Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00175

Full Text




Journal Pessoal I
L U C I 0 F L A V I 0 P I 'l T 0
ANO XIII N9 226 1t QUINZENA DE JANEIRO DE 200~-i R$ 2,00 J(
'M. J,-,,
POLITICA L\



A mesma moved


0 governadorAlmir Gabriel e oprefeito Edmilson Rodrigues se tornaramferozes
inimigos politicos. Mas declaragoes prestadas a um journal revelam semelhangas
indesejdveis entire os dois. Ambos sdo autoritdrios. Ambos se veem atravds de um
espelho viciado, que criaram, a sua image e semelhanga, gragas a uma
imprensa chapa branca, alimentada por uma propaganda dirigida. Nao e um
espelho como o da madrasta da Branca de Neve. Sefosse, jd tinha sido quebrado.


Q s leitores da Gazeta
Mercantil Para tive-
ram, na ultima edicqo
do jomal no ano pas-
sado, a oportunidade
de confrontar as duas
principals autoridades publicas do
Estado. Em entrevistas de pagina
inteira, o governador Almir Gabri-
el, do PSDB, e o prefeito de Be-
16m, Edmilson Rodrigues, do PT,
trocaram farpas, mas revelaram -
certamente indesejados pontos
em comum: uma dose de arrogan-
cia que result menos de uma ava-
liaqfo extera de suas adminis-
traqbes (a do primeiroja com cin-
co anos, a do segundo com tr6s)
do que de uma certeza entranha-
da em cada um deles.
Ambos estAo convictos de
fazer um bom governor. 0 pre-
feito se fundamental nos resul-
tados de uma pesquisa nao re-
gistrada e nao divulgada ofi-
cialmente. Feita apenas para
Consume interno, por uma
empresa local (a Acertar),
sem maior reconhecimento
institutional, essa pesquisa
Ihe deu 55% de aprovaqgo
da populacqo. O conteido da
pesquisa e sua base metodol6gica nao
foram divulgados.
Ja o governador consider "suspeita"
outra pesquisa, feita por instituicao naci-
onal (a Vox Populi), que Ihe deu elevado
indice de rejeigao, de 36% (o maior entire
todos os governadores do pais), porque

;3V,-
j^SZ
^ry~
i ;


encomendada por uma confederacqo
patronal possivelmente ligada ao senador
Jader Barbalho (embora, na entrevista, Al-
mir Gabriel tenha citado erradamente a
CNI, Confederagdo Nacional da Indus-
tria; na verdade, 6 a CNT, a Confedera-


qco Nacional dos Trans-
portes). Neste caso, po-
rem, os assessores do go-
p verador, querendo, pode-
riam ter acesso aos dados
da pesquisa para contradi-
ta-la, o que nao fizeram.
Lendo com atenqgo e
espirito critic as duas en-
trevistas, tem-se a impressao
de que os chefes dos dois
executives se deixaram con-
vencer pela pr6pria propagan-
da que veiculam a larga, soli-
dificando uma imprensa cha-
pa branca, sempre disposta a
incensa-los, em contrast corn
a relutancia em se submeterem
a questionamentos para valer,
fora de seu control, num ter-
reno pelo menos neutro.
Indiferente ao ditado popu-
lar, segundo o qual elogio em
boca pr6pria 6 vitup6rio, Almir
Gabriel proclama ja na abertura
da entrevista: o balango do seu
S governor 6 "extremamente posi-
tivo". Arrola as realizaoges re-
petidas ad nauseam por suas pe-
gas publicitdrias, suficientes para
justificar a consagragco de sua
administrag o, a revelia de qual-
quer pesquisa. Os que nao a re-
conhecem, ou aqueles que critical
obras consideradas primorosas pelo go-
vernador, e em escala planetaria, como a
Esta~ao das Docas, sao considerados
"pessoas desesperadas pelo fato de ve-
rem um projeto dessa envergadura se ma- )


*, .- ; -.* ".*> -> ; .- .-,," ; ? :. *






2 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE JANEIRO/ 2000


terializar, sendo um dos mais bonitos
projetos do mundo". Tal attitude, "de um
lado e raiva por estar sendo feita; do ou-
tro, despeito".
Essa 6 a melhor titica dos autocratas:
colocar todas as critics no mesmo ba-
laio e, desautorizando-as, ignora-las, re-
duzindo as necessarias avaliag6es a um
jogo de subjetividades. Criticas, quando
s6lidas, sao indispensaveis para a boa
gestio da coisa public. Liberam os go-
vernantes do cerco dos dulicos, mais re-
alistas do que os reis, e da pr6pria pre-
sungco de excel6ncia e verdade, ou de
singularidade.
Almir Gabriel proclama que seu go-
vero nao "se confunde cor outros", e
unico: "O povo sabe que no meu gover-
no existe competencia e seriedade na
aplicagAo do dinheiro piblico". E verda-
de que ningu6m acusa o governador de
se apropriar de dinheiro public, estabe-
lecendo promiscuidade entire seu patri-
m6nio pessoal e os bens coletivos. Sua
lisura pessoal com o dinheiro do erario 6
fora de d6vida.
Mas esse 6 o limited cada vez mais t&-
nue da honestidade e da seriedade na sua
administraqAo. Nela, virou quase uma re-
gra acrescer os valores originals dos con-
tratos atrav6s de sucessivos aditamentos,
em obras que se prolongam e evoluem por
caminhos acidentados (freqtientemente de
forma literal). A tal escala (antes jamais
registrada) que determinadas obras exigi-
ram a assinatura de um segundo contrato,
com valor ainda maior do que o do origi-
nal, como 6 o caso em verdade, escan-
daloso- da Estacqo das Docas (de R$ 6,2
milhies ji esta em R$ 18 milh6es e deve-
ra bater em R$ 20 milhoes).
Seguramente, esse nao 6 um padrao
de seriedade na gestao do dinheiro pui-
blico. Muito menos quando o Estado
paga para prestar servigo a terceiro,
como no falso conv6nio entire a Funtel-
pa e a TV Liberal (nos 20 anos prece-
dentes dessa relagAo, nenhum governa-
dor, mesmo o mais pr6ximo da empresa,
como Aloysio Chaves, que a iniciou, ou-
sou oferecer tanta submissao a um inte-
resse commercial particular).
O exemplo mais recent desse tipo de
irresponsabilidade 6 o projeto da Alga
Vidria. O governador explica na entre-
vista que vai atacar o Sistema Integrado
do Leste do Para pela ponte mais cara e
menos fitil, sobre o rio GuamA (R$ 80
milh6es, do total presumido de R$ 180
milh6es), insensivel ainda aos provdveis
efeitos ambientais negatives, que poderi-
am ser melhor examinados e prevenidos
se outra frente, a do Moju (mais rdpida e
barata, al6m de causar menor impacto,
fosse aberta primeiro.
Entre os questionamentos a decision
esta o de que a ponte sobre o Guama se-


ria desnecessaria ou de prioridade secun-
daria. A press do governor (que recebeu
as propostas para a obra, gerando direi-
tos por adjudicago, antes mesmo de con-
cluir o licenciamento ambiental, ainda mal
iniciado) 6 tao criticavel quanto posta sob
reserve foi sua decisao de antecipar R$
24 milhbes para a conclusao da BR-222,
uma estrada federal, dos quais apenas R$
2 milh6es foram at6 agora ressarcidos.
A generosidade no trato de algumas obras
contrast corn o descaso em relag~o a
outras, engendrando especulacqes que,
sem examiner, o governor desqualifica
como produto de dor de cotovelo, como
se ele desfrutasse do monop6lio do inte-
resse public.
Diz o governador que comegou pela
ponte do Guama justamente por ser a obra
mais demorada, exigindo 30 meses de tra-
balho dentro dos 36 meses que Ihe res-
tam do segundo mandate, "e eu quero
inaugurar no meu governor Falando
como se inspirado em H61io Gueiros, num
tom de humor que nao Ihe cai bem, expli-
ca: "Temos que comegar pela mais conr-
plicada. S6 comega pela mais simples
quem vai fazer prova...". Como se a com-
paragao coubesse em uma questao de tal
gravidade e como se o principio da im-
pessoalidade da administracao piblica ti-
vesse sido definitivamente abolido pelo El
Supremo ao tucupi (ou seria mais ade-
quado "ao guarana"?).
O auto-endeusamento, ampliado pela
corte, e o desprezo a tudo o que soe como
contracanto, deram cores mais definidas
ao perfil autoritario do governador, a sua
busca obsessive da vit6ria, ao intent de
perenizar (se possivel, etemizar) o seu
grupo politico. Para a dispute da pr6xima
eleiqCo em Bel6m, ele diz ter virios no-
mes, que nao antecipa, porem: "nao vou
trabalhar para os adversarios", 6 a sua
justificativa. A mesma que o leva a optar
pela ponte do Guama, apenas para nao
deixar que seu successor, do seu pr6prio
esquema ou do outro lado, inaugure a
obra. Nao 6 a attitude de um estadista, de
um governante excepcional, mas de um
home public que o exercicio do poder
foi apequenando e amesquinhando, em-
bora, aos pr6prios olhos, parega haver
adquirido a falsa estatura de um gigante.
Exercicio que 6 menos extenso no
caso do prefeito Edmilson Rodrigues, mas
ja produziu resultados equivalentes. Em
nenhum moment da sua entrevista, o al-
caide esteve disposto a relativizar ojuizo
que faz de si e de suas obras pela avalia-
gao de terceiros ou pelo que j 6 um dado
da realidade, da hist6ria. Na eleigao de
1996 ele garante que derrotou "as forgas
oligarquicas de Belem do Para porque a
frente [popular] estava muito unida e o
PT estava muito solidamente unido em
torno da minha candidatura".


