Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00180

Full Text



Journal Pessoal
L I C I O F L A V I O P I N T O


ANO XIII N' 231 21 QUINZENA DE MARCO DE 2000 R$ 2,00
ANO I N2 231 2- Quinzena de Marco de 2000 R$ 2,00
TERRAS



0 sequestro confuso


Hd 25 anos age no Pard, cor total desenvoltura, uma quadrilha de grileiros de terras que
tern pretensdes sobre 12 milhbes de hectares, 10% de toda a extensdo do Estado. Mas ate a
semana passada a cr6nica desses pirates ndo envolvia um fato como seqiiestro e ameaga
fisica contra um jornalista, episddio ins6lito que aconteceu na semwanapassada, em
Belrm. Sinal de que o crime se ampliou ou tentative de cespistamento?


hist6ria do fantasma Carlos
l Medeiros, atras do qual se for-
S mou a maior grilagem de ter-
ras do Para (e talvez do mun-
S do), cor pretensdo sobre 12
milhOes de hectares, ter um quarto de
s6culo de existincia. Mas quando come-
qou, em 1975, era um golpe esperto e sim-
ples. A partir de registros imobiliarios
fraudulentos, embutidos nos muitos bura-
cos mantidos em aberto em cart6rios do
interior, um grupo de advogados e corre-
tores, escolados nas vias obliquas de suas


profiss6es, com a adesao de serventuiri-
os pfiblicos e magistrados inescrupulosos
ou ing6nuos, comegaram a vender esses
pap6is como se fossem autinticas pro-
vas de dominio sobre terras.
O golpe foi se aperfeicoando a medi-
da que as transac6es foram se repetindo
sem contratempos. Os pirates inventaram
o dono das terras, dando-lhe o nome de
Carlos Medeiros,jamais visto emmateri-
alizagao, que transferiu os direitos de suas
"propriedades" a uma cadeia de repre-
sentantes e sucessores, desde o procura-


dor, Flavio Titan Viegas, at6 o corretor na
ponta da linha, Marinho Gomes Fireiredo
amboss press em Bel6m, em agosto de
1985, mas soltos pauco depois).
Os titulos de propriedade, derivados
de um inventario, desapareceram. Logo
foi providenciada uma reconstituigdo dos
autos enxertados conforme as necessi-
dades, evidentemente. E ai, de uma pre-
tensdo inicial a direito de posse sobre al-
gumas centenas de hectares, evoluiu-se
para dominio real sobre milhoes de hec-
tares distribuidos por varios municipios do )


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2 JOURNAL PESSOAL .2- QUINZENA DE MAR(O/ 2000


Estado, englobando 10% do segundo mais
extenso Estado da federadio brasileira.
A base da tabela clandestine, o acer-
vo de terras represent um potential de
24 milhoes de reais. Calculado pelo pre-
go minimo de tabela no mercado corren-
te da terra de menor valor no Para, o ne-
g6cio passa a alcangar uns R$ 350 mi-
lhoes. Mas se lastrear projetos de extra-
gco de madeira, de manejo florestal ou
reserves de protegao da natureza, princi-
palmente se atrair s6cios estrangeiros, os
numeros podem se multiplicar por 10. A
linguagem deixa os limits dos milh6es e
adentra a casa dos bilh6es.
Tanto dinheiro envolvido explicaria o
primeiro ato efetivo de viol6ncia pratica-
do desde que a hist6ria do fantasma Car-
los Medeiros saiu das vielas mal-ilumina-
das do mercado negro de terras e alcan-
gou as avenidas do conhecimento publi-
co. No meio da tarde da quarta-feira de
cinzas, na semana passada, o correspon-
dente da revista Veja em Bel6m, Klester
Cavalcanti, foi abordado por dois homes.
Escondendo seus rostos cor misca-
ras de carnaval, eles agarraram o rep6r-
ter, uma pessoa alta, de 30 anos, e ojoga-
ram para dentro de um carro que os es-
perava ao lado, cor um motorist na di-
regCo. Enfiaram entao um saco plastico
preto na cabega do jornalista, mantendo
um revolver encostado na cabega dele.
Rodaram com Klester pela cidade duran-
te uma hora e o levaram para um local
ermo, em Benevides. Disseram-lhe que
ele ndo devia mandar a reportagem que
estava escrevendo sobre o caso Medei-
ros. Se a revista publicasse a reportagem,
voltariam para "terminar o servigo". De-
pois, amarraram-no a uma Arvore e fo-
ram embora.
Klester conseguiu se soltar e voltou
caminhando pela mata at6 chegar ao pos-
to de fiscalizagdo da Policia Rodoviaria
Federal, na BR-316. No dia seguinte, deu
parte do acontecimento a policia civil. O
secretario de seguranga public, Paulo
Sette CAmara, designou um policial para
proteg&-lo. Mas, por determinaqao da di-
regao da revista, Klester deixou imedia-
tamente Bel6m. A partir da pr6xima se-
mana estara trabalhando na sede paulis-
tana de Veja.
A edigao desta semana da revista cir-
culou com quatro paginas do texto do
correspondent e mais a "Carta ao lei-
tor", relatando o sequestro. O infortfinio
do jornalista mereceu quase um quinto
de todo o espago da reportagem. O que


foi dito sobre a grilagem, a rigor, nada
acrescentou ao que varios 6rgaos da
imprensa- local, national e internacio-
nal ja publicaram nos fltimos cinco
anos. Os acr6scimos feitos tim apenas
o sentido de atualizacgo, mas nao o de
denincia. Nao fora o seqiiestro, talvez
nao merecesse tanto espago, nem mes-
mo a publicagFo.
O conteudo da reportagem devera
contribuir para complicar a resposta A
celebre pergunta que costuma dar parti-
da a investigation policial: a quem serve o
crime? O unico personagem novo citado
agora por Veja e Jos6 Baranek, dono da
madeireira Cemex, que corta arvores no
Tapaj6s. Ele esta entire os muitos tercei-
ros que adquiriram titu-
los da quadrilha Carlos
Medeiros. Mas seria
uma leviandade deduzir
dai que Baranek deve
ser considerado suspei-
to de participaqco no
atentado contra o jorna-
lista.
I principio elementary
de direito que a boa fe -
se presume e a ma f6 se
prova. Portanto, ate que
seja provado que o ma-
deireiro sabia estar com- ...
prando terra fraudada,
ele 6 um terceiro inimpu-
tavel como co-autor da
grilagem. S6 a partir da
comprovaCgo de dobro
poderia ser arrolado en-
tre os suspeitos de ter en-
comendado o sequestro. Indicid-lo por
mera deduqCo 16gica de exclusao, mais
do que leviandade, seria crime contra a
honra.
Quanto aos demais personagens, to-
dos ja foram citados e ate denunciados
diversas vezes em outras mat6rias jorna-
listicas. Todos, sem exceqao, reagiram
corn aquela attitude recomendavel aos que
se julgam espertos: imitar o bom cabrito
e nao berrar. O curriculo de alguns con-
t6m transgresses legais. Nenhuma de-
las, por6m, resultou de ato de violencia.
Por que mudariam esse renitente com-
portamento?
A hip6tese imediata & de que Klester
Cavalcanti, nas apuraq6es pessoais e nas
20 entrevistas que fez, pode ter deixado
escapar alguma informagao nova capaz
de aumentar o poder de destruigqo do
que iria escrever, ameagando algum dos


