Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00182

Full Text


omrnal Pessoal
L U C IO F L AV IO PI N TO
ANO 'XIII .* Nk 233 2' QUINZENA DE ABR ILDET200:' R2 ,0D
POLITICAL

A derrota dos

vencedores
0 senador Ant6nio Carlos Magalhbes jd ndo e mais oferrabrds da repablica. Foi
enfrentado no plendrio do senado e sofreu como nunca. Mas o autor da faganha, Jader
Barbalho, se ganhou, ndo vai levar. Sua ascensdo na vida pablica brasileira foi
bloqueada. Na conta de chegada, o resultado do bate-boca da semana passada pode ter
sido o empate. Nesse caso, o pais e que saiu ganhando.
^ '1^1


No dia 4 de setembro de 1984 o
iltimo dos govemos militares,
comandado pelo general Joao
Figueiredo (falecido no ano pas-
sado), estava A beira do abismo.
O pontape final foi dado pelo politico baia-
no Ant6nio Carlos Magalhaes, o mais ca-

t 7 ni


racteristico home do "sistema". ACM co- estar aderindo aos inimigos do regime, do
memorava seu aniversirio na festa de inau- qual fora um dos maiores beneficiados.
guraqao do novo aeroporto de Salvador Diante de todo o s6quito, inclusive de
quando soube que o ministry da aeronauti- Figueiredo, Ant6nio Carlos deu a resposta
ca, brigadeiro Dh6lio Jardim de Matos, um de corpo present ao brigadeiro:
dos integrantes da extensa e ruidosa comi- "Traidor 6 quem apoia um corrupt para
tiva official, o havia chamado de traidor por a presid6ncia", disse, referindo-se a Paulo )
_ S A R S "A A" 7)






2 JOURNAL PESSOAL .2' QUINZENA DE ABRIL 2000


Maluf, em favor de cuja candidatura o mi-
nistro vinhatrabalhando.
O epis6dio atestava duas caracteristi-
cas de Ant6nio Carlos: a coragem pessoal,
descambando freqilentemente para a aberta
truculencia, e o afiado senso da oportuni-
dade hist6rica, muitas vezes sin6nimo de
oportunismo. Essas duas qualidades vinham
sendo a garantia de quase meio s6culo de
carreira political ascendente: de amigo de
Juscelino Kubitscheck, ACM se tomou o
mais credenciado porta-voz dos mesmos
militares que cassaram JK. Conquistou no-
vos aliados sem perder a antiga amizade.
Corn seus atos belicosos, trovejados no
palco politico perante audit6rios estupefac-
tos ou simplesmente imobilizados, ou suas
sagazes artimanhas de bastidores, Ant6nio
Carlos se tomou um todo-poderoso como
nenhum outro politico no Brasil das ultimas
quatro decadas. Mas se corn o choice verbal
no brigadeiro conseguiu se desvencilhar de
uma nau que afundava, a dos militares, e
embarcar corn cr6dito numa outra, que co-
megava a zarpar, a de Tancredo Neves (e
Jose Samey) e da democracia, desta vez
ACM perdeu o trem da hist6ria e esti che-
gando ao fim.
O embate corn Jader Barbalho, na se-
mana passada, a tribune do senado funcio-
nando como mesa de botequim ou pedra
de lavadeira (sem pretender ofender os
bebuns, ou as lavadeiras), foi apenas um
dos moments da via crucis do senador
baiano no rumo do ocaso. Talvez o mais
doloroso. Mas seguramente nao o mais
decisive. Nem o primeiro.
Quem se deixou impressionar pelo ran-
ger de dentes e a cara fechada dos tribu-
nos nao se lembrou do arsenal de truques
que os politicos profissionais costumam car-
regar (no alforje ou no coldre, conforme a
agressividade pessoal) e se esqueceu de
outra expresso muito mais em6lemitica
(como se costume repetir agora): aquela
expressao de perplexidade, dor e fiiria cap-
tada pela cdmara da TV Globo quando
Antonio Carlos Magalhaes foi procurado
para falar sobre as acusacqes feitas con-
tra ele por Nic6a Pitta, a ex-primeira dama
de Sao Paulo.
Enquanto seu c6rebro procurava en-
contrar um sentido l6gico (ou um.sentido
qualquer, 16gico ou nao) para aquela situ-
aqao absolutamente inusitada em que se
via posto naquele moment, na expres-
sao facial ACM tentava manter a apa-
rencia de confianqa e arrogincia que
constituiam sua marca registrada. Ele des-
carregava sua ffiria na ex-mulher de Cel-
so Pitta. Mas gostaria de ter remetido os
adjetivos mais cabeludos na direq~o da-
quele que o feria verdadeiramente de
morte, mas como um sujeito oculto na
oradgo: o empresdrio Roberto Marinho,


o nonagendrio dono da TV Globo, semes-
tralmente rejuvenescido pelas artes, en-
genhos e magias da doutora Ana Asian,
a maior geriatra do planet, s6 acessivel
na Romdnia aos demasiadamente ricos.
Por dever de gratidao ou compelido pe-
los terms de um contrato que, se alguma
vez foi escrito, 6 mantido em segura gaveta
(ou num cofre), Roberto Marinho nunca
permitiu que uma critical ferisse ACM em
ponto sensivel, cor mais tato a partir da
ascensdo dele ao Minist6rio das Comuni-
caq es no governor Sarney. Em cinco anos
de poder plenipotenciario, o fruto mais ma-
duro foi colocar Mario Gamero para escan-
teio e promover a sociedade dosjaponeses
cor a Globo na NEC para a vanguard
das telecomunicaqes.

