme movimentaCio de terra que acarretara. Esse e um ponto novo a considerar. Ha outros, que ja constituem acervo hist6rico depois de Tucurui, Samuel, Balbina, Coaracy Nunes e Curua-Una, mas que exigem aborda- gens novas, distintas de varias das solugdes adotadas. Os rios da Amazi~nia sho volumo- sos, mas tim uma declividade pouco acentua- da, de problematica vazlio diante do seu por- te. A partir de suas margens costuma desen- volver-se uma densa e rica cobertura vegetal. A formagilo do solo e do subsolo de suas are- as e complex, escondendo misterios e ofere- cendo surpresas. O equilibrio e dintimico, mas delicado. Os desdobramentos de qualquer al- tera~glo podem desafiar a imaginagilo. No caso de Belo Monte, os engenheiros des- cobriram que a sinuosa curva do Xingu a altura de Altamira cria um desnivel de 90 metros en- tre o ponto de barramento do rio e o lugar ideal para a construgho da casa de maquinas, desni- vel quase 20 metros superior ao de Tucurui, dispensando a elevagilo da barragem a um nivel tal que levaria a uma inundagilo em grande es- cala (como a prevista no primeiro proj eto para a area, que incluia a desastrosa barragem de Babaquara). E um pass adiante na cultural dos barrageiros. Sua incorporagilo a cultural geral da regitio e do pais, entretanto, requer um compe- tente questionamento do projeto. Ela precisa resistir a testes de consistincia. Este eo aspect fundamental das liqdes que a hist6ria da hidreletricidade na Amazinia nos oferece: e precise acompanhat pari passu os idealizadores e executores da obra para evitar que, ao ser apresentado o proj eto basico, como a Eletronorte pretend fazer dentro de menos de um ano, ele seja uma autintica caixa preta para a sociedade -e, por outro lado, uma arma para os que dominam os c6digos de decifragilo. A mais autoritaria das empresas federals da regitio (na qual, aliis, resisted em instalar sua sede, passados 27 anos da sua criaqio), a Ele- tronorte se recusa a antecipar, ampliar ou se- quer instalar debates a respeito. Prefere so, anun- ciar a obra quando seu desenho estiver conclu- ido, como sempre tem feito. Mas a sociedade amazonica, que tem sido tio prejudicada quan- to beneficiada pela a~go da empresa, numa es- cala incompativel com o grau de democratiza- Fgo e inser~gio regional de outras empresas (in- clusive as corporaC~es privadas), niio pode mais tolerar a arrogfincia e a auto-sufici~ncia da Ele- tronorte. E precise forga-la a baixar entire os seus jurisdicionados, que a empresa talvez pre- fira tratar como suditos. Uma relagilo mais amadurecida e civilizada mostraria que essa e ate mesmo a maneira de evitar mal-entendidos, partidarismos e radica- lismos decorrentes, na maioria das vezes, pura e simplesmente da desinforma~glo- ou, quando nito, da ma informa~glo. Se a primeira vista pa- rece que Belo Monte serat uma obra bem menos agressiva a populagio e ao meio ambiente do que Tucurui ou qualquer outra usina similar, nito se deve deixar de considerar a possibilida- de de que, do ponto de vista econbmico, ela represent uma sangria muito maior para o Para. Com linhas de transmissito na maior tensilo exis- tente no pais, enormes blocos de energia bruta serilo transportados por mais de dois mil qui- lImetros para o grande centro consumidor bra- sileiro, deixando como saldo um Para defmniti- vamente "vocacionado" -e, por isso, espolia- do -como provincia energetica national. Ener- gia nito para desenvolver, mas para subdesen- volver, de vez. ci ~-"~*rry"V~RIYa~rVy:rs~~ ir~.l,.,~rp~~;~h:~wc--r~I~i~i~j~;~.;,~ .! ........... ;.U.'L-, ,l.i~fk'?';."L: Yir ~:"L rr~r~ Ub~'r ~.,r...... ~cr~,,~...