Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00154

Full Text




Journal
L U C F L


A


ANO XII Ne 205 25 QUINZENA D


n nepotismo

Pessoal ""t(PG.6)
V I 0 P I N T OLegislativo
IE FEVEREIR 19991Er -f$12,; fiCOu prior
JA I (PAG. 3)
JARI


E para implodir?

0 Jari, o mais antigo dos grandes projetos do "milagre econdm L/IB
Amazonia, completou 20 anos de operafao. Nele o governor jd i m u mais de
milhoes. Mas o Jari ainda tern um dibito de R$ 320 milhJes e ecisa de out4
milh&es para ficar corn side capitalist. A empresa estd d be da fal g a, '
sobreviver; precisa. Como resolver essa eq Ff? p?


k-. a' m 1982 o banquei- Ar.."
ro paulista Olavo
SSetubal foi um dos '^
Sempresarios inti- c -'
Smados pelo ento
todo-poderoso ministry Del-
fim Neto a substituir o mili-
onArio americano Daniel -
Keith Ludwig no control do
Projeto Jari. Ludwig se re-
cusara a pagar empr6stimos T
internacionais contraidos f, g
para implantar o empreen- .
dimento. Como a Uniao ava- V
lizara a transagdo, sendo
obrigada a honrar o compro-
misso, ojeito foi nacionali-
zar o imp6rio que DKL es-
tava montando na selva
amaz6nica, entire o Para e o
Amapa, com o apoio dos
goveros militares p6s-64.
Setubal foi o inico dos 23 -
empresarios nacionais "con- c
vidados" por Delfim que foi
A Area ver cor seus pr6pri-
os olhos em que consistia o neg6cio. Vol-
tou convencido de que era uma ratoeira.
Ndo entrou na operaqgo de emerg6ncia
armada pelo jurista Bulh5es Pedreira.
Outros nao puderam ou nao quiseram
recusar (deviam favors e faturamento
ao governor Viraram s6cios de Augusto
Trajano de Azevedo Antunes, dono da
maior mineradora brasileira, que ficou
com a maioria das ages da nova Com-
panhia do Jari. Com um detalhe nada des-
prezivel: nao precisou entrar com um tos-
tao seu. Bastou integralizar sua parte com
as ages da Cadam, todas dele, a empre-
sa de caulim do Jari, que ja dava lucro -


e continue a ser a inica lucrative na Area.
Os outros 22 s6cios tiveram apenas
que promoter aplicar o equivalent a tries
milh6es de d6lares ao long dos meses
seguintes, desembolsando de imediato a
bagatela de US$ 100 mil. Com tal aporte,
tiveram acesso a um ativo de US$ 750
milh6es, dos quais apenas US$ 175 mi-
Ih6es eram capital pr6prio de Ludwig. Os
outros US$ 575 milh6es provinham de
empr6stimos e financiamentos internaci-
onais, repassados a dois bancos p6blicos,
o BNDES e o Banco do Brasil, que fica-
ram com a batata quente na mAo.
JA Olavo Setubal, principal acionista


do Itaa, ao inv6s de subscrever ages da
Jari, fez o que 6 competencia de um ban-
queiro: emprestou-lhe dinheiro. Hoje, a
empresa Ihe deve 10% dos R$ 197 mi-
lhWes em aberto na conta cor 18 bancos
nacionais, dos quais 6 o cabega da lista.
O remanescente da divida cor o BNDES
e o BB 6 de R$ 110 milh6es (70 e 40
milhoes, respectivamente). Mas os dois
bancos pfiblicos j despejaram, no mini-
mo, outros R$ 300 milh6es no empreen-
dimento, dinheiro que converteram em
aq6es preferenciais (sem control admi-
nistrativo, por6m; t6m direito apenas a
dois assentos no conselho da empresa))


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:.. ~~?i*~j~'~'~- ~ r. I--: I~ Irrrr
-4L 3





2 JOURNAL PESSOAL 2! QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999


,sempre que precisaram honrar os com-
promissos desrespeitados por Ludwig.
BNDES e BB acabaram por ficar
com 35,5% do capital (o maior contro-
lador, os irmaos Frering, sucessores do
av6, Antunes, detem 44%), numa es-
tranha parceria, principalmente para
estes tempos de privatizagao a qualquer
prego (em geral, de banana, por ser o
Estado quem vende). Como financia-
dores, sio obrigados a exigir seu capi-
tal de volta. Como parceiros, tnm que
aguardar o pagamento de dividends.
Por enquanto, receber dividends da
Jari 6 sonho, se nao delirio.
Em 1998 o Jari completou 20 anos
de funcionamento. S6 deu lucro em um
exercicio, o de 1994. Acumula um enor-
me prejuizo. Operacionalmente, atW que
a empresa se equilibra. No ano passa-
do, contabilizando mais um deficit, a Jari
Celulose bateu todos os records de pro-
duqgo e produtividade, seguidas vezes
alcancando mais de mil toneladas de pro-
dugao a cada dia (para uma capacidade
nominal de 750 toneladas), mas tendo
que interromper esse ritmo porque hA
pelo menos dois anos a unidade nao tern
uma boa manutengao, ressentindo-se dos
efeitos do tempo.
Fechou o ano indo a quase 290 mil
toneladas (o normal sao 240 mil), redu-
zindo a niveis inimaginiveis o custo de
produgdo entire 280 e 300 d6lares. Mas
tamb6m o prego da celulose no merca-
do international bateu no subsolo (US$
380), quase anulando todo o esforgo na
produ~io. Por isso, o balango do ano pas-
sado, ainda nao divulgado, devera trazer
mais um prejuizo, o 19 desde o inicio de
sua operag~o, em 1979.
O grande problema, contudo, 6 finan-
ceiro. Ha dois anos a empresa aguarda
corn ansiedade que BNDES, BB e de-
mais bancos credores assinem corn a
Caemi dos irmaos Frering um protocolo
de inten96es para a renegocia~go da di-
vida, gravitando entire R$ 300 e 320 mi-
lh6es. Essa demora esta se tornando in-
suportavel. Para evitar que algum dos
pequenos credores peca a sua fal8ncia,
a Jari criou uma nova razao social, a Ja-
cel, para nela abrigar corn seguranga a
fabrica e suas unidades complementa-
res. Todas as terras e plantios ja estao
hipotecados. Com a falta de uma clara
definicao financeira, cresce o nervosis-
mo no mercado vinculado A empresa,
compreendendo 1.500 empregados dire-
tos, seis mil indiretos, uma comunidade
de 50 mil pessoas e dezenas de emprei-
teiros e fornecedores. Tecnicamente, a
Jari Celulose esti pr6-falimentar.
Sem cr6dito, a empresa faz mala-
barismos para former seu capital de
giro. No ano passado precisava plan-


tar quatro mil hectares de eucalipto,
mas, sem recursos, teve que cancelar
todo o plantio. Por enquanto, ha mat6-
ria-prima suficiente para as necessi-
dades da fabrica e at6 para um consu-
mo ampliado de 330/350 mil toneladas,
mas no future (talvez em seis anos) ha-
verA falta de suprimento se o plantio
nao for logo retomado. O custeio da
infra-estrutura 6 pesado, mas supor-
tavel, desde que melhor estruturado (a
empresa, por exemplo, quer cobrar pela
operagdo no aeroporto, que Ihe exige
R$ 200 mil anuais).
O Jari tamb6m precisa de capital para
investimento, algo como R$ 230 milh6es,
sendo, de imediato, R$ 110 milhoes para
construir a hidrel6trica de Santo Anto-
nio, aliviando o custo da geragCo de ener-
gia (hoje A base de 6leo diesel e restos
de madeira), que a deixa praticamente
sem condig6es de competir com seus
principals concorrentes, principalmente
no mercado brasileiro, e R$ 46 milh6es
para capital de giro. Mas tamb6m preci-
sa.renovar e ampliar a capacidade de
produglo para pelo menos 350 mil tone-
ladas nominais, ainda aqu6m do tama-
nho 6timo em escala global, que seria de
500 mil toneladas.
Essa faganha, entretanto, nao pode
ser realizada pelos seus atuais con-
troladores. Primeiro Augusto Antunes
e, em seguida, os netos que o suce-
deram A frente do grupo Caemi, fo-
ram exageradamente beneficiados
pelo governor. Antunes fez um dos
melhores neg6cios da Rep6blica quan-
do participou da arquitetura, a seis
maos (as dele, de Delfim e de Pedrei-
ra), do desenho da nacionalizagCo. Ao
long dos anos, investiu pouco no Jari.
Ao contrario, usou-o como chamariz
para operag5es que iriam beneficiary
seus neg6cios no Sul do pais. Nao deu
a devida aten~go que a gravidade da
equagao financeira delicada exigia.
Os irmaos MArio e Guilherme Frering
foram menos ativos ainda.
Quando a transferencia da empre-
sa a novos grupos empresariais este-
ve madura, entire 1995 e 1996, o BN-
DES preferiu tentar ainda uma opera-
9Ao de rescaldo (imagem que pode ser
catarticamente associada ao inc6ndio
de 1996 e tamb6m ao acidente anteri-
or na fabrica). Mas os irmaos, que nao
se entendem, foram ainda menos ca-
pazes de entender o Jari, que s6 fo-
ram conhecer anos depois de recebe-
rem o acervo e de passage (Gui-
lherme morando em Paris).
Com o empreendimento atingido no
Amago por uma divida de R$ 320 mi-
lhWes e dependent de um investimen-
to de R$ 230 milhoes para adquirir sai-


