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Journal Pessoal :eP4.6 Kennedy: a 0 martirio do Idesp 0 governor diz que decidiu acabar corn o Idesp porque o rgdo perdeu sua fungdo. Extinto, permitiria uma economic de quase R$ 6 milhbes. Mas ndo 6 verdade. 0 que o governor quermesmo e eliminar umafonte de informagado para a sociedade e de refle.x.db critical sobre o pr6prio governor. governor escolheu a soluqgo mais simples: acabar cor o Idesp. A mais dificil, reavivar o Institute de Desenvolvimen- to Econ6mico e Social do Pard, 6 que era a mais certa. Mas a institui9~o, que ji vinha morrendo hi alguns anos, teve seu destiny selado, sem fita amarela e nem tanto choro assim. Adminis- tra6bes anteriores haviam deixado o 6rgao A mingua. Nenhuma, entretanto, teve a cora- gem de extingui-lo. A responsabilidade (que ele deve considerar um mdrito) ficou para o m6dico Almir de Oliveira Gabriel. Dizem seus porta-vozes que o fechamento do Idesp integra a reform administrative. Sugerem que resultou de um esfor9o para enquadrar a miquina official nos padres da qualidade total made by BID (Banco Intera- mericano de Desenvolvimento). Garantem que essas medidas resultarAo em economic de custos e ganhos em eficacia. E pouco provivel que, a sdrio, algudm en- contre um modelo te6rico parajustificar o que o governor vem fazendo desde que anunciou as sete secretaries especiais, trocando cadei- ras e designando guardiaes sem conseguir convencer sobre a racionalidade dessas inici- ativas. Mais do que uma matriz de reenge- nharia do BID, o que parece estar por tris dessa tal reform sao os objetivos politicos visando a eleigdo de 2002. Uma institui9ao de 33 anos, como o Idesp, num pais que s6 comegou a planejar hi meio s6culo, num Estado cujo planejamento re- monta ha 25 anos, merece algum respeito e certa reverencia. Nao pode, 6 claro, viver apenas dos louros do passado, embora, nes- ses casos, nome seja posto. Afinal, nao 6 por sua existencia mais do que centenaria, e pela fase fulgurante que viveu nos tempos da bor- racha, que o conceito do Museu Emilio Go- 'eldi circula pelo mundo? Mesmo quando essa instituig9o deixou de corresponder a sua fama, algudm se atreveu a proper que ela fosse assassinada? O que espanta e choca 6 a forma autoriti- ria da decisao de fechar o Idesp, uma aut&n- tica execugdo sumdria. Em nenhum momen- to o governor admitiu discutir essa decisao, aceitando apenas assegurar o emprego dos 168 (ou 207) servidores da institui9ao. I tao cristalina assim a inutilidade e mesmo no- cividade do Idesp? Pela reagio da socie- dade civil, unanimemente contrdria, nao. Talvez exatamente por isso, a administration Almir Gabriel decidiu agir rdpida e tam- bdm rasteiramente para criar um fato con- sumado antes que seus frigeis arguments pudessem ser desfeitos. Enquanto o secretario especial de Gestao, Sdrgio Leao, encontrava pretextos para adiar por alguns dias uma reuniao sucessivamente marcada cor representantes dos funcionAri- os, o at6 entao diretor-geral, Afonso Cher- mont, ha dois anos e meio exercendo o cargo, foi despachado. Surpreendido ao ser chama- do e comunicado sobre a extingao do 6rgio que vinha tentando ressuscitar, Chermont ofe- receu sua cabega. Nao queria se transformar de comandante em coveiro do Idesp, um fato (2 VD KI- 4' lIU L (L%-[L:U Q 040) ;a 2 JOURNAL PESSOAL 1l QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 ,que a hist6ria ird registrar e cobrar. Mas s6 soube de sua substitui9co, por um antigo qua- dro da casa, Frederico Monteiro, agora se- cretArio-executivo de planejamento, ao abrir o DiArio Oficial e ver o ato do governador. O que impedia o governor de ser mais ele- gante e educado ao tratar com Chermont, um cavalheiro, mesmo quando equivocado, pou- pando-o do constrangimento de ser surpre- endido pelo executor da pena de morte? Por que nao convocar liderangas do setor e re- fletir com elas sobre o Idesp, at6 para con- venc8-las de que o destiny da autarquia era mesmo inelutavel e o governor estava agin- do corretamente? Nada disso. O edito baixou do trono com um rango emotional, contaminado de sub- jetivismo. Nao parece ter sido uma decisao limpa, refletida, tdcnica, um governor que em 1996 anunciara novos tempos para o Idesp e agora via-se constrangido a atirar- Ihe a pA de cal. Nao: o tom passional mal camufla uma vendetta, um ajuste de contas pelos inconvenientes causados por um 6r- gao obrigado a ver a realidade e pensar quanto a sua interpretagAo. Nio parece haver atravessado a real gar- ganta republican de sua excelencia ser des- dito em seus apreciados numeros de algibei- ra pelas estatisticas da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). O saldo 6 negative e nao positive, como proclamava o re-candi- dato Almir na campanha eleitoral. NAo por acaso, o Estado se recusou a renovar o con- v6nio que vinha viabilizando a pesquisa, em- bora s6 entrasse cor 10% dos recursos ne- cessarios. A estatistica continuou sendo apu- rada, mas nao divulgados os seus resultados. A voz do trono tonitroou seu solil6quio em mais esse setor. Como aceitar a legitimidade dessa imposigao se, exatamente tres anos atrds, quando o Idesp co- memorava 30 anos de vida, Tereza Cativo Rosa, atualmente assessorando o secretdrio da Fazen- da, assumiu a direto prometendo comegar uma nova fase, na qual o institute estaria em condigqes de"proporcionar suporteticnicopara que o Esta- do possa trabalhar a sua atividade essencial"? O alter-ego (ou super-ego?) do governador, Simao Jatene, fazia o coro: ele dizia nao ter dfivida de que, naquele 1996, o Idesp "tam- bem entra na virada do jogo", reassumindo sua funcgo de "6rgao central de informaqao para o planejamento" Pode o governor alegar que, ap6s tantas ten- tativas para ressuscitar a autarquia, aplican- do-lhe todas as t6cnicas de revitalizacao, ren- de-se As evidencias da realidade, rev8 pianos tao estrepitosamente anunciados ha apenas tres anos e curva-se A solucqo extrema, radi- cal, que 6 a extinqao do Idesp, atendendo a um clamor unAnime da opiniao piblica? Evidentemente que nao. O comando re- novador de Tereza Cativo durou apenas um semestre. Ela preferiu ir para a Secretaria da Fazenda. Afonso Chermont nunca contou cor meios para "reconstruir e repensar o que foi feito", como anunciava o governador Almir Gabriel na solenidade do 30 aniver- sArio do Idesp, talvez seu inico compareci- mento A instituicgo. O Idesp foi sangrado em vida. No inicio atd de uma forma saudavel, positive. Ele foi o embriao para tres secretaries: de planeja- mento, de industria, com6rcio e mineradao, e de cidncia, tecnologia e meio ambiente. Tam- b6m criou e desenvolveu projetos em segui- da repassados a essas secretaries, junto corn mdo-de-obra qualificada. Com o tempo, po- rdm, passou a haver apenas canibalizagAo. O Idesp perdeu suas ferramentas e laborat6ri- os, deixou de seguir um piano director e se conformou cor uma sobrevivencia vegetati- va. Seu quadro t6cnico se burocratizou e per- deu o estimulo. Quem p6de, procurou novo abrigo. Quem ficou, passou a esperar pela aposentadoria ou por um comando renova- dor, um messias que nao apareceu. Quem se apresentou foi o anjo