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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00158

Full Text
TJE: concurso

omalPesoalrap~a(pAG. 8)
L(ICIO~~AL FL V O P NT '*----.. .
Sprojetos
saena a jato
(PAG. 4 E 5)
SALOBO


A batalha qu


n80 houv 32c

Antecedido por um clima de tensd~o prdpr1io das g: gras, o sovo
president-e da CVRD, ]6'rio Dauster, veio a Beld'm r ou
havia anunciado no Rio de Janeiro: que o S31
Projeto Salobo, para a
exploragdao do'
cobre de Carajdis,
e' inviavel. Veio,
viu, falou e cS~a
voltou a sede
da empresa
convencido
de ter
vencido uma \- I ~ uq9r
batalha que
nd~o houve. -
Mais uma. _, .. )r
Como a de "- . .
Itarard'.


0embaixador J6rio Dauster que explorer a mina de cobre do Salobo, nalmente o menor em 50 anos) e as
mana, tudo o que ji havia vel. Segundo outros, que o projeto Sa- minerio se apresenta na jazida do Sa-
anunciado tr~s semanas antes lobo nio 6 exatamente invi~vel, mas lobo, exigindo tecnologia inddita e cara,
A Gazeta Mercantil, no Rio perdeu oportunidade e prioridade, nao congelaram o empreendimento, como
de Janeiro, sob o manto protetor do ano- tendo mais data para ser iniciado, se 6 uma Bela Adormecida 21 espera de uma
nimato. Mas o que 6 mesmo que o novo que vai ser iniciado algum dia. reanimaqio econbmico-financeira
I~presidente-executivo da Companhia Vale O prego excepcionalmente baixo do (bem mais imprevisivel do que o beijo
c-do Rio Doce anunciou? Segundo alguns, cobre no mercado international (nomi- de um principle .





2 JOURNAL PESSOAL 21 QUINZENA DE ABRIL / 1999


resses estadual, regional e national (sem
falar nos municipios afetados, que de-
veriam sair da passividade atris de scu
papel na trama). Mas o governor niio se
apresenta preparado para um diilogo de
alto nivel com a Vale.
Nas trbs horas de converse com os
representantes do governor, Dauster con-
seguiu quebrar o clima hostile anuncian-
do novos investimentos da empresa no
Estado. A capacidade de produplio de
caulim da Pard Pigmentos ser6 duplica-
da, uma usina de calciurio vai ser ativa-
da para suprir indi~stria e agriculture, e
uma plantagilo de eucalipto de 75 mil
hectares fornecerg carviio vegetal para
transformagilo siderdrgica de terceiros.
Esses investimentos darIlo ao governa-
dor n6meros (que ele tanto aprecia) para
falar em algumas dezenas de milhaes de
capital novo e em uns tantos milhares
de empregos diretos e (sobretudo) indi-
retos, reeditando discursos do passado
sobre crescimento que nito resultaram,
de fato, em desenvolvimento.
Nada se falou sobre comegar a pro-
duzir celulose, reter parcelas maiores
de energia geradas no Pard dentro do
mesmo Pard (e nito transferi-la para o
CearB, por exemplo, onde a corpora~gio
de Steinbruch est8 comegando uma aci-
aria) ou alcan~ar etapas seguintes na
verticalizagilo do aluminio prim~rio. Os
temas da agenda sempre slio definidos
pela Vale, o Gnico personagem com
poder de iniciativa. O governor apenas
reage ils provocaF~es, raramente po-
dendo refazer os parimetros de andli-
se. A culpa por esse contencioso vicia-
do nito pode ser atribuida apenas g vo-
racidade dos novos dons da Vale por
dinheiro vivo e m~uxima rentabilidade do
capital. Ela cabe tambim sobre os lar-
gos ombros de um governor prej udicado
pela atrofia cerebral.
Guerrear contra a Vale sem uma boa
retaguarda de informaqaes e sem um
plano estrat~gico nito 6 s6 initial: 6 estid-
pido tamb~m. Pode ressalvar boas in-
ten95es, mas o caminho para o inferno
esti cheio delas. O governor e os re-
presentantes da sociedade agem com
esse despreparo porque o Pard estL
desprovido de planejamento sbrio (para
political de antecipagilo) e a sua inteli-
g~ncia foi amordagada, quando nlio sim-
ples e rasteiramente comprada para
seguir as ordens do chefe, seja ele qual
for. A cada uma dessas muitas bata-
thas de Itarar6 que se tem sucedido, a
61tima das quais antagonizando o apli-
cado tradutor de Nabokov, uma das rou-
pagens que o embaixador Dauster ves-
te na intimidade, fica a sensaglio de far-
sa. E de mais uma oportunidade hist6-
rica desperdigada. *


de conhecimento e atuaglio da maior
empresa estabelecida no Estado, sem
ser do Parb. O despreparo se manifes-
ta desde o governador e seus sete sa-
murais, inclusive os teoricamente com-
petentes na questlIo, at6 o cidadlio de
rua, que a grande imprensa (por indrcia
ou esperteza) nilo sensibiliza (Carajds
deve estar B espera do seu Carlos
Drummond de Andrade, so menos para
fazer doer o retrato da devastagilo sem
saldo na parede).
Se aprovar o pedido de session es-
pecial apresentado pela deputada (PT)
Maria do Carmo, a Assembl~ia Legis-
lativa deve ter cuidado para nito repetir
os fiascos anteriores, marcados pela vi-
rulgncia oca nos decibeis orat6rios e
quase nenhuma conseqtiincia. A ses-
slio especial 6 necess~ria. Mas deve ser
preparada comn aplica~gio. Niio pode ser
realizada em um Anico dia, nem no ple-
nlrio da casa, exigido para as sessies
vespertinas. Dela devem participar an-
tigos dirigentes da CVRD e associados
envolvidos direta ou indiretamente no
Salobo. Eles viio ter que prestar contas
sobre um projeto que seus sucessores
acusam de inconsistencia gs raias da
leviandade. Parceiros e possiveis asso-
ciados da CVRD tambem precisam ser
convidados, assim como t~cnicos de re-
conhecida compet~ncia no setor. O te-
m~rio tem que ser precise, provocati-
vo. Se possivel, os deputados tbm que
comparecer is sessies.
Pode-se chegar g conclusion de que
Salobo deve ser realmente deixado de
lado em proveito de SossegolLiberdade
e Corpo Alemlio, dois alvos muito mais
atraentes. Mas nito se pode dar defini-
glio a uma Ainica jazida isoladamente: 6
precise analisii-la e correlacion8-la no
Ambito de uma provincia mineral de co-
bre e sua relevincia macroeconamica
para o pais.
O Brasil cometeu erros prim~rios na
primeira abordagem desse problema, no
sertio baiano, comprando por lebre (e
pagando por faislio) um gator fantasiado
pela lIbia de Francisco Baby Pignatary,
personagem nito totalmente dissociivel
do atual Benjamin Steinbruch. O custo
A na~gio passou de um bilhilo de d61ares.
Deviamos ter aprendido, ao custo de 600
milhies de d61ares ao ano de divisas con-
sumidas na importa~gio de concentrado.
Niio parece.
Agora que a CVRD apresentou suas
cartas B mesa, conv~m intervir o perso-
nagem ausente de fato, embora presen-
te de boca: o governor (que, para manter
a imagem, seria o embaralhador, ou o
crupib). Apenas a Vale foi privatizada,
espera-se. O governor deve continuar a
ser entidade pbiblica, pautada pelos inte-


