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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00177

Full Text



Journal Pessoal14
L U C O FLAVIO PIN T, O
ANO XIII N2 228 1' QUINZENA DE FEVEREIRO DE 2000 R$ 20 .

POLITICAL


Process autodestrutivo

A reeleicdo de Edmilson Rodrigues, candidate franco favorite nas privias para a
prefeitura de Belem, pode estar comepando a ser comprometida. Ndo pelo combat dos
adversdrios, mas por erros do prdprio prefeito. Isso estd assanhando os candidates em
potential. Dependendo da evolupdo do "caso IPTU", eles podem chegar a conclusdo de que
a vit6ria jd ndo e mais uma quimera.


9P


prefeito Edmilson Rodrigues,
favorite para se reeleger em
outubro em Belem, ji tern
um adversario de peso: 6 o
prefeito Edmilson Rodrigues.
Ele causa prejuizos a sua candidatura
mais do que poderia imaginar qualquer
dos inimigos. A nio ser que consiga re-


vert&-la, a tendencia de fortalecimento
do seu nome que estava em ascensao
- vem se tornando declinante desde o
aumento dos 6nibus acima do indice de
inflagco, no ano passado, e, agora, com
o reajuste do IPTU (Imposto Predial e
Territorial Urbano). O desgaste visivel
anima o aparecimento de novas candi-


daturas e pode alterar o equilibrio de for-
qas, antes pendendo francamente para
o lado do PT.
Mesmo cor todos os arguments da
sua equipe, o prefeito poderia ter se ba-
seado no estudo do Diesse (Departamen-
to Intersindical de Estatisticas e Estu-
dos S6cio-Econ6micos), tradicionalmente )


T5 "7p


^^ l 1lBl," i"






2 JOURNAL PESSOAL *ol QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2000


uma retaguarda petista, para ajustar o
reajuste das tarifas do transport coleti-
vo a realidade do poder de compra da
populagao da capital, detentora de um
dos maiores indices de desemprego e su-
bemprego do pais. Dando aos rapaces
donos de 6nibus um aumento de preco
que e mais do que o dobro da inflacgo
registrada durante o mandate da admi-
nistracqo petista em Bel6m, Edmilson
concede tamb6m poderosas armas aos
antagonistas. Como acusa-lo de ser uma
coisa na oposigCo e outra no poder, de
haver renovado o pacto cor as empre-
sas de 6nibus (que antes criticava) e de
ser insensivel ao drama da populacao,
sobretudo dos que ha cinco anos nao t6m
qualquer aumento de salario.
O epis6dio do IPTU, irritando mi-
lhares de municipes, e outro mau
exemplo. Em primeiro lugar, nenhum
politico traditional se exporia a entre-
gar aos contribuintes carn6s de impos-
to que trazem embutidos aumentos es-
tapafuirdios em plena temporada elei-
toral. Deixaria esse trauma para o
ano seguinte ou o anterior. Mas o PT
se propoe a modificar os velhos pa-
dr6es da political brasileira. Nessa
circunstincia, deveria ser considera-
da temeraria, mas coerente, a inicia-
tiva do prefeito de colocar na rua um
IPTU realista (ainda que, no caso es-
pecifico de Bel6m, permitindo aos
contendores sugerir que o aumento
visa a formanao de caixa para obras
eleitoreiras).
O argument em favor da gestao
municipal 6 de que nao poderia ser
deixado pelo meio um program que
ja custou caro aos cofres pflblicos e
precisava ser concluido para ter con-
seqti6ncias. A emissao das guias do
IPTU tendo como base o novo ca-
dastro "multifinalitario", elaborado a
partir de informaraes obtidas de
imagens de sat6lite, ap6s dois anos
de preparacgo, atualizaria uma base
defasada e comprometida por dados
inconfiaveis.
Um novo cadastro, afinado cor as
t6cnicas mais modernas, era de fato
uma necessidade, tanto para o poder
p6blico, que precisa do just suporte
para o desempenho das suas tarefas
(o IPTU e a principal fonte de renda
pr6pria do municipio), como para o
contribuinte de boa fe (ao mesmo tem-
po distinguindo-o do mau cidaddo, so-
bretudo o de alta renda, cujo eterno
vicio de sonegar ou ignorar o IPTU tern
sido coonestado pela falta de profissi-
onalismo na gestao desse tribute). Mas,
al6m de a informanao do sat6lite exi-
gir na checagem de campo um grau


de efici6ncia similar, a mudanga na
base de calculo impunha um paciente
e didatico trabalho de esclarecimento
pr6vio. O que a prefeitura nao fez.
A implantaqgo do "novo IPTU" foi
realizada no melhor estilo autocrata-
tecnocrata, que o PT, quando apenas
na oposigdo, tanto combateu. Um out-
door espalhado As pressas pela cida-
de, assim que a onda de protest e re-
volta rompeu as comportas de conten-
95o, procura incutir nas pessoas que
"quem ama Bel6m paga o IPTU". O
publicitario por tras da mensagem de-
via estar com a cabeqa tomada por
aquela velhissima maxima de que o
amor 6 cego.
Nada e mais natural, entretanto, do
que o cidadao querer saber porque e
como aumentou o imposto que Ihe e
cobrado. Se as aliquotas do tribute con-
tinuam as mesmas, a base de calculo
mudou. O PT, que queria former cida-
daos conscientes, agora cobra enqua-
dramento military dos seus municipes.
Como se seus atos fossem soprados
por um Espirito Santo secularizado,
mas que exige dos suditos f6 absolute
e nao razao relativizadora. Coisa de
religiao profana, assim mesmo: antite-
tica em seus terms.

A intolerancia

initial, de nao acei-

tar recursos, de pei-

tar a OAB/Para, de

dar a imprensa de-

clara6oes arrogan-

tes, foi superada com

excessive lentidao,

permitindo aos ad-

versarios explorer a

insatisfa ao popular.
Aceitando desde o inicio o debate, ex-
pondo-se aos questionamentos, admi-
tindo rever erros que evidentemente fo-
ram cometidos em numerosos casos, a
prefeitura teria evitado os desdobra-
mentos politicos que ja se estabelece-
ram (como a autoconvocaqao da CA-
mara Municipal, e aco de inconstituci-
onalidade na justiga, proposta pelo
PDT) e, em certa media, tornaram-se
independents da via administrative.


