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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00176

Full Text



Journal Pessoa
*sso Prossegier
L C O F L AV I PI N TO (PAGs.s/6)
Fl
ANO XIII N' 227 2L QUINZENA DE JANEIRO DE 2000 R$ 1* gUl iredo:
Voz do alem
DESENVOLVIMENTO (PAG. 4)



A mudanga: contra n6s?

Ogoverno querfundir a Sudam e o Basa, criando uma nova agencia de desenvolvimento. Isto e bom ou
ruim?A resposta s6 serd obtidapor quem souber o que estd sendoproposto e qual e a melhor alternative.
Ndo basta ser contra. Nem epossivelfechar aporta. A Amaz6nia estd vivendo um novo moment.
E preciso entend-lo para tentar moldd-lo aos interesses da regido.


partir de um raciocinio sim-
plista, de que se e ruim com eles,
pior seria se nao tivessem exis-
tido du viessem a desaparecer,
a opiniio public reagiu contra
a proposta do governor federal,
finalmente confirmada na semana passada
pelo pr6prio president Fernando Henrique
Cardoso, de fundir a uperintend&ncia do De-
senvolvimento da Amaz6nia com o Banco da
Amaz6nia numa unica agencia de desenvol-
vimento regional. A rigor, tanto a Sudam
quanto o Basa contmr elements dessa agen-


cia, mas Brasilia estaria pensando em algo
institucionalmente novo. De qualquer manei-
ra, um 6rgdo diferente dos dois que pretend
extinguir.
Ha fundadas razOes para temer a mudan-
qa. Ngo s6 por uma inata tendencia a conser-
var as coisas como estao para ver como elas
ficam. Mas porque a Amaz6nia se acostu-
mou a experimentar quedas qualitativas em
cada mudanca emanada do Palicio do Planal-
to (ou por ele chancelada). A reagdo meio
pavloviana acrescenta-se o conhecimento
gerado pelo process hist6rico. As coisas


boas para o poder central nao costumam co-
incidir com o interesse da maior (e menos
aut6noma) regiao do pais.
Dessas premissas pode resultar um dii-
logo de surdos, desfavoravel As duas par-
tes. A administracqo federal pode estar ado-
tando uma iniciativa correta, mas seus mo-
tivos permanecem desconhecidos porque
nao abriu as portas da informaqgo para a
opiniao public. Como de habito, age em
circuit interno, corn auto-sufici8ncia tec-
nocrata. Os critics mais ferozes da inicia-
tiva, por outro lado, podem dar a impres-)


c
- ; ~
r
r- I ,





2 JOURNAL PESSOAL *2- QUINZENA DE JANEIRO/ 2000


sao de que simplesmente rejeitam mudan-
qas por medo da novidade. Ou por interes-
ses fisiol6gicos e corporativistas
Um ponto bem que poderia ser conside-
rado fora de discusses: e precise modifi-
car a atual estrutura institutional da regiao.
Basa, Sudam e outros engates do setor piu-
blico apresentam um saldo negative entire
os pr6s e os contra. Mesmo tendo sido cri-
ados para promover o desenvolvimento re-
gional (e em certa media conseguindo cum-
prir suas missess, a Amaz6nia de hoje, se
6 bem mais expressive do que antes, conti-
nua a ser, no entanto, a prima pobre do
Brasil, abaixo das medias nacionais que
medem o verdadeiro desenvolvimento. Cres-
cimento ter havido, mas a caracteristicas
mais marcante continue a ser a condigao co-
lonial da regiao. Ela permanece nao sendo a
protagonista da sua hist6ria.
Ate algum tempo atras o governor central
concordava em especializar a regido com fun-
.6es coloniais de velho tipo. Essa visao esti
descaradamente apresentada no II Piano de
Desenvolvimento da Amaz6nia (1975/79),
com uma incompreensao sobre um uso inte-
ligente dos recursos naturais amaz6nicos que
beirava a complete estupidez. Meros cauda-
tarios do poder superior, Basa e Sudam cum-
priram suas tarefas, um repassando recursos
financeiros carimbados em Brasilia (ou Sao
Paulo, Nova York ou T6quio) e o segundo
drenando poupanqas nacionais para empre-
endimentos econ6micos muito pouco produ-
tivos e agressivamente predadores, produ-
zindo um nicho de atividades muito mais
especulativas do que produtivas.
E claro que se a Amaz6nia nao fizesse par-
te dos stores ou regi6es de incentive fiscal,
tributario e financeiro, esse dinheiro nao teria
vindo para ca. O Basa sempre foi o inico ban-
co da rede bancaria instalada na regiao que
nela mais aplica do que retira (nao estenden-
do sua rede pela diretriz exclusive do lucro).
Mesmo o Banco do Brasil era deficithrio nes-
se aspect. A extincio do Basa pode signifi-
car sangria financeira desatada, sem uma uni-
ca instituiQao retentora de poupanqa. O que
agravaria o efeito bumerangue dos incentives
fiscais, que acabam gerando efeitos multipli-
cadores nao na area beneficiaria, no sitio do
investimento, mas na origem do capital, mul-
tiplicando seus ganhos la fora (a renda per
capital amaz6nica equivale a pouco mais de
dois tercos da media national, que, natural-
mente, tambem a inclui).
O problema, porem, nao esta nos braQos
dessa estrutura colonial de poder, mas no
seu ponto de partida, que 6 a cabega. Basa e
Sudam tnm esse saldo hist6rico negative nao
por sua ma qualidade intrinseca, por nao
disporem de gente qualificada (que at6ja
tiveram), mas porque era com tal missao
que se encaixavam no aparato institutional
que efetivamente decide as coisas numa re-


giao com tao frigeis mecanismos internos.
Mineiros, gauchos e cearenses conseguiram
uma certa media de livre-arbitrio que Ihes
permitiu realizar projetos de endogenia, ain-
da quando associado (isto 6, sem colisao)
com o projeto central. Ja a Amaz6nia nao
passa mesmo de col6nia.
Sem essa mudanqa mais profunda de con-
cepqao (ela e possivel sob as condiq6es eco-
n6micas gerais do pais e sua amarraqCojuri-
dica?), de que adianta manter Basa e Sudam
se esses 6rgaos se tornarem-como se torna-
ram sup6rfluos ou desnecessarios para o
poder central? Nao querer encarar o risco da
mudanca 6 manter-se na attitude de avestruz
que tem caracterizado as elites locais, satis-
feitas em arrecadar as migalhas do banquet
federal montado em terras amaz6nicas, ti-
rando dele proveito paroquial.
Se n6s queremos a mudanqa e Brasilia
tambem a quer, precisamos colocar sob uma
mesa piblica os nossos projetos e verificar
se eles sao os mesmos ou equivalentes, se ha
elements comuns satisfat6rios, ou se o que
o Palacio do Planalto quer e agravar as nos-
sas desditas. O governor federal nao tem vo-
luntariamente apresentado e colocado sob
debate os varios estudos que tnm sido reali-
zados, inclusive por gente competent, a res-
peito das transformacqes institucionais na
Amaz6nia, junto com medidas de natureza
econ6mica. O que a sociedade local precisa
primeiramente fazer 6 abrir essas caixas de
pandora e encarar seu conteido sem sobres-
saltos. Ou ser capaz de ap6s o susto inicial
adotar uma analise inteligente.
No confront que tem resultado da atitu-
de imperial de Brasilia de decidir sobre a Ama-
z6nia, ignorando que ha uma vontade regional
(ou ao menos um desejo de expressar o que se
quer), pode-se verificar que o governor federal
ter estado muito mais preparado para o due-
lo do que as instincias oficiais estaduais e a
pr6pria sociedade civil. O que e pior: nao
poucas vezes mais pr6ximo de uma aborda-
gem correta, mesmo quando seus fins nao se
harmonizam com o bem regional.
Brasilia, por exemplo, ji arquivou os da-
nosos projetos agropecuarios, a enfase ro-
doviarista, a ocupagao desenfreada das ter-
ras-firmes e outras linhas de a9go que
apoiou tao intensamente no passado. O ca-
pitulo regional do "Avanca Brasil" revela
um tom modernizador e racional diferente
do que perpassa todo o II PDA do prussia-
nismo (ou economic de guerra) do general
Geisel e seus jovens turcos. A Amaz6nia
esti posta sob novos eixos, que traduzem
uma aproximaao maior do saber. O proble-
ma 6 que essa abordagem nao esta ao alcan-
ce da consciencia regional. Em virtude dis-
so, pode lhe proporcionar ganhos que sao
maiores apenas em terms absolutos, mas
nao em terms relatives. Ou seja: Brasilia
pode estar promovendo apenas a renova-