exterminador. Uma instAncia de pesquisa, de sistemati- zaqao de informag6es e de produgao de es- tatistica continue a ter seu papel assegurado na estrutura de um governor modern, em qualquer parte do mundo, se esse governor pretend ver a long prazo, nao se fanatizou pelo mau catecismo neoliberal e incentive a critical interna.. Apesar das declarag6es dos coveiros do Idesp, essas fung6es nao podem ser desempenhadas adequadamente por ne- nhuma das secretaries que receberao o es- p6lio da vitima. A Seicom, por exemplo, combine tantas fungies que desempenha sofrivelmente cada uma delas. Ao fim do Idesp deverA seguir o dessa anomalia chamada Paramindrios. A es- trat6gica questao mineral ficarA entao confi- nada num setor raquitico da Seicom, no qual o esforco e a aplicacao dos tecnicos nao e suficiente para vencer suas limitacqes estru- turais. Pode o segundo Estado minerador do pais dar esse tipo de tratamento A sua princi- pal atividade produtiva? JA a Seplan transformou-se na secretaria- executiva do governor para uma political mais eficaz (do ponto de vista politico) de inter- cAmbio com os municipios e de control da engrenagem internal. O planejamento ficou no nome. O sistema criado em 1975 se des- fez. Raramente o Estado escapa ao curto pra- zo. NAo hA mais espaco nem clima para um livre pensar num 6rgio executive como a Se- plan. A interlocuqAo feita pela Seplan junto A Companhia Vale do Rio Doce escancarou seu despreparo. Desapareceu o feed-back, a retroalimentagao da engrenagem tecnica do governor. Porque a funcio que era do Idesp deixou de ser desempenhada. E claro que, para ser mantido como esth, seria melhor acabar mesmo cor o institute. Mas isso acontecendo, o governor amputara um dos seus 6rgios vitais num piano de reto- mada (conquista e a expressao mais correta) do comando do seupr6prio destino. Sem uma instituigao capaz de interpreter o cotidiano no moment mesmo em que ele ocorre, situan- do-o no continuum hist6rico, continuaremos na defasagem em que nossa consciEncia se mantem em face da realidade. Estaremos con- denados ao destiny colonial que nos impIem. Mesmo que no Ambito estrito da sua com- petencia, a Sectam tamb6m nao preenchera o vAcuo. Malmente a secretaria consegue dar conta da emissio das licengas ambientais, do acompanhamento e da fiscalizacgo das ativi- dades produtivas. Nao lhe sombra tempo nem espaco para a pesquisa, cujo abrigo exato 6 o de um institute como o Idesp, se ele voltasse a ter a prioridade que o moment hist6rico do Para Ihe imp6e. Todos os arguments apresentados pelo governor para condenar o institute A morte nao resisted A mais simpl6ria analise. Num document que produziram para responder ao secretArio Sdrgio Leao, os funcionarios mostram que, redistribuidos os servidores do Idesp por outras instAncias oficiais, a economic (considerado o orgamento do ano passado) baixa dos 5,7 milh6es de reais anunciados para os R$ 790 mil do custeio do 6rgao (despesas de luz, Agua, telefone, etc.). Nenhuma economic desse porte au- toriza a extincgo de um 6rgao como o Idesp. Sua sigla ja basta para render ao Estado re- cursos de convenios cor parceiros exter- nos, cobrindo o peso do seu custeio. No ultimo orgamento realizado, o Idesp com- plementou em R$ 800 mil os R$ 2,5 mi- Ihoes que lhe foram repassados. Faltou dimensao de grandeza e combativi- dade ao institute, Uim encolhimento que, sem resguardA-lo de velhos apetites e rancores que gerou na alta cipula estadual, o tornou vitima indefesa dos inimigos da autonomia do pensamento. Os t6cnicos do Idesp conse- guiram a facanha de ficar cor 58% dos pro- jetos aprovados pelo Fundo Estadual de Ci- encia e Tecnologia, no fltimo edital de dis- tribuig5o de recursos (10 de um total de 17 projetos), mas absorveu somente 12% da verba, numa m6dia de R$ 35 mil por proje- to. Comprimido ou esmagado, o institute passou a pensar pequeno, a se contentar cor migalhas, a encarcerar-se numa rotina estrei- tamente burocrAtica. Quem conheceu o Idesp em tempos melho- res e o visit hoje ter um choque. O pr6dio deixa A mostra marcas do abandon, antigos equipamentos retirados nao foram substituidos, muitas salas permanecem silenciosas ouvazi- as. Um ar de desAnimo contamina o ambiente, A exceg5o do paciente trabalho de restauraglo do casarao onde funciona a direqao. Mas esse quadro nao 6 o atestado da incompetencia dos tdcnicos e da obsolescencia da instituig5o. E, antes, a marca de um governor refratario a con- trov6rsia, predisposto contra a critical, descon- fiado daverdade e incapaz de pensar o servigo public al6m do varejo, ou de um livro-caixa JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 3 de haver e deve, de um manual de administra- 9io de quitanda. Nao 6 o Idesp que faliu nes- sas fung6es, mas o governor que o estrangulou ate a asfixia para poder arrematar a morte corn o golpe de uma canetada. O Idesp tem permanecido muito distan- te do ideal e mesmo do possivel, mas ja- mais chegou ao nivel de ociosidade e inefi- ci8ncia do gabinete do govemador, que cus- ta mais de um milhlo de reais por mrs aos cofres pfiblicos (ver Jornal Pessoal n 202). Por qualquer crit6rio que se a exami- nasse a s6rio, a extincgo do Idesp nio po- deria ser adotada e. se o fosse, teria que ser precedida de uma avaliaqco preliminary cor a sociedade. A condenaqio do institu- to nio resultou de qualquer avaliaqao tec- nica. E um ato de imp6rio do governador, ou de alguem suficientemente forte para tomar sua caneta e baixar o ato, insusceti- vel de apreciaqgo, como um ato voluntari- oso o 6 quando exercido por quem se pauta por aquele brocado de que quem pode man- da e quem tem juizo obedece. Tera o Para regredido tanto mentalmen- te a ponto de testemunhar esse ato lesa-Es- tado, um verdadeiro crime, sem reagir? Se for assim, entao estarao condenados ao fra- casso os esforcos dos funcionArios do Idesp e de uns poucos aderentes solidarios de evitar o fim ou encontrar um meio-termo acomodador. A alternative mais tentadora seria transfe- rir o Idesp para a Universidade do Estado, mas essa parece uma falsa solucgo. A Uni- versidade haveria de querer usar seu pr6prio quadro e dificilmente aceitaria a autonomia do novo organism vinculado a sua estrutu- ra. Haveria ainda um problema de repartiqgo de verbas e tantos atravancamentos quanto possiveis incompatibilidades. Muito pelo contrArio do que induz esse falso problema, o surgimento de tres secreta- rias a partir do Idesp liberaria o institute das tarefas executives, transferidas para as secre- tarias, permitindo-lhe ser um centro de pes- quisa por excelencia, praticando a interdisci- plinaridade, formulando novas iddias, testan- do outras, reciclando o corpo t6cnico do Es- tado, fazendo a interlocupgo com o mundo da ci8ncia e da cultural aplicada aos grandes problems paraenses, al6m de manter sem fa- Ihas as series estatisticas. O Idesp, alias, surgiu exatamente para que nao se perdesse de vez a produco estatisti- ca realizada anteriormente at6 o surgimento Condepa, o embriao do planejamento no Estado, em 1961. Mesmo com todo o seu empobrecimento, o institute nao falhou nes- se trabalho ao long de 30 anos. Quando nada, por esse relevant