Mas se as falhas sao comuns em todo
empreendimento inovador, como o esta-
belecimento do tal cadastro "multifinali-
tario", capaz de eliminar de vez as frau-
des e vicios que responded pela desmo-
ralizaago do IPTU at6 a administracqo
anterior, de Helio Gueiros (maquilada por
uma campanha de pr6mios), num ponto
a prefeitura esta em total desconforto:
na cobranqa da taxa de limpeza pblica,
que registrou casos de majoraqfo em
800%, atingindo em profundidade o bol-
so do cidadao medio.
A alegag~o de que as queixas sao
apenas da classes m6dia e que 6 mais
do que compensada pelo contraponto
da populagao pobre, beneficiada pelo
alargamento da faixa de isenqao, re-
vela mais.uma vesguice do governor
municipal. A amostragem montada
cor base nas consultas feitas a OAB
revelou que a lideranca da reaq~o es-
teve com aposentados e dom6sticas, e
que em 55% dos casos os prejudica-
dos residem em dois bairros popula-
res, o Jurunas (um dos menos benefi-
ciados pela administracao petista) e o
Guama.
Atirar neles, com a certeza de con-
tar com o apoio do "povao", pode ser
a manifestagio de dois erros fatais.
Um, social, ao ignorar o empobreci-
mento da classes m6dia e seu reforga-
do poder de influ6ncia social. Outro,
tecnico, ao tomar como valor absolute
a informacio da imagem de satelite,
sem uma checagem de campo, que
revelaria a subdivisao de um grande
im6vel (com taxacao progressive, in-
quinada de inconstitucional) por vari-
os inquilinos (dentre os quais dom6s-
ticas), no bem conhecido process de
fragmentacio em parcelas do que foi,
em 6pocas melhores, um domicilio
unfamiliar.
O esquema de utilizagAo do orCa-
mento participation como um elo de
coesao compuls6ria com a populacio
de baixa renda pode ser anulado pelo
efeito retroativo em cadeia dos aumen-
tos dos 6nibus e do IPTU, agravando
o desgaste do PT entire as camadas de
renda m6dia, abrindo uma cunha nas
faixas mais pobres e consolidando de
vez a rejeiqao dos conservadores.
Um desdobramento desse tipo afe-
taria a candidatura de Edmilson Rodri-
gues, servindo de atrativo para a mul-
tiplicaago de novas opq6es. Sem um
bom trabalho de rescaldo e uma nova
estrat6gia de aqgo, a reeleigao de Ed-
milson Rodrigues pode comecar a se
desestabilizar e at6 perder a aura de
franco favoritismo de que desfrutava
at6 o final do ano passado.






JOURNAL PESSOAL Ia QUINZENA DE FEVEREIRO/2000 3


0 vale-tudo



pre-eleitoral


Nao faz muito tempo (nem dois anos),
o atual senador Luiz Otavio Campos cha-
mava o deputado federal Vic Pires Fran-
co de "robocop gay". A virul6ncia do ata-
que tinha um motivo: Vic era o politico
que mais fundamente atacava o gover-
nador Almir Gabriel, embora tivessem
sido correligionarios em passado nao tao
remote que justificasse um antagonismo
visceral. Ja a posiggo de Vic decorria do
movimento pendular que seguiu, desde o
rompimento com Romulo Maiorana Juni-
or, o "cap" (como se diz nessas rodas) do
grupo Liberal, um dos principals eixos de
sustentagao da coligaggo formalmente
comandada pelo governador. Vic termi-
nou por se incorporar a impensavel (ate
entio) alianga Jader Barbalho/Hl6io Guei-
ros, embarcando na canoa do que fora
seu inimigo politico da v6spera.
Nos ultimos dias esses personagens
tem sobressaltado a opiniao public corn
o radical reembaralhamento de suas car-
tas. Depois do lance teatral de romper
cor seu partido, o PPB, o "senador do
governador" anunciou que voltaria ao
antigo ninho, no PFL. Para tanto, foi ao
gabinete do cacique national do partido,
o tamb6m senador Ant6nio Carlos Ma-
galhaes. Os entendimentos foram esta-
belecidos cor a aprovagao de Vie, um
dos mais fortes nomes com que o PFL
conta para a principal das disputes eleito-
rais de outubro no Para.
O outro nome forte para a dispute da
prefeitura de Bel6m e um ex-inquilino da
casa, Helio Gueiros. O ex-prefeito nao
disse ate agora que e candidate. Mas tam-
bem nao negou o desejo de ser candida-
to. Estimulou Vic a ir em frente na sua
campanha informal para a PMB. Mas
jamais o homologou. Como sempre, sen-
te a direcao dos ventos e a forga das cor-
rentezas para decidir na und6cima hora o
que Ihe 6 mais convenient.
Talvez nao fosse o retorno de "Pepe-
ca", como o "senador do govemador" 6
popularmente conhecido. Mas, conform
diria, nao foi ouvido e nem cheirado por
ningu6m do PFL que participa do novo e
desconcertante arranjo, todos atraidos pela
conquista de bandeja de mais um senador
para o partido. Se o anuncio de desliga-
mento do PPB foi iniciativa aut6noma de
Luiz Otavio, a volta ao PFL 6 decisao que


s6 poderia ser tomada a no minimo -
quatro maos. As outras duas, as maiores,
sendo as do govemador, naturalmente.
Por que Almir mandaria "Pepeca"
para a curul pefelista? Seria para resta-
belecer a coligacao de 1994 (desfeita em
1998?), enlacando outra vez Helio Guei-
ros? Ou incorporando o PFL, mas deslo-
cando o ex-prefeito atraves de um golpe
branco, dado de Brasilia? Nas duas hip6-
teses, seria uma bem sucedida manobra
para atacar dois coelhos ao mesmo tem-
po: daria ao governador, finalmente, uma
boa chapa para combater seu arqui-rival
Edmilson Rodrigues ejogaria para escan-
teio o PMDB de Jader Barbalho, enfra-
quecendo-o mais ainda para o combat
dos votos em 2002. Ainda que o preqo
pudesse ser o risco de uma reaqio popu-
lar, especialmente se o goverador e o
prefeito de Belem aprofundarem a guer-
ra doidivanas que estao travando, crian-
do clima propicio para um terceiro nome
(vivissimo, Duciomar Costa trata de plan-
tar sua horta entire os descamisados).

M as o bravo se-

nador (em tese, hoje

sem partido) parece

ter recuado um pouco,
deixando escapar bales de ensaio sobre
a ultima forma: sua perman&ncia no PPB,
a despeito dos vigorosos discursos que fez
ao se declarar traido pelo comando do
partido numa votacio em plenario contra
Jader Barbalho (que, sentindo-se usado
como instrument para a estrategia neo-
tucana, colocou Luiz Otavio no caderi-
nho preto, embora continue a se encon-
trar com aparente cordialidade, naquela
relacao de confianca que ha entire um
prisioneiro e um carcereiro). Deve-se tal
recuo a nao ter conseguido vingar uma
chapa unica do grupo do goverador?
A hip6tese talvez encontre reforqo na
posiqao do grupo Liberal, de nao preten-
der contribuir para o ressurgimento de
Helio Gueiros, encaminhado ao arquivo
depois da humilhante derrota que sofreu
em 1998 para o senado, nem pavimentar
o caminho de Vic Pires Franco para a


