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journal Pessoal L U C I O F L A V I P I N T O ANO XII N! 206 1- QUINZENA DE MAR(O DE 1999 RS 2,00 AMAZONIA 0 para 0 home destruiu, em duas decades na seculos. 0 iltimo relatorio official, mostra o de 1997, provocou novo impact. Para sem energia (PAG. 7) Museu vota em director (PAM -4) rdido quefoi destruido em quase quatro mnopassadofoi 27% maior do que ~ 7 D esde que o primeiro ser hu- mano destruiu a primeira ar- vore (no s6culo 16, conside- rando-se a hist6ria da coloni- za~ao europeia) ate 1978, quando foi ini- ciado o que o govemo assegura ser o me- lhor program de monitoramento de flo- resta tropical do planet, a base de ima- gens de satelite, a Amaz6nia perdeu 152 mil quil6metros quadrados de floresta. De 1978 at6 o ano passado (em ape- nas 20 anos, portanto), o desmatamento na regiao p6s abaixo quase 400 mil km2, duas vezes e meia a mais do que em qua- se quatro seculos. A area total at6 hoje desflorestada da Amaz6nia, de 550 mil Ss utroscls rattla'hj km2 (do tamanho da Franga, territ6rio que abriga mais de 50 milhbes de habitantes), da ao Brasil o triste privil6gio de ser o pais que mais devastou vegetacio em toda a hist6ria da humanidade. A divulgagao, no mes passado, do 22 relat6rio annual do Inpe (Instituto Nacio- nal de Pesquisas Espaciais, de Sao Jose dos Campos, Sao Paulo) sobre o desma- tamento na Amaz6nia, reaqueceu um tema sujeito as flutua96es sazonais de interes- se sobre a regiao. O Inpe mostrou que a curva do desflorestamento, em sentido descendente desde 1995, voltou a infletir para cima no ano passado, contra uma media sempre abaixo de 15.000 km2 em toda a d6cada de 90. Houve um cresci- mento de 27% entire 1997 (13.227 km2 desmatados) e 1998 (16.838 km2). Bas- tou para irromper uma ladainha de canto e contracanto, as recorrentes critics das entidades ambientalistas contrapostas pe- las medidas de urg8ncia e impact do go- vemo, acrescidas de incisivas declaraq6es de boa intengdo. Apesar dessa 6pera, algumas vezes bufa, o problema e crescentemente serio, mesmo que seu agravamento nao se te- nha feito, nos anos 90, cor a intensidade galopante registrada da segunda metade da d6cada de 70 ate os anos 80. Em 1975, primeiro ano de vigencia do II PDA (Pla-1 f t ,f - h I jD.EJ, Z*S)iAi h i;! hjD U U 1 ) W(6u.y -~5 3 Z JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENADE MARCO/ 1999 1975, primeiro ano de vigencia do II PDA (Piano de Desenvolvimento da Amaz6- nia, 1975/79), o que mais intensamente estimulou a expansdo da fronteira eco- n6mica na regiao, colocando o planeja- mento centralizador da tecnocracia gei- selista (com seus generosos funds de investimento) a servigo do grande capi- tal, o desmatamento na Amaz6nia estava abaixo de 35 mil km2. Ou seja: ao redor de 0.8% da regido, segundo o levantamen- to realizado em conjunto pela Sudam (Su- perintendencia do Desenvolvimento da Amaz6nia) e o IBDF (Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal, anteces- sor do Ibama). Apenas tres anos depois, o levanta- mento global realizado em 1978 corn ima- gens do primeiro dos sat61ites america- nos da serie Landsat, revelou que a area desflorestada se multiplicara por cinco, chegando a 152,2 mil km2. Ja era um aler- ta de impact civilizat6rio, mas ineficaz em um pais carente de um verdadeiro projeto de civilizaCio. Dez anos depois, essa destruiCao mais do que dobrara: em 1988 j ultrapassava 377 mil km2, o equi- valente a 20 vezes o Projeto Jari, entao a maior propriedade rural do planet, for- mada pelo milionario americano Daniel Ludwig entire o Para e o Amapa. A ilti- ma atualizaqgo do Inpe se aproxima de 550 mil km2, area equivalent a toda a regiao Sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Parana). Mas a area efetivamente afetada pela aqao antr6pica (ou do home) vai muito alem do que o registrado pelo Landsat V, a filtima das verses do sat6lite em que agora o Inpe se baseia. Ele nao identifica alteragces feitas na floresta abaixo do seu limited de alcance, que sao areas com mais de 6,25 hectares. Da uma margem de erro pequena, mas real. O sat6lite ameri- cano tambem nao 6 capaz de distinguir a exploragdo seletiva de madeira (que em- pobrece a mata, embora mantendo sua apar6ncia de integridade), nem consegue fornecer imagens satisfat6rias sobre os territ6rios do Amapa e de parte de Rora- ima, devido a intense cobertura de nuvens nesses locals. A mais important relativizagao sobre os dados quantitativos montados pela fo- tointerpretagco, por6m, decorre dos re- sultados de uma pesquisa liderada pela Nasa (a ag6ncia espacial americana), concluida em 1993. A equipe, chefiada pelo fisico David Spole, da Universidade de New Hampshire, constatou que os efeitos destrutivos do desmatamento na Amaz6nia se fazem sentir sobre uma area pelo menos duas vezes e meia superior a fisicamente atingida. Os pesquisadores analisaram com mais detalhe um caso, o de Rond6nia, para de- monstrar esse efeito multiplicador do des- matamento sobre areas contiguas. Por cau- sa do Polonoroeste, fianciado pelo Banco Mundial, a area diretamente desmatada em Rond6nia representava 10% da superficie florestada do Estado, mas as repercussaes negatives foram observadas em um terco de todo o territ6rio rondoniense. Prevalecendo esse principio para toda a Amaz6nia, os efeitos negatives do des- matamento ja se espraiaram por 1,5 mi- lhao de km2 da regiao. Se considerados os 4 milh6es de km2 que o Inpe toma como parametro para seus calculos, isso signifi- ca algum tipo de prejuizo para o ecossiste- ma amaz6nico em quase 40% de toda a sua extensao. O