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Cabanagen Jomal Pessoal (PAG. 6) L C I 0 F L A V IO P I .., 0,-- Os ANO XIII NO 222 1l QUINZENA DE NOVEMBRO D 1999 -I',06o records i D e Veja POLITICAL P-" (pG. o NOV 18 1999 A CDP, o elefa l e rato A meteorologia political previa raios e troves no horizonte es entire o Paldcio do Planalto, em Brasilia, e o Palacio dos Despachos, em Belem, apesar de seus dois inquilinos serem tucanos. Mas o ceu carregado de um dia foi substituido por aquele tipo de tempo instdvel que pode acabar em sol radiante on em tempestade. De qualquer maneira, o Pard jd tern a sua batalba de Itarare. Ela atende pelo codinome de CDP. dispute travada ha tres sema- nas entire o govemador Almir Gabriel e o senador Jader Bar- balho pela presidencia da Z Companhia das Docas do Para, mais do que uma batalha de Itara- re (aquela que se tornou famosa porque nunca aconteceu), parece mais uma guerra entire exercitos Brancaleones, conforme a satira criada no cinema pelo director italiano Mario Monicelli. Seria um combat ficticio por butins de mentira, no qual as palavras mais escondem do que revela.n, os contendores se golpe- ando baixo enquanto sustentam na face a mais inocente das aparencias. A CDP, ate entao considerada uma empresa do quarto escalao do poder, que sobrava como residue da partilha dos car- gos federais que realmente contam (Su- dam, Basa, DNER), foi colocada pelo go- vemador no apice da administraqao publi- ca. Ela se torou praticamente uma agen- cia de desenvolvimento, pela qual passari- am quase todos os "projetos estruturan- tes" do Para. Sem ela, iria por agua abai- xo o sonho de "mudar a base produtiva" do Estado, "verticalizando a producgo", "agregando valor" e "incrementando a geraqao de renda e emprego", entire ou- tras p&rolas dojargao tecnoburocratico da gestao tucana, tudo muito bonito e claro no papel, problematico na realidade. As c6micas escaramucas levaram, em 20 dias, a marcagao, desmarcaago e re- marcaqao, em quatro moments sucessi- vos, da assembleia extraordinaria do con- selho de administraqgo da CDP, na qual o atual president, Carlos Acatauasst Nu- nes, deveria ser substituido pelo novo titu- lar do cargo, Rog6rio Almado Barzellay. Tudo o que foi atribuido a essa queda-de- braqo se reduz ao que realmente esta em jogo, ao menos de imediato e como o ver- dadeiro detonador do litigio: as obras da Estaq~o das Docas (ver, a prop6sito, o Jornal Pessoal 220). "O governador Almir Gabriel defen- de a pernnanencia do engenheiro Carlos Acatauasst na CDP, porque, segundo seus amigos, se a empresa cair nas m.os do PMDB a Estagao das Docas pode ser iniviabilizada", registrou no dia 18 o Re- porter 70, a principal coluna de O Libe- ral, onde recados, indiretas e ameacas do governor costumam ser sopradas ao public em geral e a destinatarios certos em particular. Esta em vigor um contrato de direito real de uso, assinado em 1997 entire a CDP e o governor do Estado, concedendo a este pleno direito sobre quatro armazens do porto de Belem, em obras para serem transformados num ponto commercial e tu- ristico, a Estacgo das Docas. O cronogra- ma fisico-financeiro indica que de 70 a 80% das obras ja foram executadas. E praticamente impossivel reverter essa si- tuaqao, impedindo que a administracqo estadual conclua o projeto, mesmo porque ela esta disposta a inaugura-lo, mesmo ina- cabado, a 31 de dezembro, criando assim um fato consumado. Nao se trata, portan- to, de inviabilizag9o, mas do desgaste que o levantamento dos services podera acar- retar ao govemo do PSDB. Sao muitas e graves as irregularidades cometidas na conducgo de um empreen- dimento que, ao ser iniciado, estava orga- do em 6,2 milhoes de reais, masja dobrou de custo e pode, ao final, sair por algo em torno de R$ 20 milhoes, conforme denun- ciou este journal um mrs atras (sem ser contestado). Alem dos erros ja materiali- zados e em andamento, quando a Estacio das Docas for colocada em atividade 6 bem possivel que a opiniao piblica descu- bra que o governor entronizou um elefante ) F tLa LD 3 1mtl LLR0) L16TIH LjXi [l 6- *S(0-8 2 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE NOVEMBRO / 1999 Sbranco na orla belenense. E que, as vesperas da inauguraqao da obra, s6 agora o Estado, apressadamente, tenta definir regras para o funcionamento e a comercializaqao daquele centro com mais de 150 mil metros quadrados. O cus- to operacional deverd ser pesado. Inclui a refrigeraqao do interior de enormes estru- turas de ago e vidro (s6 os aparelhos de ar condicionado custaram dois milhoes de reais) e a seguranca, nao so para garantir os freqtentadores, como para prevenir a agco dos ratos d'agua, que serao atraidos por aquele novo ponto. Uma ideia de valor pode ser obtida pelo custo para o Estado do Parque da Resi- dencia, uma estrutura varias vezes me- nor, que combine a sede da Secretaria de Cultura cor pontos comerciais (escolhi- dos sem concorrencia publica. Segundo uma fonte oficiosa, o custeio exige em torno de R$ 50 mil por mes, enquanto a receita e minima. Na Estacgo das Docas esse "deficit" sera varias vezes maior, agravado pelo fato de que o Estado ainda tera que pagar a CDP pela cessao do uso da area (por 50 anos, renovavel). Segun- do os terms que resultaram no contrato de 1997, esse valor seria equivalent a 1% da avaliaqAo do im6vel, ou 80 mil re- ais mensais (ja que os quatro galp6es fo- ram avaliados pela Caixa Econ6mica Fe- deral em R$ 8 milhoes). Assustado com o crescimento do rom- bo previsivel, o govemo tratou de provi- denciar a minute de um segundo termo aditivo ao contrato, tentando mudar as re- gras dojogo com a partida em andamen- to. A remuneraqAo seria calculada de acor- do com a participacgo de cada parte no projeto (o govemo com as obras de refor- ma, a CDP com a avaliacqo do im6vel), mas o Estado, que ira gerir exclusivamen- te o local, s6 se obrigara a repassar a quan- tia devida a CDP "a partir da efetiva arre- cadaqAo de recursos da exploracAo do complexo. Havendo prejuizo, o credito da companhia ficara em suspense, mas ela tera que pagar "todos os impostos que in- cidam ou venham a incidir sobre o im6vel, especialmente o IPTU". Mesmo sustentado no cargo pelo go- vernador, Acatauss6 Nunes nao p6de con- cordar com a formula engendrada nos sub- terrAneos da administracqo estadual. Res- pondendo a proposta do aditivo, foi claro: "A CDP deseja receber mensalmente um valor fixo reajustado periodicamente na forma do que for estabelecido em lei". O valor devera ser pago "sob a forma juridi- ca do arrendamento", em "documentoju- ridico adequado". Ele tocou ainda em outro ponto nervo- so da questao ao observer que "em virtu- de do expressive numero de interessados", a CDP entendia que as areas destinadas as atividades comerciais "deverdo ser ob- jeto de licitaqao public, dando oportuni- dade a que todos possam se habilitar ao process seletivo". Justamente para con- tomar essa imposigao legal, entregando as areas conforme seu livre arbitrio, o gover- no ja concebeu a criaqgo de uma organi- zacqo social, controlada por pessoas da confianca do secretario de cultural, Paulo Chaves Fernandes, autor do projeto e o verdadeiro condutor da execuago dos ser- vioes, embora formalmente eles estejam subordinados a Secretaria de Obras. Numa reuniao realizada em seguida, Acatauassu foi convencido a aceitar, em troca de um valor fixo de arrendamento, que ele fosse reduzido de 80 mil para 20 mil reais por m&s. Essa proposta ainda seria submetida ao CAP (Conselho da Autoridade Portuaria). Apresentada ao public cor uma cam- panha publicitaria e sem o risco de vir a ser revirada pelas entranhas, a Estacgo das Docas e um dos principals instruments com que conta o govemador Almir