Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00166

Full Text

Docas:

Jomrnal Pesso I ,capo
f .20 nj6-es
SSO 2 i es
L C O F L A V I O P I N O .
ANO XII. N 217 2' QUINZENA DE AGOSTO DE 1999 R$ 2,00 SEP L~ ece?

BAIXADAS


Trapalhadas na a

A brusca demissdo do gerente-geral do projeto de
macrodrenagem pode ser uma advertencia de que a obra do
siculo em Beldm estd enfrentando muitas dificuldades, nem
todas visiveis. E que o seculo terminard sem que ela chegue ao
fim, enredada nas teias da politicagem.


Sm dezembro de 1993 o gover-
no do Estado assinou os con-
tratos para o inicio do maior
program de obras executado
em Belem em muitos anos.
Oficialmente, era o Projeto de Recupera-
Cgo das Baixadas do Una. Mas ficou mais
conhecido como macrodrenagem porque
4 beneficiaria 60% do perimetro urban da

q L ILL'L' L'L;


cidade, a maior parte dela sujeita a inun-
dacao, e 40% da sua populacao. Se tudo
tivesse transcorrido como estava previs-
to, as obras de infra-estrututura basica
(drenagem, agua, esgoto e sistema viario)
dessa area, habitada por pelo menos 200
mil pessoas situadas na faixa mais pobre
da popula9ao, seriam concluidas em de-
zembro de 1997.


O atraso ja e de mais de um ano e
meio e ainda vai se prolongar. A ultima
data definida nos reajustes de cronogra-
ma consider dezembro do pr6ximo ano
como prazo final, mas pouca gente, in-
clusive do govemo, acredita nisso. A ma-
crodrenagem das baixadas de Bel6m ain-
da estara em andamento quando o novo
milenio chegar. NAo s6 isso: definir exata- )


LL:L'.'L 2U LV IILLLkL2/^ (Ltd.. Li)






2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE AGOSTO / 1999


)mente como sera o seu desfecho se tor-
nou ainda mais complicado na semana
passada, quando o engenheiro Cesar Ben-
tes, gerente-geral do projeto havia mais
de dois anos, foi demitido pelo governa-
dor Almir Gabriel, sem aviso previo nem
gesto de cortesia. Pelo contrario: com to-
das as indicacqes de se tratar de uma pu-
nigao por mau comportamento.
A substituiqgo de um t6cnico em sen-
tido lato, de tratamento dificil, por seu
temperament, mas considerado compe-
tente e honest, por Eduardo Loureiro,
um outro t6cnico do setor de saude, mas
filiado ao PSDB, pode significar que a
gestao da obra vai se politizar cada vez
mais. Um dos principals motes da ultima
campanha eleitoral, a macrodrenagem vai
aparecer corn nfase crescente na dispute
pela prefeitura de Bel6m, no ano 2000, e
a renovacio do governor do Estado, em
2002. Nesse context, um dirigente intran-
sigentemente t&cnico, como Bentes, pas-
sa a ser inconvenient.
Seu comprometimento exclusive corn
o trabalho e a reaqio que sempre teve ao
jogo politico ja vinham consumindo os
cr6ditos do gerente junto ao comando tu-
cano. O circulo mais pr6ximo do gover-
nador se irritava com a ofensiva do PT
na area e junto a imprensa, criando situa-
oqes desconfortaveis para o PSDB e fa-
turando prestigio cor uma das suas mai-
ores obras. Bentes era acusado de nao
mover uma palha para defender os inte-
resses do governor nessa dispute.
A prefeitura de Bel6m respondia as
cobrangas da popula Io da area (quase
600 mil habitantes no total) jogando a cul-
pa no governor, que abrira uma frente
ampla demais para obter dividends elei-
torais no ano passado, estava atrasado em
todas elas, s6 se preocupava cor os ser-
vigos diretamente relacionados a drena-
gem, monopolizava os recursos e nao per-
mitia a administraqao municipal fazer a
sua parte na retaguarda das obras, sacrifi-
cando os moradores.
Jogando pesado, o PT encaminhou
dossies ao BID denunciando os erros da
obra, inclusive o seu superfaturamento.
No iltimo domingo, o prefeito Edmilson
Rodrigues levou tudo isso para as paginas
do Didrio do Pard, do senador Jader Bar-
balho. Disse que o governador age corn
6dio quando trata da prefeitura de Belem.
Cesar queria se concentrar nas res-
ponsabilidades que Ihe cabiam e que
nao eram poucas, nem faceis de enfren-
tar. O governador Almir Gabriel pressio-
nou fortemente para conseguir uma re-
ducao no custo inicialmente previsto


equivalente a 225 milhoes de d6lares,
US$ 145 milhoes do Banco Interameri-
cano de Desenvolvimento e R$ 80 mi-
lhoes de contrapartida estadual).
Sua primeira providencia foi tirar o
consultor anterior, a Rede Engenharia (in-
denizada em um milhao de reais), trocan-
do-a pela Leme Engenharia, encarregada
de rever tudo o que foi encontrado Corn
isso, o governador queria deixar mal seu
antecessor, Jader Barbalho, que reivindi-
ca para si a definicao do projeto basico da
obra e a habilitacio do Estado para assi-
nar o contrato cor o BID e iniciar os ser-
vigos, imputando-lhe superfaturamento de
pregos e leviandade t6cnica.
Mas tamb6m queria enfrentar o desa-
fio cor o menor desgaste possivel. Num
novo orcamento, de R$ 234 milhoes
(cor ganhos pela desvalorizagdo do real
em relagdo ao d6lar), na parte do Estado
(que acabou em R$ 89,5 milhoes), os
recursos pr6prios ficaram em R$ 52 mi-
lhoes, ja que o BNDES entrou com R$
25 milh6es, a Uniao corn R$ 3 milh6es e
a Caixa Econ6mica Federal cor R$ 2
milh6es. A redugco do investimento di-
reto, porem, acarretava custos financei-
ros maiores, a serem amortizados depois
de finalizadas as obras.
Num process inusitado, o governor
conseguiu reduzir em quase 78 milhoes
de reais (mais de 40% abaixo do que es-
tava definido) o prego apresentado pelas
empreiteiras, tudo a base da negociacqo
direta e informal, a margem de dispositi-
vos em sentido contrario do contrato do
BID, que exigia reajuste annual com base
em parametros nele definidos. S6 que en-
quanto a empreiteira paraense Estacon deu
um desconto de 44%, a reducgo ofereci-
da pela mineira Andrade Gutierrez foi de
apenas 27%.
Ninguem no governor estranhou essa
diferenqa. Afinal, se o "realinhamento de
preqos", conforme o jargao introduzido
pelo governador, tivera por base uma li-
vre negociagco, cada um deu o desconto
quis e o governor, como se estivesse com-
prando um par de sapatos ou um quilo de
banana, barganhou o que p6de, conten-
tando-se cor o que quis. Era pegar ou
larger. Sem reduqao significativa de cus-
to, o governor estaria disposto a parar a
macrodrenagem e ai os empreiteiros per-
deriam tudo.
A principio, o BID concordou corn esse
ins6lito m6todo. Depois, rejeitou-o, segun-
do a explicaqao corrente, porque um novo
tecnico responsavel pela revisao do con-
trato decidiu aplicar a clausula 16, que s6
admite uma variacdo em torno de 10%


