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O eterno Professor Jomal Pessoal (PAGS. 5 L C O F L A VIO PI NTO Ogrileiro -' ": -ANO XIi *N 211 2 QUINZENADE MAIO DE1999' R$2,00' . process POLITICAL;. P POLITICAL Vaidades ao Depois da chanchada Almir Gabriel versus H6lio Gueir+s a novela Edmilson Rodrigues contra Ana JClia Carepr-i sdo mais iguais do que os outros? Hd mesmo uma br* "diferencas democrdticas" estdo sendo ampliadas pe4 administra4do revoluciondria do PT em Belim? Qua: perguntar costuma incomodar. Ou Obarco paraense do PT so- breviveu A borrasca gerada pelo prefeito Edmilson Rodri gues e sua vice, Ana Jilia Carepa. Mas os calafetos providenciados nao suporta- rao uma nova tempestade. As rachaduras e cisoes, uma caracteristica que acompanha o partido desde o seu nascimento, j sdo sufi- cientemente profundas para fazer da unida- de mais um aderego para consume extemo. Mais do que diferenga de id6ias, agora elas expressam a dispute por algo muito mais material: o poder. Embora, num Estado com traditional political personalista, seja at6 comovente ver uma dispute de poder dentro da principal pre- feitura municipal do Estado ser resolvida pelo colegiado partidario que conquistou essa po- sigao, as divergEncias entire o prefeito de Bel6m e a vice-prefeita nio surgiram em fungio de visoes administrativas, political e ideol6gicas conflitantes, apesar de cada um rezar por uma cartilha distinta. E porque Edmilson e Ana Jilia tem projetos pessoais de poder conflitantes. Ou seja: o PT pode ser um corpo especial numa estrutura parti- daria viciada, mas os seus integrantes nao diferem tanto da m6dia dos politicos profissi- onais. Ao menos no Parai. Ao final de uma reuniio de seis horas, a portas fechadas e com seguranga extema para manter os curiosos A distincia, o princi- pal personagem, o prefeito, saiu da sabatina corn uma frase de entonago tao velha quanto ultrapassada: "O prefeito sou eu. O resto 6 o resto", disse Edmilson Rodrigues (elsupre- mo?). A declaraqo mostra que, apesar dos Ssorrisos e abragos armados para quando a Simprensa teve acesso a sala de reuniio, o .22. ?7 ___ alcaide entrou como saiu: autoritirio e des- confiando da sua vice. Nao que Edmilson seja propriamente o vilao, ou o tnico vilao. O motivador damais recent rusga entire os dois decorreu de um ato de deslealdade de Ana Ji6ia: ela apro- veitou uma ausdncia do titular para confir- mar um ato por ele rejeitado, a reduq~ o (e praticamente a exting9o) do laudenio que a prefeitura cobra nas transa96es imobilii- rias (de uma aliquota de 2,5% para 0,01%). Todos tnm razAo em ser contra esse res- quicio de um direito medieval jipraticamen- te expurgado no Brasil (Petr6polis 6 a mais notivel, excecio, por abrigar o que resta da familia imperial). Sua quase extingCo (a aliquota ficou com valor irris6rio, a ser totalmente abolido em umatransferencia seguinte) vai ativaro mer- cado imobilidrio e aumentar a renda dos car- t6rios, dois segments controlados pelo que o PT consider como sendo a elite local. Mas tamb6m vai beneficiary qualquer um cidadco, baixando para parimetros decentes o que ele 6 obrigado a deixar nos cofres p6blicos ao vender uma propriedade urbana, e indu- zindo-o a regularizar o instrument mais co- mum dessas operates, o tristemente famo- * . I .--* I f ? Z1* I is ... .+; .. . ,. ,., 'r+ . "' D .::; : -,+ "+. '- +P Y..", 2 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO / 1999 Sso "contrato de gaveta" (etema fonte de so- negagdo tributaria). E, portanto, uma medi- da de beneficio geral. Apenas a Codem (Companhia de De- senvolvimento e Administrag~o das Areas Metropolitanas de Bel6m) sai prejudicada. Mas a Codem 6 um anacronismo tdo gran- de quanto o laud6mio. A receita obtida atra- v6s dessa cobranca saiu da 6rbita da pre- feitura para a da companhia, a pretexto de mant6-la, garantindo-lhe o desempenho da funglo metropolitan. Mas a Codem s6 cumpriu esse papel por poucos anos. Numa expressao mais rude, transformou-se com o tempo em gigol6 de laudemio. Cor o agravante de que precisa de outras trans- ferncias municipals para manter seu qua- dro (inchado, ocioso e improdutivo), embo- ra abrigue um acervo documental relevan- te e t6cnicos capazes. O problema 6 que a Codem se tornou uma abstrag~ o institutional; se nao um peso morto, pelo menos uma carga onerosa. Ex- ceto por desempenhar funqio political late- ral, empregando clientele de interesse do pre- feito e dando-lhe certa desenvoltura e de- sembarago em relaao as amarra9oes da administrag~ o p~blica direta. A resistencia de Edmilson Rodrigues A sang~o da lei oriunda do legislative, resultan- te de um projeto apresentado pelo vereador Raul Meireles, do pr6prio PT, nao sendo ates- tado de interesses politicos pessoais (visan- do a campanha da reeleig~o), 6 pura turrice (atengio: turrice). Recebendo o projeto de leiji aprovado, foi deixando o tempo passar sem sancionar o document. Nao era uma attitude inteligente, menos aindatolerante ou democrAticas, mas ele tinha essa prerrogati- va como parte de seu arbitrio. Ninguem desconhecia a posigo do pre- feito sobre o assunto. Nao concordando corn essa posigdo, a vice-prefeita poderia critici- la, mas nao sancionA-la ao substituir o titular em sua ausencia. Como o pr6prio titulo es- clarece, a vice nao 6 titular do cargo, mas acompanhante. Nao pode, nas interinidades, agir em desacordo com decisIo e orienta- 9ao explicit do titular sem decair de sua confianga (e ela exerce cargo em confian- ca, ja que nao 6 votada). Ai estA a fonte de maldiqio do cargo, uma contradi9io que nao se consegue re- solver. A menos ruim das solu9bes parece ser a que vigorava antes do movimento mili- tar de 1964: o vice ser votado individualmen- te, da mesma maneira que o titular e inde- pendentemente dele (no iltimo exercicio dessa alternative, Janio Quadros foi presi- dente da Rep(blica por uma col igagio e Joao Goulart seu vice por outra). Assim, se briga- rem (o que 6 raro nIo acontecer, tais as sus- ceptibilidades envolvidas), pelo menos sera umabriga muito mais legitima. E possivel que Ana Julia tenha decidido sancionar a lei tanto por concordar com seu conteido como pela sua condi~go de aliada do autor da proposig~o e por estar ciente de que criaria uma situago no minino descon- fortAvel para seu companheiro compuls6rio de mandate. A obstinagAo de Edmilson con- tra a sangio era e 6 impopular, mesmo ha- vendo petistas dizendo que a media serve apenas a algumas elites locais. Faturando as gl6rias de ter liberado a media, Ana Jilia se credenciaria para garrotear mais essa "rea- lizagAo" para o seu curriculo