Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00162

Full Text


Bacia das almas
do 90vernador
Tornal Pessoal .iG 3
L C I O F L A V I O P I N T O "Caso ....
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2 ___(PG. 8(
ECOLOGIA



A praia da destruigao

A temporada de verdo vai comegar no Araguaia-Tocantins, .uma das :/'
maiores bacias fluviais do mundo. Suas ilhas tem praias cd'a vez mais
atraentes para turistas e veranistas. Mas elas escondem um avejpqrio ,
leito dos rios pode estar sendo assoreado por causa dos de tamentos
descontrolados. E uma grave ameaga.


Acada ano a temporada de
verso, que esta para come
9ar, se torna mais concorri
da em Maraba, gragas A
ela praia do Tucunar6. At6
Igum tempo atras, a praia
nao passava de uma nesga de areia bran-
ca numa diminuta ilha situada entire o rio
Tocantins e a foz do Itacaiinas, que ba-
nham a cidade. O acimulo de material
s6lido transportado pelas Aguas na bacia
do Araguaia-Tocantins foi expandindo a
ilha e, nela, a praia. Hoje, ela ocupa quase
toda a frente de MarabA.
Os veranistas podem ficar felizes cor
o fen6meno, que atrai gente de muitos lu-
gares para as animadas barracas de praia
nos finals de semana. Para os que ganham
cor o neg6cio, tamb6m nao ha motivo para
queixa. Mas o crescimento da praia do
Tucunar6 traz consigo uma grave adver-
tencia para os observadores mais atentos
dos fen6menos naturais: indica a extensio
do assoreamento de uma das maiores ba-
cias hidrograficas do planet.
A area carregada pelos cursos de Agua
nao vem se depositando apenas em frente
a Maraba ou Conceigao do Araguaia, que
tambdm experiment temporadas de ve-
raneio cada vez mais incrementadas, re-
cebendo levas de turistas de outros Esta-
dos. O segundo maior lago artificial do pais,
formado no leito do Tocantins pela repre-
sa da hidrel6trica de Tucurui, ajusante de
Maraba, tamb6m esta sendo assoreado.
A barrage nao conta cor um des-
carregador de fundo,,previsto no projeto
original, mas cancelado durante a execu-
9. o da obra. Com isso, os sedimentos mais
- pesados nao passam de um lado para o


outro da enorme estrutura de concrete, ja
que a tomada de Agua estA na cota 56.
Acabam se depositando no fundo do lago,
passando a sedimenta-lo.
Qual a dimensao desse assoreamento?
Dados concretos ningu6m possui e esse 6
um "detalhe" que nao aparece no discurso
da operadora do reservat6rio, a Eletronor-
te. Mas o crescimento da praia do Tucuna-
r6 serve de parametro para ter uma dimen-
sao do problema. Um outro dado pode re-
sultar do pr6prio crescimento do lago.
Quando a hidrel6trica comegou a fun-
cionar, em 1984, o lago de Tucurui tinha
Area de 2.430 quil6metros quadrados (ini-
cialmente, o reservat6rio fora calculado em
1.116 km2). Mas agora esta com 2.875
km2. Sua Area aumentou, portanto, em
18%. Com isso, a quantidade de Agua acu-
mulada tamb6m cresceu, mas nao na mes-
ma proporgco: passou de 45,8 trilh6es para
50,3 trilhoes de litros (o equivalent a 50,3
bilh6es de metros cibicos). Ou seja: o vo-
lume de Agua cresceu 10% apenas (se


pode-se empregar tal expressed ao tratar
de valores desse porte), enquanto a Area
evoluiu proporcionalmente 80% a mais.
Um outro dado significativo 6 o do peri-
metro (todo o contomo) do lago: ele cres-
ceu nada menos do que 40%, j alcangan-
do 7.700 quil8metros (tres vezes e meia o
percurso de Bel6m a Brasilia).
At6 agora, essas impressionantes infor-
mag9es s6 apareceram neste journal (em
maio do ano passado pela primeira vez). A
Eletronorte nao se dignou a prestar os es-
clarecimentos que lhe foram cobrados.
Cor isso, estimula a interpretagao de que
talveza significativa mudan9a registrada no
lago de Tucurui se deva, ao menos em par-
te, ao seu assoreamento, que o faz esprai-
ar-se, ter mais ilhas e ficar mais raso (al6m
de expor suas Aguas a maior evaporagdo).
O problema ter um lado operational:
se o fen6meno realmente estiver ocorren-
do, vai afetar a capacidade nominalmente
instalada de geragao de energia da usina,
que agora 6 de quatro milhoes de kw e )


T' As1~4k.1li 1~ dLk~qi I]k' j-






2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO / 1999


Sdeveri dobrar con a complementagao em
andamento. Mas tamb6m tem uma grave
repercussao ecol6gica, que ja se verifica
em todo o imenso vale. E precise estudar
adequadamente a situagao para entend6-
la e tentar evitar os problems que estao
surgindo. Mesmo a mais rudimentar ob-
servacgo empirica, no entanto, 6 capaz de
servir de advertencia.
Pela bacia amaz6nica 6 drenada para
o Oceano Atlintico 20% da quantidade de
agua doce em circulagdo no planet. Jun-
to corn o sol e a floresta, esse 6 o bern
mais valioso da regiao. Mas continue pes-
simamente administrado. A rigor, nem se
pode dizer que esteja mesmo sendo admi-
nistrado. A presungao da super-abundan-
cia e da infinitude do recurso entorpece a
consci6ncia do valor estrat6gico da agua
da Amaz6nia, na sua condigao de bem
natural dotado de notdvel valor intrinseco
e de mercadoria.
Inutilmente algumas instituicoes e pes-
soas v6m alertando para a dilapidagao do
estoque aqilifero da Amaz6nia, tanto por
seu uso como esgoto natural como pelo
desrespeito a qualquer principio de preser-
vagao e conservagao. Se ainda pode pa-
recer precipitado falar em sedimentagdo
do rio Amazonas em conseqiiencia do
desmatamento as suas margens, esse ji 6
um problema real do vale do Araguaia-
Tocantins, que drena 10% do territ6rio
national.
As suas margens j estao implantados
milhares de empreendimentos agricolas,
principalmente fazendas de gado de corte
corn baixa incorporagao tecnol6gica (e


nula consci8ncia ecol6gica), que coloca-
ram abaixo e ainda v8m destruindo milha-
res de quil8metros quadrados de floresta.
A lavagem do solo, sem o anteparo das
matas ciliares, leva para as drenagens
material s6lido, que o rio vai depositando
ao long do seu curso. Mesmo uma via-
gem de aviao a partir das cabeceiras dos
dois rios ji 6 bastante para dar uma id6ia
do problema.
Observando mais detidamente a exten-
sao e a profundidade da atividade humana
nessa regiao, entire os Estados de Mato
Grosso, Goids, Tocantins e Para, tem-se a
forte sensagao de que nao ha qualquer
control visando impedir os efeitos negati-
vos dessa intervengao. A Eletronorte dis-
pie da melhor estrutura para acompanhar
o que acontece no vale, mas sera que estA
realmente podendo monitorar atrav6s de
sua rede de estacges hidrol6gicas e usar
eficazmente esse monitoramento na Area
de influencia do reservat6rio?
Para o lago de Tucurui, o cumprimen-
to de normas de protegao por parte dos
que usam intensamente as Areas margi-
nais dos rios 6 vital. Nao s6 para evitar a
sedimentagao do reservat6rio, que, numa
escala mAxima, poderia at6 ameagar a
barrage, mas para prevenir outros pro-
blemas. At6 hoje 6 uma inc6gnita a pre-
senga, no lago, de mercfirio utilizado pe-
los garimpeiros, principalmente em Serra
Pelada, e de dioxina aplicada pela Cape-
mi na Area afogada pelo pr6prio reserva-
t6rio. Pode ser que nao tenham chegado
at6 ali, nem li hajam sido aplicados, mas
a hip6tese nao pode ser descartada.


