Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00153

Full Text





Journal Pessoal :eP4.6
Kennedy: a












0 martirio do Idesp

0 governor diz que decidiu acabar corn o Idesp porque o rgdo perdeu sua

fungdo. Extinto, permitiria uma economic de quase R$ 6 milhbes. Mas ndo
6 verdade. 0 que o governor quermesmo e eliminar umafonte de
informagado para a sociedade e de refle.x.db critical sobre o pr6prio governor.


governor escolheu a soluqgo
mais simples: acabar cor o
Idesp. A mais dificil, reavivar
o Institute de Desenvolvimen-
to Econ6mico e Social do
Pard, 6 que era a mais certa.
Mas a institui9~o, que ji vinha morrendo hi
alguns anos, teve seu destiny selado, sem fita
amarela e nem tanto choro assim. Adminis-
tra6bes anteriores haviam deixado o 6rgao A
mingua. Nenhuma, entretanto, teve a cora-
gem de extingui-lo. A responsabilidade (que
ele deve considerar um mdrito) ficou para o
m6dico Almir de Oliveira Gabriel.
Dizem seus porta-vozes que o fechamento
do Idesp integra a reform administrative.
Sugerem que resultou de um esfor9o para
enquadrar a miquina official nos padres da
qualidade total made by BID (Banco Intera-
mericano de Desenvolvimento). Garantem
que essas medidas resultarAo em economic
de custos e ganhos em eficacia.
E pouco provivel que, a sdrio, algudm en-
contre um modelo te6rico parajustificar o que
o governor vem fazendo desde que anunciou
as sete secretaries especiais, trocando cadei-
ras e designando guardiaes sem conseguir
convencer sobre a racionalidade dessas inici-
ativas. Mais do que uma matriz de reenge-
nharia do BID, o que parece estar por tris
dessa tal reform sao os objetivos politicos
visando a eleigdo de 2002.
Uma institui9ao de 33 anos, como o Idesp,
num pais que s6 comegou a planejar hi meio
s6culo, num Estado cujo planejamento re-
monta ha 25 anos, merece algum respeito e
certa reverencia. Nao pode, 6 claro, viver
apenas dos louros do passado, embora, nes-
ses casos, nome seja posto. Afinal, nao 6 por
sua existencia mais do que centenaria, e pela
fase fulgurante que viveu nos tempos da bor-


racha, que o conceito do Museu Emilio Go-
'eldi circula pelo mundo? Mesmo quando
essa instituig9o deixou de corresponder a sua
fama, algudm se atreveu a proper que ela
fosse assassinada?
O que espanta e choca 6 a forma autoriti-
ria da decisao de fechar o Idesp, uma aut&n-
tica execugdo sumdria. Em nenhum momen-
to o governor admitiu discutir essa decisao,
aceitando apenas assegurar o emprego dos
168 (ou 207) servidores da institui9ao. I tao
cristalina assim a inutilidade e mesmo no-
cividade do Idesp? Pela reagio da socie-
dade civil, unanimemente contrdria, nao.
Talvez exatamente por isso, a administration


Almir Gabriel decidiu agir rdpida e tam-
bdm rasteiramente para criar um fato con-
sumado antes que seus frigeis arguments
pudessem ser desfeitos.
Enquanto o secretario especial de Gestao,
Sdrgio Leao, encontrava pretextos para adiar
por alguns dias uma reuniao sucessivamente
marcada cor representantes dos funcionAri-
os, o at6 entao diretor-geral, Afonso Cher-
mont, ha dois anos e meio exercendo o cargo,
foi despachado. Surpreendido ao ser chama-
do e comunicado sobre a extingao do 6rgio
que vinha tentando ressuscitar, Chermont ofe-
receu sua cabega. Nao queria se transformar
de comandante em coveiro do Idesp, um fato


(2 VD KI- 4' lIU L (L%-[L:U Q 040)


;a






2 JOURNAL PESSOAL 1l QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999


,que a hist6ria ird registrar e cobrar. Mas s6
soube de sua substitui9co, por um antigo qua-
dro da casa, Frederico Monteiro, agora se-
cretArio-executivo de planejamento, ao abrir
o DiArio Oficial e ver o ato do governador.
O que impedia o governor de ser mais ele-
gante e educado ao tratar com Chermont, um
cavalheiro, mesmo quando equivocado, pou-
pando-o do constrangimento de ser surpre-
endido pelo executor da pena de morte? Por
que nao convocar liderangas do setor e re-
fletir com elas sobre o Idesp, at6 para con-
venc8-las de que o destiny da autarquia era
mesmo inelutavel e o governor estava agin-
do corretamente?
Nada disso. O edito baixou do trono com
um rango emotional, contaminado de sub-
jetivismo. Nao parece ter sido uma decisao
limpa, refletida, tdcnica, um governor que
em 1996 anunciara novos tempos para o
Idesp e agora via-se constrangido a atirar-
Ihe a pA de cal. Nao: o tom passional mal
camufla uma vendetta, um ajuste de contas
pelos inconvenientes causados por um 6r-
gao obrigado a ver a realidade e pensar
quanto a sua interpretagAo.
Nio parece haver atravessado a real gar-
ganta republican de sua excelencia ser des-
dito em seus apreciados numeros de algibei-
ra pelas estatisticas da Pesquisa de Emprego
e Desemprego (PED). O saldo 6 negative e
nao positive, como proclamava o re-candi-
dato Almir na campanha eleitoral. NAo por
acaso, o Estado se recusou a renovar o con-
v6nio que vinha viabilizando a pesquisa, em-
bora s6 entrasse cor 10% dos recursos ne-
cessarios. A estatistica continuou sendo apu-
rada, mas nao divulgados os seus resultados.
A voz do trono tonitroou seu solil6quio em
mais esse setor.
Como aceitar a legitimidade dessa imposigao se,
exatamente tres anos atrds, quando o Idesp co-
memorava 30 anos de vida, Tereza Cativo Rosa,
atualmente assessorando o secretdrio da Fazen-
da, assumiu a direto prometendo comegar uma
nova fase, na qual o institute estaria em condigqes
de"proporcionar suporteticnicopara que o Esta-
do possa trabalhar a sua atividade essencial"?
O alter-ego (ou super-ego?) do governador,
Simao Jatene, fazia o coro: ele dizia nao ter
dfivida de que, naquele 1996, o Idesp "tam-
bem entra na virada do jogo", reassumindo
sua funcgo de "6rgao central de informaqao
para o planejamento"
Pode o governor alegar que, ap6s tantas ten-
tativas para ressuscitar a autarquia, aplican-
do-lhe todas as t6cnicas de revitalizacao, ren-
de-se As evidencias da realidade, rev8 pianos
tao estrepitosamente anunciados ha apenas
tres anos e curva-se A solucqo extrema, radi-
cal, que 6 a extinqao do Idesp, atendendo a
um clamor unAnime da opiniao piblica?
Evidentemente que nao. O comando re-
novador de Tereza Cativo durou apenas um
semestre. Ela preferiu ir para a Secretaria da
Fazenda. Afonso Chermont nunca contou