Mas se as "frentes oligarquicas" tam-
b6m estivessem unidas (ao contririo do
que ocorreu), Edmilson nao teria venci-
do. Sua densidade eleitoral nao era sufi-
ciente. Grande parte dos votos que rece-
beu foi canalizada atrav6s do protest de
eleitores contra o nivel das campanhas
de Elcione Barbalho e Ramiro Bentes, que
disputaram os dois primeiros lugares at6
as v6speras da votag~o. As opg6es vie-
ram obliquamente para a frente popular.
E nao eram votos de Edmilson.
Mas ele se tornou a melhor opgco no
moment certo e ganhou. No entanto,
comp6s com uma parcela expressive das
oligarquias contra as quais investira, mais
desbragadamente contra o grupo Libe-
ral. Depois do susto dado pela Secreta-
ria de Finangas logo no inicio da nova
gestao (o secretario, Geraldo Lima, foi
convenientemente afastado em seguida),
veio o acordo, que agora esta se desfa-
zendo porque a familiar Maiorana dificil-
mente apoiar ao menos explicitamente
-um novo mandate do candidate do PT.
O acerto sobre a divida da PMB para
com a empresa e a generosa verba pu-
blicitaria nao parecem ser suficientes
para reconquistar toda a boa vontade dos
veiculos de comunicaqao.
Mas Edmilson esta se preparando
para confirmar seu favoritismo pr&-elei-
toral. Alm de former um novo caixa de
campanha, imensamente mais s6lido do
que o anterior, montou uma chapa mono-
litica, recorrendo a ardis para afastar a
candidatura da sua atual vice, Ana Jilia
Carepa: em plena temporada de votos,
ofereceu-lhe a diregco de um 6rgao pfi-
blico (o Servigo Aut6nomo de Agua e
Esgoto), que ter a missao de enterrar
canos e tubos. Como qualquer vereador
sabe, essa util e vital tarefa pdblica, nao
aparecendo, ndo se notabiliza exatamen-
te por fazer brotar votos. Ana Julia dis-
pensou a gentileza do grego paraoara. E
os dois politicos guardaram seus pensa-
mentos e ag6es para um confront que
vira, mais pra frente.
O discurso do prefeito continue tao
grandiloqtiente que esta atropelando ate
a matematica. Embora proclame haver
construido metade das escolas munici-
pais surgidas nos quase quatro s6culos
anteriores, so construiu 14 em um total
de 47, prometendo inaugurar outras tr6s
ainda neste ano. Catorze para 47 noo 6
exatamente a metade, nem proximamen-
te. Mas o prefeito, como o governador,
inimigos no que divisam e similes no que
nao percebem, nao esta nem ai para os
fatos, a objetividade e terceiros. Como
disse recentemente, o prefeito 6 ele e os
outros sao os outros. Devem bater pal-
mas ou se enquadrar em suas insignifi-
cincias. Enquanto os aulicos batem o
bumbo. Eletr6nico.






JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JANEIRO/ 2000 3




De recados e mumunhas


Nunca foram propriamente doces as
relag6es entire o senador Jader Barbalho
e o grupo Liberal. Mas agora elas volta-
ram a azedar. Dois petardos foram dis-
parados contra o president national do
PMDB atrav6s de notas cifradas no Re-
p6rter 70, a coluna da casa em O Libe-
ral. S6 os interessados devem ter com-
preendido o recado, mas ele foi dado.
Com a virulencia das ameagas.
No primeiro, os Maiorana cientifica-
ram Jader de que sabiam do oferecimen-
to que ele confidencialmente teria feito
ao deputado federal Vic Pires Franco, de
umjatinho para o parlamentar do PFL vir
a Bel6m depor na primeira audiencia de
instrucgo da aqao popular contra o leoni-
no "conv6nio" entire a Funtelpa e a TV
Liberal, que coloca todos os meses 200
mil reais do Estado nos cofres dos Maio-
rana.
Vic teria alegado que no dia 17 do mas
passado, data daja remarcada audiencia,
ficaria retido por compromissos em Bra-


silia, mas nao aceitou o avido gratuito. Re-
cusou e ainda teria passado a informa-
9~o aos (aparentemente reconciliados)
Maiorana, que a colocaram no R-70 -
devidamente codificada, 6 claro, como
conv6m a um jornalismo de tutti qui.
Tamb6m na coluna os Maiorana es-
tdo procurando reaquecer a investigag~o
sobre a desapropriago da inexistente
Fazenda Paraiso, em Viseu, no Pard, fei-
ta quando Jader era ministry da reform
agraria. O process da desapropriaqao
desapareceu. A denuncia sobre a frau-
de foi feita com exclusividade national
por este journal na sua edi9~o n 37, da 1"
quinzena de margo de 1989. Os Maio-
rana a estao assumindo mais de 10 anos
depois. Ao long de todo esse tempo nao
publicaram uma unica linha de sua pr6-
pria apuragqo a respeito de tema tao ex-
plosivo. Logo, nao agem agora movidos
pelo relevant interesse puiblico. Como
de regra, alias.
Por falar em interesse public: nem


foi necessario o deputado Vic Pires Fran-
co vir ou deixar de vir depor em Be-
16m. O juiz R6mulo Nunes, da 21 vara
civel do f6rum de Belem, por onde, ha
dois anos, tramita (na verdade, se arras-
ta) a acao popular, transferiu a primeira
audiencia para marco. Decidiu esperar
pela pericia que a Embratel, o 6rgdo tec-
nicamente competent, deveria fazer para
esclarecer a controversial e que se re-
cusa a fazer, corn arguments pueris.
Ou seja: se e infitil Vic desistir da a9go,
que prosseguira de qualquer maneira, a
lentissima-quase-parando tramitacao po-
dera esticar o litigio at6 o final do "con-
v6nio" de R$ 12 milh6es, dentro de tres
anos, na convic9ao de que contra fato
consumado nio ha argument que pre-
valega. Uma regra cinica que se afirma
anulando ou desmoralizando o poder ar-
bitral soberano da pr6priajustica.
O que, se ocorrer, nao chegara a ser no-
vidade, numa terra na qual a lei costuma ser
considerada nada mais do que potoca.


0 sabio de casa


Benedito Nunes completou no m6s pas-
sado 70 anos, produtivo e 16cido. E uma das
maiores gl6rias intelectuais do Para. Nao s6
porter nascido aqui, mas por aqui ter manti-
do seu domicilio e neste solo haver planta-
do uma das muitas vertentes da sua visao
do mundo. Trouxe o mundo para o Para e
projetou o Estado sobre um pano de fundo
international, anti-provinciano.
Sua produqgo abrangeu praticamente
toda a criaqgo mental humana, da filosofia a
est6tica, da literature as artes plasticas, da
political a musica. Benedito nao 6 apenas um
patrim6nio paraense. Por sua condiCgo de
pensador, na exata e vasta acepgao da pala-
vra, 6 um cidadao do mundo. Felicidade nos-
sa nao ter sido seqtiestrado pelas paragens


externas que
sabem do seu
valor corn
mais nitidez do
que n6s, en-
torpecidos
que parece-
mos estar por
esse fato natu-
ral (e aciden-
tal) de que o
temos sempre
entire n6s.
Benedito
Nunes ja rece-
beu um titulo
honorifico e
umCD(bemin-
tencionado,
mas superfici-


al) da Universidade Federal do Pari. Pensei
que seus 70 anos fossem uma nova oportuni-
dade para merecer uma homenagem mais de
acordo corn sua importAncia, ajustada ao que,
no intimo, ele considerariajusto esperar dos
seus conterrineos e contemporineos. Sem so-
lenidades formais ou grandiosidades ret6ri-
cas. Inteligentes e densas como o fil6sofo.
Por exemplo: o langamento da reediqgo
dos Dialogos, de Platao, traduzidos pelo tio
dele e uma de suas mais profundas influ6n-
cias, o m6dico maranhense Carlos Alberto
Nunes. Uma edicgo a altura dessa que 6 a
6nica obra complete de Platao em portugu-
6s, vertida diretamente do grego classico por
um erudito de fina sensibilidade (como, an-
tes, havia sido outro maranhense, Odorico


Mendes). Com todo o preciosismo grifico e
editorial capaz de tornar essa uma obra de
refer6ncia em qualquer lugar do mundo para
quem se interessa pela civilizag9o clhssica.
Os 70 anos tamb6m poderiam servir de
pretexto para um col6quio sobre a obra de
Benedito Nunes nos campos da filosofia, da
est6tica e da critical literdria, o que jamais se
fez, atraindo-se para Belem os melhores in-
terpretes ou interlocutores do intellectual pa-
raense e, ao final, editando-se um livro com
os textos das apresentagoes e as transcri-
6oes dos debates. Tudo isso sem aquela aura
de submissao que se imagine necessaria para
abordar um "monstro sagrado".
Mesmo porque os amigos mais pr6xi-
mos sabem que Benedito Nunes noo e


