Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00160

Full Text


O eterno
Professor

Jomal Pessoal (PAGS. 5
L C O F L A VIO PI NTO Ogrileiro
-' ": -ANO XIi *N 211 2 QUINZENADE MAIO DE1999' R$2,00' process

POLITICAL;. P
POLITICAL


Vaidades ao

Depois da chanchada Almir Gabriel versus H6lio Gueir+s
a novela Edmilson Rodrigues contra Ana JClia Carepr-i
sdo mais iguais do que os outros? Hd mesmo uma br*
"diferencas democrdticas" estdo sendo ampliadas pe4
administra4do revoluciondria do PT em Belim? Qua:
perguntar costuma incomodar. Ou


Obarco paraense do PT so-
breviveu A borrasca gerada
pelo prefeito Edmilson Rodri
gues e sua vice, Ana Jilia
Carepa. Mas os calafetos
providenciados nao suporta-
rao uma nova tempestade. As rachaduras e
cisoes, uma caracteristica que acompanha o
partido desde o seu nascimento, j sdo sufi-
cientemente profundas para fazer da unida-
de mais um aderego para consume extemo.
Mais do que diferenga de id6ias, agora elas
expressam a dispute por algo muito mais
material: o poder.
Embora, num Estado com traditional
political personalista, seja at6 comovente ver
uma dispute de poder dentro da principal pre-
feitura municipal do Estado ser resolvida pelo
colegiado partidario que conquistou essa po-
sigao, as divergEncias entire o prefeito de
Bel6m e a vice-prefeita nio surgiram em
fungio de visoes administrativas, political e
ideol6gicas conflitantes, apesar de cada um
rezar por uma cartilha distinta. E porque
Edmilson e Ana Jilia tem projetos pessoais
de poder conflitantes. Ou seja: o PT pode
ser um corpo especial numa estrutura parti-
daria viciada, mas os seus integrantes nao
diferem tanto da m6dia dos politicos profissi-
onais. Ao menos no Parai.
Ao final de uma reuniio de seis horas, a
portas fechadas e com seguranga extema
para manter os curiosos A distincia, o princi-
pal personagem, o prefeito, saiu da sabatina
corn uma frase de entonago tao velha quanto
ultrapassada: "O prefeito sou eu. O resto 6 o
resto", disse Edmilson Rodrigues (elsupre-
mo?). A declaraqo mostra que, apesar dos
Ssorrisos e abragos armados para quando a
Simprensa teve acesso a sala de reuniio, o
.22. ?7 ___


alcaide entrou como saiu: autoritirio e des-
confiando da sua vice.
Nao que Edmilson seja propriamente o
vilao, ou o tnico vilao. O motivador damais
recent rusga entire os dois decorreu de um
ato de deslealdade de Ana Ji6ia: ela apro-
veitou uma ausdncia do titular para confir-
mar um ato por ele rejeitado, a reduq~ o (e
praticamente a exting9o) do laudenio que
a prefeitura cobra nas transa96es imobilii-
rias (de uma aliquota de 2,5% para 0,01%).
Todos tnm razAo em ser contra esse res-
quicio de um direito medieval jipraticamen-
te expurgado no Brasil (Petr6polis 6 a mais


notivel, excecio, por abrigar o que resta
da familia imperial).
Sua quase extingCo (a aliquota ficou com
valor irris6rio, a ser totalmente abolido em
umatransferencia seguinte) vai ativaro mer-
cado imobilidrio e aumentar a renda dos car-
t6rios, dois segments controlados pelo que
o PT consider como sendo a elite local. Mas
tamb6m vai beneficiary qualquer um cidadco,
baixando para parimetros decentes o que
ele 6 obrigado a deixar nos cofres p6blicos
ao vender uma propriedade urbana, e indu-
zindo-o a regularizar o instrument mais co-
mum dessas operates, o tristemente famo-


* I .--* I f ? Z1* I
is ... .+; .. ,. ,., 'r+ "' D .::; : -,+ "+. '- +P Y..",





2 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO / 1999


Sso "contrato de gaveta" (etema fonte de so-
negagdo tributaria). E, portanto, uma medi-
da de beneficio geral.
Apenas a Codem (Companhia de De-
senvolvimento e Administrag~o das Areas
Metropolitanas de Bel6m) sai prejudicada.
Mas a Codem 6 um anacronismo tdo gran-
de quanto o laud6mio. A receita obtida atra-
v6s dessa cobranca saiu da 6rbita da pre-
feitura para a da companhia, a pretexto de
mant6-la, garantindo-lhe o desempenho da
funglo metropolitan. Mas a Codem s6
cumpriu esse papel por poucos anos. Numa
expressao mais rude, transformou-se com
o tempo em gigol6 de laudemio. Cor o
agravante de que precisa de outras trans-
ferncias municipals para manter seu qua-
dro (inchado, ocioso e improdutivo), embo-
ra abrigue um acervo documental relevan-
te e t6cnicos capazes.
O problema 6 que a Codem se tornou
uma abstrag~ o institutional; se nao um peso
morto, pelo menos uma carga onerosa. Ex-
ceto por desempenhar funqio political late-
ral, empregando clientele de interesse do pre-
feito e dando-lhe certa desenvoltura e de-
sembarago em relaao as amarra9oes da
administrag~ o p~blica direta.
A resistencia de Edmilson Rodrigues A
sang~o da lei oriunda do legislative, resultan-
te de um projeto apresentado pelo vereador
Raul Meireles, do pr6prio PT, nao sendo ates-
tado de interesses politicos pessoais (visan-
do a campanha da reeleig~o), 6 pura turrice
(atengio: turrice). Recebendo o projeto de
leiji aprovado, foi deixando o tempo passar
sem sancionar o document. Nao era uma
attitude inteligente, menos aindatolerante ou
democrAticas, mas ele tinha essa prerrogati-
va como parte de seu arbitrio.
Ninguem desconhecia a posigo do pre-
feito sobre o assunto. Nao concordando corn
essa posigdo, a vice-prefeita poderia critici-
la, mas nao sancionA-la ao substituir o titular
em sua ausencia. Como o pr6prio titulo es-
clarece, a vice nao 6 titular do cargo, mas
acompanhante. Nao pode, nas interinidades,
agir em desacordo com decisIo e orienta-
9ao explicit do titular sem decair de sua
confianga (e ela exerce cargo em confian-
ca, ja que nao 6 votada).
Ai estA a fonte de maldiqio do cargo,
uma contradi9io que nao se consegue re-
solver. A menos ruim das solu9bes parece
ser a que vigorava antes do movimento mili-
tar de 1964: o vice ser votado individualmen-
te, da mesma maneira que o titular e inde-
pendentemente dele (no iltimo exercicio
dessa alternative, Janio Quadros foi presi-
dente da Rep(blica por uma col igagio e Joao
Goulart seu vice por outra). Assim, se briga-
rem (o que 6 raro nIo acontecer, tais as sus-
ceptibilidades envolvidas), pelo menos sera
umabriga muito mais legitima.
E possivel que Ana Julia tenha decidido
sancionar a lei tanto por concordar com seu


