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al Pessoal L U C O F L A V 0IO PI N T O wO XHC4 18 1' QUINZENA DE SETEMBRO DE 1999 R$ 2,00 ELDORADO Massacre no juri Crimespavorosos foram cometidos em abril de 1997 em Eldorado de Carajds. Dois anos depois, nojulgamento dos responsdveis, tantos absurdosforam cometidos que ja ndo se sabe o quefazer. Nafronteira amazonica, distant dos centros decisdrios dopais, justiga e umproduto exotico. Ndo esta ao alcance dos injusticados. .t e prevalecer a correcqo tecni Ki ca e o mais elementary bom sen so, devera ser anulada a ses Sso do tribunal do jurideBelem que absolveu tr6s oficiais da Policia Militar responsaveis pela opera- qAo de desobstruqgo da rodovia PA-150, no sul do Pard, em abril de 1997, resul- tando em choque com integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e na morte de 19 lavradores, al6m de 60 feridos. Se a anulacao ndo for decidida pelo Tribunal de Justiqa do Estado, que parece mais inclinado a con- firmar ojulgamento, a revisao se dara em Brasilia, na instdncia superior. A anulagao nao significa automati- camente, por6m, que o coronel Mario Pantoja, o major Jos6 Maria Oliveira e o capitdo Raimundo Lameira devam ser condenados se um novojulgamento for realizado. Tantas e tao flagrantes fo- ram as irregularidades praticadas nos atos preparat6rios ao juri e no desen- volvimento da sessao que o cancela- mento 6 irrecusavel para quem for apre- ciar o caso cor isencqo e acuidade. Um novo juri, sem os erros e vicios do an- terior, entretanto, podera chegar a um veredicto semelhante ao apresentado no ultimo dia 18 se os jurados ativerem as provas dos autos (embora, no juri po- pular, tambem influa muito a teatralida- de das arengas dos advogados). A grande falha 6 de origem: o proces- so contra os integrantes da tropa da PM que, casual ou intencionalmente, cometeu os crimes, 6 falho porque o process aber- to na justica, com base em inqueritos da pr6pria policia, foi insuficientemente ins- .iL-7. L -.L V/ L .l2ctl /IL (. L. -;i .5.. -&~ `r3 '72 truido. Para o massacre efetivamente co- metido se refletir nos autos seria necessa- rio reabrir a instrugo e executar dilig6nci- as que ficaram por fazer, impedidas por quem tinha poder para tanto ou atropela- das pela decisao de, atrav6s de um julga- mento com bitola estreita, satisfazer a opi- niao p6blica, a intemacional antes da naci- onal, os interesses do governor primeiro que os da opiniao public, as conveni6ncias de privilegiados acima da corajosa apuraqao da verdade. 0 julgamento foi uma farsa, mas nem tanto pelos motives dos que as- sim o classificaram.. Quatro coisas espantam no conflito de Eldorado de Carajas. Por ordem cronol6gi- ca, em primeiro lugar a virul6ncia dos mani- festantes: eles se lancaram com firia contra uma tropa notabilizada por sua trucul6ncia, brandindo facas, faces, foices, pedras, paus) 2 JOURNAL PESSOAL 1l QUINZENA DE SETEMBRO / 1999 Se at6 armas de fogo (dois rev6lveres e qua- tro espingardas). Em segundo lugar, a atitu- de inicial dos militares: eles recuaram ao maximo, at6 encostarem nos caminh6es es- tacionados na pista da PA-150, uma attitude excepcional para o padrao de comportamento da PM em tais circunstincias. Em terceiro lugar, o massacre que se seguiu a chegada do segundo contingent da tropa, oriundo de Parauapebas, quando o primeiro grupo, said de Marabi, ja rea- gia ao assedio ameagador dos sem-terra. A pericia t6cnica nao deixa duvidas de que a partir dai houve execuc6es sumarias, a virulencia dos militares inibindo qualquertipo de reaqo dos lavradores, ate ent~o agres- sivos mas inabilitados para um verdadeiro combat (dai nao ter havido uma inica bai- xa entire os PMs). A quarta fonte de espanto e indigna- 95o foi a absolviqAo dos tris comandantes diretos daquela operagqo pelo tribunal do jfri. Embora a esquerda tenha reagido ao que classificou de farsa com um libelo ra- dical ideologicamente e generico tecnica- mente, mais impressionante do que o ve- redicto em si dos sete integrantes do cor- po de jurados foi a instrug o do process. O resultado da primeira das 27 sessOes reservadas para ojulgamento dos 153 r6us estava coerente com as provas dos autos. Estes e que ficaram em discrepancia com a realidade. Eles terem se formado A mar- gem do rigor investigative, em dissonancia com os fatos, 6 a prova da fragilidade do processojudicial, especialmente numa fron- teira como a Amaz6nia, quando a realiza- c9o da justiga precisa confrontar interes- ses poderosos, econ6micos e politicos. A distorgao final pode ter sido bizarre, mas nao singular: ela resultou de um acu- mulo de distor6oes, algumas deixando a mostra a intencionalidade de gera-las. Re- montando apenas a formaqio do juri, e de espantar que a decisdo do Ministerio Pu- blico, indicando um unico promoter para caso tdo complex, nao haja provocado protests. E certo que os promotores da capital combinaram declarar-se conjuntamente suspeitos. Fizeram isso, entretanto, nao por motivaqgo metafisica: e que nao con- cordavam cor alguns dos procedimen- tos da acusagdo. Acabou sendo apresen- tada como razdo public o desejo da cor- poraqgo de prestigiar um promoter de 2a entrincia que acompanhou o process desde o inicio. O promoter Marco Aur6- lio Nascimento & considerado competen- te pelos colegas, mas sua inexperiencia -deve t8-lo inibido de tomar, no moment certo, attitudes que talvez corrigissem pro- blemas no nascedouro, acabando por ten- tar contemporiza-las mais pela retumbbn- cia de seus atos do que por seu ajuste as normas legais. A inusitada attitude dos integrantes do MP pode ter uma causa lauteral imen os - visivel. Alguns dos passes mais importantes do fis- cal da lei foram dados quando o Ministerio Piblico era chefiado por Manuel Santino Nascimento. Nao s6 da promotoria, como tamb6m do president do inquerito polici- al-militar instaurado para apurar os fatos. Mas tanto o coronel Vieira quanto Santino nao se sentiram impedidos eticamente de assumir a casa military e uma secretaria es- pecial do governor do Estado, depois de terem tido participaqio tdo decisive num epis6dio envolvendo aquele que viria a ser seu chefe, o govemador Almir