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Em 1964, Henry Checralla Kayath foi afastado pela pri- meira vez do servigo publico, Equando era secretirio da fa- zenda estadual, no governor Aurelio do Carmo. Acusado de corruppio, foi cas- Ssado e seus direitos politicos foram sus- Spensos por 10 anos pelo regime military I- que se estabeleceu no Brasil com a depo- sigiodo president Joho Goulart. NiiopIde se defender. Trocou entio o Para pelo Rio de Janeiro. Abandonando a political, prati- cada no velho PSD baratista, voltou ao exercicio de sua profissio de m~dico. Passados 25 anos, Kayath recebeu nova puni~go cirilrgica: em 1989, a pe- dido do ent~o ministry do Interior, Jo~o Alves, o president da Reptiblica, Jos6 Sarney, demitiu-o da superintendincia da Sudam, a bem do servigo p~iblico, por desidia e improbidade equivalente a prevaricaqio). Mas os procedimentos administrative e policial instaurados aca- baram sendo arquivados. Isento da de-) JOTIT CeSSOa LUIjC O F LAVIO P N TO ANO XIII NP 241 2L QUINZENA DE AGOSTO DE 2000 ^*'RS 2,00 SUDA M Esqueleto fora do armanoo 2 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE AGOSTO/ 2000 mincia, Kayath contra-atacou: em maio deste ano ajuizou uma a~go de indeni- za~go de danos morals e reparag8o de danos materials contra a Uniio peran- te a justiga federal, em Bel~m. Um dos advogados de Kayath 6 o ex-juiz fede- ral Edison Messias de Almeida, que abandonou o forum hB nio muito tem- po. O ex-superintendente cobra cinco milhoes de reais de ressarcimento pe- los prejuizos que alega haver sofrido. Em funCho do ato desonroso de de- missio sumaria, Kayath argument que se sentiu moral e psicologicamente aba- lado e sem condiqbes de prosseguir em sua carreira de medico e de politico. Pe- diu seu desligamento da clinic m~dica da qual era sdcio e das atividades de ma- gist~rio na 28" Enfermaria do Rio de Ja- neiro, al~m de desistir de se candidatar a governador ou a senador do ParB, nas eleiqdes de 1990, perdendo o que ja ti- nha e vendo frustrarem-se as perspecti- vas emergentes de ganho. Aplicada aos 130 meses decorridos desde esse abalo, a indeniza~go pedida representaria uma remuneraqio de quase R$ 40 mil men- sais nesse period, prova de que Kaya- th continue pensando muito alto quando avalia seu potential. E de se prever que a demand ird se prolongar at6 a decisio final, se a Uniko nio acatar os motives apresen- tados por Kayath para pedir indeniza- 950. A produ~go de provas na lide, in- dependentemente do seu desfecho, de- vera contribuir para esclarecer alguns mementos importantes da hist6ria re- cente do ParB. At6 ser cassado, o medico Henry Kayath era uma das principals perso- nalidades do Partido Social Democriti- co do general Magalhies Barata. Im- pressionava tanto pelos seus conheci- mentos na Area m~dica quanto por sua engenhosidade na condu~go das finan- gas pilblicas e sua argxicia nas mano- bras political. Os militares o cassaram nio por subversio, uma das faces da repressio feita aos advers~rios derro- tados, mas por corruppio. Alegaram que Kayath desviava dinheiro do era- rio. Mas como o process de puni~go nio admitia o contradit6rio, o ato pres- cindiu da demonstraqio. Fundando no Rio de Janeiro, cinco anos depois, uma clinic especializada em endocrinologia, nutri~go e diabetes. Kayath conseguiu recomegar sua vida com sucesso. Parecia desligado do Pard e do universe politico anterior. Eleito go- vernador em 1982, por~m, Jader Bar- balho, filho de um antigo amigo e cor- religiondrio de Kayath, valeu-se da as- sessoria informal daquele que era con- siderado "o c~rebro" do extinto PSD de Barata, principalmente em mat~ria fi- nanceira. Em 1985, trouxe-o de volta a Bel~m para chefiar a Superintend~ncia do Desenvolvimento da Amaz~nia. Em 1987 Jader deu posse ao suces- sor que conseguiu eleger, principalmen- te por ter ficado no governor at6 o fim do seu mandate. Mas logo os caminhos de Helio Gueiros comegaram a se dis- tanciar dos do seu aliado. Um dos mo- tivos dessa ruptura estava na elei~go seguinte: Jader desejava voltar ao go- verno, consolidando seu dominio da po- litica paraense, mas H61io nio o queria, por ter os mesmos pianos de domina- 950. Seu candidate do peito era Henry Kayath, que, para se viabilizar, armava comn o entilo governador todas as ar- madilhas para obstar o retorno de Ja- der. Um dos seus maiores trunfos era justamente o cargo que o atual senador do PMDB lhe proporcionara. Para aumentar a forga da superin- tend~ncia da Sudam e escapar a subor- dinaCio ao ministry do Interior, fiel a Jader em fung~io dos interesses comuns dentro do PMDB (na presid~ncia da Republica com Sarney), Kayath deu nova demonstraqio da sua sagacidade: inventou uma modalidade de aplicaqio de recursos dos incentives fiscais, o "17 e meio", uma forma intermedidria en- tre a aplicag8o pelo "artigo 18" (atra- v~s da qual grandes empresas, que tam- bem sho as maiores devedoras do im- posto de renda, aplicavam diretamente em proj etos pr6prios na Amaz8nia) e o "artigo 17" (aplicag~o pela Sudam, atravds de leilio, das opgdes feitas pe- los pequenos investidores, sem direito a escolher o destinatirio). No esquema arquitetado pelo supe- rintendente, os projetos do artigo 17 podiam tentar seduzir os grandes de- vedores do imposto de renda para lhes destinar parte de suas opg~es, apre- sentando-as a Sudam, que as carim- baria (dai a expresso incentiveo ca- rimbado"), honrando a escolha. Mas para que ela se efetivasse, foi resta- belecida a selvagem atividade de cor- retagem, com toda a sua fauna acom- panhante, que a institui~go de um fun- do estatizado, o Finam, em 1974, viera para combater (a comissio de corre- tagem chegou a representar 40% do valor do incentive fiscal). Albm disso, o superintendent, com os poderes do principle, decidia com ab- solutismo sobre esse crescente "17 e meio". Ngo s6 atraindo para si uma prerrogativa ate entio inexistente (e sem franquia legal), como desencade- ando processes especulativos que po- diam nio estar obj etivamente a ele vin- culados, mas de sua decisio decorriam. Nessa estrutura, vicejou a Ebal, ate: a ascensio de Kayath um obscure proje- to, que nio havia recebido um tostio