Sil ncio
**I


No dia 8 de setembro de
1997, o sociblogo Mariano Klau-
tau de Arafijo, com a credencial
de haver sustado dois empre-
endimentos imobilidrios na orla
de Bel6m e na bacia do Maguari
(a Marina GuajarA e o Porto La-
ranjeira), por ameagas ao meio
ambiente, solicitouao Ministe-
rio Piblico do Estado que % en-
ficasse se o entao rec6m-anun-
ciado projeto para a utilizacao
de tres dos armaz6ns do porto
da capital paraense como com-
plexo turistico previa o manejo
do lixo e o tratamento de esgo-


tos, al6m dos problems viirios e
urbanisticos que poderia provo-
car naquele trecho da cidade.
Com o oficio, Mariano forma-
lizava uma s6rie de contatos que
ja havia tido corn integrantes do
MP desde janeiro daquele ano, a
partir de uma entrevista que dera
A coluna de Edson Gillet nojomal
0 Liberal. Um mes depois, quan-
do as obras comeqavam. Maria-
no reiterou a comunicacqo, apro-
veitando para solicitar uma audi-
encia piblica "a respeito do ne-
buloso Projeto Armaz6ns 1, 2 e 3,
agora sob o pomposo e nada


original nome de Esta~go das
Docas", conforme a legislagao
a respeito previa.
Ngo teve qualquer respos-
ta. At6 hoje, quando a Estagao
das Docas, mais nebulosa do
que nunca, estd prestes a ser
inaugurada. Mas se o entao
chefe do MP. Manuel Santino.
ja ndo pode responder, transfe-
rido que aceitou ser para uma
das secretaries especiais do
governor, tal\ez seu successor
possa explicar o sil6nco do fis-
cal da lei em relaCno n ,--n""
x.* \t l ) tI


nada disso. Ao
contrario: ja
estd na hora de
um balango ri-
goroso e por
isso mesmo cri-
tico da exten-
sa obra de Be-
nedito e do seu
papel como in-
telectual nesta
Amaz6nia cu-
jas luzes maio-
res costumam
ser apenas as
das devasta-
doras queima-
das. Queiman-
3 da floresta a
Izao.






4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JANEIRO/2000




Parodias e prosopopeias


Quem 6 o autor da frase "O povo gosta de
luxo, quem gosta de miseria 6 intellectual ?
Qualquer um certamente respondera sem he-
sitar: o camavalesco Joaozinho Trinta. Mas a
resposta esta errada. O autor da frase 6 ojor-
nalista Elio Gaspari, um dos mais importantes
na imprensa brasileira dos nossos dias, que
duas vezes por semana public (aos domin-
gos, em uma pagina inteira) artigos em various
jornais espalhados pelo pais.
Gaspari concebeu esse "metodo" no inicio
da d6cada de 60, quando era setorista no aero-
porto do Galeao, no Rio de Janeiro. Observou
que o tempo m6dio de embarque e desembar-
que, de 20 minutes, era escasso para boas en-
trevistas com as personalidades que circula-
vam intensamente pelo aeroporto carioca. S6
era possivel fazer uma entrevista de cada vez.
Mas queria tres ou quatro. Para isso, prepara-
va em sua casa pequenas entrevistas de politi-
cos com os assuntos mais interessantes do
dia, que selecionava de madrugada, tao logo
lia osjomais que comecavam a circular.
"Corria para o Galeao e oferecia as entre-
vistas a politicos. Se concordavam com as
respostas, passavam a ser entrevistados de
fato e de direito", relembra Mrio Sergio Con-
ti. Assim, Gaspari produzia mais e ainda ga-
nhava o reconhecimento dos entrevistados,
que as vezes "pareciam mais inteligentes ou
engragados do que realmente eram".
O m6todo foi "refinado" e aplicado em
Veja, da qual o jornalista foi director de reda-
gAo: "Gaspari inventava um raciocinio para
avivar uma mat6ria, geralmente de madruga-
da, no calor do fechamento, e mandava um
reporter achar algu6m famoso que quisesse
assumir a autoria", registra ainda Conti, ele
tamb6m director da revista em 6poca posterior.
Como se estivesse lidando cor algo absolu-
tamente normal, Conti acrescenta: "O truque
era puro Elio Gaspari".
Nao exatamente. Outra frase famosa, an-
terior, e atribuida ao ex-presidente Juscelino


Kubitscheck de Oliveira. President eleito,
mas ameaqado de nao tomar posse no cargo
por causa de uma reaqAo military, JK anunciou
sua viagem de Belo Horizonte para o Rio, onde
temia-se que viesse a ser preso, com a frase
"Deus poupou-me do sentiment do medo".
Juscelino nunca disse tal coisa. Mas seu ami-
go e correligionario Augusto Frederico Sch-
midt, intransigente defensor da posse, colo-
cou a frase na boca do president eleito, em
mat6ria escrita para o Correio da Manha, o
mais influence jomal de entao. JK, 6 claro,
guardou silencio sobre a autoria postiqa. E
que a frase fez furor. Os militares recuaram.
Provavelmente a biografia de Mario Ser-
gio Conti vai passar a integrar a galeria des-
ses personagens controversos da imprensa
brasileira. Seu livro (Noticias do Planalto,
Companhia das Letras, 719 paginas, R$ 35,00)
esta tendo, desde o final dos anos 90 (deven-
do continuar a ecoar por todo este 2000), o
impact que as mem6rias de Samuel Wainer,
Minha razdo de viver, tiveram nos anos 80.
Wainer (cujo livro, alias, nao foi consultado
por Conti, ou ao menos nao aparece em sua
bibliografia) foi ator principal do jornalismo
brasileiro entire as decadas de 40 e 60. Por
isso, suas confissoes sobre corrupmao e trafi-
co de influencia nesse period tiveram um tom
de sinceridade pr6-ag6nica (morreu de can-
cer pouco depois de prestar os longos depo-
imentos a Augusto Nunes, autor do texto fi-
nal, igualmente um editor de Veja).
Conti, mesmo ocupando um cargo corn o
peso da chefia de reda go da quinta maior re-
vista de informagdo do mundo, teve atuaqAo
discreta at6 o aparecimento do seu livro no mer-
cado, no final do ano passado (talvez por ser
um home da retaguarda paulistana da revista,
tenha perpetrado tantos pequenos erros que
um reporter de linha de frente, em contato direto
com fatos e personagens,jamais cometeria).
O catatau e o produto de quatro anos de
pesquisa, envolvendo extensas leituras e a


coleta de 141 depoimentos pessoais. Escrito
corn clareza e recheado de informag6es, rela-
cionando verses (muitas) e fatos (nem tan-
to) a pessoas, e revelando alguns dos mais
poderosos (ou picantes) bastidores do poder
no Brasil, o livro deve ser lido por todos e vai
ser uma referencia (mesmo que lateral) sobre
a hist6ria em torno da presidancia de Fernan-
do Collor de Mello (1989/1992). Dar prazer e
fornecer uma riqueza de relates sao duas das
principals qualidades do livro. Mas ficar ads-
trito a essesfaits-divers e uma das suas mais
sentidas limitaq6es.
Noticias do Planalto tem um gosto de sur-
presa e novidade porque osjornalistas brasi-
leiros, absorvidos pela rotina de trabalho co-
tidiano, nao sistematizam suas anota96es, nem
alongam as observances feitas no calor da
hora, na desgastante cobertura dos fatos da
pauta diaria de suas publicagoes. O dead-line
(prazo fatal para a entrega de materias a serem
publicadas) praticamente p6e firm sua liga-
9go com os fatos, naquela dimensao de hist6-
ria que eles necessariamente tem, mas nao au-
tomaticamente. Os jornalistas americanos ja
fazem isso hd muito mais tempo, corn muito
maior freqtiincia e melhores resultados.
Nem a prop6sito, Conti se inspirou em Os
Ultimos Dias, a reconstituig~o que Bob Woo-
dward e Carl Bernstein fizeram do epilogo da
administracao Richard Nixon nos Estados Uni-
dos. Para ter tantas hist6rias para contar a res-
peito dos capitulos que antecederam a renun-
cia de Nixon, desgastado pela revelagdo do
"escandalo Watergate" (acobertamento de cri-
mes e sabotage e perseguigao a adversarios
politicos pela Casa Branca), os dois rep6rteres
do Washington Post entrevistaram um ex&rci-
to de gente. Mais do que uma simples reporta-
gem, escreveram quase um romance politico.
Mas nao tiveram o mesmo sucesso de
Todos os Homens do Presidente, o primeiro
livro da dupla sobre Watergate (e que virou
filme, com Robert Redford e Dustin Hoffman


