Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00183

Full Text



Jomal Pessoal
L U C I F L A V I P I N T O
ANO XIII NO 234 la QUINZENA DE MAIO DE 2000 R$ 2,00

IMPRENSA


0 filho do "rei


publicano"


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a
z
jI~
I. -C .5
-.C 1-


A revista Caros Amigos rompeu pesada cortina de silOncio e publicou extensa reportagem
sobre ofilho que o president Fernando Henrique Cardoso teve numa relacdo extra-
conjugal cor uma jornalista da TV Globo em Brasilia. Ofato pode ser um bom moment
para refletir sobre o papel da imprensa e a democracia no Brasil.


O president Fernando Henrique
Cardoso, o mais culto dentre os
queja passaram pelo cargo em
todos os tempos no Brasil,
comparou a imprensa ao coro no teatro gre-
go antigo. Disse que os jomalistas dco ao


impressio de nAo serem "participes ativos"
da encenaqso, mas "funcionam como o coro,
fazendo a critical e o contraponto, levando os
principals personagens [os politicos] a atu-
ar de forma diverse e a responder a esse
permanent alerta, que e dado pela midia".


Garantiu o president que, compre-
endendo a funqao desse coro, nao se
deixa levar pela tentagco de ignora-lo,
preferindo, pelo contrario, "ouvi-lo mui-
to atentamente, embora nem sempre
concordando, mas sempre sabendo que )


'A A -A t S AT A R A DE 3. A


77





2 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE MAIO/2000


e important que se faga esse barulho".
Generosas e sdbias palavras. Sedu-
zido pelo paralelismo corn a civilizadao
que nos legou a democracia, o presiden-
te bem que poderia tratar os jornalistas
como os mensageiros da antigifidade.
Quando traziam uma mensagem ruim ou
indesejada, os mensageiros cram sim-
plesmente mortos. Os intolerantes, 6
evidence, nao conseguiam evitar os fa-
tos, mas davam vazao a sua fiiria punin-
do o pregoeiro da ma noticia.
Espera-se que a tradigco democrati-
ca da antiguidade classica, e nao o com-
ponente totalitArio da 6poca (sobretudo
o despotismo oriental), continue orien-
tando as reaches do president ao coro
dos descontentes, ao zumbido da critical,
sem o qual o silencioso funcionamento
da maquina da democracia parecera uma
fantasia, um artificio perigoso demais, la-
mentavel demais, azeitado cor o 6leo
da manipulacao.
A imprensa 6 o principal instrument
da critical, o sal da democracia. Mas,
como o pr6prio FHC ja comentou entire
integrantes da corte, a imprensa ter exa-
gerado no apoio ao inquilino do Palacio
do Planalto. O excess de mimos deve
estar acostumando mal o president.
Pode estar induzindo-o ao erro de medir
seu coeficiente de democrat pela bo-
nomia diante de critics que incomodam
tanto quanto o impact de uma pena de
passarinho sobre o rosto do transeunte
la embaixo. O equivocado produto de
uma imprensa amestrada e de um ouvi-
do viciado na audi9ao do que s6 Ihe con-
vem: o sussurro.
Esse circunl6quio pode ter sido que-
brado no mrs passado por Caros Ami-
gos, editada em Sao Paulo. A revista
dedicou capa e cinco paginas da edicgo
do seu terceiro aniversario a uma mat6-
ria sobre o filho que Fernando Henrique
Cardoso teria tido em 1991, fora do ca-
samento, com ajornalista Miriam Dutra,
que foi da TV Globo em Brasilia.
A noticia vem sendo comentada ha
muito tempo em rodas nacionais bem in-
formadas. Pipocou em um e outro peque-
no espago dos jornais. Mas ningu6m se
atreveu a aborda-la mais extensa e pro-
fundamente. Nem mesmo nas duas cam-
panhas presidenciais de que FHC parti-
cipou, em ambas derrotando seu mais
aguerrido concorrente, Luis Inacio Lula
da Silva. Apenas Leonel Brizola, na lti-
ma campanha presidential, de 1998, utili-
zou o fato, mas apenas num site na inter-
net, sem maior exploragdo.
De militants politicos a imprensa,
todos parecem ter estar de acordo que
a privacidade do president tleve ser
preservada. Motivag6es ejustificativas


sao diferentes, mas o resultado foi um
s6: o consenso (ou conspiraqgo) do si-
l1ncio. Ha os que temeram a reacao
furiosa do potentado. Outros recearam
brincar com fogo em fungdo dos pr6-
prios rabos de palha.
Certamente houve quem utilizasse o
silencio como moeda de troca. Inver-
samente, a revista Caros Amigos, corn
o forte da sua receita publicitaria oriun-
do de erarios municipals comandados
por politicos petistas (o maior dos quais
o da prefeitura de Bel6m), estaria pre-
tendendo transformar a informaqco
numa anna de combat?
Nessa hip6tese, revelar ao grande
puiblico a infidelidade de Fernando Hen-
rique seria o troco ao golpe sofrido por
Lula em 1989 (e nao 1990, como diz a
revista), quando ficou quase grogue di-
ante das cAmaras ao ser atingido pelas
acusagces da mae de Lurian, uma outra
Miriam (esta, Cordeiro apenas no nome).
Se assim 6, tera sido um erro do PT
ou de suas extens6es, formais ou infor-
mais. O golpe baixo foi dado por outro
Fernando, o Collor. Objetivamente, Lula
nao tinha motivo para tanto abalo porque
quando Lurian foi concebida (e nasceu),
ele era viivo (ji FHC estava casado,
como casado continue cor a antrop6lo-
ga Ruth Cardoso, que se mant6m em con-
tido sil6ncio). Tornar pblico a infidelida-
de do president langara fogo sobre um
terreno que nao 6 seguro para nenhum
dos presidenciaveis em potential, o que
pode ser o anteato de um inc6ndio geral.
Excluindo-se qualquer inspiracao par-
tidAria ou de qualquer outra natureza que
nAo a jornalistica, permanece de p6 a
questao: ha razAo tecnica para a mat6ria
de Caros Amigos? Ela 6 nada mais do
que puro e legitimo jornalismo? Nao 6
sensacionalismo, oportunismo, irresponsa-
bilidade ou ato de rancor?
Uma resposta afirmativa teria sua pro-
cedencia. Desde que, em 1994, a revista
Veja preparou uma reportagem comple-
ta sobre o assunto e nao a publicou, ou-
tros jornais e revistas tiveram o tema na
pauta, chegando mesmo a coloca-lo na
agulha da impressora. Todos recuaram,
menos Caros Amigos.
Os menos afeitos as origens da de-
mocracia apontarao logo para os anunci-
os de pagina inteira de prefeituras petis-
tas nas paginas (publicitariamente anrmi-
cas) da revista como silenciosa mas
suficiente resposta. A relagdo nao 6
necessariamente de causa e efeito, ou nao
6 diretamente, embora fique esse fato
como contrafacgo a ira da esquerda (so-
bretudo quando fora do poder) de uso da
midia official como element de reforgo
de alianga political (degringolando em


acordo geral para outros fins), largamen-
te praticado pela direita.
Mas uma boa resposta nao 6 tao sim-
pl6ria assim. Esperamos nunca descer ao
farisaismo americano no tratamento da
moral pfblica e da moral privada. Nos
Estados Unidos, FHC ja estaria correndo
riscos com a revelaqCo, riscos falsamen-
te definidos. No Brasil, erros e vacilos
particulares nao costumam ser causa de
queda ou demissao do home public, se
nao causam danos na sua 6rbita de auto-
ridade. E um procedimento bem mais sau-
davel e human. Mas muita coisa errada
consegue acobertamento graqas a nor-
mas difusas ou dubias.
Objetivamente, ha motives suficientes
para a suspeita de que Tomas Dutra Sch-
midt, nascido em Brasilia, em 16 de se-
tembro de 1991, seja conseqii6ncia de um
romance extra-conjugal de Fernando
Henrique Cardoso cor Miriam Dutra. Os
dois foram vistos juntos na 6poca em lo-
cais publicos. FHC nunca se notabilizou
exatamente por fidelidade matrimonial,
como bem sabem seus intimos.

