Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00155

Full Text




journal Pessoal
L U C I O F L A V I P I N T O
ANO XII N! 206 1- QUINZENA DE MAR(O DE 1999 RS 2,00

AMAZONIA


0 para

0 home destruiu, em duas decades na
seculos. 0 iltimo relatorio official, mostra
o de 1997, provocou novo impact.


Para sem
energia

(PAG. 7)
Museu vota
em director
(PAM -4)


rdido

quefoi destruido em quase quatro
mnopassadofoi 27% maior do que
~ 7


D esde que o primeiro ser hu-
mano destruiu a primeira ar-
vore (no s6culo 16, conside-
rando-se a hist6ria da coloni-
za~ao europeia) ate 1978, quando foi ini-
ciado o que o govemo assegura ser o me-
lhor program de monitoramento de flo-
resta tropical do planet, a base de ima-
gens de satelite, a Amaz6nia perdeu 152
mil quil6metros quadrados de floresta.
De 1978 at6 o ano passado (em ape-
nas 20 anos, portanto), o desmatamento
na regiao p6s abaixo quase 400 mil km2,
duas vezes e meia a mais do que em qua-
se quatro seculos. A area total at6 hoje
desflorestada da Amaz6nia, de 550 mil
Ss utroscls rattla'hj


km2 (do tamanho da Franga, territ6rio que
abriga mais de 50 milhbes de habitantes),
da ao Brasil o triste privil6gio de ser o
pais que mais devastou vegetacio em toda
a hist6ria da humanidade.
A divulgagao, no mes passado, do 22
relat6rio annual do Inpe (Instituto Nacio-
nal de Pesquisas Espaciais, de Sao Jose
dos Campos, Sao Paulo) sobre o desma-
tamento na Amaz6nia, reaqueceu um tema
sujeito as flutua96es sazonais de interes-
se sobre a regiao. O Inpe mostrou que a
curva do desflorestamento, em sentido
descendente desde 1995, voltou a infletir
para cima no ano passado, contra uma
media sempre abaixo de 15.000 km2 em


toda a d6cada de 90. Houve um cresci-
mento de 27% entire 1997 (13.227 km2
desmatados) e 1998 (16.838 km2). Bas-
tou para irromper uma ladainha de canto
e contracanto, as recorrentes critics das
entidades ambientalistas contrapostas pe-
las medidas de urg8ncia e impact do go-
vemo, acrescidas de incisivas declaraq6es
de boa intengdo.
Apesar dessa 6pera, algumas vezes
bufa, o problema e crescentemente serio,
mesmo que seu agravamento nao se te-
nha feito, nos anos 90, cor a intensidade
galopante registrada da segunda metade
da d6cada de 70 ate os anos 80. Em 1975,
primeiro ano de vigencia do II PDA (Pla-1


f t ,f -


h I jD.EJ, Z*S)iAi h i;! hjD U U 1 ) W(6u.y


-~5 3





Z JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENADE MARCO/ 1999


1975, primeiro ano de vigencia do II PDA
(Piano de Desenvolvimento da Amaz6-
nia, 1975/79), o que mais intensamente
estimulou a expansdo da fronteira eco-
n6mica na regiao, colocando o planeja-
mento centralizador da tecnocracia gei-
selista (com seus generosos funds de
investimento) a servigo do grande capi-
tal, o desmatamento na Amaz6nia estava
abaixo de 35 mil km2. Ou seja: ao redor
de 0.8% da regido, segundo o levantamen-
to realizado em conjunto pela Sudam (Su-
perintendencia do Desenvolvimento da
Amaz6nia) e o IBDF (Instituto Brasileiro
do Desenvolvimento Florestal, anteces-
sor do Ibama).
Apenas tres anos depois, o levanta-
mento global realizado em 1978 corn ima-
gens do primeiro dos sat61ites america-
nos da serie Landsat, revelou que a area
desflorestada se multiplicara por cinco,
chegando a 152,2 mil km2. Ja era um aler-
ta de impact civilizat6rio, mas ineficaz
em um pais carente de um verdadeiro
projeto de civilizaCio. Dez anos depois,
essa destruiCao mais do que dobrara: em
1988 j ultrapassava 377 mil km2, o equi-
valente a 20 vezes o Projeto Jari, entao a
maior propriedade rural do planet, for-
mada pelo milionario americano Daniel
Ludwig entire o Para e o Amapa. A ilti-
ma atualizaqgo do Inpe se aproxima de
550 mil km2, area equivalent a toda a
regiao Sul do Brasil (Rio Grande do Sul,
Santa Catarina e Parana).
Mas a area efetivamente afetada pela
aqao antr6pica (ou do home) vai muito
alem do que o registrado pelo Landsat V,
a filtima das verses do sat6lite em que
agora o Inpe se baseia. Ele nao identifica
alteragces feitas na floresta abaixo do seu
limited de alcance, que sao areas com mais
de 6,25 hectares. Da uma margem de
erro pequena, mas real. O sat6lite ameri-
cano tambem nao 6 capaz de distinguir a
exploragdo seletiva de madeira (que em-
pobrece a mata, embora mantendo sua
apar6ncia de integridade), nem consegue
fornecer imagens satisfat6rias sobre os
territ6rios do Amapa e de parte de Rora-
ima, devido a intense cobertura de nuvens
nesses locals.
A mais important relativizagao sobre
os dados quantitativos montados pela fo-
tointerpretagco, por6m, decorre dos re-
sultados de uma pesquisa liderada pela
Nasa (a ag6ncia espacial americana),
concluida em 1993. A equipe, chefiada
pelo fisico David Spole, da Universidade
de New Hampshire, constatou que os