(para cima ou para baixo), de acordo com
as flutuaoqes de mercado. Foi entao que
o banco verificou os precos e constatou o
superfaturamento, de R$ 8 milh6es (em-
bora a prefeitura tenha chegado at& a fa-
lar em R$ 20 milhbes), por parte da An-
drade Gutierrez. Dois meses atras a em-
presa foi intimada a recolher de imediato
R$ 4,5 milhoes, mas ate agora nao o fez.
Desde entao os desencontros de infor-
mac6es e a diversidade de posiq6es cria-
ram uma confusao que desafia o discerni-
mento. Nem poderia ser de outra manei-
ra, diante da forma de conducto do tal
"realinhamento de precos". Tornou-se
quase inevitavel desconfiar da empreitei-
ra, tao mineira quanto a consultora (ainda
mais por haver se destacado no financia-
mento do fundo de campanha de reelei-
9ao do governador). Se ha uma planilha
explicitando rigorosamente o realinhamen-
to, a ela s6 tiveram acesso privilegiados
interlocutores.
A controvrsia sobre os precos 6 agra-
vada pela modificacao no projeto. A ri-
gor, a macrodrenagem s6 constou com
um verdadeiro projeto de engenharia em
maio do ano passado, quatro anos e meio
depois de iniciadas as obras, cor base
em um projeto basico. O projeto execu-
tivo foi simplificado para adequar-se a
estreita bitola financeira imposta pelo go-
vernador, que se consider capaz de dis-
pensar os tecnicos em algumas decisoes
estritamente pessoais. At6 que ponto as
simplificag6es comprometeram os auda-
ciosos objetivos da empreitada, s6 o fu-
turo respondera. Mas ja ha algumas in-
dicaqces nesse sentido.
A protecao dos canais nao parece ser
suficiente para protege-los da erosao. O
revestimento tambem nao & compativel
cor o tipo de terreno, um lamaaal que
esta abaixo da cota quatro do nivel do mar.
Como a ramificagao da infra-estrutura a
partir do eixo do canal nao esti dimensio-
nada para evitar o arraste de material, que
causa a sedimentauao, um problema para
futures services de limpezas sao as has-
tes de concrete entire as bordas de alguns
canais, impossibilitando uma eficiente dra-
gagem. Moradias de ambas as margens
desses canais tamb6m estardo mais sujei-
tas a desabamentos.
Esse tipo de iniciativa enfatiza no pro-
jeto o seu lado de mera obra de drenagem
e saneamento, mas enfraquece o seu as-
pecto de urbanizagao, que se apresenta
como necessidade a partir do moment
em que os interesses dos moradores sao
despertados. Essa fragilidade ter sido a
cunha de penetradao da prefeitura, intei-






JOURNAL PESSOAL .2a QUINZENA DE AGOSTO / 1999 3


ramente marginalizada das decis6es sobre
a obra de maior impact em Bel6m, po-
r6m mais agressiva politicamente (inclusi-
ve mais present nos locais). A popula-
9Co, afetada e em muitos casos prejudi-
cada pelo andamento (ou retardamento e
paralisagCo) dos serviqos, pressiona pela
extensdo das obras para o sistema viario,
o meio-fio, o aterramento de novas areas.
O PT promete fazer tudo isso, mas alega
que esta impossibilitado porque o gover-
no o boicota.
O governor, na verdade, se enredou
numa teia que poderia conduzi-lo a um
resultado excepcionalmente positive, a
partir do moment em que foi tentando
esconder os problems e protelar as solu-
GOes, deixando de encarar realisticamente
o desafio em seu tamanho verdadeiro.
Para manter algumas frentes em ativi-
dade, enquanto nao definia o contencioso
cor o BID, que suspended as liberac6es
no final do ano passado, colocou nas bai-
xadas R$ 12 milhoes a mais de recursos
diretos (e procurava ocultar o problema
atribuindo a evidence abulia de obras as
chuvas). Dos R$ 89 milh6es de contra-
partida,ja aplicou R$ 86 milhoes, usando
os financiamentos internos.
Restam US$ 85 milh6es do BID para
esgotar o orcamento e arrematar a ma-
crodrenagem. O dinheiro s6 vird se o
que o banco classificou como superfa-
turamento for devolvido pela Andrade
Gutierrez. O problema 6 que a emprei-
teira, julgando-se com direito ao que
cobrou, como indenizacgo pela desmo-
bilizaqAo que precisou fazer por falta de
dinheiro do contratante, contest a co-
branca. Nem esta sendo pressionada
para fazer a devolug~o.
Especula-se que C6sar Bentes nio
teve qualquer preocupacgo com o evi-
dente irritagAo que suas declaracqes cau-
saram ao governador (contraditado em
varias das afirmativas que tem feito) por
ja nao estar mais satisfeito no cargo. O
ex-gerente estaria preferindo voltar a Al-
bras, a fibrica de aluminio do cons6rcio
nipo-brasileiro, da qual 6 funcionario e
que o cedeu a pedido. Mas se sua substi-
tui9ao vai aprofundar o aproveitamento
politico da obra, em relacgo a qual ele
vinha manifestando crescente intolerin-
cia, isto pode significar que a macrodre-
nagem pode se embaracar cada vez mais
nas teias eleitorais at6 a dispute de outu-
bro do pr6ximo ano.
Isso pode prejudicar a obra do s6culo
em Bel6m, que, apesar dos seus eventu-
ais aspects critics, efetivamente muda-
ra em profundidade a fisionomia da cida-


A Basilica de Nossa Senhora de Na-
zar6 existe por dois motives: o padre
Afonso di Giorgio decidiu construi-la e o
povo aderiu maciramente a campanha por
ele liderada. Ao long de 40 anos (e exa-
tamente na decad6ncia da borracha, com
a crise econ6mica que provocou em Be-
16m), foram ininterruptos os donativos da
populacgo paraense, desde o morador
mais rico, que assumia um encargo espe-
fico e o executava (uma vidraga, por
exemplo), at6 o mais humilde habitante
com seu modesto 6bolo. A igreja esta ai:
cam, bonita, as vezes deslumbrante, sem
impressionar por seu estilo (na verdade,
um conjunto de estilos), uma verdadeira
realizagao do povo.
Os seus administradores podem achar
que os dois pulpitos instalados na nave
central estdo em desacordo com a litur-
gia da missa, a doutrina da Igreja, a es-
t6tica ou seja la o que for. E um direito
que t6m. Nao estA entire suas prerrogati-
vas, entretanto, promover mudancas
naquele pr6dio rigorosamente puiblico
sem ouvir a populacgo, qualquer que
sejam suas motivag6es.
T6cnicos italianos trazidos para re-
mover os dois piilpitos garantem que
essas peas destoam da riqueza do tem-
plo. O local ficara mais puro arquiteto-
nicamente (se tal 6 possivel naquele ca-
leidosc6pio) sem os dois apensos late-
rais. Fi6is se regozijaram com a remo-
gao porque agora nada mais vai atrapa-
lhar-lhes a vislo do altar. E haverA mais
gente para ocupar a igreja nos seus atos
mais concorridos, fazendo crescer o re-
banho no aprisco (e enriquecendo os
dizimos, claro).
Tudo bem e legitimo. Mas que se-
jam ouvidas as vozes dissonantes antes
que, do trono, a tonitroante voz do pa-
dre Brambilla (por isso mesmo tratado


de. As simplificaq6es de projeto para via-
bilizar o "realinhamento de precos" po-
dem diminuir os beneficios da obra e difi-
cultar sua operacqo (seriam necessarios
de R$ 12 milh6es a R$ 18 milhoes em
gastos de manutenqco, segundo o prefei-
to Edmilson Rodrigues).
Os atrasos e complicaq6es contratu-
ais podem, pelo contrario, encarec6-la ao
inv6s de baratea-la. Afinal, tanto o di-


de BrambillAo) decide em solidco nada
ecum6nica, ele e qualquer outro barna-
bita, de uma ordem que, ao menos no
Para, nao tern se celebrizado por tole-
rancia cristi, espirito democratic ou ci-
vilidade. Os barnabitas ddo teco em tudo
o que acontece em volta do Largo de
Nazar6 e circunvizinhanga. Uns 20 anos
atris at6 quiseram impedir que o dono
de uma pizzaria fizesse obras em sua
propriedade. S6 nao admitem contrarie-
dade as suas ordens.
Nio tenho opiniao definitivamente for-
mada sobre os tais p6lpitos. A Basilica de
Nazar6 nao me comove como as igrejas
do Carmo, Santana, Santo Alexandre ou
Sio Joao (as p6rolas de Landi). E bela,
mas fria. Sua imponencia se impbe em
demasia para meu espirito contrite e reco-
Ihido, 6 deja-vu demais,parvenu (como a
Basilica de Sao Pedro, em Roma, alias,
de vezo mais institutional do que espiritu-
al). Mas nio acho que, no conjunto frag-
mentado, seja uma n6doa, nem que sua
supress~o seja tarefa urgente.
Urgente e ingente 6 a expurgaio da-
quele anexo horroroso introduzido ao
lado da fachada da nossa basilica e 1i
mantido com a cumplicidade dos bama-
bitas. Aquilo 6 uma inquestionavel ex-
crescencia, criada talvez porque permi-
te bons faturamentos durante a quadra
do Cirio- e preservda pelo mais pn ma-
rio comodismo, ji que um pouco mais
de cuidado tamb6m nao oinibiria o fatu-
ramento da ordem.
Se aquele entulho de comercialismo
nio perturba a est6tica e a liturgia da
basilica, por que tanta intoler&ncia em
relacio aos puilpitos e aos que tentaram
mant6-los na rica edificaqio que ajuda-
ram a erigir? Se Cristo, como fez em
Jerusal6m, estivesse de volta e ali fosse
pregar, a quem trataria como fariseus?


