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TJE: concurso
omalPesoalrap~a(pAG. 8) L(ICIO~~AL FL V O P NT '*----.. . Sprojetos saena a jato (PAG. 4 E 5) SALOBO A batalha qu n80 houv 32c Antecedido por um clima de tensd~o prdpr1io das g: gras, o sovo president-e da CVRD, ]6'rio Dauster, veio a Beld'm r ou havia anunciado no Rio de Janeiro: que o S31 Projeto Salobo, para a exploragdao do' cobre de Carajdis, e' inviavel. Veio, viu, falou e cS~a voltou a sede da empresa convencido de ter vencido uma \- I ~ uq9r batalha que nd~o houve. - Mais uma. _, .. )r Como a de "- . . Itarard'. 0embaixador J6rio Dauster que explorer a mina de cobre do Salobo, nalmente o menor em 50 anos) e as mana, tudo o que ji havia vel. Segundo outros, que o projeto Sa- minerio se apresenta na jazida do Sa- anunciado tr~s semanas antes lobo nio 6 exatamente invi~vel, mas lobo, exigindo tecnologia inddita e cara, A Gazeta Mercantil, no Rio perdeu oportunidade e prioridade, nao congelaram o empreendimento, como de Janeiro, sob o manto protetor do ano- tendo mais data para ser iniciado, se 6 uma Bela Adormecida 21 espera de uma nimato. Mas o que 6 mesmo que o novo que vai ser iniciado algum dia. reanimaqio econbmico-financeira I~presidente-executivo da Companhia Vale O prego excepcionalmente baixo do (bem mais imprevisivel do que o beijo c-do Rio Doce anunciou? Segundo alguns, cobre no mercado international (nomi- de um principle . 2 JOURNAL PESSOAL 21 QUINZENA DE ABRIL / 1999 resses estadual, regional e national (sem falar nos municipios afetados, que de- veriam sair da passividade atris de scu papel na trama). Mas o governor niio se apresenta preparado para um diilogo de alto nivel com a Vale. Nas trbs horas de converse com os representantes do governor, Dauster con- seguiu quebrar o clima hostile anuncian- do novos investimentos da empresa no Estado. A capacidade de produplio de caulim da Pard Pigmentos ser6 duplica- da, uma usina de calciurio vai ser ativa- da para suprir indi~stria e agriculture, e uma plantagilo de eucalipto de 75 mil hectares fornecerg carviio vegetal para transformagilo siderdrgica de terceiros. Esses investimentos darIlo ao governa- dor n6meros (que ele tanto aprecia) para falar em algumas dezenas de milhaes de capital novo e em uns tantos milhares de empregos diretos e (sobretudo) indi- retos, reeditando discursos do passado sobre crescimento que nito resultaram, de fato, em desenvolvimento. Nada se falou sobre comegar a pro- duzir celulose, reter parcelas maiores de energia geradas no Pard dentro do mesmo Pard (e nito transferi-la para o CearB, por exemplo, onde a corpora~gio de Steinbruch est8 comegando uma aci- aria) ou alcan~ar etapas seguintes na verticalizagilo do aluminio prim~rio. Os temas da agenda sempre slio definidos pela Vale, o Gnico personagem com poder de iniciativa. O governor apenas reage ils provocaF~es, raramente po- dendo refazer os parimetros de andli- se. A culpa por esse contencioso vicia- do nito pode ser atribuida apenas g vo- racidade dos novos dons da Vale por dinheiro vivo e m~uxima rentabilidade do capital. Ela cabe tambim sobre os lar- gos ombros de um governor prej udicado pela atrofia cerebral. Guerrear contra a Vale sem uma boa retaguarda de informaqaes e sem um plano estrat~gico nito 6 s6 initial: 6 estid- pido tamb~m. Pode ressalvar boas in- ten95es, mas o caminho para o inferno esti cheio delas. O governor e os re- presentantes da sociedade agem com esse despreparo porque o Pard estL desprovido de planejamento sbrio (para political de antecipagilo) e a sua inteli- g~ncia foi amordagada, quando nlio sim- ples e rasteiramente comprada para seguir as ordens do chefe, seja ele qual for. A cada uma dessas muitas bata- thas de Itarar6 que se tem sucedido, a 61tima das quais antagonizando o apli- cado tradutor de Nabokov, uma das rou- pagens que o embaixador Dauster ves- te na intimidade, fica a sensaglio de far- sa. E de mais uma oportunidade hist6- rica desperdigada. * de conhecimento e atuaglio da maior empresa estabelecida no Estado, sem ser do Parb. O despreparo se manifes- ta desde o governador e seus sete sa- murais, inclusive os teoricamente com- petentes na questlIo, at6 o cidadlio de rua, que a grande imprensa (por indrcia ou esperteza) nilo sensibiliza (Carajds deve estar B espera do seu Carlos Drummond de Andrade, so menos para fazer doer o retrato da devastagilo sem saldo na parede). Se aprovar o pedido de session es- pecial apresentado pela deputada (PT) Maria do Carmo, a Assembl~ia Legis- lativa deve ter cuidado para nito repetir os fiascos anteriores, marcados pela vi- rulgncia oca nos decibeis orat6rios e quase nenhuma conseqtiincia. A ses- slio especial 6 necess~ria. Mas deve ser preparada comn aplica~gio. Niio pode ser realizada em um Anico dia, nem no ple- nlrio da casa, exigido para as sessies vespertinas. Dela devem participar an- tigos dirigentes da CVRD e associados envolvidos direta ou indiretamente no Salobo. Eles viio ter que prestar contas sobre um projeto que seus sucessores acusam de inconsistencia gs raias da leviandade. Parceiros e possiveis asso- ciados da CVRD tambem precisam ser convidados, assim como t~cnicos de re- conhecida compet~ncia no setor. O te- m~rio tem que ser precise, provocati- vo. Se possivel, os deputados tbm que comparecer is sessies. Pode-se chegar g conclusion de que Salobo deve ser realmente deixado de lado em proveito de SossegolLiberdade e Corpo Alemlio, dois alvos muito mais atraentes. Mas nito se pode dar defini- glio a uma Ainica jazida isoladamente: 6 precise analisii-la e correlacion8-la no Ambito de uma provincia mineral de co- bre e sua relevincia macroeconamica para o pais. O Brasil cometeu erros prim~rios na primeira abordagem desse problema, no sertio baiano, comprando por lebre (e pagando por faislio) um gator fantasiado pela lIbia de Francisco Baby Pignatary, personagem