de capitalist, interessar novos donos
nao 6 tarefa facil. O grupo americano
Trillium, especialista no setor, disp6s-
se a assumir o neg6cio, mas A maneira
de Antunes em 1982: sem li colocar
um riiquel que nao fosse para fazer a
fibrica produzir. Os encargos financei-
ros seriam passados integralmente ao
governor, como ha 17 anos, comegan-
do tudo outra vez, esquecendo-se os
R$ 300 milhoes ali empatados pela
dupla BNDES/BB e mais os R$ 320
milhOes pendentes, atirados a conta da
viiva. Nao houve acordo, 6 claro.
No final do mes passado o gover-
nador Almir Gabriel tentou interessar
a Anglo American a descascar o aba-
caxi, supondo que o grupo, por ter 12%
das a9qes da Aracruz Celulose, no Es-
pirito Santo, poderia se interessar pelo
Jari. O raciocinio, entretanto, nao ter
muita substancia. A Anglo estA fe-
chando um process de reestruturagao,
que compreendeu o deslocamento da
sede (da conturbada Johannesburgo, na
Africa do Sul, para a acolhedora Lon-
dres), a compactagao do grupo em
duas matrizes (a Anglo Gold, especi-
alizada em ouro, do qual 6 a maior pro-
dutora mundial, e a Anglo American,
absorvendo todos os outros neg6cios)
e a concentragao dos investimentos em
metais bAsicos.
No ParA, seu grande interesse, em-
bora talvez a prazo muito mais long do
que pensa o governador, continue sen-
do o cobre de Carajas. Jari nao esta na
prancheta. Quem talvez esteja exami-
nando especulativamente o neg6cio 6 o
principal executive da Companhia Vale
do Rio Doce, a s6cia da Anglo na mi-
neragao de cobre. Benjamin Steinbru-
ch mandou recentemente ao Jari o prin-
cipal executive da CVRD na area de
celulose, Manoel Horacio Francisco da
Silva. Nao se sabe o que ele relatou.
Uma definiggo rApida, exeqiiivel e
just para um empreendimento como
esse constitui questao vital para o Para
e o AmapA. Afinal, ha pelo menos R$
400 milh6es de dinheiro p6blico ali en-
terrado, quase o dobro do que esta sen-
do aplicado no maior program jA con-
cebido para uma cidade da Amaz6nia,
a macrodrenagem das baixadas de Be-
16m, destinado a beneficiary 500 mil pes-
soas. O complex agro-industrial pode
ainda ter falhas de concepC9o, mas ope-
ra bem melhor do que antes. E o que
fazer com ele se a atual abulia persis-
tir? Implodi-lo? Um problema de tal
envergadura nao pode continuar a ser
considerado apenas "detalhe". Na bom-
ba de efeito retardado que ali foi mon-
tada, o ponteiro do rel6gio que a aciona
continue funcionando.





JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 J


Vox Dei"?


No seu estilo, o governador Almir Gabriel nao responded direta-
mente aos critics da extingio do Idesp, imperialmente determina-
da por ele (ver Jornal Pessoal 204). Mas mandou uma resposta
indireta atrav6s do seu porta-voz, o jomal O Liberal. Segundo a
regra gabrielina que fulminou o Idesp (Instituto do Desenvolvimen-
to Econ6mico e Social do Pard), "neste govemo nenhuma empresa
do Estado poderd ser deficitiria". Sua excelencia nao aceita "que se
tenha de tirar recursos do Tesouro (estadual) para fmanciar deficits
dessas empresas [como Cosanpa, Banpard e Paratur]. Eu posso
garantir que n6s saneamos o Estado de maneira important durante
esses quatro anos, mas ainda precisamos avangar".
Conforme a sintaxe bem tucana, o Idesp tomou-se um anacro-
nismo. "Por que ficarmos louvando estruturas que perderam aquilo
que faziam? Fazem pesquisas? Fazem, mas que podem ser coman-
dadas por um escrit6rio, por uma mesa. Nao precisa ter uma equipe
cor gastos, com atividade-meio tao grande", sentenciou, embora
deixando em p6 os cabelos dos que entendem do riscado, mas man-
tem a boca fechada para a mosca do castigo nela nao entrar.
Institute de pesquisa bAsica, de produgo de series estatisticas
ou de excel6ncia tecnol6gica e cientifica nao pode regular-se pelo
livro de deve e haver de uma empresa. A analogia do tortuoso
raciocinio governmental nao se aplica ao caso. Um institute como
o Idesp 6 investimento, que retorna na forma de inovaqco, inven-
go, reform, compreensao, lucidez, massa critical indicadores
que nao cabem na contabilidade de quitanda instalada na Augusto
Montenegro. Como pode o govemador considera-lo atividade-meio


onerosa quando, no orgamento deste ano, reserve para o seu gabi-
nete nada menos do que 17,2 milhSes de reais?
O Idesp pode se transformar em um Instituto de Cincia e
Tecnologia da Amaz6nia para estudar os problems da regiao a
maneira do IPT de Sao Paulo ou da Coptec do Rio de Janeiro,
como imagine o fisico Jose Maria Bassalo (a Universidade Fe-
deral do Pard bem que poderia acordar para um urgente debate
sobre o Idesp antes que ele vire defunto).
Se o Idesp reduziu-se a uma iconoclastia burocratica inOtil, a
solugao estA em muda-lo, nao em extingui-lo. O que o governador
Almir Gabriel determine categoricamente para uma Area do saber
human que nao constitui exatamente sua expertise corresponde-
ria, no setor que Ihe diz respeito, a um m6dico receitar para a cura
de uma infec9ao grave uma dose cavalar de antibi6ticos, que ira
transferir para os efeitos colaterais a causa-morte do paciente.
Revelaria que a intolerAncia ainda nao o tomou por inteiro se o
governador reabrisse o debate, antes de consumer o passamento
do Idesp corn discurso finebre de baixa qualidade e inspiragao de
p6ssimo gosto. Deixando no rastro dessa conurbagdo de incompe-
tencias a suspeita de um rabo muito dom6stico e mesquinho a
tender as conveniencias dos que entraram pelajanela do Idesp e
sairam por suas portas, catapultados para cargos de importincia
na administragdo estadual, A espera da sacramentaqao, sem o ris-
co de uma operacgo pente-fino nas suas origens. Se for dessa
natureza a morte do Idesp, quem recebera n6doa definitive em sua
hist6ria serao os seus coveiros. 0


Em baixa
Houve uma dpoca em que s6
o militant mais experience ou o
observador mais perspicaz no-
tavam as marcas do comprome-
timento da votagao para a for-
maqao da mesa diretora da As-
sembleia Legislativa do Para. As
c6dulas eram viciadas, As vezes,
atrav6s de um quase invisivel
furo, feito por agulha ou alfine-
te, em determinadas letras, per-
mitindo identificar cada um dos
eleitores e mantendo-os sob ri-
gido control superior, apesar da
votagao ser secret.
Na composigao da mesa
deste ano as sofisticaq es fo-
ram deixadas de lado em benefi-
cio do rustico e eficaz rolo com-
pressor. As c6dulas simplesmen-
te tinham tamanhos distintos,
um ardil tao grosseiro que logo
foi descoberto e denunciado.
Nem assim inibiram-se os que ar-
ticularam e comandaram a elei-
gao dos novos dirigentes do le-
gislativo, conforme a vontade do
chefe do poder executive.