a0o, ajustada A ciencia, a tecnologia e ao
mercado, que j nao 6 mais prioritariamen-
te national, mas international.
Nao se conseguira impedir esse desfecho
apenas reagindo a qualquer transformarao,
por crer que atris dela ha um interesse espo-
liador. A unica attitude saudavel e positive e
a da antecipaqgo. Isso quer dizer que a inte-
ligencia local (formada por natives e imigran-
tes aqui estabelecidos) precisa dominar ope-
racionalmente o que esta sendo encarado
como caixa preta. Ao inv6s de reagir cor te-
orias conspirativas, buscando males pressen-
tidos, mas nao conhecidos, deve-se estar &
altura do agent dessa mudanga, em condi-
coes de decodificar seus c6digos. Se temos a
competencia sobre o saber amaz6nico, temos
uma chance de vit6ria.
Nao teremos esse saber apenas usufruin-
do da condigao do locus, de aqui vivermos,
de terms uma voz potente, de gritarmos.
Para proper a fusao de Basa e Sudam, o go-
verno federal nao se limitou a urdir um ato
de maquiavelismo corn seus parceiros. Real-
mente foram contratadas consultorias e elas
se realizaram sob pardmetros t6cnicos. E
possivel que, com essa base de diagn6stico,
revelacao e demonstracao, o governor tome
decis6es incoerentes ou danosas, capazes de
continuar aprofundando o fosso entire a Ama-
z6nia e o resto do pais. Mas sem ter acesso
a essa base (16gica, conceitual, estatistica)
comum, teremos pouco poder de fogo. Pou-
co seja para ojus esperneandi (que e quase
s6 o que temos feito) como para a decisao.
Os novos eixos lidam com matrizes dife-
rentes das que estiveram vigentes enquanto
a estrutura institutional foi a que permitiu a
Basa e Sudam funcionarem como se fossem
eficientes (e que hoje lhes da o ar de deca-
d&ncia, nao por terem deixado de expressar o
interesse regional, mas por nao terem mais a
mesma utilidade para o poder do qual eram e
continual a ser meros delegados). A admi-
nistra~go federal esta agora combinando gas
e energia de fonte hidraulica, rodovias e hi-
drovias, agroindustria e biotecnologia, mine-
raqao e metalurgia, empirismo e informanao
eletr6nica, microsc6pio e satelite.
Isto quer dizer que, mesmo continuando
a ser estruturalmente colonial, a Amaz6nia
esta se sofisticando, tornando-se mais com-
plexa. O embate entire o regional, o national
e o international, o governmental e o mer-
cado, o territorial e o material, o todo e a
parte (sua realmente?), precisa ajustar-se a
essa fase, que realmente e nova. De nada adi-
antara fechar a porta, sob a alegacao de que o
que esta l fora e ruim para n6s. A porta sera
arrombada. Temos que ir la fora, sondar o
ambiente, impor a nossa voz, contra-argu-
mentar e tentar convencer. E a esperanga de
quern verdadeiramente amaz6nida neste se-
culo XXI, que nao vai comeear em 2001: esta
em pleno curso desde 1973. 0





JOURNAL PESSOAL *2- QUINZENA DE JANEIRO/ 2000 3




Jornalista, quem,



6 cara-palida?


Os jomalistas integram uma catego-
ria professional bem caracterizada. Pro-
fissdo regulamentada, alias, atraves de lei
especifica e individualizada na CLT. A
legislagCo estabeleceu uma reserve de
mercado: s6 pode serjornalista quem pos-
sui diploma de curso superior de comuni-
c.acqo social. Ou que obteve o registro
professional antes da imposigco dessa
exigencia. Ninguem mais pode trabalhar
na profisso, a partir de um certo ano em
que acabou a tolerancia legal aos irregu-
lares e provisionados, sem o diploma.
Nao concordo com esse monop6lio,
unico na hist6ria da formacao dejomalis-
ta em nossa cultural ocidental. Nao foi
para defender a liberdade de imprensa que
a terrivel Junta Militar, durante uma das
fases mais negras da Rep6blica, decidiu
inventar a quadratura dessa roda, em
1969, em attitude coerente cor o AI-5 de
pouco antes. Foi para poder controlar me-
Ihor a formacgo dos jornalistas, dentro da
lata de sardinha universitaria, e bloquear
as vias naturais de acesso dos talents As
redaces, atrav6s das quais se expandem
as vocaqoes. Por mim, ficaria a exigen-
cia de curso superior para nao aviltar ainda
mais os salaries e possibilitar que pelo
menos uma vez na vida jornalistas tives-
sem contato com a academia do saber.
Mas qualquer diploma serviria de passa-
porte para entrar nas reda6oes.
Formalismo de lado, s6 e jornalista
quem alguma vez testemunhou fatos do
cotidiano e os relatou aos leitores atraves
da imprensa. Quem acertou o nuimero
exato de toques para uma manchete de
primeira pagina. Ou recebeu algum cha-
to na redagCo. Ou participou de algum
"fechamento" de edi9Co (uma das expe-
riencias mais marcantes). Ou rescreveu
uma materia ininteligivel. Ou, quem sabe,
provocou algum movimento na opiniao
public atrav6s de seu texto em cima de
um acontecimento.
Ha gente capaz de escrever at6 me-
lhor do que um jornalista, dominando a
gramrtica ou tendo maior fluencia na es-
crita. Mas se nao participa das entranhas
do process jornalistico, atuando entire o
leitor e os fatos, na voragem de um pro-
c.esso intelectual/industrial alucinante (as
vezes) ou desgastante (quase sempre),
nao pode, mesmo para efeitos legitimos


(e nao legais, que se reduzem ao que esta
categoricamente fixado na lei), assumir o
titulo de jomalista. Que nao e melhor do
que qualquer outro do mercado, mas e
especifico. Ou, se quiserem, diferente.
Que cobra dos profissionais um prego que
nem sempre leva a gl6ria; pelo contrario,
muitas vezes abrevia a duracgo da vida.
Certa ocasido levei um amigo para-
ense, advogado, competent na sua area
de atuacgo, trabalhador e prolifico, para
acompanhar o process de produg~o de
"O Estado de S. Paulo" na sede paulista-
na, da elaboragao da pauta do dia, pela
manhd cedinho, a impressAo da edicgo,
ja noite alta. Ao final, confessou-se inca-
paz de repetir essa mecdnica todos os
dias. Temos que fazer isso, como o fa-
zem policiais de rua ou medicos planto-
nistas, com naturalidade, sem autocomi-
seragdo. O prego dessa rotina pode ser
medido por neuroses, alcoolismo, drogas,
deformnaco de carter, fisiologia defici-
ente, etc. Mas e o nosso trabalho e nosso
- magro ganha-pao.
Por tudo isso, sem desmerecer a pro-
porcgo de miasmas e bias da profissao,
o titulo dejomalista merece respeito. Nao
pode estar sendo usado em clubes de
mesa ou confrarias supostamente acad&-
micas como se estivesse disponivel na
esquina, como se fosse parte de um rolo
de papel higienico. E manipulado por gen-
te que nao esta em nenhuma das condi-
c9es ja identificadas. Nao e que tais pes-
soas sejam destituidas de qualidades. Tmr
la as suas, um sugando dados de livros
alheios para fazer uma embotada cronolo-
gia da histrria (com padrao de almanaque
capivarol), outra autora de suspiros poeti-
cos sofriveis, mais um que talvez haja co-
metido um artigo qualquer sabe-se la qual
dia, olimpicamente esquecido. Tudo bem:
sao colaboradores da imprensa. Nao sao,
entretanto, jornalistas.
Certamente nao estAo a caga de mor-
domias que (cor boa inspira9go, ainda
que em ma hora) o marechal Castelo
Branco acabou em 1964: isengco do im-
posto de renda, financiamento integral da
casa pr6pria e meia-passagem nos avi-
oes, badulaques que atraiam para os sin-
dicatos uma vasta fauna inindentificavel.
Mas provavelmente querem prestigio,
reconhecimento social, um titulo. Talvez


a mesma motivaqio que colocou, sem
explicaqio racional compativel, os cursos
de comunicacqo social entire os mais dis-
putados das universidades brasileiras. O
aluno de hoje se imagine, num passe de
mrgica, o Paulo Francis ou o Pedro Bial
de amanha. Ou a Gl6ria Maria.
N6s, os profissionais, cor marcas su-
ficientes no corpo, na mente e na alma
para saber o que e ser jornalista, nao po-
demos compactuar com essa ma fanta-
sia. Se nosso sindicato, nao por corpora-
tivismo, mas por dever a verdade, nao
toma a iniciativa de separar ojoio do tri-
go, identificando os gatos pardos dentre
os pretos, entAo vamos pelo menos parar
de conferir a legitimidade de que esses
respeitaveis cidadaos sao carentes. Por
carencia congenita, diga-se de passage.
Por que nao se declaram advogados,
medicos, engenheiros- ou, para aprovei-
tar a onda do moment, arquitetos escan-
carados para o rio? Ojornalismo, penho-
rado, agradeceria. E o rio os levaria para
seu merecido destiny. Sem o risco de
afundamento. 0