eleitoral. O mais important para ambos 6 encon- trar uma aproximaqao mais favoravel A elei- gao do pr6ximo ano. Se a legislago nio mudar e se ele pr6prio nao atirar novos ca- cos ponteagudos em seu caminho, Edmilson Rodrigues sera o candidate do PT. Com o partido razoavelmente integro, 6 o favorite. Mas Ana Jilia 6 uma reserve de votos gran- de demais (relativamente a eventuais sur- presas trazidas por uma nova eleigao) para continuar apenas como vice ou ficar ao de- sabrigo de um mandate eletivo at6 a nova eleig~o. A melhor acomodag~ o entire as duas pretensies seria um compromisso de am- bos, avalizado pela direqao partidAria, de apoio complete do prefeito reeleito em 2000 para Ana Jl6ia ser a candidate ao governor ou ao senado em 2002. Uma tal composiqAo s6 daria certo se fosse amarrada cor a confianga e a leal- dade. Essas qualidades, por6m,ji nao mais h entire Edmilson e Ana Jilia, qualquer que venha a ser o desdobramento da dispute internal que eles personificam. Todos os al- tos pr6ceres petistas podem se apresentar para realizar a tarefa e ela pode at6 ser con- siderada cumprida. O virus da desconfian- Ca e da insidia, por6m, estA definitivamente inoculado, contaminando o dialogo entire grupos cuja rivalidade se agravou porque seus projetos de poder foram substituidos pelo exercicio efetivo de uma substantial fragAo de poder. Que, mesmo para petis- tas, 6 inebriante. 0 tom messianico e salvifico foi e con- tinua a ser fatal para o PT. Na nota de congraqamento emitido ap6s o duelo ver- bal intramuros, no Hotel Vila Rica (porque nao no Sindicato dos Professores, que cer- tamente nada cobraria pelo uso do seu bomn audit6rio?), a executive estadual do parti- do consider que a hist6ria positive de Bel6m, municipalidade velha de quase qua- tro s6culos, s6 ocorreu cor a ascensaio (ou seria assuncio?) do companheiro Ed- milson a prefeitura, "ap6s mais de 380 anos de desmandos". A afinnativa, al6m de ser umra falsida- de hist6rica, 6 uma inabilidade political. To- dos os belenenses trazem o intendente An- t6nio Lemos na cabega e no coragAo (onde, numa kit-net liliputeana, tamb6m deve es- tar o comerciante Sahid Xerfan). corn ou sem conhecimento de causa. A frase 6 urma agressao sem sentido A memrnria de Lemos, um home de rara intuigFo que a riqueza da explora9go monopolistica da borracha viabilizou. Em qualquer sala de aula pode- se desfazer a declara9go petista. Num pa- lanque eleitoral, mais ainda. Vendo contra o sol (seja a estrela, seja o nosso Luis XIV ao tucupi), a nota diz ainda que a crise petista em tomo da prefeitura de Bel6m foi ampliada(ouamplificada, parausar o patois militant) pelas "elites insatisfeitas com as mudangas que os partidos de esquer- da estAo operando em nossa cidade". Bem que a diregao petista podia se re- colher a uma "oficina" de atualizacgo para ler Max Weber, que reciclou o outro ale- mAo notavel, Karl Marx, para o s6culo 20 j6 em ocaso (no qual a utopia do sonho li- bertArio foi substituida pelo diktat da domi- nagAo burocratica). HA elites e elites. Nem todas sAo predat6rias ou daninhas. Mas to- das t6m importancia, como aliadas ou ad- versArias. N~o podem ser ignoradas. HA elites bufando contra o PT. HA outras satis- feitas. E algumas ganhando mais do que as outras, comoji ecoam algumas den6ncias (em escala crescente, partidas da pr6pria engrenagem petista). Faria bem a executi- va dando nome aos bois. Agora em uma estrutura de poder apre- ciavel, abusa-se da insinuagao. O alcaide sugeriu que talvez avice-prefeita esteja sen- do estimulada por uma dessas elites, acanto- nada no suntuoso pr6dio dos funds do Bos- que Rodrigues Alves (que ele chegou a ame- apar destronar dali). Mas se Ana Jilia real- mente tem muito mais espago do que Edmil- son (seria porque o prefeito nao estaria corn suas generosas contas publicitArias em dia?) nos veiculos do grupo Liberal, o prefeito 6 mais mimoseado pela tropa comunicadora do senador Jader Barbalho. As duas pre- missas, entretanto, nao levam necessariamen- te A conclusio de que cada um dos antago- nistas se filiou a uma ou outra das duas eli- tes. A realidade 6 mais complex do que en- sina o catecismo ideol6gico decorado por varias das liderangas petistas. No balango entire as administraoqes H61io Gueiros e Edmilson Rodrigues, um analista isento tera dificuldade em definir qual a melhor, tio numerosamente peque- nos foram seus acertos quanto seus erros. E provavel, num esforgo mais analitico, dar a vit6ria a Edmilson, quando nada porque o custo do que fez at6 agora foi bern infe- rior ao do antecessor. Mas isso pode ser ou nao um merito. E uma evolugao em mat6ria de obras e servigos publicos, ja que o PF (Por Fora), se ha, reduziu-se muito e ainda nao foi com- provado em nenhum dos casos nebulosos que j emergiram (o do leite sendo o mais grave), enquanto, em mat6ria de superfa- turamento, a adm in istrago anterior tern pelo menos dois casos exemplares: o in6til ter- minal pesqueiro e a Escola-Bosque. Mas JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO / 1999 5 a grandeza do professor na empAfia e na pedantaria esnobe. At6 um certo moment de sua vida, esta era qualidade cujo cultivo se deveria estimular. Afinal, Chico tinha 34 anos quando escreveu sua lendAria tese sobre As Origens do Romantismo, que Ihe deu a catedra de literature da Escola Normal (hoje Instituto de Educagao do Para, que acolheu o seu vel6rio). Esperava-se que Bel6m, nessa 6poca, comandasse um ris- sorgimento no Para, com a volta do inte- resse e do dinheiro para o esforgo da Segunda Guerra Mundial, ap6s a falsa Idade M6dia dos anos 20/40 (incompre- ensao que Querido Ivan, de Haroldo Maranhao, trata de desfazer). De fato, foi um period muito rico, no qual intelectuais p6blicos, como Francis- co Mendes, levaram a sala de aula para caf6s e bares, democratizando-a e tor- nando-a informal. Foi ali que despejaram o conhecimento haurido nos livros, usan- do a transmissio oral como veiculo para uma pororoca (ou, se preferirem, pirace- ma) de id6ias, um estuArio que haveria de marcar a mais important gerag~o de intelectuais paraenses deste s6culo, toda ela, em alguma media, caudatiria da fi- gura do mestre Mendes. Nao era uma reuniao compact e co- erente de pessoas, mas quem melhor combinava o fAustico e o apolineo do que o "Ratinho"? S6 ele para dialogar simul- taneamente com Ruy Barata e Benedito Nunes, Max Martins e MArio Faustino, Rui Coutinho e Haroldo Maranhao, MA- rio Couto e Paulo Plinio Abreu. Nao por acaso, seus l6timos trabalhos foram edi- tar contos de MArio Couto e poesia de Ruy Barata (este, inacabado, infelizmen- te, porque