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Journal Pessoal I^^ i 1 1* r i A \I I i I n I T (\ L U C. I r L A V I k r I IN I ANO XIII NI 230 1 QUINZENA DE MARCO DE 2000 R$ 2,00 do rel POLITICAL (. Brigoes de rua Governador e prefeito estao transformando Belem numa rinha. A hostilidade entire tucanos e petistas se agravou tanto que os dois chefes ate evitam se encontrar em atos piblicos. Tudo e pretext para rivalidades. Jd ndo hd uma agenda fiulica minima capaz de permitir-lbes o entendimento. A capital virou um imenso palanque ?leitoral e um reduto depegas depropaganda. Kl - 01t ir,It' F unt erde, funda~go municipal que ter entire suas misses f c combater a poluigdo visual de Belem, fincou uma alentada L placa vermelha no gramado do Largo do Rel6gio, em setembro do ano passado. Anunciava a execug9o de uma pequena obra de ajardinamento na pra- 9a, que duraria 15 dias. O servigo foi realizado, mas a placa la permanece ate hoje, passados cinco meses. Transfor- mou-se num out-door de pura propa- ganda da prefeitura, ja sem vinculagao direta cor o seu objeto. Perdeu o obje- to, como dizem os advogados. Mas nao a materialidade. KBiE EGll -gr^o 'gprL A ,l, p '10 110 220E 0i Essa ter sido a political do PT para places, rivalizando cor a administracao estadual e em muitos pontos superan- do-a. Uma placa, ao custo de 300 a 500 reais a unidade, pode ser desproporcio- nal (em tamanho e em prego) em rela.ao ao custo e ao significado da obra que anun- cia. Hg placa de tamanho consideravel, no Tel6grafo, anunciando a instalagao de 50 metros de broquetes numa passage cuja largura nao permit a passage de carro. O service tamb6m 6 bancado pela comunidade local e nao apenas pelos co- fres municipals. Mesmo que a obra tenha sido execu- tada dentro dos parametros previstos (de AMACRU E MiHA! I'- ______ custo e duracio, informag6es nem sem- pre fornecidas por inteiro no anuncio), a placa passa a ter vida pr6pria. Tangenci- ando as normas das quais deveria ser guardian e permitindo-se um odioso privi- 16gio em relaggo ao cidadao comum, a prefeitura mantem esse out-door disfar- gado pelo tempo que quer, no lugar que Ihe interessa. Mesmo que, como no caso do Largo do Rel6gio, a placa ateste o desvio de finalidade de um 6rgAo ppblico. A prefeitura de Belem e o governor do Estado reduziram quase inteiramente a sua comunicagao corn o public a propa- ganda e relaq6es p6blicas. 0 tratamento da comunicacao official se nivelou a da 1. -jw. L S.'-.^ e?~~~ : I r~~'L i *', ~s~j 2 JOURNAL PESSOAL l QUINZENA DE MARCO/2000 publicidade do com&rcio varejista. Mui- tas vezes atropela as normas eticas de auto-regulagao pelas quais tanto lutaram alguns publicitarios brasileiros. O que in- teressa & convencer o cidadao (e future eleitor), mesmo que manipulando-o, e deixar mal o adversario quando os inte- resses e perspectives das duas adminis- trag6es colidem. Guerra aberta & a palavra de ordem nos palicios Ant6nio Lemos e dos Des- pachos. Essa orientagao, tao radical quan- to obtusa, se infiltra em todos os niveis dos dois governor, impedindo-os de defi- nir uma agenda de pontos em comum que Ihes permit dialogar e agir em favor da sociedade, A margem da dispute political. O Pard de Lemos versus Sodr6, de Jar- bas contra Alacid, de Jader x HMlio, con- seguiu descer ainda mais de nivel corn Almir & Edmilson. Essa guerra aberta esti chegando a organizagao de manifestag6es de massa s6 aparentemente aut6nomas. A prefei- tura nao se vexou em enxertar de crian- gas e jovens uma passeata de gatos pin- gados em defesa do IPTU para pressio- nar as instituiq6es que suscitaram a in- constitucionalidade das aliquotas progres- sivas do imposto ou podem ainda argiii-la ejulgi-la (OAB, Minist6rio Piblico e Tri- bunal de Justiga do Estado, cujas sedes foram cercadas pelos manifestantes). Ja o governor estadual mexeu cord6is invisi- veis para atiqar outra massa anemica contra a cobranga do imposto, com o agra- vante da viol6ncia despropositada come- tida por seus integrantes, repetindo a pri- meira incursio do ano passado e prome- tendo uma terceira neste m6s. Ja as picuinhas em torno das obras do program de macrodrenagem das baixa- das mostram que, quando os chefes per- dem o senso da dignidade de seus cargos, a irracionalidade se estabelece como um virus de estupidez, contaminando todos os subordinados. Como mostro em outro es- pago desta edicao, a reuniao do governor e da PMB, imposta em Washington, foi um avanco na concretizagao do que estava projetado para a recuperacao das areas alagadas e alagaveis da cidade. Se no curso da obra a prefeitura se encolheu e admitiu tacitamente a condu- cgo em regime de monop6lio pelo Esta- do, no moment em que assumisse a sua parte das tarefas e as responsabilidades que Ihe cabem, o bom desfecho de uma empreitada tao important para a cidade deveria fazer os chefes engolir suas dife- rengas e sentar a mesa de entendimen- tos para buscar a maior harmonia possi- vel entire as parties, asseguradas suas di- ferengas. Tal nao sucedeu. Nao cabe aqui apu- rar as culpas. No aspect especifico da propaganda da obra, depois de algum tempo o governor finalmente descobriu que nao estava tirando o proveito publi- citArio que o investimento possibilitaria. O governador Almir Gabriel, chefe de uma administration que responded por toda a contrapartida national do finan- ciamento international concedido as bai- xadas pelo Banco Interamericano de De- senvolvimento (BID), nunca se carac- terizou como o comandante efetivo das baixadas. Foi poucas vezes ao local, sem- pre em comitiva festival, as pressas. Pelo valor envolvido e o significado que tem essa obra, Almir deveria ter ido as fren- tes de trabalho periodicamente, pelo me- nos uma vez a cada quinzena. Ou ao mrs, quando muito. Se foi tao pouco, 6 porque, mesmo sendo medico, apesar de saber da rele- vancia do saneamento, a obra nao o em- polgou. Se dela tern consci&ncia (e deve ter), isso nao foi o bastante para faz&-lo derrubar as etiquetas, formalidades e posturas que o distanciam do povo e o cercam de uma aura pouco receptive a aproximaqao do home comum. Nao espanta que o governador tenha sido um tucano de primeira hora (se tucano con- ta com alguma hora que nao seja a un- d6cima). O social-democrata brasileiro exige intermediarios no contato cor a massa. Dai os S6rgios Motas da vida (o nosso, numa adaptaqgo bem paraoara, ainda 6 o Jatene?). Os marqueteiros de Almir descobri- ram que o PT estava colocando mais pla- cas nas baixadas do que o pr6prio gover- no, sem merecer os louros (ou