nito totalmente dissociivel do atual Benjamin Steinbruch. O custo A na~gio passou de um bilhilo de d61ares. Deviamos ter aprendido, ao custo de 600 milhies de d61ares ao ano de divisas con- sumidas na importa~gio de concentrado. Niio parece. Agora que a CVRD apresentou suas cartas B mesa, conv~m intervir o perso- nagem ausente de fato, embora presen- te de boca: o governor (que, para manter a imagem, seria o embaralhador, ou o crupib). Apenas a Vale foi privatizada, espera-se. O governor deve continuar a ser entidade pbiblica, pautada pelos inte- Uma primeira d6vida decorre da de- cisito de Dauster de nito se identificar quando procurou 0 journal de neg6cios da familiar Levy para dar a mb noticia so- bre o Salobo. Preferiu se proteger atris do titulo de "uma fonte", n~io identifica- da pelo j ornal mesmo quando, no dia se- guinte, a Vale apresentou um desmenti- do official is afirmativas vazadas por seu principal executive. Uma das interpretag8es possiveis dessa estratigia 6 que o ex-embaixador queria langar um ballot de ensaio antes de assumir publicamente o anbncio. A sondagem visava tanto o pliblico exter- no quanto os parceiros. A uns, para amansar a reaqil. A outros, para colo- car na defensive. A conclusion mais important da mo- vimentagilo da CVRD 6 de que a empre- sa nito pretend investor o que 6 necessi- rio para superar os problems do Salobo, independentemente do seu ajuste is atu- ais condi95es de mercado, porque a taxa de retorno do capital 6 considerada muito baixa, entire 7% e 8% ao ano. Essa, deve- se admitir, 6 uma decisito de economic internal da empresa, que talvez esteja apostando lateralmente na obtenglio de muito mais vantagens do que as j8 com- prometidas para reduzir seu desencaixe de recursos pr6prios e na danga dos s6- clos. Mas a exploragil do cobre de Ca- raj~s 6 mat~ria de tal relevincia que trans- cende a agenda de uma empresa, por mais expressive que ela seja. Reconhega-se, entlio, que a CVRD tem toda a legitimidade para, enfim, vir B col~nia paraense reafirmar seu des- compromisso comn qualquer cronogra- ma para o Salobo, rasgando definitiva- mente o protocolo de intengies assina- do com o governador Almir Gabriel em Marabi, em abril de 1997. Mas esta nto deve ser aceita como a palavra final sobre o assunto. Em primeiro lugar, porque o gover- no federal nito deve ter ainda esqueci- do que det~m a bond share, a agio especial que the permit intervir na ad- ministra~gio da ex-estatal. Salobo esti entire os dep6sitos minerals com parti- lha de dominio, por igual, entire a CVRD privatizada e o governor. Nilo C mono- p61io decis6rio da empresa. Em segun- do lugar, por ter ficado evidence que as conversas de bastidores nito sito exa- tamente as mesmas travadas em pitbli- co. O descompasso permit identificar algum nivel de manipulaglio. A reaqilo emotional dos deputados g frustrada conversa com Dauster aju- dari muito pouco no estabelecimento de um contencioso adequado. Mais uma vez ficou claro que os interlocutores pa- raenses estito degraus abaixo do nivel JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE ABRIL / 1999 3 Em 1997 a Eletronorte sofreu um preju- izo de 324 milhdes de reais. No ano passa- do, o de'ficit dobrou, chegando a R$ 649 milhaes, dinheiro que seria suficiente para o governo do Para~ pagar todo o seu funcio- nalismo durante 10 meses. E numero ca- paz de impressionar qualquer um, mesmo sabendo-se que as Centrais E16tricas do Norte tem, hoje, o maior patriminio liquid (R$ 13,5 bilhaes) entire as oito empresas do sistema Eletrobris. E tambem a com maior capital social (R$ 2,6 bilhies, contra R$ 1,2 bilhilo de Furnas e da CHESF), a segunda em investimento em 1998 (R$ 703 milhdes, enquanto Furnas recebeu R$ 813 milhaes). Mas seu prejuizo no exercicio foi cinco ve- zes maior do que a segunda mais deficitiria do sistema, a Eletronuclear (de R$ 147 mi- lhaes) e quase 10 vezes mais do que a quarta das empresas que operaram no vermelho em 1998 (Lighpar, com R$ 66 milh~es). Provavelmente pensando no mercado, o presidente daEletronorte, Jos6 Ant~nio Muniz Lopes, diz tratar-se de prejuizo apenas con- tibil. Referindo-se nbt especificamente i~s contas da Eletronorte mas ao balango da Ele- trobris, diz que o resultado foi afetado pelo provisionamento de funds para eventuais prejuizos decorrentes de a95s judiciais e dis- putas salariais (s6 por conta do Plano Bres- ser a provisiio teria sido de R$ 456 milhaes). E dificil checar as palavras de Muniz Lopes. Neste ano a Eletronorte se limitou a publicar no Pard um "Balanqo Social", pres- taglio de contas supostamente mais atinen- te do que o balango contiibil conventional, mas com o inconvenient de n~io trazer nd- mero algum sobre o desempenho da em- presa no exercicio. As contas ficaram para o Dibrio Oficial da Unilio e alguma outra publicapilo de acesso mais dificil para um leitor amaz~nico. Jg o tal "balango social"6 mais uma pega de propaganda do que exa- tamente uma prestagilo de contas. Provisies para riscos g part, o dese- quilibrio operacional da Eletronorte C fun- glio tanto dos desaflos de atuar numa re- gilo pioneira como a Amaz~nia quanto dos leoninos contratos que foi obrigada a assi- nar com grandes consumidores de energia, especialmente as fiibricas de aluminio da Albris e da Alumar. Em cinco anos, a par- tir de 1993, quando a Uniiio deixou de com- pensar o subsidio tarif~rio, o prejuizo com esses consumidores eletrointensivos chegou a perto de um bilh~io de reais. No G1timo ano apontado no "balango social", o de 1997, a diferenga negative foi de R$ 235 milhaes. Jg hb presslio para antecipar a finaliza- Flio desses contratos, que expiram em 2004, mas isso dificilmente ser6 possivel por cau- sa de suas implica95es, inclusive de nature- za diplomiitica. A cruz terAi que continuar a ser carregada. Incorporada ao rosbirio de contas avermelhadas dos sistemas energ6- ticos