Uma primeira d6vida decorre da de-
cisito de Dauster de nito se identificar
quando procurou 0 journal de neg6cios da
familiar Levy para dar a mb noticia so-
bre o Salobo. Preferiu se proteger atris
do titulo de "uma fonte", n~io identifica-
da pelo j ornal mesmo quando, no dia se-
guinte, a Vale apresentou um desmenti-
do official is afirmativas vazadas por seu
principal executive.
Uma das interpretag8es possiveis
dessa estratigia 6 que o ex-embaixador
queria langar um ballot de ensaio antes
de assumir publicamente o anbncio. A
sondagem visava tanto o pliblico exter-
no quanto os parceiros. A uns, para
amansar a reaqil. A outros, para colo-
car na defensive.
A conclusion mais important da mo-
vimentagilo da CVRD 6 de que a empre-
sa nito pretend investor o que 6 necessi-
rio para superar os problems do Salobo,
independentemente do seu ajuste is atu-
ais condi95es de mercado, porque a taxa
de retorno do capital 6 considerada muito
baixa, entire 7% e 8% ao ano. Essa, deve-
se admitir, 6 uma decisito de economic
internal da empresa, que talvez esteja
apostando lateralmente na obtenglio de
muito mais vantagens do que as j8 com-
prometidas para reduzir seu desencaixe
de recursos pr6prios e na danga dos s6-
clos. Mas a exploragil do cobre de Ca-
raj~s 6 mat~ria de tal relevincia que trans-
cende a agenda de uma empresa, por
mais expressive que ela seja.
Reconhega-se, entlio, que a CVRD
tem toda a legitimidade para, enfim, vir
B col~nia paraense reafirmar seu des-
compromisso comn qualquer cronogra-
ma para o Salobo, rasgando definitiva-
mente o protocolo de intengies assina-
do com o governador Almir Gabriel em
Marabi, em abril de 1997. Mas esta nto
deve ser aceita como a palavra final
sobre o assunto.
Em primeiro lugar, porque o gover-
no federal nito deve ter ainda esqueci-
do que det~m a bond share, a agio
especial que the permit intervir na ad-
ministra~gio da ex-estatal. Salobo esti
entire os dep6sitos minerals com parti-
lha de dominio, por igual, entire a CVRD
privatizada e o governor. Nilo C mono-
p61io decis6rio da empresa. Em segun-
do lugar, por ter ficado evidence que as
conversas de bastidores nito sito exa-
tamente as mesmas travadas em pitbli-
co. O descompasso permit identificar
algum nivel de manipulaglio.
A reaqilo emotional dos deputados
g frustrada conversa com Dauster aju-
dari muito pouco no estabelecimento de
um contencioso adequado. Mais uma
vez ficou claro que os interlocutores pa-
raenses estito degraus abaixo do nivel






JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE ABRIL / 1999 3


Em 1997 a Eletronorte sofreu um preju-
izo de 324 milhdes de reais. No ano passa-
do, o de'ficit dobrou, chegando a R$ 649
milhaes, dinheiro que seria suficiente para
o governo do Para~ pagar todo o seu funcio-
nalismo durante 10 meses. E numero ca-
paz de impressionar qualquer um, mesmo
sabendo-se que as Centrais E16tricas do
Norte tem, hoje, o maior patriminio liquid
(R$ 13,5 bilhaes) entire as oito empresas do
sistema Eletrobris. E tambem a com maior
capital social (R$ 2,6 bilhies, contra R$ 1,2
bilhilo de Furnas e da CHESF), a segunda
em investimento em 1998 (R$ 703 milhdes,
enquanto Furnas recebeu R$ 813 milhaes).
Mas seu prejuizo no exercicio foi cinco ve-
zes maior do que a segunda mais deficitiria
do sistema, a Eletronuclear (de R$ 147 mi-
lhaes) e quase 10 vezes mais do que a quarta
das empresas que operaram no vermelho
em 1998 (Lighpar, com R$ 66 milh~es).
Provavelmente pensando no mercado, o
presidente daEletronorte, Jos6 Ant~nio Muniz
Lopes, diz tratar-se de prejuizo apenas con-
tibil. Referindo-se nbt especificamente i~s
contas da Eletronorte mas ao balango da Ele-
trobris, diz que o resultado foi afetado pelo
provisionamento de funds para eventuais
prejuizos decorrentes de a95s judiciais e dis-
putas salariais (s6 por conta do Plano Bres-
ser a provisiio teria sido de R$ 456 milhaes).
E dificil checar as palavras de Muniz
Lopes. Neste ano a Eletronorte se limitou a
publicar no Pard um "Balanqo Social", pres-
taglio de contas supostamente mais atinen-
te do que o balango contiibil conventional,


mas com o inconvenient de n~io trazer nd-
mero algum sobre o desempenho da em-
presa no exercicio. As contas ficaram para
o Dibrio Oficial da Unilio e alguma outra
publicapilo de acesso mais dificil para um
leitor amaz~nico. Jg o tal "balango social"6
mais uma pega de propaganda do que exa-
tamente uma prestagilo de contas.
Provisies para riscos g part, o dese-
quilibrio operacional da Eletronorte C fun-
glio tanto dos desaflos de atuar numa re-
gilo pioneira como a Amaz~nia quanto dos
leoninos contratos que foi obrigada a assi-
nar com grandes consumidores de energia,
especialmente as fiibricas de aluminio da
Albris e da Alumar. Em cinco anos, a par-
tir de 1993, quando a Uniiio deixou de com-
pensar o subsidio tarif~rio, o prejuizo com
esses consumidores eletrointensivos chegou
a perto de um bilh~io de reais. No G1timo
ano apontado no "balango social", o de 1997,
a diferenga negative foi de R$ 235 milhaes.
Jg hb presslio para antecipar a finaliza-
Flio desses contratos, que expiram em 2004,
mas isso dificilmente ser6 possivel por cau-
sa de suas implica95es, inclusive de nature-
za diplomiitica. A cruz terAi que continuar a
ser carregada. Incorporada ao rosbirio de
contas avermelhadas dos sistemas energ6-
ticos isolados, constitui cardipio indigesto
para a privatizaglio. Mais at6 do que os
desequilibrios que a venda retalhada da Ele-
tronorte provocaria, este 6 um argument
poderoso a pesar contra o interesse de com-
pradores particulares. Para eles, assumir a
Eletronorte tem que ser por inteiro, com o