U


entrevistados ou prejudicados. A abor-
dagem estaria ultrapassando o nivel da
reprimenda moral e da condenacio em
tese para identificar os vil6es e docu-
mentar seus delitos. Mas se os dados que
coletou poderiam levar a tal suposigao,
o texto que escreveu nao guard a me-
nor relac~o cor tal poder de fogo. A
reportagem deu chabu.
Nesse caso, quem encomendou o se-
qiestro cometeu um primario erro de cal-
culo. Levado ao panico ao ter ciencia do
que teria sabido o reporter, e do que iria
repassar a opiniao piblica, armou um aten-
tado envolvendo tres homes (dois pisto-
leiros e um motorista, cor toda a custo-
sa logistica necessaria, para se prevenir
contra uma ameaga
que, mais do que meta-
fisica, se revelaria, afi-
nal, tao ficticia quanto o
pr6prio Medeiros.
Mat6rias mais agres-
sivas e perigosas ja sai-
ram na imprensa e seus
autores n7o foram per-
turbados. O unico ame-
S aado (e, ainda assim,
.,i, sem a consumaqio das
ameagas telef6nicas) foi
o entao director do De-
partamento Juridico do
Iterpa (Instituto de Ter-
ras do Para), Carlos La-
marAo, autor da agao
i ^ proposta najustiga para
o cancelamento dos ti-
tulos registrados em
nome de Carlos Medei-
ros (e ainda hoje tramitando no f6rum de
Bel6m com a velocidade de um quel6nio
avantajado em praia de areia fofissima e
a linearidade de um bebum).
O organizador do atentado se arris-
cou muito para quase nada. Al1m do di-
nheiro que a operagao exigiria, sua exe-
cucao seria arriscada. Os dois homes
se expuseram a aparecer de piblico numa
tarde de quarta-feira de cinzas usando
mascaras de carnaval, algo tao espalha-
fatoso quanto uma freira brotar de habito
em plena noite de sabado gordo na Al-
deia Cabana do pai Edmilson.
O reporter, por nervosismo ou temeri-
dade, poderia ter reagido, ou complicado
a abordagem dos agressores. Um deles,
talvez mais relaxado, chamou o outro de
sargento. Ato falho? Primarismo? E para
que a consumaqao da violencia se a inti-
midagco vinha sendo feita atraves de te-





JOURNAL PESSOAL .2a QUINZENA DE MARCO/ 2000 3


lefonemas e de correspondencia? (Uma
semana antes o reporter recebera um
volume contend correspondencia dirigi-
da ao advogado Titan e um bilhete, assi-
nado por Carlos Medeiros, alertando para
o risco de virar fantasma quem estivesse
procurando por outro fantasma.)
O que 6 ainda mais grave: por que
seqiestrar o reporter na quarta-feira, dois
dias antes do fechamento da edigAo da
revista, quando a materia ji estava em
Sao Paulo, sua publicaago dependendo
mais dos editors paulistanos do que do
correspondent belenense? E por que,
depois de tudo, deixar ao seqiiestrado a
alternative de ficar vivo at& o autor do
seqiestro ler a reportagem e, segundo sua
avaliadao, decidir por uma nova agres-
sao, dessa vez "para completar o servi-
co", independentemente da reagdo da vi-
tima?
Esses questionamentos, sem a preten-
sao de esgotar a agenda de dfividas que
as circunstincias do seqOestro provoca-
ram, sao feitos nao para colocar em sus-
peita o testemunho dojornalista, mas para
perquirir pelas intencges desconcertan-
tes dos sequestradores. A pergunta dei-
xa de ser "a quem interessa o crime",
para nao fazer o jogo dos autores do pu-
zzle. Passa a ser: por que os criminosos
agiram dessa maneira? Tal como foi exe-
cutado, o seqiiestro parece ter sido con-
cebido com o prop6sito de embaralhar as
cartas ou dirigir o interesse para deter-
minado rumo do que efetivamente impe-
dir que a revista chegasse no final da se-
mana passada aos seus leitores com a
reportagem que publicou.
Levado a s6rio, tal como aconteceu,
o seqtestro foi um imenso logro. Em pri-
meiro lugar, porque a materia saiu. Em
segundo lugar, porque o texto nao signifi-
ca ameaca a ninguem concretamente.
Em terceiro, porque o texto nao acres-
centa um atimo de explosive ao acervo
jornalistico arquivado sob a rubrica Car-
los Medeiros.
A "leitura" do seqiestro teria que ser
feita pelo prisma do despistamento, da
tergiversag~o, do ocultamento, da tenta-
tiva de manipulacgo? Mesmo que tal en-
foque seja encarado como uma "viagem
na maionese", segundo o jargao jovem,
ou um exercicio delirante de teoria cons-
pirativa, pela linguagem dos mais velhos,
a "leitura" supostamente racional nao e
menos inverossimil.
Seu enredo e sua realiza9ao caberi-
am muito bem numa com6dia pastelao.


Ainda mais porque, tendo orientado inici-
almente seu reporter a manter-se a dis-
tancia da publicidade, evitando a aproxi-
macio dos rep6rteres de outros veiculos,
que tentaram inutilmente ouvi-lo logo de-
pois da divulgacgo do epis6dio (seria para
garantir exclusividade?), a revista de pron-
to tirou o correspondent de Bel6m, adi-
cionando mais um complicador a investi-
gagdo instaurada pela policia.


