Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00157

Full Text





ornal Pessoal
L 0 C 1 O F L A V I O P I N T O


volta


JUSTI(A


Pagando o pato


No moment em que o
senador Antdnio Carlos
Magalhdes tenta
fomentar uma cruzada
santa contra a justice,
declarando-a falida, o Tribunal
de Justica do Pard e cendrio
para cenas que poderiam
confirmar as teses do
condestdvel politico do regime.
Serd que desta vez a justica -'
paraense vai aproveitar a
impetuosidade de uma de
suas juizaspara acertar
suas contas passivas, nas '.
quais se destaca o '' ,*._:
nepotismo, ou apenas a. .
tomard como bode expiat6rio?


Em 1976 os 6rgaos de seguran-
ca quiseram transformar um
conflito fundiario que se en-
sangilentou no Para em um
incident diplomitico com
motivag es political. Vizinhos
e invasores das terras do coronel (da reser-
va dos Estados Unidos) e missionArio pro-
testante John Davis mataram-no, e mais
dois dos seus filhos, nos limits da fazenda
Capaz, uma propriedade de 100 mil hectares
A margem da hoje BR-222 (Bel6m/Brasilia-
Marabd). Os arapongas associaram o epi-
s6dio ao bicentenArio da independ6ncia
americana, comemorado no mundo inteiro.
Posseiros, madeireiros e invasores que em-
boscaram os Davis foram tratados como ter-
32.,5


roristas internacionais: press, espancados,
submetidos a humilhaqbes, confinados.
Uma tnica voz se levantou contra essa
violencia da distant comarca de Sao Do-
mingos do Capim, a terra da pororoca, em
defesa do primado da lei. A pretora Martha
Inez Antunes Lima mandou soltar todos os
press, a pedido dos advogados Ruy Barata
e Gabriel Pimenta (este, depois assassinado
em Marabd), com uma sentence que ignorou
todas as presses para manter as pris6es
francamente ilegais. Al6m de corajosa, a sen-
tenga era tambdm fundamentada, evidenci-
ando as qualidades de quem a redigira.
Desde entao, Martha Inez evoluiu na car-
reira como uma das mais dignas, corajosas e
preparadas juizas do ParA, um raro Estado


brasileiro no qual as mulheres assumiram o
dominio da magistratura. Hoje, ela 6 a mais
antiga integrante do judiciArio, mas sua as-
censao ao cargo seguinte, o de desembarga-
dora (13 das 27 cadeiras j sao ocupadas por
mulheres, num colegiado no qual, 20 anos
atrAs, havia apenas uma delas), foi virtual-
mente bloqueado por um desgastante epi-
s6dio ocorrido no m6s passado.
No dia 11 de marco, a juiza, titular da
important 14a vara civel da capital (6 pri-
vatiza dos feitos da Fazenda), interpelou ver-
balmente o rec6m-empossado president do
Tribunal de Justiga do Estado, Jos6 Alber-
to Soares Maia, travando com ele uma vio-
lenta e rasteira discussao no gabinete da
presidencia. O pretexto imediato: Maia de-)







2 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DEABRIL/ 1999


)terminara a sustaqao das f6rias do filho da
juiza, motorist concursado para o cargo de
guard judiciario, mas que vinha atuando
na presidencia do TJE. O filho dajuiza, que
tivera negado seu pedido de aumento da
gratifica9Ao que recebia, quando passou da
vice-presidencia para a presidencia, reagira
antecipando por conta pr6pria suas f6rias,
previstas para julho.
O incident 6 revelador da promiscuida-
de que, hA muitos anos, marca e deforma o
funcionamento da mais alta corte do judici-
Ario paraense. Novos desembargadores, ao
serem promovidos, arrastam consigo uma
parentela que, eventualmente,j havia sido
engastada nas instAncias inferiores, ou que
6 incorporada no tribunal, simbolizado, na
linguagem forense, como "o quarto andar",
uma esp6cie de olimpo al6m do alcance dos
simples mortais, um clube fechado para a
prAtica do nepotismo.
O filho da juiza, mesmo sendo apenas
um guard judiciario, se comportava corn a
arrogancia de quem se atribui uma exten-
sao dos poderes da mae. Mesmo que o ato
do seu chefe tivesse alguma conotacgo
moral, de punigao, estava formalmente cor-
reto. Ao se declarar unilateralmente em fdri-
as, por nao conseguir elevar sua gratifica-
9ao (de 60% para 80% do salario), atrope-
lou as normas e procedimentos regulamen-
tares, como se estivesse na pr6pria casa.
Martha Inez interpretou o ato como
procedimento preliminary para declarar o
abandon de emprego e dispensar o servi-
dor, mas essa 6 apenas uma interpreta9ao
pessoal, que os fatos nao autorizam. O epi-
s6dio, de qualquer maneira, foi apenas a
traditional gota dagua, que s6 se explica
inteiramente por suas circunstancias e an-
tecedentes.
Martha Inez, desde algum tempo atris
convocada pelo TJE para suprir a lacuna
de algum desembargador eventualmente
ausente, sente-se imjustigada. A cada
vaga do desembargo que se abria, desen-
cadeava-se a indagagao geral: Martha fi-
nalmente seria admitida? A resposta era
sempre a mesma: nao. As sucessivas ne-
gativas acabaram corn as ilusbes da ma-
gistrada de ser promovida pelo crit6rio do
merecimento, o que fariajustiga A sua car-
reira, pontilhada tanto por polemicas
quanto pelo respeito p6blico. Restava-lhe
o critdrio da antiguidade, que agora pare-
ce ter-lhe sido retirado.
Aproveitando o confront corn o pre-
sidente do tribunal para o desabafo que,
at6 entao, reservava para conversas pri-
vadas, Martha Inez perdeu o control das
suas palavras e o dominion da circunstan-
cia. Sua metralhadora girat6ria alcanqou
gregos e troianos, amigos e inimigos. Dis-
parou verdades que todos conhecem em
meio a den6ncias que dificilmente vai po-
der provar, embora tamb6m os denuncia-
dos nao tenham como demonstrar o con-
trArio. Como o onus da prova recai sobre
quem acusa, acabou saindo uma interpela-
9go judicial que parecia ter engatado, quan-
do os Animos serenaram mais um pouco.
A inabilidade de Martha Inez provocou


uma convenient reaqao geral, de autenti-
co esprit des corps. Todos os 18 desembar-
gadores presents A sessao do Tribunal Pie-
no votaram pela interpelaqfo. Alguns de-
les, mesmo nao citados no libelo verbal da
juiza, condenaram-na. Tinham seus motives
para tamb6m se sentirem ofendidos por ela,
mas deviam discernir os excesses ditos das
verdades que ajuiza igualmente expressou,
algumas das quais explicam por que o pr6-
prio tribunal continue realizando concursos
controversos, mudando regras mesmo
quando o resultado final ja foi anunciado,
como ocorreu neste ano.
Essas verdades poderiam ser trazidas
ao conhecimento p6blico sem maiores trau-
mas e utilizadas na correqlo dos proble-
mas que as provocaram se houvesse um
control externo dojudiciario. Envolvidos,
por6m, por uma grossa camada de prote-
9io corporativa, osjuizes tnm sido tao in-
capazes de auto-corre9Ao que acabam pro-
vocando iniciativas de ma origem, como a
CPI do senador Antonio Carlos Maga-
lhaes. E evidenbte que sua iniciativa de-
mag6gica e (ji) eleitoreira medra no terre-
no f6rtil da insatisfagao popular, na croni-
ca dos escandalos que pipocam diariamen-
te nos foruns e sao amortecidos pela ame-
aga de represAlia que maus juizes deixam
implicita ou abertamente apresentada.
Ao condicionar sua promogao a uma
dessas ameagas, de implodir o tribunal com
a revelagao dos seus podres, Martha Inez
expos-se ao risco de receber a rejeigao de
dois terpos dos desembargadores quando
seu nome for submetido para apreciagao
por antiguidade. Isso nao aconteceu com
os desembargadores Humberto de Castro
e Werther Benedito Coelho, dois nomes es-
tigmatizados como magistrados, mas, as-
sim mesmo, aprovados (Castro chegou a
ser corregedor geral de justiga, ai, sim, uma
raposa cuidando do galinheiro). Se eles
subiram ao desembargo, como vetar esse
caminho para Martha Inez? Apenas por
seu destempero verbal? Porque agiu com
desequilibrio emotional? Porque fez con-
sulta indevida a corte supreme da justiga
para tentar assegurar, ja no desespero, o
que escapa entire os seus dedos?
E bom que as responsabilidades sejam
cobradas e os fatos esclarecidos, conforme
solicitalAo do Sindicato dos Trabalhado-
res do Poder JudiciArio (que o Ministdrio
Piblico rejeitou). Mas tomar esse epis6dio
como motivo para consolidar e finalizar a
imerecida puniqao, que o TJE j vinha dan-
do ha tempos a uma de suas mais dignas
representantes, nao significara punir exces-
sivamente uns, a despeito de seus acertos,
e premier outros, apesar de seus inumerA-
veis e graves erros?
A resposta estA nas maos dos 27 de-
sembargadores do TJE. Mas a cobranga 6
prerrogativa de toda a opiniao pdblica, que
deve aproveitar para exigir seus direitos com
prop6sitos mais elevados do que os do se-
nador ACM e cor interesses menos subal-
ternos do que os de muitos magistrados
que querem manter tudo como esta (podre)
para ver como 6 que fica (injusto). *


