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Journal Pessoal I L U C I 0 F L A V I 0 P I 'l T 0 ANO XIII N9 226 1t QUINZENA DE JANEIRO DE 200~-i R$ 2,00 J( 'M. J,-,, POLITICA L\ A mesma moved 0 governadorAlmir Gabriel e oprefeito Edmilson Rodrigues se tornaramferozes inimigos politicos. Mas declaragoes prestadas a um journal revelam semelhangas indesejdveis entire os dois. Ambos sdo autoritdrios. Ambos se veem atravds de um espelho viciado, que criaram, a sua image e semelhanga, gragas a uma imprensa chapa branca, alimentada por uma propaganda dirigida. Nao e um espelho como o da madrasta da Branca de Neve. Sefosse, jd tinha sido quebrado. Q s leitores da Gazeta Mercantil Para tive- ram, na ultima edicqo do jomal no ano pas- sado, a oportunidade de confrontar as duas principals autoridades publicas do Estado. Em entrevistas de pagina inteira, o governador Almir Gabri- el, do PSDB, e o prefeito de Be- 16m, Edmilson Rodrigues, do PT, trocaram farpas, mas revelaram - certamente indesejados pontos em comum: uma dose de arrogan- cia que result menos de uma ava- liaqfo extera de suas adminis- traqbes (a do primeiroja com cin- co anos, a do segundo com tr6s) do que de uma certeza entranha- da em cada um deles. Ambos estAo convictos de fazer um bom governor. 0 pre- feito se fundamental nos resul- tados de uma pesquisa nao re- gistrada e nao divulgada ofi- cialmente. Feita apenas para Consume interno, por uma empresa local (a Acertar), sem maior reconhecimento institutional, essa pesquisa Ihe deu 55% de aprovaqgo da populacqo. O conteido da pesquisa e sua base metodol6gica nao foram divulgados. Ja o governador consider "suspeita" outra pesquisa, feita por instituicao naci- onal (a Vox Populi), que Ihe deu elevado indice de rejeigao, de 36% (o maior entire todos os governadores do pais), porque ;3V,- j^SZ ^ry~ i ; encomendada por uma confederacqo patronal possivelmente ligada ao senador Jader Barbalho (embora, na entrevista, Al- mir Gabriel tenha citado erradamente a CNI, Confederagdo Nacional da Indus- tria; na verdade, 6 a CNT, a Confedera- qco Nacional dos Trans- portes). Neste caso, po- rem, os assessores do go- p verador, querendo, pode- riam ter acesso aos dados da pesquisa para contradi- ta-la, o que nao fizeram. Lendo com atenqgo e espirito critic as duas en- trevistas, tem-se a impressao de que os chefes dos dois executives se deixaram con- vencer pela pr6pria propagan- da que veiculam a larga, soli- dificando uma imprensa cha- pa branca, sempre disposta a incensa-los, em contrast corn a relutancia em se submeterem a questionamentos para valer, fora de seu control, num ter- reno pelo menos neutro. Indiferente ao ditado popu- lar, segundo o qual elogio em boca pr6pria 6 vitup6rio, Almir Gabriel proclama ja na abertura da entrevista: o balango do seu S governor 6 "extremamente posi- tivo". Arrola as realizaoges re- petidas ad nauseam por suas pe- gas publicitdrias, suficientes para justificar a consagragco de sua administrag o, a revelia de qual- quer pesquisa. Os que nao a re- conhecem, ou aqueles que critical obras consideradas primorosas pelo go- vernador, e em escala planetaria, como a Esta~ao das Docas, sao considerados "pessoas desesperadas pelo fato de ve- rem um projeto dessa envergadura se ma- ) *, .- ; . . -.* ".*> -> ; .- .-,," ; ? :. * 2 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE JANEIRO/ 2000 terializar, sendo um dos mais bonitos projetos do mundo". Tal attitude, "de um lado e raiva por estar sendo feita; do ou- tro, despeito". Essa 6 a melhor titica dos autocratas: colocar todas as critics no mesmo ba- laio e, desautorizando-as, ignora-las, re- duzindo as necessarias avaliag6es a um jogo de subjetividades. Criticas, quando s6lidas, sao indispensaveis para a boa gestio da coisa public. Liberam os go- vernantes do cerco dos dulicos, mais re- alistas do que os reis, e da pr6pria pre- sungco de excel6ncia e verdade, ou de singularidade. Almir Gabriel proclama que seu go- vero nao "se confunde cor outros", e unico: "O povo sabe que no meu gover- no existe competencia e seriedade na aplicagAo do dinheiro piblico". E verda- de que ningu6m acusa o governador de se apropriar de dinheiro public, estabe- lecendo promiscuidade entire seu patri- m6nio pessoal e os bens coletivos. Sua lisura pessoal com o dinheiro do erario 6 fora de d6vida. Mas esse 6 o limited cada vez mais t&- nue da honestidade e da seriedade na sua administraqAo. Nela, virou quase uma re- gra acrescer os valores originals dos con- tratos atrav6s de sucessivos aditamentos, em obras que se prolongam e evoluem por caminhos acidentados (freqtientemente de forma literal). A tal escala (antes jamais registrada) que determinadas obras exigi- ram a assinatura de um segundo contrato, com valor ainda maior do que o do origi- nal, como 6 o caso em verdade, escan- daloso- da Estacqo das Docas (de R$ 6,2 milhies ji esta em R$ 18 milh6es e deve- ra bater em R$ 20 milhoes). Seguramente, esse nao 6 um padrao de seriedade na gestao do dinheiro pui- blico. Muito menos quando o Estado paga para prestar servigo a terceiro, como no falso conv6nio entire a Funtel- pa e a TV Liberal (nos 20 anos prece- dentes dessa relagAo, nenhum governa- dor, mesmo o mais pr6ximo da empresa, como Aloysio Chaves, que a iniciou, ou- sou oferecer tanta submissao a um inte- resse commercial particular). O exemplo mais recent desse tipo de irresponsabilidade 6 o projeto da Alga Vidria. O governador explica na entre- vista que vai atacar o Sistema Integrado do Leste do Para pela ponte mais cara e menos fitil, sobre o rio GuamA (R$ 80 milh6es, do total presumido de R$ 180 milh6es), insensivel ainda aos provdveis efeitos ambientais negatives, que poderi- am ser melhor examinados e prevenidos se outra frente, a do Moju (mais rdpida e barata, al6m de causar menor impacto, fosse aberta primeiro. Entre os questionamentos a decision esta o de que a ponte sobre o Guama se- ria desnecessaria ou de prioridade secun- daria. A press do governor (que recebeu as propostas para a obra, gerando direi- tos por adjudicago, antes mesmo de con- cluir o licenciamento ambiental, ainda mal iniciado) 6 tao criticavel quanto posta sob reserve foi sua decisao de antecipar R$ 24 milhbes para a conclusao da BR-222, uma estrada federal, dos quais apenas R$ 2 milh6es foram at6 agora ressarcidos. A generosidade no trato de algumas obras contrast corn o descaso em relag~o a outras, engendrando especulacqes que, sem examiner, o governor desqualifica como produto de dor de cotovelo, como se ele desfrutasse do monop6lio do inte- resse public. Diz o governador que comegou pela ponte do Guama justamente por ser a obra mais demorada, exigindo 30 meses de tra- balho dentro dos 36 meses que Ihe res- tam do segundo mandate, "e eu quero inaugurar no meu governor Falando como se inspirado em H61io Gueiros, num tom de humor que nao Ihe cai bem, expli- ca: "Temos que comegar pela mais conr- plicada. S6 comega pela mais simples quem vai fazer prova...". Como se a com- paragao coubesse em uma questao de tal gravidade e como se o principio da im- pessoalidade da administracao piblica ti- vesse sido definitivamente abolido pelo El Supremo ao tucupi (ou seria mais ade- quado "ao guarana"?). O auto-endeusamento, ampliado pela corte, e o desprezo a tudo o que soe como contracanto, deram cores mais definidas ao perfil autoritario do governador, a sua busca obsessive da vit6ria, ao intent de perenizar (se possivel, etemizar) o seu grupo politico. Para a dispute da pr6xima eleiqCo em Bel6m, ele diz ter virios no- mes, que nao antecipa, porem: "nao vou trabalhar para os adversarios", 6 a sua justificativa. A mesma que o leva a optar pela ponte do Guama, apenas para nao deixar que seu successor, do seu pr6prio esquema ou do outro lado, inaugure a obra. Nao 6 a attitude de um estadista, de um governante excepcional, mas de um home public que o exercicio do poder foi apequenando e amesquinhando, em- bora, aos pr6prios olhos, parega haver adquirido a falsa estatura de um gigante. Exercicio que 6 menos extenso no caso do prefeito Edmilson Rodrigues, mas ja produziu resultados equivalentes. Em nenhum moment da sua entrevista, o al- caide esteve disposto a relativizar ojuizo