service, deveria ter um tratamento mais condigno por parte do governor. Ao invds disso, chega neste 30 de janeiro aos 33 anos com o destiny imposto ao Cristo, o mais famoso personagem corn essa idade: ser martirizado. O 0 Brasil sobrevivente Em julho do ano passado conversei longa- mente, em Vit6ria, no Espirito Santo, com um dileto amigo paulista envolvido na campanha eleitoral de Fernando Henrique Cardoso. Ele tentou me convencer que FHC seria um novo president no segundo mandato, inclinado a es- querda, sensivel ao social, desenvolvimentista, livre do arreio conservador dos seus parceiros palacianos do primeiro mandate. Refletindo sobre essa conversa, confiante no amigo, mas descrente de suas previs6es, escrevi no JornalPessoal 192, da 1a quinzena de agos- to: "(...) por que um intellectual tio ber infor- mado [como FHC] e mais bern formado ainda - sobre este pais compete erros t5o primarios e desastrosos no exercicio da mais importantefun- qgo ptiblica do pais?" Faqo aqui, pela primeira vez, essa auto-cita- qgo porque nio sinto-me animado, como ou- tros estao fazendo, agora a exaustao, a apontar os erros crassos praticados pelo president. Erarn erros tao elementares que qualquer um razoavelmente informado poderia prever. Se os mais bem preparados nao o fizeram no devido moment, trombetea-los agora soa como algo de seriedade duvidosa e oportunismo eviden- te. O leitor encontrarA minhas critics ao long deste JP, desde a inauguraqco da era FHC, um JK que nao deu certo. No entanto, todas as pessoas sensatas e dota- das de saudAvel civismo, nunca desnecessario, esperavam, de um president que concebera com sua equipe um piano de estabilizaqAo monetAria de alto nivel como o do real, uma conduqAo A altura da concepcio original. Gestada uma mo- eda merecedora do nome e cumprida a funqgo da anarraqAo cambial, cabia fortalecer interna- mente o pais e faz8-lo competir no mundo para dele desamarrar-se, sem negA-lo. NAo era mis- sao simples, mas era exeqtiivel. Femando Henrique tinha credenciais para realizar essa tarefa. Era o melhor politico em tais condiqges naquele moment, alguem capaz de fazer uma reform, a partir de cima, para ser completada por uma nova reform, a partir de baixo, pelo successor de um bem sucedido e po- pularpresidente social-democrata de centro-es- querda, que fez a transiqAo de um Brasil dilace- rado para umna nacAo com diretriz, ao long de quatro anos de muita acgo e coragem. Mas, como sempre destaquei nos meus arti- gos nestejornal, inclusive no que citei, dois fato- res ameaqavarn essa utopia: avaidade do ex-pro- fessor e sua seduqAo pelo poder. Por causa do pri- meiro element (que os te6ricos das estruturas econonicas determinants costumam subestinar ou mesmo ignorar), ele se deixou enfeitiqar pela lustrosa comunidade financeira international, que o incensou ao custo de algumas dezenas de bi- lhies de d6lares de ilusao societAria. Essa dinheirama, no minimo equivalent a 20 vezes o prego de privatizacAo da Companhia Vale do Rio Doce (um dos crimes mais cristalinos de FHC), foi sangrada inutilmente do povo brasi- leiro, estupidamente. Sabia-se que era dinheiro in6cuo para perpetuar una estabilidade artifici- al e precAia de uma moeda que adquiriu parida- de em rela~o ao d6lar apenas na cabeca dos nossosjovens e geniais economists metropoli- tanos (que, ao menor grito de fogo, correm para suas redomas internacionais). O ilustrado Fer- nando Henrique saiu-se urn pavoo ridicule num mundo de raposas milenares, que Ilhe apunham o capelo universitario enquanto escalpeavan ou degolavam a nagao brasileira Por causa do segundo element, um presi- dente que se desnaturou para contar com o apoio da anacr6nica elite political no Congresso apro- fundou ainda mais essa alianqa infeliz para con- quistar um segundo mandate espurio, violando um comezinho principiojuridico de nao colocar em vigor no mesmo exercicio (no caso, manda- to) novo principio legal. Quando muito, a possi- bilidade de reeleiqAo ficaria para o successor, embora a inquestionavel tradigoo republican re- comendasse acautelamento contra dois manda- tos consecutivos aos detentores das chaves dos cofres piblicos. Dessa conjuminaqao de erros resultaram as mastod6nticas dividas intera e externa, estou- rando 600 bilh6es de d6lares/reais. O relicirio de poder montado nos palacios do principle, emparedado por espelhos de cristal, espatifou- se, fazendo o pais desabar simultaneamente A erosao da pr6pria vida pessoal do president. A entusiasmada replica de JK 6, hoje, uma masca- ra depressive, uma figure abfilica, um sedutor que ja 1 insosso discurso alheio, redigido por uma assessoria sembrilho. O comandante sumiu, mas o aviao continue a voar. A conta do percurso a partir de agora, quando a nave atravessa as piores tempestades, 6 pesadissima. Nem sabemos se podemospagi- la. Onde havia principle restou o sapo. Mas pelo menos ja ningu6m pode ser embromado com fibulas de encantamento. A imprensa, que se recusou a ver, que manipulou o quanto p6de a opiniao pTiblica, que agora tenta subir no bon- de como se estivesse acordando de um pesade- lo, como se nao tivesse contribuido para essa irrealidade, essa imprensa tambem sera chama- da ao ajuste de contas se o pais sobreviver A tormenta que essa gente, aquela "boa gente" canalha que condenou Dreyfuss na Franca, con- tra a qual se lanqou Emile Zola, Ihe deixou como o rescaldo de um novo Baile da Ilha Fiscal, agora made in Brasilia. Roto, desenganado, quase comatose, este Brasil que tenta sair do buraco e mais Brasil do que o mimdtico bosquejo dele tracado como caricature invertida por sua pdssima elite. O di- livio pode estar chegando, mas ele, pelo menos, 6 real, o real que vai sobreviver da pantomima do Antonino FHC. 4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 0 Ver-o-Peso imaginario e a press de fazer Convidada pelo journal O Liberal a apre- sentar sua sugestao de passeio pela cidade, a professor Clemilde Correa apresentou a se- guinte oppgo: "O complex do Ver-o-Peso 6 o lugar ideal para se passear em Beldm. O melhor e iniciar no conjunto dos MercedAri- os, onde fica a antiga alfandega, depois des- cer ate a feira do Ver-o-Peso, passando pelas mulheres que vendem cheiros e ervas medi- cinais. Para mim, o ponto de venda dessas ervas e um lugar maravilhoso, cor aquela mistura de perfumes. Bom tamb6m 6 entrar no mercado de care e peixe, que 6 muito bonito. Em seguida, ficar olhando o p6r-do- sol, 1I da Praga do Rel6gio, e depois visitar a igreja de Santo Alexandre. Para finalizar o passeio, uma visit ate o nosso Forte do Cas- telo, que e um lugar estrategico, para admi- rar a paisagem" Quem quisesse seguir o roteiro teria que acordar cedo. Digamos que iniciasse a visit entire seis e seis e meia da manha. Comegan- do pelo antigo convento dos Mercedarios, teria que se contentar em ver a bela constru- qgo (novamente pichada) de fora. Nesse ho- ririo, atW a igreja das Merces ainda estaria fechada. Mas certamente o visitante pegaria a feira e os mercados em um bom moment. Percorrendo toda a area, para poder con- templar o crepiisculo da Praga do Rel6gio o turista teria que esperar horas. Quando o sol se pusesse, ja