E sses pressupostos,

ao inves de conduzirem

ao negligenciamento

do assunto, deveriam

ter efeito contrario, re-

for ando o compro-

misso de levantar tudo

corn o maximo rigor.
A hist6ria da grilagem Carlos Medeiros
poderia ser encarada como um caso de
estelionato fundiario local, de negociatas
paroquiais, dada a pouca expressao rela-
tiva dos valores envolvidos nas transacoes
dos pap6is que derivaram da procuraqao
inicial do fantasma. Nada parecido aos
numerous do narcotrafico e dos rombos fi-
nanceiros.
No entanto, essa pequena bola de
neve (que o epis6dio do seqiestro sugere
estar em acelerada expansao) ja teria
evaporado se as autoridades publicas ti-
vessem agido com a eficidncia e a pres-
teza que seus compromissos funcionais
Ihes imp6em. A demarcagao da passa-
gem das transac6es administrativas para
os atos judiciais 6 associada ao nome de
Armando Braulio Paul da Silva,juiz colo-
cado em disponibilidade pelojudicidrio em
funglo de participag6es turbulentas.
Na sucessao desse encaminhamen-
to, personagens do mesmo quilate se
apresentam, ainda imunes a qualquer
sangco. Em torno deles, os bagrinhos
de sempre, amaveis figures em circula-
95o pelo f6rum de Bel6m. Tao simpati-
cas quanto intocadas, a despeito de tan-
tas estrepolias que armaram com esses
pap6is. E os cart6rios, que estao na base
dessa piramide de transgresses, perma-
neciam ilesos A correig~o e a punigao
at6 esta semana, quando, quando a cor-


regedora geral de justiga, Maria de Na-
zar6 Brabo de Souza, anunciou as pri-
meiras providencias concretas contra a
escriva Eugenia Castro, do cart6rio de
Altamira, uma autentica fabrica de titu-
los falsos.
Quando atira-se contra essa raia mi-
uda marginal ao mundo das leis, as ba-
las sao de festim. Mesmo os torpedos
que o ministry Raul Jungmann apresen-
ta pelas paginas da revista sao rojoes
juninos. Produzem barulho e cor, mas
seus resultados sao simb6licos. Ele se-
quer cancelou os cadastros dos im6veis
considerados grilados, como proclamou
em Brasilia, talvez desatento as formali-
dades administrativas e juridicas. Na
semana passada, o Incra do Pard con-
vocou por edital os representantes de
253 im6veis que se cadastraram no 6r-
gao alegando ter mais de 10 mil hecta-
res de area e com sua situaaio dominial
posta em duvida. Eles terao um mes para
provar que sua documentag9o 6 s6ria ou
perderao o cadastramento.
Perder esse registro 6 um problema,
mas nao o problema, se continuarem
com seus registros cartoriais intactos.
Sempre havera pessoas mal informadas
ou de ma-f6 dispostas a adquirir esses
pap6is, confirmados pelo carimbo do ta-
beliao, que tem fe publica. As coisas
comecarao a mudar de entonadao se al-
gu6m, com a primeira procuracao pas-
sada por Carlos Medeiros, for ao tabe-
liao que a lavrou cobrar a prova do com-
parecimento do tal cidadao e, a partir dai,
puxar o fio at6 que se desembarace todo
o novelo, arrastando tanto a arraia miu-
da quanto os peixes graiidos.
O sequestro, o primeiro ato de repre-
salia da quadrilha, significa que esta se
aproximando esse moment de revela-
9do, de ir as origens para eliminar de vez
o foco da grilagem, com todas as suas
derivag6es? Ou significa, pelo contrario,
que os peixes graidos estao entrando na
cercadura e querem afastar os possiveis
inconvenientes ou recalcitrantes porque
agora o jogo sera "da pesada"?
Sao questoes graves. Bastante para
justificar que a investigagao prossiga at6
o total esclarecimento do que aconteceu,
mesmo ainda sem uma pista segura e
com os principals personagens fora da
jurisdigdo policial. Jd esta tardando de-
mais a hora de desvendar os falsos fan-
tasmas ou dar-lhes o destino de que se
acham carentes nessa 6pera bufa: se
materializarem na cadeia.





4 JOURNAL PESSOAL .2- QUINZENA DE MAR(O/ 2000


Eleigao em Belem:


nome do outro lado


O governador Almir Gabriel ji defi-
niu a estrat6gia que vai seguir na elei-
gco deste ano em Bel6m: coordenarA a
escolha de um candidate unico anti-PT,
sua unica oportunidade de vit6ria. Nao
sera uma tarefa facil de consumer, mas
para quem nao disp6e de um nome den-
tro do seu pr6prio partido capaz de om-
brear com o prefeito Edmilson Rodri-
gues, nao ha mesmo outra alternative.
Se da esquerda nao aparecer uma al-
ternativa a reeleig~o
de Edmilson, do lado
da direita sera preci-
so concentrar as for-
gas para impedir que
o Partido dos Traba-
lhadores defina a
questdo logo no pri-
meiro turno. A ida
para o segundo turn
podera ser mais favo-
ravel aos que quise-
rem colocar um novo ,
ocupante no Palacio
Ant6nio Lemos. .
A duvida, agora,
consiste em saber se
o governador j tem um nome na algi-
beira para apresentar no moment opor-
tuno aos seus aliados, depois de te-los
seduzido com os penduricalhos do po-
der, ou se ainda esta na fase de sonda-
gem, cujos resultados poderao leva-lo a
abrir mdo do direito de indicar unilate-
ralmente um nome e aceitar apoiar o
melhor colocado nas pesquisas nao-ofi-
ciais ou melhor recepcionados pelos cor-
religionarios do que os amigos do peito.
Se dependesse de um dos homes
mais fortes do governor, o candidate a
PMB seria o secretario de cultural do
Estado, Paulo Chaves Fernandes. Quem
assina essa proposta? Ora, Paulo Cha-
ves Fernandes, lui-meme, el supremo.
E o que disse em entrevista a revista ele-
tr6nica do jornalista Tito Barata, na se-
mana passada.
PC Fernandes se consider um ad-
versario capaz de enfrentar e veneer o
atual prefeito, ele e "outras pessoas que
pensam como eu e que tnm esta garra e
esta vontade de fazer a Bel6m que n6s


queremos. Eu acho que a maior parte
da populacAo quer uma cidade melhor.
Experiencia para isso eu tenho. Eu co-
nheco os problems da cidade e, com
certeza, faria uma Bel6m bem melhor".
Paulo Chaves diz que nao movera uma
palha para se tornar candidate, mas esta
pronto para entrar na campanha. Parece
pretender se viabilizar batendo forte no
prefeito, incorporando os louros do lingua-
jar oposicionista. Por isso, diz que nAo
perderia seu tempo ten-
tando debater com Edmil-
son "porque nao valeria a
pena e nem ele entende-
ria. Se em quatro anos
administrando a cidade,
ele nao entendeu nada,
ndo seria agora que iria
entender. O rango secti-
rio e a ma formagdo pro-
fissional sao impedimen-
tos definitivos que nao
valem a pena investor".
Bastaria uma estrat6-
gia agressiva como essa
e a reuniao das forgas do
esta -
blishment para atrair
para um tal candidate o
produto decisive em
eleic6es, que e o voto?
Seria interessante ver o
confront de dois arqui-
tetos, um de apelo po-
pulista e outro de timbre
elitista, ambos egocen-
tricos e autoritarios, mas
se esse embate ocor-
resse num program de
televised numa musa de
bar ou numa reuniao
acad6mica. Eleigdo nao
6 bem assim. Trata-se j
de event que requer
combinaq6es ex6ticas
ou her6ticas, ou cujo sucesso as vezes
surge do inesperado, a despeito de todas
as tecnicas de manipulag~o de massa dis-
poniveis no mercado.
Se elas fossem suficientes, talvez o
governador, que tanto endosso ter dado
aos delirios e voluntarismos do seu en-


