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Journal Pessoal14 L U C O FLAVIO PIN T, O ANO XIII N2 228 1' QUINZENA DE FEVEREIRO DE 2000 R$ 20 . POLITICAL Process autodestrutivo A reeleicdo de Edmilson Rodrigues, candidate franco favorite nas privias para a prefeitura de Belem, pode estar comepando a ser comprometida. Ndo pelo combat dos adversdrios, mas por erros do prdprio prefeito. Isso estd assanhando os candidates em potential. Dependendo da evolupdo do "caso IPTU", eles podem chegar a conclusdo de que a vit6ria jd ndo e mais uma quimera. 9P prefeito Edmilson Rodrigues, favorite para se reeleger em outubro em Belem, ji tern um adversario de peso: 6 o prefeito Edmilson Rodrigues. Ele causa prejuizos a sua candidatura mais do que poderia imaginar qualquer dos inimigos. A nio ser que consiga re- vert&-la, a tendencia de fortalecimento do seu nome que estava em ascensao - vem se tornando declinante desde o aumento dos 6nibus acima do indice de inflagco, no ano passado, e, agora, com o reajuste do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). O desgaste visivel anima o aparecimento de novas candi- daturas e pode alterar o equilibrio de for- qas, antes pendendo francamente para o lado do PT. Mesmo cor todos os arguments da sua equipe, o prefeito poderia ter se ba- seado no estudo do Diesse (Departamen- to Intersindical de Estatisticas e Estu- dos S6cio-Econ6micos), tradicionalmente ) T5 "7p ^^ l 1lBl," i" 2 JOURNAL PESSOAL *ol QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2000 uma retaguarda petista, para ajustar o reajuste das tarifas do transport coleti- vo a realidade do poder de compra da populagao da capital, detentora de um dos maiores indices de desemprego e su- bemprego do pais. Dando aos rapaces donos de 6nibus um aumento de preco que e mais do que o dobro da inflacgo registrada durante o mandate da admi- nistracqo petista em Bel6m, Edmilson concede tamb6m poderosas armas aos antagonistas. Como acusa-lo de ser uma coisa na oposigCo e outra no poder, de haver renovado o pacto cor as empre- sas de 6nibus (que antes criticava) e de ser insensivel ao drama da populacao, sobretudo dos que ha cinco anos nao t6m qualquer aumento de salario. O epis6dio do IPTU, irritando mi- lhares de municipes, e outro mau exemplo. Em primeiro lugar, nenhum politico traditional se exporia a entre- gar aos contribuintes carn6s de impos- to que trazem embutidos aumentos es- tapafuirdios em plena temporada elei- toral. Deixaria esse trauma para o ano seguinte ou o anterior. Mas o PT se propoe a modificar os velhos pa- dr6es da political brasileira. Nessa circunstincia, deveria ser considera- da temeraria, mas coerente, a inicia- tiva do prefeito de colocar na rua um IPTU realista (ainda que, no caso es- pecifico de Bel6m, permitindo aos contendores sugerir que o aumento visa a formanao de caixa para obras eleitoreiras). O argument em favor da gestao municipal 6 de que nao poderia ser deixado pelo meio um program que ja custou caro aos cofres pflblicos e precisava ser concluido para ter con- seqti6ncias. A emissao das guias do IPTU tendo como base o novo ca- dastro "multifinalitario", elaborado a partir de informaraes obtidas de imagens de sat6lite, ap6s dois anos de preparacgo, atualizaria uma base defasada e comprometida por dados inconfiaveis. Um novo cadastro, afinado cor as t6cnicas mais modernas, era de fato uma necessidade, tanto para o poder p6blico, que precisa do just suporte para o desempenho das suas tarefas (o IPTU e a principal fonte de renda pr6pria do municipio), como para o contribuinte de boa fe (ao mesmo tem- po distinguindo-o do mau cidaddo, so- bretudo o de alta renda, cujo eterno vicio de sonegar ou ignorar o IPTU tern sido coonestado pela falta de profissi- onalismo na gestao desse tribute). Mas, al6m de a informanao do sat6lite exi- gir na checagem de campo um grau de efici6ncia similar, a mudanga na base de calculo impunha um paciente e didatico trabalho de esclarecimento pr6vio. O que a prefeitura nao fez. A implantaqgo do "novo IPTU" foi realizada no melhor estilo autocrata- tecnocrata, que o PT, quando apenas na oposigdo, tanto combateu. Um out- door espalhado As pressas pela cida- de, assim que a onda de protest e re- volta rompeu as comportas de conten- 95o, procura incutir nas pessoas que "quem ama Bel6m paga o IPTU". O publicitario por tras da mensagem de- via estar com a cabeqa tomada por aquela velhissima maxima de que o amor 6 cego. Nada e mais natural, entretanto, do que o cidadao querer saber porque e como aumentou o imposto que Ihe e cobrado. Se as aliquotas do tribute con- tinuam as mesmas, a base de calculo mudou. O PT, que queria former cida- daos conscientes, agora cobra enqua- dramento military dos seus municipes. Como se seus atos fossem soprados por um Espirito Santo secularizado, mas que exige dos suditos f6 absolute e nao razao relativizadora. Coisa de religiao profana, assim mesmo: antite- tica em seus terms. A intolerancia initial, de nao acei- tar recursos, de pei- tar a OAB/Para, de dar a imprensa de- clara6oes arrogan- tes, foi superada com excessive lentidao, permitindo aos ad- versarios explorer a insatisfa ao popular. Aceitando desde o inicio o debate, ex- pondo-se aos questionamentos, admi- tindo rever erros que evidentemente fo- ram cometidos em numerosos casos, a prefeitura teria evitado os desdobra- mentos politicos que ja se estabelece- ram (como a autoconvocaqao da CA- mara Municipal, e aco de inconstituci- onalidade na justiga, proposta pelo PDT) e, em certa media, tornaram-se independents da via administrative. Mas se as falhas sao comuns em todo empreendimento inovador, como o esta- belecimento do tal cadastro "multifinali- tario", capaz de eliminar de vez as frau- des e vicios que responded pela desmo- ralizaago do IPTU at6 a administracqo anterior, de Helio Gueiros (maquilada por uma campanha de pr6mios), num ponto a prefeitura esta em total desconforto: na cobranqa da taxa de limpeza pblica, que registrou casos de majoraqfo em 800%, atingindo em profundidade o bol- so