Gabri- el para dar densidade eleitoral a um candi- dato do PSDB (Zenaldo Coutinho, Fer- nando Coutinho Jorge, Nilson Pinto ou ate um estranho no ninho, o ex-prefeito Sahid Xerfan, o preferido do grupo Liberal, ja que o vice-govemador Hildegardo Nunes nao mordeu a isca de precipitar, em Belem, os pianos que vem montando para todo o Es- tado), no moment destituido de capaci- dade real de vit6ria diante do favorite, o prefeito Edmilson Rodrigues, e seus mais pr6ximos concorrentes, o deputado fede- ral Vic Pires Franco ou o ex-prefeito He- lio Gueiros, pelo PFL. Colocando uma pessoa de confian9a na CDP, Jader Barbalho nao apenas po- deria documentary as irregularidades prati- cadas no projeto da Estacio das Docas, como denunciar o contrato para a cessao do uso do porto. Objetivamente, o Estado encontra-se inadimplente, j que nao cons- truiu a estaqao de passageiros da navega- 5ao fluvial, conforme era sua obrigaqCo. A arma eleitoral, nesse caso, se voltaria contra os tucanos, prejudicando um candi- dato do PSDB e alcancando ate mesmo a administration Almir Gabriel. E claro que a CDP nao e apenas Esta- cao das Docas. Ela administra os princi- pais portos do Estado, mais o de Macapa. Esta atualmente sob a sua responsabilida- de a ampliaq o do porto de Santarem e o piano director para a orla da regido metro- politana de Belem, incluindo a transferen- cia da movimenta~go de cargas para o ter- minal (a ser ampliado) de Vila do Conde e, ao menos em parte, a definicAo sobre o desativado porto da Sotave. Mas liga-la as hidrovias do Araguaia-Tocantins, do Ta- paj6s ou do Capim, ao projeto da alga via- ria, ao elevado do entroncamento e ao as- faltamento da Santarem-Cuiaba e mais do que exagero: e desprop6sito. Esses itens fazem parte de um contencioso mais geral entire o governor do Estado e o Ministerio dos Transportes, feudo do PMDB no mi- nisterio de Fernando Henrique Cardoso. Mas nem todos os problems se restrin- gem a escaramuca political e nem todas as alegaqOes sao verdadeiras. Nao e verdade, por exemplo, que o governador Almir Gabriel tenha se manti- do sempre distant dos cargos federais, deixando que o president da Republica, seu correligionario tucano, os utilizasse para seus arranjos politicos de amplitude nacio- nal com o president do PMDB. Mal to- mou posse no govemo, Almir tentou fazer o seu tambem correligionario e amigo Fer- nando Flexa Ribeiro, candidate derrotado do PSDB ao senado, assumir a superin- tendencia da Sudam. Foi melancolicamente derrotado, mesmo depois de Flexa Ribeiro dar entrevista como superintendent. Em represalia, o governador boicotou os dois superintendents que se sucederam no cargo e nao compareceu as reunites do Conselho Deliberativo da Sudam. Esse tipo de comportamento entomou o caldo das relaqoes cor o Planalto quan- do do epis6dio sangrento de Eldorado de Carajas. Tanto o goverador quanto o pre- sidente sentiram-se injustiqados e traidos um pelo outro, mas cada um guardou suas magoas para os interlocutores mais pr6xi- mos, esfriando uma relacAo que nunca pri- mou exatamente pela confianqa mutua. Essa carga de amargura transbordou quan- do o governador, em Brasilia para uma reuniao conjunta com o president, soube da demissao ja em andamento de Aca- tauassu. Sem assumir a autoria das re- presalias, colocadas na boca do seu se- nador, Luiz Otavio Campos, e nas colu- nas de O Liberal, desferiu ameacas con- tra FHC, culminando corn uma autentica chantagem political: a possibilidade de rom- per cor o governor federal tucano e se transferir para o PFL, hip6tese pra la de improvavel em fungAo de na porta da entrada regional do partido estar acanto- nado o grupo de HWlio Gueiros. A desproporqio entire a reaqao e a sua causa (um ate entAo, ao menos na pers- pectiva de Brasilia, cargo de quarto esca- lAo) deram espaco para o senador Jader Barbalho explorer as idas e vindas do go- vernador e a propria tibieza do governor federal. Ao contrario do que afirmou o ministry dos transportes, o peemedebista Eliseu Padilha, a sucessao na CDP nunca foi uma questao meramente tecnica. Se fosse assim, bem que o ministry poderia aguardar o final do mandate de Acatauas- su, a 31 de dezembro, ou, precisando do cargo por alguma insondavel urgencia, determinar a substituigqo sem ter que con- vocar sucessivamente os conselheiros da companhia para reunites suspensas a ulti- ma hora, fazendo o president do conse- JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE NOVEMBRO /1999 3 Iho, Noboro Ofugi, escravizar-se a uma ver- dadeira ponte area Brasilia-Belem, corn seis viagens em 20 dias para nada. E evidence que, se nao tivesse sido contido pelo Palacio do Planalto (contido, mas nao definitivamente impedido), Pa- dilha teria trocado Acatauassu por Ro- gerio Barzellay, um burocrata muito mais pr6ximo da estrutura peemedebista de Goias e Mato Grosso do que do Pard. A troca dificilmente poderia ser considera- da proveitosa, nem tanto pela presenqa de Jader Barbalho nas engrenagens de bastidores, mas pela pr6pria biografia do tecnico goiano. Aquela que seria sua principal tarefa, conduzir a execucgo da hidrovia Tocan- tins-Araguaia, e uma sucess.o de erros e imprevidencias, inclusive pela estranha decision que tomou de viajar para a Euro- pa e os Estados Unidos enquanto se reali- zava audiencia ptiblica sobre a obra. Mes- mo que fosse fanatico tucano e nao pee- mdebista de ocasido, Barzellay nio seria uma conquista para o Para simplesmente por nao estar comprometido corn o Esta- do, seja onde se encontra, na direcAo da Ahitar (AdministragAo da Hidrovia Tocan- tins-Araguaia), seja se viesse para a CDP. Neste aspect, alias, essa limitaCAo pode ate nao ser falha pessoal, mas um traco (anti)amaz6nico da administraqgo FHC, uma dimensao maior que Almir Gabriel, se dela tern consciencia, prefer omitir.. O goverador, querendo preservar sua grande anna political municipal, criou um falso cavalo de batalha. Alguns dos seus "projetos estruturantes" s6 tem consegui- do realizar-se corn dinheiro federal. Quan- do essa toreira financeira se fecha, ele s6 ter antecipado recursos pr6prios do Estado para obras polemicas, sujeitas a controversial, como os R$ 22 milhOes que adiantou para o asfaltamento da BR-222 (Maraba-Belem/Brasilia), de interesse da Mecominas (frequentemente associada a um de seus filhos, Marcelo), e que o mi- nistro Eliseu Padilha, de caso maliciosa- mente pensado, nio ressarciu ate hoje. Certamente o ministry dos transpor- tes age mais politicamente do que a im- portancia do seu cargo recomendaria. Costuma reter verbas que podem favo- recer adversarios e aplica-las apenas quando aliados podem fatura-las. Mas essa d, infelizmente, quase a regra geral da gestao da coisa ptiblica no Brasil, nos tres niveis federativos, seja com outro peemedebista (na Integraclo Nacional), seja corn um tucano (nas Comunicac6es) ou um pefelista (nas Minas e Energia). Quando o governador Almir Gabriel ame- acar atirar raios e troves em torno da CDP, fantasiando-a de dragao, e depois atira um estalinho, fica-se corn aquela ve- lha sensacAo de que o elefante pariu um rato. Um rato que nio ruge: foge. Um novo capitulo na guerra do aluminio e a Aluvale (Vale do Rio Doce Aluminio) veneer najustiga e na Corte de Arbitragem da .amara de Comercio Intemacional o liti- gio que esta travando corn quatro das suas parceiras na Mineracgo Rio do Norte, a terceira maior produtora de bauxita do mun- do, o setor de aluminio devera passar por uma reformulaoo no Para. 0 conflito (ver Jornal Pes- soal 221) e diretamente provocado pela transfe- rencia de uma parcela menor das aq6es preferen- ciais da Aluvale para a Norsk Hydro, uma das menores cotistas da MRN. Mas o tom belicoso dos litigantes e motivado por