principal prefeitura do Estado. Enquanto
os entendimentos Vic-"Pepeca" evolui-
am em Brasilia, a prudent distancia das
bases locais, Rominho Maiorana mandou
dizer que o candidate da casa seria o tam-
bem ex-prefeito Sahid Xerfan (sogro de
Roberta Maiorana), no estaleiro ha alguns
anos e na declividade desde que negou a
si mesmo para apoiar Socorro Gomes, do
Partido Comunista do Brasil, candidate de
emergencia de Jader para a prefeitura de
Belem. Com o aviso, uma orientagao para
os veiculos do grupo comeqarem a bater
mais fire em Edmilson Rodrigues, cri-
ando nesse vacuo inspiragao para a volta
do salvador com botas.
O govemador s6 esta disposto a ir d
luta contando cor os canhoes midiaticos
do grupo Liberal, a sustentagao de papel
& eletr6nica que compensa sua fragili-
dade estrutural. Aceitara Xerfan ou ten-
tara vializar outro nome? De qualquer
maneira, nao havendo uma frente unica,
talvez deixe de se former uma alianga
reunindo no mesmo saco de gatos Almir,
os Maiorana, o PFL, H6lio Gueiros e to-
dos os aderentes em torno de um nome
que poderia ser o de Vic Pires Franco.
Inclusive porque o grupo Liberal nao deu
resposta positive a sedugao proposta pelo
deputado pefelista atrav6s da desistencia
da acao popular que props contra o "con-
venio" de 12 milh6es de reais TV Libe-
ral/Funtelpa (e que pode ter delimitado o
fim da alianga PMDB/PFL).
Se o desdobramento dos fatos seguir
essas premissas, a esbogada frente geral
contra o PT e Jader Barbalho (num alvo
unico, ainda que estejam num acordo ape-
nas tacito, desmanchavel a qualquer mo-
mento) ira se fragmentar. Vic Pires Franco
ou Helio Gueiros poderao sair candidates
mesmo sem essa alianca maior, incorporan-
do quem quiser segui-los (aos dois ou a um
so, unidos ou rompidos), o que ndo exige
maior energia, ja que program de partido
nao existe e a mem6ria 6 desativada em
epoca de arranjo eleitoral. Jader podera
sacar do colete um nome para representa-
lo na dispute, procurando prevenir-se para
o risco de uma nova goleada. E tertius,
como o ja em campanha Duciomar Costa,
poderao colocar suas imagens para fora dos
panos, apostando que uma zebra tera past
propicio para engordar.







4 JOURNAL PESSOAL l QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2000


TV Liberal: o preqo


da conveniencia


At6 o dia 2 o deputado federal (do PFL)
Vic Pires Franco no juntou no cart6rio da 21"
vara civel do f6rum de Bel&m a sua desistencia
da a~go popular, que impetrou hi mais de dois
anos, para anular o contrato entire a FundaqFo
de Telecomunicaq es do Para e a TV Liberal
(ver Jornal Pessoal 226). Ha mais de duas
semanas essa desistencia vem sendo anunciada
atraves de notas em alguns 6rgaos da imprensa.
O pr6prio deputado comunicou tal disposiqao
ao senadorJader Barbalho, que foi um dos mais
estimuladores da iniciativa (ainda mais atraen-
te porque o poupava de vir a ribalta).
Nas notas e na conversa mantida em Brasi-
lia cor o president national do PMDB, Vic
teria dito que seu ato decorre de motivess de
foro intimo". Nao entrou em detalhes. Mas nao
e dificil concluir que tenta impressionar a fa-
milia Maiorana e conseguir apoio para sua can-
didatura a prefeitura de Belem. A acgo popular
provocou furor entire os donos do grupo Libe-
ral, beneficiados por um "convenio" que Ihes
possibility, simultaneamente, utilizar a rede da
Funtelpa de retransmissao em terra de imagens


O governor do Estado deixou para a tlti-
ma hora a comercializaq o dos espaqos da
Esta9~o das Docas, cuja construqao foi ini-
ciada em 1997. Pressionado pelas critics a
obra, o secretario de cultural, Paulo Chaves
Fernandes, deixou de impor do trono sua
vontade imperial, que era construir, deco-
rar, mobiliar e dar destinagAo i sua maior
criatura, para tanto ignorando o public em
geral. Foi-lhe lembrada a lei, o interesse so-
cial, a economic e outros detalhes que certa-
mente deve considerar irrelevantes.
Mas nao se deu por achado: em ritmo
alucinante, procurou (e encontrou) uma va-
riante para nao se submeter is normas apli-
caveis aos pobres morais. Juntou amigos e
subordinados na "organizaqao social" Pard
2000. Providenciou a qualificaqgo da enti-
dade como representante do Estado para
administrar "um dos mais belos projetos
do mundo". Colocou na praqa um edital mi-
nucioso, detalhista, exigente, pesado. S6
quem pagasse alto, nao entendesse do
ramo, aceitasse jogar no escuro ou tivesse
informarges privilegiadas poderia entregar
aos delegados-do-govemo-para-a-estaq o-
das-docas no prazo de uma semana.
O espanto geral forqou a dilataqCo do
prazo por mais uma semana (vencendo nos


de satelite,alcanqando todo o Estado, e ainda
faturar 200 mil reais todo mes, ao long de cin-
co anos. 0 "convenio" (na verdade, um contra-
to) foi considerado lesivo ao interesse public
em parecer de um auditor do Tribunal de Con-
tas do Estado, onde o exame da materia foi sus-
tado por causa do ajuizamento da aqgo.
Os autos do process foram retirados do
cart6rio da 214 vara em 27 de dezembro do ano
passado e ainda nao foram devolvidos pelo ad-
vogado de Vie, Marcos Solino. Contatado cin-
co vezes para se manifestar, o advogado nao
devolveu as ligacqes. Quando encontrado em
seu escrit6rio, alegou estar em reunido para nao
tender o telefone. O prazo legal terminou,mas
o advogado continuou retendo os autos. Nem
atraves do seu representante legal, nem direta-
mente, o deputado nao apresentou o pedido de
desistencia.
Quando (e se) isso ocorrer, ojuiz R6mulo
Nunes adotara duas provid6ncias: remetera o
process para o Minist6rio Publico se mani-
festar e determinara a publicaqao de edital no-
tificando o public da desistencia. Qualquer


dias 14 e 15).Mesmo cor a prorrogag9o, a
execuqCo a s6rio das exigencias do edital
(definido conforme a natureza da destina-
9go) temeraria e incerta. Se todos os 50
espagos forem ocupados, em breve havera
quebradeira. Se nao forem, o triunvirato
designado para a tarefa podera expedir con-
vites a quem for considerado habilitado.
Nao e improvivel que eles constem do ca-
derninho do secretArio. Quem passar pela
seleq o, s6 vai ter abrigo contratual pelo
tempo do mandate dos atuais
gestores. Eles sabem que, tendo criado uma
obra extremamente personalizada, a ima-
gem do dono (se uma obra public pudesse
ter dono que nao o povo), 6 bem provivel
que a administragao seguinte, se nao for
controlada pelo mesmo grupo,podera alte-
rar todas as regras estabelecidas. Ou mes-
mo atirar ao limbo (se nao a enderego mais
desgastente) a deslumbrante obra de PC
Chaves. Certamente destiny ingl6rio e ime-
recido para algo que, de qualquer maneira,
originou-se no erario. Mas correspondent
ao ato que estamos a testemunhar: uma ex-
crecencia autocritica em plena era republi-
cana. Como se a Estag9o das Docas fosse
um brinquedo do bric-a-brac do genial ar-
quiteto e sua corte.