m s critics, quando

repassadas pelos veicu-

los do sistema Globo,

eram previamente notifi-

cadas ao parceiro e ami-

go para poupa-lo de sur-

presas desagradaveis.
Era como se tivesse um telemprompter adi-
ante da cdmara, dando-lhe um texto para
ler, mas parecendo falar de improvise, um
Cid Moreira elevado a en6sima pot6ncia (e
sem ser empregado de Marinho, como
ACM sempre fez questio de destacar).
Mas naquela fatidica noite de margo
deste ano, o Jornal Nacional (e, depois,
o Globo Rep6rter) simplesmente deu um
tempo enorme (e meticulosamente produ-
zido) para dona Nicea Pitta dizer, corn to-
das as letras, que ACM utilizara o ex-se-
nador Gilberto Miranda (cujo notavel enri-
quecimento comegou na Zona Franca de
Manaus), o mais eficiente lobista da Re-
p6blica (um remanescente da era Collor),
para pressionar o prefeito de Sao Paulo a
pagar contas atrasadas a OAS. A OAS e
aquela construtora baiana que entrou numa
formidavel espiral de crescimento, ense-
jando com isso que suas iniciais fossem
reinterpretadas debochadamente como
Obras Arranjadas pelo Sogro, ou Obriga-
do, Amigo Sogro (no caso, o pai da mulher
do dono da OAS, seu genro, portanto,
Antonio Carlos MagalhAes).
Tal acusagaoja saiu em papel impres-
so, papel oposicionista, ou em mat6riajor-
nalistica de ataque. Mas nunca, dessa for-
ma tao direta, atrav6s de uma emissora
de televisao. Impensivel, at6 entdo,,pela
TV Globo (cujas imagens sio retransmi-


tidas hi 15 anos na Bahia pela TV Aratu,
de ACM, justamente quando a Globo en-
trou na NEC).
Mas 1 estava a cimara ligada, o mi-
crofone aberto e a pergunta do reporter da
Globo a espera da resposta do ex-todo-po-
deroso ACM, tudo em conexdo "ao vivo"
corn a emissora, captando aquela sucessao
de tonalidades e tons do politico ferido por
tris, a traigo ao menos segundo sua eti-
ca, sua e dos que formal esse tipo de as-
sociacgo, As vezes denominada de mafia.
Por que aquele golpe dado por tras pelo
"doutor Roberto", desfazendo a confraria
de longos anos (ACM diz que a amizade
entire os dois comegou em 1959)? Foi na
busca da resposta para essa pergunta que
Antonio Carlos decidiu escrever uma car-
ta, tio logo se viu livre da equipe da Globo.
Foi outro element pat6tico dessa tragico-
media. Os filhos- e nao o "doutor Rober-
to"- deram a resposta, que, em resume,
parodiando uma velha vinheta de desenho
animado americano (That' allfolk!), diz
que "tudo 6 hist6ria"-jomalismo, no caso.
ACM que se desembarace das armadi-
lhas do entrevistador, ji sem telepromp-
ter, nem ponto.
Se ainda era capaz de discernir, Anto-
nio Carlos entendeu o recado. Cor dividas
no mercado intemacional que superam em
duas vezes e meia seu patrim6nio liquid,
as Organizagoes Roberto Marinho estavam
tecnicamente falidas atW a violent desva-
lorizacgo do real, no ano passado. Ganha-
ram oxigenio. Mas essa reserve s6 serve
de garantia se lastreada numa contrafe de
poder. O aval foi dado pela administracao
Fernando Henrique Cardoso, sem preci-
sar assinar pap6is (embora isso tenha sido
tentado, atrav6s de uma cabulosa opera-
cgo de permuta cor publicidade junto ao
Banco Central, abortada antes de se con-
sumar, denunciada a tempo, embora sem
estardalhaco, como conv6m na guerra entire
brancos colarinhos).
A Globo voltou a contar cor todos os
favors da administragdo federal, nao s6
os que aparecem na contabilidade e no
cofre, mas cor a proteqdo sombreada do
Palacio do Planalto. Para ser uma parce-
ria de novo tipo, como exige um neolibera-
lismo jogado nas bolsas e renovado nos
conselhos de administraqgo, sujeito is ava-
lia oes de risco de consultores especiali-
zados, essa alianca exigia de uma das par-
tes uma seguranqa que nem a longevida-
de lendiria do "doutor Roberto" pode as-
segurar, aos 94 anos de vida.
O contrato nao escrito passou a ser as-
sinado pelos tres herdeiros, Roberto Irineu
corn mais destaque do que os outros dois
irmaos. Para ter f& de long prazo, na ex-
tensao dos compromissos financeiros, para
tranqiilidade de credores que nao querem






JOURNAL PESSOAL .2a QUINZENA DE ABRIL/ 2000 3


se sujeitar a riscos que nao estejam na letra
da lei (mesmo uma lei leonina), a Globo ti-
nha que limpar seu s6tao e seu porio, es-
pantando dessas dependdncias os persona-
gens dos velhos tempos, a margem da lei,
na ditadura (expressdoji de largo uso mes-
mo nos veiculos do imperio global). Entre
eles, ACM. A ordem era para tirar o es-
queleto do armirio.
O epis6dio Pitta era esse recado (para
o qual, consciente ou nao, dona Nic6a ser-
viu de mensageira): chegava ao fin o trata-
mento preferencial e principesco dado
ao senador baiano, at6 entao um igual (pri-
mus inter pares) e nao um terceiro, mes-
mo para efeito de jomalismo. As juras de
amor, os favors mrituos e os compromis-
sos reciprocos passavam a ser hist6ria, coi-
sas do passado. ACM continuava a ser um
destacado personagem, mas, como varios
outros, sujeito a critical, nao mais acima de
qualquer suspeita.
At6 uma Nicea, nao muito antes vidra-
qa de denincias sobre frangos superfatu-
rados vendidos A prefeitura paulista por ela
e a s6cia, dona Silvia, mulher de Paulo Maluf,
conseguiu tratamento vip para exibir segre-
dos de alcova e lavar roupa sujissima, nes-
sa trouxa incluidos os interesses do sena-
dor baiano, cujo nome era lido at& entao corn
enfase diferenciadora pelos locutores da
Globo. Isto, logo depois que o Paldcio do
Planalto aplicou pela primeira vez um rabo-
de-arraia inesperado no mais ilustre capo-
eirista de Sdo Salvador, tirando-lhe de sur-
presa a maior bancada no parlamento, sem
que o president Fernando Henrique Car-
doso tenha necessitado pedir licenca antes
ou penico depois, como era de regra.
Tudo isso devia estar anotado num dos
cademos que armazenam muniAo para um
livro de memorias que ACM anuncia ha
anos e cuja publicaqao, tamb6m ha anos,
transfer para uma data mais oportuna (fi-
nalmente, quando nao hi mais o que per-
der, ela chegou?). Mesmo assim, ele pare-
ce nao ter acreditado muito no que anotou
ao subir a tribune do senado para fazer a
primeira das quatro oraq6es no dia da mai-
or de todas as rixas ali travadas nos l6timos
anos, discursos que nao feriram um tinico
tema programatico ou politico, mais pare-
cendo prontuarios de delegacia.
Talvez confiante num recado que rece-
beu (e que se revelaria traiqoeiro, algo an-
tes impensivel), ACM achou que bastaria
mais uma vez anunciar que chegara para,
como um C6sar ao leite-de-dend8 num
Rubicdo sem gl6ria, ver e vencer. Ao inv6s
disso, teve que acatar um pito debochado
("nao Ihe dou aparte, o sr. falou o que quis
sem interrupao e agora vai ouvir tudo ai
mesmo, quietinho, caladinho") do seu opo-
sitor, Jader Barbalho, nada podendo fazer,
nem mesmo, como de seu habito, mandar o