do cidadao medio. A alegag~o de que as queixas sao apenas da classes m6dia e que 6 mais do que compensada pelo contraponto da populagao pobre, beneficiada pelo alargamento da faixa de isenqao, re- vela mais.uma vesguice do governor municipal. A amostragem montada cor base nas consultas feitas a OAB revelou que a lideranca da reaq~o es- teve com aposentados e dom6sticas, e que em 55% dos casos os prejudica- dos residem em dois bairros popula- res, o Jurunas (um dos menos benefi- ciados pela administracao petista) e o Guama. Atirar neles, com a certeza de con- tar com o apoio do "povao", pode ser a manifestagio de dois erros fatais. Um, social, ao ignorar o empobreci- mento da classes m6dia e seu reforga- do poder de influ6ncia social. Outro, tecnico, ao tomar como valor absolute a informacio da imagem de satelite, sem uma checagem de campo, que revelaria a subdivisao de um grande im6vel (com taxacao progressive, in- quinada de inconstitucional) por vari- os inquilinos (dentre os quais dom6s- ticas), no bem conhecido process de fragmentacio em parcelas do que foi, em 6pocas melhores, um domicilio unfamiliar. O esquema de utilizagAo do orCa- mento participation como um elo de coesao compuls6ria com a populacio de baixa renda pode ser anulado pelo efeito retroativo em cadeia dos aumen- tos dos 6nibus e do IPTU, agravando o desgaste do PT entire as camadas de renda m6dia, abrindo uma cunha nas faixas mais pobres e consolidando de vez a rejeiqao dos conservadores. Um desdobramento desse tipo afe- taria a candidatura de Edmilson Rodri- gues, servindo de atrativo para a mul- tiplicaago de novas opq6es. Sem um bom trabalho de rescaldo e uma nova estrat6gia de aqgo, a reeleigao de Ed- milson Rodrigues pode comecar a se desestabilizar e at6 perder a aura de franco favoritismo de que desfrutava at6 o final do ano passado. JOURNAL PESSOAL Ia QUINZENA DE FEVEREIRO/2000 3 0 vale-tudo pre-eleitoral Nao faz muito tempo (nem dois anos), o atual senador Luiz Otavio Campos cha- mava o deputado federal Vic Pires Fran- co de "robocop gay". A virul6ncia do ata- que tinha um motivo: Vic era o politico que mais fundamente atacava o gover- nador Almir Gabriel, embora tivessem sido correligionarios em passado nao tao remote que justificasse um antagonismo visceral. Ja a posiggo de Vic decorria do movimento pendular que seguiu, desde o rompimento com Romulo Maiorana Juni- or, o "cap" (como se diz nessas rodas) do grupo Liberal, um dos principals eixos de sustentagao da coligaggo formalmente comandada pelo governador. Vic termi- nou por se incorporar a impensavel (ate entio) alianga Jader Barbalho/Hl6io Guei- ros, embarcando na canoa do que fora seu inimigo politico da v6spera. Nos ultimos dias esses personagens tem sobressaltado a opiniao public corn o radical reembaralhamento de suas car- tas. Depois do lance teatral de romper cor seu partido, o PPB, o "senador do governador" anunciou que voltaria ao antigo ninho, no PFL. Para tanto, foi ao gabinete do cacique national do partido, o tamb6m senador Ant6nio Carlos Ma- galhaes. Os entendimentos foram esta- belecidos cor a aprovagao de Vie, um dos mais fortes nomes com que o PFL conta para a principal das disputes eleito- rais de outubro no Para. O outro nome forte para a dispute da prefeitura de Bel6m e um ex-inquilino da casa, Helio Gueiros. O ex-prefeito nao disse ate agora que e candidate. Mas tam- bem nao negou o desejo de ser candida- to. Estimulou Vic a ir em frente na sua campanha informal para a PMB. Mas jamais o homologou. Como sempre, sen- te a direcao dos ventos e a forga das cor- rentezas para decidir na und6cima hora o que Ihe 6 mais convenient. Talvez nao fosse o retorno de "Pepe- ca", como o "senador do govemador" 6 popularmente conhecido. Mas, conform diria, nao foi ouvido e nem cheirado por ningu6m do PFL que participa do novo e desconcertante arranjo, todos atraidos pela conquista de bandeja de mais um senador para o partido. Se o anuncio de desliga- mento do PPB foi iniciativa aut6noma de Luiz Otavio, a volta ao PFL 6 decisao que s6 poderia ser tomada a no minimo - quatro maos. As outras duas, as maiores, sendo as do govemador, naturalmente. Por que Almir mandaria "Pepeca" para a curul pefelista? Seria para resta- belecer a coligacao de 1994 (desfeita em 1998?), enlacando outra vez Helio Guei- ros? Ou incorporando o PFL, mas deslo- cando o ex-prefeito atraves de um golpe branco, dado de Brasilia? Nas duas hip6- teses, seria uma bem sucedida manobra para atacar dois coelhos ao mesmo tem- po: daria ao governador, finalmente, uma boa chapa para combater seu arqui-rival Edmilson Rodrigues ejogaria para escan- teio o PMDB de Jader Barbalho, enfra- quecendo-o mais ainda para o combat dos votos em 2002. Ainda que o preqo pudesse ser o risco de uma reaqio popu- lar, especialmente se o goverador e o prefeito de Belem aprofundarem a guer- ra doidivanas que estao travando, crian- do clima propicio para um terceiro nome (vivissimo, Duciomar Costa trata de plan- tar sua horta entire os descamisados). M as o bravo se- nador (em tese, hoje sem partido) parece ter recuado um pouco, deixando escapar bales de ensaio sobre a ultima forma: sua perman&ncia no PPB, a despeito dos vigorosos discursos que fez ao se declarar traido pelo comando do partido numa votacio em plenario contra Jader Barbalho (que, sentindo-se usado como instrument para a estrategia neo- tucana, colocou Luiz Otavio no caderi- nho preto, embora continue a se encon- trar com aparente cordialidade, naquela relacao de confianca que ha entire um prisioneiro e um carcereiro). Deve-se tal recuo a nao ter conseguido vingar uma chapa unica do grupo do goverador? A hip6tese talvez encontre reforqo na posiqao do grupo Liberal, de nao preten- der contribuir para o ressurgimento de Helio Gueiros, encaminhado ao arquivo depois da humilhante derrota que sofreu em 1998 para o senado, nem pavimentar o caminho de Vic Pires Franco para a principal prefeitura do Estado. Enquanto os entendimentos Vic-"Pepeca" evolui- am em Brasilia, a prudent distancia das bases