isolados, constitui cardipio indigesto para a privatizaglio. Mais at6 do que os desequilibrios que a venda retalhada da Ele- tronorte provocaria, este 6 um argument poderoso a pesar contra o interesse de com- pradores particulares. Para eles, assumir a Eletronorte tem que ser por inteiro, com o saneamento das contas deficitidrias e, se possivel, jb com a duplica~gio de Tucurui. Antes de vender a Eletronorte, entre- tanto, 6 precise definir uma nova matriz energ~tica e da organizagli (ou reorgani- zaglio) do sistema de produgil e geraglio. No exato memento em que a Eletronorte comemora (e hi motive para comemora- glio?) os 10 anos de funcionamento da hi- drel~trica de Balbina, no Amazonas, abrem- se novas perspectives para Manaus e toda a Amaz~nia Ocidental com os campos de gbs natural de Urucu e de Silves. Usina de meia sola, que s6 consegue produzir no ve- r~io um tergo da sua capacidade nominal de geraCio, Balbina vai se transformando ra- pidamente num anacronismo, apesar do seu formidivel custo final (de um bilhilo de d6- lares para 250 mil kw de potincia, dois ter- 90s de uma das 12 m~iquinas que funcio- nam atualmente em Tucurui). O gbs natural como insumo petroquimi- co e fonte energ6tica deve acabar com o monop61io da hidreletricidade, o que 6 sem- pre bom para eliminar dependencias, e per- mitir andlises comparativas de fatores an- tes de uma decision equivocada. A Amaz8- nia precisa e exige uma political official de energia compativel com a dimension que a regilio vai assumindo, tendo a administrb-la a empresa que jb 6 a maior do sistema Ele- trobris, tanto nos nlimeros ruins como nos bons. Em todos eles, o denominador comum 6 o fortalecimento de uma fungli colonial, de provincia energ~tica, contra a qual os amaz~nidas devem reagir. Jg. 950 de Amparo g Pesquisa do Estado de Silo Paulo), para executar o projeto en- tre n6s. O institute tem, no seu patriminio, as partiess do fundador", papeis que lhe foram transmitidos quando da venda do Projeto Jar! para um consbrcio de em press brasileiras. Gragas a esse instrument, tem direi- to a fiscalizar todos os atos dos sucessores. Podendo in- clusive impugnd-los, e a pre- fer~ncia nos dividends, quando e se a empresa der lucro, o que ate agora nito aconteceu, 20 anos de- pois de ter entrado em ope- ra~gio commercial. Bem que os editors da im- prensa brasileira poderiam agen- dar uma nova abordagem ao as- sunto. Ainda falta contar muita coisa. Quase tudo, alids. * Teste Os mais ilustres visitan- tes da sede da Companhia Vale do Rio Doce, no Rio de Janeiro, ji foram apresenta- dos a uma barra de metal produzida com o minbrio de cobre de Carajls. Ainda 6 uma produglio apenas sim- bblicai O teste para valer val ser feito agora, com uma nova remessa, de 27 mil to- neladas, que a CVRD man- dard para refine no Canadi, de onde sairam os primeiros lingotes. A equa~gio da viabilida- de serA definida pelo acha- do tecnol6gico para o trata- mento do mindrio, com ca- racteristicas fisicas e quimi- cas que o distinguem do co- bre standard no mercado, e seu enquadramento em um custo compativel com a re- munera~gio do produto. Logo, qualquer resposta de- finitiva sobre o cobre do Sa- lobo 6 precipita~gio. Os graves nameros do setor el~trico Vivo Herdeiro do patrim8nio deixado por Daniel Keith Ludwid, o Instituto Ludwig de Pesquisa do Cincer, com sede na Suiga, continue em plena atividade. Foi atrav~s dele que o Brasil passou a fazer parte do Projeto Ge- noma Humano, um estudo em escala mundial para a identificagIo de todos os genes do corpo humane. Os pesquisadores do institute suigo vieram com cinco mi- lhbes de d61ares, aos quais se juntaram outros US$ 5 milh~es da Fadesp (Funda- 4 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE ABRIL / 1999 O fim do idesp: um ato O governador Almir Gabriel nito 6 um democrat. Se fosse, nio mandaria para a Assembl~ia Legislativa uma enxurrada de projetos importantes, que efetivam a reform da c~ipula da administr~aglo es- tadual, exigindo aprovaglio a toque de caixa, gragas ao regime de urg6ncia. AI~m disso, a distribuigio dos projetos parece ter sido feita com o cuidado de afastar eventuais relatores incbmodos. Tudo para que os pap~is voltem g sanqilo governa- mental exatamente como foram encami- nhados ao legislative. A seu favor, o governador poderia ar- gumentar que qualquer desvio de rota po- deria comprometer a integridade das me- didas propostas, desnaturando-as, Depu- tados costumam dar mais atenglio ao fei- jilo com arroz e ao varejo, ignorando a eventual grandeza das matdrias submeti- das B sua apreciaglio. Mas tamb~m estio predispostos a uma transaglio fisiol6gica e clientelista para assegurar a fidelidade do seu voto, esquecendo toda e qualquer ra- zlio mais alta que possa se "alevantar" dos processes, como diria o poet. O atual governor tem sido o mais mili- tante nesse tipo de negociaglio rasteira, o que lhe tem garantido uma maioria parla- mentar que nem mesmo os governor mi- litares conseguiram impor (sempre havia um calo mais sensivel que reagia aos pi- sdes, criando uma inesperada cadeia de rea95es). Como as iniciativas da admi- nistrag~o Almir Gabriel nIio sito precedi- das de uma discussion mais ampla, nem em extensilo e muito menos em profun- didade, restringindo-se a uma gestagilo in- terna corporis, o toma-li-d8-ch neo- franciscano sequer chega a funcionar como boi de piranha. A sociedade ignora que exista a manada. O governor limita- se a brind6-la com presses releases e ret6rica official. Ningu~m poder8 negar que houve uma melhora na administragilo p~iblica esta- dual durante o quatrianio gabrielino, me- nos pela sua aproximaglio de um padrlo desejivel e necess~rio de qualidade e mais por causa dos p~ssimos parbmetros anteriores. Na mbquina official hB ainda uma perturbadora marca do estilo autori- tirio e supostamente iluminista do gover- nador, refratirio a uma discussilo