repercuss6es mais profundas, que podem afetar interesses estrate- gicos sobre o mais important polo de bauxita, alumina e aluminio da America do Sul, de rele- vancia intemacional. A Aluvale decidiu vender a multinational norueguesa apenas 8% de suas adqes preferen- ciais (que dio prioridade no recebimento de divi- dendos, mas nao o direito de voto), representan- do 40% das aq6es da Rio do Norte. Corn essas aqoes, a Norsk Hydro elevara sua participaqgo na MRN de 5% para 7% do capital (soma das aoes ordinarias e preferenciais), ainda abaixo dos gigantes do cartel do aluminio com os quais con- corre (a Alcoa corn 12,2%, incluidas as aqoes de sua subsidiaria, a Abalco; a Alcan corn 12% e a Billitoncomn 10%). Nao haveria motive para conflitos se a ope- racAo se limitasse a uma transferencia acionaria desse porte numa so empresa. O problema come- qa quando o preqo (53,4 milhoes de reais) que a Norsk concordou em pagar a Aluvale por 12 bi- lh6es de acqes preferenciais (equivalentes a 2% do capital total da Rio do Norte) "corresponde a uma avaliaqao da companhia que e algumas ve- zes o valor a que chegou a pr6pria MRN", se- gundo oficio de contestaqao da Billiton, que con- clui: "nos e evidence que a Norsk Hydro poderia obter a mesma quantidade de aoqes preferenci- ais pagando preco substancialmente menor". Por isso, quando infonnada pela Aluvale da transagao, recebendo prazo de 60 dias para exer- cer o direito de preferencia que o acordo de acio- nistas da MRN Ihe faculta, a Billiton, a Alcan e a Alcoa exigiram que a subsidiaria da Companhia Vale do Rio Doce para o setor de aluminio Ihes prestasse mais informaoqes, alem das que acom- panharam o oficio de comunicagao. A Billion observou que "estudos e avalia- cqes recentes, levados a efeito no ambito da MRN, zoncluiram por valores muito inferiores" aos en- ,olvidos na operaqgo Aluvale-Norsk. Essa cons- tataqao a fez questioner se estavam em causa apenas as aq6es preferenciais da MRN ofereci- das ou se o preqo "reflete o valor econ6mico de outras operaq6es" acordadas entire a subsidiaria da CVRD e a empresa norueguesa, "que culmi- nara corn a participacao da Hydro na expansdo da Alunorte" (podendo chegar a dobrar a produ- qgo atual de alumina, de 1,5 milhao de toneladas anuais). Como a Alcan e a Alcoa, a Billiton nao queria apenas mais informacqes sobre a transa- qio corn as aq6es da MRN: cobrava dados sobre o memorando de entendimentos (muito mais amplo) Aluvale-Norsk. Como a Aluvale responded que tudo o que o acordo de acionistas Ihe impunha em relacao aos parceiros da MRN fora cumprido, as tres multina- cionais que comandam o mercado de aluminio recorreram ajustica para sustar a consumaqoo da operaoqo de transferencia, antes que se esgotas- se o prazo de 60 dias, e submeteram o litigio a contencioso administrative intemacional. Najustiga, a revised da decision de primei- ra instancia, dajuiza da comarca de Oriximina, .ivoravel as tres multinacionais, parece que vai demorar: a desembargadora Isabel Leao, para quem o process foi distribuido em uma das camaras civeis do Tribunal de Justica do Estado, declarou-se suspeita, exigindo nova distribuiqio. Administrativamente, o litigio devera ser julgado no Rio de Janeiro atd o final do ano. Independentemente dessas duas defini- cqes, porem, o clima de entendimento entire os principals s6cios da MRN foi rompido, talvez definitivamente. Nos bastidores, nenhum dos contendores deixa duvida de que a reaq~o de Alcoa, Alcan e Billiton nio e propriamente con- tra a elevaqdo da participaq o da Norsk no ca- pital da Rio do Norte, mas aos pianos da multi- nacional norueguesa (a quarta do mundo) de estabelecer no Para um process integrado para o suprimento de materia-prima e insumo basi- co nas etapas de produqgo de alumina e alumi- nio. Se seus pianos derem certo, ela se torara auto-suficiente, totalmente livre de terceiros (o que inclui seus grandes adversarios do cartel). O volume envolvido nessas etapas e expres- sivo. Se o memorando de entendimentos cor a Aluvale for executado na integra, as duas em- presas sacarao seis milhoes de toneladas de bauxita da MRN (o que significaria 60% da pro- duqio atual, de 10 milh6es de toneladas, sendo provavel que force sua expansio para 14 mi- lh6es de toneladas). A reserve de alumina para a Norsk podera evoluir de 800 mil toneladas para 1,5 milhao, o equivalent a toda a atual produ- qgo da Alunorte. Os direitos sobre o aluminio, que comeqario em 50 mil toneladas, poderio triplicar cor novos investimentos (de ate US$ 1,6 bilhao) na Albras. E um conjunto produtivo respeitavel, podendo provocar deslocamento de powder no mercado capaz de irritar o cartel. Em 10 anos, o neg6cio pode envolver de 2 bilh6es a 2,5 bilhoes de d61ares. Alem de tudo isso, que ja seria o bastante para fazer as sedes das multinacionais do alu- minio se moverem, ha ainda uma incognita. O entendimento global Aluvale/Norsk indicaria que o grupo CVRD desistiu do projeto inicial de sair do setor de aluminio, que Ihe exigiria muito capital, exatamente porque os noruegue- ses se comprometeram a entrar no neg6cio aportando muito dinheiro, ou, ao contrario, esta marcando uma nova posiqgo para, em se- guida, entregA-la a Norsk, que desferia um gol- pe no plexo dos concorrentes? O que comeqou como escaramuqa de gol- pes sutis pode se transformar numa guerra aberta, na qual os s6cios de hoje estario em campos diametralmente opostos. 0 4 JORNALPESSOAL 1 QUINZENADENOVEMBRO /1999 Cartas Por tras de tudo,o PT Prezado Jornalista. E corn muito interesse que leio seu jomal, sempre na expectativa de encontrar uma "boa nova" do Norte. Mas, confesso que seujomal me causa um certo estranhamento, uma quase perplexidade. E um journal de uma unica visao, de um 6nico dono da voz, de um unico ponto de vista, um jor- nal, portanto PESSOAL. Respeita- das as diferenqas que neste caso fa- zem a diferenca, lembro Aporelly de quem a patota pasquiniana herdou um certo humor. Porem o que me permit a comparacqo e o seu amar- gor, seu ressentimento, sua exclusao. Lendo Bellem no seujomal leio a des- truicAo, a catastrofe. Olhando, viven- do Belmrn por ocasiao do Cirio/99 descubro uma cidade que nao via lim- pa ha muito tempo, urna cidade que comeca a voltar-se para o rio, sua tra- dic o mais antiga, ura cidade que co- nmea a ser amada pelos que nela vi- vem cotidianamente; uma cidade que comeca a ser reeducada que aprende que o que ela admira fora, pode tam- bem ser parte de seu dia a dia. Bclem comela sair da poesia que a enclau- surou para tomar-se poema. As ja- nelas para o rio, contrariando os prog- n6sticos, e um lugar vitorioso onde todos os trabalhadores sem restriqlo ou valoracio de sua atividade freqiien- tam democraticamente. A prop6sito, prezado jornalista, mesmo contra sua vontade Lula e o seu "quartel general" nao tramam contra o povo mas a favor de uma nova e revigorada Ctica onde a plura- lidade, a diferenca nao mais apostam em uma modemidade carrancuda, res- sentida e fora do lugar. ANA LOCIA BANDEIRA GOMES Minha resposta Infelizmente, minha resposta tera que ser muito mais longa do que a carta de Ana Llcia. E para poder responder a cada uma das acusaq6es que ela faz a meu ver, scm muita reflexao. Sera mesmo Ana Lucia o nome de quem me remeteu o e-mail? Eu poderia ter exigido que ela me man- dassc endereco complete e niimero da carteira de identidade para verifi- car se o nome corresponde realmente a identidade do remetente da mensa- gem. Mas prefer deixar esse "deta- Ihe" de lado. Sei que muita gente den- tro do PT, principalmente os mais identificados com o prefeito Edmil- son Rodrigues, tern as mesmas opi- ni6es de Ana Lucia. Vou contesta-las corn o respeito que todos os meus critics merecem, mesmo