de incentives, e, depois, favorecido pela liberaCio de quase todos os recursos comprometidos no intervalo de dois meses, com ampliag6es posteriores, o s~timo maior estaleiro do pais. No co- mando da empresa, dois filhos do entio governador H61io Gueiros, entronizados em sincronia comn os "novos tempos". A Sudam era, assim, a catapulta para langar o doutor Kayath aos c~us da political paraense. Maquiavelica- mente, o entio ministry Jader Barba- lho tratou de desfazer a geringonga. Com base em procedimentos internos que nio chegaram a amadurecer real- mente, Kayath foi demitido sumaria- mente da Sudam. Para evitar o con- tradit6rio, o ato foi baseado na Conso- lida~go das Leis do Trabalho, ao mes- mo tempo em que foi divulgada a ale- gaqgo de just causa (como o cargo e de confianga, o afastamento ja era puni~go satisfat6ria aquela altura, se a intengio era proteger o interesse pui- blico). O objetivo era menos defender a coisa publica do que tornar inelegi- vel o ex-superintendente, afastando-0 da corrida eleitoral de 1990. Nesse sentido, Kayath tem no que basear seu argument de que o ato com- prometeu a continuidade de suas pre- tensdes political. Mas se estivesse re- almente decidido a enfrentar o desaflo, ao menos teria apresentado seu nome como candidate, ao governor do Estado ou ao senado, esperando eventuais im- pugnaqbes. A elas poderia reagir com um fato: em nenhum dos procedimen- tos contra si instaurados houvera deci- sho final; ainda cabiam recursos. Logo, era tio elegivel em 1990 quanto Luiz Otavio Campos o foi em 1998. Na verdade, maior do que a amea- ga dos processes era a possibilidade de o eleitor o rejeitar para os dois car- gos, em um deles tendon que enfrentar o pr6prio Jader (que acabou derrotan- do o ex-prefeito Sahid Xerfan, apoia- do por Gueiros, que tambem ficou at6 o uiltimo dia do seu mandate). Passa- dos mais de 10 anos dos atos de ofen- sa moral, s6 agora o ex-superintenden- te busca a reparaqio dos danos, ao prego de R$ 5 milhdes. A explicag8o e de que ele esperou pela instruCio de todas as apuraF~es, concluidas com o pedido de arquiva- mento. E~ fato. A manifestagio da Uniio nos autos da a~go de indeniza- ~go, que tramita na 5" vara federal do JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE AGOSTO/ 2000 3 A corte paraense e os mronumnentos I II _ ParB, podera, no entanto, levar a fats novos e, talvez, i revisio dessas deci- saes, algumas das quais podem ser consideradas passiveis de controver- sia. Em 1989, por exemplo, o procura- d rr regoa lad ue~blc Puo Mei to instaurado pela Policia Federal a par- tir de den6ncia feita contra Kayath pelo empresario Joaquim Bittencourt. A denuncia de "Feola" resultava de interesse pessoal contrariado. N~o fi- cara demonstrada a responsabilidade penal do superintendent da Sudam, nem tipificados os crimes. Mas o pro- curador concluiu que a pritica do "17 e meio" era incompativel com a legisla- Fgo dos incentives fiscais, provocara abuses na intermediaqio para a cap- ta~go dos recursos, havia nascido "a margem da lei e a sua ado~go, ou, no minimo tolerincia pela diregio da SU- DAM represent, claramente, um ili- cito administrative". O procurador da Repuiblica viu, no balango dos pr6s e contras dessa cria- Fgo "mais beneficios do que prejuizos", apesar dos altissimos pregos de corre- tagem (retidos no sul do pais, local da capta~go, desviando-se da atividade produtiva para a intermediaqio espe- culativa). Mas ainda assim, nio teve d6vida sobre a ilicitude administrative: "os dirigentes que aprovaram e ate es- timularam o uso do sistema do 'artigo 17 V/2' praticaram infraC~es administra- tivas, sendo passiveis das penas cabi- veis e, se demonstrados prejuizos ao 6rgio, conseqilentes de tais infraqdes, serio, tamb~m, civilmente responsaveis pela reparaqio a entidade". N~o hi duivida de que o prop6sito de apurar tais crimes foi comprometi- do pela interfer~ncia political, visando impedir Kayath de se apresentar como candidate em 1990 em beneficio do seu ja entio advers~rio Jader Barbalho. Mas ha duvida se os inqu~ritos foram final arquivados por inexistincia de delito ou simplesmente por incompe- tincia (ou inapet~ncia) para compro- var as ilicitudes apontadas pelo procu- rador Paulo Meira, o tempo decorrido acabando por servir a acomodaqdes burocriticas, de quem talvez tenha optado pelo arquivamento para nio precisar recomegar tudo a partir de no- vos fats apurados. Mas agora, em que uma soma significativa esta em causa e uma cadeia de responsabilidades pode vir a ser estabelecida, essa revi- sho talvez ocorra, ajudando a esclare- cer de vez uma hist6ria mal contada de um passado tio recent, mas apa- rentando ser tio remote. O desabamento parcial do Col6- gio Lauro Sodr6 se apresenta como um caso de neglig~ncia na adminis- traqio do patrim6nio hist6rico. e ar- tistico do Estado. Podia ter sido tam- b~m um acidente com vitimas a la- mentar se tivesse ocorrido poucos dias depois, em pleno reinicio do se- mestre letivo. Em qualquer das hi- p6teses, serve de ligio, de alerta e de acusa~go. E revoltante ver o estado de aban- dono em que foi deixada uma insti- tui~go de ensino com 128 anos de vida e um predio valioso, testemu- nho da passage do neoclissico en- tre n6s. Concebido num period de riqueza, no qual a elite dirigente ten- tava trazer a civiliza~go europ~ia para os tr6picos amaz~nicos, a sede do "Lauro Sodr6" exige uma reci- clagem, uma nova destinaqio. Dei- xar que a incuria cumpra esse pa- pel, entretanto, nio 6 aceitivel, ape- sar dos antecedentes sugerirem a pritica de um ardil: deixar o patri- minio se deteriorar para que sua recuperaqio se tor a mais destacai- vel e mais cara, -~aturalmente. Essa reciclagem alcanqa tamb~m o mercado de Sio Braz c o mercado de ferro do Ver-o-Peso, construgdes que ja nio mantim coerbncia, nem mesmo commercial, com seu uso. O belo mercado de Sgo Braz, na base do ensaio e erro, vai evoluindo aos tropeqdes. Ja o mercado Francisco Bolonha permanece escravo da so- nol~ncia mental dos gestores munici- pais (nio s6 os de hoje). Romper com essa mesmice nio autoriza, contudo, um anticonvencionalismo destrambe- lhado, de nouveau riche deslumbra- do com o pr6prio