-i......... )o custo final da primeira etapa, a prepos do final de 1997, era de 5,7 milhdes de reals. Quando a usina foi inaugurada, no final de 1984, o custo, incluindo apenas os juros pa- gos durante a constru~gio, era calculado em 5,4 bilhdes de dblares. Feitas as amortiza- 95es ate o finalde 1998, algumas fontes admi- tiam um valor minimo de US$ 7,5 bilhdes. Outras ja se aproximavam de US$ 10 bilhdes. Como pide a Eletronorte chegar agora a R$ 5.7 bilhdes apenas (algo pr6ximo de US$ 3 bilhdes)? E como conseguiu reduzir o orgamento da segunda etapa dos R$ 911 milhdes inicialmente previstos para os R$ 580 milhaes que anunciou? Mesmo com essa expressive diminui- glio de custo, gragas a "otimiza~gio do pro- jeto" e "negociaglio dos pregos", o setor de control externo esta suscitando sus- peitas de irregularidades. Convinha que outros 6rgilos ptiblicos, seguindo caminho inverse ao do TCU neste caso, topassem enfrentar as "nevoas do tempo" e buscar as pistas capazes de os conduzir at6 a ver- dade de um dos capitulos mais importan- tes e cars da hist6ria recent da adminis- tra~gl pxiblica no Brasil. 9 JOrnal Pessoal Editor: LirClo FI~viO Pinlo- Fones: (0911 223-7690 (lone-laxl e 241-7626 (fax) Contato: Ty.Benlamin Conslant 8415'203:66 053-040 *e-mail: lornalc~amazon.com br Edig~o de Arte: Lulzanionilodefariapintoi230 1304 * Walter Rodrigues e um jor- nalista paraense ha muitos anos radicado em Srio Luis. Sua mais recent empreitada e o Colunio, um journal que semanalmente escreve, sozi- nho, encartado no Jornal Pe- queno, um dos diairios da ca- pital maranhense. Walter tem um dos melhores textos que o jornalismzo paraense ja produziu. ES uma pena que ndo disponhamzos mais de sua competincia entire nos. Mas e bom que continue firmze no batente jornalistico vizinho. De la, ele mandou sua nota de solidariedade, que aco- lho com prazer * CARO L~cto FLAVIO, Nio sei nem quero saber o que foi que o pornocrata de aluguel do "Jornal Popular" vomitou contra ti. Aceita minha mais absolute solidariedade diante de semelhante facinora e da lamen- tavel participagio financeira da prefeitura petista nesses crime. Ainda e tempo de o PT reco- nhecer o erro e penitenciar-se. Mais do que janelas para o rio, precisamos de janelas para a uto- pia e a esperanga. E a isso nI~o se chega cavalgando um Silas Assis. O fim justifica os meios, talvez, mas os meios iluminam os fins que se quer alcangar. Com um abrago do Walter Rodrigues. Com uma fldalguia que ja ndo se encontra na praga, Luis Faria mandou um tele- grama de felicitagd~es a este journal por seus 13 anos de vida. Mais Luis existissem e seria muito mais leve a cruz que cabe a um jornalismo ver- dadeiramente independent. * Parabens pelos 13 anos de exist~ncia! Realmente, n6s, leitores, somos deveras mal- agradecidos. Tanto tempo este important jornal nos ajuda, dando informaqbes e nos ques- tionando sobre tantos assun- tos, e nos mantivemos mnertes. Perdoe-nos. Sua leitora assidua, Bettina Florenzan'o nica. Nio pude conversar com ele, mas, pelo que noticiou a imprensa, Wagensberg esta enfrentando resistincias e seus parceiros brasileiros tam- b~m. Por conta das cautelas com a bioparataria, at6 mes- mo a cooperaqio cientifica se tornou empreendimento pro- blematico entire n6s. Suspei- 95es, nem sempre fundadas, mas largamente propagande- adas, podem inviabilizar uma empreitada binacional. E claro que e precise ter muita atengio e ser rigoroso antes de autorizar a coleta de material ou projetos de pesqui- sa. A legislagio ainda e per- missiva ea conscitncia -eti- ca