saneamento das contas deficitidrias e, se
possivel, jb com a duplica~gio de Tucurui.
Antes de vender a Eletronorte, entre-
tanto, 6 precise definir uma nova matriz
energ~tica e da organizagli (ou reorgani-
zaglio) do sistema de produgil e geraglio.
No exato memento em que a Eletronorte
comemora (e hi motive para comemora-
glio?) os 10 anos de funcionamento da hi-
drel~trica de Balbina, no Amazonas, abrem-
se novas perspectives para Manaus e toda
a Amaz~nia Ocidental com os campos de
gbs natural de Urucu e de Silves. Usina de
meia sola, que s6 consegue produzir no ve-
r~io um tergo da sua capacidade nominal de
geraCio, Balbina vai se transformando ra-
pidamente num anacronismo, apesar do seu
formidivel custo final (de um bilhilo de d6-
lares para 250 mil kw de potincia, dois ter-
90s de uma das 12 m~iquinas que funcio-
nam atualmente em Tucurui).
O gbs natural como insumo petroquimi-
co e fonte energ6tica deve acabar com o
monop61io da hidreletricidade, o que 6 sem-
pre bom para eliminar dependencias, e per-
mitir andlises comparativas de fatores an-
tes de uma decision equivocada. A Amaz8-
nia precisa e exige uma political official de
energia compativel com a dimension que a
regilio vai assumindo, tendo a administrb-la
a empresa que jb 6 a maior do sistema Ele-
trobris, tanto nos nlimeros ruins como nos
bons. Em todos eles, o denominador comum
6 o fortalecimento de uma fungli colonial,
de provincia energ~tica, contra a qual os
amaz~nidas devem reagir. Jg.


950 de Amparo g Pesquisa
do Estado de Silo Paulo),
para executar o projeto en-
tre n6s.
O institute tem, no seu
patriminio, as partiess do
fundador", papeis que lhe
foram transmitidos quando
da venda do Projeto Jar!
para um consbrcio de em
press brasileiras. Gragas a
esse instrument, tem direi-
to a fiscalizar todos os atos
dos sucessores. Podendo in-
clusive impugnd-los, e a pre-
fer~ncia nos dividends,
quando e se a empresa
der lucro, o que ate agora
nito aconteceu, 20 anos de-


pois de ter entrado em ope-
ra~gio commercial.
Bem que os editors da im-
prensa brasileira poderiam agen-
dar uma nova abordagem ao as-
sunto. Ainda falta contar muita
coisa. Quase tudo, alids. *

Teste
Os mais ilustres visitan-
tes da sede da Companhia
Vale do Rio Doce, no Rio de
Janeiro, ji foram apresenta-
dos a uma barra de metal
produzida com o minbrio de
cobre de Carajls. Ainda 6
uma produglio apenas sim-
bblicai O teste para valer val


ser feito agora, com uma
nova remessa, de 27 mil to-
neladas, que a CVRD man-
dard para refine no Canadi,
de onde sairam os primeiros
lingotes.
A equa~gio da viabilida-
de serA definida pelo acha-
do tecnol6gico para o trata-
mento do mindrio, com ca-
racteristicas fisicas e quimi-
cas que o distinguem do co-
bre standard no mercado, e
seu enquadramento em um
custo compativel com a re-
munera~gio do produto.
Logo, qualquer resposta de-
finitiva sobre o cobre do Sa-
lobo 6 precipita~gio.


Os graves nameros


do setor el~trico


Vivo
Herdeiro do patrim8nio
deixado por Daniel Keith
Ludwid, o Instituto Ludwig
de Pesquisa do Cincer, com
sede na Suiga, continue em
plena atividade. Foi atrav~s
dele que o Brasil passou a
fazer parte do Projeto Ge-
noma Humano, um estudo
em escala mundial para a
identificagIo de todos os
genes do corpo humane. Os
pesquisadores do institute
suigo vieram com cinco mi-
lhbes de d61ares, aos quais
se juntaram outros US$ 5
milh~es da Fadesp (Funda-






4 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE ABRIL / 1999





O fim do idesp: um ato


O governador Almir Gabriel nito 6 um
democrat. Se fosse, nio mandaria para
a Assembl~ia Legislativa uma enxurrada
de projetos importantes, que efetivam a
reform da c~ipula da administr~aglo es-
tadual, exigindo aprovaglio a toque de
caixa, gragas ao regime de urg6ncia. AI~m
disso, a distribuigio dos projetos parece
ter sido feita com o cuidado de afastar
eventuais relatores incbmodos. Tudo para
que os pap~is voltem g sanqilo governa-
mental exatamente como foram encami-
nhados ao legislative.
A seu favor, o governador poderia ar-
gumentar que qualquer desvio de rota po-
deria comprometer a integridade das me-
didas propostas, desnaturando-as, Depu-
tados costumam dar mais atenglio ao fei-
jilo com arroz e ao varejo, ignorando a
eventual grandeza das matdrias submeti-
das B sua apreciaglio. Mas tamb~m estio
predispostos a uma transaglio fisiol6gica e
clientelista para assegurar a fidelidade do
seu voto, esquecendo toda e qualquer ra-
zlio mais alta que possa se "alevantar" dos
processes, como diria o poet.
O atual governor tem sido o mais mili-
tante nesse tipo de negociaglio rasteira, o
que lhe tem garantido uma maioria parla-
mentar que nem mesmo os governor mi-
litares conseguiram impor (sempre havia
um calo mais sensivel que reagia aos pi-
sdes, criando uma inesperada cadeia de
rea95es). Como as iniciativas da admi-
nistrag~o Almir Gabriel nIio sito precedi-
das de uma discussion mais ampla, nem
em extensilo e muito menos em profun-
didade, restringindo-se a uma gestagilo in-
terna corporis, o toma-li-d8-ch neo-
franciscano sequer chega a funcionar
como boi de piranha. A sociedade ignora
que exista a manada. O governor limita-
se a brind6-la com presses releases e
ret6rica official.
Ningu~m poder8 negar que houve uma
melhora na administragilo p~iblica esta-
dual durante o quatrianio gabrielino, me-
nos pela sua aproximaglio de um padrlo
desejivel e necess~rio de qualidade e
mais por causa dos p~ssimos parbmetros
anteriores. Na mbquina official hB ainda
uma perturbadora marca do estilo autori-
tirio e supostamente iluminista do gover-
nador, refratirio a uma discussilo para
valer, democri~tica. Algo parecido com o
modo de agir do general Geisel na presi-
dancia da Repliblica, uma versito g direi-
ta (e castrense) do tal do "centralismo de-
mocritico" dos partidos comunistas, que
tinha tudo de central e nada de democrC-
tico, antes como hoje, embora ji nito seja
mais vi~vel o regime de partido Onico.