locais, Rominho Maiorana mandou dizer que o candidate da casa seria o tam- bem ex-prefeito Sahid Xerfan (sogro de Roberta Maiorana), no estaleiro ha alguns anos e na declividade desde que negou a si mesmo para apoiar Socorro Gomes, do Partido Comunista do Brasil, candidate de emergencia de Jader para a prefeitura de Belem. Com o aviso, uma orientagao para os veiculos do grupo comeqarem a bater mais fire em Edmilson Rodrigues, cri- ando nesse vacuo inspiragao para a volta do salvador com botas. O govemador s6 esta disposto a ir d luta contando cor os canhoes midiaticos do grupo Liberal, a sustentagao de papel & eletr6nica que compensa sua fragili- dade estrutural. Aceitara Xerfan ou ten- tara vializar outro nome? De qualquer maneira, nao havendo uma frente unica, talvez deixe de se former uma alianga reunindo no mesmo saco de gatos Almir, os Maiorana, o PFL, H6lio Gueiros e to- dos os aderentes em torno de um nome que poderia ser o de Vic Pires Franco. Inclusive porque o grupo Liberal nao deu resposta positive a sedugao proposta pelo deputado pefelista atrav6s da desistencia da acao popular que props contra o "con- venio" de 12 milh6es de reais TV Libe- ral/Funtelpa (e que pode ter delimitado o fim da alianga PMDB/PFL). Se o desdobramento dos fatos seguir essas premissas, a esbogada frente geral contra o PT e Jader Barbalho (num alvo unico, ainda que estejam num acordo ape- nas tacito, desmanchavel a qualquer mo- mento) ira se fragmentar. Vic Pires Franco ou Helio Gueiros poderao sair candidates mesmo sem essa alianca maior, incorporan- do quem quiser segui-los (aos dois ou a um so, unidos ou rompidos), o que ndo exige maior energia, ja que program de partido nao existe e a mem6ria 6 desativada em epoca de arranjo eleitoral. Jader podera sacar do colete um nome para representa- lo na dispute, procurando prevenir-se para o risco de uma nova goleada. E tertius, como o ja em campanha Duciomar Costa, poderao colocar suas imagens para fora dos panos, apostando que uma zebra tera past propicio para engordar. 4 JOURNAL PESSOAL l QUINZENA DE FEVEREIRO/ 2000 TV Liberal: o preqo da conveniencia At6 o dia 2 o deputado federal (do PFL) Vic Pires Franco no juntou no cart6rio da 21" vara civel do f6rum de Bel&m a sua desistencia da a~go popular, que impetrou hi mais de dois anos, para anular o contrato entire a FundaqFo de Telecomunicaq es do Para e a TV Liberal (ver Jornal Pessoal 226). Ha mais de duas semanas essa desistencia vem sendo anunciada atraves de notas em alguns 6rgaos da imprensa. O pr6prio deputado comunicou tal disposiqao ao senadorJader Barbalho, que foi um dos mais estimuladores da iniciativa (ainda mais atraen- te porque o poupava de vir a ribalta). Nas notas e na conversa mantida em Brasi- lia cor o president national do PMDB, Vic teria dito que seu ato decorre de motivess de foro intimo". Nao entrou em detalhes. Mas nao e dificil concluir que tenta impressionar a fa- milia Maiorana e conseguir apoio para sua can- didatura a prefeitura de Belem. A acgo popular provocou furor entire os donos do grupo Libe- ral, beneficiados por um "convenio" que Ihes possibility, simultaneamente, utilizar a rede da Funtelpa de retransmissao em terra de imagens O governor do Estado deixou para a tlti- ma hora a comercializaq o dos espaqos da Esta9~o das Docas, cuja construqao foi ini- ciada em 1997. Pressionado pelas critics a obra, o secretario de cultural, Paulo Chaves Fernandes, deixou de impor do trono sua vontade imperial, que era construir, deco- rar, mobiliar e dar destinagAo i sua maior criatura, para tanto ignorando o public em geral. Foi-lhe lembrada a lei, o interesse so- cial, a economic e outros detalhes que certa- mente deve considerar irrelevantes. Mas nao se deu por achado: em ritmo alucinante, procurou (e encontrou) uma va- riante para nao se submeter is normas apli- caveis aos pobres morais. Juntou amigos e subordinados na "organizaqao social" Pard 2000. Providenciou a qualificaqgo da enti- dade como representante do Estado para administrar "um dos mais belos projetos do mundo". Colocou na praqa um edital mi- nucioso, detalhista, exigente, pesado. S6 quem pagasse alto, nao entendesse do ramo, aceitasse jogar no escuro ou tivesse informarges privilegiadas poderia entregar aos delegados-do-govemo-para-a-estaq o- das-docas no prazo de uma semana. O espanto geral forqou a dilataqCo do prazo por mais uma semana (vencendo nos de satelite,alcanqando todo o Estado, e ainda faturar 200 mil reais todo mes, ao long de cin- co anos. 0 "convenio" (na verdade, um contra- to) foi considerado lesivo ao interesse public em parecer de um auditor do Tribunal de Con- tas do Estado, onde o exame da materia foi sus- tado por causa do ajuizamento da aqgo. Os autos do process foram retirados do cart6rio da 214 vara em 27 de dezembro do ano passado e ainda nao foram devolvidos pelo ad- vogado de Vie, Marcos Solino. Contatado cin- co vezes para se manifestar, o advogado nao devolveu as ligacqes. Quando encontrado em seu escrit6rio, alegou estar em reunido para nao tender o telefone. O prazo legal terminou,mas o advogado continuou retendo os autos. Nem atraves do seu representante legal, nem direta- mente, o deputado nao apresentou o pedido de desistencia. Quando (e se) isso ocorrer, ojuiz R6mulo Nunes adotara duas provid6ncias: remetera o process para o Minist6rio Publico se mani- festar e determinara a publicaqao de edital no- tificando o public da desistencia. Qualquer dias 14 e 15).Mesmo cor a prorrogag9o, a execuqCo a s6rio das exigencias do edital (definido conforme a natureza da destina- 9go) temeraria e incerta. Se todos os 50 espagos forem ocupados, em breve havera quebradeira. Se nao forem, o triunvirato designado para a tarefa podera expedir con- vites a quem for considerado habilitado. Nao e improvivel que eles constem do ca- derninho do secretArio. Quem passar pela seleq o, s6 vai ter abrigo contratual pelo tempo do mandate dos atuais gestores. Eles sabem que, tendo criado uma obra extremamente personalizada, a ima- gem do dono (se uma obra public pudesse