Voz do


dono

Emjunho de 1998 o grupo Globo, A frente
a TV Globo, devia no exterior 3,5 bilhoes de
d61ares, pouco mais de duas vezes e meia o
seu patrim6nio liquid. E a quarta maior cor-
poraqAo empresarial privada endividada em
moeda estrangeira do pais, a terceira pior em
mat6ria de liquidez (s6 perde para a Varig e a
Editora Abril). Essa verificag9o tornou-se
possivel a partir da publicagao de um quadro
do endividamento de 50 grandes empresas,
publicado pela Folha deS. Paulo, no dia 7 do
mes passado.
Muita gente deve ter-se espantado com
a fragilidade das contas da V6nus Platinada.
O elevado d6bito cambial poderia sugerir que
ou o grupo de Roberto Marinho nao estava
bem informado a respeito da crise econ8mi-
ca brasileira, ou colocou-se acima do mundo
dos simples e mortals terrenos. Infelizmente,
os dados divulgados pela Folha, obtidos
junto a terceiros ou em contato cor a pr6-
pria Globo, nao permitem uma avaliagAo se-
gura sobre a evoluqao dessa situagao a par-
tir dejunho do ano passado periodo no qual
o d61ar se valorizou em relagao ao real). O
journal sugere que a posigao pode ter sido
um tanto atenuada pelos rendimentos das
aplicaqoes financeiras pela Globo, tamb6m
em d61ar, fazendo o saldo liquid negative
baixar para US$ 2,4 bilhoes. Mas nao hA nd-
meros seguros a respeito.
Mesmo nessa hip6tese menos pessimis-
ta, o equilibrio do poderoso grupo de comu-
nicaqao nao 6 tao s6lido quanto a imagem
projetada institucionalmente tenta demons-
trar. E possivel supor que, quando toma em-
pr6stimo, a Globo consegue impor seu po-
derio com mais convencimento do que as
garantias reals apresentadas para a opera-
9go financeira. Mas para manter essa fisica
de meia sola precisa continuar a ter poder de
fato e de monta.
A publicaqao da Folha nao deve ter fei-
to bem aos humores do doutor Roberto. Man-
dou seu recado atravds da jornalista Lilian
Witte Fibe, Ancora do Jornal da Globo. No
seu artigo semanal, distribuido para various
jornais pela Agencia Globo e publicado no
dia 17, La Fibe protest contra a excessive
transparencia de informa96es antes manti-
das sob sigilo no circuit financeiro (e sua
extensio jornalistica) de insiders, os que
"estAo por dentro", sem dizer respeito A opi-
niao p6blica.
Reclama a iracundajornalista contra esse
"fenomeno curioso": "uma transparencia cres-
cente das complicadas opera96es financeiras
que fazem andar esta gigantesca maquina
chamada Brasil, tanto no setor privado, quanto
no publico", causando males A imagem e aos
neg6cios das empresas, sem permitir ao cida-
dao saber exatamente do que se trata e se ele
ter alguma coisa a ver cor isso.
Os jornalistas ja tiveram mais pudor em
ser moleques de recado. 0






JORNALPESSOAL 1a QUINZENADEABRIL /1999 3





0 coronel das crian as


Ricardo tinha entao seis ou sete anos.
Gostaratanto da visit que, ao ir embora, pro-
p6s a Alceu Menna Barreto:
Pai, compra um coronel pra brincar
cornigo?
O coronel que cativara o menino Ricardo,
como a muitas outras criancas que foram A
casa dele, na Boaventura da Silva, atemoriza-
ra e at6 enfurecera gente muito mais velha.
Antes do movimento military de 1964, Jos6
Lopes de Oliveira chegou at6 a ser apontado
como official comunista infiltrado no Ex6rcito.
Depois, foi visto como um ferrabrAs da direi-
ta, responsavel por todos os atos de arbitrio
e viol8ncia cometidos no Para pelos novos
donos do poder absolutista, um home radi-
cal e inflexivel.
Tal terreno tornou-se campo f6rtil para
uma mitologia sobre o "Peixe Agulha", apeli-
do inspirado na sua habilidade como nada-
dor (cobria tr8s mil metros j avangado nos 70
anos de idade). Dizia-se que uma vez ele en-
trara num xadrez de quartel, trancara a porta e
jogara a chave fora ao constatar que trans-
gredira qualquer dispositivo do regulamento
military. Impassivel quando ouvia a hist6ria, o
coronel Oliveira se limitava a desmentir, sem
muita esperanpa de poder desfazer a boataria
a seu respeito.
Mas inegavelmente algumas narrativas
eram verdadeiras. Ele impressionou seus co-
mandados do CPOR ao se apresentar para ir
corn eles numa longa caminhada, de igual para
igual. Os antecessores aboletavam-se numa
"viatura", conforme ojargao castrense, e chu-
tavam para escanteio a pedagogia do exem-
plo. Na said de uma dessas excurs6es de
treinamento, um military da Marinha deixou-se
ficar no banco de uma parada de onibus em
frente ao Col6gio Gentil Bittencourt enquan-
to o official puxava a tropa. Foi o bastante para
o coronel Oliveira enquadrar o military desa-
tento na voz de comando e incorporA-lo ao
grupo at6 o limited da sua desleixada complei-
qAo atl6tica, em march francamente forgada.
Josd Lopes de Oliveira nao mandava re-
cado, nao fugia As suas responsabilidades,
assumia integralmente os seus atos, levava a
s6rio tudo o que estivesse escrito em regula-
mentos ou leis, nao se intimidava corn cara
feia, nem cor titulos, defendia com ardor suas
iddias (admitindo mudA-las, desde que nAo
fosse obrigado pelo vencedor a reconhecer
que fora vencido) e acreditava que viver sig-
nificava desempenhar uma missao. Na sema-
na passada ele consumou a dele, aos 81 anos,
cor um saldo altamente favorAvel, como um
home digno.
Fui seu interlocutor durante um quarto de
s6culo. NAo poucas pessoas se admiravam
de uma pessoa dita de esquerda pudesse
manter relagqes tao duradouras corn algu6m
classificado de direita. A maioria das nossas
opinibes nos separava, As vezes em duelos
verbals que s6 nao chegavam ao paroxismo
porque um de n6s recuava ou a doce dona
Helena se apresentava como uma pausa im-


plicita para "os nossos comerciais" (um cafe-
zinho, um doce maravilhoso que fazia ou qual-
quer coisa que ela inventasse para nao deixar
minha glutonaria em brancas nuvens).
Muito, por6m, nos aproximava. O coronel
Oliveira era um leitor compulsive, que ia at6 o
final das suas leituras, ao contrario de muitos
homes da esquerda, que o combatiam com a
presungdo de dominio da verdade (mas nAo
para aprende-la). Freqientemente liamos o
mesmo livro por perspectives divergentes,
mas eu estava diante de um verdadeiro inte-
lectual. Castrense, 6 verdade, mas nem um
milimetro o distanciava da altura mental de
outro intellectual posto em outro extreme do
espectro military, o general Nelson Werneck
Sodr6, tamb6m recentemente falecido.
Visitei o general, na sua casa da rua Dona
Mariana, em Botafogo, no Rio de Janeiro, com
Joel Rufino dos Santos, um dos seus colabo-
radores na Histdria Nova, tentative de rees-
crever a hist6ria brasileira que os novos se-
nhores do poder, colegas de armas do coro-
nel Oliveira, reprimiram. O general Sodr6 nos
recebeu de pijamas e nos levou para o interior
do apartamento cor a altivez de um chefe
military que, pelo corredor, passasse em revis-
ta... milhares de livros ali acumulados, A falta
de soldados.

