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Jomal Pessoal Jomax L U K- I OK r L \ V I ) r i IN I k) ANO XIII N 223 21 QUINZENA DE NOVEMBRO DE 1999 R$ 2,00 POLITICAL A crise men I I Na novela assume-nao-assume, armada em torno dapresidOncia da CDP, ndo hd nenhuma causa nobre, nenhum interesse superior do Pard. E apenas mais um lance do rasteiro cabo-de-guerra travadopelas elites political do Estado. Mas o confront entire o governador Almir Gabriel e o senadorJader Barbalho terd um efeito: precipitar a campanba eleitoralpelos cargos municipals que estardo em dispute nopr6ximo ano. So dia 4, Almir Gabriel che gou a Brasilia como o inti morato govemador que se desligara do seu partido, o PSDB, e rompera com o president da Republica, at6 entao seu correligionario. Algumas horas depois retornou a Belem como o gover- nador que recuara das duas audaciosas iniciativas. Mesmo assim, foi recebido como her6i no aeroporto da capital para- ense por uma manifestaqao "espontanea" montada a base de recrutamento com- puls6rio nas repartic6es publicas. A pri- meira-dama em pessoa, Socorro Gabriel, andou tirando bamabe de seu expediente para saudar sua excelkncia na volta triun- fal. A cena lembrou os retornos a plani- cie de Jarbas Passarinho na sua fase au- rea do regime military. O que fez o governador para ser tao festejado? Sustou a consumaqao da de- missao do president da Companhia das Docas do Para, Carlos Acatauass6 Nu- nes, e a nomeacao do seu substitute, Ro- gerio Amaro Barzellay, decis6es tomadas no dia anterior por tres votos a dois - pelo Conselho de Administraqao da CDP, em assembl6ia extraordinaria. A suspen- sao dos atos foi determinada pessoalmen- te pelo president Fernando Henrique Cardoso, depois de conversar por quase duas horas com o govemador, no Palacio da Alvorada, ouvindo-lhe as queixas. Ha muito tempo um president nao descia tanto do trono brasiliense para cui- dar de assunto tao comezinho. Toda a imprensa national, surpresa, ficou sem entender o enredo da novela. Coisas do norte, devem ter resmungado os cosmo- politas editors do sul. Um deles, Boris Casoy, al6m de resmungar, estrebuchou. "Coisa de indio", havera de ter pensado. O indio entrando como Pilatos nesse cre- do preconceituoso. FHC pediu para Almir voltar atras e aguardar o resultado de "conversaq6es political" que iria travar para encontrar uma soluqao conciliat6ria. F6rmula capaz de ser aceita pelo governador sem signi- ficar uma desfeita ao seu principal oposi- tor na taba, o senador Jader Barbalho, president national do PMDB, partido que integra a coalizao governista na cor- TnjRlf! rfjg/-T\ Al@/I [i 2 JOURNAL PESSOAL *2- QUINZENA DE NOVEMBRO / 1999 te federal. Almir acusa Jader de mano- brar nos bastidores para tirar um aliado tucano, Acatauassu Nunes, da CDP, e assim fulminar a "governabilidade" do Estado em maos (maos?) tucanas. Certamente em causa esta uma fatia do poder, disputada por dois dos princi- pais protagonistas da cena political para- ense. Mas nada, objetivamente,justifica- ria a criacqo de uma crise que comeca a evoluir para uma guerra aberta, sem re- gras definidas, o bago fazendo as vezes de joelho para as botinadas, que acabam atirando a bola contra a vidraga dos inte- resses estaduais. Em primeiro lugar porque, mesmo no piano puramente politico, a CDP nao 6 um instrument capaz de desequilibrar a partigao de poder entire as parties en- volvidas. Em segundo lugar, porque ne- nhuma divergehcia programatica, ideo- 16gica ou filos6fica esta em causa. Tra- ta-se do mais rasteiro e rudimentar fisi- ologismo, de ambos os lados, em ambos os sentidos. Pelo enredo do governador, o Minis- terio dos Transportes foi transformado num "diret6rio distrital" do PMDB. Des- contadas as aberracges do clientelismo e do compadrio, al6m da promiscuidade na definigAo dos interesses de governan- tes e governados, elements que macu- lam a administragqo public, nada ha de excepcional nisso. O ministry dos trans- portes, o gaucho Eliseu Padilha, 6 um politico do PMDB. Al6m de fazer um jogo pessoal (de que oferece indicios a atual celeuma em torno do pagamento de precat6rios pelo DNER), ele serve ao seu partido, da mesma maneira como outros ministros procuram favorecer o PFL e o PSDB, os outros lados da trin- dade partidaria nada santa que da res- paldo parlamentar ao chefe (ma non tro- ppo) do poder executive. NMo 6 s6 assim no Brasil: 6 a regra em todos os regimes democraticos que se equilibram na divisdo de poderes. O governor Fernando Henrique foi retalha- do entire os partidos que o sustentam no congress. O Ministerio dos Transpor- tes integra a cota do PMDB (alias, nao exatamente proporcional a importdncia do partido porque o senador Ant6nio Carlos Magalhaes desequilibra a capen- ga balanga patrimonialista do soci6logo- presidente), Admita-se que sejam absolutamente justas as queixas do governador de que Padilha sabota o seu governor, enquanto 6 o abre-alas de Jader Barbalho, que, em retribuicgo, escora o cambaleante minis- tro junto a FHC, que, por sua vez, nao pode dispensar o senador do PMDB (para instaurar ou esvaziar CPIs, por exemplo). Nesse caso, o governador tem mesmo que continuar atacando o minis- tro, atestando os atos de lesa-Estado que pratica, fazendo chegar ao president suas manifestag6es de descontentamento e ate de revolta e indignaqdo, se a tanto conseguir chegar de fato. Mas enquanto correligionario e aliado do president da Republica, o governa- dor nao tem o direito, na l6gica intema de sua alianca, de comprometer um compli- cado esquema de coalizao federal com uma questiuncula intestina mal conduzi- da. Mesmo se a frente da naqao estives- se um estadista fire, a tarefa de apro- var os projetos do govemo no atual par- lamento brasileiro nao seria tarefa nada facil. Um aliado como o Almir Gabriel da semana passada deve dar a FHC sauda- de dos inimigos. D e todas as alegagies sacadas pelo governador para caracterizar a md- vontade do ministry dos transportes, nada caracteriza uma verdadeira sabotagem. Ainda que tudo o que Almir diz que Padi- lha estaria fazendo fosse a exata descri- cao da verdade, o governador poderia continuar sem grandes danos sua gestao e o Pard nao seria inviabilizado