Inpe, entretanto, inclui como verdadeiramente amaz6nica a Pre- Amaz6nia, zona de transi9Co do Planalto Brasileiro (incluindo Tocantins e Mara- nhao). Na Amaz6nia Classica (com 3,3 milh6es de hectares de floresta umida den- sa ou aberta), o desmatamento e de 300 mil km2. Uma area menor, mas com efei- tos negatives muito mais intensos do que nas regimes de cerrado ou mata fina. Na Amaz6nia, como conseqiiincia do anuncio, no passado, de nimeros tao per- turbadores quanto os de fevereiro, a au- torizagco para novos desmatamentos s6 pode alcangar 20% de cada im6vel (50% antes) que requer autorizaggo do gover- no para as derrubadas. Mesmo conside- rando as situacges anteriores a essa re- solugco, velha de um ano, tomar como parimetro nao toda a area da Amaz6nia (a ClAssica ou a Legal), mas a legalmen- te possivel de desmatar hoje, faria com que a dimensao do problema se tornasse dramatica, explosive. Em diversas micror- regi6es amaz6nicas e mesmo em algu- mas mesorregi6es -, o limited legal para p6r abaixo floresta ja foi atingido, ou mes- mo superado. Nao havendo ai mais flo- resta original, o drama consiste em defi- nir a maneira de recuperar essas areas degradadas para uma atividade produti- va de interesse econ6mico. Qualquer novo uso para a floresta ama- z6nica que a elimine ou modifique sera mais caro do que mant8-la como esta, usufruin- do de uma funcio que ela desempenha na- turalmente (a fixagio de carbon, atenuan- do o efeito estufa sobre o planeta, ou in- vestindo em conhecimentos que permitirao, no future, ter dela o mais nobre dos rendi- mentos (incomparavelmente superiores aos atuais). O investimento na recuperaqao de areas degradadas certamente absorvera muito mais capital do que o aplicado para, colocando abaixo a floresta, tentar substi- tui-la por pastagens, cultivos agricolas, plan- tios ex6ticos, garimpos, minas, estradas, hi- drel6tricas ou cidades. Al6m disso, a relagao custo/beneficio da esmagadora maioria desses empreen- dimentos 6 desastrosa. Segundo os calcu- los do govemo federal, dos 550 mil km2 ja desmatados, 200 mil km2 estao abando- nados porque os que intervieram nessas areas nao conseguiram sustentar o rendi- mento da terra depois da remocao da flo- resta e dos efeitos da nova atividade pro- dutiva sobre o solo. 0 ministry do Meio Ambiente, Jose Sarney Filho, espera po- der patrocinar a reconversao de pelo me- nos 100 mil km2 para exploracao agroflo- restal. E 10 vezes mais do que a meta do p6lo florestal de Carajas. Como sera pos- sivel alcangc-la? De onde vira o dinhciro? Assim, para cada tr6s hectares quc desmatou na Amaz6nia, o home so con- seguiu continuar usando dois. Perdeu um tergo da area que ocupou produtivamen- te menos de duas d6cadas depois de te- la ocupado (ou quem o sucedeu no lo- cal). A nova gerag9o ja nao recebera como heranga dos pais a mais rica flo- resta tropical do globo terrestre, mas uma savana de novo tipo. E um process sel- vagem, absurdo. Como, entIo. ele subsiste a todas as ini- ciativas para substitui-lo pelo tal do desen- volvimento sustentavel, mais freqiente nos encontros academicos do que no campo? E evidence que enquanto a Amaz6nia fin- cionar como valvula de escape para os pro- blemas irresolvidos da parte de mais antiga ocupado do Brasil, a pressao demografica e econ6mica continuara impossibilitando um process mais ordenado, racional e mesmo sustentavel de producio. Com todas as informac6es tecnicas e cientificas a mao sobre a riqueza da bibli- oteca gen6tica escondida sob essa cor- nuc6pia vegetal, o colonizador da Ama- z6nia continue a agir como um barbaro, destruindo em pouco tempo o que ficou guardado por seculos como um aval para o future de um pais brindado pela nature- za com esse fantastico conjunto de vida associado ao paraiso num passado cada vez mais remote, cada vez mais doloroso no coracao como na mente. JOURNAL PESSOAL 14 QUINZENA DE MARCO / 1999 3 Hamlet no PMDB (ou: ser oposigao?) O deputado Bira Barbosa, ex-lider do PMDB na Assembldia Legislativa, agora 20 vice-presidente da casa, garante: na negocia- qao que fez cor o governador Almir Gabriel para apoiar a chapa situacionista de Marti- nho Carmona, final vitoriosa, o tema (inico da agenda foi a organizaqco administrative da AL para a pr6xima legislature. Negando informagao publicada na ediaio anterior deste journal, Bira diz que nao pediu cargos, nem fez qualquer outra solicita~io pes- soal, para parents ou correligionArios. Admi- te que tem cinco familiares na administration estadual, inclusive a esposa, "mas todos in- gressaram no serviqo pliblico por concurso, a maioria antes de eu ser parlamentar". Segundo ele. o que fez na negociagqo foi cobrar do go- verno compromisso cor a execuoo das emen- das parlamentares apresentadas por seu parti- do ao orcamento deste ano. Bira diz ainda que foi o inico interlocutor peemedebista junto ao governador por dele- gacao de toda a bancada. Reconhece que, ori- ginalmente, sua intenqgo era reivindicar a 1" secretaria, mas aceitou outros dois cargos na mesa (e mais duas presidencias de comiss6es) como uma retribuicao compativel cor os oito votos dados pelo PMDB. que decidiu a elei- cao em favor de Carmona. Acha que essa foi uma alterativa melhor do que compor corn a chapa oposicionista, tendo A frente Duciomar Costa. Lembra que em 1995 o seu partido tinha 12 deputados, que, somados aos oito do PPB, aliado na eleicgo para governador (cor Jarbas Passarinho), davam-lhe condioes de dominar a AL. Ainda assim, nao conseguiu eleger He- rundino Moreira president do legislative. Bira Barbosa express confianca na manu- tencao da atual bancada peemedebista, a se- gunda maior da AL (logo abaixo dos tucanos do PSDB), nao tendo motives para esperar defecqes. Confirma a orientagio de manter a bancada em uma posiqgo que classifica como independent, nio sendo govemista nem opo- sicionista. "Apoiaremos o govero quando ele reahnente beneficiary o Estado", diz. Tais declaraq6es, aqui abrigadas em res- peito ao direito de resposta do parlamentar, nao sao suficientes, entretanto, para esgotar o di- lema que o PMDB enfrenta atualmente. 