aqueles que se escondem atras de pseud6nimos ou de colunas falsamente assinadas emjomais velhacos. Mesmo quando cometem muitos erros de portugues, que procuro corrigir, sem o prop6si- to de usa-los como arma de ataque (retocando a grafia, mas deixando in- tacta a pontuaq o, para nao ser acu- sado de alterar estilo alheio). Minha critical lamenta que este seja ojornal de uma s6 voz. Esquece a origem do JP, em 1987: fundei-o para publicar toda a verdade sobre o assassinate do ex-deputado Paulo Fonteles de Lima. Em seguida, sobre o rombo praticado no Banco da Ama- z6nia (de 30 milh6es de d6lares), que toda a grande imprensa escondia ate entao. E assim, sucessivamente, ate que, em 1988, me desliguei de vez da grande imprensa. Restou-me este es- pago. Nao e um journal pessoal por- que optei por ser um iconoclasta: e porque nao me restou alternative. Tornei-me um ousider, umjornalista definitivamente alternative, como re- conheceu Bernardo Kucinski (ur in- telectual do PT) em Jornalistas e Re- voluciondrios, livro quejai e um clas- sico sobre o assunto. No entanto, tenho publicado to- das as cartas que me sao enviadas, inclusive as francamente insultuosas e ofensivas, como as de Oliveira Bas- tos (ver Jornal Pessoal 151/152). Logo, mesmo sendojomal de umjor- nalista s6, os leitores aqui tem voz, cor a garantia rara na grande im- prensa de que podem se manifestar sem peias, ainda que atacando o dire- tor-redator-rep6rter-continuo. Sou uma pessoa ressentida por ter sido excluida, contaminando de mau humor este quinzenario? Ana Lucia tern todo o direito de achar que esta 6 uma publicaiao muito menor comparativamente a A Manha, Pas- quin ou Bundas. Mas nao pode con- trariar os fatos. Nunca fui demitido de nenhum dos lugares onde traba- lhei. Sempre sai porque quis, por nao me submeter a algo que contrariava meus principios. Talvez nao possa mais voltar a grande imprensa, na qual trabalhei ininterruptamente por 22 anos. Mas porque teimo em nao re- nunciar a principios, em continuar praticando ojomalismo independen- te que caracteriza este JP, mesmo comn seus muitos erros, e que talvez seja inviavel em outros lugares. Afinal, pelo que sei, s6 existe um journal pes- soal neste pais. Deve haver alguma li go contida nessa singularidade. Se nao fui excluido da minha pro- fissao, talvez a leitora esteja se refe- rindo a exclusao do poder. Devo di- zer-lhe que nunca fiz parte da estru- tura do poder. Ji fui amigo de gover- nadores, freqientei-lhes ate os gabi- netes com assiduidade. Mas quando essa convivencia prejudicou a infor- maqio, afastei-me. E eles, sentindo o perigo da fiscalizagAo, tambem me afastaram. Inclusive o prefeito Ed- milson Rodrigues. Ao final do debate entire os can- didatos a prefeitura de Belem, na TV RBA, em 1996, fui saudado pela cla- que do PT como her6i. Eu teria en- curralado o candidate Ramiro Bentes e, assim, ajudado o candidate petis- ta. Nao foi exatamente assim. Mas dessa maneira a situaqAo foi interpre- tada pela militancia. A partir dai, se quisesse, eu poderia ter-me incorpo- rado a entourage e, talvez, subido ao poder. Mas permaneci na minha, deste lado do ringue, onde sempre ficou o meu corner. Quando comecei a criti- car o alcaide, fui perdendo o encanto para ele e seus aulicos. A um ponto tal que a assessoria de comunicaqao, chefiada por uma amiga (ex?), sequer dignou-se a responder a meu questi- onario, formalmente encaminhado. Sou uma bete noire para nosso amigo Edmilson. Estou contaminado por um virus que causa horror aos tira- nos: a vontade de querer saber, de checar as informaq6es fomecidas, de nio engolir press-releases. Nao se atormente, Ana Lucia: estar fora do establishmentjornalis- tico ou do poder nao me causa a mais leve das angistias. Tem sido assim em 34 anos de exercicio professional. Nesse period, briguei com todos os poderosos de plantao, sim. Mas nao foi por ressentimento ou mau humor (felizmente, e minha unica arma con- tra as inevitaveis amarguras da vida). Foi por dever professional. S6 isso. Amo Belem, que me deu o titulo de cidadAo honorario. E nao em abs- trato. Mas porque a cidade e, como disse Antar Rohit (a expressao nao me soa bem, mas vamos 1a), amora- vel. E assim a despeito dos seus ad- ministradores. E cada vez menos, porem. A cidade atraente e charmosa se restringe ao quadrilatero das man- gueiras. Ainda e o residue do projeto urban (e de poder) que a elite mon- tou e aplicou corn o abundante di- nheiro da borracha, entire a metade do seculo passado e as duas primeiras decadas do seculo que esta chegando ao fim. Mas as administraq6es muni- cipais estao sacando os ultimos che- ques do talonario. Nada assemelhado surgiu desde entao. O que se faz e maquilagem, remendo, profilaxia. Acho que o governor do PT e me- Ihor do que o de Helio Gueiros, mas nao substancialmente melhor, como podia ser se nao excluisse os diver- gentes incorporando apenas o que se original do apparatchick. Corn alguns stores trabalhando serio e bem, nio e o suficiente, contudo, para estancar ajj longa detcrioracAo relative da nos- sa cidade em relagAo as demais me- tr6poles brasileiras, principalmente vis-a-vis Manaus (o que nao deve ser motive para uma competiqao idi- ota, que s6 mal tern feito ao Para e ao Amazonas). Apesar da attitude mu- nicipal hostile, o leitor que consultar a coleqAo destejomal encontrara mui- tas critics construtivas e propostas praticas de acqo. Podem ser initeis, mas nesse caso s6 admito a condena- q o de quem demonstrou-lhes a inu- tilidade. Nao de oqem condena sem o minimo esforuo analitico, apenas para punir o inficl herege. Quanto a tal "janela para o rio", trata-se de uma fresta demag6gica. Dara votos ao prefeito no pr6ximo ano e encantara muita gente, mas e porque o povo belenense esta corn expectativas muito baixas. Ter so- frido tanto que qualquer analg6sico e encarado como a remogqo das causes da dor. E Ana Lucia esta errada quan- do se refere a uma "tradiqCo mais an- tiga" de busca pelo rio. Muito pelo contrario: a tradiqao ter sido a de uma cidade de costas para o rio, lu- tando contra sua diretriz hidrografi- ca, fluvial. Nao e por acaso que o aterro tem sido a principal ferramen- ta eleitoral. Gostaria de ver essa "etica da di- ferenqa" que a leitora identificou em Edmilson. Nosso prefeito se recusa a responder a perguntas inc6modas. Quando confrontado, reage com pe- dras nas maos. Sua comunicaqao e feita, cada vez mais, atrav6s de mate- rias pagas, por relaq6es p6blicas. O Diario Oficial do municipio 6 quase uma publicaoao clandestine, de aces- so dificil, a tornar peca publicitaria o compromisso con a transparencia. Os critics sao anatematizados. Edmilson responded apenas uma vez a este journal. Depois, calou-se. Diz aos seus intimos que nao vale a pena responder ao JP. Por que, se publi- quei sua carta na integra? Por que, se todas as respostas sao aqui acolhidas absolutamente de graqa? Por que, se ate contraria-lo eu era considerado um interlocutor interessante? Tao litil que, em varias ocasides, tive provei- tosas relaebs corn a direqio e os in- telectuais nacionais do PT, convida- do a auxilia-los em algumas circuns- tancias. Mas, aqui, s6 fugidiamente. A mancira de Machado de Assis, perguntaria: quem se tornou diferen- te, eu ou o PT local? Fica a pergunta. eir .