Quando nada, porque ningu6m sabe exa-
tamente qual a condi9do das Aguas.
Teme-se que a situagao venha a ser
agravada por uma obra que, em outros
tempos, seria saudada imediatamente
como benfazeja: a hidrovia Araguaia-To-
cantins. Seu lado positive, o de permitir a
livre navegacao ao long de dois mil qui-
18metros, desde o Planalto Central at6 o
litoral norte, nao pode onerar seu custo
ambiental. Ela vai afetar a natureza prin-
cipalmente na interseqao do Araguaia
com o Tocantins, onde esta o maior esti-
rao nao-navegavel por causa dos desni-
veis e das pedras. A supressao desses
retentores naturais da vazao do rio para
tornd-lo francamente navegavel pode
contribuir para aumentar o poder erosivo
e ao mesmo tempo sedimentador das
Aguas, queja nao se defrontarao corn suas
barragens naturais.
Assim, nao 6 prova de ma-vontade ou,
pelo menos automaticamente, de interes-
ses inconfessaveis exigir um competent
estudo pr6vio de impacts ambientais para
condicionar a aprovagao das obras da hi-
drovia (que, por enquanto, nao chegam at6
o estuario de Bel6m). Muito pelo contri-
rio: se continuamos endossando as inter-
ven95es humans sem qualquer condicio-
namento, 6 porque ainda nio temos cons-
ci6ncia do valor do patrim6nio natural da
Amaz6nia. Vibramos com os prazeres do
veraneio na praia do Tucanar6, indiferen-
tes ao custo desproporcional desse bene-
ficio. Que, a continuar assim, acabara sendo
de curta duragao e sera muito mais one-
roso do que o beneficio. *


Porta aberta


Sua rejeigdo ao desembar-
go, na semana passada, por 21
a 1, num universe de 24 votos
potenciais, mostra que ajuiza
Martha Inds Antunes Lima
Jaddo foi, no minimo, inabil na
sua ofensiva contra o princi-
pal articulador dessa iniciativa,
o president do Tribunal de
Justiga do Estado, Jos6 Alberto
Soares Maia. Ele conseguiu
convencer seus pares que a
juiza, a mais antiga do Para,
nao podia ser promovida por
haver perdido o equilibrio emo-
cional, a capacidade de discer-
nimento e se proper a destruir
ojudiciario, envolvendo todo o
colegiado em sua retaliagdo
pessoal.
Impressionado corn o con-
te6do de um discurso feito em
Brasilia pelo deputado federal
(PDT) Giovanni Queiroz, A
base de documentagdo que Ihe


foi entregue por Martha In6s,
o tribunal tomou uma attitude
in6dita: negou, pela primeiravez
em sua hist6ria, que ojuiz mais
antigo subisse automaticamen-
te ao cargo final da carreira. A
parte os elements imediatos de
uma conjuntura de guerra en-
tre ajuiza e o president, nada
havia, nos assentamentos da
magistrada, que pudesse legiti-
mar a decisao. Seria como se,
num process regularmente
instruido, ojuiz decidisse con-
tra as provas dos autos.
Nao 6 improvavel, por isso,
que Martha Inds venha a con-
seguir a anulaqgo do ato em
instancia superior, independen-
temente da evolugao de sua
litigancia particular com o de-
sembargador Maia e sua cres-
cente incompatibilizaglo com
os membros do tribunal. O
TJE, que acabou se envolven-


do emocionalmente no epis6-
dio, pode ter fornecido contra
si elements da pr6pria acu-
sagdo feita Ajuiza. Ou seja: de
nao ter feito umjulgamento im-
parcial, objetivo, fundamenta-
do. Um ato in6dito como esse,
agora, depois que, no passa-
do, personagens muito mais
controvertidos foram aceitos
unanimemente ao desembar-
go, havera de ter conseqiien-
cias, quando nada sobre os
crit6rios de avaliacgo.
O tom emotional, que dei-
xa em posig~o inc6moda to-
dos os atores envolvidos nes-
sa pega, pode ser medido pela
rapidez das provid6ncias, a
partir da publicagao dos atos
no dia seguinte A sua adocAo
e da posse imediata das duas
novas desembargadoras, uma
das quais beneficiada pela ca-
rona dada em Martha Inds..


Em relagao a um poder que
tern sua legitimidade assenta-
da na pondera9go, no cumpri-
mento de ritos e etapas, no efi-
caz contradit6rio e na ponde-
ragco, o epis6dio pode dar cau-
sa a novos questionamentos no
future e a uma certa perda de
prestigio. Ainda mais porque
continuam sem resposta as
acusacges da juiza, ecoadas
pela boca do deputado Giovani
Queiroz, de que o desembar-
gador Maia praticou esteliona-
to, enriquecimento ilicito, sone-
gagao fiscal e nepotismo. O
parlamentar pode ter dado uma
dimensAo exagerada As acusa-
95es ao tentar leva-las A CPI
do Judiciario, mas ignord-las
n~o 6 um bom sucedaneo.
A sentenga contra a juiza
pode nao ser o ato final desse
capitulo ainda em aberto da his-
t6ria do judiciArio paraense. *






JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JUNHO / 1999 3


Ao lado do chefe


Emjaneiro de 1996, o governador Al-
mir Gabriel considerou realizada a tio de-
cantada (pelos tucanos e aderentes) re-
forma administrative do Estado, que teria
sido encontrado num verdadeiro caos em
1995. O epicentro da reform foi a de-
missao de oito mil servidores (a esmaga-
dora maioria recebendo baixos salArios
em funq9es menores). Nesse mes, o ga-
binete do governador abrigava 400 pes-
soas, que custavam ao erario 460 mil re-
ais (a m6dia salarial "per capital" era de
pouco mais de R$ 1 mil).
Em margo de 1997 ja estavam lota-
das no gabinete do governador 444 fun-
cionarios (10% a mais), representando
uma folha de pagamento de R$ 641 mil
(40% a mais). Em outubro do ano passa-
do, durante a eleigCo, o gabinete gover-
namental gastava mensalmente um mi-
lhdo de reais com 655 funcionArios, numa
inflagao, de pessoal e de recursos, de
quase 50%. O chefe estava, entao, mais
necessitado do que nunca de votos.
Em margo deste ano (iltimo dado dis-
ponivel), os nfimeros no gabinete de sua
excel6ncia experimentaram um ligeiro
refluxo p6s-eleitoral: tinha 625 funcioni-
rios e folha de R$ 990 mil. Mas nada de
comemorar qualquer moralizacgo e ra-
cionalizagdo do gabinete: em um 6nico
dia da semana passada o Diario Oficial
do Estado publicou a contratagio de
mais 14 assessores.
O inchamento do gabinete, que conti-
nuou a abrigar cabos eleitorais e endossar
compromissos politicos, a pretexto da con-


tratagao de uma assessoria especial, foi uma
das caracteristicas do caos organizado por
Jader Barbalho no topo da administragao
pfblica estadual, sobretudo no seu segundo
mandate, mantida na gestAo H6lio Gueiros.
Almir Gabriel, que deveria eliminar
essa excresc6ncia, renovou-a e atd a
ampliou. O gabinete do governador se
transformou num posta restante, capaz de
abrigar tudo, mas, minoritariamente, gen-
te de competencia e que trabalha. Virou
uma bacia das almas (usar alcova seria
forte demais e injusto, claro).
Enquanto o gabinete do govemador cus-
tava, em margo, R$ 990 mil, corn 625 em-
pregados (na maioria, corn urn simples e muito
rentavel cabide), a Defensoria Pfiblica dis-
punha de um efetivo 50% menor, corn um
tergo da folha. A Secretaria de Agricultura,
encarregada de uma das'supostas priorida-
des da a9go govemamental, contava corn 680
servidores, que Ihe custavam R$ 640 mil.
Quem ainda se atreve a defender esse
bric-a-brac funcional costume argumen-
tar que os empregos no gabinete sao mal
pagos. Nao tanto assim: um assessor es-
pecial II esti ganhando, em m6dia, pouco
mais de R$ 3 mil mensais. Um assessor
especial I recebe em torno de R$ 2 mil.
Mas hA gente ganhando acima de R$ 4
mil e R$ 5 mil. O chefe da Casa Civil re-
cebe R$ 8 mil, bem acima do governador,
demagogicamente limitado em R$ 5,2 mil.
Com seus altos e baixos, a m6dia de ven-
cimentos no gabinete estA acima de R$
1.500 por mis. A m6dia, no geral da folha
do Estado, 6 tres vezes menor, R$ 500.