0 par- tido vive ainda a ressaca p6s-eleitoral de mais uma derrota majoritAria, desta vez cor o me- Ihor dos seus candidates, o senador Jader Bar- balho, que 6 tamb6m o president regional do partido (al6m de seu maior dirigente national). Pessoalmente, Jader nem endossou e nem aprovou a iniciativa de Bira Barbosa, muito menos os resultados alcancados. Como nada tinha a oferecer aos correligionArios para imu- nizA-los contra a sedugqo do governor, com seus favors e cargos (ainda que nao solicitados, como diz o deputado), simplesmente liberou a bancada. Nao 6 boa estrat6gia para quem ja comeqou sua campanha visando o governor em 2002. mas 6 uma attitude realist. Impor uma unidade a partir de Brasilia seria precipitar uma sangria no PMDB paraense: alguns parlamen- tares estAo buscando apenas um pretexto para pular para a nau do governador. Como esti, a posicio do PMDB na AL en- fraquece os pianos de Jader de estruturar o partido para as eleiqces municipals do pr6ximo ano. Se quiser disputar o governor em melho- res condicqes do que as do ano passado, ele vai precisar contar corn o maximo possivel de prefeitos. Nesse horizonte, 6 pega fundamen- tal, se nAo uma vit6ria, pelo menos um bom desempenho em Bel6m, onde vem se firmando uma tradicio de rejeiqAo ao PMDBjaderista. O senador vai precisar oferecer, aos politi- cos interioranos, o que nao p6de apresentar aos deputados: provas de que ainda tern po- der junto ao governor federal, podendo com- pensar, ao menos em part, os beneficios da miquina official do Estado. Jader tambdm vai precisar definir seu perfil pessoal. Se continu- ar dando prioridade A sua carreira federal, man- tendo-se mais tempo em Brasilia e ampliando suas ligacoes nacionais, o preQo sera inviabili- zar sua candidatura ao governor e tomar mais dificil a pr6pria reeleicqo para o senado. O PMDB sera reduzido a um tamanho liliputeano atd a campanha do ano 2000. Ja As vdsperas da eleicqo do ano passa- do, Jader foi obrigado a reconhecer sua par- cela de culpa na delicada situaqAo em que se viu envolvido, sofrendo a primeira derrota eleitoral de toda a sua carreira. Ele admitiu que a attitude ambigua do PMDB, mantida at6 a und6cima hora da dispute, na maioria das vezes apoiando totalmente os atos do gover- no, fortaleceu Almir Gabriel. Esse erro decor- reu tanto do fisiologismo da bancada quanto do oportunismo de Jader. Interessado em manter-se em Brasilia, ele partilhou da convicqCo do governador, mes- mo que apenas intimamente, de que acabariam fechando um acordo. Quando essa hip6tese se revelou impossivel, ja estava na condiqo do aviao que avanqa demasiadamente na pista para ainda poder decolar com sucesso, mas frear nao impedira o aparelho de se acidentar. Nem sobe, nem evita a colisAo. O PMDB esta comecando exatamente da mesma maneira como se comportou na abertu- ra do primeiro mandate de Almir Gabriel. Jader deve ter cidncia dos efeitos negatives da repe- tigao do erro, ja que uma attitude combatente de oposic~o 6 sua melhor (embora onerosa) attitude atd a eleigo de 2002, mas estA sem for- Ca para impedi-lo. S6 podera evitA-lo se voltar a tomar o Para como base e se definir. o mais breve possivel, uma estratdgia eleitoral para o PMDB em todo o Estado, nao como um clube de (aliAs, falsos) escoteiros, mas como um par- tido corn o mapa de acesso ao poder. O primeiro desafio 6 pessoalmente desa- gradAvel ao lider do PMDB no Senado, ultima- mente mais envolvido com Brasilia e Fortaleza do que com Bel6m. Mas ele sempre disse que estava consciente de erro semelhante cometi- do por seu ex-aliado Jarbas Passarinho. unani- midade na capital federal, mas progressivamen- te erodido no seu manancial de votos na pro- vincia. A tentaaoo de ser personalidade nacio- nal 6 como um canto de sereia para politico sem outra alternative de votos que nao os pro- saicos currais do sertao (ja que voto nio 6 mana, mandado dos c6us). A queda podera ser tho fulminante quanto a ascensao. O outro desafio consiste em encontrar um nome capaz de disputar com dignidade a elei- go na capital. O unico disponivel no momen- to 6 o da deputada Elcione Barbalho, marcada pela fragorosa derrota de 1992, pela reducqo do total de votos obtidos para a Camara Fede- ral, por problems pessoais ainda nio integral- mente resolvidos e por uma aversio intima por dispute majoritAria. Estes elements desfavo- raveis poderao ser superados? Mesmo sem ela, o PMDB encontrard em seus quadros outro nome de densidade? Ou, mais uma vez, terA que aceitar aliancas que lhe chegam cor o nome do cabega de chapa ja preenchido? Ainda haveria lugar para hip6tese ainda menos crivel: a reconciliac9o entire Jader e Al- mir? Um observador politico, raciocinando em abstrato, imagine que ambos poderiam apoiar o vice-governador Hildegardo Nunes para a pre- feitura de Bel6m no pr6ximo ano e subir ao mes- mo palanque em 2002, Jader candidate ao go- vemo e Almir ao senado, apostando na desme- m6ria coletiva e nas vantagens de combinar suas forgas para enfraquecer as dos adversArios. Hoje, essa hip6tese 6 impensAvel, principalmente por subordinar o senador ao governador, mas quem pode garantir