E Ia certidao de nas-

cimento de TomBs nao

consta a identidade do

pai. Depois de nascer,

a crian9a foi cercada

de cuidados especiais.
A partir do moment em que FHC se
tornou president da Republica, esses
cuidados tiveram tamb6m uma aura ofi-
cial, culminando com a transfer6ncia
da mae e do filho para uma residencia
em Barcelona, na Espanha, nao muito
compativel cor o poder aquisitivo da
professional.
A revista nao aprofundou a investiga-
ao jornalistica que Ihe possibilitasse afir-
mar, categoricamente, que Tomas 6 filho
do president. Mas os indicios nesse sen-
tido sao forte., Tao fortes que provavel-
mente o president nao reagira a repor-
tagem, apesar dos estragos e dissabores
que ela Ihe causou (e ainda causara). In-
dicador nesse sentido foi sua parabola
sobre o teatro grego, um recado de alto
nivel para jornalistas de alto nivel, como
os que participam de Caros Amigos.
Tudo poderia acabar nesse entendi-
mento entire gente bem, sofisticada. Mas
nao 6 bem assim. Ha questies penden-
tes a acertar. A primeira diz respeito ao
texto. NAo 6 um bom texto, apesar de
assinado por profissionais que entendem





JOURNAL PESSOAL la .QUINZENA DE MAIOL/2000 3


- e muito do riscado e do recado. Tal-
vez por ter sido elaborado a seis mdos,
sua qualidade varia, tanto em estilo quan-
to em informagao.
Neste segundo aspect, ha problems
graves. Os amigos dos autores do texto
tmr sua identidade preservada. Por tr6s
vezes a reportagem se refere a "um co-
nhecido lobista de Brasilia", "aparenta-
do" da mae do menino, que intercedeu
tentando evitar a publicacao da mat6ria,
mas nao diz quem ele 6 (provocando co-
mentarios azedos de Claudio Humberto,
o ex-porta-voz de Collor, que participou
do ardil contra Lula em 1989). Palm6rio
D6ria ouviu relate de um "colunista mui-
to important da imprensa carioca", so-
bre censura em sua coluna quando noti-
ciou o "affair" amoroso, mas omite sua
identidade (seria Ricardo Boechat, de O
Globo?).
As contradig9es fazem pensar que
Caros Amigos pisou em ovos ao produ-
zir, redigir e publicar a reportagem. Os
mais c6ticos acharao que tanto cuidado
foi adotado para prevenir um process
judicial (flanco escancarado para Miri-
am Dutra, se ela quiser chegar a tal) e
nao fechar algumas portas bem traba-
lhadas em madeira de lei. Deixando de
ser uma pena de passarinho, passaria a
ter o impact de uma garra de aguia caida
no rosto. Nao mais um sussurro, mas
tamb6m sem chegar a um grito. Nos li-
mites das querelas entire "os brancos",
que o ditado popular sabe que acabam
se entendendo.
Mas seria possivel interpreter as omis-
soes e falhas como auto-contenago. Mais
investigac6es exporiam o menino Tomas
e outras pessoas a uma curiosidade pu-
blica que descambaria em mesquinharia.
O que Caros Amigos apresentou na sua
edigao de abril 6 suficiente para bons ana-
listas se langarem sobre aspects menos
iluminados da personalidade do home
que ocupa no moment o cargo public
mais important da Repiiblica.
Independentemente de seus pecados,
vicios ou fraquezas, esse home pode ser
um bom administrator, um satisfat6rio
gestor da coisa public. Talvez ele tenha
abdicado a certas expresses e direitos
pessoais exatamente em funggo da ativi-
dade piiblica. Mesmo assim, 6 chocante
que Fernando Henrique Cardoso nio te-
nha assumido a paternidade de Tomis,
se ele de fato 6 seu filho.
E de se esperar de um carter forte
que, uma vez colocando no mundo uma
nova criatura humana, pelo menos deci-
da juntar-se a mae na certidao de nasci-
mento, evitando o constrangedor (ou pelo
menos inc6modo) registro de pai desco-
nhecido. Quando Tomds nasceu, FHC


ainda era senador. S6 um ano depois iria
para o ministerio da fazenda.

E hoca mais ainda o

voluntario apartamento

de um pai do seu filho,

ainda mais porque FHC

ja se encontrava entao um

cinqiientao avangado, no

pleno dominio das suas

virtudes e limita6bes.
O isolamento da mae e do filho, se eles
tem a ver cor o president, 6 a re-
nuncia a intimidade entire o pai e o fi-
lho e aos desdobramentos desse dano
no future.
Sim, essa 6 uma questao estrita-
mente pessoal de Fernando Henrique
Cardoso. "Cada um sabe a dor e a
delicia de ser o que 6", disse Caetano
Veloso, numa mtisica que responded
com sabedoria a criadao anterior, com
argument contrario e bem machista,
de Noel Rosa. Mas esse 6 o mesmo
home que nos governa. Se o epis6-
dio relatado por Caros Amigos nada
tem a ver cor as virtudes de FHC,
ajuda muito a explicar suas fraque-
zas. Ngo estamos condenando o ho-
mem. Mas agora podemos entenda-
lo melhor.
Assim, independentemente de inter-
fer6ncias e restriq6es ao seu livre ar-
bitrio na producgo de uma reportagem,
a revista prestou um relevant servigo
aojornalismo, a liberdade de imprensa
e a democracia no Brasil. Nao foi muito
long, mas foi muito mais long do que
a grande e poderosa imprensa. Mes-
mo que suas motivacoes possam ser
postas em questao, a reportagem de
Caros Amigos tornou ridiculas as ex-
plicacges dadas pelos representantes
do establishment jornalisticoque ou-
viu para o silancio geral.
Aluizio Maranhao, de O Estado de
S. Paulo na ocasiao, viu o site do PDT,
reproduzindo uma mat6ria do Diirio
de Noticias sobre o filho de FHC. Se
o site de Brizola era apenas moleca-
gem, como diz Maranhao, a reporta-
gem do journal portugu6s nao era. Por
que nao utiliza-la como ponto de parti-
da para uma reportagem s6ria, sem o
amolecamento pedetista?
Segundo OctAvio Frias Filho, dono
da Folha de S. Paulo, seu journal nada