umbigo, de narci- sos imobilizados diante do espelho. E precise ouvir a sociedade em geral e os especialistas em particu- lar para definir uma political coeren- te e produtiva para o patriminio pui- blico, tanto o estadual quanto o mu- nicipal. Mas sem sangrar o eririo. Da maneira como vem sendo feito no Museu do Estado, no Parque da Resid~ncia, na Esta~go das Docas e na Feliz Lusitinia, 6 inevitavel que um santo novo coberto deixe o san- to velho exposto. O dano econbmi- co e financeiro aos cofres publicos e crescente. Mesmo assim, o Landi maneiris- ta do doutor Almir quer sangrar ain- da mais a vidiva com seus proiximos projetos, no Forte do Castelo, no Ar- senal de Marinha e na antiga Alf~in- dega (e, se deixarem, no "Lauro So- dre" tambem). Investimentos que comegad~o beirando os 30 milhdes de reais (por quanto terminario, e sempre uma inc6gnita), depois po- derio resultar em transfer~ncias subsidiadas aos amigos do rei. O Estado, onerado pelo gasto sem re- torno no investimento e pelo subsi- dio do custeio, nio poderd dar con- ta de todo o acervo posto sob sua responsabilidade. Ngo 6 circunstancial o desaba- mento no "Lauro Sodr6" ou o esta- do de abandon do Museu do Esta- do. Como o dinheiro 6 carreado para as criaq9es do arquiteto real, as ou- tras edificaqdes tim que dividir as migalhas sopobrantes. Afinal, o Para1 deste final de s~culo ja nio 6 o Es- tado rico do inicio. A situaqio mu- dou muito. S6 quem nio admite essa realidade 6 o ordenador das despe- sas (com o dinheiro que nio sai do bolso dele). Ha muito no que pensar crian- do ou recriando na gestio do pa- trimanio material da cidade. E uma frente ampla e complex, o bastan- te para nio se admitir mais que ela seja decidida em circuit fechado, por uma "turminha", numa agio en- tre amigos. Eles podem ser vivazes e inteligentes, mas a esfera pdblica requer control pdiblico. A Estagio das Docas foi entregue, sem con- vocaqio pdblica (licita~go? nem pensar), aos escolhidos pelo feitor da obra. Albm de nio ter o regula- mentar EIA-Rima, a destina~go da obra foi decidida em circuit fecha- dissimo, com seus agravantes de custo. Isso, em plena 6poca de ONGs e Minist~rio P6blico (o fede- ral, pelo menos) ativissimos. Ou a coisa pdblica se tornou cai- xa preta na administration de El-Rei Gabriel? 4 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE AGOSTO/ 2000 O entio senador e president (por qua- se meio s~culo) da Federaqio das Indits- trias do Para, Gabriel Hermes, Filho che- gou a ameagar que se a hidreletrica de Tucurui fosse inaugurada sem o restabe- lecimento da navegagio no rio Tocantins, ele se colocaria debaixo da barragem, a jusante, como protest. Present na oca- siho do compromisso, sugeri ao nobre se- nador (ja falecido) que levasse um guar- da-chuva para se proteger. Ele riu. Talvez todos encarassemos com ceti- cismo a possibilidade de o 25" maior rio do planet, comn 2.200 quil~metros de ex- tensio, ficar bloqueado pela monumental estrutura de concrete, no interior da qual imensas turbines comegariam a gerar energia no final de 1984. Mas nesse mes- mo ano o entio coordenador da presid~n- cia da Eletronorte, Armando Ribeiro Ara- ujo, foi ao plenario da Assembleia Legis- lativa e disse, com todas as letras, que sua empresa nio cumpriria o C6digo de Aguas, de 1934. O rio Tocantins ficaria mesmo sem o sistema de transposi~go complementary, necessirio para veneer o desnivel de 70 metros criado no rio pela barragem de Tucurui. Na casa das leis, um servidor publico assumia a condi~go de transgressor da lei. Entrou e saiu sem receber voz de prisio, embora ela tives- se sido sugerida a um deputado, que a descartou, "porque criaria um escinda- lo". Nio 6 a 6mica maneira de fazer o mamute estatal se mexer? Quando o projeto executive da hidre- letrica foi aprovado, em 1976, isso era im- possivel: a Eletronorte era responsavel tanto pela usina de energia quanto pelas eclusas. Nessa configuraqio, a transpo- si~go, representando 5% do custo da hi- dreletrica, era um "detalhe". A infraes- trutura de apoio abocanhou 20% do que a obra custaria ao ser inauguralda. nlas a eclusagem foi passada para os ombros da Portobriis, deixando menos one~rados os da Eletronorte. A Portobrds desa- pareceu em meio ao ziguezague da privatizagio e do Estado mini- mo. As eclusas de Tucurui, destinadas a ser as maiores do mundo, ficaramno arqui- . vo em banho-maria. Mais de 15 anos depois T que a hidrel~trica entrou em funcionamento, um novo capitulo dessa novela de transposi~go da barragem est8 programa- do para os pri~ximos dias. Dois ministros irio ver o andamento das obras das eclu- sas, que 6 minimo. In situ, dir~o que o projeto 6 prioritbrio, far~io refer~ncia a recursos, anunciario um cronograma e voltario para Brasilia. Tudo como dantes no pal~cio (jB que o quartel ficou fora de moda, ao menos tem- porariamente) de Abrantes? Certamente, nio fora um detalhe: at6 2004 a Compa- nhia Vale do Rio Doce precisa definir uma nova fonte de energia para suas ativida- des produtivas, a principal delas sendo a metalurgia de aluminio, em Barcarena, que responded por 1,5% do consume energ~ti- co de todo o Brasil. A melhor hip6tese seria continuar a usar Tucurui, da qual a Albris extrai mais de um quarto da potincia firme. Mas a Vale s6 estaria disposta a entrar no leilio da usina se com ela nio viesse o custo acu- mulado, que era de 5,4 bilhaes de d61ares na data da inauguraqio (o dobro da pri- meira estimativa de projeto) e j8 esta pas- sando de US$ 10 bilhaes comn os juros, hoje, ainda sem complete amortizaCio. Tal be- nesse seria mais lesiva do que os ja leoni- nos contratos de suprimento em vigor, que terminam dentro de quatro anos. Entio, 6 precise colocar para funcionar a plena carga a cabega dos assessores e a inven- tiva dos parceiros entiree os quais voltou a se incluir o governador, com o acordo re- cente de encontro de contas, que lhe per- mitiu um saldo de R$ 40 milhdes, talvez por pura liberalidade -nio desinteressa- da, 6 claro da CVRD). No jogo desse raciocinar sobre todas as hip6teses, a transposigio da barragem casa com a alternative de it buscar gas natural em Ucuru, no Amazonas, trazen- do-0 por gasoduto pela