Da porta pra fora


Mas quando nao se trabalha, qualquer
valor que se receba 6 lucro. Certamente
o chamado PalAcio dos Despachos (em
seu sentido amplo, inclusive folcl6rico) nio
conseguiria abrigar todo o pessoal do ga-
binete (mais os 28 lotados com o vice-
governador) se o comparecimento ao tra-
balho fosse macigo. Muitos foram ali co-
locados como pr8mio a votos conferidos
a sua excel8ncia ou para manter com-
promissos para rendimentos futures. Nao
tem qualquer obrigagao com a fung9o,
nem responsabilidades a cobrar. A rela-
9ao 6 de uma promiscuidade sancionada.
O orgamento deste ano reserve R$ 17
milhoes para o gabinete do governador.
Tudo indica que a verba seri estourada.
Mesmo se mantida nos limits da lei, 6
demasiado para financial a political clien-
telista e eleitoreira do chefe do Estado. Se
fosse uma unidade produtiva, o gabinete
seria uma das maiores empresas do Esta-
do (condenada A falencia, por6m). Nao
seria muito, mas esse montante ja ermiti-
ria criar uma political de emprego, inexis-
tente a s6rio na administrag~o estadual.
Nao 6 tanto, mas poderia ser usada para
qualificar tecnicamente o govero, contra-
tando assessoria, adestrando t6cnicos de
ponta de linha e montando uma base de
dados. Como esta, com suas caracteristi-
cas amebianas ou vir6ticas, o gabinete do
govemador continue a ser o triste atesta-
do de que no Para as ccisas mudam para
continuar rigorosamente iguais. Mesmo
quando um mddico se apresenta como
capaz de debelar essas enfermidades. *


Em nome do exercicio saudA-
vel da profissao e da melhoria na
administragao dajustiga, a Seccao
Pard da Ordem dos Advogados do
Brasil deveriamudar o procedimen-
to que tern adotado na divulgagao
das decis6es do seu Tribunal de
Etica e Disciplina. Dos ac6rdAos
publicados no DiArio Oficial do Es-
tado 6 excluido o nome do advoga-
do representado e punido, referido
apenas por suas inicais, enquanto
sai por extenso o nome do cidadao
que contra ele representou, numa
inversao de valores.
"Com isso", observa um mem-
bro do judiciario que alertou este
jomal a respeito, "a sociedade e a
pr6pria justiga ficam sem saber
quem s5o os advogados punidos,


alguns deles com suspensao, fi-
cando impedidos de advogar. A
justica, entretanto, fica sem sa-
ber quem 6 o advogado suspen-
so, o que impede o control do
exercicio irregular da profissAo
pelojudicidrio".
O juiz ficara sem saber quais
sao os advogados impedidos de
advogar durante o period da sus-
pensao imposto pela OAB. "Na
pratica, a punigAo 6 um corte na
Agua, ja que o advogado pode
continuar advogando", acrescen-
ta a fonte. Ela lembra que a Ordem
"6 uma autarquia corporativa, e
pessoajuridica de direito piblico,
e por isso esta sujeita ao principio
da publicidade, conforme o artigo
37 da Constituiqao Federal".


Esse dispositivo exige que a
publicagio seja complete, aten-
dendo a todas as exigencias for-
mais, A semelhanga dos ac6r-
dAos divulgados pelo poder ju-
diciario. Que, se fosse seguir o
exemplo da OAB, tambbm s6 pu-
blicaria as iniciais dos senten-
ciados. Nesse caso, la viria a Or-
dem cor critics e notas de pro-
testo, exigindo de terceiros o
respeito a principios que ela
pr6pria nao segue.
E o caso da morosidade na ins-
trugao dos processes, um dos pro-
blemas cr6nicos dojudiciario. Mas
tamb6m da Ordem: processes bern
antigos, um deles de 1991 (outros
de 1995 e 1996), s6 agora, at6 oito
anos depois, foijulgado pelo Tri--


bunal de Etica e Disciplina (e pu-
blicados no DO de 16 de abril). HA
conselheiros eficientes, mas bas-
ta um fazer corpo mole para em-
perrar a tramitado, com a coniven-
cia de uma burocracia que nao
cobra deveres. Processos relata-
dos desde o inicio da ddcada ain-
da estao pendentes de julgamen-
to pelo tribunal graqas a autenti-
cos embargoss de gaveta".
Para ter autoridade e legitimi-
dade nas suas critics ao judiciA-
rio (e na campanha que estA pro-
movendo em defesa da 6tica), mui-
tas delas corretas e necessArias, a
OAB/Para deveria resolver alguns
desses mesmos problems em sua
pr6pria estrutura. A sociedade, pe-
nhorada, agradeceria. *





4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO / 1999




Nossa imprensa alternative:


O mais recent ciclo da imprensa al-
ternativa no Brasil comegou em 1964 e
terminou em 1985. O Pif-Paf, de Mill6r
Fernandes, langado em maio de 1964, e o
retorno dos civis A Presid6ncia da Repui-
blica, com Jos6 Sarney, arrematando o
projeto concebido pela corrente military
majoritdria de reconstitucionalizar sob
control o pais, sao os marcos delimita-
dores. E claro que houve alternatives an-
tes e depois. Mas foi em 1964 que o flu-
xo se tornou ascendente. E, por parado-
xal que seja, cor a volta da democracia,
21 anos depois, a tend6ncia passou a ser
declinante.
Os registros (e as raras comemora-
o6es) em torno dos 35 anos de ressurgi-
mento da imprensa alternative deveriam
se preocupar mais em analisar porque ela
praticamente desapareceu do Brasil. Por-
que surgiu, 6 mais ficil de identificar: a
sociedade queria algo mais do que a gran-
de imprensa Ihe oferecia. Mesmo sob o
regime de plena liberdade formal, que uma
democracia parlamentar pode oferecer
em um pais subdesenvolvido e dependent
como o Brasil entiree 1946 e 1964 foi a
melhor da hist6ria republicana, sempre
houve jornalismo marginal a grande im-
prensa. A Manha, Bin6mio, Novos Ru-
mos, Maquis sao apenas alguns dos
exemplares desse underground.
Praticamente toda a grande imprensa
apoiou o golpe military de 1964. Os mais
importantes aliados da derrubada de Joao
Goulart, o Correio da Manhd e 0 Esta-
do de S. Paulo foram os primeiros a re-
ver suas posi96es, o Correio quase no
dia seguinte, evoluindo para um antago-
nismo aos novos donos do poder que pro-
vocou seu desaparecimento, em 1974
(nao s6 pela ferocidade dos inimigos,
como pela irresponsabilidade ou falta de
visao dos intelectuais de esquerda que
determinaram a linha editorial e a condu-
ta administrative dojornal).
Acostumado a sofrer ou se beneficiary
dos contumazes golpes politicos pratica-
dos no Brasil, a todos os quais havia so-
brevivido, ojornal de Edmundo e Paulo
Bittencourt o mais influence da Repui-
blica foi incapaz de perceber que, des-
ta vez, os militares nao seriam apenas os
instruments cirirgicos de liberals con-
servadores (a contradicgo que sempre
fulminou de morte o reformismo das eli-
tes brasileiras). Desta vez, tinham seu
pr6prio projeto de poder, cuja diretriz ca-
teg6rica (e carismitica) dispensava o
contradit6rio do liberalism politico.
Por isso, o caudal de independencia do
jornalismo estabelecido fluiu parapublica-