publicou a respeito (em contrast com
as mat6rias sobre a vida privada de
Lula) porque "nao tivemos condiq6es
de investigar, porque nao tinhamos
nem condicoes de afirmar se essas his-
t6rias eram verdadeiras". Prevale-
cendo esse entendimento, as coisas
nao comegariam porque nao comeCa-
ram. Ou, como ele diz mais adiante:
"E que nao sabemos sequer se esses
fatos sao verdadeiros". Nao sabemos
porque nao queremos, diria Frias, sem
fazer pastiche involuntario de Lewis
Carroll.
A grande imprensa, que por omis-
sao, conivencia ou participaqao havia
contribuido para a crucificaqao de Lula
em 1989, nao permitiria a reediqio da
molecagem contra FHC, nem em 1994
(quando ela foi inibida antes de nas-
cer), nem em 1998, quando o PDT de
Brizola tentou pratica-la.
Assim, o coro tem se especializado
mais no canto harm6nico, em unisso-
no, do que no contracanto. E o mensa-
geiro tem aberto a correspond6ncia
antes de entrega-la (a tal da auto-cen-
sura) para nao se expor a transmitir
noticias que cause dissabor ao desti-
natario. Nesse panorama, mesmo um
contracanto atravessado na melodia ou
um mensageiro nada veloz tem a utili-
dade de dar mais realismo e sentido
de vida ao enredo, expurgando-o dos
vicios da artificialidade.
Final, se na Inglaterra a realeza
(realeza mesmo) 6 obrigada a convi-
ver diariamente com a imprensa sen-
sacionalista, que funciona como con-
trapeso para a persist6ncia de institui-
9ao que, de outra forma, soaria mais
anacr6nica (espraiando a fantasia por
todos os corpos sociais e para todas
as mentalidades), nossa monarquia re-
publicana (como a definiu um c6nsul
ingl6s d6cadas atris) tem que se acos-
tumar com a dissonincia.
Mesmo porque, apesar de futeis
e perversos (como a pr6pria reale-
za?), os tabl6ides escandalosos de
Londres mantem nos seus quadros
gente e arquivos bons o suficiente
para Ihes assegurar que a maior par-
te do que publicam, embora freqtien-
temente inttil, e verdadeiro (nossa
imprensa marrom omite esse "deta-
lhe"). Assim, evitam mais processes
milionarios e abastecem a agenda dos
suditos britanicos, induzindo-os, tal-
vez, a manter ao inv6s de acabar cor
os principals personagens de seus pa-
pos de pubs.
Nao haveremos de querer ser me-
Ihores do que os ingleses nessas ma-
nhas & artimanhas, pois nao.





4 JOURNAL PESSOAL a QUINZENA DE MAIO/2000




Os medicos e o monstro


A manifestagao de protest organizada pelo
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-
Terra) para lembrar, em Belem, os quatro anos
do massacre de Eldorado dos Carajas, na semana
passada, transformaram-se em instrument da cam-
panha eleitoral nao declarada que os grupos poli-
ticos j travam na capital paraense. E provavel
que se torne o eixo principal de polarizagAo na
dispute entire a coligagCo comandada pelo gover-
nador Almir Gabriel, do PSDB, e a frente de es-
querda liderada pelo PT, que tenta a reeleigAo do
prefeito Edmilson Rodrigues.
Nada indicava que tal desfecho seria possivel
quando a passeata foi iniciada, no traditional pon-
to de converg6ncia desse tipo de event, a Praqa
do Operario, em Sdo Braz. Havia pouca gente,
menos do que se podia esperar num ato dessa
envergadura, as v6speras da comemoraCoo dos 500
anos da "descoberta" do Brasil por Pedro Alva-
res Cabral. No curso da romaria, entretanto, fo-
ram registradas cenas de violencia como hi mui-
to nao aconteciam em Belem. Era uma evidence
desproporqgo com a massa dos manifestantes e
mesmo o sentido pratico do ato em si, que seria
fazer andar ajustiqa na responsabilizacqo e puni-
gAo dos autores das mortes de 19 (mais um, bem
depois do conflito) sem-terra, no sul do Para,
al6m de deixar seqielas em outros 69.
A desproporqAo entire o contingent human
e os resultados era evidence. Um observador t6c-
nico imparcial que houvesse acompanhado a pas-
seata ou a examinasse pelas imagens obtidas pe-
las cdmaras de televised apontaria logo o despre-
paro da tropa da Policia Militar, a principal res-
ponsdvel pela seguranga ptiblica naquele momen-
to. Em muitos moments os militares agiram
como se estivessem participando de uma rixa, de
uma briga de rua. Atiraram a esmo balas de bor-
racha e bombas de gas lacrimogeneo, em quanti-
dade muito acima do recomendivel para a situa-
g9o, diante da quantidade de rivals.
Era visivel a falta de comando na hora e de
uma boa estrat6gia de acao previamente acertada
e ensaiada. Uma tropa coesa, avancando em li-
nha, indiferente a provocac6es, tem um efeito in-
timidat6rio capaz de prevenir reaq es ou econo-
mizar energia. Mas o efetivo colocado nas ruas
era menor do que o desejavel para evitar confron-
tos e atos de selvageria ou vandalism. A PM foi
mais emotional e passional do que seria se real-
mente tivesse sido acionada segundo normas es-
tritamente profissionais. Parece ainda vitima da
sindrome de Eldorado.
Este 6 um prisma da questAo. O outro e a
decisdo do MST de praticar atos de ousadia em
desequilibrio cor a massa de gente e o m6vel da
a~go, permitindo (se nao induziu) baderna, arru-
aga e vandalism. A consci6ncia da infrag~o esti
patente na investida contra jornalistas que docu-
mentaram a invasoo da sede da Secretaria Especi-
al de Defesa Social, a antiga Segup.
Mesmo nos moments de maior tensao entire
manifestantes e uma poderosa emissora que pro-
duzia os registros das cenas sem exibi-los em
sua programag o, como na passage da d6cada
de 70 para a de 80, no ABC paulista, entire ope-
rarios e as equipes da TV Globo, nao se viram as


agress6es cometidas contra osjornalistas dentro
do pr6dio da secretaria. Num ato politico, a di-
vulga go 6 uma das principals armas dos mani-
festantes, seu dividend, tem politico. Nao, evi-
dentemente, num flagrante criminoso, aberto A
intensidade da lesao, que poderia ir de uma jane-
la quebrada a um cadAver.
Por que invadir a sede do comando da segu-
ranga no Estado? Para mostrar sua fragilidade -
e, por oposigao, a forga dos invasores? Se houve
realmente o primeiro objetivo, ele foi alcancado.
E quase inacreditavel que o esquema de acompa-
nhamento e repressao montado pelo governor do
Estado tenha deixado em tal vulnerabilidade o
pr6dio da Segup.
Confirmada a hip6tese da intencionalidade do
govemo (a ser alcancado para efeito propagandis-
tico), ficaria a deduq o de que os manifestantes
do MST se desviaram da rota traditional (se-
guindo um caminho absolutamente inedito nesse
tipo de manifestagco) porque foram sendo blo-
queados no caminho pelos policiais e militares.
A outra hip6tese 6 de que os manifestantes entra-
ram na rua Arcipreste Manoel Teodoro porque
desde o inicio haviam planejado invadir a Se-
gup. Mas haviam previsto tambem o quebra-que-
bra e a intimidaq~o a simples servidores, seguida
de agress6es fisicas, tudo muito condenavel?
Se tiveram esse objetivo, nao conseguiram
o segundo resultado: o patrocinio de tal come-
timento abre flancos para os vandalos. Eles cos-
tumam ser atuantes no movimento ascendente
do protest, deixando a marca de sua viol6ncia.
Mas sdo eliminados quando vem a ressaca da
repressAo e tornam-se barata tonta no moment
seguinte, o da consolidag~o do poder opressor.
Quemji viveu esse tipo de voragem nao precisa
ir aos manuals de hist6ria para ter a premoni Ao
do prejuizo.
Se o ato do MST teve como escopo exibir
para os habitantes da capital do Estado no qual
ocorreu o massacre de Eldorado a indignaqao das
eternas vitimas do poder e sua impaciencia com
as procrastinaq6es da maquina dajustica (e, por
extensao, da democracia), a intenq~o era boa, mas
o resultado frustrou-se. Se os maquinadores des-
se movimento de massa, como de muitos outros
ji realizados, e dos que ainda virAo, pretendem
lancar combustivel na caldeira da revoluqgo, dis-
postos a correr todos os riscos, convencidos de
que nao ha outra maneira de promover mudanqas
para valer neste pais, entao eles estdo sendo ir-
responsaveis e levianos, a partir de uma avalia-
gao equivocada da correla.ao de forgas.
Quem conhece as entranhas desse velho pais
de apenas 500 anos sabe muito bem que algumas
das principals fontes dos seus desajustes, da sua
aparentemente atavica incapacidade de crescer ex-
pandindo os beneficios do crescimento (pelo con-
trario, s6 faz concentrA-los criminosamente), es-
tao no sertao, nas vastas terras rurais improduti-
vas, na especulaqco fundiAria, no aviltamento do
trabalho e da dignidade da pessoa humana, num
mundo que se arrasta pela hist6ria, quase indife-
rente as mutag6es no litoral e nas cidades. Mas
essa situaqAo s6 persiste porque os donos desse
sertao (ate Deus, se quiser entrar ai, precisa ir