selva at6 Maraba e embarcando-o em balsas para comple- tar a pernada at6 Barcarena, caso a ou- tra hip6tese, com o gbs da foz do rio Ama- zonas, venha a ser inexeqiiivel ou s6 exe- qtilvel em prazos mais longos (e a custos mais elevados?). Esta mera possibilidade mostra que os paraenses precisam estar melhor informa- dos sobre a questho, se nio quiserem ser tapeados mais uma vez com uma promes- sa para boi dormir, ou servir de instrumen- to a interesses particulares ocultos. Deve continuar a ser considerada como princi- pio irrenunci~vel a exig~ncia de manter a navegabilidade do rio Tocantins em Tucu- rui, nio s6 enquanto determninaqio legal em vigor, mas tamb~m como ponto de honra para o Estado do Para. Mas s6 agora co- mega a ser desnudada a face verdadeira da obra, embrulhada pela doutrina de se- guranga national, com as primeiras provi- dancias oficiais para apurar superfatura- mento (tantas vezes apontado neste jor- nal). Apurar se houve ou nio desvio de dinheiro puiblico nio e somente tarefa aca- dimica: ainda ha um saldo pendente da divida que pode ser rediscutido. Isto signi- fica muitos milhaes de d61ares, na mais mo- desta das hip6teses. Tamb~m deve-se estender essa revi- sio is eclusas. Elas foram retomadas com aditamento do primeiro contrato. Tem que set assim? A Eletronorte diz haver redu- zido o custo do projeto, simplificando-o. Mas em que consistiu essa simplificaqio? Quais os seus impacts? Deve-se exe- cutar todo o projeto de transposi~go, de uma vez, ou em etapas? O estudo de via- bilidade 6 seguro? Foi definido em fun- gio de um context regional ou em fun- 950 da obra em si? Independentemente da visit dos minis- tros e de arroubos reti~ricos, convinha as jentidades de classes e instituiqbes relacio- nldas ao tema, com o devido apoio politi- co e institutional, convocar os assim cha- mados atores dessa novela e as fon- .tes possiveis de dados para escla- recer de vez a questio das eclu- i-~ 'ksas. Uma vezestabelecidoo oco serai o memento de partir para ;o bomn combat, ou para qual- 1 ~' quer combat. Inclusive o ba- nho de cascata sugerido pelo se- nador Gabriel Hermes. Simbo- ia- licamente, 6claro. 0 bomn comnbate pelas eclusas JOURNAL PSSOAL 2=QUINZENA DE AGOSTO/ 2000 5 Durante alguns bons anos, entire os 70 e os 80, um dos meus mais agradiveis programs dominicais era desviar cami- nho para um subbrbio de Bel~m, onde remanesce o autintico belenense, e sen- tar numa cadeira, na calgada, para lon- gas horas de prosa solta com Ruy Para- natinga B arata. Meu brilhante interlocu- tor era, ao mesmo tempo, poeta, critic literario, historiador, letrista de muisica, politico, observador das coisas a volta, trocista, causeur um paraense por in- teiro, um caboclo educado sob as vistas several do doutor Alarico e a ternura de dona Noca. Filho uinico, Ruy aparece em algumas fotos da juventude e da primeira maturidade como um verdadeiro dindi, com o melhor temno, a mais bem composta indu- menta~ria, a pose calculada, o at de ironia. Advogado, bem nascido e bem criado, podia ter ido para a Franga, sua Segunda matriz cultural, e seguido uma carreira de playboy. Mas virou comunista, sem jamais deixar-se seduzir, entretanto, pelos dogmas catequ~ticos da seita. O que sempre causou confus~io ou perplexidade entire os seus se- veros acompanhantes: uma hora Ruy vinha com um discurso panf letario, outra hora dei- xava-se levar pelo mundanismo, a joie-de- vivre que 6 o sal da vida. ContradiCgio? Ab- solutamente: Ruy era varios, espathando-se por varios dominios, detonando-os com sua recusa as limitaqdes, desaguando como um rio-mar no estuaro oce~nico. Integrou a mais brilhante geraqito de in- telectuais paraenses do period republican, que, para resumir, podiamos dizer que gravi- tou em torno da figure uinica de Francisco Paulo do Nascimento Mendes, desapareci- do no cabalistico ano de 1999.PFor ter vivido bastante, embora n~io tanto quanto deseja- vamos, Chico Mendes atraiu e revelou pes- soas que, sociologicamente falando, integra- vam diversas geraqaes, nio apenas uma ou duas. Todas elas foram marcadas por pelo menos um denominador comum: a felicida- de de conviver com uma fonte de provoca- 95es tio rica e generosa como o professor Mendes, o tio Mendes dos filhos dos seus amigos ediscipulos. Outro ponto em comum: ingressavam na vida consciente no vacuo da decadencia da exploraFqio daborracha, aquilo que (mais uma vez impropriamente) costoma-se definir como "a idade m~dia amazinica". Aperda da con- digi-o de monopolista no fomecimento da he~vea, seguida da perda de qualquer expres- s~o nesse setor em escala mundial, fez a Amaziniaperder interesse externo. Em con- trapartida, aos seus habitantes foi concedida a tr~gua mais valiosa para uma coli~nia: eles podiam escolher o mundo ao seu gosto, sem a apertada cangalha do colonizador. Juventudes que gravitaram em tomo do professor Mendes puderam fazer suas op- 95es, elegendo suas refer~ncias culturais, todas ao alcance do conhecimento do Rati- nho. Podemos pensar na produghio de pes- soas como Mirio Faustino, Paulo Plinio Abreu, Benedito Nunes, Haroldo MaranhiFo, Max Martins e Ruy Barata, para ficar s6 nesses exemplos, como derivadas dessa re- lativa liberdade de escolha, orientada por um espirito rigoroso e sensivel. Sem o canto de sereia metropolitan. Ruy, como a maioria, seguiu na diregio apontada pelo mestre: buscou inspiraqio na cultural francesa, num ponto entire o roman- tismo e o simbolismo, chegando, depois, ao modernismo. JA ai com uma expresso de liberdade bem amazinica: ambivalente, ma- liciosa, aned~tica, sensual e festeira, um ele- mento de identidade entre o home e sua terra que livrou Ruy das escoras e muletas de inspiraqio francesa, francamente obser- vavel em seus sempre bons primeiros ver- sos, como observou Antinio Cindido, quase 60 anos atr~is, na primeira critical national A poesia do paraense Ruy (infelizmente sem continuidade, nessa conspiraqSio do silancio atraves do qual o centro metropolitan tent desfibrar a periferia). Antilogia, livro que Tito Barata, ao mes- mo tempo filho e editor, langarai no dia 28, em Bel~m, comemorando pbs-morte os 80 anos de Ruy, contbm a combinagio dessas fortes