efeitos destrutivos do desmatamento na
Amaz6nia se fazem sentir sobre uma area
pelo menos duas vezes e meia superior a
fisicamente atingida.
Os pesquisadores analisaram com mais
detalhe um caso, o de Rond6nia, para de-
monstrar esse efeito multiplicador do des-
matamento sobre areas contiguas. Por cau-
sa do Polonoroeste, fianciado pelo Banco
Mundial, a area diretamente desmatada em
Rond6nia representava 10% da superficie
florestada do Estado, mas as repercussaes
negatives foram observadas em um terco
de todo o territ6rio rondoniense.
Prevalecendo esse principio para toda
a Amaz6nia, os efeitos negatives do des-
matamento ja se espraiaram por 1,5 mi-
lhao de km2 da regiao. Se considerados
os 4 milh6es de km2 que o Inpe toma como
parametro para seus calculos, isso signifi-
ca algum tipo de prejuizo para o ecossiste-
ma amaz6nico em quase 40% de toda a
sua extensao. O Inpe, entretanto, inclui
como verdadeiramente amaz6nica a Pre-
Amaz6nia, zona de transi9Co do Planalto
Brasileiro (incluindo Tocantins e Mara-
nhao). Na Amaz6nia Classica (com 3,3
milh6es de hectares de floresta umida den-
sa ou aberta), o desmatamento e de 300
mil km2. Uma area menor, mas com efei-
tos negatives muito mais intensos do que
nas regimes de cerrado ou mata fina.
Na Amaz6nia, como conseqiiincia do
anuncio, no passado, de nimeros tao per-
turbadores quanto os de fevereiro, a au-
torizagco para novos desmatamentos s6
pode alcangar 20% de cada im6vel (50%
antes) que requer autorizaggo do gover-
no para as derrubadas. Mesmo conside-
rando as situacges anteriores a essa re-
solugco, velha de um ano, tomar como
parimetro nao toda a area da Amaz6nia
(a ClAssica ou a Legal), mas a legalmen-
te possivel de desmatar hoje, faria com
que a dimensao do problema se tornasse
dramatica, explosive. Em diversas micror-
regi6es amaz6nicas e mesmo em algu-
mas mesorregi6es -, o limited legal para
p6r abaixo floresta ja foi atingido, ou mes-
mo superado. Nao havendo ai mais flo-
resta original, o drama consiste em defi-
nir a maneira de recuperar essas areas
degradadas para uma atividade produti-
va de interesse econ6mico.
Qualquer novo uso para a floresta ama-
z6nica que a elimine ou modifique sera mais
caro do que mant8-la como esta, usufruin-
do de uma funcio que ela desempenha na-
turalmente (a fixagio de carbon, atenuan-
do o efeito estufa sobre o planeta, ou in-


vestindo em conhecimentos que permitirao,
no future, ter dela o mais nobre dos rendi-
mentos (incomparavelmente superiores aos
atuais). O investimento na recuperaqao de
areas degradadas certamente absorvera
muito mais capital do que o aplicado para,
colocando abaixo a floresta, tentar substi-
tui-la por pastagens, cultivos agricolas, plan-
tios ex6ticos, garimpos, minas, estradas, hi-
drel6tricas ou cidades.
Al6m disso, a relagao custo/beneficio
da esmagadora maioria desses empreen-
dimentos 6 desastrosa. Segundo os calcu-
los do govemo federal, dos 550 mil km2 ja
desmatados, 200 mil km2 estao abando-
nados porque os que intervieram nessas
areas nao conseguiram sustentar o rendi-
mento da terra depois da remocao da flo-
resta e dos efeitos da nova atividade pro-
dutiva sobre o solo. 0 ministry do Meio
Ambiente, Jose Sarney Filho, espera po-
der patrocinar a reconversao de pelo me-
nos 100 mil km2 para exploracao agroflo-
restal. E 10 vezes mais do que a meta do
p6lo florestal de Carajas. Como sera pos-
sivel alcangc-la? De onde vira o dinhciro?
Assim, para cada tr6s hectares quc
desmatou na Amaz6nia, o home so con-
seguiu continuar usando dois. Perdeu um
tergo da area que ocupou produtivamen-
te menos de duas d6cadas depois de te-
la ocupado (ou quem o sucedeu no lo-
cal). A nova gerag9o ja nao recebera
como heranga dos pais a mais rica flo-
resta tropical do globo terrestre, mas uma
savana de novo tipo. E um process sel-
vagem, absurdo.
Como, entIo. ele subsiste a todas as ini-
ciativas para substitui-lo pelo tal do desen-
volvimento sustentavel, mais freqiente nos
encontros academicos do que no campo?
E evidence que enquanto a Amaz6nia fin-
cionar como valvula de escape para os pro-
blemas irresolvidos da parte de mais antiga
ocupado do Brasil, a pressao demografica
e econ6mica continuara impossibilitando um
process mais ordenado, racional e mesmo
sustentavel de producio.
Com todas as informac6es tecnicas e
cientificas a mao sobre a riqueza da bibli-
oteca gen6tica escondida sob essa cor-
nuc6pia vegetal, o colonizador da Ama-
z6nia continue a agir como um barbaro,
destruindo em pouco tempo o que ficou
guardado por seculos como um aval para
o future de um pais brindado pela nature-
za com esse fantastico conjunto de vida
associado ao paraiso num passado cada
vez mais remote, cada vez mais doloroso
no coracao como na mente.





JOURNAL PESSOAL 14 QUINZENA DE MARCO / 1999 3


Hamlet no PMDB


(ou: ser oposigao?)


O deputado Bira Barbosa, ex-lider do
PMDB na Assembldia Legislativa, agora 20
vice-presidente da casa, garante: na negocia-
qao que fez cor o governador Almir Gabriel
para apoiar a chapa situacionista de Marti-
nho Carmona, final vitoriosa, o tema (inico
da agenda foi a organizaqco administrative
da AL para a pr6xima legislature.
Negando informagao publicada na ediaio
anterior deste journal, Bira diz que nao pediu
cargos, nem fez qualquer outra solicita~io pes-
soal, para parents ou correligionArios. Admi-
te que tem cinco familiares na administration
estadual, inclusive a esposa, "mas todos in-
gressaram no serviqo pliblico por concurso, a
maioria antes de eu ser parlamentar". Segundo
ele. o que fez na negociagqo foi cobrar do go-
verno compromisso cor a execuoo das emen-
das parlamentares apresentadas por seu parti-
do ao orcamento deste ano.
Bira diz ainda que foi o inico interlocutor
peemedebista junto ao governador por dele-
gacao de toda a bancada. Reconhece que, ori-
ginalmente, sua intenqgo era reivindicar a 1"
secretaria, mas aceitou outros dois cargos na
mesa (e mais duas presidencias de comiss6es)
como uma retribuicao compativel cor os oito
votos dados pelo PMDB. que decidiu a elei-
cao em favor de Carmona. Acha que essa foi
uma alterativa melhor do que compor corn a
chapa oposicionista, tendo A frente Duciomar
Costa. Lembra que em 1995 o seu partido tinha
12 deputados, que, somados aos oito do PPB,
aliado na eleicgo para governador (cor Jarbas
Passarinho), davam-lhe condioes de dominar
a AL. Ainda assim, nao conseguiu eleger He-
rundino Moreira president do legislative.
Bira Barbosa express confianca na manu-
tencao da atual bancada peemedebista, a se-
gunda maior da AL (logo abaixo dos tucanos
do PSDB), nao tendo motives para esperar
defecqes. Confirma a orientagio de manter a
bancada em uma posiqgo que classifica como
independent, nio sendo govemista nem opo-
sicionista. "Apoiaremos o govero quando ele
reahnente beneficiary o Estado", diz.
Tais declaraq6es, aqui abrigadas em res-
peito ao direito de resposta do parlamentar, nao
sao suficientes, entretanto, para esgotar o di-
lema que o PMDB enfrenta atualmente. 0 par-
tido vive ainda a ressaca p6s-eleitoral de mais
uma derrota majoritAria, desta vez cor o me-
Ihor dos seus candidates, o senador Jader Bar-
balho, que 6 tamb6m o president regional do
partido (al6m de seu maior dirigente national).
Pessoalmente, Jader nem endossou e nem
aprovou a iniciativa de Bira Barbosa, muito
menos os resultados alcancados. Como nada
tinha a oferecer aos correligionArios para imu-


