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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00171

Full Text


Cabanagen
Jomal Pessoal (PAG. 6)
L C I 0 F L A V IO P I .., 0,-- Os
ANO XIII NO 222 1l QUINZENA DE NOVEMBRO D 1999 -I',06o records
i D e Veja

POLITICAL P-" (pG.
o NOV 18 1999

A CDP, o elefa l e rato


A meteorologia political previa raios e troves no horizonte es entire o Paldcio do
Planalto, em Brasilia, e o Palacio dos Despachos, em Belem, apesar de seus dois inquilinos
serem tucanos. Mas o ceu carregado de um dia foi substituido por aquele tipo de tempo
instdvel que pode acabar em sol radiante on em tempestade. De qualquer maneira, o Pard
jd tern a sua batalba de Itarare. Ela atende pelo codinome de CDP.


dispute travada ha tres sema-
nas entire o govemador Almir
Gabriel e o senador Jader Bar-
balho pela presidencia da
Z Companhia das Docas do
Para, mais do que uma batalha de Itara-
re (aquela que se tornou famosa porque
nunca aconteceu), parece mais uma
guerra entire exercitos Brancaleones,
conforme a satira criada no cinema pelo
director italiano Mario Monicelli. Seria um
combat ficticio por butins de mentira,
no qual as palavras mais escondem do
que revela.n, os contendores se golpe-
ando baixo enquanto sustentam na face
a mais inocente das aparencias.
A CDP, ate entao considerada uma
empresa do quarto escalao do poder, que
sobrava como residue da partilha dos car-
gos federais que realmente contam (Su-
dam, Basa, DNER), foi colocada pelo go-
vemador no apice da administraqao publi-
ca. Ela se torou praticamente uma agen-
cia de desenvolvimento, pela qual passari-
am quase todos os "projetos estruturan-
tes" do Para. Sem ela, iria por agua abai-
xo o sonho de "mudar a base produtiva"
do Estado, "verticalizando a producgo",
"agregando valor" e "incrementando a
geraqao de renda e emprego", entire ou-
tras p&rolas dojargao tecnoburocratico da
gestao tucana, tudo muito bonito e claro
no papel, problematico na realidade.
As c6micas escaramucas levaram, em
20 dias, a marcagao, desmarcaago e re-
marcaqao, em quatro moments sucessi-
vos, da assembleia extraordinaria do con-
selho de administraqgo da CDP, na qual o
atual president, Carlos Acatauasst Nu-
nes, deveria ser substituido pelo novo titu-
lar do cargo, Rog6rio Almado Barzellay.
Tudo o que foi atribuido a essa queda-de-


braqo se reduz ao que realmente esta em
jogo, ao menos de imediato e como o ver-
dadeiro detonador do litigio: as obras da
Estaq~o das Docas (ver, a prop6sito, o
Jornal Pessoal 220).
"O governador Almir Gabriel defen-
de a pernnanencia do engenheiro Carlos
Acatauasst na CDP, porque, segundo
seus amigos, se a empresa cair nas m.os
do PMDB a Estagao das Docas pode ser
iniviabilizada", registrou no dia 18 o Re-
porter 70, a principal coluna de O Libe-
ral, onde recados, indiretas e ameacas
do governor costumam ser sopradas ao
public em geral e a destinatarios certos
em particular.
Esta em vigor um contrato de direito
real de uso, assinado em 1997 entire a CDP
e o governor do Estado, concedendo a este
pleno direito sobre quatro armazens do
porto de Belem, em obras para serem
transformados num ponto commercial e tu-
ristico, a Estacgo das Docas. O cronogra-


ma fisico-financeiro indica que de 70 a
80% das obras ja foram executadas. E
praticamente impossivel reverter essa si-
tuaqao, impedindo que a administracqo
estadual conclua o projeto, mesmo porque
ela esta disposta a inaugura-lo, mesmo ina-
cabado, a 31 de dezembro, criando assim
um fato consumado. Nao se trata, portan-
to, de inviabilizag9o, mas do desgaste que
o levantamento dos services podera acar-
retar ao govemo do PSDB.
Sao muitas e graves as irregularidades
cometidas na conducgo de um empreen-
dimento que, ao ser iniciado, estava orga-
do em 6,2 milhoes de reais, masja dobrou
de custo e pode, ao final, sair por algo em
torno de R$ 20 milhoes, conforme denun-
ciou este journal um mrs atras (sem ser
contestado). Alem dos erros ja materiali-
zados e em andamento, quando a Estacio
das Docas for colocada em atividade 6
bem possivel que a opiniao piblica descu-
bra que o governor entronizou um elefante )


F tLa LD 3 1mtl LLR0) L16TIH LjXi [l 6-

*S(0-8







2 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE NOVEMBRO / 1999


Sbranco na orla belenense.
E que, as vesperas da inauguraqao da
obra, s6 agora o Estado, apressadamente,
tenta definir regras para o funcionamento
e a comercializaqao daquele centro com
mais de 150 mil metros quadrados. O cus-
to operacional deverd ser pesado. Inclui a
refrigeraqao do interior de enormes estru-
turas de ago e vidro (s6 os aparelhos de ar
condicionado custaram dois milhoes de
reais) e a seguranca, nao so para garantir
os freqtentadores, como para prevenir a
agco dos ratos d'agua, que serao atraidos
por aquele novo ponto.
Uma ideia de valor pode ser obtida pelo
custo para o Estado do Parque da Resi-
dencia, uma estrutura varias vezes me-
nor, que combine a sede da Secretaria de
Cultura cor pontos comerciais (escolhi-
dos sem concorrencia publica. Segundo
uma fonte oficiosa, o custeio exige em
torno de R$ 50 mil por mes, enquanto a
receita e minima. Na Estacgo das Docas
esse "deficit" sera varias vezes maior,
agravado pelo fato de que o Estado ainda
tera que pagar a CDP pela cessao do uso
da area (por 50 anos, renovavel). Segun-
do os terms que resultaram no contrato
de 1997, esse valor seria equivalent a
1% da avaliaqAo do im6vel, ou 80 mil re-
ais mensais (ja que os quatro galp6es fo-
ram avaliados pela Caixa Econ6mica Fe-
deral em R$ 8 milhoes).
Assustado com o crescimento do rom-
bo previsivel, o govemo tratou de provi-
denciar a minute de um segundo termo
aditivo ao contrato, tentando mudar as re-
gras dojogo com a partida em andamen-
to. A remuneraqAo seria calculada de acor-
do com a participacgo de cada parte no
projeto (o govemo com as obras de refor-
ma, a CDP com a avaliacqo do im6vel),
mas o Estado, que ira gerir exclusivamen-
te o local, s6 se obrigara a repassar a quan-
tia devida a CDP "a partir da efetiva arre-
cadaqAo de recursos da exploracAo do
complexo. Havendo prejuizo, o credito da
companhia ficara em suspense, mas ela
tera que pagar "todos os impostos que in-
cidam ou venham a incidir sobre o im6vel,
especialmente o IPTU".
Mesmo sustentado no cargo pelo go-
vernador, Acatauss6 Nunes nao p6de con-
cordar com a formula engendrada nos sub-
terrAneos da administracqo estadual. Res-
pondendo a proposta do aditivo, foi claro:
"A CDP deseja receber mensalmente um
valor fixo reajustado periodicamente na
forma do que for estabelecido em lei". O
valor devera ser pago "sob a forma juridi-
ca do arrendamento", em "documentoju-
ridico adequado".
Ele tocou ainda em outro ponto nervo-
so da questao ao observer que "em virtu-
de do expressive numero de interessados",
a CDP entendia que as areas destinadas
as atividades comerciais "deverdo ser ob-