o poeta cresce com o passar do tempo, firmando-se num cdu literArio com poucas estrelas dotadas de luz pr6- pria, mas intensamente poluido por poei- ra c6smica) Sempre elegant, sempre ci- vilizado, ele nao contemporizava com os bons modos, as falsidades, a acomoda- 90o, os semitons e meios-termos, o for- malismo academico, as conveni8ncias universitarias. Como Batista Campos, para ele boi era boi e ladrao, ladrao. O cordato, o religioso, o devoto e o quase ingenuo Chico Mendes, que via cor prazer as novelas de televised (as- sumidamente, sem a desculpa de muitos intelectuais, prisioneiros de passagens di- tas acidentais A frente da telinha), era um escravo da verdade e um fustigador das mistificagces, principalmente as instituci- onais, criadas A sombra do poder, em re- lagao ao qual nunca foi conivente, como bem lembrou Haroldo Maranhao na pi- gina do Elias Pinto no Didrio do Pard do iltimo domingo. Se nao fez inimigos, nao foi por cautela na expressed: foi por- que o respeito generalizado impediu que eles se apresentassem. No entanto, o reencontro da Amaz6- nia cor a sua hist6ria se desviou pela tri- lha rodoviaria, pela integrag9o e submis- sao definitive ao dominio metropolitan, e as veleidades de um iluminismo acaba- ram por se restringir a golpe publicitArio - ora das velhas elites, ora, como agora, de novas anti-elites agrilhoadas ao mes- mo poder, tingido de popular. Os amigos, os companheiros de via- gem, os alunos e os discipulos de Chico Mendes se dispersaram numa diAspora sem limits. A transmissdo oral do saber continuou a se propagar pelas ondas hert- zianas do seu c6rebro constantemente li- gado A (e na) hist6ria, mas Chico come- 9ou a pagar o contra-prego de sua dedi- cagao incondicional A cultural. Vivia corn sua diminuta pensao de aposentado da UFPA, gastando no alu- guel da casa mais de 40% de sua renda. A custa de enfrentar seu elevado senso de pudor, de dignidade e de privacidade, se conseguiu faz6-lo aceitar uma pensao especial do Estado, nao sem que antes uns poucos amigos se empenhassem para que a tradug~o material de tanta divida intellectual fosse arrancada do venture do Leviata estatal (espera-se que ambas as fontes de renda sejam transmitidas aos herdeiros sem maiores embaragos bur- rocrdticos, ao menos para dar conte6do real a certos lamentos p6s-morte sem coerEncia com os atos praticados quan- do em vida o homenageado). O espantoso 6 ter diante dos olhos a pequena mas maravilhosa tradugao do engenho & arte de um home franzi- no e insuspeitadamente forte como Fran- cisco Mendes. LA estao todos aqueles milhares de livros, muitos deles exagera- damente cars, comprados por um cida- dao que sempre foi professor mal pago (uma contradita A epifania de que a pe- nGria material do professor o condena ina- pelavelmente A incultura). LA estIo aque- les livros lidos, anotados, sumarizados, roteirizados. Estao aqueles livros e nao outros porque quem os adquiriu sabia o que buscar. Ali estA uma semente prodi- giosa, capaz de continuar dando frutos independentemente de jA nao estar vivo o maestro/magister/mestre que a formou. De sua produgao intellectual ficou ape- nas um livrinho, ninho s6 no tamanho, a mitica tese de cAtedra colegial As Ori- gens do Romantismo, que Jos6 Maria Bassalo, um fisico humanista como os melhores fisicos costumam ser, promete recolocar em circulagco emjunho, segun- do volume da s6rie que reedita teses de valor de intelectuais paraenses. Mas es- tao dispersas por ai pequenas obras pri- mas escondidas atris de prefAcios de li- vros, apresentagao de catAlogos de ex- posigco, artigos dejornal e uma miscela- nea de anota96es A espera do compe- tente colecionador e anatomista. Chico Mendes foi daquele tipo de cri- tico e esteta que funciona independente- mente do locus da sua atividade. Suas opini6es podiam ser ouvidas com o mes- mo respeito e acatamento em Bel6m ou em Paris, no Rio de Janeiro ou em Nova York. Antes de mais nada porque, livres da contaminag9o pelo patois academico, eram inteligiveis a qualquer pessoa con- venientemente alfabetizada. E claro que apenas uns poucos dos seus alunos do colegial dava-se conta do alcance das li96es ditas com total natura- lidade na sala de aula por aquele profes- sor que jamais deixou de preparar suas aulas, mesmo quando nao precisava dar- se a tais cuidados pr6vios (outra licao aos mestres improvisados de hoje). Os mais sensiveis ou inteligentes, contudo, eram terreno f6rtil para as sementes podero- sas que espalhava aquele home franzi- no, cor o frescor de um grande persona- gem de Ega de Queiroz, Fernando Pes- soa ou (quem sabe) Victor Hugo (nao o caudaloso romancista folhetinesco, mas o poeta precursor do simbolismo). Sementes tamb6m estavam em grau de 6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE MAIO / 1999 Procuradores e doutores: entire verdades e boatos Desde que, no final de margo, sou- be-se que Jorge Alex Nunes Athias voltara do Rio de Janeiro trazendo debaixo do brago o maior con- trato de prestagao de servigos juridicos ja assinado por um escrit6rio de advo- cacia do ParA, nao se fala em outra coi- sa no chamado mundojuridico. O clien- te era nada menos do que a Companhia Vale do Rio Doce, a maior empresa em atividade no Para, a maior exportadora do Brasil, agora no papel de deus e do diabo na terra do sol. Ondas de especulagao e boato se langaram sobre o contefido do contrato - como de natural, guardado a sete cha- ves. Nao derrocando-o, autorizaram chutes e devaneios. Uns garantiram ter sabido,"por fonte segura", que o con- trato 6 no valor de cinco milhaes de re- ais. Num outro circulo a soma foi ele- vada para R$ 15 milhies. E em outra frente acabou em febris R$ 50 milhoes. JA seria o suficiente, mesmo nao sendo o verdadeiro, para fustigar inveja, admira- c9o, despeito, curiosidade ou simples inte- resse. Mas outro component foi ativado quando dois s6cios de Jorge Alex, ex-pro- curadores gerais do Estado como ele, e mais dois integrantes do escrit6rio, igual- mente lotados at6 entao na Procuradoria, pediram demissao do servigo pfiblico, abrindo mao de razoAveis aposentadorias a que teriam direito quando chegassem A inatividade remunerada exercendo seus cargos. Embora o contrato tivesse sido assinado pessoalmente por Jorge Alex com a CVRD, seus s6cios, num gesto de soli- dariedade, se afastaram da representagao legal do Estado para nao criar incompati- bilidades 6ticas ou morais, segundo a ex- plicagao informalmente apresentada. O gesto deveria ser elogiado numa terra em que servidores pfiblicos, proibi- dos de advogar (em absolute ou em cau- sas contrdrias ao