Mas a AL desceu mais um
patamar na perda de credibili-
dade, evoluindo na escala do fi-
siologismo e do descompromis-
so politico com a sociedade. O
governador nao se constrangeu
de ir ao plenArio um pouco an-
tes de se consumer ali a articu-
lagio que fechara na v6spera,
nem os deputados situacionis-
tas se vexaram cor a mA reper-
cussao junto A opiniao pfiblica.
Menos ainda o lider do princi-
pal partido de suposta oposi-
CAo, o PMDB, definindo a atua-
9io da sua bancada em retribui-
9go a migalhas concedidas pelo
governador a familiares do de-
putado Bira Barbosa, al6m de
eventuais outras serventias. Na
bacia das almas das operagBes
mercantis, uma desarticulada e
pouco inspirada dissidencia
apenas complicou as tratativas
para a recompra, sem, contudo,
inviabiliza-la.
Um clima de relaxamento 6ti-
co, moral e politico tao grande
que dois suplentes de deputado
embolsaram oito mil reais pelo


exercicio de 15 dias de manda-
to-tampao em fun de legislatu-
ra, arrastando consigo assesso-
res que nada fariam de assesso-
ramento propriamente dito, ex-
ceto tamb6m embolsar suas pe-
c6nias.
A legislature que comega pa-
rece que conseguira uma faqanha:
ser pior do que a anterior.

Imprensa
As fotos reproduzidas no
Querido Ivan, o filtimo livro de
Haroldo Maranhao, vArias de-
las publicadas pela primeira vez,
devem ter surpreendido e leva-
do muita gente a refletir sobre o
destiny do pr6dio construido
por Francisco Bolonha para ser
a sede da Folha do Norte, ojor-
nal mais important do Pard nes-
te sdculo at6 a d6cada de 60.
Uma das fotos mostra a maciga
construCgo ainda isolada, antes
de ser levantado um pr6dio ge-
minado, onde funcionou o Im-
parcial, o vespertino da familiar
Maranhao. Outra foto revela o


interior da resid8ncia familiar,
que ficava nos altos do edifi-
cio, antes de sucumbir sob a re-
forma que Romulo Maiorana
mandou fazer quando ali insta-
lou seu O Liberal, successor da
Folha no control do jornalis-
mo impresso.
Acho que valia a pena restau-
rar a fisionomia original do prd-
dio, por seu valor hist6rico e ar-
quitet6nico, livrando-o da des-
caracterizagao feita na face que
dd para a Castilhos Franca e res-
tabelecendo suas linhas interio-
res. JA que o prefeito Edmilson
Rodrigues estA tao bem afinado
com os Maiorana, poderia esta-
belecer mais uma parceria para
ali instalar um centro de docu-
mentaqao sobre a hist6ria da ci-
dade e um museu da imprensa,
se necessArio desapropriando o.
im6vel. Talvez assim se pudesse
reconstituir a hist6ria real, sub-
metida a uma lavagem mnem6ni-
ca para apagar os registros inde-
sejaveis e reduzir ojornalismo A
fancaria mercantil que hoje o ca-
racteriza. 0 ParA, penhorad#
agradeceria.


miiw'






4 JOURNAL PESSOAL 21 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999


Cala-se o mestre,



fica sua memorial


Mauricio Tragtemberg morreu em Sao Paulo, no
final do ano passado, aos 67 anos. Fiquei sabendo
duas semanas atrAs, lendo uma revista da PUC pau-
lista, o 6ltimo lugar onde ele deu aulas. Nao me lem-
bro de ter visto um registro na grande imprensa naci-
onal. Se houve, foi tdo pequeno que nao o percebi.
Incompativel corn a importancia de Mauricio: ele foi
um dos homes mais cultos que este pais j teve, e
um dos seus melhores professors. Um tipico pro-
fessor: escreveu poucos livros, relacionando a buro-
cracia ao poder politico, mas fertilizou com seu ceti-
cismo criador centenas de cabecas.
Fui seu aluno de Ci8ncia Politica na FundaLao
Escola de Sociologia e Politica de Sao Paulo, o mais
important centro de ciencias humans do Brasil
entire as d6cadas de 40 e 50. No final dos anos 60,
quando ali cheguei, j estava em decadencia. Entre
seus professors ainda havia nomes respeitAveis,
como os do antrop6logo Otavio da Costa Eduardo
(colega de Darci Ribeiro), do soci6logo Hiroshi Sai-
to, da pesquisadora Aparecida Jolly Gouveia, en-
tre outros. Mas esses professors jA nao se inte-
ressavam pela formaqn o dos seus alunos. Otavi-
nho (como ainda o tratavamos), por exemplo, enri-
quecera cor pesquisas de mercado. Suas aulas se
restringiam a repetir Herskovitts. Os questiona-
mentos o enervavam. Passou o abacaxi ao seu mo-
nitor, por acaso eu.
Com civilidade e respeito, minha geraqao na
escola colocou para fora todos esses decorativos
nomes sagrados. Como a repressao se esquecera
da Sociologia e Politica, instalada fora do campus
da USP, na Praqa General Jardim, a tres quartei-
r6es da (ja entao) destruida Maria Ant6nia, atrai-
mos intelectuais proscritos de outros lugares mais
em evidencia (o nosso FHC esteve 1A). A antiga
escola superior da afluente elite paulistana, A 6po-
ca ainda seduzida pelo projeto organico de um des-
potismo esclarecido, experimentou um rissorgi-
mento entire 1969 e 1974.
Mauricio Tragtemberg foi um dos que mais con-
tribuiu para aproveitar com inteligencia o cochilo
dos inquisidores fardados e seus atiqadores civis.
(em geral udenistas, mesmo os de fritar bolinho na
geladeira, como os de Slo Paulo, que faziam seus
chAs civicos no Pacaembu). Suas aulas de Politica,
sempre dadas em tom provocative, ora mordaz ora
c6mico, equivaliam a dezenas de livros enquanto
duravam e a muitas outras dezenas depois, como
ressonancia. Ninguem, com inteligencia perceptive,
escapava ao magnetismo de Mauricio, com seujeito
relaxado, a voz as vezes inaudivel, mas emoldurado
pelo brilho dos que da vida retiram o sumo..
O curso sobre Maquiavel podia ser conside-
rado do melhor nivel em qualquer parte do mun-
do. Apresentou aos alunos a versao gramsciana
do sabio de Florenca imaginando ser novidade para
todos. Mostrei-lhe artigos sobre Antonio Gra-
msci que ja publicara em A Provincia do Pari,
antes das traduqoes brasileiras, cor base em arti-
gos da Rinascitd, de Palmiro Togliatti (embora
nao conhecesse Maquiavel, a Politica e o Estado
Moderno). Ficou sinceramente emocionado dian-
te do bugre de 20 anos com textos sobre o italiano