nheiro do BID quanto o do BNDES te-
rao que ser devolvidos, com os devidos
custos financeiros. No final do primeiro
semestre o BID havia aplicado US$ 56
milh6es na obra, mas s6 dejuros embol-
sara US$ 12 milh6es, equivalent a 8%
do que at6 entao havia sido gasto na ma-
crodrenagem e 20% do dinheiro efetiva-
mente cedido pelo banco.
E uma advert6ncia grave. *


Medievalismo


em Nazare


II- -- --rsl I I- 1-






4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE AGOSTO / 1999





Cronica: intense e curta


como a vida brasileira


A cr6nica 6 o mais brasileiro dos gene-
ros literdrios: curta, fluente, puxando para
o humor, tratando do cotidiano, provocati-
va, improvisada. Deveria ser a porta de
entrada ao mundo da literature, mesmo que
algumas vezes os freqtientadores nao con-
sigam ir al6m dessa porta (6 o que dizia
S6rgio Porto, um dos nossos grandes cro-
nistas, a Ant6nio Olinto, dono de uma co-
luna de critical de livros em O Globo com
o titulo Porta de Livraria: ele bem que
podia entrar e comprar um livro para ler,
ao inv6s de se manter sempre a porta).
Por refletir o nosso ethos, a cr6nica
e (ou foi) um rito de iniciaqdo e passa-
gem de um povo que fez da superficia-
lidade uma virtude e do ludismo um
modo de ser. Nao 6 muito provavel que
outra literature national tenha tido em
atividade simultanea um conjunto de
cronistas como os que escreviam em
jornais e revistas brasileiros entire as d6-
cadas de 50 e 60, como
Rubem Braga, Paulo Men-
des Campos, Otto Lara
Resende, Carlos Heitor O pres
Cony, Carlos Drummond tem o dev
de Andrade, Stanislaw onamento
Ponte Preta, Ant6nio Ma- galerias q
ria e por ai afora. prevenir i
Mas como hoje ha pou- ver as pes
cos cronistas e a proporgao tem a prer
de livros de cronica no mo- do poder
vimento editorial global seja existir.
crescentemente diminuto Foi tri
no pais, isto significaria que votada (e
o genero, por ser mesmo tucional n
menor em relaqgo a paren- part do te
tes mais garbosos (como o ingresso,
romance e a poesia), per- circense p
deu f6lego e desceu ao lu- cia com u
gar reservado ao ef6mero, controver
datado, transit6rio? Ou, mais desa
por sua debilidade e pelo No ent
traqo de brasileirismo que pr6dio do
incorporou, esta mais su- posiqdo d(
jeito a ciclos de apogeu e dicais, par
declinio, estes mais fre- salvaguar
qtentes e prolongados do tao pouco
que os primeiros? (para lemt
Ojornalista Jason T6r- tar, pr6dig
cio responded com uma A atua
tentative de nao no seu merece m
Orfao da Tesmpestade do, indepe
A vida de Carlinhos Oli- de sua bre
veira e da sua geraqdo, presid6nci
entire o terror e o Oxtase


(Editora Objetiva, 453 paginas, 35 re-
ais). Seu esforco 6 em favor da pereni-
dade do cronista Jos6 Carlos Oliveira,
um capixaba que rompeu com seu Es-
pirito Santo de origem para incorporar
o mais tipico modo de ser brasileiro, o
da zona sul da cidade do Rio de Janei-
ro, enturmado entire a esquerda festival
e a direita complacente.
A tese central do livro 6 de que o
mais expressive romance do viver cari-
oca dos 50s aos 60s foi composto frag-
mentadamente por Carlinhos em cr6ni-
cas publicadas ao long de 23 anos se-
guidos no Jornal do Brasil, mas conce-
bidas, na maioria das vezes, na varanda
do restaurant Antonio's, o ponto de
encontro preferido da fauna urbana mais
glamourosa do Brasil.
O livro sofre daquela descontinuidade
que as pesquisas de curto f6lego deixam a
mostra. As situaqces seguem um piano de


^ Aus ncia
idente da Assembl6ia Legislativa, mais do que
er de adotar medidas coercitivas para assegura
Regular da casa. Pode impor o control do
uando ha sess6es polemicas ou mesmo conflitu
icidentes. Pode colocar policiais no audit6rio pi
soas que nao se comportam adequadamente.
rogativa de impedir o povo de participar das a
que lhe 6 mais pr6ximo, que depend do seu

ste e lamentivel a sessio do dia 27 dejulho, qi
aprovada pelo rolo compressor official) a emen
2 12 (apelidada de "emenddo" por incidir sobi
exto da constituicgo do Estado). Mais do que bl
o deputado Martinho Carmona montou um es
ara tentar legitimar um ato que nao ter a meno
m poder que se sustenta no debate dos contr
sia e na tolerancia, o mais democratic (talvez
rmado) dos poderes constitucionais da Republi
anto, em period de plenitude democratic, la
legislative paraense cercado de policiais mil
e combat contra duas dizias de manifestantes
a cujos excesses e equivocos o regime democr.
das regulars e rotineiras, sem que o pastor C
dotado de espirito cristdo, precise "chamar
rar um dos mais sombrios motes do extinto reg
;o nesse tipo de iniciativa).
1 Assembl6ia Legislativa pode at6 ter o preside
ias o Pard nao tem o poder legislative que est 11
ndente e digno. Que Carmona nos conceda o
vidade. Pode ser sua melhor qualidade no exe
ia da AL.


seqUtncias sem amarragdo, como chapas
de um filme com intervals velados. Mas
6 fdcil de ler e 6 um agraddvel divertisse-
ment, especialmente para os que viveram
na Cidade Maravilhosa na mesma epoca
e ainda puderam conhecer pessoalmente
o personagem.
Se a tese de Jason fosse verdadeira,
Carlinhos nao teria se empenhado ate o
iltimo moment em uma grande obra,
distinta dos fragments espalhados no
curso de sua carreira professional. Se ten-
tou disciplinar-se para essa producgo,
afastando-se da bo6mia, foi porque em-
bora no vasto cascalho de cr6nicas que
escreveu haja preciosas pepitas, elas sao
poucas demais at6 para antologias. Ex-
pressam o espirito de uma 6poca, mas
deixam claro que a necessidade de pro-
duzir diariamente sem se exaurir nesse
cotidiano s6 poupa do desperdicio pou-
cos criadores, do porte de um Dostoie-
vski ou de um Balzac.
i Esse nao era o nivel de
Carlinhos. Seu bi6grafo tern
o direito, que se desviar para a gera-
r o funci- gao da qual ele foi um dos
icesso as personagens arquetipicos,
osas para dando mais atencgo ao mun-
ara remo- danismo do que a pr6pria
Mas nao obra do escritor, contraditan-
tividades do-se dessa maneira, mesmo
voto para sem querer. A maior obra de
Jos6 Carlos Oliveira foi sua
uando foi vida, 6 a impressao que fi-
ia consti- cou quando fechei o livro de
re grande Jason T6rcio, agradecido por
loquear o Carlinhos haver existido para
spetaculo servir de contraponto a ge-
r coer&n- raqoes que passaram a bus-
trios, na car nos ramais da boa saide
rrios, na
porque o obsessive e da auto-estima
ca. espalhafatosa uma razao de
I estava o viver que estd aquem do que
itares em e o melhor da vida: o risco
mais ra- da novidade e do desafio.
I mais ra-
atico tem Que consumiu muito cedo
armona, Carlinhos (aos 52 anos),
o Pires" Roniquito, Hugo Bide, An-
ime mili- tonio Maria, Stanislaw Pon-
te Preta e tantos personagens
Lente que dessa epoca, mas deu-lhes a
he faltan- intensidade dos que, deixan-
beneficio do sua marca pessoal, tor-
rcicio da nam-se eternos, muito mai-
ores do que o tempo que lhes
foi permitido viver. *