que faz de si e de suas obras pela avalia- gao de terceiros ou pelo que j 6 um dado da realidade, da hist6ria. Na eleigao de 1996 ele garante que derrotou "as forgas oligarquicas de Belem do Para porque a frente [popular] estava muito unida e o PT estava muito solidamente unido em torno da minha candidatura". Mas se as "frentes oligarquicas" tam- b6m estivessem unidas (ao contririo do que ocorreu), Edmilson nao teria venci- do. Sua densidade eleitoral nao era sufi- ciente. Grande parte dos votos que rece- beu foi canalizada atrav6s do protest de eleitores contra o nivel das campanhas de Elcione Barbalho e Ramiro Bentes, que disputaram os dois primeiros lugares at6 as v6speras da votag~o. As opg6es vie- ram obliquamente para a frente popular. E nao eram votos de Edmilson. Mas ele se tornou a melhor opgco no moment certo e ganhou. No entanto, comp6s com uma parcela expressive das oligarquias contra as quais investira, mais desbragadamente contra o grupo Libe- ral. Depois do susto dado pela Secreta- ria de Finangas logo no inicio da nova gestao (o secretario, Geraldo Lima, foi convenientemente afastado em seguida), veio o acordo, que agora esta se desfa- zendo porque a familiar Maiorana dificil- mente apoiar ao menos explicitamente -um novo mandate do candidate do PT. O acerto sobre a divida da PMB para com a empresa e a generosa verba pu- blicitaria nao parecem ser suficientes para reconquistar toda a boa vontade dos veiculos de comunicaqao. Mas Edmilson esta se preparando para confirmar seu favoritismo pr&-elei- toral. Alm de former um novo caixa de campanha, imensamente mais s6lido do que o anterior, montou uma chapa mono- litica, recorrendo a ardis para afastar a candidatura da sua atual vice, Ana Jilia Carepa: em plena temporada de votos, ofereceu-lhe a diregco de um 6rgao pfi- blico (o Servigo Aut6nomo de Agua e Esgoto), que ter a missao de enterrar canos e tubos. Como qualquer vereador sabe, essa util e vital tarefa pdblica, nao aparecendo, ndo se notabiliza exatamen- te por fazer brotar votos. Ana Julia dis- pensou a gentileza do grego paraoara. E os dois politicos guardaram seus pensa- mentos e ag6es para um confront que vira, mais pra frente. O discurso do prefeito continue tao grandiloqtiente que esta atropelando ate a matematica. Embora proclame haver construido metade das escolas munici- pais surgidas nos quase quatro s6culos anteriores, so construiu 14 em um total de 47, prometendo inaugurar outras tr6s ainda neste ano. Catorze para 47 noo 6 exatamente a metade, nem proximamen- te. Mas o prefeito, como o governador, inimigos no que divisam e similes no que nao percebem, nao esta nem ai para os fatos, a objetividade e terceiros. Como disse recentemente, o prefeito 6 ele e os outros sao os outros. Devem bater pal- mas ou se enquadrar em suas insignifi- cincias. Enquanto os aulicos batem o bumbo. Eletr6nico. JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JANEIRO/ 2000 3 De recados e mumunhas Nunca foram propriamente doces as relag6es entire o senador Jader Barbalho e o grupo Liberal. Mas agora elas volta- ram a azedar. Dois petardos foram dis- parados contra o president national do PMDB atrav6s de notas cifradas no Re- p6rter 70, a coluna da casa em O Libe- ral. S6 os interessados devem ter com- preendido o recado, mas ele foi dado. Com a virulencia das ameagas. No primeiro, os Maiorana cientifica- ram Jader de que sabiam do oferecimen- to que ele confidencialmente teria feito ao deputado federal Vic Pires Franco, de umjatinho para o parlamentar do PFL vir a Bel6m depor na primeira audiencia de instrucgo da aqao popular contra o leoni- no "conv6nio" entire a Funtelpa e a TV Liberal, que coloca todos os meses 200 mil reais do Estado nos cofres dos Maio- rana. Vic teria alegado que no dia 17 do mas passado, data daja remarcada audiencia, ficaria retido por compromissos em Bra- silia, mas nao aceitou o avido gratuito. Re- cusou e ainda teria passado a informa- 9~o aos (aparentemente reconciliados) Maiorana, que a colocaram no R-70 - devidamente codificada, 6 claro, como conv6m a um jornalismo de tutti qui. Tamb6m na coluna os Maiorana es- tdo procurando reaquecer a investigag~o sobre a desapropriago da inexistente Fazenda Paraiso, em Viseu, no Pard, fei- ta quando Jader era ministry da reform agraria. O process da desapropriaqao desapareceu. A denuncia sobre a frau- de foi feita com exclusividade national por este journal na sua edi9~o n 37, da 1" quinzena de margo de 1989. Os Maio- rana a estao assumindo mais de 10 anos depois. Ao long de todo esse tempo nao publicaram uma unica linha de sua pr6- pria apuragqo a respeito de tema tao ex- plosivo. Logo, nao agem agora movidos pelo relevant interesse puiblico. Como de regra, alias. Por falar em interesse public: nem foi necessario o deputado Vic Pires Fran- co vir ou deixar de vir depor em Be- 16m. O juiz R6mulo Nunes, da 21 vara civel do f6rum de Belem, por onde, ha dois anos, tramita (na verdade, se arras- ta) a acao popular, transferiu a primeira audiencia para marco. Decidiu esperar pela pericia que a Embratel, o 6rgdo tec- nicamente competent, deveria fazer para esclarecer a controversial e que se re- cusa a fazer, corn arguments pueris. Ou seja: se e infitil Vic desistir da a9go, que prosseguira de qualquer maneira, a lentissima-quase-parando tramitacao po- dera esticar o litigio at6 o final do "con- v6nio" de R$ 12 milh6es, dentro de tres anos, na convic9ao de que contra fato consumado nio ha argument que pre- valega. Uma regra cinica que se afirma anulando ou desmoralizando o poder ar- bitral soberano da pr6priajustica. O que, se ocorrer, nao chegara a ser no- vidade, numa terra na qual a lei costuma ser considerada nada mais do que potoca. 0 sabio de casa Benedito Nunes completou no m6s pas- sado 70 anos, produtivo e 16cido. E uma das maiores gl6rias intelectuais do Para. Nao s6 porter nascido aqui, mas por aqui ter manti- do seu domicilio e neste solo haver planta- do uma das muitas vertentes da sua visao do mundo. Trouxe o mundo para o Para e projetou o Estado sobre um pano de fundo international, anti-provinciano. Sua produqgo abrangeu praticamente toda a criaqgo mental humana, da filosofia a est6tica, da literature as artes plasticas, da political a musica. Benedito nao 6 apenas um patrim6nio paraense. Por sua condiCgo de pensador, na exata e vasta acepgao da pala- vra, 6 um cidadao do mundo. Felicidade nos- sa nao ter sido seqtiestrado pelas paragens externas que sabem do seu valor corn mais nitidez do que n6s, en- torpecidos que parece- mos estar por esse fato natu- ral (e aciden- tal) de que o temos sempre entire n6s. Benedito Nunes ja rece- beu um titulo honorifico e umCD(bemin- tencionado, mas superfici- al) da Universidade Federal do Pari. Pensei que seus 70 anos fossem uma nova oportuni- dade para merecer uma homenagem mais de acordo corn sua importAncia, ajustada ao que, no intimo, ele considerariajusto esperar dos seus conterrineos e contemporineos. Sem so- lenidades formais ou grandiosidades ret6ri- cas. Inteligentes e densas como o fil6sofo. Por exemplo: o langamento da reediqgo dos Dialogos, de Platao, traduzidos pelo tio dele e uma de suas mais profundas influ6n- cias, o m6dico maranhense Carlos Alberto Nunes. Uma edicgo a altura dessa que 6 a 6nica obra complete de Platao em portugu- 6s, vertida diretamente do grego classico por um erudito de fina sensibilidade (como, an- tes, havia sido outro maranhense, Odorico Mendes). Com todo o preciosismo grifico e editorial capaz de tornar essa uma obra de refer6ncia em qualquer lugar do mundo para quem se interessa pela civilizag9o clhssica. Os 70 anos tamb6m poderiam servir de pretexto para um col6quio sobre a obra de Benedito Nunes nos campos da filosofia, da est6tica e da critical literdria, o que jamais se fez, atraindo-se para Belem os melhores in- terpretes ou interlocutores do intellectual pa- raense e, ao final, editando-se um livro com os textos das apresentagoes e as transcri- 6oes dos debates. Tudo isso sem aquela aura de submissao que se imagine necessaria para abordar um "monstro sagrado". Mesmo porque os amigos mais pr6xi- mos sabem que Benedito Nunes noo e Sil ncio **I No dia 8 de setembro de 1997, o sociblogo