cor meios para "reconstruir e repensar o que
foi feito", como anunciava o governador
Almir Gabriel na solenidade do 30 aniver-
sArio do Idesp, talvez seu inico compareci-
mento A instituicgo.
O Idesp foi sangrado em vida. No inicio
atd de uma forma saudavel, positive. Ele foi
o embriao para tres secretaries: de planeja-
mento, de industria, com6rcio e mineradao, e
de cidncia, tecnologia e meio ambiente. Tam-
b6m criou e desenvolveu projetos em segui-
da repassados a essas secretaries, junto corn
mdo-de-obra qualificada. Com o tempo, po-
rdm, passou a haver apenas canibalizagAo. O
Idesp perdeu suas ferramentas e laborat6ri-
os, deixou de seguir um piano director e se
conformou cor uma sobrevivencia vegetati-
va. Seu quadro t6cnico se burocratizou e per-
deu o estimulo. Quem p6de, procurou novo
abrigo. Quem ficou, passou a esperar pela
aposentadoria ou por um comando renova-
dor, um messias que nao apareceu. Quem se
apresentou foi o anjo exterminador.
Uma instAncia de pesquisa, de sistemati-
zaqao de informag6es e de produgao de es-
tatistica continue a ter seu papel assegurado
na estrutura de um governor modern, em
qualquer parte do mundo, se esse governor
pretend ver a long prazo, nao se fanatizou
pelo mau catecismo neoliberal e incentive a
critical interna.. Apesar das declarag6es dos
coveiros do Idesp, essas fung6es nao podem
ser desempenhadas adequadamente por ne-
nhuma das secretaries que receberao o es-
p6lio da vitima.
A Seicom, por exemplo, combine tantas
fungies que desempenha sofrivelmente cada
uma delas. Ao fim do Idesp deverA seguir o
dessa anomalia chamada Paramindrios. A es-
trat6gica questao mineral ficarA entao confi-
nada num setor raquitico da Seicom, no qual
o esforco e a aplicacao dos tecnicos nao e
suficiente para vencer suas limitacqes estru-
turais. Pode o segundo Estado minerador do
pais dar esse tipo de tratamento A sua princi-
pal atividade produtiva?
JA a Seplan transformou-se na secretaria-
executiva do governor para uma political mais
eficaz (do ponto de vista politico) de inter-
cAmbio com os municipios e de control da
engrenagem internal. O planejamento ficou
no nome. O sistema criado em 1975 se des-
fez. Raramente o Estado escapa ao curto pra-
zo. NAo hA mais espaco nem clima para um
livre pensar num 6rgio executive como a Se-
plan. A interlocuqAo feita pela Seplan junto
A Companhia Vale do Rio Doce escancarou
seu despreparo. Desapareceu o feed-back, a
retroalimentagao da engrenagem tecnica do
governor. Porque a funcio que era do Idesp
deixou de ser desempenhada.
E claro que, para ser mantido como esth,
seria melhor acabar mesmo cor o institute.
Mas isso acontecendo, o governor amputara
um dos seus 6rgios vitais num piano de reto-
mada (conquista e a expressao mais correta)


do comando do seupr6prio destino. Sem uma
instituigao capaz de interpreter o cotidiano no
moment mesmo em que ele ocorre, situan-
do-o no continuum hist6rico, continuaremos
na defasagem em que nossa consciEncia se
mantem em face da realidade. Estaremos con-
denados ao destiny colonial que nos impIem.
Mesmo que no Ambito estrito da sua com-
petencia, a Sectam tamb6m nao preenchera o
vAcuo. Malmente a secretaria consegue dar
conta da emissio das licengas ambientais, do
acompanhamento e da fiscalizacgo das ativi-
dades produtivas. Nao lhe sombra tempo nem
espaco para a pesquisa, cujo abrigo exato 6 o
de um institute como o Idesp, se ele voltasse
a ter a prioridade que o moment hist6rico
do Para Ihe imp6e.
Todos os arguments apresentados pelo
governor para condenar o institute A morte
nao resisted A mais simpl6ria analise. Num
document que produziram para responder
ao secretArio Sdrgio Leao, os funcionarios
mostram que, redistribuidos os servidores
do Idesp por outras instAncias oficiais, a
economic (considerado o orgamento do ano
passado) baixa dos 5,7 milh6es de reais
anunciados para os R$ 790 mil do custeio
do 6rgao (despesas de luz, Agua, telefone,
etc.). Nenhuma economic desse porte au-
toriza a extincgo de um 6rgao como o Idesp.
Sua sigla ja basta para render ao Estado re-
cursos de convenios cor parceiros exter-
nos, cobrindo o peso do seu custeio. No
ultimo orgamento realizado, o Idesp com-
plementou em R$ 800 mil os R$ 2,5 mi-
Ihoes que lhe foram repassados.
Faltou dimensao de grandeza e combativi-
dade ao institute, Uim encolhimento que, sem
resguardA-lo de velhos apetites e rancores
que gerou na alta cipula estadual, o tornou
vitima indefesa dos inimigos da autonomia
do pensamento. Os t6cnicos do Idesp conse-
guiram a facanha de ficar cor 58% dos pro-
jetos aprovados pelo Fundo Estadual de Ci-
encia e Tecnologia, no fltimo edital de dis-
tribuig5o de recursos (10 de um total de 17
projetos), mas absorveu somente 12% da
verba, numa m6dia de R$ 35 mil por proje-
to. Comprimido ou esmagado, o institute
passou a pensar pequeno, a se contentar cor
migalhas, a encarcerar-se numa rotina estrei-
tamente burocrAtica.
Quem conheceu o Idesp em tempos melho-
res e o visit hoje ter um choque. O pr6dio
deixa A mostra marcas do abandon, antigos
equipamentos retirados nao foram substituidos,
muitas salas permanecem silenciosas ouvazi-
as. Um ar de desAnimo contamina o ambiente,
A exceg5o do paciente trabalho de restauraglo
do casarao onde funciona a direqao. Mas esse
quadro nao 6 o atestado da incompetencia dos
tdcnicos e da obsolescencia da instituig5o. E,
antes, a marca de um governor refratario a con-
trov6rsia, predisposto contra a critical, descon-
fiado daverdade e incapaz de pensar o servigo
public al6m do varejo, ou de um livro-caixa






JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 3


de haver e deve, de um manual de administra-
9io de quitanda. Nao 6 o Idesp que faliu nes-
sas fung6es, mas o governor que o estrangulou
ate a asfixia para poder arrematar a morte corn
o golpe de uma canetada.
O Idesp tem permanecido muito distan-
te do ideal e mesmo do possivel, mas ja-
mais chegou ao nivel de ociosidade e inefi-
ci8ncia do gabinete do govemador, que cus-
ta mais de um milhlo de reais por mrs aos
cofres pfiblicos (ver Jornal Pessoal n
202). Por qualquer crit6rio que se a exami-
nasse a s6rio, a extincgo do Idesp nio po-
deria ser adotada e. se o fosse, teria que
ser precedida de uma avaliaqco preliminary
cor a sociedade. A condenaqio do institu-
to nio resultou de qualquer avaliaqao tec-
nica. E um ato de imp6rio do governador,
ou de alguem suficientemente forte para
tomar sua caneta e baixar o ato, insusceti-
vel de apreciaqgo, como um ato voluntari-
oso o 6 quando exercido por quem se pauta
por aquele brocado de que quem pode man-
da e quem tem juizo obedece.
Tera o Para regredido tanto mentalmen-
te a ponto de testemunhar esse ato lesa-Es-
tado, um verdadeiro crime, sem reagir? Se
for assim, entao estarao condenados ao fra-
casso os esforcos dos funcionArios do Idesp
e de uns poucos aderentes solidarios de
evitar o fim ou encontrar um meio-termo
acomodador.
A alternative mais tentadora seria transfe-
rir o Idesp para a Universidade do Estado,
mas essa parece uma falsa solucgo. A Uni-
versidade haveria de querer usar seu pr6prio
quadro e dificilmente aceitaria a autonomia
do novo organism vinculado a sua estrutu-
ra. Haveria ainda um problema de repartiqgo
de verbas e tantos atravancamentos quanto
possiveis incompatibilidades.
Muito pelo contrArio do que induz esse
falso problema, o surgimento de tres secreta-
rias a partir do Idesp liberaria o institute das
tarefas executives, transferidas para as secre-
tarias, permitindo-lhe ser um centro de pes-
quisa por excelencia, praticando a interdisci-
plinaridade, formulando novas iddias, testan-
do outras, reciclando o corpo t6cnico do Es-
tado, fazendo a interlocupgo com o mundo
da ci8ncia e da cultural aplicada aos grandes
problems paraenses, al6m de manter sem fa-
Ihas as series estatisticas.
O Idesp, alias, surgiu exatamente para que
nao se perdesse de vez a produco estatisti-
ca realizada anteriormente at6 o surgimento
Condepa, o embriao do planejamento no
Estado, em 1961. Mesmo com todo o seu
empobrecimento, o institute nao falhou nes-
se trabalho ao long de 30 anos. Quando
nada, por esse relevant service, deveria ter
um tratamento mais condigno por parte do
governor. Ao invds disso, chega neste 30 de
janeiro aos 33 anos com o destiny imposto
ao Cristo, o mais famoso personagem corn
essa idade: ser martirizado. O


0 Brasil sobrevivente


Em julho do ano passado conversei longa-
mente, em Vit6ria, no Espirito Santo, com um
dileto amigo paulista envolvido na campanha
eleitoral de Fernando Henrique Cardoso. Ele
tentou me convencer que FHC seria um novo
president no segundo mandato, inclinado a es-
querda, sensivel ao social, desenvolvimentista,
livre do arreio conservador dos seus parceiros
palacianos do primeiro mandate.
Refletindo sobre essa conversa, confiante no
amigo, mas descrente de suas previs6es, escrevi
no JornalPessoal 192, da 1a quinzena de agos-
to: "(...) por que um intellectual tio ber infor-
mado [como FHC] e mais bern formado ainda
- sobre este pais compete erros t5o primarios e
desastrosos no exercicio da mais importantefun-
qgo ptiblica do pais?"
Faqo aqui, pela primeira vez, essa auto-cita-
qgo porque nio sinto-me animado, como ou-
tros estao fazendo, agora a exaustao, a apontar
os erros crassos praticados pelo president.
Erarn erros tao elementares que qualquer um
razoavelmente informado poderia prever. Se os
mais bem preparados nao o fizeram no devido
moment, trombetea-los agora soa como algo
de seriedade duvidosa e oportunismo eviden-
te. O leitor encontrarA minhas critics ao long
deste JP, desde a inauguraqco da era FHC, um
JK que nao deu certo.
No entanto, todas as pessoas sensatas e dota-
das de saudAvel civismo, nunca desnecessario,
esperavam, de um president que concebera com
sua equipe um piano de estabilizaqAo monetAria
de alto nivel como o do real, uma conduqAo A
altura da concepcio original. Gestada uma mo-
eda merecedora do nome e cumprida a funqgo
da anarraqAo cambial, cabia fortalecer interna-
mente o pais e faz8-lo competir no mundo para
dele desamarrar-se, sem negA-lo. NAo era mis-
sao simples, mas era exeqtiivel.
Femando Henrique tinha credenciais para
realizar essa tarefa. Era o melhor politico em tais
condiqges naquele moment, alguem capaz de
fazer uma reform, a partir de cima, para ser
completada por uma nova reform, a partir de
baixo, pelo successor de um bem sucedido e po-
pularpresidente social-democrata de centro-es-
querda, que fez a transiqAo de um Brasil dilace-
rado para umna nacAo com diretriz, ao long de
quatro anos de muita acgo e coragem.
Mas, como sempre destaquei nos meus arti-
gos nestejornal, inclusive no que citei, dois fato-
res ameaqavarn essa utopia: avaidade do ex-pro-
fessor e sua seduqAo pelo poder. Por causa do pri-
meiro element (que os te6ricos das estruturas
econonicas determinants costumam subestinar
ou mesmo ignorar), ele se deixou enfeitiqar pela
lustrosa comunidade financeira international, que
o incensou ao custo de algumas dezenas de bi-
lhies de d6lares de ilusao societAria.
Essa dinheirama, no minimo equivalent a 20
vezes o prego de privatizacAo da Companhia Vale


do Rio Doce (um dos crimes mais cristalinos de
FHC), foi sangrada inutilmente do povo brasi-
leiro, estupidamente. Sabia-se que era dinheiro
in6cuo para perpetuar una estabilidade artifici-
al e precAia de uma moeda que adquiriu parida-
de em rela~o ao d6lar apenas na cabeca dos
nossosjovens e geniais economists metropoli-
tanos (que, ao menor grito de fogo, correm para
suas redomas internacionais). O ilustrado Fer-
nando Henrique saiu-se urn pavoo ridicule num
mundo de raposas milenares, que Ilhe apunham
o capelo universitario enquanto escalpeavan ou
degolavam a nagao brasileira
Por causa do segundo element, um presi-
dente que se desnaturou para contar com o apoio
da anacr6nica elite political no Congresso apro-
fundou ainda mais essa alianqa infeliz para con-
quistar um segundo mandate espurio, violando
um comezinho principiojuridico de nao colocar
em vigor no mesmo exercicio (no caso, manda-
to) novo principio legal. Quando muito, a possi-
bilidade de reeleiqAo ficaria para o successor,
embora a inquestionavel tradigoo republican re-
comendasse acautelamento contra dois manda-
tos consecutivos aos detentores das chaves dos
cofres piblicos.
Dessa conjuminaqao de erros resultaram as
mastod6nticas dividas intera e externa, estou-
rando 600 bilh6es de d6lares/reais. O relicirio
de poder montado nos palacios do principle,
emparedado por espelhos de cristal, espatifou-
se, fazendo o pais desabar simultaneamente A
erosao da pr6pria vida pessoal do president. A
entusiasmada replica de JK 6, hoje, uma masca-
ra depressive, uma figure abfilica, um sedutor
que ja 1 insosso discurso alheio, redigido por
uma assessoria sembrilho.
O comandante sumiu, mas o aviao continue
a voar. A conta do percurso a partir de agora,
quando a nave atravessa as piores tempestades,
6 pesadissima. Nem sabemos se podemospagi-
la. Onde havia principle restou o sapo. Mas pelo
menos ja ningu6m pode ser embromado com
fibulas de encantamento. A imprensa, que se
recusou a ver, que manipulou o quanto p6de a
opiniao pTiblica, que agora tenta subir no bon-
de como se estivesse acordando de um pesade-
lo, como se nao tivesse contribuido para essa
irrealidade, essa imprensa tambem sera chama-
da ao ajuste de contas se o pais sobreviver A
tormenta que essa gente, aquela "boa gente"
canalha que condenou Dreyfuss na Franca, con-
tra a qual se lanqou Emile Zola, Ihe deixou como
o rescaldo de um novo Baile da Ilha Fiscal,
agora made in Brasilia.
Roto, desenganado, quase comatose, este
Brasil que tenta sair do buraco e mais Brasil do
que o mimdtico bosquejo dele tracado como
caricature invertida por sua pdssima elite. O di-
livio pode estar chegando, mas ele, pelo menos,
6 real, o real que vai sobreviver da pantomima
do Antonino FHC.