nao poderia visitar a descarac- terizada igreja de Santo Alexandre porque o hor6rio de funcionamento estabelecido pela Secult ter-se-ia esgotado. Restaria o Forte do Presapio, resquicio descaracterizado da fun- da;go da cidade, mas ali 6 melhor chegar entire cinco e cinco e meia da tarde, enquanto ha luz natural. Exatamente porque 6 mais bonito al6m de seguro ver o sol se par dali do que ao lado daquele monstrengo que a Rede Globo instalou do outro lado da Pra- ca do Rel6gio (tambem modificada). O paraense nao hesita um segundo, quan- do provocado. em citar o Ver-o-Peso como o lugar que define Belem. Mas, como a profes- sora, pode ver esse monument mais pela a 6tica da imaginaqgo do que cor os olhos da realidade. O roteiro que ela montou s6 pode- ria ser cumprido em dois dias, mas qualquer iniciado logo Ihe objetaria que sua indicapgo estai muito long de ser a melhor abordagem do Ver-o-Peso. Porque existem muitos Ver-o- Peso na verdade, funcionando em espagos dis- tintos e em horarios alternados, cor persona- gens que nem sempre sao os mesmos. No imaginario padrao, por6m, os various Ver-o-Peso sao criados mentalmente, resulta- do de projecgo individual. Nao espanta que uma socialite, algum tempo atras, haja respon- dido a outro tipo de enquete declarando-se fre- qiientadora do local, onde costumava tomar suco de cupuassu com peixe frito. Uma com- posicao mais cabocla para essa insl6ita esco- Iha teria que substituir o tal suco pelo refres- co, permitindo aos carocos sobrenadar na Agua, entire bagos da encorpada farinha d'agua. Muita gente que mora em Beldm nao che- ga a compreender por inteiro o que 6 o Ver-o- Peso. Inclusive tradicionais freqiientadores, mas que s6 vao ali em horArio fixo, uma roti- na que os impossibilita de captar a dimensao mais ampla daquele centro commercial. Nao importa: atd para quem nunca foi ou nao mais retornou ao lugar, o Ver-o-Peso ter um signi- ficado simb6lico muito forte, funcionando como o sensor, a bandeira e at6 a biruta (nos sentidos aeronautico e vulgar) da cidade. O principal trabalho de conscientizaqao consistiria em fazer os belenenses percebe- rem que o Ver-o-Peso e uma peqa, a mais important, mas uma dentre vrias outras que constituem o conjunto urban mais antigo de Bel6m. Nio basta recuperar os dois merca- dos e organizer a area diretamente a eles vin- culada para conseguir oficializar esse espa- qo como patrim6nio da humanidade. FaltarA o conjunto arquitet6nico, hist6rico e urbanis- tico. Como ji fez antes, a Unesco (o 6rgao competent da ONU para educaqAo e cultu- ra) ira rejeitar de novo incorporar esse sitio ao acervo universal. O atual projeto de "revitalizacao" do Ver- o-Peso que a prefeitura executa parece repe- tir os erros do passado. Os tres trabalhos se- lecionados no concurso national aberto pela PMB tratam isoladamente da feira-mercado, esquecendo a Castilhos Franga, a Joao Al- fredo-Santo Ant6nio, a Marquis de Pombal e a Cidade Velha. Os consultores da Unesco ja deixaram suficientemente claro: sem abranger todo esse conjunto, o Ver-o-Peso nao sera monument da humanidade. No meu ponto de vista, esse entendimen- to estA correto. Apesar da galopante des- caracterizaggo de todo esse perimetro, ain- da 6 possivel reconstitui-lo, mesmo corn suas chagas abertas. Mas essa perspective requer um piano urbanistico global, a ver- dadeira "revitalizagao" (palavra que nao me seduz), nao apenas uma restauraqgo li- mitada aos conjuntos que mais estritamen- te constituem o Ver-o-Peso. Surpreende que a prefeitura precise reali- zar um concurso national para reorganizar esse local e se disponha a investor um volu- me consideravel de recursos (poderiam che- gar a 20 milhles de reais), sem subordinar o projeto vencedor a um plano geral do centro hist6rico de Belem. As prateleiras dos arqui- vos municipals ja contam com projetos exe- cutivos para a fileira de predios da Marques de Pombal, para a Joao Alfredo e atd para os pontos de interesse da Cidade Velha. Por que nao coloca-los em pratica? Certamente faltarao recursos para realizar de uma s6 vez e em curto espago de tempo uma recuperagao complete da area, mas, ao invds de ficar na lamentagco do impossivel ou concentrando muito dinheiro em obras par- ciais (alem de equivocadas), a administraqgo piiblica poderia restabelecer a face original da cidade em varios pontos do centro antigo. Bastou uns poucos lojistas extrairem da fa- chada de suas casas comerciais os monstruo- sos paindis de aluminio e acrilico que escon- dem a face original dos pr6dios para que um ar de beleza soprasse na desolada paisagem da Joao Alfredo-Santo Antonio. Um simples e correto projeto, tinta adequada e vantagem tributiria ou fiscal rapidamente modificariam aqueles locals. Policiamento ostensivo dia e noite, fiscalizacgo e limpeza completariam o estimulo para, cor ligeiros toques de inter- veng5o, sanear essa cornucopia de mau gosto e feiiira que se instalou no centro. A Leao XIII poderia ser fortalecida, o conjunto da capela Pombo seria salvo. E claro que ha uma lava incandescent cir- culando em torno dessas iniciativas urbanis- ticas: o esvaziamento econ8mico e sua deri- vacqo social, o desemprego. Justamente por isso, nao se pode pensar na recomposiiio paisagistica do Ver-o-Peso sem considerar as duas mil pessoas que trabalham diariamente ao redor dos dois mercados, aldm da pressao de outras milhares no entorno ou nas ramifi- cag6es distantes, ainda assim dependents daquele centro commercial. O ideal seria restabelecer o desenho ori- ginal, tao bonito, do inicio do sdculo, quan- do foi montado o nficleo central de sustenta- cao do Ver-o-Peso. Mas os ambulantes e fei- rantes o tomaram de assalto, pressionados pela necessidade de sobrevivencia, cor os acrdscimos da especulacao. Nao se pode eva- cua-los a toque de caixa, nem manu military Eles tnm que ser reintroduzidos na atividade produtiva normal, o que levara muito tempo para acontecer, se voltar a acontecer. Abstrair isso que constitui uma n6doa pai- sagistica 6 ignorar que ela tern um contefido human e social. Permanece como n6doa, mas nao pode ser apagada cor traoes no pa- pel. A conciliaqco que a administraiao Al- mir Gabriel tentou fazer foi um fracasso one- roso. Dois pr6dios estao abandonados, JOURNAL PESSOAL I- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 5 logradouro perdeu o sentido e o espago vi- rou algaravia. Dinheiro foijogado fora. Mais serAjogado, provavelmente, na versao revista e atualizada do PT. O tempo dado pelo concurso aos seus par- ticipantes foi exiguo demais. VArios dos que apresentaram trabalhos (e pelo menos alguns dos vitoriosos) nao puderam observer o Ver- o-Peso em suas vArias facetas, em seus vi- rios tempos. Quem percorre a area a partir da mais remota madrugada v8 a azAfama da compra e desembarque de peixe para deze- nas de veiculos dos mais diversos tamanhos, aldm do mercado do agai, que torna a praga um campo de batalha. Um dos projetos ar- quitet6nicos selecionados prop6e um espe- Iho de agua para destacar a Praga do Rel6- gio. E irreal. De igual caracteristica 6 a limpeza feita na prancheta da praga que a prefeitura man- dou construir, ao prego de mais de