No mrs passado uma mesma mate-
ria, sobre o pedido de desligamento do
senador Luiz Otavio Campos do PPB, foi
publicada assinada em O Liberal e ape-
nas com a identificagco da sua proceden-
cia, de Brasilia, porA Provincia do Para,
em ambos os jornais na integra. O autor
do texto, o bom reporter paraense Ronal-
do Brasiliense, e assessor de imprensa do
senador em Brasilia. Logo, o que escre-
veu deveria ser tomado como press-re-
lease, nao como materia redacional, pe-
los dois jornais, O Liberal chegando ao
requinte de despistamento de assinar a
noticia, como sendo geragdo propria.
Nessa mesma epoca, alias, ojornal pu-
blicou com um dia de atraso uma carta
do juiz federal Rubens Rollo, da justiga
federal, divulgada na vespera pelos ou-
tros jornais. E a coluna de Isaac Soares
publicou foto e noticia de casamento quase
um mes depois do fato.
Seri que algum dia o control de qua-
lidade chegara as grandes redaqoes da
imprensa paraense? 0





4 JOURNAL PESSOAL *2- QUINZENA DE JANEIRO/ 2000


A ultima palavra


dos ex-poderosos


S No 6 decent nem cora-
josa a attitude dos que dei-
xam testemunhos
para serem reve-
lados apenas p6s-morte,
falando e falando mal dos que permane-
cem vivos. Estes, se reagem, costumam ser
acusados de desleais para com o morto, que
se vai usurpando o direito a ultima palavra.
Neste tipo de attitude pouco nobre pode
ser enquadrado o esp6lio verbal do general
Jodo Baptista de Oliveira Figueiredo, o ulti-
mo dos presidents da Republica do ciclo
military mais recent de tomada do poder
pela for9a, iniciado em 1964 e fechado em
1985. Desse acervo de verborragia fazem
parte uma gravacio exibida pela TV Globo
e entrevista publicada pela revista Veja de-
pois da morte de Figueiredo, no final do ano
passado.
Esse amontoado de opinioes foi apre-
sentado com a embalagem de "testemunho
para a hist6ria". Mal servida estara a cien-
cia fundada pelo grego Her6doto se depen-
der do que Figueiredo disse, em confianca,
aos seus interlocutores (privilegiados?). As
declaraqces podem ser encaradas como o
desabafo de um cidadco que teve bastante
poder na Republica, revelando suas entra-
nhas mentais e padres morais. Mas nao
como material que possa ser carimbado
com o sinete da verdade. Quase tudo nao
passa de opiniao. Ma opiniao, aliAs.
Como pode dizer tanta besteira ou im-
propriedade um professional que durante 16
anos percorreu os mais poderosos corre-
dores do poder neste pais, no Palacio do
Planalto, em Brasilia, chefiando 6rgaos en-
carregados de processar informaqoes para
o president (no gabinete military e no SNI)
e sendo, ele pr6prio, president por mais
tempo do que qualquer outro, excetuado
Getulio Vargas (e, no future, se la chegar,
Fernando Henrique Cardoso)?
Um official "tricoroado", isto 6, primeiro
lugar em todos os tres cursos que condu-
zem o military para o alto da hierarquia no
Ex6rcito, diz que saia a galope da Granja do
Torto, resid6ncia presidential, s6 "para sa-
canear a seguranqa". Refere-se a Milton
Nascimento como "aquele crioulo de Mi-
nas que usa aquele bonezinho". Preconcei-
to que o faz identificar um politico profissi-
onal, Armando Corr6a, por ser "meio mula-
to" e nao por ser fisiol6gico. Ou desprezo,
s6 agora revelado, por um dos seus princi-
pais auxiliares, o general Golbery do Couto
e Silva, apresentado como um dominado pela


mulher, Esmeralda, e sotumamente depen-
dente do m6dico Guilherme Romano, que
teria sido a causa maior do pedido de de-
missAo do entao chefe do gabinete civil da
presid6ncia (e nao o atentado ao Riocentro,
como se supunha).
Fazendo o estilo "curto e grosso", in-
conveniente mas sincere, Figueiredo fal-
seia a reconstituigio dos fatos para amol-
dar a hist6ria as suas conveniencias e ate-
nuar o saldo extremamente negative do
seu melanc6lico governor. A image de
home "durio, carrancudo" do general
Medici, terceiro dos cinco presidentes-ge-
nerais, ele contrapoe um fato: "o governor
dele foi o inico da revoluqgo que nao cas-
sou ningu6m". O que 6 verdade, mas nao
autoriza santificar M6dici. Na 6poca dele
os inimigos do regime nao eram cassados.
Eram mortos. E os cadaveres colocados
debaixo do tapete.
Figueiredo reforga a impressed que dei-
xou em 1985, quando saiu pelos funds do
palacio presidential para nao passar a fai-
xa ao seu successor, Jos6 Samey: nao che-
fiou exatamente um governor, mas uma tur-
ma de cavalaria e, talvez, uma gangue de
rua. Ele 6 o arruaceiro, o provocador de
briga, que "estoura e arrebenta" quem nao
6 da sua turma ou nao partilha suas ideias.
Por isso, nem sequer consegue se lembrar
de alguns ministros que nomeou. Cita o da
cultural como "aquele baiano de cabelo
grande. Um tal de Ventura, alias [Eduar-
do] Portella. Esse, eu demiti. Por telefone.
Nem falei com ele". Quem admite no mi-
nisterio que chefia algu6m que simplesmen-
te desconhece (no caso, indicado pelo ir-
mro Guilherme, tamb6m ja falecido) nIo
pode demitir de outra maneira.
Ao inv6s de tentar extrair de Figueiredo
o que nao esta ao alcance dele, como uma
avaliaqdo do Brasil sob seus longuissimos e
penosos anos de presidencia, os passivos
interlocutores deveriam cobrar explicaqCes
sobre o que ele quis dizer ao afirmar: "O
Heitor me sacaneou muitas vezes".
Esse Heitor (Aquino) pediu demissAo do
Ex6rcito quando era brilhante capitdo, veio
ser gerente em Bel6m do Projeto Jari do
americano Daniel Ludwig e sempre entrou
e saiu quando e como quis dos gabinetes de
Figueiredo (e, antes, de Geisel) no Palacio
do Planalto. Culminou por ser seu secreti-
rio particular, atravessando o fosso na tran-
sigio de Geisel para Figueiredo (por que o
"alemio" escolheu Figueiredo como seu
successor 6 um dos grandes misterios do


period; ou seria porque queria continuar a
mandar, convict de que seu entao subordi-
nado, para nao ser um desastre, teria que
sempre pedir-lhe a bencao e t8-lo como emi-
n6ncia parda?). Se Heitor "sacaneou mui-
tas vezes" Figueiredo, a naqAo 6 que deve
ter quitado a conta.
Essas quitaqces, sim, interessam a his-
t6ria. A distancia da promiscuidade de en-
tao e ja com as ferramentas de monitora-
mento dos desvios na gestao da coisa publi-
ca, que s6 a democracia propicia (mas ge-
rando como contrafaqdo indesejavel a fal-
sa sensagqo de que antes as coisas corriam
direito e agora 6 a anarquia), uma frase de
Figueiredo 6 a mais important de todas. E
quando ele pergunta como o ex-presidente
Janio Quadros "p6de ficar morando tanto
tempo no exterior? No bem-bom".
Qualquer cidadao bem informado parti-
lha essa duivida com Figueiredo (principal-
mente depois que Tutu, a filha de JAnio, deu
para osjomalistas uma conta numerada na
Suiqa que seria do pai; a reaqAo de Janio
foi interditar a filha). Mas raros, como ele,
podem ter uma refer6ncia tdo palpavel para
explicar o paradoxal padrao de vida de um
politico professional sem fontes identifica-
veis de renda para justificar o "bem-bom"
alem-mar: "Desconfio at6 que o Georges
Gazale andou soltando uma verba", arrisca
Figueiredo, tentando fazer humor.
O comerciante da noite Gazale foi, para
o boquirroto Figueiredo, o que ele diz que
Guilherme Romano representou para o con-
troverso e c6lebre general Golbery, naque-
la parte menos iluminada da vida de um
home piblico da qual emerge figures
como Aquino, Humberto Barreto e Shige-
aki Ueki (todos bem-sucedidos na vida) no
reinado de Geisel e S6rgio Motta no de Fer-
nando Henrique Cardoso.
Talvez se os pacificos interlocutores ti-
vessem feito as perguntas que permane-
cem na mente dos bem informados, ajuda-
riam a explicar como o burocrata anfibio
(ao mesmo tempo politico e military) Figuei-
redo conseguiu comprar apartamento de 1,2
milhdo de reais em sofisticado condominio
na Barra da Tijuca, no Rio (la 6 o "inico
duroo' a tomar o elevador"), e sitio (de va-
lor infelizmente nao declarado) na aristo-
cratica serra fluminense, vizinho, alias, do
general Geisel.
Todos se foram levando consigo tais
perguntas. E deixando garatujas de tes-
temunhos hist6ricos como esse de Figuei-
redo, o descartavel. *