jeto de licitaqao public, dando oportuni-
dade a que todos possam se habilitar ao
process seletivo". Justamente para con-
tomar essa imposigao legal, entregando as
areas conforme seu livre arbitrio, o gover-
no ja concebeu a criaqgo de uma organi-
zacqo social, controlada por pessoas da
confianca do secretario de cultural, Paulo
Chaves Fernandes, autor do projeto e o
verdadeiro condutor da execuago dos ser-
vioes, embora formalmente eles estejam
subordinados a Secretaria de Obras.
Numa reuniao realizada em seguida,
Acatauassu foi convencido a aceitar, em
troca de um valor fixo de arrendamento,
que ele fosse reduzido de 80 mil para 20
mil reais por m&s. Essa proposta ainda
seria submetida ao CAP (Conselho da
Autoridade Portuaria).
Apresentada ao public cor uma cam-
panha publicitaria e sem o risco de vir a
ser revirada pelas entranhas, a Estacgo das
Docas e um dos principals instruments
com que conta o govemador Almir Gabri-
el para dar densidade eleitoral a um candi-
dato do PSDB (Zenaldo Coutinho, Fer-
nando Coutinho Jorge, Nilson Pinto ou ate
um estranho no ninho, o ex-prefeito Sahid
Xerfan, o preferido do grupo Liberal, ja que
o vice-govemador Hildegardo Nunes nao
mordeu a isca de precipitar, em Belem, os
pianos que vem montando para todo o Es-
tado), no moment destituido de capaci-
dade real de vit6ria diante do favorite, o
prefeito Edmilson Rodrigues, e seus mais
pr6ximos concorrentes, o deputado fede-
ral Vic Pires Franco ou o ex-prefeito He-
lio Gueiros, pelo PFL.
Colocando uma pessoa de confian9a
na CDP, Jader Barbalho nao apenas po-
deria documentary as irregularidades prati-
cadas no projeto da Estacio das Docas,
como denunciar o contrato para a cessao
do uso do porto. Objetivamente, o Estado
encontra-se inadimplente, j que nao cons-
truiu a estaqao de passageiros da navega-
5ao fluvial, conforme era sua obrigaqCo.
A arma eleitoral, nesse caso, se voltaria
contra os tucanos, prejudicando um candi-
dato do PSDB e alcancando ate mesmo a
administration Almir Gabriel.
E claro que a CDP nao e apenas Esta-
cao das Docas. Ela administra os princi-
pais portos do Estado, mais o de Macapa.
Esta atualmente sob a sua responsabilida-
de a ampliaq o do porto de Santarem e o
piano director para a orla da regido metro-
politana de Belem, incluindo a transferen-
cia da movimenta~go de cargas para o ter-
minal (a ser ampliado) de Vila do Conde e,
ao menos em parte, a definicAo sobre o
desativado porto da Sotave. Mas liga-la as
hidrovias do Araguaia-Tocantins, do Ta-
paj6s ou do Capim, ao projeto da alga via-
ria, ao elevado do entroncamento e ao as-
faltamento da Santarem-Cuiaba e mais do
que exagero: e desprop6sito. Esses itens


fazem parte de um contencioso mais geral
entire o governor do Estado e o Ministerio
dos Transportes, feudo do PMDB no mi-
nisterio de Fernando Henrique Cardoso.
Mas nem todos os problems se restrin-
gem a escaramuca political e nem todas as
alegaqOes sao verdadeiras.
Nao e verdade, por exemplo, que o
governador Almir Gabriel tenha se manti-
do sempre distant dos cargos federais,
deixando que o president da Republica,
seu correligionario tucano, os utilizasse para
seus arranjos politicos de amplitude nacio-
nal com o president do PMDB. Mal to-
mou posse no govemo, Almir tentou fazer
o seu tambem correligionario e amigo Fer-
nando Flexa Ribeiro, candidate derrotado
do PSDB ao senado, assumir a superin-
tendencia da Sudam. Foi melancolicamente
derrotado, mesmo depois de Flexa Ribeiro
dar entrevista como superintendent. Em
represalia, o governador boicotou os dois
superintendents que se sucederam no
cargo e nao compareceu as reunites do
Conselho Deliberativo da Sudam.
Esse tipo de comportamento entomou
o caldo das relaqoes cor o Planalto quan-
do do epis6dio sangrento de Eldorado de
Carajas. Tanto o goverador quanto o pre-
sidente sentiram-se injustiqados e traidos
um pelo outro, mas cada um guardou suas
magoas para os interlocutores mais pr6xi-
mos, esfriando uma relacAo que nunca pri-
mou exatamente pela confianqa mutua.
Essa carga de amargura transbordou quan-
do o governador, em Brasilia para uma
reuniao conjunta com o president, soube
da demissao ja em andamento de Aca-
tauassu. Sem assumir a autoria das re-
presalias, colocadas na boca do seu se-
nador, Luiz Otavio Campos, e nas colu-
nas de O Liberal, desferiu ameacas con-
tra FHC, culminando corn uma autentica
chantagem political: a possibilidade de rom-
per cor o governor federal tucano e se
transferir para o PFL, hip6tese pra la de
improvavel em fungAo de na porta da
entrada regional do partido estar acanto-
nado o grupo de HWlio Gueiros.
A desproporqio entire a reaqao e a sua
causa (um ate entAo, ao menos na pers-
pectiva de Brasilia, cargo de quarto esca-
lAo) deram espaco para o senador Jader
Barbalho explorer as idas e vindas do go-
vernador e a propria tibieza do governor
federal. Ao contrario do que afirmou o
ministry dos transportes, o peemedebista
Eliseu Padilha, a sucessao na CDP nunca
foi uma questao meramente tecnica. Se
fosse assim, bem que o ministry poderia
aguardar o final do mandate de Acatauas-
su, a 31 de dezembro, ou, precisando do
cargo por alguma insondavel urgencia,
determinar a substituigqo sem ter que con-
vocar sucessivamente os conselheiros da
companhia para reunites suspensas a ulti-
ma hora, fazendo o president do conse-







JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE NOVEMBRO /1999 3


Iho, Noboro Ofugi, escravizar-se a uma ver-
dadeira ponte area Brasilia-Belem, corn
seis viagens em 20 dias para nada.
E evidence que, se nao tivesse sido
contido pelo Palacio do Planalto (contido,
mas nao definitivamente impedido), Pa-
dilha teria trocado Acatauassu por Ro-
gerio Barzellay, um burocrata muito mais
pr6ximo da estrutura peemedebista de
Goias e Mato Grosso do que do Pard. A
troca dificilmente poderia ser considera-
da proveitosa, nem tanto pela presenqa
de Jader Barbalho nas engrenagens de
bastidores, mas pela pr6pria biografia do
tecnico goiano.
Aquela que seria sua principal tarefa,
conduzir a execucgo da hidrovia Tocan-
tins-Araguaia, e uma sucess.o de erros e
imprevidencias, inclusive pela estranha
decision que tomou de viajar para a Euro-
pa e os Estados Unidos enquanto se reali-
zava audiencia ptiblica sobre a obra. Mes-
mo que fosse fanatico tucano e nao pee-
mdebista de ocasido, Barzellay nio seria
uma conquista para o Para simplesmente
por nao estar comprometido corn o Esta-
do, seja onde se encontra, na direcAo da
Ahitar (AdministragAo da Hidrovia Tocan-
tins-Araguaia), seja se viesse para a CDP.
Neste aspect, alias, essa limitaCAo pode
ate nao ser falha pessoal, mas um traco
(anti)amaz6nico da administraqgo FHC,
uma dimensao maior que Almir Gabriel,
se dela tern consciencia, prefer omitir..
O goverador, querendo preservar sua
grande anna political municipal, criou um
falso cavalo de batalha. Alguns dos seus
"projetos estruturantes" s6 tem consegui-
do realizar-se corn dinheiro federal. Quan-
do essa toreira financeira se fecha, ele
s6 ter antecipado recursos pr6prios do
Estado para obras polemicas, sujeitas a
controversial, como os R$ 22 milhOes que
adiantou para o asfaltamento da BR-222
(Maraba-Belem/Brasilia), de interesse da
Mecominas (frequentemente associada a
um de seus filhos, Marcelo), e que o mi-
nistro Eliseu Padilha, de caso maliciosa-
mente pensado, nio ressarciu ate hoje.
Certamente o ministry dos transpor-
tes age mais politicamente do que a im-
portancia do seu cargo recomendaria.
Costuma reter verbas que podem favo-
recer adversarios e aplica-las apenas
quando aliados podem fatura-las. Mas
essa d, infelizmente, quase a regra geral
da gestao da coisa ptiblica no Brasil, nos
tres niveis federativos, seja com outro
peemedebista (na Integraclo Nacional),
seja corn um tucano (nas Comunicac6es)
ou um pefelista (nas Minas e Energia).
Quando o governador Almir Gabriel ame-
acar atirar raios e troves em torno da
CDP, fantasiando-a de dragao, e depois
atira um estalinho, fica-se corn aquela ve-
lha sensacAo de que o elefante pariu um
rato. Um rato que nio ruge: foge.