As duas obras definiti-

vas de Sodr6, a meu ver,

sao Hist6ria Militar do

Brasil, Memorias de um

Soldado e Memorias de

um Escritor (esta Altima,

infelizmente, inconclusa).
Neste ponto, o coronel Oliveira e eu tinha-
mos a mesma opiniao. Tamb6m achAvamos
que Batismo de Fogo e Pantaledo e as Visi-
tadoras, romances de MArio Vargas Llosa (urn
precursor do nosso FHC em lingua hispani-
ca, sem ter conseguido chegar ao poder, feliz-
mente para todos e principalmente para a lite-
ratura), eram o melhor retrato da escola military
e a melhor satira do espirito burocratico da
instituigao.
Nao 6 verdade, por6m, que a rigidez im-
posta pela vida internal do Ex6rcito tanto aos
seus soldados de esquerda, como Sodr6,
quanto aos assim chamados de direita, como
o coronel Oliveira, os tenham impedido de ser
completes intelectuais, abertos a polemica,
receptivos As novas teses, incluidas as her6-
ticas. Dos nossos encontros fica-me o gosto
- saudavel e saudoso das boas aulas, da-
quelas ocasiBes para aprender cor quem
combinou o process intellectual do conheci-
mento com o aprendizado vivencial, numa re-
sultante verdadeiramente dial6tica. Essa sin-


tese nao desagradaria a um aplicado leitor de
Marx e de autores marxistas, mesmo quando
empenhado em impedir a consuma9io des-
sas iddias no pais ao qual dedicou toda a sua
carreira e os produtivos anos que lhe resta-
ram A distancia de um poder que, por um certo
moment, deteve.
O home pdblico que ele sempre foi deve
ter-se ido com um gosto travo na conscien-
cia. O Pard e o Brasil nao tiraram do gadcho
que aqui se enraizou todos os beneficios que
sua capacidade possibilitaria. Se fosse mais
maleAvel, menos sincere, o coronel Oliveira
teria se tornado politico ou assumido um car-
go piblico de relevo, mas mesmo seus alia-
dos e, sobretudo, alguns deles sabiam
que nao o controlariam. Ele preservaria sua
autonomia, o direito, do qual nao abria mao,
se seguir as determinacges da sua consci6n-
cia e do seu conhecimento.
Por isso, e nao por suas eventuais defici-
encias ou limitagces, foi marginalizado. Era
perigoso. Ele ainda tentou ser fitil, pondo em
aplicagao suas muitas habilidades e saber, mas
os caminhos que ajudara a abrir para o exerci-
cio do poder Ihe foram vedados. Aca.ou se
conformando, desviando seu espirito civico
para as conversas que mantinha com os pou-
cos verdadeiros amigos que o acompanha-
ram at6 o fim, sem dele nada querer que nao
fosse decorrente de sua riqueza internal.
Em varias visits, meus tres filhos, A 6po-
ca ainda criangas, saiam felizes, depois de te-
rem saqueado a reserve de bombons do coro-
nel e brincado cor os brinquedos que ele
mantinha sempre em estado de alerta para uso
infantil. Aprenderam a descobrir que por tris
daquela carranca intimidat6ria na aparencia
havia um home bom, afavel, amigo, camara-
da, paciente e bem humorado cor todas as
criangas, a ponto de ter provocado o impulse
possessive do Ricardo Menna Barreto. Ao
saber por Alceu do epis6dio, o coronel co-
mentou corn ironia:
E, e comprar um coronel nao estA ld mui-
to dificil hoje em dia.
Por frases corajosas assim, ditas sem ne-
nhuma intenqao de ferir ou causar complica-
9ao, mas sem nenhuma preocupagao de auto-
preservagao, o coronel Jos6 Lopes de Olivei-
ra j nao reunia em torno da sua mesa a legiao
de pessoas que se aproximara dele julgando-
o o home mais influence do movimento mili-
tar de 1964 no Para, no quartel ou no edificio
Justo Chermont, onde comandava o imp6rio
do encantador Afonso Chermont.
Esses falsos amigos sumiram ao verificar
que o military nao trocaria jamais sua carreira
pelo carreirismo, civil ou anfibio. Os poucos
que ficaram acompanharam os iltimos dias do
"Peixe Agulha" privilegiados pela honra que
ele conferiu aos que continuaram a ir A sua ji
nao tanto frequIentada casa atraidos pelo ho-
mem de espirito superior, nao pela promessa
de poder. Quanto a isso, o melhor veredicto 6
dado pelas crianqas, que julgaram adequada-
mente o cidadao Jos6 Lopes de Oliveira. 0






4 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE ABRIL / 1999





A inc6moda nudez da



grande imprensa


Escrevi esta resenha do livro de Bernar-
do Kucinski (A syndrome da Antena para-
bdlica Etica nojornalismo brasileiro, Edi-
tora Fundagdo Perseu Abramo, 200 pdgi-
nas, 1998) para a revista Teoria e Debate,
que apublicou em seu zltimo numero, o 40,
referente ao trimestrefevereiro-margo-abril.
Como a revista paulista ndo ter larga cir-
culaqgo em Belem, reproduzo a resenhapara
o leitor do JP.
Dezembro de 1968: o coronel Jarbas Pas-
sarinho, ministry do Trabalho do general-pre-
sidente Costa e Silva, declara, perante seus
colegas ministros, reunidos no Conselho de
Seguranca Nacional, que estava mandando
As favas todos os seus escripulos de consci-
6ncia para poder assinar o tristemente famo-
so AI-5, um dos mais 16gubres documents
da hist6ria republican brasileira. Passarinho,
um military com postura de intellectual e arrou-
bos de escritor, talvez nao imaginasse que a
gravaglo daquela sessao do CSN viria a ser
divulgada, pelo mais planetArio dos meios de
comunicagao, a Internet, justamente nos 30
anos do AI-5, ele ainda vivo. E uma n6doa
definitive na sua biografia.
Setembro de 1994: o diplomat Rubens Ri-
c6pero, ministry da Fazenda do president Ita-
mar Franco, admite para o jornalista Carlos
Monforte, em conversa informal, um pouco an-
tes de gravarem entrevista para o Jornal Naci-
onal, da TV Globo: "Eu nao tenho escripulos,
o que 6 bom a gente fatura, o que 6 ruim a gente
esconde". Infelizmente para os dois, a conversa
em off, foi registrada pelo microfone do estidio
e langada pelo espaco, sendo captada atrav6s
de antenas parab6licas por testemunhas invo-
luntArias da inconfiddncia ministerial. O minis-
tro teve que renunciar. Monforte jamais noti-
ciou o mais important da entrevista.
Novembro de 1998: o president Feran-
do Henrique Cardoso liga para o ministry das
Comunica95es, Mendonga de Barros. O mi-
nistro o tranqiiiliza: o ambiente esta propicio
as privatizag9es das estatais das telecomuni-
caq9es. "A imprensa esta muito favorAvel, corn
editorials", observa, do outro lado da linha. O
president arremata: "Esta demais, nd? Estao
exagerando ate". Sem os dois desconfiarem,
a conversa esta sendo gravada clandestina-
mente por algu6m interessado em agitar esse
muito bem armado para consume externo -
cdu de brigadeiro.
Tres moments reveladores da hist6ria re-
cente do pais. Ao exercer o poder, a elite descar-
ta os seus escrfnpulos. Para evitar problems,
dissimula e manipula o quanto pode a opiniao
p6blica. A linguagem official nada ten a ver corn
a dos bastidores do poder, que, almr de crua,
chega a ser pomogrifica. Quem consegue um
lugar nesses escaninhos tern que pagar um pre-
go: o do silencio ou da conivencia. A omissao
ou a parceria sao retribuidas cor as trinta moe-