- m at materia corn o titulo 1 ra de desenvolvimento ou mero fundo de aoqes na Amazo- nia". Dc fato, nao sera corn este novo discurso tecnocratico que o governor federal ira resolveros problems ama- z6nicos. Tambem nao e trocando os nomes de instituiq6es que se provo- ca mudanqas, no sentido lato da pala- vra. As filigranas do pessoal encaste- lado no planalto sao bem nossas co- nhecidas. Por ocasiao da instalacio do "enclave" "Programa Grande Ca- rajas" eles j afirmavam: "Em terms macroeconomicos, objetivou-se a im- plantacio de um parque industrial progressivamente diversificado, prin- cipalmente em terms nacionais (gri- famos...". Surgiu a Sudam, na seqiiencia da SPVEA e muitos outros programs frutos do oportunismo politico, man- comunado corn o intellectual national adrede preparado para servir os pro- p6sitos hegemonicos do grupo do- minante. Nao houve, nem ha liame algum entire os grandes projetos ins- talados na Regiao cor o seu organis- mo responsavel pela conduiao do desenvolvimento. A acao de planeja- mento estanquc contradiz corn o pr6- prio dinamismo da economic. Ela tem de estar ligada a um designio maior de ambito national. E o tal do "subpro- duto" na linguagem do president poliglota. Precisamos de um piano estra- tegico amarrado a um cronograma de recursos oportunos e suficientes, JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE NOVEMBRO/ 1999 5 Veja a Veja (mas nao leia?) ta se orgulha de ser a quinta maior revista semanal de informaq6es do mundo. E realmente motivo de orgu- lho, tanto para a revista quanto para o pais no qual ela circula, que nao se notabiliza internacionalmente por feitos culturais. Em seu numero 1.620, o da semana pas- sada, 31 anos depois de ter comeqado a cir- cular, Veja comemorou recordse" (cautelo- samente, nao quantificados). Nunca uma ediqao regular como aquela tivera "tanto es- paqo dedicado a reportagem". Foram "117 paginas editorials", num total de 212, refle- tindo "o moment altamente positive vivido pela revista". Alem disso, em setembro a venda em ban- ca "atingiu a media de 220.000 exemplares por edicio, a maior da revista". Vendagem que represent 70 mil exemplares a mais do que a soma da venda em banca "da segunda e da terceira revistas semanais de informacao do pais" (as nao citadas Epoca e Istoe). Acres- centando-se a esse feito os "quase I milhafo de assinantes", conclui-se que Veja e lida "por mais de 5 milh6es de pessoas", para orgulho da revista dos Civita, "a elite do Brasil". Na sua "carta ao leitor", o editor diz que essa circulaqao atrai empresas cuja publici- dade "sera vista por quem realmente impor- ta". Alcanqando tal sustentagao financeira, "garantida poi esse circulo virtuoso de confi- anqa", que so'na leitores privilegiados a anun- ciantes cativados, Veja "nLo depend de pu- blicidade official ou de favors de governor para existir". Consegue ser, assim, "uma pu- blicacio inteiramente isenta e independente, comprometida apenas cor seu leitor. Sera? Em primeiro lugar, cheque-se o record. Coloque-se de lado qualquer duvida sobre a declaracao das 117 "paginas editorials". Ad- mita-se que tal nuimero seja verdadeiro e que realmente jamais a redaqio haja recebido tal quantidade de paginas. Preliminarmente, po- rem, deve-se lembrar o compromisso origi- nal de Veja de nio ter mais do que 40% de paginas de publicidade em suas edic6es. No caso, seriam apenas 84 paginas de propa- ganda (mas teve 95). Releve-se, porem, essa diretriz, residue de uma epoca de modestia na expectativa de fa- turamento que a maquina registradora deixou para tris. Afinal, a revista ainda assegurou para a redagao mais do que metade da edicao. Resistira, no entanto, o record comemorado ao seu segundo questionamento, o da pro- por:Ao? Se e verdade que nunca antes Veja teve tantas paginas redacionais, em valores absolutos, sera que no passado nao houve uma proporgco maior, considerando-se o to- tal de paiginas? Basta examiner as ediq6es seguintes aquele desastrado primeiro n6me- ro de 1968 para verificar que a redaco ja teve, proporcionalmente, muito mais paginas para si do que agora. Mas tambem em relaqio a esse ponto nao se deveria armar um cavalo de batalha. 0 triun- falista editor argumentaria que as edic6es re- gulares de Veja nunca estiveram tdo encorpa- das como agora, o que enfraqueceria o peso relative diante dos valores quantitativos sen- sivelmente maiores. Tal argument s6 pode- ria prevalecer se resistisse a uma checagem, comparando-se as ediq6es de hoje cor as que se seguiram a pianos economics salvacio- nistas, como o Cruzado, o Collor ou o Real. Essa verificaqao direta e necessaria por- que a informaqio (ainda quejurada) do editor insere-se em contextos sujeitos a dfivida, ja que alguns dados sao sonegados do leitor. As assinaturas, por exemplo, sao cstimadas em "quase 1 milhio", uma declaraLio de im- precisio nada desprezivel por envolver valor com sete digitos. Admitindo-se que esse "quase 1 milhao" sejam 990 mil assinantes, eles, somados aos 220 mil exemplares da venda avulsa, repre- sentam a comercializacao de 1.210.000 exem- plares. Como a tiragem declarada da revista e de 1.299.789 exemplares, isso significa que o encalhe da revista e inferior a 7% (ou 89 mil exemplares). Se esse numero e verdadeiro (donos de bancas que consultei chegam a se referir a encalhes de 40% a 50%), entao esta ai mais um record, que Veja deveria ate ter comemorado mais do que os outros. Sem, no entanto, chegar a trombetear que seu uni- verso de cinco milhaes de leitores (3% da populag-o brasileira, ou 7% dos brasileiros com mais de 20 anos, teoricamente os que estio em condiq6es de comprar a revista) sao "quem realmente importa". De fato, eles constituem a elite do pais e nessa condiqgo devem ser encarados. Mas quando restringe o ambito do seu alcance a eles, Veja se reduz a uma publicac o de clas- se m6dia. Nio ha nada de condenavel ou criticivel nisso. Mas ela deve modificar a reda~io do texto no qual declara que seu compromisso exclusiveo e corn o leitor". Ficaria melhor dizendo que seu compromis- so e cor um leitor exclusive, o de classes media. Dessa maneira, sua definiLio ficaria mais clara e mais corretamente poderia ser entendida pelos restantes 93% dos brasi- leiros com todas as condiq6es de entende- la, mas que nao podem aspirar a ser por ela compreendidos ou mesmo visualizados. Porque ela nao os inclui entire "quem real- mente importa". Se esse eo preqo a pagar para se tornar realmente independent da verba publici- taria manejada pelos governantes confor- me seus interesses ou caprichos pessoais, a desatracaqio do mastodonte estatal pode ser apenas fisica, nao emotional, nem raci- onal. Veja seria oficialesca nao para faturar publicidade, mas por ser de sua ess&ncia (ou de seu compromisso) ser dessa manei- ra. Para efeito de formaq o de conscienci- as, essa distingio moral e tao irrelevant quanto o esforqo supostamente pacifista de governor que comemoram a redugio da capacidade de destruiq o dos seus arsenals nucleares de muitas centenas de vezes para algumas centenas de vezes. De qualquer maneira, parabens a Veja. Ganhar e o que realmente importa, ao me- nos segundo a otica de "quem realmente importa". 