Lacuna
Uma exposigao de arte pode
dispensar o coquetel, mas nao
deve abrir mao do catalogo. Nao
s6 para orientar os visitantes e
servir de registro hist6rico, como
para ajudar os que forem escre-
ver sobre os trabalhos a avivar a
mem6ria. Em lugar civilizado, 6
providencia elementary e indescar-
tavel. Em Belem, segue uma 16gi-
ca que se apoia na falta de uma
competent, seria e corajosa ati-
vidade critical. Quem tern dinhei-
ro, prestigio ou poder consegue
entregar catalogos em suas expo-
siq6es (ou ao menos nos vernis-
sages). Outros sao maltratados.
Quando nao pela pobreza de mei-


os, pela falta de ateng~o.
E imperdoavel que a Secreta-
ria de Cultura nao tenha produzi-
do catalogo para a exposiqgo de
Dina Oliveira. Foi, talvez, o acon-
tecimento mais important na pro-
dugdo local de pintura no ano pas-
sado. Na minha apreciagqo, assi-
nalando um retorno critic da pin-
tora a pr6pria obra, marcou um
salto, inclusive em relag~o a expo-
sig~o anterior, de dois anos atras.
Esse moment tinha que merecer
o registro perene do bom catilo-
go. Ao menos na inauguraqgo da
mostra, nao havia catalogo. E cer-
to que, com a morte do professor
Francisco Paulo Mendes, desapa-
receu o maior de todos os critics
de arte que o Pardja teve. Um apre-
sentador de obras de pintura que
conseguia ser conciso, claro, con-


centrado, profundo e visiondrio,
em linhas capazes de encontrar
albergue num prosaico catilogo.
Nem por isso deve-se deixar de in-
sistir na elaboraqao desses guias
de exposiqgo.
Aproveito, alias, para sugerir
a quem interessar possa: editar
todos os textos que nosso queri-
do Chico Mendes escreveu para
essas ocasi6es. Um que acompa-
nhou uma das exposigoes de Dina
Oliveira 6 primoroso.

Canto
Augusto 6 de Almeida e Mar-
cos Argoni, com seu canto lirico e
piano, transportaram para a Italia
as pessoas que foram ouvi-los se
apresentar na noite do dia 17 do
m6s passado, na igreja de Santo


Alexandre. Uma selegao de 13 tre-
chos de nove autores, criteriosa e
sensivel, al6m de dosada com equi-
librio, foi apresentada pelo nosso
mais important tenor (de todos
os tempos?) com uma maestria de
padrao intemacional, apoiado com
competencia e discrigIo pelo pia-
nista paulista.
Nao havia muita gente para se
deleitar com a belissima voz de
Mauro, mas o privilegiado audit6-
rio saiu encantado e recompensa-
do do espetaculo. Tao bom que
nem o repicar dos sinos da igreja
da Se, num contracanto que a ino-
portunidade transformou em ca-
cofonia, conseguiu quebrar o en-
canto. S6 faltou o Emanoel O de
Almeida estar ali, de corpo presen-
te, para se emocionar corn a ex-
cepcional criatura que concebeu.






JOURNAL PESSOAL 1a QUINZENA DE JANEIRO/2000 5




de um jornalismo colorido


nos papeis principals, destino que parece
bater na porta de Noticias do Planalto). O re-
lativo insucesso nao adv6m de uma queda de
qualidade de Os Ultimos Dias, mas porque
esse segundo livro era desnecessario. Woo-
dward e Bernstein separaram o period derra-
deiro de Nixon e o detalharam a exaustdo de
um diario. Tentaram transformaram pedagos
de vidro em diamante: detalhes laterais ou
sup6rfluos foram superdimensionados para
segurar a trama. Mas pouco acrescentavam
ao queja havia sido dito em Todos os Homens
do President (por sinal, long de ser a me-
lhor obra sobre o "escindalo de Watergate").
Parecia mais um caga-niqueis.
Mas havia outro element negative no
segundo livro: a inverossimilhanqa. Na bus-
ca de elevar a ultima potencia as caracteristi-
cas do "novo jornalismo", Woodward e
Bernstein parecem ter recorrido ao "metodo"
que Conti diz ser de autoria de Gaspari, mas e
praticado desde que o primeiro prot6tipo de
umjomal entrou em circulacgo. Frases entire
aspas, mesmo quando ditas em conversas
intimas, situaq6es descritas aos minimos de-
talhes, e revelab9es de dificil confirmaqgo
(como os telefonemas de inconfidencia do po-
deroso nonagenario Roberto Marinho para
um Conti compreensivo), podem constituir a
sedugao de um instant book (nao tdo instan-
tdneo assim, alias, no caso brasileiro), mas
nao de um estudo sobre a hist6ria.


Osjornalistas mais antigos (ou mais atin-
gidos) tnm reagido ao livro atribuindo a Ma-
rio S6rgio Conti a missao de salvar a pele dos
patr6es, sobretudo do dono da TV Globo,
transferindo para seus empregados grande
parte da responsabilidade por esse sucesso
da manipulacgo political: a elevacao do cedi-
qo "cacador de marajas" a catastr6fico "sal-
vador da patria", em questdo de dois anos
reduzido a chefe de quadrilha, nao muito dis-
tante do verdadeiro ponto de partida.
Uma andlise criteriosa levara a conclusdo
de que 6 mais ou menos assim, mas nao e exa-
tamente assim. Ainda e possivel repetir-se
aquele epis6dio de d6cadas atras, quando
Assis Chateaubriand (o Marinho de entdo e,
guardadas as proporc6es, ainda mais podero-
so) ligou para o articulista do seu jomal e pe-
diu um editorial sobre Jesus Cristo, em plena
semana santa. "A favor ou contra?", reagiu de
imediato o submisso funcionario. Se Alberico
Souza Cruz, o responsivel pela edigao mani-
pulada do debate entire Collor e Lula um dia
antes do segundo turno, favorecendo o pri-
meiro e prejudicando o segundo, agiu de ma-f6
por iniciativa pessoal ou como o editorialista
de Chat6, agora a mando de Marinho, 6 ques-
tio a responder por dois tipos de avaliaqoes.
Uma, sobre o mando exageradamente ver-
ticalizado do dono na empresajomalistica (de
que nao ha similar nem no govemo, nem em
qualquer outra empresa privada), uma anoma-


lia que enfraquece a densidade democratic da
vida political national; e outra, um exame de
consciencia individual dosjomalistas, que cos-
tumam transferir para essa estrutura autorita-
ria a remissdo por pecados que sio de sua res-
trita responsabilidade, e que, com alguma es-
pinha dorsal, podiam nao ter praticado.
Ha situac6es suficientemente numerosas
tanto para uma como para outra situaqAo. E
ambas explicam a manutenqio de fraudes e
truques como os de Bernstein, Woodward,
Gaspari e Conti, que, uma vez inventados, se
perpetual com a convenient designacqo de
figuress de estilo". Um estilo que aproxima
esse jornalismo da ficqAo, mas nao exatamen-
te da hist6ria. E se 6 para saber realmente a
verdade e utiliza-la como ferramenta da cida-
dania, entao 6 melhor deixar de lado essa pro-
sopopeia, tAo emocionante e divertida quan-
to in6til para tais fins.
Nem a proposito: entrevistado em 1992 por
Mike Wallace, noprograma 60Minutos, da CBS,
Carl Bernstein reconheceu que s6 entao, 20 anos
depois das consagradoras reportagens sobre
Watergate, estava entendendo exatamente o que
entao ocorrera. Ou seja: precisou ir al6m do pr6-
prio jornalismo que praticara para sair da posi-
9go de testemunha para a de int6rprete dos fa-
tos. Nao e uma a moral da hist6ria que sejogue
no lixo. Lata de lixo continue aberta a espera de
muita coisa produzida com a intengdo de alcan-
qar lugares muito mais nobres.


Para o mundo admirar


O estudo de viabilidade econ6mica e fi-
nanceira da Estacgo das Docas, a obra mais
bonita do mundo, segundo o governador Al-
mir Gabriel, foi realizado em 1997 pelo Bureau
de Marketing e Pesquisas, uma empresa par-
ticular. A definigAo da viabilidade desse com-
plexo turistico, cultural e commercial, que ja
abocanhou 18 milh6es de reais do tesouro
estadual, foi estabelecida com base em duas
exclusbes fundamentals.
Uma: nao considerou a implantaqgo do
terminal hidroviario, um dos itens mais impor-
tantes do conv6nio atraves do qual a CDP
(Companhia das Docas do Pard) cedeu tres
dos armaz6ns do porto de Belem ao Estado
(em troca de um aluguel mensal nao de R$ 80
mil, que disse que iria cobrar, mas de R$ 20 mil
que Ihe foram oferecidos e aceitou). A BMP
justificou a exclusAo do terminal, "tendo em
vista a complexidade de sua gestdo, que de-
pende em muitos aspects de legislacqo es-
pecifica". Segunda exclusao: "o montante das
inversoes destinadas as obras civis do com-
plexo nao foram computadas na analise de
viabilidade financeira".
Isto significa que desde o inicio o Estado,
mesmo havendo se comprometido a tal, ja-
mais pretendeu a s6rio construir o terminal
para os passageiros do transport hidrovia-
rio, rompendo unilateralmente o convenio (e
sem puniqgo alguma, graqas A conivencia da