das. Os principals candidates a esse butim tern
sido osjornalistas, seja os que mandam, seja os
que obedecem. Como reconhece um dos princi-
pais beneficiaries dessa parceria, os aderentes
chegam a ser mais realistas do que o rei. Exage-
ram na bajulagao. Constrangem o pr6prio prin-
cipe, por enquanto republican.
A grande imprensa esta nua, denuncia Ber-
nardo Kucinski em seu l6timo livro, A sindro-
me da antena parabdlica Etica nojornalis-
mo brasileiro. Ele esta muito bem no papel da
inconvenient crianga que denunciou a nudez
do rei. Os leitores desse conto de Andersen
costumam destacar a coragem do menino di-
ante da comitiva real. Mais do que o poder de
iniciativa do denunciante, entretanto, deveria
escandalizar a cumplicidade de toda a popula-
gao com o golpe primArio dos dois astutos
golpistas, que fizeram o rei desfilar em pelo como
se envergasse a mais deslumbrante vestimen-
ta, e ainda ser elogiado pelos participants da
pantomima. O tom de libelo e indignagao de
alguns dos textos reunidos no livro se desta-
cam ao se projetarem como contrast sobre o
coro das unanimidades convenientes.
Parece que a imprensa nunca esteve tao bern
como agora. A Folha de S. Paulo chegou a
superar a inddita tiragem de um milhao de exem-
plares aos domingos, passando a fazer parte de
um seleto clube mundial. Atiragem somada das
tres revistas semanais de informagao (Veja, Is-
toe e Epoca) se aproxima de dois milhies de
exemplares. Mais cautela, porem, corn as dedu-
95es entusiastas, imediatas: a tiragem domini-
cal da Folha, sem os penduricalhos de fitas de
video e enciclop6dias em fasciculo, j diminuiu
um quarto em relagAo A sua melhor marca. Ou-
tras quedas podem se dar ainda. O aprego do
cidadao pela imprensa no Brasil ainda esta mui-
to distant dos padres anglo-sax6es. Sao ins-
titui96es poderosas, mas, como mostra Kucinski,
sofrem de uma profunda crise de legitimidade.
A empresajomalistica tem urn mando ver-
ticalizado como nenhuma outra organizagao
da estrutura de poder no pais. A voz do dono
6 a voz de Deus. Hoje, mais do que antes,
quando havia a censura do Estado, em boa
media aliada mas criando um campo concor-
rencial a partir de fora, sem i rigido control
intemo que os plutocratas da imprensa sem-
pre desejam. Por isso, houve mais democra-
cia nas redagbes sob o regime military do que
agora, embora agora haja mais afluencia.
Hoje, um nimero significativo dejomalis-
tas tem sua sala privada nas redagoes, corn
secretArias e boys, aldm de verba de represen-
ta~go, o que, antes do "milagre economic"
delfiniano era quase impensAvel. Multiplica-
ram-se as empresas de consultoria, relagoes
p6blicas e lobby de propriedade de jornalis-
tas, muitas apenas empresas de papel. Os mais
notAveis tornaram-se conferencistas bem pa-
gos, num faturamento inversamente propor-


cional ao numero de ouvintes, mas diretamen-
te relacionado A seletividade de cada um. Se a
imprensa alternative britanica era, por atitu-
de, anticapitalista, chegando A ingenuidade
de afastar-se do lucro por principio, a nossa
imprensa e, em substancia, neoliberal, globa-
lizada, integrada ou qualquer que seja o
neologismo empregado.
As seg6es econ6micas da imprensa cres-
ceram, adquiriram prestigio, foram melhor equi-
padas do que quaisquer outras. Mas os seto-
ristas de economic nao conseguiram anteci-
par para a opiniao piblica as principals medi-
das econ6micas de impact dos iltimos anos.
Na voragem de cobrir de flores a passage
do rei nu, chega a incomodar, com seu aulicis-
mo, o pauteiro supremo das redag~es, entro-
nizado no PalAcio do Planalto.
Constitui paradoxo inc6modo constatar
que a imprensa alterativa, surgida como rea-
gao de resistencia e combat ao golpe military,
se exauriu a partir da democratizacqo. E de
surpreender que isso tenha ocorrido em um
quadro de liberdades como raras vezes se
estabeleceu na hist6ria brasileira. Ao contrA-
rio do senso comum, a imprensa alternative
nao se tornou in6til ou ociosa a partir dai,
exatamente porque foi-se expandindo a am-
plitude da autocensura.
Da mesma maneira como antes se tomou
imperioso parajornalistas independents pro-
curar uma via alternative para divulgar infor-
maa6es bloqueadas pelo governor military nas
reday6es da grande imprensa, agora 6 cate-
g6rica a necessidade de fazer chegar ao p6-
blico as informagoes que s6 circulam em am-
bientes fechados, reproduzindo nesse nivel a
recordista concentragio de renda, Mesmo
quando participam dessas reunites, muitos
jornalistas guardam o que ouvem para si ou
para os que pagam por seus servigos de as-
sessoria ou palestras em circuit fechado. O
jornalista, intellectual publico antes da legis-
lagao que a Junta Militar (de 1969 e nao de
1968, como diz Bernardo) baixou para amor-
dagA-lo sob a sedugao do corporativismo, foi
privatizado e com dispensa de licitagao.
Se nao hA novidade no compromisso da
elite da imprensa com o control e a manipu-
laCgo da informagdo, 6 inutil a adesio dos pro-
fissionais do jornalismo a esse "consenso
construido", a essa deliberada inteng~o de
fraudar o pfiblico, que o autor se empenha em
denunciar. Ele acha que a via alternative esta
se transferindo para as home pages da Inter-
net, A falta de outra alternative. Mas a novi-
dade dessas catacumbas seria apenas sua
forma eletr6nica. Continuariam na quadratura
de um circulo de iniciados.
O caminho ainda 6 o das ruas, da exposi-
9ao e oferta ao acesso de qualquer um, e nao
apenas dos donos de computadores, o espa-
go pTblico cuja restauraglo Bernardo defen-
de. Mas serA essa uma luta perdida, um leite







JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE ABRIL / 1999 5


derramado em rela~ao ao qual s6 nos resta cho-
rar? Certamente nAo. Algumas exigencias sao
fundamentals. Uma: que toda empresa jora-
listica, a partir de um certo tamanho do capital,
seja obrigada a se transformar em sociedade
anOnima, abrindo a subscriao de parte de suas
aq6es ao p6blico. Outra: que todas as grandes
empresas, a partir de uma certa tiragem, tenham
ombudsman e conselho editorial com repre-
sentagdo da sociedade. Mais uma: que o direi-
to de resposta seja compuls6rio, tomando-se
crime, com penalizagao imediata, a sua recusa
(como j ocorre na FranCa desde 1991).
Nao surpreende que o panorama tracado
por Kucinski seja sombrio e desanimador, con-
trastando com o retrato colorido pintado na
grande imprensa por aqueles que retrucarao aos
arguments deste livro apontando um ou outro
senao do autor, pequenos erros e um certo arti-
ficialismo nas sistematizaq6es e teorizacqes. Num
pais onde a censura A imprensa foi criada antes
do surgimento da pr6pria imprensa e no qual os
jomais circularam primeiro fora dos limits naci-
onais, um menino importuno como o que An-
dersen concebeu estA mais arriscado a ser atro-
pelado pela comitiva de Aulicos do que fazer a
verdade ser restabelecida.
Nao 6 a toa que jomalistas como Bernar-
do Kucinski foram colocados para fora das
grandes reda9qes e permanecem at6 agora
outsiders. Nem todos com a bravura resisten-
te de Bernardo, infelizmente. *


Raio que o part
Diz a explicago official que um raio provo-
cou o blecaute que, no mes passado, deixou
metade da populacgo brasileira sem luz em 10
Estados e no Distrito Federal. O raio, ao cair
sobre uma subestagao da Cesp em Bauru, pro-
vocando um pequeno furo na pega superior
de um component da subestaco, desligou
seis grandes usinas, que produzem 7 mil me-
gawatts de energia (quase o dobro da capaci-
dade de Tucurui). Ao inv6s de provocar um
pequeno curto-circuito localizado, o raio de-
sencadeou monumental apagao.
Exatamente oito anos atrds a Eletronorte
apresentou a mesma explicacAo para o ble-
caute de 12 horas que enfernizou a vida em
grande parte do Estado e quase destruiu a
AlbrAs, no maior acidente causado pela falta
de energia el6trica que uma fabricaja sofreu
em toda a hist6ria mundial do aluminio. Dis-
seram que foi um raio que fulminou uma das
torres da linha de transmissgo de Tucurui para
Vila do Conde e Bel6m. Na verdade, foi o co-
lapso de uma das peas da torre, mal comissi-
onada, cuja vida fitil real era muito inferior A
declarada.
Era o caso de apurar quem e por que acei-
tou indevidamente uma peqa de qualidade
inferior como sendo da qualidade exigida. Fi-
cou, por6m, nos anais da grande imprensa,
sem qualquer outra indagagao, a explicagao
official. S6 neste min6sculo jomal a verdade
ficou registrada. Naquele 1991 paraense, como
neste 1999 no Sul, maravilha, sim, mas nao
tao bem informado, uns poucos continuam a
fazer o que bem entendem com o restante todo
da sociedade. *