nizA-los contra a sedugqo do governor, com seus
favors e cargos (ainda que nao solicitados,
como diz o deputado), simplesmente liberou a
bancada. Nao 6 boa estrat6gia para quem ja
comeqou sua campanha visando o governor
em 2002. mas 6 uma attitude realist. Impor uma
unidade a partir de Brasilia seria precipitar uma
sangria no PMDB paraense: alguns parlamen-
tares estAo buscando apenas um pretexto para
pular para a nau do governador.
Como esti, a posicio do PMDB na AL en-
fraquece os pianos de Jader de estruturar o
partido para as eleiqces municipals do pr6ximo
ano. Se quiser disputar o governor em melho-
res condicqes do que as do ano passado, ele
vai precisar contar corn o maximo possivel de
prefeitos. Nesse horizonte, 6 pega fundamen-
tal, se nAo uma vit6ria, pelo menos um bom
desempenho em Bel6m, onde vem se firmando
uma tradicio de rejeiqAo ao PMDBjaderista.
O senador vai precisar oferecer, aos politi-
cos interioranos, o que nao p6de apresentar
aos deputados: provas de que ainda tern po-
der junto ao governor federal, podendo com-
pensar, ao menos em part, os beneficios da
miquina official do Estado. Jader tambdm vai
precisar definir seu perfil pessoal. Se continu-
ar dando prioridade A sua carreira federal, man-
tendo-se mais tempo em Brasilia e ampliando
suas ligacoes nacionais, o preQo sera inviabili-
zar sua candidatura ao governor e tomar mais
dificil a pr6pria reeleicqo para o senado. O
PMDB sera reduzido a um tamanho liliputeano
atd a campanha do ano 2000.
Ja As vdsperas da eleicqo do ano passa-
do, Jader foi obrigado a reconhecer sua par-
cela de culpa na delicada situaqAo em que se
viu envolvido, sofrendo a primeira derrota
eleitoral de toda a sua carreira. Ele admitiu
que a attitude ambigua do PMDB, mantida at6
a und6cima hora da dispute, na maioria das
vezes apoiando totalmente os atos do gover-
no, fortaleceu Almir Gabriel. Esse erro decor-
reu tanto do fisiologismo da bancada quanto
do oportunismo de Jader.
Interessado em manter-se em Brasilia, ele
partilhou da convicqCo do governador, mes-
mo que apenas intimamente, de que acabariam
fechando um acordo. Quando essa hip6tese
se revelou impossivel, ja estava na condiqo
do aviao que avanqa demasiadamente na pista
para ainda poder decolar com sucesso, mas
frear nao impedira o aparelho de se acidentar.
Nem sobe, nem evita a colisAo.
O PMDB esta comecando exatamente da
mesma maneira como se comportou na abertu-
ra do primeiro mandate de Almir Gabriel. Jader
deve ter cidncia dos efeitos negatives da repe-
tigao do erro, ja que uma attitude combatente


de oposic~o 6 sua melhor (embora onerosa)
attitude atd a eleigo de 2002, mas estA sem for-
Ca para impedi-lo. S6 podera evitA-lo se voltar
a tomar o Para como base e se definir. o mais
breve possivel, uma estratdgia eleitoral para o
PMDB em todo o Estado, nao como um clube
de (aliAs, falsos) escoteiros, mas como um par-
tido corn o mapa de acesso ao poder.
O primeiro desafio 6 pessoalmente desa-
gradAvel ao lider do PMDB no Senado, ultima-
mente mais envolvido com Brasilia e Fortaleza
do que com Bel6m. Mas ele sempre disse que
estava consciente de erro semelhante cometi-
do por seu ex-aliado Jarbas Passarinho. unani-
midade na capital federal, mas progressivamen-
te erodido no seu manancial de votos na pro-
vincia. A tentaaoo de ser personalidade nacio-
nal 6 como um canto de sereia para politico
sem outra alternative de votos que nao os pro-
saicos currais do sertao (ja que voto nio 6
mana, mandado dos c6us). A queda podera
ser tho fulminante quanto a ascensao.
O outro desafio consiste em encontrar um
nome capaz de disputar com dignidade a elei-
go na capital. O unico disponivel no momen-
to 6 o da deputada Elcione Barbalho, marcada
pela fragorosa derrota de 1992, pela reducqo
do total de votos obtidos para a Camara Fede-
ral, por problems pessoais ainda nio integral-
mente resolvidos e por uma aversio intima por
dispute majoritAria. Estes elements desfavo-
raveis poderao ser superados? Mesmo sem ela,
o PMDB encontrard em seus quadros outro
nome de densidade? Ou, mais uma vez, terA
que aceitar aliancas que lhe chegam cor o
nome do cabega de chapa ja preenchido?
Ainda haveria lugar para hip6tese ainda
menos crivel: a reconciliac9o entire Jader e Al-
mir? Um observador politico, raciocinando em
abstrato, imagine que ambos poderiam apoiar o
vice-governador Hildegardo Nunes para a pre-
feitura de Bel6m no pr6ximo ano e subir ao mes-
mo palanque em 2002, Jader candidate ao go-
vemo e Almir ao senado, apostando na desme-
m6ria coletiva e nas vantagens de combinar suas
forgas para enfraquecer as dos adversArios.
Hoje, essa hip6tese 6 impensAvel, principalmente
por subordinar o senador ao governador, mas
quem pode garantir alguma coisa nessa political
invertebrada que se pratica no Para?
SAo algumas das angustiantes perguntas
que o PMDB como um todo e o seu principal
lider, especificamente, terao que responder. sem
muito tempo para tentar o ensaio e erro sugeri-
do pela resposta do deputado Bira Barbosa,
cujo desmentido requer fatos futures para ma-
turar. Cor todo o respeito, uma c6tica aceita-
Co 6 uma postura metodol6gica mais recomen-
dAvel. A bolsa das apostas estA em alta.