pr6pria CDP). A exist6ncia de um terminal, a
ser usado pelos passageiros das embarcaq es
fluviais, comprometeria os prop6sitos elitis-
tas do arquiteto Paulo Chaves Femandes.
Fiel a essa inspiracao, a BMP observou
que "a localizaqao da Estaqgo das Docas, pr6-
xima ao Ver-o-Peso e da pr6pria area portuaria
da cidade, requer permanent efetivo de se-
guranqa internal, de modo a preservar o aces-
so as camadas sociais de elevado poder de
compra". O que constitui, alem de preconcei-
to e discriminagqo, burrice commercial: a movi-
mentaqgo de passageiros acrescentaria po-
der de compra ao palanquim tucano, cuja se-
leta frequincia (de brancos, ricos e perfuma-
dos) nao ird garantir sua viabilidade, contra
os esquematicos calculos de origem.
O estudo de viabilidade de quase tres
anos atras tamb6m atesta que o investimen-
to official na tal estacFo seria mesmo a fundo
perdido, sem retorno. Mas seja i um assun-
to s6rio tomar essa decisao em relaCgo a 6,2
milhoes de reais (o orqamento original do
projeto), muito mais grave e aplicar sem vol-
ta R$ 18 milh6es (ou R$ 20 milh6es, com a
obra concluida). Ainda mais porque essa
destinaqAo nao seguiri a norma legal, do
concurso piblico.
Depois de ter arcado diretamente com a
responsabilidade e os custos da obra, o go-
verno vai transferir a comercializagio dos es-


paqos criados na suntuosa EstacAo das Do-
cas a uma organizaqgo social. Essa "associa-
QAo de direito privado sem fins lucrativos e
de interesse coletivo, destinada a produqao
de cultural, lazer, turismo e servico no Pard",ja
foi criada e registrada em novembro do ano
passado: 6 a Para 2000. Entre os seus prop6-
sitos esta o de estabelecer "parcerias com o
Estado e a administraqAo de seus bens, equi-
pamentos, etc., ap6s a celebraqgo de Contra-
to de Gestao".
Todos os seus 10 fundadores, tr6s dos
quais instalados na diretoria provis6ria, sao
amigos ou vinculados funcionalmente ao se-
cretario de cultural, Paulo Chaves Fernandes,
autor, executor e fact6tum das obras do pro-
jeto. As pr6ximas indicaq6es para a entida-
de serao feitas por esses 10 privilegiados
fundadores, que tim em comum o fato de se
ligarem a um v6rtice invisivel nos documen-
tos de constituigqo da Para 2000: o pr6prio
Paulo Chaves.
Se isso nao e uma aqgo entire amigos, pro-
movida com base em bens p6blicos, consti-
tuidos a partir de pesados investimentos sem
retoro, a Reptblica foi abolida no Para, onde
passou a imperar uma monarquia de inspira-
qio omitol6gica, a dos emplumados tucanos
gabrielistas. Cor um rei que tonitroa a partir
do trono e alguns primeiros-ministros que de-
cidem de fato nas cocheiras e bastidores.







6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JANEIRO/ 2000


C arts I I construiu teu edificio de preconceitos. Luiz Maklouf,
d 1teu conterrneo, 6 percebido pelo PT (inclusive por
A dem ocracia mim) como pessoa que age de m f. Ou seja, no e
considerado umjomalista "bona-fide". Na minha ava-
do PT liagao, seus objetivos tem sido sempre os de difamar
do P I Lula eoPT e no o de honestamente informal o publi-
Sou assinante honorbrio do Jornal Pessoal, por- co. Para isso, langa acusag6es semprova, insinua, cria
que voce nao me deixou pagar pela assinatura. Devol- suspeigao. Como bem diagnosticou um outro conter-
veu meu cheque. Mas estou escrevendo nao como raneo seu, Sergio Buarque de Gusmao, do Instituto
leitor e sim como novo coordenador de comunicaqo Gutemberg, Maklouf postulou que Lula cometeu al-
do Institute de Cidadania, a organizacao nao govema- guma malandragem e suas materias soo as histories de
mental e supra- partidaria, fundada por Lula depois de suas tentativas inmteis de provar essa malandragem.
sua derrota na campanha presidential de 1989. O Ins- Nesse process, que incluiu a falsificagao de documen-
tituto dedica-se A formulacao de political pulblicas de tos, cor a ajuda da grande imprensa, efetivamente
ambito national. Sua mais conhecida realizagao foi o agrediu e danificou a integridade da image e Lula. No
Program de Emergencia Alimentar, que se transfor- meu livro, que voce resenhou, "Sindrome da Antena
mou na campanha contra fome de Betinho. Atualmen- Parab6lica", dedico um ensaio inteiro a dissecaqao
te trabalha num Projeto Moradia, numa revised do dessejomalismo. difamat6rio. O livro de Mario Conti,
Proalcool, e em programs de combat A mis&ria. O Noticias do Planalto, que acaba de sair, revela como
institute e tambem o QG da intense atividade de Lula Maklouf se iniciou nessa arte, tentando enlamear o
que semanalmente, as vezes duas ou tres vezes por nome de Lula, tratando de forma maldosa as circuns-
semana, visit todos os cantos do pais onde haja um tancias do nascimento de sua filha Lurian.
movimento popular, de protest, um projeto novo de Ao contrario do que voce diz, nenhuma pessoa,
organizaqao social, econ6mica, ou de conscientizaoao. politico ou nao politico, 6 obrigada a receber ou dialo-
Minha principal tarefa e tentar modificar o padrao gar com umjomalista que nro se paute pela eticajoma-
de comportamento da imprensa em relaao a Lula e o listica ou que jogue baixo, ou simplesmente do qual
Institute, ha muito tempo caracterizado pelo desres- nio goste. Muito menos Lula, que recebe cinco pedi-
peito ao Lula, sistematico desprezo pelas suas aq6es e dos de entrevistas por dia, para ver depois suas decla-
sistemitica busca de incidents ou situac6es que o races sistematicamente distorcidas, usadas fora do
possam expor ao ridicule ou a desqualificaqao. O teu context, ou voltadas contra ele para agredi-lo. Alias,
editorial "Desafio democratico, da segunda quinzena se um dia voce quiser escrever um livro interessante
de dezembro, 6 um exemplo desse tipo de relaciona- sobre a imprensa brasileira, escreva uma hist6ria das
mento, e da forma como em cima de um incident se sacanagens da midia contra Lula. DA um livro de pelo
reforqa o preconceito contra Lula. No caso um pre- menos 200 paginas.
conceito novo, o de que Lula 6 anti-democnitico, ou de Na minha opiniAo. o anico erro que Lula cometeu
que no6 suficientemente democrata,sofrendo do"mal nesse epis6dio foi o ter comparecido ao program
de nascenga" de todos os marxistas, que na sua origem Roda Viva. O convite havia sido feito ha muito tem-
nAo acreditavam na democracia burguesa.. po, e somente A iltima hora, Lula chegando de viagem
Esse o seu primeiro e fundamental erro. E possi- A Europa, a TV Cultura informou que convidou Luiz
vel que voce compartilhasse nos anos 60 dessa des- Maklouf para compor o painel. Minha interpretacqo
crenga na democracia burguesa, como eu comparti- (minha, pessoal, nao do Lula) e a de que ao convidar
lhava, porque fomos formados na matriz marxista, Maklouf, que nem 6 um jomalista important e nem
revolucionaria. Mas nunca foi o caso de Lula. Foi ele representava um veiculo important, a TV Cultura
quem liderou as greves pacificas de 1978-78 e 80 que revelou que seu objetivo nao era o de esclarecer e sim
puseram fim a ditadura military. Criou logo em seguida o de agredir ou de confundir, como efetivamente acon-
o primeiro partido socialist de massas e democrati- teceu. Para tua informagAo, jA que obviamente voc6
co do Brasil, que desde sua concepgao inicial, enten- pegou tudo isso de orelhada, dos jomrais, quem teve
de a democracia como valor estrat6gico, e rejeitou os infeliz ideia de convidar o Maklouf foi o novo funci-
mecanismos politicos que caracterizavam os bolche- onario Marco Antonio Coelho, esse sim velho mar-
vismo, entire os quais o "centralismo democratico, xista-leninista-e-tudo-o-mais (e nada tenho contra
inspirado, como hoje se sabe, na concepco do Esta- velhos marxistas), sem experiencia emjomalismo.
do maior prussiano, e que nao deve ser confundido Voce e toda a imprensa, inclusive os veiculos de
com o mandate imperative, que o PT imp6e aos seus "media criticism", como Revista da Imprensa e Obser-
parlamentares em algumas questoes, inspirado em vatorio da Imprensa, convenientemente ignoraram o
outra matriz a da democracia direta. que foi o grande escandalojomalistico desse program
No PT convivem cat6licos praticantes, marxistas Roda Viva: quando perguntaram ao Lula como ele ex-
e ex-marxistas, evangelicos,judeus, socialists e libe- plicava sua subita queda de popularidade a partir de
rais. O que define o partido nao 6 marxismo de alguns maio de 1998 e Lula responded que isso foi depois que
de seus filiados, e ate de algumas de suas facCqes, assim Femando Henrique convocou os barbes da imprensa
como nao 6 o catolicismo de outros. O que o define 6 em Brasilia e exigiu que parassem de falar de seca no
uma vaga ideia de socialismo democritico, a radicalida- Nordeste, de queimada na Amaz6nia, que se nao fe-
de e a vontade de mudanqas e de aprofundamento chassem ele, retirava suacandidatura...que at6 colunis-
democratico, uma especie de ktica, que une gente tao tas de Brasilia foram convocados pelo Fernando
diferente. O inico desafio democratic do PT 6 o da Henrique...e que tudo isso foi publicado pela VEJA...
convivencia democritica e produtiva de grupos e pes- "Houve aquele frisson. Roberto Muller e Ricardo
soas tao diferentes e isso nAo tern sido facil, como Noblat tentaram embananar o Lula. "Mas como, uma
todos sabemos. Lula se impre como liderana, justa- reuniao secret e a VEJA publicou...". Eliane "Canta-
mente por ser constitutivamente democrat. nhede botou o dedo em riste na cara de Lula, e desmen-
Frases como "O PT ainda nao se convenceu de tiu: "Eu nAo fui a nenhuma reuniao...
que a democracia 6 uma realidade acabada, nao apenas "Pois bem, essa mesma Eliane Cantanhede, termi-
um bem intermediario....", assim como tantas outras nadaa gravao pessoalmenteveio se desculpar: "Lula,
do teu editorial, revelam no minimo um descuido cor eu tinha que desmentir..
alinguagem;maisprovavelmenteumprofundo e arrai- "Agora veja Voce, LUcio Flavio Pinto, o pais
gadopreconceito que te impediu de conhecer o que 6 o que estamos:
PT, ler seus documents programAticos, conhecer seus Um Presidente da Republica, chama os barges
lideres e seus grupos, para poder entender sua dinami- da imprensa para um reuniao secret em que exige
ca e suas contradiCges, como se pede de um bomjoma- que fechem com ele, suprimindo ou distorcendo in-
lista. Por isso classifiquei teu artigo de editorial, alias formaq8es negatives ao governor
um editorial que o EstadAo reproduziria com prazer. S6 isso, numa democracia verdadeira, derruba-
Vejamos agora o incident em cima do qual voc6 ria um president.