Gabriel (que referendou o candidate que Santino apoiou a sua sucessao). Legalmente, nada ha contra essa troca de funqies, mas ela envolve um compo- nente moral e 6tico equivalent aquele que deveria perturbar o professor Edson Fran- co na acumulagco da secretaria especial de promoq~o social (com jurisdicio sobre as areas educational e cultural) com a rei- toria da Unama (a Universidade da Ama- z6nia), uma instituig o particular, j nao mais considerada filantr6pica apenas por seus estatutos a declared sem fins lucrativos (e que estaria interessada em participar do ain- da especulado process de privatizaqao da Universidade do Estado). Nao bastasse essa aparente incompati- bilidade, o audit6rio da Unama foi escolhi- do para sediar ojulgamento dos militares, sob o fragil pretexto de ali ja se terem re- alizado juris simulados. O bom senso de- veria recomendar a escolha de um predio puiblico, quando nada para preservar to- dos os formalismos da isencgo do julga- mento e prevenir propaganda gratuita (e massive) de uma empresa particular quan- do a imprensa estivesse registrando o fun- cionamento do juri (havia inscri6oes corn o nome da universidade em pontos estra- t6gicos do local). Se o julgamento do or- ganizador do assassinate do ex-deputado Paulo Fonteles foi em um ginasio de es- porte em Marituba, por que nao no ginasio da Escola de Educaao Fisica do Estado (ou no Centur) o "julgamento do s6culo"? Esses poderiam ser considerados deta- Ihes irrelevantes se a eles nao se agregas- sem outros components que, mesmo invo- luntariamente, sdo capazes de alimentaruma teoria conspirativa para a absolvicgo dos ofi- ciais. O famoso quesito seis submetido aos jurados pelojuiz Ronaldo Valle, por exemplo. Mesmo que ele fosse cabivel, certamente a frase estaria protegida da suspeita de sutil indug~o se, ao inv6s de ter perguntado se as provas dos autos eram insuficientes par a condenaqco dos reus, o magistrado ti- vesse indagado se as provas eram suficien- tes. Nesta ultima forma, a frase teria sido muito mais isenta e objetiva. E possivel que o melancolicamente fa- mosojurado Silvio Mendonga Queiroz nao tenha sido acometido por mais do que im- pulso exibicionista e crise de boquirrotis- mo, mas o papel ativo que se permitiu de- sempenhar nos bastidores do corpo de ju- rados e publicamente, no lance final do jul- gamento, fazendo comentarios e apresen- tando juizos de valor sobre uma das peas dos autos (a fita de video da TV) & incom- pativel cor ojuramento que fez para atu- ar imparcialmente no juri. Ficou evidence que ele prejulgara. Logo, devia ter sido afastado pelo juiz. Alem de nao ter agido dessa maneira, Ronaldo Valle manteve-se omisso quando Mendonca extrapolou sua funcgo, arvorando-se ora a advogado de defesa, ora a promoter. A partir desse moment, ojulgamento foi contaminado e todas as reagces tiveram curso sancionado. Uma autoridade com o peso da vice-prefeita de Bel6m permitiu-se ecoar denuncia cuja gravidade s6 tinhaparalelo com sua inconsistencia. Com base nesse podero- so fogo de artificio, uma revista semanal de informaaoes como Epoca construiu um edi- torial tonitruante onde deveria haver uma re- portagem bem apurada, fazendo coro cor um president da Republica envergando a roupa de Pilatos, condenando antes de ser condenado. Politicos de esquerda aceitaram os favors de uma midia especialmente sen- sibilizada para parceria localizada e usaram um grave exemplo de crueldade e injustiga como lenha para uma fogueira maior. Os de direita aproveitaram para espicaqar o senti- mento de reago de uma classes m6dia urba- na espantada com os radicalismos. Todos esses equivocos se tomaram ine- vitiveis a partir do moment em que os per- sonagens centrais da trag&dia foram exclu- idos do enredo. Vendo pessoas humildes, arrastando consigo criancas e dependen- tes, percorrendo longas distincias e acam- pando precariamente em logradouros pu- blicos, investirem com furia contra fatos e simbolos, 6 impossivel deixar a margem duas ordens de reflexes. A primeira diz respeito a indignagco que vai tomando conta desses brasileiros, sem- pre sujeitos a um massacre institutional e ao infortunio pessoal, abandonados em seu lu- gar de vida e trabalho, nos sertoes deste pais JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE SETEMBRO /1999 3 tao grande no tamanho quanto cruel na sua que vinham de uma relagao tensa com os tendencia concentrica ao poder. A segunda sem-terra. Deslocados de sua fung~o pro- reflexao e relacionada ao uso desses cida- fissional, haviam sido obrigados a atuar dAos como bucha de canhao e instrument como se fossem assistentes sociais, levan- de manobra. Talvez nao haja outra maneira do comida e rem6dios para os sem-terra, deutiliza-losnumaluta political demaiorf^o- ouvindo insultos verbais e provocagoes, lego, mas o resultado dessa estrategia vale a enquanto se desenrolavam negociac6es pena? Nao levara a substituigao de uma ve- political na capital (no litoral, sempre dis- lha tirania por uma nova tirania? Na troca de tante, fisica e mentalmente, do sertao), como uma solugao viciada por uma falsa solugao? um novelo emaranhado. O segundo grupo de ausencia que viciou Esses entendimentos foram subitamen- o resultado dojulgamento e dos verdadeiros te interrompidos quando os manifestantes responsaveis pelo crime na cadeia de coman- bloquearam uma estrada de importancia re- do. A instrugao processual nao conseguiu gional, radicalizaram suas exigencias e as- individualizaras culpas, estabelecendo o nexo sumiram uma posigio de confront. Essa causal entire cada uma das mortes e cada mudanga (na verdade colapso) em um dos um de seus autores, corretamente determi- p6los da interlocugco foi complementada por nados. As provas dos autos nao possibilitam alteracgo no outro p61o: o goverador ficou dizer quem atirou em quem. Nem mesmo impressionado com os arguments de um quem atirou e quem nao atirou (e quem usou grupo de fazendeiros da area, com os quais as outras formas de matar, como armas bran- se reuniu reservadamente em Bel6m me- cas, certamente para despistamento), quem nos de uma semana antes da chacina, e matou e quem nio matou. Sob um prisma com "informes" de