as penas) do projeto. Quando tentaram ocupar o espaqo, foram surpreendidos pelo sumi- Co das places que fincavam. Adotaram attitudes mais agressivas de divulgagCo e de defesa das suas queridas places. Ai o contencioso derramou-se para um bate- boca de lavadeira (cor os decibeis das lavadeiras, mas sem o mesmo empenho laboral dessas trabalhadoras), que che- gou ao Minist6rio Piblico e prosseguird nos palanques, quando formalmente eles estiverem armados. Como tanto a prefeitura petista quan- to o governor tucano se tem empenhado mais na propaganda do que na obra em si, o que deveria ser um adereco da ma- crodrenagem passou a ser seu eixo de- terminante. Quando poderiam fincar pa- cificamente suas numerosas places, os tucanos dormiram no ponto nas baixadas. Ja os petistas perdem um pouco da legiti- midade de reclamar: retiraram da enor- me placa do canal da Gentil Bittencourt a informanao de que os recursos originam- se da Caixa Econ6mica Federal (circuns- tancialmente do odiado Fernando Henri- que Cardoso). Os bicudos ficaram mais inconciliaveis ainda. No sera nenhuma surpresa, dian- te dessa intolerancia, que o prejuizo se estenda aos cronogramas fisico e finan- ceiro e a qualidade do serving. O progra- ma de macrodrenagem ameaga entrar num parafuso que vai esticar a conclu- sao, aumentar o valor e tornar difusas as responsabilidades. Os dois grupos tem direito a suas di- vergencias e a trilhar caminhos distintos. S6 quem da democracia extrai a falsa id&ia consensualista dos regimes ditatori- ais, de partido 6nico, pode achar ruim essa pluralidade. A hist6ria nos ensinou que se os caciques nao conseguem mesmo se unir em torno de uma boa causa (porque nao tem programs na cabeca, s6 inte- resses nos bolsos), 6 melhor que se digla- diem. Ao menos ficamos sabendo dos po- dres de uns e de outros, habilitando-nos a poder desmanchar as quadrilhas que di- lapidam os cofres p6blicos. Para Bel6m, o tempo parece irreme- diavelmente perdido. Se ja nem mesmo podem freqiientar cor civilidade um mesmo espago, o governador e o pre- feito tendem a incorporar o papel de meninos brig6es. Batem de frente em pontos nos quais poderia haver uma area de contato. E o que esta acontecendo, por exem- plo, em relagao a desobstrugao do siste- ma viario de acesso e de said de Be- lem. A prefeitura veio cor sua solugio atrav6s do prolongamento da 1 de De- zembro, um projeto cheio de erros e dis- torg6es. Como resposta, o governor pro- jetou as pressas duas vias que tim a des- vantagem de retomar a tristemente c6- lebre Rodovia dos Trabalhadores do se- gundo governor Jader Barbalho (que Al- mir prometera desmoralizar) e dar o gol- pe fatal na floresta do Aura, com mais forga do que a 1 de Dezembro. E agra- vada por essa Alga Viaria que dispensa de suas obrigac6es inseri-la num espa- go mais amplo, segundo um planejamen- to mais s6rio. Da mesma maneira, cada uma das duas administrag6es leva em frente seus projetos para a orla portuiria da cidade indiferente ao que faz a outra, como se a Estacao das Docas ficasse em Martee a Beira-Rio em Saturno. Nao s6 dois esti- los diferentes de urbanizar, de ajustar a urbanizagao a realidade econ6mica e so- cial, como um voltado contra o outro por pressuposto. Na contra-mao da metropo- lizacao e da conurbaao, Bel6m se tomou uma cidade medieval, dividida entire feu- dos. De um lado o barao tucano. Do ou- tro, o barao petista. Ambos, raivosos. 0 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE MAR(O/ 2000 3 Ronald Levinsohn: nosso doutor Silvana Diz a mitologia financeira S que, chamado a explicar, no inicio da decada de 80, tantas e tAo boas vantagens consegui- das do antigo Banco Nacional da Habitacgo (absorvido pela Caixa Econ6mica Federal), Ronald Levinsohn responded com uma unica frase: "Nunca entrei ali armado". S6 uma mente privilegi- ada, com QI de genio (no caso, mais para o doutor Sil- vana das tiras do Capitlo Marvel) e iniciativa dejoga- dor de p6quer, daria tal res- posta. O gaucho (filho de americano cor argentina) Levinsohn estava mandando um aviso: se fosse punido, n.o iria sozinho. Foi deixado de lado. Os que podiam saber sabiam o que Levinsohn insinuava. A apuraqdo das muitas denuncias e processes contra seu imperio financeiro- imobiliario seguiu em march lenta, sem destino final ate hoje. Em muitas ac6es foi inocentado, embora nao em grau fi- nal. Em outras, o desvendamento da his- t6ria se arrasta. Se Levinsohn 6 umjoga- dor inescrupuloso, capaz de tudo arriscar para vencer, ou se 6 uma vitima da buro- cracia official, incapaz de acompanhar sua criatividade, 6 um deslinde para o future. A arte do dono da Delfin, que esten- deu seus tentaculos at6 o Para atrav6s do grupo Tropical, foi sempre a de ar- mar intrincados elos de sustentacgo, so- bre cujas cadeias s6 ele tinha o comple- to dominio. Desabando, arrastaria estru- turas maiores, de mais profundo impac- to. Por isso, quando esteve prestes a cair, a teia de vinculos financeiros internaci- onais o salvou. Para refazer seus neg6- cios, ele precisou imergir no anonimato, algo incompativel cor sua pretensao a grandiosidade. E assim permaneceu ate esta semana, quando Veja chegou as bancas cor uma materia de tres pagi- nas sobre o empresario. Para a maioria dos leito- res da revista, o nome nao deve dizer muita coisa. Mui- tos nem associarao Levin- sohn a UniverCidade, a ter- ceira maior universidade particular do Rio de Janei- ro. Ha anos ela public uma pagina inteira aos domingos no Jornal do Brasil. Rara- mente & para fazer propa- ganda direta dos seus cur- sos. A peca serve para vei- S cular as ideias de Levinso- hn, um personagem que nao | aceita apenas (apenas?) en- riquecer, apostando na sua inventive e na fragilidade do Estado. Ele quer ter influencia e poder. Quer uma arena compativel com suas quali- dades intelectuais. Mesmo que seja as de um doutor Silvana real, nada cari- cato, nem enquadravel no modelo ma- niqueista do bem e do mal. Agora que Veja redescobriu Ronald Levinsohn, seria born se algum dosjorna- listas investigativos do Sul Maravilha se de- dicasse a produzir um levantamento mais profundo e amplo sobre esse principle das sombras. Revelaria ao pais uma de suas faces menos conhecidas. Uma boa ma- neira de registrar os 500 anos sem con- vencionalismos. Nem comemoraqGes. 