armado, alertou nosso maravilhoso GuimarAes
Rosa) tim sido os personagens principals da his-
t6ria de cinco seculos deste pais continental.
Todas as vezes em que o confront chegou as
vias do rompimento, a solucao foi traumatica.
Para todos. Principalmente para o Brasil.
Nunca houve um movimento rural tao forte
como o MST. Forte por sua consistencia inter-
na, por seu prepare, pelo sofrimento acumulado
do seu client, abandonado por todos os outros
agents sociais e institucionais, e por um senti-
mento de culpa que relativiza ou imobiliza as
aq6es repressivas. Fortalecido em sua legitimi-
dade, o MST pode estar dando um pass maior
do que as suas pernas, esperando tirar de suas
crescentes legioes de usuArios, adeptos ou mili-
tantes o que elas nao podem (ou ainda nao po-
dem) dar. Mas despertando o instinto de sobre-
vivencia super-aguqado de um monstro que ain-
da nao realizou o rito da transiqao para uma
estrutura verdadeiramente (e solidamente) demo-
cratica. Com a qual, alias, o MST nao revela
ter intimidade e harmonia, preso a velhas estra-
t6gias de reform social a partir da tomada do
poder, ante-sala das tiranias de esquerda.
Esse 6 o piano digamos assim superior
dos incidents da semana passada. Mas ha tam-
bem um piano inferior, um subsolo que cala o
chao sem base da primitive dispute political que
esta sendo travada, em crescente polarizaqCo, en-
tre os dois poderes sediados na capital. Do seu
lado, os tucanos estao aproveitando a desastrada
estrat6gia dos organizadores da manifestagAo de
protest para criar, reforqar ou agravar a image
de radicalidade e inconseqiUancia do PT simboli-
zado pelo grupo do prefeito Edmilson Rodrigues.
HA muita teatralidade e fantasia nessa campanha,
mas ela nao parte do abstrato, do nada, como
tentam contra-argumentar os petistas, na infantil
attitude de quem quebra a vidraqa cor uma pedra-
da e esconde as mios.
Ha um incendidrio clima de paixoes impe-
dindo que os 6rgaos oficiais desempenhem sua
fungao arbitral, um grau minimo de imparciali-
dade capaz de assegurar a base t6cnica, sem a
qual tudo descamba para o partidarismo, num
dialogo de surdos, cegos e mudos diante de uma
opiniao public at6nita, maleavel. Quando cada
um s6 pode tomar a attitude de militancia, o
ambiente 6 propicio para as manipulaq6es dos
que tmr mais poder ou sao mais audaciosos em
sua demagogia.
E por isso que, no meio de um tiroteio de-
senfreado, surgem auto-declarados her6is, uru-
bus fantasiados de pavao, como ojornal OLibe-
ral. No espago dedicado ao editorial, invaria-
velmente ocupado por um sonolento texto de
cerca-Lourenqo que s6 tem a ver com o sexo dos
anjos, um editorial agressivo vergastou, no 61-
timo dia 21, as "ameagas criminosas" de que a
empresa e suas extens6es estariam sendo viti-
mas da parte de agressores an6nimos, utilizan-
do t6cnicas intimidat6rias.
Candidamente, diz o editorial: "Aqui nao nos
valemos do porrete, da pedra ou das foices como
armas de agressao; usamos, sim, os fatos -, le-
vando-os ao conhecimento da populagAo porque e






JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE MAIOL 2000 5


do interesse public que assim seja feito".
As armas de O Liberal nao sao, realmente,
porretes, facas ou foices. Mas tamb6m nao tem
sido os fatos. Muitos, importantes, tornam-se
piblicos e not6rios semjamais aparecer nas pi-
ginas dojornalao da familiar Maiorana. A agen-
da dos cidadaos clama por esses fatos, mas a
empresa teima em sonega-los. Mata pessoas em
vida, suprimindo-as de todo e qualquer noticia-
rio, mesmo o de.maior relevancia piiblica, se
elas se tornam inc6modas ou indesejaveis para
a familiar. Inclui ou exclui fatos e pessoas con-
forme seus caprichos ou interesses comerciais,
mantendo algumas delas no noticiario a peso de
ouro, como sabe bem o prefeito.
Edmilson Rodrigues 6 agora atacado como fas-


O nome tucano 6 "mecanismo de control
de prestagao de informagio". Mas o batismo
popular dado ao projeto, j parcialmente aprova-
do no congress, e censura mesmo. Por isso,
esti sendo conhecido como "lei da mordaca". Se
aprovado e sancionado, ira proibirjuizes, promo-
tores, delegados e qualquer outra autoridade de
dar opiniao ou mesmo prestar informac~o sobre
o conteuido dos processes aos quais estejam vin-
culados. Contrariar essa proibigco acarretard pe-
nalidades que irSo do afastamento da fungdo a
pesadas multas e, por fim, a demissAo do infrator.
A iniciativa tern um fundamento nobre: pes-
soas indiciadas em processes ou simplesmente
denunciadas a uma autoridade administrative sao
tratadas como seja fossem culpadas. A pecha s6
caberia quando a condenaiao judicial "transi-
tasse emjulgado", nao havendo mais para o reu
qualquer recurso contra a decisdo. Antes, po-
rem, de consumada a sentence condenat6ria (ou
mesmo a sindicancia administrative e o inquerito
policial), a imprensa costume aplicar urn qualifi-
cativo categ6rico ao personagem, algo que temr
sido classificado como "linchamento moral".
O projeto estd provocando discusses apai-
xonadas, por isso mesmo desviadas de um eixo
mais racional. Um pouco mais de discemimento
faria a opiniao puiblica ver o problema cor a
clareza e a simplicidade que a grande imprensa
nio tern conseguido destacar.
O projeto em si nao 6 ruim. Como a maioria
dos anteriores, que foram enriquecer os emen-
tArios legais, nem sempre conseguindo gerar
efeito no mundo dos homes de came e osso
(ou tendo efeito contrario ao da inteng~o), o
perigo nao esta propriamente no seu conteuido,
mas na forma de interpretd-lo. E de aplica-lo.
Nao 6 indispensdvel- e, As vezes, nem de-
sej vel -que a autoridade responsavel pelo pro-
cesso fale sobre o conteudo dos autos. Ela pode


cista e irresponsAvel, mas foi aceito como parceiro
maravilhoso quando deu 100 mil reais do erArio
municipal para elevar as alturas a taxa de lucro da
empresa na comercializaqAo de fitas de video de
pouco ou nenhum valor cultural, ou quando pagou
toda a inflacionada divida deixada por seu anteces-
sor, H&lio Gueiros,justamente para atirar uma pe-
dra e que pedra no seu caminho.
Com esse tipo de personagens, o enredo
que comecou a ser desenrolado a partir da pri-
meira pedra atirada deixou de guardar corres-
pondencia com a realidade para seguir a trilha
dos interesses inconfessos. Nesse rumo, do
medico surgira o monstro e o monstro, como
todos os aprendizes de feiticeiro acabam des-
cobrindo, 6 ingovernavel.