O governador se consider um home
iluminado, "o escolhido", para usar uma
expressito cara a um messianismo e um
mandonismo tradicionais entire as elites
brasileiras. Quer realizar o seu projeto,
que ele efetivamente o tem na cabega,
com a menor perturbaCio possivel. Tudo
se legitima pelo bem p~iblico a ser alcan-
Cado, sobre o qual sua excelincia nto
possui a mais remota das di~vidas.
Mas a weltanschaaung do governa-
dor se comprime num know-how de ci-
rurgitio, o que o torna um eficiente exe-
cutor de diretrizes, mas nito um formula-
dor de political. E por isso que um bom
vendedor de peixe conceitual (que em-
brulha em linguagem de comparee, fir-
mado ao seu lado (e, ji agora, acima dele),
se apresenta como te6rico e ideblogo de
um "novo modo de gerir o Estado" que
niio passa, quando muito, de estreita
(mesmo se correta) carpintaria de fundo
de quintal.

Como se estivesse na Gre-

cia antiga, o governador sd

sanciona a democracia ara

outros "escolhidos que nem

ele, desligando-se do "deta-

lhe vital de que a democra-

cia em Atenas era direta, em

funlpO da sua populagdob, da

Sua COmposigdob social e da

sua histdria anterior de com-

bate aZs~ tiranias, enquanto a

nossa e' (ainda) tortuosa-

mente representative.
Talvez o apparatchik tucano esteja
convencido da excel~ncia de seu projeto
reformista para o Estado, mas nito trans-
mitiu esse convencimento B sociedade.
Nilo por falta de oportunidade, j6 que a
redundante propaganda official era (e, em
menor media, ainda 6) veiculada g larga,
mas por ausincia de vontade (e at6 de tra-
quejpo para essa atividade de extensilo).
E assim que, de um trono disfargada-
mente republican, sua excelancia des-
pacha seus iditos para os (apesar de tudo,


inevitaiveis) desviios parlamentares. Bas-
ta examiner um desses raios legisferan-
tes (em sentido literal) para ter uma id~ia
da gnoseologia gabrielina. E~o caso da
mensagem que acompanha o projeto de
lei extinguindo o Idesp.
De fato, o Instituto do Desenvolvimen-
to Econimico-Social do Para j6 se en-
contra extinto. TB-lo estripado em vida,
antes de poder contar o respaldo legal para
o ato, ji evidencia o modo governamen-
tal de praticar a democracia enquanto mal
necessirio (ou incontorn~ivel). Mas al~m
desse desprezo pelo contehdo de realida-
de de um rito formal, a mensagem 6 uma
agressilo B contemporaneidade, uma con-
tradigilo com o enunciado do projeto re-
formista.
Diz sua excelancia que o Idesp deve
ir (na verdade, jB foi) para a tumba por-
que, ao long dos 30 anos da sua exist~n-
cia, teve sua importincia diminuida "a
cada nova missio institutional que o Es-
tado criava, esvaziando suas fun95es e
resultando em greas de atrito institucio-
nal, ora pelo desenvolvimento de aqaes
paralelas, ora por sua duplicidade".
De fato, o Idesp deu origem, ao long
de 10O anos (1978/88), a tras novas secre-
tarias (Seplan, Seicom e Sectam). Elas,
contudo, nito o anularam. Muito pelo con-
tr~rio at6: obrigadas a desempenhar uma
agilo executive especializada, essas se-
cretarias tanto niio podem ter uma vision
do todo como ficaram ao largo da andlise
reflexiva do que fazem. O obrismo, com-
binado comn o empirismo, pode constituir
a forga de um 6rg~io executive (reforga-
do pela cobertura, por enquanto apenas
sobrenadante, das sete secretaries espe-
ciais), mas silo apenas uma parcela da
fun~tio p~blica. A outra parte poderia ser
desempenhada, com mais clareza concei-
tual, pelo Idesp.
Desobrigado de produzir mercadorias,
o institute poderia se especializar em ge-
rar id~ias, em discutir priiticas, em ilumi-
nar caminhos, em antecipar situa95es. Ou
seja: passaria a atuar na linha de frente do
conhecimento. Nilo um conhecimento es-
tritamente academico, mas delimitado pela
agenda do memento. Algo coerente com
a proposta que o fisico Jos6 Maria Bassa-
lo jgapresentou aqui mesmo neste journal.
Esta lacuna torna-se escancarada-
mente visivel agora, no confront do go-
verno com a Companhia Vale do Rio
Doce. Nas trbs secretaries derivadas do
Idesp nito hfto conhecimento de vanguar-
da utilizilvel como element de aptio inte-
lectual do governor. Nio havia mesmo no
Idesp, que foi se esvaziando ao long do






JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE ABRIL / 1999 S





contra a critical e o future


I _


tempo. Justamente por isso, entretanto, o
Idesp continuava a ser uma estrutura po-
tencialmente important, vital at6. Falta-
va-lhe apenas ser revitalizado por dentro,
com massa cinzenta (e, por isso mesmo,
necessariamente critical e dispor das
ferramentas para se tornar aquela "cons-
ci~ncia critical" em que o Ipea (Instituto
de Pesquisa Econ~mica da Presidencia
da Rep~iblica) se tornou sob o despotis-
mo esclarecido de Reis Veloso durante o
impbrio Geisel. Nilo nos falta despotismo
agora. Falta 6 esclarecimento.
As pressas, e para uso imediato, 0
governor est6 indo buscar assessoria (por
enquanto, apenas informal) no sul do pais.
Mas nito pode criar cultural e nem former
um pensamento orginico dessa maneira.
E precise saber conviver comn a diversi-
dade, a alternincia, a controversial e a
critical aberta, os components que ga-
rantiram a sobrevida do capitalism e ful-
minaram o socialismo (pelo menos o
"real") nesta era de informagilo ampla,
ripida e massive.
A mensagem governmental chega gs
raias do cinismo em seu silogismo de meia-
ggua. Amanteigando o presunto, ela diz,
no seu jargilo neocaboclo, que a biblio-
teca do Idesp, com seus 70 mil volumes,
ter8 "utilizagilo mais intense quando dis-
ponibilizada pela Fundaglo Cultural Tan-
credo Neves, na biblioteca do CENTUR,
que recebe mais de 1.000.000 de visitan-
tes por ano, contra cerca de 200 consul-
tas que a instituigilo recebia".
Comparando coisas totalmente desi-
guais, a conclusion 6 falsa. A biblioteca
do Idesp (com muito mais itens do que os
70 mil volumes declarados, incluindo uma
preciosa mapoteca) niio existia para con-
sulta em massa. NIio era o n~imero de
consultas que a legitimava, mas a quali-
dade da procura. Ela era uma biblioteca