A verdadeira Amazonia


O representante do BID (Banco Interameri-
cano de Desenvolvimento) no Brasil, Jorge Ele-
na, disse, na sua visit a Belem na primeira quin-
zena de marno, uma coisa que s6 nao v quem
nao quer. Segundo ele, ParA e Amazonas deviam
cooperar na montagem de um roteiro turistico
combinado entire os dois Estados. Visitantes es-
trangeiros circulariam por atra9ces la e ca, sem
superposig~o. Ao invds de uma cega competi-
Cgo, as duas maiores unidades da federagao con-
jugariam as complementaridades do seu vasto
potential.
Nao s6 no caso do turismo, porim. Ja esta
mais do que na hora de um encontro interinstitu-
cional e multidisciplinar entire representantes do
govemo e da sociedade da Amaz6nia Legal para
discutir e montar uma agenda comum. Apesar de
toda a diversidade geografica e econ6mica, a
Amazonia forma um todo, um conjunto, uma
marca. Deve tirar partido dessa condilao, inclu-
sive no marketing. Como a origem dos princi-
pals investimentos (nao s6 materials, mas tam-
bdm ideol6gicos) 6 extema a regiao, atendendo
apenas os interesses do colonizador, serA extre-


mamente proveitoso pensar numa endogenia re-
gional. O que 6 mesmo que nos une? Que partido
podemos tirar de situages concebidas al6m ou
contra nossos interesses? E possivel mudar o
eixo de determinados projetos?
Principalmente em relaco s marizesdetrans-
porte e energia, 6 urgente introduzir a mediago
local em estrat6gias estabelecidas na considera-
Vao da Amaz6nia como objeto ou p6lo passive,
paisagem ou passage de mercadorias. Os pla-
nos de desenvolvimento at6 agora concebidos
vieram de cima para baixo, a partir de Brasilia,
usando os 6rgaos metropolitanos regionais (so-
bretudo a Sudam e o Basa) como mensageiros.
Os Estados amaz8nicos podem assumir efetiva-
mente a condigao de amaz6nidas e quebrar as
(de toda maneira frAgeis) divis6rias (e restrio6es)
federativas pam elaborar um verdadeiro piano
amazonico de desenvolvimento?
Pode at6 ser utopia, mas para verificar se ela 6
irrealizAvel 6 precise, ao menos, tentar realizi-la.
Quem saina fente paratentar viabilizA-la? Eis uma
lideranga que ficaria bem posta no Para, se o Para
abandonar de vez a presun9fo da primazia. *


O governador Almir Gabriel ficou sabendo
pelas pAginas de O Liberal que o empresArio
Romulo Maiorana J6nior deixou o PL e, no mes
passado, ingressou no PPB, o partido que j foi
de Jarbas Passarinho no Pard. O ato de filiaggo
foi realizado em Brasilia. A ficha de Rominho foi
abonada pelo senador Luiz Otavio Campos.
Embora ambos sejam aliados de Almir, nerihum
deles teve pelo menos a delicadeza de informar
o govemador sobre o fato.
A intengFo erajustamente inversa: surpre-
ender Almir Gabriel e causar-lhe impact. O
objetivo 6 claro: renegociar os terms do apoio
que o grupo Liberal e o ex-senador do gover-
nador tem dado A administration estadual, com
juros e correg~o monetiria (nao apenas em sen-
tido figurative).
Quanto ao grupo de comunicagao, quer
mais verba de publicidade official para os seus
veiculos e participaao maior na pr6pria admi-
nistracao pfiblica, reservando-se a Romulo Jr. o
direito de ser consultado sobre decis6es e ter
indicag8es e sugest6es incorporadas (se ele fi-
nalmente sera candidate, 6 questAo para o futu-
ro, mas pode-se prever que a novela terminarA
em pizza neonapolitana). Ja o senador quer re-
serva de mercado para seu esquema politico
pessoal, que pode ou nao coincidir com o do
govemador, mas precisa ser tolerado por ele.
Luiz Otavio ja nao tem d6vida de que estA
descartado como candidate A sucessao de Al-
mir em 2002. t o prego que ficou do traumatico
epis6dio desencadeado As v6speras do anfin-
cio do secretariado. O governador engoliu os
sapos langados pelo senador que diz ter eleito,
mas nao perdoou o que considerou ofensa.
Dentro do pr6prio govemo 6 cada vez mais
insistente a crenca de que o candidate de Al-
mir serd o secrethrio de produg~o, SimAo Jate-
ne, apesar do desafio que represent carregA-


lo eleitoralmente. O vice, Hildegardo Nunes,
sera brindado com o cargo de governador na
temporada eleitoral.
Estabelecida essa premissa, Rominho e Luiz
Otavio querem fincar uma cabega-de-ponte no
territ6rio tucano, usando como arfete o empre-
sArio Sahid Xerfan. O ex-prefeito, mais uma vez
trocando de sigla partiddria, poderd ou no vol-
tar a ser candidate prefeitura de Bel6m, caso
o PPB deixe de lado a coligag9o de 1998 e se
lance sozinho A dispute. Desde jA funciona
como uma esp6cie de espantalho, mais para
assustar os aliados do que exatamente para
espantar os intrusos.
O recado para o governador, quanto a esse
aspect, 6 direto: o grupo Liberal, agora aliado
particular do senador Campos, quer fazer o can-
didato situacionista A prefeitura. Se nAo conse-
guir, ira retaliar, como jA ameagou fazer. E nao
admitirA que o deputado federal Vic Pires Fran-
co, hoje inimigo figadal dos Maiorana, depois
de ter sido conviva, encontre qualquer facilida-
de no seu projeto de tentar assumir a prefeitura
de Bel6m. Vai ser combatido sem tr6gua.
A alianga, que pretend former um novo ni-
cleo gravitational de poder, tambm tem um sen-
tido dom6stico. Como Gervasio Morgado (igual-
mente migrando do PL para o PPB) nao conse-
guiu se eleger deputado federal, a despeito de
uma campanha milionaria, os Maiorana ficaram
sem seu representante direto no parlamento. E
uma lacuna grave, principalmente agora que o
grupo estA entrando na TV a cabo. Luiz OtAvio
serd o novo porta-voz, inclusive para conversa-
96es cor o senador Jader Barbalho, cuja adesao
(ou pelo menos neutralidade) sera necessAria.
A guerra nos bastidores do poder, at6 a elei-
9o de 2000, ensaio para a dispute de dois anos
depois, vai ser terrivel. Apesar da aparente cal-
maria nas paginas dos grandes jornais. 0


Cisio no poder







6 JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DEABRILY 1999





CVRD: um campo de batalha


Multa de 191 milhoes de reais, ameaga de
revogagao de beneficios fiscais e tributarios con-
cedidos, declaracges iradas: esta em curso uma
guerra santa contra a Companhia Vale do Rio
Doce. Ela 6 a maior de todas as empresas em
operagao no Para, mas tem muito pouco de para-
ense, embora obtenha aqui um terco de todo o seu
faturamento (de R$ 5 bilh6es no ano passado).
cada vez menos paraense, alias: de um imponente
pr6dio de seis andares, vendido no ano passado
ao governor do Estado, restringiu sua representa-
qao em Bel6m a um minusculo conjunto de duas
salas, corn um funcionArio e uma estagiaria, sem
qualquer poder decis6rio. De maior contribuinte
para a receita tributaria estadual, baixou para o
nivel de um supermercado, recolhendo menos de
R$ 4 milh6es de impostos sobre uma receita bru-
ta annual (em d6lar) de US$ 1,2 bilhao (ou em
torno de R$ 2 bilh6es pelo melhor cambio).
E tao fAcil reunir arguments contra o papel
de enclave da CVRD no Pard que esse tem sido
um instrument para vantagens pessoais e gru-
pais, rnesmo quando os protagonistas se apre-
sentam como defensores da coletividade. A clara
agenda de conflitos entire o Para e a ex-estatal, por
isso mesmo, nunca evoluiu para um contencioso
claro, positive, produtivo. Alguns governantes,
que nos fltimos tempos incorporaram essa ret6-
rica (dura, As vezes, mas in6cua como regra), ra-
pidamente a recolheram e nAo evoluiram nos des-
dobramentos desse dialogo, desgastante, mas ne-
cessrio. Preferiram os ganhos de moment (nem
todos declarAveis) as conquistas de long prazo e
beneficios socializaveis.
Num dos epis6dios recentes mais importan-
tes o governor estadual entrou com o diferimento
de imposto (para ser cobrado j na fase de produ-
cao e nao durante a implantaqao do empreendi-
mento) para viabilizar a Alunorte, projeto de R$
750 milh6es que nos daria US$ 250 milh6es de
economic annual de divisas cor o fim da importa-
qao de alumina para a AlbrAs. A CVRD adiantou
US$ 16 milhoes por conta desse diferimento, ver-
ba de period pr6-eleitoral aplicada sem presta-
qao de contas.
Por causa de sua participacqo nessa hist6ria,
Jader Barbalho se apre-
senta como um dos
pais da Alunorte. Nao
chega a ser uma menti-
ra, muito pelo contrA-
rio. Mas tambem nro 6 O Delegado Ger
toda a verdade. Mas a Moraes, e
administraqao Almir propdsito der
Gabriel, que lanqa pe-
dras sobre a anteces-
sora, se esquece de "Ao ler a matdri
que fez o mesmo, com blicada no Jornal P
uma diferenga: rece- marco, gostariamos d
beu US$ 21 milh6es de nalista que, no que di
adiantamento. de trabalho dos pol
A opiniAo p6blica prAtica por esta admi
nada sabe disso. Mas V. Sa. 0 reconhecin
6 porque ela s6 6 con- correta, embora dem
vocada para ver os fo- uma visao real da rea
gos de artificio verbais, dade esta em que sc
disparados quando co- motivados e nosso,
meea um novo round defenderam nossos ii
dessa pugna j antiga, recemos ainda que
mas convenientemente mudanqa de horArio
dispensada quando as sembl6ia geral e refe
parties entram em en- tantes de classes. Inf
tendimentos, conclui-
dos nos bastidores.


