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omrnal Pessoal L U C IO F L A V IO PI N TO ANO XIII N< 236 1' QUINZENA DE JUNHO DE 2000 R$ 2,00 IBAMA 0 "pega, ladrao" De paladino da causa ecoldgica, o ex-superintendente do Ibama no Pard, Paulo Castelo Branco, surge como chefe de quadrilba, usando o trdfico de influOncia para extorquir madeireira. Cor sua prisdo, na semana passada, a policia comegou a levantar um tapete que esconde sujeira acumulada hd tempos. A duvida, agora, e saber se a varrigdo serd complete. buloso epis6dio envolvendo o representante do Ibama (Insti- tuto Brasileiro do Meio Ambi- ente e dos Recursos Naturais Renova- veis) no Pard, Paulo Castelo Branco, era se as imagens dele captadas pelas cama- ras de televisao instaladas no aeroporto de Brasilia, na quarta-feira da semana passada, caracterizaram um flagrante de extorsio. Tecnicamente, nio caracteriza- ram: depois de ter surpreendido os agen- tes da Policia Federal, comparecendo pessoalmente (e nao mandando mais umr intermedidrio), como se supunha ao ae- roporto para receber os 500 mil reais le- vados de Belem pelo director da Eidai do Brasil, ojapones Takueshi Sato, Castelo Branco evitou segurar na pasta cor o dinheiro. Ao ser flagrado pelos dois fe- derais e preso, o ex-representante do Iba- ma caminhava ao lado de Sato e do seu preposto na chantagem, Akihito Tanaka, indo em diregqo ao carro que os espera- va no estacionamento (dirigido por um as- sessor parlamentar do senador Ademir Andrade). Mas nao era precise que Castelo Branco estivesse com o dinheiro em mros parajustificar sua prisio. A cena iria ser- vir menos para sustentar o flagrante, que acabou sendo relaxado pelojuiz da 14 vara dajustiga federal em Belem, e mais para ) F J6 '3 2 JOURNAL PESSOAL QUINZENA DE JUNHO/ 2000 reforCar a tese do trafico de influencia, que acabou sendo reconhecida para a decretagao da prisao preventive, e mais para reforcar as provas ja existentes. Na semana anterior, Castelo Branco estive- ra negociando em Bel6m com o director da Eidai uma maneira de livrar a empre- sa dos autos de reincidencia em crime ambiental, ao utilizar madeira extraida ile- galmente da floresta. Era, sob a protegao de um encontro reservado (mas inteiramente gravado pelo director da madeireira japonesa), uma ati- tude diametralmente oposta a apresenta- da pelo representante do Ibama a opiniao public, especialmente as concorridas e espalhafatosas operac6es punitivas que organizava e executava no interior do Estado, sempre que a imprensa aceitas- se acompanha-lo em parceria conivente. Ou mesmo uma ONG tao famosa como a Greenpeace, aliada de Castelo Branco num flagrante de utilizagao de madeira de origem suspeita montado exatamente contra a Eidai, em sua fabric de Bel6m. Ao inves de paladino da causa ecol6- gica, o Castelo Branco que emerge da gravagao 6 um servidor piblico que cria dificuldades para vender facilidades. Esse m6todo de extorsao 6 velho, mas Castelo Branco revestiu-o de uma apa- rencia glamurosa, criando um palco no qual interpretava o papel de Robin Hood da natureza. Para isso contou com a fal- ta de criterios de entidades que se filia- ram a defesa da natureza, mas sem con- dig9es de discernir com quem estao an- dando, e de uma imprensa capaz de ce- der os mais elementares principios pro- fissionais para ter exclusividade na cap- tagao de cenas de impact e informag6es privilegiadas, desinteressando-se da ques- tao a partir do moment em que obt6m tais rendimentos. At& a v6spera inimigo de uma ines- crupulosa madeireira, na conversa de 19 de maio Castelo Branco oferece seus servigos justamente a empresa que divi- de, com a G. D. Carajas, a lideranga no ranking de multas aplicadas pelo Ibama. Por que, ao inv6s de seguir os trdmites legais e provar que as multas sao indevi- das, a Eidai deveria negociar por baixo dos panos uma solugao illegal? Castelo Branco lembra a seu interlocutor, em lin- guagem tipica de gangsters, que no fla- grante armado com o Greenpeace foram apreendidas apenas sete toras, mas mes- mo assim "viu o escdndalo que foi? Nin- gu6m quis saber se eram sete metros, nin- gu6m quis saber se tavam enganados... O que 6 que o pessoal quis saber? Que era da Eidai. Entao, na hora que voce coloca que a Eidai do Brasil tem 98 rein- cidencias de multas, ningu6m quer saber se pagou ou nao pagou, o que foi... Vai dizer, p6, que ela teve 98 reincid6ncias de multa, entao ela ta desmatando a vonta- de e refazendo e refazendo. Sabe como e... a imprensa consegue". A Eidai, segundo a autuacgo do Iba- ma, tinha 22 mil metros cubicos de ma- deira a descoberto em seu patio (que, numa conversao estranha, Castelo Bran- co diz que correspondem a 117.074 arvo- res), isto 6, sem identificagao da origem (mais de dois tercos da madeira que utili- za, a empresa compra de terceiros). Cas- telo Branco se oferecia para legalizar ("es- quentar", na linguagem dos mafiosos) essa madeira. Como? Primeiro pedindo ao pr6prio ministry do meio ambiente, o deputado federal (do PFL) Jos6 Sarney Filho, para avocar todo o process da empresa para si. Ou, nas palavras de Castelo Branco: "o ministry puxa isso para la e esse agen- te R6gis [chefe da fiscalizafdo e pes- soa de confianga de Castelo Branco] comega a colocar tudo certo, o piano de manejo, tal, sobrou tantos metros cubicos, joga pra ca, vai abatendo esse aqui, por- que o que vai adiantar esse aqui, e quan- do for fazer uma auditoria. Vou fazer uma auditoria na Eidai, o que ela tem de d6bi- to? Nao ter nada de d6bito. Elaja pagou o d6bito dela. Como? Ela tinha cr6dito no projeto tal, e foi pagando". Um esquema engenhoso. Centraliza- do todo o control sobre a empresa, evi- tando que qualquer outra pessoa tivesse acesso as informacges, todas as sobras de projetos de manejo, quaisquer proje- tos na regido, seriam transferidos ilici- tamente, 6 claro, mas ningu6m saberia - para a conta da Eidai, at6 quita-la, como se a empresa tivesse adquirido legalmen- te toda a madeira autuada como illegal. Para tanto, todos contariam com a deci- siva participaqao do ministry, livrando a empresa de uma situagao sem said, ja que "nao tinha mais defesa para n6s", e, com 98 reincidencias, elaja devia ter sido suspense, diz Castelo Branco. O "n6s" significa ele, a Eidai e o ministry. Para vender essa "facilidade" ele que- ria receber, de inicio, R$ 3 milh6es. Aca- bou