4- JOURNAL PESSOAL 18 QUINZENA DE MARCO / 1999


Museu: em busca


de novos caminhos


A hist6ria de
132 anos do
Museu Pa-
raense Emilio Goel-
di registra neste ano
uma novidade: pela "'
primeira vez seus
funcionarios esto
sendo consultados *
sobre a escolha dos '''
novos dirigentes da
instituigdo. Um de-
bate entire tres dos cinco candidates
assumidos (um estava fora do Esta-
do e outro preferiu ndo comparecer),
no ultimo dia 18, e uma eleigco, con-
vocada para este dia 2, assinalam a
intencgo da comunidade do MPEG
de abandonar a postura passiva ate
entao mantida diante dos destinos da
mais antiga instituigao de pesquisa ci-
entifica do Norte do pais, e tamb6m
de se abrir para o pilblico. O cami-
nho ate uma auto-gestdo, que arre-
mataria esse process participativo,
entretanto, ainda 6 um sonho.
Na pratica, tudo continue sem mu-
danga. Quem vai former a lista tripli-
ce a ser submetida a Brasilia 6 o Con-
selho T6cnico Cientifico, podendo ou
nao incorporar os nomes votados. Ja
o ministry da Ciencia e Tecnologia,
Bresser Pereira, dono absolute da
palavra final, querendo, poderA igno-
rar todos os nomes apresentados e
optar por indicagoo unilateral, de cima
para baixo. Mas ja nao tem sido esta
a regra. As instituim6es estIo alargan-
do a base de consult, ate mesmo ul-
trapassando os pr6prios muros para
permitir a candidates externos plei-
tear suas candidaturas com base em
bons curriculos.
O maior desafio do Goeldi, alias,
e exatamente vencer uma tend6ncia
ao retraimento (e a uma falsa auto-
suficiencia), que o faz colocar-se
numa redoma de vidro ou numa tor-


4a z


'4o


re de marfim. Esse desafio imp6e
duas condig6es: ser capaz de inter-
nalizar-se, como elo vital de uma
Amaz6nia carente de ciencia basica,
e dar consistencia a um padrdo in-
ternacional de excel6ncia cientifica,
que o habilite como interlocutor da
comunidade cientifica de todo o
mundo. Uma condigdo requer inser-
9co regional, expressed mais usada
como decoragao ret6rica do que
como ferramenta de trabalho. A ou-
tra, uma competencia international,
que preserve os interesses nacionais
e regionais nojogo das absorg6es e
influencias.
O Museu ter permanecido a mar-
gem da angustiante busca regional por
conhecimento e saber, pouco contri-
buindo para a aproximagao entire ci-
encia e empirismo. Esse distancia-
mento 6 justamente uma das causes
do irracionalismo marcante no pro-
cesso de ocupagdo da Amaz6nia.
Mas tambem ter faltado consisten-
cia, qualidade e assiduidade A pro-
dugdo cientifica do Museu, capaz de
dar-lhe a indescartavel e necessaria
credencial como legitimo porta-voz
cientifico da regiao.
Escorar o MPEG na sua tradicgo
mais do que centenaria e uma tenta-
9ao facil, mas a hist6ria da instituigdo
mostra que a fama esta enterrada no
passado (o que e bom), mas nao
pode viver s6 dele (o que os momen-


tos de crise ciclica
sempre revelaram). O
Museu necessita de
uma profunda e ur-
gente reform, de um
. piano inteligente e de
S pessoas capazes de
S coloca-lo em pratica.
A bela redoma que
Ihe serve de moldura
pode sufoca-lo se
tudo continuar no faz-


de-conta e na acomodacgo.
Todos deveriamos nos perguntar
se o MPEG continuara a ser paraen-
se apenas no nome. Se o governor
estadual permanecera indiferente ao
precioso patrim6nio que cedeu em
comodato a administracgo federal, na
d6cada de 50, quando desobrigou-
se de custear o que excedia a capa-
cidade dos seus recursos.
O minimo que se deveria esperar
dessa relacgo era que o governor se
interessasse em participar das deci-
sbes (e ate da remodelaao juridica
da instituigao, tirando-a da camisa-
de-forga em que foi colocada) e par-
tilhar das dificuldades, solidarizando-
se na gestdo (e tambem nos encargos
financeiros), de tal maneira a reintro-
duzir o Museu na vida paraense (a du-
vida consiste agora em indagar se tal
provocacao e desejavel, num momen-
to em que o governor do Estado liqui-
da, a mao ciruirgica, sua principal ins-
tituicgo de pesquisa, o Idesp; nao
seria melhor deixar o monstro ou o
medico? desatento?).
A questdo nao afeta apenas o go-
verno diretamente: diz respeito a pr6-
pria populacgo paraense. Ou o Mu-
seu 6 de fato nosso, ou e, no Para,
apenas um acidente de localizago.
Tanto o Museu pode ajudar a coleti-
vidade a ter mais consciencia da fun-
95o essencial da ci6ncia na definicgo
de melhores rumos para a region,





JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE MARCO / 1999 5


como a populacdo pode obrigar o
Museu a ouvir-lhe os clamores, que
impossibilitam um cientista de apenas
fazer ciencia, desinteressado do seu
dever na difusao do conhecimento.
Ao contrario do que pode parecer,
a resoluCgo desses desafios nao requer
populismo cientifico, embora exija
atenggo political (finalmente, no deba-
te do dia 18, um candidate tocou pu-
blicamente na questao). Requer, an-
tes de tudo, a melhor das ciencias, sem
a qual nao se podera recuperar o tem-
po perdido e as riquezas destruidas no
avango (sem um acompanhamento sig-
nificativo do saber militant) das fren-
tes econ6micas. Um levantamento re-
alizado por um dos candidates ao car-
go de director mostrou que a busca da
excelencia cientifica ainda nao se tra-
duz na producao cientifica da institui-
9o, acanhada para a amplitude das
tarefas que a Amaz6nia contempora-
nea nos exige e a comunidade inter-
nacional cobra.
Alcance tao vasto que o Museu
nao pode mais esperar apenas por seu
ajuste institutional (passando do
CNPQ para o Ministerio da Ciencia
e da Tecnologia) ou pelo pinga-pinga
de verbas num orcamento national in-
capaz de ajustar suas rubricas as ino-
vag~es do desafio amaz6nico, ceden-
do-lhe tao somente o residuo dos re-
cursos. O Museu tern que internacio-
nalizar-se, nao no sentido de servir
de abrigo, covil ou biombo para pes-
quisadores e institui6bes de outros
paises, cor seus pr6prios interesses
impermeaveis as demands locais,
como as vezes ocorre, mas para fun-
cionar como chamariz para os melho-
res homes da ci6ncia em todo o
mundo, todos, de alguma maneira, to-
cados pela seducao da Amaz6nia. O
Museu tem que voltar a ser grande,
nao s6 na auto-estima, por vezes im-
propriamente inflada, estendendo
raizes tanto para o vasto hinterland
como para o mundo. Estando a al-
tura dos dominios da natureza e do
home colocados no ambito da sua
jurisdigao, mas nao tanto ao alcance
de sua aIao.


Reverencia paroquial


Acompanho O Estado de S. Paulo
ha 34 anos, metade desse period como
funcionario da empresa (da qual sai em
1988). Nunca vi Julio de Mesquita Neto,
o responsavel pelojoral em grande parte
desses anos, registrar as centenas (ou
milhares) de votos de parab6ns que re-
cebia a cada aniversario. 0 registro mais
ostensivamente pessoal que se permitiu
foi do titulo de Pena de Ouro, que re-
cebeu (da Sociedade Interamericana de
Imprensa? Nao lembro mais). Ate as vi-
sitas na redacgo foram progressivamente
restringidas no noticiario, indicando a
evoluCgo da desprovincianizag9o do
journal. Quando inevitaveis, dispensava-
se a foto inefavel.
0 Liberal do dia 23 publicou 51 men-
sagens de felicitacies pelo aniversario
de Romulo Maiorana Junior, principal
executive da empresa, ocorrido 11 dias
antes. O atraso ja recomenda mal o jor-
nal, incapaz de cumprir a agenda de atu-
alidade e oportunidade da imprensa, re-
quisito minimo para ser encarado como
empreendimento jornalistico. E possivel
que Rominho s6 se tenha apercebido de
que seu aniversario poderia ser noticia


pela lembranga de algum vassalo da cor-
te, mais realista do que o rei.
Alguns desses aulicos chegaram a
assinar duas mensagens ao nataliciante,
O jornalista Carlos Leal (quid?) decidiu
saudar em versos de rima paup6rrima o
homenageado. A vice-prefeita Ana Ju-
lia Carepa aloprou, talvez inebriada pela
competi9ao inter pares que trava com
o companheiro Edmilson Rodrigues. Em
linguagem pr6pria, proclamou em sua
mensagem: "A palavra que mais ter si-
n6nimo de Romulo Maiorana 6 lideran-
Ca, Romulo Maiorana significa lideran-
ca, no sentido literal. Desejo-lhe sempre
sa(ide, para continuar chefiando o Esta-
do", escreveu, fazendo acompanhar seu
texto um "forte abrago".
Quem, para o bem ou para o mal, con-
tinua a chefiar o Estado do Para por de-
legagdo do povo, a fnica capaz de con-
ferir esse poder num regime politico de
sanidade, o govemador Almir Gabriel,
conseguiu ser um pouco mais s6brio do
que a combative camarada petista. Ain-
da assim, afogado pela onda de hip6rbo-
les que adornaram a curul editorial do
querido chefe.


Nosso frances


Quando o garimpo de Serra Pelada
estava no auge da fama, em 1980, um
jornalista italiano bateu a minha porta
num meio de manha de sabado. Conver-
samos ate o fim da tarde. Passei-lhe tudo
o que sabia sobre os dominios do entao
major Curi6. Quando o colega se des-
pedia, perguntei-lhe quando iria para o
garimpo. "Nao vou", respondeu-me.
"Pego o aviao de volta ao Rio de Janei-
ro daqui a pouco", me informou corn a
cara mais limpa.
Desde entao passed a receber mis-
s6es estrangeiras cor reserve, mesmo
as individuals. Corn esse p6 atras abri a
porta para o frances Gerard Prost, que
me procurou pedindo-me para dar uma
olhada num texto que escrevera sobre a
ocupagao da Amaz6nia. Gerard, entre-
tanto, logo escancarou essa fresta corn
seu estilo calmo e seguro, cor sua dedi-
caCao ao tema e cor sua produtivida-


de. Trocamos ideias enquanto ele pre-
parava um livro sobre a hist6ria do Para,
tocado pela clamorosa lacuna existente
na raquitica bibliografia disponivel.
O primeiro volume saiu. O segundo
ainda transit pela burocracia estadual.
Mas Gerard ja nao podera apreciar sua
cuidadosa obra: uma fulminante parada
cardiac tirou-lhe a vida quando ele fa-
zia um "sonhado cruzeiro fluvial" pelo
Alto Nilo, segundo sua vitva, Maria The-
reza. S6 algo assim, silbito e incontor-
navel, tiraria Gerard das joviais tarefas
que se impunha, do alto de 71 anos in-
suspeitados. A terra prestaria uma just
homenagem a um estrangeiro que tao
bem embora brevemente a serviu,
editando o livro corn que ele remiu um
pecado acabrunhante dos paraenses di-
ante de sua pr6pria hist6ria.
Mem6ria eterna para Gerard Prost.
Que a merece.






( JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE MARCO/ 1999


Ato de raiva


A extingdo do Idesp deixou de ser
um procedimento administrative nor-
mal. Passou a ser um ato de selvageria
do governador Almir Gabriel, que eno-
doa o seu segundo mandate. O gover-
nador ainda nao mandou para a Assem-
bl6ia Legislativa a mensagem cor a
extinqao do Instituto do Desenvolvimen-
to Econ6mico e Social do Para, mas
decidiu imediatamente remanejar todos
os seus funcionarios, espalhando-os
numa diaspora pontilhada de situacges
deprimentes, e acabou com o acervo do
6rgao vitima.
Houve uma cena pat6tica quando
uma pessoa encarregada e alguns au-
xiliares chegaram ao pr6dio do Idesp,
na avenida Nazar6, para levar a biblio-
teca. Pensavam que eram apenas al-
gumas centenas de volumes e que esse
rico acervo, incluindo dezenas de mi-
lhares de documents, peri6dicos e li-
vros poderia ser levado como uma car-


rada de area. Acabou prevalecendo um
minimo de bom senso e o transport foi
adiado para outro dia.
Qualquer pessoa medianamente sen-
sata, entretanto, sabe qual o dano que
uma biblioteca sofre ao ser mudada de
instalacao. A do Idesp estava num ponto
central, tinha tradicgo, estava organizada
e era valiosa. Mesmo que seja preserva-
da integralmente em um novo local, con-
tinuard integra? Voltara a ser recompos-
ta? Quando estara novamente disponivel
para consult? Vai servir a quem?
O pior ficou reservado para o quadro
funcional do institute. A necessidade de
reunir todos os servidores para em segui-
da dar-lhes outro rumo permitiu verificar
quanta gente do Idesp estava em outros
6rgaos, alguns deles com 6nus para o pr6-
prio institute, que perdia o funcionario e
ainda era obrigado a paga-lo para traba-
Ihar em outro lugar. Essa deve ter sido
uma das distorgSes usadas como pretex-


to pelos que investiram contra o Idesp.
Ao inv6s de corrigirem o erro, mataram
quem dele padecia.
Sabendo que seu ato e temerario e
insubsistente, o govemador decidiu-lhe
dar-lhe a fei9ao de fato acabado, lancan-
do uma bomba neutra contra a sede do
Idesp (esse tipo de bomba, como se sabe,
s6 preserve a estrutura fisica). Assim, os
deputados, quando forem chamados a
apreciar o ato, terao que realisticamente
se curvar a ele. Mas se, numa attitude de
resistEncia e insubmissao diante do puro
arbitrio, que at6 agora nenhum segment
da sociedade civil teve, o legislative rejei-
tar a iniciativa do executive, como ficara
a situaCqo? Todos os atos serao revistos,
com o 6nus inerente? Ou o que comegou
como pura raiva, raivosamente sera man-
tido?
Neste epis6dio, a administrac5o Almir
Gabriel desceu mais um patamar da es-
cada do descr6dito.


.. . . .. . .
..........
......... .
.... . .. .
. .
..........
...............
...........
. . . . .. .. .
r a .......*....P a l 0 ................
.............
............ .............
...... . . .. .
.......... ...... .. ..... .
. . .
. . . .. . .. . . . .. .


A imprensa divulgou com grande
estardalhago: o Para esta em tercei-
ro lugar entire os Estados brasileiros
que mais receberao investimentos em
infra-estrutura at6 o ano 2003, abai-
xo apenas de SIo Paulo e Rio de Ja-
neiro. Segundo levantamento feito
pela Abdib (Associagao Brasileira de
infra-estrutura e Industrias de Base),
no Para serao aplicados o equivalent
a 19,8 bilh6es de d6lares, contra US$
50,2 bilh6es em Sao Paulo e US$
34,9 bilh6es no Rio de Janeiro, os
fnicos Estados em posigao superior.
Logo abaixo ficaram Minas Gerais
(US$ 17,7 bilh6es) e Rio Grande do
Sul (17,6). O Espirito Santo, que tem
o perfil mais pr6ximo do paraense,
s6 tera direito a US$ 3,8 bilh6es, no
130 lugar. Para o Ceara, 120, estao
previstos US$ 5,1 bilh6es.
No Brasil inteiro, de acordo com
a Abdib, as aplica96es de capital so-
marao US$ 225 bilhoes at6 2003. A
participagao percentual do Para e de
mais de 8% no conjunto do pais, con-
centrando os investimentos que se-


rao feitos em todo o Norte (US$ 32,5
bilhoes), tambdm o terceiro no
ranking national por regi6es. Sao
numeros excepcionalmente eleva-
dos, reforqando a confianCa no fu-
turo do Estado. Mas a interpretacao
esta correta?
Infelizmente a imprensa se limitou
a repassar um press-release recebi-
do da Abdib. Se fosse apurar melhor,
como seria seu dever, verificaria que
esse panorama favoravel precisa ser
relativizado. Dos US$ 19,8 bilh6es
previstos para o Para, US$ 15,8 bi-
lhWes sao destinados ao setor de ener-
gia eldtrica. Nao foi possivel saber se
essa previsao computa a duplicacgo
da hidrel6trica de Tucurui e o inicio
da construrco da usina do Belo Mon-
te, no Xingu. Nesse caso, o investi-
mento tera pouco efeito multiplicador
no Para. Seus principals efeitos se-
rao sentidos fora do Estado, pelos
consumidores da energia bruta que
para eles sera transferida, consolidan-
do nossa funcao colonial de provin-
cia energ6tica.


O outro setor privilegiado e o de
mineracao, com US$ 2,8 bilh6es. in-
cluindo, provavelmente, o Projeto Sa-
lobo. Mineraqao mais energia el6-
trica ficam, portanto, com US$ 18,6
bilh6es dos US$ 19,8 bilh6es calcu-
lados pela Abdib, distribuindo-se as
migalhas restantes entire transport
e portos (US$ 437 milh6es), petr6-
leo e gAs (US$ 380 milhoes), papel
e celulose (US$ 236 milh6es) e sa-
neamento (US$ 180 milh6es). Aten-
te-se para o detalhe que a previsao
consider investimentos iniciados em
1997, que irao atd 2003, numa dura-
qao de sete anos.
Tal previsao de investimentos
em infra-estrutura e indistrias de
base perpetua, ao inves de eliminar,
o modelo de enclave imposto ao
Para pelos grandes projetos. Vai
continuar o paradoxo de um Esta-
do potencialmente tao rico continu-
ar a ser efetivamente tao pobre. O
resto 6 fogo de artificio. O rebate
de comemorag9o e, rigorosamente,
falso. Infelizmente.





JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE MARCO/ 1999 7


Linguagem cifrada


O grupo Liberal nao aceita uma redu-
95o da verba publicitaria estadual. Este e
o recado enviado subliminarmente por
uma iniciante mudanca editorial nojornal
O Liberal para ser captado pelo gover-
nador Almir Gabriel. Uma nota do Re-
porter 70, ins6lita para o padro de ade-
sdo incondicional mantido ate entdo, ob-
servou no dia 19:
"Caladinho, caladinho, o Govero do
Para esta batendo o de Itamar Franco na
morat6ria. Em Minas, o prazo de suspen-
sao dos pagamentos 6 de 90 dias. Aqui,
pequenas, medias e algumas grandes
empresas ja vao para 120 dias sem ver a
cor do dinheiro estadual.
S6 na Secretaria de Transportes, em
que muitas obras foram executadas mas
nio empenhadas. a divida pode chegar a
R$ 100 milh6es".
Realmente, a Setran deixou de empe-
nhar alguns servings, contratados e ate exe-
cutados, mas o debito nao iria alem de me-
tade do valor citado pelo jomal (esta teria
sido iuma das causes da queda de Amaro
Klautau, remanejado para a nascente e in-
feriorizada Secretaria de Esportes por Ter
comprometido imoderamente recursos es-
taduais). Nao seria procedente uma inter-
pretacio dada a nota, de que defended os


interesses da Estacon, a construtora (uma
das "algumas grandes empresas") de Lu-
tfalla Bitar, sogro de Ronaldo Maiorana, uma
das credoras da Setran.
Na verdade, a nota e um protest con-
tra a retraq~o da verba publicitaria do go-
verno do Estado. Desde julho os veiculos
das Organizaces Romulo Maiorana es-
t~o faturando bem menos do que preten-
diam e conseguiram no primeiro semestre
do ano passado. Nesse period pratica-
mente foram gastos todos os 9 milhoes de
reais que estavam previstos para o ano
inteiro. :Por forca da legislaaoo electoral, o
governor teria que suspender a publicidade
official a partir dejulho de 1998, motivando
a decisao de utilizar todo o orgamento no
semestre desimpedido.
Desde o 20 tumo da eleicgo houve pou-
ca veiculag~o de anuncios. A dieta atingiu
principalmente a TV Liberal, que continue
exibindo propaganda institutional (os fil-
metes em exibiggo promovem o turismo
intemo), mas nio cobra porque, como con-
trapartida do convenio cor a Funtelpa
(Fundaqco de Telecomunica6es do Pard),
a emissora tem que ceder ao govemo 20
minutes mensais no horario nobre.
As vacas magras, que se prolongaram
pelo period p6s-eleitoral em funcgo da


conjuntura econ6mica national desfavo-
ravel, repercutindo sobre todos os Esta-
dos, pegaram o grupo Liberal no contra-
pe, cor problems de fluxo de caixa,
amortizagao de divida em d6lar e um pia-
no grandiose de Romulo Maiorana Jr. de
investor R$ 36 milh6es num centro hote-
leiro e de conveng6es em grande terreno
da avenida Pedro Alvares Cabral.
O test de forqa vira nos proximos
dias, se outras notas brotarem das pagi-
nas de O Liberal, como se ojoral tives-
se subitamente redespertado para o jor-
nalismo, mantido no freezer sempre que
o cofre registra barulho sonante na inten-
sidade exigida pela casa do parceiro ou
aliado, mas que 6 requentado a moda,
naturalmente quando a registradora nao
soa como requer o grupo. Mesmo que ele
continue a desfrutar do leonino contrato
de cinco anos cor a Funtelpa, garantin-
do-lhe o usufruto da rede pfiblica de trans-
missao de imagens pelo interior do Esta-
do, para os Maiorana parece s6 estar em
vigor uma regra: a que eles criam (e re-
criam) em seu pr6prio beneficio.
O doutor Almir pode vir a experimen-
tar do veneno que ajudou a criar (embora
Rominho insist em que o criador 6 ele e
nao o doutor Almir).


AAJ J JAIJ &J&J J J&L.&& .LLL LLLLLLLLL LL L.J L "iJL-.j -- _J.J_.j _J J


Energia


de poucos

Os santarenos tinham seus motives para
comemorar, neste final de semana, a che-
gada da energia da hidrel6trica de Tucurui
a sede municipal, a segunda maior cidade
do Para. Gracas a ela, sonhar com o fim
dos racionamentos de energia ou do sim-
ples blecaute deixa de ser puro delirio.
Chega ao fun um long period de sofri-
mentos, que fez o goverador Almir Ga-
briel sofrer ali sua principal derrota na elei-
cao do ano passado. Mas a que preco?
Para o Oeste do Para (primeiro foi
Altamira, agora sera a vez de Itaituba),
estao sendo investidos 240 milhoes de
reais numa linha de transmissao cor mil
quil6metros de extens~o e em nove su-
bestayes. Esse valor equivale ao do pro-
grama de macrodrenagem das baixadas


de Belem. As sedes municipals serao
poupadas dos tormentos da insuficien-
cia ou inexistincia pura e simples de
energia. Mas a esmagadora maioria da
populaao espalhada ao long do percur-
so do linhao (chamado de Tramoeste)
continuara as escuras.
Dos 20 milh6es de brasileiros que se
encontram nessa condicgo primitive, se-
gundo levantamento do pr6prio Minist6-
rio das Minas e Energia, 3,6 milhoes vi-
vem no Para. Ou seja: quase 20% da po-
pula9go rural brasileira privada de eletri-
cidade esta no Para, Estado que s6 abri-
ga 4% de toda a populag~o national. Alem
de grande parte da energia gerada em
territ6rio paraense ser transferida para
fora dos seus limits ou entesourada por
enonnes consumidores que pouco inter-
ferem na multiplicacao da riqueza (e me-
nos ainda na sua distribui~go), as linhas
que atravessam o Para estao fora do al-
cance de quase 2/3 dos seus habitantes,
que nao disp6em de subestaqces para


rebaixar a tensao da transmissao, alta
demais para a eletrificagio rural.
A situagco e vexaminosa, ultrajante.
Mesmo quando o governor (no caso, mais
o federal do que o Estadual) executa uma
obra que vai tender important demand
social, como o Tramoeste, sua acao e irra-
cional, a base de desperdicio e concentra-
cao de beneficio. Se a Celpa privatizada
tivesse que devolver o dinheiro pulblico uti-
lizado nessa linha de transmissao, por quan-
to sairia o kw? Por quanto saira mesmo se
o calculo for rigoroso?
A matriz energetica brasileira, e especi-
ficamente a amaz6nica, esta falida. Custa
muito caro, ter margem de desperdicio
enorme e uma relacgo desbalanceada en-
tre custo e beneficio. Sobrevive de uma
estrutura viciada no grande aproveitamen-
to hidreletrico, que hostiliza outras altenati-
vas de geracao. Como modificar essa situ-
ac.o exige muito, prefere-se a solug.o con-
vencional, apesar de cara e concentradora.
Continuara por quanto tempo mais?