raizes: um soberbo manejador de so- netos intercalando lirismo comn humor, ironia e political, o amor em abstrato com o mais primitive erotismo, rima e verso livre, histo~ria e cotidiano, mitologia e anedota. A palavra 6 uma argila que toma forma de acordo comn a modelagem do artes~o. Ja no titulo da anto- logia, por ele pr~prio organizada, Ruy deixa a marca da sua paixio pelo jogo de palavras, na intimidade do pleno control semintico, etimol6gico esintitico. Ele opde naturalmente palavra contra palavra, id~ia ante id~ia, numa seqtiincia que 6 quase inversa g cronologia dos poe- mas. Cria sem artificialismo porque a sua arte 6 a expression da sua vida, is vezes caotica, as vezes irregular, em conflito. As peas da sua vida, como da sua arte, entre- tanto, se compdem como uma ponderada colcha de retalhos. As peas nio tiveram a unidade como inten~go, mas, reunidas, for- mam uma totalidade, multicolorida certa- mente, mas cheia de energia e significado, uma arenga manhosa e doce como o olhar do poeta sobre o mundo. O politico que Ruy incorporou comn a de- mocratizagio del1946 parecia vir para liqui- dar o flaneur e beletrista. Mas o politico, embora intense (ha toda uma lenda em tomo dos seus autol6gicos pronunciamentos par- lamentares), foi breve. O iconoclasta de car- teirinha, contudo, nio se restabeleceria por inteiro. O bacharel em direito foi convocado, em 1976, a montar banca de advogado para defender pobres posseiros da antiga PA-70 (hoje BR-222, ligando MarabiaB Bel~m-Bra- silia), enquadrados na sinistra Lei de Segu- ranga Nacional pela infeliz coincid~ncia de partkiciparem de um conflito fundidrio san- grento exatamente quando os Estados Uni- dos da Ambrica comemoravam os 200 anos da sua independ~ncia- e, justamente ali, en- tre Paragominase VilaRondon~, nooutro lado do conflito havia uma familiar americana ins- talada, suiditos de Tio Sam. Acompanhei a inteligente estrat~gia de defesa que Ruy montou comn Gabriel Pi- menta, joyem advogado cujo entusiasmo o condenaria a uma morte suibita e violent na arena de Maraba, logo em seguida. Ambos estiveram g altura daqueles tempos sombrios, quando a prova dos nove da dig- nidade sempre se apresenta. Toda essa Antilogia revela o dialogo critic de Ruy consigo mesmo, comn sua imperfeigio e sua vontade de it ali~m, fa- zendo mais e melhor. Em diversos momen- tos ele tropegou, caiu, sentiu o gosto rude da terra. Mas levantou, limpou-se e assu- miu seu lugar na calgada de uma entio poeirenta rua de subulrbio, montado em sua cadeira de embalo, atento aos cumprimen- tos dos passantes e g conversa do compa- nheiro, transitando com desenvoltura e bri- lho pelo que foi o seu tema: a vida huma- na. Forma de ver e revelar a vida que cres- ce a media que o tempo passa e sua si- lhueta, recortada contra o horizonte da apreciagio critical, revela o contorno do grande poeta que ele foi em tudo e aci- ma de tudo. E do maravilhoso companhei- ro daqueles encontros dominicais nos quais s6 nilo se alcangava as estrelas porque, para elas, Ruy Paranatinga reservaria ou- tro expediente. A estrela antilog ica do poeta Ruy Barata (7 JOURNAL PESSOAL 28 QUINZENA DE AGOSTO/ 2000 Jornalismo cultural: - 1 111 ar puro da democracia e da liberdade entire 1946 e 1968 abimas piginas dos muitos bons jornais disponiveis nesse period com ansiedade. Nos dias de suplementos e cadernos especiais, podia-se ter aulas de cultural lendo resenhistas, articulistas, colunistas, cronistas e escritores do ta- manho de Otto Maria Carpeaux, Alvaro Lins, Alceu Amoroso Lima, Mario Faus- tino, Ferreira Qullar, Otto Lara Resende, Nelson Rodrigues, Ant6nio Cindido, Car- los Drummond de Andrade, Clarice Lis- pector... uma rela~go representative ocuparia linhas e linhas de texto. A cultu- ra brasileira -estava vivamente abrigada na imprensa, com seus altos e baixos, pr6s e contras, em toda a sua pujanga e mediocridade, cristalinamente desigual. Cultura e jornalismo se fundiam, entire faiseas e curtos-circuitos. Mas gerando luz e calor. Desde o Ato Institucional numero cin- co, de um lado, e a abertura sem contro- le do pais g sociedade de massa molda- da al~m-mar, de outro, o Brasil tem em- pobrecido. O jomnalismo cultural reflete essa decad~ncia, que nio 6 exatamente decadincia, no sentido moral, mas em- pobrecimento mental mesmo. Ele 6 tal que algumas pessoas das mais recentes elites pensantes, quando questionadas a respeito, reagem alegando em defesa que os tempos, agora, sho p6s-modernos. Motive de uma ji extensa bibliografia, esse 6 um daqueles conceitos camale6- nicos, que se presta a tudo sem conse- guir ser, jamais, precise. Como o Zellig de Woody Allen. No universe p6s-moderno, a infase cultural que resultava em criaqdes como o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil ou os suplementos literirios de O Estado de S. Paulo e do Estado de Mi- nas, hoje soaria como humanismo fora de moda, desatualizado, "nso-palativel" a geraqdes que parecem consumer cultu- ra como o Bode Francisco Orellana (cri- a~go do humorista Henfil): comendo os livros, ao inv~s de 18-los, engolindo sem mastigar, digerindo sem deglutir.PFor isso, os agora dinossauros foram substituidos nos segundos cadernos por gente ggil, leve e solta, muito bem informada sobre tudo, mas pela rama. Jos6 Lino Griinewald teria emprego nesses cadernos culturais se fosse come- gar a carreira neste memento? Foi uma das coisas em que pensei enquanto assi- milava a noticia da sua morte, aos 62 anos, no Rio de Janeiro, no mis passado. Eu conhecia Z6 Lino, como o chamavam os mais intimos, de long, a partir do "sere- no" que cabia a um foca diante de notb- veis jornalistas. Era aos sibados, quando ficava im- presso o Quarto Caderno, na reda~go do Correio da Manha~, aquele lugar en- cantador que a intolerincia e o radicalis- mo, de um lado e do outro do espectro ideol6gico, acabaram por transformar em ruinas na rua Gomes Freire, na Lapa ca- rioca. Alguns dos mais ferozes debates eram travados ali entire Z6 Lino, Ely Aze- redo e Antinio Moniz Vianna em torno do cinema. Mas a irreverancia no confli- to de id~ias tinha san~go legal do editor do caderno, Paulo Francis, e se estendia a todos, colaboradores eventuais