deixando pela metade, em tr6s pres- ta9qes iguais de R$ 500 mil, que seria a sua parte, deixando os outros dois tercos para o ministry, um valor tdo alto que o preposto, Tanaka, manifesta em outra gravagAo sua preocupagio com o prego, "que nao 6 barato", e diz, numa terceira fita, que vinha tentando "sair do neg6cio". Mas nao sai. Confia no "taco" do parcei- ro, garantindo que Castelo e Sarney Filho ja fizeram "neg6cios juntos", que essa "nao e a primeira vez", mas receoso de que "o neg6cio nao vai ficar bom nisso". Castelo e Tanaka aguardam press a instrugdo do process, que, por enquan- to, nao tem como chegar ao ministry, re- ferido sem provas como participate do esquema criminoso. Mas a quebra do si- gilo bancario e o interrogat6rio de ou- tros personagens pode ser o primeiro e decisive pass para retirar as sujeiras que se incrustaram no Ibama desde que o 6rgao surgiu, sucedendo os nao menos pol6micos IBDF (Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal) e Sudepe (Superintendencia do Desenvolvimento da Pesca). Hist6rias sobre corrup9ao no insti- tuto, envolvendo do fiscal de campo ao chefe no topo da hierarquia, sao conta- das como se fizessem parte de um ane- dotdrio e nao fosse possivel coibi-las porque os prejudicados (ou beneficia- dos, conforme o estagio do neg6cio) pre- feriam pagar o prego do achaque. A Eidai quebrou essa cadeia de conveni- encias, conivencias e cumplicidades. Por que o fez, 6 um dos various temas a ser melhor investigado. Lider nas exportag6es e camped nas autua96es, a empresa venceu em todas os 76 contenciosos de multa. Nos 22 ca- sos de reincidencia pendentes ainda nio ha uma decisdo. Se o resultado for o mesmo, estaria caracterizada a perse- guiCgo a empresa e a ma-fe do 6rgio ambiental. Ao inv6s de prosseguir nas demands, a empresa preferiu denunci- ar a chantagem ao Ministerio Publico e a Policia Federal e desmascarar seu al- goz, candidate a s6cio. Talvez porque tenha ficado claro que a relagao autua- cao-absolvigao seria mantida indefinida- mente e em algum moment a empresa quebraria. Ou porque, depois de prati- car por tanto tempo as regras do jogo sujo, a Eidai quer "passar-se a limpo", como diria o fragil incora do telejorna- lismo do SBT, B6ris Casoy. Talvez a partir de agora esses "cau- sos" de corrup9ao deixem de freqiien- tar a agenda de empresarios e burocra- tas e se abriguem no seu ninho adequa- do: as grades da policia e as barras dos tribunais. A escandalosa prisdo de Cas- telo Branco pode acabar com a insensi- bilidade de autoridades que ouviram de- nuncias sobre o cidadao e fizeram ouvi- dos de mercador. Foi o caso do govemador Almir Gabri- el. Ele soube da fama do president do PV (Partido Verde), a cuja alianga eleitoral (com votos que ningu6m sabe e ningu6m viu) premiou com seis cargos na inchada e flatulenta assessoria especial, uma bacia JOURNAL PESSOAL *la QUINZENA DE JUNHO/ 2000 3 de almas cada vez mais penadas. Apesar de ter sido cedido ao Ibama, Castelo con- tinuou por cinco meses a receber como assessor especial do governador, numa acumuladao indevida, s6 rompida quando denunciada por este j ornal. Nao que o goverador tenha patroci- nado a candidatura de Castelo Branco ao Ibama. Esse 6 um produto da alianca do ex-presidente Jos6 Sarney no Amapa, em relaqgo A qual deve ter explicaq6es a dar, ja que o ex-representante do Ibama de- clarou, em carta enviada a este journal, s6 ter conseguido o cargo porque foi bater a porta do Sarney pai em sua casa, no Maranhbo. A porta que se abriu, presu- rosa. 6 a mesma que se fecha ao pedinte, apodado agora de r6probo. O Greenpeace tambem deve refletir sobre sua attitude ao engrossar o coro de louva~ao a algu6m que surgiu tao de su- bito como militant da ecologia e fez de uma legend partidaria sem entranhas um instrument de neg6cio para conseguir cargos pfiblicos (primeiro na administra- cao do PT em Belem, trocada, gracas a seis cargos comissionados, pela do PSDB no Estado) e, usando-os como ponte, criou um instrument de negociata que s6 nao deu certo porque talvez tenha acreditado em suas pr6prias ilusoes e imaginado que sua fantasia de her6i serviria de passe mAgico para seus golpes de esperteza. Admitir que todos foram usados e manipulados por um farsante, cor um curriculo tao nebuloso e conturbado, pode ser dificil. Representou, de imediato, um duro golpe para os ecologistas, inicialmen- te levados a defender as madeireiras con- tra o projeto Micheletto e, logo em segui- da, por elas atacados quando seu aliado revelou-se um bandido. Ainda assim, a nota divulgada no domingo passado pela Aimex (Associaqgo das Inddstrias Ex- portadoras de Madeiras do Estado do Pari) perdeu autoridade moral ao demo- rar tanto para sair das conversas de bas- tidores e se tornar uma posiqgo piblica. E nao 6 exatamente a traducgo da ver- dade ao nivelar por uma tabula rasa o ex- representante do Ibama e todas as ONGs ambientalistas, as causes ecol6gicas dig- nas e a conversa de mercador de chan- tagistas disfarcados de defensores da natureza. Seria o mesmo que classificar todos os extratores e beneficiadores de madeira de bandidos, condicao de various deles que, ainda assim, nao autoriza a generaliza~go. Espera-se que, a partir desse epis6- dio traumatico, a Policia Federal, o Mi- nisterio Piblico, a justiga federal e ate mesmo a CPI da grilagem da Cimara Federal aproveitem para dar uma geral nesse setor, torado pelos cupins da ili- citude, rastreando todos os suspeitos e puxando o novelo ate o fim, de modo a que nao se suspeite de que apenas a ponta de um iceberg de sujeiras haja emergido, ou elas varridas para debaixo de um tapete ji atulhado. Nem continue a haver ambiente propicio Aquele tipo esperto de ladrao, que, uma vez flagra- do, corre na frente gritando "pega, la- drao". E a imagem que fica da triste his- t6ria que explodiu na semana passada de dentro do Ibama para uma sociedade obrigada a purgar-se na lama. As palavra e a verdade No nfmero 169 (da 2- quinzena de agosto de 1997) deste journal publiquei carta do leitor Ant6nio Vieira Soares Neto. Tomando como mote observa- 9ao anterior do JP, Soares atacou o se- cretario de cultural, Paulo Chaves Fer- nandes. Sentindo-se injuriado, Paulo me mandou uma longa carta de res- posta, observando que queria vt-la publicada por inteiro ou esquecida. Dei-lhe toda uma pigina, replicando-a (acho que A altura), na mesma ediqao n 170. Na edicao seguinte, Ant6nio Soares contra-atacou. O secretario deixou de lado a con- trov6rsia epistolar e ajuizou uma acao de indenizaqao por danos morais contra Soares (exclusivamente contra ele) na 204 vara civel de Belem. Em 27 de maio do ano passado, Soares assinou um termo de retratacgo public, reconhecen- do como "infundadas" as "diversas afir- maq6es desairosas" que fez contra o se- cretario. Declarou que elas "nao sao ver- dadeiras, e que foram feitas por mim sob forte emocao, por motives de natureza pessoal, atingindo injustamente a imagem do arquiteto e Secretario Executivo de Cultura do Estado". Esse termo de retratacao s6 foi pu- blicado no Didrio da Justiga quase um ano depois, ji em 20 de margo deste ano. Dois meses em seguida, em 24 de maio (coincidindo cor minhas critics a sua opera prima, a Estaqao das Do- cas), Paulo Chaves me enviou c6pia do document atrav6s de oficio, pedindo para ser "adotada a media cabivel que o caso requer". Legalmente, eu pode- ria ignorar a solicitaqao: quem foi acio- nado judicialmente e se retratou nos autos do process foi Ant6nio Soares, nao eu. Os direitos indenizat6rios do secretario se exauriram na retrataqao puiblica do ofensor e no decurso de pra- zo para nova media judicial contra ele, se cabivel. Legalmente, eu nao estava obriga- do a fazer a publicaqao. Mas faco-o, por dever professional e senso etico, para informar meu leitor que o autor da carta nao sustentou em juizo o que es- creveu a este journal de forma categ6ri- ca, nao podendo ser considerado, por isso, fonte confiavel. Mas enquanto lei- tor, desde que se identifique e respon- da, ao menos em tese, pelo que disser, ter todo o direito de ver publicada a carta que escreveu. Quando a publiquei, na edicao 169, ressalvei que at6 aquele moment nao havia ainda aproveitado outras contribuiq6es por ele enviadas (nao na forma de carta, mas enquanto fonte de informacges) "por absolute falta de tempo para a checagem pro- fissional, que sempre se imp6e". Jamais me retratei do que publiquei sob a minha assinatura, nao por recusa a reconhecer erros (que os tenho come- tido, mas felizmente sempre menores, aut6nticos pecados veniais, inerentes a condi9ao humana) ou presunqao de in- falibilidade. Mesmo nas duas 6nicas s6- ries de demands a que fui submetido em 34 anos de carreira, para responder judicialmente pelo que escrevi, movidas por Rosangela Maiorana Kzan e Cecilio do Rego Almeida, sustentei minhas in- formaa6es e provei- ou ainda estou pro- vando que elas sao verdadeiras. Este tem sido e tudo farei para que continue a ser- meu maior patrim6nio professional. O outro, se os leitores au- torizam a prerrogativa, 6 nao me inti- midar cor ameagas, arreganhos ou su- postos golpes de sagacidade de arma- dores de xeque-mate de araque. Nun- ca recusei um combat, nem deixei pas- sar inc6lume um cavalo selado. Conti- nuo dando um boi para nao entrar numa briga e uma manada para s6 sair dela quando finalizada. Dizer a verdade, qualquer que ela seja, sejam quais forem os seus be- neficidrios, nao constrange este jor- nal: revigora-o. 4 JOURNAL PESSOAL .P QUINZENA DE JUNHO/ 2000 Campanha eleitoral: o alvo turo n turno A grande duvida na fase preliminary da campanha eleitoral deste ano em Bel6m 6 a possibilidade de definigCo da dispute ja no primeiro turno, com a reeleiqAo de Ed- milson Rodrigues, do PT. Nas pesquisas ate agora realizadas, a preferincia pelo atual prefeito tem gravitado em torno de 40%, corn ligeira tendencia para cima. A favor dessa tendencia esti a perspective de um forte verao, parceiro desejivel de obras numa cidade marcada por chuvas abundantes. Mesmo corn as novas restri- c9es legais as manobras eleitoreiras, nio hi um nome, ao menos no estagio atual da corrida ao poder, que tenha conseguido ombrear-se com Edmilson. Contra esse delineamento otimista colocam-se os ataques que ja comegam a se intensificar contra a administra9qo e a pessoa do prefeito, cuja vulnerabilidade tem sido ampliada pela sua inabilidade para lidar corn a controversial, e uma pre- senna mais agressiva do governor do Es- tado em Bel6m. Por isso mesmo, seu maior adversi- rio, o govemador Almir Gabriel, j a defi- niu a estrategia de combat ao PT. Ele sabe que nao conta corn um nome de grande apelo popular na capital. O depu- tado federal Zenaldo Coutinho, pr6-can- didato do PSDB, tem disposigdo, mas nao parece capaz de catalisar uma frente anti- Edmilson. Vai ser o candidate do gover- nador e terd todo o calor da miquina es- tadual para tentar reeditar o fen6meno Luiz Otavio Campos, um tipico produto de marketing corn caixa official e boa apa- rencia. A propaganda do governador ja esta em campo, penetrando at6 na seara administrative da prefeitura (como faz atraves do Piano de Desenvolvimento dos Transportes Urbanos e do Programa Be- 16m Metropole). Com tudo isso, porem, Zenaldo entra no pareo como um azarao. Os dois nomes mais fortes fora do PT sio o deputado federal Vic Pires Franco, do PFL, e o estadual Duciomar Costa, do PDS. 0 esquema populista de Duciomar se revelou mais proficuo do que aparen- tava, mas e pouco provavel que durante a campanha eleitoral ele consiga um tal incremento de preferencia capaz de apro- ximi-lo de Edmilson. Falta-lhe um com- panheiro de chapa mais respeitavel e urn discurso para palanque e televisao. Vic ter esses dois elements, que fazem su- por uma evolugao mais positive da sua candidatura. Mas ter uma grave restri- 9:o: em nenhuma hip6tese contard corn o apoio do grupo Liberal. Mesmo tendo desistido de manter o golpe mais duro sofrido por ela: a aqAo popular contra o conv6nio da TV Liberal com a Funtelpa (foi uma desistencia precipitada?). Os veiculos da familiar Maiorana sao a gran- de base de sustentacgo do governador. Ou ao menos assim ele os classifica. Em fungdo desse veto, Almir esti pre- ferindo estimular a opao por Hl6io Guei- ros no PFL. Alguns assessores palacianos dizem que essa opAo teria mais uma van- tagem: HWlio Gueiros, abrindo um confron- to dieto cor Edmilson, graoas a sua ret6ri- ca e as realizacqes como ex-prefeito que pode apresentar, dificilmente passaria para o 2 turno. Sua rejeicao 6 a mais alta dentre todos os candidates. Assim, tiraria votos do PT sem atrai-los para si. Eles iriam parar na cagapa de Zenaldo, de Duciomar e de outros