0 Torre fragil Ainda nao havia baixado a poeira levantada pelo desa- bamento da terceira maior torre de transmissAo de ener- gia do mundo, que fazia a tra- vessia do linhao de Tucurui (o muito propagandeado Tramo- este) sobre o rio Tapaj6s, em frente a Itaituba, e o dono da empresa, a Rede-Celpa, ja atribuia o acidente a sabota- gem. A queda ocorreu exa- tamente um mes depois da festival inauguragao da obra, emjulho do ano passado, uti- lizada eleitoralmente pela co- ligaAo situacionista, cujo go- vemo e tamb6m responsavel pela alienacgo da empresa estatal de energia. Soube-se no mis passado, depois de laudo da Universi- dade de SAo Paulo, concluido ap6s cinco meses de trabalho, que um vento mais forte pro- vocou o desabamento. A tor- re metalica, de 165 metros de altura, que custou um milhdo de reais e e a maior do pais (a segunda do continente, nao suportou os ventos de mais de 120 quil6metros por hora, que a fizeram desmoronar. A nova estrutura levantada no local foi projetada para aguientar ven- tos de atW 150 quil6metros ho- rarios. Casa protegida depois do arrombamento. Faria bem o Ministerio Pl- blico requerendo o laudo da USP e convocando uma audi- encia public para debatW-lo. E precise explicar bem para a sociedade tudo o que aconte- ceu, inclusive se houve impre- videncia ou negligdncia no di- mensionamento da torre. As vezes a margem de erro e ine- vitavel porque faltam dados seguros, sobretudo em series hist6ricas de recorrencia limi- tada e confiabilidade suspeita. As vezes e impericia mesmo. Lembre-se que em 1980 quase a Ele- tronorte perdeu a en- secadeira principal formada para a construgAo da barragem da hidreletrica de Tucurui. Ela nao previa a possibilidade de uma cheia como a do Tocantins naquele ano, que chegou a 68 mil metros cibicos de agua por segundo. Por pou- co o rio nao arrastou a en- secadeira-e, corn ela, me- ses de trabalho e muito di- nheiro empregado. Uma apuracao aberta do que aconteceu cor a gran- de torre do Tramoeste pode instruir melhor a todos e ini- bir a Rede-Celpa de repetir o gesto leviano de reagir de pronto a um acidente jogan- do a culpa no mordomo, cu- jas costas largas tim feito a delicia de uma elite irrespon- sivel no Brasil. .~'~;~E;&~i~X~tatJPrL~t~k~:..:~l~id;- ..r:~g~ ~,b26: ~I"C:.:.IE~I~,, 4 JOURNAL PESSOAL l QUINZENA DE MARCO/2000 Quem quer press na alga rodoviaria O EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambien- tal-Relat6rio de Impacto Ambiental) da Alga Viaria atende a uma simples formalidade. Nao vai alterar, em nada de substantial, a execu- gAo do projeto de engenharia que ji estava definido quando a avaliaqao do impact so- bre a natureza dessa obra foi exigido. O faz- de-conta foi montado para tender a lei. Nao para desviar o empreendimento da rota previ- amente traqada pelo governor. Essa suspeita foi o principal resultado das duas audiencias pilblicas iniciais, realizadas em Bel6m e Ananindeua (antes de Acari, Moju e Bujaru), para discutir o EIA-Rima da rodovia e da ponte sobre o rio Guami, que estabelecerdo a ligagao de Bel6m cor o porto de Vila do Conde, em Barcarena. O advogado e agrimensor Paraguassu Eleres, ex-diretor do Departamento Tdcnico do Iterpa (Instituto de Terras do Para), foi o porta-voz destacado dessa posigdo critical. Em s6lido document, ele questionou o estudo e o relat6rio de impact ambiental a partir de sua origem. Suscitando a ausencia de demonstracao da qualificagao tecnica e cientifica especial da Vetec Engenharia, con- tratada diretamente, cor dispensa de licita- qao piblica, Paraguasst cobrou a certifica- gqo da excelencia da equipe tecnica da em- presa e ressalvou que, sem a concorrencia, a legalidade da transagAo esta comprometida. Ele tambem estranhou, na audiencia inau- gural de Belem, que no estudo de marco de 1997, realizado pela Eccex para a Secretaria de Transporte do Estado, o valor da obra tenha sido estimado em 197,2 milhres de d61ares, caindo na avaliaqao da Vetec, de novembro do ano passado, para o equivalent a US$ 105 milhoes (53% do valor anterior), ou 190 milh6es de reais. Ante a explicaao de que a diferenga se devia a "seriedade aplicada A for- mulagdo financeira do Projeto", Paraguassu contraditou: "o estudo fdito pela Setran em 1997 noo era s6rio?". Didaticamente, ele mostrou que os levan- tamentos sobre o impact ambiental das es- tradas e da ponte eram extremamente defici- entes, exigindo estudos complementares, so- bretudo em relacgo aos movimentos das ma- res e os efeitos que ocorrerto na orografia da regiao. Seus questionamentos de natureza ecol6gica acabaram por desaguar numa con- testa~go mais ampla: a Alga Viaria 6 uma obra de natureza "eminentemente rodovidria", li- mitando-se a estabelecer uma ligagao entire dois pontos de interesse econ6mico, sem se preocupar cor as dimensoes ecol6gicas e humans das areas que atravessa. O advogado admite que outra alternative (aproveitando estradas ja existentes e corn tres pontes menores e mais baratas) e mais longa, mas, al6m de seus beneficios sociais serem maiores e seus impacts ambientais menores, talvez possa at& sair mais barata do que se poderia supor tomando como base apenas a quilometragem das estradas. Nao pode-se dizer que sim ou que nao. Simplesmente a Vetec nao examinou qualquer alternative A Alga Vibria ja tragada pelo go- verno, aceitando-a como pressuposto. Por isso, 6 impossivel dizer que outra hip6tese de tragado sairia mais cara. O que, segundo Pa- raguassfi, configura outra infragao A legisla- cao sobre os EIA-Rima, que requer estudos comparativos de alterativas. Na segunda audi8ncia, o advogado sus- tentou que o projeto "visa autoritariamente materializar uma ideia antiga dos anos 70, im- plantando a 'Alga Viaria' (como ficou conhe- cido) em detrimento de outras opgoes, por mais racionais que possam parecer". Tanto isso seria verdade, "que ate j foram desapro- priadas terras ao long do eixo da eventual rodovia, sem ter como certo se esse seria, ou nao, o caminho rodovidrio ideal do ponto de vista do interesse p6blico, tal como o pi- blico julgue que 6 de seu interesse". Paraguassi solicitou uma s6rie de pro- vid6ncias de 6rgaos pdblicos para suprir as lacunas do EIA- Rima, a fim de dar- -- Ihe consistencia e Provinci afastar a desconfi- anqa de que o docu- Dois tecnicos est mento e as audien- um complete levant, cias nas qua i ele fod contas de A Provinci post em discussio Eles foram contratadc sejam algo apenas med/Belem, interest para "ingl6s ver". um control real da Esses pedidos teri- empresa. A Unimed am que estar atendi- doumasignificativaa dos ate o moment dinheiro nojornal. NA em que, concluidas cipar diretamente do as audi6ncias, o do- continuard sob o ci cumento for exami- GengisFreire. nado pelo Conselho Al6m deressarcir-s Estadual de Meio vestir atravs de