fant terrible, conseguisse fazer de Paulo
Chaves Fernandes o candidate anico das
forgas conservadoras ou centristas con-
tra Edmilson Rodrigues. Mas, fora das
pranchetas e do discurso, qual a chance
real de vit6ria que ele teria contra a ma-
quina municipal numa cidade de cliente-
la majoritariamente deslocada para um
terreno entire a pobreza e a indig6ncia?
Sem marketing e maquina estatal, o
deputado Duciomar Costa mant6m-se
nos inqu6ritos informais como a terceira
prefer6ncia do eleitorado, um lugar abai-
xo do deputado federal Vic Pires Fran-
co, este ainda bem distant de Edmilson
na segunda colocaqao, apesar do des-
gaste do prefeito nos fltimos tres meses
em fungao do aumento exagerado dos
6nibus e do IPTU. Isto significa que a
candidatura unica anti-PT nao depend
mais apenas da vontade do rei e de um
acordo com seu s6quito, mesmo que nele
seja considerado o poderoso grupo Li-
beral. Tal estrategia s6 dara certo se
puder absorver a ral6 situacionista e al-
guns de seus personagens hereges, ou
perif6ricos A corte.
Deve ser por isso
que, mais uma vez, o
governador Almir Ga-
briel mudou o tom do
seu discurso durante o
Slanqamento do progra-
ma "Luz no Campo" e
gastou adjetivos elogio-
sos ao PFL, presidido no
Para pelo ex-governa-
dor Hl6io Gueiros e ten-
do Vic Pires Franco
como seu pr6-candida-
to. 0 deputado, alias,
voltou a contar com os
afagos do govemador,
um sinal de que esta dis-
posto a engolir batraqui-
os e encarar dinossau-
ros, machos ou femeos, para ter o parla-
mentar como uma alternative final, caso
outras, menos indigestas, nao se estabe-
legam. Tudo para nao ter o desprazer de
perder na capital e, com a derrota, ficar
sem um trunfo para a campanha de 2002,
muito mais vital e dificil do que a atual.





JOURNAL PESSOAL .2- QUINZENA DE MARO/ 2000 5




Do alem-mar ao passado


Bolonha, no norte da ItAlia, viu surgir a
primeira universidade rigorosamente mere-
cedora dessa conceituacgo. Isso, ainda no
seculo XI, em plena Idade M6dia. Conti-
nua a ser at6 hoje hoje 6 a mais culta cida-
de italiana. Quase um terco dos seus habi-
tantes sao universitdrios. Respira-se arte e
conhecimento quando se chega a essa gran-
de cidade da Emilia-Romagna. Qual recep-
c9o ela daria a um morador de Bel6m do
Para, na selva amaz6nica (ainda merece-
dora da classificadao dantesca de selva
selvaggia), que propusesse a municipali-
dade bolonhesa a instituiCao de uma rela-
9co de cidades irmas com base num elo de
ligacgo, a figure de Antonio Jose Landi?
Acho que esse seria um dos caminhos
mais f6rteis para o projeto de um centro
Landi em Belem, tendo como referencia a
Casa Rosada e eixos estabelecidos nas
diversas obras do arquiteto italiano espa-
lhadas pela cidade, principalmente suas
igrejas. Os bolonheses, orgulhosos e se-
nhores de si, certamente dariam todo o
apoio possivel a essa ideia de conferir uma
personalidade mundial a Landi, criando uma
ponte entire a Italia e a Amaz6nia, assim
drenando parte do fluxo turistico (ou abrin-
do uma nova rota de visits) para Bel6m.
Nem mesmo os belenenses se dao con-
ta do tesouro que sao as igrejas e as de-
mais edificag6es do bolonhes do seculo
dezoito, que aqui passou os 38 anos finals
(e mais fecundos) da sua vida. A disper-
sdo dos elements fisicos dessa obra e a
falta de conhecimento impedem a visuali-
zagao do conjunto e, dessa forma, de sua
preciosidade.


Podiamos ter feito assim com o acer-
vo que nos ficou da presenga inglesa, mar-
cante na passage do seculo XIX ao XX.
O pr6dio da Booth-Line na avenida Pre-
sidente Vargas jc era. Mas ainda ha o
da Enasa, em restauraFao, e o porto como
testemunhos visiveis. Outras marcas po-
dem ser reconstituidas. Talvez fosse o
caso de juntar a marca inglesa os elemen-
tos da 6poca, como os pr6dios da arqui-
tetura em ferro. Talvez se pudesse resta-
belecer os conjuntos arquitet6nicos de
cada 6poca ao long da hist6ria da cida-
de, que constituem o traco de maior ape-
lo intemacional.
Um desses conjuntos 6 o casario do
Boulevard Castilhos Franca, prolongado
pela Avenida Portugal e a Marques de
Pombal, contornando a doca do Ver-o-
Peso. Quem chega a noite a Bel6m nurn
desses barquinhos que faz ponto em fren-
te a Praca do Velame se surpreende corn
a relative integridade desses pr6dios se-
culares e sua beleza realcada pela ilumi-
nagFo. E um milagre que esse conjunto
ainda esteja sobrevivendo a incuria e A ig-
norancia (esta, mais do que bem represen-
tada pelo pr6dio do Banco Central).
Penso que uma maneira de proteger
com energia essa area seria a desapro-
priacdo do antigo pr6dio da Folha do
Norte, depois absorvido e ampliado por
0 Liberal, um marco na paisagem do
local. Restabelecidas as linhas originals
desse bunker dos Maranhao, ele pode-
ria sediar um centro da mem6ria hist6ri-
ca e da informagco. O centro poderia
ser formado por um museu da Cabana-