Estado), mant8m seus escrit6rios recorrendo a terceiros para assinar as peas que produzem. Mas as ren6ncias em bloco provocaram outro tipo de raciocinio, concentrado na tentative de saber (e, sem consegui-lo, advinhar) o tamanho da remuneragao do escrit6rio, capaz de compensar (e mais do que com- pensar) a entrada dos vencimentos nos or9amentos dos ex-procuradores. De concrete, sabe-se apenas que, no dia 30 de abril, a Alunorte, escalada para assumir a conta, transferiu por via ban- caria quase um milhao de reais por conta do inicio do contrato. Seriam as luvas? Nao se sabe. O pr6prio Jorge Alex apre- senta n6meros bem mais delgados: um fixo de R$ 10 mil mensais e mais uma extrema concentragao nos textos supos- tamente rapidos e conjunturais que Chico Mendes escrevia para tender a uma en- comenda, sempre graciosa (al6m de gra- tuita). Um dos que preparou para uma das exposi9oes de Dina Oliveira e um primor de compreensao e apresentagao da pintu- ra. Antes que qualquer outro, Chico soube absorver, discernir e fazer compreensivel a importAncia da pintura abstrata, ou me- Ihor, da conquista da autonomia em artes plAsticas a partir de uma paixao em co- mum, o pintor frances Paul C6zanne. Nin- gu6m, at6 hoje, falou melhor As (e das) artes plasticas do que ele. E uma pena que nos tenha deixado tao poucos textos escritos diante do que leu, pensou e disse na sala de aula total que, para ele, foi a vida. Nao tao poucos textos, por6m, como mostrard um inven- tario sistemAtico e sdrio que se venha a fazer, para compensar a inagco de tan- tos que agora se apresentam como dis- cipulos do mestre sem ter-lhe dado (em dose coletiva e na devida conta das pro- porg9es, claro) um pouco da aplicagao que Platao devotou a S6crates, ajustada A finalidade de recuperar o mAximo das p6rolas que Francisco Mendes espalhou ao long do seu itinerArio. O legado 6 imenso, mas nao pode ser medido apenas pelo que ficou objetivado, materializado. As attitudes de Chico Men- des sao tio valiosas quanto suas palavras e seus escritos. Tenho diante de mim re- corte de uma entrevista dele que a extin- ta Folha do Norte publicou em agosto de 1960. Era o ano do cinqiientenario do professor e ele pedia, exigia, clamava para que o considerassem um professor, com a dignidade implicita ao cargo da qual o mestre nao abria mao, tribune que a opi- niao pfblica ja entao pudesse estar con- siderando anacronico. Ele, entretanto, era o mestre atemporal, de sempre, eterno, o intellectual organico de que falava Gra- msci, que Unamuno foi. "Estamos em greve porque desejamos ser considerados professorss, disse Mendes ao reporter, explicando o movi- mento para que, na transfer8ncia da Fa- culdade de Filosofia da Sociedade Civil de Agronomia e Veterinaria do Pard, onde estranhamente surgira, para a Universi- dade do Para, o element principal do acervo, os professors, nao fosse atirado as tragas, ou, pior ainda, A lata de lixo. O dificil parto da transigao se arras- tava havia tres anos sem um resultado satisfat6rio. "Desejamos que a vida da Universidade nao se realize nem se es- gote, como nesses primeiros tres anos de sua exist&ncia, em lutas est6reis de fac95es que ambicionam o seu dominio e o seu control numa perniciosa e ridi- cula ambigao de poder", declarou o pro- fessor, com indignacao e a premonigao do future. "Exige-se muito do professor. Exige-se muito dele, o que esta certo. Mas o que se oferece a ele, em troca, 6 muito pouco, quando nao 6 aviltante ou indigno", acrescentou. Diante dos que reagiam ao movimen- to grevista dos professors, do qual Fran- cisco Mendes tornou-se porta-voz, co- brando prudencia e "a decantada voz da razao", o terno "Ratinho" contrapunha: "HA moments na vida de um home que prud6ncia 6 covardia, e resignar-se cum- plicidade e a 'voz da razao' cheira a trai- 9ao para consigo mesmo". Esta 6 a grande li9ao deixada pelo professor Francisco Paulo Mendes: a decencia, a dignidade e a capacidade de indignagao, que esteve sempre pre- sente na sua vida, um compromisso as- sumido com a verdade que ele nunca dispensou, mesmo quando seria c6mo- do faz&-lo em nome de uma "voz da razao" que, para muitos intelectuais, 6 tamb6m o canto das sereias. A voz que comandou Chico Men- des foi a da consciencia, de um home que, A maneira de Camus, foi um re- voltado contra aquela dimensao anti- humana que priva a maioria do reino da comida, do conforto, da dignidade, da educagao, dos livros, da cultural, do sa- ber. Um grande home. Imortal. 0 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO / 1999 3 em outros casos, como no das pragas im- provisadas (em engenharia civil e em en- genharia political, atropelando as instincias e os ritos), 6 um dem6rito. N~o ha d6vida de que, no moment, Ed- milson Rodrigues 6 o principal politico muni- cipal, mesmo com a hiperinflagpo artificial que o vezo autoritirio e uma estatistica de ocasi~o sempre propiciam. Mas o desgaste que estA sofrendo e vai continuar a sofrer pode afetar essaposigio confortivel. O prin- cipal dividend que o prefeito vai pagar e politico e nfio o legal, ao contrArio do que pensam os integrantes do movimento para afasti-lo do cargo ou cassi-lo cor base numa ilegalidade inexistente. Apesar de ainda se acomodar A supe- restrutura partidiria, ele s6 a aceita enquan- to 6 possivel conciliar seuprojeto pessoal com o do PT. Provavelmente num confront ain- da maior, que pode vir em future breve, vai desafiar essa estrutura e usar todo o poder a que tem acesso par vergA-la. Porque se ter muito dirigente petista que nao quer a reelei- 9ao, ele proprio quer e pronto. O resto 6 o resto, como ele disse. O que farA Ana Jilia, a quase-senadora de 500 mil votos? AceitarA esse determinis- mo ou tentarA um novo golpe de sagacidade, mesmo que A custa da melhor 6tica? Come- garam a ser feitas especulacoes sobre sua candidatura ao segundo principal municipio do Estado, o de Ananindeua, parceiro me- tropolitano da capital. E ainda nio cessaram os boatos sobre a possibilidade de bater cha- pa corn Edmilson recorrendo a outra legen- da. Mas sdo lances temer6rios. Mesmo que esteja sujeito a pressSes e contra-pressaes para valer num partido com espinha dorrsal como o PT, o alcaide ainda 6 o mais forte dos contendores. Tem meios para mobilizar e aglutinar a militancia, hist6rica ou levanti- na, gragas A PMB. Mas seus adversariosjh perceberam que a crescent fissura no PT 6 o filao mais pro- missor, principalmente para o candidate a candidate melhor cotado, o deputado fede- ral Vic Pires Franco, do PFL, o parlamentar da bancada paraense mais bem votado em Bel6m. 0 govemador Almir Gabriel tamb6m aproveitarA essa circunstAncia, tanto para acertar as contas cor Edmilson como para negociar um prero elevado de composig o, se tal hip6tese 6 possivel. Em qualquer hip6tese, o ideal de pureza, de partido escolhido, deixou de ser monop6- lio do PT. Ele cai na rinha quando se apre- senta cor perfil muito parecido ao dos car- comidos partidos que critical, substituindo o confront Almir-Gabriel-H6lio Gueiros Jr. pela guerrilha Edmilson Rodrigues-Ana Ji- lia Carepa. Como diria algu6m que se senti- ria A vontade para definir a situagio: tudo 6 muito human, demasiadamente human - e bern nietzscheano tamb6m. Afinal, ha ato- res que se consideram super-homens. 