publicados na remota provincia. Abracou-me. Fa-
lou baixinho, ao p6 do ouvido: parabdns. Para ele,
equivalia a um grito de gol.
Melhor do que ouvir Tragtemberg em sala de
aula era partilhar de sua conversa, entire muitos e
muitos cigarros, acesps, indiferentemente ao ris-
co de cancer (que o mataria), em moto continue
com a palestra, em cafeterias, bares e (se o inter-
locutor fosse merecedor) em sua casa. Do cafezi-
nho de final de tarde passava-se A cerveja de ini-
cio de noite e podia-se atravessar a madrugada no
Bor Retiro (antes de tudo foi umjudeu seculari-
zado e desalienado, como Karl Marx), sem inter-
valo para recuperar o f6lego.
Mauricio nos sepultava sob uma torrente de
indicaSoes bibliogrAficas, resenhas de livros, ma-
trizes te6ricas mil, fofocas hist6ricas fascinantes.
A revolugao russa era explicada pelo encadeamen-
to das estruturas determinantes, mas, sem descer o
nivel da narrative, tamb6m ficava-se sabendo dos
mais bem escondidos potins da corte, nessa combi-
natao de abstraqao e realidade que aproxima a His-
tdria academic dos homes de care e osso, que,
final de contas, sao os que a fazem.
Mauricio As vezes interrompia a converse para
ir buscar o livro que confirmaria sua informagro ou
tese (quando nao citava de cor trechos da obra,
cor sua ficha acompanhante de autor, editor, data
e, quem sabe, nOmero da pAgina referida, gragas A
sua prodigiosa mem6ria). Pensam que ia A estate?
NAo: o tal livro podia estar escondido na cristalei-
ra, ou em algum outro ponto ins6lito da casa (s6
nao vi um na geladeira; talvez nao tenha prestado
atenqao) alcangado pela onda de livros ali acumula-
dos com sofreguidao pelo chefe da familiar, talvez
para afliq~o de sua leal e paciente companheira.
VArios amigos comuns garantiam a confraria,
montada na Livraria de Ciencias Humanas, de Raul
Mateus Castell (epigono do secular anarquismo
espanhol, mal disfarcado de comunismo), sob o
control do Pereira, um nordestino que figuraria
cor aprumo em qualquer poema de Fernando Pes-
soa ou em romance de acento lusitano do (por aca-
so) italiano Antonio Tabucchi (o nosso Pereira tam-
bem afirmava e muito, 6 Lutfalla).
Mas o amAlgama de n6s todos era o venerando
Livio Xavier, sabedoria luminar exportada do Nor-
deste para a Paulicdia, raiz de muito galho intelectu-
al espraiado sobre o territ6rio national. Meu segun-
do filho 6 tamb6m Livio para expressar minha imen-
sa admiragao por aquele home pequenino, de fei-
dra santa, deficiente fisico, com seu etemo palet6
escuro, sem gravata, todo amarrotado, sua bem pos-
ta boina francesa de maquis, que, efetivamente, um
resistente intellectual ele sempre foi, parecendo aca-
bado de sair de um romance de Anatole France.
Mauricio era um dos discipulos de Livio Xavi-
er, como MArio Pedrosa e tantos outros, a maioria,
de inicio, trotskistas que, felizmente, se mantive-
ram ou foram mantidos fora do poder (inclusive o
pantagruelico Paulo Francis, versao ipanemense).
Os que tentaram ou conseguiram tomar de assalto
o aparelho de Estado geraram um castigo imereci-
do (sera mesmo imerecido?) ao fundador do Ex6r-


cito Vermelho, que podia ser acusado de muita coi-
sa (o massacre do Kronstadt, por exemplo), mas
nAo de inculto, estupido.
Os leninistas foram muito mais bem sucedidos
nesses golpes. Intelectualmente, entretanto, nAo
se comparam (o que deve center uma liqao inquie-
tadora) aos herdeiros de Lev Davidovitch Brons-
tein, o nome de batismo de Trotsky. Sua foraa 6
ainda tao grande que, do outro lado do espectro
ideol6gico, quando se visitava a casa de Oliveiros
S. Ferreira, na pacata Indianapolis, Id podia-se ver
um poster do renegade Trotsky (para complicar
ainda mais, ao lado da expressao bern judaica de
Hannah Arendt). Oliveiros era tido como ide6logo
de militares ilustrados, mas tiranicos, como o ge-
neral Golbery do Couto e Silva.
Eu dava noticias de Livio a Mauricio, ja que os
dois pouco se viam Aquela altura. Uma ou duas
vezes por semana Livio Xavier ia A minha mesa, na
redagdo de O Estado de S. Paulo, depois de entre-
gar sua coluna semanal (uma resenha de revistas
estrangeiras que s6 os connoisseurs estavam habi-
litados a melhor apreciar). Seu texto jA refletia sua
dificuldade para ordenar por escrito as idWias (dati-
lografadas num caos) e gestA-las nos limits de sua
vida de deficiente fisico, envelhecido, vivendo so-
zinho num minusculo apartamento da barulhenta
avenida Consolaqao (na ligaqao com a Xavier da
Silveira), tornado por livros.
As vezes eu descia cor ele. iamos ao Mutam-
ba, o limitado bar-restaurante freqiientado pela fau-
na do Estadao, A falta de alternative melhor e mais
pr6xima. TomAvamos um cafezinho (ele num copo)
e o acompanhava ate o seu apartamento, sincroni-
zando-me ao seu lento e sofrido andar. LA nos aco-
modAvaros como podiamos, e conversAvamos,
longas conversas que ele permitia ao ne6fito na-
quele mundo do saber.
Jd era dificil perceber todas as suas palavras,
engroladas de natural, mas agravadas cor o tempo.
Havia ainda o acr6scimo de uma ironia fina e com-
pacta, resvalando freqtientemente para o sarcasmo,
exigindo estofo cultural e informative para ser bem
acompanhada. E ele se permitia longos sil&ncios A
espera da manifestapao do interlocutor. Certamente
suspenderia tudo se seu silencio voluntArio fosse
seguido por um silencio compuls6rio do outro lado.
Livio Xavier era uma cultural viva, deslumbran-
te, habitando aquele corpo consumido pelas in-
tempdries da vida. Foi um imenso privildgio ter
sido seu amigo, um privil6gio impossivel de esque-
cer, tanto pelo filho, que fiz emprestar-lhe o nome,
como pelo conhecimento que ele me permitiu al-
cangar. E uma prova da indigencia cultural brasilei-
ra ninguem ainda ter coletado seus abundantes ar-
tigos dejornal e cor eles montado um livro.
A mesma divida tenho para com Mauricio Trag-
temberg, muito maior do que posso expressar nes-
te insignificant registro de sua f6rtil passage por
este mundo dos homes. Eternidade para sua me-
m6ria, que subsiste em minfsculas porcOes dentro
de cada um dos milhares dos seus alunos, que ele
formou em uma longa carreira de professor, de mes-
tre, 6 o minimo que merece. 0





JOURNAL PESSOAL 2s QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 5


Governadores de 18 dos 27 Estados
brasileiros se reuniram no mrs passado,
em Sao Luis, mobilizados por Roseana Sar-
ney, para declarar apoio ao president Fer-
nando Henrique Cardoso. E um coro situa-
cionista mais forte do que o dos oito go-
vernantes oposicionistas, supostamente
liderados por Itamar Franco, de Minas Ge-
rais. HA fraturas tanto num bloco quanto
no outro e as etiquetas nem sempre caem
como luva nos personagens.
Mas a reuniao de Sao Luis permit avali-
ar a situaqio em que se encontra a parcela
maior da federacao brasileira e os resultados
da gestao political. Sete desses Estados es-
tao sob o control do PSDB, seis corn o PFL,
quatro com o PMDB e um corn o PPB, espec-
tro partidArio conservador. Doze governado-
res conseguiram se reeleger em 1998 e seis
assumiram agora o cargo pela primeira vez.
Isto parece indicar que o uso da miquina
p6blica tornou a reeleicao um jogo de cartas
quase marcadas.
Os governadores do sistema fizeram o
everr de casa", segundo o novo jargao,
mas pode-se duvidar de que a tal reform
do Estado tenha resultado em melhorias
para a populacao, permitindo ao governor
melhor utilizar recursos antes empregados
em atividades-meio, aplicando-os finalmen-
te em atividades-fim.
O Estado que menos compromete sua
receita cor a folha de pessoal 6 Roraima,
cor indice de 18,1%. Segue-se-lhe o Ama-
zonas (36,1%), vindo a seguir Tocantins
(46,6%), Paraiba (50,6%), Pard (51,4%), Ce-
arA (52,3%), Bahia (52,9%) e Mato Grosso
(55,1%), todos abaixo do limited de 60% es-
tabelecido pela Lei Camata. Os demais ain-
da nao se enquadraram, mas estao pr6xi-
mos do exigido. O caso mais grave 6 o do
Distrito Federal, at6 a l6tima eleiqao admi-
nistrado pelo PT, que usa mais de 79% da
sua renda para pagar seus funcionArios.
Embora, na proveitosa renegociagao de
suas dividas junto A Uniao, os Estados ha-
jam se comprometido a utilizar, para quita-la,
entire 11% limitede inferior) e 15% limitede supe-
rior, no qual o Pard se enquadrou) de sua
receita, o volume desse d6bito 6 expressive
apenas no caso de Sao Paulo (mais de R$ 46
bilh8es). A Bahia, cor o segundo maior en-
dividamento, tern no passive R$ 906 milh6es.
Proporcionalmente, o caso mais grave 6 o de
Mato Grosso (corn governador do PSDB),
que ter d6bito de R$ 779 milhdes (o terceiro
maior). A divida do quarto maior devedor, o
Parana, d de R$ 462 milhies, enquanto a do
Espirito Santo (o seguinte) 6 de R$ 387 mi-
lhaes, a de Sergipe 6 de R$ 313 milhoes e a
do Pard (o s6timo), de R$ 261 milhoes.
O melhor PIB (Produto Interno Bruto)
per capital entire esses 18 Estados 6 o do
endividado DF, que alcanqa R$ 6.580 (onde