sua assessoria military conservador e conventional, o crime e co- de gabinete. letivo, de autoria incerta. Ha assassinados, Desconsiderando os antecedentes do caso mas nao assassinos identificados. Logo, to- e sua evolugao real naquilo que os militares dos seriam inimputaveis. denominam de "teatro de operagoes", o go- Mas a nova interpretagao da co-autoria, vemador nao avaliou corretamente o signifi- extraida da constitui9~o de 1988 e nao do cado da ordem que deu, para a PM garantir C6digo Civil de quatro d6cadas antes, ensi- o trafego na PA-70, de qualquer maneira. na que o co-autor 6 quem contribuiu para a Na capital, o desdobramento dessa ordem pratica do delito. Evidentemente, sao crimi- pode ter sido divisado por manifestantes re- nosos aqueles que executaram vitimas A sua cuando e, intimidados, aceitando voltar a merc6, como aconteceu em Eldorado. Nao mesa de negociac6es. No hinterland, foi in- sAo necessariamente criminosos aqueles que terpretado como a senha para o acerto de mataram para defender a pr6pria vida ou na contas, a revanche. Ainda que essa postura conviccqo de contrapor a uma viol6ncia anar- nao envolvesse corrupqao nem vilania, como quicaumaviolencia sancionada institucional- pode ter acontecido, tecnicamente nao ha- mente e de cumprir seu dever, quando a so- veria como evitar que o choque entire PMs e ciedade Ihes confere legitimidade. sem-terra fosse sangrento. O video dos acontecimentos. a mais important prova material do crime. Ao nao deixa mais divida de que A selvageria dos poli- os policiais militares deram 6 cais fo espantosa, dois tiros antes do primeiro espantosa, tiro disparado por um sem- no nos moments registrados pelo vi- terra. Tamb6mja esta fora de qualquer dfu- deo, mas nas etapas seguintes, quando a vida que os dois primeiros tiros dos milita- camera j estava apreendida (o filme s6 foi res nao visaram os corpos dos manifestan- devolvido porque os censores cometeram tes agressores. Foram disparos de adver- um erro: exibiram a fita super-VHS num t6ncia, para o alto e para baixo. Mas a ad- aparelho de VHS, no qual suas imagens nao vert6ncia nao foi considerada. Os sem-ter- podiam aparecer; pensaram que o camera ra, al6m de continuar avancando, avanca- nao tinha registrado nada). Trataram de eli- ram numa attitude de agressao. Iriam ferir minar testemunhas e os lideres do movi- os policiais, podendo mata-los se nao fos- mento, alem de se vingar dos inimigos que sem contidos, como atestam as iltimas ima- a longa conviv6ncia forqada criara. A ex- gens do video exibido pela televisao. peri6ncia e as normas exigiam que essa tropa Acuados pelo grupo de atacantes, quais fosse substituida e que os novos PMs fos- os recursos de que dispunham os PMs para sem deslocados da capital para a area com se defender? Rev6lveres, fuzis e metralha- uma variedade de armas tal que Ihes per- doras, armas inadequadas para intimidacgo mitisse aumentar o poder de agressao pro- ou defesa em tal circunstancia. Mesmo as- porcionalmente a ameaCa sofrida (passan- sim, as baixas entire os lavradores nao teri- do de escudos e cassetetes para caes, jatos am sido tantas se nesse moment nao che- de agua, bombas de gas lacrimog6neo, caes, gasse ao local a tropa oriunda de Paraua- balas de borracha e o que fosse possivel pebas. Esse conjunto era formado por PMs acionar). Como nada disso houve, das pri- meiras mortes ao morticinio foi uma ques- tao de tempo muito pouco, alias, diante dos Animos previamente formados. A agressividade dos sem-terra guarda- va coerencia com a intensidade da adversi- dade na qual foram colocados? Conside- rando-se o rosario de problems que eles sempre precisaram enfrentar, nao. O radi- calismo tinha um evidence impulso externo, daqueles lideres que, por m6ritos pessoais ou circunstancias, conquistaram essa lide- ranqa, mas freqiientemente exacerbam-na para alcanqar seus fins, abstraindo os mei- os gastos nessa tarefa. Mesmo sendo es- ses instruments series humans. Quando o goverador Almir Gabriel, o secretario Paulo Sette Camara, da se- guranga public, e o coronel Fabiano Lo- pes, comandante-geral da PM, foram ex- cluidos da denincia do Minist6rio Pfbli- co, o teor dos autos se torou surrealista. Nao havendo individualizaqco dos crimes, nao poderia haver condenaqao de indivi- duos e aplicaqao de penas individuals. Se havia uma cadeia de responsabilidades espalhando seu manto sobre os respon- saveis pelos atos dos quais resultaram os crimes, entao os tres elos finals nao po- deriam ser desconectados. A aparente solu9go de transformar essas tres autori- dades superiores em testemunhas foi ado- tada apenas para dar uma satisfaqao ao distinto public, mas s6 daria certo se a farsa urdida vingasse. O problema 6 que as incongruencias e inconsist6ncias da instrugCo, acomodi- veis se os formalismos dojulgamento fos- sem respeitados, se escancaram com as viol6ncias praticadas e admitidas na pre- paraqdo e na realizacao da primeira ses- sAo. E desconcertante que tantos erros primarios tenham sido cometidos. A vi- g6ncia de um regime democratic formal- mente pleno deveria ter inibido essas der- rapagens sucessivas, mas a fronteira ama- z6nica encontram-se tao distant do eixo central decis6rio do pais, do Brasil mo- dero, que os seus personagens parecem nem ligar para essas coisas de leis, ritos, formalidades, alibis. Ao agirem assim, entretanto, desen- cadeiam um process de radicalismo, vi- ol6ncia e barbarie que nem eles pr6prios estao em condiqoes de controlar. E o pon- to em que se encontra o "caso Eldora- do": ningu6m pode garantir o reenquadra- mento do process nos limits da lei e na trilha da 16gica, nem se pode antever qual o pr6ximo irracionalismo, venha ele da esquerda ou da direita. Aberto, o buraco 6 sem-fim, como os desvaos da selva. Por isso, o Eldorado famoso do final do s6cu- lo 20 ter a ver com a ingenua esperanga do lendario Eldorado do inicio do desco- brimento do Brasil. Em 4 s6culos, a Ama- z6nia s6 se degradou. * 4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1999 A prefeitura de Belem definiu o prolongamento da avenida I Ide De- zembro sem maior preocupaqao corn a "circunstancia" de que ela