alguma coisa nessa political invertebrada que se pratica no Para? SAo algumas das angustiantes perguntas que o PMDB como um todo e o seu principal lider, especificamente, terao que responder. sem muito tempo para tentar o ensaio e erro sugeri- do pela resposta do deputado Bira Barbosa, cujo desmentido requer fatos futures para ma- turar. Cor todo o respeito, uma c6tica aceita- Co 6 uma postura metodol6gica mais recomen- dAvel. A bolsa das apostas estA em alta. 4- JOURNAL PESSOAL 18 QUINZENA DE MARCO / 1999 Museu: em busca de novos caminhos A hist6ria de 132 anos do Museu Pa- raense Emilio Goel- di registra neste ano uma novidade: pela "' primeira vez seus funcionarios esto sendo consultados * sobre a escolha dos ''' novos dirigentes da instituigdo. Um de- bate entire tres dos cinco candidates assumidos (um estava fora do Esta- do e outro preferiu ndo comparecer), no ultimo dia 18, e uma eleigco, con- vocada para este dia 2, assinalam a intencgo da comunidade do MPEG de abandonar a postura passiva ate entao mantida diante dos destinos da mais antiga instituigao de pesquisa ci- entifica do Norte do pais, e tamb6m de se abrir para o pilblico. O cami- nho ate uma auto-gestdo, que arre- mataria esse process participativo, entretanto, ainda 6 um sonho. Na pratica, tudo continue sem mu- danga. Quem vai former a lista tripli- ce a ser submetida a Brasilia 6 o Con- selho T6cnico Cientifico, podendo ou nao incorporar os nomes votados. Ja o ministry da Ciencia e Tecnologia, Bresser Pereira, dono absolute da palavra final, querendo, poderA igno- rar todos os nomes apresentados e optar por indicagoo unilateral, de cima para baixo. Mas ja nao tem sido esta a regra. As instituim6es estIo alargan- do a base de consult, ate mesmo ul- trapassando os pr6prios muros para permitir a candidates externos plei- tear suas candidaturas com base em bons curriculos. O maior desafio do Goeldi, alias, e exatamente vencer uma tend6ncia ao retraimento (e a uma falsa auto- suficiencia), que o faz colocar-se numa redoma de vidro ou numa tor- 4a z '4o re de marfim. Esse desafio imp6e duas condig6es: ser capaz de inter- nalizar-se, como elo vital de uma Amaz6nia carente de ciencia basica, e dar consistencia a um padrdo in- ternacional de excel6ncia cientifica, que o habilite como interlocutor da comunidade cientifica de todo o mundo. Uma condigdo requer inser- 9co regional, expressed mais usada como decoragao ret6rica do que como ferramenta de trabalho. A ou- tra, uma competencia international, que preserve os interesses nacionais e regionais nojogo das absorg6es e influencias. O Museu ter permanecido a mar- gem da angustiante busca regional por conhecimento e saber, pouco contri- buindo para a aproximagao entire ci- encia e empirismo. Esse distancia- mento 6 justamente uma das causes do irracionalismo marcante no pro- cesso de ocupagdo da Amaz6nia. Mas tambem ter faltado consisten- cia, qualidade e assiduidade A pro- dugdo cientifica do Museu, capaz de dar-lhe a indescartavel e necessaria credencial como legitimo porta-voz cientifico da regiao. Escorar o MPEG na sua tradicgo mais do que centenaria e uma tenta- 9ao facil, mas a hist6ria da instituigdo mostra que a fama esta enterrada no passado (o que e bom), mas nao pode viver s6 dele (o que os momen- tos de crise ciclica sempre revelaram). O Museu necessita de uma profunda e ur- gente reform, de um . piano inteligente e de S pessoas capazes de S coloca-lo em pratica. A bela redoma que Ihe serve de moldura pode sufoca-lo se tudo continuar no faz- de-conta e na acomodacgo. Todos deveriamos nos perguntar se o MPEG continuara a ser paraen- se apenas no nome. Se o governor estadual permanecera indiferente ao precioso patrim6nio que cedeu em comodato a administracgo federal, na d6cada de 50, quando desobrigou- se de custear o que excedia a capa- cidade dos seus recursos. O minimo que se deveria esperar dessa relacgo era que o governor se interessasse em participar das deci- sbes (e ate da remodelaao juridica da instituigao, tirando-a da camisa- de-forga em que foi colocada) e par- tilhar das dificuldades, solidarizando- se na gestdo (e tambem nos encargos financeiros), de tal maneira a reintro- duzir o Museu na vida paraense (a du- vida consiste agora em indagar se tal provocacao e desejavel, num momen- to em que o governor do Estado liqui- da, a mao ciruirgica, sua principal ins- tituicgo de pesquisa, o Idesp; nao seria melhor deixar o monstro ou o medico? desatento?). A questdo nao afeta apenas o go- verno diretamente: diz respeito a pr6- pria populacgo paraense. Ou o Mu- seu 6 de fato nosso, ou e, no Para, apenas um acidente de localizago. Tanto o Museu pode ajudar a coleti- vidade a ter mais consciencia da fun- 95o essencial da ci6ncia na definicgo de melhores rumos para a region, JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE MARCO / 1999 5 como a populacdo pode obrigar o Museu a ouvir-lhe os clamores, que impossibilitam um cientista de apenas fazer ciencia, desinteressado do seu dever na difusao do conhecimento. Ao contrario do que pode parecer, a resoluCgo desses desafios nao requer populismo cientifico, embora exija atenggo political (finalmente, no deba- te do dia 18, um candidate tocou pu- blicamente na questao). Requer, an- tes de tudo, a melhor das ciencias, sem a qual nao se podera recuperar o tem- po perdido e as riquezas destruidas no avango (sem um acompanhamento sig- nificativo do saber militant) das fren- tes econ6micas. Um levantamento re- alizado por um dos candidates ao car- go de director mostrou que a busca da excelencia cientifica ainda nao se tra- duz na