especializada, embora, certamente, de
uma especializa~8o mais aberta do que o
desejavel. Incorporada pela Biblioteca
Central, vai se desnaturar. Mais do que
isso. vai ter sua fungilo 6nica anulada.
E claro que estudantes do ciclo b~si-
co de ensino tamb~m procuravam a bi-
blioteca do Idesp apenas para realizar
suas tarefas escolares. Mas ela tamb~m
estava em condiCges de tender a con-
sulta t~cnica, afinada com a natureza de
sua atividade pelo simples fato de exis-
tir. Esta funglio de vanguard pode nto
ser a mais important, mas 6 vital para
gerar o conhecimento de linha de frente
que tanta falta faz a um Estado de fron-
teira como o Parb.
A mensagem escarnece a intelig~n-
cia dos parlamentares que vilo examin8-
la e deliberar sobre ela. Toma-os como
parvos, ou, se nito isso, como se fossem
absolutamente destituidos de vontade pr6-
pria. Diz o governor que a extinglio do
Idesp 6 uma "resultante natural" do pro-
cesso de ajuste da miquina p~blica dita-
do pelas condigaes "econ8mica-financei-
ra" (sic) restritivas, "onde a busca da
melhoria dos servigos prestados g popu-
la~gl,, a redugilo dos gastos puiblicos e a
melhoria e ado~gio de novas formas de
desempenho administrativo-gerencial sio
fundamentals".
Ningu~m discordard de ajustar a m6-
quina do governor a essas diretrizes, sem
limitb-lo, por~m, a elas (o que significaria
a uma renoncia ticita B funglio p~iblica,
entregando-se as chaves do eririo e dos
segredos de Estado ao quitandeiro da es-
quina). Mas o Idesp niio estava em desa-
cordo com essas exig~ncias, ou ao me-
nos nito estava em tese. Bastaria que o
projeto de recuperagilo, apresentado por
Tereza Cativo no inicio da administra~gio
Gabriel, fosse-em frente, com endosso


superior, ao inv~s de ser sabotada at6 a
li1tima moeda intellectual. Na verdade, o
Idesp foi extinto nilo por um natural pro-
cesso de ajuste, mas apunhalado por al-
gumas de suas criaturas, que, em outras
instincias de poder, se voltaram contra
suas origens por motivagilo que talvez
deva se perquirida em um divil e nito em
manuals de administration p~iblica.
A supresslio do institute niio devolved8
aos cofres pi~blicos os 4,5 milhaes do seu
orgamento, ao contrdrio do que sugere a
mensagem. Em primeiro lugar porque,
como o pr6prio document proclama, to-
dos os servidores do institute serilo rea-
proveitados. Os que leram o Didrio Ofici-
al em fevereiro puderam verificar quanta
gente trabalhava em outros 6rglios da ad-
ministragio estadual, e at6 fora dela, esti-
pendiadas pelo Idesp. Em segundo lugar,
recursos externos que poderiam ser cap-
tados por uma instituigli de pesquisa e pla-
nejamento, com 30 anos de existancia, vio
ficar inacessiveis. E esses recursos redu-
ziam a contrapartida do Estado. Em ter-
ceiro lugar, assassinando o Idesp sem en-
frentar uma reaglio proporcional ao seu ato,
o governor sufoca ainda mais o quej jesti
em regime pr6-agbnico (ou pr6-falimen-
tar, para usar expressilo mais inteligivel
pelos dons do poder) no Parb: a critical.
Em defesa desse direito de critical e
em auto-respeito, os integrantes da As-
sembl~ia Legislativa prestariam um rele-
vante servigo rejeitando a mensagem go-
vernamental sobre o Idesp. Ao menos
para que o executive se dB ao trabalho
de escrever melhor e raciocinar com mais
consistincia ao tratar de matdria tiio sen-
sivel ao present e ao future deste mal-
tratado Estado.
Pode-se ainda conflar no legislative
para essa tarefa? Com a resposta, agora,
os 41 deputados.


Quando a biblioteca mu-
nicipal de Icoaraci foi insta-
lada no pr6dio, uns 10 anos
atris, o chal8 Tavares Car-
doso continuava belo e bem
conservado, como pude ve-
rificar numa visit feita A
6poca. Entregue depois A
pr6pria sorte, quando a bibli-
oteca foi transferida para
uma constru~gio inexpressiva,
em outro lugar da assim cha-
mada "vila sorriso", o pr~dio


Lemos). Bomn para os em-
preiteiros, p~ssimo para o
erdrio e a autenticidade dos
testemunhos fisicos da hist6-
ria da cidade. Ser6 que essa
lei niio escrita, mas fulmi-
nante continuarS em pleno
vigor sempre, sem que nin-
gu~m tenha sua responsabi-
lidade cobrada e indenize o
patrim8nio p~iblico?
Fica a pergunta, atris de
uma resposta.


reduziu-se a uma ossada de
tij olo. Acabou perdendo todos
os seus aderepos e comple-
mentos. O saque foi conclui-
do por gangues, que o toma-
ram como sede. RecuperB-lo,
agora, custard 1,6 milhilo de
reais, prego de uma mansio
magnifica em Beltm. Eviden-
temente, o servigo n~io resti-
tuir8 ao pr6dio seu valor his-
t6rico e arquitet6nico origi-


nais. Mas tem que ser feito.
A regra das recupera95es
na capital dos paraenses 8 s6
serem realizadas quando se
tornaram caras demais e o
dano causado pela incGria ou
mesmo oabandono provocou
lesito praticamente irrecupe-
r~vel (de que slio exemplos os
palacetes Bolonha e Comen-
dador Pinho, al~m da residen-
cia official e o pal~cio Antinio