A maior revista semanal, VEJA, cor mais de
um milhao de leitores, conta essa hist6ria, nho corn
vergonha de ter participado, mas com o orgulho de
ter dado um furo de reportagem que s6 publicou
no dia seguinte ao das eleiq6es.
Quando Lula menciona o epis6dio no Roda Viva,
todos aqueles grandes jomalistas se fazem de mi-
guel, e ainda tentam confundi-lo.
A jomalista que botou o dedo na sua cara em
piblico, depois vai pedir desculpas em segredo,
como se fosse uma coisa pessoal.
E para terminar, nosso Lucio Flavio Pinto entra
na canoa furada do Lula autoritario, num editorial de
pagina intema que comeqa cor Marx e terminal cor
o aumento de 6nibus em Belem de Para sobre o
qual tambem quero falar.
Assim se iniciou a construqao de um novo pre-
conceito contra Lula. O do Lula autoritArio.
Autoritario quem, cara pAlida? Pergunto eu?
Agora, sobre o tal aumento de tarifas de 6nibuis
em Belem:
"Como esti cartaja se tornou longa demais, vou
me ater ao essencial
Esse aumento de tarifas e tema de outro editori-
al, da primeira quinzena de dezembro.
De inicio estranhei os sofismas e forqadas de bar-
ra, jA que o prefeito seguiu o voto majoritario do Con-
selho, e que alem de majoritArio era o proposto pelos
estudos tecnicos e era o de conciliac~o. Teu unico argu-
mento 6 que o DIEESE propunha uma tarifa menor.
Mas era apenas 3 centavos de real menor que alem
disso resultava num quebrado de troco dificil.
Pedi informaq6es a prefeitura de Belem. Mesmo
assim, e mesmo vendo que tua mat6ria estA errada cor
base no mero texto escrito, nao tenho condic6es pela
distancia, de fazer uma analise mais profunda. Tam-
bem nao conheqo as pessoas, o prefeito, os fatores
subjetivos, nao entrevistei os usuarios, como imagine
que voc6 fez.. Por isso, prefiro formular algumas per-
guntas de esclarecimento:
Voc6 menciona o tempo todo que a tarifa foi defi-
nida pelo Conselho de Administrago da Companha
de Transporte do Municipio de Bel6m. Qual foi o
papel do Conselho de Transporte do Municipio de
Bel6m, criado em 1998 e do qual participam entidades
da sociedade civil? A votaao a que voc6 se refere deu-
se em qual dos dois conselhos? Se foi neste iltimo, o
DIEESE nao faz parte dele?
Porque voc6 nao se referiu ao seminario sobre
as tarifas realizado em outubro, ao que consta corn
ampla participaqAo e do qual resultou uma nova
pesquisa de usuArio em novembro?
Porque voc6 nAo menciona os estudos especificos
de custo do transport feitos a partir desse levanta-
mento de usuarios e que usa indices de inflaao pr6pri-
os do transport coletivo, e que sao muito diferentes
dos indices de custo de vida usados pelo DIEESE?
Voc6 terminal o editorial mencionando que "o ne-
g6cio" movimenta "oficialmente" 25 a 30 milh6es de
reais a cada mes, em dinheiro vivo, na maioria dos
casos. "Surpreende, mas nao 6 incompreensivel que o
PT de Edmilson Rodrigues haja fracassado no com-
promisso de mudar as regras viciadas desse jogo
miliondrio...Qual a sua motivaqao" Ou seja, vocA esta
fazendo uma insinuaaio muito grave. Usou palavri-
nhas especiais para isso, como "oficialmente", e "em
dinheiro vivo". Voc6 tern alguma prova, direta ou mes-
mo circunstancial, ou depoimento sigiloso no sentido
de que a decisao sobre as tarifas envolveu um esquema
de corrupcao "do PT de Edmilson? Se voce tern, deve-
ria apresentar essas provas. Se nAo tern, cometeu o
mesmo e grave desvio 6tico do Maklouf.
Atenciosamente,
Desejo a voce e todos os seus leitores um feliz
ano 2000.
Bernardo Kucinski
Institute de Cidadania
c. c6pia para Lula
c. c6pia para Ruth Helena,
Nucleo de Imprensa, Prefeitura







JOURNAL PESSOAL 1a QUINZENA DE JANEIRO/2000 7


Minha resposta
Uma prova do meu aprego pessoal pelo jor-
nalista e professor Bernardo Kucinski elepr6prio
a atesta ao inicio de sua carta, quando se refere ao
exemplar de cortesia destejornal que lhe remeto
para Sdo Paulo hd anos, dispensando opagamen-
to que ele tdo gentilmente tentoufazer Ndo vejo
motivo algum para modificar esse apreco, qual-
quer que venha a ser o desdobramento da contro-
versia agora estabelecida entire n6s neste JP.
Mas confesso minha surpresa e certo desa-
pontamento cor aforma e o tom da carta que no
ultimo dia do ano passado Bernardo me passou
por e-mail. Em primeiro lugar, pelo ac6mulo de
pequenos erros, nem todos causados por press
oufalha de digitagdo, quejulguei do meu dever
corrigir (ndo semn algum trabalho) antes de pu-
blicar o texto. Bernardo sabe escrever e conhece
a lingua portuguesa. Mas ndo escreveu a carta
corn serenidade, nem mesmo como um jornalis-
ta. Seu pronunciamento e o de um militant, de
um home de partido. E assim sera torado. 0
que ndo o desqualifica para o debate. Muito pelo
contrario: Ihe confere a qualificacdo devida. Mas
cor o adjetivo certo: um home de partido, par-
tido, tentando emprestar seus prestimos a unma
entidade (o Instituto Cidadania) que se propde
"supra-partiddrio ".
Nao ajo assim por retaliagdo, por haver ele
classificado meu artigo de "editorial". Como pro-
fessor do curso de comunicagqo social da USP,
Bernardo sabe muito bem que nenhum editorial e
assinado. Elepode ate achar que meu artigo equi-
vale a um editorial. Mas ndo pode tratd-lo como
editorial, por ndo ser, rigorosamente, um. Edito-
rial 6 a opinido da empresajornalista. Por isso,
ndo vai assinado, nunca, jamais. (Miguel Urba-
no Rodrigues, comunistaportugu6s de quem, corn
todo orgulho,fui amigo e colega de redagdo pau-
listana, escrevia cor corregdo os editorials
que os Mesquita Ihe encomendavam no Estaddo).
0 meu artigo ter opinido (dai ser este um Jornal
Pessoal, radicalmente pessoal). Mas e, antes de
tudo, jornalismo, informacdo, fato. Sobre essa
base tento construir uma andlise, manifesto at6
indignagdo efuror Mas sem tentar praticar um
jogo de silogismos e sofismas. Sem me chocar
com osfatos.
Repito o artigo questionado por Bernardo:
o PT e "o mais nobre dos partidos brasileiros ",
mas ndo pratica em todas as conseqiiencias o
jogo democratic. Em alguns lugares, como Be-
lem, menos do que em outros, onde avangou
mais. S6 para dar um ultimo exemplo local: co-
letivamente, como de sua praxis, o partido con-
sagrou uma chapapara disputar a eleigdo deste
ano em Belim; e jd nominou os candidates a
prefeito e vice-prefeito. Como sua vitdria em
1996 resultou de uma coligagdo e, teoricamen-
te, uma coligacdo continue a ser admitida como
necessaria, a conseqiuincia dessa attitude e trans-
formar os parceiros em decoracdo, sujeitando-
os, antes de instalado formalmente o process
eleitoral, dquele confinamento em queficdva-
mos, n6s, reporteres, nos atos oficiais do regi-
me military (lembra, Bernardo?).
S6 um exemplozinho. Se tudo o que Lula tem
contra Luiz Macklouf (e ndo Maklouf como Ber-
nardo grafou e, nesteponto, ndo corrigi) tem pro-
ced6ncia e 6 legitimo, mais um motive para ir ao
Roda- Viva e desmascarar o contender desleal. Se
tantas vezes jd foi desrespeitado, vitima de pre-
conceitos, Lula teria essa oportunidade de enfren-
tara raposa em suaprdpria toca, voltando ofeiti-
go contra ofeiticeiro. Ate a TV Globo, que tanto
maljd fez ao president de honra do PT apesar de
tudo continue a ter as entrevistas que solicita.
Quanto mais a Cultura de Sdo Paulo, muito mais
honest no tratamento dado a Lula, ndo merece-