atra- vessa. ao long de quatro quil6me- tros, a Area de ProteqAo Ambiental do municipio, onde estio os princi- pais mananciais de agua da cidade e sua mais imporanle rescr\a cco- l6gica. um pulmno de \erde vital para uma concentraqco urbana de 1.2 milhao de habitantes cujo padrao de vida estd se deteriorando ate os limits do insuportavel. A obra realmente servira de desa- fogo para o escoamento do transito, que entra em colapso ein determina- dos periods do dia nas duas tincas \ ias de acesso a Belem. Por esse pris- ma. a sua serventia e inquestionavel. Mas nAo considerar suas implicaq6es sobre a principal reserve de vida na- rural e de conjunto paisagistico da ci- dade significa aceitar renunciar a umn patrimonio que vale mais do que a pr6- pria avenida. Os estudos preparados pela pre- feitura para o liccnciamento da obra sio insuficientes para assegurar um ajuste harmnmco entire uma autentica estrada (que sera essa mesmo a sua configura ao) e o ambience. Acertou a Secrearia de Ciencia. Tecnologia e Meio Ambiente do Estado ao condici- onar a liberacao da obra a aprovaqao de docunentos complementares aos ja apreseniados. providencia ainda pendenre. O projeto, tal como esia definido atr agora, acarreta riscos que nao sao inevitaveis. mas que sao ina- ceitaveis. Se medidas de prevenq;o e reparaqco form adotadas, e possivel abrir a extensao da i" de Dezembro sem a matenalizaqfo dresses riscos, tal- ,ez are mudando o percurso e encur- tando-a (ate o entroncamento. por exemplo). Mas por enquanto nao ha tais garantias. Inclusive porque o al- caide so aceita fazer o que concebe, sem concessoes. A Secram estaria inteiramente cer- ta se sua apreciaqo tccnica nao ti- vesse sido arropelada por injunqces political. A secretariat tinha expedido a licenqa pro\ isoria e exigido a exe- cuqho de variouss estudos para forne- cer a licenqa de instalagio. A apro- vaqao definitive parecia questao de tempo e modo, jai que o parecer final da Sectan concluira na primeira ava- liacqo do projeto que "os impacts positives potenciais quanto aos aspec- tos sociais I...) supreme os potenciais impactos negatios \ islumbrados nas analises", o que lhe possibilitou deli- mitar "uma relaCqo custo-beneficio ambiental e economico positives". 0 inimo politico do go erno do Es- rado, porem, se modificou quando um timido ensaio de aproximaqio corn a prefeitura petista se frustrou. Esse estado de espirito gerou um anatema, lanqado de cima para baixo, que in- terferiu nos rumos da apreciacqo do project da PMB. O clima de dialogo e de busca de entendimento degenerou para um confronlo. Mas ai formou-se o caldo de cultural preferencial de Ed- milson Rodrigues. Substituindo le an- tamentos que a PMB precisa realizar, e tem que executar corn seriedade e aplicaqao, para preservar um patrim6- nio unico do mumcipio, por pala% ras de ordem e discurso palanqueiro. ele transformou urna analise recnica num picadeiro de circo, impondo emoqio e passionalidade a uma decisao que tem que ser bem maturada. Ou seja: ,ol- tamos iquela epoca irrational de Jar- bas versus Alacid, sem dois mil quilo- metros se interpondo entire os chefes de legiao. De minha pane, ndo estou conven- cido de que o traqado c a extens~o do prolongamenio da avenida nao signi- ficam unia ameaca de agravamento da agressio que a area de protecio amblcntal ja sofre. sem possibilidade de corrcqio. Tao impressionante quanto a insensibilidade da populaqco de Belem ao estado de calamidade em que atualmente se encontram os ma- nanciais de agua da cidade e a bela floresta do Aura e o descaso diante de mais um capitulo dessa agressio que pode vir a ser o derradeiro. Ao menos enquanto a definiqdo dessa si- ruaqao estiver dependendo do animo de um confront que parece ter i fren- te um Nero e um Caligula. A calamidade das calamidades Eleigao na fase Dois de outubro deverd marcar o incio para valer da campanha eleitoralpara as prefeituras municipals, embora oficialmente ela so comece em abril do pr6ximo ano. entro de um mis terminara o prazo para as trocas de parti- do e filia6oes partidarias dos que pretendem concorrer em 3 de outubro de 2000, a ultima eleigao do milnio. Em Bel6m, esse pra- zo afeta mais enfaticamente dois parti- dos, justamente os que tem os provaveis candidates mais fortes: o PT e o PFL. At6 outubro a vice-prefeita Ana Julia Carepa definira de vez suas pretensoes de disputar a PMB. Seu caminho no PT esta bloqueado pela reeleigdo de Edmil- son Rodrigues. Se nao for para outro par- tido (as hip6teses levantadas foram PSB e PPS), teria quatro altemativas: sair no- vamente como candidate a vice-prefeita de Belem, optar pela vereanga, tentar dis- putar o cargo de prefeita na vizinha Ana- nindeua ou ficar de fora da pr6xima elei- gao, desgastando o capital de quase 500 mil votos conseguido na eleigao para o senado em 1998. A primeira hip6tese parece descarta- da porque a conviv6ncia com Edmilson por mais quatro anos seria ruinosa, talvez para ambos, embora seja essa a melhor chapa que o PT poderia former. Ir para a Camara Municipal de Bel6m significaria para Ana Julia recomegar a carreira exa- tamente por onde comegou, o que pode- ria ser bom ou ruim, dependendo da ima- gem que trabalhasse. De qualquer ma- neira, por6m, significaria tempo perdido. Ja a prefeitura de Ananindeua parece um risco maior: o atual prefeito, Manoel Pio- neiro, do partido do governador, o PSDB, fez popularidade a base de um populismo obreiro, base para sua condigao de favo- JOURNAL PESSOAL *1P QUINZENA DE SETEMBRO /1999 5 do ano 2000: das rasteiras rito. Ali tamb6m a familiar Barbalho esta apostando algumas de suas fichas, ensai- ando a candidatura de Helder Barbalho. Algumas fontes petistas garantem que Ana Julia nao saira do partido, nem bate- ra chapa com Edmilson na convenago municipal. Mas se o preqo para a manu- tencgo da reeleicao (que muitos politicos querem derrubar) na dispute municipal do pr6ximo ano for a exig6ncia de que os candidates se desincompatibilizem, dei- xando o cargo seis ou quatro meses an- tes (o tema sera debatido no Congresso Nacional a partir desta semana), Ana Julia assumira a prefeitura por sete ou oito meses, tornando-se personagem-chave