95es alterativas. Mas 6 precise exami-
na-las cor rigor, independentemente da
simpatia e solidariedade que suscitem. O
Pif-Paf de Mill6r Fernandes, por exem-
plo, icone dessa era, comegou a ser plane-
jado quando Jango ainda era president,
supostamente bem sustentado no "dispo-
sitivo" military do general Assis Brasil (tao
inexpugnAvel quanto a "linha Maginot").
Miller queria dar o troco a 0 Cruzei-
ro, do qual foi demitido bruscamente por
pressao da Igreja (inquisitorialmente ira-
da com uma nova versdo sobre a criacao
do paraiso, engendrada pelo sibio do
Meier). E a experi6ncia chegou ao fim,
depois de apenas oito numeros, mesmo
vendendo 40 mil exemplares (uma faga-
nha at6 hoje), porque dava prejuizo. Mil-
16r tinha medo que a bola de cifries, cres-
cendo tanto, o esmagasse.
Ja O Pasquim, a mais brasileira das
nossas criacgesjornalisticas (agora com-
pletando 30 anos de nascimento), que
vendeu cinco vezes mais, entire o final da
d6cada de 60 e o inicio dos 70s, numa
marcajamais atingida por qualquer outro
alternative (a tiragem atual da recordista
Folha de S. Paulo em dias de semana
gira em tomo de 500 mil exemplares), nau-
fragou nao tanto por causa da impiedosa
censura dos anos M6dici, mas tamb6m
pela exaustdo da intelectualidade cario-
ca. O Pasquim foi o canto do cisne de
formidiveis geragbes intelectuais desen-
volvidas no crepusculo da capital da Re-
p6blica. Foi o vigoroso iltimo suspiro dos
moribundos, profundo e vital, mas que se
exauriu.
A imprensa alternative foi varrida do
horizonte brasileiro a partir de 1985 por
varios fatores, cujo peso o leitor tem o
direito de estabelecer. Mas quem partici-
pou da idade de ouro dessas publicag6es,
antecedendo e acompanhando o ingres-
so da censura official nas reda69es, sabe
que nelas estavam trabalhando alguns dos
profissionais que at6 entao (e ainda, em
posigao hibrida) abrilhantavam a grande
imprensa.
Isto significa que s6 ha imprensa al-
ternativa se feita porjornalistas alterati-
vos (dai a razao do fracasso das publica-
96es de partido e das aq9es entire ami-
gos, voluntaristas e amadoristicas). Como
regra, esses jornalistas surgem nas gran-
des reda95es, negando-as com o tempo.
Ou seja: aprenderam como fazer boa im-
prensa. E s6 decide fazer imprensa al-
ternativa quando fazer bomjornalismo se
torna inviavel na empresa conventional
(os jornalistas nao se t6m caracterizado
por ser bons empresirios).


Depois do AI-5, de dezembro de 1968
(complementado, quanto a jornalismo,
pela regulamentagao da profissao, feita
manu military entire 1969 e 1972 por nos-
sos maquiav6is castrenses, dando origem
a essa an6dina e empobrecedora reserve
de mercado para os cursos universitArios
de comunicagdo social), os militares ex-
purgaram o melhor jornalismo das gran-
des redag9es, fazendo-o migrar para a
resist6ncia nas catacumbas.
Depois de Sarey, essa fungdo repres-
siva passou a ser desempenhada pelos
donos das empresas jornalisticas e seus
associados no poder. A censura gover-
namental deu lugar a auto-censura. O
projeto politico autoritario foi substituido
pela gestdo autoritAria dos neg6cios, cheia
de O & M, marketing, MBA e outras
tecnologias administrativas, mas tao ful-
minante quanto os brucutus de antanho.
Muitos que pensavam de outra maneira
foram seduzidos e outros comprados
mesmo. Quem continuou resistindo, foi
post fora do mercado e estigmatizado.
Quem ficou recebeu, mas tamb6m pagou.
E a era que estamos vivendo agora.
Aparentemente, tudo o que se quer sa-
ber esta disponivel nas paginas dejornais
e revistas ou pela internet. Mas nao 6 bem
assim. Sem pretender ir mais long, tomo
como exemplo este microsc6picojornal.
Alguma coisa do que aqui public deve-
se A competencia especifica que conquis-
tei para apura-la na competigao sadia e
necessaria cor os colegas. Mas muita
coisa decorre da in6rcia da grande im-
prensa, da circunstancia de ela se haver
auto-limitado, impondo-se limits que ne-
nhuma relayao t6m com a fungao jorna-
listica, seus manuais e sua deontologia.
Algumas pessoas nem se importam
muito corn essa omissao, A espera da sa-
ida do JP, na presungao de que, por um
process gravitacional natural ou um
magnetismo de acionamento automatic,
a informagao esperada ou desconfiada
aqui aparecerA. Nem sempre isso acon-
tece, por6m. E, infelizmente, o vacuo
ocorre com freqiiancia crescente. Nao
porque tamb6m o JP tenha fixado para si
um index tematico, mas porque obter e
divulgar informa95es custa dinheiro e,
muitas vezes, custa muito dinheiro, 6 caro.
Dinheiro 6 algo que constitui raridade
neste journal. Sua capacidade de checa-
gem e apura9ao esta mais restrita ainda
do que ja a condicionam as limita9Oes do
seu redator solitArio.
Isto significa que, al6m de ser feita por
jornalistas alternatives independentse,
capazes, orientados por principios), a im-






JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE JUNHO / 1999 5




pirilampos na noite national


prensa alternative requer organizagao al-
ternativa para existir. Sem ela, como com-
patibilizar os custos, democraticamente os
mesmos para todos, e sempre acrescidos
pela inovag9o t6cnica ou comportamen-
tal, cor sua enfraquecida estrutura de
receita? Freqtientemente, al6m de reque-
rer administragao alternative, esse tipo
de imprensa s6 viceja numa sociedade
que a estimula, fornecendo-lhe meios
materials para ser aut6noma, compromis-
sada apenas cor o leitor, mais substanci-
almente livre do que uma bandeirada de
tAxi (para usar a bem humorada imagem
de Miller).
A sociedade brasileira, como estamos
vendo mais uma vez (pela repeticgo de
escandalos, promiscuidade entire atores
piblicos e privados, avolumagao dos va-
lores envolvidos em desvio de recursos e
enriquecimento ilicito, tendo como pano
de fundo plena liberdade disponivel, gran-
des reportagens e grandes silencios, vas-
tas informag6es e inconclusos enredos,
retic&ncias entire linhas cheias desconti-
nuas), esta muito long de dar conseqii-
6ncia a sua ret6rica democrAtica. Em
essincia, o poder no pais persiste como
organizaggo familiar, patriarcal, corpora-
tiva em sucessao ou em combinagao
espiria de elements de 6pocas distintas,
reunidos num anacr6nico desafio ao tem-
po, que passa sem evoluir, como se o des-
cr6dito dos Fukuyama de hegelianismo de
p6 quebrado em relagao a hist6ria tives-
se procedencia.
A mais important das publicag6es
alternatives da hist6ria da imprensa, o I.
F Stone's Weekly, cor sede em Wa-
shington, s6 se manteve por 19 anos
(1952-71) porque Izzi Stone teve acesso
a bolsas e funds independents (sem
exig6ncia de reciprocidade), os poderes
repressivos do executive federal estavam
limitados pelos outros dois poderes, numa
pratica mais afinada com o modelo clas-
sico da democracia, e porque uma admi-
nistrag5o piblica profissionalizada atenu-
ava os riscos de boicote e sabotagem.
O leitor contemporaneo, muitas vezes
seduzido e iludido pela facilidade e fran-
quia da circulacgo de informac6es por
redes eletr6nicas, cuja abundancia 6 pro-
porcional A dificuldade de sele9ao e en-
tendimento, permanece passivamente na
ponta da linha. Prefere ignorar toda a luta
que precede o produto. Sem process
democratic, a imprensa alternative, como
verdadeira alternative ao control politi-
co ou empresarial (de todas as formas,
corporativo) da informagao, em defesa do
cidadio, torna-se uma estrela da tarde,