4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999




0 Ver-o-Peso imaginario


e a press de fazer


Convidada pelo journal O Liberal a apre-
sentar sua sugestao de passeio pela cidade, a
professor Clemilde Correa apresentou a se-
guinte oppgo: "O complex do Ver-o-Peso 6
o lugar ideal para se passear em Beldm. O
melhor e iniciar no conjunto dos MercedAri-
os, onde fica a antiga alfandega, depois des-
cer ate a feira do Ver-o-Peso, passando pelas
mulheres que vendem cheiros e ervas medi-
cinais. Para mim, o ponto de venda dessas
ervas e um lugar maravilhoso, cor aquela
mistura de perfumes. Bom tamb6m 6 entrar
no mercado de care e peixe, que 6 muito
bonito. Em seguida, ficar olhando o p6r-do-
sol, 1I da Praga do Rel6gio, e depois visitar a
igreja de Santo Alexandre. Para finalizar o
passeio, uma visit ate o nosso Forte do Cas-
telo, que e um lugar estrategico, para admi-
rar a paisagem"
Quem quisesse seguir o roteiro teria que
acordar cedo. Digamos que iniciasse a visit
entire seis e seis e meia da manha. Comegan-
do pelo antigo convento dos Mercedarios,
teria que se contentar em ver a bela constru-
qgo (novamente pichada) de fora. Nesse ho-
ririo, atW a igreja das Merces ainda estaria
fechada. Mas certamente o visitante pegaria
a feira e os mercados em um bom moment.
Percorrendo toda a area, para poder con-
templar o crepiisculo da Praga do Rel6gio o
turista teria que esperar horas. Quando o sol
se pusesse, ja nao poderia visitar a descarac-
terizada igreja de Santo Alexandre porque o
hor6rio de funcionamento estabelecido pela
Secult ter-se-ia esgotado. Restaria o Forte do
Presapio, resquicio descaracterizado da fun-
da;go da cidade, mas ali 6 melhor chegar
entire cinco e cinco e meia da tarde, enquanto
ha luz natural. Exatamente porque 6 mais
bonito al6m de seguro ver o sol se par
dali do que ao lado daquele monstrengo que
a Rede Globo instalou do outro lado da Pra-
ca do Rel6gio (tambem modificada).
O paraense nao hesita um segundo, quan-
do provocado. em citar o Ver-o-Peso como o
lugar que define Belem. Mas, como a profes-
sora, pode ver esse monument mais pela a
6tica da imaginaqgo do que cor os olhos da
realidade. O roteiro que ela montou s6 pode-
ria ser cumprido em dois dias, mas qualquer
iniciado logo Ihe objetaria que sua indicapgo
estai muito long de ser a melhor abordagem
do Ver-o-Peso. Porque existem muitos Ver-o-
Peso na verdade, funcionando em espagos dis-
tintos e em horarios alternados, cor persona-
gens que nem sempre sao os mesmos.
No imaginario padrao, por6m, os various
Ver-o-Peso sao criados mentalmente, resulta-
do de projecgo individual. Nao espanta que


uma socialite, algum tempo atras, haja respon-
dido a outro tipo de enquete declarando-se fre-
qiientadora do local, onde costumava tomar
suco de cupuassu com peixe frito. Uma com-
posicao mais cabocla para essa insl6ita esco-
Iha teria que substituir o tal suco pelo refres-
co, permitindo aos carocos sobrenadar na
Agua, entire bagos da encorpada farinha d'agua.
Muita gente que mora em Beldm nao che-
ga a compreender por inteiro o que 6 o Ver-o-
Peso. Inclusive tradicionais freqiientadores,
mas que s6 vao ali em horArio fixo, uma roti-
na que os impossibilita de captar a dimensao
mais ampla daquele centro commercial. Nao
importa: atd para quem nunca foi ou nao mais
retornou ao lugar, o Ver-o-Peso ter um signi-
ficado simb6lico muito forte, funcionando
como o sensor, a bandeira e at6 a biruta (nos
sentidos aeronautico e vulgar) da cidade.
O principal trabalho de conscientizaqao
consistiria em fazer os belenenses percebe-
rem que o Ver-o-Peso e uma peqa, a mais
important, mas uma dentre vrias outras que
constituem o conjunto urban mais antigo de
Bel6m. Nio basta recuperar os dois merca-
dos e organizer a area diretamente a eles vin-
culada para conseguir oficializar esse espa-
qo como patrim6nio da humanidade. FaltarA
o conjunto arquitet6nico, hist6rico e urbanis-
tico. Como ji fez antes, a Unesco (o 6rgao
competent da ONU para educaqAo e cultu-
ra) ira rejeitar de novo incorporar esse sitio
ao acervo universal.
O atual projeto de "revitalizacao" do Ver-
o-Peso que a prefeitura executa parece repe-
tir os erros do passado. Os tres trabalhos se-
lecionados no concurso national aberto pela
PMB tratam isoladamente da feira-mercado,
esquecendo a Castilhos Franga, a Joao Al-
fredo-Santo Ant6nio, a Marquis de Pombal
e a Cidade Velha. Os consultores da Unesco
ja deixaram suficientemente claro: sem
abranger todo esse conjunto, o Ver-o-Peso
nao sera monument da humanidade.
No meu ponto de vista, esse entendimen-
to estA correto. Apesar da galopante des-
caracterizaggo de todo esse perimetro, ain-
da 6 possivel reconstitui-lo, mesmo corn
suas chagas abertas. Mas essa perspective
requer um piano urbanistico global, a ver-
dadeira "revitalizagao" (palavra que nao
me seduz), nao apenas uma restauraqgo li-
mitada aos conjuntos que mais estritamen-
te constituem o Ver-o-Peso.
Surpreende que a prefeitura precise reali-
zar um concurso national para reorganizar
esse local e se disponha a investor um volu-
me consideravel de recursos (poderiam che-
gar a 20 milhles de reais), sem subordinar o