no jogo eleitoral. E por isso que as correntes principals do partido tentam uma composigao entire o prefeito e sua vice, temendo os prejui- zos que as marcantes incompatibilidades entire os dois evoluam para um rompimen- to aberto e formal, ameagando uma vit6- ria tida como certa. Para Ana Julia, a melhor perspective seria receber um guarda-chuva confiavel para proteg6-la at6 2002, quando podera disputar nova- mente o senado, descer para a Cimara Federal ou arriscar seu v6o mais alto, o governor do Estado. O 2 de outubro nao teria nenhuma im- portincia para o PFL se ja estivesse de- cidido quem sera o candidate do partido i prefeitura da capital, o ex-prefeito H6- lio Gueiros ou o deputado federal Vic Pi- res Franco (o mais votado em Belem no ano passado). Nas precarias (e as vezes inconfiaveis) pesquisas at6 aqui realiza- das, os dois sao os adversaries potencial- mente mais ameagadores ao prefeito pe- tista. Mas nenhuma das sondagens incluiu ao mesmo tempo H6lio e Vic (nem Ed- milson e Ana Julia). Ha uma aceitaqFo tacita de que, tam- bem nesse caso, os dois nao irao bater chapa na convencgo partidaria para afir- mar sua candidatura. As coisas poderi- am ser resolvidas pacificamente se tam- bem estivesse implicito que um sera can- didato a prefeito e o outro a vice. 0 pro- blema 6 que como nenhum dos dois pode considerar sacramentada sua candidatu- ra, persiste a incerteza. Em relacio ao ex-prefeito porque ele nao se define. Mesmo quando pressio- nado por correligionarios, inclusive na in- timidade, H6lio Gueiros ter respondido com um inico argument: ainda 6 cedo para langar uma candidatura, seja ela qual for. Fiel ao seu estilo, se tiver real- mente essa intencao, s6 apresentara seu nome a tiltima hora. Mas, como sempre, ird trabalhar nos bastidores e com o maximo de sil6ncio e malicia-para tor- nar viavel essa decisao no limited extre- mo do prazo para a oficializagAo de can- didaturas, aproveitando-se do fator sur- presa em relaqdo a terceiros. Ha pefelistas jurando de p6s juntos que Gueiros nio sera candidate: porque ja esta corn 72 anos, porque foi abalado pela desas- trosa votaqo para o senado um ano atras (ficou em terceiro lugar, bem abaixo de Luiz Otavio Campos e Ana Julia Carepa e com menos votos do que a soma dos nulos e bran- cos), porque a fami- lia o pressiona para se aposentar e porque _ quer de fato encerrar * a carreira. Sem des- 1 17 1 _. considerar esses mo- 7 -' tivos, ha outros ainda _7 j mais fortes em senti- Il do contrario. 1. -* .. *; '; Helio re- conhece o grave A erro de ter indicado o filho como seu suplente, imaginando-se ja eleito, alem do bem e do mal que praticasse ou sofresse. Ad- mite que sua estrat6gia de campanha foi equivocada. Verificou que a alianga com Jader Barbalho de muito pouco (ou qua- se nada) lhe valeu (e vice-versa). Mas nao aceita que seu tempo passou, que afastou amigos e correligionarios deci- sivos, que sua ret6rica ficou defasada, restrita a pilherias e leviandades, sem propostas criveis para uma cidade em grave crise. Ele parece se achar capaz de reparar o fracasso, voltando a um cargo politico important e conquistan- do um final de carreira brilhante, nao o melanc6lico fim que a eleicgo do ano passado Ihe reservou. Para isso, vai in- corporar o papel de franco oposicionis- ta, batendo forte tanto na administraqdo do PT quanto na de Almir Gabriel. Mas tambem se preparando para voltar a cri- ticar seu ex-aliado, o senador Jader Bar- balho (com o qual s6 conversou duas vezes desde a eleiqao de 1998, sempre superficialmente). H6lio Gueiros tera forca para report seu nome no topo do PFL, quando o an- damento das provid6ncias 6 em favor da candidatura de Vic Pires Franco, que control o diret6rio umnicipal e tem for- tes aliados em Brasilia (a comecar pelo senador Ant6nio Carlos Magalhaes)? Se for vitimado por um dos golpes de mao de ultima hora em que Gueiros e especialista, como reagira o deputado federal? Aceitara o console da vice- prefeitura? Renunciara a melhor opor- tunidade para alcanqar o cargo que sem- pre almejou, por Ihe permitir enfrentar no mesmo territ6rio seu mais poderoso inimigo atual, Romulo Maiorana Junior, amigo de ontem? Dois movimentos revelam ojogo de poder. De um lado, o grupo Liberal dan- do apoio clandes- tino ao deputado Federal Jose Pri- S q ante para ele ar- 1 1 7 1 7_ rancar sua candi- 1 qq__q |I datura a prefeito 17 I do diret6rio muni- cipal do PMDB. Com isso, inviabi- lizaria os plans de Jader Barbalho de coligar-se ao PFL se Vic for o candidate, uma maneira indireta de tamb6m hostili- zar a candidatura de Helio (que ndo terd o apoio peeme- debista). Percebendo esse movimento, Jader esta procurando isolar Priante. Mesmo sendo seu sobrinho, nao quer dar-lhe mais poder. Tenta convencer a ex-mulher, a deputada federal Elcione Barbalho (terceiro lugar nas toscas pes- quisas realizadas, mas distant dos ca- betas), a entrar numa chapa cor Vic. Fecharia a derradeira porta para Pri- ante, desde que Vic nao se tornasse vi- tima de uma rasteira de Gueiros. Como se v6, apesar de todos os per- sonagens ainda declararem que esta mui- to cedo para tratar da eleicgo do ano 2000, todos estdo tratando dela, embora ainda como aquele jogo de esperteza e sagacidade s6 perceptivel quando se ter acesso aos bastidores do poder. Umjogo de p6quer, para dar uma id6ia. * 1 6 JOURNAL PESSOAL l QUINZENA DE SETEMBRO / 1999 Sarta A assessora de comunic Carmen Palheta, enviou publicada tal SDe ordem do Exm Sr. Delegado Ge- ral de Policia Civil, gostariamos de contar com a atenqio de V. Sa., no sentido de esclarecer alguns pontos so- bre nota publicada no JP, 2' quinzena de agosto/99, na coluna Interesse Publico, que trata sobre viagem da perita criminal Maria da Gl6ria Aguiar, ao Canada. Informamos a V. Sa. que o Instituto de Identificacqo do Para foi um dos qua- tro Institutos convidados, dentre os 27 existentes no Brasil, pelo Instituto Nacio- nal de Identificacqo INI, para compor a equipe que foi ate o Canada, cor o objetivo de conhecer melhor outros 6r- gdos e paises que utilizam o sistema de impressed digital automatizado. O convi- te foi feito, principalmente, em razao da compet6ncia e