bela e fugaz, como o sonho de verao de
1964-1985.
E paradoxal que tenhamos essa boa
mem6ria de uma das fases mais negras
da hist6ria brasileira. No entanto, como
poucas vezes isso aconteceu, a direcgo e
a redag9o de varias das principals em-
presas jornalisticas se uniram contra o
inimigo comum, claro, objetivo, execrd-
vel: o censor official, o inquisidor tout-
court. Tentava-se por todos os meios
burlar a censura, dentro da pr6pria em-
presa ou, sem outra alternative, fora dela.
Os magnatas da imprensa faziam vis-
tas grossas a dupla militAncia de alguns
de seus empregados, cor um p6 na
grande redag9o e o outro na instalagao
alternative, freqtientemente contraban-
deando material da primeira para a se-
gunda, sern problema. E quando todos
os caminhos de divulgagAo no pais eram
bloqueados, o desvio para o exterior era
sancionado do alto.
Record do chamado que Juilio de
Mesquita Neto (ja falecido) me fez na
redaCgo- de O Estado de S. Paulo. Eu
tinha meses de trabalho exaustivo na co-
ordenag9o da cobertura do surto de me-
ningite em Sao Paulo, a maior epidemia
urbana da doenga at6 entao. A censura
cortava quase tudo das paginas do sau-
doso matutino paulista. Numa sexta-fei-
ra A noite, no final do expediente, o dou-
tor Julio, como o chamAvamos (e eram
tamb6m chamados os outros Mesquitas
que o antecederam, com a mesma mis-
tica do coronel Walker, o disfarce civili-
zado do imortal Fantasma-que-anda), me
pediu que voltasse A redagao na manha
seguinte e escrevesse a mat6ria que eu
quisesse sobre o assunto, passando-a
para o Excelsior, do M6xico, que se
comprometera em publica-la com todo
o destaque.
Era um sAbado de folga, mas IA esta-
va eu dedilhando cor firia, sem consult
a anota96es (que tudo ja estava afiado
na cabega), como costumam sair os me-
Ihores textosjomalisticos (mesmo de den-
tro de quem nao esta entire os melhores
jornalistas), para dar aos mexicanos uma
id6ia da situagio surrealista: o noticiario
sobre uma grave epidemia, irrompida
numa das maiores aglomera96es urbanas
do planet, ser suprimido para que as vi-
timas nao soubessem do que acontecia,
da doenga em si e das suas circunstanci-
as nebulosas. A indignag9o 6 o m6vel por
excel6ncia dojornalismo quando ele dis-
poe do combustivel adequado para acio-
na-la. Al6m de querer fazer, 6 precise
saber fazer esse jornalismo, o que s6 a


pritica continuada e o tempo de pratica
possibilitam.
Lembrar essa utopia, formada hi 35
anos, motiva boas lembrangas. Mas as
lembrangas, por melhores que sejam, nao
sao suficientes para sustentar o present
e garantir o future. Enquanto leio O re-
pdrter e o poder, de Jos6 Carlos Barda-
will, que espero comentar, fico pensando
nesse fogo-fituo que nos assemelha aos
pirilampos da noite, cuja luz, por mais que
ilumine ao redor, ter duragco insuficien-
te para orientar os caminhos e extensao
diminuta para as exig6ncias da hist6ria.
Se fosse diferente, este pais nao seria o
Brasil. E seria mais ficil acreditar que,
um dia, isso nao continuara a ser como
tem sido at6 agora. *



0 artist
Ao Luis Braga cabe como luva
a classificagdo de artist
pldstico. Ele usa sua mdquina
fotogrdfica como se manejasse
um pincel. Seria um
arquarelista se suas tintas ndo
tivessem a forca dos melhores
6leos. Sdo fotografias de uma
beleza pldstica rara. Parecem
composiqoes autonomas de
forma e cor, como a boa
pintura, como se os models
captados pela cdmara tivessem
posado e as cores fossem
produzidas em estzdio, ou por
engenhosidade tecnica de
laborat6rio e de equipamento.
Mas d nas ruas e nas matas
que Luis Braga fotografa, a luz
que filtra pelas lentes de sua
mdquina e natural, a dindmica
da vida e nao um pastiche dela
e o que ele procura. Temos, por
isso e muito mais, todos os
motives para partilhar corn ele
as comemorao5es pelo quarto
de sdculo de fotografia
professional. Luis estd entire a
meia dfizia dos melhores
fot6grafos que por aqui
produziram e produzem, ao
mesmo tempo, para nos e para
qualquer pfiblico do planet,
mesmo o mais exigente. Artistas
para ser lembrados mesmo
quando seus pfiblicos, cendrios
e personagens tiverem passado.






6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO / 1999


Cartas
* A prop6sito da nota "Res
Pfiblica", publicada na edigao
anterior deste jomal, o
deputado (PFL) Vic Pires Franco
enviou carta e documents para
mostrar que um de seus
assessores parlamentares
trabalhar a dois mil quil8metros
de distancia da sede da Camara
Federal nao constitui nenhum
exemplo dos "maus usos e
piores costumes vigentes
politicos vigentes nesta
Repiblica", como foi declarado
numa sentenga proferida na
justica trabalhista, em demand
que o envolveu.
A possibilidade estA ampara-
da na resolugao niimero 72 da
mesa da Camara, baixada em 1997.
Em seu artigo segundo, ela esta-
belece: "Os ocupantes de cargo
em comissdo de Secretariado Par-
lamentar terao exercicio exclusi-
vamente nos gabinetes parlamen-
tares, em Brasilia, ou em suas pro-
jeq es nos Estados, e reger-se-
ao pelas normas estatutarias e
disciplinares aplicaveis aos de-
mais stores da Camara dos De-
putados".
Como o deputado diz que seu
gabinete em Beldm funciona no
3 andar da Churrascaria Rodeio,
da qual 6 s6cio-proprietArio (e
que motivou a agao trabalhista),
Carlos Castilho ali atua no desem-
penho de dupla fungao: como as-
sessor parlamentar da base local
("projegao" do gabinete de Bra-
silia) e, no hordrio nao coinciden-
te com esse serving, como funci-
ondrio do restaurant, exercendo
acumulagao que nada teria de ili-
cita.
A mesma resolugao estabele-
ce que cada gabinete parlamen-
tar tera no minimo cinco e no md-
ximo 16 servidores remunerados.
Eles sao obrigados a cumprirjor-
nada de 40 horas semanais, "ve-
dada a prestagao de servigos ex-
traordinarios".