perm Ambiente para a blicidade,aUnimedva concessao da licen- todeinterferirnalinha ga de instalagao. jomal, o mais antigo di Se as critics fo- culagao no norte dopa rem supridas e supe- trumento de poder pa radas, a licenga para a merciais, masque tamb Alga Vidria serd legitima. Caso contririo, terd sido uma farsa e o autor da autorizaqao para a execugao da obra poderd ser responsabiliza- do. Persistird a desconfianga de que a ecolo- gia serviu apenas de biombo para que a obra de engenharia, temporariamente suspense, re- tomasse o curso que vinha tendo, sem qual- quer alteraqao. ,Questionamentos como o de Parraguas- su Eleres ajudam a ver a obra numa dimensao mais ampla do que a bitola que o governor quer impor. Ela nao 6 uma simples via de trans- porte para diminuir o custo, reduzir a distan- cia e aumentar a efici8ncia do movimento de cargas, mas um element na composigqo da paisagem geogrdfica e humana. Ha algo de errado e anacr6nico, de antedilu- viana manutengco da mentalidade rodoviarista, tao nociva a Amaz6nia hidrografica e aquosa, em se necessitar construir um conjunto estrada-pon- te de 170 quil6metros para cobrir distAncia que, em linha reta, nao chega a 50 quil6metros. Crian- do uma via artificial e agressiva por terra quando esta diante de n6s uma das mais complexes, ricas e belas paisagens estuarinas, justamente a que deu nome ao pr6prio Estado do Para. Nao se pode aceitar a formula pronta (e a caixa preta) do governor para essa tal de Alga Vibria sem ao menos imaginar um caminho por terra mais racional, de maiores efeitos ben6fi- cos e talvez mais barato. E sem, antes de tudo, tentar um transport fluvial mais coerente cor a press e a busca de economic do home contempordneo. O acodamento s6 interessa a quem sutilmente a imp6e, para fazer o que pretendia antes de ser perturbado pela exi- gencia do EIA-Rima (que nio pretendia fa- zer): o govero. Ou quem os interesses ele estd defendendo. 0 em muda ao fazendo imento das a do Pard. )s pela Uni- ada em ter situaqAo da estd fazen- plicagao de o vai parti- capital, que ontrole de e do que in- luta de pu- iter o direi- editorial do ario em cir- is. Um ins- ra fins co- 6m poderi servir de porta-voz do grupo do medico Nelson Lima na luta que vem travando ha vdrios meses com uma dissidencia intema. E por uma fatia de poder no Estado. Depois de sofrer uma campa- nha de oposiqco a cobranga do IPTU deste ano, a prefeitura de Bel6m caiu totalmente nas gragas de A Provincia. Mais do que de- monstrar A direcao do joral a li- sura, corregAo ejustiga do impos- to, a prefeitura utilizou um argu- mento mais forte aos ouvidos do dono: o tilintar de dinheiro da verba de publicidade municipal no caixa dojomal. As piginas de A Provincia mudaram subitamente de Agua para azeite (ou vinho): as mat6- JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE MAR(O/ 2000 5 Baixadas: patetica dispute pela autoria No dia 24 de setembro de 1991 o entio go- vemador Jader Barbalho, e o prefeito de Be- lem, Augusto Rezende, comandaram, juntos, uma solene e longa reuniao no Palacio Lauro Sodr6, que era a sede do governor estadual (hoje, 6 o Museu do Estado). De distintos par- tidos politicos e adversarios at6 aquele mo- mento, conseguiram colocar as diferengas de lado para encaminhar a quatro m.os o Progra- ma de Macrodrenagem das Baixadas de Bel6m, o maior investimento piiblico na capital em muitas decadas. A trajet6ria dessa empreitada remonta a tempos imemoriais. Mas, modemamente, nao constituiria nenhuma impropriedade tomar como ponto de partida a monografia sobre as baixadas de Bel6m, iniciada na Codem (Com- panhia de Desenvolvimento e Administragao da Area Metropolitana de Bel6m), municipal apesar do nome pomposo, e arrematada no estadual e ji finado Idesp (Instituto do Desenvolvimento Econ6mico e Social do Para). Isso, exatamente na metade da d6cada de 70. A abordagem te6rica e tecnica foi o traqo marcante at6 1979, quando o Promorar recebeu um impulse executive, corn a incorporaqdo dos primeiros recursos federais. O program se trans- formou numa das peas pr6-eleitorais corn a qual o ministry do interior, o coronel Mario Andrea- zza (um anfibio como Passarinho: um p6 no quartel e outro na political esperava viabilizar sua candidatura A presid6ncia da Repuiblica, na sucessio do general Joao Figueiredo. Andreazza veio a Belem, recebeu os estu- dos que tecnicos municipals e estaduais vinham fazendo e, antes mesmo de l1-los, deu seu apoio para o inicio do remanejamento das families ins- taladas as margens da desembocadura do iga- rape do Una. Corn seu entusiasmo, Andreazza se imaginava um JK adaptado ao regime military. Queria obras, de impact, que fossem elitistas (na execuqao por seus amigos empreiteiros) e populistas (no usufruto e na legitimagco). Ti- nha um estilo sujeito a chuvas e trovoadas, mas, pessoalmente, era uma das mais afaveis figures do mundo official daqueles tempos de chumbo. O maltratado prefeito Ajax de Oliveira fez o que estava ao seu alcance, o que nao era mui- to. Fernando Coutinho Jorge, em seguida, deu aos ainda desalinhavados estudos uma costu- ra de projeto para valer, fazendo a prefeitura assumir o comando das agbes, mas por dele- gagao do govemo do Estado. Nem poderia ser diferente. O prefeito era um delegado do go- vernador para os assuntos municipals da capi- tal. E s6 o Estado dispunha de capacidade de endividamento capaz de suportar o custo fi- nanceiro do empreendimento. No seu segundo governor, Jader Barbalho decidiu retomar tudo. Tinhas suas razbes. Qua- se tudo o que fizeram Coutinho e, depois dele, Almir Gabriel, foi Jader quem pagou, inclusive a Estac~o das Docas da epoca no Ver-o-Peso (me- nos suntudria, corn seu Solar da Beira, Cafe Chic e Praqa dos Velames). Com os erros que possa center e as superavaliag6es que haja embutido, o projeto da macrodrenagem, na sua forma final e defmitiva, ap6s todos os antecedentes zigue- zagueantes (e nem sempre coerentes), incluin- do a administragAo Helio Gueiros, 6 um produto do segundo govemo Jader Barbalho. Ele perseguiu esse projeto, desejando reali- za-lo por inteiro no period do seu mandate, desde o inicio da gestAo. Certamente Jader que- ria, cor a obra, dar o maior dos golpes contra a md fama adquirida na fase precedent (de dila- pidador do erario). Seria sua consagragao como administrator, mudando a fisionomia urbana da ---------------------I rias de critics evaporaram, per- manecendo apenas a palavra official. S6 artigos de terceiros, educadamente contra, tisnam li- geiramente o IPTU. Nas materi- as