0 Charles De Gaulle foi o introdutor do futebol no Brasil. Mahatma Gandhi inven- tou o telefone (ou foi um chefe dos bAr- baros, inimigos dos romanos da antigiii- dade). Martin Luther King liderou a Xu Klux Klan. Winston Churchill se celebri- zou como astronaut. Barbaridades desse tamanho foram per- petradas por 262 dos 442 concluintes de cursos de comunica9to social em universi- dades do Rio de Janeiro que participaram de testes de seleg9o para ser estagidrios no jomal carioca O Globo. Quase 60% deles foram reprovados logo na primeira prova. Desconheciam por complete alguns dos mais notAveis personagens da hist6ria uni- versal nas iltimas cinco ddcadas. Se as perguntas remontassem a perio- dos mais antigos da hist6ria, ainda poderia prevalecer a desculpa de qualquer ma- neira esfarrapada de que esses assuntos, tratados na escola secundAria, jA foram es- quecidos pelos que a eles tiveram acesso atrav6s do simples decoreba. Para estu- dantes que pretendem dedicar-se aojoma- lismo, no entanto, escrever que De Gaulle foi o arquiteto que projetou a Torre de Pisa ou que Luther King foi um "alterofilista" (assim foi grafado), 6 um desastre. Al6m de nio ler livros, os comunic6lo- gos nao estao nem acompanhando a pro- du~aojoralistica, deficiencia em dose du- pla e fatal para qualquer dos assim cha- mados profissionais das letras, ainda mais quando o escrevinhar se pauta por atuali- dades. A cultural 6 o resultado da decan- tag~o de um produto hibrido, composto de informal~ o (um element da conjuntura) e saber (algo mais permanent, que resul- ta de um process mais extenso ao qual se convencionou dar o nome de hist6ria). Ao contrdrio do que insinua um certo tipo de jornalismo cultural, ler nao 6 tio somente um requisite de status, ferramenta necessiria A ascensao social atrav6s do reconhecimento public. Ler 6, em primeiro lugar, fonte de prazer. Quem nao gosta de lerjamais sera culto. Pode ser inteligente, pode inclusive ser sAbio, dotado daquela sabedoria natural (em geral produzida pelo contato permanent, sistemitico e apro- fundado com um objeto ou sujeito, como a natureza) que desafia a compreens~o (e o preconceito). Mas terA sempre a lacuna do conhecimento. Quem nao gosta de lerjornais ou re- vistas jamais serd um bom jornalista (in- clusive de televisao ou rAdio). Ojora- lismo tem essa cruel caracteristica de obrigar seus praticantes a estar sempre "por dentro" dos acontecimentos. Num mundo globalizado pela inundal9o de in- formag6es, pode se tornar um massacre se ojomalista nio tiver pelo menos uma qualidade: a de saber escolher, selecio- nar e entender. Os que tmr essa quali- dade sao, em geral, tamb6m os que 18em mais do que peri6dicos. Quando ha alunos lendo nos cursos de comunicagao social (uma anomalia de cur- so, no meu entendimento, porque tenta compatibilizar teoria da comunicag9o com jomalismo, latiftfndios de inten95es paraum miniffndio de tempo e espago), ou sendo forgados a ler, loem errado. Freqiientemen- te t&m acesso aos juizos de valor de al- gu6m em relagio a determinado tema ou personagem, mas nao t6m o conhecimen- to primArio, obtido diretamentejunto a fon- te. E conhecimento de segunda ma~o, de fonte secundAria, que aparece na impren- sa. Mas esse process nAo forma profis- sionais criativos, aut6ctones. )Esta 6 uma geragio de comadres repetindo originali- dade alheia como se fosse pr6pria. Nio 6 o caso, porque aqui trata-se de um diAlogo entire pessoas habilitadas, mas quando me coloquei diante das 1.400 pA- ginas que Marilena Chaui produziu, em dois volumes, sobre o Baruch Spinoza, fiquei a me perguntar: vale a pena encarar o tijola- 90, ou nio serA muito mais recomendAvel atirar-se diretamente sobre o fil6sofo ho- land6s? O maior prazer que ele pode pro- porcionar aos seus leitores 6 a apreensdo do seu m6todo de construgao do pensa- mento e, por decorr ncia da maneira cer- ta de pensar, da verdade. Tio monumen- tal, a doutora Chaui nos priva do gosto de novidade desse aprendizado. A busca do caminho mais ficil tira de muitos a radicalidade do prazer de pensar, a mais recompensadora das an- g6stias. Muita gente ficou A porta de O Capital, por exemplo, alertada pelo ta- manho da obra e o estilo do autor. Real- mente, o livro 6 dificil. Mas nao exata- mente por Marx (na origem, foi um jor- nalista e nunca deixou de ser). A cul- pa 6 da horrorosa caligrafia que ele ti- nha e do caos em que se metia ao es- crever, que seu amigo successor, Friede- rich Engels, nao p6de resolver-quando precisou editar a maior parte dos volu- mes de O Capital. Ainda assim, essa cathedral anat6mica do capitalism con- correncial 6 muito menos ardilosa do que a esmagadora maioria das suas introdu- 95es, explicag9es e comentArios su- postamente atalhos mais bem acabados. Leitura positive 6 a que proporciona pra- zer e ang6stia, o maior prazer do espirito e a ang6stia mais heuristica. Quem nao pro- var desse cAlice nao sabe o que perde. * Leitura: pra que? 4 JOURNAL PESSOAL 29 QUINZENA DE MAIO / 1999 Francisco Paulo Mendes: Folheando os livros de Francisco Paulo Nascimento Mendes, as vezes me perguntava: como ele conseguiu comprd-los? Como teve coragem de comprd-los? M uitos desses livros eram preci- osos. Dezenas em frances (a segunda lingua da biblioteca), ingles, espanhol e italiano (na hierarquia do uso). Importados atrav6s de livrarias especializadas do Rio de Janeiro e Sao Paulo. O prego de alguns podia ser avali- ado em 200, 300 ou 400 reais. Tudo indi- cando que o professor Mendes, quando queria um livro, nao ligava a minima ao seu custo. Tratava de providencid-lo, pri- meiro encontrando a via de acesso (o que exige certa intimidade com o assunto); depois, arranjando o dinheiro. Chico Mendes, nosso amado "Rati- nho", comprou milhares de livros. Tal- vez, no total, uns 10 mil. Quando mor- reu, aos 89 anos, no final da manhd do dia das mies, no filtimo dia 9, sua biblio- teca deveria ter uns 3 mil, quem sabe 4 mil volumes. Eram seus livros de cabe- ceira (uma imensa cabeceira, claro), os indispensaveis. Mesmo desfalcada da parte maior do que fora no seu Apice, por causa de doa- 96es generosamente feitas pelo dono, essa era, provavelmente, a melhor biblioteca em mat6ria de critical, teoria e hist6ria li- ,terAria, al6m de est6tica, de Bel6m. Me- lhor nao quer necessariamente dizer mai- or. A de Chico Mendes era a melhor. Talvez tamb6m a maior. Mas ele nunca dispensou a mais re- mota das preocupag9es ao aspect quan- titative dessa companheira de toda a vida (sim, porque Mendes nasceu entire livros, herdados do pai, home da fina intelig6n- cia que o filho recebeu e ampliou). Uma vez me chamou e me deu uma Britanni- ca complete, no original, preciosa edigao de 1956, em 24 volumes.