producao cientifica da institui- 9o, acanhada para a amplitude das tarefas que a Amaz6nia contempora- nea nos exige e a comunidade inter- nacional cobra. Alcance tao vasto que o Museu nao pode mais esperar apenas por seu ajuste institutional (passando do CNPQ para o Ministerio da Ciencia e da Tecnologia) ou pelo pinga-pinga de verbas num orcamento national in- capaz de ajustar suas rubricas as ino- vag~es do desafio amaz6nico, ceden- do-lhe tao somente o residuo dos re- cursos. O Museu tern que internacio- nalizar-se, nao no sentido de servir de abrigo, covil ou biombo para pes- quisadores e institui6bes de outros paises, cor seus pr6prios interesses impermeaveis as demands locais, como as vezes ocorre, mas para fun- cionar como chamariz para os melho- res homes da ci6ncia em todo o mundo, todos, de alguma maneira, to- cados pela seducao da Amaz6nia. O Museu tem que voltar a ser grande, nao s6 na auto-estima, por vezes im- propriamente inflada, estendendo raizes tanto para o vasto hinterland como para o mundo. Estando a al- tura dos dominios da natureza e do home colocados no ambito da sua jurisdigao, mas nao tanto ao alcance de sua aIao. Reverencia paroquial Acompanho O Estado de S. Paulo ha 34 anos, metade desse period como funcionario da empresa (da qual sai em 1988). Nunca vi Julio de Mesquita Neto, o responsavel pelojoral em grande parte desses anos, registrar as centenas (ou milhares) de votos de parab6ns que re- cebia a cada aniversario. 0 registro mais ostensivamente pessoal que se permitiu foi do titulo de Pena de Ouro, que re- cebeu (da Sociedade Interamericana de Imprensa? Nao lembro mais). Ate as vi- sitas na redacgo foram progressivamente restringidas no noticiario, indicando a evoluCgo da desprovincianizag9o do journal. Quando inevitaveis, dispensava- se a foto inefavel. 0 Liberal do dia 23 publicou 51 men- sagens de felicitacies pelo aniversario de Romulo Maiorana Junior, principal executive da empresa, ocorrido 11 dias antes. O atraso ja recomenda mal o jor- nal, incapaz de cumprir a agenda de atu- alidade e oportunidade da imprensa, re- quisito minimo para ser encarado como empreendimento jornalistico. E possivel que Rominho s6 se tenha apercebido de que seu aniversario poderia ser noticia pela lembranga de algum vassalo da cor- te, mais realista do que o rei. Alguns desses aulicos chegaram a assinar duas mensagens ao nataliciante, O jornalista Carlos Leal (quid?) decidiu saudar em versos de rima paup6rrima o homenageado. A vice-prefeita Ana Ju- lia Carepa aloprou, talvez inebriada pela competi9ao inter pares que trava com o companheiro Edmilson Rodrigues. Em linguagem pr6pria, proclamou em sua mensagem: "A palavra que mais ter si- n6nimo de Romulo Maiorana 6 lideran- Ca, Romulo Maiorana significa lideran- ca, no sentido literal. Desejo-lhe sempre sa(ide, para continuar chefiando o Esta- do", escreveu, fazendo acompanhar seu texto um "forte abrago". Quem, para o bem ou para o mal, con- tinua a chefiar o Estado do Para por de- legagdo do povo, a fnica capaz de con- ferir esse poder num regime politico de sanidade, o govemador Almir Gabriel, conseguiu ser um pouco mais s6brio do que a combative camarada petista. Ain- da assim, afogado pela onda de hip6rbo- les que adornaram a curul editorial do querido chefe. Nosso frances Quando o garimpo de Serra Pelada estava no auge da fama, em 1980, um jornalista italiano bateu a minha porta num meio de manha de sabado. Conver- samos ate o fim da tarde. Passei-lhe tudo o que sabia sobre os dominios do entao major Curi6. Quando o colega se des- pedia, perguntei-lhe quando iria para o garimpo. "Nao vou", respondeu-me. "Pego o aviao de volta ao Rio de Janei- ro daqui a pouco", me informou corn a cara mais limpa. Desde entao passed a receber mis- s6es estrangeiras cor reserve, mesmo as individuals. Corn esse p6 atras abri a porta para o frances Gerard Prost, que me procurou pedindo-me para dar uma olhada num texto que escrevera sobre a ocupagao da Amaz6nia. Gerard, entre- tanto, logo escancarou essa fresta corn seu estilo calmo e seguro, cor sua dedi- caCao ao tema e cor sua produtivida- de. Trocamos ideias enquanto ele pre- parava um livro sobre a hist6ria do Para, tocado pela clamorosa lacuna existente na raquitica bibliografia disponivel. O primeiro volume saiu. O segundo ainda transit pela burocracia estadual. Mas Gerard ja nao podera apreciar sua cuidadosa obra: uma fulminante parada cardiac tirou-lhe a vida quando ele fa- zia um "sonhado cruzeiro fluvial" pelo Alto Nilo, segundo sua vitva, Maria The- reza. S6 algo assim, silbito e incontor- navel, tiraria Gerard das joviais tarefas que se impunha, do alto de 71 anos in- suspeitados. A terra prestaria uma just homenagem a um estrangeiro que tao bem embora brevemente a serviu, editando o livro corn que ele remiu um pecado acabrunhante dos paraenses di- ante de sua pr6pria hist6ria. Mem6ria eterna para Gerard Prost. Que a merece. ( JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE MARCO/ 1999 Ato de raiva A extingdo do Idesp deixou de ser um procedimento administrative nor- mal. Passou a ser um ato de selvageria do governador Almir Gabriel, que eno- doa o seu segundo mandate. O gover- nador ainda nao mandou para a Assem- bl6ia Legislativa a mensagem cor a extinqao do Instituto do Desenvolvimen- to Econ6mico e Social do Para, mas decidiu imediatamente remanejar todos os seus funcionarios, espalhando-os numa diaspora pontilhada de situacges deprimentes, e acabou com o acervo do 6rgao vitima. Houve uma cena pat6tica quando uma pessoa encarregada e alguns au- xiliares chegaram ao pr6dio do Idesp, na