* Corn dois mess de atraso, a Secretaria
Exccuti.a de Cultura republicou. no Dia-
rio Oficial do dia 10 de feveieiro. urn ex-
trao de term aditiwo que sain corn incor-
rccoes a 10 dc dzembro do ano passado
Apenas corngiu o 'a:or do contraro, que
seria de R$ 25.680,00. mas que e. na rea-
lidade, de R$ 24.%60.00. No caso, de% ena


QuestAo de aspas
Muito reporter da revista
Veja sai da redag~o para co-
brir fatos com a compulsao das
aspas, uma norma editorial que
se transformou numa sindro-
me. A exigencia das aspas sig-
nifica que a revista nao publi-
ca mat6rias que nao conte-
nham declarag6es de seus per-
sonagens. A norma da vivaci-
dade aos textos jornalisticos.
Mas, ao se tomar uma com-
pulsio obsessive, deixa os re-
p6rteres a um pass da levi-
andade. Muitos ultrapassaram
o limited 6tico. Poucos foram
descobertos.
O caso mais cl6ebre estA em
curso desde o inicio do mes pas-
sado, quando um personagem,
Alex Ferreira Nacfur, acusou a
revista de ter colocado em sua
boca frase que nao disse. A edi-
toria da revista admitiu a impro-
priedade, mas a atribuiu a uma
ncorregio t6cnica de ediCio, o
que deve ser verdade. O inciden-
te, que acabou na policia, envol-
vendo montagem de frase e tam-
bem de foto, e um bom momen-
to para Veja recalibrar seus con-
troles e orientagqes antes de per-
der mais credibilidade.
A aspa, como a crase, nio
foi feita para humilhar nin-
guem. Nem para abonar irres-
ponsabilidade.


ter reptblicado na mtegra o aditio.
A secretaria, alas, ndo se da ao trabalho
de fazer referencia a aditivos anteriores ao
publicar novo aditamento contratual, des-
cumprndo norma do Tnbunal de Contas do
Estado T7o bad, como diria Romulo Maio-
rana A Secretaria de Safide d o rnesmo
cochilo na ediqco do DO do dia 10.


I
/
i *,. .:; ,
_____________________________________________\ *. ___


Interesse public


Buraco
Mauricinho Coelho de Souza, um amigo do peito, vive ha um
mis um drama pessoal: caiu num imenso buraco na avenida
Govemador Magalhies Barata, em frente ao Parque da Resi-
dencia. Quebrou o brago em dois pontos e perdeu o control
sobre uma das mdos. Segundo as previs6es medicas, vai levar
mais quatro meses para se recuperar. Mas sera integralmente?
Sensibilizado corn o drama que ele esta vivendo, abalado emo-
cionalmente, faco este registro para reforar o compromisso
da administradao municipal com seus contribuintes.
Nao sei se Mauricinho ira processar a prefeitura pelos da-
nos sofridos. Deveria. Independentemente disso, e precise pre-
venir acidentes lamentaveis como esse, proporcionados por bu-
racos que se abrem e se mantEm como se fossem detalhes
irrelevantes na vida da cidade. Quando um acidente mais grave
acontece, nos apercebemos de como estao baixas nossas ex-
pectativas e timidas nossas exigencias. Depois, tudo continue
como estava antes. Mas o padrio de vida em Bel6m se rebai-
xa.
Se no centro e assim, imagine-se nos subfirbios, tornados -
em ordem de importancia por ratos, urubus, cachorros e pom-
bos, em parte alimentados pela sujeira crescente, em parte pela
imprevidencia da maioria. A culpa, evidentemente, nao 6 s6 da
prefeitura. A populaqao de habituou a falta de higiene, origina-
da na acao insuficiente do poder puiblico e desenvolvida, a par-
tir dai, num ciclo vicioso de causa e efeito. Mas sempre 6 boa e
oportuna a hora de reverter esse quadro.
Enquanto isso, Mauricinho, a solidariedade deste nanico.


Quem decide?
Uma dfivida digamos as-
sim gnoseol6gica tomou conta
do mercado: 6 possivel escrever
memories sem ter que l-las?
Se for, logo teremos um
surpreendente novo livro na
praga.


Toponimia
Kosovo, Xexenia. Xanana: a geopolitica international
est6 cada vez mais erotizada. Para nosso orgulho, na
velha lingua de Camoes.


Advertencia
Esta ediqao foi fechada aos tapas pelo seu redator solitario em
meio a um slbito problema de safide, forte mas nao grave, exceto para
obrigA-lo a pedir desculpas pr6vias ao leitor por eventuais falhas e por
algumas pautas necessArias nio terem sido cumpridas. Desdejia ali-
as, atribui todos os erros ao miasma, tirando o corpo fora (ou o que
rest dele), penhorado pela compreensio.


Jornal Pessoal
Editor: LOcio FlBlo Pinto
Sede: P c5agerm Boloharn, G-B 053-040
Fones: 223-1929 (fone-fax; e 241.7626 (faxi
Contato: Tv.Benjamin Constani 845/203/66 053-040
Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br
Edio de Arte: Luiz Antonio de Faria Pinto/230-1304
.. . ...


Landi (ou

dandi)?
Extasiado durante a sua
filtima inspe9do a Estacao das
Docas, que esplende com sua
estufa envidragada e refrige-
rada A margem da baia de
Guajara, o govemador Almir
Gabriel nio poupou adjetivo no
elogio ao inspirador da obra:
0 Paulo Chaves e o
novo Landi do Para excla-
mou sua excelIncia.
O velho Landi, nesse ins-
tante, morria pela segunda vez
no ttimulo.


Cearense
Do alto dos seus 91 anos
bem lucidos, Jocelyn Brasil
esta distribuindo entire os
amigos o folheto Memorial
de um Cearense Enjeitado.
Ter um funico prop6sito: "Eu
quero ser cearense e nao
deixam, nao deixam, nio dei-
xam... Por qua? Nio sei",
constata Jocelyn no seu li-
breto, como sempre bem hu-
morado. Se os cearenses
nio se apercebem de alguem
como Jocelyn, entao o reex-
portem para o Para, que o
recebera de bragos abertos,
como sempre. Ao menos
por respeito ao patrim6nio
de tanta vida (e tantas vidas)
de um home caminhando
16pido para o centenario, o
Ceara deveria ser mais
atento.