regimento as favas e partir para o braco.
Mesmo porque, no braco, aos 72 anos, ACM
n~o podia muito contra a maior envergadu-
ra fisica do seu colega do Para, 15 anos
mais mogo, dezcentimetros mais alto, dez
quilos a menos. Seria demais ainda levar
um tabefe para casa, mesmo que revidado
a altura para um septuagenario cor pontes
de safena no coraqco transbordante.
Por essa 6tica mais primitive, em avali-
a9ao de geral de campo de futebol ou es-
quina maldita, Jader Barbalho venceu
ACM. Ou, dito melhor: meteu mais um pre-
go na crucificaqgo do ex-homem forte, for-
malmente ou informalmente, de todos os
govemos que se formaram no pais a partir
de 1964, com farda ou sem ela. Em mat6-
ria de valentia, ACM deixou de ser invicto,
inexpugnavel. Pode bradar, invectivar e
ameacar. Nao bastard mais apenas isso
para se impor. Alias, n~o se import mais.
E formidivel que um home tao pode-
roso como ele foi atW ontem, capaz de an-
tecipar o que seria transmitido ao pais pelo
Journal Nacional ou decidido pelo ocupan-
te do Palacio do Planalto, nunca tenha se
transformado num candidate real a presi-
dente da Republita, o maior dos seus so-
nhos. ACM sempre foi respeitado e i todo
o pais. Votado, porem, apenas na Bahia.

Ile chegava a ser ga-

bola quando se dizia ca-

paz de ganhar um man-

dato pelo Rio de Janei-

ro. Mas nunca tentou.
Realista, procurou realizar o sonho atra-
v6s do filho, um politico da terura sem a
face de Toninho malvadeza. Quando Luis
Eduardo morreu, tAo prematuramente, 6
possivel que Ant6nio Carlos se tenha de-
cidido a encarar de frente a esfinge. Deve
ter-sejulgado em condigqes de parar a his-
t6ria. Exagerou na image de eminencia
parda, de dono da political, contrariando
seus pr6prios correligionarios, nao deixan-
do outra alterativa aos aliados do que
contrarii-lo e enfrenta-lo. Agir de outra
maneira significaria nao s6 mais humilha-
cao, mas a morte political. Auto-suficien-
te, ACM deixara de perceber que a hist6-
ria j o estava atropelando
O senador Jader Barbalho enfrentou-o
de igual para igual-e ainda teve o desplan-
te de vence-lo na rinha em si, quem sabe
estimulando os mais afoitos a imaginar o
antigo leao sem garras ou at6 como um
cachorro doido (no que, individualmente, setr
um erro de avaliaqAo).
Foi, no entanto, uma autentica vit6ria


de Pirro para o ex-governador do Pari.
ACM nada mais tinha a perder, exceto as
ilusoes. O resultado, que alguns entende-
riam como desilusAo, pode se traduzir na
6tica dele por encarar a realidade, amar-
gando-a e, eventualmente, contabilizando
prejiizos materials (urn dos quais, ainda
pendente, 6 a possibilidade de a OAS che-
gar ao p6lo petroquimico de Camacari, na
Bahia, associada ao grupo paulista Ultra,
desbancando a rival baiana Odebrecht na
privatizagAo da Copene).
O trofeu do derrotado teri sido impe-
dir Jader de chegar a presid6ncia do sena-
do, este, sim, um pr8mio tangivel, imedia-
to. Mas ainda que, por um acerto que s6 a
gula rapace dos politicos explica, o sena-
dor paraense consiga ser o substitute do
desafeto, ir al6m-at6 uma vice-presid6n-
cia da repiblica em composigao partida-
ria, ou a uma aventura presidential, em
jogada liderada pelo PMDB j parece
fora do alcance do seu calibre.
Ha uma pedra no caminho de Jader,
como houve no de Ademar de Barros e
esta detonando a carreira de Paulo Maluf:
a pecha unissona de roubo, de enriqueci-
mento ilicito. Mesmo que nAo comprovada,
a acusagdo deixa um rastro de p6lvora su-
jeito a explosives e aquele cheiro de enxo-
fre que os mais credulos atribuem as coisas
satinicas, ou pecaminosas.
A sigla ACM padece da mesma conta-
minaqo, mas de uma forma bem mais so-
fisticada. Pois enquanto Jader condiciona-
va a quebra do sigilo bancario (e outros mais)
a que a devassa atingisse um circulo de 10
nomes em tomo do senador baiano, pelos
quais se espraiaram favors derivados do
rei, ACM queria uma investigagAo restrita
aos dois contendores. Tecnicamente, a ta-
tica utilizada por ambos para enfrentar o
fogo, embora dotados de imensos rabos de
palha, consistiu exatamente em anularem-
se mutuamente. Sem haver um consenso
entire suas exig6ncias, a conclusdo 6bvia &
que, ao inv6s de manitoba ou vatapa, esse
banquet sera a base de pizza napolitana.
Os dois dossi6s que exibiram teatral-
mente da tribune nada mais sao do que
recortes de jomais ordenados cronologi-
camente (ou tematicamente). Muitas das
mat6rias da imprensa que colecionaram
sao velhas de anos. NAo significa que en-
velheceram. Significa que nAo foram le-
vadas adiante, nAo gerando efeitos legais,
principalmente quando os casos relatados
prescreveram, torando inimputaveis os
crimes, mesmo os que, reconstituidos nas
paginas de jornais, foram recebidos num
silencio geral, inclusive da parte dos auto-
res dos delitos inquinados. E sugestivo que
ACM e Jader tenham desferidos ataques
um contra o outro, mas nAo se tenham
dedicado a defender-se. Todos os trans-