Um novo capitulo


na guerra do aluminio


e a Aluvale (Vale do Rio Doce Aluminio)
veneer najustiga e na Corte de Arbitragem
da .amara de Comercio Intemacional o liti-
gio que esta travando corn quatro das suas
parceiras na Mineracgo Rio do Norte, a
terceira maior produtora de bauxita do mun-
do, o setor de aluminio devera passar por uma
reformulaoo no Para. 0 conflito (ver Jornal Pes-
soal 221) e diretamente provocado pela transfe-
rencia de uma parcela menor das aq6es preferen-
ciais da Aluvale para a Norsk Hydro, uma das
menores cotistas da MRN. Mas o tom belicoso
dos litigantes e motivado por repercuss6es mais
profundas, que podem afetar interesses estrate-
gicos sobre o mais important polo de bauxita,
alumina e aluminio da America do Sul, de rele-
vancia intemacional.
A Aluvale decidiu vender a multinational
norueguesa apenas 8% de suas adqes preferen-
ciais (que dio prioridade no recebimento de divi-
dendos, mas nao o direito de voto), representan-
do 40% das aq6es da Rio do Norte. Corn essas
aqoes, a Norsk Hydro elevara sua participaqgo
na MRN de 5% para 7% do capital (soma das
aoes ordinarias e preferenciais), ainda abaixo dos
gigantes do cartel do aluminio com os quais con-
corre (a Alcoa corn 12,2%, incluidas as aqoes de
sua subsidiaria, a Abalco; a Alcan corn 12% e a
Billitoncomn 10%).
Nao haveria motive para conflitos se a ope-
racAo se limitasse a uma transferencia acionaria
desse porte numa so empresa. O problema come-
qa quando o preqo (53,4 milhoes de reais) que a
Norsk concordou em pagar a Aluvale por 12 bi-
lh6es de acqes preferenciais (equivalentes a 2%
do capital total da Rio do Norte) "corresponde a
uma avaliaqao da companhia que e algumas ve-
zes o valor a que chegou a pr6pria MRN", se-
gundo oficio de contestaqao da Billiton, que con-
clui: "nos e evidence que a Norsk Hydro poderia
obter a mesma quantidade de aoqes preferenci-
ais pagando preco substancialmente menor".
Por isso, quando infonnada pela Aluvale da
transagao, recebendo prazo de 60 dias para exer-
cer o direito de preferencia que o acordo de acio-
nistas da MRN Ihe faculta, a Billiton, a Alcan e a
Alcoa exigiram que a subsidiaria da Companhia
Vale do Rio Doce para o setor de aluminio Ihes
prestasse mais informaoqes, alem das que acom-
panharam o oficio de comunicagao.
A Billion observou que "estudos e avalia-
cqes recentes, levados a efeito no ambito da MRN,
zoncluiram por valores muito inferiores" aos en-
,olvidos na operaqgo Aluvale-Norsk. Essa cons-
tataqao a fez questioner se estavam em causa
apenas as aq6es preferenciais da MRN ofereci-
das ou se o preqo "reflete o valor econ6mico de
outras operaq6es" acordadas entire a subsidiaria
da CVRD e a empresa norueguesa, "que culmi-
nara corn a participacao da Hydro na expansdo
da Alunorte" (podendo chegar a dobrar a produ-
qgo atual de alumina, de 1,5 milhao de toneladas
anuais). Como a Alcan e a Alcoa, a Billiton nao
queria apenas mais informacqes sobre a transa-
qio corn as aq6es da MRN: cobrava dados sobre
o memorando de entendimentos (muito mais
amplo) Aluvale-Norsk.


Como a Aluvale responded que tudo o que o
acordo de acionistas Ihe impunha em relacao aos
parceiros da MRN fora cumprido, as tres multina-
cionais que comandam o mercado de aluminio
recorreram ajustica para sustar a consumaqoo da
operaoqo de transferencia, antes que se esgotas-
se o prazo de 60 dias, e submeteram o litigio a
contencioso administrative intemacional.
Najustiga, a revised da decision de primei-
ra instancia, dajuiza da comarca de Oriximina,
.ivoravel as tres multinacionais, parece que
vai demorar: a desembargadora Isabel Leao,
para quem o process foi distribuido em uma
das camaras civeis do Tribunal de Justica do
Estado, declarou-se suspeita, exigindo nova
distribuiqio. Administrativamente, o litigio
devera ser julgado no Rio de Janeiro atd o
final do ano.
Independentemente dessas duas defini-
cqes, porem, o clima de entendimento entire os
principals s6cios da MRN foi rompido, talvez
definitivamente. Nos bastidores, nenhum dos
contendores deixa duvida de que a reaq~o de
Alcoa, Alcan e Billiton nio e propriamente con-
tra a elevaqdo da participaq o da Norsk no ca-
pital da Rio do Norte, mas aos pianos da multi-
nacional norueguesa (a quarta do mundo) de
estabelecer no Para um process integrado para
o suprimento de materia-prima e insumo basi-
co nas etapas de produqgo de alumina e alumi-
nio. Se seus pianos derem certo, ela se torara
auto-suficiente, totalmente livre de terceiros (o
que inclui seus grandes adversarios do cartel).
O volume envolvido nessas etapas e expres-
sivo. Se o memorando de entendimentos cor a
Aluvale for executado na integra, as duas em-
presas sacarao seis milhoes de toneladas de
bauxita da MRN (o que significaria 60% da pro-
duqio atual, de 10 milh6es de toneladas, sendo
provavel que force sua expansio para 14 mi-
lh6es de toneladas). A reserve de alumina para
a Norsk podera evoluir de 800 mil toneladas para
1,5 milhao, o equivalent a toda a atual produ-
qgo da Alunorte. Os direitos sobre o aluminio,
que comeqario em 50 mil toneladas, poderio
triplicar cor novos investimentos (de ate US$
1,6 bilhao) na Albras. E um conjunto produtivo
respeitavel, podendo provocar deslocamento de
powder no mercado capaz de irritar o cartel. Em 10
anos, o neg6cio pode envolver de 2 bilh6es a
2,5 bilhoes de d61ares.
Alem de tudo isso, que ja seria o bastante
para fazer as sedes das multinacionais do alu-
minio se moverem, ha ainda uma incognita. O
entendimento global Aluvale/Norsk indicaria
que o grupo CVRD desistiu do projeto inicial
de sair do setor de aluminio, que Ihe exigiria
muito capital, exatamente porque os noruegue-
ses se comprometeram a entrar no neg6cio
aportando muito dinheiro, ou, ao contrario,
esta marcando uma nova posiqgo para, em se-
guida, entregA-la a Norsk, que desferia um gol-
pe no plexo dos concorrentes?
O que comeqou como escaramuqa de gol-
pes sutis pode se transformar numa guerra
aberta, na qual os s6cios de hoje estario em
campos diametralmente opostos. 0








4 JORNALPESSOAL 1 QUINZENADENOVEMBRO /1999


Cartas

Por tras de

tudo,o PT

Prezado Jornalista.
E corn muito interesse que leio
seu jomal, sempre na expectativa de
encontrar uma "boa nova" do Norte.
Mas, confesso que seujomal me causa
um certo estranhamento, uma quase
perplexidade. E um journal de uma
unica visao, de um 6nico dono da voz,
de um unico ponto de vista, um jor-
nal, portanto PESSOAL. Respeita-
das as diferenqas que neste caso fa-
zem a diferenca, lembro Aporelly de
quem a patota pasquiniana herdou
um certo humor. Porem o que me
permit a comparacqo e o seu amar-
gor, seu ressentimento, sua exclusao.
Lendo Bellem no seujomal leio a des-
truicAo, a catastrofe. Olhando, viven-
do Belmrn por ocasiao do Cirio/99
descubro uma cidade que nao via lim-
pa ha muito tempo, urna cidade que
comeca a voltar-se para o rio, sua tra-
dic o mais antiga, ura cidade que co-
nmea a ser amada pelos que nela vi-
vem cotidianamente; uma cidade que
comeca a ser reeducada que aprende
que o que ela admira fora, pode tam-
bem ser parte de seu dia a dia. Bclem
comela sair da poesia que a enclau-
surou para tomar-se poema. As ja-
nelas para o rio, contrariando os prog-
n6sticos, e um lugar vitorioso onde
todos os trabalhadores sem restriqlo
ou valoracio de sua atividade freqiien-
tam democraticamente.
A prop6sito, prezado jornalista,
mesmo contra sua vontade Lula e o
seu "quartel general" nao tramam
contra o povo mas a favor de uma
nova e revigorada Ctica onde a plura-
lidade, a diferenca nao mais apostam
em uma modemidade carrancuda, res-
sentida e fora do lugar.
ANA LOCIA BANDEIRA GOMES

Minha resposta
Infelizmente, minha resposta
tera que ser muito mais longa do que
a carta de Ana Llcia. E para poder
responder a cada uma das acusaq6es
que ela faz a meu ver, scm muita
reflexao.
Sera mesmo Ana Lucia o nome
de quem me remeteu o e-mail? Eu
poderia ter exigido que ela me man-
dassc endereco complete e niimero
da carteira de identidade para verifi-
car se o nome corresponde realmente
a identidade do remetente da mensa-
gem. Mas prefer deixar esse "deta-
Ihe" de lado. Sei que muita gente den-
tro do PT, principalmente os mais
identificados com o prefeito Edmil-
son Rodrigues, tern as mesmas opi-
ni6es de Ana Lucia. Vou contesta-las
corn o respeito que todos os meus
critics merecem, mesmo aqueles que
se escondem atras de pseud6nimos
ou de colunas falsamente assinadas
emjomais velhacos. Mesmo quando
cometem muitos erros de portugues,
que procuro corrigir, sem o prop6si-
to de usa-los como arma de ataque