conteido como pela sua condi~go de aliada
do autor da proposig~o e por estar ciente de
que criaria uma situago no minino descon-
fortAvel para seu companheiro compuls6rio
de mandate. A obstinagAo de Edmilson con-
tra a sangio era e 6 impopular, mesmo ha-
vendo petistas dizendo que a media serve
apenas a algumas elites locais. Faturando as
gl6rias de ter liberado a media, Ana Jilia se
credenciaria para garrotear mais essa "rea-
lizagAo" para o seu curriculo eleitoral.
O mais important para ambos 6 encon-
trar uma aproximaqao mais favoravel A elei-
gao do pr6ximo ano. Se a legislago nio
mudar e se ele pr6prio nao atirar novos ca-
cos ponteagudos em seu caminho, Edmilson
Rodrigues sera o candidate do PT. Com o
partido razoavelmente integro, 6 o favorite.
Mas Ana Jilia 6 uma reserve de votos gran-
de demais (relativamente a eventuais sur-
presas trazidas por uma nova eleigao) para
continuar apenas como vice ou ficar ao de-
sabrigo de um mandate eletivo at6 a nova
eleig~o. A melhor acomodag~ o entire as duas
pretensies seria um compromisso de am-
bos, avalizado pela direqao partidAria, de
apoio complete do prefeito reeleito em 2000
para Ana Jl6ia ser a candidate ao governor
ou ao senado em 2002.
Uma tal composiqAo s6 daria certo se
fosse amarrada cor a confianga e a leal-
dade. Essas qualidades, por6m,ji nao mais
h entire Edmilson e Ana Jilia, qualquer que
venha a ser o desdobramento da dispute
internal que eles personificam. Todos os al-
tos pr6ceres petistas podem se apresentar
para realizar a tarefa e ela pode at6 ser con-
siderada cumprida. O virus da desconfian-
Ca e da insidia, por6m, estA definitivamente
inoculado, contaminando o dialogo entire
grupos cuja rivalidade se agravou porque
seus projetos de poder foram substituidos
pelo exercicio efetivo de uma substantial
fragAo de poder. Que, mesmo para petis-
tas, 6 inebriante.
0 tom messianico e salvifico foi e con-
tinua a ser fatal para o PT. Na nota de
congraqamento emitido ap6s o duelo ver-
bal intramuros, no Hotel Vila Rica (porque
nao no Sindicato dos Professores, que cer-
tamente nada cobraria pelo uso do seu bomn
audit6rio?), a executive estadual do parti-
do consider que a hist6ria positive de
Bel6m, municipalidade velha de quase qua-
tro s6culos, s6 ocorreu cor a ascensaio
(ou seria assuncio?) do companheiro Ed-
milson a prefeitura, "ap6s mais de 380 anos
de desmandos".
A afinnativa, al6m de ser umra falsida-
de hist6rica, 6 uma inabilidade political. To-
dos os belenenses trazem o intendente An-
t6nio Lemos na cabega e no coragAo (onde,
numa kit-net liliputeana, tamb6m deve es-
tar o comerciante Sahid Xerfan). corn ou
sem conhecimento de causa. A frase 6 urma
agressao sem sentido A memrnria de Lemos,


um home de rara intuigFo que a riqueza
da explora9go monopolistica da borracha
viabilizou. Em qualquer sala de aula pode-
se desfazer a declara9go petista. Num pa-
lanque eleitoral, mais ainda.
Vendo contra o sol (seja a estrela, seja o
nosso Luis XIV ao tucupi), a nota diz ainda
que a crise petista em tomo da prefeitura de
Bel6m foi ampliada(ouamplificada, parausar
o patois militant) pelas "elites insatisfeitas
com as mudangas que os partidos de esquer-
da estAo operando em nossa cidade".
Bem que a diregao petista podia se re-
colher a uma "oficina" de atualizacgo para
ler Max Weber, que reciclou o outro ale-
mAo notavel, Karl Marx, para o s6culo 20
j6 em ocaso (no qual a utopia do sonho li-
bertArio foi substituida pelo diktat da domi-
nagAo burocratica). HA elites e elites. Nem
todas sAo predat6rias ou daninhas. Mas to-
das t6m importancia, como aliadas ou ad-
versArias. N~o podem ser ignoradas. HA
elites bufando contra o PT. HA outras satis-
feitas. E algumas ganhando mais do que as
outras, comoji ecoam algumas den6ncias
(em escala crescente, partidas da pr6pria
engrenagem petista). Faria bem a executi-
va dando nome aos bois.
Agora em uma estrutura de poder apre-
ciavel, abusa-se da insinuagao. O alcaide
sugeriu que talvez avice-prefeita esteja sen-
do estimulada por uma dessas elites, acanto-
nada no suntuoso pr6dio dos funds do Bos-
que Rodrigues Alves (que ele chegou a ame-
apar destronar dali). Mas se Ana Jilia real-
mente tem muito mais espago do que Edmil-
son (seria porque o prefeito nao estaria corn
suas generosas contas publicitArias em dia?)
nos veiculos do grupo Liberal, o prefeito 6
mais mimoseado pela tropa comunicadora
do senador Jader Barbalho. As duas pre-
missas, entretanto, nao levam necessariamen-
te A conclusio de que cada um dos antago-
nistas se filiou a uma ou outra das duas eli-
tes. A realidade 6 mais complex do que en-
sina o catecismo ideol6gico decorado por
varias das liderangas petistas.
No balango entire as administraoqes
H61io Gueiros e Edmilson Rodrigues, um
analista isento tera dificuldade em definir
qual a melhor, tio numerosamente peque-
nos foram seus acertos quanto seus erros.
E provavel, num esforgo mais analitico, dar
a vit6ria a Edmilson, quando nada porque
o custo do que fez at6 agora foi bern infe-
rior ao do antecessor. Mas isso pode ser
ou nao um merito.
E uma evolugao em mat6ria de obras e
servigos publicos, ja que o PF (Por Fora),
se ha, reduziu-se muito e ainda nao foi com-
provado em nenhum dos casos nebulosos
que j emergiram (o do leite sendo o mais
grave), enquanto, em mat6ria de superfa-
turamento, a adm in istrago anterior tern pelo
menos dois casos exemplares: o in6til ter-
minal pesqueiro e a Escola-Bosque. Mas





JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO / 1999 5





a grandeza do professor


na empAfia e na pedantaria esnobe.
At6 um certo moment de sua vida,
esta era qualidade cujo cultivo se deveria
estimular. Afinal, Chico tinha 34 anos
quando escreveu sua lendAria tese sobre
As Origens do Romantismo, que Ihe deu
a catedra de literature da Escola Normal
(hoje Instituto de Educagao do Para, que
acolheu o seu vel6rio). Esperava-se que
Bel6m, nessa 6poca, comandasse um ris-
sorgimento no Para, com a volta do inte-
resse e do dinheiro para o esforgo da
Segunda Guerra Mundial, ap6s a falsa
Idade M6dia dos anos 20/40 (incompre-
ensao que Querido Ivan, de Haroldo
Maranhao, trata de desfazer).
De fato, foi um period muito rico, no
qual intelectuais p6blicos, como Francis-
co Mendes, levaram a sala de aula para
caf6s e bares, democratizando-a e tor-
nando-a informal. Foi ali que despejaram
o conhecimento haurido nos livros, usan-
do a transmissio oral como veiculo para
uma pororoca (ou, se preferirem, pirace-
ma) de id6ias, um estuArio que haveria
de marcar a mais important gerag~o de
intelectuais paraenses deste s6culo, toda
ela, em alguma media, caudatiria da fi-
gura do mestre Mendes.
Nao era uma reuniao compact e co-
erente de pessoas, mas quem melhor
combinava o fAustico e o apolineo do que
o "Ratinho"? S6 ele para dialogar simul-
taneamente com Ruy Barata e Benedito
Nunes, Max Martins e MArio Faustino,
Rui Coutinho e Haroldo Maranhao, MA-
rio Couto e Paulo Plinio Abreu. Nao por
acaso, seus l6timos trabalhos foram edi-