ou sub- metido a perdas insanaveis. Achar que um politico experience e ladino como Ja- der Barbalho iria levar suas evidentes manobras de bastidores contra Almir Gabriel ao ponto de poder ser pintado como um Judas do Pard (como se ja nao bastasse o Anhanga), 6 subestimar a ca- pacidade de discemimento de algu6m que viu esse fen6meno corroer a imagem de Jarbas Passarinho. E que sempre garan- tiu nao pretender se expor a tal risco. Na campanha eleitoral, Jader perce- beu que esse 6 um flanco perigoso. Pode ser uma arma capaz de antecipar o seu fim como uma das tr6s maiores lideran- cas political do Pard, em qualquer cir- cunstdncia, em qualquer tempo. Os mar- queteiros dos tucanos exploraram ao maximo essa fenda, corn ou sem moti- vos, no ano passado. Desde a derrota para o governor, Jader tem procurado maquiar essa cicatriz para que ela, mes- mo sem desaparecer, deixe de ser evi- dente e inc6moda. Se nao conseguiu seu objetivo 6 por- que, alem de comandar uma estrutura paralela de poder ca6tica e nem sempre eficiente, mas quase sempre predadora, esbarrou na restriqao da capacidade de investimento do governor federal, em fun- qao do compromisso de austeridade com os fiscais do FMI (Fundo Monetdrio In- ternacional). O senador peemedebista gostaria de tratar o governador tucano a pAo e agua, mas distribuindo mana dire- tamente aos clients. Tern tido muito mais sucesso na primeira frente do que na segunda. 0 apparatchick do governador pode estar usando o epis6dio da CDP como o boxeador que martela no supercilio ja aberto do adversario potente, mas corn esse ponto fraco acima do olho. O san- gramento pode abreviar o nocaute. No caso, nao tanto pela contund6ncia do gol- pe, mas pela id6ia de sangramento que a abundante propaganda official projeta diante da opiniao p6blica, em parceria com o monopolista da comunicaqao no Estado, o grupo Liberal. O governador s6 nao pode 6 iludir a todos cor uma campanha publicitaria em torno de uma suposta causa nobre. Ele nao 6 propria- mente um cruzado. Nem 6 a moralidade que tenta restabelecer. Apenas quer usa- la para seus fins; na ess6ncia, os mes- mos do adversario, descontado o apos- samento do butim. Em primeiro lugar porque a substitui- 9qo de Acatauass6 Nunes s6 se tornou uma questao de honra quando as irregu- laridades em torno das obras da Esta- qco das Docas (ver ediies anterio- res do Jornal Pessoal) se tornaram publicas. At6 entdo, noticias sobre os constantes movimentos de Jader nas sombras brasilienses da companhia eram absorvidas cor ceticismo. Mesmo a in- formaqdo de que o nome de Barzellay ja circulava no gabinete de Eliseu Padi- lha nao parecia capaz de provocar em Almir Gabriel a ira, como a que o fez colocar em risco sua filiaqao ao partido e ao governor do president. Alias, nem moments anteriores mais traumaticos, como a rejeiqCo do tucano (e compare) Fernando Flexa Ribeiro para a superintend6ncia da Sudam, o com- portamento nada solidario de FHC em funqio do massacre de Eldorado de Ca- rajas e o mico do Projeto Salobo, provo- caram no govemador uma explosao como no epis6dio da CDP. Pode-se alegar que este ultimo constrangimento, ainda que de menor envergadura, teria sido aquela gota d'agua que faz transbordar muita agua que ja vinha sendo represada ha tempos. Mas nesse caso a explosio de Almir Gabriel nao se apagaria tAo facilmente, nem ele voltaria atras. Comportamento como o que teve sugere que o ato de in- dignaqAo nao foi tao espontaneo assim quanto ele deu a entender. E provavel que faca parte de um lance mais amplo, como aqueles movimentos estrat6gicos em um jogo de xadrez, que s6 adquirem signifi- cado quando (e se) 6 dado o xeque-mate. Nao estando em questao nenhuma causa mais nobre, o que interessa 6 a JOURNAL PESSOAL -29 QUINZENA DE NOVEMBRO / 1999 3 manutenq o da fatia de poder que o go- veradorjulga haver conquistado e a sus- tacgo da ameaqa de dano que estaria por tras da substituicgo de Acatauassu. Ou seja: e a renovagao da encenacio o que esta sendo buscado, nao uma mudanca para valer, real. Todos os personagens sabiam (embo- ra nao o digam) que o president da Re- publica nao foi surpreendido por uma mesquinha manobra intramuros da dupla Padilha/Barbalho. Afinal, o representan- te do Minist6rio do Orqamento e Gestao, Francisco Oliveira, que nada ter a ver cor o PMDB, muito pelo contririo, vo- tou a favor da substituiq~o do president da CDP. Bastaria ele nao ter vindo para a decissao da assembleia extraordinario da empresa que formalizou a mudanqa ter-se tornado inviavel. Esse e um deta- Ihe pra la de relevant. Considere-se, porem, que Fernando Henrique foi apanhado de surpresa por uma molecagem infra-partidaria do seu ministry dos transportes. O minimo que poderia fazer era obrigar Padilha a apres- sar a convocaqgo de nova assembl6ia para anular o ato anterior o mais rapido possivel, restabelecendo o chamado sta- tus quo ante. 0 maximo, seria demitir o ministry, cor desonra (ou opr6brio, como sugeriu o general Orlando Geisel ao ir- mao, o general-presidente Ernesto Gei- sel, na demissao do comandante do II Ex6rcito, Ednardo D'Avila Mello, no epi- s6dio da morte por tortura, numa instala- qco military, do jomalista Wladimir Her- zog, em 1975, quando FHC ainda era ape- nas soci6logo da oposicqo). Ao inv6s disso, o president prome- teu ao governador tao-somente renego- ciar uma said honrosa para todos. Qual seria o fruto dessa alquimia political? Quem sabe algo assim: nem Acatauassi volta, nem Barzellay entra? Um interino ficaria no cargo at6 o encerramento do manda- to, no final do pr6ximo mes. Um candida- to mais palatavel (como gostam de dizer os politicos) a Almir iria para o lugar, mesmo indicado pelo ministry do PMDB (Padilha, se ele ainda estiver no cargo ate la), como ter que ser no esquema politi- co federal do president. E o convenio do Estado cor a CDP para a Estagao das Docas nao seria tocado, evitando san- grias tucanas desatadas. Nada indica que realmente algo gra- ve ou essencial esteve em jogo, exceto as irregularidades da Estacgo gabrielina- chaveriana, de um lado, e o fortalecimento do PMDB local, de outro. Ate prova em contrario, o perfil de Barzellay nao se harmoniza corn o modelo barbalhiano, ain- da