simplesmente se recusar a ir al6m do que esti
registrado nos pap6is oficiais. Nao lhe faltarao
justificativas para essa attitude, indevidamente
descartada por um nimero crescente de autori-
dades, que buscam a notoriedade facil que maus
jomalistas Ihes concedem A custa do dever fun-
cional e de oficio de ambos.
O que interessa e o acesso aos documents
em procedimentos de natureza pfiblica. Abrir os
autos nao deve ser privil6gio de delegados, es-
crivaes oujuizes. Se o process 6 piblico, qual-
quer cidadao pode consultA-lo, conforme as pres-
crig6es legais. A mediaqao da autoridade nes-
ses casos pode ser um pass para o abuso de
poder ou a prevaricagco, como tem ocorrido fre-
qientemente.
Bons procedimentos investigativos, admi-
nistrativos ou judiciais, contAm o contradit6rio
porque permitiram as parties se manifestar. Maus
processamentos podem levar a condenagdo de
inocentes. Em qualquer das situagbes possiveis,
esses pap6is, colecionados por uma autorida-
de, sao uma fonte da verdade, mas nao toda a
verdade. Sao um fato. Mas nao esgotam os fa-
tos abrangidos por tun acontecimento, epis6-
dio ou situag9o.
Erram os jomalistas quando aceitam como
produto final o que 16em nos processes que
Ihes sao exibidos. Erram desastradamente quan-
do tomam pelo que esta dentro dos autos a ver-
sao deles apresentada pela autoridade. Mesmo
que o conteddo dos pap6is seja rico, um joma-
lista estara renunciando a sua especifica exper-
tise se nao for olhar a paisagem, o cenario, os
personagens, a situagao (ou o teatro de opera-
96es, para usar linguagem military .
Desgragadamente, essa tem sido a regra e
nao a excecao-do jomalismo investigative, ao
menos do que se pratica no Brasil: ao inv6s de
fazer sua pr6pria investigagAo, guiada por seus


pr6prios crit&ios e pela metodologia de aborda-
gem pr6pria dojomalismo, os rep6rteres t6m in-
corporado investigagao alheia. Acabam servin-
do de biombo ou instrument parajogos de inte-
resse e bales de ensaio. Uma vez lanqada como
verdade a informaq o extraida dos documents
oficiais, corrigi-la fica muito mais dificil. Como
menos plausivel se toma reparar o dano causado
a alguem prejulgado nesse procedimento.
As vezes umjomalista tern a ventura de re-
ceber, pronta e acabada, uma verdade por intei-
ro. Mas isso 6 raro. Poucas sao as fontes com-
pletamente altruistas, identificadas corn a causa
public, acima de suas pr6prias limitag6es. A
maioria usa a informaqao como moeda de troca.
As vezes a mercadoria que oferece aojomalista
6 fascinante.
Parece, enfim, a verdade absolute. Mas um
pouco de trabalho de campo costuma ser sufici-
ente para iluminar dimens6es ocultas ou omiti-
das, fatos sonegados. Por isso, deveria ser dire-
triz 6tica categ6rica do jomalista conferir tudo o
que for possivel-diretamente, pessoalmente. E
nunca passar em frente um papel recebido sem
submet-lo a urn profundo exame, a urn teste de
consistencia.
A "lei da mordaqa" s6 deve causar estra-
gos sensiveis aos maus jornalistas, Aqueles
que entram em contato com processes atraves
da apresentaq o que deles faz a autoridade res-
ponsavel e que nada sabe das informag6es
primarias, sendo suprido apenas atrav6s de
fontes secundarias.
Nenhum bomjomalista seri afetado pelo que
esta dito no texto do que ainda 6 projeto, se a
letra da lei-e tao somente ela-for aplicada. Mas
da mesma maneira que os maus jomalistas se
verSo tolhidos por perderem o guia de cego (ja
que nao tnm acesso A fonte pura), os maus servi-
dores publicos tomario a lei como arma para con-
trolar a informaqao, golpeando o direito do cida-
dao de saber o que vai pelas entranhas do Esta-
do, prevenindo (e evitando) o surgimento de
Behemoths ou Leviatas cor o unico antidote
eficiente: a disseminag.o da informagao.
Ao inves de combater os estragos causa-
dos pelo maujomalismo corn urn rem6dio cheio
de terriveis efeitos colaterais, a sociedade deve-
ria enfrentar o problema pelo prisma eficiente:
impedir que a imprensa e as autoridades contro-
lem a difusio da infornmaco. Como lembrou o
papa Joao Paulo II, o pior mal da imprensa nao e
o de divulgar fatos errados (pelos quais res-
ponde e que pode ser compelida a corrigir, em-
bora ainda em escala insatisfat6ria), mas sone-
gar informa6oes.
Como os riscos do rem6dio sao potencial-
mente maiores do que seus beneficios em fun-
gAo dos efeitos colaterais negatives que provo-
ca, o melhor seriajoga-lo fora e procurar o trata-
mento adequado para o problema. Se isso nio
for feito, nosso ex-professor e ex-intelectual, re-
prisado na presid6ncia da Republica, acrescen-
tari mais um pecado mortal ao seuji carregado
prontuario, com o qual se apresentard, se nao
aojuiz supremo, pelo menos aos seculares es-
crivaes do tempo. Com nossa omissao ou con-
cordincia, estaremos contribuindo para pavi-
mentar cor o duvidoso cascalho da boa inten-
9do o caminho para mais um capitulo infeliz da
nossa hist6ria.


A mordaga na


informagao, apesar


da boa inten ao






6 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE MAIO/ 2000


Baixaria


"liberal"

Coluna sem dono emjornal irresponsa-
vel 6 um perigo: pode se transformar numa
bacia das almas. Todo mundo mete la a sua
colher, azedando o prato. O anonimato con-
tamina o jornalismo de bales de ensaio,
picaretagens ou vingangas pessoais. Como
as que se v8 na arrivista coluna Tutti qui,
publicada aos domingos no journal O Libe-
ral. Sem um colunista que a assine, a res-
ponsabilidade legal 6 do director de reda9ao,
Walmir Botelho. A moral ou, mais apro-
priadamente ao caso, immoral dos propri-
etarios, os Maiorana.
As vezes em O Liberal nao se respeita
nem o professional sob cuja chancela apare-
ce a coluna. Ojornalista Luiz Paulo Freitas
leu em sua coluna, cor a mesma surpresa
dos demais leitores, duas notas atacando ca-
vilosamente o desembargador Benedito Al-
varenga. As notas nao haviam sido redigi-
das por Luiz Paulo. Alguem, corn poderes
para se infiltrar clandestinamente na colu-
na, a revelia do autor, tentarajogar lama
sobre o magistrado.
O pretexto da agressao era falso. Mas o
motive escuso foi logo identificado: quando
ainda procurador dejustiga, Alvarenga dera
parecer contrario aos interesses de RosAn-
gela Maiorana Kzan, em um dos cinco pro-
cessos por ela ajuizados contra mim, a par-
tir de 1992, como puni~ao por eu haver pu-
blicado nestejornal noticia que a contrariou
(emborajamais tenha procurado desmenti-
la de publico. A noticia envolvia mais dois
Maiorana (Romulo Jr. e Angela), mas s6
Rosangela foi As barras dos tribunais.
Num dos moments da tramitaCao des-
ses processes, o procurador Bendito Alva-
renga se manifestou como representante do
Minist6rio Piblico favoravelmente a minha
posicao. Na esmagadora maioria das vezes,
o MP se posicionou contra mim, ate mesmo
mandando arquivar de pronto a unica causa
que levei justice, quando o marido de Ro-
sangela, Calilo Kzan, tentou me agredir fisi-
camente, diante de duas testemunhas, na
entrada do f6rum da cidade.
Apesar da confissao do pr6prio agres-
sor, a promotora nao viu "crime de especie
alguma" no caso e pediu o arquivamento, s6
nao consumado naquele moment porque,
al6m de apresentar queixa A policia, inician-
do o procedimento de natureza public, tam-
b6m ajuizei agao particular. O arquivamen-
to acabou vindo depois, por prescricgo,
prescri~go, que ja existe nos processes em
que sou r6u, mas nao 6 declarada nem mes-
mo por dever de oficio dojulgador.