ter dono que nao o povo), 6 bem provivel que a administragao seguinte, se nao for controlada pelo mesmo grupo,podera alte- rar todas as regras estabelecidas. Ou mes- mo atirar ao limbo (se nao a enderego mais desgastente) a deslumbrante obra de PC Chaves. Certamente destiny ingl6rio e ime- recido para algo que, de qualquer maneira, originou-se no erario. Mas correspondent ao ato que estamos a testemunhar: uma ex- crecencia autocritica em plena era republi- cana. Como se a Estag9o das Docas fosse um brinquedo do bric-a-brac do genial ar- quiteto e sua corte. pessoa podera se habilitar a prosseguir na a9ao (um advogado, na condigao de cidadao, j con- versou informalmente cor ojuiz para mani- festar a intengAo de substituir o parlamentar, caso ele realmente se afaste da aq o). Recom- posta a titularidade, a a9ao prosseguira no ini- cio do pr6ximo mrs, com a primeira audiencia. Se quiser, ojuiz podera convocar o deputado pefelista para depor como testemunha, mesmo que ele tenha said do caso. A pessoa que substituir Vic Pires Franco tambem podera cobrar sua responsabilidade civil. Uma fonte dojudiciario considerou "des- respeitosa" a attitude do deputado dejustificar a desistencia como "motivo de foro intimo". Segundo essa fonte, a principal razdo para o juiz R6mulo Nunes negar de imediato a sus- pensao do contrato Funtelpa/TV Liberal, soli- citada em liminar por Vic, foi sua "percepqco de que o m6vel da aqgo era politico". Ojuiz preferiu solicitar informaiqes, obtidas atraves de varias pericias, para fundamental sua deci- sao sobre a demand. "Agora, de forma quase graciosa, o deputa- do vem dizer que sai do process por foro inti- mo. Isso nao pode", observou a fonte, argu- mentando que o aparelho dojudicidrio foi mo- bilizado para deslindar questao complex "e, se quer sair, o que e direito seu, o deputado precisa explicar-se". Prosseguindo a ag9o, o pr6priojuiz R6mulo Nunes podera inquirir o parlamentar a respeito. Se por acaso vier a ser declarado litigante de ma fe, no encerramento da aFio, Vic podera ser acionadojudicialmente. Se provocou impact no reduto peemede- bista, a parte que mais vivamente vem acom- panhando a tramitagFo do process (se 6 que pode-se falar em simples acompanhamento para definir empenho que vem desde a propositura da ag o popular), o ato de boa vontade de Vic Pires Franco ainda nao Ihe rendeu todos os di- videndos que ele buscava junto aos Maiorana. O index, que o excluia completamente do noti- ciario dos veiculos de comunicaclo do grupo, foi suspense. Mas Vic nao e o candidate da casa a PMB. Nem goza de nenhum privilegio em materia de tratamento editorial. Exceto se a reciprocidade s6 passe a ter valor a partir da oficializagqo da desistencia, a condenacAo ex- pedida por Dea Maiorana, a maior acionista da corporag o, continue prevalecendo. Essa cir- cunstancia talvez explique a demora do depu- tado de passar da promessa aos atos. Enquan- to isso, crescem os boatos sobre negociaClo de bastidores, referendando ou tentando brecar a desistencia. Coisas tipicas de um foro intimo de conveniencia-tanto para fazer como para deixar de fazer. A e.S606oi- dori JOURNAL PESSOAL 1P QUINZENA DE FEVEREIRO/2000 5 Desemprego: quadro e desalentador Ha no Pard 420 mil pessoas desem- pregadas. Para uma populaqao total de 5,6 milh6es de habitantes,ja e um nume- ro impressionante. Mas quando se tern como referencia a PEA (Populaqdo Eco- nomicamente Ativa) official, com 1,2 mi- lhao de pessoas, e uma catastrofe: a pro- pordao de desempregados chega a 40%. Mesmo considerando-se uma PEA ex- tra-oficial (mas bem mais ajustada a rea- lidade), de 2,3 milhoes de pessoas, o indi- ce de desemprego, de 20%, ainda bate no nervo exposto da nossa pobreza. Os nimeros divulgados na semana passada pelo Dieese (Departamento In- tersindical de Estatisticas e Estudos S6- cio-Econ6micos) sao de arrepiar o cabe- lo. Percebe-se que a consolidaqdo de al- gumas das estatisticas 6 obtida a forceps. Desde dezembro de 1998, quando o go- vero do Estado unilateralmente retirou- se da coleta conjunta de informaq6es, obter dados primarios se tornou ainda mais dificil. Talvez algum autocrata que inspirou a media se iluda achando que suprimir ou minar os levantamentos so- bre o emprego seja a maneira de evitar que a dura realidade se apresente. Se pensou dessa maneira, enganou-se: o Di- eese subsiste na tarefa her6ica de mos- trar a gravidade do desafio que se impoe cor peso cada vez maior sobre parcelas dominantes da sociedade: sobreviver. Mesmo sujeito a uma ou outra varia- qao ou contestagqo, os quadros estatisti- cos divulgados pelo Dieese revelam a derrota do Pard na luta pelo seu desen- volvimento. Mais da metade das pessoas que tnm renda no Estado ganham no maximo um salario minimo, comprome- tendo 80% do seu ganho liquid com um unico item de despesa: a alimentaiao. A perspective de melhoria da vida atra- ves do trabalho 6 desalentadora: o desem- prego se expand exatamente nos seto- res produtivos que mais tem capacidade germinativa e mais absorvem mao-de- obra, como a construqao civil, a industria de transformagio e os serviqos. Isto sig- nifica que a economic estadual nao con- segue se estruturar na base, nem recu- pera dinamismo pelo topo das atividades. Nao se desenvolve pelas vias tradicionais (substituifao das importaqbes, verticali- zagao da produgao), nem se renova pelo setor terciario, o dos services, que tern sido a soluqco inovadora para economies intermediarias. A situaqao em Belem talvez seja ain- da mais grave do que na media do Esta- do. A PEA da capital e estimada em 720 mil pessoas. O Dieese calcula que haja na Grande Belem (com algo entire 1,5 milhao e 1,7 milhao de habitantes) 140 mil desempregados. O mercado informal atin- ge o dobro: 280 mil pessoas. A atividade produtiva regular, portanto, s6 abrange 40% das pessoas aptas a produzir. Na decada de 90 praticamente todos os se- tores econ6micos desempregaram na principal cidade do norte do pais. Quem fala em cidade das luzes esta pensando no poder manipulador da propaganda. Quem acha que Belem