que o ex-quase-futuro president da CDP pudesse vir a se integrar completa- mente aos interesses politicos do sena- dor. Parece que o engenheiro carioca- goiano e mais uma peca do jogo do cen- tro-oeste (Tocantins, Goias e Mato Gros- so) e do Maranhao do sagaz senador Jose Sarney, pois e justamente a esses inte- resses que ele ter servido no comando da Ahitar (Administraqco da Hidrovia Araguaia-Tocantins), et6rea entidade bu- rocratica fincada no Distrito Federal. O fato de Barzellay estar tentando de qualquer maneira forcar a aprovagao dos estudos e relat6rios de impact ambien- tal da hidrovia ter, cor a ecologia, ape- nas coincidencia. A afetaqao ecologica e uma barreira como outra qualquer ao que esta sendo buscado: combinar a hidrovia Araguaia-Tocantins com os modais rodo- viario e ferroviario em dire5ao ao porto da Ponta da Madeira, em Sao Luis. Ora, esse esquema esta muito long de servir aos interesses politicos do se- nador Jader Barbalho. A nao ser que in- teresses outros, ainda nao detectados, e nem um pouco relacionados ao clientelis- mo provinciano, se tenham "alevantado", a tal ponto de faze-lo dispor-se a incorrer num risco fatal. Na verdade, president, governador e senador agem como se fossem uma combinacao hibrida da hiena cor a ra- posa, uma rapiena ou uma hiosa: riem da desgraga do outro, mas estao ao seu lado na bonanza. O governador se quei- xa de que o president s6 prestigia o antagonista, mas sem verba federal as places da "Uniao pelo Para" nao pode- riam ser mais numerosas, nem teriam graga. O senador do PMDB fica atiran- do casca de banana no trajeto presiden- cial, mas esta la na comitiva de FHC para afastar a carapuqa de revanchista. Ja o president, se nao contasse cor a abulia do correligionario paraense, teria apanhado muito mais de todos quando a opiniao public procurou culpados para punir pelo assassinate dos 19 sem-terra de Eldorado de Carajas. O governador nao esta certo quando diz que todos os ministerios trabalham pelo Para, exceto o dos transportes. A rigor, a tnica grande obra que nao sai do discur- so de Almir Gabriel & o Tramoeste, "o maior plano de eletrificaqao do pais". Dois tercos do dinheiro originou-se do tesouro federal. A linha de energia s6 saiu por- que a Eletronorte quer comecar a cons- truir a hidrel6trica do Xingu (a licitaqAo sera realizada no pr6ximo ano, como dis- se o governador ao voltar de Brasilia, imaginando estar anunciando uma novi- dade). O pretexto de conectar o oeste do Pard a Tucurui foi um bom pretexto para energizar o future canteiro de obras de Belo Monte. Se interpretasse corretamente os an- seios e perspectives do seu Estado, o go- vernador teria combatido mais cedo con- tra Barzellay, nao por temer que ele vies- se a suspender o convenio da CDP cor o Estado para repetir, mais adiante, os delirios elitistas de Paulo Chaves Feran- des no Ver-o-Peso, mas porque sua posi- cao na Ahitar desfavorecia o Estado. Essa posi~ao nao e necessariamente caudata- ria de Eliseu Padilha ou do PMDB, mas de outros tipos de alianqas feitos pelo govero central. Nao & de surpreender que o president national do PMDB quei- ra comandar a definicao de obras e a aplicacgo de recursos do minist6rio con- trolado pelo seu partido em sua base elei- toral. O contrario 6 o que os politicos cha- mam de fazer filho em mulher alheia Mas e de espantar que o paroxismo da dispute o fizesse simplesmente can- celar obras e recursos, imaginando que pudesse se preservar do efeito em cas- cata desse boicote, um bumerangue corn retoro certo. Assim, alguns dos fatos que o govero define como puniq es delibe- radas ao Para por parte do senador pee- medebista sao mesmo definiqies delibe- radas de Brasilia. O conta-gotas que fun- ciona em rela5ao ao cronograma finan- ceiro das eclusas de Tucurui, por exem- plo (ver mat6ria nesta edigio), tem a marca do govero FHC, nao de JB (do senador, nao a sigla dojogo do bicho). Independentemente de suas origens ou motivaqces, a crise em torno da CDP precipitou e radicalizou o conflito entire os principals grupos politicos do Para e ameaca embaralhar mais uma vez as car- tas nas maos das suas liderancas. Quan- do nada, abreviou o cronograma da cam- panha para as eleicqes municipals do pr6- ximo ano, que ja esta nas ruas, nos out- doors, na imprensa, nos bastidores. Os maiores indicios sao de que o go- vernador, se o Planalto nao Ihe quiser fa- zer engolir mais uma dose cavalar de 6leo de ricino, continuara no PSDB e aliado de FHC. As outras alternatives exigiriam dele uma dose de valentia e persist6ncia bem mais demorada do que seus arrou- bos mete6ricos, embora seja sempre sur- preendente a capacidade dos politicos brasileiros de engolir sapos e aular a me- m6ria (justamente uma de suas mais pre- ciosas ferramentas de trabalho). A said do seu encontro com o pre- sidente do senado, Ant6nio Carlos Ma- galhaes, no dia 21 do mes passado, em Brasilia, o governador disse aos jorna- listas que tinha tratado "de coisas da par6quia: a aproximacao do PSDB e do PFL, para reconstituir a Uniao pelo Para, que permitiu a minha primeira eleigdo". Disse tal coisa sem o menor constrangi- mento aparente. Se essa for uma antevisao do que esta por vir, entao na pr6xima campa- nha eleitoral Almir Gabriel e H6lio Guei- ros deixarao as pedras no fundo do poqo e estarao de flores nas maos e elogios) 4 JOURNAL PESSOAL .2a QUINZENA DE NOVEMBRO / 1999 Snas bocas, um em relaqao ao outro, no- vamente amigos de infincia (ate que a infancia volte a se recolher ao seu tem- po devido, sem projeq6es ou regresses inc6modas). Uma definiqgo dessa natureza, po- rem, atraira para o governador tucano as chuvas e trovoadas do grupo Liberal, seu principal aliado de moment. Os Maiorana, surpreendidos pela declara- gio, nao aceitarao o reatamento corn Gueiros, que estenderd os lagos da con- fraria ate o deputado Vic Pires Franco, o inimigo de morte de plantAo da familiar (ou, se preferirem, famiglia). Gabriel estara preparado para enfrentar essa adversidade? Menos turbulento parece ser o cami- nho na direVao do PPS. Mas nesse caso, se o governor FHC nao naufragar de vez, o governador paraense teria que assu- mir, na vera, a condigio de inimigo do president, por