Nunca ataquei pessoalmente os que se
manifestaram contra mim. Respeitei religi-
osamente, inclusive, a vida privada dos meus
algozes e de sua familiar, ignorando tudo o
que me mandaram ou disseram a respeito,
na suposicao de que eu daria guarida a tais
mis6rias (postura adotada em relacao a qual-
quer pessoa, mesmo algu6m que me agrediu
tao torpemente, como o ex-prefeito H6lio
Gueiros).
Mas um gato pardo, que a sombra tor-
nou negro, em voragem vingativa, insemi-
nou as linhas de veneno na coluna de Paulo
Zing contra Benedito Alvarenga, ja entao
conduzido do MP ao Tribunal de Justica do
Estado. Felizmente, o entao novo desem-
bargador, ao contrario da tradicao de com-
placencia e covardia de varios dos seus pa-
res diante do grupo Liberal, reagiu a altura.
Alvarenga provocou a instauragao de
procedimentos penal e civel. Venceu em
ambos na primeira instancia (cristalinamen-
te e nao por emulacgo corporativa, que,
nesse caso, por ter-se "alevantado" poder
maior, nem houve, muito pelo contrario).
Repeliu todas as formas de seducao e pres-
sao, a mais triste das quais utilizando o
pr6prio desembargador que ocupava na
6poca a presidencia do TJE e tentara im-
pedir- na remessa entire o cart6rio e a re-
senha a publicacao de uma sentenga mo-
nocratica de juiz singular (determinando o
pagamento de 100 mil reais de indenizacgo
ao desembargador Alvarenga pelas ofensas
morais que sofreu, praticadas com essa
deliberada intencao, tal a maneira pela qual
as duas notas foram redigidas).
Fiel a essa tradigao, a "casa" cometeu
mais uma baixeza na muy criativa coluna
Tutti Qui do dia 16 passado. A calhordice
esta por tras da seguinte nota (an6nima,
convdm ressaltar), destacada por uma ilus-
traao (de professional?) de Jorge Laurent,
cor o titulo "'Arara' emergente":
"Euclides 'Chembra' Bandeira era a iro-
nia em flor. Antes de sua morte, encontrou-
se num restaurant da cidade com outro jor-
nalista, desses que expelem amargura por
todos os poros.
'Chembra' aproveitou para um gole
de ironia:
Vem c/, caboco. Tu acaba virando o
'Arara'. Ningu6m mais agidenta essa tua ma-
nia de s6 viver criticando O LIBERAL. Essa
tua raivaji esta ficando chata.
Raiva, nao responded o amargo das
letras. E 6dio mesmo! Nao posso nem ouvir
o jornaleiro gritar o nome do journal que me
di um neg6cio.
Cuidado, caboco. Tu acaba virando a
'Arara'(aquela boa senhora que ndo podia
ver alguem gritar 'Arara' que explodia em
trovoadas epalavroes). Ja imaginou ojor-
naleiro gritando O LIBERAL e tu correndo
atrds dele com a sombrinha para bater? "


Quem escreveu a nota nunca conseguiu
se caracterizar pelo rigor na divulgagao de
informag6es, nem pela lisura-moral ou 6ti-
ca-dos seus procedimentos profissionais
e pessoais, estes ultimos, aliAs, de duvidosa
convic~lo. Para dar vazao a uma caprichosa
vinganga, que, como tudo, nao assume, in-
ventou essa ficqAo. Talvez tenha imaginado
que eu nao aceitaria a carapuca. Incorporo-
a, porem, sobretudo em respeito a Euclides
Bandeira, cujo senso de humor esta muito
acima dos parametros cedicos (e maneiris-
tas) do author da nota.
A verdade 6 a seguinte.
Ha muitos anos Euclides e eu freqilenta-
mos o senadinho do restaurant O Outro,
da querida familiar Martins (tendo como por-
ta-bandeira a linda Ana Maria). Nossa mesa
e partilhada por amigos de varias origens,
distintas profissies, divergentes visoes do
mundo, unidos, contudo, por dois tragos
basicos: bom humor e espirito democratic.
Ningu6m, nessa confraria, reprime uma
boa frase, nem a gozagao, mesmo que ma-
chuque o conviva. Todos ja passamos vari-
as vezes por mementos em que e precise
contar at6 10, ou ate mil, respirar fundo e
rir. Mesmo que a boutade (como diria nosso
Jarbas Passarinho) nao seja das mais graci-
osas, 6 proibido engrossar. Quem engrossa
entra em quarentena nao declarada, mas
firme. Quando volta, ter que estar com a
casca mais grossa e a verve mais fina. E as-
sim sepasaran los anos nessa mesa em que
o mais novo freqilentador 6 tamb6m o unico
com menos de 50 aniversArios no curriculo.
Bandeira foi o author de algumas das me-
Ihores frases ou causes. Diante de various
deles fomos as lagrimas de riso. E o caso da
hist6ria a que a coluna macarr6nica de 0 Li-
beral se referiu corn a precisao tipica de uma
famiglia novaiorquina. Bandeira inventou
essa narrative (que 6 pura invenCgo), na hora,
muito tempo atras e nao "antes da sua mor-
te". Reprisou-a varias vezes, sem perder a
graca, a pedido da mesa, com a minha ade-
sao e a gargalhada generalizada. Porque 6
mesmo engragada.
Imaginou Bandeira que daqui a various
anos, quando euji seria um anciao, andaria
pelas alamedas do campus da UFPA no Gua-
ma sobragando pap6is ejornais velhos. Um
estudante, vendo aquela figure passar, per-
gunta ao outro:
Quem 6?
O interlocutor responded:
-Nao sei. Mas parece que e um filho des-
garrado do Romulo Maiorana, que foi enga-
nado pelos outros irmaos quando o velho
morreu. Os irmaos ficaram corn O Liberal e
deixaram para ele um.tal de Jornal Pessoal,
que nunca deu dinheiro. Ele ficou na mis6ria.
Sabendo disso, os moleques de rua iriam
atras de mim gritando:
-Ei, Liberal.