gem e da Borracha, os dois principals
acontecimentos na vida do Para, e uma
base dinamica de informarges e conhe-
cimentos sobre o restante da hist6ria
amaz6nica, inclusive atual, corn bancos
de dados especificos e terminals de vi-
deopara consult.
E evidence que um tal centro teria que
estar em atividade permanent, ao inv6s
de se reduzir a um simples local de expo-
sigao, corn guias burocraticos. Deveria
reunir pessoal qualificado para former o
primeiro nucleo irradiador, mas esses t6c-
nicos continuariam a ampliar, enriquecer e
rever toda a base de informag es, proces-
sando permanentemente o arquivo que for
sendo formado, tanto para ser apresenta-
do ao pfiblico, como para ser trabalhado
intemamente.
A agenda de tal instituigao nao tem li-
mites. Poderia comegar pela reconstitui-
9go do pr6dio e da identidade da Folha
do Norte, que esta sendo raspada da me-
m6ria belenense. Quem chegasse ao local
faria uma visitaFgo ao pr6dio orientada
para a luta pela liberdade de imprensa, cada
compartimento abrigando um moment
desse embate, desde que comegou a cir-
cular OParaense, o primeiro jornomal regio-
nal, at6 o period republican. A exposi-
cdo permanent teria fotografias, peas e
equipamentos graficos, estandes e at6
mesmo a velha sirene poderia voltar a fun-
cionar. Do lado de fora, umjomal eletr6ni-
co voltaria a informar os transeuntes, nao
sobre o cotidiano, mas a respeito da hist6-
ria passada.
Da para pensar nisso?


Literatice


Salomro Laredoja escreveu 14 livros.
O mais notavel nessa bibliografia consis-
tia, at6 recentemente, em cinco capas
adornando um 6nico livro. Mas esse re-
corde, digno do Guiness, foi batido no
mrs passado: Laredo langou, de uma s6
vez, nada menos do que tres livros. An-
tes de se aventurar a penetrar nas obras,
qualquer leitor se perguntara por que o
autor naojuntou os tres livros num s6, ou,
se muito, em dois volumes. Dois dos co-
metimentos, de tio delgados, recomen-
dam imediata fusao (ou nao seria fissao?).
Ainda que todos reunidos, o produto se-
ria um volume de dimens6es normais,
quantitativamente falando.
Deixando essas pretensoes de lado,
faca-se um esforgo para entender as ra-
z6es do criador. Os tres livros, somados,


custam 45 reais. E preco mais para Ho-
nor6 de Balzac do que para Salomao La-
redo. Em tres prestacoes in-folio d6i
menos, deve ter raciocinado o escritor,
assumindo a condicao de editor dos pr6-
prios livros. Ele terA suas razoes para
optar por essa apresentacgo. Como co-
ordenador do program O Liberal na
escola, havera de conseguir a adogao dos
seus livros na rede de ensino, garantia de
comercializacgo. Se pode dividir a dor da
despesa, por que concentra-la?
Mas Laredo exagera na formatacgo
dos seus volumes ficcionais. Capitaqua-
ra e nas Conceigo do Araguaia, o du-
vidoso titulo de um dos livros, de contos,
possui, em tese, 83 paginas parajustificar
seus R$ 10 de prego de capa(s). Mas s6
55 dessas paginas sao ocupadas por tex-
tos (e isso em livro cor format peque-


no). Reprisando o cometimento anterior,
capas se sucedem da primeira A 11 pagi-
na. HA uma foto da esposa e outra do imor-
tal author, cuja inventive da ao volume a clas-
sificacqo de "uma fotonovela para ser fo-
toimaginada" (e fotoesquecida?).
Em Moiraba (R$ 15), o texto propri-
amente dito s6 principia na pagina 21,
sobrevivendo por mais 14 folhas, corn
duas fotos do autor e 5 capas rides again.
Vera, o inico romance (R$ 20), 6 o mais
conventional dos cometimentos: tern 190
paginas (6 melhor ou pior para o leitor?)
e tAo somente tres capas.
Quanto ao conte6do, terei para com
essas obras a attitude primeira de Dante
diante do inferno em apresentacgo: fica-
rei a entrada. Nao quero perder a espe-
ranqa de continuar a saborear a boa lite-
ratura.





6 JOURNAL PESSOAL .2- QUINZENA DE MAR(O/2000


Macrodrenagem:


mais seriedade


Uma rapida visit 6 suficiente para
atestar a importincia do Programa de
Macrodrenagem das Baixadas de Be-
16m. E a obra plblica de maior impact
na cidade em muitas d6cadas. As mu-
dangas que ja provocou sao impressio-
nantes, a comegar pela transformacao
da paisagem. Suas virtudes e defeitos s6
podem ser discutidos a partir da sua
existencia inquestionavel. S6 quem mo-
rava ou conhecia aquelas areas alaga-
das 6 capaz de dimensionar o significa-
do da obra. Mas ela da, hoje, uma im-
pressao de abandon e de certa desori-
entaqfo, de uma frente que perdeu o rit-
mo e pode derivar para a condicgo de
inconclusa.
Em varios pontos a area foi revirada,
mas nela ja ndo ha maquinas em ativi-
dade. Em outras, o que foi deixado para
o arremate esta assumindo a feicgo de
coisa definitivamente inacabada. Muitas


families ja procuram se acomodar a pre-
cariedade, que deveria ser transit6ria,
masja parece assumir a condi5o de algo
definitive. De novidade, mesmo, s6 a
guerra de faixas e places entire a prefei-
tura e o governor.
Ja 6 hora de o governador Almir Ga-
briel e o prefeito Edmilson Rodrigues, se
nao podem dialogar, delegarem poderes
a instancias intermediarias de suas ad-
ministracges para que se integrem tec-
nicamente. Uma coisa 6 a macrodrena-
gem, em media consideravel realizada.
Outra 6 a ordena9ao do espaco urban,
apenas iniciada, e a microdrenagem,
pendente quase por inteiro. Sem esses
complementos, a eficacia do que foi re-
alizado sera afetada e a necessaria con-
tinuidade da iniciativa comprometida.
Antes que a populagio volte ao es-
tado de descr6dito e ceticismo, convi-
nha que os dois governor, numa de-


monstragio de maturidade, tratassem
de recuperar um pouco da sua missao,
que 6 servir o povo. A macrodrena-
gem vive um moment critic porque
as vaidades e a guerrinha political es-
tao prevalecendo.
O prefeito e o governador deveriam
se conscientizar do privil6gio que a his-
t6ria Ihes concede, de estar a frente dos
neg6cios p6blicos exatamente no mo-
mento em que o program deslanchou
sua sua fase executive. Mas nao deve-
riam esquecer (e se esqueceram, algu6m
deveria lembra-los), de que a political
official sobre as baixadas remonta bas-
tante atras. E que nesse trajeto muitos
outros nomes tiveram participagio, mai-
or ou menor, mas important para tor-
nar realidade o que se pode ver na bacia
do Una atualmente.
Um pouco de seriedade e respeito,
pois.