(retocando a grafia, mas deixando in-
tacta a pontuaq o, para nao ser acu-
sado de alterar estilo alheio).
Minha critical lamenta que este
seja ojornal de uma s6 voz. Esquece
a origem do JP, em 1987: fundei-o
para publicar toda a verdade sobre o
assassinate do ex-deputado Paulo
Fonteles de Lima. Em seguida, sobre
o rombo praticado no Banco da Ama-
z6nia (de 30 milh6es de d6lares), que
toda a grande imprensa escondia ate
entao. E assim, sucessivamente, ate
que, em 1988, me desliguei de vez da
grande imprensa. Restou-me este es-
pago. Nao e um journal pessoal por-
que optei por ser um iconoclasta: e
porque nao me restou alternative.
Tornei-me um ousider, umjornalista
definitivamente alternative, como re-
conheceu Bernardo Kucinski (ur in-
telectual do PT) em Jornalistas e Re-
voluciondrios, livro quejai e um clas-
sico sobre o assunto.
No entanto, tenho publicado to-
das as cartas que me sao enviadas,
inclusive as francamente insultuosas
e ofensivas, como as de Oliveira Bas-
tos (ver Jornal Pessoal 151/152).
Logo, mesmo sendojomal de umjor-
nalista s6, os leitores aqui tem voz,
cor a garantia rara na grande im-
prensa de que podem se manifestar
sem peias, ainda que atacando o dire-
tor-redator-rep6rter-continuo.
Sou uma pessoa ressentida por
ter sido excluida, contaminando de
mau humor este quinzenario? Ana
Lucia tern todo o direito de achar que
esta 6 uma publicaiao muito menor
comparativamente a A Manha, Pas-
quin ou Bundas. Mas nao pode con-
trariar os fatos. Nunca fui demitido
de nenhum dos lugares onde traba-
lhei. Sempre sai porque quis, por nao
me submeter a algo que contrariava
meus principios. Talvez nao possa
mais voltar a grande imprensa, na qual
trabalhei ininterruptamente por 22
anos. Mas porque teimo em nao re-
nunciar a principios, em continuar
praticando ojomalismo independen-
te que caracteriza este JP, mesmo comn
seus muitos erros, e que talvez seja
inviavel em outros lugares. Afinal,
pelo que sei, s6 existe um journal pes-
soal neste pais. Deve haver alguma
li go contida nessa singularidade.
Se nao fui excluido da minha pro-
fissao, talvez a leitora esteja se refe-
rindo a exclusao do poder. Devo di-
zer-lhe que nunca fiz parte da estru-
tura do poder. Ji fui amigo de gover-
nadores, freqientei-lhes ate os gabi-
netes com assiduidade. Mas quando
essa convivencia prejudicou a infor-
maqio, afastei-me. E eles, sentindo o
perigo da fiscalizagAo, tambem me
afastaram. Inclusive o prefeito Ed-
milson Rodrigues.
Ao final do debate entire os can-
didatos a prefeitura de Belem, na TV
RBA, em 1996, fui saudado pela cla-
que do PT como her6i. Eu teria en-
curralado o candidate Ramiro Bentes
e, assim, ajudado o candidate petis-
ta. Nao foi exatamente assim. Mas
dessa maneira a situaqAo foi interpre-
tada pela militancia. A partir dai, se
quisesse, eu poderia ter-me incorpo-


rado a entourage e, talvez, subido ao
poder. Mas permaneci na minha, deste
lado do ringue, onde sempre ficou o
meu corner. Quando comecei a criti-
car o alcaide, fui perdendo o encanto
para ele e seus aulicos. A um ponto
tal que a assessoria de comunicaqao,
chefiada por uma amiga (ex?), sequer
dignou-se a responder a meu questi-
onario, formalmente encaminhado.
Sou uma bete noire para nosso amigo
Edmilson. Estou contaminado por
um virus que causa horror aos tira-
nos: a vontade de querer saber, de
checar as informaq6es fomecidas, de
nio engolir press-releases.
Nao se atormente, Ana Lucia:
estar fora do establishmentjornalis-
tico ou do poder nao me causa a mais
leve das angistias. Tem sido assim
em 34 anos de exercicio professional.
Nesse period, briguei com todos os
poderosos de plantao, sim. Mas nao
foi por ressentimento ou mau humor
(felizmente, e minha unica arma con-
tra as inevitaveis amarguras da vida).
Foi por dever professional. S6 isso.
Amo Belem, que me deu o titulo
de cidadAo honorario. E nao em abs-
trato. Mas porque a cidade e, como
disse Antar Rohit (a expressao nao
me soa bem, mas vamos 1a), amora-
vel. E assim a despeito dos seus ad-
ministradores. E cada vez menos,
porem. A cidade atraente e charmosa
se restringe ao quadrilatero das man-
gueiras. Ainda e o residue do projeto
urban (e de poder) que a elite mon-
tou e aplicou corn o abundante di-
nheiro da borracha, entire a metade do
seculo passado e as duas primeiras
decadas do seculo que esta chegando
ao fim. Mas as administraq6es muni-
cipais estao sacando os ultimos che-
ques do talonario. Nada assemelhado
surgiu desde entao. O que se faz e
maquilagem, remendo, profilaxia.
Acho que o governor do PT e me-
Ihor do que o de Helio Gueiros, mas
nao substancialmente melhor, como
podia ser se nao excluisse os diver-
gentes incorporando apenas o que se
original do apparatchick. Corn alguns
stores trabalhando serio e bem, nio
e o suficiente, contudo, para estancar
ajj longa detcrioracAo relative da nos-
sa cidade em relagAo as demais me-
tr6poles brasileiras, principalmente
vis-a-vis Manaus (o que nao deve
ser motive para uma competiqao idi-
ota, que s6 mal tern feito ao Para e ao
Amazonas). Apesar da attitude mu-
nicipal hostile, o leitor que consultar a
coleqAo destejomal encontrara mui-
tas critics construtivas e propostas
praticas de acqo. Podem ser initeis,
mas nesse caso s6 admito a condena-
q o de quem demonstrou-lhes a inu-
tilidade. Nao de oqem condena sem o
minimo esforuo analitico, apenas para
punir o inficl herege.
Quanto a tal "janela para o rio",
trata-se de uma fresta demag6gica.
Dara votos ao prefeito no pr6ximo
ano e encantara muita gente, mas e
porque o povo belenense esta corn
expectativas muito baixas. Ter so-
frido tanto que qualquer analg6sico e
encarado como a remogqo das causes
da dor. E Ana Lucia esta errada quan-


do se refere a uma "tradiqCo mais an-
tiga" de busca pelo rio. Muito pelo
contrario: a tradiqao ter sido a de
uma cidade de costas para o rio, lu-
tando contra sua diretriz hidrografi-
ca, fluvial. Nao e por acaso que o
aterro tem sido a principal ferramen-
ta eleitoral.
Gostaria de ver essa "etica da di-
ferenqa" que a leitora identificou em
Edmilson. Nosso prefeito se recusa a
responder a perguntas inc6modas.
Quando confrontado, reage com pe-
dras nas maos. Sua comunicaqao e
feita, cada vez mais, atrav6s de mate-
rias pagas, por relaq6es p6blicas. O
Diario Oficial do municipio 6 quase
uma publicaoao clandestine, de aces-
so dificil, a tornar peca publicitaria o
compromisso con a transparencia.
Os critics sao anatematizados.
Edmilson responded apenas uma vez
a este journal. Depois, calou-se. Diz
aos seus intimos que nao vale a pena
responder ao JP. Por que, se publi-
quei sua carta na integra? Por que, se
todas as respostas sao aqui acolhidas
absolutamente de graqa? Por que, se
ate contraria-lo eu era considerado
um interlocutor interessante? Tao litil
que, em varias ocasides, tive provei-
tosas relaebs corn a direqio e os in-
telectuais nacionais do PT, convida-
do a auxilia-los em algumas circuns-
tancias. Mas, aqui, s6 fugidiamente.
A mancira de Machado de Assis,
perguntaria: quem se tornou diferen-
te, eu ou o PT local?
Fica a pergunta.