se transformou numa Calcuta tardia ve a realidade. Uma attitude de avestruz jamais con- seguira inverter essa tend6ncia de decli- nio do emprego regular, just e remune- rador de uma economic de enclaves, de perfil colonial. Governos de direita ou de esquerda, se aceitamos essa classifica- Fio de palanque, nao tocaram nos ner- vos da fera: uma maquina de produzir voltada para fora, que se alimenta da sei- va da natureza e do home da base ter- ritorial que ocupou para o lancamento alem-mar das riquezas locais. Em Belem, por exemplo, essa tendencia se manteve a mesma ao long da decada, com tres ligeiros superavits anuais no period, que pouco influiram no placar final: 31 mil postos de trabalho a menos entire 1990 e 1999 na Grande Belem. Para poder enfrentar o monstro, e pre- ciso primeiro conhec-lo bem. Isto requer dados quantitativos e qualitativos seguros e suficientes, mais do que o Dieese tern podido fornecer, resistindo a sabotage de avestruzes travestidas de tucanos. Homenagem duvidosa Mauricio Tragtenberg foi o professor que todas as pessoas inteligentes gostari- am de ter. Em uma inica aula ele fazia indicac6es bibliograficas ou dava orien- taq6es tematicas cor as quais se podia economizar tempo e ganhar em conheci- mento, seguindo a trilha de suas pistas. Ter lido muito, memorizado informac6es e acumulado interpreta6oes o tornavam uma biblioteca ambulante, ao alcance de seus alunos e amigos. Conversar com ele fora de aula, numa livraria ou num bote- co, se o interlocutor fosse bor provoca- dor, equivalia a um curso inteiro. Mauricio foi um dos homes mais cultos que tive o privil6gio de conhecer, primeiro como seu aluno na Escola de Sociologia e Politica, depois como par (gragas a concessdo de sua tolerdncia democratic) nas tertilias comandadas por Raul e Pereira (este, um autentico personages de Antonio Tabucchi) na Livraria de Ciencias Humanas da rua 7 de Abril, em Sao Paulo, dos idos de 1969 a 1974. Por isso, me lancei com sofreguidio sobre Menmrias de um autodidata no Brasil (co-edigdo Escuta/ Unesp/Fapesp, 1999, 134 paginas). O livro, publicado depois da more de Mauricio, e a ediCgo de entrevista que ele deu ao Centro de Mem6ria Sindical, em 1983. Mas os en- trevistadores se restringiram : formacao e militdncia political de Mauricio, ao seu period do anarquismo ao comunismo (voltaria criativamente ao ponto de parti- da ja na alta maturidade). A atividade de professor e pensador, que garante sua presenqa na hist6ria bra- sileira, ficou em segundo piano. Corn isso, o livro perdeu a forca que teria se a entrevista focalizasse principalmente a fecundidade intellectual do grande pro- fessor de ciencia political e um dos mais importantes estudiosos no Brasil do fe- n6meno da burocratizaqao do mundo. E o caso em que a boa intenqco na origem nao garante a qualidade do resultado. O livro nao se aproveita da t6cnica da conversa, uma das melhores formas de abordar o autor, nem das qualidades de seu autodidatismo, que expurgou pre- conceitos e viseiras de sua mente. Os alunos e amigos de Mauricio Tragten- berg continuam a espera de uma ho- menagem mais compativel cor o que o mestre fez e representou. 6 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE FEVEREIRO/2000 Perdao Estou muito estressado, diagnosti- cou meu m6dico, receitando f6rias ime- diatas. Tenho muitos motives para nao discordar da sentenga e nenhum para deixar de cumpri-la, mas vejo-me obri- gado a persistir na insubmissao. Na edicgo passada, no artigo sobre Charles Schulz, escrevi que as hist6ri- as em quadrinhos foram consideradas her6ticas "nos tr6s primeiros s6culos" do s6culo XX. O atento leitor destejor- nal logo deve ter percebido que minha intencao foi escrever "nas tr6s primei- ras d6cadas" entiree n6s, ate a minha 6poca de moleque, obrigado a ler gibis escondido). Na Agenda Amazcnica, escrevi 185 anos pensando nos 165 anos da incrivel Cabanagem. Como, al6m de ser o redator solita- rio, sou tamb6m o tnico revisor deste jornalzinho, passei (mais uma vez) ba- tido no erro. O esgotamento assume o comando do c6rebro e provoca esses curtos-circuitos, que sao sinais de aler- ta ou alarme de que a maquina nao esta indo bem. Os m6dicos detectam, fa- zem a deduqCo 16gica, mas os rigores da vida e nossa teimosia nos forgam a continuar. O colapso pode acontecer na for- ma de sono repentino para os motoris- tas que continuam a dirigir al6m da conta recomendavel. E acabar num de- sastre. Mas espero que, neste caso, s6 result em pecadilhos, que a generosi- dade e tolerincia do leitor carimbarao de venial, providenciando uma ligeira pena reparadora. Prometo tentar ficar mais atento. Mas nao garanto nao er- rar. Mesmo porque, al6m de estar es- tressado, continue a ser demasiada- mente human. Ao largo Daniel Piza, o cover (ou clone?) de Paulo Francis, garante na sua Sinop- se da Gazeta Mercantil que "grande parte dos intelectuais e bibli6filos que pontificam por ai sobre a sacrossanti- dade dos livros nio gosta de ler, mas de dizer que gosta de ler". Uma observagao inocente se Piza estivesse falando em tese. Sabe-se que nem todo colecionador de livro 6 tamb6m um leitor dos objetos in-fo- lio que adquire, as vezes por mera compulsao. Mas quando um jornalis- ta afirma que nessa condigio encon- tra-se "grande parte dos intelectuais e bibli6filos que pontificam por ai", formulando regras para o piblico, um elementary compromisso professional deveria obriga-lo a nomear as figures nas quais esta pensando. Bibli6filos tem uma certa franquia: e melhor que colecionem livros do que cachimbos ou cinzeiros. Livros sdo um produto cor qualidade cultural (e hu- mana) infinitamente superior. Ainda que essas criaturas tenham perdido a preciosa oportunidade de tomar con- tato com o conteudo de suas admira- das colec6es, elas prestam um valio- so servigo, mesmo quando p6s-mor- te: seus livros costumam reaparecer em sebos e antiquarios. Em geral, muito mais baratos do que se teria que pagar numa compra original. O que acaba por democratizar um pouco a cultural. Mas intelectuais ficam em outra