apoiar a candidatura pre- sidencial de Ciro Gomes, e nao apenas brincar de mal-a-morte, como por en- quanto. Ja o PPB do seu senador Luiz Otavio Campos apresenta o constrangi- mento de transformar Jarbas Passarinho em seu amigo de infancia, cinco anos depois de tanto golpe baixo desferido na primeira campanha governmental. Mesmo que a marola lanqada contra o Planalto nao volte, Almir vai enfrentar pororocas na par6quia. O governador pretend pregar em seu maior adversa- rio a pecha de nocivo ao Estado, alem de reativar as acusa6es a malversacqo de dinheiro public nos dois govemos an- teriores de Jader Barbalho, tal como fo- ram apresentadas no ano passado. Ja o senador peemedebista vai ten- tar macular a imagem de home honest que o medico pneumologista criou (e sua confraria utiliza a larga, as vezes como escudo). Habilmente, porem, o senador nao vai comprometer apenas o seu par- tido nessa ofensiva. Dela ja participa o PT, diretamente ou atras de entidades da sociedade civil. A primeira estocada ja foi dada: atrav6s da cobranqa dos 450 milhoes de reais que o governor recebeu pela venda da Celpa, no ano passado. A in- tenqfo seria mostrar que a administra- cqo Almir Gabriel dilapida recursos pu- blicos. O que, de certa forma, signifi- caria dizer que ela e igual as anterio- res, das quais seus acusadores fizeram parte. O que implicaria reconhecer que se o Para muda, os que nele mandam, nao. E, nao mudando, atravancam a caminhada do Estado. As vezes com a falsa promessa (ou a propaganda en- ganosa, ja que tanto se gasta por aqui em publicidade official de que cami- nhando se encontrara o caminho. O caminho da anti-hist6ria, talvez. Tucurui: a grande Quem esteve recen- temente em Tucurui voltou impressiona- do, mas nAo muito bem informado sobre aquele que voltou a ser o maior canteiro de obras do Para. Nos papeis oficiais, ali deverdo ser inves- tidos, ate 2002, quase 1,7 bilhAo de d61a- res para duplicar a capacidade nominal de geracqo da hidrel6trica e possibilitar a transposicAo da sua enorme barragem, que hoje bloqueia a navegaqgo do rio To- cantins naquele ponto, a 350 quil6metros de Bel6m. Ao contrario da primeira etapa da obra entiree 1975 e 1984, quando a primeira turbina entrou em operaqAo), executada sem maiores questionamentos porque o pais estava sob um regime military forte e autoritario, agora a plena democracia for- mal deveria estimular um intense debate sobre Tucurui-II. Inclusive para esclare- cer graves questdes anteriores, que fo- ram sonegadas da opiniao public ou nao chegaram a ser percebidas diante do ca- rater pioneiro da obra. Surpreendentemente, porem, predo- mina o sil6ncio e o desinteresse sobre um ou outro movimento de mobilizaqdo em relaqgo a aspects parciais ou isola- dos do empreendimento, embora a agen- da em torno da retomada de Tucurui devesse ser tdo extensa quanto profun- da. Essa agenda, contudo, permanece na algibeira de uns poucos grupos, sobretu- do os encastelados na estrutura de po- der. Eles sabem o que Tucurui envolve. Mas nao parecem dispostos a socializar esse conhecimento. O debate mais aceso vem sendo tra- vado em torno do uso da area do reser- vat6rio. Um grupo, com maior apoio ins- titucional junto a Brasilia, quer transfor- mar essa area em reserve extrativista, permitindo maior intervencgo da popula- cgo local. Outro grupo, liderado pelo go- verno estadual, quer a implantacgo de uma area de proteAgo ambiental, menos aberta a atividade produtiva. Esquematicamente (e um tanto cari- caturalmente tamb6m), o primeiro grupo poderia ser definido com o do desenvol- vimento sustentavel. O outro estaria pre- tendendo utilizar o apelo ambientalista para estimular investimentos de porte no turismo ecol6gico, evitando partilhar o control da area. Ainda nao surgiu um vencedor ap6s os sucessivos confrontos que v6m sen- do travados (o pr6ximo sera em dezem- bro). Mas, qualquer que venha a ser o desfecho dessa controversial (com sua fauna political acompanhante e, em boa media, desvirtuadora), ha uma questAo preliminary nao esclarecida, nem mesmo agendada: o lago de Tucurui sofrera al- guma modificacqo para poder ser ope- rado por quase o dobro das atual casa de maquinas? No moment, 12 turbines engolem 6 milh6es de litros de agua por segundo para gerar, no pique, 4,2 milhoes de quilo- watts de energia. Cor mais 11 maqui- nas, a exigencia passara a ser de 11,5 milh6es de litros a cada segundo. S6 que a potencia fire da usina, aquela energia realmente disponivel ao long de todo o ano, que a Eletronorte garante fornecer independentemente do regime das aguas da bacia do Tocantins-Araguaia (que se espraia por 800 mil quil6metros quadra- dos, quase 10% do territ6rio brasileiro), nao sera automaticamente de 8,4 milh6es de kw, mas em torno de 4 milhoes. Ou, talvez, ate menos. Ja agora, a geracao de Tucurui-I baixa de 4,2 milh6es de kw para 2,1 milhoes de kw nos moments mais critics da vazante do rio. Esse notavel decrescimo result da necessidade de combinar a estocagem de agua no reservat6rio para o period de estiagem e, ao mesmo tempo, manter o fluxo natural do rio entire o curso de mon- tante e de jusante da barragem, evitando soltar mais ou menos agua do que o To- cantins naquele ponto verteria se suas aguas nao estivessem sujeitas aquela bar- ragem artificial. Neste exato moment a natureza esta fazendo uma advertencia aos barragei- ros. Por causa da rigorosa estiagem em curso, os principals reservat6rios hidrele- tricos estdo operando numa cota de ris- co, no limite-ouja abaixo dele-do que era recomendavel. Algumas usinas redu- ziram sua capacidade de geraqco por falta de agua suficiente. Nao se esperaria que o problema tam- bem se instalasse na bacia do Araguaia- Tocantins, mas eleja se faz sentir na area. Ainda nao numa escala grave, mas sufi- cientemente preocupante para nos fazer imaginar o quadro de uma estiagem dras- tica simultanea a uma maior demand de agua pela hidrel6trica. No inicio desta semana, o reservat6- rio de Tucurui estava cor pouco menos de 30% da sua capacidade normal de agua (enquanto o de Serra da Mesa, a outra hidreletrica do Tocantins, estava com 34%). Sera que o monitoramento da bacia JORNALPESSOAL 2a QUINZENA DENOVEMBRO/ 1999 