projeto vencedor a um plano geral do centro
hist6rico de Belem. As prateleiras dos arqui-
vos municipals ja contam com projetos exe-
cutivos para a fileira de predios da Marques
de Pombal, para a Joao Alfredo e atd para os
pontos de interesse da Cidade Velha. Por que
nao coloca-los em pratica?
Certamente faltarao recursos para realizar
de uma s6 vez e em curto espago de tempo
uma recuperagao complete da area, mas, ao
invds de ficar na lamentagco do impossivel
ou concentrando muito dinheiro em obras par-
ciais (alem de equivocadas), a administraqgo
piiblica poderia restabelecer a face original da
cidade em varios pontos do centro antigo.
Bastou uns poucos lojistas extrairem da fa-
chada de suas casas comerciais os monstruo-
sos paindis de aluminio e acrilico que escon-
dem a face original dos pr6dios para que um
ar de beleza soprasse na desolada paisagem
da Joao Alfredo-Santo Antonio. Um simples
e correto projeto, tinta adequada e vantagem
tributiria ou fiscal rapidamente modificariam
aqueles locals. Policiamento ostensivo dia e
noite, fiscalizacgo e limpeza completariam o
estimulo para, cor ligeiros toques de inter-
veng5o, sanear essa cornucopia de mau gosto
e feiiira que se instalou no centro. A Leao XIII
poderia ser fortalecida, o conjunto da capela
Pombo seria salvo.
E claro que ha uma lava incandescent cir-
culando em torno dessas iniciativas urbanis-
ticas: o esvaziamento econ8mico e sua deri-
vacqo social, o desemprego. Justamente por
isso, nao se pode pensar na recomposiiio
paisagistica do Ver-o-Peso sem considerar as
duas mil pessoas que trabalham diariamente
ao redor dos dois mercados, aldm da pressao
de outras milhares no entorno ou nas ramifi-
cag6es distantes, ainda assim dependents
daquele centro commercial.
O ideal seria restabelecer o desenho ori-
ginal, tao bonito, do inicio do sdculo, quan-
do foi montado o nficleo central de sustenta-
cao do Ver-o-Peso. Mas os ambulantes e fei-
rantes o tomaram de assalto, pressionados
pela necessidade de sobrevivencia, cor os
acrdscimos da especulacao. Nao se pode eva-
cua-los a toque de caixa, nem manu military
Eles tnm que ser reintroduzidos na atividade
produtiva normal, o que levara muito tempo
para acontecer, se voltar a acontecer.
Abstrair isso que constitui uma n6doa pai-
sagistica 6 ignorar que ela tern um contefido
human e social. Permanece como n6doa,
mas nao pode ser apagada cor traoes no pa-
pel. A conciliaqco que a administraiao Al-
mir Gabriel tentou fazer foi um fracasso one-
roso. Dois pr6dios estao abandonados,






JOURNAL PESSOAL I- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 5


logradouro perdeu o sentido e o espago vi-
rou algaravia. Dinheiro foijogado fora. Mais
serAjogado, provavelmente, na versao revista
e atualizada do PT.
O tempo dado pelo concurso aos seus par-
ticipantes foi exiguo demais. VArios dos que
apresentaram trabalhos (e pelo menos alguns
dos vitoriosos) nao puderam observer o Ver-
o-Peso em suas vArias facetas, em seus vi-
rios tempos. Quem percorre a area a partir
da mais remota madrugada v8 a azAfama da
compra e desembarque de peixe para deze-
nas de veiculos dos mais diversos tamanhos,
aldm do mercado do agai, que torna a praga
um campo de batalha. Um dos projetos ar-
quitet6nicos selecionados prop6e um espe-
Iho de agua para destacar a Praga do Rel6-
gio. E irreal.
De igual caracteristica 6 a limpeza feita
na prancheta da praga que a prefeitura man-
dou construir, ao prego de mais de R$ 120
mil, na vizinhanca da Estacgo das Docas, um
anti-clima ao delirio chavesiano de R$ 12
milh6es (era para ser de R$ 6,2 milh6es, e
ainda nem foi concluido). A prefeitura vai
destruir essa praca padrao Edmilson, talvez
ate antes de inaugura-la? Os arquitetos que a
excluiram do seu desenho vAo ter que rein-
troduzi-la? E como ficarao os crit6rios de
anAlise e selegeo? Ficarao desonrados, des-
respeitados, anuladosde fato?
Uma fonte da PMB (cuja identificacqo
nio dou para poupA-la de eventuais repre-
sflias), colocada diante do dilema, resolveu-
o argumentando que se os arquitetos vence-
dores convencerem a administraqao de que,
para a coer8ncia do projeto e o respeito de
suas proposig6es, sera indispensAvel descar-
tar-se da pracinha beira-rio, entio a prefei-
tura aceitara perder os R$ 120 mil investi-
dos. Mas se jA tinha a inten&lo de fazer o
concurso para "revitalizar" o Ver-o-Peso,
por que comeoou a obra? Por que n po espe-
rou pelo resultado do concurso?
Alias, os arquitetos de outros Estados ig-
noraram algumas das restric6es estabelecidas
no edital do concurso, enquanto os tdcnicos
locais parecem ter condicionado os seus pro-
jetos a essas limitag6es. Seria exatamente por
isso que os projetos vencedores foram elabo-
rados por dois cariocas e um paranaense, con-
tendo elements que se ajustam A visao que a
professor Clemilde tem do Ver-o-Peso, coi-
sa de turista aprendiz (ou apressado)?
Essa inc6moda sensaglo deveria motivar
a administraglo municipal a repensar a sua
empreitada para o Ver-o-Peso, quem sabe
ate anulando o primeiro concurso, para nao
comecar corn falhas graves o que pode ter-
minar errado, mais umavez. E, enquanto sin-
toniza o cronograma de um bom concurso
com o tempo just, p6e em execuqao as boas
propostas quejA tern em seu poder. Para nilo
reinventar a roda e encravi-la no coraqlo
do (outrora) verde-ver-o-peso dos nossos so-
nhos e pesadelos.