4 JOURNAL PESSOAL .2- QUINZENA DE ABRIL/ 2000


gressores apostam no tempo e confiam na
desmem6ria. E, quando o passado e re-
volvido, armam-se de dossies para o com-
bate que jamais travarao, certos de que o
poder do entendimento prevalecera sobre
a convocacao ao campo de batalha.
Crimes, erros e omiss6es sao esgrimi-
dos nos confrontos preliminares, que costu-
mam ocorrer em ambientes fechados, quan-
do nao sao camuflados em materias cifra-
das que emerge como bales de ensaio
nas muito convenientes piginas de jomal,
menos como causa public do que como
um teatro de interesses (para o qual se pres-
tam muitos jomalistas). E desaparecem
quando ha o acerto desses interesses, sim-
bolizado pelos colarinhos etemamente bran-
cos, artificialmente brancos.
Em media razoavel, a political 6 um
teatro e o politico, um ator. Nada demais
nessa dimensao da political enquanto es-
petaculo. Mas ela nao 6 s6 um espetacu-
lo de orat6ria e ret6rica, os elements pr6-
prios da tribune, que cor ela se harmoni-
zam. A political envolve tambem provas,
documents, evidencias e um process
no qual eles resultam e para o qual de-
vem contribuir, sempre cor o sinete do
interesse piblico.
Enquanto politicos e atores, Ant6nio
Carlos Magalhaes e Jader Fontenele Bar-
balho deram seu espetaculo na tribune do
senado, procurando mant6-lo sob seu con-
trole, a fim de que brados, desaforos, ame-
acas, cobrancas e tudo o mais nao viessem
a extrapolar os limits do palco-plendrio.
Nao 6 de espantar que, cumprido o oficio,
as coisas voltem A ordem anterior, mesmo
que os dois politicos nao troquem mais con-
fid&ncias em seus gabinetes, nem sejam
capazes dejuntar o que t6m de comumpara
prop6sitos afins. Mas as coisas nao volta-
rao a ser exatamente como eram al6m dos
muros do parlamento.
Fora deles, ACM pode voltar a ser go-
vemador da sua Bahia pela quarta vez, fa-
canha in6dita na boa terra dos orixas e dos
artistas-adesivos (ou aderentes). Presiden-
te, nunca. O todo-poderoso do sistema, nao
mais. E provdvel que Jader Barbalho con-
siga seu terceiro mandate eletivo como go-
vemador do Para, titulo tamb6m in6dito na
terra do agai, ou a reconducao ao senado.
Mas a carreira de politico national esti
fora do seu alcance. Sua fama de novo
Ademar o precederd, sem que ele possa
apresentar como aval do "rouba" um "faz"
que o povo consider compensador, por
falta de curriculo para tal.
Se isso ocorrer, quern mais perdeu com
o espetAculo de selvageria verbal dos dois
senadores sera, tamb6m, o que mais ganha-
ra: o pais. Se assim for, os dois politicos terao
prestado, mesmo que sem essa intengao, seu
maior servigo a causa piblica. *


uando faltam id6ias, sobram
agress6es pessoais. Talvez seja
por isso que a pr6-campanha
eleitoral tenha sido desencadeada em
Bel6m, antes da data formalmente devi-
da, num nivel tao baixo. A intencao pa-
rece ser nao a de avaliar a qualidade dos
possiveis candidates, mas tentar intimi-
da-los at6 o inicio official da dispute.
Essa medigao de forcas comecou su-
til e at6 inteligente, mas descambou para
a s6rdida agressao pessoal quando, na
semana passada, alguns outdoors ama-
nheceram com mensagens injuriosas
contra o deputado federal (PFL) Vic Pi-
res Franco, que ter aparecido em se-
gundo lugar nas pesquisas informais
(porque nao registradas no Tribunal Re-
gional Eleitoral).
O nome de Vic nao era citado, mas
os outdoors qualificavam de viado, va-
dio ou verme a marca do V, utilizada
pelo parlamentar em outros outdoors,
em bandeiras e panfletos, numa aut6n-
tica pr6via eleitoral, ao arrepio da pr6-
pria legislag~o. As mensagens ofensi-
vas nao eram assinadas, mas os outdo-
ors apareceram macicamente nos es-
pagos de comercializacgo da RM Mi-
dia, de Miguel Arraes.
Teria sido ele o autor das veicula-
coes? A pergunta era suscitada a par-
tir de uma observacgo da deputada fe-
deral (PMDB) Elcione Barbalho, em
entrevista h revista eletr6nica do jor-
nalista Tito Barata. Elcione, que tam-
b6m aparece como possivel candidate
a prefeitura de Bel6m, disse que a ques-
tao era pessoal, sem qualquer ligagao
corn os partidos, e que Vic sabia da
identidade do autor dos ataques.
Mas o deputado preferiu recorrer as
vias judiciais e administrativas para
identificar o client da RM Midia, sen-
do acompanhado na iniciativa pelos de-
mais partidos. O vereador Paulo Gaya,
do PT, pediu a intervengao do Ministe-
rio P6blico na apuraqao, desautorizan-
do as especulagoes de que a responsa-
bilidade seria do PT.
Seguir o rastro da autoria nao pa-
rece dificil, mas atribuir-lhe peso cri-
minal parece mais problemitico, se-


gundo um observador. E que a marca
do V nao foi registrada pelo deputado
do PFL. A associacao cor ele 6 feita
por liyre dedug9o, sem implicar numa
rela ao legal. Esse detalhe teria sido
examinado numa reuniao coletiva, na
qual teria sido decidida a criacqo e
veiculagio do outdoor. Se tal versao
6 verdadeira, hi motivacao political e
nao apenas pessoal no ato.
Qualquer que venha a ser o desfe-
cho do caso, ele deve servir de adver-
tencia tanto para os partidos e candi-
datos, quanto para as autoridades, es-
pecialmente o TRE e o MP. Se 6 quase
impossivel estabelecer uma "agenda
positive" (o iltimo jargao em circula-
qCo no mercado) para a campanha, 6
necessario que as regras legais sejam
rigorosamente cumpridas, voluntraria-
mente pelas parties ou por imposigao dos
canais ditos competentes, corn poder
arbitral, evitando-se que espacos pibli-
cos sejam tornados por priticas tao vul-
gares e mesquinhas como a dos outdo-
ors contra Vic.
Para o parlamentar, se tal constata-
9ao serve de console (mas nao para sua
familiar, a inevitavel vitima dessas priti-
cas s6rdidas), resta concluir que como
nao se bate em cachorro morto, a vio-
lCncia da investida 6 proporcional ao
peso da sua candidatura. Por enquanto,
segundo as poucas e precirias avalia-
c6es de que se disp6e, ela 6 a unica que
pode vir a ameaqar a reeleigao do pre-
feito Edmilson Rodrigues.
Por isso mesmo, alias, o prefeito nao
deveria esperar pela provocaqao de ter-
ceiros: cumprindo determinaqao expres-
sa do c6digo de posturas municipais, de-
veria de imediato mandar retirar o ou-
tdoor ofensivo e instaurar o procedimento
cabivel a transgressao. Agiria como a
maior autoridade na cidade, condi9ao que
precede e ultrapassa a de possivel candi-
dato A eleigao de outubro, afastando to-
das as suspeiqdes, mesmo as indevidas.
E patrocinando uma media saneadora em
favor dos costumes politicos e da civili-
dade na urbe que esti sob os seus cuida-
dos, antes de um estouro da boiada. E, se
possivel, evitando-o. *


Campanha


municipal:


Um comego ruim





JOURNAL PESSOAL .*2 QUINZENA DE ABRIL/2000 5




Jornalismo popular



ou freezer em papel?