da casa, s6 as cores azul e rosa (ou rosa e verde, para lem- brar a gloriosa Mangueira nes- tes dias de Momo). Essa political de boa-vontade, arrancada argentariamente, pode ter ido alrm-muro. Raul Meireles, do PDT, denunciou Gengis Frei- re, que acumula a secretaria-geral do Tribunal de Justiqa do Estado com a direcgo dojornal, de ter re- tido indevidamente petigao que o vereador protocolou no TJE, sem junta-la aos autos da acgo de inconstitucionalidade contra o IPTU-2000. Meireles solicitava a substituicgo do diret6rio muni- cipal pelo diret6rio estadual no patrocinio da a9go. Como a pe9a ficou levitando em algum armi- rio, ajuiza do feito rejeitou a Adin argiiindo a ilegitimidade do au- tor, sem entrar no merito da ques- tio. Legitimo era o diret6rio esta- dual, nao o municipal. Pode ser nao mais do que o famoso jus esperneandi, mas a dendncia do vereador 6 grave. Precisa ser apurada pelo tribunal. Inclusive para restabelecer a ver- dade e, corn ela, se provada a im- proced6ncia da acusag9o, reafir- mada a lisura dos procedimentos administrativos na instincia mais alta do f6rum de Belem. capital paraense em beneficio direto de 40% da sua populacAo. Se alguns itens das obras foram su- perdimensionados quanto a valores e mal definidos no aspect de engenharia, essa 6 uma agenda ainda a ser adequadamente preenchida. 0 gover- nador Almir Gabriel tern sustentado que havia superfaturamen- to no projeto que her- dou. Mas nada provou at6 agora. As falhas reveladas existiram antes como persisted at6 hoje. A suspeita quanto a corrupgAo tamb6m nao 6 mono- p6lio do passado. Independentemente de uma melhor defini- qdo quanto a esses aspects, a partir das res- triqBes do govero atual ao antecessor e as do PT a este govemo, al6m das critics oriundas da sociedade civil, a macrodrenagem, montada em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), trouxe tras novidades positivas: a imposigao de uma a~ao conjunta Estado/municipio, independentemente de suas diferengas political e administrativas, a parti- cipagdo da sociedade e a preocupaqgo em evi- tar (ou minimizar, ao menos no tempo) o efeito de expulsao que essas aq6es de engenharia, seguidas dos efeitos fiscais e tributArios, exer- cem sobre a populagao original das ireas sa- neadas e urbanizadas, incrementando a espe- culagdo imobiliaria. Em fungao dessas definicqes preliminares, Jader e Rezende colocaram de lado suas rivali- dades e magoas para reunir seus govemos, condicqo exigida pelo BID, mesmo que esses goveros nao fossem (muito pelo contrdrio) padres de excelkncia da gestAo public. Das negociacges e entendimentos havidos em Washington participaram delegados do Esta- do e do municipio da capital, antecedendo e sucedendo o encontro digamos, hist6rico - de 24 de setembro de 1991, em Bel6m. Assim deveria ter continuado. Mas assim nao continuou. O atual govemador e o atual prefeito consideram nao haver clima nem mes- mo para estarem no mesmo ambiente. Parecem fora do alcance de ambos os discursos que Jader e Rezende pronunciaram mais de oito anos atras. Jader disse: "Nao ha divergencia nenhuma que seja superior ao interesse publi- co". Rezende complementou: "Chegou a hora de caminharmos juntos em favor do povo". Tais declaragbes podem ser recebidas como demagogia e populismo. Podem estar em contradigao com a aago concrete dos dois po- liticos. Mas, submetendo-se as exigencias de seus cargos e ao que Ihes foi apresentado como dever, eles estiveram juntos e de seus atos re- sultou uma political public, a mais important executada em tempos recentes na capital. De 16 para ca regrediu-se. Nem as forma- lidades da fung~o p6blica podem ser segui- das. Um minimo de compromisso corn aq9es comuns nao & o suficiente para permitir um intercambio civilizado entire o govemador do Estado e o prefeito da capital. Eles se enre- dam nessa pat&tica dispute pela autoria pro- pagandistica do projeto e digladiam-se como senhores medievais, cada um na sua cidade- la arquitetando golpes maquiav6licos con- tra o outro e mandando emissArios realizar os atos sujos. Nem espanta, por isso, que ja nao se saiba exatamente quanto devera custar a macrodre- nagem das baixadas de Bel6m quando estiver concluida se for concluida. Um triste sinal destes nossos tempos. * 6 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE MARCO/ 2000 Rescaldo: o cadastro Orgamento apertado A prefeitura de Belem dispora, dentro de poucos meses, de um valioso instrumen- to de aqao, como poucas administraq6es municipals no pais tnm: um cadastro de multiple uso, ou multifinalitario, segun- do o jargao tecnico. Esse cadastro tanto apoiara um bom lanaamento de IPTU, quan- do seus erros forem corrigidos, como sera indispensavel instrument de planejamen- to e uma fonte de renda, alem de servir de base de dados para todos os cidadaos e empresas sobre a sua cidade. O cadastro esta sendo montado com base em fotografias areas feitas em 1998. Mas dessa base poderao ser obtidos pro- dutos finals variados, de acordo cor a von- tade do governor e dos seus eventuais cli- entes. E um trabalho bem feito e esta sendo conduzido com competencia. Concebido para abranger 250 mil im6veis,j ultrapas- sou essa marca em 100 mil unidades e ain- da nao foi inteiramente concluido. Custou seis milhoes de reais, custo coberto corn recursos pr6prios da prefeitura e do BN- DES. Ainda vai exigir mais recursos ate es- tar completamente pronto. Na minha opiniao, a cupula da PMB se precipitou no cronograma quando colocou na rua os carnms do IPTU ancorados num cadastro em formaqao, sujeitando-se a uma margem de erro maior do que seria esperavel cor uma obra acabada. Mas o cadastro e um trabalho suficientemente serio para resistir a esse desgaste e se consolidar como uma das v6rtebras de sustentaq~o da modemizarao tecnica e administrative da PMB. Sai cor essa convicqao depois de quase tr6s horas de con- tato cor o serviqo, na sede da Codem. 