candidates que surgirem. O esquema do govemador esta traba- lhando com o maior nrnero possivel de candidates, desfazendo formalmente a coligagao Uniio pelo Para, sem deixar de usa-la coesamente na pratica (mas, como sempre acontece nas eleiqbes paraenses, trocando de parceiros). Seria mais gente atirando contra a administraqao petista, obrigando Edmilson a dispersar sua defe- sa sem contar com uma retaguarda mais ampla. Obcecado pelo prop6sito de sair candidate ao governor do Estado em 2002, Edmilson fechou questto em tomo do cor- religionirio Valdir Ganzer como vice-pre- feito. Criou um problema para os demais partidos da coligag~o de centro-esquerda, sobretudo para o PSB do senador Ademir Andrade, mas e o preco que esti disposto a pagar para ter um home de confianga quando deixar a PMB, eixo estrat6gico do seu salto para o principal cargo ptiblico estadual, dentro de dois anos. E umjogo de alto risco para o PT, mas o prefeito nao quer outro. Ele aposta que seus companheiros compuls6rios de alianga aca- barao aceitando compensaq6es pelo apoio a uma chapa petista fechada, ou nao terao outra altemativa. Aindamaisporqueo envolvimen- to circunstancial de dois nomes da assesso- ria parlamentar de Ademir Andrade em Bra- silia cor o ex-representante do Ibama no Para, Paulo Castelo Branco, pode vir a ser explorado na campanha, caso o senador de- cida lancar-se a prefeitura. A forma de di- vulgado da noticia pela TV Globoja foi uma amostra (gratis?) do que pode vir. Vai ser uma campanha para arrasar nao s6 um quarteirao, mas um municipio inteiro. Sabendo das restrig6es que o eleitorado da capital Ihe faz, o senador Jader Barbalho tern preferido manter-se A distincia das es- caramugas preparat6rias A corrida pelos vo- tos. Se pudesse fazer prevalecer a sua von- tade, o PMDB sairia com sua ex-mulher, a deputada Elcione Barbalho. Mas coloci-la em mais uma desgastante campanha, ap6s a derrota de quatro anos atras, significaria expor-se por extensio a voltar a ser o tema central dos ataques, antecipando a frente de luta que se instalard em 2002. A outra alternative peemedebista e o tambem deputado e primo Jos6 Priante. Nao e o nome do coracao de Jader, nem de muita gente dentro do partido. Mas pagando o prego de ter ceifado todas as liderancas que pudessem fazer sombra ao seu nome, Jader esta tendo que aceitar Priante por absolute falta de opQao. Pre- feriu adotar a cautelosa attitude de ficar a distincia. Nao nos bastidores, mas para consume externo, ja que nao pode sofrer derrota fragorosa nem se omitir na capi- tal, sob pena de ver o seu poder eleitoral enfraquecer-se nos proximos dois anos. E a mesma exig6ncia que se coloca diante dos demais partidos, que eles de- verdo apresentar candidates no 10 turn menos esperando alcangar a vit6ria do que criar condi96es para uma alianga - ai, sim, vitoriosa- no 29 turno. Todos de olho desde ji gordo no butim maior, que estara em jogo em 2002. Como de praxe em terra paraense. JOURNAL PESSOAL *la QUINZENA DE JUNHO/ 2000 5 Nova CPI da terra: agora e para valer? A Comissao Parlamentar de Inquerito da Cimara Federal sobre a ocupagao de terra pu- blica na Amaz6nia, mais conhecida como CPI da Grilagem, pode ter encontrado na semana passada, em Bel6m, um rumo para escapar ao destino da maioria dessas iniciativas: acabar em pizza. Depois de dois dias de intense atividade na capital paraense, ouvindo depoimentos e coletando documents, os deputados percebe- ram que a frente que invested ilicitamente sobre o patrim6nio fundiario da naqao se torou ati- va de novo. Al6m de continuar a lanqar mao de velhos m6todos de apropriagao ilicita, os gri- leiros t6m um novo alvo: o crescente mercado de uso da terra para fins ecologicos. O ponto de partida continue sendo geral- mente o mesmo: cart6rios do interior que se no- tabilizaram, por omissao ou conivencia, na ma- tricula irregular de im6veis rurais. Alguns tem sido o foco da maioria das ilicitudes, como os de Altamira, Sao Felix do Xingu, Igarap6-Miri ou Acara. Apesar da intense reincid6ncia, entretan- to, nao tem sido reprimidos ou a puniclo 6 leve. A culpa pela impunidade e atribuida ao 6r- gao encarregado de fiscaliza-los, a Corregedoria Geral de Justiga. Mas ainda que a frente desse 6rgao esteja algu6m capaz, trabalhador e hones- to, e pouco provavel que consiga reverter a atual situaqio diante da complexidade do problema e da sua amplitude. Uma id6ia apresentada foi a de desmembrar a corregedoria em duas (para a capital e o interior do Estado) e criar uma pri- meira sub-corregedoria, encarregada de atuar ex- clusivamente sobre os cart6rios. Mas s6 correiqbes permanentes nao seriam o bastante para dar consistencia a f6 piblica for- mal desses serventuarios, na verdade agents au- t6nomos. Tambem foi proposta a complete es- tatizaqao dos cart6rios extra-judiciais de regis- tro imobiliario, eliminando-se o hibridismo atu- al, raiz das indefiniqces, que facilitam as frau- des. Uma outra sugestao foi a unificaqao dos cadastros de terras. Os govemos federal e esta- duais dariam assistencia t6cnica para a monta- gem dos cadastros nos pr6prios cart6rios. Al6m da matricula, os livros de registros (ou as mem6- rias dos computadores, numa atualizaqao tecno- 16gica) conteriam os croquis das areas. Com um program de demarcaqao de terras, por via admi- nistrativa ou judicial, dentro de algum tempo (e a um custo que as autoridades v6m se negando a encarar, mas 6 necessario) j seria possivel ir a um cart6rio saber exatamente onde se localiza a area, sem estar exposto as desagradaveis surpre- sas que o caos fundiario engendra. Ou prepara- las para terceiros. Essas medidas possibilitariam criar uma es- trutura modema, nipida e confiivel de informa- cqes cadastrais e de situacio legal dos im6veis rurais, raios-x impossivel de obter na Amaz6nia dos nossos dias. Naturalmente, um resultado de tais proporcqes vai defender de uma attitude mais corajosa e conseqiiente por parte de cada um dos poderes da Republica e da combina~go produti- va de todos eles. Superando a antiga determinario dojudicid- rio, de que nenhum de seus membros compare- ceria a CPIs, a desembargadora Maria de Nazar6 Brabo de Souza foi depor na comissao federal, na sede da mesma Assembleia Legislativa da qual se ausentou quando a CPI era estadual. Essa ati- tude louvavel de dialogo nao foi partilhada pelo