avenida Nazar6, para levar a biblio- teca. Pensavam que eram apenas al- gumas centenas de volumes e que esse rico acervo, incluindo dezenas de mi- lhares de documents, peri6dicos e li- vros poderia ser levado como uma car- rada de area. Acabou prevalecendo um minimo de bom senso e o transport foi adiado para outro dia. Qualquer pessoa medianamente sen- sata, entretanto, sabe qual o dano que uma biblioteca sofre ao ser mudada de instalacao. A do Idesp estava num ponto central, tinha tradicgo, estava organizada e era valiosa. Mesmo que seja preserva- da integralmente em um novo local, con- tinuard integra? Voltara a ser recompos- ta? Quando estara novamente disponivel para consult? Vai servir a quem? O pior ficou reservado para o quadro funcional do institute. A necessidade de reunir todos os servidores para em segui- da dar-lhes outro rumo permitiu verificar quanta gente do Idesp estava em outros 6rgaos, alguns deles com 6nus para o pr6- prio institute, que perdia o funcionario e ainda era obrigado a paga-lo para traba- Ihar em outro lugar. Essa deve ter sido uma das distorgSes usadas como pretex- to pelos que investiram contra o Idesp. Ao inv6s de corrigirem o erro, mataram quem dele padecia. Sabendo que seu ato e temerario e insubsistente, o govemador decidiu-lhe dar-lhe a fei9ao de fato acabado, lancan- do uma bomba neutra contra a sede do Idesp (esse tipo de bomba, como se sabe, s6 preserve a estrutura fisica). Assim, os deputados, quando forem chamados a apreciar o ato, terao que realisticamente se curvar a ele. Mas se, numa attitude de resistEncia e insubmissao diante do puro arbitrio, que at6 agora nenhum segment da sociedade civil teve, o legislative rejei- tar a iniciativa do executive, como ficara a situaCqo? Todos os atos serao revistos, com o 6nus inerente? Ou o que comegou como pura raiva, raivosamente sera man- tido? Neste epis6dio, a administrac5o Almir Gabriel desceu mais um patamar da es- cada do descr6dito. .. . . . . . . . . .. . . . . . . .......... ......... . . . . .... . . . . . .. . . . . . . . . .......... ............... ........... . . . . . . . . . . . . . .. . .. . r a .......*....P a l 0 ................ ............. ............ ............. ...... . . . . . . . . . . .. . .......... ...... .. ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . .. . . A imprensa divulgou com grande estardalhago: o Para esta em tercei- ro lugar entire os Estados brasileiros que mais receberao investimentos em infra-estrutura at6 o ano 2003, abai- xo apenas de SIo Paulo e Rio de Ja- neiro. Segundo levantamento feito pela Abdib (Associagao Brasileira de infra-estrutura e Industrias de Base), no Para serao aplicados o equivalent a 19,8 bilh6es de d6lares, contra US$ 50,2 bilh6es em Sao Paulo e US$ 34,9 bilh6es no Rio de Janeiro, os fnicos Estados em posigao superior. Logo abaixo ficaram Minas Gerais (US$ 17,7 bilh6es) e Rio Grande do Sul (17,6). O Espirito Santo, que tem o perfil mais pr6ximo do paraense, s6 tera direito a US$ 3,8 bilh6es, no 130 lugar. Para o Ceara, 120, estao previstos US$ 5,1 bilh6es. No Brasil inteiro, de acordo com a Abdib, as aplica96es de capital so- marao US$ 225 bilhoes at6 2003. A participagao percentual do Para e de mais de 8% no conjunto do pais, con- centrando os investimentos que se- rao feitos em todo o Norte (US$ 32,5 bilhoes), tambdm o terceiro no ranking national por regi6es. Sao numeros excepcionalmente eleva- dos, reforqando a confianCa no fu- turo do Estado. Mas a interpretacao esta correta? Infelizmente a imprensa se limitou a repassar um press-release recebi- do da Abdib. Se fosse apurar melhor, como seria seu dever, verificaria que esse panorama favoravel precisa ser relativizado. Dos US$ 19,8 bilh6es previstos para o Para, US$ 15,8 bi- lhWes sao destinados ao setor de ener- gia eldtrica. Nao foi possivel saber se essa previsao computa a duplicacgo da hidrel6trica de Tucurui e o inicio da construrco da usina do Belo Mon- te, no Xingu. Nesse caso, o investi- mento tera pouco efeito multiplicador no Para. Seus principals efeitos se- rao sentidos fora do Estado, pelos consumidores da energia bruta que para eles sera transferida, consolidan- do nossa funcao colonial de provin- cia energ6tica. O outro setor privilegiado e o de mineracao, com US$ 2,8 bilh6es. in- cluindo, provavelmente, o Projeto Sa- lobo. Mineraqao mais energia el6- trica ficam, portanto, com US$ 18,6 bilh6es dos US$ 19,8 bilh6es calcu- lados pela Abdib, distribuindo-se as migalhas restantes entire transport e portos (US$ 437 milh6es), petr6- leo e gAs (US$ 380 milhoes), papel e celulose (US$ 236 milh6es) e sa- neamento (US$ 180 milh6es). Aten- te-se para o detalhe que a previsao consider investimentos iniciados em 1997, que irao atd 2003, numa dura- qao de sete anos. Tal previsao de investimentos em infra-estrutura e indistrias de base perpetua, ao inves de eliminar, o modelo de enclave imposto ao Para pelos grandes projetos. Vai continuar o paradoxo de um Esta- do potencialmente tao rico continu- ar a ser efetivamente tao pobre. O resto 6 fogo de artificio. O rebate de comemorag9o e, rigorosamente, falso. Infelizmente. JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE MARCO/ 1999 7 Linguagem cifrada O grupo Liberal nao aceita uma redu- 95o da verba publicitaria estadual. Este e o recado enviado subliminarmente por uma iniciante mudanca editorial nojornal O Liberal para ser captado pelo gover- nador Almir Gabriel. Uma nota do Re- porter 70, ins6lita para o padro de ade- sdo incondicional mantido ate entdo, ob- servou no dia 19: "Caladinho, caladinho, o Govero do Para esta batendo