tar contos de MArio Couto e poesia de
Ruy Barata (este, inacabado, infelizmen-
te, porque o poeta cresce com o passar
do tempo, firmando-se num cdu literArio
com poucas estrelas dotadas de luz pr6-
pria, mas intensamente poluido por poei-
ra c6smica) Sempre elegant, sempre ci-
vilizado, ele nao contemporizava com os
bons modos, as falsidades, a acomoda-
90o, os semitons e meios-termos, o for-
malismo academico, as conveni8ncias
universitarias. Como Batista Campos,
para ele boi era boi e ladrao, ladrao.
O cordato, o religioso, o devoto e o
quase ingenuo Chico Mendes, que via
cor prazer as novelas de televised (as-
sumidamente, sem a desculpa de muitos
intelectuais, prisioneiros de passagens di-
tas acidentais A frente da telinha), era um
escravo da verdade e um fustigador das
mistificagces, principalmente as instituci-
onais, criadas A sombra do poder, em re-
lagao ao qual nunca foi conivente, como
bem lembrou Haroldo Maranhao na pi-
gina do Elias Pinto no Didrio do Pard
do iltimo domingo. Se nao fez inimigos,
nao foi por cautela na expressed: foi por-
que o respeito generalizado impediu que
eles se apresentassem.
No entanto, o reencontro da Amaz6-
nia cor a sua hist6ria se desviou pela tri-
lha rodoviaria, pela integrag9o e submis-
sao definitive ao dominio metropolitan,
e as veleidades de um iluminismo acaba-
ram por se restringir a golpe publicitArio
- ora das velhas elites, ora, como agora,
de novas anti-elites agrilhoadas ao mes-
mo poder, tingido de popular.
Os amigos, os companheiros de via-
gem, os alunos e os discipulos de Chico
Mendes se dispersaram numa diAspora
sem limits. A transmissdo oral do saber
continuou a se propagar pelas ondas hert-
zianas do seu c6rebro constantemente li-
gado A (e na) hist6ria, mas Chico come-
9ou a pagar o contra-prego de sua dedi-
cagao incondicional A cultural.
Vivia corn sua diminuta pensao de
aposentado da UFPA, gastando no alu-
guel da casa mais de 40% de sua renda.
A custa de enfrentar seu elevado senso
de pudor, de dignidade e de privacidade,
se conseguiu faz6-lo aceitar uma pensao
especial do Estado, nao sem que antes
uns poucos amigos se empenhassem para
que a tradug~o material de tanta divida
intellectual fosse arrancada do venture do
Leviata estatal (espera-se que ambas as
fontes de renda sejam transmitidas aos
herdeiros sem maiores embaragos bur-
rocrdticos, ao menos para dar conte6do
real a certos lamentos p6s-morte sem


coerEncia com os atos praticados quan-
do em vida o homenageado).
O espantoso 6 ter diante dos olhos a
pequena mas maravilhosa tradugao
do engenho & arte de um home franzi-
no e insuspeitadamente forte como Fran-
cisco Mendes. LA estao todos aqueles
milhares de livros, muitos deles exagera-
damente cars, comprados por um cida-
dao que sempre foi professor mal pago
(uma contradita A epifania de que a pe-
nGria material do professor o condena ina-
pelavelmente A incultura). LA estIo aque-
les livros lidos, anotados, sumarizados,
roteirizados. Estao aqueles livros e nao
outros porque quem os adquiriu sabia o
que buscar. Ali estA uma semente prodi-
giosa, capaz de continuar dando frutos
independentemente de jA nao estar vivo
o maestro/magister/mestre que a formou.
De sua produgao intellectual ficou ape-
nas um livrinho, ninho s6 no tamanho, a
mitica tese de cAtedra colegial As Ori-
gens do Romantismo, que Jos6 Maria
Bassalo, um fisico humanista como os
melhores fisicos costumam ser, promete
recolocar em circulagco emjunho, segun-
do volume da s6rie que reedita teses de
valor de intelectuais paraenses. Mas es-
tao dispersas por ai pequenas obras pri-
mas escondidas atris de prefAcios de li-
vros, apresentagao de catAlogos de ex-
posigco, artigos dejornal e uma miscela-
nea de anota96es A espera do compe-
tente colecionador e anatomista.
Chico Mendes foi daquele tipo de cri-
tico e esteta que funciona independente-
mente do locus da sua atividade. Suas
opini6es podiam ser ouvidas com o mes-
mo respeito e acatamento em Bel6m ou
em Paris, no Rio de Janeiro ou em Nova
York. Antes de mais nada porque, livres
da contaminag9o pelo patois academico,
eram inteligiveis a qualquer pessoa con-
venientemente alfabetizada.
E claro que apenas uns poucos dos
seus alunos do colegial dava-se conta do
alcance das li96es ditas com total natura-
lidade na sala de aula por aquele profes-
sor que jamais deixou de preparar suas
aulas, mesmo quando nao precisava dar-
se a tais cuidados pr6vios (outra licao aos
mestres improvisados de hoje). Os mais
sensiveis ou inteligentes, contudo, eram
terreno f6rtil para as sementes podero-
sas que espalhava aquele home franzi-
no, cor o frescor de um grande persona-
gem de Ega de Queiroz, Fernando Pes-
soa ou (quem sabe) Victor Hugo (nao o
caudaloso romancista folhetinesco, mas
o poeta precursor do simbolismo).
Sementes tamb6m estavam em grau de





6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE MAIO / 1999





Procuradores e doutores:



entire verdades e boatos


Desde que, no final de margo, sou-
be-se que Jorge Alex Nunes
Athias voltara do Rio de Janeiro
trazendo debaixo do brago o maior con-
trato de prestagao de servigos juridicos
ja assinado por um escrit6rio de advo-
cacia do ParA, nao se fala em outra coi-
sa no chamado mundojuridico. O clien-
te era nada menos do que a Companhia
Vale do Rio Doce, a maior empresa em
atividade no Para, a maior exportadora
do Brasil, agora no papel de deus e do
diabo na terra do sol.
Ondas de especulagao e boato se
langaram sobre o contefido do contrato
- como de natural, guardado a sete cha-
ves. Nao derrocando-o, autorizaram
chutes e devaneios. Uns garantiram ter
sabido,"por fonte segura", que o con-
trato 6 no valor de cinco milhaes de re-
ais. Num outro circulo a soma foi ele-


vada para R$ 15 milhies. E em outra
frente acabou em febris R$ 50 milhoes.
JA seria o suficiente, mesmo nao sendo
o verdadeiro, para fustigar inveja, admira-
c9o, despeito, curiosidade ou simples inte-
resse. Mas outro component foi ativado
quando dois s6cios de Jorge Alex, ex-pro-
curadores gerais do Estado como ele, e
mais dois integrantes do escrit6rio, igual-
mente lotados at6 entao na Procuradoria,
pediram demissao do servigo pfiblico,
abrindo mao de razoAveis aposentadorias
a que teriam direito quando chegassem A
inatividade remunerada exercendo seus
cargos. Embora o contrato tivesse sido
assinado pessoalmente por Jorge Alex com
a CVRD, seus s6cios, num gesto de soli-
dariedade, se afastaram da representagao
legal do Estado para nao criar incompati-
bilidades 6ticas ou morais, segundo a ex-
plicagao informalmente apresentada.