ria a emissora que nosso mais inportante operd-
rio a atendesse, a despeito de tudo?
Se Lula 6 um arquetipo de democrat corn
tais procedimentos, reivindico para mim ser o
tipo ideal, o modelo. Eu sempre acreditei na de-
mocracia. Sempre. Vou a todos os audit6rios.
Aceito convites e desafios, indiferente a suas ori-
gens ou classificadOes. Jd prestei alguns servigos
(absolutamente gratuitos) ao PT national (fui,
inclusive, conselheiro de sua revista nacionalpor
bastante tempo), comojd fiz palestras (remune-
radas) para o PDS (sem jamais ter-me filiado a
partido algum). Fui a um encontro cultural petis-
ta em Belem, no ano retrasado, e nelefiz critics
duras ao maior lider local do partido, o prefeito
Edmilson Rodrigues, e ao seu publicitdrio in pec-
tori, heresia pela qual pago em sucessivos gol-
pes de vilania desde entdo, por quem tenta se
esconder (como aquele urubu empavonado da
lenda) atrds de um pseud6nimo criado corn a
mesma inventive das peas propagandisticas do
proletkult inculto.
Minhaformacdo politicajamais negou minha
crenca democratic. Quando nada, Bernardo, ate
por atavismo professional: jornalistaprofissional
desde os 16 anos, exercendo a critical corn poucos
meses de carreira, tenho na tolerdncia e na convi-
vencia dos opostos uma das mais sdlidas bases
para continuar a existir como jornalista indepen-
dente. E essas qualidades s6 existed sob demo-
cracias, mesmo aquela relative que o general Gei-
sel inventou para manter sob control os que esta-
vam a direita e a esquerda do seuprojeto autoritd-
rio de transigdo.
E ja que o Bernardo pergunta a este cara-
pdlida quem 6 o autoritdrio no epis6dio, eu Ihe
repito o que est6 enfaticamente dito no artigo, sem
o menor subterfigio: Lula.
Quanto ao reajuste da tarifa de 6nibus em
Belem (que ndo estd no "editorial" aqui atacado,
ao contrario do que afirma Bernardo, mas emn
outro artigo da edic6o anterior destejornal), o
coordenador de comunicacdo faz as perguntas
certamentepor desconhecer o noticiario da gran-
de imprensa belenense sobre a "novela ". Todas
as informadOes que ele mepedejaforam publica-
daspelos tresjornais didrios ao long da cober-
tura (e seu informant local deve ter sido tenden-
cioso tambem neste aspecto. Meu artigo inter-
pretou esses dados, ressaltando que o PT en-
quanto oposigao, sempre se escudou nas apura-
Fdes quantitativas do DIEESEpara negar o pro-
cesso de reajuste que as administraCdes munici-
pais adotavam, quase como um ritual, entire o
maximo pedido pelos empresdrios e a indicagao
supostamente tecnica, process que so ndo per-
maneceu o mesmo sob o governor Edmilson por-
que agora houve uma inovagdo: acolhe-se o pa-
recer do novo conselho, ampliado, sim, mas con-
trolado. Jd o DIEESE, agora, ficou 6rfdo, des-
prezadopelo PT (ex-oposic6o, hoje governor Sua
recomendagdo em torno do indice inflaciondrio
foi preterida pela avaliacdo tecnica, sob base de
calculo e planilha antes postas sob suspeic6o,
falsamente legitimadas pelo novo conselho.
Quanto a minhas "insinuad6es" sobre cor-
rupgdo no aumento dos 6nibus, Bernardo faz o
tristejogo dos que atribuem ao contender o que
ele jamais disse para tentar desautoriza-lo ou
flagrd-lo em contradivdo forjada. Cor todas as
letras (e ndo cor insinuag6o) eu disse que ojogo
e miliondrio (de 25 a 30 milhdes de reais por
mes, d vista ou mesmo antecipados, gracas aos
vales-transporte) e que o PTndo conseguiu "mu-
dar as regras viciadas desse jogo milionario",
introduzindo uma novidade no rito sobre cuja
motivacdo eupedia explicacdes. Explicad5es que
nao vieram ate hoje, como jamais vieram em
outras questdes, mesmo quando cobradas dire-
tamente de quem havia prometido uma adminis-


traCdo transparente ", mas prefer se comuni-
car cor a opinido public atraves de press-rele-
ases e materiaspublicit6rias (pagas, naturalmen-
te).
Eu ndo estou dizendo nem insinuando que hd
corrupcdo porque ndo tenho provas. Se as tives-
se, diria, field a mrxima que desde cedo Batista
Campos me incutiu: ladrao e ladrdo, boi e boi
(embora, no Pard modern, boi tenha aprendido
a voar e roubar).
Meu caro Bernardo Kucinski, que em seu ulti-
mo livro, o recentissimo "A sindrome da antena
parabolica ", declarou que os dois inicos 6rgdos
da imprensa verdadeiramente alternative do Bra-
sil sdo Caros Amigos e este Jornal Pessoal, admi-
tir-me agora capaz de cometer "o mesmo e grave
desvio etico do Maklouf", apds 34 anos de exerci-
cio professional de padrdo etico, moral e tecnico
completamente oposto, diz mais sobre o proprio
Bernardo em sua novafund6o do que sobre mim,
que continue integralmente outsider conforme ele
me definiu em seu outro livro, mais antigo, o jd
clissico Jornalistas e Revolucionarios. Um otsider
como poucos havia entdo, conforme atesta Ber-
nardo, e menos ainda restam hoje.
Fico com o outro Bernardo. E mais ndo digo
porque o novo Bernardo, beneficiando-se doprin-
cipio etico destejornal, de publicar na integra a
carta dos seus leitores (e o unico que conheco a
manter essa postura), roubou-me precioso espa-
o para mais largas argumentad6es, aquipor ora
encerradas a fim de que outras materias desta
edigqo ndo sejam ainda mais prejudicadas e o
missivistafique corn a parte maior.

m -

Acerca do editorial que trata da fara6nica
obra denominada EstaCgo das Docas, gos-
taria de contribuir, atrav6s deste veiculo
seleto de comunicaqio, ao povo de Be-
lem, levando informag6es complementares ao ab-
surdo que esta se instalando dentro deste proces-
so licitat6rio.
O govemador, atrav6s de seu super-secretario
Paulo Chaves, resolve dar inicio A mega-obra da
Esta~go das Docas com ajuda do falecido ministry
Sergio Mota. O projeto, que iniciou para ser con-
cluido no Cirio99, foi mudando pela imaginado de
seu idealizador, que tentou criar no papel mais um
Parque da Resid6ncia. Sendo que desta vez, sem a
natureza para ajudar, perpassa por modest nova
data para o final deste novo milenio (ano 2000).
Ocorre que em nenhum moment este projeto foi
encaminhado a Prefeitura Municipal de Belem a
fim de que esta pudesse estudar, por exemplo, o
que fazer cor os quase 100 ambulantes que se
encontram circundando aquela Area. Sera que o fa-
ra6nico secretario imagine que num passe de magi-
ca todo o "submundo", que ele despreza, ira desa-
parecer daquele local? Ou sera que, como foi o
caso do Elevado, que todos sabem nao se confir-
mou por complete inabilidade political do governa-
dorjunto ao governor federal, ele imputara a culpa
a prefeitura, transparecendo que esta nao sabe li-
dar com essa "patologia social"?
Deixo aqui registrado que essa "patologia
social", que me parece ser a opiniao do secreti-
rio, esta hoje bem organizada e sabe muito bem a
forma com que a Prefeitura vem discutindo os
remanejamentos de algumas Areas da cidade, uti-
lizando-se do inesgotavel diAlogojunto A entida-
de representative (Sindicato dos Ambulantes) e,
principalmente, discutindo os projetos em con-
junto. Assim, com toda certeza, a "migica" do
secretario nao surtira efeito junto aos ambulan-
tes, e parece ser esse o primeiro obstAculo que o
governor estadual terA de enfrentar para inaugu-
rar a mega-obra...!
Oswaldo Chaves







Exemplo
"No intuito de espelhar de ma-
neira mais detalhada a publicidade
dos aditivos contratuais, comple-
mentando-as com os dados neces-
sdrios ao seu perfeito acompanha-
mento", no final de 1998 o Tribunal
de Contas do Estado fez a revisio
do modelo definido em 1995 para
esses documents, firmados pela
administragao publica epublicados
no Didrio Oficial. O novo modelo
passou a ter 11 itens, exigindo mais
informa96es do que o anterior, per-
initindo ao TCE "maior eficacia e
control" sobre essas publicag~es.
No entanto, progressivamen-
te essas normas v6m sendo dei-
xadas de lado. Um numero cres-
cente de 6rgaos do poder pibli-
co estao relaxando quando pu-
blicam o extrato do termo aditivo
de contratos. Um dos mais assi-
duos nesse descumprimento, com
o agravante de ser um dos que
mais adita seus contratos, 6 a Se-
cretaria dos Transportes do Es-
tado. Numeros mais recentes do
DO trazem aditivos dessa secre-
taria sem o valor dos contratos
originals, uma lacuna fatal, e, as
vezes, sem o valor acrescido.
A amplia, o do n6mero de
faltosos sugere que o pr6prio
TCE nao estd zelando pelo cum-
primento de sua resolugao.