-Em outra vez, acompanhando-me como se passasse tro- pa em revista, me mandou escolher al- guns tomos que me interessassem. Quando cheguei ao quinto livro, con- segui sair do estado de hipnose diante das lombadas e virei-me para o meu acompanhante. Percebi seu fugidio olhar de tristeza. Similei fastio e disse que estava satisfeito. O rosto de Chico vol- tou a se iluminar. Rapidamente tratou de tirar-me daquele lugar sagrado e peri- goso, no qual s6 ele nao era intruso, e fomos conversar na sala, eu com meus poucos e valiosos livros por ele doados, ele feliz por haver me proporcionado prazer sem chegar A dose pessoal de desprazer que mais livros retirados de sua biblioteca lhe causariam. Qual o leitor que nao gostaria de sair dali sobragando todos aqueles volumes? Para um apreciador da leitura, nao ha objeto cujo fetiche seja mais arrebatador do que o livro. Ele provoca todos os sen- tidos e todos os pecados, da inveja A co- biga, da sedugco A gula. Lido e compre- endido, atiga ou desperta o mais elevado dos prazeres, o pensar, certamente o tra- go que nos distingue no conjunto do reino animal de que fazemos parte. Uma biblioteca 6 maravilhosa nao s6 - nem exatamente pelos objetos que acumula, mas pela hist6ria que Ihe cons- titui fio da meada e definigdo. JA estive em bibliotecas particulares que apenas me provocaram gula e cobiga (dai porque, ha varios anos, evito as p6blicas, reservan- do-me apenas para as mais valiosas, onde esta o que nao posso ter). Essas bibliote- cas tinham livros, mas nao tinham vida. Uma rApida inspec9o mostrava que seu proprietario colecionava livros, mas nao costumava 1-los. Era um colecionador, nao um leitor. A biblioteca do professor Francisco Paulo Nascimento Mendes era maravi- lhosamente viva por ser a extensao do seu dono, confirmando-o ou antecipando- o. Em muitos daqueles livros ele encon- trou a catapulta que o proj etou para pata- mares superiores da reflexao, da analise, do discernimento, da cria9go. Outros con- firmaram, em fonte segura, intuig6es e dedu95es feitas por sua mente vivissima. A maioria desses in-folio trazia em suas paginas tiras de pap6is sistematizan- do-lhes o conte6do, agrupando temas, selecionando t6picos, apontando suges- t6es, relacionando-se a umas poucas ano- ta9oes feitas a lapis no pr6prio texto da obra, corn o cuidado de nao macula-la. Aqueles livros haviam todos sido atenta- mente lidos, compreensivamente assimi- lados, amados e, quando o caso, rejeita- dos. Deles, aquele leitor privilegiado tira- ra o melhor, acumulara em sua cabega maravilhosa e repassara aos seus ouvin- tes esse saber organico, a arma e a exclusividade dos verdadeiros sAbios. Plenamente consciente desse seu lu- gar no mundo, Francisco Mendes nunca titubeou no lance de dados. Se era aque- le o livro de que precisava, tinha que ar- remata-lo, indiferentemente As dificulda- des de localizagao e aquisigao. Quem conhece verdadeiramente livros, diante de alguns daqueles volumes ter-se-A indaga- do se repetiria o gesto de Chico Mendes. Perdi edi96es preciosas porque na hora de fechar o neg6cio pensei no leite das criangas, no orgamento dom6stico, na dor moral de chegar em casa carre- gando o volume como se fora uma amante argentina. Nos filtimos anos isso ter acontecido nos meus retornos a Bel6m de excursoes ao Sul Maravilha ou ao exterior. No aviao, me regozijo cor meu senso de responsabilidade, de che- fe de familiar. Mas amargo a tristeza de leitor. Nao ha sintese possivel, dial6tica ou mecanica, para esse conflito. Perdu- ra ad aeternum, exceto se voce incor- porar Robinson Crusoe adaptado A era da Internet e da globalizag9o. Chico tamb6m foi um conscencioso chefe de familiar, garantindo a manuten- 9ao dos seus. Mas teve uma vida disci- plinada, espartana. O que poderia ser considerado excess pessoal foi pro- porcionado por seus amigos, principal- mente pelo "salao" iluminista de Bene- dito e Maria Sylvia Nunes, um regalo para o epicurismo do mestre e de ou- tros convivas. Mas nao foi apenas por uma dieta material rigorosa que Chico Mendes con- seguiu fazer da sua biblioteca um cais de chegada e uma plataforma de langa- mento do conhecimento, dele e dos que foram bafejados pelos ventos olimpicos de sua companhia e enriquecidos por seus ensinamentos. Para saber muito, ele dedicou o mAximo de tempo a ler, a as- similar o que retransmitia, acrescido de sua pr6pria inventive, aos que encontra- va nas numerosas salas de aula que fre- qiientou e nas poucas casas, incluida a sua, que faziam parte do seu roteiro de peregrinag9o, sempre que possivel a p6, com elegancia parisiense (da Paris que amou e conheceu como raros dos que, diversamente dele, a viram tamb6m com os pr6prios olhos). Deve-se lembrar com embevecimen- to os tempos em que os col6gios e ginisi- os de Bel6m tinham Francisco Mendes como professor e nAo s6 ele, aliAs, um entire outros mestres com qualidades jA fora da linha de montagem pedag6gica. Mendes demonstrou, em quatro d6cadas de magist6rio, no que hoje se chama for- dianamente (ou seria freudianamente?) de 20 grau (e mesmo no 10 grau), uma notAvel paciencia para lidar cor alunos, com pessoas dotadas de um conhecimen- to infinitamente inferior ao dele, sem cair JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE MAIO / 1999 7 porcentagem sobre cada causa ganha, o indice inversamente proporcional ao va- lor da demand (quanto maior o valor absolute, menor o percentual, conforme a praxe nesse tipo de contrato). Como ningu6m contest que o escri- t6rio comandado por Jorge Alex, Pedro Bentes Pinheiro Filho, Gilberto Guimaraes e Reinaldo Silveira 6, no minimo, um dos melhores e mais bem aparelhados de Bel6m, se nao ja o melhor indiscutivel- mente, o ex-procurador-chefe tem todo o direito de cobrar bem, e at6 cobrar caro. E a retribuigaojusta A sua compet6ncia e de seus colegas. Dois