ha pouca atividade efetivamente produti-
va). O de Sao Paulo, de R$ 6.511, 6 o segun-
do. O do Parana 6 de R$ 6.402, enquanto o
de Rond6nia, no outro extreme do pais, che-
ga a R$ 6.398. Na faixa dos seis mil reais de
PIB por habitante estAo ainda Espirito San-
to (R$ 6.251) e Roraima (6.231). Na faixa dos
cinco mil se encontram Amazonas (R$
5.718), Goids (5.238), Sergipe (5.122) e Mato
Grosso (5.003).
JA a maior esperanga de vida quem a
possui 6 o paulista, que pode viver, em
mddia, 69,39 anos. Esti atras dele o para-
naense (69,23 anos). O terceiro que mais
vive 6 o habitante do Espirito Santo (69,22),
vindo depois Goids (68,60), o DF (68,38),
Mato Grosso (68,01), Amazonas (67,65) e
o Pard (67,56).
Quanto A taxa de alfabetizacao, o lider 6
o Distrito Federal (93,71%), ficando Sao
Paulo em segundo (92,64%). Em seqUiencia
estio: Parand (88,28), Mato Grosso
(88,07%), Goids (86,80), Espirito Santo
(85,40), Roraima (85,88), Rondonia (85,75),
Amazonas (79,71), Tocantins (78,82), Ma-
ranhao (66,88) e Pard (78,67).
Os niimeros parecem indicar que pode
estar havendo uma distorgao nesse reformis-
mo burocritico: o Estado modernizado nio
torna sua aqao mais social; a racionalidade
fiscal, tributiria, administrative nao result
em dividends para o povo. Veja-se o caso
do muito louvado Ceara: 6 o sexto melhor
colocado na contragdo dos gastos corn pes-
soal (que absorvem apenas 52,3% da sua
receita liquida, mas 6 o 15 (num universe
de 18) em PIB per capital e esperanga de vida,
o pendltimo em taxa de alfabetizacao. O belo
cenArio de Fortaleza encobre a misdria do
interior. Os Ciros e Jereissatis do iluminismo
alencarino ainda nao chegaram IA.
A situagao do Estado anfitriao 6 bem pior:
12 em mat6ria de comprometimento da recei-
ta corn a folha de pessoal (ja em quase sauda-
veis 64,4%), o Maranhao 6 160 em expectativa
de vida (63,64 anos apenas), 170 em PIB/per
capital (tao s6 R$ 2.158) e lanterna em taxa de
alfabetizagao (quase um tergo da sua popula-
9ao permanece abertamente analfabeta, nao
incluindo os analfabetos funcionais).
JA o nosso Pard perde em todos os indi-
ces para o vizinho Amazonas e, na maioria,
para todos os demais Estados amaz6nicos
da base aliada de Fernando Henrique, mes-
mo tendo posigio destacada no achatamen-
to da folha de pessoal. Ou seja: nosso go-
vernador se limita ao "dever de casa" que
the imppe o mestre, sem fazer leituras parale-
las, nem questioner sobre o conteudo da
matdria. O Pard de Almir Gabriel continue,
no minimo, tao injusto e paradoxal quanto o
dos seus antecessores. S6 hd uma diferenia
mais substantial: aprimorou-se para cumprir
o que seu mestre mandar. 0


A federal ao


tucana


A paixao do Joao

Todas as vezes em que Joao Marques exa-
gerava na voz tonitruante e nos gestos italia-
nissimos, lembrava-lhe uma hist6ria vivida
pelo nosso querido Mdrio Couto, ja falecido,
um dos maiores cronistas da imprensa para-
ense. MArio estava ao lado da escada de aces-
so A redaqao de A Provincia do Pard, no final
da ddcada de 50, conversando cor o director
dojomal, o sAbio Frederico Barata. Barata Ihe
contava como flagrou um ladrdo em sua casa.
Na reconstituicgo exageradamente realista do
epis6dio, segurou Mario pela gola da camisa
e o balangava, col6rico:
Ladrao vagabundo, safado.
Vendo as pessoas que transitavam pela
escada surpresas e perplexas cor a cena, sem
saberem-lhe o enredo, MArio reagiu no mes-
mo diapasao, aos gritos:
Ladrao 6 o senhor. E me large ja.
Barata (sem qualquer parentesco com o
caudilho hom6nimo) afrouxou o assddio, es-
tupefacto:
Mas o que deu em ti, Mario?
Que, bonachao, ja na sua voz mansa de
caboclo esperto e ladino, explicou:
E pra ningu6m ficar pensando que o la-
drao ao qual o senhor esti se referindo sou
eu, doutor Barata.
Muitas vezes eu via-me, conversando na
rua corn o Joao, na inc6moda posicao do
MArio Couto, torado pelos circunstantes
desavisados pelo que nao era. Nao tendo a
mesma veia teatral, apenas recontava a hist6-
ria para aplacar a impetuosidade natural e in-
controlivel do Joao operistico. Mercurialmen-
te, ele voltava a si e recompunha-se para a
continuagao do diAlogo, at6 a pr6xima explo-
sdo. Era assim mesmo: um personagem, um
tipo, um ativo figurante na hist6ria paraense
contemporanea.
Nos erros como nos acertos, Joao Mar-
ques foi um passional. Mas quando nao con-
seguia impor sua vontade, submetia-se aos
que a continham. Acusado de perpetuidade e
neptotismo no Sindicato dos Jornalistas, nao
manifestou a menor relutAncia em apoiar e
passar a faixa a uma nova chapa que se dis-
p6s a tirar de seus ombros aquele pesado
encargo, do qual tanto reclamava e, esponta-
neamente, nao conseguia se desfazer. Seu
vice no mandate anterior, fui seu successor,
colocando fim a 13 anos de seguidas presi-
dUncias, corn saldo mais do que positive. In-
clusive por conseguir fazer-me interessar por
sindicalismo, muito distant de ser tema das
minhas preferdncias e afazeres.
Todos n6s, jornalistas, em doses maiores
ou menores, devemos a Joao Marques, um ci-
daddo decent, a despeito de todas as suas
circunstAncias, um amigo e um companheiro
que s6 enriqueceu os que tiveram o privil6gio
de conviver corn ele, defendendo-se de endr-
gicos movimentos de bravos e ensurdecedo-
res arguments verbais. Falecido a 18 dejanei-
ro, na morte sibita e fulminante que sempre
ameaqou ser o complement do seu modo de
vida, Joao Batista Figueira Marques conseguiu
seu maior objetivo: entrar para a hist6ria, le-
vando consigo a nossa imensa saudade. *