o de Itamar Franco na morat6ria. Em Minas, o prazo de suspen- sao dos pagamentos 6 de 90 dias. Aqui, pequenas, medias e algumas grandes empresas ja vao para 120 dias sem ver a cor do dinheiro estadual. S6 na Secretaria de Transportes, em que muitas obras foram executadas mas nio empenhadas. a divida pode chegar a R$ 100 milh6es". Realmente, a Setran deixou de empe- nhar alguns servings, contratados e ate exe- cutados, mas o debito nao iria alem de me- tade do valor citado pelo jomal (esta teria sido iuma das causes da queda de Amaro Klautau, remanejado para a nascente e in- feriorizada Secretaria de Esportes por Ter comprometido imoderamente recursos es- taduais). Nao seria procedente uma inter- pretacio dada a nota, de que defended os interesses da Estacon, a construtora (uma das "algumas grandes empresas") de Lu- tfalla Bitar, sogro de Ronaldo Maiorana, uma das credoras da Setran. Na verdade, a nota e um protest con- tra a retraq~o da verba publicitaria do go- verno do Estado. Desde julho os veiculos das Organizaces Romulo Maiorana es- t~o faturando bem menos do que preten- diam e conseguiram no primeiro semestre do ano passado. Nesse period pratica- mente foram gastos todos os 9 milhoes de reais que estavam previstos para o ano inteiro. :Por forca da legislaaoo electoral, o governor teria que suspender a publicidade official a partir dejulho de 1998, motivando a decisao de utilizar todo o orgamento no semestre desimpedido. Desde o 20 tumo da eleicgo houve pou- ca veiculag~o de anuncios. A dieta atingiu principalmente a TV Liberal, que continue exibindo propaganda institutional (os fil- metes em exibiggo promovem o turismo intemo), mas nio cobra porque, como con- trapartida do convenio cor a Funtelpa (Fundaqco de Telecomunica6es do Pard), a emissora tem que ceder ao govemo 20 minutes mensais no horario nobre. As vacas magras, que se prolongaram pelo period p6s-eleitoral em funcgo da conjuntura econ6mica national desfavo- ravel, repercutindo sobre todos os Esta- dos, pegaram o grupo Liberal no contra- pe, cor problems de fluxo de caixa, amortizagao de divida em d6lar e um pia- no grandiose de Romulo Maiorana Jr. de investor R$ 36 milh6es num centro hote- leiro e de conveng6es em grande terreno da avenida Pedro Alvares Cabral. O test de forqa vira nos proximos dias, se outras notas brotarem das pagi- nas de O Liberal, como se ojoral tives- se subitamente redespertado para o jor- nalismo, mantido no freezer sempre que o cofre registra barulho sonante na inten- sidade exigida pela casa do parceiro ou aliado, mas que 6 requentado a moda, naturalmente quando a registradora nao soa como requer o grupo. Mesmo que ele continue a desfrutar do leonino contrato de cinco anos cor a Funtelpa, garantin- do-lhe o usufruto da rede pfiblica de trans- missao de imagens pelo interior do Esta- do, para os Maiorana parece s6 estar em vigor uma regra: a que eles criam (e re- criam) em seu pr6prio beneficio. O doutor Almir pode vir a experimen- tar do veneno que ajudou a criar (embora Rominho insist em que o criador 6 ele e nao o doutor Almir). AAJ J JAIJ &J&J J J&L.&& .LLL LLLLLLLLL LL L.J L "iJL-.j -- _J.J_.j _J J Energia de poucos Os santarenos tinham seus motives para comemorar, neste final de semana, a che- gada da energia da hidrel6trica de Tucurui a sede municipal, a segunda maior cidade do Para. Gracas a ela, sonhar com o fim dos racionamentos de energia ou do sim- ples blecaute deixa de ser puro delirio. Chega ao fun um long period de sofri- mentos, que fez o goverador Almir Ga- briel sofrer ali sua principal derrota na elei- cao do ano passado. Mas a que preco? Para o Oeste do Para (primeiro foi Altamira, agora sera a vez de Itaituba), estao sendo investidos 240 milhoes de reais numa linha de transmissao cor mil quil6metros de extens~o e em nove su- bestayes. Esse valor equivale ao do pro- grama de macrodrenagem das baixadas de Belem. As sedes municipals serao poupadas dos tormentos da insuficien- cia ou inexistincia pura e simples de energia. Mas a esmagadora maioria da populaao espalhada ao long do percur- so do linhao (chamado de Tramoeste) continuara as escuras. Dos 20 milh6es de brasileiros que se encontram nessa condicgo primitive, se- gundo levantamento do pr6prio Minist6- rio das Minas e Energia, 3,6 milhoes vi- vem no Para. Ou seja: quase 20% da po- pula9go rural brasileira privada de eletri- cidade esta no Para, Estado que s6 abri- ga 4% de toda a populag~o national. Alem de grande parte da energia gerada em territ6rio paraense ser transferida para fora dos seus limits ou entesourada por enonnes consumidores que pouco inter- ferem na multiplicacao da riqueza (e me- nos ainda na sua distribui~go), as linhas que atravessam o Para estao fora do al- cance de quase 2/3 dos seus habitantes, que nao disp6em de subestaqces para rebaixar a tensao da transmissao, alta demais para a eletrificagio rural. A situagco e vexaminosa, ultrajante. Mesmo quando o governor (no caso, mais o federal do que o Estadual) executa uma obra que vai tender important demand social, como o Tramoeste, sua acao e irra- cional, a base de desperdicio e concentra- cao de beneficio. Se a Celpa privatizada tivesse que devolver o dinheiro pulblico uti- lizado nessa linha de transmissao, por quan- to sairia o kw? Por quanto saira mesmo se o calculo for rigoroso? A matriz energetica brasileira, e especi- ficamente a amaz6nica, esta falida. Custa muito caro, ter margem de desperdicio enorme e uma relacgo desbalanceada en- tre custo e beneficio. Sobrevive de uma estrutura viciada no grande aproveitamen- to hidreletrico, que hostiliza outras altenati- vas de geracao. Como modificar essa situ- ac.o exige muito, prefere-se a solug.o con- vencional, apesar de cara e concentradora. Continuara por quanto tempo mais? * Corn dois mess de atraso, a Secretaria Exccuti.a de Cultura republicou. no Dia- rio Oficial do dia 10 de feveieiro. urn ex- trao de term aditiwo que sain corn incor- rccoes a 10 dc dzembro do ano passado Apenas corngiu o 'a:or do contraro, que seria de R$ 25.680,00. mas que e. na rea- lidade, de R$ 24.