pontos, contudo, devem ser es- clarecidos. Em primeiro lugar: trata-se realmente de um prego de mercado; caro, mas compativel com as parties envolvi- das? Em segundo lugar: por que a CVRD contratou novos servigos profissionais, se ja mant6m relagao corn tr6s escrit6rios, envolvendo valores incomparavelmente inferiores aos agora adotados? Um deles foi derivado do servigo ju- ridico da Albras, que preferiu terceirizi- lo a manter uma estrutura pr6pria. Um outro, o do advogado Otavio Mendonga, um dos mais notaveis da cidade, se es- pecializou nos litigios trabalhistas da Vale. E um terceiro, o Scaff, Brandao & As- sociados, cuidavajustamente dos assun- tos agora delegados ao escrit6rio dos ex- procuradores. Eles envolvem o mais explosive con- tencioso da CVRD corn o Estado, na parte tributAria e fiscal, algo que pode variar entire um minimo de R$ 100 milhoes at6, nas proje9oes mais inflacionadas, R$ 300 milh6es. Ai entraria um outro componen- te: a condicgo de ex-secretario da Fazen- da ostentada por Jorge Alex. Em sua de- fesa, al6m dos atributos pessoais reco- nhecidos, ele pode apresentar uma qua- renta de dois anos fora do cargo (ainda que colocado A disposigao da Universi- dade Federal do Para pela Procuradoria). Nesse caso, ele pode pagar pelo pecado que tamb6m nao praticou a mulher de C6sar: aldm de ser efetivamente hones- ta, ela precisava parecer honest. O resultado 6 que, como Alex indicou seu successor, Paulo de Tarso Ribeiro, outro nome respeitado, os que militam numa ala mais incr6dula dentro da recei- ta estadual preferiram acreditar que foi criada iuma bolha de favorecimento A Vale justamente quando o fisco fustigava a empresa. A Vale conseguiu rapidamente uma liminar emjuizo para desembarcar o minerio de bauxita para a Alunorte, em Vila do Conde, que havia sido retido nos pores do navio que o transportava pelos fiscais fazendArios, em cobranca de su- posta divida de R$ 34 milh6es (e acarre- tando a empresa despesa, s6 de multa portuaria, de R$ 12 mil ao dia). Ao que parece, a Procuradoria ainda nao petici- onou pela suspensio dessa liminar. Esse estado de espirito pode ter efeito contrdrio ao pretendi- do pela CVRD, se ela preten- deu obter algum tratamento es- pecial. Ainda mais porque se es- palhou o boato de que o gover- nador Almir Gabriel, mesmo aprovando a decisdo do seu ex- auxiliar, que o consultou e in- formou a tempo, antes de tomar uma decisao, teria engolido a pilula sem aprovar o remidio. Se Jorge Alex ofereceu como contra- partida A remuneranao apenas os seus bons serviqos (e, por extenso, os dos seus s6cios), ningu6m tern nada a ver corn isso. Nao ha element concrete, nos fatos ou na biografia do personagem, capaz de sustentar que ele prometeu algo mais do que pode oferecer com sua pericia pro- fissional. Mas a prova dos nove s6 vird corn o tempo, na media em que for evo- luindo o contencioso CVRD/Estado. Afi- nal, ha um principio basilar em direito se- gundo o qual boa f6 se presume e ma f6 se prova. E ningu6m provou nada contra Jorge Alex e o seu escrit6rio. Mas inegavelmente ele e os demais companheiros erraram no timing da de- sincompatibilizagao entire as atividades do escrit6rio particular que formaram (e foi o que mais cresceu nos hltimos anos) e o desligamento da Procuradoria Geral do Estado, j substancialmente feito, mas ainda residualmente incomplete (tr6s ad- vogados associados continuam nas anti- gas fun96es). Tantos chefes de procuradoria jun- tos, al6m de outros procuradores asso- ciados, num unico escrit6rio, s6 era pos- sivel por essa ins6lita paralela que per- mite o exercicio da advocacia particular aos procuradores do Estado, mas nio aos advogados da Uniao e aos defensores piblicos. Talvez agora algu6m tome a salutar provid6ncia de igualar os que deveriam ser iguais no impediment. Talvez para tanto melhorando os salAri- os para cobrar de pessoas talentosas o tempo que elas dedicam aos seus escri- t6rios, mas nao A repartigao piblica. Talvez dessa maneira o governador Al- mir Gabriel consiga o que cobrou dos procuradores numa reuniao fechada, re- alizada no dia 17: maior produtividade, mais vit6rias, menos 6nus para o Estado O desligamento no tempo certo po- deria resguardar o escrit6rio para enfren- tar a onda de boatos e especulag6es em que se mant6m envolvido ha um mes e meio. Ao mesmo tempo, preservaria a Procuradoria da acusagco de ser uma extensao desse poderoso escrit6rio, que corn ela continue a manter lagos visiveis e invisiveis. Talvez por causa desse clima, uma advogada, sentindo-se prejudicada no 110 concurso p6blico para o preenchimento de cargo de procurador, recorreu justi- Ca para anular esse concurso, acusando- o de fraudado. A candidate reprovada acusa um dos integrantes da comissAo organizadora de ser s6cio primeiro de fato e, em seguida, de direito de uma das candidates aprovadas. Diz ainda que uma das questbes da terceira prova, al6m de nao constar do program, foi repassa- da a alguns dos candidates, caracterizan- do a ilicitude da informagao privilegiada. Ajuiza que apreciou a questao, Dahil Paraense de Souza, mesmo admitindo que os fatos relatados na petia5o se chocam cor "os principios basilares do Direito Administrative", nao concede a liminar requerida. Preferiu prosseguir a instrugao do process para obter elementss mais concretos" para a apurag~o da verdade. Nesse caso, a denuncia de favoreci- mento atinge outro advogado de grande conceito no meio juridico, Ant6nio Jos6 de Mattos, lider do escrit6rio que leva o seu nome. Ele pode estar sendo indevi- damente arrolado na ado, mas no seu caso hi pelo menos um avanco: agora a justiga vai poder intervir para dizer quem esta cor a razao, desfazendo o que nao passa de boato e recuperando o que 6 fato. Ainda que por vias tortuosas e so- fridas, a Procuradoria Geral do Estado pode sair ganhando, qualquer que seja o resultado da dispute. Mesmo que nao te- nha sido essa a intengdo original. 0 Aviso sta edicgo do Jornal Pesso- al foi muito prejudicada pela atengio que tive de dar ao process contra mim movido por C. R. Almeida. Muitos temas que come- cei a investigar nao puderam ser con- cluidos. Espero que o leitor releve a pou- ca diversidade de mat6rias. No pr6xi- mo nimrerc, confio em poder report este peri6dico na trilha da normalidade. 