JOURNAL PESSOAL .*2 QUINZENA DE AGOSTO / 1999 5


0 turismo do mundo


e o da Amazonia


Outro dia conversava com uma ami-
ga sobre como ficou chato andar (nao
mais, nem s6 visitar) nos grandes cen-
tros turisticos mundiais. Sendo a Italia
nossa paixdo comum, falamos dos incon-
venientes de estar em Roma, Veneza e
Florenca durante a alta estaqgo turistica.
Hordas de alemAes e japoneses, herdei-
ras das legi6es americanas, tomam as
ruas, os pr6dios e os monumentos mais
apaixonantes da hist6ria da humanidade
como se estivessem num supermercado
cultural, levados por guias encalacrados
em seus textos an6dinos, sem a menor
intimidade com o tema e a situaqAo. Ver
os novos ricos (ou ja sera ex-novos ri-
cos?) japoneses fotografando tudo, nada
vendo ao natural, com os pr6prios olhos,
e dose para mamute.
Se esse 6 o inevitavel turismo de um
mundo globalizado e massificado, 6 me-
Ihor ficar a distincia dessa maravilhosa
industria sem chamin6s. Porque ela a tudo
deforma, a tudo homogeneiza artificial-
mente, a tudo imbeciliza. Mas como 6 in-
sensato (e mesmo impossivel) escarecer
do turismo, tentamos encontrar para va-
ler uma forma inteligente de pratica-lo, que
nao se reduza a artificio de marketing.
A Amaz6nia 6 uma das areas de maior
potential para o turismo do planet, mas
a mais suscetivel a sucumbir ao pior ma-
neirismo dessa maquina de triturar cultu-
ras, ragas e etnias desviadas da pasteuri-


zagAo global a partir das exig6ncias dos
alemaes, japoneses e americanos que an-
dam pelos quatro cantos em busca do seu
pr6prio mundo refletido em outros espe-
Ihos. Santar6m, como o Maraj6, oferece
no Para a melhor plataforma para o de-
senvolvimento do turismo. Simplesmente
por ja atrair contingent significativo de
visitantes sem lhes oferecer a mais prima-
ria das estruturas receptivas.
Por isso, meu comentario do numero
passado sobre o piano da prefeitura para
a como diria nosso alcaide revitaliza-
gdo da orla de Santar6m provocou varias
reaches. Mas nenhuma das pessoas quis
assumir publicamente sua posiqgo. Todos
preferiram aguardar a evolucgo da admi-
nistraqgo municipal, com seu piano de 30
milhoes de reais (dos quais R$ 9 milhoes
ja estariam assegurados).
A possibilidade de Santar6m voltar a
contar com as praias do passado, que lhe
davam caracteristicas especiais na paisa-
gem amaz6nica, nao 6 imediata, nem fa-
cil. Requer coleta, drenagem e tratamen-
to de esgoto para evitar a poluicgo, que
tomou uma temeridade atirar-se ao Tapa-
j6s em frente a cidade. Todo o cais de
arrimo teria que ser desfeito e disciplina-
do o uso daquela area.
Continue considerando condiqgo ne-
cessaria a execugao desse piano o des-
monte do "tablado", o mercado fincado
sobre as aguas do rio. Se as pessoas que


se beneficiam desse ponto temem que a
prefeitura nao sincronize o desmanche
desse mercado com a construcgo de um
verdadeiro terminal pesqueiro, com sua
extensao commercial, entao devem exigir
que a segunda obra seja iniciada de ime-
diato, em local ja definido, a Vila Arig6,
sem esperar pela primeira. O Mercadao
2000 continuaria funcionando no mesmo
lugar, mas de forma aut6noma. Os pesca-
dores e demais produtores teriam que ser
apoiados por medidas que Ihes reduzis-
sem os custos com a mudanca.
Ao menos neste aspect, Santar6m
voltaria a ser o que foi at6 algumas d6ca-
das atras, um centro econ6mico de todo
o Baixo Amazonas e uma cidade de praia,
sendo fluvial e nao litoranea? A tarefa nao
6 facil. Impoe desafios t6cnicos, exige di-
nheiro e precisa de muita vontade de fa-
zer, fazendo bem (com intelig6ncia e sem
desperdicio ou desvio de recursos), sem
dispensar a consult aos interessados, nao
apenas para conseguir referendo aoja de-
cidido, mas tornando essa oitiva um ato
de verdadeira decisAo.
Ao contrario do que alguns pensam, tudo
isso ndo seria apenas para atrair e agradar
a turistas, mas recuperar a identidade de
uma cidade unica numa Amaz6nia especi-
al. Esta cidade ja era assim muito antes do
tal "tablado", do crescimento ca6tico e dos
govemos ineptos que engoliram suas prai-
as e seu modo amaz6nico de ser. 0


:- Ferronorte: do Nor-te? rj r I--


O president Fernando Henrique Car-
doso inaugurou, na semana passada, uma
obra que, quando concebida, era apresen-
tada como uma prova do arrojo da inicia-
tiva privada. A Ferronorte era o espelho
da capacidade de seu criador, o "rei da
soja", Olacyr de Moraes. Ele prometia
implanta-la com recursos pr6prios e os fi-
nanciamentos que conseguisse amealhar.
O primeiro trecho em operacgo, atraindo
a producgo de parte do Centro-Oeste para
o litoral paulista, ao custo de mais de um
bilhao de reais, teve quase metade desse
capital assegurado por dois funds de pen-
sao federais, o Previ (do Banco do Bra-
sil) e o Funcef (da Caixa Econ6mica). A
participagao de Olacyr, ja agora nao mais
como o "rei da soja" (nem da noite), mas


um habil corretor, foi reduzida para 16%
(integralizado sabe-se Ia como).
A segunda etapa, abocanhando outro
bilhdo de reais, vai chegar at6 Rondon6-
polis, em Mato Grosso, acrescentando 390
quil6metros aos 410 kms do primeiro tre-
cho (Alto Taquari-Aparecida do Taboa-
do), integrados, por sua vez, aos 900 kms
de linha ferrea da Fepasa (ja privatizada)
ate o porto de Santos. A Sudam se com-
prometeu a liberar R$ 200 milhoes, um
quinto do dinheiro necessario. Ajustifica-
tiva e de que a ferrovia entrou em area da
Amaz6nia Legal, credenciando-se a rece-
ber recursos dos incentives fiscais.
E um argument chocho. O sentido da
ferrovia 6 de sugar as riquezas naturais, de
baixo valor agregado, do Centro-Oeste,


para serem processadas ou embarcadas
para exportacgo em Sgo Paulo, com gan-
hos multiplicados. Nao 6, portanto, um ins-
trumento de desenvolvimento regional, mas
uma veia aberta de exploracao de area pe-
rif6rica, de fronteira subordinada. Quando
chegar a Cuiaba, na terceira etapa, vai ab-
sorver mais dinheiro public e estender os
tentaculos sugadores at6 o arco amaz6nico
matogrossense. Alguns acham que a ferro-
via estara complete quando seus trilhos
apontarem em Santar6m, encontrando ali
um porto alternative ao de Santos. E pro-
vAvel que nao seja assim. Se for, ainda as-
sim nao sera um destino diferente.
Consagrara o novo reinado de Olacyr de
Moraes. De rei da garganta e da esperteza-
usando funds publicos, naturalmente. *