interesse cor que vem sendo tratada a questao da identificaqao civil e criminal pela Policia Civil do Para, atrav6s do Instituto de Identificacqo. Ha mais de dois anos, Maria da G16- ria acompanha o process de estudos acerca da possibilidade de implantacgo do Registro de Identidade Civil-RIC no pais, que vai significar um control maior nos registros emitidos pelos Estados, uma vez que o cidadao tera um unico numero va- lido para todo o pais e controlado por um banco de dados situado no Distrito Fede- ral. A Lei 9454/97, de 07.04.97 que trata do assunto, ja foi sancionada pelo Presi- dente, aguardando regulamentaq~o. Os conhecimentos adquiridos pela diretora do Institute, na area civil e criminal informa- tizada de outros Estados e fora do Brasil ja possibilitaram colocar o Para em des- taque como um dos Estados que emite Carteira de Identidade em prazo recor- de, no mesmo dia em que 6 solicitada pelo cidadao. Alem disso, hoje a Policia Civil esta em fase de implantacgo de um siste- ma informatizado na area criminal, que possibilitara maior eficiencia para atendi- mento de processes solicitados pelas au- toridades policiais, sendo este um dos as- suntos tratados na visit a Policia Monta- da do Canada. Essas e outras iniciativas vem sendo possiveis gragas ao interesse e preocu- pagdo da diretora do Instituto de Identifi- cago e do Exm- Sr. Delegado Geral, Jodo Moraes, quanto a importancia do serving de identificaqdo datilosc6pica e as inova- c6es na area da informatica. Esclarecemos, ainda, que por pos- apdo social da Policia Civil, a seguinte correspondencia, como foi escrita: suir o trabalho de identificaqao crimi- nal um carter sigiloso e puramente in- vestigativo, ndo ha condiq6es de que sejam abertos ao public todos os me- todos que estao sendo implantados, hoje, na Policia Civil. Quanto a sugestao de que a Assem- bl6ia Legislativa deveria convocar a SrO Maria da Gl6ria para dividir os conheci- mentos, informamos que a mesma, bem como os pr6prios membros da Assem- bl6ia, tem consciencia de que o podem Minha Ate o penultimo paragrafo vinha a carta do delegado geral evo- luindo dentro do melhor padrao de relacionamento do serviqo public cor a imprensa. A exig6ncia de respei- to, feita no fultimo period da correspon- d6ncia, no entanto, 6 indevida. Nenhum desrespeito pode ser deduzido da nota que registrou a viagem da diretora do Institute de Identificagco, como qualquer leitura racional verificara. Simplesmen- te cobrou-se informaqces de um servi- dor public que vai ao exterior autori- zado pelo governador e recebendo sig- nificativas diarias, pagas pelo contribu- inte. Estranhou-se apenas que a visit tecnica (como agora explica o director geral) a Policia Montada do Canada comece em Los Angeles, nos Estados Unidos. Sobre este ponto, alias, o dele- gado Jodo Moraes nada disse. Los An- geles, como tem aparecido no DiArio Official, ja e um ponto freqilente de po- liticos e burocratas paraenses, sob di- ferentes pretextos (na mesma epoca la estiveram o vice-governador e o secre- tario de planejamento). Apesar do sigilo atribuido as ativida- des de identificacqo, nenhum 6bice ha- veria para uma palestra da diretora Ma- ria da Gl6ria. Ela simplesmente pediria para a sessio do legislative ser secret, ou, no caso de uma audiencia pfiblica, jus- tificaria a omissao dos temas protegidos pela confidencialidade. Mas todos ganha- riamos se as informacqes prestadas pelo delegado fossem detalhadas e ampliadas. No Canada e nos Estados, como certa- mente a t6cnica verificara, raramente essas quest6es sdo mantidas sob reser- va, exceto, 6 claro, quanto ao conteudo de algumas informacqes (os m6todos sao de conhecimento acessivel). 1. faz6-lo a qualquer moment, tendo, so- bretudo, entendimento de que o assunto 6, por sua pr6pria natureza, sigiloso, como ja foi explicado anteriormente e que, sen- do assim, tera limitag6es quanto ao publi- co ouvinte. Informamos tamb6m que a diretora nao foi fazer passeio turistico e sim, bus- car informagces mais avangadas para, tambem, avancarmos cada dia mais em nosso trabalho policial. Exigimos respeito a nossa instituigao, sobretudo quando buscamos trabalhar a modernizagdo dentro deste 6rgdo essen- cial para o melhor desempenho das in- vestigagces, como 6 o caso do Instituto de Identificaqco do Para". resposta Estejornal, anos atras, teve o triste pri- vilegio de denunciar, com exclusividade, a destruigdo dos prontuarios de identificaqgo civil, causada por uma prosaica goteira no telhado da (entdo) velha sede da Secreta- ria de Seguranga Publica. Milhares de fi- chas acumuladas no chdo de uma das de- pend6ncias do pr6dio foram danificadas pela agua. Pego no contrape, por nao ter feito a comunicaqco espontaneamente, foi s6 depois dessa noticia que o governor pro- moveu um novo recadastramento. Naquele moment, simplesmente se tornara impossivel ao poder public ates- tar a identidade dos cidadaos, tarefa que a dilig6ncia da atual administragao tornou tao expedida que garante entregar o do- cumento competent no mesmo dia da sua solicitag~o. Trata-se de inebriante mudanqa da agua para o vinho: da situa- 9ao em que qualquer pessoa poderia as- sumir identidade falsa sem risco de ser descoberta, estamos agora na linha de frente national, credenciados para ir ao exterior atualizar-se. O comportamento passado e o teor da nota que provocou a manifestacgo do delegado mostram que nao ha qualquer intengdo de desrespeitar instituicoes ou pessoas que, antes de mais nada, se res- peitam, tornando-se merecedoras do res- peito coletivo. Uma das provas dessa permanent attitude do Jornal Pessoal 6 a publicaago das cartas que Ihe sao envi- adas, independentemente do suscitado direito de resposta, do tamanho da cor- respond&ncia (jamais resumida ou copi- descada) e de sua correcao, inclusive gra- matical. E assim continuara a ser, indife- rente aos desentendimentos que possa provocar. Queremos servir ao cidadao tanto quanto qualquer servidor public conscencioso. JOURNAL PESSOAL *1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1999 7 Da cultural verdadeira a cultural de algibeira Pessoa culta 6 aquela que ja leu tr6s, quatro ou cinco vezes obras de cultural vitais como A Divina Comedia, de Dante Alighieri (que na origem era ape- nas Comedia), Ana Karenina, de Leon Tolst6i, A Montanha Mdgica, de Tho- mas Mann, Ulisses, de James Joyce, ou Grande Sertdo: Veredas, do nosso Guimardes Rosa, para s6 ficar s6 nes- ses exemplos e apenas na area de nao- ficqao. Mas 6 precise a maturacqo do tempo para essas releituras, sem o que elas terdo apenas valor informative, nao se incorporando ao modo de ver, ser e fazer da pessoa que se torna culta. Com o tempo, mesmo aquele que ain- da esta em process de formaqco cul- tural, ou cuja formaqdo permanece in- consolidada, sabe distinguir os gatos pardos dos pretos. Da relacgo entire o p6lo criativo e o p6lo de absorcgo se- gue-se o process evolutivo de uma cultural. O aprendiz de hoje sera o mes- tre de amanha. 