Mariano Klau- tau de Arafijo, com a credencial de haver sustado dois empre- endimentos imobilidrios na orla de Bel6m e na bacia do Maguari (a Marina GuajarA e o Porto La- ranjeira), por ameagas ao meio ambiente, solicitouao Ministe- rio Piblico do Estado que % en- ficasse se o entao rec6m-anun- ciado projeto para a utilizacao de tres dos armaz6ns do porto da capital paraense como com- plexo turistico previa o manejo do lixo e o tratamento de esgo- tos, al6m dos problems viirios e urbanisticos que poderia provo- car naquele trecho da cidade. Com o oficio, Mariano forma- lizava uma s6rie de contatos que ja havia tido corn integrantes do MP desde janeiro daquele ano, a partir de uma entrevista que dera A coluna de Edson Gillet nojomal 0 Liberal. Um mes depois, quan- do as obras comeqavam. Maria- no reiterou a comunicacqo, apro- veitando para solicitar uma audi- encia piblica "a respeito do ne- buloso Projeto Armaz6ns 1, 2 e 3, agora sob o pomposo e nada original nome de Esta~go das Docas", conforme a legislagao a respeito previa. Ngo teve qualquer respos- ta. At6 hoje, quando a Estagao das Docas, mais nebulosa do que nunca, estd prestes a ser inaugurada. Mas se o entao chefe do MP. Manuel Santino. ja ndo pode responder, transfe- rido que aceitou ser para uma das secretaries especiais do governor, tal\ez seu successor possa explicar o sil6nco do fis- cal da lei em relaCno n ,--n"" x.* \t l ) tI nada disso. Ao contrario: ja estd na hora de um balango ri- goroso e por isso mesmo cri- tico da exten- sa obra de Be- nedito e do seu papel como in- telectual nesta Amaz6nia cu- jas luzes maio- res costumam ser apenas as das devasta- doras queima- das. Queiman- 3 da floresta a Izao. 4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JANEIRO/2000 Parodias e prosopopeias Quem 6 o autor da frase "O povo gosta de luxo, quem gosta de miseria 6 intellectual ? Qualquer um certamente respondera sem he- sitar: o camavalesco Joaozinho Trinta. Mas a resposta esta errada. O autor da frase 6 ojor- nalista Elio Gaspari, um dos mais importantes na imprensa brasileira dos nossos dias, que duas vezes por semana public (aos domin- gos, em uma pagina inteira) artigos em various jornais espalhados pelo pais. Gaspari concebeu esse "metodo" no inicio da d6cada de 60, quando era setorista no aero- porto do Galeao, no Rio de Janeiro. Observou que o tempo m6dio de embarque e desembar- que, de 20 minutes, era escasso para boas en- trevistas com as personalidades que circula- vam intensamente pelo aeroporto carioca. S6 era possivel fazer uma entrevista de cada vez. Mas queria tres ou quatro. Para isso, prepara- va em sua casa pequenas entrevistas de politi- cos com os assuntos mais interessantes do dia, que selecionava de madrugada, tao logo lia osjomais que comecavam a circular. "Corria para o Galeao e oferecia as entre- vistas a politicos. Se concordavam com as respostas, passavam a ser entrevistados de fato e de direito", relembra Mrio Sergio Con- ti. Assim, Gaspari produzia mais e ainda ga- nhava o reconhecimento dos entrevistados, que as vezes "pareciam mais inteligentes ou engragados do que realmente eram". O m6todo foi "refinado" e aplicado em Veja, da qual o jornalista foi director de reda- gAo: "Gaspari inventava um raciocinio para avivar uma mat6ria, geralmente de madruga- da, no calor do fechamento, e mandava um reporter achar algu6m famoso que quisesse assumir a autoria", registra ainda Conti, ele tamb6m director da revista em 6poca posterior. Como se estivesse lidando cor algo absolu- tamente normal, Conti acrescenta: "O truque era puro Elio Gaspari". Nao exatamente. Outra frase famosa, an- terior, e atribuida ao ex-presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira. President eleito, mas ameaqado de nao tomar posse no cargo por causa de uma reaqAo military, JK anunciou sua viagem de Belo Horizonte para o Rio, onde temia-se que viesse a ser preso, com a frase "Deus poupou-me do sentiment do medo". Juscelino nunca disse tal coisa. Mas seu ami- go e correligionario Augusto Frederico Sch- midt, intransigente defensor da posse, colo- cou a frase na boca do president eleito, em mat6ria escrita para o Correio da Manha, o mais influence jomal de entao. JK, 6 claro, guardou silencio sobre a autoria postiqa. E que a frase fez furor. Os militares recuaram. Provavelmente a biografia de Mario Ser- gio Conti vai passar a integrar a galeria des- ses personagens controversos da imprensa brasileira. Seu livro (Noticias do Planalto, Companhia das Letras, 719 paginas, R$ 35,00) esta tendo, desde o final dos anos 90 (deven- do continuar a ecoar por todo este 2000), o impact que as mem6rias de Samuel Wainer, Minha razdo de viver, tiveram nos anos 80. Wainer (cujo livro, alias, nao foi consultado por Conti, ou ao menos nao aparece em sua bibliografia) foi ator principal do jornalismo brasileiro entire as decadas de 40 e 60. Por isso, suas confissoes sobre corrupmao e trafi- co de influencia nesse period tiveram um tom de sinceridade pr6-ag6nica (morreu de can- cer pouco depois de prestar os longos depo- imentos a Augusto Nunes, autor do texto fi- nal, igualmente um editor de Veja). Conti, mesmo ocupando um cargo corn o peso da chefia de reda go da quinta maior re- vista de informagdo do mundo, teve atuaqAo discreta at6 o aparecimento do seu livro no mer- cado, no final do ano passado (talvez por ser um home da retaguarda paulistana da revista, tenha perpetrado tantos pequenos erros que um reporter de linha de frente, em contato direto com fatos e personagens,jamais cometeria). O catatau e o produto de quatro anos de pesquisa, envolvendo extensas leituras e a coleta de 141 depoimentos pessoais. Escrito corn clareza e recheado de informag6es, rela- cionando verses (muitas) e fatos (nem tan- to) a pessoas, e revelando alguns dos mais poderosos (ou picantes) bastidores do poder no Brasil, o livro deve ser lido por todos e vai ser uma referencia (mesmo que lateral) sobre a hist6ria em torno da presidancia de Fernan- do Collor de Mello (1989/1992). Dar prazer e fornecer uma riqueza de relates sao duas das principals qualidades do livro. Mas ficar ads- trito a essesfaits-divers e uma das suas mais sentidas limitaq6es. Noticias do Planalto tem um gosto de sur- presa e novidade porque osjornalistas brasi- leiros, absorvidos pela rotina de trabalho co- tidiano, nao sistematizam suas anota96es, nem alongam as observances feitas no calor da hora, na desgastante cobertura dos fatos da pauta diaria de suas publicagoes. O dead-line (prazo fatal para a entrega de materias a serem publicadas) praticamente p6e firm sua liga- 9go com os fatos, naquela dimensao de hist6- ria que eles necessariamente tem, mas nao au- tomaticamente. Os jornalistas americanos ja fazem isso hd muito mais tempo, corn muito maior freqtiincia e melhores resultados. Nem a prop6sito, Conti se inspirou em Os Ultimos Dias, a reconstituig~o que Bob Woo- dward e Carl Bernstein fizeram do epilogo da administracao Richard Nixon nos Estados Uni- dos. Para ter tantas hist6rias para contar a res- peito dos capitulos que antecederam a renun- cia de Nixon, desgastado pela revelagdo do "escandalo Watergate" (acobertamento de cri- mes e sabotage e perseguigao a adversarios politicos pela Casa Branca), os dois rep6rteres do Washington Post entrevistaram um ex&rci- to de gente. Mais do que uma simples reporta- gem, escreveram quase um romance politico. Mas nao tiveram o mesmo sucesso de Todos os Homens do Presidente, o primeiro livro da dupla sobre Watergate (e que virou filme, com Robert Redford e Dustin Hoffman Lacuna Uma exposigao de arte pode dispensar o coquetel, mas nao deve abrir mao do catalogo. Nao s6 para orientar os visitantes e servir de registro hist6rico, como para ajudar os que forem escre- ver sobre os trabalhos a avivar a mem6ria. Em lugar civilizado, 6 providencia elementary e indescar- tavel. Em Belem, segue uma 16gi- ca que se apoia na falta de uma competent, seria e corajosa ati- vidade critical. Quem tern dinhei- ro, prestigio ou poder consegue entregar catalogos em suas expo- siq6es (ou ao menos nos vernis- sages). Outros sao maltratados. Quando nao pela pobreza de mei- os, pela falta de ateng~o. E imperdoavel que a Secreta- ria