para valer, democri~tica. Algo parecido com o modo de agir do general Geisel na presi- dancia da Repliblica, uma versito g direi- ta (e castrense) do tal do "centralismo de- mocritico" dos partidos comunistas, que tinha tudo de central e nada de democrC- tico, antes como hoje, embora ji nito seja mais vi~vel o regime de partido Onico. O governador se consider um home iluminado, "o escolhido", para usar uma expressito cara a um messianismo e um mandonismo tradicionais entire as elites brasileiras. Quer realizar o seu projeto, que ele efetivamente o tem na cabega, com a menor perturbaCio possivel. Tudo se legitima pelo bem p~iblico a ser alcan- Cado, sobre o qual sua excelincia nto possui a mais remota das di~vidas. Mas a weltanschaaung do governa- dor se comprime num know-how de ci- rurgitio, o que o torna um eficiente exe- cutor de diretrizes, mas nito um formula- dor de political. E por isso que um bom vendedor de peixe conceitual (que em- brulha em linguagem de comparee, fir- mado ao seu lado (e, ji agora, acima dele), se apresenta como te6rico e ideblogo de um "novo modo de gerir o Estado" que niio passa, quando muito, de estreita (mesmo se correta) carpintaria de fundo de quintal. Como se estivesse na Gre- cia antiga, o governador sd sanciona a democracia ara outros "escolhidos que nem ele, desligando-se do "deta- lhe vital de que a democra- cia em Atenas era direta, em funlpO da sua populagdob, da Sua COmposigdob social e da sua histdria anterior de com- bate aZs~ tiranias, enquanto a nossa e' (ainda) tortuosa- mente representative. Talvez o apparatchik tucano esteja convencido da excel~ncia de seu projeto reformista para o Estado, mas nito trans- mitiu esse convencimento B sociedade. Nilo por falta de oportunidade, j6 que a redundante propaganda official era (e, em menor media, ainda 6) veiculada g larga, mas por ausincia de vontade (e at6 de tra- quejpo para essa atividade de extensilo). E assim que, de um trono disfargada- mente republican, sua excelancia des- pacha seus iditos para os (apesar de tudo, inevitaiveis) desviios parlamentares. Bas- ta examiner um desses raios legisferan- tes (em sentido literal) para ter uma id~ia da gnoseologia gabrielina. E~o caso da mensagem que acompanha o projeto de lei extinguindo o Idesp. De fato, o Instituto do Desenvolvimen- to Econimico-Social do Para j6 se en- contra extinto. TB-lo estripado em vida, antes de poder contar o respaldo legal para o ato, ji evidencia o modo governamen- tal de praticar a democracia enquanto mal necessirio (ou incontorn~ivel). Mas al~m desse desprezo pelo contehdo de realida- de de um rito formal, a mensagem 6 uma agressilo B contemporaneidade, uma con- tradigilo com o enunciado do projeto re- formista. Diz sua excelancia que o Idesp deve ir (na verdade, jB foi) para a tumba por- que, ao long dos 30 anos da sua exist~n- cia, teve sua importincia diminuida "a cada nova missio institutional que o Es- tado criava, esvaziando suas fun95es e resultando em greas de atrito institucio- nal, ora pelo desenvolvimento de aqaes paralelas, ora por sua duplicidade". De fato, o Idesp deu origem, ao long de 10O anos (1978/88), a tras novas secre- tarias (Seplan, Seicom e Sectam). Elas, contudo, nito o anularam. Muito pelo con- tr~rio at6: obrigadas a desempenhar uma agilo executive especializada, essas se- cretarias tanto niio podem ter uma vision do todo como ficaram ao largo da andlise reflexiva do que fazem. O obrismo, com- binado comn o empirismo, pode constituir a forga de um 6rg~io executive (reforga- do pela cobertura, por enquanto apenas sobrenadante, das sete secretaries espe- ciais), mas silo apenas uma parcela da fun~tio p~blica. A outra parte poderia ser desempenhada, com mais clareza concei- tual, pelo Idesp. Desobrigado de produzir mercadorias, o institute poderia se especializar em ge- rar id~ias, em discutir priiticas, em ilumi- nar caminhos, em antecipar situa95es. Ou seja: passaria a atuar na linha de frente do conhecimento. Nilo um conhecimento es- tritamente academico, mas delimitado pela agenda do memento. Algo coerente com a proposta que o fisico Jos6 Maria Bassa- lo jgapresentou aqui mesmo neste journal. Esta lacuna torna-se escancarada- mente visivel agora, no confront do go- verno com a Companhia Vale do Rio Doce. Nas trbs secretaries derivadas do Idesp nito hfto conhecimento de vanguar- da utilizilvel como element de aptio inte- lectual do governor. Nio havia mesmo no Idesp, que foi se esvaziando ao long do JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE ABRIL / 1999 S contra a critical e o future I _ tempo. Justamente por isso, entretanto, o Idesp continuava a ser uma estrutura po- tencialmente important, vital at6. Falta- va-lhe apenas ser revitalizado por dentro, com massa cinzenta (e, por isso mesmo, necessariamente critical e dispor das ferramentas para se tornar aquela "cons- ci~ncia critical" em que o Ipea (Instituto de Pesquisa Econ~mica da Presidencia da Rep~iblica) se tornou sob o despotis- mo esclarecido de Reis Veloso durante o impbrio Geisel. Nilo nos falta despotismo agora. Falta 6 esclarecimento. As pressas, e para uso imediato, 0 governor est6 indo buscar assessoria (por enquanto, apenas informal) no sul do pais. Mas nito pode criar cultural e nem former um pensamento orginico dessa maneira. E precise saber conviver comn a diversi- dade, a alternincia, a controversial e a critical aberta, os components que ga- rantiram a sobrevida do capitalism e ful- minaram o socialismo (pelo menos o "real") nesta era de informagilo ampla, ripida e massive. A mensagem governmental chega gs raias do cinismo em seu silogismo de meia- ggua. Amanteigando o presunto, ela diz, no seu jargilo neocaboclo, que a biblio- teca do Idesp, com seus 70 mil volumes, ter8 "utilizagilo mais intense quando dis- ponibilizada pela Fundaglo Cultural Tan- credo Neves, na biblioteca do CENTUR, que