0 -.. -- -- ... -- .. . . a a - . . . Floresta Fez muito bem o Ministerio do Meio Ambiente ao apresentar, na semana pas- sada, uma proposta ao projeto do novo C6digo Florestal, que estA em discussao, para manter a proibigdo de corte raso em 80% das areas dos im6veis rurais situa- dos na Amaz6nia e em 50% nas demais regi6es. As limita9qes anteriores a intro- dugdo de maior rigor na prote9ao ecol6- gica, de dois anos atrAs, eram de 50% e 20%, respectivamente. Os proprietarios rurais, como era de se esperar, reagiram a iniciativa do ministe- rio. Eles interpretam essas restrin6es como um confisco e exigem indenizag~o pelas areas maiores de floresta que seriam pre- servadas (e, por isso, imobilizadas ou mes- mo inutilizadas). E um raciocinio tosco e obtuso. Mas sdo esses senhores da terra que mandam no local. Brasilia fica A dis- tancia, nem sempre em condioqes de fazer seus longos bragos imporem o cumprimen- to das normas. Esse conflito, entretanto, existe por- que ha um mal-entendido: os proprietiri- os de areas amaz6nicas com cobertura vegetal primitive consideram um prejuizo manter a floresta native (ou mesmo qual- quer tipo de floresta). Estao errados. Mas a majoria da sociedade pensa assim. E precise mostrar que a verdade 6 justa- mente o inverso. Nao basta, por6m, fazer prova corn conhecimento cientifico e t6cnico. E precise demonstrar que floresta da di- nheiro fazendo-a render. Ou seja: tirar ojargao do desenvolvimento auto-sus- tentado da redoma acad6mica, o lugar certo da sua germinaqAo, mas nao de sua frutificagao, e torna-la sensivel ao bolso, onde ela vai "pegar". Uma tal iniciativa s6 sera conseqiente cor in- vestimentos ptiblicos, cr6dito orienta- do e assist6ncia t6cnica acessivel. Tudo isso a partir de uma attitude audaciosa, en6rgica e dinamica. E precise que a conciliaqao da ativi- dade econ6mica com a integridade da na- tureza deixe de ser apenas perfumaria (ainda que a perfumaria seja uma das suas mais nobres aplicacqes). Precisa ser difundida mais expressivamente. Para que, em future o mais breve possi- vel, quem disser que floresta 6 estorvo se apresente claramente pelo que 6: um estupido e insensato. Respeito O poder legislative 6 um poder desar- mado. E, em conseqtiincia, o que mais apa- nha dos critics. Os parlamentares podem considerar esse tratamento como uma in- justiqa. Mas, se chega a ser mesmo um mal, 6 mal menor. O confront testa a democra- cia, sem a qual nao hA parlamento. Pior do que ser desarmado, o legislati- vo 6 mal assessorado. E um poder corn pouca mem6ria e menor capacidade de dis- cernimento. Os cargos t6cnicos costumam ser distribuidos segundo crit&rios de cli- entelismo e parceria. Ou por motivaq6es ainda mais rasteiras, atrav6s das quais o parlamentar forma um caixa dois. Faz re- tornar aos seus bolsos parte do que paga ao assessor, usado como laranja. Mas essas prdticas estao cobrando seu prego. Em Bel6m, por exemplo, os verea- dores foram ao tribunal impugnar a co- branca de um imposto, o IPTU, que foi es- O governor do Estado fechou o orga- mento do ano passado com um deficit de 29 milh6es de reais. E pouco para um total de R$ 2,6 bilh6es (pouco acima de 1%), mas mostra a crescente dificuldade de ad- ministrar as contas pfiblicas. Nao s6 para equilibrar rigorosamente receita e despe- sa, como para dispor de renda previsivel e programavel, em condig6es de servir ao planejamento. A receita pr6pria ficou abaixo de R$ 900 milh6es, enquanto as transferencias federais foram al6m de R$ 1,2 bilhAo, pra- ticamente do mesmo tamanho da folha de pessoal. Para cobrir buracos, o Estado precisou tomar emprestado mais de R$ 200 milh6es. Por outro lado, pagou R$ 170 mi- lh6es, entire amortizag6es ejuros, da divi- da contraida, o equivalent A soma de to- das as pensbes de servidores inativos mais o pagamento dos funcionarios tem- porarios. JA os investimentos efetivamen- te realizados, descontadas as transferen- cias intragovernamentais (que podem ser investimento, mas nem sempre), somaram menos de R$ 270 milh6es. Se houver uma tendencia nesses ni- meros, o period mais favorivel da admi- nistragio Almir Gabriel esta ficando para tras. A folga de caixa dificilmente se repe- tira neste segundo mandate, enquanto as dificuldades podem crescer. Eventos como a Estagao das Docas terao um pre- go cada vez mais pesado, ao mesmo tem- po em que a competEncia para enfrentar as carncias sera testada. Mas o orgamento deste ano, de quase R$ 3 trilh6es, permanece, como os anteri- ores, audacioso nas suas proposig9es de receita, investimento e superavit. Na conta de chegada 6 que se vai poder verificar a realidade. tabelecida cor base em uma lei por eles mesmos aprovada faz poucos meses. A aprovagio foi obtida por desejo da maio- ria e nao de toda a casa, ja que nao houve unanimidade na votacgo. Por um minimo de coerencia, entretan- to, a mesa da Cimara Municipal nao po- deria patrocinar uma ag o de inconstitu- cionalidade, sem expor de public sua in- coerencia. Liberadas as iniciativas pesso- ais, quem votou a favor da lei da progres- sividade de aliquota do imposto nao po- deria, agora, pedir sua anulagao. Esse tipo de incoerencia pode ser evi- tada se os legislativos se propuserem a serio investor em boa assessoria e numa base de dados de qualidade. Assim, se darao ao respeito. Assim, darao mais um pass para vir a ser respeitados. JOURNAL PESSOAL a QUINZENA DE MARCO/2000 7 Estagao das docas: a imagem do dono A egolatria 6 o trago marcante na per- sonalidade de Paulo Chaves Femandes e nas obras que realize. Nao poderia deixar de ser a marca de fogo na mais cara das suas realizagoes, a Estagao das Docas. Quando obteve a cessio dos tres gal- p6es metalicos do porto de Belem para adaptd-los, transformando-os num com- plexo turistico e cultural, nao Ihe pareceu important definir a comercializag~o do espaqo ji no conv6nio, de quase tr6s anos atris, assinado com a proprietiria daque- les bens, a Companhia das Docas do Pand. Talvez PC Fernandes tenha imagina- do que tudo se acomodaria a sua vonta- de imperial. Mas era dever da diregao da CDP antecipar e por isso prevenir -problemas futures (principalmente por- que, comercialmente, era mais rentivel continuar utilizando os galpoes na sua antiga finalidade). Nada se fez nesse sentido. Os galpoes comegaram a ser remodelados segundo a nonchalance do genial artist. Se apa- recia um material mais sofisticado ou de maior qualidade, ele era incorporado, ex- trapolando as especifica6oes originals. Se um subito acesso de inventividade ocu- pava a mente do criador, o projeto consa- grado em concurso pfiblico era modifica- do, as vezes radicalmente. Se o orgamento estourava, providen- ciava-se um aditamento de custo. Se o prazo vencia, prorrogava-se a vigencia. Pap6is, compromissos, determinaqces normativas tudo isso tornou-se secun- dario, quando nao desnecessario ou dis- pensavel, por impertinente. O norte da obra eram as convicg6es do autor do pro- jeto, no que nele estava inscrito e no que viria a ser adicionado a seu bel-prazer. De essencia da edificagao, a estrutu- ra de ferro concebida como armaz6m de carga virou complement, um element de supostas restaurag6es que entram