pessoa podera se habilitar a prosseguir na a9ao
(um advogado, na condigao de cidadao, j con-
versou informalmente cor ojuiz para mani-
festar a intengAo de substituir o parlamentar,
caso ele realmente se afaste da aq o). Recom-
posta a titularidade, a a9ao prosseguira no ini-
cio do pr6ximo mrs, com a primeira audiencia.
Se quiser, ojuiz podera convocar o deputado
pefelista para depor como testemunha, mesmo
que ele tenha said do caso.
A pessoa que substituir Vic Pires Franco
tambem podera cobrar sua responsabilidade
civil. Uma fonte dojudiciario considerou "des-
respeitosa" a attitude do deputado dejustificar
a desistencia como "motivo de foro intimo".
Segundo essa fonte, a principal razdo para o
juiz R6mulo Nunes negar de imediato a sus-
pensao do contrato Funtelpa/TV Liberal, soli-
citada em liminar por Vic, foi sua "percepqco
de que o m6vel da aqgo era politico". Ojuiz
preferiu solicitar informaiqes, obtidas atraves
de varias pericias, para fundamental sua deci-
sao sobre a demand.
"Agora, de forma quase graciosa, o deputa-
do vem dizer que sai do process por foro inti-
mo. Isso nao pode", observou a fonte, argu-
mentando que o aparelho dojudicidrio foi mo-
bilizado para deslindar questao complex "e,
se quer sair, o que e direito seu, o deputado
precisa explicar-se". Prosseguindo a ag9o, o
pr6priojuiz R6mulo Nunes podera inquirir o
parlamentar a respeito. Se por acaso vier a ser
declarado litigante de ma fe, no encerramento
da aFio, Vic podera ser acionadojudicialmente.
Se provocou impact no reduto peemede-
bista, a parte que mais vivamente vem acom-
panhando a tramitagFo do process (se 6 que
pode-se falar em simples acompanhamento para
definir empenho que vem desde a propositura
da ag o popular), o ato de boa vontade de Vic
Pires Franco ainda nao Ihe rendeu todos os di-
videndos que ele buscava junto aos Maiorana.
O index, que o excluia completamente do noti-
ciario dos veiculos de comunicaclo do grupo,
foi suspense. Mas Vic nao e o candidate da
casa a PMB. Nem goza de nenhum privilegio
em materia de tratamento editorial. Exceto se a
reciprocidade s6 passe a ter valor a partir da
oficializagqo da desistencia, a condenacAo ex-
pedida por Dea Maiorana, a maior acionista da
corporag o, continue prevalecendo. Essa cir-
cunstancia talvez explique a demora do depu-
tado de passar da promessa aos atos. Enquan-
to isso, crescem os boatos sobre negociaClo de
bastidores, referendando ou tentando brecar a
desistencia. Coisas tipicas de um foro intimo
de conveniencia-tanto para fazer como para
deixar de fazer.


A e.S606oi- dori






JOURNAL PESSOAL 1P QUINZENA DE FEVEREIRO/2000 5


Desemprego: quadro


e desalentador


Ha no Pard 420 mil pessoas desem-
pregadas. Para uma populaqao total de
5,6 milh6es de habitantes,ja e um nume-
ro impressionante. Mas quando se tern
como referencia a PEA (Populaqdo Eco-
nomicamente Ativa) official, com 1,2 mi-
lhao de pessoas, e uma catastrofe: a pro-
pordao de desempregados chega a 40%.
Mesmo considerando-se uma PEA ex-
tra-oficial (mas bem mais ajustada a rea-
lidade), de 2,3 milhoes de pessoas, o indi-
ce de desemprego, de 20%, ainda bate
no nervo exposto da nossa pobreza.
Os nimeros divulgados na semana
passada pelo Dieese (Departamento In-
tersindical de Estatisticas e Estudos S6-
cio-Econ6micos) sao de arrepiar o cabe-
lo. Percebe-se que a consolidaqdo de al-
gumas das estatisticas 6 obtida a forceps.
Desde dezembro de 1998, quando o go-
vero do Estado unilateralmente retirou-
se da coleta conjunta de informaq6es,
obter dados primarios se tornou ainda
mais dificil. Talvez algum autocrata que
inspirou a media se iluda achando que
suprimir ou minar os levantamentos so-
bre o emprego seja a maneira de evitar
que a dura realidade se apresente. Se
pensou dessa maneira, enganou-se: o Di-
eese subsiste na tarefa her6ica de mos-
trar a gravidade do desafio que se impoe
cor peso cada vez maior sobre parcelas
dominantes da sociedade: sobreviver.


Mesmo sujeito a uma ou outra varia-
qao ou contestagqo, os quadros estatisti-
cos divulgados pelo Dieese revelam a
derrota do Pard na luta pelo seu desen-
volvimento. Mais da metade das pessoas
que tnm renda no Estado ganham no
maximo um salario minimo, comprome-
tendo 80% do seu ganho liquid com um
unico item de despesa: a alimentaiao.
A perspective de melhoria da vida atra-
ves do trabalho 6 desalentadora: o desem-
prego se expand exatamente nos seto-
res produtivos que mais tem capacidade
germinativa e mais absorvem mao-de-
obra, como a construqao civil, a industria
de transformagio e os serviqos. Isto sig-
nifica que a economic estadual nao con-
segue se estruturar na base, nem recu-
pera dinamismo pelo topo das atividades.
Nao se desenvolve pelas vias tradicionais
(substituifao das importaqbes, verticali-
zagao da produgao), nem se renova pelo
setor terciario, o dos services, que tern
sido a soluqco inovadora para economies
intermediarias.
A situaqao em Belem talvez seja ain-
da mais grave do que na media do Esta-
do. A PEA da capital e estimada em 720
mil pessoas. O Dieese calcula que haja
na Grande Belem (com algo entire 1,5
milhao e 1,7 milhao de habitantes) 140 mil
desempregados. O mercado informal atin-
ge o dobro: 280 mil pessoas. A atividade