ou de- tentores de cadeira permanent. O Quar- to Caderno foi o ultimo suspiro de inteli- g~ncia enrage antes dos ultimos vestigi- os de luz serem sufocados pelo Al-5 e sua espiral de medo. Foi, tamb~m, um dos mais nobres espagos da imprensa repu- blicana no Brasil. Voltaria, hoje? Voltaria a velha (e ainda vanguardista) Senhor? Hg uma questio, geralmente omitida ou subestimada: as id~ias eram postas em cheque permanentemente, em qual- quer lugar, diante de qualquer auditbrio, sem marca~go pr~via. Numa redagio de gou no lixo a reputagio que mantinha diante de todos; pelo prazer sexual, da mes- ma forma agiu o vice-c6nsul, e foi tambem por dinheiro que o pseudo-jornalista hi muito tempo deixou de lado a 6tica e a moralidade na re- lagaio com a populagio (nela incluidos os verdadeiros j or- nalistas), a qual pretend "in- formar" com as noticias do seu pseudo-jornal. O que nio percebe o tal pseudo-jornalista 6 que ele, juntamente com os crimino- sos que lh'e acompanham nos casos descritos, seri punido, seja pela lei dos homes aqui e agora, seja pela Hist6ria, mais adiante, e, certamente, por Deus, na eternidade, quando todos prestario con- tas de seus atos. Deixo para reflexio do pseudo-jornalista, bem como a todos que nio medem es- forgos em fazer o mal, o se- guinte: "Ngo erreis: ...nem os ladraes, ...nem os maldi- zentes ...herdario o reino de Deus". Solid~irio ao caro jornalista, certo de que o seu combat 6 digno e dele sair8 vencedor (nio existe melhor arma que a verdade), cordialmente. Clovis Luz da Silva Prezado jornalista Lucio Flivio, Receba minha solidariedade pelas sdrdida campanha de di- famaqio que lhe move o jor- nal popular (com minuscula mesmo, pois nem de journal merece ser chamado). E in- compreensivel que um 6rgio assim, que se diz de imprensa possa existir, e com o perma- nente e aparentemente iinico intuito de s6 tentar denegric a vida dos outros, e em geral, com arguments falsos, fan- tasiosos, desconexos, inconsis- tentes. Atenciosamente, Gabriel Gasparetto Prezado Luicio Flivio Pinto Gostaria de parabeniza-lo , pelas reportagens sobre a uti- lizagio do Jornal Popular pela Prefeitura de Bel~m ealgumas outras pessoas e empresas de nossa cidade. Que Deus lhe dC forgas para continuar a ten- tar nos livrar de ver nas ban- cas jornais daquele tipo. Gostaria tamb~m, que voc& investigasse os porese" da Unimed Bel~m e como ela vem agindo com os profissio- nais medicos e seus usukrios. Cordialmente Manuel Ramos Ca ta Caro jornalista Luicio Flivio Pinto, Sabe qual 6 a diferenga en- tre o Nicolau dos Santos Neto, o vice-c~nsul de Israel no Bra- sil, flagrado em agdes ped6fi- las, e o pseudo-jornalista Silas Assis? Sob o ponto de vista da moralidade, nenhuma. Eles, cada qual no seu am- biente, escondidos nas som- bras de suas atividades, com as regalias e prerrogativas de- las oriundas, as quais lhes con- feriram status de intocaveis, mancharam a dignidade, a honra e a moral no exercicio de suas profissdes. A uinica diferenga, que nio altera a natureza torpe dos meios, 6 que n~io foi pelos mesmos fins que agiram. Por dinheiro, a juiz lalau jo- JOURNAL PESSOAL 2a QU~INZENA DE AGOSTO/ 2000 7 journal, numa livraria, num boteco, no meio da rua. Ngo dava para pedir tem- po, ir ao banheiro, sair atris de um copo de agua (de resto, o unico liquid que nio era requisitado pelos circunstantes). Quem sabia, falava. Quem nio sabia, ficava calado. Quem nio sabia e falava, podia ser destruido. Quem nio sabia e prestava atengio, aprendia. Querendo, podia bater palma. Era bem recebida, sem ser necessaria. Como jurados, um gargom ou um doutor tinham o direito de voz. Era precise saber o que falar. Mas tamb~m saber como dizer. Profun- didade e clareza, consistincia e leveza, essa conciliaqio que e o ideal do inte- lectual, acessivel a poucos, mas que qual- quer um tem o direito -e deve ter a pos- sibilidade de buscar. Num espago para 10 parigrafos de tamanho medio, Otto Maria Carpeaux dava liqdes inesqueciveis, sem o rango de um magister dixt que impera nas aca- demias, mesmo sem as catedras. Agora que 0 primeiro volume da sua obra, reu- nindo artigos de journal, est8 disponivel no mercado, convinha aos mais joyens libertar-se da intolerincia e do precon- ceito para usufnrir do que iia nata des- se g~nero em extingio: o ensaio em ta- manho compact, o que significa con- centraqio de ideias para o leitor diluir ao long do tempo, em novas leituras e reflexes, direcionadas ou sugeridas pelo autor, que ji fez esse caminho. O que temos no atual jornalismo cul- tural brasileiro e t~io mais pobre que pa- recemos haver andado para tris em ma- tbria de civilizaFio, de refinamento, de sofisticaqio, de profundidade. Os reda- tores dos suplementos que subsistem, animicos, nos nossos j ornais policroma- ticos apenas ouviram o galo cantar ou mal entraram na estrada do conhecimento, mas ja se consideram rodados em letras. Langam juizos de valor sobre todos e to- das as coisas, mas nio parecem dominar o que sentenciam. Por exemplo. A liltima pigina da tilti- ma edigio de julho do suplemento Iddi- as, do Jornal do Brasil, 6 dedicada a reedi~go das obras de Jean-Paul Sartre pela Nova Fronteira, "como parte das comemoraC~es dos 20 anos de sua mor- te", segundo a autora do texto (de 10 pa- ragrafos), Leneide Duarte. Acho que nem os espiritas comemoram uma morte, em- bora a recebam com uma alegria incom- preensivel para n6s, cat61icos, pratican- tes ou nio, mas condenados a ang~istia pendular (e insoluivel) entire a vida e a morte. Qualquer pessoa menos apressa- da falaria no registro ou na membria dos 20 anos da morte do fili~sofo francis. Ngo em "comemoraqdes". Mesmo os inimi- gos de Sartre, adocicados pelo tempo, nio chegaram a tal escarnio. Ser desintenci- onal, s6 agrava a "mancada". Embora destinados a um espago jor- nalistico especializado e dirigidos a um publico supostamente mais ex~igente, es- ses an6dinos textos parecem resultar de uma rapida passage pelo arquivo, com- binada com um press-release e uma bis- pada numa orelha de livro, os ingredien- tes costurados e emendados segundo uma fita metrica. S6, esse metodo justifica uma observaCio da jornalista do Iddias: "O casal Jean-Paul