6 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE AGOSTO / 1999


Interesse

public --

M Certas incompreensbes me fazem
renovar a explicaqAo sobre os objetivos
desta secdo. Ela nao 6 de dentincia, nem
serve de inspiraqdo para mat6rias. S6
quando a informagdo 6 suficientemente
grave ou indica claramente uma irregu-
laridade e que faqo uma apuraqco em
extensdo. Mas ai a material extravasa
deste espaco, ocupando outro lugar, mais
apropriado.
Esta seq~o tem duas finalidades:
fazer o cidadao ler (e compreender) o
Diario Oficial, que abriga os atos da ad-
ministracao ptiblica, mesmo quando su-
marizados ou codificados, para assim
melhor controlar o govemo (sem o que
nao ha democracia), e exigir dos servi-
dores publicos que prestem contas do
que estao fazendo a quem a conta sera,
final, apresentada: o contribuinte. Se o
cidadao quer que seus direitos sejam
respeitados e seus interesses atendidos,
precisa se informar sobre a principal
fonte de decisoes em relaqgo a vida
coletiva, originadas no tal do aparelho
de Estado.
Quanto ao funcionario puiblico, ser
cobrado sobre o que faz 6 parte das suas
obrigacges. Nao e por favor que respon-
de a pedido de informaqSes: 6 por dever
funcional mesmo. Da reaAo que expres-
sar teremos um crit6rio seguro para ava-
liar se esti ou nao cumprindo suas obri-
gaqSes. E quanto a administraqdo publi-
ca, se e ou nao democrdtica, se esta ou
nao a serviqo da sociedade.
Portanto, ningu6m deve se sentir
ofendido ou ter sua suscetibilidade al-
cancada pelos pedidos de explicaq6es
aqui apresentados. Nem os fatos aqui
referidos expressam necessariamente
uma irregularidade. Se hi algum erro
ou incorrecdo, uma boa resposta reco-
locara tudo nos devidos lugares, para o
bem de todos e felicidade geral da na-
qao. Ambos s6 serao prejudicados (e,
cor eles, os referidos nesta seqao) sea
resposta for o silkncio-conforme, in-
felizmente, parece ser a regra at6 ago-
ra, corn umas poucas e (como sempre)
honrosas exceqces.
Vairios 6rgdos da administragqo pl-
blica contrariam norma do Tribunal de
Contas quando apenas citam a data dos
terms aditivos anteriores sem indicar
suajustificativa. Alguns ainda supreme
parcialmente a falha acrescentando a
justificativa de apenas alguns, provavel-
mente os que alteraram o valor do ato
original (como faz a Secretaria de Obras,
de que e exemplo o Diario Oficial do
dia 6, pagina 4 do cademo 2). Mas ou-
tros omitem tudo. O TC podia adverti-
los para impor maior respeito A norma.
WA Secretaria de Seguranca P6bli-
ca publicou (no DO do dia 6), os ex-
tratos de dois protocolos de intenqces
com a Universidade Federal do Para,
para estreitar as relaqces entire am-
bas. Mas sem especificar logo os ob-
jetivos concretos do protocolo, nao 6
perda de tempo, de papel, de trabalho
e de dinheiro publicar documents tio
genericos assim? Mesmo que a inson-
davel burocracia exija que o process
siga etapas at6 poder se materializar


no mundo das coisas reais, nao 6 me-
Ihor fazer as coisas de uma vez? Fica
a observag o.
0O Detran se dispoe a gastar 1,1 mi-
lhAo de reais nos pr6ximos 12 meses
com o fomecimento mensal de vale ali-
mentaqo aos seus funcionhrios, con-
forme o terceiro termo aditivo a um con-
trato assinado no ano passado com a
Amazon Card's, que o prorrogou ate o
ano 2000. Nao 6 muito dinheiro, nao?
IO que sera que Maria da Gl6ria Nas-
cimento, chefe do Instituto de Identifi-
caio da Policia Civil, foi aprender com
a Policia Montada do Canada, em Ota-
wa, e em Los Angeles, nos Estados
Unidos (com quem? Ou ajurisdi~ao da
policia canadense ji se estende ao pais
vizinho?)? Autorizada pelo govemador,
ela teve direito a oito diarias, cada uma
equivalent a 300 d6lares (no total, US$
2.400), e a seguir pelo interessante ro-
teiro intemacional. Na volta, a Assem-
blWia Legislativa devia convoca-la para
dividir os conhecimentos amealhados
numa exposiao pfiblica.
Alias, devia tomar imediata provi-
dancia em relacgo ao secretario de pro-
dugao, Simlo Jatene. Em tres semanas
foi A Alemanha, Austria, Inglaterra e
EUA (incluindo Los Angeles, novopo-
int no passaporte da burocracia ofici-


CARTA

Prefeito

de Belem tem

boa intengoo?

* 0 leitor Marcus Pessoa de
Araujo enviou a seguinte carta:

Leio de vez em quando seujomal e
s6 posso louvar sua persistencia em man-
ter um veiculo de imprensa independen-
te nessa terra tAo carente deles.
No entanto, discordo veemente-
mente do tom da mat&ria de capa da
tiltima edigao, "O Alcaide rugiu", prin-
cipalmente pela inexatidao do texto ini-
cial, que diz que oprefeito Edmilson Ro-
drigues "agrediu verbalmente" a rep6r-
ter de "O Liberal".
Nao sou petista nem tenho simpatia
political ou ideol6gica por Edmilson, mas
me parece 6bvio pela transcriqio do did-
logo que nho houve nenhuma agressao
por parte do prefeito. O que houve foi
uma tentative da reporter de fazer o Ed-
milson falar sobre assuntos inc6modos
para ele, uma recusa da parte dele e de-
pois umbate-boca meio sem sentido,mas
que nho resvalou em nenhum moment
para o desrespeito pessoal.
Em que ponto esta a "agressio"?
Voce sabe melhor que ninguem que o
texto joralistico ter que ser exato,
nao & possivel colocar na abertura da
materia algo que nao 6 confirmado
pelo miolo.
Eu, se fosse o prefeito, encerraria a
entrevista na mesma hora em que esti-
vesse sendo chamado de "tu" por um
reporter. Femando Collor encerrou uma
(a seu modo grosseiro, naturalmente)
quando foi chamado de "voce" por um


al). No territ6rio americano, teria ab-
sorvido conhecimento sobre refloresta-
mento e conservaq~o ambiental para
aplicar em nosso Estado, cujo clima e
demais condiq6es geogrfficas muito se
assemelham As da California, como e
piblico enot6rio.
Atraves do segundo termo aditivo, a
Secretaria de Transportes acresceu 900
mil reais ao contrato de 1998 assinado
cor a Mecominas, at6 cinco anos atris
uma inexpressiva presenqa mineira em
territ6rio paraense, para services de
pavimentaqio na PA-124 (trecho Ca-
panema-Santa Luzia). O aditamento,
publicado no DO do ultimo dia 4, nao
diz qual o valor do contrato original e
qual a sua modalidade, contrariando
norma do TCE e impossibilitando me-
Ihor avaliagho do aditamento.
A Sectam (Secretaria de Ciencia,
Tecnologia e Meio Ambiente) aditou
pela quinta ou sexta vez contratos com
empresas privadas (estabelecidos no
ano passado atraves de carta-convite)
para a "execugao dos microssistemas
de abastecimento de agua tratada" em
52 comunidades de 11 municipios (amai-
oria no Baixo Amazonas), ao custo de
2,5 milhees de reais. Justificativa para
todos os terms aditivos: "prazo e difi-
culdades na perfuracio dos poqos".


reporter da "Folha de SAo Paulo". Eu
chamo de "senhor" ate para subordina-
dos meus, entAo por que deveria aceitar
esse tratamento informal?
Desse jeito, Edmilson se sentiu a
vontade pam entrarnum bate-boca tipi-
co de botequim de esquina mas sem
desrespeitar a reporter.
Achei instrutivo verificarcomo saio
trogloditas os petistas que gravitam em
tomo de Edmilson, assim como o so os
vereadores processados na Comissao de
Etica. Quem conhece Paulo Gaya e Raul
Meirelles pessoalmente sabe que hi
muito eles mereciam isso. E e fato que o
"politburo"do prfeito compost de pes-
soas que fizeram sua carreira political na
base da sabujice e no espirito de corpo
pseudo-leninista.
Mas hque diferenciaresses do pr6-
prio prefeito e da vice, que estao onde
estao porque sao respeitados pelos pe-
tistas e pelopovo. Edmilson 6 autoritario,
mas tambem e meio "moleque" e diver-
tido pessoalmente. E uma pessoa que
ama de verdade a cidade e se senate hon-
rado do cargo que ocupa Nao 6 pessoa
que fique agredindo rep6rteres, mesmo
que se irrite (muitas vezes sem razao)
corn o trabalho deles.
Sobre suas consideraq6es finals, te-
nho apenas a dizer que concordo corn
as critics a respeito do espirito pouco
ptblico da propaganda da prefeitura,
mas tambem entendo que Edmilson se
abstenha de critics ptblicas ao Grupo
Liberal, na esperanca de ter uma "tr6-
gua" que lhe permit ocupar espagos
politicos. Em political 6 defensavel omi-
tir a verdadequandosuadivulgaciopode
se voltar contra quem a divulga.
Minha resposta
Na epoca em que opresidente Ri-
chard Nixon mentia descaradamente
para acobertar a atividade illegal de
seus "encanadores", conjunto de