de Cultura nao tenha produzi- do catalogo para a exposiqgo de Dina Oliveira. Foi, talvez, o acon- tecimento mais important na pro- dugdo local de pintura no ano pas- sado. Na minha apreciagqo, assi- nalando um retorno critic da pin- tora a pr6pria obra, marcou um salto, inclusive em relag~o a expo- sig~o anterior, de dois anos atras. Esse moment tinha que merecer o registro perene do bom catilo- go. Ao menos na inauguraqgo da mostra, nao havia catalogo. E cer- to que, com a morte do professor Francisco Paulo Mendes, desapa- receu o maior de todos os critics de arte que o Pardja teve. Um apre- sentador de obras de pintura que conseguia ser conciso, claro, con- centrado, profundo e visiondrio, em linhas capazes de encontrar albergue num prosaico catilogo. Nem por isso deve-se deixar de in- sistir na elaboraqao desses guias de exposiqgo. Aproveito, alias, para sugerir a quem interessar possa: editar todos os textos que nosso queri- do Chico Mendes escreveu para essas ocasi6es. Um que acompa- nhou uma das exposigoes de Dina Oliveira 6 primoroso. Canto Augusto 6 de Almeida e Mar- cos Argoni, com seu canto lirico e piano, transportaram para a Italia as pessoas que foram ouvi-los se apresentar na noite do dia 17 do m6s passado, na igreja de Santo Alexandre. Uma selegao de 13 tre- chos de nove autores, criteriosa e sensivel, al6m de dosada com equi- librio, foi apresentada pelo nosso mais important tenor (de todos os tempos?) com uma maestria de padrao intemacional, apoiado com competencia e discrigIo pelo pia- nista paulista. Nao havia muita gente para se deleitar com a belissima voz de Mauro, mas o privilegiado audit6- rio saiu encantado e recompensa- do do espetaculo. Tao bom que nem o repicar dos sinos da igreja da Se, num contracanto que a ino- portunidade transformou em ca- cofonia, conseguiu quebrar o en- canto. S6 faltou o Emanoel O de Almeida estar ali, de corpo presen- te, para se emocionar corn a ex- cepcional criatura que concebeu. JOURNAL PESSOAL 1a QUINZENA DE JANEIRO/2000 5 de um jornalismo colorido nos papeis principals, destino que parece bater na porta de Noticias do Planalto). O re- lativo insucesso nao adv6m de uma queda de qualidade de Os Ultimos Dias, mas porque esse segundo livro era desnecessario. Woo- dward e Bernstein separaram o period derra- deiro de Nixon e o detalharam a exaustdo de um diario. Tentaram transformaram pedagos de vidro em diamante: detalhes laterais ou sup6rfluos foram superdimensionados para segurar a trama. Mas pouco acrescentavam ao queja havia sido dito em Todos os Homens do President (por sinal, long de ser a me- lhor obra sobre o "escindalo de Watergate"). Parecia mais um caga-niqueis. Mas havia outro element negative no segundo livro: a inverossimilhanqa. Na bus- ca de elevar a ultima potencia as caracteristi- cas do "novo jornalismo", Woodward e Bernstein parecem ter recorrido ao "metodo" que Conti diz ser de autoria de Gaspari, mas e praticado desde que o primeiro prot6tipo de umjomal entrou em circulacgo. Frases entire aspas, mesmo quando ditas em conversas intimas, situaq6es descritas aos minimos de- talhes, e revelab9es de dificil confirmaqgo (como os telefonemas de inconfidencia do po- deroso nonagenario Roberto Marinho para um Conti compreensivo), podem constituir a sedugao de um instant book (nao tdo instan- tdneo assim, alias, no caso brasileiro), mas nao de um estudo sobre a hist6ria. Osjornalistas mais antigos (ou mais atin- gidos) tnm reagido ao livro atribuindo a Ma- rio S6rgio Conti a missao de salvar a pele dos patr6es, sobretudo do dono da TV Globo, transferindo para seus empregados grande parte da responsabilidade por esse sucesso da manipulacgo political: a elevacao do cedi- qo "cacador de marajas" a catastr6fico "sal- vador da patria", em questdo de dois anos reduzido a chefe de quadrilha, nao muito dis- tante do verdadeiro ponto de partida. Uma andlise criteriosa levara a conclusdo de que 6 mais ou menos assim, mas nao e exa- tamente assim. Ainda e possivel repetir-se aquele epis6dio de d6cadas atras, quando Assis Chateaubriand (o Marinho de entdo e, guardadas as proporc6es, ainda mais podero- so) ligou para o articulista do seu jomal e pe- diu um editorial sobre Jesus Cristo, em plena semana santa. "A favor ou contra?", reagiu de imediato o submisso funcionario. Se Alberico Souza Cruz, o responsivel pela edigao mani- pulada do debate entire Collor e Lula um dia antes do segundo turno, favorecendo o pri- meiro e prejudicando o segundo, agiu de ma-f6 por iniciativa pessoal ou como o editorialista de Chat6, agora a mando de Marinho, 6 ques- tio a responder por dois tipos de avaliaqoes. Uma, sobre o mando exageradamente ver- ticalizado do dono na empresajomalistica (de que nao ha similar nem no govemo, nem em qualquer outra empresa privada), uma anoma- lia que enfraquece a densidade democratic da vida political national; e outra, um exame de consciencia individual dosjomalistas, que cos- tumam transferir para essa estrutura autorita- ria a remissdo por pecados que sio de sua res- trita responsabilidade, e que, com alguma es- pinha dorsal, podiam nao ter praticado. Ha situac6es suficientemente numerosas tanto para uma como para outra situaqAo. E ambas explicam a manutenqio de fraudes e truques como os de Bernstein, Woodward, Gaspari e Conti, que, uma vez inventados, se perpetual com a convenient designacqo de figuress de estilo". Um estilo que aproxima esse jornalismo da ficqAo, mas nao exatamen- te da hist6ria. E se 6 para saber realmente a verdade e utiliza-la como ferramenta da cida- dania, entao 6 melhor deixar de lado essa pro- sopopeia, tAo emocionante e divertida quan- to in6til para tais fins. Nem a proposito: entrevistado em 1992 por Mike Wallace, noprograma 60Minutos, da CBS, Carl Bernstein reconheceu que s6 entao, 20 anos depois das consagradoras reportagens sobre Watergate, estava entendendo exatamente o que entao ocorrera. Ou seja: precisou ir al6m do pr6- prio jornalismo que praticara para sair da posi- 9go de testemunha para a de int6rprete dos fa- tos. Nao e uma a moral da hist6ria que sejogue no lixo. Lata de lixo continue aberta a espera de muita coisa produzida com a intengdo de alcan- qar lugares muito mais nobres. Para o mundo admirar O estudo de viabilidade econ6mica e fi- nanceira da Estacgo das Docas, a obra mais bonita do mundo, segundo o governador Al- mir Gabriel, foi realizado em 1997 pelo Bureau de Marketing e Pesquisas, uma empresa par- ticular. A definigAo da viabilidade desse com- plexo turistico, cultural e commercial, que ja abocanhou 18 milh6es de reais do tesouro estadual, foi estabelecida com base em duas exclusbes fundamentals. Uma: nao considerou a implantaqgo do terminal hidroviario, um dos itens mais impor- tantes do conv6nio atraves do qual a CDP (Companhia das Docas do Pard) cedeu tres dos armaz6ns do porto de Belem ao Estado (em troca de um aluguel mensal nao de R$ 80 mil, que disse que iria cobrar, mas de R$ 20 mil que Ihe foram oferecidos e aceitou). A BMP justificou a exclusAo do terminal, "tendo em vista a complexidade de sua gestdo, que de- pende em muitos aspects de legislacqo es- pecifica". Segunda exclusao: "o montante das inversoes destinadas as obras civis do com- plexo nao foram computadas na analise de viabilidade financeira". Isto significa que desde o inicio o Estado, mesmo havendo se comprometido a tal, ja- mais pretendeu a s6rio construir o terminal para os passageiros do transport hidrovia- rio, rompendo unilateralmente o convenio (e sem puniqgo alguma, graqas A conivencia da pr6pria CDP). A exist6ncia de um terminal, a ser usado pelos passageiros das embarcaq es fluviais, comprometeria os prop6sitos elitis- tas do arquiteto Paulo Chaves Femandes. Fiel a essa inspiracao, a BMP observou que "a localizaqao da Estaqgo das Docas, pr6- xima ao Ver-o-Peso e da pr6pria area portuaria da cidade, requer permanent efetivo de se- guranqa internal, de modo a preservar o aces- so as camadas sociais de elevado poder de compra". O que constitui, alem de preconcei- to e discriminagqo, burrice commercial: a movi- mentaqgo de passageiros acrescentaria po- der de compra ao palanquim tucano, cuja se- leta frequincia (de brancos, ricos e perfuma- dos) nao