5 obra ainda e uma incognita esta suficientemente calibrado para pre- venir uma drastica reducao do nivel de agua no reservat6rio, ao ponto de tirar de linha uma ou mais maquinas? Quais as conseqUincias da substituigao do regime natural do rio por um regime induzido pela operaqao da usina? Quais os impacts ecol6gicos do retorno da lamina d'dgua a um nivel de seca drastica? Essas perguntas remetem ao seu des- dobramento: Tucurui-II podera operar no nivel maximo atual de Tucurui I, na cota 72 (em relaCao ao nivel do mar), ou tera que buscar o maximo maximorum, na cota 74? Nesta ultima hip6tese, novas areas serao submersas? Ou, alternativa- mente: para que o reservat6rio atual seja satisfat6rio, sera precise construir uma ou mais barragens a montante do Tocantins para regularizar o fluxo do rio? Esta nio 6 uma quest academica: --;. ter grave significa- do pratico. Quando a motorizaqbo de Tu- 1 curui-I foi concluida, o lago artificial for- "' mado pela barragem (o segundo maior do pais) era de 2.430 km2. Na mem6ria t6cnica da usina, pu- blicada em 1989 (cinco anos depois da inauguraqao da hidrel6trica), a Eletronorte assinalou que cor Tucurui-II o nivel da crista do reservat6rio teria que ser eleva- do para a cota 74, aumentando a area inundada em 205 km2 (e, portanto, para 2.635 km2). O problema 6 que a dimen- sdo official do reservat6rio ja 6, hoje, de 2.850 km2 (com 85 trilhaes de litros de agua armazenados). Essa substantial diferenqa (20 trilhoes de litros de agua adicionais no lago, 420 km2 de area) 6 apenas produto de uma melhor metodologia de avaliaq~o ou de algum imprevisto? Por enquanto, ha um complete silencio official a respeito do as- sunto. Mas Phillip Fearnside, do Inpa (Ins- tituto Nacional de Pesquisa da Amaz6- nia, de Manaus) arriscou uma hip6tese: de que haveria menos agua do que o pre- visto no reservat6rio de Tucurui. "A menor quantidade armazenada no reservat6rio de Tucurui, em comparaq~o ao plano original para Tucurui-II, presu- mivelmente seria compensada pela mai- or regulaAio do fluxo do rio por mais bar- ragens a montante", escreveu ele num texto ainda a ser publicado pela Unesp (Universidade do Estado de Sao Paulo). Se isso for verdade, a anunciada duplica- Fgo da usina s6 tera sentido se uma ou mais barragens de regularizacao (nao necessariamente motorizadas) forem construidas rio acima. A diferenqa de 4% entire duas hidrel6tricas no mesmo rio mostra que alguma anomalia ha para fazer cor que a agua que flui na primei- ra nao chegue integralmente i segunda. Indispensavel seria a barrage de Santa Isabel, no Araguaia, o primeiro aflu- ente important a montante de Tucurui. Projetada para gerar energia, ela foi des- cartada em funqgo do impact ambiental que causaria, formando um lago ainda maior do que o de Tucurui. Com uma re- presa apenas para regularizaqao (e por isso mais baixa), esse efeito negative di- minuiria, mas Santa Isabel continuaria a ser uma obra cara. Tao cara que dificilmente o governor se disporia a bancar a segunda etapa de Tucurui sabendo que apenas um quarto dessa duplicaqdo (de 4 milh6es de kw) sera energia firme e que outras obras de regularizacqo terao que ser realizadas a montante. Foi por isso que nenhuma em- presa privada, nem as eletrointensivas (como CVRD, Albras, Alumar e Camar- go Correa), se interessou em assumir Tu- curui-II. Depois que o governor descas- car esse abacaxi, talvez se apresentem para saborea-lo. Essa inc6gnita exige que a avaliagco do impact ambiental da hidrovia Ara- guaia-Tocantins obedeca ao mais rigoro- so padrdo tecnico. Os desmatamentos descontrolados nas cabeceiras dos dois rios e em seu alto curso podem se relaci- onar cor a supressao das barreiras na- turais formadas como defesa em seus leitos, agravando problemasja visiveis de erosAo e sedimentagco. Por enquanto, eles nao estao sendo vistos em profundi- dade. At6 pelo contrario: possibilitaram a incorporacio das cidades do vale ao cir- cuito dos balnearios, aproveitando turisti- camente o atrativo das praias que se for- mam ou se encorpam em frente a cida- des como Maraba, Conceidao do Ara- guaia ou mesmo Tucurui. Mas depois vira a hora da contradanqa. At6 algum tempo atras pensava-se em hidrovia como pouco mais do que o curso natural do rio. Mas hoje ja se tern a consciencia de que os efeitos podem ser muito mais amplos e negatives. A hidrovia ainda 6 o mais barato e mais adequado modal de transport, mas, da mesma maneira que a hidrel6trica e a captaqao de agua potavel, sua implanta- gao requer uma correta avaliacqo do seu significado. Pode ser que interesses econ6micos, inclusive externos, estejam por tras de ONGs que, pela terceira vez, consegui- ram suspender, no final do mes passado, as audi6ncias publicas para o EIA-Rima da hidrovia. Nao basta, porem, formular a hip6tese. Antes de mais nada, 6 preci- so prova-la. Em seguida, deve-se exami- nar os arguments, contradita-los e de- monstrar que eles estao errados, fazendo o certo. As questoes suscitadas pelas ONGs em torno dos pareceres de bi6logos e antrop6logos, que teriam sido desnatura- dos ao serem sumarizados pela Ahitar (Administracao da Hidrovia Araguaia- Tocantins), podem at6 se mostrar irrele- vantes, como alega a ag6ncia federal. Mas se nao houve ma-fe ou irregularida- de na sintetizacao dos pareceres, para eliminar seus pontos critics, ainda assim o EIA-Rima e espantosamente superfi- cial e primario no exame da obra e do seu context geo-ecol6gico e social. Corn senso de responsabilidade, nao se pode autorizar a realizadao dos servigos corn base num estudo tao singelo. Mas ainda que nao houvesse tantas e tao graves indagacqes a fazer e a res- ponder, para os paraenses ha um aspect relevant a considerar. A hidrovia Ara- guaia-Tocantins pouco significara para o Estado (e menos ainda para sua angusti- ada capital) sem as eclusas de transposi- cgo da barrage de Tucurui. Os visitan- tes da obra ficam espantados com o des- compasso entire o seu ritmo e o da se- gunda etapa da hidrel6trica. Se o gover- nador Almir Gabriel nao conseguir con- vencer a opiniao p6blica de que a falta de harmonia entire as duas obras ter a ver cor o imbroglio da CDP, deve-se enca- rar o problema cor realismo iluminador. Para