* 0 professor Josd Carneiro
enviou a seguinte carta:

A prop6sito do niumero 212,
tenho algo embora pequeno a
acrescentar a titulo de informa-
9ao. Ter a ver com a reportagem
sobre a revista "Senhor" que, la-
mentavelmente, nao tive oportu-
nidade de conhecer. Mas conhe-
ci o Reynaldo Jardim, que, como
informas, teve a seu crddito "al-
gumas das marcas da decad6ncia
de Senhor".
Em 1972, Reynaldo Jardim foi
contratado pelo Umberto Calde-


Durante algum tempo reclamou-se dejoma-
listas por terem muitos fatos e nenhuma opinion.
Nao era uma formulag9o correta. Ojomalismo
fica desnaturado quando desligado dos fatos.
Mais ainda quando confront os fatos, ou os
omite. Mas numa era de abundancia de infor-
magbes, formando um quebra-cabegas acessi-
vel apenas aos iniciados, o melhorjomalismo sera
aquele capaz de identificar os principals fatos e,
concatenando-os, tirar deles um sentido, um sig-
nificado, o que representam para a vida social
(jornalismo de Robinson Crusoe 6 apenas litera-
tura, se ter qualidade). A isto denomina-se, A
falta de outra expressio, de contextualizaqdo
da informaqdo. E o que salva o home con-
temporaneo da sua dispersao c6smica, at6mica,
permitindo-lhe ser ator da hist6ria e nao apenas
uma Carolina abilica Ajanela.
Agora, por6m, vive-se no jornalismo a pra-
ga de escassez de fatos para um excess de
opiniao, doenga que nao conta cor um Regu-
lador Gesteira para combat8-la. Novigos mal
chegados A estrada j ditam regras e se permi-
tem abreviar ou mesmo abstrair o cotidiano
(competencia especifica do jornalismo) para li-
dar diretamente com a hist6ria (alcangAvel atra-
v6s da lenta decantagao jornalistica). Produ-
zem sentengas em processes sumarios, nos
quais a prova da verdade dispensa o contradi-
t6rio. E um caminho perigoso.
Sinto sua nocividade quando leio algumas
mat6rias mais bombasticas de Veja, como a
reportagem de capa da edigco da semana pas-
sada, sobre as gravag9es telefonicas clandes-
tinas. Pode-se recear que a investigagao jor-
nalistica tenha se reduzido ao recebimento de
pap6is, fitas e segredos, sem uma adequada
checagem do material vazado por alguma fonte
official ou extra-oficial. Pelo contririo: o rece-
bimento do present pode ter sido condiciona-
do a uma certa cumplicidade com a fonte, pre-
9o sempre caro do furo chapa branca.
Escondendo o sujeito da oragao debaixo de
um v6u de anonimato inaceitavel, Veja diz: "Es-
palha-se que foi a Casa Militar [da PresidOn-
cia da Repziblicaj do general Cardoso que
mandou grampear Lara Resende, Mendon9a


raro para fazer a reformulagao grd-
fica dojomal"A Critica", de Ma-
naus, e de 1a veio, nao sei se con-
tratado expressamente pelo Ro-
mulo (ou aproveitando espagos
do contrato feito pelo Calderaro,
ja que eram muito amigos, como
sabes) para tambdm tentar uma
reformulacao grdfica em "O Libe-
ral", que ha pouco tempo inau-
gurara sua impressao em off-set,
remember?


de Barros e outros altos funcionArios envolvi-
dos cor o leilao das teles". Quem espalha, cara-
palida? Diz qualquer manual que quando nao
se pode identificar precisamente o sujeito ou o
objeto, deve-se procurar uma aproximagao
capaz de dar melhor id6ia ao leitor da proce-
dencia da informagio, ao inv6s de abandonA-
lo ao mar encapelado da imprecisao. Se pode-
se dizer "espalha-se no Palacio do Planalto",
ou "espalha-se no Congresso", interdito 6 sim-
plesmente escrever "espalha-se".
No mesmo paragrafo da mat6ria, a revista
acrescenta: "At6 os agents da PF [Policia
Federal] parecem convencidos de que Car-
doso nao deu ordem alguma para fazer gram-
po. Mesmo assim, aproveitam o pretext para
acua-lo". Nao especificando quais, quantos ou
qual a representatividade de tais agents refe-
ridos, a revista parece estar assumindo a defe-
sa do general Alberto Cardoso contra seus ini-
migos nao declarados da PF. Faz ainda crer a
seus leitores mais atigados que talvez tenha sido
o general quem vazou as informag9es cor as
quais Veja montou sua reportagem de capa,
substancialmente do lado dele.
O texto evolui em precArio equilibrio, es-
corregando num e noutro paragrafo, ate se es-
borrachar no iltimo period da mat6ria: "Sera
que o pais tera que conviver por muito mais
tempo com essa praga [do grampo] que rou-
ba a privacidade do president e do cidaddo
comum como se ouvir clandestinamente os te-
lefonemas alheios fosse uma coisa perfeitamen-
te natural? Nao. Isso nao pode continuar".
Abrindo uma editorial, a frase estaria bem
posta. Finalizando uma reportagem, constitui
excrescencia, que, ademais, soa mal ao ouvi-
do, construida que foi sem o esmero redacio-
nal da Veja de Elio Gaspari, a filtima boa fase
da revista, mesmo com suas eventuais tenden-
ciosidades. Ou Veja tem um mau conceito do
seu leitor, ou, tendo que conduzir-lhe a opinion,
deixa as sutilezas de lado e parte direto para a
manipulagco. Cor o que, infiltrada a meia-ver-
dade atras da opiniao, mais danosa do que a
mentira, perdemos todos, leitores, jornalistas e
jornalismo. Sem falar do pais. 0


Na grAfica do Calderaro, Rey-
naldo Jardim imprimiu seu livro
de poesia que, se nao me enga-
no, refletia um pouco sua forte
impressao da regiao amazonica e
que tambdm foi langado aqui, sem
muito sucesso. Ele veio de Ma-
naus de navio e o seu projeto grd-
fico acabou desaprovado.
Lembro-me bem, eu era rep6r-
ter de "O Liberal" e, num inicio de
manha, muito cedo, percebi o


Reynaldo Jardim chegando, ves-
tindo uma das batas que o pes-
soal da oficina usava, com o lo-
gotipo do jomal no bolso. Ele es-
tava hA vArios dias em Bel6m, apa-
nhou um exemplar do journal e fi-
cou olhando, longamente, para a
primeira pAgina (parece que o
projeto grafico era s6 para a pri-
meira pagina). Logo em seguida,
e surpreendentemente, apareceu
o Romulo Maiorana, que o cum-


Jornalismo de opiniao:


onde ficam os fatos?






JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE JUNHO / 1999 7





Entre sol e chuva,


o som de Belem


Escrevi o texto abaixo para o mais recent CD do compositor Alcyr Guimaraes,
Belim, Bumbds, Boleros, Sol e Chuva, produzido por Carlos Lima, que estA sendo
lanqado agora no mercado.