Mas rigorosamente em todos eles?
Quais foram essas dificuldades? E do
sitio, do m6todo, dos equipamentos ou
do pessoal?
EE conv6nio ou contrato o que o Ipa-
sep (Instituto de Previddncia e Assis-
tencia dos Servidores do Estado do
Pard) assinou em 1997 com a Asta
(Assessoria Tecnica Atuarial) para a
"prestagio de serviqos de assessoria
autuarial na area da previdancia"? No
alto do 4- termo aditivo (publicado no
DO do dia 3) aparece convenio, en-
quanto o extrato fala em contrato. O
document noo diz qual o valor original
do contrato (ou convenio?), limitando-
se a confusa referencia sobre R$ 74
mil de um segundo aditamento e a R$
35 mil do quarto. E tudo somado? E
qual e o valor de origem?
S0 empenho n 99 da Secretaria de
Obras, publicado no DO do dia 30 de
julho, para "locac~o e montagem em 02
tendas em lona sobre estrutura tubular,
na Granja do Icui", residencia official do
govemador, diz que a modalidae da lici-
taqdo se baseou no "art. 24, I, da Lei
8.666/93". Por que nho descodifica logo
para facilitar a melhor informaqao do
leitor? Atenderia o principio da publici-
dade, embora contrariando os habitos
da burocracia emperradora. 0


gene, geralmente desqualificada,
mantida nos porOes da Casa Branca
para atacar pessoas incdmodas (in-
clusive e sobretudo na imprensa), o
escritor e cartunista Jules Feiffer
cunhou ura friase que ficaria famo-
sa: "Se voce quer uma mentira, va a
uma entrevista coletiva. Se voce quer
a verdade, roube-a".
Ndo ha, nos anais historicos, ne-
nhum registry de alguem que tenha
convocado uma entrevista coletiva
para dizer a verdade, quando ela o
contraria. Mas as coletivas corn a im-
prensa existem e se mantim na espe-
ranca de que o entrevistado possa
ser contraditado. Tambem pelo de-
ver de oficio dos jornalistas, de aco-
Iher a versdo official ou a explicacdo
formal. Mas dizer que "em political e
defensdvel omitir a verdade quando
sua divulgavao pode se voltar con-
tra quem a divulga" e fazer o jogo
do lobo, poupando-o do desgaste de
ir atrds das galinhas (ou da av6 de
Chapeuzinho Vermelho).
Respeito as opiniOes do leitor al-
gumas das quais partilho, mas rejeito
essa moral utilitdria. Dela se valem
pessoas como Rubens Ricupero, o cri-
ador da sindrome da antena parabo-
lica, angelical de ptublico, diab6lico
quando na (suposta) intimidade. Sera
que o maquiavelismo, ojesuitismo ou
o leninismo irdo sempre justificar a
maixima do "o que e bom eu mostro e
o que e ruim eu escondo do ex-mi-
nistro da Fazenda? Ndo se hdi de es-
perar realmente, que alguem convo-
que a imprensa para declarar espon-
taneamente: eu errei, eu enganei, eu
roubei. Mas uma autoridade ptiblica
que reage corn trovOes e raios a uma
pergunta inc6moda, questionadora do
seu discurso, ter o que esconder ou
esta despreparada para a fungdo.
Vi uma entrevista do entdo presi- )


I~-~LC-I- 3-r"ll-----F 1---11---_






JOURNAL PESSOAL *2 QUINZENA DE AGOSTO / 1999 7







0 jornalismo sem carter,



segundo Wagner Carelli


A entrevista de Wagner Carelli ao Jornal dos Jornais (n 4, edigqo de
julho) me provocou duas sensaq6es antag6nicas. De admiraqdo, por ele ter
reconhecido sem subterfiigios graves erros que cometeu. De espanto, por ha-
ver cometido esses erros quando era apenasJoca (principiante) de redagao.
Com a credencial de ser atualmente o director de redaqgo de duas das mais
importantes revistas mensais do pais (Reptiblica e Bravo.), Wagner confessa:
"eu inventava entrevistados, atribuia inforrma~ es a funcionarios ficticios e fazia
mat6ria s6 com informaaqes passadas por colegas, sem conferir no local".
Como exemplo, cita a reportagem que fez sobre um engarrafamento gi-
gante no centro de Sao Paulo, onde um original guard de trinsito trazido de
Salvador, na Bahia, faria demonstrates. Enquanto os fatos aconteciam,
Wagner namorava. Ao chegar a redaqao de O Estado de S. Paulo, onde
trabalhava, ficou sabendo que a rotineira materia que Ihe fora pautada se
transformara num acontecimento. Sem avisar seu chefe, foi at6 a redacqo do
Didrio da Noite pegar informac6es com uma amiga reporter. Cor esses
dados, mais o que "ainda peguei no rescaldo dos acontecimentos", quando
retomava ao Estaddo, diz haver escrito "a melhor materia que saiu em toda
a imprensa sobre o caso".
A auto-avaliaqco talvez nao passe de garganta, mas ainda que Carelli
haja escrito mesmo uma boa material, ele teria que serdemitido se seu com-
portamento tivesse sido descoberto. Uma reporter do Washington Post ga-
nhou o Pulitzer, a maior premiaqco do jomalismo americano, mas ojomal
devolveu o premio ao descobrir que a reporter praticara uma fraude (revela-
da publicamente pelo pr6prio journal) semelhante a que Carelli parece ter
tornado rotineira no inicio de sua carreira. Ajomalista sumiu das redaq6es,
um castigo A altura do seu erro.
JA Wagner Carelli diz que epis6dios como esse foramm as grandes liq6es
da minha vida de foca". Nao chega a declarar tdo explicitamente, mas deixa


seus leitores suporem que se regenerou completamente e e, agora, um pro-
fissional s6rio. Mas nao ter direito a essa presunago: se como iniciante
cometeu repetidas vezes o que pode ser qualificado como crimejornalisti-
co, sem ter tido a iniciativa de avisar seus chefes para que estes pudessem
advertir a opinido piblica ilaqueada, pode-se crer que nao tenha voltado a
reincidir no erro depois e que nao continue sujeito a esse impulse mesmo
agora? Seu crime, um dos mais graves da profissao, ainda nao prescreveu.
Alias, e imprescritivel.
O epis6dio do transito paulistano foi urn ato de irresponsabilidade. Mas ele
fez muito mais: mentiu e fraudou deliberadamente. E louvavel que esteja con-
fessando esses delitos, mas para mim esse tipo de erro nao tem perdao. Revela
um problema de carter e uma lacuna professional que vicia a producio e conta-
mina de falhas toda a capacidade de expressio dojomalista. Nao surpreende,
assim, que Carelli colida cor a verdade em varios pontos da entrevista.
Ele diz que a "escola dejornalismo de Mino Carta, a maior que conheco, 6
inglesa". Se ha alguma escola "minocarteana", porem, ela result de um hibri-
dismo italo-americano, sujeita as flutuaoqes um tanto imprevisiveis dessa com-
binacqo. Em culinaria, ela equivaleria a uma maravilhosa macarronada italiana
coberta de ketchup. Wagner tambem diz que os textos que escreveu depois de
1975 (descritivos, impressionistas, personalizados) eram de um tipo "que nio
se praticava no Brasil". Esqueceu que Realidade publicou muitos desses tex-
tos entire 1966 e 1969, a meujuizo bem melhores do que os dele.
Se o Jornal dos Jornais (titulo extraido de uma coluna de Alberto Di-
nes, mas um tanto impr6prio para uma revista) quis, corn a entrevista de
Wagner Carelli, mostrar a outros profissionais e estudantes dejomalismo
como nao praticar a profissao, acho que conseguira seu objetivo. Se a inten-
qdo tiver sido outra,jogou bom papel fora. E, corn o papel, o conceito de um
jomalista, construido cor a espuma das noticias. 0