praia. E verdade: muitos falam, at6 de catedra, sobre o que verdadeiramen- te desconhecem. Falam de orelhada, ou atrav6s de int6rprete e vulgariza- dor. O mercado tern muito charlatdo, cujo numero, entretanto, nao deve ser tomado como desculpa para coniv6n- cia. Se Piza sabe que nao sdo leitores aqueles intelectuais que "pontificam sobre a sacrossantidade dos livros", deveria nomina-los e desossi-los, pre- venindo seus efeitos nocivos, alertan- do a opinido ptiblica, travando o com- bate intellectual que constitui uma das misses mais nobres do jornalismo cultural. Mas o neo-Francis quer, da matriz, os louros somente. Nao os ossos. Onde o original levaria a individualiza- 9qo ao paroxismo da delagqo, a c6pia sublima a responsabilidade de ser ex- plicito a estratosfera da metafisica de pe de pagina de journal. Coisas da globalizag~o? -. j. ACartasi 'L No intervalo de uma semana, o jornalista Luiz Maklouf Car- valho enviou as duas cartas que public abaixo. Com isso, creio que, ao menos por enquanto, es- gota sua participagdo napresen- te poldmica. De minha parte, tambem evito voltar a me mani- festar diante do espago que a questdo jd consumiu deste JP. Devo apenas acrescentar que ndofiz qualquerjuizo pessoal a respeito do aspect etico da po- lemica entire Lula/Kucinski e Maklouf por estar a distancia dos fatos e ndo ter provas em mdos. As informadoesfornecidas pelojornalista paraense, porem, sao realmente capazes defavo- rec-lo nojogo das verses e dos fatos. Independentemente da avaliagdo que se faca sobre o metodo utilizado para produzir as reportagens, hd um element decisive a considerar: elas ndo foram desmentidas. Ou seja: re- velaramfatos. Como elesforam conseguidos, se deviam ou ndo ser divulgados, se a divulgagdo foi ou ndo oportuna, sefoi posi- tiva ou negative para os envol- vidos, sdo questaes seguintes. Po- dem ate ser mais relevantes, mas ndo desautorizam, nem ilegiti- mam a materia verdadeiramente (e limpamente) jornalistica da qual se originaram, que Makloufj escreveu. Ao dizer que "enchi lingiiiqa" em resposta a uma carta de Lurian Lula da Silva, Bemardo Ku- cinski voltou a mentir. Minha res- posta, baseada em fatos, mostra que Lurian contou uma versdo in- teiramente mentirosa da entrevis- ta que fiz com ela ha dez anos. De resto ao lado da mde e da av6 - como o provam as fotos do Jor- nal do Brasil -, tudo devidamen- te autorizado e dentro do mais absolute rigor 6tico. Em nenhum moment usei o argument de que estava escrevendo um livro ou coisa que o valha. A entrevista foi dada para o Jomal do Brasil com grande entusiasmo pr6prio de uma garota que a partir de en- tdo estaria livre de esconder a his- t6ria sobre o pai famoso. Na oca- siao, o jornalista Ricardo Kots- cho, amigo e entao assessor de Lula, deixou-me uma carta corn elogios a "belissima materia". Te- nho-a em maos. A verso menti- rosa que Lurian agora conta, dez anos depois (!!!),jamais foi levan- tada por quem quer que seja, in- cluindo Lula. Entendo que este novo e dircitoso Berardo queira mostrar serving ao seu novo pa- trio, o ex-operario e important lider politico Luis Inacio. Melhor faria se pudesse desmentir, corn fatos, as reportagens que fiz, in- cluindo a iltima, na Folha de S. Paulo, quando demoli parte da versao de Lula para a compra de seu apartamento e cobertura em Sao Berardo do Campo (ainda obscure, diga-se de passagem. Como nao pode o PT de Lula nunca sequer me processou, eja- mais derrubou qualquer mat6ria que eu tenha feito -, como ndo pode, dizia, mete-se a mentir. Ja dei em Bernardo os pux6es de orelha que ele merece. Aqui vai mais um, a ver se cria vergonha. iquei embatucado cor seu artigo "Desafio Democrati- co" no JP 225. E que no paragra- fo seguinte Aquele em que me cita como alvo da censura de Lula no program Roda-Viva, voce fala em "oponente com antecedentes de indignidade" e "jogo baixo". Como este paragrafo trata do mesmo assunto, o leitor desavi- sado pode pensar que o tal indig- no oponente possa ser eu. Nao o sou,j esclarego, mesmo por 6b- vio. E tenho certeza de que se assim pensasse a meu respeito, voce o diria cristalinamente, sem o subterfigio do texto envieza- do. A favor da clareza e da trans- parencia, pero que publique este esclarecimento no pr6ximo JP. Muito obrigado. Luiz Maklouf Carvalho JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE FEVEREIRO/2000 7 Ha cinco anos Jarbas Passarinho estA sem mandate politico. Sua ultima participagao numa elei~go, em 1994, foi uma derrota, de certo modo fragorosa porque nas pr6vias era o franco fa- vorito e chegou a veneer Almir Gabriel no 1 turno para governador. As possibilidades de voltar a political e ate a vida p6blica se exauri- ram. Mas ele conseguiu uma faganha: ter seus 80 anos comemorados por gregos, troianos, baianos e ate paraenses. Fora do poder, o ex-goverador, ex-sena- dor e ex-ministro em quatro administraq6es federais constata que manteve um campo gra- vitacional pr6prio. Pode tratar de esculpir seu perfil final para a hist6ria, certo de que ela Ihe reservara, em qualquer reconstituigao que for feita, um lugar cativo. Lugar que se espraia da planicie para o planalto, um feito raramente alcangado pelos politicos que se confinam ao norte do pais. Passarinho sempre foi um home polkmi- co, controversy. Jamais contara com unanimi- dades e das que lhe foram oferecidas teria sido melhor, no minimo, desconfiar. Certamen- te porque foram fabricadas. Errou bastante e deixou que em seu nome errassem bem mais ainda. No entanto, tem um saldo favoravel no seu curriculo. Nenhuma mancha indelevel o enodoou, o que nao e pouco nesta nossa politi- ca tao pouco republican, distant do melhor sentido romano, da respublica. Nem sempre o program ou a visAo ideol6- gica que defended foram o que realmente prati- cou. O fisiologismo, o clientelismo e o patri- monialismo que contaminam a representaAgo popular e, com ou sem ela, o exercicio do poder no Brasil, algumas vezes fizeram do discurso nada mais do que biombo para acordos e ser- ventias personalizadas, fisiol6gicas mesmo. Ainda assim, Passarinho