recebe mais de 1.000.000 de visitan- tes por ano, contra cerca de 200 consul- tas que a instituigilo recebia". Comparando coisas totalmente desi- guais, a conclusion 6 falsa. A biblioteca do Idesp (com muito mais itens do que os 70 mil volumes declarados, incluindo uma preciosa mapoteca) niio existia para con- sulta em massa. NIio era o n~imero de consultas que a legitimava, mas a quali- dade da procura. Ela era uma biblioteca especializada, embora, certamente, de uma especializa~8o mais aberta do que o desejavel. Incorporada pela Biblioteca Central, vai se desnaturar. Mais do que isso. vai ter sua fungilo 6nica anulada. E claro que estudantes do ciclo b~si- co de ensino tamb~m procuravam a bi- blioteca do Idesp apenas para realizar suas tarefas escolares. Mas ela tamb~m estava em condiCges de tender a con- sulta t~cnica, afinada com a natureza de sua atividade pelo simples fato de exis- tir. Esta funglio de vanguard pode nto ser a mais important, mas 6 vital para gerar o conhecimento de linha de frente que tanta falta faz a um Estado de fron- teira como o Parb. A mensagem escarnece a intelig~n- cia dos parlamentares que vilo examin8- la e deliberar sobre ela. Toma-os como parvos, ou, se nito isso, como se fossem absolutamente destituidos de vontade pr6- pria. Diz o governor que a extinglio do Idesp 6 uma "resultante natural" do pro- cesso de ajuste da miquina p~blica dita- do pelas condigaes "econ8mica-financei- ra" (sic) restritivas, "onde a busca da melhoria dos servigos prestados g popu- la~gl,, a redugilo dos gastos puiblicos e a melhoria e ado~gio de novas formas de desempenho administrativo-gerencial sio fundamentals". Ningu~m discordard de ajustar a m6- quina do governor a essas diretrizes, sem limitb-lo, por~m, a elas (o que significaria a uma renoncia ticita B funglio p~iblica, entregando-se as chaves do eririo e dos segredos de Estado ao quitandeiro da es- quina). Mas o Idesp niio estava em desa- cordo com essas exig~ncias, ou ao me- nos nito estava em tese. Bastaria que o projeto de recuperagilo, apresentado por Tereza Cativo no inicio da administra~gio Gabriel, fosse-em frente, com endosso superior, ao inv~s de ser sabotada at6 a li1tima moeda intellectual. Na verdade, o Idesp foi extinto nilo por um natural pro- cesso de ajuste, mas apunhalado por al- gumas de suas criaturas, que, em outras instincias de poder, se voltaram contra suas origens por motivagilo que talvez deva se perquirida em um divil e nito em manuals de administration p~iblica. A supresslio do institute niio devolved8 aos cofres pi~blicos os 4,5 milhaes do seu orgamento, ao contrdrio do que sugere a mensagem. Em primeiro lugar porque, como o pr6prio document proclama, to- dos os servidores do institute serilo rea- proveitados. Os que leram o Didrio Ofici- al em fevereiro puderam verificar quanta gente trabalhava em outros 6rglios da ad- ministragio estadual, e at6 fora dela, esti- pendiadas pelo Idesp. Em segundo lugar, recursos externos que poderiam ser cap- tados por uma instituigli de pesquisa e pla- nejamento, com 30 anos de existancia, vio ficar inacessiveis. E esses recursos redu- ziam a contrapartida do Estado. Em ter- ceiro lugar, assassinando o Idesp sem en- frentar uma reaglio proporcional ao seu ato, o governor sufoca ainda mais o quej jesti em regime pr6-agbnico (ou pr6-falimen- tar, para usar expressilo mais inteligivel pelos dons do poder) no Parb: a critical. Em defesa desse direito de critical e em auto-respeito, os integrantes da As- sembl~ia Legislativa prestariam um rele- vante servigo rejeitando a mensagem go- vernamental sobre o Idesp. Ao menos para que o executive se dB ao trabalho de escrever melhor e raciocinar com mais consistincia ao tratar de matdria tiio sen- sivel ao present e ao future deste mal- tratado Estado. Pode-se ainda conflar no legislative para essa tarefa? Com a resposta, agora, os 41 deputados. Quando a biblioteca mu- nicipal de Icoaraci foi insta- lada no pr6dio, uns 10 anos atris, o chal8 Tavares Car- doso continuava belo e bem conservado, como pude ve- rificar numa visit feita A 6poca. Entregue depois A pr6pria sorte, quando a bibli- oteca foi transferida para uma constru~gio inexpressiva, em outro lugar da assim cha- mada "vila sorriso", o pr~dio Lemos). Bomn para os em- preiteiros, p~ssimo para o erdrio e a autenticidade dos testemunhos fisicos da hist6- ria da cidade. Ser6 que essa lei niio escrita, mas fulmi- nante continuarS em pleno vigor sempre, sem que nin- gu~m tenha sua responsabi- lidade cobrada e indenize o patrim8nio p~iblico? Fica a pergunta, atris de uma resposta. reduziu-se a uma ossada de tij olo. Acabou perdendo todos os seus aderepos e comple- mentos. O saque foi conclui- do por gangues, que o toma- ram como sede. RecuperB-lo, agora, custard 1,6 milhilo de reais, prego de uma mansio magnifica em Beltm. Eviden- temente, o servigo n~io resti- tuir8 ao pr6dio seu valor his- t6rico e arquitet6nico origi- nais. Mas tem que ser feito. A regra das recupera95es na capital dos paraenses 8 s6 serem realizadas quando se tornaram caras demais e o dano causado pela incGria ou mesmo oabandono provocou lesito praticamente irrecupe- r~vel (de que slio exemplos os palacetes Bolonha e Comen- dador Pinho, al~m da residen- cia official e o pal~cio Antinio Regra cru el 6 JOURNAL PESSOAL *2" QUINZENA DE ABRIL / 1999 De vez em quando aparece algubm querendo ressuscitar algum escritor que consider injustamente esquecido. Na maioria dos casos, por~m, o esquecimen- to C merecido e o artist est6 bem posto sob a tumba do tempo. Mas nho no caso de Paulo Plinio Abreu. Ele 6 o maior exemplo de descaso que conhego entire n6s, prova dos nove da nossa incultura. Em setembro, nos 40 anos de sua mor- te, se oferecer8 a oportunidade para redi- mirmos o pecado da ignorincia em que o Pard 6 reincidente contra um dos seus maiores poetas, dos poucos de sabor uni- versal. A