O gesto deveria ser elogiado numa
terra em que servidores pfiblicos, proibi-
dos de advogar (em absolute ou em cau-
sas contrdrias ao Estado), mant8m seus
escrit6rios recorrendo a terceiros para
assinar as peas que produzem. Mas as
ren6ncias em bloco provocaram outro tipo
de raciocinio, concentrado na tentative de
saber (e, sem consegui-lo, advinhar) o
tamanho da remuneragao do escrit6rio,
capaz de compensar (e mais do que com-
pensar) a entrada dos vencimentos nos
or9amentos dos ex-procuradores.
De concrete, sabe-se apenas que, no
dia 30 de abril, a Alunorte, escalada para
assumir a conta, transferiu por via ban-
caria quase um milhao de reais por conta
do inicio do contrato. Seriam as luvas?
Nao se sabe. O pr6prio Jorge Alex apre-
senta n6meros bem mais delgados: um
fixo de R$ 10 mil mensais e mais uma


extrema concentragao nos textos supos-
tamente rapidos e conjunturais que Chico
Mendes escrevia para tender a uma en-
comenda, sempre graciosa (al6m de gra-
tuita). Um dos que preparou para uma das
exposi9oes de Dina Oliveira e um primor
de compreensao e apresentagao da pintu-
ra. Antes que qualquer outro, Chico soube
absorver, discernir e fazer compreensivel
a importAncia da pintura abstrata, ou me-
Ihor, da conquista da autonomia em artes
plAsticas a partir de uma paixao em co-
mum, o pintor frances Paul C6zanne. Nin-
gu6m, at6 hoje, falou melhor As (e das) artes
plasticas do que ele.
E uma pena que nos tenha deixado
tao poucos textos escritos diante do que
leu, pensou e disse na sala de aula total
que, para ele, foi a vida. Nao tao poucos
textos, por6m, como mostrard um inven-
tario sistemAtico e sdrio que se venha a
fazer, para compensar a inagco de tan-
tos que agora se apresentam como dis-
cipulos do mestre sem ter-lhe dado (em
dose coletiva e na devida conta das pro-
porg9es, claro) um pouco da aplicagao
que Platao devotou a S6crates, ajustada
A finalidade de recuperar o mAximo das
p6rolas que Francisco Mendes espalhou
ao long do seu itinerArio.
O legado 6 imenso, mas nao pode ser
medido apenas pelo que ficou objetivado,
materializado. As attitudes de Chico Men-


des sao tio valiosas quanto suas palavras
e seus escritos. Tenho diante de mim re-
corte de uma entrevista dele que a extin-
ta Folha do Norte publicou em agosto
de 1960. Era o ano do cinqiientenario do
professor e ele pedia, exigia, clamava para
que o considerassem um professor, com
a dignidade implicita ao cargo da qual o
mestre nao abria mao, tribune que a opi-
niao pfblica ja entao pudesse estar con-
siderando anacronico. Ele, entretanto, era
o mestre atemporal, de sempre, eterno, o
intellectual organico de que falava Gra-
msci, que Unamuno foi.
"Estamos em greve porque desejamos
ser considerados professorss, disse
Mendes ao reporter, explicando o movi-
mento para que, na transfer8ncia da Fa-
culdade de Filosofia da Sociedade Civil
de Agronomia e Veterinaria do Pard, onde
estranhamente surgira, para a Universi-
dade do Para, o element principal do
acervo, os professors, nao fosse atirado
as tragas, ou, pior ainda, A lata de lixo.
O dificil parto da transigao se arras-
tava havia tres anos sem um resultado
satisfat6rio. "Desejamos que a vida da
Universidade nao se realize nem se es-
gote, como nesses primeiros tres anos
de sua exist&ncia, em lutas est6reis de
fac95es que ambicionam o seu dominio
e o seu control numa perniciosa e ridi-
cula ambigao de poder", declarou o pro-


fessor, com indignacao e a premonigao
do future. "Exige-se muito do professor.
Exige-se muito dele, o que esta certo.
Mas o que se oferece a ele, em troca, 6
muito pouco, quando nao 6 aviltante ou
indigno", acrescentou.
Diante dos que reagiam ao movimen-
to grevista dos professors, do qual Fran-
cisco Mendes tornou-se porta-voz, co-
brando prudencia e "a decantada voz da
razao", o terno "Ratinho" contrapunha:
"HA moments na vida de um home que
prud6ncia 6 covardia, e resignar-se cum-
plicidade e a 'voz da razao' cheira a trai-
9ao para consigo mesmo".
Esta 6 a grande li9ao deixada pelo
professor Francisco Paulo Mendes: a
decencia, a dignidade e a capacidade
de indignagao, que esteve sempre pre-
sente na sua vida, um compromisso as-
sumido com a verdade que ele nunca
dispensou, mesmo quando seria c6mo-
do faz&-lo em nome de uma "voz da
razao" que, para muitos intelectuais, 6
tamb6m o canto das sereias.
A voz que comandou Chico Men-
des foi a da consciencia, de um home
que, A maneira de Camus, foi um re-
voltado contra aquela dimensao anti-
humana que priva a maioria do reino da
comida, do conforto, da dignidade, da
educagao, dos livros, da cultural, do sa-
ber. Um grande home. Imortal. 0





JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO / 1999 3


em outros casos, como no das pragas im-
provisadas (em engenharia civil e em en-
genharia political, atropelando as instincias
e os ritos), 6 um dem6rito.
N~o ha d6vida de que, no moment, Ed-
milson Rodrigues 6 o principal politico muni-
cipal, mesmo com a hiperinflagpo artificial
que o vezo autoritirio e uma estatistica de
ocasi~o sempre propiciam. Mas o desgaste
que estA sofrendo e vai continuar a sofrer
pode afetar essaposigio confortivel. O prin-
cipal dividend que o prefeito vai pagar e
politico e nfio o legal, ao contrArio do que
pensam os integrantes do movimento para
afasti-lo do cargo ou cassi-lo cor base
numa ilegalidade inexistente.
Apesar de ainda se acomodar A supe-
restrutura partidiria, ele s6 a aceita enquan-
to 6 possivel conciliar seuprojeto pessoal com
o do PT. Provavelmente num confront ain-
da maior, que pode vir em future breve, vai
desafiar essa estrutura e usar todo o poder a
que tem acesso par vergA-la. Porque se ter
muito dirigente petista que nao quer a reelei-
9ao, ele proprio quer e pronto. O resto 6 o
resto, como ele disse.
O que farA Ana Jilia, a quase-senadora
de 500 mil votos? AceitarA esse determinis-
mo ou tentarA um novo golpe de sagacidade,
mesmo que A custa da melhor 6tica? Come-
garam a ser feitas especulacoes sobre sua
candidatura ao segundo principal municipio
do Estado, o de Ananindeua, parceiro me-
tropolitano da capital. E ainda nio cessaram
os boatos sobre a possibilidade de bater cha-
pa corn Edmilson recorrendo a outra legen-
da. Mas sdo lances temer6rios. Mesmo que
esteja sujeito a pressSes e contra-pressaes
para valer num partido com espinha dorrsal
como o PT, o alcaide ainda 6 o mais forte
dos contendores. Tem meios para mobilizar
e aglutinar a militancia, hist6rica ou levanti-
na, gragas A PMB.
Mas seus adversariosjh perceberam que
a crescent fissura no PT 6 o filao mais pro-
missor, principalmente para o candidate a
candidate melhor cotado, o deputado fede-
ral Vic Pires Franco, do PFL, o parlamentar
da bancada paraense mais bem votado em
Bel6m. 0 govemador Almir Gabriel tamb6m
aproveitarA essa circunstAncia, tanto para
acertar as contas cor Edmilson como para
negociar um prero elevado de composig o,
se tal hip6tese 6 possivel.
Em qualquer hip6tese, o ideal de pureza,
de partido escolhido, deixou de ser monop6-
lio do PT. Ele cai na rinha quando se apre-
senta cor perfil muito parecido ao dos car-
comidos partidos que critical, substituindo o
confront Almir-Gabriel-H6lio Gueiros Jr.
pela guerrilha Edmilson Rodrigues-Ana Ji-
lia Carepa. Como diria algu6m que se senti-
ria A vontade para definir a situagio: tudo 6
muito human, demasiadamente human -
e bern nietzscheano tamb6m. Afinal, ha ato-
res que se consideram super-homens. 0