foi um politico bern acima da media, nem digo regional, mas nacio- nal. Sabia do que estava falando. Nao discursa- va apenas para esconder tratativas que abrevi- assem o caminho para o estonteante poder, nem atuava como um bisonho arlequim de podero- sos interesses economicos (como ao que fre- qOentemente se reduz o Congresso S/A). Passarinho e fluente em duas linguas es- Passarinho: uma said honrosa Amostra gratis No dia 19 do mrs passado o secretario de cultural do Estado, Paulo Chaves Femandes, in- terpelou a reporter Carmem Passos, da Gazeta Mercantil/Pard. Irritado, disse-lhe (como se tal equivalesse a pecado ou crime) que a havia des- mascarado como minha informant. A prova? Alegou o secretario ter usado um estratagema para produzi-la: dissera a jornalista que o Es- tado teria um prejuizo mensal de 150 mil a 180 mil reais cor a operacqo da Estagao das Docas, a maior das obras da cintilante carreira de Pau- lo Chaves, no valor aproximado de R$ 20 mi- lhoes, cor inauguraqgo prevista (depois do segundo adiamento) para abril. S6 que a informaqAo seria falsa. Foi dada apenas para que ajomalista a repassasse para mim, revelando a conexao -talvez- subterra- nea (o que, se tivesse valor de prova, incluiria no rol varios outrosjornalistas cor os quais costume conversar, referencias valiosas para este pobre jornalista, que nao pode estar em todos os events, sobretudo nos oficiais). O raciocinio de PC Femandes nao procede. A informacao foi publicada na edigao local da Gazeta do dia 3 de dezembro, em ampla mate- ria de cobertura de uma visit de deputados estaduais as obras da Estagao das Docas, pa- trocinada pelo governor estadual (com a inten- qgo de servir de antidote as materias aqui pu- blicadas). Como a reportagem nAo foi desmen- tida ou retificada, apesar de sua gravidade, to- mei-a como verdadeira. Ou, se nao verdadeira, da responsabilidade do secretario, que deu a informaqco numa conversa gravada corn a jor- nalista, da qual participou tamb6m um rep6r- ter de A Provincia do Para (dois jornalistas num mesmo ato exclui a hipotese de conversa emoff). Como nao estive present a visit, ouvi os interlocutores do secretario e a gravaqgo da con- versa, alem de utilizar a informacao publicada pela Gazeta. Fiquei surpreendido com a inicia- tiva do secretario de admitir prejuizo que, no espa9o de um ano, abrira um rombo de quase R$ 2 milhbes nas contas publicas do Estado. Isso, exatamente quando o govemador anuncia um projeto para center as despesas do erario (embora, as vezes, parecendo querer tira-las da ponta do lento). Mas tomei-a como crivel. Afi- nal, no Parque da Residencia, de proporqoes bern inferiores a Estacgo das Docas, o deficit e calculado em tomo de R$ 50 mil ao m&s. Tudo indica que a informaqao fornecida pelo secretario procede e que sua crescente irritaqao corn a cobertura dada pela imprensa ao seu megalomaniaco projeto decorrajusta- mente da repercussao que o caso esta tendo, fora do seu dominio. Nao s6 junto ao "publi- co externo"(como diziam os epigonos na 6po- ca do regime military mas dentro do pr6prio govero, o publico interno" (que, numa ad- ministracgo autocratica como a atual, costu- ma ser a voz do dono e seus porta-vozes). Criticas que podem ser relacionadas a uma serie de providencias que estao culminando cor o anuncio de licitaqgo public para a co- mercializaqAo dos espaqos na (falsa)janela tucana para o rio, embora pela via obliqua da "organizaqao social" Pard 2000, uma legaliza- da "agao entire amigos". Mas admita-se que tenha sido um ardil a attitude do secretario de divulgar o prejuizo mensal do Estado de R$ 150/180 mil na Esta- 5ao das Docas, fraude montada para desmasca- rar uma informant secret deste jomal. Para alcanqar tal objetivo (na verdade, pagando um mico), o secretario nao titubeou em enganar a pr6pria sociedade. Sim, porque entire a infor- macao publicada e seus interesses particulares, milhares de pessoas alcangadas pela noticia de fonte official pensam que o que um secretario diz 6 coisa s6ria. Costuma ser assim numa Re- publica. Nao e necessariamente assim numa mo- narquia. Parece que temos a nossa, ao tucupi. Pelo padrao PC Fernandes tem-se uma amostra do govemo do qual ele faz parte como figure de destaque. Ou abre-alas. trangeiras, alem da sua (embora, a meu ver, cor certa desatualizagao e empolamento no trato do vernaculo national). Quer cor ele conversa mais descontraidamente logo perce- be no interlocutor um leitor sensivel do gran- de Ea de Queiroz e talvez nao cor a mesma vivacidade-de Anatole France. O mundo do espirito e da cultural nao e, para ele, como a bola para certos enfatuados de gabinete, inca- pazes de um chute decent na redondinha (ges- to que pode ser tornado como uma prova de humanidade no pais do gingado). Passarinho tem com as ideias uma intimidade rara entire os seus, inclusive anfibios. Nos muitos offs da vida, podia-se deixar as armas de lado e, relaxados, discutir como dois series amantes das artimanhas do cerebro. Espero que agora Jarbas Passarinho tenha tempo suficiente para ler, reler, voltar aos ar- quivos, abrir os que estao bloqueados e, sem o cutelo do poder, estar em condicqes de dar a sua experiencia e a sua inteligencia o uso que a political bloqueou ou comprometeu. O pri- vilegiado descanso do guerreiro que a hist6ria lhe concede, aos 80 anos, 6 um premio que talvez ele nem tenha buscado, mas que mere- ceu. Portanto, que faqa bom uso dessa opor- tunidade quase unica para politicos que dei- xaram uma marca atras de si: de sair do poder pelas pr6prias pernas. Corn a cabeca numa posicgo que lhes permit ver sem desconforto a fimbria do horizonte. Retorno (1) Agora que o encanto (manti- do a peso de ouro, atraves de ver- ba publicitaria) esta acabando, a prefeitura comeCa a sentir na pele o que 6 sofrer ojoralismo de en- comenda de O Liberal, com ten- d&ncia a piorar a media que a elei- go for se aproximando. A edicgo 83 do boletim Belem em rede, da PMB, observa que uma das man- chetes da primeira pagina de O Liberal do dia 29 ("Trdnsito ma- tou durante o