0 grileiro afrontado: a inversao de valores O empresario Cecilio do Rego Almeida, o pol8mico pro- prietArio da construtora C. R. Almeida, decidiu me proces- sarjudicialmente. Diz ele, em sua aio ordiniria de indeni- zaqdo por dano moral, que eu o caluniei, difamei e injuries, atravds de um artigo publica- do na ediggo 203 destejornal, da 2" quinzena de janeiro. O "crime" que me atribui 6 o de chamA-lo de grileiro de terras. Ja estou contraditando essa acgo, gracas A competen- cia da advogada Angela Sal- les, uma preciosa amiga de todas as horas, inclusive as ruins. Cada uma das frigeis alegagdes do empresArio sera adequadamente desfeita nos autos. A justiga haveri de bem definir o litigio. Apesar dessa confianqa, por6m, sei que a agao irA me atrapalhar (ja comegou, pelo atraso da present edigio). Embora o foro competen- te para apreciar o feito seja o da comarca de Bel6m, C. R. Almeida peticionou A justice paulista. O prop6sito 6 o de embaragar uma pessoa desti- tuida de recursos para acom- panhar o process em Sao Paulo. Certamente aposta na perda de algum prazo e na re- velia. Al6m disso, tenta deslo- car a questao do lugar no qual ela esta intensamente aviva- da, inclusive pela CPI instala- da na Assembl6ia Legislativa. Seu piano parece ser o de ten- tar trazer para o ParA a con- denagio de um jornalista que tem sido um estorvo aos seus pianos de pilhagem fundiAria, inibindo ou intimidando quem se opbe aos seus prop6sitos. Ao leitor interessado, re- comendo a leitura da edigao que pretextou a agao do dono da C. R. Almeida. E, indepen- dente de umjuizo sobre o con- teudo da demand, a pensar nessa inversao de valores que estimula algu6m, cor preten- sao sobre uma Area de terras do Estado com 4,7 milh5es de he-etares-(dua-!vyzes- tam -, nhp de Sergipie,'cnde Vivp'm 1,5 milhao de,~rasileirfo). ir atrAs de indenizacIo por su- posto dano moral de ser cha- mado de grileiro. Queria o que, o sr. Rego Almeida? Desde as primeiras notas "plantadas" na imprensa do sul do pais, em dezembro de 1994, anunciando a venda das terras, sua pretensio tem pro- vocado um grande impact, o que nIo 6 de estranhar. Afinal, quando o milionArio norte-ame- ricano Daniel Ludwig se anun- ciou, no final da d6cada de 70, dono de 1,6 milhao de hectares de terras entire o ParA e o Amapa, no que foi considera- do entio como o maior im6vel rural do planet (mas tres ve- zes menor do que o pretendido por C. R. Almeida), houve uma repercussao international. A nacionalizagAo da grilagem nao melhora em nada o ataque ao patrim6nio fundiirio piblico. Nunca o suposto dono des- se aut6ntico pais apresentou o titulo de propriedade das ter- ras. O Estado declarou queja- mais expediu titulo sobre a Area reivindicada. Por isso, ajuizou uma aio de nulidade e cancelamento contra Rego Almeida, ainda em tramitaico na justiga estadual. Os cart6- rios de Altamira, nos quais fo- ram irregulannente registrados os im6veis, estAo sob correi- cgo extraordinAria,a pedido da Advocacia Geral da Uniio, justamente por causa das fun- dadas provas juntadas contra esses registros. Eles foram in- devidamente feitos no livro de propriedades (quando muito, deveriam ser inscritos no livro auxiliar de posse, credencian- do seus portadores a legitimar, apenas e tao-somente, as ter- ras efetivamente ocupadas). C. R. Almeida nao cadas- trou o im6vel no Incra e nun- ca pagou o ITR (Imposto Ter- ritorial Rural). Os cinco anos de atualizagco do imposto Ihe custariam algo como 200 mi- lh6es de reais. O VTN (Valor da Terra Nua) da Area, com o custo da regularizagio, absor- ..veriam mais R$ 250 milhoes. A operayAo de compra feita :.;ciiumadfamilia de extrativis- f/ Th~ tas do Xingu (com direito ao uso da terra, nao ao seu domi- nio) foi no valor de R$ 6 mi- IhWes, no "contrato de gave- ta" assinado, e de R$ 500 mil, segundo o registro na Junta Commercial (o que poderia ca- racterizar fraude fiscal). Dos R$ 600 mil em dinheiro vivo (todo o restante sao titulos de cr6dito), s6 R$ 100 mil teriam sido pagos. A finalizagFo da transaglo ficou dependendo da aceitacAo do Iterpa aos papeis, ou seja, de ficar pro- vado que o sr. Rego Almeida nio 6 grileiro, o que ele 6, at6 a prova em contrario, que nun- ca apresentou. TAo piblica e not6ria 6 essa condigo que a CPI do legis- lativo intitulou-se "CPI da gri- lagem". Todas as mat6rias de journal falam em grilagem. Os 6rgAos da administragio p6bli- ca, unanimemente, o tratam como grileiro. Os documents oficiais existentes apontam a grilagem. Como 6 que o dono da C. R. Almeida quer ser tra- tado por um jornalista que re- produz esses fatos, por dever de oficio, e os interpreta? A matiria inquinada de ilicitude, como a simples lei- tura mostrard, limita-se a di- mensao pdblica do empresad- rio e estritamente aquela dimensdo relacionada as ter- ras pftblicas do Pard. Como falar em injziria e difamacdo, em ofensa h honra, sefiz cri- ticas c reportagem da revis- ta Veja exatamentepor ela ter sido editorializada, impreg- nada de adjetivos valorati- vos em fungdo de uma anti- ga dispute da revista corn Cecilio Almeida? 0 empres6rio ajuizou ou- tra agao de indenizagdo, nela incluindo Veja, o advogado Carlos Lamardo Corrna, di- retor do departamento juri- dico do Iterpa, e o vereador Eduardo Modesto, da Cdma- ra Municipal de Altamira. Juntar tudofaz parte de uma manobra para confundir, como sefossem uma coisa so, coisas tdo distintas quanto a reportagem da publicaqdo da Editora Abril, a agdo do ad- vogado e as denuncias do vereador Em favor de Lama- rdo, o minimo que se pode dizer 4 que deveria ser pro- cessado se ndo cumprisse seu ever de servidor pdbli- co, defendendo o patrimdnio coletivo contra a tentative de esbulho. As a6bes, A parte acarreta- rem mais problems a pessoas ja tAo atribuladas, deve servir de alerta para a administration piblica. Se antes os grileiros li- mitavam sua audAcia (que ja nAo era pouca) a tentar se apos- sar de terras alheias, agora eles ainda se arvoram a acionar os que se colocam em sentido contrario, na defesa dos inte- resses coletivos. Isso porque o governor ter sido omisso, abilico ou ineficiente no corn- bate A apropriagio fraudulen- ta de terras estaduais, estimu- lando ou mesmo induzindo a pirataria fundiAria. Se o governor nao der um basta, recuperando sua legiti- midade, nao 6 s6 inocentes que irao incorporar as culpas dos verdadeiros rdus: o Para, pri- vado de grande parte de sua base territorial, por acao de inescrupulosos mas audaciosos aventureiros, que s6 querem ganhar muito e fAcil dinheiro, se condenara A pobreza. Mai- or do que a que ja o assola. Journal Pessoal Editor: Lucio Fldvio Pinto Sede: Passagem Bolonha. 60-B 053-040 Fones: (091) 223-1929 (fone-fax) e 241-7626 (fax) Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040 Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br Edigio de Arte: Luizantoniodefariapinto/230-1304 t - ." '- \ |
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