JOURNAL PESSOAL .21 QUINZENA DE JANEIRO/ 2000 5


Um genio em HQ


Atende pelo nome de Charles M. Schulz um
dos maiores escritores deste seculo que esta aca-
bando. E Schulz se acabando tambem cor o mi-
l1nio, embora para efeitos puramente formais:
ele produziu neste mes as ultimas tiras de Charlie
Brown e sua turma. A aposentadoria foi precipi-
tada pelo cancer no intestine, mas tambem pelos
77 anos de idade. Schulz escreveu essa maravi-
Ihosa hist6ria em quadrinhos por quase 50 anos.
Os que o acompanham desde o inicio, ou os
que se incorporaram pelo caminho a essa vastissi-
ma legiao, formada por dezenas de milhoes de pes-
soas em todos os continents, vao ficar tristes
com a suspensdo da serie. Mas ha tanto para reler,
cor o prazer que as boas releituras sempre pro-
porcionam (garantindo assim sua perenidade ou
mesmo imortalidade), que muitas geracqes vao
continuar usufruindo do magico encanto de parti-
cipar das aventuras (e principalmente desventu-
ras) dos Peanuts Talvez para sempre.
Schulz 6 dos escritores etemos. Dos raros que
conseguiram dar ao cartum o status de g6nero
rigorosamente literario. Suas tiras, publicadas di-
ariamente emjomais de todo o mundo, equiva-
lem a contos. Os contos formam um romance. O
romance e uma saga. Expressa, como poucas


obras de arte, o ser americano e o pais no qual ele
vive, os Estados Unidos. Mas Schulz deu a cada
um dos personagens de suas hist6rias o estofo de
um modelo, de um tipo ideal, merito que s6 esta
ao alcance dos artists (por isso todos os pecados
lhes devem ser perdoados, como ja dizia Karl
Marx de Heinrich Heine).
Os americanos dos cartuns cabem em qualquer
pais, em qualquer familiar. Um adulto de 50 anos,
como um rapaz de 12, podem tirar o mesmo pra-
zer das tiras de Schulz. Estou com a primeira idade.
Comecei a cultivar Charlie Brown com a segunda.
Meu gosto mudou, minha capacidade de percepcao
evoluiu. Mas os comics de Schulz mantiveram a
graca, a vivacidade, a profundidade e o humor de
sempre. Isso o faz inico, um privilegiado.
Seus personagens cabem numa peca de Shakes-
peare ou num romance de Tolst6i. Minduim e o
americano tipico, aquele que Graham Greene pin-
tou com seu humor britfnico: ing6nuo, infeliz,
derrotado, poderoso, massa, sobre a qual se erigiu
o imperio (completamente alem de seu control
depois). Ha o voyeur e don-juan, cheio de fair-
play, o cdo beagle Snoopy. Linus e seu lencol.
Schroeder e sua beethovenmania. A satanica
Lucy. A iracunda Sally. O incomunicavel Woods-


tock. Beth Pimentinha, a verdadeira mulher ame-
ricana. Marcie e seu indefectivel tratamento ce-
rimonioso. Enfim, atras das caricaturas e da for-
ma infanto-juvenil, o macrocosmo human atra-
ves de um meio de comunicacao unico, um dos
mais genuinos do sculo XX, o quadrinhos (her6-
tico durante os tres primeiros seculos).
Schulz esta num panteio reservado a pou-
cos. Em companhia de Billy Watterson, Smythe,
Steinberg, Jules Feiffer, Quino, Gosciny-Uder-
zo e nao muitos mais. Gente que posa de grande
escritor cor obras mais convencionalmente
aceitas como se fossem de arte nao Ihes chega
aos p6s. Mas raros terao tido essa alegria de
encerrar a carreira reunindo em torno de sua
gl6ria desde meninos a vetustos senhores, todos
igualmente encantados, profundamente agrade-
cidos pelas incontaveis horas do mais sublime
deleite intellectual e emotional.
S6 os genios sao capazes de tanto. Charles
M. Schulz 6 um g6nio. Deus o poupe, na velhi-
ce, das dores da doenqa cruel que o acometeu e
Ihe assegure, ate o fim dos seus dias, algo equi-
valente ao estado de prazer superior que ele pro-
porcionou eqiianimemente a quem mora em
Nova York ou em Belem do Para. 0


Para encerrar (de minha parte), esta troca
de cartas:
1. Num Jornal Pessoal, exceto cartas, tudo
tern a mesma autoria e o que distingue o
editorial e o seu conteido e nio a exist6n-
cia ou nio de assinatura.
2. Lula nao poderia "enfrentar a raposa na
sua pr6pria toca", como voc6 cobra, porque
Lula nao sabe agredir e nem revidar agres-
sies. Isso 6 um fato. E uma questao de tem-
peramento. Pode ser uma qualidade, pode
ser um defeito. Brizola teria feito isso, o que
nao faz de Brizola necessariamente um lider
mais democrat do que Lula.
3. Lula nao e o "nosso mais important ope-
rario". Nem 6 mais operario. Nem 6 o nosso
mais important lider operario, como voc6
talvez quisesse dizer. Seria mais correto di-
zer que Lula 6 o nosso mais important lider
politico, ouum dos mais importantes... Are-
cusa em ver Lula como lider politico e insis-
tir emdefini- lo como lider operrio fazparte
de um quadro de restriqaes de origem
preconceituosa (minha opinion). Nem Lula
e operdrio e nem Makloufuma raposa.
4. E Maklouf mesmo, como eu grafei e nio
Macklouf, como voc6 grafou. Confira no
rite makloufifbr.homeshopping.com.br).
5. No site do observat6rio da imprensa voce
pode conferira intervenao de Lurian sobre o
pis6dio. Elaacusa Maklouf: deaterengana-
duplamente,primeiro aodizerque a estava
ntrevistando para um o livroda campanha
oPT,quando de fato era paraumaentrevista
Lara o Jomal do Brasil e segundo, de que a
nanchete da entrevista foi mentirosa. Note
ue Maklouf(nomesmo site) encheulinguica
nas no responded essas duas acusa6es.


6. Eu disse que 6 em outro editorial, de pri-
meira quinzena de janeiro que voc6 trata
das tarifas, e nao entendo porque voc6 dis-
se que eu me enganei de editorial.
7. Voce nao responded minhas perguntas
sobre os fatores cruciais do aumento nas
tarifas de 6nibus em Bel6m, base de todo o
teu editorial contra o Edmilson. Entre es-
ses fatores esta o seminario organizado pela
prefeitura em 19 de outubro, do qual resul-
tou a decisao de fazer pesquisa de demand
de passageiros que foi realizada em 3 e 4 de
Novembro, a qual revelou o sub-
dimensionamento, porparte as empresas, do
numero de passageiros transportados (em
mais de meio milhao de passageiros por
mes);vocd s6 trabalha cor o fato DIEESE
ignorando todos os demais fatos, fatores e
protagonistas.; ignorou os estudos de cus-
to feitos para esse tipo de service piblico
segundo sistematica elaborada pelo pelo
Ministerio dos Transportes e utilizada por
grande numero de municipios brasileiros,.
Voci alegou que tudo isso era de dominion
piblico, noticiado pela imprensa local, mas
eu pensei que Jornal Pessoal fosse um al-
ternativo a imprensa local e nio um
reiterativo da imprensa local.
A tarifa de 6nibus de Belem ainda 6 a menor
de uma lista de 18 regimes metropolitanas.(
fato) A de Sdo Paulo, onde eu moro vai de
R$1.15a 1.25.
7. NAo existem dois Berardos. Desde o
nascimento do PT eu sou um home de par-
tido. Ja fui assessor de imprensa do Lula,
ha uns quinze anos, e fui editor do Boletim
Nacional, orgio da Diregio do PT. Minha
atual assessoria e at6 mais restrita porque


esta limitada a oito horas semanais, confor-
me o regulamento da Universidade par a
prestacdo de serviqos relevantes a socieda-
de por docentes em tempo integral, como e
o meu caso. E a universidade fica corn 10
por cento do valor do contrato.
8. Foi bom voci negar (mesmo espemeando
um pouco) que tenha feito acusaqSes de
corrupAo no caso das tarifas e reconhecer
que nio tem provas para tanto. Foi bom para
voce, principalmente.
9. Mas na matria "A Mesma Moeda", voce
volta a fazer acusaq6es: desta vez a de que
Edmilson esta formando um caixa de cam-
panha..(pg 2, coluna 3, paragrafo 3). Como
voc6 sabe, former caixa de campanha, antes
de iniciada a campanha, crime. Sevoc6 tem
provas, deveria apresentar e o Edmilson que
se defend, se puder. Se for verdade, voc6
estara prestando um grande servico ao PT e
a democracia. Se voc6 nao tem como provar,
poderi estar cometendo crime de calinia.
(imputar falsamente ato delituoso). Estou
sugerindo Prefeitura de Belerm que inter-
pele voc6 sobre essas acusaq6es, invocan-
do a lei de Imprensa. Provavelmente nao
seguirao meu conselho.
Atenciosamente,
Bemardo Kucinski
Minha resposta
A carta de Bernardo chegou quando a edi-
doo destejornaljd estavafechada. Para
reabri-la epublicar a carta, sacrifice mi-
nha resposta e outras mat6rias, cor a ve-
nia dos leitores. Quero apenas ressaltar
que este e, defato, umjornal alternative.
Republicar o que a grande imprensajd di-
vulgou 6 que seria "reiterativo ". Hd 12