transport a barrage e precise construir em Tucurui a maior eclusa do mundo. Seu custo atual foi orcado em tomo de 450 milhaes de reais. Foram apli- cados, de 1981 at6 o primeiro semestre deste ano, R$ 150 milh6es. O que falta e 30% a mais do que o que esta sendo in- vestido no maior program urban de Belem, a macrodrenagem das baixadas. O governor federal ira dar a prioridade necessaria para que as eclusas estejam prontas ao mesmo tempo que a casa de maquinas de Tucurui-II, bem ao lado? Essa simultaneidade deveria ter ocor- rido ja na primeira etapa, cumprindo uma lei federal, o C6digo de Aguas. Mas a duplicaago de Tucurui esta a plena carga (ja R$ 163 milh6es foram aplicados, des- de o ano passado, al6m dos 9 bilh6es de d6lares da primeira etapa) e o Para esta 6 JOURNAL PESSOAL *2- QUINZENA DE NOVEMBRO / 1999 Macrodrenagem: busca de um final governador Almir Gabriel dificilmente conseguira cumprir um dos maiores compromissos assumidos na campanha eleitoral do ano passado: inaugurar as obras de macrodrenagem das baixadas de Be- lem at6 o final do pr6ximo ano. Embo- ra este seja o maior projeto executado nas iltimas decadas pelo poder publi- co na capital paraense, beneficiando quase metade da populadio (600 mil pessoas), que ocupa a parte (40% da area) mais problematica do perimetro urban, sua conclusao continue a ser um desafio. Atrasado pelo menos 18 meses em relagAo ao cronograma em vigor, pode demorar ainda mais tempo do que se preve. A primeira vista, ja nAo haveria mais motivo para preocupacgo. A con- trapartida financeira do Estado (de 90 milhoes de reais, dos quais R$ 52 mi- lhoes de recursos pr6prios, em um to- tal de R$ 235 milh6es, financiados prin- cipalmente pelo Banco Interamerica- no de Desenvolvimento) esta pratica- mente realizada e 90% do projeto foi executado. Mas quem visit o local de atuaqao fica com a impressao de que as tarefas por realizar excedem em muito essa margem residual apontada nos papeis. Nao ha duvida de que nenhuma in- tervenqdo public foi tdo profunda e efi- ciente nas problematicas areas alaga- veis de Bel6m quanto esta macrodre- nagem em andamento. O tempo trans- corrido na fase preparat6ria ao inicio do projeto, tendo como marco referen- cial o Promorar, de 1982, da uma ideia do tamanho do desafio. Deslanchada em 1991, cor a elaboracio do projeto (ainda ndo no detalhamento desejavel, de projeto executive) e a assinatura do contrato de financiamento cor o BID, a macrodrenagem tem cinco anos de obras para valer. Mas certamente suas) Sameacado de continuar com o Tocantins bloqueado a navegacgo (e a passage dos peixes), talvez definitivamente. Apesar dos R$ 150 milhoes investidos (R$ 135 milh6es du- rante a primeira eta- pa de Tucurui), esse dinheiro ndo sera considerado desper- dicado porque a ca- beqa da eclusa de montante esta incrustada na estrutura de concrete da hidreletrica. Ter, portanto, sua fun~go, ainda que aquela imensa por- ta permaneca indefinidamente fechada, como soberba peqa decorative. A eclusa s6 adquire um urgente sen- tido pratico se relacionada a um piano de desenvolvimento, mesmo que seja (ou principalmente que seja) apenas do vale do Tocantins-Araguaia. Na situacqo atu- al, a eclusa nao saira e a hidrovia ira ate Xambioa ou, no maximo, Maraba, des- viando-se de Belem a partir dai atraves do modal rodoviario ou ferroviario para o porto de Ponta da Madeira, em Sdo Luis do Maranhdo. Cor a eclusagem de Tucurui, o gas de Juruti (se as prospec- coes da Petrobras continuarem bem su- cedidas), do medio Amazonas ou da foz podera ser levado para a area da pro- vincia mineral de Carajas, criando base energ6tica e de reducAo industrial para um p6lo siderirgico mais valioso do que o das usinas de ferro-gusa (base des- perdicada num primeiro moment, quan- do a energia de Tucurui passou a ser exportada para o Nordeste ou foi confi- nada nas fabricas de aluminio). Sem fa- lar na atraqao de carga com fluxo ja es- tabelecido, mas em grande incremento. Sem um piano de desenvolvimento que a contextualize, a transposicgo da barrage de Tucurui significa um acres- cimo enorme mas sup6rfluo de ca- pacidade de transport de carga sem cor- respondencia com a realidade atual ou projetavel a partir de crescimento vege- tativo da demand, sem nada visivel para torna-lo exponencial. NAo tem, por isso, prioridade real para a administracao fe- deral, embora a obra figure retoricamen- te no program Avanca Brasil (e esteja sendo homeopaticamente tocada). E inacreditavel que, passado um quarto de s6culo da obra (a hidrel6trica de Tucurui) que desencadeou todas as transformaqces na regiAo, o process ainda esteja sendo substancialmente conduzido por uma empresa especi- alizada de energia el6trica, a Eletronor- te. Foi exatamente porque a Eletronor- te assumiu a conduqdo solitaria do pro- cesso, circunscrevendo-o a execucgo da hidrel6trica, que a dimensio da obra foi amesquinhada. A Sudam, que en- saiara participagAo no aproveitamento da madeira a ser submersa pelo future lago, se afastou de vez. A transposicio da barrage, que deveria integrar a obra como parte dela inseparavel, foi destacada e transferida para a (in)compet6ncia da Portobras. Por incrivel que pareqa, essa forqa- da dissociacao persiste: duas obras que deveriam ser combinadas seguem em pa- ralelo pela estrutura de dois minist6rios, como se o C6digo de Aguas (de 1934, mas em pleno vigor) nao impusesse ao construtor da barrage garantir que ela nao se torne barreira intransponivel em um rio anteriormente navegavel. Ja que a norma legal nao foi obe- decida e nao parece haver quem a faca cumprir na terra da potoca, a alterna- tiva seria dar a transposigco de Tucu- rui o sentido de uma obra vital, nao de uma mera ret6rica, usada por uns para aumentar o poder de atraago do seu palanque e por outros para favorecer empreiteira que passou de uma etapa a outra, muito mais cara do que a pri- meira, usando o mesmo contrato, ape- nas aditado. E por isso que a obra estritamente energ6tica avanca, indiferentemente a uma s6rie de implicaq6es e conseqtiUnci- as para as quais, depois, a sociedade tera que encontrar as respostas e, natural- mente, o dinheiro para atend&-las. JOURNAL PESSOAL .