Charles De Gaulle foi o introdutor do
futebol no Brasil. Mahatma Gandhi inven-
tou o telefone (ou foi um chefe dos bAr-
baros, inimigos dos romanos da antigiii-
dade). Martin Luther King liderou a Xu
Klux Klan. Winston Churchill se celebri-
zou como astronaut.
Barbaridades desse tamanho foram per-
petradas por 262 dos 442 concluintes de
cursos de comunica9to social em universi-
dades do Rio de Janeiro que participaram
de testes de seleg9o para ser estagidrios no
jomal carioca O Globo. Quase 60% deles
foram reprovados logo na primeira prova.
Desconheciam por complete alguns dos
mais notAveis personagens da hist6ria uni-
versal nas iltimas cinco ddcadas.
Se as perguntas remontassem a perio-
dos mais antigos da hist6ria, ainda poderia
prevalecer a desculpa de qualquer ma-
neira esfarrapada de que esses assuntos,
tratados na escola secundAria, jA foram es-
quecidos pelos que a eles tiveram acesso
atrav6s do simples decoreba. Para estu-
dantes que pretendem dedicar-se aojoma-
lismo, no entanto, escrever que De Gaulle
foi o arquiteto que projetou a Torre de Pisa
ou que Luther King foi um "alterofilista"
(assim foi grafado), 6 um desastre.
Al6m de nio ler livros, os comunic6lo-
gos nao estao nem acompanhando a pro-
du~aojoralistica, deficiencia em dose du-
pla e fatal para qualquer dos assim cha-
mados profissionais das letras, ainda mais
quando o escrevinhar se pauta por atuali-
dades. A cultural 6 o resultado da decan-
tag~o de um produto hibrido, composto de
informal~ o (um element da conjuntura)
e saber (algo mais permanent, que resul-
ta de um process mais extenso ao qual
se convencionou dar o nome de hist6ria).
Ao contrdrio do que insinua um certo
tipo de jornalismo cultural, ler nao 6 tio
somente um requisite de status, ferramenta
necessiria A ascensao social atrav6s do
reconhecimento public. Ler 6, em primeiro
lugar, fonte de prazer. Quem nao gosta de
lerjamais sera culto. Pode ser inteligente,
pode inclusive ser sAbio, dotado daquela
sabedoria natural (em geral produzida pelo
contato permanent, sistemitico e apro-
fundado com um objeto ou sujeito, como a
natureza) que desafia a compreens~o (e o
preconceito). Mas terA sempre a lacuna
do conhecimento.
Quem nao gosta de lerjornais ou re-
vistas jamais serd um bom jornalista (in-
clusive de televisao ou rAdio). Ojora-
lismo tem essa cruel caracteristica de
obrigar seus praticantes a estar sempre
"por dentro" dos acontecimentos. Num
mundo globalizado pela inundal9o de in-


formag6es, pode se tornar um massacre
se ojomalista nio tiver pelo menos uma
qualidade: a de saber escolher, selecio-
nar e entender. Os que tmr essa quali-
dade sao, em geral, tamb6m os que 18em
mais do que peri6dicos.
Quando ha alunos lendo nos cursos de
comunicagao social (uma anomalia de cur-
so, no meu entendimento, porque tenta
compatibilizar teoria da comunicag9o com
jomalismo, latiftfndios de inten95es paraum
miniffndio de tempo e espago), ou sendo
forgados a ler, loem errado. Freqiientemen-
te t&m acesso aos juizos de valor de al-
gu6m em relagio a determinado tema ou
personagem, mas nao t6m o conhecimen-
to primArio, obtido diretamentejunto a fon-
te. E conhecimento de segunda ma~o, de
fonte secundAria, que aparece na impren-
sa. Mas esse process nAo forma profis-
sionais criativos, aut6ctones. )Esta 6 uma
geragio de comadres repetindo originali-
dade alheia como se fosse pr6pria.
Nio 6 o caso, porque aqui trata-se de
um diAlogo entire pessoas habilitadas, mas
quando me coloquei diante das 1.400 pA-
ginas que Marilena Chaui produziu, em dois
volumes, sobre o Baruch Spinoza, fiquei a
me perguntar: vale a pena encarar o tijola-
90, ou nio serA muito mais recomendAvel
atirar-se diretamente sobre o fil6sofo ho-
land6s? O maior prazer que ele pode pro-
porcionar aos seus leitores 6 a apreensdo
do seu m6todo de construgao do pensa-
mento e, por decorr ncia da maneira cer-
ta de pensar, da verdade. Tio monumen-
tal, a doutora Chaui nos priva do gosto de
novidade desse aprendizado.
A busca do caminho mais ficil tira
de muitos a radicalidade do prazer de
pensar, a mais recompensadora das an-
g6stias. Muita gente ficou A porta de O
Capital, por exemplo, alertada pelo ta-
manho da obra e o estilo do autor. Real-
mente, o livro 6 dificil. Mas nao exata-
mente por Marx (na origem, foi um jor-
nalista e nunca deixou de ser). A cul-
pa 6 da horrorosa caligrafia que ele ti-
nha e do caos em que se metia ao es-
crever, que seu amigo successor, Friede-
rich Engels, nao p6de resolver-quando
precisou editar a maior parte dos volu-
mes de O Capital. Ainda assim, essa
cathedral anat6mica do capitalism con-
correncial 6 muito menos ardilosa do que
a esmagadora maioria das suas introdu-
95es, explicag9es e comentArios su-
postamente atalhos mais bem acabados.
Leitura positive 6 a que proporciona pra-
zer e ang6stia, o maior prazer do espirito e
a ang6stia mais heuristica. Quem nao pro-
var desse cAlice nao sabe o que perde. *


Leitura: pra que?





4 JOURNAL PESSOAL 29 QUINZENA DE MAIO / 1999




Francisco Paulo Mendes:


Folheando os livros de
Francisco Paulo
Nascimento Mendes, as
vezes me perguntava:
como ele conseguiu
comprd-los? Como teve
coragem de comprd-los?
M uitos desses livros eram preci-
osos. Dezenas em frances (a
segunda lingua da biblioteca),
ingles, espanhol e italiano (na hierarquia
do uso). Importados atrav6s de livrarias
especializadas do Rio de Janeiro e Sao
Paulo. O prego de alguns podia ser avali-
ado em 200, 300 ou 400 reais. Tudo indi-
cando que o professor Mendes, quando
queria um livro, nao ligava a minima ao
seu custo. Tratava de providencid-lo, pri-
meiro encontrando a via de acesso (o que
exige certa intimidade com o assunto);
depois, arranjando o dinheiro.
Chico Mendes, nosso amado "Rati-
nho", comprou milhares de livros. Tal-
vez, no total, uns 10 mil. Quando mor-
reu, aos 89 anos, no final da manhd do
dia das mies, no filtimo dia 9, sua biblio-
teca deveria ter uns 3 mil, quem sabe 4
mil volumes. Eram seus livros de cabe-
ceira (uma imensa cabeceira, claro), os
indispensaveis.
Mesmo desfalcada da parte maior do
que fora no seu Apice, por causa de doa-
96es generosamente feitas pelo dono, essa
era, provavelmente, a melhor biblioteca
em mat6ria de critical, teoria e hist6ria li-
,terAria, al6m de est6tica, de Bel6m. Me-
lhor nao quer necessariamente dizer mai-
or. A de Chico Mendes era a melhor.
Talvez tamb6m a maior.
Mas ele nunca dispensou a mais re-
mota das preocupag9es ao aspect quan-
titative dessa companheira de toda a vida
(sim, porque Mendes nasceu entire livros,
herdados do pai, home da fina intelig6n-
cia que o filho recebeu e ampliou). Uma
vez me chamou e me deu uma Britanni-
ca complete, no original, preciosa edigao
de 1956, em 24 volumes.-Em outra vez,
acompanhando-me como se passasse tro-
pa em revista, me mandou escolher al-
guns tomos que me interessassem.
Quando cheguei ao quinto livro, con-
segui sair do estado de hipnose diante
das lombadas e virei-me para o meu
acompanhante. Percebi seu fugidio olhar
de tristeza. Similei fastio e disse que
estava satisfeito. O rosto de Chico vol-
tou a se iluminar. Rapidamente tratou de
tirar-me daquele lugar sagrado e peri-


goso, no qual s6 ele nao era intruso, e
fomos conversar na sala, eu com meus
poucos e valiosos livros por ele doados,
ele feliz por haver me proporcionado
prazer sem chegar A dose pessoal de
desprazer que mais livros retirados de
sua biblioteca lhe causariam.
Qual o leitor que nao gostaria de sair
dali sobragando todos aqueles volumes?
Para um apreciador da leitura, nao ha
objeto cujo fetiche seja mais arrebatador
do que o livro. Ele provoca todos os sen-
tidos e todos os pecados, da inveja A co-
biga, da sedugco A gula. Lido e compre-
endido, atiga ou desperta o mais elevado
dos prazeres, o pensar, certamente o tra-
go que nos distingue no conjunto do reino
animal de que fazemos parte.
Uma biblioteca 6 maravilhosa nao s6
- nem exatamente pelos objetos que
acumula, mas pela hist6ria que Ihe cons-
titui fio da meada e definigdo. JA estive
em bibliotecas particulares que apenas me
provocaram gula e cobiga (dai porque, ha
varios anos, evito as p6blicas, reservan-
do-me apenas para as mais valiosas, onde
esta o que nao posso ter). Essas bibliote-
cas tinham livros, mas nao tinham vida.
Uma rApida inspec9o mostrava que seu
proprietario colecionava livros, mas nao
costumava 1-los. Era um colecionador,
nao um leitor.
A biblioteca do professor Francisco
Paulo Nascimento Mendes era maravi-
lhosamente viva por ser a extensao do
seu dono, confirmando-o ou antecipando-
o. Em muitos daqueles livros ele encon-
trou a catapulta que o proj etou para pata-
mares superiores da reflexao, da analise,
do discernimento, da cria9go. Outros con-
firmaram, em fonte segura, intuig6es e
dedu95es feitas por sua mente vivissima.
A maioria desses in-folio trazia em
suas paginas tiras de pap6is sistematizan-
do-lhes o conte6do, agrupando temas,
selecionando t6picos, apontando suges-
t6es, relacionando-se a umas poucas ano-
ta9oes feitas a lapis no pr6prio texto da
obra, corn o cuidado de nao macula-la.
Aqueles livros haviam todos sido atenta-
mente lidos, compreensivamente assimi-
lados, amados e, quando o caso, rejeita-
dos. Deles, aquele leitor privilegiado tira-
ra o melhor, acumulara em sua cabega
maravilhosa e repassara aos seus ouvin-
tes esse saber organico, a arma e a
exclusividade dos verdadeiros sAbios.
Plenamente consciente desse seu lu-
gar no mundo, Francisco Mendes nunca
titubeou no lance de dados. Se era aque-
le o livro de que precisava, tinha que ar-
remata-lo, indiferentemente As dificulda-


des de localizagao e aquisigao. Quem
conhece verdadeiramente livros, diante de
alguns daqueles volumes ter-se-A indaga-
do se repetiria o gesto de Chico Mendes.
Perdi edi96es preciosas porque na
hora de fechar o neg6cio pensei no leite
das criangas, no orgamento dom6stico,
na dor moral de chegar em casa carre-
gando o volume como se fora uma
amante argentina. Nos filtimos anos isso
ter acontecido nos meus retornos a
Bel6m de excursoes ao Sul Maravilha
ou ao exterior. No aviao, me regozijo cor
meu senso de responsabilidade, de che-
fe de familiar. Mas amargo a tristeza de
leitor. Nao ha sintese possivel, dial6tica
ou mecanica, para esse conflito. Perdu-
ra ad aeternum, exceto se voce incor-
porar Robinson Crusoe adaptado A era
da Internet e da globalizag9o.
Chico tamb6m foi um conscencioso
chefe de familiar, garantindo a manuten-
9ao dos seus. Mas teve uma vida disci-
plinada, espartana. O que poderia ser
considerado excess pessoal foi pro-
porcionado por seus amigos, principal-
mente pelo "salao" iluminista de Bene-
dito e Maria Sylvia Nunes, um regalo
para o epicurismo do mestre e de ou-
tros convivas.
Mas nao foi apenas por uma dieta
material rigorosa que Chico Mendes con-
seguiu fazer da sua biblioteca um cais
de chegada e uma plataforma de langa-
mento do conhecimento, dele e dos que
foram bafejados pelos ventos olimpicos
de sua companhia e enriquecidos por
seus ensinamentos. Para saber muito, ele
dedicou o mAximo de tempo a ler, a as-
similar o que retransmitia, acrescido de
sua pr6pria inventive, aos que encontra-
va nas numerosas salas de aula que fre-
qiientou e nas poucas casas, incluida a
sua, que faziam parte do seu roteiro de
peregrinag9o, sempre que possivel a p6,
com elegancia parisiense (da Paris que
amou e conheceu como raros dos que,
diversamente dele, a viram tamb6m com
os pr6prios olhos).
Deve-se lembrar com embevecimen-
to os tempos em que os col6gios e ginisi-
os de Bel6m tinham Francisco Mendes
como professor e nAo s6 ele, aliAs, um
entire outros mestres com qualidades jA
fora da linha de montagem pedag6gica.
Mendes demonstrou, em quatro d6cadas
de magist6rio, no que hoje se chama for-
dianamente (ou seria freudianamente?)
de 20 grau (e mesmo no 10 grau), uma
notAvel paciencia para lidar cor alunos,
com pessoas dotadas de um conhecimen-
to infinitamente inferior ao dele, sem cair





JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE MAIO / 1999 7


porcentagem sobre cada causa ganha, o
indice inversamente proporcional ao va-
lor da demand (quanto maior o valor
absolute, menor o percentual, conforme
a praxe nesse tipo de contrato).
Como ningu6m contest que o escri-
t6rio comandado por Jorge Alex, Pedro
Bentes Pinheiro Filho, Gilberto Guimaraes
e Reinaldo Silveira 6, no minimo, um dos
melhores e mais bem aparelhados de
Bel6m, se nao ja o melhor indiscutivel-
mente, o ex-procurador-chefe tem todo
o direito de cobrar bem, e at6 cobrar caro.
E a retribuigaojusta A sua compet6ncia e
de seus colegas.
Dois pontos, contudo, devem ser es-
clarecidos. Em primeiro lugar: trata-se
realmente de um prego de mercado; caro,
mas compativel com as parties envolvi-
das? Em segundo lugar: por que a CVRD
contratou novos servigos profissionais, se
ja mant6m relagao corn tr6s escrit6rios,
envolvendo valores incomparavelmente
inferiores aos agora adotados?
Um deles foi derivado do servigo ju-
ridico da Albras, que preferiu terceirizi-
lo a manter uma estrutura pr6pria. Um
outro, o do advogado Otavio Mendonga,
um dos mais notaveis da cidade, se es-
pecializou nos litigios trabalhistas da Vale.
E um terceiro, o Scaff, Brandao & As-
sociados, cuidavajustamente dos assun-
tos agora delegados ao escrit6rio dos ex-
procuradores.
Eles envolvem o mais explosive con-
tencioso da CVRD corn o Estado, na parte
tributAria e fiscal, algo que pode variar
entire um minimo de R$ 100 milhoes at6,
nas proje9oes mais inflacionadas, R$ 300
milh6es. Ai entraria um outro componen-
te: a condicgo de ex-secretario da Fazen-
da ostentada por Jorge Alex. Em sua de-
fesa, al6m dos atributos pessoais reco-
nhecidos, ele pode apresentar uma qua-
renta de dois anos fora do cargo (ainda
que colocado A disposigao da Universi-
dade Federal do Para pela Procuradoria).
Nesse caso, ele pode pagar pelo pecado
que tamb6m nao praticou a mulher de
C6sar: aldm de ser efetivamente hones-
ta, ela precisava parecer honest.
O resultado 6 que, como Alex indicou
seu successor, Paulo de Tarso Ribeiro,
outro nome respeitado, os que militam
numa ala mais incr6dula dentro da recei-
ta estadual preferiram acreditar que foi
criada iuma bolha de favorecimento A Vale
justamente quando o fisco fustigava a
empresa. A Vale conseguiu rapidamente
uma liminar emjuizo para desembarcar o
minerio de bauxita para a Alunorte, em
Vila do Conde, que havia sido retido nos
pores do navio que o transportava pelos
fiscais fazendArios, em cobranca de su-
posta divida de R$ 34 milh6es (e acarre-
tando a empresa despesa, s6 de multa


portuaria, de R$ 12 mil ao dia). Ao que
parece, a Procuradoria ainda nao petici-
onou pela suspensio dessa liminar.

Esse estado de espirito pode

ter efeito contrdrio ao pretendi-

do pela CVRD, se ela preten-

deu obter algum tratamento es-

pecial. Ainda mais porque se es-

palhou o boato de que o gover-

nador Almir Gabriel, mesmo

aprovando a decisdo do seu ex-

auxiliar, que o consultou e in-

formou a tempo, antes de tomar

uma decisao, teria engolido a

pilula sem aprovar o remidio.
Se Jorge Alex ofereceu como contra-
partida A remuneranao apenas os seus
bons serviqos (e, por extenso, os dos seus
s6cios), ningu6m tern nada a ver corn isso.
Nao ha element concrete, nos fatos ou
na biografia do personagem, capaz de
sustentar que ele prometeu algo mais do
que pode oferecer com sua pericia pro-
fissional. Mas a prova dos nove s6 vird
corn o tempo, na media em que for evo-
luindo o contencioso CVRD/Estado. Afi-
nal, ha um principio basilar em direito se-
gundo o qual boa f6 se presume e ma f6
se prova. E ningu6m provou nada contra
Jorge Alex e o seu escrit6rio.
Mas inegavelmente ele e os demais
companheiros erraram no timing da de-
sincompatibilizagao entire as atividades
do escrit6rio particular que formaram (e
foi o que mais cresceu nos hltimos anos)
e o desligamento da Procuradoria Geral
do Estado, j substancialmente feito, mas
ainda residualmente incomplete (tr6s ad-
vogados associados continuam nas anti-
gas fun96es).
Tantos chefes de procuradoria jun-
tos, al6m de outros procuradores asso-
ciados, num unico escrit6rio, s6 era pos-
sivel por essa ins6lita paralela que per-
mite o exercicio da advocacia particular
aos procuradores do Estado, mas nio aos
advogados da Uniao e aos defensores
piblicos. Talvez agora algu6m tome a
salutar provid6ncia de igualar os que
deveriam ser iguais no impediment.
Talvez para tanto melhorando os salAri-
os para cobrar de pessoas talentosas o
tempo que elas dedicam aos seus escri-


t6rios, mas nao A repartigao piblica.
Talvez dessa maneira o governador Al-
mir Gabriel consiga o que cobrou dos
procuradores numa reuniao fechada, re-
alizada no dia 17: maior produtividade,
mais vit6rias, menos 6nus para o Estado
O desligamento no tempo certo po-
deria resguardar o escrit6rio para enfren-
tar a onda de boatos e especulag6es em
que se mant6m envolvido ha um mes e
meio. Ao mesmo tempo, preservaria a
Procuradoria da acusagco de ser uma
extensao desse poderoso escrit6rio, que
corn ela continue a manter lagos visiveis
e invisiveis.
Talvez por causa desse clima, uma
advogada, sentindo-se prejudicada no 110
concurso p6blico para o preenchimento
de cargo de procurador, recorreu justi-
Ca para anular esse concurso, acusando-
o de fraudado. A candidate reprovada
acusa um dos integrantes da comissAo
organizadora de ser s6cio primeiro de
fato e, em seguida, de direito de uma
das candidates aprovadas. Diz ainda que
uma das questbes da terceira prova, al6m
de nao constar do program, foi repassa-
da a alguns dos candidates, caracterizan-
do a ilicitude da informagao privilegiada.
Ajuiza que apreciou a questao, Dahil
Paraense de Souza, mesmo admitindo que
os fatos relatados na petia5o se chocam
cor "os principios basilares do Direito
Administrative", nao concede a liminar
requerida. Preferiu prosseguir a instrugao
do process para obter elementss mais
concretos" para a apurag~o da verdade.
Nesse caso, a denuncia de favoreci-
mento atinge outro advogado de grande
conceito no meio juridico, Ant6nio Jos6
de Mattos, lider do escrit6rio que leva o
seu nome. Ele pode estar sendo indevi-
damente arrolado na ado, mas no seu
caso hi pelo menos um avanco: agora a
justiga vai poder intervir para dizer quem
esta cor a razao, desfazendo o que nao
passa de boato e recuperando o que 6
fato. Ainda que por vias tortuosas e so-
fridas, a Procuradoria Geral do Estado
pode sair ganhando, qualquer que seja o
resultado da dispute. Mesmo que nao te-
nha sido essa a intengdo original. 0


Aviso
sta edicgo do Jornal Pesso-
al foi muito prejudicada pela
atengio que tive de dar ao
process contra mim movido por C.
R. Almeida. Muitos temas que come-
cei a investigar nao puderam ser con-
cluidos. Espero que o leitor releve a pou-
ca diversidade de mat6rias. No pr6xi-
mo nimrerc, confio em poder report este
peri6dico na trilha da normalidade.