Regra cru el






6 JOURNAL PESSOAL *2" QUINZENA DE ABRIL / 1999


De vez em quando aparece algubm
querendo ressuscitar algum escritor que
consider injustamente esquecido. Na
maioria dos casos, por~m, o esquecimen-
to C merecido e o artist est6 bem posto
sob a tumba do tempo. Mas nho no caso
de Paulo Plinio Abreu. Ele 6 o maior
exemplo de descaso que conhego entire
n6s, prova dos nove da nossa incultura.
Em setembro, nos 40 anos de sua mor-
te, se oferecer8 a oportunidade para redi-
mirmos o pecado da ignorincia em que o
Pard 6 reincidente contra um dos seus
maiores poetas, dos poucos de sabor uni-
versal. A Universidade Federal do ParB,
que em 1978 publicou o primeiro e uinico
livro de Paulo Plinio, 20 anos depois da sua
morte, bem que poderia comegar imedia-
tamente a tratar da reedigio, revista, cor-
rigida e ampliada, de Poesia.
Fago essa sugestlio antecipada por-
que o livro s6 saiu gragas ao empenho
persistent do professor Francisco Paulo
Mendes, organizador e apresentador da
obra, ao long da administration de tres
reitores sucessivos. Como o nosso queri-
do Chico Mendes chegari aos 90 no pr6-
ximo ano, a homenagem serd dupla e co-
letiva: ao poeta, ao seu melhor int~rprete
e a n6s todos, que seremos premiados com
um dos mais refinados volumes de poe-
sia da literature brasileira.
Paulo Plinio Abreu 6 um desconheci-
do, inclusive para os seus conterrineos.
Nem mesmo estudantes de letras sabem
de quem se trata. O que niio 6 muito difi-
cil de explicar: impresso por uma grifica
particular, a Grafisa, Poesia nunca figu-
rou no catblogo de publicag8es da edito-
ra da UFPA, nem 6 exibido na sua livra-
ria. Mesmo no dep6sito da universidade,
ningu~m sabe, ningu~m viu. O livro teve
circulagio semi-clandestina.
Em anos de convivio universitirio, s6
recentemente vi um grupo de estudantes
se interessar pelo tema, quando lhe foi pro-
posto. Mas nem os mestres parecem em
condigdes de orientar uma pesquisa para
recolocar o grande poeta ao alcance dos
vivos em sentido biol6gico, j6 que, na pe-
numbra do tempo, ainda assim Paulo Plinio
6 muito mais essencial do que muito poe-
tastro posudo em dispensiivel atividade.
Ai comega a explica~gio: Paulo Plinio
teve vida recatada, sem badalagio, hostile
g auto-promoglio, exigida como condigio
para a provincia consagrar um autor, im-
pondo-lhe multa vida liter~ria, mas nto
tanta atividade literbria propriamente dita.
Plinio era um exilado na sua terra, viven-


do-a para dentro de si, introspectivamen-
te, ligando-se a ela atrav~s de sua origi-
nal sensibilidade, com raizes plantadas no
contido e denso lirismo de sintaxe teut6-
nica (6 o Gnico exemplar dessa linhagem
entire n6s, o que explica sua identifica8o
com Rilke, de quem traduziu as Elegias
de Duino, comn Peter Paul Hilbert).
Esse sentiment do exilio 6 manifes-
tado na Autobiografia de um poeta que
"Para o filho trouxe a voz de um mundo
solit~rio/ Obscuros caminhos para a des-
coberta/ De uma linguagem pura e o de-
sespero/ De estar ausente e incomunic8-
vel/ Entre cora95es que morrem e vozes
que caminham" .
O poeta buscava seu verdadeiro pais,
que n~io era aquele no qual biologicamente
vivia. Esse "pais" estava al~m da vida,
por tris das aparancias de realidade, num
mundo idealizado pela consci~ncia e a
sensibilidade, temporariamente bloquea-
do pela morte (outro tema recorrente na
obra de Paulo Plinio), mas ultrapassan-
do-a atrav~s do mito. A morte, ali~s, 6 a
sua verdadeira poesia, nito na versilo pro-
saica em que 6 apresentada: "Quero sen-
tir em mim as frias miios da morte para
ver o abismo", anunciava ele.
Por isso, a premoni~gio permanent do
fim precoce, que enche de misticismo os
seus verses, de imagens surpreendentes,
comoventes, fortes mas doces, fatalistas
mas tranqililas. Paulo tem o "estilo da
velhice", que mestre Otto Maria Car-
peaux identificou nos artists que mor-
rem cedo, "conscientes de uma predesti-
naglio que paira sobre eles", antecipando
"experiencias fora do tempo; at6 experi-
encias transcendentais".
E precise recolocar em circulagIlo esse
grande poeta, que se foi aos 38 anos, atra-
vis de uma edigio digna, que aproveite o
trabalho esplendidamente pioneiro de Fran-
cisco Paulo Mendes, enriquecendo-o. O
livro de 1978 (ou de 1977, outra data tam-
b~m registrada) tem que ser precedido de
uma boa revislio, nova pesquisa nos origi-
nais, iconografia, depoimentos e uma edi-
glio grifica compativel com a importancia
desse empreendimento cultural. Ele tirard
Paulo Plinio Abreu da tumba do esqueci-
mento, na qual ele niio cabe.
Pois foi para ser verdadeiramente
imortal, numa dimensito que acreditava
possivel alcan~ar, que ele morreu. Nlo
para ser injustamente esquecido. Essa
desidia nos faz um mal enorme, mais do
que a ele: onde estiver agora, para PP
Abreu ser~i nada. *


O esquecido poeta


q ue se encantou


Heroina oculta

Sem a mulher, Elizabeth, o naturalista
suigo Louis Agassiz j amais teria tornado
seu hivro de viagem ao Brasil, no mnicio da
segunda metade do s~culo passado, uma
das mais agradiveis fontes de conheci-
mento sobre o nosso pais (e particular-
mente sobre a Amaz~nia). No entanto, a
autoria da obra 6 creditada apenas ao
marido, destiny ingl6rio tamb~m imposto
a madame Coudreau, que acompanhou e
substituiu o marido, o controvertido Hen-
ry, em outra s~rie de viagens e livros pelo
sertilo amaz~nico um pouco depois.
Por tris de um grande home sem-
pre h9 uma grande mulher, desconfla a
sabedoria popular, confirmada agora pela
sobrinha-bisneta de Carolina, esposa de
Machado de Assis, geralmente reconhe-
cido como o maior escritor brasileiro. Ruth
Lima, a herdeira do casal, garante que os
textos do bruxo do Cosme Velho, antes
de serem editados, passavam pela com-
petente revisgo da esposa, que fazia mu-
dangas seguindo seu apurado sensor estC-
tico, aceitas pelo romancista. A afirmati-
va, que retoma um tema pendente nas
biografias de Machado, foi feita neste mis
a prop6sito da trasladaCio, no dia 2 1, dos
restos do casal do mausol~u da familiar
para o da Academia Brasileira de Letras.
Esse papel decisive e discrete das
mulheres me veio a mente enquanto acom-
panhava a movimentaeio de Cynthia
Marques na missa de um ano de morte
de Antinio, seu linico filho home, no
domingo passado, na igrej a do Carmo. As
pessoas mais chegadas 21 familiar sabiam
muito bem do sofrimento de Cynthia, in-
formada da trigica morte do filho quando
se encontrava nos Estados Unidos, uma
dor tanto mais funda quanto silenciosa,
introspective.
No entanto, passado um ano, os que n~io
a viram desde entlio puderam sentir sua fir-
meza na condu~ilo da familiar pela transi-
glio da perda e do luto. Claro que Andr6 6 o
chefe da familiar e quem a manteve unida.
Mas Cynthia parece composta daquela tes-
situra que tece a fibra daquelas c61ebres
(como as de Atenas) personagens femini-
nas de Chico Buarque de Holanda. Mulhe-
res como essas silo grandes atris da cena
pliblica independentemente dos que este-
jam atuando no prosc~nio.
No caso de Cynthia, em defesa de sua
fortaleza 6 precise repetir sempre que seu
Ant~nio, um excelente menino, niio me-
recia a morte que 0 destiny lhe trouxe.
Por isso tantas pessoas enfrentaram a
vazia noite de domingo e as chuvas do
terrivel abril ellioteano (0 pior dos meses,
segundo o poeta) para abragar a familiar
que resistiu ao desastre.