numa tal espiral maneirista que acabam se desligando de suas origens. O corpo do urubu foi fantasiado cor penas de pavdo. O que era para ser uma "janela para o rio" (parece fixagio de Januaria buarqueana, que nao sai da janela e aca- ba nunca fazendo hist6ria) virou uma ga- leria de vidro, louga e ar encanado ("a razao", como diria Paulo Cal, de quatro milhbes de reais), cor elevador e mais escada rolante de 500 mil reais. O custo ja bateu em R$ 20 milh6es (pela previsao inicial, deveria ficar em R$ 6,2 milhoes), mas vai continuar encare- cendo. Ainda nao ha cobertura orCamen- taria para ajardinagem e o estacionamen- to. O IPTU acumulado durante o period das obras (quase um milhao de reais em 1997 e 1998) estA pendente. Nao sei se houve cobertura para a balsa de R$ 570 mil, que vai servir de marina para quern usar o terminal de passageiros da Esta- qao das Docas amboss, alias, balsa e ter- minal, introduzidos no projeto depois que foram feitas as criticss, enquanto o po- pulacho continue sofrendo e se equilibran- do entire os barcos e a muralha do porto nos armaz6ns 9 e 10. O notavel criador esperava que quan- do sua obra estivesse concluida, em al- gum prazo e a que custo fosse, ele as di- vidisse entire amigos e aderentes confor- me sua vontade absolute. A reaqgo ex- terna o obrigou a encontrar uma alterna- tiva legal entire a licitaqco public, que nao queria fazer, e a outorga direta, que es- capou ao seu poder. Recorreu a OS (Or- ganizaqgo Social), uma recent figure do direito administrative, que permit deso- brigar de 6nus a empresa de direito pri- vado caso ela destine seu lucro a obras de interesse p6blico, assistenciais, de ca- ridade ou culturais. Apesar da "forCagao de barra", como se diz por ai, a said era legal. Mas todos os 10 membros fundadores da OS Para 2000 sao amigos, associados ou subordi- nados de PC Fernandes. O ingresso de novos membros na entidade dependera da aprovacgo desse conselho de notaveis, formado por indicagao exclusive do se- cretario de cultural, sem a menor abertu- ra a participagio externa, sem um aviso public, sem um edital de convocaqio. Apesar de se caracterizar como uma autintica agco entire amigos, a ParA 2000, mal estava criada, foi de imediato qualifica- da para ser a gestora de uma obra public no valor de R$ 20 milhoes (ou mais), reali- zada a fundo perdido (ou seja: o dinheiro nao ter que ser devolvido ao Estado). Sua unica credencial 6 o compromisso estatu- tario de reverter a renda obtida em favor da cultural. Estatuto, por sinal, criado por quem dispunha de uma informagao privile- giada: de que receberia a qualificaco, bas- tando organizar-se para tal. E sem maior investimento, ja que funcionaria nas mes- mas instalacges da Secretaria de Cultura, dispondo de toda a sua estrutura (a seme- lhanca dos beneficios de que ja usufruem os concessionarios do Parque da Resid6n- cia, outra obra de PC Femandes). Por causa desse esquema personali- zado, os contratos a serem assinados com os vencedores da habilitagao (6 esse o nome mais adequado a dar a forma de licitagao adotada) s6 terdo validade por no maximo dois anos e meio. Viabilizar empreendimentos comerciais nesse cur- to period, ap6s gastos bem significati- vos em imobilizagao (a "taxa de acaba- mento", que pode chegar a R$ 80 mil) e custeio (o aluguel mensal mais caro, para restaurant, sera de R$ 8 mil), 6 um ne- g6cio temerario. Talvez por isso, um ter- go dos espacos ofertados nao tenha con- seguido atrair propostas. Quem fez cal- culo real ou nao contou cor alguma faci- lidade lateral deve ter recuado. Quem foi em frente apostando na pror- rogacao automatica do seu contrato deve reexaminar essa hip6tese. Qualquer go- vernador que venha a suceder o atual, se nao for seu aliado incondicional, ira rever a relagao Estado/Para 2000/contratado. Quando nada, porque, atrav6s de seus 10 protegidos, PC Fernandes continuara a ser o gestor da Estagdo das Docas, uma extensao da administracao estadual na qual o governador sera sempre um coad- juvante se nao refizer os terms da rela- go. Quem concordara com essa anoma- lia? S6 quem nao tiver espinha dorsal, per- sonalidade pr6pria. E provavel que Paulo Chaves tenha imaginado o artificio juridico como sa- gaz o bastante para permitir-lhe conti- nuar a controlar sua milionaria obra mes- mo estando fora do governor. Esse ego- centrismo, por6m, podera ferir de morte a pol6mica estagAo, caso o pr6ximo go- vernador seja um adversario do atual. Ele tera nessa obra um motive para rever radicalmente o ato, se encara-la cor seriedade, ou devasta-la, se a tomar como pretexto de vinganqa. Na primeira hip6tese, os vencedores anunciados na semana passada serao os prejudicados. Na segunda, o prejuizo sera de todo o Estado. Em qualquer delas, ain- da cabera, inclusive aos que agora se man- tem quedos e omissos, indiferentes a sua missao institutional, cobrar as responsabi- lidades de quem urdiu a trama e a partir dela ensejou seu resultado desastrado. 0 Landi Gostaria de acrescentar mais uma id&ia a proposta que apresen- tei na edigio passada sobre o cir- cuito Landi em Belem. Visa atrair o interesse pi~blico e privado para a casa rosada, edificaq9o do s6culo dezoito, situada na Cidade Velha (Siqueira Mendes corn Flix Roc- que), que alguns atribuem ao artis- ta bolonhes. Outros p6em em ddu- vida essa autoria. Mas ainda que nao seja do arquiteto italiano, 6 a residencia particular de maior valor hist6rico e arquitet6nico de Belem. Por seu estilo, se nio for de Landi & uma criacgo imediatamente p6s- Landi- e por esse prisma merece a mesma ateng~o (conseguiu ele for- mar discipulos na terra?). Que tal transformn-la no centro de refernncia de Landi em Belem? Com tal prop6sito, a prefeitura ou o govemo do Estado poderiam de- sapropriar o im6vel, atualmente de propriedade de Bitar Innros. Res- taurado, o predio abrigaria biblio- teca, mapoteca, pinacoteca, expo- siqAo permanent, pequeno audi- t6rio e oficina, tudo em fungao de Landi e do barroco tardio quejun- tou Portugal e Italia sob o sol tropi- cal de Belem do Para. Daria para fazer tudo isso an- tes de terminar o ano do quinto cen- tenario da descoberta, corn uma infima parte do orgamento da Esta- 9do das Docas, e permitir ao mun- do descobrir que Belem abriga ver- dadeiras maravilhas da arquitetura universal, capazes de atrair o mais exigente visitante, nao apenas tu- canos em deslumbrado v6o baixo. Se quiserem, PC Femandes ou Edmilson Rodrigues (quem for o primeiro, ganha) podem at& procla- mar que a ideia e deles (ou de um deles, o mais rapido