R$ 120 mil, na vizinhanca da Estacgo das Docas, um anti-clima ao delirio chavesiano de R$ 12 milh6es (era para ser de R$ 6,2 milh6es, e ainda nem foi concluido). A prefeitura vai destruir essa praca padrao Edmilson, talvez ate antes de inaugura-la? Os arquitetos que a excluiram do seu desenho vAo ter que rein- troduzi-la? E como ficarao os crit6rios de anAlise e selegeo? Ficarao desonrados, des- respeitados, anuladosde fato? Uma fonte da PMB (cuja identificacqo nio dou para poupA-la de eventuais repre- sflias), colocada diante do dilema, resolveu- o argumentando que se os arquitetos vence- dores convencerem a administraqao de que, para a coer8ncia do projeto e o respeito de suas proposig6es, sera indispensAvel descar- tar-se da pracinha beira-rio, entio a prefei- tura aceitara perder os R$ 120 mil investi- dos. Mas se jA tinha a inten&lo de fazer o concurso para "revitalizar" o Ver-o-Peso, por que comeoou a obra? Por que n po espe- rou pelo resultado do concurso? Alias, os arquitetos de outros Estados ig- noraram algumas das restric6es estabelecidas no edital do concurso, enquanto os tdcnicos locais parecem ter condicionado os seus pro- jetos a essas limitag6es. Seria exatamente por isso que os projetos vencedores foram elabo- rados por dois cariocas e um paranaense, con- tendo elements que se ajustam A visao que a professor Clemilde tem do Ver-o-Peso, coi- sa de turista aprendiz (ou apressado)? Essa inc6moda sensaglo deveria motivar a administraglo municipal a repensar a sua empreitada para o Ver-o-Peso, quem sabe ate anulando o primeiro concurso, para nao comecar corn falhas graves o que pode ter- minar errado, mais umavez. E, enquanto sin- toniza o cronograma de um bom concurso com o tempo just, p6e em execuqao as boas propostas quejA tern em seu poder. Para nilo reinventar a roda e encravi-la no coraqlo do (outrora) verde-ver-o-peso dos nossos so- nhos e pesadelos. Sou amigo, hA varies anos, de um official superior das forgas armadas, que chegou ao segundo posto mais elevado da sua carreira. Correspondemo-nos, nao corn a freqiiincia que eu gostaria, mas o suficiente para manter- mos os vinculos que nos uniram pela admira- glo e o respeito, imensamente maior a partir de mim, o personagem menos important da relaqao. Ele foi um dos oficiais mais dignos, inteligentes, dedicados e produtivos que en- contrei nas forgas armadas brasileiras. Hoje na reserve, continue aplicando o seu saber as quest6es nacionais para contribuir em favor do Brasil, embora a nagao nio lhe tenha ofe- recido uma funtio compativel com seus me- ritos. E um desperdicio inaceitavel que isso aconteqa: pessoas afastadas do serving pfibli- co no auge de sua sabedoria. Este nlo e um pais sensato, para nio repetir que nio 6 sdrio. Este amigo escreveu-me uma comoven- te carta de final de ano. Decidi reproduzir apenas um trecho dessa longa correspon- dencia, sem consultar o seu autor. Por isso, neo o identifico. Permito-me a descortesia de tornar public uma avaliagio que ele faz porque suas palavras sio valiosas e devem ter repercussio maior do que a de uma lei- tura individual. Tenho certeza que meu eventual pecado de inconfidencia serA re- mido pelo beneficio que reproduzir esse trecho certamente tera sobre os leitores deste journal. O official deixa claro que o Brasil do Norte, alem de estar muito dis- tante do Brasil do Sul, onde funciona o eixo dominant do pais, e, para ele, uma mira- gem, uma abstragio. O que a Amaz6nia nlo conseguir fazer por si, ninguem mais o fara. O governador Almir Gabriel fez Rosineli Guerreiro Salame, a adjunta do atW entao se- cretario Joio de Jesus Paes Loureiro, ascen- der a chefia da estrat6gica Secretaria de Edu- caaio. Niio convocou seu auxiliary do primei- ro mandate para discutirem a mudanga, a nova escolha e sua motivaqio. Chamou Jesus ape- nas para comunicar-lhe a troca. Adoqou o fel dizendo que tinha uma nova mission para ele: transformar em realidade o que ficou-se sa- bendo agora ser um velho do sonho de sua excel6ncia, a criaqio de um Instituto de Belas Artes ou seja la qual a designaqgo dessa novel instituicgo, se algum dia vier a luz de um part tumultuado, incerto e nio sabido. Para a chefia da policia civil o governador foi buscar um delegado, Joio Moraes, ate en- tio punido por acusar a Altaa cipula" policial de cornipqco. A acusag~o nlo foi comprova- da. 0 delegado geral, Gilvandro Furtado, que entao promoveu o inquerito, levou-o at6 o fim com o endosso, ao menos tacito, do secretario de seguranqa public, Paulo Sette Cimara, que Diz o grande official brasileiro: "VocE sabe melhor do que eu que os mei- os de comunicapAo do Sul dedicam poucas linhas aos magnos problems do Norte, to- dos eles grandes problems brasileiros. Es- poradicamente referem-se ao desmatamento - consentido hA algum tempo da Amaz6- nia. Alguns problems sobre os indios apa- recem. No mais, s6 quando ocorrem fatos que gerem comogoi national. A censura hoje, sob certos aspects, 6 pior do que aquela que existiu nos chamados go- vernos militares. Pior porque oficialmente nio existe. Osjornais, TVs e radios poderi- am dizer aquilo que fosse do interesse naci- onal, mas nio o dizem. Ao silenciarem dei- xam de lutar pelo povo brasileiro. S6 falam sobre o que 6 da vontade de seus donos, su- bordinados A pecniia dos patrocinadores, que sio governor, a mentirem, e multinacionais As quais os governor prestam vassalagem. Digo-lhe o seguinte: por aqui (Sul), mesmo pessoas de bom nivel acad8micos e razoavel- mente bem sucedidas na escala social, enge- nheiros, m6dicos, advogados, economists, ig- noram o tema por voc8 abordado em 'Amaz6- nia- o s6culo perdido' Provavelmente alguns militares interessados, que na AmazBnia servi- ram, tenham iddia do problema, e outros, em razio dos cursos impostos pela carreira. Po- rem os militares estio alijados do process de- cis6rio e da discusslo dos problems brasilei- ros. As Organizaqoes Globo ignoram-nos, a nio ser para propalarr noticias forjadas, cor o fim de desmoralizar a classes. E o Sr. Roberto Mari- nho foi comensal da Ditadura Vargas e dos Governos dos Presidentes Generais" 0 poderia se considerar arrolado na "cipula" Para o segundo mandate, o delegado geral foi ejetado. O secretArio continuou. O poderoso secretario dos transportes. Amaro Klautau, o segundo mais important na estrutura do primeiro mandate, foi, sem abviso prdvio, obrigado a escolher entire o nada e a nova secretaria de esportes. Ficou com o quase nada, agradecido por lembra- rem que sua biografia incluitratos com o as- sim chamado balao de couro. Ronaldo Barata, um companheiro de vi- agem de Almir Gabriel. tamb6m foi cha- mado na undecima hora para ficar saben- do que, embora quisesse concluir seu tra- balho no Iterpa, tinha uma nova mission pessoal do governador para o bi-mandato: comandar a aailo social do governor, esva- ziada corn o deslocamento da primeira- dama e em fase ag6nica. Barata so teve tempo de transmitir o cargo. Esse amigo nleo 6 criaqlo do mortal Pericles? Norte/Sul 6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 A praga do prefeito Um dos mais citados brocados do niilismo belenense admite: 6 aqui que os artists se