produtiva regular, portanto, s6 abrange
40% das pessoas aptas a produzir. Na
decada de 90 praticamente todos os se-
tores econ6micos desempregaram na
principal cidade do norte do pais. Quem
fala em cidade das luzes esta pensando
no poder manipulador da propaganda.
Quem acha que Belem se transformou
numa Calcuta tardia ve a realidade.
Uma attitude de avestruz jamais con-
seguira inverter essa tend6ncia de decli-
nio do emprego regular, just e remune-
rador de uma economic de enclaves, de
perfil colonial. Governos de direita ou de
esquerda, se aceitamos essa classifica-
Fio de palanque, nao tocaram nos ner-
vos da fera: uma maquina de produzir
voltada para fora, que se alimenta da sei-
va da natureza e do home da base ter-
ritorial que ocupou para o lancamento
alem-mar das riquezas locais. Em Belem,
por exemplo, essa tendencia se manteve
a mesma ao long da decada, com tres
ligeiros superavits anuais no period, que
pouco influiram no placar final: 31 mil
postos de trabalho a menos entire 1990 e
1999 na Grande Belem.
Para poder enfrentar o monstro, e pre-
ciso primeiro conhec-lo bem. Isto requer
dados quantitativos e qualitativos seguros
e suficientes, mais do que o Dieese tern
podido fornecer, resistindo a sabotage
de avestruzes travestidas de tucanos.


Homenagem duvidosa


Mauricio Tragtenberg foi o professor
que todas as pessoas inteligentes gostari-
am de ter. Em uma inica aula ele fazia
indicac6es bibliograficas ou dava orien-
taq6es tematicas cor as quais se podia
economizar tempo e ganhar em conheci-
mento, seguindo a trilha de suas pistas.
Ter lido muito, memorizado informac6es
e acumulado interpreta6oes o tornavam
uma biblioteca ambulante, ao alcance de
seus alunos e amigos. Conversar com ele
fora de aula, numa livraria ou num bote-
co, se o interlocutor fosse bor provoca-
dor, equivalia a um curso inteiro.
Mauricio foi um dos homes mais
cultos que tive o privil6gio de conhecer,
primeiro como seu aluno na Escola de
Sociologia e Politica, depois como par
(gragas a concessdo de sua tolerdncia


democratic) nas tertilias comandadas
por Raul e Pereira (este, um autentico
personages de Antonio Tabucchi) na
Livraria de Ciencias Humanas da rua 7
de Abril, em Sao Paulo, dos idos de
1969 a 1974.
Por isso, me lancei com sofreguidio
sobre Menmrias de um autodidata no
Brasil (co-edigdo Escuta/ Unesp/Fapesp,
1999, 134 paginas). O livro, publicado
depois da more de Mauricio, e a ediCgo
de entrevista que ele deu ao Centro de
Mem6ria Sindical, em 1983. Mas os en-
trevistadores se restringiram : formacao
e militdncia political de Mauricio, ao seu
period do anarquismo ao comunismo
(voltaria criativamente ao ponto de parti-
da ja na alta maturidade).
A atividade de professor e pensador,


que garante sua presenqa na hist6ria bra-
sileira, ficou em segundo piano. Corn
isso, o livro perdeu a forca que teria se a
entrevista focalizasse principalmente a
fecundidade intellectual do grande pro-
fessor de ciencia political e um dos mais
importantes estudiosos no Brasil do fe-
n6meno da burocratizaqao do mundo. E
o caso em que a boa intenqco na origem
nao garante a qualidade do resultado.
O livro nao se aproveita da t6cnica da
conversa, uma das melhores formas de
abordar o autor, nem das qualidades de
seu autodidatismo, que expurgou pre-
conceitos e viseiras de sua mente. Os
alunos e amigos de Mauricio Tragten-
berg continuam a espera de uma ho-
menagem mais compativel cor o que o
mestre fez e representou.







6 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE FEVEREIRO/2000


Perdao
Estou muito estressado, diagnosti-
cou meu m6dico, receitando f6rias ime-
diatas. Tenho muitos motives para nao
discordar da sentenga e nenhum para
deixar de cumpri-la, mas vejo-me obri-
gado a persistir na insubmissao.
Na edicgo passada, no artigo sobre
Charles Schulz, escrevi que as hist6ri-
as em quadrinhos foram consideradas
her6ticas "nos tr6s primeiros s6culos"
do s6culo XX. O atento leitor destejor-
nal logo deve ter percebido que minha
intencao foi escrever "nas tr6s primei-
ras d6cadas" entiree n6s, ate a minha
6poca de moleque, obrigado a ler gibis
escondido). Na Agenda Amazcnica,
escrevi 185 anos pensando nos 165
anos da incrivel Cabanagem.
Como, al6m de ser o redator solita-
rio, sou tamb6m o tnico revisor deste
jornalzinho, passei (mais uma vez) ba-
tido no erro. O esgotamento assume o
comando do c6rebro e provoca esses
curtos-circuitos, que sao sinais de aler-
ta ou alarme de que a maquina nao esta
indo bem. Os m6dicos detectam, fa-
zem a deduqCo 16gica, mas os rigores
da vida e nossa teimosia nos forgam a
continuar.
O colapso pode acontecer na for-
ma de sono repentino para os motoris-
tas que continuam a dirigir al6m da
conta recomendavel. E acabar num de-
sastre. Mas espero que, neste caso, s6


result em pecadilhos, que a generosi-
dade e tolerincia do leitor carimbarao
de venial, providenciando uma ligeira
pena reparadora. Prometo tentar ficar
mais atento. Mas nao garanto nao er-
rar. Mesmo porque, al6m de estar es-
tressado, continue a ser demasiada-
mente human.


Ao largo
Daniel Piza, o cover (ou clone?) de
Paulo Francis, garante na sua Sinop-
se da Gazeta Mercantil que "grande
parte dos intelectuais e bibli6filos que
pontificam por ai sobre a sacrossanti-
dade dos livros nio gosta de ler, mas
de dizer que gosta de ler".
Uma observagao inocente se Piza
estivesse falando em tese. Sabe-se
que nem todo colecionador de livro 6
tamb6m um leitor dos objetos in-fo-
lio que adquire, as vezes por mera
compulsao. Mas quando um jornalis-
ta afirma que nessa condigio encon-
tra-se "grande parte dos intelectuais
e bibli6filos que pontificam por ai",
formulando regras para o piblico, um
elementary compromisso professional
deveria obriga-lo a nomear as figures
nas quais esta pensando.
Bibli6filos tem uma certa franquia:
e melhor que colecionem livros do que
cachimbos ou cinzeiros. Livros sdo um
produto cor qualidade cultural (e hu-
mana) infinitamente superior. Ainda


que essas criaturas tenham perdido a
preciosa oportunidade de tomar con-
tato com o conteudo de suas admira-
das colec6es, elas prestam um valio-
so servigo, mesmo quando p6s-mor-
te: seus livros costumam reaparecer
em sebos e antiquarios. Em geral,
muito mais baratos do que se teria que
pagar numa compra original. O que
acaba por democratizar um pouco a
cultural.
Mas intelectuais ficam em outra
praia. E verdade: muitos falam, at6 de
catedra, sobre o que verdadeiramen-
te desconhecem. Falam de orelhada,
ou atrav6s de int6rprete e vulgariza-
dor. O mercado tern muito charlatdo,
cujo numero, entretanto, nao deve ser
tomado como desculpa para coniv6n-
cia. Se Piza sabe que nao sdo leitores
aqueles intelectuais que "pontificam
sobre a sacrossantidade dos livros",
deveria nomina-los e desossi-los, pre-
venindo seus efeitos nocivos, alertan-
do a opinido ptiblica, travando o com-
bate intellectual que constitui uma das
misses mais nobres do jornalismo
cultural.
Mas o neo-Francis quer, da matriz,
os louros somente. Nao os ossos.
Onde o original levaria a individualiza-
9qo ao paroxismo da delagqo, a c6pia
sublima a responsabilidade de ser ex-
plicito a estratosfera da metafisica de
pe de pagina de journal.
Coisas da globalizag~o?