desembargador Joao Alberto Paiva, autor da li- beraio do registro imobilifrio da C. R. Almeida sobre 4,7 milhoes de hectares no Xingu (ver Jor- nal Pessoal 235). A alegacgo foi de que ele esta- va viajando. A decisao tomada pelo desembarga- dor era suficientemente grave para estimula-lo a antecipar a volta em 24 horas e ir a CPI. O que nao fez. Respondendo pelo silencio o que talvez pela razao fosse inexplicavel. Mas al6m de construir fundag9es e levantar pilares institucionais, 6 necessArio combater os pirates que agem cor total desenvoltura no mercado paralelo ou clandestine de terms. Um dos exemplos da excessive tolerAncia com de- linqiientes fundiarios 6 a quadrilha que se for- mou por tras de um personagem que, se exis- tente, seria o maior proprietario de terras do mundo, o fantasma Carlos Medeiros, com pre- tensbes sobre um territbrio que teria de 9 mi- lh6es a 12 milhoes de hectares, sobre o qual constituem-se im6veis eja hi, ate, pelo menos 22 projetos de manejo florestal. Os indicios veementes mostram que se trata de uma ficqco. No entanto, diversas pessoas se apresentam como advogados ou procradores des- se suposto cidadao. Alguns se dizem, simultanea- mente, advogados e procuradores de Carlos Me- deiros. A CPI aceitou a sugestao de solicitar a intervenqao da OAB/Para. A entidade intimaria esses advogados a apresentar fisicamente seu cons- tituinte num determinado prazo, sob pena de per- derem seu registro professional e ainda sofrerem um processojudicial. A iniciativapode niao des- mantelar toda a quadrilha, mas representaria uma media alem da mera indignaqao ou da bonomia, as reac6es mais comuns diante do caso inusitado. Alem de limpar o quadro fundiario dessas teias fraudulentas, um desafio para a CPI e ras- trear as novas formas de neg6cio que estAo reali- mentando a fome dos grileiros de terras. Um des- ses neg6cios e a destinaIao de areas florestadas como contrapartida A poluiqCo do primeiro mun- do. As empresas responsiveis pela emissao de gas carb6nico para a atmosfera estZo sendo com- pelidas a eliminar essas fontes de poluiao onde elas ocorrem ou encontrar areas, em qualquer parte do planet, que sirvam de esponjas vege- tais da poluicao, se nao quiserem pagar taxas de valor crescente. E o mercado do "seqtiestro do carbono, em tomo do qualja existed uma dispo- nibilidade para investimento em Areas de absor- q9o do tamanho de 14 bilhoes de d6lares. O interesse da C. R. Almeida pelas matas do Xingu pode se enquadrar nessa nova ten- d&ncia-e 6justificavel, em conseqfiincia, que a CPI d8 prioridade A investigaiao desse dentre tantos outros casos de apropria9Fo de terras puiblicas incluidos na sua agenda. A refernncia ao seu nome no noticiario tnico que a TV Glo- bo dedicou aos trabalhos da CPI, o empresario Cecilio do Rego Almeida reagiu declarando nada ter corn as terras do Xingu. Nao e o que atesta, porem, o "contrato particular de compromisso de compra evenda" (mais conhecido como "con- trato de gaveta"), que seus prepostos assina- ram, emjunho de 1995, em Bel6m, com os an- tigos auto-declarados proprietArios das 10 gle- bas da Fazenda Curui. De fato, nenhuma das assinaturas 6 de Ceci- lio Almeida e s6 indiretamente ele pode ser as- sociado a Rondon Agropecuaria, a nova contro- ladora da Incenxil (Industria, Comercio, Expor- taqao e Navegagao do Xingu), a empresa dos Oli- veira. Mas, conforme a clausula 54 do contrato, a C. R. Almeida 6 quem se obriga a ceder os 5,4 milh6es de reais de precat6rios (titulos de co- branga contra a fazenda publica do Parand), que completariam o pagamento das terms, no valor de R$ 6 milhoes. Esta estabelecido o nexo. A C. R. Almeida teve que aparecer porque s6 ela dispunha de precat6rios. Os R$ 600 mil iniciais seriam pagos em dinheiro. Mas das cin- co parcelas, s6 uma, a unica de R$ 100 mil, foi quitada. As demais (de R$ 125 mil cada) deixa- ram de ser pagas porque os vendedores nao pre- encheram o requisite preliminary: obter a regula- rizagio das terras junto ao Iterpa (Instituto de Terras do Para). As clausulas que estabeleceram essa exigencia revelam que o comprador tinha plena consciencia de estar adquirindo pretens6es e nao um direito materializado. Tanto que deixou de pagar as demais parcelas, transferindo a res- ponsabilidade aos Oliveira. Com isso, nao s6 credenciou-se a receber de volta os R$ 100 mil adiantados, cor os acresci- mos legais e pactuados, mas-o que constitui o aspect mais letal do contrato- a transformar o contrato em "titulo habil para execuqio forgada contra o im6vel dado em garantia". Ou seja: a C. R. Almeida poderia se considerar dona de quatro milhoes de hectares (ou sete milhoes, conforme a ultima noticia dada pelo pr6prio empresario) sem pagar um s6 tostao aos que se intitulavam antigos proprietarios. Componente contratual terrivel incluido no contrato da mesma maneira que o seu foro foi fixado em Curitiba, sede do comprador, a mais poderosa das parties, e nao em Altamira ou Belem, domicilios do vendedor, a parte mais fraca do enredo. Para se defender do que contrariar seus interesses, os Oliveira terao que litigar na capital paranaense. Desvendar hist6rias como essa pode assegu- rar a atual CPI um destiny muito mais glorioso do que o melanc6lico fin de uma CPI antecessora, de 1979, que se encerrou corn muita coisa boa no seu bojo, mas sem qualquer conseqiiencia pritica di- ante do mundo dos homes de came e osso. 6 JOURNAL PESSOAL l QUINZENA DE JUNHO/2000 Cartas Solidariedade Lucio, caro amigo Mais uma vez atrapalho o teu sempre atravancado tempo, tao atravancado que nao te deixa nenhuma margem de seguranqa para, por exemplo, abrir espago na agenda para inocentes bate-papos com os amigos. Desta vez chego s6 para lamentar o pre- cioso espaco que o Jornal Pessoal teve que dar para o destrambelhado Paulo Castelo Branco, quando publicou aquela enorme car- ta que, final, nao passava de parlapatices de um charlatao. Ele deveria ser punido tam- b6m por isso, muito mais do que pela extor- sao que, felizmente, nao se concretizou. Mas a imbecil carta, esta se concretizou e caiu sobre todos n6s, leitores do JP e principal- mente aos que, como eu, fazem cole9ao do joral, que esse sicofanta acabou enodoan- do, ao roubar tanto espaco. Feito o desaba- fo, fica a minha solidariedade. E mais uma vez, vA-se que tu tinhas razao na tua anali- se. Um grande abrago, do