*2 QUINZENA DE NOVEMBRO / 1999 7 ) marcas nos antigos igap6s, se ja servi- ram para alterar drasticamente a pai- sagem, se traduzem por um indice real bem abaixo de 90%. Se, financeiramente, o que falta corresponde a algo em torno de 10% dos recursos previstos, oriundos qua- se que exclusivamente do BID, fisi- camente o "deficit" e bem maior. A constatacfo poderia representar a comprovaqao de que houve desvios de recursos ou superfaturamentos, ava- liados, na hip6tese mais critical, em R$ 20 milh6es e que teriam levado o BID a suspender a liberacio da sua parte durante alguns meses, at6 a re- soluqCo do problema. Independentemente de terem ou nao existido essas irregularidades, uma vi- sualizaqdo da macrodrenagem por in- teiro sugere que o projeto ter sido mais de puro (e conventional) saneamento basico do que propriamente de urbani- zaq o. A maior parte dos canais da ba- cia do Sao Joaquim e do Una encontra- se canalizada, razoavelmente drenada e corrigida, mas ainda falta bastante para substituir o antigo cenario (de pa- lafitas, lama e vegetagio) por uma pai- sagem verdadeiramente urbana (inde- pendentemente de sua conotacgo valo- rativa), garantindo que houve realmen- te evolucgo na incorporaqao dessas ex- tens6es do hinterland e da paisagem natural ao tecido urban. E nesse va- cuo intermediario de beneficios que se concentram as queixas da populacgo, carente de arruamento, pavimentaqdo, meio-fio, vala, micro-drenagem e alguns components a mais de infraestrutura sacramentando a melhoria de nivel. Em algum grau de media esse tra- qo de inconclusao do projeto, de obra parcial, result dos desentendimentos entire o Estado e o municipio, a partir do moment em que os seus comandos (cor o PSDB e o PT) entraram em conflito e a comunicacao entire ambos, em colapso. Depois de ter excluido a prefeitura, na presuncao de poder agir sozinho, o governor tentou atirar-lhe a batata quente, repassando-lhe uma obra capenga como se ja estivesse comple- ta, para os serviqos complementares. Do seu lado, a prefeitura recusou-se a fazer a sua parte enquanto a do gover- no nao estivesse efetivamente finaliza- da, em condigqes de ser aceita. Essa guerrilha manteve como uma chaga aberta o verdadeiro cronograma fisico- financeiro da obra. Essa irracionalidade, entretanto, te- ria sido superada, como se podia veri- ficar da leitura de duas edic6es suces- sivas de O Liberal, porta-voz de am- bas as instdncias oficiais quando elas pagam o preco cobrado pelo desem- penho da missao. No journal do dia 13 de outubro o secretario municipal de saneamento, Eduardo Passetto, fez pesadas critics ao desempenho esta- dual na macrodrenagem. Identificou um estranho movimento de elevacgo e baixa de preqos dos serviqos executa- dos pelos empreiteiros, conforme eram apresentados para conferencia e pa- gamento ou transferidos para uma se- gunda etapa, sem previsao definida de comeco. Estranhou o "sumiqo" de nada menos do que 135 quil6metros de canaletas e sarjetas, alem de outros reajustes de preqos. Na ediq~o do dia seguinte, o mesmo Passetto aparecia em entrevista con- junta com novo o home forte do go- verno na macrodrenagem, o secretario de desenvolvimento urban, Paulo El- cidio Nogueira, e o gerente do projeto, Eduardo Lourenqo, dizendo que todas aquelas critics resultavam mais de in- compreensao da imprensa e falta de comunicacao entire as parties do que de uma situacqo real. Os pontos referidos na v6spera perderam toda a validade que aparentavam ter apenas em fun- qao de os dois homes ptiblicos terem sentado em uma mesa de dialogo e acertado suas diferenqas. Tudo estaria bem se os tais pontos de incompreensao nao tocassem em problems reais, visiveis independente- mente de serem bem ou mal explica- dos, correta ou incorretamente interpre- tados. Mas ja que os dois niveis da ad- ministraqdo p6blica teriam se acertado na conversaaio direta, bem que tercei- ros interessados na maior obra urbana de Belem poderiam leva-los para um debate p6blico, cor a participacao de outros interlocutores credenciados. Tal- vez fosse uma boa oportunidade para fazer uma ampla e rigorosa revisao da macrodrenagem antes que ela seja abandonada no papel como, em varios pontos do sitio urban, seus services foram deixados num estado de aparen- te abandon. Ha varios outros temas para preo- cupagao. Um deles & a reduqao da ca- pacidade de investimento do Estado nos pr6ximos anos, principalmente quando j~ nao contara corn um ingres- so de capital liquid tao excepcional quantos os 450 milh6es de reais da pri- vatizacio da Celpa. Em sentido inver- samente contrario, a acumulaqao deju- ros do empr&stimo do BID, aumentan- do a sangria financeira do erario. Um grande projeto que comecou tao vacilante nao pode terminar (sem ter- minar de fato) mais vacilante ainda. Se ele nao merece destiny tao ingl6rio, a populac;o beneficiada 6 ainda menos merecedora de tal desfecho. De indio Poucos cargos federais tem sido mais bem preenchidos nos ultimos tempos (com intervalos pavorosos, e certo) do que a presidencia da Funai, a FundaCdo Nacional do Indio. Por la jd passaram sertanistas de primeira linha, como Apoena Meireles e Sidney Possuelo, e ativistas dos direitos dos indios, como Marcio Santilli. Mas a permanencia e desproporcionalmente inversa ao curriculo de alguns dos ocupantes do cargo. Mcircio Lacerda, depois de oito meses, cedeu o lugar a Carlos Frederico Maris, que tomou posse nesta semana. 0 paranaense Mares e um cidaddo decent. Tem uma longa vida professional dedicada ao direito, cor especial atencdo ao direito dos indios. A tiltima vez que nos encontramos foi em 1990, em Paris, na sessdo do Tribunal Permanente dos Povos dedicada a Amaz6nia. Depois que fiz minha intervengCo, Mares, agoniado, veio me fazer um pedido. "Nao use essa expressdo, amaz6nida. Somos de um mesmo pais, todos n6s brasileiros. 