anopassado 5.073 s6 em Belem ") "estava em total descompasso corn a reportagem em questao. A mat6ria mostrava que o au- mento de 28% de mortes no tran- sito ocorreu na Regiao Metropo- litana de Belem, que abrange os municipios de Ananindeua, Ma- rituba e Santa Barbara. Um pe- queno trecho da mat6ria, escon- dido no terceiro paragrafo, infor- ma que apenas no municipio de Belem vem ocorrendo 'uma redu- cao progressive nos uiltimos tres anos'. Continue o texto: 'Nas 12 mais perigosas avenidas a queda foi significativa, registrando me- nos 27% em acidentes'". Depois de declarar em palan- que que acabaria cor o imperio dos Maiorana em Bel6m, dois anos depois Edmilson Rodrigues foi em pessoa ao reveillon da fa- milia. Mas a entente era apenas um acerto de conveniencias, ban- cado pelo erario. Agora comeqam a retomar a antiga attitude de mu- tua hostilidade. Retorno (2) No dia seguinte, o boletim da prefeitura na internet voltou a defesa (por enquanto considera- da o melhor ataque), corn a se- guinte nota: "Uma equipe dojoral O Li- beral esteve hoje pela manha na area da rua Generalissimo Deo- doro cor a rua Caripunas. Segun- do os moradores, eles estavam la Cai A juiza Hind Ghassan Kayath, da 2" vara federal do f6rum de Bel6m, decla- rou a incompet6ncia da justiga federal local para apreciar a agio popular impe- trada no ano passado pelo advogado Pa- raguassu Eleres (ver Jornal Pessoal 212), contra a doagao de 412 mil hecta- res de terras em Carajas a Companhia Vale do Rio Doce. Segundo a juiza, a compe- Stncia originaria sobre a questao, envol- Svendo conflito de interesses entire a Uniao e o Estado do Para, e do Supremo Tribu- para mostrar a falta de limpeza no canal, mas se depararam com o trabalho de rotina que 6 feito por uma equipe de trabalhadores da Secretaria Municipal de Sanea- mento. Com certeza isso nao sai- ra publicado amanhA". Lag Ha dois anos os Amigos da Terra, uma das mais importantes ONGs do mundo, mantem oAma- z6nia Papers. Trata-se de "uma serie de breves monografias sobre temas relevantes para as political publicas na regido amaz6nica, rea- lizadas com o objetivo de manter atualizados observadores e toma- dores de decisao, tanto no Brasil quanto no exterior". O nimero tres da publicacgo reproduz materia de capa da nossa Agenda Amaz6nica sobre os grandes projetos da Ama- z6nia. Esse texto, alias, ja integra os anais do Senado, por solicita- q5o do senador Tido Viana, do PT do Acre, que classificou o artigo de "obra memoravel". Inercia A PEA (Populaqco Economi- camente Ativa) official do Para, de 1,2 milhao de pessoas, 6 mal cal- culada. Nao inclui a populacqo ru- ral, que represent 48% do contin- gente populacional do Estado (a populaqao rural paraense 6, pro- porcionalmente, a segunda maior rajas nal Federal, para o qual solicitou a remes- sa dos autos, ji volumosos. Kayath ndo apreciou o m6rito da questao, mas manifestou o entendimento de que, em- bora a acgo popular seja de autoria individual, o Estado 6 o titular do direito substantial que Paraguassu consider ter sido lesado quando a Unido cedeu a area, na provincia mineral de Carajas, contrariando norma constitucio- nal e causando prejuizo ao Para. Ele quer cancelar o registro de im6veis em favor da CVRD sobre os 412 mil hectares. do pais, abaixo apenas do Mara- nhao, um produto dos projetos de impact implantados no interior). O Dieese a estima em quase o do- bro, 2,3 milh6es de pessoas. A falta de uma metodologia adequada acar- reta a perda annual de quase tres milh6es de reais de verbas federais para a qualificacgo professional. Sera que nio 6, mesmo visto ape- nas deste angulo, um retorno mais do que compensador? Batismo Vendo-se a insistencia dos tecnicos municipais em falar no cadastro "multifinalitario", base- ado em sat6lite, que mudou a base de calculo do IPTU, tem-se a tentagao de rebatiza-lo. Para muito-fin6rio. Indio O cacique Paulinho Payakan cometeu crime comum, quase oito anos atras, quando estu- prou ajovem Leticia, em Reden- c0o. Ele tinha plena consciencia do que estava fazendo, embora embriagado, em fungao de sua larga experiencia no trato cor a chamada sociedade envolvente, incluindo o aspect sexual. Sua mulher, Irekran, nio: a prote- 9Ao do Estatuto do Indio a al- cangava, dado o seu grau de "aculturaqio". Condenado a seis anos de prisdo, o lider da aldeia Aukre, na reserve Kayap6, ainda esta solto, apesar da ordem judicial, mantida liminarmente no mns passado pelo president do Su- perior Tribunal de Justiqa. O merito do recurso contra a con- denaqao devera ser examinado neste mes pela 5' Turma do STJ. Se a condena9go de Payakan for mantida, o crime continuara a ser comum e, al6m disso, corn franca reprovacao social. O ca- cique, a despeito de toda a sim- patia de parte da populaqao por sua causa e por varias de suas justas posiq~es, tera que se sub- meter a decisao judicial. Seu caso particular nao pode ser transfor- mado numa questao etnica, an- tropol6gica ou political, nem em- brulhada nas plataformas da cau- sa indigena para nao desgasta-la, criando um privilegio odioso. Ainda que, no fundo, ele es- teja pagando um amargo preqo por se ter tornado celebre, per- dendo o control sobre sua per- sonalidade, no plano individual ha um grave dano a reparar. Os amigos e aderentes tnm que ad- mitir o erro da pessoa e se em- penhar para atenuar ao maximo sua reparaqao, alertas para a ve- lha maxima de que errar 6 huma- no, mas persistir no erro 6 estu- pidez ou leviandade. Talvez a liqao seja muito pro- veitosa para o bravo cacique kayap6. Assinaturas A.-ssinaturas do Jornal Pessoal (R$ 15 a trimestral e R$ 30 a semestral) e da Agenda Amaz6nica (R$ 18 a semestral) S podem ser feitas atravbs dos telefones 241-7626 e 2237690. ,'. .. ',:*. '," i.*'- ,'," .-. Journal Pessoal Editor: LOcio FlIvio Pinto Fones: (091) 241-7626 (fone-fax) e 241-7626 (fax) Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040 Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br Edic o de Arte: Luizantoniodefariapinto/230-1304 |
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