Todojomalista gostaria um dia de fa-
zer umjomal verdadeiramente popular,
acessivel ao cidadao comum. A materi-
alizagdo desse sonho toma-se cada vez
mais dificil por um motivo paradoxal: 6
precise ter muito dinheiro para fazer um
jomal de massa.
Em primeiro lugar porque o journal
precisa ser barato. Um journal s6 pode
ser popular pelo prego se tiver muito
anincio publicitario, capaz de compen-
sar os custos industrials sem defender
diretamente da venda avulsa, que entra
apenas como um item a mais na com-
posig o da receita.
Em segundo lugar, porque para atin-
gir a base da pirimide social ojornal ne-
cessita de uma ampla difusdo. E precise
que seja anunciado previamente e que
se crie um estado de expectativa mes-
mo entire aqueles que nAo sao alcanCa-
dos pela imprensa escrita. Isto significa
campanha de divulgagCo atrav6s da te-
levisao, que 6 muito cara.
S6 esses dois fatoresja bastam para
afastar de sua utopia osjoralistas que,
teoricamente, estariam em condig6es de
fazer uma imprensa popular. Eles po-
dem fazer umjornalismo comprometi-
do com os interesses populares, mas
que s6 chegarA ao destinatario se for
gratuito, hip6tese que afasta liminar-
mente a seriedade empresarial, ou se
tiver um mecenas, fator que descarta a
independ6ncia.
Por isso, surgiria como um devaneio
idilico o Amaz6nia, o journal suposta-
mente popular que o grupo Liberal lan-
gou na segunda-feira, 10. Mas se aque-
las 24 piginas representamjomalismo
popular, ent~o 6 melhor buscar outro ide-
al. Mesmo os leitores de boa vontade
ou aqueles que compraram um exem-
plar atraidos pelo preco, de 50 centa-
vos, devem ter ficado decepcionados.
A primeira edigio do novo didrio ti-
nha a temperature de um cadaver. Uma
primeira pAgina gelada, cor a esmaga-
dora maioria dos titulos requentados e
sete das oito fotos em close individual,
apenas uma coletiva e com movimento.


A manchete era o que os profissionais
chamam de "chen", uma suposta mat6-
ria redacional abrindo alas para a cam-
panha monopolizada pela casa (e fatu-
rada publicitariamente) sobre o aleita-
mento matemo na Santa Casa de Mise-
ric6rdia.

*enhuma novida-

de nesse Amazonia

pasteurizado, copia

do modelo jai em fran-

co descredito do ame-


ricano


USA Today.


Chamar a esse produto de popular sig-
nifica tomar a interpretacao ideol6gica
pela realidade em si, o que a midia (mas
sobretudo a televised) diz ser o gosto
popular pelo que sao as entranhas do
povo. Certamente hi alguma (ou mui-
ta, conforme a dose) identidade entire
a mensagem e o destinatdrio, mas eles
nAo sao a mesma coisa.
Esse tipo de linha de monta-
gem ideol6gica e cultural
gostaria que o povo ti-
vesse dos acon-


tecimentos uma visdo edulcorada,
com notas assexuadas, servings, si-
des, perfis em doses homeopiticas e
noticias que mais parecem indices do
que relates tematicos, desviando-o da
hist6ria real para as fantasias dos es-
peticulos produzidos.
Muito dinheiro e muito poder de per-
suasdo podem tornar eficiente a mani-
pulado, fazendo o leitor pensar pela ca-
bega de quem subliminarmente o con-
duz. Mas atW esse tipo de projeto re-
quer um grau minimo de competencia,
que faltou ao primeiro numero desse
Amaz6nia sem qualquer raiz assentada
no mundo dos series vivos.
Pode ser que ojornal evolua e que
essa face plastificada, decorada por re-
cursos grdficos, de lugar a um 6rgAo
de campanha e combat. Para isso, po-
r6m, vai precisar de algo pr6ximo de
um milagre, milagre que s6 costuma ser
operado, entire homes de came e osso,
pela intelig6ncia. Que, pela impressao
deixada no ninmero inaugural, ficou fora
de cogitag~o. *






6 JOURNAL PESSOAL *2a QUINZENA DE ABRIL/2000


Cartas

Old Sr. L.F. Pinto! Como vai?

A questdo do Patrim6nio Hist6-
rico de uma cidade diz respeito di-
retamente a cultural do povo. E ne-
cessario, portanto, preservar os ele-
mentos que fizeram a nossa Hist6-
ria, para que a pr6pria nao se perca
apenas em palavras, em se tratan-
do de Arquitetura.
As Igrejas construidas pelo arqui-
teto de Bolonha, Antonio Jose Landi,
guardam boa parte da Hist6ria desta
cidade e mereceriam mais atengdo,
tanto na necessidade de restauraqco
quanto de divulgagdo. Em vez disso,
os moradores desta cidade gozam de
mais uma tentative de "Revolugdo na
Arquitetura", mostrada num empre-
endimento (Estagao das Docas) que
talvez nem esteja inserido na cultural
do lugar. Realmente, suas palavras
fizeram-me atentar mais ainda para
o fato de que na Amaz6nia existem
discrepAncias, das quais nos vemos
acometidos. Enfim, obrigada pelas
palavras aconselhadoras que refor-
gam a busca da realidade dos fatos
para se agir com sabedoria na cons-
truCao da Hist6ria, as quais nao
sao comuns hoje em dia, mas 6 gra-
qas a elas que algumas pessoas con-
tinuam acreditando na Hist6ria.

Catia Magalhies.