0 porem nio existe essa pratica no Brasil. Possuimos, talvez, a maior area cultivavel do planet, propicia para a agriculture e pecuaria. No en- tanto, padecemos de baixa produti- vidade e de outras mazelas que li- mitam nossa participago no grupo dos paises maiores produtores. Es- sas restriQ6es obrigam-nos a impor- tar alimentos para satisfazer nos- sas necessidades primarias. O ex- ministro Francisco Turra bem que se preocupou corn o assunto e I .r- tejou o primeiro plancjamento Igri- cola da hist6ria do Brasil, para as pr6ximas decadas. Como ele nio esta mais ministry, e posjivel que seu eslorqo va parar na lata de lixo, o que consider, sinceramente, umn ato de extrema torpeza. Na Amaz6nia, alem de um traba- Iho dcssa envergadura, 6 important colocar na Sudam pessoas conecta- das com essa aspiraq~o maxima. So assim sera possivel desenvolver uma tarefa cor tal complexidade. Have- remos de apartar a Sudam (ou outro nome que vier a ter) de injunbes politiqueiras que tem prevalecido na indicacio de seu superintendent, porque se assim nao for a autarquia continuara refCm das liderancas (?) de partidos politicos-como ter sid- ati esta data.. Pelo perfil do novo gestor e scu hist6rico ligado as fac- q6cs de mando continuado nesta tris- te Republica, temo que as coisas difi- cilmente mudarAo. Todos esses fatos nos levam a uma questAo que merece ser devida- mente explorada. Trata-se da aus-n- cia de debates sistematicos sobre te- mas de interesses regionais ou mes- mo nacionais. A t6nica & a discussion imediata, quando ha, em cima do fato gerador, seguido da aceitacio tacita e depois o esquecimento. As political publicas, no Brasil, infelizmente sio decididas e elaboradas no ambiente restrito da hierarquia do poder, sem ouvir-se a sociedade. Por isso, acho que o document inerente as transformaraes (?) do Basa/Sudam sera cncaminhado a co- munidade apenas para seu conheci- mento, ou, quando muito, para ense- jar um ligeiro bate-bapo corn os pro- fissionais engajados no Governo Es- tadual. A elite pensante paraense que moureja nos pavilhdes universitarios ha d6cadas, prcfere se eximir do pro- cesso politico regional, numa flagrante demonstracqio de indiferenca. En- quanto isso, os profissionais com- prometidos cor o poder- aos quais nio interessa se o Governo d de direi- ta ou esquerda ou centro, reinam ab- solutos, dio as cartas e distribuem os cifr6es. A prop6sito, certo profes- sor universitario, hoje Magnifico Rei- tor, declarou solenemente em deter- minado moment o "irresistivel des- preparo cientifico" do tdcnico ama- z6nida. Opiniaio da qual discordo, mas pass a bola pra voce. RODOLFO LISBOA CERVEIRA Minha resposta E eu, por enquanto, em funiio de espaco, repasso ao leitor. 0 6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE NOVEMBRO / 1999 m marco do ano passado revelei nes- tejornal documents referentes a Ca- banagem que estavam arquivados no Public Records Oficce, de Londres, absolutamente ineditos de consult e uso. O principal dessa documenta- Fio era constituido por correspondencia entire oficiais da armada (a mais poderosa de entao) e o Foreign Office, o Ministerio das Relac6es Exteriores da Inglaterra. Ain- da em ingles, essas cartas representavam a mais important fonte de informaqbes so- bre a Cabanagem desde que Domingos An- t6nio Rayol publicou, em 1865, o ultimo dos cinco volumes do seu Motins Politicos, ainda o melhor livro que se escreveu sobre as rebelioes sucessivamente eclodidas no Para entire 1821 e 1835. Conclui sob forte impact a leitura dos documents, generosamente remetidos de Londres por David Cleary (que j devia ter recebido uma homenagem official por essa sua iniciativa, mais util do que a maioria dos livros escritos sobre o tema). Traduzi alguns trechos e publiquei uma longa material de capa no JP 182 (cor o provocative titulo "Quando o Brasil entregou a Amaz6nia"), replicando-a na ediqao seguinte, a instin- cias de William Overal (ur estrangeiro como Cleary, autor da unica carta de leitor a pro- p6sito do assunto). Desde entao, em todas as minhas palestras tenho insistido na gra- vidade e relevincia das informacqes trazi- das por esses documents oficiais da In- glaterra para a elucidacgo de um dos mo- mentos mais decisivos da hist6ria da Ama- z6nia (e do Brasil imperial). Fez-se, no entanto, complete silencio a respeito. Ate nas academias. Confesso mi- nha decepqCo e perplexidade corn esse fato. t claro que a correspondencia do almiran- tado de sua majestade britanica nao encer- ra as abordagens possiveis da Cabanagem. Muito pelo contrario: exige que elas sejam inteiramente revistas, inclusive em alguns de seus pilares, naquilo que ja era aceito como verdade cientifica, factuidade. Per- gunto-me se essa conspiraqao do silencio nao decorre justamente do desafio intelec- tual que o exame de tais papeis acarreta. Muita gente tera querido permanecer com suas verdades e dogmas, cor certezas que nao serve a reconstituiqAo da hist6ria, em- bora sejam ferramentas preciosas em palan- ques, numa ret6rica cujo inconseqiiente vazio de conteudo ofende o sangrento tes- temunho dos cabanos. Foi precise a Folha de S. Paulo publi- car uma reportagem a respeito da documen- tagAo inglesa inedita para o assunto reper- cutir na grande imprensa local, um ano e meio depois do "furo" deste journal. Note- se que a materia do JP era analitica e inter- pretativa, enquanto o grande journal paulis- ta limitou-se a uma destacada reportagem de divulgaqao, comegando por uma definigao inteiramente equivocada da Cabanagem, "uma fracassada revolta separatista. Mitologia cabana Interesse public Planetario pelo gj Nenhuma autoridade Srespondeu aos questi- onamentos aqui feitos na edi- cao anterior. Apesar desse es- timulo (e do silencio do leitor), esta seqao prossegue. SConforme ja virou a marca registrada da administragAo Almir Gabriel, mais um contrato foi assinado para a conclusio das obras do Planetario. O primeiro contra- to, que deveria bastar para a complete realizaqAo do servi- co, mostrou-se insuficiente, ape- sar dos aditamentos, de valor e de prazo. Um novo contrato, no valor de 413 mil reais, foi assinado. O primeiro aditivo, em agosto, foi para reajusta-lo em mais R$ 86 mil. O segun- do, no mrs passado, para am- pliar em mais um mes o prazo para a conclusao da obra, que era o dia 13 de outubro. Sera que a Secretaria Executiva de Obras Publicas se permitiria in- formar por quanto ja saiu esse projeto essencial, alias, para o Para dos nossos dias? ... A Secretaria de Transportes assinou neste ano, cor a CBK Enge- nharia & Arquitetura, um con- trato no valor de R$ 626 mil para a "execuc.o dos servigos complementares de paisagis- mo" da recem-inaugurada (eja recem-criticada) avenida Julio Cesar, que da acesso ao tam- bem recdm-inaugurado novo aeroporto interacional de Be- S lem. Quern a lto anda, desliza e sacoleja pela novel pista deve se per- guntar onde foi gasto tanto di- nheiro assim e que paisagismo e realmente esse. Haveria ate uma razAo -di- gamos assim-nominalista para a incredulidade. A empresa que executou o servigo encomenda- do pelo Estado era, originalmen- te, de engenharia & arquitetu- ra. Ai estava um pretexto para a duvida. Mas elajij foi sanada. Um aditivo de re-ratificaqio ao contrato original, publicado no Diario Oficial do Estado do ulti- mo dia 15, informa que "a partir de 20 de agosto, (...) "em face de cisao ocorrida", todos os di- reitos e obrigac6es que eram pertinentes a CBK Engenha- ria & Arquitetura passaram para CBK Engenharia, Arqui- tetura & Paisagismo. Tudo bern: estaria saneada a falha, a posteriori e ad refe- rendum dodistinto ptblico, tudo conforme manda o latim buro- cratico. Mas ainda ha mais na mesma edicao do DO. Um ou- tro aditamento foi baixado para suprimirdo contrato original uma clausula de garantia contratual, "uma vez que essa exigencia nao constou do Edital referente a Tomada de Preco n" 047/99". A providencia foi "decorrente de solicitacAo feita pela Direto- ria de Transportes Terrestres" da Setran, "devidamente acolhi- da e autorizada pelo Sr. Secre- tario Adjunto". Nao foi dito, mas presume-se que a propria em- presa, a maior interessada (ou unica?) na supressao, tenha aci- onado a tal diretoria, que cur- Pode-se alegar que o Jornal Pessoal nao conta. Em parte, e verdade: ha sempre a ma vontade do coro dos contents cor o que sai aqui. Mas so em parte: o universe de leitores deste pequeno e precario journal eqiiivale a quantidade de torcedores que foram no iltimo domingo ao estadio ver o jogo do Clube do Remo. E uma elite. Mas de que vale uma elite muda? O epis6dio diz muito sobre nossa ati- tude de colonizados. Continuamos a ra- ciocinar por tabela, por mimese ou