acabam. Nao faltam exemplos para funda- mentar a supersticqo. O mais recent envol- ve a mitol6gica figure de John Fitzgerald Kennedy. Pela primeira vez em todo o mun- do, provavelmente, o ex-presidente dos Es- tados Unidos foi "desomenageado" Seu nome, que designava a antiga Praqa do Con- gresso, na orla portuaria de Beldm, foi subs- tituido pelo do maestro e compositor paraense Waldemar Henrique. No que seria um gesto ainda mais insensa- to, os promotores da "desomenagem" chega- ram a pensar (sic) em devolver ao consulado americano o busto de Kennedy, que ornava a praga. Um consul mais suscetivel poderia in- terpretar o gesto como uma ofensa e transfor- ma-lo num incident diplomatico bem desa- gradavel. Nao Ihe restaria nem o console de ficar corn uma obra de arte, que o busto de Kennedy esta long de ser e o do querido Waldemar mais distant ainda (acho-o mais parecido corn o amigo Joao Fernandes, um dos melhores papos da cidade). Ja foi uma faganha o president americano assassinado ter conseguido apagar, cor seu nome, a memorial da cidade sobre o congres- so eucaristico national, realizado 10 anos an- tes, naquele mesmo lugar. A afeicao da uma iddia do prestigio que Kennedy conseguira, tanto por sua presid8ncia quanto pelas circuns- tAncias tragicas (e dramaticas) da sua morte, mesmo numa cidade tlo distant do horizonte que ele conseguia descortinar de Washington. Desfeitas as nuvens de endeusamento, a image de estadista do president assassina- do sofreu o desgaste das revises hist6ricas, algumas tao apaixonadamente contra quanto irrealisticamente a favor havia sido a construcAo do seu mito. Quem 1e ficou sabendo que ele teve aventuras amorosas na Casa Branca que seriam equiparaveis Ouw as de Clinton se Kennedy hou- vel. U vesse sido tao primario e rude quanto o politico do Arkansas. quantc Tamb6m foi informado de toda a co sem sujeira que pavimentou o camni- agora nho de JFK ate a presidencia. Ainda assim, o significado de C Kennedy para a sua epoca e a ranjos posteridade ficou preservado ca mu porque o saldo do seu legado music; positive, mesmo na avaliago dos critics mais rigorosos. eram Quando nada, por haver contri- gosto, buido para afastar o risco de d do, de uma guerra nuclear entire as duas superpotencias mundiais, os quebra EUA e a URSS. Outros grupos nao tiv que dividiam o poder america- no teriam invadido Cuba, quaisquer que fos- sem as consequincias. Se o homenageado tem m6ritos e se a ho- menagem recebeu o endosso da sociedade, por que revogar um ato consumado? Caso a troca de nomes tenha se inspirado numa re- visao do conceito sobre Kennedy, antes vis- to como um lider positive, agora como um personagem negative, entao o erro tera sido primario. O problema nesse tipo de revisita 6 ignorar a nogao de tempo. O personagem passa a ser visto na perspective dos que o avaliam, conform seus pr6prios criterios, ignorando a epoca em que viveu a criatura original. De tal ignorAncia resultou essa toli- ce do catecismo politicamente correto. Sua manifestaqAo infantil em Beldm, nesse caso, seria a abolicqo do nome de Kennedy, a ser proscrito da mem6ria dos belenenses, s6 por- que o nosso huno assim o deseja (alias, para fazerjustica a Atila, seria melhor considera- lo um novo Barberini tropical). E assim que, sob as mais bem intenciona- das justificativas, comete-se violncias con- tra a hist6ria. Como a que Josef Stalin prati- cou ao banir o nome e a imagem de Leon Trotsky da Uniao Sovi6tica. O criador do Exer- cito Vennelho foi at6 apagado das fotografi- as, atrav6s de m6todos grosseiros (ja que nao havia o recurso modern dos scanners de conm- putadores). Mas a hist6ria 6 como as ondas do mar: vai, mas volta. Admitindo-se, entretanto, nao ter havido esse prop6sito de ajuste de contas entire uma prefeitura de esquerda e um dos simbolos do por ela chamado imperialismo ianque, resta apenas um ato de infelicidade do governor mu- nicipal, a revelar o dedo do gigante. Se os be- lenenses convivem bem cor o logradouro, a CaetaneaGao i o ultimo disco de Caetano Veloso. Totalmente di m daqueles moments de queda em que ele 6 tao na recuperaqao: Gravagao de show transformada ipre 6 perigosa. Mas Caetano podia ficar no corn - espetaculo acistico, como o que fez no Golden R abana PAlace. Deu num disco maravilhoso. Agor sofisticados (mas artificiosos), 12 pessoas na band sica cor a marca registrada de Caetano. As revi is ja cantadas ou compostas fica a dever As anterior nuito melhores. Ele caetaneia, 6 verdade (no que, p1 nao devia). No palco, com cenarios de Eichbauer ve ser interessante. Mas para ouvir 6 mediocre. Qt ir, guard esse CD apenas como document. Ou 'er outra coisa melhor para ouvir do pr6prio Caeta despeito do seu prolongado mau trato, a pro- vid6ncia elementary consistiria em aprimorar o tratamento dado a praga, nao mudar a sua designaqao. O problema 6 de uso, nao de titu- laFlo. Waldemar Henriqueja e nome de um tea- tro, um sitio adequado para homenagea-lo (a tal sala no Museu do Estado, a ser criada para colocar em exposigAo permanent objetos e pertences do maestro, foi adiada para future incerto e nao sabido por um outro principle da cidade). Mas se a municipalidade quer aduzir nova homenagem a que o Estado ja prestou. poderia encontrar um outro logradouro pAbli- co, ou converter o nome de algum lugar que nao "pegou" Nao 6 o caso da Praca Kennedy. Assim como a Sao JerBnimo persiste como a lembranqa mais constant do cidadao m6dio sobre a avenida Governador Jos6 Malcher, 6 provavel que o mesmo se repita na relacAo Kennedy-Waldemar Henrique, desmerecendo a ambos. Ainda que a desastrada troca seja aceita, resta um outro problema: a praga inaugurada pelo prefeito Edmilson Rodrigues 6 uma obra de ma qualidade. Em sua vollpia populista, o alcaide deixou tudo para a fltima hora. Nos derradeiros dias o trinsito ficou um caos na regiao para que o palco fosse armado, mesmo tratando-se de um palco precario, como o des- sa praca mal-acabada, mal concebida, mal construida, um verdadeiro estrupicio. Fica-se na duvida se a concha acfstica foi rebatizada de cuia acfistica por sua tortuosi- dade nao intencional, por suas evidentes limi- taq6es construtivas, menos do que por um na- tivismo compulsive. As teclas pintadas no ci- mento da rampa em frente as arquibancadas (aparentemente deslocadas do local certo) ja desaparecem, agravando o non- sense daquele espago. A pr6pria concha acistica nao parece bem posicionada ao lado da arbori- spensa- zaqao. As luminarias nao resis- pr6digo tirao muito tempo, assim como a pavimentacqo lateral. Alias, em dis- fendas, infiltrag6es e pequenos o dizem desabamentos dao A nova praga .oom do a idade de coisaja muito usada, mesmo porque ela ainda estava a ha ar- sendo arrematada, ap6s a inau- a e pou- guragao, e reparos ja comega- is6es de vam a ser feitos. Tudo isso para tender a An- es, ue sia de votos do alcaide, permi- ara meu tindo-lhe ainda trovejar em seu ao fun- ininterrupto comicio que tudo aquilo custou tao pouco? Se e iem nao para isso, entao sugiro tamb6m quando que nosso prefeito passe a se no. chamar Edmilson, o Breve. Em nosso beneficio. 