eir .- m at materia corn o titulo
1 ra de desenvolvimento
ou mero fundo de aoqes na Amazo-
nia". Dc fato, nao sera corn este novo
discurso tecnocratico que o governor
federal ira resolveros problems ama-
z6nicos. Tambem nao e trocando os
nomes de instituiq6es que se provo-
ca mudanqas, no sentido lato da pala-
vra. As filigranas do pessoal encaste-
lado no planalto sao bem nossas co-
nhecidas. Por ocasiao da instalacio
do "enclave" "Programa Grande Ca-
rajas" eles j afirmavam: "Em terms
macroeconomicos, objetivou-se a im-
plantacio de um parque industrial
progressivamente diversificado, prin-
cipalmente em terms nacionais (gri-
famos...".
Surgiu a Sudam, na seqiiencia da
SPVEA e muitos outros programs
frutos do oportunismo politico, man-
comunado corn o intellectual national
adrede preparado para servir os pro-
p6sitos hegemonicos do grupo do-
minante. Nao houve, nem ha liame
algum entire os grandes projetos ins-
talados na Regiao cor o seu organis-
mo responsavel pela conduiao do
desenvolvimento. A acao de planeja-
mento estanquc contradiz corn o pr6-
prio dinamismo da economic. Ela tem
de estar ligada a um designio maior de
ambito national. E o tal do "subpro-
duto" na linguagem do president
poliglota.
Precisamos de um piano estra-
tegico amarrado a um cronograma de
recursos oportunos e suficientes,







JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE NOVEMBRO/ 1999 5




Veja a Veja (mas nao leia?)


ta se orgulha de ser a quinta maior
revista semanal de informaq6es do
mundo. E realmente motivo de orgu-
lho, tanto para a revista quanto para
o pais no qual ela circula, que nao se
notabiliza internacionalmente por
feitos culturais.
Em seu numero 1.620, o da semana pas-
sada, 31 anos depois de ter comeqado a cir-
cular, Veja comemorou recordse" (cautelo-
samente, nao quantificados). Nunca uma
ediqao regular como aquela tivera "tanto es-
paqo dedicado a reportagem". Foram "117
paginas editorials", num total de 212, refle-
tindo "o moment altamente positive vivido
pela revista".
Alem disso, em setembro a venda em ban-
ca "atingiu a media de 220.000 exemplares por
edicio, a maior da revista". Vendagem que
represent 70 mil exemplares a mais do que a
soma da venda em banca "da segunda e da
terceira revistas semanais de informacao do
pais" (as nao citadas Epoca e Istoe). Acres-
centando-se a esse feito os "quase I milhafo
de assinantes", conclui-se que Veja e lida "por
mais de 5 milh6es de pessoas", para orgulho
da revista dos Civita, "a elite do Brasil".
Na sua "carta ao leitor", o editor diz que
essa circulaqao atrai empresas cuja publici-
dade "sera vista por quem realmente impor-
ta". Alcanqando tal sustentagao financeira,
"garantida poi esse circulo virtuoso de confi-
anqa", que so'na leitores privilegiados a anun-
ciantes cativados, Veja "nLo depend de pu-
blicidade official ou de favors de governor
para existir". Consegue ser, assim, "uma pu-
blicacio inteiramente isenta e independente,
comprometida apenas cor seu leitor.
Sera?
Em primeiro lugar, cheque-se o record.
Coloque-se de lado qualquer duvida sobre a
declaracao das 117 "paginas editorials". Ad-
mita-se que tal nuimero seja verdadeiro e que
realmente jamais a redaqio haja recebido tal
quantidade de paginas. Preliminarmente, po-
rem, deve-se lembrar o compromisso origi-
nal de Veja de nio ter mais do que 40% de


paginas de publicidade em suas edic6es. No
caso, seriam apenas 84 paginas de propa-
ganda (mas teve 95).
Releve-se, porem, essa diretriz, residue de
uma epoca de modestia na expectativa de fa-
turamento que a maquina registradora deixou
para tris. Afinal, a revista ainda assegurou
para a redagao mais do que metade da edicao.
Resistira, no entanto, o record comemorado
ao seu segundo questionamento, o da pro-
por:Ao? Se e verdade que nunca antes Veja
teve tantas paginas redacionais, em valores
absolutos, sera que no passado nao houve
uma proporgco maior, considerando-se o to-
tal de paiginas? Basta examiner as ediq6es
seguintes aquele desastrado primeiro n6me-
ro de 1968 para verificar que a redaco ja teve,
proporcionalmente, muito mais paginas para
si do que agora.
Mas tambem em relaqio a esse ponto nao
se deveria armar um cavalo de batalha. 0 triun-
falista editor argumentaria que as edic6es re-
gulares de Veja nunca estiveram tdo encorpa-
das como agora, o que enfraqueceria o peso
relative diante dos valores quantitativos sen-
sivelmente maiores. Tal argument s6 pode-
ria prevalecer se resistisse a uma checagem,
comparando-se as ediq6es de hoje cor as que
se seguiram a pianos economics salvacio-
nistas, como o Cruzado, o Collor ou o Real.
Essa verificaqao direta e necessaria por-
que a informaqio (ainda quejurada) do editor
insere-se em contextos sujeitos a dfivida, ja
que alguns dados sao sonegados do leitor.
As assinaturas, por exemplo, sao cstimadas
em "quase 1 milhio", uma declaraLio de im-
precisio nada desprezivel por envolver valor
com sete digitos.
Admitindo-se que esse "quase 1 milhao"
sejam 990 mil assinantes, eles, somados aos
220 mil exemplares da venda avulsa, repre-
sentam a comercializacao de 1.210.000 exem-
plares. Como a tiragem declarada da revista
e de 1.299.789 exemplares, isso significa que
o encalhe da revista e inferior a 7% (ou 89 mil
exemplares). Se esse numero e verdadeiro
(donos de bancas que consultei chegam a


se referir a encalhes de 40% a 50%), entao
esta ai mais um record, que Veja deveria ate
ter comemorado mais do que os outros. Sem,
no entanto, chegar a trombetear que seu uni-
verso de cinco milhaes de leitores (3% da
populag-o brasileira, ou 7% dos brasileiros
com mais de 20 anos, teoricamente os que
estio em condiq6es de comprar a revista)
sao "quem realmente importa".
De fato, eles constituem a elite do pais e
nessa condiqgo devem ser encarados. Mas
quando restringe o ambito do seu alcance a
eles, Veja se reduz a uma publicac o de clas-
se m6dia. Nio ha nada de condenavel ou
criticivel nisso. Mas ela deve modificar a
reda~io do texto no qual declara que seu
compromisso exclusiveo e corn o leitor".
Ficaria melhor dizendo que seu compromis-
so e cor um leitor exclusive, o de classes
media. Dessa maneira, sua definiLio ficaria
mais clara e mais corretamente poderia ser
entendida pelos restantes 93% dos brasi-
leiros com todas as condiq6es de entende-
la, mas que nao podem aspirar a ser por ela
compreendidos ou mesmo visualizados.
Porque ela nao os inclui entire "quem real-
mente importa".
Se esse eo preqo a pagar para se tornar
realmente independent da verba publici-
taria manejada pelos governantes confor-
me seus interesses ou caprichos pessoais,
a desatracaqio do mastodonte estatal pode
ser apenas fisica, nao emotional, nem raci-
onal. Veja seria oficialesca nao para faturar
publicidade, mas por ser de sua ess&ncia
(ou de seu compromisso) ser dessa manei-
ra. Para efeito de formaq o de conscienci-
as, essa distingio moral e tao irrelevant
quanto o esforqo supostamente pacifista de
governor que comemoram a redugio da
capacidade de destruiq o dos seus arsenals
nucleares de muitas centenas de vezes para
algumas centenas de vezes.
De qualquer maneira, parabens a Veja.
Ganhar e o que realmente importa, ao me-
nos segundo a otica de "quem realmente
importa". 0


porem nio existe essa pratica no
Brasil. Possuimos, talvez, a maior
area cultivavel do planet, propicia
para a agriculture e pecuaria. No en-
tanto, padecemos de baixa produti-
vidade e de outras mazelas que li-
mitam nossa participago no grupo
dos paises maiores produtores. Es-
sas restriQ6es obrigam-nos a impor-
tar alimentos para satisfazer nos-
sas necessidades primarias. O ex-
ministro Francisco Turra bem que
se preocupou corn o assunto e I .r-
tejou o primeiro plancjamento Igri-
cola da hist6ria do Brasil, para as
pr6ximas decadas. Como ele nio
esta mais ministry, e posjivel que
seu eslorqo va parar na lata de lixo,
o que consider, sinceramente, umn
ato de extrema torpeza.