Sartre-Simone de Beau- voir, apesar de nunca ter assinado nenhum [um] papel para formalizar a uniho nem nunca ter morado sob o mesmo teto, foi um mito daquela geraqio". A lrios outros casais se formaram \Ina Franga, na epoca, da mesma IImaneira, e nunca se tornaram mitos. Outros casais, como Andr6-Cla- ra-Malraux, para nio deixar o territorio francis, mesmo sendo convencionais nes- se aspect, tamb~m se tornaram mitos. A legend permaneceu porque Sartre e Simone pensavam autonomamente e pensavam muito bem, teorizando sobre o que faziam, o estar e ser no mundo se refletindo e projetando no espago e no tempo, chegando ate a remota Bel~m do ParB. Lendo a trilogia de romances de Os Caminhos da Liberdade, me com- portava na noite me imaginando Mathieu Delarue, com meu calculado at blasi, minhas roupas displicentes de cor neutra, minhas frases inconclusas. Literature era vida, paixio, sedu~go, mistbrio. A jornalista do suplemento do JB deve ter absorvido muitos drops edul- corados sobre Sartre em clippings ou na internet, mas nio nos convene de que o leu. Ou nio acharia "um primer de ho- nestidade intellectual e sinceridade abso- luta somadas a um sutil sensor de humor" Sartre afirmar que so leu ja adulto (com mais de 35 anos) o fil6sofo dinamarquds S~ren Kierkgaard, geralmente apontado como o precursor do existencialismo, ou o primeiro dos existencialistas: "eu sabia que ele existia, mas era apenas um nome para mim e esse nome, njio sei por que motive, me era antipatico. Acho que por causa dos dois a". Lendo As palavras, e lendo nio as pressas, para pingar frases para um tex- to, mas numa rela~go de absorg~io e fer- tilizagBo, a resenhadora encontraria tes- temunhos muito mais encantadores, ho- nestos, bem humorados e profundos de Sartre sobre sua vida e sua relaC~o com a cultural, num livro definitive, no mais alto estagio que a memorialistica humana ja alcangou. Mas por que entregar a res- ponsabilidade de uma pigina "comemo- rativa" aos 20 anos da morte de um dos pensadores do s~culo a uma marinheira de primeira viagem? Nos jornais das d~cadas de 40 a 60, o editor do caderno ligaria para um Fernan- do Peixoto e lhe pediria um artigo, nio sem antes discutir a abordagem, questio- nar o parigrafo de abertura, a finaliza- Cgo, um toque de originalidade, uma re- percusslio local de Sartre, enfim, um dib- logo entire duas pessoas que dominam o assunto, nio entire ne6fitos, para que um nio d& ordens absurdas e outro nio rein- vente a roda sobre uma quadratura. Pes- soas que amam o que fazem, por isso ten- do incorporado o objeto a sua vida. Tal- vez nio muito s61idos na base tedrica, tal- vez desatualizados na interpretagio do tema, mas familiarizados com ele, inca- pazes de cometer os freqiientes deslizes dos atuais resenhadores de livros, que la- mentam a falta de tradu~go de obras que ji foram traduzidas, mas num horizonte menos pr6ximo da sagrada biografia des- ses resenhadores, onde pretendem estar plantado o umbigo do mundo. Quem conviveu com Jos6 Lino Grti- newald tomou homericos porres com ele, aprendeu tudo o que se podia saber sobre o tango, teve acesso a percepgoes cine- matograficas insuspeitadas, trocou desa- foros futebolisticos e usufruiu de primoro- sas tradug8es que ele fez nos intervalos de tantas atividades, como Os Cantos, de Ezra Pound, um labirinto pelo qual tatea- vamos at6 ele iluminar aquelas cavernas mitol6gicas com a luz de uma erudigio formada nas ruas, nio num tugtirio acad8- mico. Nosso intellectual combatia em pra- Fa pliblica, possessive, trigico, miseravel, mas essencial. Hoje, esti privatizado em universidades p~iblicas, prisioneiro atris das grades de ouro da carreira, delimitado en- tre seus pares, desnatado, desnaturado, um alimento congelado. A nossa imprensa, com ele, e seu espelho, seu outro igual, nesta era em que a xerox significou para o livro o que a fotografia 6 para os indios isola- dos: uma sugadora da alma. o saber em pilulas JOrnal Pessoa1l Editor: L~clo FIAvla Plnto. Fones: (091) 223-7690 ~(one-fax) e 241-7626 (lax) Contato: Tv Beniamin Conslant 845/203/66.053-040 e-mail: lornal@amazon.com.Dr Edigao de Arte: Luizanioniodelariapinol230-1304 85/8B/82 347BB No dia l' a coliga~go eleitoral que apoia a "recandidatura" do prefeito Edmilson Rodri- gues entrou com uma a~go no TRE requerendo o direito de responder, neste jomnal, ao que es- crevi na segunda edi~gio extra, do mis passado. A a~gio 6, na pritica, completamente desneces- shria: sempre defend e assegurei o direito de resposta, meu e de terceiros. Mesmo cartas ofensivas e mentirosas foram aqui reproduzi- das, na integra. O prefeito sabe muito bem dis- so: a ~imica carta que me mandou at6 agora aqui apareceu, sem qualquer supressio ou retoque. Recentemente, publiquei as respostas da Co- ordenadoria de Comunicago Social da PMB a um long questiondrio que lhe enviei, tratando de uma questio, o boicote da imprensa ao PT, que s6, neste jomnal e abordada. O segundo ques- tionairio s6 nio saiu por n~io ter sido respondido. Por que, entilo, ir buscar na justiga eleito- ral um direito que 6 acatado voluntariamente neste jomal? A lei niio obriga ningu~m a esgo- tar a instincia do entendimento antes de re- correr a via judicial, mas esse deveria ser um direito consuetudinario, uma pratica capaz de atestar boa f6. Se a carta que enviamos 6 pu- blicada, com corre~go, conforme a norma le- gal, por que sobrecarregar ainda mais os jui- zes? Nilo 6 uma attitude de bom sensor, nem atestado de boa inten~gio. Mas, no caso, tem sua 16gica: a coliga~gio liderada pelo PT nto quer ser contraditada. Pela via judicial, pre- tende me amordagar, impedindo-me de retru- car ao que vier na nota de resposta. Niio o farei na present edi~gio, em respeito A justiga, que ira decidir sobre a demand, para nito exercer qualquer tipo de pressito, mesmo a inurtil. Mas, se imitasse a malicia e a mai-f6 dos meus opositores, poderia antecipar-me ao que diz o outro lado, valendo-me de nito haver ain- da uma delibera~io judicial. Mas se a 6tica dos candidates a meus algozes 6 utilitaria e conve- niente, a minha 6 um principio, a ser adotado independentemente das circunst~incias, Na hip6tese de publicada