0 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 7 A boa conversa de beira de rio Houve uma epoca em que saber das coisas de Santardm, do passado e do present, exi- gia um encontro com Joao Santos, uma esp6- cie de historiador outsider (mas, justamente por isso, capaz de ver os fatos por dentro da versao official, destrinchando-a). A sacristia da igreja-matriz de Nossa Senhora da Con- ceigio, onde ele trabalhava, era o cenArio convenient para conversas mais conjunturais, sobretudo de political. Sua casa era adequada a tertilias historiogrdficas, funcionando como centro cultural mais vivo do que a vizinha Casa da Cultura, nada mais, entao, do que um pr6dio sem recheio. Joio morreu, deixando registrada apenas uma fragAo do seu conhecimento. Nem seu valioso arquivo serviu de console, tao pes- soal era a sua organizacgo e, em seguida, a gestao do acervo por ele deixado. A recons- tituigao da rica hist6ria de Santar6m, para a qual poucos abnegados contribuiram ao lon- go deste seculo, avangou pouco em relagao ao potential do saudoso Joao, sempre peado por suas dificuldades materials. Mas agora o engenheiro agr6nomo Cris- tovam Sena pode estar dando uma contribui- qFo decisive para a mem6ria tapaj6nica. Ini- cialmente como se fosse uma fragil semente, agorajA como plant em crescimento, ele estA usando o Instituto Cultural Boanerges Cou- to. que criou corn o nome do pai, para sedi- mentar material que costume flutuar nas aguas do interesse circunstancial e se perder no es- tuario da desatencgo generalizada da popu- lacio pelo que foi, 6 e podera ser. Em instalaq6es de fazer inveja at6 mes- mo a muitas instituiq6es oficiais, os interes- sados podem consultar livros, documents, jornais e revistas, peas inconograficas e uma nascente mapoteca, milhares de itens juntados corn entusiasmo e estoicismo por Cristovam, mais conhecido at6 essa aventu- ra do conhecimento por sua maestria como jogador de futebol. Alem de construir um centro documental de refer8ncia ate entao inexistente (a Casa da Cultura ainda 6 um vasto campo de batalha para os estudantes e os est6icos servidores que os atendem), Cristovam comeeou a editar li- vros. O primeiro foi Ramal dos Doidos, do jomalista Manuel Dutra, uma reuniao de re- portagens, varias delas importantes como re- gistros sem equivalentes na producqo acad&- mica. O segundo livro 6 O Tapajds que eu vi (Mem6rias), 173 piginas, de Eimar Franco, langado no final do ano passado. Para atrair o interesse de leitores para essa obra original (os contatos coin o institute po- dem ser feitos pelo telefax 522-1490), trans- crevo aqui o preficio que escrevi a pedido do Cristovam. Com a leitura do livro ganharAo nao s6 os santarenos, aos milhares aquartela- dos em Belem (s6 se sentem realmente em casa em Santar6m), como todos os paraenses. O prefacio: Diz a tradigdo que o padre Jodo Daniel escreveu Tesouro Descoberto do Rio Ama- zonas, no final do seculo 18, ao long de tres anos de confinamento torturante nas mas- morras do Marques de Pombal, em Portu- gal. Como ele conseguiu, de mem6ria, sem acesso afontes impressas, lembrar-se de tan- tas minmcias e de tantas generalidades'da vidana Anaz6nia, e algo tdo prodigioso que se torna dificil crer nessa faanha. Mas ndo e o mais important. 0 que en- canta naquelas centenas de p6ginas, 6 es- pera de uma edigdo a altura do seu valor, So amor do missiondriojesuita pela cos- mologia amaz6nica. Amor que ndo ofaz perder a isengdo analitica, nem o distan- ciamento critic. Ao contrdrio, s6 assim ele e capaz de apreciar corn deleite cada item da geografia, da fauna, do folclore, da hist6ria da regido, a qual dedicou to- das as suas energies, ate ser deportado dela pelo despotismo esclarecido de Ponm- bal (esclarecido mesmo?). Eimar Franco escreveu 0 Tapaj6s que eu vi corn um toque de paixao semelhante ao que fez o padre Jodo Daniel gerar um dos livros mnaisfascinantes da bibliografia ama- z6nica. Homem da terra, criatura do meio, mesmo ao dela se desgarrar momentanea- mente (sem ser pela compulsdo traumdtica de um tirano, embora Barata tenha deixado sua marca sobre a familiar Franco), Eimar navega pela mem6ria como se descaisse de bubuia sobre o seu belo e amado Tapajds, rio de todos n6s, matriz da nossa alma aqu- dtica, fluvial. Diversamente de seu anteces- sor de mais de dois seculos atrds, ele pode- ria ter ido conferir em algunm papel impres- so a exatiddo do que escreveu, maspreferiu seguir mansamente no embalo da mem6ria. Em sua idade, ela retorna limpida e cris- talina as origens mais remotas, mas o nar- rador ndo e um septuagendrio saudosista, melanc6lico. Seu estilo e, ao mesmo tempo, rfistico e vivaz, tern ofrescor dos estilos atem- porais. Ndo estd entravado pelo ritmo mo- dorrento da idade quepassou, deixando ape- nas sombras epressdgios. Do prunmo do Uru- curituba, Eimar produziu uma especie de didrio da casa grande (ji sen senzala e com muito compadrio) da vdrzea, uma realidade que parece ndo ter sido percebida em sua amplitude e inteireza. Talvez porque os autores que a vislum- bram estavam depassagem, ou tinham pres- sa, vendo-a de long. Faltou-lhes as raizes profundas do Eimar Do outro lado do rio, os americanos da Companhia Ford olha- ram para os caboclos sem a acuidade an- tropol6gica dos ingleses. Por isso, houve a revolta dosfarinheiros, chamando a aten- 9do dos nutricionistas de Detroit para a in- dispensdvel ragdo de farinha de mandioca dos natives (mas Tio Sam prefer ser um ven- triloquo irredutivel). 0 inventdrio de coisas e pessoas que ele faz tem o doce encanto de Hellen Morley em Minha Vida de Menina, a montanha mineira trocadapela cornucopia das 6guas amazdni- cas espalhadas pelo estudrio sem porteiras. Em ambos a serenidade do conhecimento vi- vencialpermite construir uma arqueologia da mem6ria sem qualquer artificialismo. Certamente a 6tica que cada leitor especi- alizado utilizarpara examiner este livro o le- vard a fazer reparos, correaoes ou acrdsci- mos. Acho que Eimar ndo pretendeu criar um document cientifico. Seu texto e pretext para o prazer dafruigao do conhecimento: mais ate: para a consolidagdo da sabedoria base- ada principanlente no contato corn a nature- za, na experiencia, no empirismo. Talvez ele devesse mesmo conferir auto- nomia a cada um dos enfoques de sua nemo6- ria, separando a lenda dos caboclos (sempre tangenciando oupenetrando no universe dos ancestrais indigenas) da reconstituiqdo his- t6rica, as mem6rias zool6gicas das observa- qoes geogrdficas, produzindo um novo Deca- meron, menos especializado do que o do sd- bio maranhense Nunes Pereira, capaz, entre- tanto, de introduzir nas atas amazdnicas o personages esquecido pela historiografia dominant: o caboclo, o "pardo imprecisa- mente definido para efeito estatistico. 