Caro Lticio

Lendo teu sinal de "alerta" con-
cordo apenas em parte da tua colo-
cagao. Acho que a Texaco ter sim,
no minimo, cinqilenta por cento de
culpa no epis6dio. Trata-se de uma
empresa com um corpo t6cnico de
engenharia e de seguranga de primei-
ro mundo. Como admitir que corn
todo esse aparato ela nao tenha tido
o minimo criterio na escolha da bal-
sa? Claro que os 6rgaos competen-
tes devem exercer uma fiscalizacgo
mais rigorosa, mas nao podemos cul-
par exclusivamente o transportador
nem passar uma borracha na pisada
de bola da dona Texaco.
Sempre teu leitor,

Ademar Amaral
mAr PA L


Mina oculta


A administraqgopiblicaestadualgasta 9ao e a geraqao de emprego e renda.
pouco mais de um milhio de reais por m&s Soma tamb6m R$ 1,8 milhao a folha dos
com o pessoal lotado no gabinete do go- funcionirios englobados nessa secretariat:
verador. Se considerados os outros se- Sagri, Sectam, Iterpa, Emater, Ceasa, Sei-
tores que integram a Secretaria Espe- cor, CDI, Paraminerios, Paratur e
cial de Estado de Governo, todas di- Junta Comercial.
retamente ligadas ao govemador e E de valor equivalent o gas-
funcionando nas mesmas depen- to com todo o pessoal da Uni-
dancias da governadoria, a 3 versidade Estadual do Para,
despesa sobe para R$ L FundaqAo Curro Velho, Fun-
1,8 milhlomensais. dagdo Carlos Gomes, Se-
E o equivalent A cretaria de Cultura, Fun-
folha de pessoal da daqd o Tancredo Ne-
Secretaria Especial ves, Funtelpa, Ins-
de Produgqo, a tituto de Artes
mais important e Secretaria de
de todas as se- Esportes e La-
cretarias na re- zer, que consti-
alizagAo daquilo tuem (excluida
que o governa- a Seduc) a Se-
dor Almir Gabri- cretaria Espe-
el apresenta como a grande meta (e rea- cial de Estado de Promogdo Social.
liza9go, nos moments de maior euforia) Pelo visto, o govemador tem ao seu
da sua gestdo: a verticalizagCo da produ- lado uma mina de ouro e ndo sabe. *



Ameba social


A onda de corrupqao se alastra como
uma ameba furiosa por todos os poros
do pais. Mesmo quando um trabalho de
rastreamento & feito superficialmente, os
dados apresentados sao chocantes.
Como os que surgiram no Amapa no
rastro da CPI do narcotrafico. A calma-
ria que parecia haver no Estado vizinho
surge agora como aquele estado que pre-
cede as tempestades.
Os membros da CPI acusaram a pre-
sidente do Tribunal de Contas do Estado,
Margarete Salomdo, de haver pago mais
de um milhao de reais no curso de um
ano A firma Ribeiro & Companhia, de Sil-
vio Assis, a pretexto de servi9os grificos
e de publicidade. A president do TCE
amapaense nao fez propriamente uma
defesa. Argumentou apenas que outras
instituigoes pfiblicas tiveram relaciona-
mento semelhante e que s6 o Ministerio
Plblico pagou R$ 3 milhoes A mesma fir-
ma em igual period. Assim, por baixo, a
empresa arrancou R$ 6 milhoes do TCE,
do MP, do Tribunal de Justiga e da As-
sembl6ia Legislativa no curso de um ano
em troca de servigos intangiveis.
O advogado do empresArio defende-
o alegando que um percentual desse di-
nheiro faturado contra a firma era dividi-
do entire os pr6prios conselheiros do Tri-
bunal de Contas, um dos quais, durante
os seis anos em que presidiu o legislative


do Amapa, usava a mansao do empresA-
rio (mansao mesmo) como local de reu-
ni6es, quase uma extensio do seu gabi-
nete de trabalho. Outro dos conselheiros,
tamb6m integrante da partilha, seria o ir-
mo de um ex-govemador do Estado, que
trabalha atualmente como secretario de
seguranga piiblica em Sergipe. O presi-
dente da OAB local foi acusado de de-
fender traficantes e pistoleiros.
O bolo de dinheiro teria mfiltipla ali-
mentagao, uma das quais oriunda de em-
pr6stimo de R$ 11 milhoes concedido pelo
Banco do Estado do Amapa a Silvio As-
sis, nao quitado atW hoje. Mas a principal
fonte de recursos desse vasto grupo de
pessoas, todas bem posicionadas na es-
trutura de poder local, seria o narcotrafi-
co international, que usaria o Amapa
como ponte para o transport de cocaine
para o vizinho Suriname.
A CPI s6 nao conseguiu aprofundar
a elucidagAo dessa rede porque o prin-
cipal envolvido, o pr6prio Silvio Assis,
teria fugido para Bel6m, escapando A
ordem de prisao que contra ele foi ex-
pedida porque, segundo seu advogado,
a CPI seria uma armagio para prejudi-
ca-lo. Silvio, que 6 dono de umjornal em
Macapa, e filho de Silas Assis, proprie-
tArio do semanario Jornal Popular, e
irmao de Silas Assis Jtinior, que ter o
diArio Jornal do Dia. *






JORNALPESSOAL *2- QUINZENADE ABRIL/2000 7




As pedras no tabuleiro



da eleigao municipal


Os lances mais emocionantes estio
reservados para os pr6ximos dias na cor-
rida eleitoral A mais important prefeitu-
ra do Estado, que concentra um quarto
do col6gio eleitoral paraense, estrategico
para a dispute seguinte, a maior, de 2002.
O prefeito Edmilson Rodrigues iniciara a
campanha formal como favorite, tendo
como vice outro nome do PT, o ex-se-
cretArio municipal (e ex-deputado fede-
ral) Valdir Ganzer. A razdo de o PT que-
rer os dois cargos, afastando os demais
partidos da coligacgo de esquerda, pro-
vavelmente deve-se A intengdo de Edmil-
son de disputar o governor do Estado ou
uma das duas vagas de senador dentro
de dois anos.
Sua pretensao seria reforgada pela
ascensAo de outro petista a prefeitura da
capital, ao inv6s de um membro de qual-
quer outro partido. Essa retaguarda se
tomarn ainda mais respeitAvel se a depu-
tada Maria do Carmo Martins conseguir
se eleger prefeita em Santar6m, terceiro
col6gio eleitoral do Pard (e ainda ha boas
perspectives no segundo principal redu-
to, Ananindeua).
Por enquanto, nao ha outro candidate
capaz de ombrear com o prefeito. Edmil-
son conta com uma distincia folgada em
relacao ao adversario mais pr6ximo, Vic
Pires Franco. A candidatura do deputa-
do federal ainda e uma incognita. Ela po-
dern crescer muito ao long da campa-