0 que e esse neg6cio de amaz6nida?". Ndo partilhei, e claro, dessa visdo, mas respeitei o ponto de vista desse brasileiro do Parand, que ndo v, a necessidade nem a motivaao para considerar-se distinto dos demais brasileiros. Ndo sei se essa forma de encarar o pais vai ajudd-lo a bem desempenhar a funqdo e a permanecer no cargo por tempo condizente com sua biografia. Mas, se ndo der certo, a Mares deverd restar o console de ndo ter contribuido para o insucesso. Daqui, espero que de certo. Ao menos para que os indios brasileiros ndo se sintam importantes a maneira (nada conventional) de Alice no pais das maravilhas. Ideologia O deputado federal Giovanni Queiroz, o principal lider do PDT no Para, foi a Granja do Icui, no final da noite do dia 28 de setembro, para uma conversa reservada cor o governador Almir Gabriel. Levou consigo a vice-prefeita Ana Julia Carepa, do PT. Ana Jilia havia recebido corn simpatia o convite de Giovanni para trocar o partido de Lula pelo de Leonel Brizola. Mas estabeleceu uma condicfo: a garantia de ser a candidate da coligagao governista a prefeitura de Belem. Sem esse poder, Giovanni pediu uma audiencia particular a Almir para tratar do assunto. 0 governador lamentou nao poder dar essa garantia pr6via a Ana Julia. Poderia ate trabalhar pela candidatura dela, mas ela teria que disputar a indicacqo junto aos partidos que integraram a vitoriosa "Uniao pelo Para da eleicao do ano passado, do lado contrario ao do PT. A vice-prefeita decidiu entao permanecer nas fileiras petistas. Para acompanhar razoa- velmente os fatos e discer- nir o tratamento da impren- sa ao poder no Pard, uma pessoa precisa ler os tr6sjor- nais diarios de Belem. Sem isso, esta ameagada de se tornar vitima de graves dis- torq es. Nao porque o ma- terial publicado pelos tresjor- nais se complete. Na maio- ria das vezes, principalmen- te quando tocam em ques- toes mais sensiveis da estru- tura de poder, suas materias se excluem. Ha, nelas, um component subjetivo de va- lor ou de vontade atrapalhan- do a cobertura dos aconteci- mentos. Em funcao do conflito cada vez mais aberto entire o governador Almir Gabriel e o senador Jader Barbalho, o Didrio do Pard vai aos poucos reincorporando o pa- pel de 6rgao politico, numa previa de como se compor- tara quando vierem as cam- panhas eleitorais. Todo o vi- sivel e elogiavel esforqo de profissionaliza~go, que garantiria aojomal um lugar pr6prio no mercado, inde- pendentemente dos interes- ses politicos do atual presi- dente national do PMDB, comega a ser colocado de lado. Sera uma perda para todos se essa reatracacgo (o que os estudantes costumam chamar de reaparelhamento) se aprofundar. Ja A Provincia do Pard s6 nio se torou o diario oficioso por causa da sua pequena ex- pressAo como instrument de opiniao public. Mas o ex-dia- rio associado ter feito o que pode, com seus precarios mei- os, para projetar uma imagem favoravel do goverador tuca- no, comprometendo assim a pretensAo a independ&ncia political, que sempre foi sua meta, ilusdo ou fantasia. Pa- rece ter falado mais alto a ne- cessidade de sobreviver, a qualquer prego (o que nao e mera metafora). 0 Liberal, ate pouco tem- po atras o mais governista dos tres diarios, experiment uma mudanqa de rumos que talvez s6 os observadores mais aten- tos (ou interessados no jogo politico) perceberam. As ma- terias foram perdendo o brilho dos adjetivos a favor e adqui- rindo uma roupagem suposta- mente neutra. Os atos do go- verador foram despejados do seu lugar cativo na primeira pagina, onde comegaram a escassear as fotos de Almir Gabriel, antes freqiientes, sis- tematicas. Nas colunas, algu- mas notas ja destilam veneno -ou, quando nao isso, ambi- giiidade, sinete da casa. Indicador de muda no co- mando dojomal dos funds do bosque ou algum desejo ain- da nao atendido? Um obser- vador bem posicionado arris- ca um palpite. Na sua nova onda de candidate a candida- to a politico, Romulo Maiora- na Junior, o principal executi- vo do grupo Liberal, quer es- tar sempre no olho do fura- cdo. O governador nao deve tomar decisOes relevantes sem consulta-lo, ou pelo menos avi- sa-lo antecipadamente. Varios recados nesse sentido ja foram passados a Almir Gabriel. O goverador faz de conta que nro os re- cebeu. Rominho ter batido seu telefone ao saber, por ter- ceiros, do que gostaria de ser informado diretamente pelo govemador, dada a importan- cia que tem (ou se atribui). Como a busca da aproxima- qCo cor o PFL de Hl6io Guei- ros & Vic Pires Franco, con- trariedade que nem os sais ajudam a tomar suportavel. Seria s6 isso? Duvide-se. E, na divida, e melhor ler corn mais atencqo os tresjor- nais, cada vez mais cheios de recados, bales de ensaio e - caspite! tutti qui. De fa- tos, mesmo, nem tanto. Sedug.o Interesse puiblico 0 convenio para a implantaCdo do projeto Salobo em Marabd foi, a um mis da privatizacdo, o mico que a Companhia Vale do Rio Doce estatal deixou para o governador Almir Gabriel pagar. 0 projeto da sidertirgica a gas em Marabd, apresentado sem todas as poderosas condicionantes que o envolvem, e o mico que a CVRD privada estd colocando ao alcance da cobiCa de sua excelencia. Pagard pela segunda vez para ver? Nao consegui ainda, pela leitura do Diario Ofi- cial, tirar uma duvida: quan- to o Estado ja pagou a Leme Engenharia pelo tra- balho de consultoria pres- tado ao program de recu- peragao das baixadas de Belem? A Leme substituiu em 1992 a Rede Engenha- ria, consultora contratada na administraqco Jader Barbalho. Na revisao do program herdado, o gover- no Almir Gabriel viu super- faturamento de empreitei- ras e inaceitavel poder da Rede. Pagou-lhe um milhao para sair sem problems, cedendo o lugar a Leme. Nestes sete anos, quanto essa empresa ja faturou? Journal Pessoal Editor: LOcio Flavio Pinto Fones: (091) 223-1929 (lone-fax) e 241-7626 (lax) Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040 Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br Edig9o de Arte: Luizantoniodefanapinto/230-1304 Sera algo ao redor de 11 milh6es de reais ou pou- co mais? Sera que o cres- cimento exagerado do va- lor final, em trAs aditamen- tos cor reajuste de valor, esta sendo feito em bases legais? Nao seria neces- sario efetuar um novo contrato, ou os aumentos atraves de terms aditivos estao conforme a lei? Se quiser, o president da Cosanpa (Companhia de Saneamento do Par"), Ra- miro Bentes, bem que po- dia esclarecer a opiniio public sobre essa impor- tante e as vezes descu- rada face da macrodre- nagem de Belem. Atengao |
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