com- pleta macaqueacio. E precise que primei- ro a sede do poder avalie os fatos para podermos digeri-los naturalmente, ja mastigados. Estamos condenados dessa maneira a pensar pela cabeqa do coloni- zador, na sina martiriol6gica de quem s6 sabe dos fatos quando eles ja estao con- sumados, numa agenda cotidiana desli- gada da hist6ria, um alimento pronto para levar ao forno. E quase impossivel fazer hist6ria em tais circunstancias. Embora a hist6ria bata em nossas portas e toque nossos narizes. Ainda assim, entretanto, espero que o sinete da metr6pole motive os paraenses a discutir o tema, reaberto pelos papeis in- gleses (que sd deverao ser publicados nos Anais do Arquivo Publico, em dois tomos, no inicio do pr6ximo ano). Para merecerem seu valor, as cabeqas precisam ser expos- tas. Que elas repensem a Cabanagem, ao menos para reduzir a margem de mitologia que ainda recobre esse moment vital da nossa hist6ria, tirando-o da boca dos de- magogos e colocando-o ao alcance dos que ainda se empenham em fazer a hist6ria. 0 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE NOVEMBRO /1999 7 az 60 anos que a Livraria do Globo, a hist6rica editor gaucha (nao con- fundir com a Globo de Roberto Ma- rinho), de Barcellos, Bertaso & Cia., editou Geografia Humana (Estudo da paisagem cultural do mundo). Seria apenas mais um livro di- datico, "rigorosamente de acordo corn o program official do 39 ano seriado" (na- turalmente, do curso secundario), se seu autor nao fosse Josue de Castro, a 6poca professor da Universidade do Distrito Federal (ainda o Rio de Janeiro). Estavamos em 1939 e Josu6 ja havia publicado nada menos do que outros nove livros. O primeiro deles, Oproblema da alimentacdo no Brasil, editado em Re- cife, em 1932, merecera mais duas edi- c9es (ambas pela poderosa Companhia Editora Nacional, de Sao Paulo). Josu6 estava cor apenas 31 anos, mas sua bibli- ografia (10 titulos em oito anos) revelava por inteiro o perfil do humanista e do sabio com o qual ele encerraria seus dias, em 1974, como um dos mais notaveis e injus- ticados brasileiros. Morreu no exterior da mais pura e profunda saudade do pais que tanto amou e que tanto o maltratou. Ojovem professor fizera um inqueri- to na capital pernambucana sobre as CondiCges de vida das classes operci- rias, no ano seguinte lancado na capital federal. Consciente do valor daquele nor- destino, o Rio de Janeiro imediatamente o atraiu, divulgando, em 1935, seu estudo sobre o Salcrio Minimo. 0 esperto, in- teligente e perspicaz Jos6 Olympio abri- garia em sua editor, grande em suas entranhas como a baleia biblica, dando a luz o ja classico Documentdrio do Nor- deste, de 1937. Nesse mesmo ano sairia o primeiro dos livros de Josue de Castro em lingua estrangeira (ele 6 um dos brasileiros mais traduzidos at6 hoje): Science et Techni- que, ediqAo do Ministerio da Educaqao para a exposicao de Paris de 1937. Isso mesmo: sob o Estado Novo, a ditadura getulista, um intellectual que na ditadura seguinte, a dos militares, ja sem interme- diarios ou procuradores udenistas, seria perseguido como comunista, era apresen- tado a capital francesa (onde, alias, vive- ria seu triste exilio de 10 anos). O livro didatico que vasculhei nos ar- quivos e que me estimula a fazer aqui estas recordaqoes foi editado no apogeu do Estado Novo, o autor dando aulas na principal universidade federal. Nao que o ambiente ainda fosse buc6lico entao, nem se manteria assim ate Getulio Vargas ser colocado para fora do poder por seus Melancolia e relativismo vou-se a solicitagao, cor o de- vido amparo legal, mas nao to- mou a iniciativa 6 claro. Se o fez, nao tera cometido aquilo que os advogados chamam de ultra petita, em latim, como convem? Ainda no exemplar referido do DO uma outra re-ratificacgo aditada (como as outras, sem numeraqdo), corrigiu uma das clausulas sobre as obrigaqoes da contratada, fazendo-a "assumir plena responsabilidade adminis- trativa e tecnica pela qualidade dos services executados, porum prazo de 03 (tres) meses, ap6s o recebimento dos services pela Setran". A origem de tao salu- tar providencia nao foi identifi- cada, ao contririo da anterior. Mas se o toque veio de fora, sera que de la nao podem vir outros empurroes para esclarecer me- lhor esses remendos burocrati- cos em tomo de uma obra em seu conjunto pra la de polemi- ca? Vamos torcer que sim. 'Ainda no mesmo nu- -mero, o DO abrigou outro termo aditivo (este nume- rado, o 4) da Secretaria dos Transportes ao contrato com a Queiroz Galvao para o tao co- mentado Projeto de Reurbani- zacao da Orla do Macarico, em Salinas, que ficou prorrogado de 15 de outubro para 31 de dezembro. O distraido redator do extrato apenas se esqueceu de indicar o valor original do contrato, contrariando determi- naqao feita nesse sentido por resolucao do Tribunal de Con- tas do Estado. O TCE vai co- brar o cumprimento da norma? Se o fizer, deve aproveitar para forqar a Setran a republican o aditivo de prorrogagao de pra- zo para a iluminaqao da mes- ma avenida Julio Cesar, no qual a omissao foi em relaqao ao adi- tivo anterior. < ( A dupla exibigdo em Sao Paulo do espe- tdculo Trazendo Che no co- racao custou aos cofres pu- blicos 60 mil reais, pagos, corn inexigibilidade de lici- taCao, c empresa M. F Pro- duCdes Artisticas. 0 ordena- dor da despesa, Paulo Cha- ves Fernandes, secretdrio estadual de cultural, e umn dos autores do espetdculo. Isto e que e ser artist. O 0 custo dos services Sde manutenao pre- ventiva e corretiva nos equipa- mentos de ar condicionado cen- tral do Museu de Arte Sacra, no conjunto arquitet6nico de Santo Alexandre, foi reajusta- do de R$ 3,6 mil para R$ 4,6 mil mensais e a vigencia do contrato prorrogada por mais um semestre. Pago pela Se- cretaria de Cultura. < Abro duas enquetes nesta secao para que o leitor se manifJste. A pri- meira: quem coloca mais pla- cas de obras nas vias puibli- cas, o governador Almir Ga- briel ou o prefeito Edmilson Rodrigues? Quem possui mais places nas quais a con- tradi(do entire o tarnanho da placa e o valor (ou o signifi- cado) das obras e contras- tante? A segunda questdo: quemn, entire as duas autori- dades, sonega mais informa- coes ao piblico? Pode ser que assim consiga sensibiliza-los a prestar os es- clarecimentos cobrados. antigos parceiros de farda, em 1945 (um retrato exato seria tragado por Gracilia- no Ramos nas Memorias do Cdrcere, escritas de dentro das celas), mas ainda nao haviamos descido tanto na escala do obscurantismo e da violencia (ou ainda nao desceramos de novo). O manual de geografia dirigido aos estudantes do iltimo ano do secundario era apresentado por Preston James, pro- fessor da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, que elogiou o "peculiar vigor" daquele livro didatico. Ele nao era simpless compilaqio de fatos inexpressi- Sos, mas, antes, parte essencial do cena- r o onde se exercitam os seus [de Josue de Castro] estudos acerca dos urgentes problems humans do Brasil atual- es- pecialmente nos campos da alimentacao e da nutrigao". Passando mais uma vista d'olhos pelo livro, subiu-me (ou seria desceu-me?) uma sensacao de melancolia. Talvez ti- vesse algo a ver com caminhadas que freqiientemente fazemos em circulo, ou voltando ao ponto de partida, imaginando estarem a nos levar para frente. Se nao isso, ao menos se reforqa a convicqgo de que nem sempre olhar para tras e peca- do merecedor de salinizacao biblica: quando serve de ferramenta para ilumi- nar o passado, tem a forca de nos tornar humildes e menos tropocentricos, mais convencidos da nossa pequenez e da enor- midade dos desafios que a hist6ria coloca diante de n6s. Se essa melancolia fizer bem, se for saudavel, esta nota melanc6li- ca e otimista tera