ird garantir sua viabilidade, contra os esquematicos calculos de origem. O estudo de viabilidade de quase tres anos atras tamb6m atesta que o investimen- to official na tal estacFo seria mesmo a fundo perdido, sem retorno. Mas seja i um assun- to s6rio tomar essa decisao em relaCgo a 6,2 milhoes de reais (o orqamento original do projeto), muito mais grave e aplicar sem vol- ta R$ 18 milh6es (ou R$ 20 milh6es, com a obra concluida). Ainda mais porque essa destinaqAo nao seguiri a norma legal, do concurso piblico. Depois de ter arcado diretamente com a responsabilidade e os custos da obra, o go- verno vai transferir a comercializagio dos es- paqos criados na suntuosa EstacAo das Do- cas a uma organizaqgo social. Essa "associa- QAo de direito privado sem fins lucrativos e de interesse coletivo, destinada a produqao de cultural, lazer, turismo e servico no Pard",ja foi criada e registrada em novembro do ano passado: 6 a Para 2000. Entre os seus prop6- sitos esta o de estabelecer "parcerias com o Estado e a administraqAo de seus bens, equi- pamentos, etc., ap6s a celebraqgo de Contra- to de Gestao". Todos os seus 10 fundadores, tr6s dos quais instalados na diretoria provis6ria, sao amigos ou vinculados funcionalmente ao se- cretario de cultural, Paulo Chaves Fernandes, autor, executor e fact6tum das obras do pro- jeto. As pr6ximas indicaq6es para a entida- de serao feitas por esses 10 privilegiados fundadores, que tim em comum o fato de se ligarem a um v6rtice invisivel nos documen- tos de constituigqo da Para 2000: o pr6prio Paulo Chaves. Se isso nao e uma aqgo entire amigos, pro- movida com base em bens p6blicos, consti- tuidos a partir de pesados investimentos sem retoro, a Reptblica foi abolida no Para, onde passou a imperar uma monarquia de inspira- qio omitol6gica, a dos emplumados tucanos gabrielistas. Cor um rei que tonitroa a partir do trono e alguns primeiros-ministros que de- cidem de fato nas cocheiras e bastidores. 6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JANEIRO/ 2000 C arts I I construiu teu edificio de preconceitos. Luiz Maklouf, d 1teu conterrneo, 6 percebido pelo PT (inclusive por A dem ocracia mim) como pessoa que age de m f. Ou seja, no e considerado umjomalista "bona-fide". Na minha ava- do PT liagao, seus objetivos tem sido sempre os de difamar do P I Lula eoPT e no o de honestamente informal o publi- Sou assinante honorbrio do Jornal Pessoal, por- co. Para isso, langa acusag6es semprova, insinua, cria que voce nao me deixou pagar pela assinatura. Devol- suspeigao. Como bem diagnosticou um outro conter- veu meu cheque. Mas estou escrevendo nao como raneo seu, Sergio Buarque de Gusmao, do Instituto leitor e sim como novo coordenador de comunicaqo Gutemberg, Maklouf postulou que Lula cometeu al- do Institute de Cidadania, a organizacao nao govema- guma malandragem e suas materias soo as histories de mental e supra- partidaria, fundada por Lula depois de suas tentativas inmteis de provar essa malandragem. sua derrota na campanha presidential de 1989. O Ins- Nesse process, que incluiu a falsificagao de documen- tituto dedica-se A formulacao de political pulblicas de tos, cor a ajuda da grande imprensa, efetivamente ambito national. Sua mais conhecida realizagao foi o agrediu e danificou a integridade da image e Lula. No Program de Emergencia Alimentar, que se transfor- meu livro, que voce resenhou, "Sindrome da Antena mou na campanha contra fome de Betinho. Atualmen- Parab6lica", dedico um ensaio inteiro a dissecaqao te trabalha num Projeto Moradia, numa revised do dessejomalismo. difamat6rio. O livro de Mario Conti, Proalcool, e em programs de combat A mis&ria. O Noticias do Planalto, que acaba de sair, revela como institute e tambem o QG da intense atividade de Lula Maklouf se iniciou nessa arte, tentando enlamear o que semanalmente, as vezes duas ou tres vezes por nome de Lula, tratando de forma maldosa as circuns- semana, visit todos os cantos do pais onde haja um tancias do nascimento de sua filha Lurian. movimento popular, de protest, um projeto novo de Ao contrario do que voce diz, nenhuma pessoa, organizaqao social, econ6mica, ou de conscientizaoao. politico ou nao politico, 6 obrigada a receber ou dialo- Minha principal tarefa e tentar modificar o padrao gar com umjomalista que nro se paute pela eticajoma- de comportamento da imprensa em relaao a Lula e o listica ou que jogue baixo, ou simplesmente do qual Institute, ha muito tempo caracterizado pelo desres- nio goste. Muito menos Lula, que recebe cinco pedi- peito ao Lula, sistematico desprezo pelas suas aq6es e dos de entrevistas por dia, para ver depois suas decla- sistemitica busca de incidents ou situac6es que o races sistematicamente distorcidas, usadas fora do possam expor ao ridicule ou a desqualificaqao. O teu context, ou voltadas contra ele para agredi-lo. Alias, editorial "Desafio democratico, da segunda quinzena se um dia voce quiser escrever um livro interessante de dezembro, 6 um exemplo desse tipo de relaciona- sobre a imprensa brasileira, escreva uma hist6ria das mento, e da forma como em cima de um incident se sacanagens da midia contra Lula. DA um livro de pelo reforqa o preconceito contra Lula. No caso um pre- menos 200 paginas. conceito novo, o de que Lula 6 anti-democnitico, ou de Na minha opiniAo. o anico erro que Lula cometeu que no6 suficientemente democrata,sofrendo do"mal nesse epis6dio foi o ter comparecido ao program de nascenga" de todos os marxistas, que na sua origem Roda Viva. O convite havia sido feito ha muito tem- nAo acreditavam na democracia burguesa.. po, e somente A iltima hora, Lula chegando de viagem Esse o seu primeiro e fundamental erro. E possi- A Europa, a TV Cultura informou que convidou Luiz vel que voce compartilhasse nos anos 60 dessa des- Maklouf para compor o painel. Minha interpretacqo crenga na democracia burguesa, como eu comparti- (minha, pessoal, nao do Lula) e a de que ao convidar lhava, porque fomos formados na matriz marxista, Maklouf, que nem 6 um jomalista important e nem revolucionaria. Mas nunca foi o caso de Lula. Foi ele representava um veiculo important, a TV Cultura quem liderou as greves pacificas de 1978-78 e 80 que revelou que seu objetivo nao era o de esclarecer e sim puseram fim a ditadura military. Criou logo em seguida o de agredir ou de confundir, como efetivamente acon- o primeiro partido socialist de massas e democrati- teceu. Para tua informagAo, jA que obviamente voc6 co do Brasil, que desde sua concepgao inicial, enten- pegou tudo isso de orelhada, dos jomrais, quem teve de a democracia como valor estrat6gico, e rejeitou os infeliz ideia de convidar o Maklouf foi o novo funci- mecanismos politicos que caracterizavam os bolche- onario Marco Antonio Coelho, esse sim velho mar- vismo, entire os quais o "centralismo democratico, xista-leninista-e-tudo-o-mais (e nada tenho contra inspirado, como hoje se sabe, na concepco do Esta- velhos marxistas), sem experiencia emjomalismo. do maior prussiano, e que nao deve ser confundido Voce e toda a imprensa, inclusive os veiculos de com o mandate imperative, que o PT imp6e aos seus "media criticism", como Revista da Imprensa e Obser- parlamentares em algumas questoes, inspirado em vatorio da Imprensa, convenientemente ignoraram o outra matriz a da democracia direta. que foi o grande escandalojomalistico desse program No PT convivem cat6licos praticantes, marxistas Roda Viva: quando perguntaram ao Lula como ele ex- e ex-marxistas, evangelicos,judeus, socialists e libe- plicava sua subita queda de popularidade a partir de rais. O que define o partido nao 6 marxismo de alguns maio de 1998 e Lula responded que isso foi depois que de seus filiados, e ate de algumas de suas facCqes, assim Femando Henrique convocou os barbes da imprensa como nao 6 o catolicismo de outros. O que o define 6 em Brasilia e exigiu que parassem de falar de seca no uma vaga ideia de socialismo democritico, a radicalida- Nordeste, de queimada na Amaz6nia, que se nao fe- de e a vontade de mudanqas e de aprofundamento chassem ele, retirava suacandidatura...que at6 colunis- democratico, uma especie de ktica, que une gente tao tas de Brasilia foram convocados pelo Fernando diferente. O inico