JOURNAL PESSOAL *la QUINZENA DE MAIOL/ 2000 7


Ao que, como a professor Graziela,
vulgarmente conhecida como "Arara", eu
responderia:
Ea mae!
Esta, sim, 6 a hist6ria do verdadeiro Eu-
clides Bandeira Goncalves, sard6nico, ir6-
nico, sutil. No o pastiche que o enrustido
colunista colocou nas paginas de O Liberal.
A verdadeira cr6nica do Chembra 6 esporti-
va, ternfair-play. Deriva do fato de que este
minusculo journal tem sido uma trincheira
contra o tanque destrogador do grupo Libe-
ral, mas nao um pogo de 6dio contra os
Maiorana. Nenhum deles, mas nenhum
mesmo, tem objetivamente, enquanto pes-
soa, enquanto personalidade privada, do que
se queixar de mim.
Todas as minhas critics sempre tiveram
na mira o grupo de comunica9ao enquanto
um instrument de poder, da vida piblica,
com uma danosa influencia sobre a forma-
9ao (na verdade, deformacAo) da opiniao
neste Estado e o uso dojornalismo como
mero instrument de neg6cio.
O mais atacado ter sido Romulo Mai-
orana Jr.. Nao 6 por implicancia pessoal,
como deixei claro em entrevista ao jorna-
lista Tito Barata, ressaltando o cavalhei-
rismo de Rominho nas poucas ocasioes em
que cruzamos depois de desencadeada essa
rixa. Mas 6 porque ele 6 o verdadeiro lider
da corporacao. Sua irma, Rosangela, s6 foi
citada no epis6dio que Ihe provocou ai,
sim o 6dio. Nao ha uma s6 referencia a
ela neste journal, nem antes, nem depois,
fora desse affair. Basta consultar a colegao
do JP para comprovar.
Rosangela transformou um capricho pes-
soal em questao editorial, numa persegui-
gao que se manteve silenciosa (com uma
inica excecgo: a publicagAo da "sentenga"
que me condenou em primeira instancia) at6
a destilaCao de veneno da Tutti Qui. Chegou
ao ponto de, numa audiencia najustiga, de-
clarar que s6 voltaria a publicar o meu nome
quando eu morresse, o que faria com satis-
fagao. Desde entao sou um morto-vivo para
o journal. Rosangela nao teria entronizado
essa pantomima se o pai estivesse vivo, a
frente do seu neg6cio, ainda que eu nao mais
trabalhasse em O Liberal.
Meus 14 anos de relacionamento profis-
sional cor Romulo Maiorana foram inter-
rompidos duas vezes. Em ambas eu pedi de-
missao. Em ambas por discordancia editori-
al, por nao aceitar interferencia sobre o que
escrevia. Na primeira vez ele foi me buscar
de volta, sem condig6es. Nao houve a se-
gunda porque ele morreu antes de podermos
desfazer nosso incident final. A reconcili-
ag9o fez-se atrav6s da viiva, no vel6rio, num
moment cuja emogao guard at6 hoje como
um indestrutivel patrim6nio moral, indepen-
dentemente do que dele pensem (ou quei-
ram fazer) terceiros, hoje.


Foi por causa desse patrim6nio que Ro-
singela me pediu para escrever a edicgo es-
pecial do primeiro ano da morte do pai,
quando euja estava fora de O Liberal. Es-
crevi. Nao cobrei um tostao (recebi um exem-
plar da edig~o, encadernada, que ela me man-
dou) Era minha retribuicao as boas lem-
branqas de Romulo, que ficaram sobrenadan-
do na memoria enquanto os maus moments
foram decantados pelo tempo e sumiram,
purificados pelo que 6 o sal da vida humana:
a generosidade (por nao possui-la, muita
gente permanece insossa a vida toda, defi-
nhando a olhos vistos).


Depois da basilica, o pr&dio mais impor-
tante e valioso do Largo de Nazare e a resi-
d6ncia da familiar do medico Diocl6cio Corr6a.
Felizmente, apesar de fechado ha tanto tem-
po, o belo casarAo ainda esta relativamente
intacto. Mas comega a apresentar as marcas
mais profundas de anos de abandon. Sera
uma perda irremediavel para a cidade se vier a
seguir a sina das edificag6es mais antigas e
desabar. Nao hi mais nenhuma construgao
do estilo com aquele porte e numa localizagao
tao privilegiada. Umaj6ia rara, portanto.
Pode-se preserva-la? Claro que sim. Pen-
sei numa id6ia: transformar aquela enorme
casa de dois andares no Centro de Cultura
Popular, vinculado a Universidade do Estado
do Para. Um centro que teria como um dos
seus eixos principals o Cirio de Nazar6 (refor-
cando a identidade da sua localizagao), com
exposigAo permanent, museu, banco de da-
dos e nucleo de pesquisa. Mas tambem dedi-
cado a todas as manifestag6es culturais (no
seu amplo significado antropol6gico) do
povo paraense, formando acervo, dando cur-
sos regulars, patrocinando estudos.
Se o Estado nao se interessar por essa
proposta, seria o caso de a prefeitura de Be-
lem examind-la. Nesse caso, o centro de cul-
tura popular poderia restringir sua abrang6n-
cia temAtica a area de Belem, mas incremen-
tando suas atividades de extensao, corm nfa-
se nas crianqas e adolescents. Uma das pre-
ocupac8es seria fazer o benenense conhecer
a hist6ria da sua cidade, a passada e a pre-
sente. Esse centro tamb6m ficaria encarrega-
do de elaborar projetos individuals gratuitos
para os proprietarios de todos os pr6dios de
valor hist6rico e paisagistico da cidade recu-
perarem ou conservarem seus im6veis. Um
centro da intelig6ncia da cidade.
Mesmo antes que ele exista, a prefeitura
ji podia tomar tr6s iniciativas. Uma delas, 6
fazer um projeto integrado para a Praga Coa-
racy Nunes (a popular "ferro de engomar"),
aproveitando a recuperacao de suas das ca-
sas daquele perimetro. O projeto permitiria dar
ao local a caracterizagFo de conjunto arquite-
t6nico, para todos os efeitos legais e esteti-


Nao ficaram s6 membrias. Ficaram tam-
b6m documents e testemunhos, orais e es-
critos, informagaes e confidencias, uma his-
t6ria de 14 anos que, revendo hoje, s6 tenho
motives para considerar que deixou sua mar-
ca na evolugAo do jornalismo e na hist6ria
paraense desse period, alem de ser profun-
damente rica em terms pessoais. Um pa-
trim6nio tao valioso que a canalhice de tutti
qui, agora, nao conseguira destruir. Jamais.
Porque se tornou independent da vontade
- e, particularmente, da vilania dos ho-
mens, virando o que nos liberta de tudo nes-
te vale de lagrimas: hist6ria.


cos. A comuna poderia negociar com a fami-
lia do ex-deputado Paulo Itaguahy da Silva a
utilizagao do seu belo palacete como um pon-
to de visits publicas e at6 de um atelier de
artes para crianqas e jovens.
Um outro projeto desse tipo deveria ser
aplicado na rua Leao XIII. E um dos mais
preciosos conjuntos da cidade, cuja integri-
dade comeca a claudicar. A prefeitura ja fez
um mal enorme a essa area quando la insta-
lou uma das depend6ncias da secretaria de
finangas. Para remir a culpa, devia intervir
no local para garantir a paisagem unica da-
quela sucessao de pr6dios levantados du-
rante o boom da borracha.
Uma terceira ofensiva deveria ser sobre o
conjunto da capela Pombo, que esta sendo
descaracterizado de forma galopante pelas
mutag6es do com6rcio ali estabelecido. E de
cortar o coraqco ver aqueles azulejos desapa-
recerem sob cores berrantes. Ojardim intemo
vive seus estertores, quando poderia ser
transformado numa galeria popular de bares,
restaurants e lojas especializadas, sem o mau
gosto e o relaxamento que costumam ser as-
sociados ao popular para efeitos mercantis.
Finalmente: ja que a prefeitura investiu
sobre o terreno do Banco da Amaz6nia na
avenida Presidente Vargas, por que nao pen-
sar em desapropriar, para fins de utilidade
piblica, a area que a Caixa EconBmica Federal
cedeu, ap6s anos de abandon, para o Esta-
do usar como estacionamento da sede das
secretaries especiais (o extinto Idesp), trans-
formando-a em uma praga? Mais do que des-
perdicio, parece-se a escrnio destinar essa
Area, com saidas para duas avenidas (Nazar&
e Governador Jose Malcher), num ponto no-
bre, para ser estacionamento privativo de bu-
rocratas, pago pelos cofres piblicos. Uma pra-
ca naquele local, complay-ground, pista para
cooper e equipamentos de ginastica, seria
uma revolug~o. Para nao causar grande im-
pacto aos cofres piblicos, a prefeitura com-
pensaria a Caixa, oferecendo-lhe espago para
out-doors exclusivos como compensaqco.
Com pouco se poderia conseguiria efei-
tos realmente de impact. Por que nao tentar?