Jos6 Carneiro MINHA RESPOSTA Pela boca de Cordelia, uma das mais ma- ravilhosaspersonagens da literature univer- sal, o mago (este, sim, verdadeiro) William Shakespeare disse, em Rei Lear: "O tempo desvendard o que as dobras da astzcia enco- brem. Quem esconde aspropriasfaltas sera, porfim, escarnecidopela vergonha ". Desde que as li, tantos anospassados, nunca mais esqueci essas palavras. Se na primeira leitu- ra elas eram teatro, com o tempo passaram a ser vida para mim. Pessoas ansiosas por orientaCao deviam prestar mais atenCdo a grande literature do que aos manuais de auto- ajuda e ao esoterismo. Por isso, chagas abertas por agressoes como as de H6lio Gueiros, Oliveira Bastos e Paulo Castelo Branco sangram, mas cicatri- zam. Nao atingem nenhum 6rgao vitalpor- que ndo alcancam a integridade de umapes- soa decent, diferente do que eles sdo. Mas cicatrizam tambem porque, nesses momen- tos, sempre conto com palavras generosas e amigas como as de Jose Carneiro. 0 maior patrim6nio da minha vida e atrair essa gente boa. Os canalhas, aqueles combatidos com furor por Emile Zola, estes s6 tem motives para se afastar de mim e me atacar. Obrigado, Carneiro. Indignagao Fiquei indignado ao assistir a insercao commercial, em programaqao da TV Liberal, que solicitava a cooperaqao de todos para a construgao de uma UTI neo-natal da Santa Casa de Miseric6rdia. Nao gostaria na ver- dade que me interpretassem mal. Ocorre que 6 inadmissivel o Governo do Estado gastar quase 25 milh6es de reais em seu projeto " EstagCo das Docas", popularmente ja conhe- cido como "VER-O-RICO", quando a de- manda da area de sadde que 6 de grande importancia para a sociedade,paraense, pede esmolas ao povo de Bel6m. E evidence nos- sa cidade precisa de projetos que atraiam o turismo, apesar da questionavel viabilidade econbmica da area do "VER-O-RICO", mas o que nao pode- mos aceitar e o antagonismo do Governo, que nos solicit apoio solidario e, ao mesmo tempo, esbanja dinheiro em obras fara6ni- cas. Pensei que esse Governo fosse diferen- te dos outros... Errar 6 human. Mario Adalberto Bel6m Jr. Cidadao Paraense e Administrador de Empresas R6plica A prop6sito da entrevista dada pela Coor- denadoria de Comunicagdo Social da Prefei- tura de Belkm (ver Jornal Pessoal 235), Edir Gaya enviou a estejornal a seguinte carta: Leon e Gabriel sao meus filhos mais novo e mais velho. O pseud6nimo Leon Gabriel surgiu ha quatro anos, quando eu trabalhava como assessor de imprensa do Sindicato dos Bancarios, em materias publicadas em al- guns jornais da cidade. Isso nao 6 segredo, nem estratagema de ma-fe. Pessoas que tem relacoes cor minha familiar, algumas delas trabalhando na Comus, conhecem os meus filhos e, sobretudo, sabem da minha opiniao a respeito do governor municipal. Nao es- crevo "costumeiramente" sobre o Governo do Povo. Em mais de tres anos foram tres cartas, publicadas no Liberal, onde trabalho ha seis anos como editor de Atualidades. A primeira delas, publicada no domingo posterior ao reajuste de 6nibus e assinada como Edir Gaya, indagava sobre as razoes do prefeito para conceder um aumento de tarifa que, somado aos demais, perfazia um total de 40% s6 no seu period de governor, algo que nenhum dos prefeitos que o ante- cederam se atreveu a fazer. O calculo 6 do Dieese e o argument 6 do lider do governor na Camara, vereador Arnaldo Jordy. No pro- cesso de discussao do reajuste, antes do prefeito sancionA-lo, Jordy chamou a aten- 9 o para o desgaste politico que represen- taria o aumento, sobretudo porque, apesar do reajuste dos combustiveis, as empresas acumulavam ganhos cor servigos nao im- plantados de bilhetagem eletrBnica, cartao magn6tico- temas de representagao da Ct- bel ao Ministerio Ptblico contra os empre- sarios-, afora a renda antecipada cor a ven- da de vales-transportes, etc, etc, etc... Defendia-se entao um reajuste menor, que nAo transferisse o 6nus do transport coletivo para o orramento dos trabalhado- res e desempregados. O prefeito ignorou as pondera96es do seu lider de governor e o Dieese foi anatematizado, reabilitando-se somente ap6s a pesquisa dando conta de que a Prefeitura cobra o IPTU mais barato do pais. A CUT, a CBB e varios sindicatos tam- bem foram contra o tarifaco. O prefeito nao teve sequer a educagao de receb8-los. A Comus, dirigida por uma professional recem-convertida ao prefeito, nao se dignou a responder as indagaq6es da minha carta. Nao vou aqui acusa-la de me boicotar. E um direi- to meu, como eleitor e fiador deste governor, cobrar publicamente explicagqes. O governor se reserve ao direito de sonega-las? Tudo bem, nao vou reclamar ao bispo. Digo o que penso e, na pr6xima eleiq~o, dou o troco. A isso se chama democracia. E 6 por ela que qu tenho me batido desde a adolescAncia. Aqui entra o Leon Gabriel. O titulo da carta escrita por mim duas semanas ap6s a primeira 6, na verdade, "Zelig o Homem Camaleao", referencia ao protagonista de um filme de Woody Allen que, na minha opi- niao, express o temperament ciclotimico deste governor pelas razres ja relatadas nes- tejomal na abertura da mat6ria que deu ori- gem a minha carta. Assinei com pseud6ni- mo nao porque quisesse me esconder, mas para tomando de emprestimo um termo do meu querido Paulo Bemerguy- vergastar o poder em busca de uma resposta nao forne- cida anteriormente por razoes que s6 a dire- cao da Comus pode explicar. Ao Leon Ga- briel finalmente a Comus responded, em car- ta publicada no Liberal, com essa baboseira sobre a soberania do Conselho Municipal de Transportes, uma entidade sobre a qual ningu6m mais teve noticia ap6s o reajuste. A decisao do conselho foi tao estapafiirdia que a Federaqio dos Centros Comunitarios e Associatges de Moradores (Fecampa) des- tituiu o seu representante por ele ter vota- do a favor do reajuste de mais de 16%. A Ctbel estava unida entao aos sindica- tos das Empresas de Transportes do qual ja reclamava R$ 16 milhoes no Ministerio Publico, referentes a serviqos incorporados na tarifa anterior, pagos pela populacAo e nao implantados pelos empresArios e dos Rodoviarios- cujo president esta sob sus- peita de receber dinheiro dos empresArios para organizer greves. Como se nao bastas- se, a Ctbel espalhou pela cidade dezenas de outdoors avalizando a antiga tese de que Be- lem ter a menor tarifa de 6nibus do plane- ta. Nao me assusta