Nao hA um traqo de continuidade cumulative (e,
por isso, evolutiva) entire as sucessivas irrupgoes
dessa tensao latente e crescente, o que favorece
os especuladores e aproveitadores, mas nao a his-
t6rianecessariamente envolvente de Para e CVRD.
O novo litigio parece uma reedicqo, apenas
adaptada, dos anteriores. Seu nOcleo irradiante 6
a autuac o da Vale por uma atribuida soneganao
de imposto. O que era uma tese do Estado, ainda
nao firmada nem mesmo no nivel administrative,
transferida para as paginas de O Liberal, o aliado
n6mero um do governor Almitr Gabriel (contrari-
ado, por sua vez, em varios pedidos feitos & dire-
c9o da CVRD, o filtimo dos quais sendo R$ 200
mil de apoio ao program O Liberal na Escola),
virou um crime comprovado.
A verdade tributaria 6 que a Uniao, corn sua
truculdncia usual, liberou os exportadores, atra-
v6s da (muito mal batizada) Lei Kandir, do paga-
mento do principal imposto estadual, o ICMS.
Prometeu compensar essa sangria atrav6s de re-
cursos de um fundo federal, o que faz realmente,
nio por complete, nem cor imediatez. Deu ou-
tras vantagens, como a de permitir que o paga-
mento dos gravames impostos a importaqao de
bens de capital s6 se faga quando os equipamen-
tos ou mAquinas form realmente postos em uso.
Enquanto permanecem estocados no almoxarifa-
do, ficam isentos, embora contabilizados.
O Estado do Para quer, agora, que o recolhi-
mento seja feito no porto de recebimento dos bens
importados. E uma tese tributaria, contra a qual
se insurge a CVRD, que contestou os autos de
infrago. Sugestivo 6 que a inspegAo em profun-
didade do fisco estadual ocorreu ap6s o primeiro
turno da eleicAo do ano passado e incidiu sobre
fatos ocorridos imediatamente antes e ap6s a vi-
gdncia da Lei Kandir. Nenhuma infracao foi de-
tectada em 1998.
Tudo indica que esse contencioso, por seu
conte6do e pelo valor envolvido, vA se prolongar
por bastante tempo, se as parties chegarem ao
judiciario. Mas nSo 6 impensAvel que, bem antes
disso, aparega uma proposta conciliadora. Como,
por exemplo, o perdso de uma divida do Estado
para com a Vale, por conta de cr6ditos acumula-



Carta


aal da Policia Civil, Jodo
'nviou a seguinte carta a
ota publicada na ediado
anterior destejornal:

a intitulada 'A PM', pu-
essoal da 2" quinzena de
Ie esclarecer ao ilustrejor-
iz respeito ao novo regime
iciais civis, colocado em
inistracdo, agradecemos a
rento de que a decisao 6
onstre que ainda nao tern
lidade policial, pois aver-
amos muito preparados e
s representantes sempre
nteresses de classes. Escla-
todas as decisbes sobre
foram discutidas em as-
rendadas pelos represen-
ormamos tambem que as


condicoes operacionais de n
as melhores possiveis, graq
plantadas pelo Exmo. Sr. G
do, Dr. Almir Gabriel, o qi
cia, foram essenciais para
dutividade em 26,91%, coa
tisticos desta instituigao.
Em relaqao aos escrivA
demonstram para com o 6r
dedicag o e boa vontade e
que nos procura e nao exist
balho para os mesmos, um
horArio o policial passa a t
nao mais 24 horas, como e;
Finalizando, rogamos a
a iluminar as decisaes des
s6 assim alcangaremos a ve
prol da comunidade".
N. da R. A carta d
deixa uma divida fundan
real da realidadepolicial"


dos pela empresa, no valor de aproximadamente
R$ 80 milh6es. Esse gesto permitiria ao governor
azular um pouco a coluna dos d6bitos, que se tern
avermelhado desde as pugnas eleitorais. Se ainda
sobrar"algum", melhor ainda: vai ajudar o caixa
de obras em outro moment estrat6gico, o das
eleig es municipais.
Os roj6es de orat6ria que tem estourado na
Assembl6ia Legislativa, na Camara Federal e no
Senado podem estar sincronizados (ou, quem
sabe, tenham invisivel e inica "inspiragAo") com
esse n6cleo fiscal, que alcanga o ponto mais sen-
sivel de um empreendedor, o seu bolso. Talvez
essa pano de fundo explique o furor verbal do
advogado Aldebaro ("Baim" Klautau Filho)., tao
indignado com o que possa estar por tras dessas
aparentes boas intenqGes que se afogou (e ao seu
leitor) em enormes ora6oes, exigindo na sua lei-
tura tanto prepare 16gico quanto bom pulmao,
sem a garantia de estar defendendo o just e o
imaculado.
Um debate capaz de beneficiary a coletivida-
de nao pode ser travado corn a ret6rica de libelo
de um tribunal do jiri, nem center elements de
ameaga que acabam se transformando em chan-
tagem por seu conte6do. E o caso quando o go-
verno diz que vai retirar a proteqao military dada
a CarajAs sem discernir o que 6 competencia da
empresa do que 6 questao p6blica. A seguranga
da pesquisa de ouro em Serra Leste 6 6nus pri-
vado (que passou a pesar nos cofres p6blicos
porque o governor aceitou condigoes leoninas
num contrato que ele pr6prio redivgiu), mas de-
fender a integridade da reserve florestal em tor-
no da provincia mineral 6 dever do Estado. Da
mesma maneira, querer definir a exploracao do
cobre no grito 6 estulticie, diante da complexida-
de da questao, envolvendo diversas variaveis,
reais ou manipuladas
Politicos e burocratas que agora invested
furiosamente contra a Vale, como Quixotes com-
putadorizados contra moinhos de cifras, cala-
ram-se ou apresentaram tenues resistencias no
ano passado, quando a empresa recebeu novas
vantagens da Sudam sem se submeter conveni-
entemente a um debate p6blico. S6 uma discus-
slo honest, s6ria e
competent permitiria
avaliar se realmente,
como aconteceu no
caso da Alunorte, a re-
lossainstituifio sao dugao ou postergag~o
as As melhorias im- do recolhimento de im-
overnador do Esta- postos era indispensA-
ue, por consequin- vel A realizaa.o do em-
o aumento da pro- preendimento.
nforme dados esta- Como tem faltado
esse esclarecimento, de
es de policia, todos um lado a Vale p6de, no
rgao competencia, ano passado, reservar
:majudar ocidadao 71% do seu lucro para
e sobrecarga de tra- pagar dividends aos
la vez que no novo acionistas (minimizando
rabalhar 14 horas e a taxa de reinvestimento
stava acontecendo. que caracterizaria uma
Deus que continue empresa estrat6gica), e,
ta instituiqao, pois de outro lado, raposas
rdadeira vit6ria em assume a pele de cor-
deiro. E dessa maneira
o ilustre delegado que tudo muda para
mental: sua "visao tudo ficar igual. Ou seja:
refere-se ao Para? uns ficam muito ricos no
Para, mas o Estado fica
cada vez mais pobre. 0