anos sai aqui o que os outros 6rgdos se
recusam apublicar como mostrar que em
estava por trcs do assassinate de Paulo
Fonteles (1987), do "rombo no Banco da
Amazdnia (1987), denunciar o
narcotrafico international (1992) ou, ago-
ra, o autoritarismo do prefeito e aperda de
pardmetros do governador. Todos os
questionamentos de Kucinski,feitos ape-
nas agora, sendo ele um acompanhante
destejornal desde o principio, dizem mais
sobre sobre ele do que sobre mim. Conti-
nuo respondendopor tudo o que escrevo,
integralmente. Aqui, najustica e ondefor
Sofuiprocessado tries vezes: durante o re-
gime military em 1976, pordenunciara vi-
olencia dapolicia nafuga dospresos que
iam ser levadospara sessdo de tortura em
Cotijuba; em 1992, cinco vezes, por
Rosdngela Maiorana, uma das donas do
grupo Liberal, por contrariar os interes-
ses dela; e tr6s vezespor Cecilio Rego de
Almeida, no anopassado, por acusi-lo de
tentar grilar 6% de todo o territorio
paraense. No maisfui ameagado, inclusi-
ve de morte. Em nada de essencialfui des-
mentido em 34 anos de carreira. Ja estou
velhinho e escolado o suficientepara te-
merarengas, venham elas como clara ame-
aqa ou disfarcadas de aviso. Como dizia
aquelefamoso cartola corinthiano, quem
saina chuva epara se queimar. Uns em sen-
tidofigurado. Outros, literalmente. Eme-
lancolicamente. Sem a grandeza dos que,
depois de terem sido baladeiras, ao vira-
rem vidraga, ndo reagem como sefossem
os donos da bola, que decide levarpara
casa afim de acabar com ojogo. 0







6 JOURNAL PESSOAL *2I QUINZENA DE JANEIRO/ 2000


A democracia

petista ainda
Nenhuma surpresa cor o bla-bla-
bla assalariado de Bernardo Kucinski
na iltima edicao deste Jornal Pesso-
al. Ha muito ele abandonou qualquer
nocqo de 6tica jornalistica como ji
assinalei, ha tempos, no artigo "Ber-
nardo Kucinski, o antietico", sempre
disponivel em Profissao: reporter, a
homepage que mantenho na Internet
(www.geocities.com/reportagens).
Quanto a defender a censura do seu
agora patrao, Luis Inacio Lula da Sil-
va, tambem nao foi surpresa. Kucinski
ja havia defendido tese do gdnero, corn
lamentavel guinada a direita, no "li-
vro"-cascata em que absolveu a ditadu-
ra military da violent censura sobre jor-
nalistas e meios de comunicaqao. O
resto 6 opinion barata, mentira, dedu-
ragem e prestaq o de serviqo sujo -
degradante canto do cisne para quem
ji foi o que ele foi.
Luiz Maklouf Carvalho
Imaklouf(uol.com.br.I


Refiro-me ao artigo "Desafio de-
mocrdtico" (JP n" 225), e seu desdo-
bramento na controversial com o Sr.
Bernardo Kucinski, publicada na edi-
qFo seguinte.
Parece-me impr6prio afirmar que
o PT consider a democracia um "bem
intermediirio", um estigio transit6rio
ao qual se seguira um outro regime, que
prescinda do process democratic.
Nada, na trajet6ria do partido, autoriza
semelhante disparate!
Ao contrario, como oposicao ou
como govemo, o que o PT tem procu-
rado fazer e, em diferentes escalas,
conseguido -, e ampliar e aperfeiqoar
os canais de participaq~o democratic.
Num pais como o nosso, cor long
tradicao de baixissima participacao so-
cial, nem sempre os resultados obtidos
sao os desejados (e necessarios). Mas e
inegAvel que a sociedade brasileira tern
avanqado bastante nesse sentido. E e
evidence, tanto quanto, que o PT con-
tribuiu significativamente para isto, jun-
tamente cor varias outras organiza-
qoes, partidarias ou nao.
Tamb6m consider um excess de
simplificaqAo, colocar um sinal de igual-
dade entire o PT e os partidos comunis-
tas do leste europeu. Trata-se de uma
pratica muito utilizada pelos conserva-
dores, a falta de argumentagao mais con-
sistente, cor o objetivo de explorer os
temores irracionais de uns, e a ignorin-
cia political de outros.
E a velha hist6ria que se repete
cor irritante monotonia nas campa-
nhas eleitorais de afirmar que, uma
vez eleito, o governor petista confisca-
ri aparelhos de tev6, substituira o verde
e amarelo da bandeira brasileira pelo
vermelho da bandeira partidaria, e ou-
tras imbecilidades do genero. Assim, os
conservadores dizem exatamente o mes-
mo que o senhor disse em seu artigo, s6
que de um modo grosseiro e vulgar. No
frigir dos ovos, 6 apenas uma questao de
estilo. Tanto faz dar na cabega, como
na cabega dar.
Ora, se existe algo historicamente
comprovado a esse respeito, e a estrei-
ta aproximacao entire o PT, ji nos seus
primeiros anos de existencia, e o sindi-


cato polones Solidariedade, peca funda-
mental no process politico do qual re-
sultaria o desmonte do chamado "soci-
alismo real", na Europa oriental.
Aqueles que acompanham mais de
perto a trajet6ria do PT, alias, hao de
ter testemunhado, em especial nos pri-
meiros cinco ou seis anos de existencia
do partido, as critics das correntes
marxistas, minoritarias, ao "exacer-
bado anticomunismo" das correntes
majoritarias.
Hoje nao saberia dizer se havia mes-
mo o tal "anticomunismo", e muito
menos se, existindo, ele era "exacerba-
do". Encaro os debates de entao corn
absolute naturalidade, em se tratando
de um partido essencialmente pluralista
como o PT que, como acertadamente
assinalou o Sr. Bemardo Kucinski, nao
se define pelo "marxismo de alguns de
sens filiados, e atW de algumas de sua
fac~des.......nem pelo catolicismo de
outros". 0 que define o PT 6 "uma
vaga ideia de socialismo democratic;
a radicalidade e a vontade de mudan-
gas e de aprofundamento democrdti-
co; uma espkcie de etica que une gene
tIo diferente ", como cat6licos, evan-
gelicos, judeus, marxistas, ex-marxis-
tas, socialists, liberals, etc.
Nao ha como negar que o debate
politico e ideol6gico, o conflito de opi-
nibes, sempre foi caracteristica mar-
cante no PT. A tal ponto que os adver-
sbrios politicos do partido costumam
afirmar que ele jamais constituiri uma
altemativa de poder, tantas e tamanhas
sdo suas divisbes interas. A existencia
de um PT monolitico e totalitario s6 6
lembrada no discurso conservador, exa-
tamente nos moments em que, con-
trariando essas profecias, o partido se
afirma como alternative de poder, em
imbito local ou national.
O carter pluralista e democritico
do PT 6 que fez dele, nas palavras que o
senhor mesmo utilizou, "o mais nobre
dos partidos brasileiros, o de melhor
trajetdria, o mais consistent de todos".
Suas palavras valem um outdoor de pro-
paganda institucional...
E, jd que falo de outdoor, consider
deploravel a pichacqo de outdoors de
protest contra o aumento de preqo
das passagens de 6nibus em Belem. Nis-
to concordo cor o senior. E discordo
quanto a que os autores do protest de-
vam ser acionados judicialmente. O pro-
testo 6 legitimo, e pronto! Nao ha o
que discutir quanto a isto.
Agora, dar a entender que a picha-
qao dos outdoors concretiza uma deci-
sAo do PT, e pular uma passage. No
maximo, ela poderia ser atribuida a in-
tolerAncia e a miopia political de al-
guns militants mais exaltados. Em vi-
rios pontos da cidade, ai incluida a qua-
dra onde moro, encontram-se expos-
tos esses outdoors, sem que tenham
sido pichados. Sera que a misteriosa
decisao partidaria restringiu-se a ape-
nas alguns desses cartazes? E claro que
essa pichaqao constitui uma acao iso-
lada, que de forma alguma pode ser con-
siderada prova irrefutavel do carter
totalitArio e congenito! do PT. Se
6 que ela foi mesmo realizada por mili-
tantes do partido.
Durante uma campanha eleitoral re-
cente, testemunhei a danificaqao do
outdoor de uma candidate de partido
oposto ao PT. A pichaqeo consistia em
desfigurar o rosto da candidate, e em
desenhar uma estrela de cinco pontas
com a inscrigao "PT" em seu interior.