)dente Ronald Reagan na Casa Bran-
ca. Campe6o da sedufgo e do gla-
mour, ele estava no nivel superior da
popularidade. Masfoi metralhado de
perguntas, varias das quais agressi-
vas, por rep6rteres credenciados na
mais poderosa de todas as sedes de
powder do mundo. Ndo reagiu cor coi-
ce (mesmo sendo um cowboy), nao
partiu para o bate-boca, ndo man-
dou retirar o reporter inc6modo, nem
o descredenciou. Claro: a algumas
respostas ndo responded e em rela-
(do a outras deixou patente o seu de-
sagrado. Masficou ali, sujeito ao ti-
roteio, o que constitui um dos ossos
de um oficio recheado de fil.
A reporter Micheline Ferreira er-
rou ao tratar de public oprefeito corn
intimidade. Esse tratamento e sempre
incorreto. Mas bastava a Edmilson
Rodrigues trata-la cerimoniosamente
para, por contrast, forca-la a dar-
Ihe o respeito que seu cargo impre,
gostemos ou ndo dele. E se a sutileza
ndo fosse suficiente, o prefeito pode-
ra ser mais explicit, sem precisar re-
correr d patetica frase da situaado
anterior ("eu sou o prefeito e os ou-
tros sdo os outros").
0 erro da reporter entretanto, ndo
tornou ilegitimas as suas perguntas,
todas pertinentes. Se ndo tivesse for-
cas suficientes para controlar seus im-
pulsos, virtude que seu cargo tambem


Ihe cobra, o prefeito simplesmente
poderia dizer que ndo iria responder
a essas perguntas, ou ato declard-las
impertinentes, como Reagan.
Mas o prefeito partiu para a
agressdo verbal. Nao ha improprie-
dade na expressao: se usar as pala-
vras que usou, no tom que adotou, na
forma que impos, acuando a jorna-
lista, ndo for agressdo verbal, entio
eu confesso minha incapacidade de
entender o que isso e (principalmente
por ter disparado contra a reporter
balas na verdade destinadas aos seus
patr6es, usando-a por tabela). Fica
aos demais leitores o direito defazer
seu proprio juizo a respeito.
0 contetido das declaragOes do
alcaide tambem e uma agressdo, jd
agora d verdade. Se o que ele disse
do grupo Liberal e o que realmente
pensa (quando gente que ndo pensa
costuma falar o que ele disse, e por
ser o que de fato pensa), entdo por
que deu 100 mil reais para a empresa
vender videos comerciais cor lucro
dilatado? Por quefaz uma divulga-
(do publicitdria massive nos veiculos
do grupo? Por que the concede favo-
res especiais na quitaCdo de divida?
Por quefreqiiente os Maiorana?
E evidence que o prefeito de Be-
ldm deve evitar uma guerra cor o
monopolista das comunicacdes na
cidade. Mas, find a campanha elei-


toral e iniciada sua gestdo, quando
parecia ter deixado de lado o pan-
fletarismo eleitoreiro, Edmilsonpro-
meteu tratar a corporacdo dos Mai-
orana segundo criterios estritamen-
te tecnicos, objetivos. E o just e o
correto. Mas ndo foi o que fez. A
cada contrariedade, deixa escapar
os sentiments intimos. Quando con-
segue serenar volta a adotar a capa
c6moda de maneirismo.
A primeira attitude ndo e correta.
A segunda ndo e eficiente. Sendo o
que ndo e e dizendo o que pensa sem
assumi-lo, apenas se enfraquece num
confront que e adiado ou ameniza-
do pela verba de publicidade. Por
isso, o grupo Liberal ignorou o inci-
dente, merecedor de um editorial (co-
brando, naturalmente, pelo silOncio
conveniente. Eo prefeito voltou a agir
em desacordo cor o que pensa.
Se o Edmilson das horas rotinei-
ras ou comuns e verdadeiro, quem e
esse desarrazoado batedor de boca
que brota na contrariedade? Tudo
pela estratdgia? Tudo pelo poder?
Os sonhadores do lado de fora do
balcdo se tornam os ditadores do
lado de dentro sob a promessa de
usar o poder para a reform social.
Mas quando se empenham na des-
truigCo dos que acompanham e cri-
ticam seus atos, estdo preparando a
cama da tirania, na qual muita boa


intengco done, mas nenhuma acorda.
Como o leitor, acho Edmilson
uma boa pessoa se podemos sentar
para uma conversa animada, um
passeio descomprometido, se ele
podefalar sem contengdo (de tempo
e de agenda). Sob este prisma ele e
um Fidel Castro sem Sierra Maestra.
Tambem acredito que ele assumiu a
prefeitura com o melhor dos prop6-
sitos, honrado pela oportunidade
que a hist6ria (ou a circunstancia his-
tdrica, para ser mais exato) lhe pro-
porcionou. Concordo que jd fez al-
gumas coisas certas. Mas o autorita-
rismo, o sectarismo e a presungcdo es-
tco lhe cobrando um prego alto, in-
clusive pela companhia que passou a
atrair e a companhia que passou a
afastar (uma pessoa que se olha tan-
to ao espelho terry outra companhia
que ndo seja o seu reflexo? Como os
demais podem ser diferentes de um
chefe obsessive e centralizador?).
0 saldo, a meu ver, ainda e posi-
tivo, mesmo porque o pano de fundo
e trdgico em Belem. Mas ele pode ter
perdido o que era o seu maior trunfo
e o seu principal compromisso: reali-
zar a esperanga de todos nos de, fi-
nalmente, terms um grande prefeito
na capital dos paraenses. Ele podia
ser um Tarso Genro. Mas o perfil que
cada vez 1he cabe melhor e o de uma
Luiza Fontenele. Infelizmente. 0


a3--1 I I -L- -~CI-I----L~







Um meteoro no

jornalismo
Luiz Lobo fez a melhor festa para
comemorar os 40 anos de nascimento
da revista Senhor, a mais vanguardis-
ta das publica6oes brasileiras de todos
os tempos. Num depoimento primoro-
so, com aquele texto simples que s6 os
bons escritores conseguem escrever,
Lobo prestou um depoimento valioso
sobre a revista que ajudou a criar, jun-
tamente cor Carlos Seliar, Nahum Si-
rotsky e Paulo Francis, em 1959.
Diz que aquela maravilhosa revis-
ta s6 se tornou possivel porque os do-
nos da editor Guanabara/Koogan (ju-
deus cosmopolitas, como Nahum) que-
riam editar no Brasil a famosa enci-
clop6dia Larousse. Para ganhar a con-
fianga dos editors franceses, dese-
javam apresentar-lhes uma revista
capaz de impressiona-los por sua qua-
lidade grafica, igual as melhores do
mundo. O aspect grafico era o que
Ihes interessava: os editors teriam
dinheiro e carta branca "para fazer
uma boa revista durante um ano".
A aventura durou mais tempo,
mas nao tanto quanto seria possivel
se o interesse lateral dos donos da
Guanabara/Koogan ja no tivesse sido
atendido. Ao inves de apostar numa
publicaqAo que estava fazendo o p6-
blico chegar ao seu nivel de qualida-
de, sem submet&-lo a Ibopes, IVCs e
marketing obtusos, conciliando van-
guarda e assimilacao (ja com a incri-
vel marca de 45 mil assinantes na pas-
sagem da d6cada de 50 para os anos
60), passaram em frente o neg6cio.
O bom mecenato no Brasil e aci-
dental, diz a moral da historia. Luiz
Lobo ainda colaborou cor os novos
donos, masja sem entusiasmo. Basta
comparar a Senhor das duas fases
para entender porque ele nem guar-
dou mais as revistas depois que dei-
xou sua editoria, abrindo mao de for-
mar uma valiosa ediqao complete de
uma hist6ria que acabou em 1964,
antes que os militares a acabassem
(uma sincronizagao que se repetiria
quatro anos depois cor Stanislaw
Ponte Preta, falecido antes do AI-5).
Quem quiser usufruir de um ati-
mo do prazer que os leitores originals
de Senhor tinham quando recebiam
um exemplar quentinho da revista, tern
que ler o artigo de Luiz Lobo. E o
melhor testemunho ate hoje produzi-
do sobre a melhor revista de cultural
do Brasil, a epoca como ainda hoje.