6 JOURNAL PESSOAL 24 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999


De 23 a 26 do pr6ximo mis o Centro de
Estudos Latino-Americanos da Universida-
de da Fl6rida realizara, em Gainesville, nos
Estados Unidos, sua 48a Conferencia Anual.
O tema sera, mais uma vez, a Amazonia, desta
vez "Padr6es e Processos de Uso da Terra e
Mudanga Florestal na Amaz6nia". E uma abor-
dagem que ja deveriamos ter feito por aqui
mesmo antes, mas, diante da nossa falta de
iniciativa e perspicacia, a Universidade da F16-
rida, um dos melhores centros sobre ques-
t6es latino-americanas (e particularmente ama-
z6nicas) nos EUA, realize.
A agencia espacial americana Nasa 6 co-
patrocinadora do encontro, incluindo-o no
seu projeto sobre a integragao de sistemas
de informagao (atrav6s de sat6lites e bancos
de dados) com a dimensao humana do des-
florestamento e da regeneraqao na Amaz6-
nia brasileira. Um dos focos da conferencia,
por isso, sera sobre a aplica9ao de t6cnicas
de sensoreamento remote ao acompanha-
mento do avanqo das frentes pioneiras, al6m
do seu emprego nos estudos, pesquisas e
como base das decisbes dos atores sociais.
E uma agenda de linha de frente na regiao,
capaz de permitir a antecipaqao de proble-
mas e a projegao de solugbes, al6m de apro-
ximar a informaqao da realidade.
O satl6ite j faz parte da hist6ria amaz6ni-
ca contemporanea. Nosso primeiro contato
cor esse sofisticado meio de informacao (e
ferramenta de trabalho) deu-se de forma trau-
matica ha quase um quarto de s6culo. Foi
quando o satl6ite norte-americano Skylab, em
6rbita da Terra a uma distancia de quase mil
quil6metros, registrou o incendio feito pela
Volkswagen em sua fazenda de Santana do
Araguaia, no Para, a Vale do Rio Cristalino.
Tecnicos da Nasa enviaram as imagens aos
seus colegas do Inpe, de Sao Jose dos Cam-
pos, pedindo explicaq6es. O entao director do
Inpa, de Manaus, Varwick Estevam Kerr, trou-
xe o problema ao Conselho Deliberativo da
Sudam, em Bel6m.
Nao da forma exatamente correta. Disse
que a imagem do satelite detectara incendio
numa Area de um milhAo de hectares. A Volks
provou que sua queimada alcangara "apenas"
1% dessa estimativa. A diferenca anestesiou a
opiniao ptiblica a respeito de uma situagao,
que, reduzida a suas verdadeiras dimensoes,
ainda assim exigia grande atengao e providen-
cias urgentes. Mas as pessoas ainda nao ti-
nham intimidade corn as informag6es produzi-
das a partir de sat6lite, nem sabiam exatamente
o que estava acontecendo na Amaz6nia, p6-
los opostos (modernidade e ocupagao da ~lti-
ma grande fronteira de recursos naturais do
planet) subitamente postos em contato.
O caso da Volks teria permitido, em outras
ircunstancias, um debate de grande utilida-


de e maior relevancia simb6lica ainda so-
bre o que estava ocorrendo naquele momen-
to na regiao. As quatro ddcadas da hist6ria
da grande multinational alema centravam-se
at6 entao, exclusivamente, sobre a montagem
de veiculos automotores. Foi essa competen-
cia que ela trouxe para o Brasil. Mas nao foi
com ela que chegou a fronteira amaz6nica.
Aqui, passou a montar bois, de uma forma
empirica, as vezes primAria. Contratou mao-
de-obra em condiq6es incompativeis corn a
forma adotada no ABC paulista (sem falar na
Alemanha). Foi acusada de utilizar trabalho
escravo. E recorreu ao mdtodo mais rudimen-
tar, o fogo, na substitui9io da floresta origi-
nal por pastagem.
Quando o Skylab detectou o incendio,
foi um choque na Nasa e outro no audit6rio
do Condel, com a referdncia a um milhao de
hectares. Mas seria tecnicamente impossi-
vel a Volks atingir Area dessa magnitude em
um verao. Nao s6 a ela: a qualquer outro
grande projeto. Atd mesmo para a Jari, do
milionArio americano Daniel Ludwig, cam-
peao em materia de desmatamento (ao con-
trario da Volks, feito mecanicamente). Quan-
do a empresa alema provou que s6 atingira
10 mil hectares (apenas dois mil ha a menos
do que Ludwig), todos se desinteressaram.
Ai mesmo 6 que o assunto deveria ser apro-
fundado. A Volks poderia ter usado o terri-
vel agent laranja para o desfolhamento,
"economizando" tempo e dinheiro.
Outro moment traumatico nessa relagao
esquizofrenica entire vanguard da tecnolo-
gia da informaqao e a retaguarda da tecnolo-
gia de utiliza9ao de recursos naturais ocorreu
em 1988, quando o Inpe (Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais) divulgou relat6rio so-
bre o desmatamento na Amaz6nia no ano an-
terior. Anunciou que 80 mil quil6metros qua-
drados de floresta virgem e 120 mil km2 de
outros tipos de cobertura vegetal haviam sido
destruidos. Record na mat6ria em toda a his-
t6ria da humanidade, quatro vezes acima da
m6dia de desmatamento na regiao nos anos
80, a d6cada do fogo. Prevenindo-se de con-
testaq6es quanto ao uso do satdlite meteoro-
16gico NOAA-9, o Inpe disse que guardara
margem de erro de 30% no ajuste, ja que o
sat6lite indicado para a tarefa era o Landsat
(entretanto, mais caro).
Esta ainda 6 uma questao em aberto e uma
chaga na hist6ria da compatibilizag9o de tec-
nologias informativas de ponta com o seu uso
em areas pioneiras como a nossa. O encontro
da Fl6rida certamente possibilitara avangar
nesse dominion. Mais uma vez teremos que
aprender por tabeia, obrigados que somos a
saber o que ocorre diante dos nossos olhos e
em nossos quintais indo aos mais adianta-
*s, ainda nossas capitals metropolitanas.


Consciencia

amazon ica


um produto remote


A parentela agregada

no judiciario paraense
Assim que pegou a caneta de president
do Tribunal de Jusriqa do Esiado, no mes pas-
sado, o desembargador Jose Alberto Soares
Maia tratou de nomear tres parents para car-
gos na alta administration do TJE: um filho
(MArcio Augusto Lozada Maia) torou-se se-
cretdrio de Planejamento e Administragao, uma
nora (Maria Virginia Vidigal Maia) assumiu a
chefia da Divisao de Desenvolvimento de Pes-
soal e um genro (Reinaldo Jorge Calice Auad)
foi comandar o Departamento de Patrim6nio e
Serviqos. Complementarmente, o desembarga-
dor reforgou a secretaria do filho, transforman-
do-a numa espdcie de controladoria geral.
Respondendo ao murmtrio que seus atos
provocou, com uma rapida passage pelo de-
sinteressado registro da grande imprensa, o
novo president do TJE explicou que todos
os seus nomeados parents j eram funcio-
nArios regulars do judicidrio paraense, nele
admitidos por concurso pfblico regular, "nao
sendo, portanto, [pessoas] estranhas ao TJE
ou a administra~lo desta Casa".
Cor essa explicagAo, o desembargador
julga defender a legalidade do seu ato, no que
a inexistencia de uma regulamentaqAo esta-
dual especifica Ihe concede fragil argument.
Mas nada Ihe garante um outro principio a
ser seguido no servi9o p6blico, o da morali-
dade. Mesmo a estrita legalidade, contudo, 6
conseguida por restritiva interpretagfo da
norma constitutional federal (artigo 37), que
determine aos administradores p6blicos obe-
decer "aos principios de legalidade, impesso-
alidade, moralidade, publicidade".
Lei (9.421, de 1996) que regular o poderjudi-
ciArio federal veda a nomeaqAo de c6njuge, com-
panheiro ou parent at6 o terceiro grau para
ocupar cargos em comissao ou fun96es comis-
sionadas no Ambito dessa esfera dajustiga, sal-
vo a nomeagao de "servidor ocupante de cargo
de provimento efetivo das Carreiras Judiciarias,
caso em que a veda9ao 6 restrita A nomeaaio ou
designaaio para servir junto ao Magistrado
determinante da incompatibilidade".
t aconselhavel que o judiciario estadual
tome essa norma como paraimetro para si. Des-
sa forma, o president do TJE estaria impedido
de proceder da maneira como agiu. Os parents
nomeados foram colocados em cargos que os
fazem "servir junto ao magistrado determinante
da incompatibilidade", incorrendo na proibigao
federal e ficando ao alcance do principio consti-
tucional. Deveriam ter permanecido em seus
cargos anteriores, quando nada porque ha a
coincidencia de todos receberem salArios au-
mentados nas novas fun9mes. E quando nada
porque, por m6todos regulars ou nao, premi-
ando ou nao competencias, a cascata de paren-
tes que acompanha cada magistrado, atravan-
cando e limitando o servico dajusti9a, costume
expressar uma patologia coletiva, a do nepotis-
mo, mesmo quando nao atesta uma anomalia
individual. A exce9~o, nesse caso, 6 arrastada
pela enxurrada de confirmai3es A mA regra de
apadrinhamento nojudiciario paraense, compro-
metendo a imagem de respeito que, pelo exem-
plo, deveria imp6-lo a sociedade.