-. j. ACartasi 'L


No intervalo de uma semana,
o jornalista Luiz Maklouf Car-
valho enviou as duas cartas que
public abaixo. Com isso, creio
que, ao menos por enquanto, es-
gota sua participagdo napresen-
te poldmica. De minha parte,
tambem evito voltar a me mani-
festar diante do espago que a
questdo jd consumiu deste JP.
Devo apenas acrescentar que
ndofiz qualquerjuizo pessoal a
respeito do aspect etico da po-
lemica entire Lula/Kucinski e
Maklouf por estar a distancia
dos fatos e ndo ter provas em
mdos. As informadoesfornecidas
pelojornalista paraense, porem,
sao realmente capazes defavo-
rec-lo nojogo das verses e dos
fatos. Independentemente da
avaliagdo que se faca sobre o
metodo utilizado para produzir
as reportagens, hd um element
decisive a considerar: elas ndo
foram desmentidas. Ou seja: re-
velaramfatos. Como elesforam
conseguidos, se deviam ou ndo


ser divulgados, se a divulgagdo
foi ou ndo oportuna, sefoi posi-
tiva ou negative para os envol-
vidos, sdo questaes seguintes. Po-
dem ate ser mais relevantes, mas
ndo desautorizam, nem ilegiti-
mam a materia verdadeiramente
(e limpamente) jornalistica da
qual se originaram, que Makloufj
escreveu.

Ao dizer que "enchi lingiiiqa"
em resposta a uma carta de
Lurian Lula da Silva, Bemardo Ku-
cinski voltou a mentir. Minha res-
posta, baseada em fatos, mostra
que Lurian contou uma versdo in-
teiramente mentirosa da entrevis-
ta que fiz com ela ha dez anos. De
resto ao lado da mde e da av6 -
como o provam as fotos do Jor-
nal do Brasil -, tudo devidamen-
te autorizado e dentro do mais
absolute rigor 6tico. Em nenhum
moment usei o argument de que
estava escrevendo um livro ou
coisa que o valha. A entrevista
foi dada para o Jomal do Brasil


com grande entusiasmo pr6prio
de uma garota que a partir de en-
tdo estaria livre de esconder a his-
t6ria sobre o pai famoso. Na oca-
siao, o jornalista Ricardo Kots-
cho, amigo e entao assessor de
Lula, deixou-me uma carta corn
elogios a "belissima materia". Te-
nho-a em maos. A verso menti-
rosa que Lurian agora conta, dez
anos depois (!!!),jamais foi levan-
tada por quem quer que seja, in-
cluindo Lula. Entendo que este
novo e dircitoso Berardo queira
mostrar serving ao seu novo pa-
trio, o ex-operario e important
lider politico Luis Inacio. Melhor
faria se pudesse desmentir, corn
fatos, as reportagens que fiz, in-
cluindo a iltima, na Folha de S.
Paulo, quando demoli parte da
versao de Lula para a compra de
seu apartamento e cobertura em
Sao Berardo do Campo (ainda
obscure, diga-se de passagem.
Como nao pode o PT de Lula
nunca sequer me processou, eja-
mais derrubou qualquer mat6ria


que eu tenha feito -, como ndo
pode, dizia, mete-se a mentir. Ja
dei em Bernardo os pux6es de
orelha que ele merece. Aqui vai
mais um, a ver se cria vergonha.

iquei embatucado cor seu
artigo "Desafio Democrati-
co" no JP 225. E que no paragra-
fo seguinte Aquele em que me cita
como alvo da censura de Lula no
program Roda-Viva, voce fala em
"oponente com antecedentes de
indignidade" e "jogo baixo".
Como este paragrafo trata do
mesmo assunto, o leitor desavi-
sado pode pensar que o tal indig-
no oponente possa ser eu. Nao o
sou,j esclarego, mesmo por 6b-
vio. E tenho certeza de que se
assim pensasse a meu respeito,
voce o diria cristalinamente, sem
o subterfigio do texto envieza-
do. A favor da clareza e da trans-
parencia, pero que publique este
esclarecimento no pr6ximo JP.
Muito obrigado.
Luiz Maklouf Carvalho






JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE FEVEREIRO/2000 7


Ha cinco anos Jarbas Passarinho estA sem
mandate politico. Sua ultima participagao numa
elei~go, em 1994, foi uma derrota, de certo modo
fragorosa porque nas pr6vias era o franco fa-
vorito e chegou a veneer Almir Gabriel no 1
turno para governador. As possibilidades de
voltar a political e ate a vida p6blica se exauri-
ram. Mas ele conseguiu uma faganha: ter seus
80 anos comemorados por gregos, troianos,
baianos e ate paraenses.
Fora do poder, o ex-goverador, ex-sena-
dor e ex-ministro em quatro administraq6es
federais constata que manteve um campo gra-
vitacional pr6prio. Pode tratar de esculpir seu
perfil final para a hist6ria, certo de que ela Ihe
reservara, em qualquer reconstituigao que for
feita, um lugar cativo. Lugar que se espraia da
planicie para o planalto, um feito raramente
alcangado pelos politicos que se confinam ao
norte do pais.
Passarinho sempre foi um home polkmi-
co, controversy. Jamais contara com unanimi-
dades e das que lhe foram oferecidas teria
sido melhor, no minimo, desconfiar. Certamen-


te porque foram fabricadas. Errou bastante e
deixou que em seu nome errassem bem mais
ainda. No entanto, tem um saldo favoravel no
seu curriculo. Nenhuma mancha indelevel o
enodoou, o que nao e pouco nesta nossa politi-
ca tao pouco republican, distant do melhor
sentido romano, da respublica.
Nem sempre o program ou a visAo ideol6-
gica que defended foram o que realmente prati-
cou. O fisiologismo, o clientelismo e o patri-
monialismo que contaminam a representaAgo
popular e, com ou sem ela, o exercicio do poder
no Brasil, algumas vezes fizeram do discurso
nada mais do que biombo para acordos e ser-
ventias personalizadas, fisiol6gicas mesmo.
Ainda assim, Passarinho foi um politico bern
acima da media, nem digo regional, mas nacio-
nal. Sabia do que estava falando. Nao discursa-
va apenas para esconder tratativas que abrevi-
assem o caminho para o estonteante poder, nem
atuava como um bisonho arlequim de podero-
sos interesses economicos (como ao que fre-
qOentemente se reduz o Congresso S/A).
Passarinho e fluente em duas linguas es-