Universidade Federal do ParB, que em 1978 publicou o primeiro e uinico livro de Paulo Plinio, 20 anos depois da sua morte, bem que poderia comegar imedia- tamente a tratar da reedigio, revista, cor- rigida e ampliada, de Poesia. Fago essa sugestlio antecipada por- que o livro s6 saiu gragas ao empenho persistent do professor Francisco Paulo Mendes, organizador e apresentador da obra, ao long da administration de tres reitores sucessivos. Como o nosso queri- do Chico Mendes chegari aos 90 no pr6- ximo ano, a homenagem serd dupla e co- letiva: ao poeta, ao seu melhor int~rprete e a n6s todos, que seremos premiados com um dos mais refinados volumes de poe- sia da literature brasileira. Paulo Plinio Abreu 6 um desconheci- do, inclusive para os seus conterrineos. Nem mesmo estudantes de letras sabem de quem se trata. O que niio 6 muito difi- cil de explicar: impresso por uma grifica particular, a Grafisa, Poesia nunca figu- rou no catblogo de publicag8es da edito- ra da UFPA, nem 6 exibido na sua livra- ria. Mesmo no dep6sito da universidade, ningu~m sabe, ningu~m viu. O livro teve circulagio semi-clandestina. Em anos de convivio universitirio, s6 recentemente vi um grupo de estudantes se interessar pelo tema, quando lhe foi pro- posto. Mas nem os mestres parecem em condigdes de orientar uma pesquisa para recolocar o grande poeta ao alcance dos vivos em sentido biol6gico, j6 que, na pe- numbra do tempo, ainda assim Paulo Plinio 6 muito mais essencial do que muito poe- tastro posudo em dispensiivel atividade. Ai comega a explica~gio: Paulo Plinio teve vida recatada, sem badalagio, hostile g auto-promoglio, exigida como condigio para a provincia consagrar um autor, im- pondo-lhe multa vida liter~ria, mas nto tanta atividade literbria propriamente dita. Plinio era um exilado na sua terra, viven- do-a para dentro de si, introspectivamen- te, ligando-se a ela atrav~s de sua origi- nal sensibilidade, com raizes plantadas no contido e denso lirismo de sintaxe teut6- nica (6 o Gnico exemplar dessa linhagem entire n6s, o que explica sua identifica8o com Rilke, de quem traduziu as Elegias de Duino, comn Peter Paul Hilbert). Esse sentiment do exilio 6 manifes- tado na Autobiografia de um poeta que "Para o filho trouxe a voz de um mundo solit~rio/ Obscuros caminhos para a des- coberta/ De uma linguagem pura e o de- sespero/ De estar ausente e incomunic8- vel/ Entre cora95es que morrem e vozes que caminham" . O poeta buscava seu verdadeiro pais, que n~io era aquele no qual biologicamente vivia. Esse "pais" estava al~m da vida, por tris das aparancias de realidade, num mundo idealizado pela consci~ncia e a sensibilidade, temporariamente bloquea- do pela morte (outro tema recorrente na obra de Paulo Plinio), mas ultrapassan- do-a atrav~s do mito. A morte, ali~s, 6 a sua verdadeira poesia, nito na versilo pro- saica em que 6 apresentada: "Quero sen- tir em mim as frias miios da morte para ver o abismo", anunciava ele. Por isso, a premoni~gio permanent do fim precoce, que enche de misticismo os seus verses, de imagens surpreendentes, comoventes, fortes mas doces, fatalistas mas tranqililas. Paulo tem o "estilo da velhice", que mestre Otto Maria Car- peaux identificou nos artists que mor- rem cedo, "conscientes de uma predesti- naglio que paira sobre eles", antecipando "experiencias fora do tempo; at6 experi- encias transcendentais". E precise recolocar em circulagIlo esse grande poeta, que se foi aos 38 anos, atra- vis de uma edigio digna, que aproveite o trabalho esplendidamente pioneiro de Fran- cisco Paulo Mendes, enriquecendo-o. O livro de 1978 (ou de 1977, outra data tam- b~m registrada) tem que ser precedido de uma boa revislio, nova pesquisa nos origi- nais, iconografia, depoimentos e uma edi- glio grifica compativel com a importancia desse empreendimento cultural. Ele tirard Paulo Plinio Abreu da tumba do esqueci- mento, na qual ele niio cabe. Pois foi para ser verdadeiramente imortal, numa dimensito que acreditava possivel alcan~ar, que ele morreu. Nlo para ser injustamente esquecido. Essa desidia nos faz um mal enorme, mais do que a ele: onde estiver agora, para PP Abreu ser~i nada. * O esquecido poeta q ue se encantou Heroina oculta Sem a mulher, Elizabeth, o naturalista suigo Louis Agassiz j amais teria tornado seu hivro de viagem ao Brasil, no mnicio da segunda metade do s~culo passado, uma das mais agradiveis fontes de conheci- mento sobre o nosso pais (e particular- mente sobre a Amaz~nia). No entanto, a autoria da obra 6 creditada apenas ao marido, destiny ingl6rio tamb~m imposto a madame Coudreau, que acompanhou e substituiu o marido, o controvertido Hen- ry, em outra s~rie de viagens e livros pelo sertilo amaz~nico um pouco depois. Por tris de um grande home sem- pre h9 uma grande mulher, desconfla a sabedoria popular, confirmada agora pela sobrinha-bisneta de Carolina, esposa de Machado de Assis, geralmente reconhe- cido como o maior escritor brasileiro. Ruth Lima, a herdeira do casal, garante que os textos do bruxo do Cosme Velho, antes de serem editados, passavam pela com- petente revisgo da esposa, que fazia mu- dangas seguindo seu apurado sensor estC- tico, aceitas pelo romancista. A afirmati- va, que retoma um tema pendente nas biografias de Machado, foi feita neste mis a prop6sito da trasladaCio, no dia 2 1, dos restos do casal do mausol~u da familiar para o da Academia Brasileira de Letras. Esse papel decisive e discrete das mulheres me veio a mente enquanto acom- panhava a movimentaeio de Cynthia Marques na missa de um ano de morte de Antinio, seu linico filho home, no domingo passado, na igrej a do Carmo. As pessoas mais chegadas 21 familiar sabiam muito bem do sofrimento de Cynthia, in- formada da trigica morte do filho quando se encontrava nos Estados Unidos, uma dor tanto mais funda quanto silenciosa, introspective. No entanto, passado um ano, os que