desafio democratic do PT 6 o da Henrique...e que tudo isso foi publicado pela VEJA... convivencia democritica e produtiva de grupos e pes- "Houve aquele frisson. Roberto Muller e Ricardo soas tao diferentes e isso nAo tern sido facil, como Noblat tentaram embananar o Lula. "Mas como, uma todos sabemos. Lula se impre como liderana, justa- reuniao secret e a VEJA publicou...". Eliane "Canta- mente por ser constitutivamente democrat. nhede botou o dedo em riste na cara de Lula, e desmen- Frases como "O PT ainda nao se convenceu de tiu: "Eu nAo fui a nenhuma reuniao... que a democracia 6 uma realidade acabada, nao apenas "Pois bem, essa mesma Eliane Cantanhede, termi- um bem intermediario....", assim como tantas outras nadaa gravao pessoalmenteveio se desculpar: "Lula, do teu editorial, revelam no minimo um descuido cor eu tinha que desmentir.. alinguagem;maisprovavelmenteumprofundo e arrai- "Agora veja Voce, LUcio Flavio Pinto, o pais gadopreconceito que te impediu de conhecer o que 6 o que estamos: PT, ler seus documents programAticos, conhecer seus Um Presidente da Republica, chama os barges lideres e seus grupos, para poder entender sua dinami- da imprensa para um reuniao secret em que exige ca e suas contradiCges, como se pede de um bomjoma- que fechem com ele, suprimindo ou distorcendo in- lista. Por isso classifiquei teu artigo de editorial, alias formaq8es negatives ao governor um editorial que o EstadAo reproduziria com prazer. S6 isso, numa democracia verdadeira, derruba- Vejamos agora o incident em cima do qual voc6 ria um president. A maior revista semanal, VEJA, cor mais de um milhao de leitores, conta essa hist6ria, nho corn vergonha de ter participado, mas com o orgulho de ter dado um furo de reportagem que s6 publicou no dia seguinte ao das eleiq6es. Quando Lula menciona o epis6dio no Roda Viva, todos aqueles grandes jomalistas se fazem de mi- guel, e ainda tentam confundi-lo. A jomalista que botou o dedo na sua cara em piblico, depois vai pedir desculpas em segredo, como se fosse uma coisa pessoal. E para terminar, nosso Lucio Flavio Pinto entra na canoa furada do Lula autoritario, num editorial de pagina intema que comeqa cor Marx e terminal cor o aumento de 6nibus em Belem de Para sobre o qual tambem quero falar. Assim se iniciou a construqao de um novo pre- conceito contra Lula. O do Lula autoritArio. Autoritario quem, cara pAlida? Pergunto eu? Agora, sobre o tal aumento de tarifas de 6nibuis em Belem: "Como esti cartaja se tornou longa demais, vou me ater ao essencial Esse aumento de tarifas e tema de outro editori- al, da primeira quinzena de dezembro. De inicio estranhei os sofismas e forqadas de bar- ra, jA que o prefeito seguiu o voto majoritario do Con- selho, e que alem de majoritArio era o proposto pelos estudos tecnicos e era o de conciliac~o. Teu unico argu- mento 6 que o DIEESE propunha uma tarifa menor. Mas era apenas 3 centavos de real menor que alem disso resultava num quebrado de troco dificil. Pedi informaq6es a prefeitura de Belem. Mesmo assim, e mesmo vendo que tua mat6ria estA errada cor base no mero texto escrito, nao tenho condic6es pela distancia, de fazer uma analise mais profunda. Tam- bem nao conheqo as pessoas, o prefeito, os fatores subjetivos, nao entrevistei os usuarios, como imagine que voc6 fez.. Por isso, prefiro formular algumas per- guntas de esclarecimento: Voc6 menciona o tempo todo que a tarifa foi defi- nida pelo Conselho de Administrago da Companha de Transporte do Municipio de Bel6m. Qual foi o papel do Conselho de Transporte do Municipio de Bel6m, criado em 1998 e do qual participam entidades da sociedade civil? A votaao a que voc6 se refere deu- se em qual dos dois conselhos? Se foi neste iltimo, o DIEESE nao faz parte dele? Porque voc6 nao se referiu ao seminario sobre as tarifas realizado em outubro, ao que consta corn ampla participaqAo e do qual resultou uma nova pesquisa de usuArio em novembro? Porque voc6 nAo menciona os estudos especificos de custo do transport feitos a partir desse levanta- mento de usuarios e que usa indices de inflaao pr6pri- os do transport coletivo, e que sao muito diferentes dos indices de custo de vida usados pelo DIEESE? Voc6 terminal o editorial mencionando que "o ne- g6cio" movimenta "oficialmente" 25 a 30 milh6es de reais a cada mes, em dinheiro vivo, na maioria dos casos. "Surpreende, mas nao 6 incompreensivel que o PT de Edmilson Rodrigues haja fracassado no com- promisso de mudar as regras viciadas desse jogo miliondrio...Qual a sua motivaqao" Ou seja, vocA esta fazendo uma insinuaaio muito grave. Usou palavri- nhas especiais para isso, como "oficialmente", e "em dinheiro vivo". Voc6 tern alguma prova, direta ou mes- mo circunstancial, ou depoimento sigiloso no sentido de que a decisao sobre as tarifas envolveu um esquema de corrupcao "do PT de Edmilson? Se voce tern, deve- ria apresentar essas provas. Se nAo tern, cometeu o mesmo e grave desvio 6tico do Maklouf. Atenciosamente, Desejo a voce e todos os seus leitores um feliz ano 2000. Bernardo Kucinski Institute de Cidadania c. c6pia para Lula c. c6pia para Ruth Helena, Nucleo de Imprensa, Prefeitura JOURNAL PESSOAL 1a QUINZENA DE JANEIRO/2000 7 Minha resposta Uma prova do meu aprego pessoal pelo jor- nalista e professor Bernardo Kucinski elepr6prio a atesta ao inicio de sua carta, quando se refere ao exemplar de cortesia destejornal que lhe remeto para Sdo Paulo hd anos, dispensando opagamen- to que ele tdo gentilmente tentoufazer Ndo vejo motivo algum para modificar esse apreco, qual- quer que venha a ser o desdobramento da contro- versia agora estabelecida entire n6s neste JP. Mas confesso minha surpresa e certo desa- pontamento cor aforma e o tom da carta que no ultimo dia do ano passado Bernardo me passou por e-mail. Em primeiro lugar, pelo ac6mulo de pequenos erros, nem todos causados por press oufalha de digitagdo, quejulguei do meu dever corrigir (ndo semn algum trabalho) antes de pu- blicar o texto. Bernardo sabe escrever e conhece a lingua portuguesa. Mas ndo escreveu a carta corn serenidade, nem mesmo como um jornalis- ta. Seu pronunciamento e o de um militant, de um home de partido. E assim sera torado. 0 que ndo o desqualifica para o debate. Muito pelo contrario: Ihe confere a qualificacdo devida. Mas cor o adjetivo certo: um home de partido, par- tido, tentando emprestar seus prestimos a unma entidade (o Instituto Cidadania) que se propde "supra-partiddrio ". Nao ajo assim por retaliagdo, por haver ele classificado meu artigo de "editorial". Como pro- fessor do curso de comunicagqo social da USP, Bernardo sabe muito bem que nenhum editorial e assinado. Elepode ate achar que meu artigo equi- vale a um editorial. Mas ndo pode tratd-lo como editorial, por ndo ser, rigorosamente, um. Edito- rial 6 a opinido da empresajornalista. Por isso, ndo vai assinado, nunca, jamais. (Miguel Urba- no Rodrigues, comunistaportugu6s de quem, corn todo orgulho,fui amigo e colega de redagdo pau- listana, escrevia cor corregdo os editorials que os Mesquita Ihe encomendavam no Estaddo). 