Na Amaz6nia, alem de um traba-
Iho dcssa envergadura, 6 important
colocar na Sudam pessoas conecta-
das com essa aspiraq~o maxima. So
assim sera possivel desenvolver uma
tarefa cor tal complexidade. Have-
remos de apartar a Sudam (ou outro
nome que vier a ter) de injunbes
politiqueiras que tem prevalecido na
indicacio de seu superintendent,
porque se assim nao for a autarquia
continuara refCm das liderancas (?)
de partidos politicos-como ter sid-
ati esta data.. Pelo perfil do novo
gestor e scu hist6rico ligado as fac-
q6cs de mando continuado nesta tris-
te Republica, temo que as coisas difi-
cilmente mudarAo.
Todos esses fatos nos levam a
uma questAo que merece ser devida-


mente explorada. Trata-se da aus-n-
cia de debates sistematicos sobre te-
mas de interesses regionais ou mes-
mo nacionais. A t6nica & a discussion
imediata, quando ha, em cima do fato
gerador, seguido da aceitacio tacita e
depois o esquecimento. As political
publicas, no Brasil, infelizmente sio
decididas e elaboradas no ambiente
restrito da hierarquia do poder, sem
ouvir-se a sociedade.
Por isso, acho que o document
inerente as transformaraes (?) do
Basa/Sudam sera cncaminhado a co-
munidade apenas para seu conheci-
mento, ou, quando muito, para ense-
jar um ligeiro bate-bapo corn os pro-
fissionais engajados no Governo Es-
tadual. A elite pensante paraense que
moureja nos pavilhdes universitarios


ha d6cadas, prcfere se eximir do pro-
cesso politico regional, numa flagrante
demonstracqio de indiferenca. En-
quanto isso, os profissionais com-
prometidos cor o poder- aos quais
nio interessa se o Governo d de direi-
ta ou esquerda ou centro, reinam ab-
solutos, dio as cartas e distribuem os
cifr6es. A prop6sito, certo profes-
sor universitario, hoje Magnifico Rei-
tor, declarou solenemente em deter-
minado moment o "irresistivel des-
preparo cientifico" do tdcnico ama-
z6nida. Opiniaio da qual discordo,
mas pass a bola pra voce.
RODOLFO LISBOA CERVEIRA

Minha resposta
E eu, por enquanto, em funiio
de espaco, repasso ao leitor. 0







6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE NOVEMBRO / 1999


m marco do ano passado revelei nes-
tejornal documents referentes a Ca-
banagem que estavam arquivados no
Public Records Oficce, de Londres,
absolutamente ineditos de consult
e uso. O principal dessa documenta-
Fio era constituido por correspondencia
entire oficiais da armada (a mais poderosa
de entao) e o Foreign Office, o Ministerio
das Relac6es Exteriores da Inglaterra. Ain-
da em ingles, essas cartas representavam a
mais important fonte de informaqbes so-
bre a Cabanagem desde que Domingos An-
t6nio Rayol publicou, em 1865, o ultimo dos
cinco volumes do seu Motins Politicos,
ainda o melhor livro que se escreveu sobre
as rebelioes sucessivamente eclodidas no
Para entire 1821 e 1835.
Conclui sob forte impact a leitura dos
documents, generosamente remetidos de
Londres por David Cleary (que j devia ter
recebido uma homenagem official por essa
sua iniciativa, mais util do que a maioria dos
livros escritos sobre o tema). Traduzi alguns
trechos e publiquei uma longa material de
capa no JP 182 (cor o provocative titulo
"Quando o Brasil entregou a Amaz6nia"),
replicando-a na ediqao seguinte, a instin-
cias de William Overal (ur estrangeiro como
Cleary, autor da unica carta de leitor a pro-
p6sito do assunto). Desde entao, em todas
as minhas palestras tenho insistido na gra-
vidade e relevincia das informacqes trazi-
das por esses documents oficiais da In-


glaterra para a elucidacgo de um dos mo-
mentos mais decisivos da hist6ria da Ama-
z6nia (e do Brasil imperial).
Fez-se, no entanto, complete silencio a
respeito. Ate nas academias. Confesso mi-
nha decepqCo e perplexidade corn esse fato.
t claro que a correspondencia do almiran-
tado de sua majestade britanica nao encer-
ra as abordagens possiveis da Cabanagem.
Muito pelo contrario: exige que elas sejam
inteiramente revistas, inclusive em alguns
de seus pilares, naquilo que ja era aceito
como verdade cientifica, factuidade. Per-
gunto-me se essa conspiraqao do silencio
nao decorre justamente do desafio intelec-
tual que o exame de tais papeis acarreta.
Muita gente tera querido permanecer com
suas verdades e dogmas, cor certezas que
nao serve a reconstituiqAo da hist6ria, em-
bora sejam ferramentas preciosas em palan-
ques, numa ret6rica cujo inconseqiiente
vazio de conteudo ofende o sangrento tes-
temunho dos cabanos.
Foi precise a Folha de S. Paulo publi-
car uma reportagem a respeito da documen-
tagAo inglesa inedita para o assunto reper-
cutir na grande imprensa local, um ano e
meio depois do "furo" deste journal. Note-
se que a materia do JP era analitica e inter-
pretativa, enquanto o grande journal paulis-
ta limitou-se a uma destacada reportagem de
divulgaqao, comegando por uma definigao
inteiramente equivocada da Cabanagem,
"uma fracassada revolta separatista.


Mitologia cabana


Interesse public


Planetario pelo


gj Nenhuma autoridade
Srespondeu aos questi-
onamentos aqui feitos na edi-
cao anterior. Apesar desse es-
timulo (e do silencio do leitor),
esta seqao prossegue.
SConforme ja virou a
marca registrada da
administragAo Almir Gabriel,
mais um contrato foi assinado
para a conclusio das obras do
Planetario. O primeiro contra-
to, que deveria bastar para a
complete realizaqAo do servi-
co, mostrou-se insuficiente, ape-
sar dos aditamentos, de valor e
de prazo. Um novo contrato,
no valor de 413 mil reais, foi
assinado. O primeiro aditivo,
em agosto, foi para reajusta-lo
em mais R$ 86 mil. O segun-


do, no mrs passado, para am-
pliar em mais um mes o prazo
para a conclusao da obra, que
era o dia 13 de outubro. Sera
que a Secretaria Executiva de
Obras Publicas se permitiria in-
formar por quanto ja saiu esse
projeto essencial, alias, para
o Para dos nossos dias?
... A Secretaria de
Transportes assinou
neste ano, cor a CBK Enge-
nharia & Arquitetura, um con-
trato no valor de R$ 626 mil
para a "execuc.o dos servigos
complementares de paisagis-
mo" da recem-inaugurada (eja
recem-criticada) avenida Julio
Cesar, que da acesso ao tam-
bem recdm-inaugurado novo
aeroporto interacional de Be-


S lem. Quern
a lto anda, desliza
e sacoleja
pela novel pista deve se per-
guntar onde foi gasto tanto di-
nheiro assim e que paisagismo
e realmente esse.
Haveria ate uma razAo -di-
gamos assim-nominalista para
a incredulidade. A empresa que
executou o servigo encomenda-
do pelo Estado era, originalmen-
te, de engenharia & arquitetu-
ra. Ai estava um pretexto para
a duvida. Mas elajij foi sanada.
Um aditivo de re-ratificaqio ao
contrato original, publicado no
Diario Oficial do Estado do ulti-
mo dia 15, informa que "a partir
de 20 de agosto, (...) "em face
de cisao ocorrida", todos os di-
reitos e obrigac6es que eram
pertinentes a CBK Engenha-
ria & Arquitetura passaram


para CBK Engenharia, Arqui-
tetura & Paisagismo.
Tudo bern: estaria saneada
a falha, a posteriori e ad refe-
rendum dodistinto ptblico, tudo
conforme manda o latim buro-
cratico. Mas ainda ha mais na
mesma edicao do DO. Um ou-
tro aditamento foi baixado para
suprimirdo contrato original uma
clausula de garantia contratual,
"uma vez que essa exigencia
nao constou do Edital referente
a Tomada de Preco n" 047/99".
A providencia foi "decorrente
de solicitacAo feita pela Direto-
ria de Transportes Terrestres"
da Setran, "devidamente acolhi-
da e autorizada pelo Sr. Secre-
tario Adjunto". Nao foi dito, mas
presume-se que a propria em-
presa, a maior interessada (ou
unica?) na supressao, tenha aci-
onado a tal diretoria, que cur-