que os empresArios re- pitam esse argument A exausto ignoran- do as demais mazelas sociais da cidade -; final, eles defended o caviar de cada dia. Mas a Ctbel defended o que? E o Governo do Povo? Por fim, a iltima carta esta tambem assinada como Edir Gaya e nao respondida pela Comus refere-se ao epis6dio envol- vendo o secretirio de Educacqo Luiz Araij o e a ex-mulher do prefeito, Joana D'Arc Gon- galves. O assunto parece revelar a convi- vencia promiscua entire assuntos publicos e privados e envolve questbes relacionadas a licita9~es publicas, acusag6es de agressio fisica, abuso de autoridade, etc, etc. Eu in- dagava entao se Luiz Araujo continuava sen- do compativel cor o cargo de secretario de Educacao depois do seu envolvimento no epis6dio, acusado de agressao. Ninguem em sa consciencia pode admi- tir que seguranqas se atrevessem a retirar na marra a ex-mulher do prefeito da ante-sala de seu gabinete sem ordem superior. Tudo JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE JUNHO/2000 7 fica ainda mais nebuloso na media em que Sua Excelencia nao deu uma declaraqao ofi- cial sequer para esclarecer o epis6dio. Por fim, nao compreendo como essas indagaq6es e opini6es podem se configurar em boicote ao governor municipal. Talvez a diligente di- rigente da Comus possa explicar melhor. Edir Gaya Floresta Senhor Lucio Flavio Sempre leio as duas publicag6es de sua autoria, o Jornal Pessoal e a Questio [Agenda] Amaz6nica. Admiro seu trabalho, que se caracteriza pela imparcialidade e o compromisso com a verdade, levantando questoes das mais rele- vantes para o nosso Estado. Infelizmente, no iltimo nimero do Jor- nal Pessoal da 2- quinzena de maio do cor- rente na materia de capa "S6 Bandeira e Ret6rica", o senhor deixou algumas quest6es sem esclarecimentos. Inicialmente, percebi que o senhor nao conhecia, corn profundidade, o relat6rio do Deputado Micheletto. Logo, estou envian- do-o em anexo a integra do relat6rio, citado por diversas vezes na sua materia para uma nova avaliagao. Sei que nto por maldade mas certamente por falta de tempo ou atW mes- mo deixado se levar por ONGS internacio- nais, o senhor interpretou de uma forma equivocada a proposta. Sinto-me injusticado quando cita na ma- teria que a proposta 6 um retrocesso defen- dida pelos ruralistas. Sera que e retrocesso o fundamento de todo o texto, que seria a imediata realizagao do zoneamento econ6mico-ecol6gico de todo o pais, como forma de definicAo do uso dos recursos naturais? Sera retrocesso a proposta da nao exi- g6ncia de haver a reserve legal em proprie- dades de at6 25 hectares, como forma de vi- abilizar os pequenos produtores de todo o pais? Lembrando ao senhor que as areas de preservaqdo permanentes sao intocaveis in- dependente do tamanho das propriedades e que esta media viabilizaria o projeto de consolidaq o da reform agraria no Brasil, cujo principal foco 6 a agriculture familiar. Sera que proper a expansao a m6dio e lon- go prazo da maior fronteira agricola do pais, o Estado do Para, de forma planejada ambi- entalmente e tecnicamente atraves do zonea- mento, 6 retrocesso? Lembrando que o nosso Estado possui milhares de hectares de cerra- dos e outros de terra rocha estruturada. Sera que o Brasil existiria, como propoe o senhor, deveriamos deixar intactas as flo- restas, "permitindo assim o seu ciclo fecha- do de nutrientss? Alem do mais, em varios moments na materia parece-me que ha alguns dados equi- vocados, tais como: 1 -" a area de 500.000 quil6metros qua- drados equivaleria a Area de Sao Paulo pa- rece-me que nao confere a informagao. 2 "destes 500.000 km, 160.000 estio abandonados" onde estao localizadas es- tas Areas? Gostaria que indicasse os traba- Ihos t6cnicos apontando a sua localizacao. 3 "Parar tudo na Amaz6nia at6 terem podido inventariar a mesma" 6 exatamente a proposta do relat6rio do Deputado Mi- cheletto com o zoneamento, pois somente assim teriamos o instrument t6cnico para a utilizacio dos recursos naturais da regiao. 4 "Para garantir a integridade da Ama- z6nia e o saudavel exercicio da soberania national sobre ela o BrasiljA deveria ter con- ferido a qualquer proposta autorizando no- vos desmatamentos em areas de floresta den- sa a classificacao que merece: estupidez" - parece-me extremamente agressiva e precon- ceituosa, uma vez que deveriamos avaliar onde, quando e por que do uso da terra .A radicalizacio podera estar equivocada. Segue tamb6m nos anexos, para sua ava- liacio, o pronunciamento do Deputado Nil- son Pinto, que 6 autoridade paraense no as- sunto; e material t6cnico que fundamentou a posicao dos produtores rurais brasileiros quanto a questao. Tenho a certeza que pelo seu brilhan- tismo e espirito public questionador, ira reavaliar a sua posiqio inicial, frente a questao polemica, pois 6 o future dos hoje ja 20 milh6es de habitantes da Amaz6nia que esta emjogo. Atenciosamente Luciano Guedes Produtor rural Redencio-PA MINHA RESPOSTA A excepcional (e sauddvel) quantidade de cartas mandadas pelos leitorespara esta edi- ado me obriga a ser sintitico na resposta aos questionamentos de Luciano Guedespara ndo prejudicar as demais materias dojornal, jd que o espaoo encurtou muito. 1 -Li o relat6rio e o projeto Micheletto cor muita atengao. Considerei tambem as manifestagjes dos dois lados da questdo. Pos- so estar errado, mas escrevi como sempre faco: expressando umponto de vista pessoal. Nunca tive voca6dopara marionete. 2 -Acompanhei diretamente a ocupaado da Amazonia, apartir dos anos 60, pelapata do boi e atraves da migraado acelerada pelas es- tradas de integracdo national. Ambas repre- sentaram as maiores violencias jd cometidas contra a regido, uma estupidez complete. Evo- luimos muito desde entdo. Mas ainda ndo o su- ficientepara livrar a Amaz6nia daforma dis- torcida (e invertida) impostaporseu coloniza- dor seja a Volkswagen con suafazenda irraci- onal em Santana do Araguaia, seja opequeno agricultor corn seus cultivos de ciclo curto. 0 cora do e a essencia da Amaz6nia e a suaflo- resta. Nao precisamos encard-la como museu, esquecendo que ela existe, nem deixarmos de incorporar verdades s6 porque algumas ONGs e outras instituig&es internacionais chegaram primeiro a elas. Temos que ser a autoridade maxima em Amaz6nia. Mas ndo chegaremos a tanto s6porsermos donos do territ6rio. Temos que investor muito em cidncia, tecnologia, edu- cagdo e numa nova forma de inserir a Amaz6- nia nafederadao brasileira. 