Nao 6 inteligente, para dizer o mini-
mo, um festival de misica cujo criterio
de avaliacAo dos concorrentes result da
quantidade de ligaqbes telefinicas feitas,
de todos os pontos de um pais de dimen-
sdo continental como o Brasil, em favor
de cada um dos dois candidates postos
sucessivamente em confront. Essa irra-
cionalidade 6 sacramentada pela desigual-
dade de oportunidades que tnm os eleito-
res em potential, conforme estejam em
pontos mais ou menos desfavorecidos do
vasto e desigual territ6rio national.
A TV Globo nao foi just e menos
ainda inteligente ao definir dessa forma
o criterio de selegco dos cantores no fes-
tival de misica que esta realizando. Isso
nao quer dizer que armou uma armadi-


nha se contar com o calor da miquina
estadual, que pode se contrapor e at6 su-
perar a estrutura official do municipio, em
poder do PT. Mas se a coligaqCo PSDB/
PFL for restabelecida, Vic s6 podera as-
sumir a linguagem oposicionista em rela-
qCo a PMB, nao contra o Estado.
Com isso, abre-se um flanco para uma
candidatura francamente oposicionista,
tanto a nivel estadual quanto municipal.
Essa possibilidade s6 estari ao alcance de
Vic se o govemador Almir Gabriel nao
quiser ou nao puder enfrentar reaqoes in-
temas A aceitaqco do nome do pefelista
como cabeca de chapa da alianca anti-
Edmilson. A maior foi manifestada por
Romulo Maiorana Jr. durante um jantar
intimo na Granja do Icui com assessores e
parents do governador. O grupo Liberal
nao apoiara o candidate se ele for c iepu-
tado, disse Rominho, que estava acompa-
nhado do irmio, Ronaldo Maiorana.
Diante desse veto, os tucanos ja traba-
lham com outras altemativas, entire as quais
os deputados Zenaldo Coutinho e Nilson
Pinto, mas nio foi descartada de todo a
hip6tese da coligaqao cor o PFL, mesmo
sem o grupo Liberal, que seria compensa-
do cor verbas publicitarias ainda mais
gordas. Inviabilizando-se essa via, cada um
dos dois partidos saira enfraquecido, o do
govemador cor o premio de consolacgo
do apoio macigo da familiar Maiorana e o
PFL com a possibilidade de se apresentar


Causa perdida
Iha para sabotar ou punir o Pard, des-
classificando a representante do Estado
a partir de uma trama urdida maquiave-
licamente (quando houve uma coisa sim-
ples, o congestionamento das linhas te-
lefinicas, que poderia ser prevenido ou
remediado com providancias preparat6-
rias, como as que as companhias ado-
tam quando querem).
Nada justificava o clamor local em
defesa de Leticia Secco. Ao invds de
seguir estapaffirdias teorias conspirati-
vas, os paraenses deveriam simplesmen-
te atacar a emissora, que talvez tenha
colocado seus interesses comerciais, in-
cluindo uma possivel parceria cor em-
presa telef6nica, acima de um crit6rio
racional de escolha dos melhores int6r-


como oposigio. Nesse caso, podendo ne-
gociar melhor um acordo com o PMDB,
desde que os peemedebistas consigam
definir um nuicleo consensual.
Os dois candidates dos bastidores sdo
os deputados federais Jose Priante e El-
cione Barbalho. Priante tem a maquina
partidaria municipal nas maos e esta tra-
balhando muito para ser confirmado. El-
cione reluta em se expor a um novo risco
de derrota na capital, mas, como disse em
entrevista a Tito Barata, pode ver-se obri-
gada a esse gesto de audacia para nao
ser reduzida intemamente pelo avango do
sobrinho de Jader. Se topar o desafio, El-
cione s6 aceita coligacio como cabega
de chapa, o que pode impossibilitar uma
composig~o com o PFL, ji que Vic tam-
b6m nao quer ser vice.
Nesse caso, haveri uma grande frag-
mentacdo dos votos na capital, situacqo
para a qual darn sua contribuiqao o depu-
tado Duciomar Costa, uma zebra corren-
do por fora, mas alimentado discretamen-
te pelo governador Almir Gabriel. Inde-
pendentemente da variagAo de nomes, seu
objetivo maior 6 nao deixar que Edmilson
Rodrigues consiga a reeleiqCo no primei-
ro turno. Para o segundo turno, o gover-
no do Estado espera dispor de maior po-
der de fogo, atraindo novas composiqoes
para evitar o que ainda parece fora de
cogitaq~o: mais quatro anos de mandate
para o atual prefeito. *


pretes musicals. No desvio improdutivo
de generosa energia, que poderia ter sido
melhor canalizada, os paraenses foram
cegos a uma outra evid6ncia: de que
nossa cantora, por nervosismo ou o que
hi tenha sido, cantou menos do que a sua
concorrente. Nao merecia ganhar, o que
um jiri qualificado decidiria sem maio-
res problems.
Ao inves de criar fantasmas ou colo-
car chifre em cavalo, os paraenses de-
viam se acostumar a ver a realidade
(sem cair no derrotismo), encarar os fa-
tos (sem ficar no pessimismo) e dar boa
destina9qo ao senso de indignaqao (sem
virar barata tonta), ao inv6s de se deixar
levar por fantasias, por mais dadivosas
que elas possam se apresentar. *








Atos rasteiros
Waldemar Henrique 6 uma
das maiores gl6rias do Pard.
Se a prefeitura de Bel6m ti-
vesse seguido o rito legal para
trocar o nome do ex-presidente
americano John Kennedy pelo
do nosso maestro na designa-
~ao da antiga praga do con-
gresso eucaristico national,
rejeitar essa iniciativa seria um
crime de lesa-Estado. A ho-
menagem abonaria at6 o mau
habito de rebatizar locais pu-
blicos, iniciativa sempre teme-
rAria, mesmo quando bem in-
tencionada.
Mas o prefeito ignorou os
procedimentos regulamentares:
como se fosse pastor unico de
uma igreja particular, remode-
lou a infeliz praca e sapecou-
Ihe o nome de Waldemar Hen-
rique, arrematando o ato com a
descortes devolugao do busto de
Kennedy ao consulado dos Es-
tados Unidos, como se esse ges-
to de mA educaqao pudesse re-
percutir em Washington. Depois
de criado o problema, fez o que
deveria ter feito desde o inicio:
mandou a mensagem a CAma-
ra Municipal.
Resultado? A camara re-
jeitou o projeto de lei, deixan-
do de lado Waldemar Henri-
que para atingir Edmilson Ro-
drigues. A praga, que ja esta
com a efigie do grande maes-
tro e foi redecorada com te-
mas alusivos a misica, volta a
ser Kennedy para os fins le-
gais, emboraja seja Waldemar
Henrique para os efeitos prd-
ticos, numa dicotomia que re-
vela a esquizofrenia do poder
public. Raivinha paga com
raivinha, tapa cor tapa, luva
de napa pra l1 e pra cd.
Perdem todos. A comecar
por Waldemar, cuja mem6ria
justifica todas as homenagens
que seus conterraneos Ihe
queiram prestar, mas nao a
molecagem; e John Kennedy,