cumprido sua funcgo.0 Obra mortal Enquanto foi Tito Franco, a hoje avenida Almirante Barroso tornou-se tristemente famosa como a pista da morte. Convi- dando os motorists a alta velo- cidade, nao oferecia seguranga compensatoria aos pedestres, nem facilitava a imposi ao de normas regulamentadoras ao tra- fego de veiculos. O trof6u macabro, ao que pa- rece, vai passar para a avenida Augusto Montenegro, de traqa- do irregular, sempre mal capeada e agora com uma pista para pe- destres assemelhada a uma arma- dilha fatal. A morte de um casal de professors, atropelados por um carro em alta velocidade quan- do faziam sua caminha matinal pelo que deveria ser sua faixa ex- clusiva, e de uma estupidez re- voltante. Esta em causa nao s6 a irresponsabilidade criminosa do motorist, mas a propaganda en- ganosa que da aquela via a ima- gem de obra acabada que ela nunca teve e ter menos agora. RealizaqAo da prefeitura de Bel6m. Miopia Os servidores piiblicos so- frem ha cinco anos a corrosao dos seus vencimentos. Na massa, to- dos empobreceram, exceto o man- darinato (na cupula, boa parte na inatividade), residual, mas corn forga para mover montanhas de poder gracas ao corporativismo. Como compensacio a salaries baixos ou simplesmente misera- veis, a cada pretexto os barnabes sio dispensados de trabalhar. Por ganharem mal, teriam o direito de trabalhar menos do que o cida- dao comum. Mas 6 uma compensacao enganosa. 0 home de rua, massacrado pelo excess de trabalho e a escassez de remu- neracio, encara com ressenti- mento e raiva a aus6ncia do ser- vidpr bio hb quolquc ia que te to f ul- tativ se, tarar o bal i so ou indti para,: aceita dQ. tado. eisao que fact ao dos maus intencionados em relagao ao serviqo piblico. Exemplo Pela segunda vez, o Tribunal Regional do Trabalho da 8" Re- giao, com sede em Belem, decide aumentar os salaries dos seus juizes, beneficio concedido em causa pr6pria (agora, de 193%). Pela segunda vez, o ato e consi- derado illegal por outra instincia judicial (e ate pelos superiores hierarquicos dos juizes traba- Ihistas regionais). Estancado na justiqa, o reajuste 6 suspense. Mas a partir desse moment se transform em empr6stimo por um ato de imperio, semjuros ou cor- recao monetaria. A devolucgo do valor recebido indevidamente e parcelado a perder de vista, no tempo tanto quanto no valor. Qual a moral que sobra para o mortal dos cidadaos dessa no- vela em repetidos e inacredita- veis capitulos, que se sucedem sem pudor? Promessa No dia 19 do mrs passado Romulo Maiorana Junior, que a condiq~o de principal executive do grupo Liberal, monopolista da comunicacao no Para, torna um dos homes mais poderosos do Estado, fez um roteiro de visit inteiramente distinto de suas fre- qiientes viagens aos Estados Unidos (Miami e Las Vegas como principals destinos): foi conhe- cer a hidrel6trica de Tucurui. Apesar das dimens6es da obra, que j custou 9 bilh6es de d61a- res, foi precise muita insistencia para que Rominho finalmente decidisse conhece-la, percorren- do os 350 quil6metros que a se- param de Belem. A visit foi muito ripida, do que da testemunho o tom da ma- teria. Mas com ela o chamado cap das Organizao6es Romulo Maio- rana promete iniciar uma s6rie de incursoes ao interior do Para, na campanha "Andando pelo Para", com a qual pretend "mostrar as riquezas e as grandes dificulda- des que enfrentam os atuais e fu- turos empreendimentos dos que acreditam no Estado". Pode ser que a anunciada epo- peia tenha uma inspiraqCo eleito- ral, buscando dar consistencia ao nome de Romulo Jr., etemo candi- dato a um cargo eletivo, mas refra- tario a eleicOes. Qualquer que seja sua inspiracio, pordm, a iniciativa e meritoria. Quando nada, por apre- !sentar o grande Para a um notavel integrante da elite paraense que tem o Estado como a extensao do seu enorme gabinete. 0 horror A patologia de certos crimes parece nitidamente individual, mesmo em sua brutal violincia, como um pai degolar o filho de oito anos e atirar seu carro de frente contra uma carreta para se matar. Mas quando ha uma tambem evidence escalada de violencia, deixando para tris as cirfrgicas eliminak6es de vida, passando a tingi-las cor o sangue das imolaV6es, entio hi um component de patologia coletiva muito grave. O problema passa a ser policial na sua repressao, necessariamente several. Mas ter origens sociais e economicas a tratar adequadamente. Belem e o Para, ao que tudo indica, ji atingiram essa escala de grave perturbacio da seguranea, tanto a individual quanto a coletiha. Ler as piginas policiais da grande imprensa virou um exercicio diario de horror. AI6, a16 Em setefabro de 1966 saiu em 0 Estudarie meu primeiro artigo mais s6rio publicado num 6rgao regular da imprensa, no caso o exemplar inaugural da nova fase do 6rgao da Uniao dos Estudan- tes dos Cursos Secundaristas do Para, a popular UECSP, castrada pelo Al-5. Era um artigo sobre o filosofo ingles Bertrand Russell, uma das mais fortes influencias da minha adolescencia. Jos6 Clau- dio vivia me prometendo um exemplar do journal para meus ar- quivos, desfalcados dessa peca. Se ele nao pode cumprir a pro- messa, sera que alguem possui esse niumero de O Estudante? A redagio, penhorada, agradeceria. Corregao 1 O poeta Ruy Barata e tao con- tinental que na nota sobre Joao Cabral de Mello Neto minha me- m6ria cansada o colocou em com- panhia de Maria Sylvia Nunes, quando seu par, famoso, conhe- cido e respeitado e o Benedito. Inclusive na encenaqao pioneira de Morte e Vida Severina, s6 nao consagrada nacionalmente por caprichos ou interesses contrari- ados no festival nordestino em que foi exibida. Perdao, Benedi- to, Sylvia e leitores. Corregao 2 No artigo sobre Daniel Piza (0 luxo intellectual brasileiro entire pince-nez e abobrinhas), publi- cado no numero anterior, cometi um erro. Como o livro comentado por Piza foi escrito por um ingles (Kenneth Taylor), a grafia correta e mesmo civilisation, confonne o ingles britanico, e nao civilizati- on, como assinalei, raciocinando corn o ingles dos Estados Uni- dos. Quem observou o deslize, sempre atento ao JP, foi o ge6lo- go Alberto Rog6rio, a quem agra- deqo pela ajuda. E, estritamente quanto a este ponto, peqo des- culpas ao Piza. Quanto a todo o resto, mantenho o que escrevi. Pol itica Apenas num ponto o grupo Liberal e o senador Jader Bar- balho parecem unidos no mo- mento: promover o nome do de- putado federal Jose Priante. Os Maiorana injetam prestigio na esperanga de que Priante, se apresentando como candidate do PMDB a prefeitura de Be- lem no pr6ximo ano, afaste a possibilidade de uma coligaaio cor o PFL em torno do deputa- do federal Vic Pires Franco, ex- amigo e hoje arqui-inimigo da casa (a maneira de Churchill, os Maiorana estao dispostos a fa- zer alianca cor o diabo para nao ve-lo na PMB), ou mesmo Helio Gueiros. Jader deixa o pessoal do Li- beral acreditar que Priante, por controlar o diret6rio municipal peemedebista, ter condiqces de impor seu nome, mesmo se o ca- cique do partido achar melhor unir forqas cor o PFL, aceitan- do o cargo de vice-prefeito. Uma fonte assegura que o senador atropelara o primo se ele o con- trariar. Mas outro informante diz que tudo nao passa de encena- 9ao e balao de ensaio: o afasta- mento entire os dois, a possibili- dade de confront e a hipotese de Priante ser uma ponte para uma recomposicao tacita entire o grupo Liberal e Jader. O mais seria coisa de boi voador. Journal Pessoal Editor: LOcio FlAvio Pinto Fones: (091) 223-1929 (fone-fax) e 241-7626 (fax) Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040 Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br Edig9o de Arte: Luizantoniodefariapinto/230-1304 |
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