0 que defend e o primado do conhecimento. Quando ele estiver estabelecido, prdticas tidas como sauddveis e ate mesmo econ6micas serdo abolidas. 3- Ozoneamento ecoldgico-econdmico e uma ladainha hd mais de uma decada. Tem servido de habeas corpuspreventivoparaprd- ticas irracionais. E umponto positive dopro- jeto Micheletto a exigdncia de que essa tarefa sejafinalmente realizada. Mas sejl temos co- nhecimentos suficientespara evitarmos a qual- quer custo novos desmatamentos em area de floresta densa, por queprecisamos reforcar a tolerdncia ate que se saiba onde e como inter- vir humanamente napaisagem natural? 4 O pequeno agricultor destr6i muito menos e produz proporcionalmente mais do que a grandepropriedade rural na Amaz6- nia. Mas tambem destr6i e ndo produz tdo bem emfungdo do modelo de ocupagdo da terra. Os assentamentos rurais, se sao uma necessdria vdlvula de seguranga social, pou- co ou nada contribuem para ajustar a inteli- gkncia ao uso da regido. 5-A reserve legal serd mais do que pa- pel, capaz de abrigar a destrui9do sem des- cambarpara a legalidade, gragas aos artifici- os marginais d lei (especialidade dos advoga- dos), sefor averbada como propriedade pu- blica na matricula do imdvel em cart6rio. Isso e radical? Constava da proposta de reform do C6digo Florestal que o ministro-coronel Mdrio Andreazza ia levar aopresidente-gene- ralJodo Figueiredo em 1979. Mas o Conselho de Seguranca Nacional brecou antes, Andrea- zza afinou e se manteve ofaz-de-conta para ingles ver (comoprefere nosso atualpresi- dente-sociologo). Orgulho-me de terfeito a proposta no grupo de trabalho que integrei, sob a asaprotetora daquele quefoi um dos poucospoliticosformadospelo regime military de 64. A principio, Andreazza endossou a su- gestdo, incorporada ao anteprojeto-de-lei. Mas quandoperdeu a possibilidade de sairpresi- dente, renunciou ao desafio. 6- 0 leitorpoderd se informar sobre dre- as degradadas na Embrapa (cor Adilson Ser- rdo e Alfredo Homma, principalmente), no Imazon, no Ipam e, se puder, nos Estados Unidos corn Susanne Hecht. A estimativa estd em vdrios livros e teses sobre o assunto. Em RedenCdo mesmo hd parties dessa totalidade. Lembro-me, saindo da adolescncia em Sdo Paulo, do impact que sofri ao ler os relatdri- os da Comissdo Rondon nos arquivos do Mu- seu Paulista. Nosso her6i achava que podia- mos alimentar o mundo usando s6 o Panta- nal. Imagine cor os 500 mil km2 jd desmata- dos na Amaz6nia, drea que represent duas vezes o tamanho de Sao Paulo (infelizmente, o trecho saiu truncado na ediqdo anterior). 7-Finalmente, ainda bem que hd ruralis- tas e ruralistas. Eufaria realmente injustica se ndo distinguisse Luciano Guedes de outros que, ao inves de debater civilizadamente, vi- sando a causa public e ndo o interesse estri- tamente particular (ou, no mdximo, corpora- tivo), reagem como aquele ministry nazista quando ouviafalar em cultural: com seu trOs- oitdo. Infelizmente, ainda um instrument de largo usopara definir controvyrsias nos gro- toes dos nossos sertoes. Verdade A Coordenadoria de Co- municacdo Social da prefeitu- ra de Bel6m prometeu, mas nao cumpriu: deixou de reme- ter as respostas ao restante do questionario que Ihe enviei so- bre a relaCgo da PMB com a grande imprensa local. Justa- mente quando, por aproxima- gao, se chegava mais pr6ximo da verdade. Justifica aquela famosa fra- se de Jules Feiffer durante o reinado de Richard Nixon nos EUA, na d6cada de 70, quan- do o journal The New York Ti- mes publicou os documentss do Pentagono", sobre o lado sujo (ha um lado limpo?) da guerra na Indochina, obtendo- os secretamente: se voc8 qui- ser uma mentira, vi a uma entrevista coletiva; se quiser uma verdade, roube-a. Ou, adaptando a frase para o present context, conten- te-se com um questionirio. Luz Tudo indica que quem ven- cer a concorrencia para o pro- grama Luz no Campo, em vias de ser aberta, ocupara um im- portante espaco no interior do Estado. Pode se tornar um p6lo de poder em plena epoca eleitoral nos municipios para- enses. Por isso, as atencoes estao focadas sobre os possi- veis candidates. Mem6ria Entre os 21 livros de uma "biblioteca ideal", que arrolou a pedido da Livraria Cultura, de Sao Paulo, listagem republicada por Elias Pinto na sua coluna semanal no Didrio do Para de domingo passado, o fil6sofo Renato Janine Ribeiro inclui as memrrias de Giacomo Casanova. Mas lamenta que inexista uma traducao complete da obra, escrita originalmente em frances (com o titulo complete de Memoires de J. Casanova de Seingalt iscrits par lui meme e nao Histoire de ma vie, como diz Janine), para incluir os trechos mais picantes, suprimidos na maioria das edig6es condensadas. Erro primario do professor da Universidade de Sdo Paulo. A Livraria Jose Olympio Editora publicou uma bela edi~io integral em portugues das mem6rias do maior galanteador de todos os tempos (e um magistral representante de sua 6poca) em 1959, em 10 volumes, corn 3.936 pdginas e 367 ilustracoes. A correta traduCao foi feita por Wilson Lousada. Agrippino Grieco escreveu o prefacio. Uma edigao tdo digna que merecia um relangamento, ao menos para avivar a mem6ria - cultivada sem a vivacidade do pr6prio Casanova de certos intelectuais. Como explicar o cometimento de erros assim elementares? Mesmo sendo apenas um interessado leitor de livros, jd registrei neste jomalzinho lapsos lamentaveis de gente que posa de guia national de leitura, mas parece singrar mais pelas transversais de resenhas e indicagbes bibliograficas do que pelo mar interior das obras. Pretensao falhada no nascedouro (talvez por falta daquilo que o caboclo chama de sustdncia?) a iconoclastia de uma elite postigamente metropolitan. Propaganda Atendendo ao apelo feito pelo deputado Zenaldo Couti- nho, em outdoors espalhados pela cidade, que lancaram sua candidatura a prefeito, you tra- tar bem o turista para Belem sair ganhando. Assim que en- contrar um turista flanando pelas ruas da cidade. Journal Pessoal Editor: Lucio FIvvio Pinlo Fones: (091) 223-7690 (lone-lax) e 241-7626 (faxi Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203166 053-040 e-mail: jornal@amazon com br Edigqo de Arte: LuIzanionlodelariapnlto/230-1304 |
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