diminuido na sua dimensAo de
estadista pela revisao hist6ri-
ca que se seguiu A sua morte,
ainda assim um inegavel esta-
dista, marco da sua 6poca,
para o bem e para o mal (que
nenhum her6i 6 imaculado e
muitos t6m os p6s de barro
podre), em qualquer parte do
mundo, mesmo onde nAo p6s
os p6s, como Bel6m do Para,
mas fez chegar o seu caris-
ma, a aura da sua juventude e
o efeito do poderoso service
de relaqGes ptiblicas (e domi-
nagao) do seu pais.
Um estadista como nAo os
ha nem no pr6dio da Cdmara
Municipal de Bel6m, nem no
da prefeitura da cidade, redu-
tos de onde emanam ato, que
desqualificam nao os destina-
tArios, mas seus autores.

Cinema
0 informant, filme de
Michael Mann que ainda deve
estar no circuit, vale por um
curso de jornali mo. Na ver-
dade, ha poucos cursos dejor-
nalismo no mercado equivalen-
tes as licqes desse filme. Ele
ensina o que 6 6tica profissio-
nal, mostra como deve ser o
relacionamento do jornalista
corn as fontes, instrui sobre a
posigao a ser adotada pelos
profissionais diante dos pode-
rosos, ilumina o discemimento
sobre a forma de abordar as-
suntos complexes e perigosos,
orienta os iniciantes e tern
moments que podem revita-
lizar o compromisso dos mais
velhos, dizendo-lhes (ao p6 do
ouvido, como conv6m) que
mesmo se nao tiverem seu tra-
balho reconhecido, devem per-
sistir nele. Porque estao cer-
tos. E porque sdo vitais.
Ainda bem que a Acade-
mia de Cinema de Hollywood
nao deu um unico Oscar ao
filme. Se tivesse dado, ou o fil-
me seria uma ilusdo demonia-


ca, ou a academia nao seria
mais o que 6, um biombo da
induistria e a extensao dos seus
interesses. O final de O infor-
mante nao 6 convencional-
mente enquadrado, por isso
nao se torna falso; nem 6 irre-
fletidamente her6tico, o
nao provoca desAnitr a
media certa, 6 um rarn -
mento do cinema atual -a
reabastecer os bons proi i-
tos, ter um reconforto moi e
voltar ao dia a dia sem a p. e-
sungdo de heroismo nem o ci-
nismo da apatia.

(In)Justiga
Depois que o desembarga-
dor Milton Nobre, o mais novo
integrante da alta corte dajusti-
Ca paraense, fez publicar sua
fundamentada justificacqo de
suspeigdo por motivo de foro in-
timo, numa aao particular sub-
sidiariamente puiblica, era de se
esperar que nenhum dos magis-
trados se dispusesse mais ausar
o mesmo motive como prova
dos nove para se afastar de um
process. No entanto, para des-
conforto intemacional dajustiga
deste Estado, tres juizes crimi-
nais se declararam sucessiva-
mente suspeitos para continuar
ou assumir a presidencia do tri-
bunal do jiri sobre o massacre
de Eldorado de Carajas, alegan-
do motive pessoal, exatamente
quando os olhos do mundo se
voltam para a data desse triste
epis6dio, dia 19, clamando por
uma decision judicial.
Qual o "foro intimo" que
impede umjuiz singular de pre-
sidir as sessoes que irdo apre-
ciar essa causa? Trata-se de
um problema de grave signifi-
cado coletivo, perfeitamente
enquadravel naquilo que, por
todos os motives, se pode clas-
sificar de dever, nao s6 civico,
mas funcional. Um magistra-
do 6 pago parajulgar (no caso,
para conduzir umjulgamento,
a ser feito por um corpo de
jurados). Se hA motive pesso-
al tao forte, numa freqiincia
tao irritante, que o faz deixar
de tender A convocacqo do
seu dever de oficio, nao deve-
ria apenas deixar a causa.
Deveria deixar a profissao.
Um juiz nao 6 pago, nem
tem direito as prerrogativas do


seu cargo, para escolher as
causes que ird julgar. E claro
que pode se sentir impedido ou
suspeito, mas 6 precise ter uma
dimensao do fato motivador. A
sociedade exige, com intensi-
dade crescente, que justifique
sua attitude, para tamb6m po-
der dizer se ela 6 just. Sem o
que parecerd menos um ofici-
ante da justiga, um element
vital da organizag9o social, do
que um beletrista, indiferente
ao clamor social, um dos ei-
xos do seu oficio.
A justiga do Pard esta
dando dois maus exemplos:
de incompetencia e de in-
sensibilidade.

Cargos
0 Didrio Oficial do 61ti-
mo dia 27 publicou ato do go-
vernador, datado de quatro
dias antes, exonerando Paulo
Castelo Branco do cargo de
assessor especial II, lotado na
Governadoria do Estado.
Como o decreto noo tern efei-
to retroativo, o cidadio acu-
mulou, at6 entao, essa fungio
na administracqo especial com
a de representante do Ibama
(Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos
Naturais Renovaveis), que in-
tegra a administraqao federal.

[magem
A Provincia do Pard abriu
sua nova campanha promoci-
onal corn uma montagem: o
governador Almir Gabriel, o
senador Jader Barbalho e o
prefeito Edmilson Rodrigues
apareciam superpostos na
peqa lendo o journal. Ao ver o
an6ncio, a governador ficou
furioso. Nao fora consultado
sobre o uso da sua image.
Acionou um intermediario
para determinar ao dono do
journal, Gengis Freire, a retira-
da da sua fotografia. Gengis
ainda tentou argumentar a res-
peito, mas o governador nao
queria conversa. A ordem foi
cumprida. Seu lugar foi ocu-
pado pelo ex-prefeito H61io
Gueiros, embora os outdoors
nao tenham sido retirados nas
ruas. A publicidade estadual
continue a ser veiculada em A
Provincia. Moderadamente.


Jornal Pessoal
Editor: LOcio FlIvio Pinto
Fones: (091) 223-7690 (fone-fax) e 241-7626 (fax)
Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040
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