0 que Eimar quis mesnmofoi oferecer um mote para conversajogada ludicamente en- tre vizinhos de rede, balangadas na e.spago- sa varanda de qualquer das casas grades que restaram se e que alguma restou -nas ilhargas do grande e maltratado rio, que vi- bra aquelaparte insonddvel do nosso ser que chamamos de alma. A do Eimar Franco e grande e licida. Me- Ihor para todos n6s, por ela convocados para a tarefa de reconciliar a civilizagdo nessa ulti- ma grande fronteira planetiria corn o homemn e a paisagem que emerged vivos e belos nessa conversa mansa de beira de rio sem fimn. A propaganda municipal E salutar a empreitada da pre- feitura de procurar cultivar a auto-estima da cidade. Esse es- tado de espirito favorece a mo- bilizagao da coletividade para um projeto dificil, a recuperagao fisica, funcional, espacial e eco- n8mica de Belem. Mas a cam- panha promocional ter um li- mite: o da realidade. O moto continue da criagao acabara por fazer a administragao municipal acreditar no paroxismo da ima- ginagao, gerando aquilo que, em psiquiatria, costuma-se diagnos- ticar por esquizofrenia. Em primeiro lugar, Belem nao e pelo menos ainda nao 6 - a Capital das Luzes, como se fora uma Paris tropical sedian- do um iluminismo redivivo. Be- lem 6 uma CalcutA amaz6nica que tenta escapar desse estig- ma. Como abriga a elite inte- lectual da regiao, parece acre- ditar que a formula9~o de um piano de trabalho pode servir de ponte para atravessar o fos- so de pobreza e miseria que a sufoca, estabelecendo uma ca- bega-de-ponte que sirva de abrigo para um combat urba- nistico de vanguard. Mas to- mar a proposicqo como realida- de, ao inves de servir a uma uto- pia, podera desencadear um po- pulismo demag6gico, anestesi- ando consciencias at6 que elas cheguem ao Nirvana (ou desa- bem de vez no fosso quando a ponte intellectual romper-se). Uma segunda limitagao a esse projeto 6 o seu peso mer- cantil. Essa sensagao de entu- siasmo esta sendo conseguida a peso de ouro, atraves de cam- panha publicitAria paga. Al- guns moments dessa campa- nha sao ate de alto nivel, mas constituem excecgo. A midia aderiu ao projeto municipal fascinada pelas 30 m.oedas. Mas se elas faltarem? Tinha que ser as 30 moedas? O risco de a prefeitura estar construindo um castelo no ar 6 muito grande. Principalmente se a campanha, elevada As alturas no period de comemorag5o dos 383 anos da cidade, criar aque- le circulo vicioso que os depen- dentes de droga bem conhecem. Cor a aproximagao da eleicAo do pr6ximo ano, a espiral deve- Didrio Oficial do dia 27 trouxe um ato no minimo ins6lito na hist6ria da administragao piblica estadu- al. Em portaria que assinou no dia 18, o novo dele- gado geral de policia, Joao Nazareno Nascimento Moraes, excluiu o mesmo Joao Nazareno Nascimento Moraes do Am- bito de uma portaria anterior, que o punira com suspensao de 30 dias, a mais drAstica inigao antes da expulsao do servi- dor. Joao Moraes teve direito ainda a ressarcimento pecunid- rio pelo dano sofrido. I certo que o delegado geral abonou o beneficio em causa pr6pria com base em decisAo do governador do Estado, data- da de 31 de dezembro. Louvando-se em diversos pareceres, o governador Almir Gabriel deu provimento a um recurso hie- rarquico que o entao delegado de policia apresentara contra ato de seu superior imediato, o delegado geral (ja afastado) Gilvandro Furtado. Gilvandro havia mandado instaurar inqu6rito policial para apurar denuncia feita por Joao Moraes., juntamente com o delegado Armando Mourao (igualmente promovido no novo mandate governmentall. Os dois anunciaram que os trafi- cantes de drogas e contrabandistas de Abaetetuba haviam dado dinheiro A "c6pula da policia" para transferir o delegado Athos Threptow da seccional da Sacramenta para a delegacia de entorpecentes. Antes de exercer esta iltima fungao, Athos havia sido delegado de policia em Abaetetuba. A den6ncia se desdobrava em duas: Athos tinha ligacao cor o cartel e a "c6pula da policia" havia sido corrompida. Sentindo-se atingido, Gilvandro determinou a instaurag~o do inquerito. Suas conclusSes: nem havia qualquer nexo de Athos cor os criminosos de Abaetetuba, nem sequer fora cogitado o seu remanejamento. A sindicancia que se seguiu resultou na suspensao de Moraes e MourAo por 30 dias. O primeiro re- correu, mas seus pedidos foram rejeitados pelo delegado ge- ral. Ele apelou, entao, para o governador. Almir Gabriel nao apenas isentou o delegado de culpa: no- meou-o substitute de Gilvandro, mandado para cuidar do rou- bo de veiculos. Assim, o ex-apenado p6de sacramentar sua pr6- pria reabilitagao, uma situaqlo inusitada em qualquer hist6ria administrative. Poderia ter deixado que um substitute ocasio- nal assinasse a portaria, mas decidiu conferir-se o privildgio, talvez para nao deixar divida sobre quem 6 o novo chefe. Tao cioso do que julga Ihe caber que sua primeira iniciati- va de repercussao foi passar por sobre os regulamentos legais e determinar o fechamento de bares e boates A meia-noite, uma velha e nunca eficiente formula que poderosos circuns- tanciais costumam adotar em periods autoritArios a pretexto de defender a seguranqa. Mas como, no loteamento do gover- no a partir das secretaries de segunda classes, o goverador entregou a justiga e a policia civil ao PPB, pode-se esperar que isso 6 apenas o comeco da ida ao passado. Jornal Pessoal Editor: Lticio FlAvio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo, 871/66 053-040 Fones: 223-1929, 241-7626 e 241-7924 (fax). Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040. Fone: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br EdirAo de Arte: Luiz Antonio de Faria Pinto/241-1859 rd seguir uma tendencia ascen- dente exponencial, abalando os ja andmicos cofres municipals. O prefeito Edmilson Rodrigues pode acabar repetindo seu ante- cessor, Helio Gueiros, e various outros que, no comando do Es- tado ou de sua capital, gastavam mais dinheiro com a promocao da inauguragao do que com a construgao da obra. Nao foi para isso que o povo, ajudado pelos fados, escolheu o PT. Dois pesos Segundo o Diario Oficial da UniAo do dia 22, a Fiat e a Vo- Ikswagen cederam 16 autom6- veis A Presidencia da Rep6blica. Foram 11 Marea e cinco Santa- na 2.000, os mais luxuosos mo- delos das duas empresas. A ces- sao foi realizada em regime de comodato. Ou seja: a cessao e gratuita, ou ao menos assim 6 declarada. Durante algum tempo Celso Pitta circulou em Sao Paulo com um carro "emprestado" por um empresArio. Quase foi crucifica- do, nao sem razao. Um outro car- ro em condicqes similares foi poderoso argument contra Fer- nando Collor de Mello. E que ninguem mais acredita em contos da carochinha, nem que uma empresa d8 algo sem querer retribuigao. Por que, en- tao, a imprensa continue a man- ter o reino da fantasia em torno de uns, enquanto desfaz essa bo- lha em relacao a outros? Quem responder a esta iltima perguntaterarespondido s demais. Pela vida Acabar com as assinaturas sig- nificaria abreviar ainda mais a vida deste journal, transformando sua morte numa questao de cur- to prazo. Por isso, estamos ten- tando restabelecer as assinaturas, mesmo sujeitas As incertezas de uma existencia frAgil. Aqueles que desejarem renovar suas as- sinaturas, devidamente alertados para o risco da empreitada, de- vem entrar em contato com Juli- ana e Angelim Pinto pelos tele- fones 241-7626 e 223-1929. Es- pero que nos pr6ximos dias o joraljA possa funcionar na Pas- sagem Bolonha 60, recebendo correspondencias, amigos e cli- entes. Em nlmero crescente, se possivel. |
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