0 grileiro afrontado:


a inversao de valores


O empresario Cecilio do
Rego Almeida, o pol8mico pro-
prietArio da construtora C. R.
Almeida, decidiu me proces-
sarjudicialmente. Diz ele, em
sua aio ordiniria de indeni-
zaqdo por dano moral, que eu
o caluniei, difamei e injuries,
atravds de um artigo publica-
do na ediggo 203 destejornal,
da 2" quinzena de janeiro. O
"crime" que me atribui 6 o de
chamA-lo de grileiro de terras.
Ja estou contraditando
essa acgo, gracas A competen-
cia da advogada Angela Sal-
les, uma preciosa amiga de
todas as horas, inclusive as
ruins. Cada uma das frigeis
alegagdes do empresArio sera
adequadamente desfeita nos
autos. A justiga haveri de
bem definir o litigio. Apesar
dessa confianqa, por6m, sei
que a agao irA me atrapalhar
(ja comegou, pelo atraso da
present edigio).
Embora o foro competen-
te para apreciar o feito seja o
da comarca de Bel6m, C. R.
Almeida peticionou A justice
paulista. O prop6sito 6 o de
embaragar uma pessoa desti-
tuida de recursos para acom-
panhar o process em Sao
Paulo. Certamente aposta na
perda de algum prazo e na re-
velia. Al6m disso, tenta deslo-
car a questao do lugar no qual
ela esta intensamente aviva-
da, inclusive pela CPI instala-
da na Assembl6ia Legislativa.
Seu piano parece ser o de ten-
tar trazer para o ParA a con-
denagio de um jornalista que
tem sido um estorvo aos seus
pianos de pilhagem fundiAria,
inibindo ou intimidando quem
se opbe aos seus prop6sitos.
Ao leitor interessado, re-
comendo a leitura da edigao
que pretextou a agao do dono
da C. R. Almeida. E, indepen-
dente de umjuizo sobre o con-
teudo da demand, a pensar
nessa inversao de valores que
estimula algu6m, cor preten-
sao sobre uma Area de terras
do Estado com 4,7 milh5es de
he-etares-(dua-!vyzes- tam -,
nhp de Sergipie,'cnde Vivp'm
1,5 milhao de,~rasileirfo). ir


atrAs de indenizacIo por su-
posto dano moral de ser cha-
mado de grileiro.
Queria o que, o sr. Rego
Almeida? Desde as primeiras
notas "plantadas" na imprensa
do sul do pais, em dezembro de
1994, anunciando a venda das
terras, sua pretensio tem pro-
vocado um grande impact, o
que nIo 6 de estranhar. Afinal,
quando o milionArio norte-ame-
ricano Daniel Ludwig se anun-
ciou, no final da d6cada de 70,
dono de 1,6 milhao de hectares
de terras entire o ParA e o
Amapa, no que foi considera-
do entio como o maior im6vel
rural do planet (mas tres ve-
zes menor do que o pretendido
por C. R. Almeida), houve uma
repercussao international. A
nacionalizagAo da grilagem nao
melhora em nada o ataque ao
patrim6nio fundiirio piblico.
Nunca o suposto dono des-
se aut6ntico pais apresentou o
titulo de propriedade das ter-
ras. O Estado declarou queja-
mais expediu titulo sobre a
Area reivindicada. Por isso,
ajuizou uma aio de nulidade
e cancelamento contra Rego
Almeida, ainda em tramitaico
na justiga estadual. Os cart6-
rios de Altamira, nos quais fo-
ram irregulannente registrados
os im6veis, estAo sob correi-
cgo extraordinAria,a pedido da
Advocacia Geral da Uniio,
justamente por causa das fun-
dadas provas juntadas contra
esses registros. Eles foram in-
devidamente feitos no livro de
propriedades (quando muito,
deveriam ser inscritos no livro
auxiliar de posse, credencian-
do seus portadores a legitimar,
apenas e tao-somente, as ter-
ras efetivamente ocupadas).
C. R. Almeida nao cadas-
trou o im6vel no Incra e nun-
ca pagou o ITR (Imposto Ter-
ritorial Rural). Os cinco anos
de atualizagco do imposto Ihe
custariam algo como 200 mi-
lh6es de reais. O VTN (Valor
da Terra Nua) da Area, com o
custo da regularizagio, absor-
..veriam mais R$ 250 milhoes.
A operayAo de compra feita
:.;ciiumadfamilia de extrativis-
f/


Th~


tas do Xingu (com direito ao
uso da terra, nao ao seu domi-
nio) foi no valor de R$ 6 mi-
IhWes, no "contrato de gave-
ta" assinado, e de R$ 500 mil,
segundo o registro na Junta
Commercial (o que poderia ca-
racterizar fraude fiscal). Dos
R$ 600 mil em dinheiro vivo
(todo o restante sao titulos de
cr6dito), s6 R$ 100 mil teriam
sido pagos. A finalizagFo da
transaglo ficou dependendo
da aceitacAo do Iterpa aos
papeis, ou seja, de ficar pro-
vado que o sr. Rego Almeida
nio 6 grileiro, o que ele 6, at6
a prova em contrario, que nun-
ca apresentou.
TAo piblica e not6ria 6 essa
condigo que a CPI do legis-
lativo intitulou-se "CPI da gri-
lagem". Todas as mat6rias de
journal falam em grilagem. Os
6rgAos da administragio p6bli-
ca, unanimemente, o tratam
como grileiro. Os documents
oficiais existentes apontam a
grilagem. Como 6 que o dono
da C. R. Almeida quer ser tra-
tado por um jornalista que re-
produz esses fatos, por dever
de oficio, e os interpreta?
A matiria inquinada de
ilicitude, como a simples lei-
tura mostrard, limita-se a di-
mensao pdblica do empresad-
rio e estritamente aquela
dimensdo relacionada as ter-
ras pftblicas do Pard. Como
falar em injziria e difamacdo,
em ofensa h honra, sefiz cri-
ticas c reportagem da revis-
ta Veja exatamentepor ela ter
sido editorializada, impreg-
nada de adjetivos valorati-
vos em fungdo de uma anti-
ga dispute da revista corn
Cecilio Almeida?
0 empres6rio ajuizou ou-
tra agao de indenizagdo, nela


incluindo Veja, o advogado
Carlos Lamardo Corrna, di-
retor do departamento juri-
dico do Iterpa, e o vereador
Eduardo Modesto, da Cdma-
ra Municipal de Altamira.
Juntar tudofaz parte de uma
manobra para confundir,
como sefossem uma coisa so,
coisas tdo distintas quanto a
reportagem da publicaqdo da
Editora Abril, a agdo do ad-
vogado e as denuncias do
vereador Em favor de Lama-
rdo, o minimo que se pode
dizer 4 que deveria ser pro-
cessado se ndo cumprisse
seu ever de servidor pdbli-
co, defendendo o patrimdnio
coletivo contra a tentative de
esbulho.
As a6bes, A parte acarreta-
rem mais problems a pessoas
ja tAo atribuladas, deve servir
de alerta para a administration
piblica. Se antes os grileiros li-
mitavam sua audAcia (que ja
nAo era pouca) a tentar se apos-
sar de terras alheias, agora eles
ainda se arvoram a acionar os
que se colocam em sentido
contrario, na defesa dos inte-
resses coletivos. Isso porque
o governor ter sido omisso,
abilico ou ineficiente no corn-
bate A apropriagio fraudulen-
ta de terras estaduais, estimu-
lando ou mesmo induzindo a
pirataria fundiAria.
Se o governor nao der um
basta, recuperando sua legiti-
midade, nao 6 s6 inocentes que
irao incorporar as culpas dos
verdadeiros rdus: o Para, pri-
vado de grande parte de sua
base territorial, por acao de
inescrupulosos mas audaciosos
aventureiros, que s6 querem
ganhar muito e fAcil dinheiro,
se condenara A pobreza. Mai-
or do que a que ja o assola.


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