Sou amigo, hA varies anos, de um official
superior das forgas armadas, que chegou ao
segundo posto mais elevado da sua carreira.
Correspondemo-nos, nao corn a freqiiincia
que eu gostaria, mas o suficiente para manter-
mos os vinculos que nos uniram pela admira-
glo e o respeito, imensamente maior a partir
de mim, o personagem menos important da
relaqao. Ele foi um dos oficiais mais dignos,
inteligentes, dedicados e produtivos que en-
contrei nas forgas armadas brasileiras. Hoje
na reserve, continue aplicando o seu saber as
quest6es nacionais para contribuir em favor
do Brasil, embora a nagao nio lhe tenha ofe-
recido uma funtio compativel com seus me-
ritos. E um desperdicio inaceitavel que isso
aconteqa: pessoas afastadas do serving pfibli-
co no auge de sua sabedoria. Este nlo e um
pais sensato, para nio repetir que nio 6 sdrio.
Este amigo escreveu-me uma comoven-
te carta de final de ano. Decidi reproduzir
apenas um trecho dessa longa correspon-
dencia, sem consultar o seu autor. Por isso,
neo o identifico. Permito-me a descortesia
de tornar public uma avaliagio que ele faz
porque suas palavras sio valiosas e devem
ter repercussio maior do que a de uma lei-
tura individual. Tenho certeza que meu
eventual pecado de inconfidencia serA re-
mido pelo beneficio que reproduzir esse
trecho certamente tera sobre os leitores
deste journal. O official deixa claro que o
Brasil do Norte, alem de estar muito dis-
tante do Brasil do Sul, onde funciona o eixo
dominant do pais, e, para ele, uma mira-
gem, uma abstragio. O que a Amaz6nia nlo
conseguir fazer por si, ninguem mais o fara.


O governador Almir Gabriel fez Rosineli
Guerreiro Salame, a adjunta do atW entao se-
cretario Joio de Jesus Paes Loureiro, ascen-
der a chefia da estrat6gica Secretaria de Edu-
caaio. Niio convocou seu auxiliary do primei-
ro mandate para discutirem a mudanga, a nova
escolha e sua motivaqio. Chamou Jesus ape-
nas para comunicar-lhe a troca. Adoqou o fel
dizendo que tinha uma nova mission para ele:
transformar em realidade o que ficou-se sa-
bendo agora ser um velho do sonho de sua
excel6ncia, a criaqio de um Instituto de Belas
Artes ou seja la qual a designaqgo dessa
novel instituicgo, se algum dia vier a luz de
um part tumultuado, incerto e nio sabido.
Para a chefia da policia civil o governador
foi buscar um delegado, Joio Moraes, ate en-
tio punido por acusar a Altaa cipula" policial
de cornipqco. A acusag~o nlo foi comprova-
da. 0 delegado geral, Gilvandro Furtado, que
entao promoveu o inquerito, levou-o at6 o fim
com o endosso, ao menos tacito, do secretario
de seguranqa public, Paulo Sette Cimara, que


Diz o grande official brasileiro:
"VocE sabe melhor do que eu que os mei-
os de comunicapAo do Sul dedicam poucas
linhas aos magnos problems do Norte, to-
dos eles grandes problems brasileiros. Es-
poradicamente referem-se ao desmatamento
- consentido hA algum tempo da Amaz6-
nia. Alguns problems sobre os indios apa-
recem. No mais, s6 quando ocorrem fatos que
gerem comogoi national.
A censura hoje, sob certos aspects, 6 pior
do que aquela que existiu nos chamados go-
vernos militares. Pior porque oficialmente
nio existe. Osjornais, TVs e radios poderi-
am dizer aquilo que fosse do interesse naci-
onal, mas nio o dizem. Ao silenciarem dei-
xam de lutar pelo povo brasileiro. S6 falam
sobre o que 6 da vontade de seus donos, su-
bordinados A pecniia dos patrocinadores, que
sio governor, a mentirem, e multinacionais
As quais os governor prestam vassalagem.
Digo-lhe o seguinte: por aqui (Sul), mesmo
pessoas de bom nivel acad8micos e razoavel-
mente bem sucedidas na escala social, enge-
nheiros, m6dicos, advogados, economists, ig-
noram o tema por voc8 abordado em 'Amaz6-
nia- o s6culo perdido' Provavelmente alguns
militares interessados, que na AmazBnia servi-
ram, tenham iddia do problema, e outros, em
razio dos cursos impostos pela carreira. Po-
rem os militares estio alijados do process de-
cis6rio e da discusslo dos problems brasilei-
ros. As Organizaqoes Globo ignoram-nos, a nio
ser para propalarr noticias forjadas, cor o fim
de desmoralizar a classes. E o Sr. Roberto Mari-
nho foi comensal da Ditadura Vargas e dos
Governos dos Presidentes Generais" 0



poderia se considerar arrolado na "cipula"
Para o segundo mandate, o delegado geral foi
ejetado. O secretArio continuou.
O poderoso secretario dos transportes.
Amaro Klautau, o segundo mais important
na estrutura do primeiro mandate, foi, sem
abviso prdvio, obrigado a escolher entire o
nada e a nova secretaria de esportes. Ficou
com o quase nada, agradecido por lembra-
rem que sua biografia incluitratos com o as-
sim chamado balao de couro.
Ronaldo Barata, um companheiro de vi-
agem de Almir Gabriel. tamb6m foi cha-
mado na undecima hora para ficar saben-
do que, embora quisesse concluir seu tra-
balho no Iterpa, tinha uma nova mission
pessoal do governador para o bi-mandato:
comandar a aailo social do governor, esva-
ziada corn o deslocamento da primeira-
dama e em fase ag6nica. Barata so teve
tempo de transmitir o cargo.
Esse amigo nleo 6 criaqlo do mortal
Pericles?


Norte/Sul






6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999


A praga do prefeito


Um dos mais citados brocados do niilismo
belenense admite: 6 aqui que os artists se
acabam. Nao faltam exemplos para funda-
mentar a supersticqo. O mais recent envol-
ve a mitol6gica figure de John Fitzgerald
Kennedy. Pela primeira vez em todo o mun-
do, provavelmente, o ex-presidente dos Es-
tados Unidos foi "desomenageado" Seu
nome, que designava a antiga Praqa do Con-
gresso, na orla portuaria de Beldm, foi subs-
tituido pelo do maestro e compositor paraense
Waldemar Henrique.
No que seria um gesto ainda mais insensa-
to, os promotores da "desomenagem" chega-
ram a pensar (sic) em devolver ao consulado
americano o busto de Kennedy, que ornava a
praga. Um consul mais suscetivel poderia in-
terpretar o gesto como uma ofensa e transfor-
ma-lo num incident diplomatico bem desa-
gradavel. Nao Ihe restaria nem o console de
ficar corn uma obra de arte, que o busto de
Kennedy esta long de ser e o do querido
Waldemar mais distant ainda (acho-o mais
parecido corn o amigo Joao Fernandes, um dos
melhores papos da cidade).
Ja foi uma faganha o president americano
assassinado ter conseguido apagar, cor seu
nome, a memorial da cidade sobre o congres-
so eucaristico national, realizado 10 anos an-
tes, naquele mesmo lugar. A afeicao da uma
iddia do prestigio que Kennedy conseguira,
tanto por sua presid8ncia quanto pelas circuns-
tAncias tragicas (e dramaticas) da sua morte,
mesmo numa cidade tlo distant do horizonte
que ele conseguia descortinar de Washington.
Desfeitas as nuvens de endeusamento, a
image de estadista do president assassina-
do sofreu o desgaste das revises hist6ricas,
algumas tao apaixonadamente contra quanto
irrealisticamente a favor havia
sido a construcAo do seu mito.
Quem 1e ficou sabendo que ele
teve aventuras amorosas na Casa
Branca que seriam equiparaveis Ouw
as de Clinton se Kennedy hou- vel. U
vesse sido tao primario e rude
quanto o politico do Arkansas. quantc
Tamb6m foi informado de toda a co sem
sujeira que pavimentou o camni- agora
nho de JFK ate a presidencia.
Ainda assim, o significado de C
Kennedy para a sua epoca e a ranjos
posteridade ficou preservado ca mu
porque o saldo do seu legado
music;
positive, mesmo na avaliago
dos critics mais rigorosos. eram
Quando nada, por haver contri- gosto,
buido para afastar o risco de d
do, de
uma guerra nuclear entire as duas
superpotencias mundiais, os quebra
EUA e a URSS. Outros grupos nao tiv
que dividiam o poder america-