Segue pelo menos meia d6zia de ami-
gos, metade deles tocando violo, pelo
menos um fazendo percussdo na
caixinha de f6sforo, outro no pandeiro e
mais um num bumbo equiparado a contra-
baixo. Ajeite no grupo algu6m cor bons
dotes vocais. Aos outros basta "interpre-
tar" can95es. Leve-os para o meio do lon-
go quintal, sob goiabeiras, sapotilheiras,
jaqueiras e um bico de luz. Arme-se de
muitas cervejas para o abastecimento en-
tre o final da tarde e a alta madrugada sem
hora marcada. Eis o clima adequado para
ouvir o mais paraense dos discos produzi-
dos nos ultimos tempos, este, do chansso-
neur, trovador e poeta Alcyr Guimaraes.
A "misica paraense" 6 um hibridismo
de merengue, bolero e samba-cangao,
corn ramificag9es pela toada, o choro, a
marcha-rancho, o samba-enredo e a lam-
bada. Tem disso tudo, e do melhor disso
tudo, neste CD. Mas nAo o som estandar-
dizado, massificado e empobrecido que
toca no hit-parade. Alcyr combine cor-
das e ritmo marcado em Flor e Fita, bati-
da de carimb6 e murmfirio de valsinha, a
coisa mais original e bonita que o Boi-Bum-
ba ji mereceu, libertando-o da vulgariza-
9do. Pode ser tambem tema musical para


um filme felliniano sobre Bel6m, a mais
just aproximaCgo cinematogrifica da ci-
dade. Ha atd um harmonioso complemen-
to, Boi no cdu, som absolutamente novo
para a saison, um boi bem paraense, na
transigao de s6culo e de milenio.
O verdadeiro trovador nao ter precon-
ceitos. Tudo absorve e a tudo recria, no
meio do povo, mas capaz de distinguir va-
lores, recusando raizes podres e forma mas-
siva. A linguagem do povo 6 alegre, pica-
resca, ambigua, bem humorada. Nao 6 por-
que ele gosta de festa e danga que as coi-
sas no pais estdo ruim. Estariam pior de
ele fosse sisudo e frio como outros povos
mais adiantados. As revolug9es, alids, cos-
tumam acontecer cor uma festa, despite
e detonador, como foi na Cabanagem. O
sincretismo 6, ao mesmo tempo, arma de
defesa e de ataque. A Ladainha da virgem
de Nazare, por exemplo, eleva o lado pro-
fano da maior festa religiosa do Pard e do
pais. Quem sabe nao acaba sendo incor-
porada como hino da romaria?
Mas tambdm bate forte o banzo, sopra-
do da Europa, da Africa e do Caribe, proxi-
midade esta iltima reforgada pelo contagi-
ante Tiempo de Flores. Desde D. Duarte te-
mos saudade, misturada cor o lamento dos


escravos africanos e a melancolia do colo-
no lusitano. Alcyr contempla a todos, inclu-
sive na emocionante homenagem ao cama-
valesco negro que se foi sem o devido re-
conhecimento: "como estrela/ ei, David,/ um
Miguel/ da cor do breu".
Alguem de mal corn a vida objetard que
o compositor de todas essas belas m6sicas
nao 6 cantor. O timbre, de fato, nfo 6 dos
melhores. Mas a voz 6 melodiosa e afinada.
O compositor que interpreta suas m6sicas
teve, entretanto, o bom senso de sustentar
a sua cor outras vozes mais bem dotadas,
dentre as quais a de Walter Bandeira. Apre-
senta a pr6pria filha, Fernandinha, afinadis-
sima aos 16 anos, minha aposta como reve-
lagdo do ano (e em muitos anos).
Querem mais? Entao fiquem ouvindo at6
de madrugada. Ou "interpretando" as pdro-
las da saga musical de Alcyr Guimaraes.
PS Alcyr: eram cinco da tarde do dia
22 de janeiro de 1999. Fazia sol. Mas come-
gou a cover. Sol e chuva vindos do alto em
doses iguais (de onde tamb6m vem o som do
bumbo do teu bumbd), caindo pela galharia das
mangueiras. Muito Bel6m. Com Flor e Fita na
alma, deu vontade de chorar. Obrigadissimo,
irmao. LI de cima, o poeta Ruy, entire uma e
outra, deve ter pedido: de novo. Bis, Alcyr. 0


primentou cordialmente e juntos
ficaram a olhar, em silencio, para
ojornal sobre a mesa.
Eu, porperto, ouvi o Reynaldo
dizer: ficou muito espago em bran-
co, nd? (ele referia-se aos espagos
em branco nos lados do titulo do
jomal e que antes eram ocupados
por "janelas" que ele havia supri-
mido). O Romulo comentou qual-
quer coisa na linha de que estava
sendo desperdiqado espa9o. Dias
depois as tais "janelas" voltaram e
o Reynaldo foi embora.
Como te disse no inicio, ape-
nas acrescento mais um detalhe
na passage por Bel6m desse
camarada que ficou famoso no
joralismo brasileiro (nao foi dele
uma avan9ada reformulaqao grd-
fica do journal do Brasil? Ou teria
sido no Correio da Manha?).

Minha resposta
Reynaldo Jardimfez uma re-


forma gr6fica no Correio da Ma-
nhn, ndo no Jomal do Brasil. Uma
das caracteristicas marcantes
era a mesma que atraiu a aten-
qao do Romulo: injustificados
espagos em branco (no caso do
Correio, protegidos por fios).
Ndo deu certo nos dois casos e
em numerosos outros em que es-
teve envolvido. Como poeta e
como jornalista, Reynaldo su-
miu. Nao me sentiria autorizado
a dizer sejusta ou injustamente.

* Embora a questdo suscitada
por Rosa Ferreira e Tdnia
Silva, proprietdrias do Clube
Aconchego, na carta enviada a
estejornal, ndo tenha origem
no JP, decidi abrigd-la porque
express, em meu
entendimento, um ponto de
vista que merece ser
considerado para enriquecer a
avaliaq~o do tema, evitando


um monocdrdio tom acusador
ou desqualificante. Diz a carta:
Na coluna Mauro Bonna, pu-
blicada no Didrio do Para do dia
23/05, foi veiculada a nota "Acon-
chego", destacando o Clube de
nossa propriedade.
E bem verdade que o Acon-
chego 6 um Clube GLS. Mas 6
inadmissivel que um journal, nto
com a expressao, mas com o ta-
manho do DiArio do Pard ainda
trate o assunto Gay com uma vi-
sao estereotipada e vulgar.
Enquanto o mundo Gay dis-
cute o Projeto de Lei de autoria
da ex-deputada Marta Suplicy,
que permit a uniao civil entire
homossexuais, e todos os gran-
des 6rgsos de comunicagio do
Brasil destacam o assunto com a
seriedade merecida, nossa gran-
de imprensa parece que parou no
tempo e mant6m um jomalismo
debochado e grosseiro.


A principio, a nota, de tao in-
feliz, nao deveria merecer qual-
quer tipo de manifestagao por
parte da direeao do clube, pordm,
por cobranga de alguns dirigen-
tes, resolver tornar p6blica nos-
sa indignag9o e desafeto a esse
jomalista. Jornalista?
Lamentavelmente estavamos di-
ante de mais uma comprovagao do
baixo nivel que 6 a cam da grande
imprensa estadual, quinzenalmente
denunciada pelo Jornal Pessoal.
Nao queremos a aceitagao de
ningu6m. Ngo precisamos e nio
estamos mendigando compreen-
sao. Exigimos sim, respeito como
cidadaos, trabalhadores e cum-
pridores de nossos deveres.
Consideramos que o Jornal
Pessoal ainda 6 o inico instrumen-
to com moral neste Estado para tra-
tar e publicar o assunto com serie-
dade e isengao e, por isso, o moti-
vo desta correspondencia". *






Mem6ria
Menos de 40 pessoas foram
A capela de Lourdes, no inicio
da noite do dia 8, participar da
missa em mem6ria de Francis-
co Paulo do Nascimento Men-
des, que completou 30 dias de
falecido. Talvez cada um dos
muitos ausentes, em d6bito corn
o maior professor de literature
e est6tica da hist6ria do Para,
tivesse motives fortes parajus-
tificar a falta. Talvez nem mes-
mo tenhamos direito ao lamen-
to. Talvez seja irremediavel-
mente assim na vida contem-
poranea. Mas doia ver que tio
poucos dos muitos que devem
algo (ou muito) ao mestre, mar-
cante na formag9o de varias
geracges de paraenses, conse-
guiram superar as restri95es de
agenda para prestar sua home-
nagem a Chico Mendes.
Umhomem ram como ele, que
n~o surgenas linhasdemontagem
do cidaddo comum, fazjus A nos-
sa permanent lembranga e a de-
monstraqbes de reconhecimento
ao excepcional valor de sua per-
sonalidade e desuavida.N~opode
cair no anonimato e no esqueci-
mento. Nem mesmo receber ho-
menagens tao singelas quanto a
da missa de 30 dia de morte.
O governor ou a prefeitura
ja deveriam preparar-se para
dar o nome do professor Fran-
cisco Mendes a uma grande
escola secundaria, se 6 que as
universidades nao devam tam-
b6m reservar algum espago A
mem6ria dele. Nao realgar-lhe
a obra apenas depora contra
n6s. A grandeza de Francisco
Paulo do Nascimento Mendes
j6 u um dado acima e al6m do
alcance das conjunturas: 6 ele-
mento da hist6ria da cultural,
por acaso datada do Pard.