JOURNAL PESSOAL a QUINZENA DEABRIL/ 1999 7


Hist6ria de Tucuruf:



um estupro sem dor


No depoimento que prestou a Gisela Pi-
res do Rio, em outubro de 1995 (ver Jornal
Pessoal ns 164 e.167), o ex-presidente da
Companhia Vale do Rio Doce e ex-ministro
das Minas e Energia, Eliezer Batista, disse
duas coisas de extrema gravidade. Elas con-
tinuam a ressoar, mas sem eco, em surdina,
pelos armdrios em que foram alojados alguns
dos mais monumentais esqueletos da hist6-
ria republican brasileira. Nao conseguiram
mobilizar a vontade pfiblica de apurar essas
enormes denfincias.
Relembro-as aqui, mais uma vez, como
uma esp6cie de contribuicao pessoal A ho-
menagem prestada ao doutor Eliezer, no fi-
nal de fevereiro, em CarajAs (ver JP 207). A
homenagem foi mais do que just. Agora di-
vidindo com o tambdm ex-ministro (e ex-la-
cerdista) Rafael de Almeida Magalhaes a
assessoria pessoal de Benjamin Steinbruch,
president do Conselho de Administragao
da CVRD, Eliezer Batista 6 o nome mais im-
portante ao long da mais do que cinqiien-
tenaria hist6ria da empresa.
Algumas vezes formalmente A frente da
Vale, em outros moments nos bastidores (e
A distancia, a partir de sua base na Bl6gica),
como conv6m a uma tipica eminencia parda
como ele, Eliezer foi o c6rebro de uma virada
na trajet6ria da companhia, formada pela com-
binagio de dois moments. Foi ele que cons-
tituiu o Sistema Norte, centrado em CarajAs,
hoje responsavel por mais de um tergo de todo
o faturamento da companhia e contend suas
sementes de future. O deslocamento para a
fronteira norte foi complementado por um
deslocamento de parceiro commercial, os Esta-
dos Unidos sendo substituidos pelo Japao
(fluente na lingua, 6 ele o ocidental que mais
visitou o JapAo).
No seu testemunho para a hist6ria (a ser
registrado formalmente quando a pesquisa-
dora publicar o seu trabalho), antecipado por
um vazamentojornalistico deste alternative,
Eliezer Batista disse, con todas as letras, que
a Albras poderia produzir aluminio sem pre-
cisar de subsidio: "O elevado custo da ener-
gia vem da corrupcao", disse ele para Gisela,
que o registrou na sintese da entrevista,
transferida para minhas maos um ano e meio
depois (e imediatamente repassada ao dis-
tinto p6blico).
A afirmativa desencadeia vArios desdo-
bramentos. O brutal crescimento do custo
da hidrel6trica de Tucurui (de 2,1 bilhies de
d6lares em projeto para mais de quatro ve-
zes esse montante na atualizaao at6 hoje)
deve-se nao exatamente ao "fator amaz6ni-
co" e a um gen6tico "custo Brasil" em tese,
como dizem os ide6logos do sistema, mas a
roubalheira bem concrete e palpAvel. A quan-
to montou essa corrupcao citada pelo dou-
tor Eliezer? Como ela foi tao significativa, a


ponto de ser citada como causa do subsidio
concedido a Albrds, nao tera sido jamais in-
ferior a 20%. Mesmo nessa proporgao, esta-
remos falando em corrupmo na faixa de US$
2 bilhaes. Para dar uma id6ia melhor: corrup-
gao que mexe com tanto dinheiro quanto
toda a arrecadagao do Estado do ParA pre-
vista para este ano.
Nao 6 nada desprezivel em qualquer lu-
gar do planet, mesmo naqueles mais abas-
tados. Esse nlimero deveria ser o bastante
para fazer soar o brio national, ainda mais
porque, desde o "silenciosamente famoso"
Relat6rio Saraiva (do adido military da embai-
xada brasileira na Franga, comandada pelo
atual deputado federal Delfim Neto, que jA
foi czar da economic), corrupgao tem sido
uma palavra associada a Tucurui (nao s6 na
obra da hidreletrica: tamb6m no Projeto Ca-
pemi, para a extragao da madeira que seria
afogada pelo reservat6rio da barragem, dre-
nando nao menos que US$ 200 milh6es).

Foi uma sangria dupla.

Diretamente do tesouro

national, que acabou se

responsabilizando inte-

gralmente pelo custo da

hidreletrica ap6s a retira-

da dos japoneses do es-

quema de financiamento.
Indiretamente, atrav6s do subsidio concedi-
do A Albras, que paga a menor tarifa indus-
trial de energia do pais, inferior at6 A da Alu-
mar, a outra fabrica incentivada para se im-
plantar em Sao Luis.
Com vigencia de 20 anos, esse leonino
contrato vai at6 2004. Representa outra san-
gria, girando em torno de um bilhao de d61a-
res. Era incorporada e justificada em nome
da descentralizagao industrial e da redistri-
buigao de renda sempre que os vorazes sub-
colonizadores paulistas protestavam por te-
rem de arcar com o subsidio (embora ele nao
melhorasse, na essEncia, o descompasso
Norte-Sul, muito pelo contrario).
Agora que se pretend privatizar a Ele-
tronorte, essa 6 uma espinha atravessada na
garganta da empresa. Pretende-se antecipar
o fim do contrato para livrar a estatal das
suas abundantes adiposidades, hip6tese re-
mota diante das implicag9es, at6 diplomAti-
cas, desse ato. Mas, segundo o doutor Elie-
zer, o rombo teria sido evitado se nao hou-
vesse corrup9ao ou se ela nao tivesse tal


intensidade que passou a ser o peso princi-
pal na elevalao artificial do valor da obra.
Uma outra declaral9o do ex-ministro diz
respeito A localiza9lo da Albras. Argumen-
ta Eliezer que a empresa s6 ficou em Barca-
rena "por razbes de political estadual". Sua
localiza9Ao ideal, "do ponto de vista do fun-
cionamento do sistema" de logistica da
CVRD, seria Sao Luis, ao lado da fabrica da
Alumar (do cons6rcio multinational Alcoa-
Shell). E um raciocinio tipicamente tecno-
crAtico, da sinergia, da redugao de custos
acima de tudo, da vantage competitive.
Mas o contrario, que fundamental uma es-
tratdgia mais social, de political piblica, tem
seu prego e 6 precise considera-lo no mo-
mento de tomar a decisao. Dinheiro nao 6
mand para cair de um c6u biblico.
O complex de alumina e aluminio de
Barcarena tem um custo, que estA sendo e
continuara a ser pago. NAo pode ser colo-
cado para baixo do tapete, inclusive por-
que os principals credores (como benefici-
drios) estio fora do pais. Albras e Alunorte
representam prejuizo operacional acumula-
do de mais de R$ 900 milhies, al6m de um
saldo negative de empr6stimos e financia-
mentos que, no final do ano passado, ja
passara de R$ 2,7 bilh6es (US$ 1,5 bilhao
de long prazo). Junte-se a isso os (no mi-
nimo) US$ 2 bilh6es de corruptao e US$ 1
bilhao de subsidio. Mais os US$ 2,5 bilh6es
de cambiais queimadas na compra de alumi-
na no exterior, durante os 10 anos em que a
Alunorte ficou congelada (com corregao
cambial ao gosto do fregues, que pode op-
tar pelo valor menos oneroso), e teremos
uma avaliaqao realistic do que nos custou
montar esse complex industrial para for-
necer ao mundo (mas sobretudo ao Japao)
insumo basico a pre9o achatado, com rela-
96es de troca desfavoraveis.
Aparentemente, a fnica pessoa da es-
trutura de poder que se sensibilizou com a
mat6ria publicada neste journal ha quase
dois anos foi o entao deputado federal
Geraldo Pastana, do PT (que nao se reele-
geu; castigo?).
Pastana props a convoca9ao de Eliezer
Batista para depor na CAmara e esclarecer
suas declarag6es. Mas o pedido deve ter sido
desviado para alguma rua sem said, das
muitas que abundam no digamos assim -
sistema viario do parlamento brasileiro, e por
IA sumiu. Como o nosso precioso dinheiro.
Sangramos muito, mas cor a dor aplacada
pelos eficientes anest6sicos mididticos. Nao
vemos, nao sentimos, nao choramos. Como,
no passado (e, infelizmente, ainda agora), os
africanos e os asiaticos. E uma tradi9ao pa-
decente que o silencio de quem sabe, combi-
nado com a ignorancia de quem pode, per-
petua. At6 quando? *




,;I N -A


I I-- A I .