Cidade melhor







Elite
O desemprego 6 o maior
problema que o Brasil enfren-
ta ao completar 500 anos. Tern
o efeito simultaneo de uma di-
Aspora e de um apartheid.
Leva a migra9ges compuls6-
rias e liquid por dentro indivi-
duos, families e sociedades. Os
dois maiores indices de desem-
prego atualmente registrados
no pais estao em Salvador e
Brasilia, a primeira e a ultima
das capitals brasileiras.
Cinco s6culos andando em
circulo.

Critica
HA pessoas, principalmen-
te as que tmr poder, batendo
sempre numa tecla: eu s6 fago
critics, nao fago proposta. Se
eu fosse capaz de fazer boas
critics, j seria o bastante. No
entanto, sugiro aos critics do
critic dar uma olhada na co-
lecao destejomal. Devem en-
contrar muitas propostas e
id6ias que podem ser enqua-
dradas como construtivas.
Para a prefeitura, ja dei inmi-
meras, como as que aparecem
nesta edicgo. Noo tive um ini-
co retorno, nem que fosse para
demonstrar a total improce-
dancia da id6ia (como o cen-
tro de informanao no pr6dio de
0 Liberal, uma das ultimas).
Ou s6 interessa a essas potes-
tades id6ias carimbadas?

Extra
Al&m dos 19 milh6es de re-
ais que a obra civil de constru-
9o dta Estacgo das Docas ja
custou ao erArio, o Estado con-
tinua a investor nesse elefante
branco por outras vias que nao
o contrato principal. A Secre-
taria de Obras gastou R$ 225
mil a firma Remantec pela aqui-
sicgo de poltronas para o audi-
t6rio da Estagao. O extrato de


empenho nao diz quantas des-
sas poltronas, da "s6rie Fox",
foram compradas. Tamb6m
nao fundamental a inexigibilida-
de de licitacao para a compra,
efetuada sob o manto (exces-
sivamente largo) da exclusivi-
dade do fomecedor, limitando-
se a citar o dispositivo legal que
amparou a iniciativa.
Nem di a minima para um
"detalhe": a responsavel pela
Estacqo das Docas ja 6 a or-
ganizagao social "Para 2000",
integrada por amigos, correli-
gionarios e subordinados do
secretario de cultural, Paulo
Chaves Femandes, responsa-
vel de fato pelo cometimento,
mas sem qualquer vinculaqao
legal a polemica obra.
Se, atrav6s de contrato, o
Estado transferiu a gestao do
local A "Para 2000", por que a
Secretaria de Obras continue
a gastar dinheiro do Estado na.
obra e ainda por cima, fa-
zendo aquisigao direta, sem
concorrencia piublica? Ainda
mais porque a receita obtida
com a transfer6ncia dos ser-
vigos a terceiros ira para a OS
e nao para o governor.
Estranho.

Depend ncia
E de estranhar, realmente,
que a prefeitura de Bel6m este-
ja programando veiculaaoo pu-
blicitAria em Caros Amigos ha
mais de um ano. O anuincio da
PMB ocupa toda a filtima capa,
um dos espacos mais cars do
mensario, editado em Sao Pau-
lo, ha 11 ou 12 ediq8es. Deve-
se ate louvar o apoio dado a re-
vista, um dos raros 6rgaos da
imprensa altemativa no Brasil,
de qualidade superior.
Mas um ano seguido de
pigina inteira em policromia 6
gasto desmedido e injustifici-
vel. Estabelece uma vinculagio
political sem causa para uma
administraao municipal caren-


te. Al6m disso, nao faz bem a
necessaria independencia da
revista, sem a qual sua altema-
tiva padecera de certo vicio de
parcialidade. O pecado seria
venial se o prego do anincio
estivesse muito abaixo dos va-
lores de tabela da revista e a
agencia de publicidade, dona de
20% do faturamento bruto, re-
nunciasse A sua comissao em
favor da causaa".
Ainda assim, tanto tempo
de publicidade institutional
sem uma clara e puiblicajusti-
ficativa tem o efeito mal6fico
de qualquer depend6ncia.

Propaganda
O governor do Estado vai
gastar pouco mais de 14 mi-
lh6es de reais em propaganda
no period de um ano, segun-
do os contratos que assinou
com cinco agnncias de publi-
cidade. A relagao 6 estabele-
cida entire a casa civil da go-
veradoria, a Funtelpa (Fun-
daqco de Telecomunicaqces
do ParA) e as empresas.

Silencio
O Diario Oficial de 13 de
abril publicou o demonstrative
resumido da receita e da des-
pesa do Estado de fevereiro si-
multaneamente a republicaqgo
do mesmo quadro referente a
dezembro do ano passado. Mas
n5o explicou, como devia, a ra-
zao da atrasada republicaqco.

Divida
Metade dos seis maiores
devedores do IPTU sao em-
presas de pesca, o que da uma
media da crise (velha e per-
manente) de um setor que tem,
teoricamente, todos os motives
para crescer. O d6bito total
desses seiss mais" 1,8 milhdo
de reais. S6 as empresas de
pesca devem R$ 565 mil. A
prefeitura continue levando os.
devedores a justiga. Mas eles
parecem nao ligar muito.
Deve haver coisa errada no
meio-de-campo.

Melhor
Qualquer pecado cometido
pela prefeitura ao ocupar A


forga o terreno que o Banco
da Amaz6nia manteve sem
uso por quatro d6cadas na
avenida Presidente Vargas foi
abonado pelo efeito da inicia-
tiva: de imediato, o Basa lim-
pou e murou a area, tirando-a
da indigna condigco de lixeira
e reffigio de marginais. Pro-
meteu at6 ali instalar r 5va
agencia, em me' ndi-
96es operacic- ue a
_ente na s,-. aco.
Agora esta na hora de os
ois lados se sentarem para
am dialogo s6rio, respeitoso e
produtivo, pondo fim ao que se
apresenta como jogo de gato
e rato. O Basa tirou a prefei-
tura com um mandado de rein-
tegragao de posse dado pela
justiga e rapidamente cumpri-
do. Um contingent que che-
gou a ter 16 segurancas parti-
culares garantiu por quase dois
dias o trabalho ininterrupto de
operarios para cimentar e mu-
rar o terreno. Em seguida, a
PMB embargo a obra, por
falta de licenciamento.
O necessario dialogo tern
que partir agora de duas pre-
missas. Uma: o Basa nao pode
mais manter sem uso o terre-
no, nem deve recorrer a artifi-
cios em torno de uma future
agencia, se nao pode construi-
la. Segunda premissa: nao s6 6
um atraso, como se mostrara
contraproducente transformer
a area em mais um camel6dro-
mo. Confinado, ele nao se sus-
tentara por muito tempo. Mes-
mo que se mantivesse, nao en-
riquece a cidade, nem os su-
postos beneficiaries.
O prop6sito da prefeitura e
populista. JA o Basa precisa
explicar tanto empenho. Se
gastou 400 mil reais de IPTU
em quatro anos naquela area,
talvez seja porque a integrali-
zou ao seu ativo por um valor
irrealmente elevado. Por isso,
perdendo o im6vel, teria que
provisiona-lo contabilmente. E
cade o dinheiro para tal?

Agenda
Ainda nesta quinzena sai-
ra o nmmero nove da Agenda
Amaz6nica, para a qual con-
tinuo fazendo (pelo telefone
241-7626) assinatura semes-
tra; (a R$ 18,00).


Jornal Pessoal
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Fones: (091) 223-7690 (fone-fax) e 241-7626 (fax)
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