Carnaval, desengano


Eu vinha andando cedinho na quar-
ta-feira de cinzas quando ouvi uma mu-
sica estridente Dei de cara com tr6s
duzias de garcons e bo6mios saidos do
Lapinha atras de um carro de som, com
duas mulheres em cima (uma loura e
outra morena, os seios a mostra, sem
silicone). Era o "rabo de galo", na pa-
t6tica tentative de prolongar um carna-
val inexistente. Nada mais nada 6 nada,
pensei com meus botoes, lembrando li-
cao do primario.
0 metafisico carnaval paraense tam-
b6m 6 de uma primariedade desconcer-
tante. Os que estiveram na Aldeia Ca-
bana, ano I, como nosso carnavalesco
prefeito, e todos os que acompanharam
com tensao a apuragAo dos votos dos
jurados do desfile das escola de samba,
no ultimo dos carnavais que anuncia
seus resultados em todo o pais, terao
muitos e nobres motives para discordar
da c6tica conclusao. Mas quem ficou
em Bel6m durante toda a "quadra de
Momo" foi brindado com uma tranqui-
lidade celestial, interrompida por uma
ou outra remota refernncia a folia.
Para quem permaneceu na cidade
por incompatibilidade com a festa, me-
Ihor premio nao houve. Anos atras, po-


r6m, o paraense tinha Animo para en-
trar numa discussao sobre qual 6 o
quarto., quinto ou va la que seja o
sexto melhor carnaval do Brasil. Hoje,
quando ganhamos apenas do Parana,
passamos ao largo das rodas de cario-
cas; baianos, pernambucanos e, quem
sabe, at6 mesmo paulistas.
A prefeitura quis romper com essa
declinante tend6ncia providenciando
um samb6dromo para arquivar de vez
a "passarela do samba" na Doca de
Souza Franco. Deixemos de lado o
aqodamento da obra, o duvidoso gosto
da concepcao, a temeridade de estrei-
tar uma via como a Pedro Miranda, o
risco de o tal centro de uso multiple
nao sair e outras fontes de pol6mica,
aticadas pela volupia eleitoral do alcai-
de. Imaginemos que todas as restrig6es
sejam improcedentes. Mas sera que a
Aldeia Cabana (denominacao injurio-
sa para o fato hist6rico que serviu de
inspiraqao) vai reanimar o an6mico
carnaval paraense?
Espero estar errado, para o bem dos
que gostam do bom carnaval, mas nao
acredito. Escolas de samba sempre fo-
ram simples complement durante todo
o tempo em que os paraenses tinham


um carnaval decent. Nossa festa era
composta de bailes em clubes, batalhas
de confetes e blocos de sujos na rua
mais as escolas de samba, talvez nesta
sequ6ncia de importancia, com ligeiras
variag6es no topo da classificacgo.
Nao basta ter uma taba, um local de
desfile, como se fora um gran finale,
se nao ha o antes, do qual deriva o apo-
geu. A prefeitura, se quer realmente
ressuscitar nosso carnaval, tern que re-
cuperar sua identidade, sua marca, sua
grande motivagao. Batalhas de confe-
tes nos bairros, garantias de seguranga
para o povo ir as ruas, esquemas de
apoio aos bailes nos clubes, incentive a
concursos de fantasia, tudo organizado
com centros comunitarios, clubes e ou-
tras entidades representatives.
S6 assim o carnaval paraense dei-
xara de ser um relampago veloz, um
curto-circuito de samba, deixando sem
razao os dias posteriores. Um vacuo tao
grande que mesmo quem ainda nao
morreu nao tem razao alguma para sair
atras do esforgado mas rotamente
mambembe rabo de galo do Lapi-
nha no alvorecer da quarta-feira de cin-
zas. Com muito galo e pouco rabo, por
falar nisso.




JOURNAL PESSOAL .2 QUINZENA DE MARCO/2000 7


Respiradouro de papel


Durante muitos anos Belem s6 con-
tou com uma livraria de livros usados: era
a Livraria Econ6mica, de Eduardo Faila-
che, ou "o sebo do Dudu", como era mais
conhecida. Ficava na Campos Sales, qua-
se em frente ao Arquivo Publico (e, at6
um tempo atras, tamb6m a Biblioteca
Publica, hoje desmembrada). Dudu esco-
lheu bem o ponto. Quando la chegou, ha-
via o Cafe Manduca, varias outras livra-
rias (a Martins sendo a principal delas) e
os jornais A Provincia do Parc e 0 Es-
tado do Pard, atraindo para o perimetro
politicos, intelectuais, profissionais liberals
ejomalistas.
Mesmo cor o desaparecimento de
muitas dessas referencias, o Dudu ainda
integrava o conjunto Pombo, tendo como
epicentro a capela da familiar, um dos lu-
gares mais bonitos do centro commercial,
em galopante process de descaracteri-
zaq9o e destruiqgo.
Tudo isso virou samba, pagode ou bre-
ga, conforme o cardapio do moment.
Freqiientar o sebo do Dudu era uma fon-
te de prazer para os amantes dos livros,
aqueles que sao capazes de passar horas
degustando bons achados (em mat6ria de
valor e prego, numa relagao saudavel
quando inversamente proporcional; ou


seja: livros bons a precos baixos, prazer
que Dudu se encarregava de colocar long
do alcance dos seus clients, transfor-
mando a hora do pagamento numa gin-
cana de talents) ou garimpando no meio
de monturos e cascalhos.
0 sebo do Dudu acabou. Mas Belem
conta atualmente cor cinco livrarias de
livros usados regularmente estabelecidas.
Tambem ja se reproduz a nossa versao
dos-"buquinistes", os vendedores estabe-
lecidos em pequenas barracas de rua na
beira do Sena, em Paris. Os de Bel6m
vendem sobretudo livros de bolso e re-
vistas, mas de vez de quando aparece uma
pedra enriquecida no cascalho. Nao tan-
to como no centro velho de Sao Paulo,
principalmente ao redor da Faculdade de
Direito, no Largo de Sao Francisco. Mas
da para alguns gastos.
Nos novos sebos convivem persona-
gens antediluvianos, que pechincham des-
de os primeiros tempos do Dudu, e novis-
simos clients, atraidos pelos CDs de se-
gunda mao e pelos quadrinhos, mas que
acabam sendo fisgados para o universe
mais substancioso dos livros. Ha, agora,
alternatives, tanto em materia de produ-
tos quanto de precos, naquilo que consti-
tui o element mais saudavel do sistema