e perspicaz). Prometo nio contestar. Nem eu, nem qualquer outro que haja pen- sado nisso antes. Nao queremos ser pais uma outra vez. Queremos e o bem desta maltratada capital. Baladeira Pela segunda vez foi adiado o langamento de Amaz6nia, o novo journal didrio do grupo Liberal. A explicaggo 6 de que o predio, ao lado da sede dojomalao, nao fica- ra pronto a tempo para abrigar a nova publicagao. A semelhanga do que aconteceu corn a reencar- naqio da Folha do Norte, alguns anos atras, o Amaz6nia sera uma ferramenta (gazua?) de combat da corporag9o, para ser usada em period eleitoral, sem as limitaq6es e inibi96es de OLiberal, que man- teria uma certa eqiiidistancia, ate mesmo para efeitos comerciais, de Paternidade 0 deputado federal (PFL) Vic Pires Franco j tern substi- tuto na a9ao popular contra o . convenio assinado entire a Funtelpa e a TV Liberal: 6 o soci61logo Domingos Con- ,ceig5o, de 45 anos, natu- ral de Bujaru, ilustre des- conhecido at& a data. Mas o advo- gado, Marcus Solino, 6 o mesmo do autor anterior da agFo. Ele protoco- lou o pedido de habilitagdo de Conceigao no mes- mo dia, 15, em que o Diario da Justiga publicou Nusd e ao ormso an a voi- veu os autos, em seu poder desde 27 de outubro. Na petiqgo, o advogado argument que, inde- pendentemente da possibilidade de o Ministerio Publico assumir a condicgo de autor da agao, o povo paraense "nao poderia ficar sem um representante" na demand. Pediu para o juiz do feito manter para as 10 horas do pr6ximo dia 2 a pr6xima audiencia de instruqao do process. Pelo convenio, em vigor ha dois anos e meio, a Fundagao de Telecomunicag6es do Para vai pagar 12 milh6es de reais a TV Liberal ao long de cinco anos. Mas a televisao particular ain- da tern o direito de utilizar a rede da estatal em terra para retransmitir imagens de satelite de sua pr6pria programagqo, centrada na Rede Globo. MA" m m m-MW--vw--m-ma---------------m w faturamento. Uma esp6cie dejor- nal popular a moda da casa. O objetivo, depois, t dar vida permanent a publica go, indo al6m da neo-Folha, que durou pouco e nao convenceu. Impedimento Tornou-se tio rotineira a de- claragao de suspeigao ou impedi- mento nos processes mais pole- micos submetidos ao Tribunal de Justiga do Estado que alguns de- sembargadores, useiros e vezei- ros em usar o foro intimo para se afastar de tais aq6es, deveriam pedir demissao. Se nio podem julgar, por tantos e tio frequen- tes motives subjetivos, deveriam declarar-se de vez incompatibili- zados com a fungao de magistra- dos, pagos exatamente para jul- gar. Todos sairiam ganhando. Prin- cipalmente ajustica. Nao havendo tal iniciativa, o pr6prio TJE deveria reunir o con- selho da magistratura e definir al- guns principios a serem seguidos em circunstincias semelhantes. Sempre que coubesse, o desem- bargador deveria apresentar in- ter pares suas raz6es de afasta- mento, mesmo que de natureza particular, em reunido fechada, mas devidamente registrada em ata reservada, para produzir seus efeitos no tempo devido. Assim, o que deveria ser ex- celao e esta se tomando uma ro- tina, voltaria a sua condi9ao sau- ddvel de exce~ao. Piramide A Secretaria Executiva de Obras do Estado ja se preveniu para a possibilidade de ter que adiar mais uma vez a inauguracgo da Estagio das Docas. A tiltima previsao 6 para o dia 21 de abril, quando comegara a ser comemo- rado o quinto centenirio da des- coberta do Brasil. A Seob prorro- gou a vigencia dos dois contratos que assinou (o primeiro para a construgdo e o segundo para a conclusao da obra) ate 16 de maio. Os dois contratos venceram no dia 16 de fevereiro. Os terms aditi- vos que estenderam o prazo final s6 foram publicados na edigao do dia 22, quase uma semana depois. Nos dois aditamentos, alias, a Seob deixou de informar sobre o contei- do de cinco termos aditivos anteri- ores, contrariando nonna do Tri- bunal de Contas do Estado. O contrato assinado no ano passado corn a Marko Engenha- riaji sofreu quatro acr6scimos em menos de um ano. O secretdrio de cultural, Paulo Chaves Fernan- des, disse numa entrevista na TV Cultura, no ano passado, que pode ir alem cinco milh6es de re- ais em relagio aos R$ 18 milh6es de custo realizado at6 aquela 6po- ca da fara6nica obra. Quando o dinheiro 6 ptiblico, cle costuma ser assim mesmo: esbanjador. H bito Tenho diante de mim outro noticiirio dejomal que comprova o nivel de deterioragao do relacio- nanrrento politico no Pard atual. E sobre a visit a Belem do entio president (recentemente falecido), o general Joao Baptista Figueire- do, durante a campanha eleitoral, em outubro de 1982. A foto do cumprimento de Figueiredo ao govemador Alacid Nunes, que foi receb&-lo no aeroporto military, ex- pressava a tensao de ambos. Figueiredo se dizia traido por Alacid. Aceitara que ele voltasse a govemar o Para (eleito indireta- mente pela Assembl6ia Legislati- va, como da primeira vez), se reco- nhecesse o direito de Jarbas Pas- sarinho de ditar a sucessao qua- tro anos depois. Alacid teria con- cordado corn o trato. Mas o des- fez quando apoiou a candidatura de Jader Barbalho, pelo PMDB (que acabaria derrotando o candi- dato do PDS, Oziel Cameiro), ima- ginando destruir seu ex-aliado. Apesar do corpo tenso e do olhar hostile que trocaram quando se deram as mdos, Figueiredo e Alacid cumpriram o protocolo. Depois, cada um procurou um lu- gar seguro, a distancia (a mesma que Alacid guardou de Passari- nho). O minimo que se exige de homes publicos foi respeitado pelo trio de militares (todos ji entdo na reserve). Agora vem a pergunta: como reagiriam Almir Gabriel e Edmil- son Rodrigues em situaqio seme- lhante, hoje? Por enquanto, a hi- p6tese serve apenas a raciocinio te6rico, ja que ambos fogem da eventualidade do encontro. Uma attitude tao flagrante que qualquer instituiqao ou empresa, quando pode, convida ora um ora outro. Ou s6 convida um depois de o outro haver recusado o convite primeiramente a ele feito. Quan- do, por dever de oficio, ambos t6m que ser convidados ao mesmo tempo, a torcida 6 para que um deles se ausente. Ate agora, esse jogo de risco tern dado certo. Ou, visto por outra 6tica, errado: estimula a manuten- qFo de habitos que tanto fazem mal a educaqio e a civilidade quanto ao que 6 produto delas: a democracia. Journal Pessoal Editor: Llcio FlIvio Pinto Fones: (091) 223-7690 (fone-fax) e 241-7626 (fax) Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040 e-mail: jornal@amazon.com.br Edig o de Arte: Luizantoniodefanapinto/230-1304 |
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