Memoria amarga


dos anos de chumnbo


Logo depois do atentado ao Riocen-
tro, uma voz vindo da caserna ultrapas-
sou as fortes barreiras militares e ecoou
na sociedade civil. Comandante da prin-
cipal unidade do Ex~rcito no ParB, o 2o
Batalhio de Infantaria de Selva, com
sede em Bel~m, o tenente-coronel Ni-
valdo de Oliveira Dias protestou, atra-
v~s de boletim interno, contra a farsa
corporativa que estava sendo montada.
Ele se convencera de que o sargento
Guilherme Pereira do Rosiirio e o capi-
tio Wilson Machado eram mesmo os
autores do atentado, s6 nio consuma-
do porque uma das bombas que~con-
duziam explodira no colo do sargento,
sentado ao lado do capitio, num auto-
m6vel Puma. Para o official, os dois mi-
litares tinham que ser punidos, quaisquer
que fossem as conseqii~ncias, em nome
da honra do Ex~rcito.
Quem acabou punido foi o coronel
Nivaldo, que perdeu o comando, foi
preso e sofreu constrangimentos at6
decidir passar para a reserve, interrom-
pendo uma carreira brilhante. Na vida
civil, tornou-se volunt~rio do serving
de proteg~io a ida. atendlndlo por
telefo~ne pessoas detsesperadai em


pois. o Ainistirio
P i blico esta
reabr indu oo

processo _s


instaurado para apurar o atentado pla-
nej ado pela direita military contra o es-
petaculo musical que a esquerda reali-
zava no Riocentro, no Rio de Janeiro.
Mas o grande alvo era o projeto de
abertura"lenta, gradual e segura" que o
general Johio Figueiredo herdara do ge-
neral Ernesto Geisel, conduzido pelo
curinga do process, o general Golbery
do Couto e Silva. Golbery, ali~s, rom-
peria com o governor Figueiredo por
causa do vergonhoso inqudrito policial-
militar, que transformara os dois milita-
res de autores em vitimas. Caindo Gol-
bery, subiu o chefe do SNI, general Ot~i-
vio Medeiros, mais coerente com o tipo
e o proj eto do president.
Indiferente a absolute inverossimi-
lhanga das conclusies que apresentara
para o epis6dio, o coronel Job Lorena
foi premiado com promop~o ao gene-
ralato. JB o capitio Wilson Machado,
al~m de subir a tenente-coronel, rece-


beu proteg~io cerrada contra a justiga e
a imprensa. Jamais foi incomodado, ape-
sar da histi~ria absurda que contou para
explicar sua presenga no estacionamen-
to do Riocentro (a bomba que explodiu
em seu carro teria sido atirada por um
esquerdista, jamais identificado).
Serd que a reabertura do caso aca-
bard com essas imunidades ilegais e abu-
sivas, como sempre defenderam os mi-
litares que trabalhavam nos quart~is pre-
ocupados com suas tarefas, profissio-
nais? Sera que a apuragio dos fats e
das responsabilidades se consumar8
antes da prescrigio do crime, que se
dar8 em 2001? Sera que o Riocentro
escapar8 ao ingl6rio destiny dado ao
"caso Parasar" (um atentado muito maior
e anterior, arquitetado dentro da Aero-
nfiutica por oficiais ultra-direitistas e blo-
queado por dentmcia do coronel S~rgio
"Macaco", mantido em punigio at6 a
morte, mesmo com aintervenCio em seu
favor do maior nome da corporaqio, o
brigadeiro Eduardo Gomes)?
A reabertura do "caso Riocentro"
me faz lembrar o coronel Nivaldo.
Durante varios dias conversamos
enquanto ele dirigia seu modesto
carro pelas ruas de Bel~m parafu-
gir da escuta e da vigil~incia. De-
pois que foi preso, mantive ono-
ticiar-io (s6 O Estado de S. Pau-
lo e A Provincia do Pard pu-
blicaram mat~rias a respeito)
atrav~s da familiar dele e de
um amigo, recebendo suas
corajosas mensagens para
prosseguir. Despedimo-nos emo-
cionados naqueles dias de intimi-
dagio e medo (um agent do DOI-
CODI ia A noite a redagio de A Pro-
vincia atras de mim para assustar).
Ainda o acompanhei por algum tem-
po, quando ele j8 estava em Recife.
Depois perdi o contato.
Com esta nota, quero testemunhar
a gratid~io e a divida que este pais tem
com o soldado e cidadho Nivaldo de
Oliveira Dias, nome que honra as me-
lhores tradigaes do Ex~rcito brasilei-
ro, esteja onde estiver agora.







Sem Nara

N~o tenho certeza, mas parece que a 61tima apresentagio
de Nara Leilo foi em Bel~m, um pouco antes de morrer, 10
anos atrbs. Deixei minha caverna para ir v6-la cantar, na boate
do late Clube, ambiente ideal para o alcance da sua voz peque-
na, mais diminuida ainda pela doen~a. Ela cantou sentada, ao
lado do acompanhante de tres d~cadas, o violonista e composi-
tor Roberto Menescal. Foi uma despedida. Por isso mesmo senti-
me autorizado a ir cumprimenti-la e dizer-lhe algumas pala-
vras. Poucos mess depois o cancer que surgira em seu c~re-
bro levou-a. Tinha entio 47 anos.
Pego passage para celebrar a boa mem6ria, saudosa sem
ser saudosista, no 100 aniversbrio de Nara. Nenhuma cantora
popular brasileira foi tilo important do que ela para a minha
geraglio. A voz era limitada, disso nem o mais fanitico admira-
dor tinha d~vida. Sem corresponder a um Jqilo Gilberto femini-
no, ela, no entanto, ignorou as restrigaes vocals para fazer mu-
sica com sensibilidade e intelig~ncia. Seu estilo era intimista,
mas ela transitava com desenvoltura at6 pelo samba de partido
alto porque o trazia para o seu registro, nito arriscando aventu-
ras, mas nada excluindo da sua curiosidade.
Nara foi uma patronesse musical, se pode-se aplicar-lhe a
expressilo mundana. Para desespero de Elis Regina, sua rival
involuntiria, tinha um faro excepcional para talents, nito s6 os
novos, mas os que estavam incubados de hi muito, como Z6
Ketty, Nelson Cavaquinho e Cartola, trindade magistral da MPB
e de qualquer mdsica mundial. Ela era nossa expressloio com
potancia elevada. Estava bem perto de n6s, mas nos transcen-
dia. E, ao menos para o meu gosto, era a mais bela das Leiio (o
destaque de Danuza, element perturbador da personalidade
da irm$i 6 produto do fet-set em geral e de Samuel Wainer em
particular, quando poderoso).
Era impossivel nio am8-la, mesmo i distlincia. E mesmo es-
tando ainda mais long hi 10 anos, ouvir sua voz calm, cadenci-
ada e s6bria retempera a ktmbranga e ajuda a manter o equili-
brio. Para quem n~io viu Nara, ouvi-la niio chega a ser propria-
mente uma compensagilo, mas pode ser uma descoberta. Ao
menos esta: de que as coisas melhoram quando nelas aplicamos
o mhximo da nossa sensibilidade e da nossa inteligencia.