n~io a viram desde entlio puderam sentir sua fir- meza na condu~ilo da familiar pela transi- glio da perda e do luto. Claro que Andr6 6 o chefe da familiar e quem a manteve unida. Mas Cynthia parece composta daquela tes- situra que tece a fibra daquelas c61ebres (como as de Atenas) personagens femini- nas de Chico Buarque de Holanda. Mulhe- res como essas silo grandes atris da cena pliblica independentemente dos que este- jam atuando no prosc~nio. No caso de Cynthia, em defesa de sua fortaleza 6 precise repetir sempre que seu Ant~nio, um excelente menino, niio me- recia a morte que 0 destiny lhe trouxe. Por isso tantas pessoas enfrentaram a vazia noite de domingo e as chuvas do terrivel abril ellioteano (0 pior dos meses, segundo o poeta) para abragar a familiar que resistiu ao desastre. Memoria amarga dos anos de chumnbo Logo depois do atentado ao Riocen- tro, uma voz vindo da caserna ultrapas- sou as fortes barreiras militares e ecoou na sociedade civil. Comandante da prin- cipal unidade do Ex~rcito no ParB, o 2o Batalhio de Infantaria de Selva, com sede em Bel~m, o tenente-coronel Ni- valdo de Oliveira Dias protestou, atra- v~s de boletim interno, contra a farsa corporativa que estava sendo montada. Ele se convencera de que o sargento Guilherme Pereira do Rosiirio e o capi- tio Wilson Machado eram mesmo os autores do atentado, s6 nio consuma- do porque uma das bombas que~con- duziam explodira no colo do sargento, sentado ao lado do capitio, num auto- m6vel Puma. Para o official, os dois mi- litares tinham que ser punidos, quaisquer que fossem as conseqii~ncias, em nome da honra do Ex~rcito. Quem acabou punido foi o coronel Nivaldo, que perdeu o comando, foi preso e sofreu constrangimentos at6 decidir passar para a reserve, interrom- pendo uma carreira brilhante. Na vida civil, tornou-se volunt~rio do serving de proteg~io a ida. atendlndlo por telefo~ne pessoas detsesperadai em pois. o Ainistirio P i blico esta reabr indu oo processo _s instaurado para apurar o atentado pla- nej ado pela direita military contra o es- petaculo musical que a esquerda reali- zava no Riocentro, no Rio de Janeiro. Mas o grande alvo era o projeto de abertura"lenta, gradual e segura" que o general Johio Figueiredo herdara do ge- neral Ernesto Geisel, conduzido pelo curinga do process, o general Golbery do Couto e Silva. Golbery, ali~s, rom- peria com o governor Figueiredo por causa do vergonhoso inqudrito policial- militar, que transformara os dois milita- res de autores em vitimas. Caindo Gol- bery, subiu o chefe do SNI, general Ot~i- vio Medeiros, mais coerente com o tipo e o proj eto do president. Indiferente a absolute inverossimi- lhanga das conclusies que apresentara para o epis6dio, o coronel Job Lorena foi premiado com promop~o ao gene- ralato. JB o capitio Wilson Machado, al~m de subir a tenente-coronel, rece- beu proteg~io cerrada contra a justiga e a imprensa. Jamais foi incomodado, ape- sar da histi~ria absurda que contou para explicar sua presenga no estacionamen- to do Riocentro (a bomba que explodiu em seu carro teria sido atirada por um esquerdista, jamais identificado). Serd que a reabertura do caso aca- bard com essas imunidades ilegais e abu- sivas, como sempre defenderam os mi- litares que trabalhavam nos quart~is pre- ocupados com suas tarefas, profissio- nais? Sera que a apuragio dos fats e das responsabilidades se consumar8 antes da prescrigio do crime, que se dar8 em 2001? Sera que o Riocentro escapar8 ao ingl6rio destiny dado ao "caso Parasar" (um atentado muito maior e anterior, arquitetado dentro da Aero- nfiutica por oficiais ultra-direitistas e blo- queado por dentmcia do coronel S~rgio "Macaco", mantido em punigio at6 a morte, mesmo com aintervenCio em seu favor do maior nome da corporaqio, o brigadeiro Eduardo Gomes)? A reabertura do "caso Riocentro" me faz lembrar o coronel Nivaldo. Durante varios dias conversamos enquanto ele dirigia seu modesto carro pelas ruas de Bel~m parafu- gir da escuta e da vigil~incia. De- pois que foi preso, mantive ono- ticiar-io (s6 O Estado de S. Pau- lo e A Provincia do Pard pu- blicaram mat~rias a respeito) atrav~s da familiar dele e de um amigo, recebendo suas corajosas mensagens para prosseguir. Despedimo-nos emo- cionados naqueles dias de intimi- dagio e medo (um agent do DOI- CODI ia A noite a redagio de A Pro- vincia atras de mim para assustar). Ainda o acompanhei por algum tem- po, quando ele j8 estava em Recife. Depois perdi o contato. Com esta nota, quero testemunhar a gratid~io e a divida que este pais tem com o soldado e cidadho Nivaldo de Oliveira Dias, nome que honra as me- lhores tradigaes do Ex~rcito brasilei- ro, esteja onde estiver agora. Sem Nara N~o tenho certeza, mas parece que a 61tima apresentagio de Nara Leilo foi em Bel~m, um pouco antes de morrer, 10 anos atrbs. Deixei minha caverna para ir v6-la cantar, na boate do late Clube, ambiente ideal para o alcance da sua voz peque- na, mais diminuida ainda pela doen~a. Ela cantou sentada, ao lado do acompanhante de tres d~cadas, o violonista e composi- tor Roberto Menescal. Foi uma despedida. Por isso mesmo senti- me autorizado a ir cumprimenti-la e dizer-lhe algumas pala- vras. Poucos mess depois o cancer que surgira em seu c~re- bro levou-a. Tinha entio 47 anos. Pego passage para celebrar a boa mem6ria, saudosa sem ser saudosista, no 100 aniversbrio de Nara. Nenhuma cantora popular brasileira foi tilo important do que ela para a minha geraglio. A voz era limitada, disso nem o mais fanitico admira- dor tinha d~vida. Sem corresponder a um Jqilo Gilberto femini- no, ela, no entanto, ignorou as restrigaes vocals para fazer mu- sica com sensibilidade e intelig~ncia. Seu estilo era intimista, mas ela transitava com desenvoltura at6 pelo samba de partido alto porque o trazia para o seu registro, nito arriscando aventu- ras, mas nada excluindo da sua curiosidade. Nara