Pode-se alegar que o Jornal Pessoal nao
conta. Em parte, e verdade: ha sempre a ma
vontade do coro dos contents cor o que
sai aqui. Mas so em parte: o universe de
leitores deste pequeno e precario journal
eqiiivale a quantidade de torcedores que
foram no iltimo domingo ao estadio ver o
jogo do Clube do Remo. E uma elite. Mas
de que vale uma elite muda?
O epis6dio diz muito sobre nossa ati-
tude de colonizados. Continuamos a ra-
ciocinar por tabela, por mimese ou com-
pleta macaqueacio. E precise que primei-
ro a sede do poder avalie os fatos para
podermos digeri-los naturalmente, ja
mastigados. Estamos condenados dessa
maneira a pensar pela cabeqa do coloni-
zador, na sina martiriol6gica de quem s6
sabe dos fatos quando eles ja estao con-
sumados, numa agenda cotidiana desli-
gada da hist6ria, um alimento pronto para
levar ao forno. E quase impossivel fazer
hist6ria em tais circunstancias. Embora a
hist6ria bata em nossas portas e toque
nossos narizes.
Ainda assim, entretanto, espero que o
sinete da metr6pole motive os paraenses a
discutir o tema, reaberto pelos papeis in-
gleses (que sd deverao ser publicados nos
Anais do Arquivo Publico, em dois tomos,
no inicio do pr6ximo ano). Para merecerem
seu valor, as cabeqas precisam ser expos-
tas. Que elas repensem a Cabanagem, ao
menos para reduzir a margem de mitologia
que ainda recobre esse moment vital da
nossa hist6ria, tirando-o da boca dos de-
magogos e colocando-o ao alcance dos que
ainda se empenham em fazer a hist6ria. 0






JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE NOVEMBRO /1999 7


az 60 anos que a Livraria do Globo,
a hist6rica editor gaucha (nao con-
fundir com a Globo de Roberto Ma-
rinho), de Barcellos, Bertaso &
Cia., editou Geografia Humana
(Estudo da paisagem cultural do
mundo). Seria apenas mais um livro di-
datico, "rigorosamente de acordo corn o
program official do 39 ano seriado" (na-
turalmente, do curso secundario), se seu
autor nao fosse Josue de Castro, a 6poca
professor da Universidade do Distrito
Federal (ainda o Rio de Janeiro).
Estavamos em 1939 e Josu6 ja havia
publicado nada menos do que outros nove
livros. O primeiro deles, Oproblema da
alimentacdo no Brasil, editado em Re-
cife, em 1932, merecera mais duas edi-
c9es (ambas pela poderosa Companhia
Editora Nacional, de Sao Paulo). Josu6
estava cor apenas 31 anos, mas sua bibli-
ografia (10 titulos em oito anos) revelava
por inteiro o perfil do humanista e do sabio
com o qual ele encerraria seus dias, em
1974, como um dos mais notaveis e injus-
ticados brasileiros. Morreu no exterior da
mais pura e profunda saudade do pais que
tanto amou e que tanto o maltratou.
Ojovem professor fizera um inqueri-
to na capital pernambucana sobre as
CondiCges de vida das classes operci-


rias, no ano seguinte lancado na capital
federal. Consciente do valor daquele nor-
destino, o Rio de Janeiro imediatamente
o atraiu, divulgando, em 1935, seu estudo
sobre o Salcrio Minimo. 0 esperto, in-
teligente e perspicaz Jos6 Olympio abri-
garia em sua editor, grande em suas
entranhas como a baleia biblica, dando a
luz o ja classico Documentdrio do Nor-
deste, de 1937.
Nesse mesmo ano sairia o primeiro
dos livros de Josue de Castro em lingua
estrangeira (ele 6 um dos brasileiros mais
traduzidos at6 hoje): Science et Techni-
que, ediqAo do Ministerio da Educaqao
para a exposicao de Paris de 1937. Isso
mesmo: sob o Estado Novo, a ditadura
getulista, um intellectual que na ditadura
seguinte, a dos militares, ja sem interme-
diarios ou procuradores udenistas, seria
perseguido como comunista, era apresen-
tado a capital francesa (onde, alias, vive-
ria seu triste exilio de 10 anos).
O livro didatico que vasculhei nos ar-
quivos e que me estimula a fazer aqui
estas recordaqoes foi editado no apogeu
do Estado Novo, o autor dando aulas na
principal universidade federal. Nao que o
ambiente ainda fosse buc6lico entao, nem
se manteria assim ate Getulio Vargas ser
colocado para fora do poder por seus


Melancolia


e relativismo


vou-se a solicitagao, cor o de-
vido amparo legal, mas nao to-
mou a iniciativa 6 claro. Se o
fez, nao tera cometido aquilo que
os advogados chamam de ultra
petita, em latim, como convem?
Ainda no exemplar referido
do DO uma outra re-ratificacgo
aditada (como as outras, sem
numeraqdo), corrigiu uma das
clausulas sobre as obrigaqoes da
contratada, fazendo-a "assumir
plena responsabilidade adminis-
trativa e tecnica pela qualidade
dos services executados, porum
prazo de 03 (tres) meses, ap6s
o recebimento dos services pela
Setran". A origem de tao salu-
tar providencia nao foi identifi-
cada, ao contririo da anterior.
Mas se o toque veio de fora, sera
que de la nao podem vir outros
empurroes para esclarecer me-
lhor esses remendos burocrati-


cos em tomo de uma obra em
seu conjunto pra la de polemi-
ca? Vamos torcer que sim.
'Ainda no mesmo nu-
-mero, o DO abrigou
outro termo aditivo (este nume-
rado, o 4) da Secretaria dos
Transportes ao contrato com a
Queiroz Galvao para o tao co-
mentado Projeto de Reurbani-
zacao da Orla do Macarico, em
Salinas, que ficou prorrogado
de 15 de outubro para 31 de
dezembro. O distraido redator
do extrato apenas se esqueceu
de indicar o valor original do
contrato, contrariando determi-
naqao feita nesse sentido por
resolucao do Tribunal de Con-
tas do Estado. O TCE vai co-
brar o cumprimento da norma?
Se o fizer, deve aproveitar para
forqar a Setran a republican o
aditivo de prorrogagao de pra-


zo para a iluminaqao da mes-
ma avenida Julio Cesar, no qual
a omissao foi em relaqao ao adi-
tivo anterior.
< ( A dupla exibigdo em
Sao Paulo do espe-
tdculo Trazendo Che no co-
racao custou aos cofres pu-
blicos 60 mil reais, pagos,
corn inexigibilidade de lici-
taCao, c empresa M. F Pro-
duCdes Artisticas. 0 ordena-
dor da despesa, Paulo Cha-
ves Fernandes, secretdrio
estadual de cultural, e umn
dos autores do espetdculo.
Isto e que e ser artist.
O 0 custo dos services
Sde manutenao pre-
ventiva e corretiva nos equipa-
mentos de ar condicionado cen-
tral do Museu de Arte Sacra,
no conjunto arquitet6nico de
Santo Alexandre, foi reajusta-


do de R$ 3,6 mil para R$ 4,6
mil mensais e a vigencia do
contrato prorrogada por mais
um semestre. Pago pela Se-
cretaria de Cultura.
< Abro duas enquetes
nesta secao para que
o leitor se manifJste. A pri-
meira: quem coloca mais pla-
cas de obras nas vias puibli-
cas, o governador Almir Ga-
briel ou o prefeito Edmilson
Rodrigues? Quem possui
mais places nas quais a con-
tradi(do entire o tarnanho da
placa e o valor (ou o signifi-
cado) das obras e contras-
tante? A segunda questdo:
quemn, entire as duas autori-
dades, sonega mais informa-
coes ao piblico?
Pode ser que assim consiga
sensibiliza-los a prestar os es-
clarecimentos cobrados.


antigos parceiros de farda, em 1945 (um
retrato exato seria tragado por Gracilia-
no Ramos nas Memorias do Cdrcere,
escritas de dentro das celas), mas ainda
nao haviamos descido tanto na escala do
obscurantismo e da violencia (ou ainda
nao desceramos de novo).
O manual de geografia dirigido aos
estudantes do iltimo ano do secundario
era apresentado por Preston James, pro-
fessor da Universidade de Michigan, nos
Estados Unidos, que elogiou o "peculiar
vigor" daquele livro didatico. Ele nao era
simpless compilaqio de fatos inexpressi-
Sos, mas, antes, parte essencial do cena-
r o onde se exercitam os seus [de Josue
de Castro] estudos acerca dos urgentes
problems humans do Brasil atual- es-
pecialmente nos campos da alimentacao
e da nutrigao".
Passando mais uma vista d'olhos pelo
livro, subiu-me (ou seria desceu-me?)
uma sensacao de melancolia. Talvez ti-
vesse algo a ver com caminhadas que
freqiientemente fazemos em circulo, ou
voltando ao ponto de partida, imaginando
estarem a nos levar para frente. Se nao
isso, ao menos se reforqa a convicqgo de
que nem sempre olhar para tras e peca-
do merecedor de salinizacao biblica:
quando serve de ferramenta para ilumi-
nar o passado, tem a forca de nos tornar
humildes e menos tropocentricos, mais
convencidos da nossa pequenez e da enor-
midade dos desafios que a hist6ria coloca
diante de n6s. Se essa melancolia fizer
bem, se for saudavel, esta nota melanc6li-
ca e otimista tera cumprido sua funcgo.0







Obra mortal
Enquanto foi Tito Franco, a
hoje avenida Almirante Barroso
tornou-se tristemente famosa
como a pista da morte. Convi-
dando os motorists a alta velo-
cidade, nao oferecia seguranga
compensatoria aos pedestres,
nem facilitava a imposi ao de
normas regulamentadoras ao tra-
fego de veiculos.
O trof6u macabro, ao que pa-
rece, vai passar para a avenida
Augusto Montenegro, de traqa-
do irregular, sempre mal capeada
e agora com uma pista para pe-
destres assemelhada a uma arma-
dilha fatal. A morte de um casal
de professors, atropelados por
um carro em alta velocidade quan-
do faziam sua caminha matinal
pelo que deveria ser sua faixa ex-
clusiva, e de uma estupidez re-
voltante. Esta em causa nao s6 a
irresponsabilidade criminosa do
motorist, mas a propaganda en-
ganosa que da aquela via a ima-
gem de obra acabada que ela
nunca teve e ter menos agora.
RealizaqAo da prefeitura
de Bel6m.