no qual vivemos: a concorrencia. Assim,
se uma das livrarias coloca mais um pou-
co de sal na tabela, impulsionada pela
demand, os mais atentos procuram uma
alterativa. E assim vao ziguezagueando
entire o Arque6logo, a Cultura Usada, o
Bau, o Apolo e um rec6m-nascido esta-
belecimento jurunense, o primeiro sebo
rigorosamente de bairro (depois que o
Cata Livro nao pegou).
A afluencia dos sebos pode indicar
varias coisas ao mesmo tempo: o pre9o
caro dos livros de primeira mao, a que-
da do poder aquisitivo dos leitores (con-
centrados na classes m6dia), a sobrevida
das sementes do habito de ler, a redes-
coberta dos livros pelos jovens e por ai
em frente. Mas o fen6meno, sempre
sujeito a flutuag6es e infletidas para bai-
xo, e muito saudavel: cria uma via de
respiraqao e oxigenacao para a cultural,
ampliando a via de trafego de livros que
poderiam acabar destruidos em prate-
leiras intocaveis ou, o que 6 ainda pior,
na lata do lixo, element de rompimento
definitive da linhagem de bibliotecas for-
madas por uma s6 pessoa e apenas com
ela tendo seu elo vital.
Longa vida e multiplicidade para os
sebos.


Estagao expansive


A CDP (Companhia das Docas do
Para), ao ceder tr6s galpoes do porto
de Belem ao Estado para a Estacao das
Docas, exigiu que a obra incluisse um
terminal de passageiros para tender os
antigos usuarios do local antes de sua
metamorfose em complex turistico-cul-
tural (e, agora, shopping center). O con-
venio assinado entire as duas parties do-
cumenta essa exig6ncia. Mas Paulo
Chaves Fernandes acabou excluindo-a
de sua obra, certamente por achar que
enfeiaria fisica e humanamente o
espago que concebeu para a gente fina
da cidade.
Qualquer que seja a motivagao de
mais essa modificagao no projeto origi-
nal, posto em execugao por ter vencido
um concurso pilblico, o Estado se tomou
inadimplente no convenio. Por mais esse
motive, ele poderia ser denunciado unila-
teralmente pela CDP, se a companhia es-
tivesse em condic6es ou disposta a de-
fender seus verdadeiros interesses.
Para tapar o buraco, o terminal, que


deveria ser parte integrante da Estacao
das Docas, vai ser remanejado de vez
para o armaz6m 10, a dezenas de metros
de distancia, onde ja funciona precaria-
mente. Duas questbes sao suscitadas.
Uma, 6 a do prego. Como o Estado s6
esta fazendo a obra porque o convenio
Ihe imp6s (e o tema extrapolou a bilate-
ralidade fechada corn a CDP), o terminal
e considerado parte integrante da Esta-
cao das Docas.
Mas os quatro milhaes de reais que
estao previstos para a sua complete rea-
lizacao certamente nao serao anexados
ao orcamento da obra de PC Fernandes,
que j pulou de R$ 6 milh6es para R$ 20
milhoes (e, de fato, ira para R$ 24 mi-
lh6es ou mais, dependendo dos humores
do criador). S6 que o terminal em implan-
taq~o sai da 6rbita da Secretaria de Obras
para a esfera da Secretaria de Transpor-
tes (sem envolver, para qualquer efeito
legal future, a Secretaria de Cultura, que
e quem realmente manda no pedago mas
escondeu o pescoco).


Se quisessem, a Assembl6ia Legisla-
tiva e o Ministerio Pilblico poderiam re-
quisitar documents e informaq6es para
verificar a lisura do procedimento, nao s6
do ponto de vista legal, mas tamb6m eco-
n6mico e moral. Poderiam questioner tam-
bem a boa operacionalidade desse termi-
nal de passageiros, encurralado entire ar-
mazens de carga, com intense movimen-
tacao de conteineres. Sera que nao se
acentuara uma certa incompatibilidade
operacional entire a navegagao fluvial e o
comercio de cabotagem, que ainda e pra-
ticada nessa parte do pier? E sera que o
passageiro, mais bem servido na parte
internal do porto, nao continuarA mais ex-
posto ao risco do lado de fora? O projeto
do terminal prev6 area para estaciona-
mento interno e para manobra external,
cor prote9ao contra o trafego intense de
6nibus e caminh6es?
Pode-se esperar que algum 6rgao se
interesse por tal mat6ria, ou tudo continu-
ara transcorrendo como se essas obras es-
tivessem sendo feitas na Via Lactea?





Virtude
JA antecipando-me, quero su-
gerir a quem de direito a indica-
9go da Marko Engenharia como a
construtora do ano. Constr6i, si-
multaneamente, a Estagao da
Doca e a Aldeia Cabana. E, ao
mesmo tempo, realize cada uma
das obras a image e semelhan-
9a dos patr6es, sendo eles tdo di-
ferentes entire si. Na orla 6 nou-
veau riche maneirista. No sertao
urban torna-se remediada. Tan-
ta qualifica9go deve estar send
bem remunerada. Mas nao deve
ser desmerecida a capacidade de
acomodagao.
Voto por antecipagao.

Assinatura
Por motives operacionais, e
considerando algumas justas re-
clama96es que t6m sido feitas, de-
cidi suspender as assinaturas
deste journal, tanto as renova96es
quanto as novas subscri6es, at6
que consiga definir e sustentar
- um esquema mais satisfat6rio
de atendimento aos clients. Se-
rAo mantidas apenas as assinatu-
ras para fora de Bel6m. Espero
que os leitores continue dispos-
tos a comprar o JP nas bancas e
livrarias, onde a comercializaaio
prosseguird normalmente.

"Desmentido"
A Unimed atribuiu a este jor-
nal o que ele nao noticiou para
credenciar-se a desmenti-lo.
Numa nota official publicada na
imprensa diaria, a diregAo da coo-
perativa nega que tenha ingres-
sado no capital de A Provincia
do Pari.
Mas nada disso foi dito na
edigao anterior do JP. A nota,
muito pelo contrario, ressaltava
que o aporte de recursos da Uni-
med aojomal seria feito sem con-
trapartida em ages, mas sob a
forma de permuta, naquilo que,
no com6rcio de escambo, costu-
ma-se definir popularmente como
"rolo". Feito de tal forma que nao
se saiba onde esta a ponta do no-
velo, seus fios sendo trangados
para criar uma -digamos assim-
combinaqio de interesses.