JOURNAL PESSOAL 20 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 7


Parlamento menor


sem Roberto Campos


No inicio da d6cada de 70 fui en-
trevistar o embaixador Roberto Cam-
pos em seu apartamento, em Sdo Pau-
lo. Recebeu-me numa enorme biblio-
teca..Enquanto o esperava, observe
dezenas de diciondrios de citagces, em
vArias linguas. Quando conversamos,
nao fiz mencgo ao sugestivo detalhe,
algo como a arma do crime. Daqueles
volumes brotava a parafrase e com a
qual a besta-fera das esquerdas brasi-
leiras bordava a abertura dos seus
abundantes artigos dejornal (al6m dos
livros), que eujamais deixei de ler, com
doses pantagrul6icas de prazer e dis-
cordancia.
Foi do que me lembrei ao terminar
de ler o discurso cor o qual o deputa-
do federal Roberto Campos despediu-
se da vida parlamentar, no iltimo dia
28, aos 82 anos. Nosso "Bob Fields"
citou um dos poemas dos Quatro
Quartetos, de um dos maiores poetas
deste s6culo, o anglo-americano T. S.
Eliot. Recitou bilingiiemente o ex-
muito-ministro, brindando seus pares
cor o original intraduzivel e sua ver-
sao (canhestra, mas exemplificativa):
"O fim de toda a nossa busca
Sera chegar ao lugar onde comegamos
E ter a sensagAo de descobrir pela
Primeira vez".
Muito bonito. Mas estes versos nao
fazem parte dos Four Quartets, que
igualmente nao abrigam o East Gi-
ddings a quejulgou estar se referindo
o ex-embaixador. Entre os quatro
quartetos eliotianos ha o East Coker
e o Little Gidding (mais o Burn Nor-
ton e o The Dry Salvages). Nosso
brilhante Roberto Campos juntou par-
tes dos dois titulos e sapecou versos
que estAo em outro lugar da obra de
Eliot. Mero descuido de quem muito 1I
ou lapso pavloviano no uso de uma das
"armas do crime", que vi estocadas na
farta biblioteca, A espera da devida
oportunidade?
Detalhe irrelevant, naturalmente,
para a plat6ia que ouviu, deslumbra-
da, a orat6ria do adeus de Roberto de
Oliveira Campos, ao fim de 16 anos
no parlamento, primeiro como sena-
dor por Mato Grosso, finalmente
como deputado pelo Rio de Janeiro.
Perde muito o Congresso por ele nao
ter conseguido reeleger-se no ano
passado, em um Estado que fez de um


certo Anthony Garotinho seu gover-
nador. Perdemos todos n6s um pou-
co por se apagarem alguns dos re-
fletores que iluminavam a f6rtil ca-
bega do ex-seminarista. Mas ela con-
tinua vivissima, em todos os sentidos,
embora nem sempre com o arranjo
da boa frase abrindo ou fechando
suas ora9ces.
Independentemente do que pense-
mos sobre o autor e suas id6ias, 18-lo
ou defrontar-se cor ele da prazer e 6
educativo, especialmente na divergen-
cia, mesmo quando ele se express em
mais de mil phginas, como nas suas
deliciosas mem6rias (a Lanterna na
Popa). Enquanto anestesia seus admi-
radores e parceiros, Roberto Campos
desafia a arg6cia dos seus adversari-
os e inimigos. Raciocinios esquemiti-
cos ou superficiais, formagao tosca e
lentiddo na articulagao das id6ias cos-
tumam ser lacunas fatais quando ele
esta do outro lado do ringue.

D uelar com ele pode

parecer um lance de flo-

rete para quem maneja

ideias com machado,
golpeando a esmo e tentando vencer
pelo cansago, nao pela maestria, fa-
zendo o adversArio desistir, sem con-
seguir de fato convenc8-lo. O estilo de
RC 6 leve, fino, apurado, a combina-
9ao de sintaxe, semrntica e etimolo-
gia que vai rareando cada vez mais
neste pais do baticumbum.
Ele v6 os acontecimentos na pers-
pectiva da hist6ria, com antecedentes
e conseqiientes entire os fatos que
ocorrem diante de n6s. Nao dispoe
apenas de justificativas e desculpas:
suas id6ias tnm a coerencia de uma
visao de mundo que se projeta al6m
da realidade imediata, sendo por isso
propositiva. E se nao tem toda a ra-
zao, nao pode ser anatematizado por
um equivoco locacional, do entreguis-
ta eternamente maquinando a desna-
cionallizagao do seu pais, que tudo
contamina ao tocar. Num congress
dominado por lobistas e ac6litos, ter
um intellectual organico como ele era
um privilegio.


Ainda assim, a critical brilhante e o
balance arguto, com trechos hilarian-
tes, feitos pelo deputado Roberto Cam-
pos na despedida sao parciais. Ele fus-
tiga os adversArios com carradas de
raz6es, mas 6 por demais condescen-
dente com os erros dos seus aliados.
Se alguns dos males que atribui ao po-
pulismo, ao "nacionalismo tempera-
mental", ao estatismo, ao estruturalis-
mo e ao protecionismo, todos deriva-
dos do pensamento de esquerda, sao
verdadeiros, menores nao sao os pre-
juizos decorrentes do monetarismo e
do privativismo, dois dos muitos mias-
mas A direita.
"Vantagens polim6rficas" em tese
das privatiza96es, como a democrati-
zacao do capital e a atragao de capi-
tais estrangeiros permanentes, na pra-
tica brasileira continuam a desejar:
boa parte da formacgo do capital das
empresas privatizadas vem do tesou-
ro e a constituigio de cart6is priva-
dos, como o siderurgico, ameaga vol-
tar-se como feitigo contra o feiticei-
ro. Nao pela privatizagco em si, mas
por nao ter sido antecedida pela re-
gulamentagdo necessaria, ou pela
anAlise adequada.
Fetiches bem montados, com a fe-
erica roupagem de panaceia, tecidos
por gente brilhante como o ex-deputa-
do, engendraram essas distor96es. Ele
pode minimizar o mal dos "entreguis-
tas", argumentando que, no Brasil, eles
s6 poderiam "entregar mis6ria e desen-
volvimento", e maximizar os danos
atribuidos aos "burgueses do Estado",
mas 6 facil provar quantitativamente
(e mais ainda qualitativamente) que o
prejuizo causado pelos primeiros (a co-
megar pela pr6pria mis6ria do povo)
supera de muito as seqiielas da ves-
guice dos segundos (que, por sinal, s6
recentemente, cor a substitui9do do
militarismo pelo neoliberalismo, torna-
ram-se verdadeiramente burgueses -
e no setor financeiro).
De qualquer maneira, para confir-
ma-lo, rejeitA-lo ou com ele travar um
proveitoso debate, o derradeiro dis-
curso parlamentar de Roberto Cam-
pos deveria ser lido por todos, quan-
do nada como exercicio de racioci-
nio, mesmo cor seus talvez, pelo
m6todo de consult, inevitaveis er-
ros de citagao. *