Passarinho: uma


said honrosa


Amostra gratis


No dia 19 do mrs passado o secretario de
cultural do Estado, Paulo Chaves Femandes, in-
terpelou a reporter Carmem Passos, da Gazeta
Mercantil/Pard. Irritado, disse-lhe (como se tal
equivalesse a pecado ou crime) que a havia des-
mascarado como minha informant. A prova?
Alegou o secretario ter usado um estratagema
para produzi-la: dissera a jornalista que o Es-
tado teria um prejuizo mensal de 150 mil a 180
mil reais cor a operacqo da Estagao das Docas,
a maior das obras da cintilante carreira de Pau-
lo Chaves, no valor aproximado de R$ 20 mi-
lhoes, cor inauguraqgo prevista (depois do
segundo adiamento) para abril.
S6 que a informaqAo seria falsa. Foi dada
apenas para que ajomalista a repassasse para
mim, revelando a conexao -talvez- subterra-
nea (o que, se tivesse valor de prova, incluiria
no rol varios outrosjornalistas cor os quais
costume conversar, referencias valiosas para
este pobre jornalista, que nao pode estar em
todos os events, sobretudo nos oficiais).
O raciocinio de PC Femandes nao procede.
A informacao foi publicada na edigao local da
Gazeta do dia 3 de dezembro, em ampla mate-
ria de cobertura de uma visit de deputados
estaduais as obras da Estagao das Docas, pa-
trocinada pelo governor estadual (com a inten-
qgo de servir de antidote as materias aqui pu-


blicadas). Como a reportagem nAo foi desmen-
tida ou retificada, apesar de sua gravidade, to-
mei-a como verdadeira. Ou, se nao verdadeira,
da responsabilidade do secretario, que deu a
informaqco numa conversa gravada corn a jor-
nalista, da qual participou tamb6m um rep6r-
ter de A Provincia do Para (dois jornalistas
num mesmo ato exclui a hipotese de conversa
emoff).
Como nao estive present a visit, ouvi os
interlocutores do secretario e a gravaqgo da con-
versa, alem de utilizar a informacao publicada
pela Gazeta. Fiquei surpreendido com a inicia-
tiva do secretario de admitir prejuizo que, no
espa9o de um ano, abrira um rombo de quase
R$ 2 milhbes nas contas publicas do Estado.
Isso, exatamente quando o govemador anuncia
um projeto para center as despesas do erario
(embora, as vezes, parecendo querer tira-las da
ponta do lento). Mas tomei-a como crivel. Afi-
nal, no Parque da Residencia, de proporqoes
bern inferiores a Estacgo das Docas, o deficit e
calculado em tomo de R$ 50 mil ao m&s.
Tudo indica que a informaqao fornecida
pelo secretario procede e que sua crescente
irritaqao corn a cobertura dada pela imprensa
ao seu megalomaniaco projeto decorrajusta-
mente da repercussao que o caso esta tendo,
fora do seu dominio. Nao s6 junto ao "publi-


co externo"(como diziam os epigonos na 6po-
ca do regime military mas dentro do pr6prio
govero, o publico interno" (que, numa ad-
ministracgo autocratica como a atual, costu-
ma ser a voz do dono e seus porta-vozes).
Criticas que podem ser relacionadas a uma
serie de providencias que estao culminando
cor o anuncio de licitaqgo public para a co-
mercializaqAo dos espaqos na (falsa)janela
tucana para o rio, embora pela via obliqua da
"organizaqao social" Pard 2000, uma legaliza-
da "agao entire amigos".
Mas admita-se que tenha sido um ardil a
attitude do secretario de divulgar o prejuizo
mensal do Estado de R$ 150/180 mil na Esta-
5ao das Docas, fraude montada para desmasca-
rar uma informant secret deste jomal. Para
alcanqar tal objetivo (na verdade, pagando um
mico), o secretario nao titubeou em enganar a
pr6pria sociedade. Sim, porque entire a infor-
macao publicada e seus interesses particulares,
milhares de pessoas alcangadas pela noticia de
fonte official pensam que o que um secretario
diz 6 coisa s6ria. Costuma ser assim numa Re-
publica. Nao e necessariamente assim numa mo-
narquia. Parece que temos a nossa, ao tucupi.
Pelo padrao PC Fernandes tem-se uma
amostra do govemo do qual ele faz parte como
figure de destaque. Ou abre-alas.


trangeiras, alem da sua (embora, a meu ver,
cor certa desatualizagao e empolamento no
trato do vernaculo national). Quer cor ele
conversa mais descontraidamente logo perce-
be no interlocutor um leitor sensivel do gran-
de Ea de Queiroz e talvez nao cor a mesma
vivacidade-de Anatole France. O mundo do
espirito e da cultural nao e, para ele, como a
bola para certos enfatuados de gabinete, inca-
pazes de um chute decent na redondinha (ges-
to que pode ser tornado como uma prova de
humanidade no pais do gingado). Passarinho
tem com as ideias uma intimidade rara entire
os seus, inclusive anfibios. Nos muitos offs
da vida, podia-se deixar as armas de lado e,
relaxados, discutir como dois series amantes
das artimanhas do cerebro.
Espero que agora Jarbas Passarinho tenha
tempo suficiente para ler, reler, voltar aos ar-
quivos, abrir os que estao bloqueados e, sem
o cutelo do poder, estar em condicqes de dar a
sua experiencia e a sua inteligencia o uso que
a political bloqueou ou comprometeu. O pri-
vilegiado descanso do guerreiro que a hist6ria
lhe concede, aos 80 anos, 6 um premio que
talvez ele nem tenha buscado, mas que mere-
ceu. Portanto, que faqa bom uso dessa opor-
tunidade quase unica para politicos que dei-
xaram uma marca atras de si: de sair do poder
pelas pr6prias pernas. Corn a cabeca numa
posicgo que lhes permit ver sem desconforto
a fimbria do horizonte.