Minorias
Somente no dia 12 do mes passado o
Diario Oficial publicou portaria do
govemador constituindo um grupo
executive "para elaborar o program
de trabalho, relative ao ano de 1999,
cor vistas a protegao e defesa dos
direitos dos indios e negros". A provi-
d6ncia foi adotada quase tres meses
depois da criacAo do grupo. Ele tem
nove integrantes. Nenhum deles & in-
dio ou representante direto das assim
chamadas comunidades indigenas.
Sua voz foi assumida por tres antro-
p6logos. Ha mais tres representantes
dos negros, dois porta-vozes do Esta-
do e um advogado.
Espera-se que haja tempo para a
elaboraqAo do piano para 1999, antes
do ano terminar. E que, quanto aos


Estaqao das Docasta um a iOt ano

Afastada uma ameaga literalmente marginal (ou sub- \ 6a- i aroiri, yacen e porque o orgamento
terranea) de virada do jogo por parte de uma empreiteira, esto~ri de mudrt6 ) 'L, conrEnr,


que teve seus interesses contrariados em uma outra oca-
siAo e ameavava retaliar nesta, acabou acontecendo o que
se esperava: a Marko Engenharia venceu a concorrencia
p6blica aberta pela Secretaria de Obras para o "prosse-
guimento das obras de reform e construc.o" da Estacao
das Docas, no valor de 6,9 milhaes de reais.
A licitaqCo pode ter sido absolutamente limpa e correta,
vencendo quem apresentou a melhor proposta. Mesmo sem
ser exatamente um jogo de cartas marcadas, era, porem,
uma dispute de final previsivel em funqio das circunstinci-
as. Ninguem, a nao ser que estivesse em condiq6es de pra-
ticar umjogo desleal, poderia vencer a empreiteira que tra-
balha na obra hi dois anos e, ao menos teoricamente, exe-
cutou a maior parte dos servigos. Servigos que seriam dei-
xados inacabados subitamente, comprometendo os custos
de uma nova empresa (ainda mais se houvesse ma vontade
na transmissdo do que foi feito),ja onerada pela montagem
de um novo canteiro de obras.
Mesmo sem envolver qualquer ilegalidade, essa nova
concorrencia era viciada. Exatamente porque a primei-
ra concorrencia deveria ter bastado para a realizaqAo
integral da obra. Se o valor previsto e as obras compro-
metidas n0o fossem suficientes, entretanto, havia o re-
curso de aditar o contrato original. Tratando-se de uma
reform, o valor inicial poderia ser reajustado em mais
50%. Esse limited maximo foi alcangado. Ainda assim,


indios, ou eles sejam incluidos no gru-
po, ainda que cor os antrop6logos ao
lado (uma extensao da tutela institu-
cional sob roupagem academica?), ou
seja constituido um outro grupo exe-
cutivo para eles.
Como de praxe, tudo o que 6 con-
siderado residuo no Brasil (social, eco-
n6mico ou geogr~fico), ejogado numa
vala comum.

Tregua
Qual empresa paraense poderia come-
morar 30 anos de vida cor um portf6-
lio de obras, virias delas expressivas,
espalhadas por diferentes pontos do
pais, como esta fazendo a Estacon?
Independentemente de eventual restri-
cao que se possa fazer a atuaqao da
empresa (eu ja fiz algumas), particu-
larmente A sua condigAo de empreitei-
ra de obras publicas, o acervo da Esta-
con impression e da orgulho.
Mesmo quando se question o
custo da obra, algo esta fora de dis-
cussao: a qualidade do serving. Ja e
uma marca que serve para identificar
a Estacon e assegurar um lugar na
hist6ria do Para ao seu dono, Luffala
Bitar, um raro exemplo entire n6s de
empresario capaz de conciliar dinhei-
ro e cultural, obreirismo e inteligencia,
tolerancia e critical.
Parabens deste critic a todos os
que fazem a Estacon. Eles merecem.


A situagao ficou extremamente grave. A Estaqho das
Docas, ocupando tres galpaes do porto de Belem, adapta-
dos para servir de hipotetica "janela para o rio", foi inicia-
da em 1997, cor um orcamento de R$ 6,2 milhoes. Dois
anos depois, oficialmente, o custo da obra alcanqou R$ 9,3
milh6es. Como qualquer pessoa podera verificar, ainda falta
bastante para a conclusio dos serviqos.
Tanto falta que a nova concorr6ncia, que seria para ar-
rematar um service inexplicavelmente deixado inacabado,
mesmo depois de haver engolido 50% a mais do que Ihe
fora destinado (no curto espago de dois anos), comecara
num patamar ainda maior: R$ 6,9 milh6es. E como se tudo
comeqasse do comeqo, para empregar uma linguagem coe-
rente com essa pantomima onerosa ao tesouro, mas inca-
paz de sensibilizar a quem de direito e estancar essa sangria
desatada de dinheiro public para a realizaqao de caprichos
pessoais em uma 6poca terrivel para o sofrido contribuinte.
A Estaqao das Docas vai consumer, na melhor das hi-
p6teses, R$ 16,2 milhoes. Mas bem que pode chegar a R$
20 milh6es se houver novos aditamentos ate o limited legal
maximo. Esse valor represent mais de um ter9o dos re-
cursos pr6prios do Estado comprometidos no program de
macrodrenagem das baixadas, o maior em execuqgo em
Belem (e em muitos anos).
Belem jj tem a sua Maria Antonieta: 6 a Estaqao das
Docas. S6 falta a guilhotina.


Esperanga
Vejo no Diario Oficial que um ex-alu-
no, dos mais promissores, esta entire
os mais recentemente contratados as-
sessores especiais do gabinete do go-
verador. Espero que tenha sido indi-
cado por seus meritos inegaveis e que
esteja 1a para trabalhar. Nao 6 a regra.
Mas sempre sobra lugar no coraqao
para a esperanqa na excecao.

Louvor
E provivel que tenha sido mesmo mera
coincidencia, mas`.depois das critics
aqui feitas as iltimas iniciativas dogru-
po Y. Yamada se tomaram louvaveis.
Desde a inauguracao da mais luxuosa
de suas lojas, a 31 na semana passa-
da (algo inimaginavel dois anos atras),
ate o patrocinio a 6pera de Carlos Go-
mes e a restauraAgo de uma das anti-
gas lojas da rua Joao Alfredo (embora
a cor nao seja a original).
Parte da ofensiva deve ter como
motivaqlo as sondagens de ingresso
no mercado paraense que o poderoso
grupo frances Carrefour esta fazen-
do. Mas outra parte pode ter-se inspi-
rado numa auto-analise imposta a par-
tir de fora, mas conseqitente. De qual-
quer maneira, a montage do Yama-
da Plaza em poucos meses, cor in-
vestimento declarado de quatro milh6es
de reais (amealhados intemamente, diz


Journal Pessoal

Editor: LUcio Flvio Pinto
Fones: (091) 223-1929 (fone-fax) e 241-7626 (fax)
Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040
Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br
Edig~o de Arte: Luizantoniodefariapinto/230-1304


a familiar 6 uma faganha que merece
ser registrada- e conferida. Qualquer
que tenha sido o detonador, a cidade
ganhou. Nao so os Yamada.

Leitura
Escolhida para ser o perfil de 0 Libe-
ral da semana passada, uma moga
paraense de 14 anos,jA atuando como
modelo em SAo Paulo e saindo na capa
de revistas, disse: "Gosto mais de re-
vistas, mais para ver o que esta acon-
tecendo. Gosto de literature, mas s6
quando tenho mais tempo. Nao gosto
muito de romance. Sou mais fa de li-
vros de hist6ria real, tipo 'Diario de
Anne Frank'" (grifei).
A moca gosta de verdades, nao
de ficqAo. Mas quando 1I uma revista
para se informar sobre a hist6ria que
ainda esta acontecendo, simplesmen-
te ve as fotos, sem ler os textos. De-
duz as informaq6es das imagens, como
aquele tipo de leitor infantil estudado
por Bruno Bettelheim, desligado das
palavras impressas no papel por be-
las ilustraq6es (tendo, por isso, que
imaginar o rico enredo escrito atra-
ves de deslumbrantes mas limitadas
imagens que o acompanham).
Se gostasse mesmo de ficqao, a
jovem poderia deixar de lado os ro-
mances (o que ja seria de lamentar)
para incursionar por poesia ou tea-
tro, nao um diario (ainda que pungen-
te, como o escrito por outra joverm,
judia, num gueto de Amsterdam, ator-
mentada pelo nazismo). Mas nAo
sabe o que quer.
Enio Silveira, dono da Editora Ci-
vilizaqio Brasileira (infelizmenteja
falecido), fez uma campanha de aler-
ta: "Quem nAo 16 mal fala, mal ouve,
mal ve". Ngo era uma campanha ori-
ginal, mas continue uma advert6ncia
irretocavelmente atual e cruel. A
bonita moqa a comprovou, sem ter
essa intenqgo.


li~8l.-a -_ I 7 G77--J