Wa.. -^~ do Cafe Santos .urm ntio
Wald anWio do Caf6 Santos m nnt
ottUbeam P.enos


Waldemar Marques da Conceigao trabalhou 67
anos no centro commercial de Bel6m. Morreu triste, no
mes passado, aos 85 anos. O Cafe Santos, que ele
havia transformado num point da cidade por varias
d6cadas, foi quase tragado pela ca6tica transforma-
9 o do outrora belo centro velho da cidade, hoje uma
Calcuta sem hist6ria.
Durante mais de tres d6cadas em que circulei in-
tensamente por esse perimetro, costumava sempre
passar pelo Cafe Santos (As vezes com meus filhos)
para comer um sanduiche de leitAo (o melhor da cida-
de), de queijo do Maraj6 (autintico) ou Cuia (do Rei-
no, dirao os puristas) ou de came assada, com chA
mate, tomar um cafezinho, acompanhado de um doce,
mas, sobretudo, conversar com gente interessante que
para aquele lugar convergia. Como Adherbal Caetano
Correa, o "velho Babd", ex-prefeito de Santardm, ate
morrer batendo ponto diario no Cafe Santos, com seu
palet6 branco e guarda-chuva no brago, impecAvel,
fizesse sol ou desabasse o c6u em Agua.
Tudo o que a casa oferecia aos seus clients era da
melhor qualidade, desde o pemil inteiro, assado ali mes-
mo, ate produtos importados, incluindo as bebidas,
guardadas com esmero por detras das portas envidra-
cadas dos armArios. Enquanto se esperava o "aviamen-
to" do pedido, numa rotina bem amaz6nica, tarefa exe-


No embalo
Custando R$ 1,30 nos dias de
semana e R$ 2,50 aos domingos, O
Liberal ja o mais carojomal did-
rio do pals. No embalo do reajuste
cambial, o pre9o de capa da publi-
caqao cresceu 30%. Outrosjomais
preferiram segurar um pouco a ma-
joragio. Apesar dessa substantial
elevagdo do preco de capa de O
Liberal, o jomaleiro, que estA na
ponta da linha de comercializa~ao'
e 6 geralmente a vitima dessa en-
grenagem, continue ganhando a
mesma comissAo de antes. A dis-
tribuiqAo da receita de venda, por-
tanto, concentrou-se ainda mais.
Essa 6 mais uma realizaao do
grupo Liberal.


Louvagao
O professor Samuel Benchimol
teve a gentileza de me remeter, de
Manaus, seu iltimo livro, Amazd-
nia, Formagao Social e Cultural
(Valer Editora, 479 pAginas) Nao
subscritou meu endereco no enve-
lope, certamente por ignorar onde
exatamente moro. Limitou-se a co-
locar, sob meu nome, "jomalista
muito conhecido em BelIm/PA".
Uma alma caridosa adicion l
enderego complete e o livro g?
me intacto As mAos. Fa9 eg"
para uma louvacao in vi do
atencioso funcionari a, co-
letiva, dos Correios menos
desta vez a empresa ecelaR
pedras. Obrigadissim ,


Placa
Para arrematar o que jA fez
contra o Idesp, sugiro ao gover-
nador Almir Gabriel que made
um trator colocar abaixo as mar-
cas fisicas que restaram do Insti-
tuto de Desenvolvimento Econ6-
mico e Social do Para, revolver a
terra sogobrante e fazer despejar
por sobre ela sal grosso abundan-
te para que nada mais cresga ali,
principalmente inteligencia. Isto
realizado, deixaraliumaplaca, mais
uma: "Delenda Idesp".
A obra de destruigAo esta-
ra, entao, complete. Como a de
Cartago.


Assinatura
A renovaqAo ou a subscriglo de
novas assinaturas do Jornal Pesso-
al poderao ser feitas com Angelim e
Juliana Pinto pelos telefones
2417626 e 2231929. Os pregos,
apesar de tudo, continuam inaltera-
dos: 15 reais a assinatura trimestral
e R$ 30 a semestral.


Corregao
Algumas gralhas pousaram
no texto da edicao anterior. Numa
proje9do saudosista, a atual mo-
eda foi tratada como cruzeiro.
Onde deveria ter aparecido Iga-
rape-Aqu, endereqo de dois fun-
cionArios fantasmas da Assem-
bldia Legislativa, surgiu indevi-
damente Tom6-Aqu. Como de pra-
xe, perdso, leitores.


Livro
Se hA uma homenagem que me
emociona 6 a que me relaciona aos
livros. Por isso, sou grato A Asso-
ciagAo Paraense de Bibliotecirios
pela lembranga de me colocar ao
lado de gente tambnm ligada A lei-
tura (como os amigos Meirevaldo
Paiva, Norma Barata, Benedito Nu-
nes e Francisco Paulo Mendes),
entire os que receberam uma plaque-
ta alusiva A instituicao do curso de
biblioteconomia no Para, 36 anos
atirs. A solenidade foi no audit6rio
da Unama, no fltimo dia 12.


cutada cor calma e fidalguia, como convinha ao estilo da
casa, conversava-se com os circunstantes, em p6, ao
long do balcao, ou com o pr6prio dono e algum dos
seus empregados, quase todos acompanhantes antigos.
O "estilo da casa" se irradiava pelos tradicionais
clients, acostumados a combinar uma necessidade
prAtica de compra com a lidica dimensao do "estar
em piblico", que exige charlar, parlar, assuntar e ou-
tros verbos que ja nao mais se conjuga na ca6tica
comuc6pia de Beldm. Os mais tipicos fregueses iam
ao cafe aos sAbados e faziam extensos pedidos, como
se estivessem em um supermercado. mas sem ter que
ir a um, program impessoal, insosso. Na casa da
Padre Eutiquio, pelo contrdrio, tomavam suas muitas
cervejas enquanto lentamente a lista, geralmente pre-
parada pela mulher, era "aviada" sem press, no em-
balo do papo que rolava frouxo, sem cronometra-
gem, sem agenda previamente defmida.
Waldemar se foi quando a paisagem em torno da
sua casa comecava a melhorar. Seu filho, tamb6m Wal-
demar, ja tenta dar novo brilho A cidadela herdada do
pai, que parecia na iminancia de ceder seu espago para
alguma despersonalizada venda de ocasiao. Waldemar
Marques da Concei9Fo morreu. Que viva o Waldemar,
patrono de um dos mais nobres lugares de uma Beldm
que vai existir sempre, mesmo que j nao mais exista.


nio


I


Os necrol6gios de Ant6nio
Houaiss publicados na imprensa
brasileira para registrar a morte do
fil6logo, ocorrida no mes passado
no Rio de Janeiro, aos 83 anos,
trouxeram bibliografias capengas,
embora as vezes apresentadas
como se fossem completes. Aldm
dos livros que escreveu, infeliz-
mente poucos, Houaiss esteve
atrAs de alguns empreendimentos
vitais para a cultural brasileira,
como a organizagao das obras
completes de Lima Barreto e de
Machado de Assis, al6m dos dici-
onArios e enciclop6dias referidos.
Talvez ele tenha integrado a
tiltima grande geragao de fil6lo-
gos, humanistas que nao limitam
sua sapidncia a dicas de "como
escrever", necessArias como con-
trapeso A sandice 16xica e sintAti-
ca que se irradia como praga pelo
pais, mas imensamente insufici-
entes para restabelecer a ligacqo
da informagAo com a cultural. Hou-
aiss podia dar-se ao luxo de tra-
balhar ao lado de gente como
Francisco de Assis Barbosa, M.
Cavalcanti Proenca e Otto Maria
Carpeaux, homes de uma cultu-
ra tao vasta quanto ecl6tica, pe-
netrando pelos temas sem perder
densidade e profundidade. Ele
era acusado de ser chato ou per-
n6stico (Paulo Francis o tratava
de "Uais", apenas por deboche),
mas quem come bem, bebe bem e
fala bem nao pode ser chato. As
vezes levava a lingua exagerada-
mente a sdrio, como alguns dos
seus empreendimentos, entire os
quais a polemica tradugAo de
Ulisses, o anti-romance de James
Joyce. Mas conversar corn Hou-
aiss era um privil6gio, elevado As
culminancias do prazer quando
ele ir A cozinha colocar seus do-
tes de gourmet em pratica.
Quem nao teve esse privil6-
gio pode tomar como compensa-
9Ao a leitura de 3 Ant6nios & 1
Jobim (Relume Dumard, 1993,185
pAginas), livro montado a partir
de uma maravilhosa conversa de
Zuenir Ventura com Houaiss,
AntOnio Callado, Antonio Can-
dido e Ant6nio Carlos Jobim (a,
grande estrela! do encontro, ao
meu ver). Dos quatro Ant6nios
desse encontro antol6gico resta
', agora, apenas seis anos depois,
, oCandido (Jobim previu no papo
m'ue morreria antes de comecar o
\puLo XXI: "At6 1a, felizmente
iei morto", disse). Que Deus
eoierve o refinado Ant6nio
Caido por muitos anos mais em
ativilade e a lembranga dos de-
my viva na nossa mem6ria.
I