Retorno (1)
Agora que o encanto (manti-
do a peso de ouro, atraves de ver-
ba publicitaria) esta acabando, a
prefeitura comeCa a sentir na pele
o que 6 sofrer ojoralismo de en-
comenda de O Liberal, com ten-
d&ncia a piorar a media que a elei-
go for se aproximando. A edicgo
83 do boletim Belem em rede, da
PMB, observa que uma das man-
chetes da primeira pagina de O
Liberal do dia 29 ("Trdnsito ma-
tou durante o anopassado 5.073
s6 em Belem ") "estava em total
descompasso corn a reportagem
em questao.
A mat6ria mostrava que o au-
mento de 28% de mortes no tran-
sito ocorreu na Regiao Metropo-
litana de Belem, que abrange os
municipios de Ananindeua, Ma-
rituba e Santa Barbara. Um pe-
queno trecho da mat6ria, escon-
dido no terceiro paragrafo, infor-
ma que apenas no municipio de
Belem vem ocorrendo 'uma redu-
cao progressive nos uiltimos tres
anos'. Continue o texto: 'Nas 12
mais perigosas avenidas a queda
foi significativa, registrando me-
nos 27% em acidentes'".
Depois de declarar em palan-
que que acabaria cor o imperio
dos Maiorana em Bel6m, dois
anos depois Edmilson Rodrigues
foi em pessoa ao reveillon da fa-
milia. Mas a entente era apenas
um acerto de conveniencias, ban-
cado pelo erario. Agora comeqam
a retomar a antiga attitude de mu-
tua hostilidade.

Retorno (2)
No dia seguinte, o boletim da
prefeitura na internet voltou a
defesa (por enquanto considera-
da o melhor ataque), corn a se-
guinte nota:
"Uma equipe dojoral O Li-
beral esteve hoje pela manha na
area da rua Generalissimo Deo-
doro cor a rua Caripunas. Segun-
do os moradores, eles estavam la


Cai
A juiza Hind Ghassan Kayath, da 2"
vara federal do f6rum de Bel6m, decla-
rou a incompet6ncia da justiga federal
local para apreciar a agio popular impe-
trada no ano passado pelo advogado Pa-
raguassu Eleres (ver Jornal Pessoal
212), contra a doagao de 412 mil hecta-
res de terras em Carajas a Companhia Vale
do Rio Doce. Segundo a juiza, a compe-
Stncia originaria sobre a questao, envol-
Svendo conflito de interesses entire a Uniao
e o Estado do Para, e do Supremo Tribu-


para mostrar a falta de limpeza
no canal, mas se depararam com o
trabalho de rotina que 6 feito por
uma equipe de trabalhadores da
Secretaria Municipal de Sanea-
mento. Com certeza isso nao sai-
ra publicado amanhA".

Lag
Ha dois anos os Amigos da
Terra, uma das mais importantes
ONGs do mundo, mantem oAma-
z6nia Papers. Trata-se de "uma
serie de breves monografias sobre
temas relevantes para as political
publicas na regido amaz6nica, rea-
lizadas com o objetivo de manter
atualizados observadores e toma-
dores de decisao, tanto no Brasil
quanto no exterior". O nimero tres
da publicacgo reproduz materia de
capa da nossa Agenda Amaz6nica
sobre os grandes projetos da Ama-
z6nia. Esse texto, alias, ja integra
os anais do Senado, por solicita-
q5o do senador Tido Viana, do PT
do Acre, que classificou o artigo
de "obra memoravel".

Inercia
A PEA (Populaqco Economi-
camente Ativa) official do Para, de
1,2 milhao de pessoas, 6 mal cal-
culada. Nao inclui a populacqo ru-
ral, que represent 48% do contin-
gente populacional do Estado (a
populaqao rural paraense 6, pro-
porcionalmente, a segunda maior


rajas
nal Federal, para o qual solicitou a remes-
sa dos autos, ji volumosos.
Kayath ndo apreciou o m6rito da questao,
mas manifestou o entendimento de que, em-
bora a acgo popular seja de autoria individual,
o Estado 6 o titular do direito substantial que
Paraguassu consider ter sido lesado quando
a Unido cedeu a area, na provincia mineral
de Carajas, contrariando norma constitucio-
nal e causando prejuizo ao Para. Ele quer
cancelar o registro de im6veis em favor da
CVRD sobre os 412 mil hectares.


do pais, abaixo apenas do Mara-
nhao, um produto dos projetos de
impact implantados no interior).
O Dieese a estima em quase o do-
bro, 2,3 milh6es de pessoas. A falta
de uma metodologia adequada acar-
reta a perda annual de quase tres
milh6es de reais de verbas federais
para a qualificacgo professional.
Sera que nio 6, mesmo visto ape-
nas deste angulo, um retorno mais
do que compensador?

Batismo
Vendo-se a insistencia dos
tecnicos municipais em falar no
cadastro "multifinalitario", base-
ado em sat6lite, que mudou a
base de calculo do IPTU, tem-se
a tentagao de rebatiza-lo. Para
muito-fin6rio.

Indio
O cacique Paulinho Payakan
cometeu crime comum, quase
oito anos atras, quando estu-
prou ajovem Leticia, em Reden-
c0o. Ele tinha plena consciencia
do que estava fazendo, embora
embriagado, em fungao de sua
larga experiencia no trato cor a
chamada sociedade envolvente,
incluindo o aspect sexual. Sua
mulher, Irekran, nio: a prote-
9Ao do Estatuto do Indio a al-
cangava, dado o seu grau de
"aculturaqio".
Condenado a seis anos de


prisdo, o lider da aldeia Aukre,
na reserve Kayap6, ainda esta
solto, apesar da ordem judicial,
mantida liminarmente no mns
passado pelo president do Su-
perior Tribunal de Justiqa. O
merito do recurso contra a con-
denaqao devera ser examinado
neste mes pela 5' Turma do STJ.
Se a condena9go de Payakan
for mantida, o crime continuara
a ser comum e, al6m disso, corn
franca reprovacao social. O ca-
cique, a despeito de toda a sim-
patia de parte da populaqao por
sua causa e por varias de suas
justas posiq~es, tera que se sub-
meter a decisao judicial. Seu caso
particular nao pode ser transfor-
mado numa questao etnica, an-
tropol6gica ou political, nem em-
brulhada nas plataformas da cau-
sa indigena para nao desgasta-la,
criando um privilegio odioso.
Ainda que, no fundo, ele es-
teja pagando um amargo preqo
por se ter tornado celebre, per-
dendo o control sobre sua per-
sonalidade, no plano individual
ha um grave dano a reparar. Os
amigos e aderentes tnm que ad-
mitir o erro da pessoa e se em-
penhar para atenuar ao maximo
sua reparaqao, alertas para a ve-
lha maxima de que errar 6 huma-
no, mas persistir no erro 6 estu-
pidez ou leviandade.
Talvez a liqao seja muito pro-
veitosa para o bravo cacique
kayap6.


Assinaturas
A.-ssinaturas do Jornal Pessoal
(R$ 15 a trimestral e R$ 30 a semestral) e da
Agenda Amaz6nica (R$ 18 a semestral)
S podem ser feitas atravbs dos telefones
241-7626 e 2237690.
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Journal Pessoal
Editor: LOcio FlIvio Pinto
Fones: (091) 241-7626 (fone-fax) e 241-7626 (fax)
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