Detalhe: os pichadores nio eram pe-
tistas, e sim membros provavelmen-
te remunerados do "escrit6rio eleito-
ral" de um outro politico, alias inte-
grante da mesma coligaqto da candida-
ta agredida (os pichadores portavam
material de propaganda desse politico).
Juntamente cor alguns amigos amea-
cei acionar a policia, diante do que os
vAndalos se retiraram.
Nem me surpreenderia se os auto-
res da pichacao a que o senhor se refe-
re tambem nao fossem petistas. Salvo
as exceq6es de praxe, os militants do
partido sabem que pichar cartazes de
adversarios atrai mais antipatia que
apoio. E dar tiro no proprio p6. E sen-
so majoritArio no PT, que tal pratica,
al6m de burra e suja, em nada contribui
para o aprofundamento democratic,
este sim, um dos mais importantes va-
lores estrategicos do partido. Os tro-
gloditas pichadores e que deveri-
am ser processados!
Penso que atenderia bem mais ao
interesse public, determinar claramen-
te se o aumento do prego das passagens
de 6nibus foi ou nao abusive. Conviria,
talvez, comparar o preqo de Bel6m com
os de outras capitals, por quil6metro
rodado, ou apurar comparativamente a
elevagao desses precos no period 1997/
1999. Ou, ainda, comparar a evoluqao
de preqos em Belem, nesse trienio, ano
a ano, cor a ocorrida, digamos, de
1989 a 1996, cotejando a variaqao de
cada ano, com a evoluqao da inflagao,
dos precos ao consumidor e do salario
minimo, no mesmo period.
Ai sim, seria possivel uma avalia-
qao objetiva do desempenho da gestio
Edmilson Rodrigues, nesse particular,
em relagao as gest6es precedentes. Se-
ria igualmente possivel verificar se as
regras do jogo estao ou nAo mudando, a
partir de quando, e em que sentido. Ou
muito me engano, ou a comparaqAo serA
francamente favoravel a Edmilson...
Nao consigo concordar com a
apreciacAo que o senhor faz, do "veto"
de Lula a participaqao do jornalista
Luiz Macklouf de Carvalho, na entre-
vista que o lider petista deu a TV Cul-
tura, de Sao Paulo.
As evid6ncias parecem indicar que
nao 6 lA dos melhores o conceito de que
o Sr. Macklouf desfruta, mesmo fora do
PT. Nao por acaso, o senhor reagiu conm
indignaqAo, ao fato do Sr. Kucinski jul-
gA-lo capaz de cometer "o mesmo e
grave desvio etico" do Sr. Macklouf.
Em sua defesa, o senhor argiiu os "34
anos de exercicio professional de pa-
drdo 4tico, moral e tecnico completa-
mente oposto ". Oposto ao padrAo 6ti-
co, moral e t6cnico de quem? Do Sr.
Macklouf, suponho...
Compreendo e respeito seu pon-
to de vista, de que Lula deveria com-
parecer A entrevista, com a partici-
paqao do Sr. Macklouf, a quem pro-
curaria desmascarar, diante das ca-
maras. Isto posto, me permit le-
vantar pelo menos duas questbes: a)
o desmascaramento pretendido seria
mesmo possivel? e b) recusar-se em
comparecer a uma entrevista da qual
participe um determinado jornalista,
constitui realmente um "veto", e uma
attitude antidemocratica?
A primeira pergunta parece ter sido
respondida pelo que aconteceu exata-
mente naquela entrevista. Diante das
cimaras, a jornalista Eliane Cantanhe-
de negou, categoricamente e, como dis-
se o Sr. Kucinski, "com o dedo em


riste, na cara de Lula ", a ocorrencia da
vergonhosa reuniAo dos peso-pesados
da imprensa com FHC. Encerrada a gra-
vaqAo da entrevista, a mesma Sra. Elia-
ne teria pedido desculpas a Lula, dizen-
do que "tinha que desmentir". E de em-
brulhar o estomago...
Como "desmascarar" esse tipo de
gente? Tera sido desmascarada a Sra.
Eliane Cantanhede? Duvido! Ela conti-
nua muito ber, fazendo o que sabe, pode
e quer fazer do exercicio de sua profis-
sao. E assim permanecera. A esmaga-
dora maioria do public que assistiu a
entrevista, jamais sabera de seu nausea-
bundo "pedido de desculpas". E, se isto
for divulgado, a Sra. Eliane, corn a des-
facatez de que ja se mostrou capaz, sem-
pre podera negar publicamente que pe-
diu desculpas a Lula.
Daqui por diante, acho perfeita-
mente compreensivel que Lula, even-
tualmente, tambem se recuse em com-
parecer a um program de tev6 do qual
essa senhora participe. Nada hA de anti-
democritico nessa conduta. E, apenas,
um protest contra a hipocrisia e a ma-
fe de alguns profissionais da imprensa
que, no caso, atingiu niveis reconheci-
damente excessivos.
O debate s6rio, honest, demand
um certo respeito entire os contendo-
res. E acho que, da parte de Lula- como
da maioria dos petistas que conheqo o
respeito em relagao a pessoas como o
Sr. Macklouf e a Sra. Eliane esti, no
minimo, comprometido. Motivos nao
faltam. Pelo menos, at& que ocorra algo
mais respeitdvel que o repugnante "pe-
dido de desculpas" daquela jornalista.
A recusa em comparecer a um
debate,-porque dele participarA al-
guem a quem ele tem motives de so-
bra para nao respeitar, nao faz de
Lula um dirigente bolchevique. Se nao
for assim, entao o planet esta cheio
de partidos e politicos bolchevistas.
O Sr. Clinton quem diria ? deve
ser o secretario geral do soviet su-
premo norte-americano...
NBo comparecendo a entrevista, o
lider petista em nada prejudicaria o di-
reito do jornalista de exercer sua profis-
sdo, ou de escrever e publicar o bem
entenda e queira, sobre o partido e o
politico. Nao comparecendo a entre-
vista, Lula prejudicaria mais a si mesmo
e ao PT, porque perderia a oportunida-
de de divulgar e submeter a apreciaqao
da opiniao public, as id6ias, andlises e
propostas de seu partido. Dispondo-se
em nao comparecer a entrevista, se dela
participasse o Sr. Macklouf, Lula sub-
meteu-se ao risco de vetar nao o jorna-
lista, mas a si mesmo e ao PT, por ele
representado. Um risco que, salvo en-
gano, foi compreendido e aceito pela
maioria do partido.
A direq~o da TV Cultura-SP, pro-
vavelmente relevando as condiq6es
em que a participagco do Sr. Macklouf
foi decidida e comunicada a Lula -
ber esquisitinhas, por sinal... -, pre-
feriu recuar, desconvidando o jorna-
lista. Paciencia...
0 senior, provavelmente, proce-
deria de modo diferente, e se submete-
ria a um outro risco: o de oferecer seu
espaqo, para mais uma exibiqio da hi-
pocrisia de seus adversarios. Reitero que
compreendo e respeito sua opiniao, mas
nao creio que ela detenha o monopolio
da conduta democritica.
Nbo descarto um debate "olhos nos
olhos", reunindo Lula, o Sr. Macklouf,
a Sra. Eliane Cantanhede e outros mais.







JOURNAL PESSOAL *2, QUINZENA DE JANEIRO/ 2000 7


Porem, tendo sido Lula o agredido, penso
que nao seria demais conceder a ele o
direito de escolher o melhor moment
e local. Se e quando isto ocorrer, os
jomalistas se recusarem a participar, te-
remos de reconhecer que esse 6 um di-
reito que Ihes assisted. Nao sera motivo
para Lula se considerar "amordaqado".
Quanto ao desmascaramento, 6
questionivel que aquela entrevista fos-
se a melhor oportunidade, e o melhor
veiculo. Os fatos confirmam.
E, para finalizar esta carta queja se
along, uma ultima contestacao. E um
flagrante exagero dizer que, para o PT
paraense, o senhor se converted numa
especie de bete noire. Ao contrario: entire
militants e simpatizantes do partido, e
que certamente se encontra boa parte -
senao a maioria de seus mais sinceros
admiradores, e dos mais fi6is leitores do
cada vez melhor Jornal Pessoal, e da
excelente Agenda Amaz6nica.
Corn prazer me incluo entire eles, ali-
as. O que, obviamente melhor dizer de-
mocraticamente -, nao implica con-
cordar cor tudo o que o senhor escreve.
Cordialmente
Elias Granhen Tavares
etamesupridados.com.br