J~mlrnsal Sg
.Editor: L ljo Fldivio Pinto
I Sede: Passagem Epionha, 60-B 053-040
. : Fones: 223-1929 (fqne-fax) e 241-7626 (fax)
contato: Tv.Benjamin instant 845/2@(16p- ~
Fone: 223-7690 *e-m II: jornal@arlIaonomr ,
Ediglio de Arte: Lzaoodfrpt/01304 R .


megado a funcionar logo, ou
nunca seu projeto teria sido
apresentado, ou ele nito fica-
ria condicionado a uma ener-
gia incerta e nito sabida.
Coisas do capitalism sel-
vagem com dinheiro p~iblico
sem retorno.


Equivoco
O Jornal do Brasil esti
em flagrante decadencia.
Sua tiragem 6 vbrias vezes
inferior B do seu tradiciona


concorrente, O Globo. Para
trocar o primeiro pelo segun-
do, Luiz Fernando Verissimo
deve.ter recebido um bom
aumento. Tinha todos os mo-
tivos para alojar-se na folha
didria de Roberto Marinho.
Mesmo assim, parece tio
deslocado quanto Paulo
Francis, quando deixou a
Folha de S. Paulo por O
Estado de S. Paulo.
McLuhan tinha sua dose de
razilo quando disse que o
melo 6 a mensagem.


Marca

reg istrada
A fiibrica de cimento da
Caima em Itaituba jb custou
150 milhaes de reais. Para
entrar em funcionamento pre-
cisa de mais R$ 40 milhaes.
Hg mais de 12 anos vinha
aguardando o suprimento de
energia el6trica para produzir
(que agora lhe ser9 entregue
na porta pelo linh~io do Tramo-
este). Quem, nesse period,
visitava suas imponentes ins-
talaq~es, is margens do rio
Tapaj6s, nito conseguia enten-
der por que se fez uma imobi-
lizagilo tilo grande de capital
sem poder (ou sem querer)
concluir o empreendimento,
faltando bem menos do que ji
havia sido investido.
A decifragilo do mist6rio,
que comega pelo nome da
empresa (Companhia Agroin-
dustrial de Monte Alegre), que
nada tem a ver com sua finali-
dade, muito menos com sua
localizagilo (sendo heranga de
um projeto mal formulado na
origem), exige apenas audicia
no desenvolvimento do racio-
cinio 16gico. Porque o obser-
vador acaba chegando a suas
dedu95es: 1 A instalagilo in-
dustrial serviu aos propbsitos
de reserve de mercado. Com
aquela fibrica (quase) pronta
para funcionar, ningu~m se
atreveria a invadir o monop6-
lio do grupo Cibrasa na Ama-
zania. 2- O empreendimento
legitimou a extra~gio em bruto
de calcbrio no Pari para sua
industrialization no Amazonas,
sem provocar protests anti-
colonialistas (mesmo sendo
apenas colonialismo interno).
Ao aprovar os dois proje-
tos industrials do grupo Jolo
Santos, a Sudam exigiu que
eles fossem implantados simul-
taneamente, para agradar gre-
gos/amazonenses e troianos/
paraenses. Niio houve a tal
sincronia. Mas a cada ano a
Cibrasa conseguia que Brasi-
lia mandasse telegramas para
Bel~m determinando ddiregio
da Sudam a aplicaglio de gor-
das somas dos incentives fis-
cais nas duas fi~bricas (incen-
tivo carimbado, como se dizia).
Se os R$ 150 milhies tives-
sem said dos bolsos dos au-
dazes capitalistas, certamente
a fibrica de Itaituba teria co-


Em casa
Em maio do ano passado
o Tribunal de Justiga do Es-
tado abriu concurso phblico
de provas e titulo para preen-
cher cargos em aberto de ju-
izes-substitutos. Em 27 de de-
zembro a comissilo examina-
dora do concurso divulgou ofi-
cialmente o resultado da ava-
liagio. No dia seguinte, 13
dos 37 aprovados protocola-
ram recurso junto ao presiden-
te do tribunal questionando o
crit~rio de classificaptio. Em
margo, O Orglio Especial do
TJE acolheu o recurs e mo-
dificou um dos itens do edital
do concurso, publicado quase
um ano antes.
Em conseqilincia, o n~me-
ro de aprovados subiu de 37
para 44 e foram modificadas
as primeiras coloca95es, que
conferem aos seus detentores
o priviligio de escolher comar-
cas melhor situadas. Quem
estava em nono lugar subiu
para o lo posto (enquanto o
anterior 10 desceu para o 6o
lugar); o So passou a ser o 20,
o 170 pulou para 7o e assim por
diante. Nessa corda-bamba,
nomes de parents de magis-
trados pululando.
Cinco dentre os prejudica-
dos jB recorreram ao Supre-
mo Tribunal Federal com um
mandado de seguranga assi-
nado por ningu~m menos do
que o ex-ministro Aldir Guima-
rites Passarinho. Em defesa
dos crit~rios originals, Aldir
d~ispara morteiros contra o
Orgilo Especial, acusado de ter
praticado um "terrivel, espan-
toso e-surpreendente engano",
o de modificar um edital (com
forga de lei para o concurso)
com oresultadoj jalcangado,
e, por isso, fato consumado.
Os pesos estabelecidos
para as provas subjetivas e de
titulos podem nito ter sido os
corretos, mas ao decidir recri-
ar regras quando elas ji havi-
am gerado seus efeitos, o tri-
bunal se sujeita mais uma vez
a sofrer a acusa~gio de reali-
zar concursos viciados e de
utilizb-los para a priitica de
nepotismo, inc8modo do qual
ji poderia ter-se livrado se
delegasse a tarefa a terceiros
habilitados e Jlegitimados.
Comio hi muito timpo se pede
e hag umn temnpo igual o tribunal
telma em ignorar/