0 divulgador podera se tornar o cria- dor, mesmo que o faca indireta- mente, enquanto critic, indepen- dentemente de ser ou nao um autentico cria- dor (como T. S. Eliot face a Eza Pound). Ha pessoas excepcional- . mente precoces e as tdo preco- ces que as rotu- lamos de g6nios. Mas a cultural e sempre um process, mais ou menos lento conforme as aptidoes pessoais e as circunstancias. Um jovem home culto nao se equipara a um velho ho- mem culto, que adiciona a capacidade de aprender e apreender a sabedoria da experi&ncia. Aquele que 1l repeti- das vezes um texto seminal da cultural humana para expandir seu prazer, seu conhecimento, sua sensibilidade, seu ser, 6 virtualmente inalcancavel. Nao no sentido da competiqgo exibicionis- ta e narcisista que se tem tornado ro- tineira, mas daquela tranqiiila sensa- qdo de saber. As vezes me espanto cor a sard6- nica convicqao com que os especialis- tas se lanqam as tarefas do seu domi- nio ap6s ouvir relates que para um lei- go parecem an6dinos e insossos. Um home culto 6 um especialista elevado a maior potencia, sem as restriq6es da compartimentacao de interesse e curi- osidade. Aproximando-nos deles, abre- viamos nosso aprendizado e multiplica- mos o usufruto do conhecimento, dan- do-lhe a ess6ncia prazerosa sem a qual o home culto reduz-se a um chato. Fiquei refletindo sobre isso, sem muito nexo com o m6vel do raciocinio, ao ler o ultimo fasciculo da coleCgo so- bre hist6ria do Brasil publicada pelo Didrio do Pard no domingo passado. E um trabalho agradavel, interessante e proveitoso de Eduardo Bueno, o his- toriador preferido da midia no moment (ganhou materia de sete paginas no ul- timo numero da revista Epoca, intro- duzindo a coluna semanal que ali vai passar a escrever). 0 principal merito de Bueno, de 41 anos, 6 simplifi- car e fa- zer legivel a hist6ria brasileira, aproximando-a dos jovens, em regra refratarios ao arrolamento freqiiente- mente desconexo de datas, aconteci- mentos e her6is dos manuais. No iltimo fasciculo, Eduardo Bue- no montou uma bibliografia critical da historiografia national. Ai o pass foi maior do que o alcance das pernas, re- velando suas limitaq6es. Dou s6 um exemplo para nao ser magante, sendo eloqiiente. Ao tratar das hist6rias ge- rais ji lancadas, ele diz que o alem.ao Heinrich Handelmann lancou, em 1860, "uma 6tima 'Hist6ria do Brasil' que, in- justa e inexplicavelmente caiu no esque- cimento (a tiltima edig~o brasileira des- de trabalho foi publicada em 1931)". Na verdade, a edigao de 1931, sen- do o volume 108 da Revista do Instituto Hist6rico e Geografico Brasileiro, nao foi a "6ltima edicao brasileira", mas a primeira integral publicada em nosso pais. Antes, em 1918, a Revista Ame- ricana havia publicado apenas um pou- co mais da metade do primeiro volume de uma obra dividida em dois grossos volumes. Ap6s a edi9Co de 1931 ja hou- ve outra, langada em 1978 pelas Edi- cqes Melhoramentos, graficamente mais atraente do que o volume unico de mil paginas, em letra minuscula, da edicqo de meio s6culo antes. Ha quem afirme que a Hist6ria de Handelmann e a melhor de todas as que foram escritas ate a segunda me- tade do seculo 19. Com um detalhe per- turbador: o historiador alemao nunca p6s seus pes em territ6rio brasileiro. Nem ele e nem Robert Southey, cuja Histdria do Brasil (em sete volumes) e corretamente classificada de "belis- sima" por Bueno, sem ele ter-se dado ao trabalho de destacar esse fato en- cabulador sobre dois dos mais impor- tantes historiadores que ja escreveram sobre o Brasil sem conhec6-lo sendo atraves de leitura. A intui9ao de Handelmann lhe per- mitiu sintetizar o significado da Caba- nagem com a frase mais feliz ja produ- zida sobre a sublevacio "dos destitui- dos de bens contra os que possuiam bens". Sua acuidade no trato dos docu- mentos lhe permitiu diagnosticar sobre a relacio do nosso pais com o mundo externo logo ap6s a consolidagco do imp6rio: "a salvagco do Brasil repousa na imigracao unicamente espontinea de agricultores livres europeus, e sao suas condiges essenciais a extingdo do tra- fico de escravos africanos e o estabe- lecimento de s6lido sistema de distribui- gco das terras a colonizar, juntamente com a generalizagqo do imposto terri- torial e as devidas garantias legais". Um s6culo e meio se foi e o diag- n6stico nao perdeu sua ess6ncia. Cap- ta-la, porem, requer mais do que as qua- lidades de um diluidor do conhecimento hist6rico, ainda que inventive, mesmo que provocador. A diferenca corre por conta da cultural, esse misterio (ou se- gredo) cujo melhor reposit6rio ainda 6 o livro. Quem 16, e quem 16 bem, perce- be a diferenga e a usa. 0 Cobre * Do seu orqamento de 22 mi- lhOes de d6lares neste ano (con- tra US$ 28 milhaes em 1998), a Docegeo-a empresa de pesquisa geol6gica da Companhia Vale do Rio Doce vai reservar US$ 20 milh6es para a delimitagao de dois novos promissores dep6sitos de cobre em Carajas: o Cristalino e o Alvo 118, o primeiro em estagio bem mais avangado do que o se- gundo. Apesar da reducgo em 20% do que investiu no ano passado, ao que parece o cobre continue prioritario para a empresa. E com uma escala de possibilidades mais ampliada, ja que agora hi pelo menos cinco areas candidates a mina no alto da serra. E a mais interessante deixou de ser aquela que esta prestes a entrar na fase de exploraqao econ6mica, que e a