MINHA RESPOSTA
Desafio o leitor a pingar neste jor-
nal alguma avaliaqAo tao caricata e pre-
conceituosa como a que ele critical em
sua carta. Nao e uma diferenqa de enfa-
se ou de estilo que separa a critical que
aqui tenho feito a pratica petista no
poder, conf .:.:ndo-a cor seus pro-
gramas e teses do partido, do ataque
vulgar dos conservadores: e de substan-
cia. Porque busca tocar nas entranhas
do problema, nao nas suas manifesta-
q6es superficiais, nem apenas no seu
"discurso", "imaginario" ou qualquer
outro jargio de reduq~o sociol6gica.
Jamais escrevi que a conquista do
poder pelo PT em qualquer instdncia,
seria o dihvio. Mas, infelizmente, no
caso de Belem, significou a mesmice
edulcorada. Ner todo o PT e assim;
provavelmente nem a maioria. Mas
tornaram-se assim (ou assim sempre
fbram) alguns petistas que tiveram aces-
so aos cord5es do powder, querendo ma-
nejd-los sem fiscalizaCdo ou critical. De
fato, muita gene que milita no PT on
Ihe e simprtica 1e o Jornal Pessoal e
ihe da todo o apoio. Ndo signijica que
endossem tudo o que escrevo. Nem essa
unanimidade esteve nas minhas cogi-
laCdes. Um critic vive em ambiente de
controversial, de opostos. Enfrentar
bons adversdrios nos faz crescer. Cer-
car-se de dulicos sd avilta e emburre-
ce. Mas ndo e o que o prefeito e seus
apparatchicks querem.
A um interlocutor comum, Edmil-
son Rodrigues disse que ndo Il mais este
journal porque e s6 critical, sempre "do
contra ". Respeito seu direito de ndo que-
rer ler o JP. Mas e inaceitdvel o pretex-
to. Nunca Ihe faltou espaco aqui para
retificar ou contrapor: Espaco gratuito,
integral (o que talvez ndo agrade aos
profissionais dos 20% que agora surgi-
ram a sombra da estrela vermelha). Ndo
querendo dar-se ao (ds vezes ingente,
reconhepo) trabalho de escrever pode-
ria chamar-me e esclarecer-me. Se eu
me negasse a ouvi-lo ou se manipulasse
suas informacdes, poderia ate expur-
gar-me, cor just motivo. Mas qual o
jitsto motivo para inserir publicidade
municipal no Jornal Popular?


0 alcaide acostumou-se ao beija-
mdos, ainda que (ao menos por enquan-
to) municipal. Quando alguem o inco-
moda cor perguntas indesejdveis, da
choice, comofez cor a reporter Micheline
Ferreira, de 0 Liberal (e mais um traco
de identificaado cor seu adversario Al-
mir Gabriel). Em material de comunica-
Vdo cor o puiblico, ele renegou tudo o
que prometeu. So um exemplo: o Didrio
Official do Municipio continue a ser ao
final da gestao Edmilson Rodrigues, uma
publicaVdo clandestine. Ndo s6 pela bai-
xa tiragem, como pelos entraves a sua
comercializac~o (e caro e quem se atre-
ver a assinar vai ter que buscar seu exem-
plar na Secretaria de Administracdo).
Se na epoca da eleifdo e no inicio
do mandate eu era bem-vindo e se ate
hoje os bons militants e simpatizantes
petistas continuum prestigiando este
journal cor sua leitura critical, perma-
nente, a despeito de nossas sauddveis
divergencias, por que o grdo-vizir da
cidade bate o pe e anatematiza esta
folha verdadeiramente independent,
pela qual os autenticos defensores dos
interesses do povo tem, pelo menos,
simpatia? Quem mudou? Permanego
o mesmo outsider que Bernardo Ku-
cinski elogiou em seu livro de 1991, a
pdgina 5 de Jornalistas e RevolucionA-
rios, livro de 1991: "Surgiu um estilo
alternative [de fazer jornalismo], do
qual muitos jornalistas nunca mais se
desfizeram (como Mouzart Benedito,
Lucio FIavio Pinto, Ivan Mauricio e
Paulo Francis) ". Muito radical que
pregava a minha esquerda trocou de
camisa (e, agora, cor perturbadora
freqiiencia, de carrdo).
Por uma questdo de espaco (que
me faz implorar aos leitores para serem
mais objetivos em suas cartas, permitin-
do-me publicai-las na integra sem com-
prometer a edicdo do journal) e em res-
peito a lucidez do Elias, vou apenas res-
ponder telegraficamente as questoes fac-
tuais, deixando nossas interpretacdes e
posiCdes para outra oportunidade.
Ate Bernardo citar o fato em sua
carta, eu desconhecia o comportamen-
to ambiguo de Eliane Cantanhede no
program da TV Cultura. Sempre res-
peitei Eliane como uma boa jornalista
e pessoa digna (alem de uma dama).
Nao li em nenhum journal sobre o episo-
dio relatado daquela maneira por Ku-
cinski (o que nao significa que ndo exis-
tiu: simplesmente eu ndo li). Se ela agiu
como ele diz, merece complete e drdsti-
ca reprovacdo. 0 incident deveria ter
sido divulgado amplamente, o que os
6rgdos de imprensa aos quais live aces-
so ndo fizeram.
Lula, como qualquer outro home
plblico, ndo ter o direito de interferir
na escolha dos jornalistas que o irdo
entrevistar Compor essa banca e res-
ponsabilidade exclusive da empresa jor-
nalistica responsdvel pela entrevista. Se
uma parte quer manipular a bancada e
se a outra aceita tal interferencia, am-
bas revelam seu despreparo para o exer-
cicio da liberdade de imprensa e, por
extensao, para a pratica democrdtica.
Pode-se e deve-se discutir as re-
gras da entrevista. Nao os nomes dos
entrevistados. Se convocar uma coleti-
va, Lula, assumindo as conseqiiencias
de sua decisdo, pode dizer que ndo
aceita tal jornalista ou tal orgbo de
imprensa em sua casa. E uma attitude
antipdtica e antidemocratica. Mas e,
pelo menos, o exercicio do direito de
anfitrido. Afinal, ninguem e obrigado a


tender a convocacgo para a coletiva.
Mas se ele e um democrat (e ndo hdi
democracia sem imprensa livre e criti-
ca, como estamos cansados de saber
desde Thomas Jefferson e sua Primeira
Emenda), ter que aceitar (e estimular
mesmo) expor-se aos riscos do debate.
Falo isso porque sempre fiz isso. Fui
6 TV Marajoara (jl extinta) para uma
entrevista cor o entdo todo-poderoso
ministry Jarbas Passarinho, em pleno
governor do general Medici, em 1972,
se ndo me engano. Fiz perguntas im-
pertinentes (ou pertinentes, mas arris-
cadas para a epoca). Num moment
em que eu tentava acuar o entrevistado
no corner, Passarinho veio corn um golpe
que, em outras circunstdncias, seria con-
siderado baixo: argumentou que eu
admitia o uso da forca por Mao Zedong
(Tse-Tung entdo), mas se o president
Medici a usasse seria ditador. Recuei, e
claro. Mas fui ate o limited cuja transpo-
sido talvez me fizesse sair do estuldio
para outra dependdncia que ndo o meu
muito estimado quarto.
Furor meu contra Passarinho?
Ndo. Sdo os riscos do oficio (ou seus
ossos). Enfrentar Passarinho foi, ao
long de mais de 30 anos, uma das
minhas mais produtivas universidades.
Mesmo ndo querendo, ele me ensinou
mais do que a esmagadora maioria
dos meus professors ou amigos. Res-
peitamo-nos ate hoje. Eu nada Ihe
devo. Nem ele a mim. Et pour cause,
como diria o Fernando Castro.
Quanto ao avanco do governor Ed-
milson Rodrigues nos transportes cole-
tivos de Belem, s6 algumas pergunti-
nhas. Onde esta a empresa municipal
de transport coletivo, que serviria de
pardmetro para a prefeitura enfrentar
cor boas armas os tubaroes dos 6ni-
bus? Cade a concorrincia public para
a renovagco das permissdes aos parti-
culares? Por que ndo se admite que as
empress dispostas a tal reduzam suas
tarifas, como querem fazer os donos de
fresquinhos que circulam no centro da
cidade (querem reduzir o prego de R$
1,40 para R$ 1.00, ap6s aumento, de
um s6 tapa, no bolso do cidaddo, de
40%), deixando o mercado funcionar?
Cade as medidas de maior envergadu-
ra, todas elencadas nos estudos coman-
dados pelos japoneses da JICA (que,
maquiavelicamente, o governor do Es-
tado anuncia a retomada, evidencian-
do o descaso municipal)? Mudancas,
sim, Elias, mas cosmeticas. As empresas
que o PTfustigava sdo as mesmas que
hoje o prefeito afaga (e vice-versa?).
Por fim: enquanto enche de anun-
cios e press-releases a grande impren-
sa omissa, conivente ou tendenciosa, a
prefeitura omite informacdes e se cala
em relacdo a este jornalzinho, que re-
cusa publicidade e quer tdo-somente
informagoes.
Isto e ser democr6tico?
PS Uma retificacdo. A razdo estd
cor Bernardo ao grafar Maklouf e nao
Macklouf como escrevi. Penso ser sua
maior razdo nesta polemica.