0 meu artigo ter opinido (dai ser este um Jornal Pessoal, radicalmente pessoal). Mas e, antes de tudo, jornalismo, informacdo, fato. Sobre essa base tento construir uma andlise, manifesto at6 indignagdo efuror Mas sem tentar praticar um jogo de silogismos e sofismas. Sem me chocar com osfatos. Repito o artigo questionado por Bernardo: o PT e "o mais nobre dos partidos brasileiros ", mas ndo pratica em todas as conseqiiencias o jogo democratic. Em alguns lugares, como Be- lem, menos do que em outros, onde avangou mais. S6 para dar um ultimo exemplo local: co- letivamente, como de sua praxis, o partido con- sagrou uma chapapara disputar a eleigdo deste ano em Belim; e jd nominou os candidates a prefeito e vice-prefeito. Como sua vitdria em 1996 resultou de uma coligagdo e, teoricamen- te, uma coligacdo continue a ser admitida como necessaria, a conseqiuincia dessa attitude e trans- formar os parceiros em decoracdo, sujeitando- os, antes de instalado formalmente o process eleitoral, dquele confinamento em queficdva- mos, n6s, reporteres, nos atos oficiais do regi- me military (lembra, Bernardo?). S6 um exemplozinho. Se tudo o que Lula tem contra Luiz Macklouf (e ndo Maklouf como Ber- nardo grafou e, nesteponto, ndo corrigi) tem pro- ced6ncia e 6 legitimo, mais um motive para ir ao Roda- Viva e desmascarar o contender desleal. Se tantas vezes jd foi desrespeitado, vitima de pre- conceitos, Lula teria essa oportunidade de enfren- tara raposa em suaprdpria toca, voltando ofeiti- go contra ofeiticeiro. Ate a TV Globo, que tanto maljd fez ao president de honra do PT apesar de tudo continue a ter as entrevistas que solicita. Quanto mais a Cultura de Sdo Paulo, muito mais honest no tratamento dado a Lula, ndo merece- ria a emissora que nosso mais inportante operd- rio a atendesse, a despeito de tudo? Se Lula 6 um arquetipo de democrat corn tais procedimentos, reivindico para mim ser o tipo ideal, o modelo. Eu sempre acreditei na de- mocracia. Sempre. Vou a todos os audit6rios. Aceito convites e desafios, indiferente a suas ori- gens ou classificadOes. Jd prestei alguns servigos (absolutamente gratuitos) ao PT national (fui, inclusive, conselheiro de sua revista nacionalpor bastante tempo), comojd fiz palestras (remune- radas) para o PDS (sem jamais ter-me filiado a partido algum). Fui a um encontro cultural petis- ta em Belem, no ano retrasado, e nelefiz critics duras ao maior lider local do partido, o prefeito Edmilson Rodrigues, e ao seu publicitdrio in pec- tori, heresia pela qual pago em sucessivos gol- pes de vilania desde entdo, por quem tenta se esconder (como aquele urubu empavonado da lenda) atrds de um pseud6nimo criado corn a mesma inventive das peas propagandisticas do proletkult inculto. Minhaformacdo politicajamais negou minha crenca democratic. Quando nada, Bernardo, ate por atavismo professional: jornalistaprofissional desde os 16 anos, exercendo a critical corn poucos meses de carreira, tenho na tolerdncia e na convi- vencia dos opostos uma das mais sdlidas bases para continuar a existir como jornalista indepen- dente. E essas qualidades s6 existed sob demo- cracias, mesmo aquela relative que o general Gei- sel inventou para manter sob control os que esta- vam a direita e a esquerda do seuprojeto autoritd- rio de transigdo. E ja que o Bernardo pergunta a este cara- pdlida quem 6 o autoritdrio no epis6dio, eu Ihe repito o que est6 enfaticamente dito no artigo, sem o menor subterfigio: Lula. Quanto ao reajuste da tarifa de 6nibus em Belem (que ndo estd no "editorial" aqui atacado, ao contrario do que afirma Bernardo, mas emn outro artigo da edic6o anterior destejornal), o coordenador de comunicacdo faz as perguntas certamentepor desconhecer o noticiario da gran- de imprensa belenense sobre a "novela ". Todas as informadOes que ele mepedejaforam publica- daspelos tresjornais didrios ao long da cober- tura (e seu informant local deve ter sido tenden- cioso tambem neste aspecto. Meu artigo inter- pretou esses dados, ressaltando que o PT en- quanto oposigao, sempre se escudou nas apura- Fdes quantitativas do DIEESEpara negar o pro- cesso de reajuste que as administraCdes munici- pais adotavam, quase como um ritual, entire o maximo pedido pelos empresdrios e a indicagao supostamente tecnica, process que so ndo per- maneceu o mesmo sob o governor Edmilson por- que agora houve uma inovagdo: acolhe-se o pa- recer do novo conselho, ampliado, sim, mas con- trolado. Jd o DIEESE, agora, ficou 6rfdo, des- prezadopelo PT (ex-oposic6o, hoje governor Sua recomendagdo em torno do indice inflaciondrio foi preterida pela avaliacdo tecnica, sob base de calculo e planilha antes postas sob suspeic6o, falsamente legitimadas pelo novo conselho. Quanto a minhas "insinuad6es" sobre cor- rupgdo no aumento dos 6nibus, Bernardo faz o tristejogo dos que atribuem ao contender o que ele jamais disse para tentar desautoriza-lo ou flagrd-lo em contradivdo forjada. Cor todas as letras (e ndo cor insinuag6o) eu disse que ojogo e miliondrio (de 25 a 30 milhdes de reais por mes, d vista ou mesmo antecipados, gracas aos vales-transporte) e que o PTndo conseguiu "mu- dar as regras viciadas desse jogo milionario", introduzindo uma novidade no rito sobre cuja motivacdo eupedia explicacdes. Explicad5es que nao vieram ate hoje, como jamais vieram em outras questdes, mesmo quando cobradas dire- tamente de quem havia prometido uma adminis- traCdo transparente ", mas prefer se comuni- car cor a opinido public atraves de press-rele- ases e materiaspublicit6rias (pagas, naturalmen- te). Eu ndo estou dizendo nem insinuando que hd corrupcdo porque ndo tenho provas. Se as tives- se, diria, field a mrxima que desde cedo Batista Campos me incutiu: ladrao e ladrdo, boi e boi (embora, no Pard modern, boi tenha aprendido a voar e roubar). Meu caro Bernardo Kucinski, que em seu ulti- mo livro, o recentissimo "A sindrome da antena parabolica ", declarou que os dois inicos 6rgdos da imprensa verdadeiramente alternative do Bra- sil sdo Caros Amigos e este Jornal Pessoal, admi- tir-me agora capaz de cometer "o mesmo e grave desvio etico do Maklouf", apds 34 anos de exerci- cio professional de padrdo etico, moral e tecnico completamente oposto, diz mais sobre o proprio Bernardo em sua novafund6o do que sobre mim, que continue integralmente outsider conforme ele me definiu em seu outro livro, mais antigo, o jd clissico Jornalistas e Revolucionarios. Um otsider como poucos havia entdo, conforme atesta Ber- nardo, e menos ainda restam hoje. Fico com o outro Bernardo. E mais ndo digo porque o novo Bernardo, beneficiando-se doprin- cipio etico destejornal, de publicar na integra a carta dos seus leitores (e o unico que conheco a manter essa postura), roubou-me precioso espa- o para mais largas argumentad6es, aquipor ora encerradas a fim de que outras materias desta edigqo ndo sejam ainda mais prejudicadas e o missivistafique corn a parte maior. m - - Acerca do editorial que trata da fara6nica obra denominada EstaCgo das Docas, gos- taria de contribuir, atrav6s deste veiculo seleto de comunicaqio, ao povo de Be- lem, levando informag6es complementares ao ab- surdo que esta se instalando dentro deste proces- so licitat6rio. O govemador, atrav6s de seu super-secretario Paulo Chaves, resolve dar inicio A mega-obra da Esta~go das Docas com ajuda do falecido ministry Sergio Mota. O projeto, que iniciou para ser con- cluido no Cirio99, foi mudando pela imaginado de seu idealizador, que tentou criar no papel mais um Parque da Resid6ncia. Sendo que desta vez, sem a natureza para ajudar, perpassa por modest nova data para o final deste novo milenio (ano 2000). Ocorre que em nenhum moment este projeto foi encaminhado a Prefeitura Municipal de Belem a fim de que esta pudesse estudar, por exemplo, o que fazer cor os quase 100 ambulantes que se encontram circundando aquela Area. Sera que o fa- ra6nico secretario imagine que num passe de magi- ca todo o "submundo", que ele despreza, ira desa- parecer daquele local? Ou sera que, como foi o caso do Elevado, que todos sabem nao se confir- mou por complete inabilidade political do governa- dorjunto ao governor federal, ele imputara a culpa a prefeitura, transparecendo que esta nao sabe li- dar com essa "patologia social"? Deixo aqui registrado que essa "patologia social", que me parece ser a opiniao do secreti- rio, esta hoje bem organizada e sabe muito bem a forma com que a Prefeitura vem discutindo os remanejamentos de algumas Areas da cidade, uti- lizando-se do inesgotavel diAlogojunto A entida- de representative (Sindicato dos Ambulantes) e, principalmente, discutindo os projetos em con- junto. Assim, com toda certeza, a "migica" do secretario nao surtira efeito junto aos ambulan- tes, e parece ser esse o primeiro obstAculo que o governor estadual terA de enfrentar para inaugu- rar a mega-obra...! Oswaldo Chaves Exemplo "No intuito de espelhar de ma- neira mais detalhada a publicidade dos aditivos contratuais, comple- mentando-as com os dados neces- sdrios ao seu perfeito acompanha- mento", no final de 1998 o Tribunal de Contas do Estado fez a revisio do modelo definido em 1995 para esses documents, firmados pela administragao publica epublicados no Didrio Oficial. O novo modelo passou a ter 11 itens, exigindo mais informa96es do que o anterior, per- initindo ao TCE "maior eficacia e control" sobre essas publicag~es. No