Justiga
O mais novo desembargador
do Pard, Milton Nobre, lembrava
outro dia a figure do juiz Francis-
co das Chagas como uma das suas
inspirac6es para o exercicio do
cargo, que assumiu no final do mes
passado. Com 10 filhos, Chagas
precisou recorrer ao volante, como
motorist de praga, para vencer as
despesas dom6sticas, bem acima
dos vencimentos de magistrado.
NAo era exatamente raro que la-
vrasse decis6es com erros, mas
decidia o mais rapidamente que
podia. Do erro dojuiz pode-se re-
correr. Mas nAo hd recurso ao "em-
bargo de gaveta", exceto acionan-
do administrativamente o pr6prio
judiciArio (e sujeitando-se ao cor-
porativismo, fatal ante a inexisten-
cia de control extero). Espera-
se que a lembranga de Milton No-
bre se irradie pelo TJE, mudando
habitos arraigados que se estabe-
leceram ali em sentido contrario.
Chagas 6 exemplo de honesti-
dade e serio exercicio do oficio.
Tao serio que ele precisou buscar
melhor salario najustiga do traba-
Iho para poder subsistir com sua
extensa prole. JA entao o magis-
trado ganhava muito mais na deri-
vagao do que no tronco do judici-
ario. Anomalia que qualificou o
polemico ramo especializado e
achatou por baixo ajustiga comum.


Duas excursbes de homes puiblicos estao intri-
gando os leitores do JP. Uma delas e essa viagem de
todo um m6s do goverador Almir Gabriel, cumprin-
do um roteiro intrigante: Japao, Republica Tcheca, Li-
bano e Italia. Quem quisesse deduzir da inclusHo des-
ses quatro paises uma teoria conspirativa qualquer,
estaria bem servido.
O Japao nao 6 novidade: desde Femando Guilhon,
os govemadores paraenses sio convidados e quase
todos aportam em terrasjaponesas. Afinal, o Japao des-
locou os Estados Unidos como o pais estrangeiro com
mais profundos interesses no Pard. Bastaria lembrar que
15% das necessidades japonesas em aluminio e minerio
de ferro saem do territ6rio paraense.
A ida ao Libano teria inspiragdo sentimental, dadas
as raizes (at6 ha pouco quase invisiveis) da familiar do
goverador. Ja a afinidade tematica dos dois paises
europeus da excursdo desafia a sagacidade. A manu-
tengao de sua excelencia por 30 dias fora do pais nao se
justifica nem com todos os arguments quanto a in-
vestimentos futures apresentados no regresso.
A nao ser que, contrariando boatos maliciosos e
interpretag6es conspirativas, tudo se explique pela ne-
cessidade de dar um descanso visual e mental ao gover-
nador, tirando-o da rotina provinciana. Se foi para o bem
da sauide de sua excelencia, os investimentos que por
acaso resultarem de seu periplo serao lucro liquid.
Mais intrigante 6 o sacrificio que se imp6s o empre-
sario Romulo Maiorana Jr. com a agenda do notdvel pro-
grama "andando pelo Para" (para ser verdadeiro e mais
popular, o slogan deveria ganhar mais um genindio na


A um ponto tal que em julho de
1964 o entao president do Tribu-
nal Regional do Trabalho da 8-
Regiao, Raymundo de Souza
Moura, precisou responder A Fo-
lha do Norte, o journal mais influ-
ente da epoca (que expressava
uma opiniao e nao apenas a co-
mercializava, como agora).
Moura, que acabou ascenden-
do ao Tribunal Superior do Traba-
lho, em Brasilia, se manifestou a
prop6sito de um editorial do jor-
nal de espanto diante dos venci-
mentos dos juizes trabalhistas,
"nao pelo receio de que possa
parecer escandaloso o quantum
alegado pelo comentarista, mas
simplesmente porque o quantum
que ele declara nao 6 verdadeiro".
Um juiz trabalhista ganhava
bem, mas nao escandalosamente
bem. Naquela epoca como agora.
Nao precisaria recorrer a expedi-
entes como o da auto-concessao
de reajuste a despeito das nor-
mas claramente em contrdrio,
como fez o TRT no ano passado.
Chagas, Raymundo Moura e
equivalentes, onde estejam, nao
devem ter gostado.

Jari
O grupo Saga surgiu em 1981,
um ano antes de Daniel Ludwig
passar para um cons6rcio de em-
presas brasileiras lideradas pela
Caemi, de Augusto Trajano Antu-
nes, o imperio que comeara a mon-
tar no Jari em 1967, com investi-


frase). O principal executive do grupo Liberal finalmente
descobriu que seu Estado de nascimento ter uma por-
tentosa hidreletrica como a de Tucurui, uma fantAstica
provincia mineral como a de Carajds e cidades pioneiras
ou de frente econ6mica como Parauapebas e Maraba.
Com seu inolvidavel ex&rcito Brancaleone (para nao
perder a inspiragqo da origem familiar), armado de pe-
quenos 6culos escuros e roupa adequada mais ao cre-
pusculo do que ao alvorecer da caminhada, Rominho
esti surpreendendo os que vinham acompanhando
suas excurs6es, contumazes no roteiro do jogo entire
Miami e Las Vegas, nos Estados Unidos, ou pelas pe-
rolas do Caribe.
Teria finalmente o empresdrio se decidido pela
political? Vai ser candidate a deputado federal, sena-
dor ou governador? Por isso continue com seu nome
fora do expediente do jomal O Liberal, antecipando
desincompatibilizaqao (para nao repetir o erro da elei-
qFo passada)?
Enquanto eleicdo majoritaria (ou para a Camara
Federal) no Estado exigir campanha de peregrinacgo
entire os votantes, com palanques e tudo o mais, nao
convem apostar nessa hip6tese, por mais evidence
que ela se apresente. Talvez Rominho esteja visando
mais o caixa do que a urna, de olho na sua TV a cabo,
na revista que vai langar para circular entire os assi-
nantes e em outros neg6cios de retorno mais rapido
e ficil do que a political.
Exceto se donos de currais eleitorais forem ao seu
suntuoso gabinete levar-lhe o diploma de eleito. Com
direito a uma enfadada fotografia de agradecimento.


mento de 750 milhoes de d6lares
(s6 US$ 150 milhoes recursos do
pr6prio bolso do excentrico milio-
nario americano). No mas passado
o grupo Orsa assumiu o acervo do
Jari desembolsando simb6lico um
real em troca de conduzir as opera-
96es no complex agroindustrial,
cor dividas recompostas para um
horizonte mais elAstico.
A sensaao que fica dessa nova
operago de transfer&ncia de con-
trole acionario 6 de que o rato co-
meu a montanha, mas que nao vai
parirnada em troca. Talvez a impres-
sao nao da a dimensao exata do ne-
g6cio, mas a forma especial de com-
p6-lo recomenda toda a atengao.
Afinal,em 1982atrincaDelfimNeto-
Bulhoes Pedreira-Antunes engen-
drou um esquema sagaz. Mas advi-
nhem quem pagou a conta.
Uma resposta mais satisfat6-
ria sobre esse novo capitulo fica-
ra para a pr6xima edig9o.

Olhar
Baladas, a iltima exposigao
de Dina Oliveira, aberta ao publi-


co at& o dia 17, sao 25 desenhos
em tecnica mista sobre papel. Em
alguns, bichos mal escondem sua
inspiraqgo humana. Em outros, os
homes sao bichos. Em virios,
hd uma marca de censura, con-
trole e repressao num olho alerta
ou num xis, mas ha tambem um
element de indignaqao e protes-
to, da artist que sonha e deseja,
mas esti ao lado dos seus, de p6s
plantados na terra.
Um component telhrico, da
paisagem, da natureza, se con-
funde com a violencia dos ho-
mens ou se choca com ela.
Pode-se ter a sensagao de um
surrealismo mais contido, mas
em alguma media ligado A pos-
tura de Bosch diante do seu tem-
po, se ele fosse na Amazonia e
nao na Holanda, ambas inquisi-
toriais. Dina tambem se coloca
diante do seu pr6prio tempo, ob-
servando, registrando, adicio-
nando humor e ironia, mas tam-
bem raiva. A exposi ao atesta o
alto moment da sua criagao. Uma
volta aos temas de 10 anos atras
e um salto para muito alem.


Duas expedig6es


Journal Pessoal
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