Miopia
Os servidores piiblicos so-
frem ha cinco anos a corrosao dos
seus vencimentos. Na massa, to-
dos empobreceram, exceto o man-
darinato (na cupula, boa parte na
inatividade), residual, mas corn
forga para mover montanhas de
poder gracas ao corporativismo.
Como compensacio a salaries
baixos ou simplesmente misera-
veis, a cada pretexto os barnabes
sio dispensados de trabalhar. Por
ganharem mal, teriam o direito de
trabalhar menos do que o cida-
dao comum.
Mas 6 uma compensacao
enganosa. 0 home de rua,
massacrado pelo excess de
trabalho e a escassez de remu-
neracio, encara com ressenti-
mento e raiva a aus6ncia do ser-
vidpr bio hb quolquc ia
que te to f ul-
tativ se, tarar
o bal i so ou
indti para,:
aceita dQ.
tado. eisao
que fact ao dos maus
intencionados em relagao ao
serviqo piblico.

Exemplo
Pela segunda vez, o Tribunal
Regional do Trabalho da 8" Re-
giao, com sede em Belem, decide
aumentar os salaries dos seus
juizes, beneficio concedido em
causa pr6pria (agora, de 193%).


Pela segunda vez, o ato e consi-
derado illegal por outra instincia
judicial (e ate pelos superiores
hierarquicos dos juizes traba-
Ihistas regionais). Estancado na
justiqa, o reajuste 6 suspense.
Mas a partir desse moment se
transform em empr6stimo por um
ato de imperio, semjuros ou cor-
recao monetaria. A devolucgo do
valor recebido indevidamente e
parcelado a perder de vista, no
tempo tanto quanto no valor.
Qual a moral que sobra para
o mortal dos cidadaos dessa no-
vela em repetidos e inacredita-
veis capitulos, que se sucedem
sem pudor?

Promessa
No dia 19 do mrs passado
Romulo Maiorana Junior, que a
condiq~o de principal executive
do grupo Liberal, monopolista da
comunicacao no Para, torna um
dos homes mais poderosos do
Estado, fez um roteiro de visit
inteiramente distinto de suas fre-
qiientes viagens aos Estados
Unidos (Miami e Las Vegas como
principals destinos): foi conhe-
cer a hidrel6trica de Tucurui.
Apesar das dimens6es da obra,
que j custou 9 bilh6es de d61a-
res, foi precise muita insistencia
para que Rominho finalmente
decidisse conhece-la, percorren-
do os 350 quil6metros que a se-
param de Belem.
A visit foi muito ripida, do
que da testemunho o tom da ma-
teria. Mas com ela o chamado cap
das Organizao6es Romulo Maio-
rana promete iniciar uma s6rie de
incursoes ao interior do Para, na
campanha "Andando pelo Para",
com a qual pretend "mostrar as
riquezas e as grandes dificulda-
des que enfrentam os atuais e fu-
turos empreendimentos dos que
acreditam no Estado".
Pode ser que a anunciada epo-
peia tenha uma inspiraqCo eleito-
ral, buscando dar consistencia ao
nome de Romulo Jr., etemo candi-
dato a um cargo eletivo, mas refra-
tario a eleicOes. Qualquer que seja
sua inspiracio, pordm, a iniciativa
e meritoria. Quando nada, por apre-
!sentar o grande Para a um notavel
integrante da elite paraense que
tem o Estado como a extensao do
seu enorme gabinete.


0 horror
A patologia de certos crimes parece nitidamente individual,
mesmo em sua brutal violincia, como um pai degolar o filho
de oito anos e atirar seu carro de frente contra uma carreta
para se matar. Mas quando ha uma tambem evidence
escalada de violencia, deixando para tris as cirfrgicas
eliminak6es de vida, passando a tingi-las cor o sangue das
imolaV6es, entio hi um component de patologia coletiva
muito grave. O problema passa a ser policial na sua
repressao, necessariamente several. Mas ter origens sociais
e economicas a tratar adequadamente.
Belem e o Para, ao que tudo indica, ji atingiram essa
escala de grave perturbacio da seguranea, tanto a
individual quanto a coletiha. Ler as piginas policiais da
grande imprensa virou um exercicio diario de horror.


AI6, a16
Em setefabro de 1966 saiu em
0 Estudarie meu primeiro artigo
mais s6rio publicado num 6rgao
regular da imprensa, no caso o
exemplar inaugural da nova fase
do 6rgao da Uniao dos Estudan-
tes dos Cursos Secundaristas do
Para, a popular UECSP, castrada
pelo Al-5. Era um artigo sobre o
filosofo ingles Bertrand Russell,
uma das mais fortes influencias
da minha adolescencia. Jos6 Clau-
dio vivia me prometendo um
exemplar do journal para meus ar-
quivos, desfalcados dessa peca.
Se ele nao pode cumprir a pro-
messa, sera que alguem possui
esse niumero de O Estudante? A
redagio, penhorada, agradeceria.


Corregao 1
O poeta Ruy Barata e tao con-
tinental que na nota sobre Joao
Cabral de Mello Neto minha me-
m6ria cansada o colocou em com-
panhia de Maria Sylvia Nunes,
quando seu par, famoso, conhe-
cido e respeitado e o Benedito.
Inclusive na encenaqao pioneira
de Morte e Vida Severina, s6 nao
consagrada nacionalmente por
caprichos ou interesses contrari-
ados no festival nordestino em
que foi exibida. Perdao, Benedi-
to, Sylvia e leitores.


Corregao 2
No artigo sobre Daniel Piza (0
luxo intellectual brasileiro entire
pince-nez e abobrinhas), publi-
cado no numero anterior, cometi


um erro. Como o livro comentado
por Piza foi escrito por um ingles
(Kenneth Taylor), a grafia correta
e mesmo civilisation, confonne o
ingles britanico, e nao civilizati-
on, como assinalei, raciocinando
corn o ingles dos Estados Uni-
dos. Quem observou o deslize,
sempre atento ao JP, foi o ge6lo-
go Alberto Rog6rio, a quem agra-
deqo pela ajuda. E, estritamente
quanto a este ponto, peqo des-
culpas ao Piza. Quanto a todo o
resto, mantenho o que escrevi.

Pol itica
Apenas num ponto o grupo
Liberal e o senador Jader Bar-
balho parecem unidos no mo-
mento: promover o nome do de-
putado federal Jose Priante. Os
Maiorana injetam prestigio na
esperanga de que Priante, se
apresentando como candidate
do PMDB a prefeitura de Be-
lem no pr6ximo ano, afaste a
possibilidade de uma coligaaio
cor o PFL em torno do deputa-
do federal Vic Pires Franco, ex-
amigo e hoje arqui-inimigo da
casa (a maneira de Churchill, os
Maiorana estao dispostos a fa-
zer alianca cor o diabo para
nao ve-lo na PMB), ou mesmo
Helio Gueiros.
Jader deixa o pessoal do Li-
beral acreditar que Priante, por
controlar o diret6rio municipal
peemedebista, ter condiqces de
impor seu nome, mesmo se o ca-
cique do partido achar melhor
unir forqas cor o PFL, aceitan-
do o cargo de vice-prefeito. Uma
fonte assegura que o senador
atropelara o primo se ele o con-
trariar. Mas outro informante diz
que tudo nao passa de encena-
9ao e balao de ensaio: o afasta-
mento entire os dois, a possibili-
dade de confront e a hipotese
de Priante ser uma ponte para
uma recomposicao tacita entire
o grupo Liberal e Jader.
O mais seria coisa de boi
voador.


Journal Pessoal
Editor: LOcio FlAvio Pinto
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