Uma s6 mic a r e a
O camaval nao deveria mesmo continuar a ser encargo exclusive
da administraqao municipal, que fica onerada pela festa. E justificavel,
portanto, a iniciativa da prefeitura de Bel6m de encontrar patrocinado-
res particulares para o desfile das escolas de samba, experilncia que o
PT esta iniciando neste ano. Mas cabem algumas ressalvas e proce-
dem certas inquieta9qes.
O primeiro ponto: por que nao abrir licitagAo piblica, mesmo que
posta em prAtica atravds de carta-convite dirigida a presumiveis inte-
ressados? Como foi estabelecida a relagao com a Bis ProduC6es, do
empresdrio Ronaldo Maiorana, representado por Alexis do Carmo, fun-


cionario da Secretaria de Cul-
tura do Estado em cargo de
confianga? NAo hA incompati-
bilidade no desempenho des-
sa dupla fung9o? A parceria 6
equilibrada ou pende leonina-
mente para um dos lados?
Sera bendfica a enxertia da
micareta no carnaval propria-
mente dito? Trinta arios atras,
na primeira visit que fiz a Sal-
vador, fiquei sabendo do car-
naval fora de 6poca de Feira de
Santana. Achei-o uma coisa
ins6lita, mas bem baiana, o re-
comego do carnaval passados


Requiem
Luls Fernando Verssimo e Zuenir
tura, duas de suas principals estrelas,
xaram o Jornal do Brasil, atingido
rolar de uma divida que se tornou pa
ddrmica e por uma queda de qualidade
paralelo desde a famosa reform, na d
da de 50. Sera a consumagao da vel
sempre renovada ameaga de morte dc
ainda o journal dos nossos coraqtess
ja nqo tanto das nossas mentes)'"


45 dias da estaqlo momesca, ja com a cabe9a coberta pelas cinzas da
santa madre igreja. Disseminada para o pais e pulverizada a exaustao,
a micareta tornou-se simples neg6cio commercial e uma festa de massa
incaracteristica, autentico caga-niqueis.
Mas agora que o desfile das escolas de samba sera entremeado
pelos blocos do Para Folia, minha divida machadiana d sobre quem
sobrevivera e se 6 mesmo saudavel tal coexist&ncia. O carnaval fora
de 6poca arrombara o calendArio, atropelando a autentica (ou pelo
menos a mais traditional) folia, que, mesmo com as verbas oficiais e a
contribuigao particular, nao podera competir com o novo persona-
gem? O camaval nao estarA ameagado de ser convertido numa micare-
ta (agora combinando com picareta) s6?
Tambdm preocupo-me corn as vantagens para o poder pdblico e a
coletividade dessa associacao. A municipalidade esta tendo de volta
uma parcelajusta dos ganhos que os agents privados irao ter com a
nova modalidade de camaval italo-baiano-paraense?
Por enquanto, 6 apenas a tentative de partilhar d6vidas e ouvir
as competentes explicac6es de quem de direito, afastando fantas-
mas que, em sua versAo mais famosa, a financeira, nao combinam
com colombinas e arlequins.


V e


P ~pevmento
det o do ano passa-
d-- GG'l 'Tporte Oceanico,
er acai o 27 anos, que temn
fat m ;o a;i de 270 milhoes
de a- fak s de cabotagem
e '~ JeSantos, com tres
ea a ,. n hl~ido Belm. Con-
se -Trete da carga que
or via rodoviaria,
de 180/20p R$ 130, ganhan-
Sd~ind escala. E mais
ulalte -'va no competi-
tm rpte, ama-
triz que ais mudou na re-
Ven- oasltimosanos.OPard
dei- continue de fora, dormindo
pelo embero esplendido.
Iqui-
sem Por baixo
eca-
ha e Paulo Coelho recebeu
fB. em Davos, na Suiqa, no ini-
mas cio do mes, o "Crystal
Award", a mais alta conde-
coraqao conferida pelo F6-
rum EconOmico Mundial,
reuniao da elite financeira intema-
cional. Mais de 20 milh6es de li-
vros do "mago" j foram vendidos
em mais de 80 paises, dando-lhe
um patrimOnio avaliado em 11 mi-
lhWes de d61ares. Ao comunicar a
concessao do premio, os dirigen-
tes do forum destacaram a "signiti-
ficativa contribuigao" do escritor
brasileiro (filho de paraense) "uni-
ficagao de diferentes cultures por
meio do poder da linguagem".
Foi em Davos que Thomas Mann
ambientou seu romance "A Mon-
tanha Magica", um marco da pas-
sagem de dois mundos que pre-
tendia contribuir para unificar a lin-
guagem humana pelo alto. Neste
aspect, a humanidade andou para
tras. E nivela-se por baixo.


xame


A Universidade Federal do Para
gastou quase 30 mil reais com a
revisao dos Didlogos, de Platao,
em traducao de Carlos Alberto
Nunes, publicados originalmente
em 1980. A revisao expurgou a
edicao, a inica complete em lin-
gua portuguesa, dos inumeriveis
erros que a comprometiam, alguns
deles grosseiros (supressao de
parAgrafos inteiros, por exemplo).
Mas, dos 10 volumes revistos,
apenas um foi localizado na Bibli-
oteca Central da UFPA. Os demais
desapareceram. Isto quando uma
grande editor national, a Vozes,
de Petr6polis, vinha insistindo
para uma co-ediqAo com a nossa
universidade, dando a essa obra a
dimensao que ela merece.
A constrangedora situagao
provocou um protest de Benedi-
to Nunes, sobrinho do tradutor e
intermedidrio da aproximaao que
deu A UFPA o privildgio de ficar
com a platoniana, traduzida dire-
tamente do grego clAssico pelo
mesmo intellectual que nos ofere-
ceu primorosas verses de Home-
ro e Shakespeare, em versos. Ha
pelo menos trds anos a revisao dos
Didlogos para uma edicio decen-
te, compativel com a importancia
dessa empreitada cultural, aguar-
da por uma providencia.
Agora, 6 precise que a dire-
gao da UFPA promova uma sin-
dicancia para apurar o sumico dos
volumes, que p6em a perder um
ano de trabalho e R$ 30 mil de
verba pfblica, al6m de nos pas-
sar um atestado de incultura a in-
civilidade, exatamente no momen-
to de homenagear Benedito Nu-
nes com o titulo de professor
emdrito (ver JornalPessoal 203)


Jornalismo de branco 6 outra
hist6ria. O Globo registrou, em
seu obitudrio, a morte do ex-se-
nador JoAo Calmon, notabilizado
como o home de confianga de
Assis Chateaubriand no impdrio
dos Diarios e Emissoras Associa-
dos, antecessor da Rede Globo no
control do mercado jornalistico
e da opiniao p6blica. Mas nio fez
qualquer refernncia A campanha
que Calmon comandou contra o
nascente reinado da Globo, no
primeiro dos governor militares
p6s-64. E que o tornara desafeto
do companheiro Roberto Mari-
nho. Calmon foi "reabilitado", A
maneira, adaptada, dos mdtodos
stalinistas. Mas sua biografia foi
retocada.
S6 os impertinentes ainda re-
clamam da verdade, deve-se pen-
sar no olimpo do poder.


Retrato
Claudiney Furman, 22 anos,
ne6fito em political, que con-
quistou seu primeiro mandate
de deliutado gragas A maquina
colocada a servigo de sua can-
didatura pelo pai, o prefeito de
Tucurf ClAudio Furman, d ago-
ra 20 secretArio da Assembldia
Legislative. Da uma iddia do que
serd a nova legislature.

Gente fina
Deixando a secretaria-geral
do Palacio do Planalto, Eduar-
do Jorge, um dos her6is biogra-
fados por Veja, brago-direito de
Fernando Henrique Cardoso,
anunciou que pretend agora
montar uma consultoria inde-
pendente. Como de regra nas
alturas planaltinas, sem preci-
sar atravessar o biombo.


A prop6sito
A United represent um neg6cio de sete milhOes de reais por mes, corn 100 mil
associados. Nao admira que a eleicao de sua nova diretoria tenha se tornado
matdria de interesse piblico e a definifio da dispute envolva faca e ranger de
dentes, num jogo feroz que dispensa a 6tica. Qualquer que seja a evolucao do
enredo ate a nova data, definida pelajustiga (que cancelou a primeira eleifio) para
31'de margo, uma coisa 6 certa: em mais este caso, recomenda-se nao permitir, no
Brasil, reeleigao consecutive. Ela pelo menos forga um saudavel intervalo,
arrefecendo a cabega do poderoso, afastando dele a ameaga da mosca azul e
permitindo o rodfzio e a pluralidade, que constituem o bern maior da democracia.

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