Pesquisa
Prezado Senhor,
No JP no. 226, de Janeiro de 2000,
o artigo da primeira pagina, intitulado
"A mesma moeda", menciona uma pes-
quisa realizada pelo nosso Instituto
"Acertar", realizada por encomenda de
um dos nossos clients, a Prefeitura


Municipal de Bel6m. O artigo, no nosso
entender, rebaixa a boa image cientifi-
ca e empresarial do Acertar ao afirmar
que a pesquisa foi "feita...por uma em-
presa local (a Acertar), sem maior reco-
nhecimento institucional...". Ora, como
deve ser do seu conhecimento, o Acer-
tar atua hi mais de dez anos no mercado,
tendo realizado, entire outras, int(meras
pesquisas de opiniAo pifblica, corn resul-
tados de alta confiabilidade e acerto, al-
guns dos quais divulgados na midia. Con-
quistou, assim, o reconhecimento dos seus
clients e da sociedade. Ficamos estra-
nhados que seu Jomal, conhecido defen-
sor das causes regionais, negue este reco-
nhecimento a uma instituiqto que foi e
continuanr a ser pioneira no exercicio da
sociologia aplicada na regiAo.
Outrossim, o artigo, ao afirmar que
os personagens de que trata "se v6em
atrav6s de um espelho viciado", pode-
ria dar a impressao que a pesquisa reali-
zada pelo Acertar para o client menci-
onado contribuiria para a criacqo de
imagens erradas da realidade political
local. Queremos esclarecer que os resul-
tados das nossas pesquisas nio depen-
dem de vontades ou desejos dos nossos
clients. Nao temos, alem da relacio
professional, nenhum vinculo ou com-
promisso cor nenhuma corrente ou
partido politico, estando sempre aber-
to para oferecer nossos serviqos a qual-
quer client que queira dispor de infor-
macdes autEnticas e confiaveis.
Atenciosamente
Am6rico Canto
Gottfried Stockinger
Soci6logos, Diretores de
Pesquisa do Acertar


MINHA RESPOSTA
Nao tive qualquer intencdo de des-
merecer a Acertar Registrei apenas que
seu reconhecimento institutional nbo e
o mesmo de outras empresas, como Vox
Populi, exatamente porque de um lado
o governador reclama contra a segun-
da s6 porque o resultado da pesquisa
lhe e desfavoravel, como o prefeito su-
perestima a primeira por um resultado
que ndo permitia a checagem, ao nao
divulgar a integra da pesquisa (o que os
diretores da Acertar deveriam acerta-
damente fazer se permitem o trocadi-
Iho). Quando nada, a diferenca de status
entire Vox Populi e Acertar result pelo
menos da dimensdo national de uma e
regional de outra, sem que "reconheci-
mento institutional" tenha necessaria-
mente a ver, numa relagdo diretamente
proporcional, corn qualidade.
Quanto ao espelho viciado, a pes-
quisa sob control, bem feita, mas a par-
tir de uma determinada solicitagdo do
client (por exemplo: relacdo de nomes
de candidates a serem pesquisados), e
apenas um dos components. Ndo o uni-
co. Nem, freqientemente, o mais impor-
tante. Dai o governador, de cara limpa,
dizer que a Estacdo das Docas t uma das
obras mais bonitas do mundo. E o pre-
feito apregoar que Belem e a metr6pole
das luzes (talvez, quem sabe, sendo regi-
onalista, das luzes de lamparinas).
Espero que a Acertar seja mais bem
sucedida que outras, inclusive para ndo
ver-se na infeliz circunstdncia de pre-
ver, como jd aconteceu anos atrds, a
vitoria de Fernando Velasco na dispu-
at em que Sahid Xerfan foi eleito pre-
feito de Belem corn a maior diferenca
de todos os tempos numa eleido para
o governor da capital. 0







Grilagem
0 Incra (Instituto Nacional de
ColonizaCao e Reforma Agrdria)
esti prometendo despertar de um
long sono, que nao teve beijo de
principle na origem, e adotar uma
serie de medidas legais,judiciais e
administrativas para combater a gri-
lagem de terras no Brasil, que ame-
aga engolir 10% do territ6rio brasi-
leiro. Dos 93 milh6es de hectares
de terms griladas arroladas num "li-
vro branco" publicado no final do
ano passado, quase 65 milh6es se
localizam na Amaz6nia Legal.
O Mato Grosso e o Estado
mais visado pelos grileiros, que
tentam se apoderar de 22,7 mi-
lhWes de hectares do Estado, em
960 im6veis rurais irregularmente
constituidos. Mas, proporcional-
mente, o problema e mais grave
no Para, o segundo no ranking
do Incra, que ter 20,8 milh6es de
hectares grilados (praticamente
15% do seu territ6rio), em422 im6-
veis ilicitamente registrados.
Ainda que, contrariando seu
passado, o Incra venha a agir comr
eficiencia a partir de agora no com-
bate a grilagem, o problema s6 vai
refluir se ajustiga fizer a sua part,
usando mao pesada contra aque-
les cart6rios imobilirios, que se tnm
notabilizado por total irresponsa-
bilidade no exercicio de sua f6 pu-
blicapara coonestar e legalizar frau-
des. Estimulados, talvez, pela par-
cim6nia, tolerdncia ou qualquer que
seja o qualificativo cabivel para clas-
sificar a attitude do 6rg~o dojudici-
ario encarregado da correicgo des-
ses serventuarios ptiblicos.


Origem
Ao contrario da denuincia feita
pela CPI do narcotrafico instalada
na Cdmara Federal, quando da pas-
sagem dos seus integrantes por
Belem, no mes passado, nao ha pro-
va alguma do envolvimento do de-
sembargador Werther Benedito Co-
elho cor qualquer dos ramos do
crime organizado ou outra ativida-


de ilicita que seja. A vinculagao e
produto de um equivoco, a partir de
meras coincid&ncias. E que o ma-
gistrado nao perquire pela origem
dos beneficios que produz com
suas sentencas.


Mostruario
O juiz federal Rubens Rollo
d'Oliveira, da 3' segaojudiciaria
do Pard, anunciou que proces-
saria Veja por crime contra sua
honra. A revista o criticara por
tratar como "contrabando sim-
ples" a apreensao em agosto,
pela Policia Federal, em Santa-
r6m, de um aviao que vinha do
Suriname "carregado de metra-
lhadoras, quilos de municao fa-
bricada na Libia e dois misseis -
um antia6reo e outro antitan-
que", segundo a revista.
Ojuiz admite que o contraban-
do poderia at6 estar relacionado
ao narcotrafico, mas "nenhuma
prova havia nesse sentido" nos
autos, que sao a base da aprecia-
9ao do magistrado e nao simples-
mente "o clamor publico, nao
podendo admitir "que cor a mi-
nha toga se pague o mico da Po-
licia neste circo" (a federal teria
superdimensionado o fato, come-
tendo violencias e ilegalidades
para caracterizar crime de trafico
de drogas).
Argumentou o juiz que o
aviao nao seguia a rota usual do
trifico de drogas, que parte da
Col6mbia, Peru ou Bolivia para o
Suriname: "a rota era inversa",
explicou. O teco-teco saira do
Suriname para destiny ignorado.
Ademais, no aviao foi encontra-
da "pequena quantidade de ar-
mas", que constituiriam "apenas
uma esp6cie de mostruario". Des-
se "mostruario" faziam parte uma
metralhadora Uzi de 9 milimetros,
um potente fuzil AK-47, um rifle,
1.245 cartuchos de municio e tres
foguetes. Cor tais peas de exi-
bigao, nao surpreende que o pra-
cista usasse um aviao para ir atris
dos clients.


Seitores da







Agna ., -
ca 3numero cin s a *. e
.tem.p p e d e


j n a banca *.) s -











veoin r plerebido a1
magenda .ede esp so-


brea Cau T ingem. A
grande revolt popular
completou 165 anos no ilti-
mo dia sete e n-o 185 anos.
Mais uma vez: perdao, leitores.

Deve ter sido virus de orgamen-
to tucano, que sempre esti au-
mentando infiltrado no comnu-


tador ou na mente cansada.


Grandeza
Corn 400 obras em seu acervo
e em plena e regular atividade
cultural, o Mabeu, o museu de
arte do Centro Cultural Brasil-Es-
tados Unidos, comega o ano con-
firmando ter-se tornado a mais im-
portante instituigao particular
nesse setor da hist6ria paraense
(e uma das mais expressivas fora
do circuit do Sul-Maravilha). Sua
agenda para 2000 ter metas au-
daciosas, como a aquisicao de
uma escultura de Victor Breche-
ret, de 100 gravuras, de pelo me-
nos um tergo "de valioso acervo
de escritor paraense" e insistin-
do na compra de pintura, "para
maior harmonia do acervo". Isto,


sem falar nas exposiiOes previs-
tas, inclusive as do ja consagra-
do "Salao de Primeiros Passos".
Esse ja grande museu e um
produto de gente grande, como
destacou o marchand Gileno
Miller Chaves na avaliaqao do
trabalho do ano passado. Ao seu
estilo, Gileno concluiu sua andlise
observando que as cores mais im-
portantes para o Mabeu, como
qualquer qualquer outro museu do
mundo, "sao a cor da solidarieda-
de e a cor do dinheiro". O saldo
das realizaq6es contabilizadas de-
monstra a possibilidade de haver
"planejamento abaixo do equa-
dor". Desde que as pessoas nao
se apequenem, 6 claro. Espera-se
que as do Mabeu escape A regra
do atrofiamento, que faz da cultu-
ra um meteoro no c6u paraense.


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