foi uma patronesse musical, se pode-se aplicar-lhe a expressilo mundana. Para desespero de Elis Regina, sua rival involuntiria, tinha um faro excepcional para talents, nito s6 os novos, mas os que estavam incubados de hi muito, como Z6 Ketty, Nelson Cavaquinho e Cartola, trindade magistral da MPB e de qualquer mdsica mundial. Ela era nossa expressloio com potancia elevada. Estava bem perto de n6s, mas nos transcen- dia. E, ao menos para o meu gosto, era a mais bela das Leiio (o destaque de Danuza, element perturbador da personalidade da irm$i 6 produto do fet-set em geral e de Samuel Wainer em particular, quando poderoso). Era impossivel nio am8-la, mesmo i distlincia. E mesmo es- tando ainda mais long hi 10 anos, ouvir sua voz calm, cadenci- ada e s6bria retempera a ktmbranga e ajuda a manter o equili- brio. Para quem n~io viu Nara, ouvi-la niio chega a ser propria- mente uma compensagilo, mas pode ser uma descoberta. Ao menos esta: de que as coisas melhoram quando nelas aplicamos o mhximo da nossa sensibilidade e da nossa inteligencia. J~mlrnsal Sg .Editor: L ljo Fldivio Pinto I Sede: Passagem Epionha, 60-B 053-040 . : Fones: 223-1929 (fqne-fax) e 241-7626 (fax) contato: Tv.Benjamin instant 845/2@(16p- ~ Fone: 223-7690 *e-m II: jornal@arlIaonomr , Ediglio de Arte: Lzaoodfrpt/01304 R . megado a funcionar logo, ou nunca seu projeto teria sido apresentado, ou ele nito fica- ria condicionado a uma ener- gia incerta e nito sabida. Coisas do capitalism sel- vagem com dinheiro p~iblico sem retorno. Equivoco O Jornal do Brasil esti em flagrante decadencia. Sua tiragem 6 vbrias vezes inferior B do seu tradiciona concorrente, O Globo. Para trocar o primeiro pelo segun- do, Luiz Fernando Verissimo deve.ter recebido um bom aumento. Tinha todos os mo- tivos para alojar-se na folha didria de Roberto Marinho. Mesmo assim, parece tio deslocado quanto Paulo Francis, quando deixou a Folha de S. Paulo por O Estado de S. Paulo. McLuhan tinha sua dose de razilo quando disse que o melo 6 a mensagem. Marca reg istrada A fiibrica de cimento da Caima em Itaituba jb custou 150 milhaes de reais. Para entrar em funcionamento pre- cisa de mais R$ 40 milhaes. Hg mais de 12 anos vinha aguardando o suprimento de energia el6trica para produzir (que agora lhe ser9 entregue na porta pelo linh~io do Tramo- este). Quem, nesse period, visitava suas imponentes ins- talaq~es, is margens do rio Tapaj6s, nito conseguia enten- der por que se fez uma imobi- lizagilo tilo grande de capital sem poder (ou sem querer) concluir o empreendimento, faltando bem menos do que ji havia sido investido. A decifragilo do mist6rio, que comega pelo nome da empresa (Companhia Agroin- dustrial de Monte Alegre), que nada tem a ver com sua finali- dade, muito menos com sua localizagilo (sendo heranga de um projeto mal formulado na origem), exige apenas audicia no desenvolvimento do racio- cinio 16gico. Porque o obser- vador acaba chegando a suas dedu95es: 1 A instalagilo in- dustrial serviu aos propbsitos de reserve de mercado. Com aquela fibrica (quase) pronta para funcionar, ningu~m se atreveria a invadir o monop6- lio do grupo Cibrasa na Ama- zania. 2- O empreendimento legitimou a extra~gio em bruto de calcbrio no Pari para sua industrialization no Amazonas, sem provocar protests anti- colonialistas (mesmo sendo apenas colonialismo interno). Ao aprovar os dois proje- tos industrials do grupo Jolo Santos, a Sudam exigiu que eles fossem implantados simul- taneamente, para agradar gre- gos/amazonenses e troianos/ paraenses. Niio houve a tal sincronia. Mas a cada ano a Cibrasa conseguia que Brasi- lia mandasse telegramas para Bel~m determinando ddiregio da Sudam a aplicaglio de gor- das somas dos incentives fis- cais nas duas fi~bricas (incen- tivo carimbado, como se dizia). Se os R$ 150 milhies tives- sem said dos bolsos dos au- dazes capitalistas, certamente a fibrica de Itaituba teria co- Em casa Em maio do ano passado o Tribunal de Justiga do Es- tado abriu concurso phblico de provas e titulo para preen- cher cargos em aberto de ju- izes-substitutos. Em 27 de de- zembro a comissilo examina- dora do concurso divulgou ofi- cialmente o resultado da ava- liagio. No dia seguinte, 13 dos 37 aprovados protocola- ram recurso junto ao presiden- te do tribunal questionando o crit~rio de classificaptio. Em margo, O Orglio Especial do TJE acolheu o recurs e mo- dificou um dos itens do edital do concurso, publicado quase um ano antes. Em conseqilincia, o n~me- ro de aprovados subiu de 37 para 44 e foram modificadas as primeiras coloca95es, que conferem aos seus detentores o priviligio de escolher comar- cas melhor situadas. Quem estava em nono lugar subiu para o lo posto (enquanto o anterior 10 desceu para o 6o lugar); o So passou a ser o 20, o 170 pulou para 7o e assim por diante. Nessa corda-bamba, nomes de parents de magis- trados pululando. Cinco dentre os prejudica- dos jB recorreram ao Supre- mo Tribunal Federal com um mandado de seguranga assi- nado por ningu~m menos do que o ex-ministro Aldir Guima- rites Passarinho. Em defesa dos crit~rios originals, Aldir d~ispara morteiros contra o Orgilo Especial, acusado de ter praticado um "terrivel, espan- toso e-surpreendente engano", o de modificar um edital (com forga de lei para o concurso) com oresultadoj jalcangado, e, por isso, fato consumado. Os pesos estabelecidos para as provas subjetivas e de titulos podem nito ter sido os corretos, mas ao decidir recri- ar regras quando elas ji havi- am gerado seus efeitos, o tri- bunal se sujeita mais uma vez a sofrer a acusa~gio de reali- zar concursos viciados e de utilizb-los para a priitica de nepotismo, inc8modo do qual ji poderia ter-se livrado se delegasse a tarefa a terceiros habilitados e Jlegitimados. Comio hi muito timpo se pede e hag umn temnpo igual o tribunal telma em ignorar/ |
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