Assinaturas
As assinaturas (R$ 15 tri-
mestral e R$ 30 semestral)
podem ser feitas pelo telefo-
ne (091)241-7626


Aparentemente, foi soluci-
onado o assassinate do ex-de-
putado Paulo Fonteles de Lima,
ocorrido ha 12 anos, em 10 de
junho de 1987. Os dois assas-
sinos foram identificados. Um
foi morto (a tipica "queima de
arquivo") antes de ser preso.
O outro, preso e condenado,
cumpre pena nao mais no Para,
mas em uma penitencidria do
Rio de Janeiro, onde tamb6m
cometera crimes. O organiza-
dor do atentado tamb6m foi
preso e cumpriu parte da pena
de 21 anos a que foi condena-
do. Pelos favors da lei, agora
estA em liberdade condicional
na sua terra, em Sdo Paulo.
Deve-se esquecer, entao,
essa hist6ria tragica? Parents,
amigos e correligionarios do ex-
parlamentar acham que nao,
cor razdo. Na semana passa-
da, mais uma sessqo especial
em mem6ria de Fonteles foi
realizada pela Assembl6ia Le-
gislativa do Estado, proposta
pelo Partido Comunista do Bra-
sil, o PC do B, no qual Paulo
militava quando morreu. Todos
lamentaram o epis6dio e pro-
meteram continuar a campa-
nha contra o crime.
Objetivamente, por6m,
nada se faz ha muito tempo
para dar conseqii6ncia a esse
discurso. O advogado James
Vita Lopes cumpriu a parte
que ajustiga lhe impusera por
sua culpa: ficou seis anos na
cela de um quartel da Policia
Military, com comportamento
exemplar e em absolute silEn-
cio, negando categoricamente
as acusa96es que Ihe foram
feitas. Credenciou-se a ser li-
bertado quando chegou a um
tergo da pena. Se ele tem se-
gredos, os levara consigo.
Quem o visitou na cadeia viu
o quanto a reclusgo o abateu.
Seu envelhecimento no perio-
do, mesmo que nao sirva de
atestado de inocEncia, revela


a convic9go de sua posigao.
Dificilmente ele fard agora o
que nao for do seu interesse.
Mas se Vita Lopes realmen-
te participou da montagem do
atentado que vitimou Fonteles,
ele foi intermediario, nao o man-
dante. Todos os pontos positi-
vos da investigagdo do crime,
portanto, nao tocaram no essen-
cial, sem o que outras encomen-
das de morte continuarao con-
tando cor o estimulo da impu-
nidade em favor do cabega des-
sas opera95es macabras. As-
sim, o "caso Fonteles", inaca-
bado, mal resolvido, ird insepul-
to para o t6mulo dos arquivos.
A nao ser que um fato novo
permit Ajustiga, talvez atrav6s
do Minist6rio Piblico, reabri-lo.
O inico fato que permane-
ce novo ou pendente 6 a nao
oitiva do dono do autom6vel
Volkswagen usado pelos crimi-
nosos, apontado sucessivas
vezes nestejomal como o prin-
cipal suspeito de ser o autor in-
telectual do crime, desde o n 2
do JP, de setembro de 1987. O
mineiro Hdlio FAbio Vieira Lo-
pes foi identificado e chamado
para depor pela Policia Fede-
ral do Rio de Janeiro, Estado
onde mora. Contou uma hist6-
ria inacreditavel sobre como
vendeu o carro, prometeu vol-
tar com os documents com-
probat6rios de sua declarag9o,
mas nunca retornou, nem a po-
licia foi atras dele, mesmo sa-
bendo-o foragido de Minas
Gerais, onde cometeu um cri-
me e foi condenado.
Enquanto nao puxar esse fio
da meada, reabrindo a instru-
9go do process atrav6s do
depoimento do fazendeiro (cu-
jos elos de ligag9o com os as-
sassinos estao definidos), qual-
quer discurso em mem6ria de
Paulo Fonteles, mesmo que
seja emocionante, sera in6cuo.
Nao fara, portanto, justiga A
mem6ria do morto.


Homenagem real


Lapso
Pedro Parente e ministry do Orgamento e ndo do
Desenvolvimento, como saiu no nzimero passado. 0 indigitado
chama-se Celso Lafer que, como diz o samba, acertando no
que ndo viu, ningudm sabe, ningudm viu. 0 ministirio de
FHC2 ter definicdo matemitica: a ordem dos fatores ndo
altera o produto. Dai os eventuais lapsos, pecado venial
previamente coberto por habeas corpus preventive.


Jornal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto
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Ediiao de Arte: Luizantoniodefariapinto/230-1304


Marcag o
O empresArio Romulo Mai-
orana Jr. e o deputado federal
(PMDB) Jos6 Priante almoga-
ram juntos em Brasilia, no mes
passado. Rominho nao deu a
noticia no seujomal. Jader Bar-
balho s6 soube do encontro por
terceiros. Prato de resistencia da
refeigao: a candidatura de Pri-
ante A prefeitura de Bel6m (in-
formalmente langada em Be-
16mcom dezenas de out-doors),
vista mais favoravelmente na re-
dacao de O Liberal do que no
PMDB.
Mesmo sem ter-pelo menos
por enquanto cacife para dispu-
tar para valer a elei9ao para a
PMB, Priante, viabilizando seu
nome, atenderia ao principal obje-
tivo do grupo Liberal comamano-
bra: impedir que o PMDB venha
a apoiar a candidatura do deputa-
do federal Vic Pires Franco, em
coligagAo com o PFL. Por isso
mesmo, o nome de Vic nao apare-
ceranaprimeirapesquisaeleitoral
dos Maiorana encomendada ao
Ibope, previstapara ser divulgada
entire outubro e novembro.
Qualquer possibilidade de
uma reconciliagao, comoja hou-
ve no passado, foi descartada
quando o ex-amigo patrocinou
uma agao popular contra o con-
v6nio da TV Liberal comn aFun-
telpa. Feridos em seus interes-
ses comerciais, os Maiorana de-
cidiram que podem apoiar qual-
quer nome, mas nunca mais o
de Vic. Ele passou a ser inimigo
particular nfimero um.
Esse clima de retaliag~o ex-
plica um incident desagradavel
ocorrido no mes passado, no ae-
roporto de Bel6m, entire Lucid6a
Maiorana e o deputado pefelis-
ta. Detentora do control acio-
nario da corporag~o, com 51%
das ages, D6a investiu de dedo
em riste e aos gritos contra o par-
lamentar, chamando-o de mole-
que. Vic nao reagiu.
Ao que tudo indica, a pr6xi-
ma eleigao vai pegar fogo nas
pAginas de O Liberal.