jazida de Salobo. Belo? * Enquanto o prefeito e empre- sarios dos dois primeiros quar- teir6es da Joao Alfredo brincam de recuperaqao do centro hist6- rico da cidade, um comerciante rasgou as paredes do belo pr6dio onde funcionou o Banco do Bra- sil, na esquina da pr6pria Joao Alfredo cor a Padre Eutiquio, transformandojanelas em portas. Alguem foi consultado? Alguem aprovou? Independentemente das res- postas,j a contrapropaganda su- ficiente para anular o tal do ex-qua- se-futuro Belocentro. P6lvora A destruicao da loja Bechara Mattar 6 uma grave advertencia ao que pode acontecer em outros locais do centro commercial de Be- 1em. Alem das instalac6es eletri- cas dos velhos pr6dios nos quais funcionam as lojas regularmente instaladas, um foco de preocupa- 9qo maior sao os pontos de venda nas ruas dos camels. Eles puxam energia atraves de precarias linhas e vdrios utilizam botij6es de gas, expostos na rua. Ja que a prefeitura nao pode ou nao quer impedir a prolifera- qao indiscriminada desse tipo de comercio, inevitAvel e necessario em certa media, bem que podia prevenir que algo pior do que o acidente do Bechara Mattar ve- nha a acontecer, ameaqando a area mais antiga da cidade. Espera l' niVrsaMIe . A Cofi'esta edigao'pJoriai res- A unica casa construida por Ant6nio Lan'di estal .ol~ta i2ansdeva.Du- cada vez nais ameaqada de ruir. Na esquin a rante o periodo, sua circulaA o foi Siqueira Mendes (a primeira run de Belem) corn interrompida duas vezes pelos pro- a Felix Rocque. na Cidade Velha, casa ro- blemasqueoleitorjaconhecesufici- sada, como & conhecida por sua cor e entemente. Olhando para tras, vejo muito adnmirada por suas preciosas o quantoja foi feito, consciente, po- linhas barrocas. ja coomnea a r6m, dequeessequanto aindamui- nostrar seus aleijOes entire to pouco. Por isso, necessario 6 olhar as fendas que e abrem paraafrente, visando o future, enca- rando os desafios, com os p6s bem em suas paredes exter- plantados no chao e a vontade asso- nas. Pode-se ver as escoras de madeira do seu interior e ter ciada as melhores utopias. umna sensaqgo da precariedade daquele equilibrio. Mais a Resta agradecer ao apoio dos frente, na mesma Siqueira Mendes, uma ouira casa colonial leitores, infelizmente menor do que desabou. das poucas que ainda restavam para tesienunhar tern sido necessariopara oxigenar as ongens desta infeliz cidade. Vamos esperar mais esta ospulmOesdestejomalzinho, mas tragedia para chorar a more de Ins?. certamentebe maiordoque o seu merecimento. Grevismo * Nunca uma greve de trabalha- dores se pareceu tanto a um lo- caute (paralisaCgo feita por pa- trao) como a dos rodoviarios da semana passada. Todos os nao envolvidos no movimento tiveram a impressao de que o objetivo maior dos manifestantes era o re- ajuste de tarifas, que a popula- qCo, principalmente a mais neces- sitada de transport coletivo, sem aumento de salario hi muito tem- po, nao ter condiqCes de absor- ver. A parede dos motorists che- gou a ser cruel e insensata. Nao s6 por maltratar passageiros apa- nhados dentro de 6nibus que ain- da estavam em circulaCqo e obri- gados a descer, sem devoluqFo da passage paga, como por bloque- ar trechos de ruas, chegando ao c6imulo de deixar ilhado o corpo de bombeiros (se o incendio na loja de Bechara Mattar tivesse ocorrido um dia depois, a trage- dia teria sido maior ainda). Quem anda em "fresquinhos" e 6nibus comuns pode sentir a di- ferenca no tratamento do moto- rista. No primeiro, cor ar condi- cionado, menos passageiros, sem paradas fixas, as condiq6es de tra- balho influem no animo do moto- rista, que, evidentemente, nao tem a mesma predisposigao nos 6ni- bus calorentos, enfrentando cor desconforto ruas esburacadas e uma clientele nao menos irritada, alem dos horarios rigidos. Descontados es- ses fatos, porem, a populacao nao tern motives de simpatia pelos motorists de 6nibus. E pratica corriqueira desres- peitar idosos, igno- rar pessoas nas pa- radas, arrancar abruptamente, des- tratar passageiro, travar porfias malu- cas, etc. A opiniao ptblica e sensivel as reivindicac6es de tra- balhadores tao im- portantes, mas se e Juntamen corn o J jd estcd circulando primeira edigdo d Agenda Amaz6nic Em banca, livrarias desrespeitada por um movimen- to que ignora o interesse coleti- vo tende a ficar contra os grevis- tas. Ainda mais quando se difun- de a versAo de que, por tras de- les, age uma categoria patronal que vem se notabilizando por ex- plorar a exaustao sua galinha dos ovos de ouro. Convem ser mais inteligente e mais sensivel aos outros na pr6xima greve, tao facil de co- mecar, tao dificil de chegar a um bom desfecho. Jornal Pessoal Editor: Lucio Flavio Pinto Sede: Passagem Bolonha. 60-B 66.053-040 Fones: (091) 223-1929 (fone-lax) e 241-7626 (lax) Contato: Tv.Benjamin Conslant 845/203/66.053-040 Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br Ediqio de Arte: Luizantoniodefanapinto/230-1304 A6reo 0 O govemador Almir Gabriel pa- rece estar com a intenqao de viajar muito pelo Estado durante os pro- ximos meses. Al6m da frota official, arrendou um taxi aereo (ver Jor- te nal Pessoal 216) e abriu licitagAo para comprar mais um aviao, con. ,apacidade para seis passageiros e Sa dois tripulantes. Pelo menos esse merito (se e mesmo merito) as eleic6es tem: fazer os politicos percorrer o a. territ6rio da suajuris- di9~o, que no caso pa- s e raense e do tamanho do pais, mesmo com os gastos acartados. Nao importa: o povo paga. Produgao * A doenca nao conseguiu abater o animo do mais important his- toriador vivo do Para: de uma s6 fornada, Vicente Salles esta lan- cando, a partir de Brasilia, mais tr6s das suas "microedic6es do author 20 exemplares de suas mo- nografias distribuidas por um cir- cuito privilegiado: Guerras aos quilombolas no Grdo-Pard, Qui- lombos na Amaz6nia (Um enfo- que interdisciplinar) e Ndo ter author Ndo tem direitos Sem autor Sem direitos (Ofolclore em face do direito de autor). Ja chega a 21 as "microediqces", micro apenas no tamanho. No merecimento, sao macro-trabalhos, sempre apon- tando numa direcao nova ou reve- lante da pesquisa hist6rica. |
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