%60.00. No caso, de% ena QuestAo de aspas Muito reporter da revista Veja sai da redag~o para co- brir fatos com a compulsao das aspas, uma norma editorial que se transformou numa sindro- me. A exigencia das aspas sig- nifica que a revista nao publi- ca mat6rias que nao conte- nham declarag6es de seus per- sonagens. A norma da vivaci- dade aos textos jornalisticos. Mas, ao se tomar uma com- pulsio obsessive, deixa os re- p6rteres a um pass da levi- andade. Muitos ultrapassaram o limited 6tico. Poucos foram descobertos. O caso mais cl6ebre estA em curso desde o inicio do mes pas- sado, quando um personagem, Alex Ferreira Nacfur, acusou a revista de ter colocado em sua boca frase que nao disse. A edi- toria da revista admitiu a impro- priedade, mas a atribuiu a uma ncorregio t6cnica de ediCio, o que deve ser verdade. O inciden- te, que acabou na policia, envol- vendo montagem de frase e tam- bem de foto, e um bom momen- to para Veja recalibrar seus con- troles e orientagqes antes de per- der mais credibilidade. A aspa, como a crase, nio foi feita para humilhar nin- guem. Nem para abonar irres- ponsabilidade. ter reptblicado na mtegra o aditio. A secretaria, alas, ndo se da ao trabalho de fazer referencia a aditivos anteriores ao publicar novo aditamento contratual, des- cumprndo norma do Tnbunal de Contas do Estado T7o bad, como diria Romulo Maio- rana A Secretaria de Safide d o rnesmo cochilo na ediqco do DO do dia 10. I / i *,. .:; , _____________________________________________\ *. ___ Interesse public Buraco Mauricinho Coelho de Souza, um amigo do peito, vive ha um mis um drama pessoal: caiu num imenso buraco na avenida Govemador Magalhies Barata, em frente ao Parque da Resi- dencia. Quebrou o brago em dois pontos e perdeu o control sobre uma das mdos. Segundo as previs6es medicas, vai levar mais quatro meses para se recuperar. Mas sera integralmente? Sensibilizado corn o drama que ele esta vivendo, abalado emo- cionalmente, faco este registro para reforar o compromisso da administradao municipal com seus contribuintes. Nao sei se Mauricinho ira processar a prefeitura pelos da- nos sofridos. Deveria. Independentemente disso, e precise pre- venir acidentes lamentaveis como esse, proporcionados por bu- racos que se abrem e se mantEm como se fossem detalhes irrelevantes na vida da cidade. Quando um acidente mais grave acontece, nos apercebemos de como estao baixas nossas ex- pectativas e timidas nossas exigencias. Depois, tudo continue como estava antes. Mas o padrio de vida em Bel6m se rebai- xa. Se no centro e assim, imagine-se nos subfirbios, tornados - em ordem de importancia por ratos, urubus, cachorros e pom- bos, em parte alimentados pela sujeira crescente, em parte pela imprevidencia da maioria. A culpa, evidentemente, nao 6 s6 da prefeitura. A populaqao de habituou a falta de higiene, origina- da na acao insuficiente do poder puiblico e desenvolvida, a par- tir dai, num ciclo vicioso de causa e efeito. Mas sempre 6 boa e oportuna a hora de reverter esse quadro. Enquanto isso, Mauricinho, a solidariedade deste nanico. Quem decide? Uma dfivida digamos as- sim gnoseol6gica tomou conta do mercado: 6 possivel escrever memories sem ter que l-las? Se for, logo teremos um surpreendente novo livro na praga. Toponimia Kosovo, Xexenia. Xanana: a geopolitica international est6 cada vez mais erotizada. Para nosso orgulho, na velha lingua de Camoes. Advertencia Esta ediqao foi fechada aos tapas pelo seu redator solitario em meio a um slbito problema de safide, forte mas nao grave, exceto para obrigA-lo a pedir desculpas pr6vias ao leitor por eventuais falhas e por algumas pautas necessArias nio terem sido cumpridas. Desdejia ali- as, atribui todos os erros ao miasma, tirando o corpo fora (ou o que rest dele), penhorado pela compreensio. Jornal Pessoal Editor: LOcio FlBlo Pinto Sede: P c5agerm Boloharn, G-B 053-040 Fones: 223-1929 (fone-fax; e 241.7626 (faxi Contato: Tv.Benjamin Constani 845/203/66 053-040 Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br Edio de Arte: Luiz Antonio de Faria Pinto/230-1304 . . . .. . . . . ... Landi (ou dandi)? Extasiado durante a sua filtima inspe9do a Estacao das Docas, que esplende com sua estufa envidragada e refrige- rada A margem da baia de Guajara, o govemador Almir Gabriel nio poupou adjetivo no elogio ao inspirador da obra: 0 Paulo Chaves e o novo Landi do Para excla- mou sua excelIncia. O velho Landi, nesse ins- tante, morria pela segunda vez no ttimulo. Cearense Do alto dos seus 91 anos bem lucidos, Jocelyn Brasil esta distribuindo entire os amigos o folheto Memorial de um Cearense Enjeitado. Ter um funico prop6sito: "Eu quero ser cearense e nao deixam, nao deixam, nio dei- xam... Por qua? Nio sei", constata Jocelyn no seu li- breto, como sempre bem hu- morado. Se os cearenses nio se apercebem de alguem como Jocelyn, entao o reex- portem para o Para, que o recebera de bragos abertos, como sempre. Ao menos por respeito ao patrim6nio de tanta vida (e tantas vidas) de um home caminhando 16pido para o centenario, o Ceara deveria ser mais atento. |
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