entanto, progressivamen- te essas normas v6m sendo dei- xadas de lado. Um numero cres- cente de 6rgaos do poder pibli- co estao relaxando quando pu- blicam o extrato do termo aditivo de contratos. Um dos mais assi- duos nesse descumprimento, com o agravante de ser um dos que mais adita seus contratos, 6 a Se- cretaria dos Transportes do Es- tado. Numeros mais recentes do DO trazem aditivos dessa secre- taria sem o valor dos contratos originals, uma lacuna fatal, e, as vezes, sem o valor acrescido. A amplia, o do n6mero de faltosos sugere que o pr6prio TCE nao estd zelando pelo cum- primento de sua resolugao. Justiga O mais novo desembargador do Pard, Milton Nobre, lembrava outro dia a figure do juiz Francis- co das Chagas como uma das suas inspirac6es para o exercicio do cargo, que assumiu no final do mes passado. Com 10 filhos, Chagas precisou recorrer ao volante, como motorist de praga, para vencer as despesas dom6sticas, bem acima dos vencimentos de magistrado. NAo era exatamente raro que la- vrasse decis6es com erros, mas decidia o mais rapidamente que podia. Do erro dojuiz pode-se re- correr. Mas nAo hd recurso ao "em- bargo de gaveta", exceto acionan- do administrativamente o pr6prio judiciArio (e sujeitando-se ao cor- porativismo, fatal ante a inexisten- cia de control extero). Espera- se que a lembranga de Milton No- bre se irradie pelo TJE, mudando habitos arraigados que se estabe- leceram ali em sentido contrario. Chagas 6 exemplo de honesti- dade e serio exercicio do oficio. Tao serio que ele precisou buscar melhor salario najustiga do traba- Iho para poder subsistir com sua extensa prole. JA entao o magis- trado ganhava muito mais na deri- vagao do que no tronco do judici- ario. Anomalia que qualificou o polemico ramo especializado e achatou por baixo ajustiga comum. Duas excursbes de homes puiblicos estao intri- gando os leitores do JP. Uma delas e essa viagem de todo um m6s do goverador Almir Gabriel, cumprin- do um roteiro intrigante: Japao, Republica Tcheca, Li- bano e Italia. Quem quisesse deduzir da inclusHo des- ses quatro paises uma teoria conspirativa qualquer, estaria bem servido. O Japao nao 6 novidade: desde Femando Guilhon, os govemadores paraenses sio convidados e quase todos aportam em terrasjaponesas. Afinal, o Japao des- locou os Estados Unidos como o pais estrangeiro com mais profundos interesses no Pard. Bastaria lembrar que 15% das necessidades japonesas em aluminio e minerio de ferro saem do territ6rio paraense. A ida ao Libano teria inspiragdo sentimental, dadas as raizes (at6 ha pouco quase invisiveis) da familiar do goverador. Ja a afinidade tematica dos dois paises europeus da excursdo desafia a sagacidade. A manu- tengao de sua excelencia por 30 dias fora do pais nao se justifica nem com todos os arguments quanto a in- vestimentos futures apresentados no regresso. A nao ser que, contrariando boatos maliciosos e interpretag6es conspirativas, tudo se explique pela ne- cessidade de dar um descanso visual e mental ao gover- nador, tirando-o da rotina provinciana. Se foi para o bem da sauide de sua excelencia, os investimentos que por acaso resultarem de seu periplo serao lucro liquid. Mais intrigante 6 o sacrificio que se imp6s o empre- sario Romulo Maiorana Jr. com a agenda do notdvel pro- grama "andando pelo Para" (para ser verdadeiro e mais popular, o slogan deveria ganhar mais um genindio na A um ponto tal que em julho de 1964 o entao president do Tribu- nal Regional do Trabalho da 8- Regiao, Raymundo de Souza Moura, precisou responder A Fo- lha do Norte, o journal mais influ- ente da epoca (que expressava uma opiniao e nao apenas a co- mercializava, como agora). Moura, que acabou ascenden- do ao Tribunal Superior do Traba- lho, em Brasilia, se manifestou a prop6sito de um editorial do jor- nal de espanto diante dos venci- mentos dos juizes trabalhistas, "nao pelo receio de que possa parecer escandaloso o quantum alegado pelo comentarista, mas simplesmente porque o quantum que ele declara nao 6 verdadeiro". Um juiz trabalhista ganhava bem, mas nao escandalosamente bem. Naquela epoca como agora. Nao precisaria recorrer a expedi- entes como o da auto-concessao de reajuste a despeito das nor- mas claramente em contrdrio, como fez o TRT no ano passado. Chagas, Raymundo Moura e equivalentes, onde estejam, nao devem ter gostado. Jari O grupo Saga surgiu em 1981, um ano antes de Daniel Ludwig passar para um cons6rcio de em- presas brasileiras lideradas pela Caemi, de Augusto Trajano Antu- nes, o imperio que comeara a mon- tar no Jari em 1967, com investi- frase). O principal executive do grupo Liberal finalmente descobriu que seu Estado de nascimento ter uma por- tentosa hidreletrica como a de Tucurui, uma fantAstica provincia mineral como a de Carajds e cidades pioneiras ou de frente econ6mica como Parauapebas e Maraba. Com seu inolvidavel ex&rcito Brancaleone (para nao perder a inspiragqo da origem familiar), armado de pe- quenos 6culos escuros e roupa adequada mais ao cre- pusculo do que ao alvorecer da caminhada, Rominho esti surpreendendo os que vinham acompanhando suas excurs6es, contumazes no roteiro do jogo entire Miami e Las Vegas, nos Estados Unidos, ou pelas pe- rolas do Caribe. Teria finalmente o empresdrio se decidido pela political? Vai ser candidate a deputado federal, sena- dor ou governador? Por isso continue com seu nome fora do expediente do jomal O Liberal, antecipando desincompatibilizaqao (para nao repetir o erro da elei- qFo passada)? Enquanto eleicdo majoritaria (ou para a Camara Federal) no Estado exigir campanha de peregrinacgo entire os votantes, com palanques e tudo o mais, nao convem apostar nessa hip6tese, por mais evidence que ela se apresente. Talvez Rominho esteja visando mais o caixa do que a urna, de olho na sua TV a cabo, na revista que vai langar para circular entire os assi- nantes e em outros neg6cios de retorno mais rapido e ficil do que a political. Exceto se donos de currais eleitorais forem ao seu suntuoso gabinete levar-lhe o diploma de eleito. Com direito a uma enfadada fotografia de agradecimento. mento de 750 milhoes de d6lares (s6 US$ 150 milhoes recursos do pr6prio bolso do excentrico milio- nario americano). No mas passado o grupo Orsa assumiu o acervo do Jari desembolsando simb6lico um real em troca de conduzir as opera- 96es no complex agroindustrial, cor dividas recompostas para um horizonte mais elAstico. A sensaao que fica dessa nova operago de transfer&ncia de con- trole acionario 6 de que o rato co- meu a montanha, mas que nao vai parirnada em troca. Talvez a impres- sao nao da a dimensao exata do ne- g6cio, mas a forma especial de com- p6-lo recomenda toda a atengao. Afinal,em 1982atrincaDelfimNeto- Bulhoes Pedreira-Antunes engen- drou um esquema sagaz. Mas advi- nhem quem pagou a conta. Uma resposta mais satisfat6- ria sobre esse novo capitulo fica- ra para a pr6xima edig9o. Olhar Baladas, a iltima exposigao de Dina Oliveira, aberta ao publi- co at& o dia 17, sao 25 desenhos em tecnica mista sobre papel. Em alguns, bichos mal escondem sua inspiraqgo humana. Em outros, os homes sao bichos. Em virios, hd uma marca de censura, con- trole e repressao num olho alerta ou num xis, mas ha tambem um element de indignaqao e protes- to, da artist que sonha e deseja, mas esti ao lado dos seus, de p6s plantados na terra. Um component telhrico, da paisagem, da natureza, se con- funde com a violencia dos ho- mens ou se choca com ela. Pode-se ter a sensagao de um surrealismo mais contido, mas em alguma media ligado A pos- tura de Bosch diante do seu tem- po, se ele fosse na Amazonia e nao na Holanda, ambas inquisi- toriais. Dina tambem se coloca diante do seu pr6prio tempo, ob- servando, registrando, adicio- nando humor e ironia, mas tam- bem raiva. A exposi ao atesta o alto moment da sua criagao. Uma volta aos temas de 10 anos atras e um salto para muito alem. Duas expedig6es Journal Pessoal Editor: Licio Flvio Pinto Fones: (091) 223-1929 (fone-fax) e 241-7626 (fax) Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040 Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br Edig;o de Arte: Luizantoniodefariapinto/230-1304 |
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