Atual
Quem conhece
o arranjador e or-
ganista brasileiro
Walter Wander-
ley? No Brasil,
quase ninguem.
Mas ha na Inter-
net um site dedica-
do a ele. Quem
criou esse espago
foi a americana
Barbara Major. Ela
6 uma das virias
admiradoras da
obra de Wanderley
(1932-86), que se
expandiu nos Esta-
dos Unidos.
Foi atrav6s
dela que o paulis-
tano S6rgio Xime-
nes, um consultor
em tecnologia da
informaqio, de 50
anos, conseguiu
trazer para o Bra-
sil um disco que
Tom Jobim gra-
vou em 1965 nos
EUA. O disco &
uma raridade por
varios motives:
Tom preferia es-
quec8-lo; na gra-
vaqgo, limitou-se
a tocar violio; o
disco de que par-
ticipou nao in-
cluia musicas
suas; e se apre-
sentou escondi-
do atras do pseu-
d6nimo de Tony
Brasil. Al6m de


Olho vivo


Aparentemente, o Pard esta na van-
guarda da frente ecol6gica no Brasil.
Desde outubro do ano passado o Iba-
ma (Instituto Brasileiro do Meio Ambi-
ente e dos Recursos Naturais Renov4-
veis) estadual vem sendo dirigido pelo
lider do Partido Verde no Estado. De-
pois de assumir o cargo, Paulo Castelo
Branco ja deseneadeou varias ofensi-
vas contra criminosos ambientais, ora
autuando a Eidai, ora investindo contra
projetos incentivados pela Sudam (Su-
perintendencia do Desenvolvimento da
Amaz6nia). Em todas essas espalhafa-
tosas aces, foi generosa a cobertura
da imprensa, sobretudo da televised.
Estas sao as apar6ncias. Elas refle-
tem a realidade? Eis a questdo. O PV
existe no Para ha bastante tempo. Sua
agao, por6m, nao se tem traduzido em
fatos concretos. SAo declaraq6es a im-
prensa ou oficios. Eleitoralmente, o par-
tido 6 quase nulo. Nao ter um 6nico
representante parlamentar e sua partici-
paqCo no universe eleitoral 6 menos do
que um trago. Nem se ve trabalho de
arregimentag~o, proselitismo ou educa-
98o political. Seu melhor resultado foi
arranjar uns lugares na assessoria do
goverador. Ate conseguir a nomeaqdo
para o Ibama, Paulo Castelo Branco era
assessor especial da govemadoria, car-
go que parece ter sido ocupado depois
por sua esposa.
Mas engana-se quem pensa que o
post no Ibama foi conseguido pelo go-
vernador Almir Gabriel ou atrav6s de
qualquer outro politico ou personalida-
de do Para. O referendo veio do Amapi,
atraves do senador Jose Samey, numa


tudo isso, o disco 6 bom: nele,
Jack Wilson toca muisicas de
Henry Mancini cor o toque da
Bossa Nova.
A preciosidade s6 foi locali-
zada porque outro internauta, um
tecnico da Nasa (a agencia espa-
cial americana), envolvido no pro-
jeto da nave Challenger, 6 um pes-
quisador de Mancini e fez o elo
final da ponte.
Uma hist6ria tipica destes
tempos de uma globalizagao que
avanga com sensibilidade, ao
menos no caso: sem destruir tudo
A sua frente.


Journal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto
Fones: (091) 223-7690 (fone-fax) e 241-7626 (fax)
Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040
S aij 'lornpl@ razoh c .br
:"' Ediq o -Mte za nidefanipin)li230-1304


Mae Joana
Um vereador precisa com ur-
gencia proper a regulamentagao da
propaganda de rua em Bel6m, corn
um grau de detalhamento superior
ao das posturas municipals. A ca-
pital paraense deve ser a mais po-
luida do pais. Nao bastassem os
alucinados pichadores, agora todo
mundo se acha no direito de colo-
car sua mensagem em qualquer lu-
i'gar e na forma que lhe parega con-
vyeniente, sejam outdoors, totens,
faixas ou places.
O desrespeito talvez tenha
chegado ao nivel do desvario
porque o mau exemplo vem de
cima, comegando pela prefeitura.
Nunca o governor municipal fez
tanta propaganda de rua como
agora, eximindo-se de quaisquer
inibiqoes. As places sao coloca-
das sem prazo definido de vig6n-
cia, podendo permanecer em exi-
bigao por tempo mais do que abu-
sivo. E, ainda por cima, costumam


operaqao intrafamiliar, j que a nomea-
9Fo baixou diretamente do gabinete do
ministry do meio ambiente, Jose Samey
Filho, surpreendendo at6 mesmo a alta
direcgo do institute, em Brasilia.
O novo superintendent trouxe
consigo uma equipe pr6pria, desconhe-
cida dos t6cnicos do setor. O pr6prio
Castelo Branco tem cor a area ecol6gi-
ca o contato fluido de um partido que,
no Para, existe por sua utilidade perso-
nalizada. Nada se conhece de produ-
9fo empirica ou intellectual de Castelo
capaz de credencia-lo ao cargo, bem ou
mal (mais para a segunda altemativa)
ocupado sempre, at6 entao, por tecni-
co de nivel superior da drea agron6mi-
ca ou florestal.
O Ibama ter andado sob os holofo-
tes gragas as opera96es de campo que
vem executando, algo que pode gerar
rendimento em fun9ao do acumulo de
irregularidades e ilegalidades no setor,
onde os processes costumam ser mon-
tados para ingl6s ver. Mas o acompa-
nhamento da imprensa, al6m de pauta-
do pelo enfoque espetaculoso da tele-
visao, 6 descontinuo. Logo, a opiniio
piblica deve centrar seu foco de inte-
resse cor mais rigor sobre o Ibama para
verificar se as coisas sho como aparen-
tam, conferir se os louros atribuidos sao
merecidos e se a inovag~o (tanto quan-
to ao nome do superintendent quanto
ao process que gerou sua designagqo)
foi proveitosa. Antes que sobrevenham
surpresas tidas como imprevisiveis, mas
que poderiam ter sido muito bem anteci-
padas se ao marketing fosse contrapos-
ta a investigago jomalistica.


aparecer desfalcadas de algumas
informag6es que permitiriam ao ci-
dadco comum melhor acompa-
nhar a obra anunciada e (embora
nem sempre) em execugao, como
a data do inicio dos trabalhos, o
prazo previsto para a conclusdo
e os recursos alocados. Sao pla-
cas mais para promover o anun-
ciante do que para cumprir sua
finalidade legal, de prestar con-
tas ao contribuinte.
Por tudo isso, bem que a Cimara
de Vereadores poderia tomar as pro-
videncias para acabarcom o reinado
da rme Joana pelas ruas de Bel6m.


Feito
Se a legendaria indefiniqgo tu-
cana persistir por mais tempo, Car-
los Acatauassu Nunes poderd
comemorar em junho 10 anos a
frente da Companhia das Docas
do Para, sobrevivendo Aquela fase
de sai-nao-sai do ano passado.
Uma resistencia bem marajoara.