espontaneamente a sua cairta, a coliga~gio comandada pelo PT poderia nit concordar com a minha tr~plica. Niio seria problema: eu receberia sua tr~plica. Pesando o privil~gio de ter direito a 61ltima palavra, procure me ater aos fats ea1 sua interpreta~gio. Nunca pass para o ataque pes- soal. Se 6 conflito, busco ajustar meu espago ao do litigante. Alguns acham que freqilentemente me ex- cedo nessa relagilo, o que 6 verdade. Mas isso ocorre quando precise me defender. O ataque leviano 6 faicil: o atacante formula uma acusa- 950 qualquer, sem se importar em fundament~i- la ou em investigar sua proced~ncia, atC sem a menor verossimilhanga. Quem responded preci- sa provar o que diz. E uma invers~io doentia do principio legal (e universal) de que o Bnus da prova cabe a quem acusa. Mas 6 a nossa priti- ca, infelizmente. S6, nesses casos, ou quando se trata de mera discussilo de id~ias, sem confron- to ou agressito, 6 que me permit ir al~m do espago do meu interlocutor. A pol~mica 6 um dos mais importantes ins- trumentos de educaqil e aperfeigoamento, pes- soal ou coletiva. Quem polemiza se afia, evo- lui. Quem dela e assistente, aprende. O con- fronto obriga os contendores a ir al~m de suas estrat~gias e taticas, cedendo informagdes para o publico que, de outra maneira, continuariam privativas dos grupos melhor posicionados na estruturar social e de poder. Portanto, um par- tido que se diz democraitico, reformista ou re- volucionitio niio deve fugir do dialogo, da po- 16mica ou mesmo do combat aberto de id~ias. Em mat~ria de comunicago social e relaCio coma imprensa, a admlinistra~gioEdmilson Ro- drigues em quase nada difere da do seu anteces- sor, H61io Gueiros. Selecionam para quem e o que responder. Premiam os que repassam press- releases e punem os que questionam a informa- ~lo official. Reduziram a comunicaptio a propa- ganda: ao invbs de fomnecer a information, acei- tando o direito da imprensa de trat~i-la conforme seus critbrios editorials, querem tutelar a divul- gagil, transformando-a em mat~ria paga. Nlo aceitam a interlocugho em alto nivel, acatando a verdade alheia. Querem que a veiculagil de pro- paganda seja retribuida com a sujeigiio editorial. O critic nio e tolerado. A isnica diferenga 6 que a atual administra~gio se consider portadora da verdade e instrument do progress, enquanto classifica a anterior como reacionaria, um pro- duto das velhas elites. O que 6 verdade na criti- ca. Mas nio na auto-avaliaCio. Objetivamente, os dois governor tratam a informaq5io e a im- prensa da mesma maneira. At6 mesmo na deci- sho de esconder seus atos em diririos oficiais de circulag5io semi-clandestina. A coligaglio puxada pelo PT decidiu deixar de lado a posiqilo democrritica e valer-se de um artificio advocaticio para usufluir do mondlogo (ou solili~quio mesmo?). Como, na edi~go extra, nio tm-tei de eleigil, nem encarei a figure do pre- feito como candidate A eleigil, mas como gestor da coisa puiblica, igualmente n~io fazendo qual- querreferincia a coligagli que o apbia, se a nota falar desses temas estara colocando na edigio extra deste journal o que nela nio esta escrito. Tratando do conteuido verdadeiro do JP, que 6 a condugli da prefeitura, estani~ envolvendo inde- vidamente a justiga eleitoral na hist6ria, apro- veitando um ardil para golpear nito a mim, mas a liberdade de informagilo e de expresso. Triste papel de partidos que se dizem defensores da libertaglio do home e da utopia socialist. A introdu~gio do institute da reeleigilo, es- tranho g tradi~go republican brasileira, sem o contrapeso da desincompatibilizaqilo do cargo do gestor que parte para um segundo mandate consecutive, pode dar-lhe um privilbgio odio- so: de utilizar como escudo protetor contra a fiscaliza~gio dos seus atos de govemnante a ale- gagilo de que a inten~go das critics 6 prejudi- car sua candidatura. N~io bastasse continuar a usar a miquina official, contida ou desbragada- mente, ainda pode colocar fora do alcance da imprensa independent os atos que pratica como detentor efetivo do cargo que pretend exercer por mais um mandate. Aguardarei serenamente o veredicto da justi- ga. Qualquer que ele venha a ser, passivel de re- curso at6 a~iltima instincia, um pronunciamento maior, o da hist6ria, dificilmente estara do lado dos meus opositores, quando essa avaliaqilo dos dificeis tempos que vivemos for feita. E o seni, a despeito de os pobres-e, as vezes, tristes-po- derosos do dia se imaginarem etemnos. ali fica sem saber ao certo porque essa placa, mais recent, omitiu in- forma~go que consta da anterior, sobre o inicio dos servings. O autor das duas places, o mes- mo, deve ter-se "esquecido" desse item para nito ser mais incomodado. Afinal, a administration municipal, em ambos os casos, estidando mau exem- plo: o que devia ser uma prestagil de contas ao contribuinte sobre a aplica- gli do dinheiro dos impostos se trans- formou numapega de propaganda, um outdoor disfargado, poluindo visual- mente as pragas, enfeiando o gramado e manipulando o transeunte, mesmo que subliminarmente. Mas ele, passando pelo largo da S6 e vendo a placa, altaneira como ~pe a obra estivesse por comegar, es- tranhard se ji observer algumas ra- chaduras nas calgadas rec~m-constru- idas e os primeiros remendos na pra- ga, reformada para integrar um cir- cuito cultural na Cidade Velba que se completar8 nito se sabe quando. Talvez no segundo mandate do al- caide. Que essa talvez seja a finali- dade de tantas places obsoletas ou despropositadas que a prefeitura fin- cou na cidade, indiferente aos c6di- gos municipais que deveria aplicar ou deles ser a guardi8. Democracia petista Mau e xemplo Em duas semanas, a prefeitura de Bel~m fez a recuperaqio da praga D. Pedro II, ao custo de 10 mil re- ais. No pr(,ximo dia 19 de setembro a placa que assinalou essa obra vai comemorar um ano de vida, fincada no maltratado gramado do local, mais conhecido como largo do pa- licio. A poucos metros dali, outra placa da prefeitura anuncia a recu- peraqio, em trbs semanas, da praqa frei Caetano Brandlio, projeto de R$ 15 mil. A obra foi concluida hB al- guns meses, mas quem passa por |
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