e moral claudicante, alem da imorredoura corruppio. Mas deve-se tratar desigual- mente os desiguais. Isto nio deve significar maior condescendincia, mio na cabega ou exceqdes inde- vidas. Nio se pode, porem, deixar de considerar o passa- do, com seu acervo de reali- zagies. A partir da compre- ensio de que sem cooperaqio international caminharemos sempre mais lentamente do que os paises mais adiantados. O resultado sera que, a des- peito de uma retbrica nacio- nalista e protetora, ou mesmo por causa dela, s6 aprofunda- remos o fosso que nos man- t~m no atraso. A maneira de separar o joio do trigo e desvendar os misterios 6 submeter todos esses programs e projetos ao debate publico, sem sonegagio de informaqdes e sem estra- tagemas de camuflagem. O Museu da Ciincia ja fez pela Amazania, em matdria de di- fusio e divulgagio cientifica, mais do que muita instituigio national. Tem um conceito estabelecido. A Amaz6nia pode ganhar muito nesse in- tercimbio. Basta que ele evo- lua a luz do dia, aberto ao exa- me e a investigation, quando o caso, e sempre prestando con- tas do que realize. O mundo tem explorado a Amazinia. Mas sem intera- gir com o mundo, a Amazo- nia nio encontrara uma al- ternativa valida para a utili- zaFio do seu fantastico po- tencial de recursos naturais. Este 6 o seu grande desafio. Sem enfrenta-lo, virara as costas ao seu future. CorreCgo * Como o atento leitor deve ter percebido, nosso editor grafi- co, mais rapido do que o tem- po, datou a edi~go anterior como se fora referente B se- gunda quinzena de setembro, quando se tratava da primeira quinzena. Felizmente o erro nio se propagou pelas paginas internal, que sobreviveram com a data correta. O mesmo indigitado deixou de seguir a ordem hierarquica da prefe- rancia do eleitor pelos candi- datos a prefeitura de Bel~m, colocando Augusto Rezende a frente de Zenaldo Coutinho, quando a vontade dos entre- vistados, manifestada nas pes- quisas, 6 favorivel ao candi- dato do PSDB em relagio ao do PMDB. Como punigio, nosso editor grafico fara um estagio em O Liberal, onde tal tipo de erro, cometido na 61ti- ma edigio dominical, foi mui- to mais grave (e em cores), sem a cercadura risonha e franca do cochilo do nosso ar- tista, que, como tal, tem ha- beas corpus preventive. Perdio, cars leitores e candidates. Estar no mundo * Foi no Museu da Ciincia de Barcelona, na Espanha, cinco anos atrais, que eu vi a melhor exposigio sobre a Amaz~nia. Os pontos altos foram uma enorme grvore amaz~nica transplantada viva para ocu- par o centro de exposiqdes e uma maquete computadoriza- da simulando todo o ciclo da ggua na regi~o a partir de trts perspectives: em terra, desde a copa das grvores e do alto de um satblite. A exposi~go foi uma realizaCio herculea de Jorge Wagensberg. Como faz ha sete anos, ele circulou novamente por aqui, agora tamb~m como assessor do Museu Goeldi para o novo parque da instituigio, ao mes- mo tempo que esta montando uma nova exposi~go amaz8- Mensagem *Hg um outdoor nas ruas que diz mais sobre os costu- mes politicos desta elei~go do que mil editorials. Sobre uma foto do ex-representante do Ibama no Para, Paulo Caste- lo Branco, com seu nuimero de registro de candidate a ve- reador, os seguintes dizeres: "Flagrante? Extorsio? Trafi- Sco de influincias? O povo nio e mas burro". Se hB burrice na frase, e a de quem confunde a conjun- ~go mas com o adve~rbio mais. No fundo, o autor nio acredi- ta na intelig~ncia do povo. Ja o povo, pelo que p~de saber do caso, dar8 a resposta a oportunista mensagem. |
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