no teriam invadido Cuba, quaisquer que fos-
sem as consequincias.
Se o homenageado tem m6ritos e se a ho-
menagem recebeu o endosso da sociedade,
por que revogar um ato consumado? Caso a
troca de nomes tenha se inspirado numa re-
visao do conceito sobre Kennedy, antes vis-
to como um lider positive, agora como um
personagem negative, entao o erro tera sido
primario. O problema nesse tipo de revisita
6 ignorar a nogao de tempo. O personagem
passa a ser visto na perspective dos que o
avaliam, conform seus pr6prios criterios,
ignorando a epoca em que viveu a criatura
original. De tal ignorAncia resultou essa toli-
ce do catecismo politicamente correto. Sua
manifestaqAo infantil em Beldm, nesse caso,
seria a abolicqo do nome de Kennedy, a ser
proscrito da mem6ria dos belenenses, s6 por-
que o nosso huno assim o deseja (alias, para
fazerjustica a Atila, seria melhor considera-
lo um novo Barberini tropical).
E assim que, sob as mais bem intenciona-
das justificativas, comete-se violncias con-
tra a hist6ria. Como a que Josef Stalin prati-
cou ao banir o nome e a imagem de Leon
Trotsky da Uniao Sovi6tica. O criador do Exer-
cito Vennelho foi at6 apagado das fotografi-
as, atrav6s de m6todos grosseiros (ja que nao
havia o recurso modern dos scanners de conm-
putadores). Mas a hist6ria 6 como as ondas
do mar: vai, mas volta.
Admitindo-se, entretanto, nao ter havido
esse prop6sito de ajuste de contas entire uma
prefeitura de esquerda e um dos simbolos do
por ela chamado imperialismo ianque, resta
apenas um ato de infelicidade do governor mu-
nicipal, a revelar o dedo do gigante. Se os be-
lenenses convivem bem cor o logradouro, a



CaetaneaGao
i o ultimo disco de Caetano Veloso. Totalmente di
m daqueles moments de queda em que ele 6 tao
na recuperaqao: Gravagao de show transformada
ipre 6 perigosa. Mas Caetano podia ficar no corn
- espetaculo acistico, como o que fez no Golden R
abana PAlace. Deu num disco maravilhoso. Agor
sofisticados (mas artificiosos), 12 pessoas na band
sica cor a marca registrada de Caetano. As revi
is ja cantadas ou compostas fica a dever As anterior
nuito melhores. Ele caetaneia, 6 verdade (no que, p1
nao devia). No palco, com cenarios de Eichbauer
ve ser interessante. Mas para ouvir 6 mediocre. Qt
ir, guard esse CD apenas como document. Ou
'er outra coisa melhor para ouvir do pr6prio Caeta


despeito do seu prolongado mau trato, a pro-
vid6ncia elementary consistiria em aprimorar
o tratamento dado a praga, nao mudar a sua
designaqao. O problema 6 de uso, nao de titu-
laFlo.
Waldemar Henriqueja e nome de um tea-
tro, um sitio adequado para homenagea-lo (a
tal sala no Museu do Estado, a ser criada para
colocar em exposigAo permanent objetos e
pertences do maestro, foi adiada para future
incerto e nao sabido por um outro principle da
cidade). Mas se a municipalidade quer aduzir
nova homenagem a que o Estado ja prestou.
poderia encontrar um outro logradouro pAbli-
co, ou converter o nome de algum lugar que
nao "pegou" Nao 6 o caso da Praca Kennedy.
Assim como a Sao JerBnimo persiste como a
lembranqa mais constant do cidadao m6dio
sobre a avenida Governador Jos6 Malcher, 6
provavel que o mesmo se repita na relacAo
Kennedy-Waldemar Henrique, desmerecendo
a ambos.
Ainda que a desastrada troca seja aceita,
resta um outro problema: a praga inaugurada
pelo prefeito Edmilson Rodrigues 6 uma obra
de ma qualidade. Em sua vollpia populista, o
alcaide deixou tudo para a fltima hora. Nos
derradeiros dias o trinsito ficou um caos na
regiao para que o palco fosse armado, mesmo
tratando-se de um palco precario, como o des-
sa praca mal-acabada, mal concebida, mal
construida, um verdadeiro estrupicio.
Fica-se na duvida se a concha acfstica foi
rebatizada de cuia acfistica por sua tortuosi-
dade nao intencional, por suas evidentes limi-
taq6es construtivas, menos do que por um na-
tivismo compulsive. As teclas pintadas no ci-
mento da rampa em frente as arquibancadas
(aparentemente deslocadas do local certo) ja
desaparecem, agravando o non-
sense daquele espago. A pr6pria
concha acistica nao parece bem
posicionada ao lado da arbori-
spensa- zaqao. As luminarias nao resis-
pr6digo tirao muito tempo, assim como
a pavimentacqo lateral. Alias,
em dis- fendas, infiltrag6es e pequenos
o dizem desabamentos dao A nova praga
.oom do a idade de coisaja muito usada,
mesmo porque ela ainda estava
a ha ar-
sendo arrematada, ap6s a inau-
a e pou- guragao, e reparos ja comega-
is6es de vam a ser feitos.
Tudo isso para tender a An-
es, ue sia de votos do alcaide, permi-
ara meu tindo-lhe ainda trovejar em seu
ao fun- ininterrupto comicio que tudo
aquilo custou tao pouco? Se e
iem nao
para isso, entao sugiro tamb6m
quando que nosso prefeito passe a se
no. chamar Edmilson, o Breve. Em
nosso beneficio. 0






JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1999 7


A boa conversa



de beira de rio


Houve uma epoca em que saber das coisas
de Santardm, do passado e do present, exi-
gia um encontro com Joao Santos, uma esp6-
cie de historiador outsider (mas, justamente
por isso, capaz de ver os fatos por dentro da
versao official, destrinchando-a). A sacristia
da igreja-matriz de Nossa Senhora da Con-
ceigio, onde ele trabalhava, era o cenArio
convenient para conversas mais conjunturais,
sobretudo de political. Sua casa era adequada
a tertilias historiogrdficas, funcionando como
centro cultural mais vivo do que a vizinha
Casa da Cultura, nada mais, entao, do que um
pr6dio sem recheio.
Joio morreu, deixando registrada apenas
uma fragAo do seu conhecimento. Nem seu
valioso arquivo serviu de console, tao pes-
soal era a sua organizacgo e, em seguida, a
gestao do acervo por ele deixado. A recons-
tituigao da rica hist6ria de Santar6m, para a
qual poucos abnegados contribuiram ao lon-
go deste seculo, avangou pouco em relagao
ao potential do saudoso Joao, sempre peado
por suas dificuldades materials.
Mas agora o engenheiro agr6nomo Cris-
tovam Sena pode estar dando uma contribui-
qFo decisive para a mem6ria tapaj6nica. Ini-
cialmente como se fosse uma fragil semente,
agorajA como plant em crescimento, ele estA
usando o Instituto Cultural Boanerges Cou-
to. que criou corn o nome do pai, para sedi-
mentar material que costume flutuar nas aguas
do interesse circunstancial e se perder no es-
tuario da desatencgo generalizada da popu-
lacio pelo que foi, 6 e podera ser.
Em instalaq6es de fazer inveja at6 mes-
mo a muitas instituiq6es oficiais, os interes-
sados podem consultar livros, documents,
jornais e revistas, peas inconograficas e
uma nascente mapoteca, milhares de itens
juntados corn entusiasmo e estoicismo por
Cristovam, mais conhecido at6 essa aventu-
ra do conhecimento por sua maestria como
jogador de futebol.
Alem de construir um centro documental
de refer8ncia ate entao inexistente (a Casa da
Cultura ainda 6 um vasto campo de batalha
para os estudantes e os est6icos servidores que
os atendem), Cristovam comeeou a editar li-
vros. O primeiro foi Ramal dos Doidos, do
jomalista Manuel Dutra, uma reuniao de re-
portagens, varias delas importantes como re-
gistros sem equivalentes na producqo acad&-
mica. O segundo livro 6 O Tapajds que eu vi
(Mem6rias), 173 piginas, de Eimar Franco,
langado no final do ano passado.
Para atrair o interesse de leitores para essa
obra original (os contatos coin o institute po-


dem ser feitos pelo telefax 522-1490), trans-
crevo aqui o preficio que escrevi a pedido do
Cristovam. Com a leitura do livro ganharAo
nao s6 os santarenos, aos milhares aquartela-
dos em Belem (s6 se sentem realmente em casa
em Santar6m), como todos os paraenses.
O prefacio:
Diz a tradigdo que o padre Jodo Daniel
escreveu Tesouro Descoberto do Rio Ama-
zonas, no final do seculo 18, ao long de tres
anos de confinamento torturante nas mas-
morras do Marques de Pombal, em Portu-
gal. Como ele conseguiu, de mem6ria, sem
acesso afontes impressas, lembrar-se de tan-
tas minmcias e de tantas generalidades'da
vidana Anaz6nia, e algo tdo prodigioso que
se torna dificil crer nessa faanha.
Mas ndo e o mais important. 0 que en-
canta naquelas centenas de p6ginas, 6 es-
pera de uma edigdo a altura do seu valor,
So amor do missiondriojesuita pela cos-
mologia amaz6nica. Amor que ndo ofaz
perder a isengdo analitica, nem o distan-
ciamento critic. Ao contrdrio, s6 assim
ele e capaz de apreciar corn deleite cada
item da geografia, da fauna, do folclore,
da hist6ria da regido, a qual dedicou to-
das as suas energies, ate ser deportado
dela pelo despotismo esclarecido de Ponm-
bal (esclarecido mesmo?).
Eimar Franco escreveu 0 Tapaj6s que eu
vi corn um toque de paixao semelhante ao
que fez o padre Jodo Daniel gerar um dos
livros mnaisfascinantes da bibliografia ama-
z6nica. Homem da terra, criatura do meio,
mesmo ao dela se desgarrar momentanea-
mente (sem ser pela compulsdo traumdtica
de um tirano, embora Barata tenha deixado
sua marca sobre a familiar Franco), Eimar
navega pela mem6ria como se descaisse de
bubuia sobre o seu belo e amado Tapajds,
rio de todos n6s, matriz da nossa alma aqu-
dtica, fluvial. Diversamente de seu anteces-
sor de mais de dois seculos atrds, ele pode-
ria ter ido conferir em algunm papel impres-
so a exatiddo do que escreveu, maspreferiu
seguir mansamente no embalo da mem6ria.
Em sua idade, ela retorna limpida e cris-
talina as origens mais remotas, mas o nar-
rador ndo e um septuagendrio saudosista,
melanc6lico. Seu estilo e, ao mesmo tempo,
rfistico e vivaz, tern ofrescor dos estilos atem-
porais. Ndo estd entravado pelo ritmo mo-
dorrento da idade quepassou, deixando ape-
nas sombras epressdgios. Do prunmo do Uru-
curituba, Eimar produziu uma especie de
didrio da casa grande (ji sen senzala e com
muito compadrio) da vdrzea, uma realidade


que parece ndo ter sido percebida em sua
amplitude e inteireza.
Talvez porque os autores que a vislum-
bram estavam depassagem, ou tinham pres-
sa, vendo-a de long. Faltou-lhes as raizes
profundas do Eimar Do outro lado do rio,
os americanos da Companhia Ford olha-
ram para os caboclos sem a acuidade an-
tropol6gica dos ingleses. Por isso, houve a
revolta dosfarinheiros, chamando a aten-
9do dos nutricionistas de Detroit para a in-
dispensdvel ragdo de farinha de mandioca
dos natives (mas Tio Sam prefer ser um ven-
triloquo irredutivel).
0 inventdrio de coisas e pessoas que ele
faz tem o doce encanto de Hellen Morley em
Minha Vida de Menina, a montanha mineira
trocadapela cornucopia das 6guas amazdni-
cas espalhadas pelo estudrio sem porteiras.
Em ambos a serenidade do conhecimento vi-
vencialpermite construir uma arqueologia da
mem6ria sem qualquer artificialismo.
Certamente a 6tica que cada leitor especi-
alizado utilizarpara examiner este livro o le-
vard a fazer reparos, correaoes ou acrdsci-
mos. Acho que Eimar ndo pretendeu criar um
document cientifico. Seu texto e pretext para
o prazer dafruigao do conhecimento: mais
ate: para a consolidagdo da sabedoria base-
ada principanlente no contato corn a nature-
za, na experiencia, no empirismo.
Talvez ele devesse mesmo conferir auto-
nomia a cada um dos enfoques de sua nemo6-
ria, separando a lenda dos caboclos (sempre
tangenciando oupenetrando no universe dos
ancestrais indigenas) da reconstituiqdo his-
t6rica, as mem6rias zool6gicas das observa-
qoes geogrdficas, produzindo um novo Deca-
meron, menos especializado do que o do sd-
bio maranhense Nunes Pereira, capaz, entre-
tanto, de introduzir nas atas amazdnicas o
personages esquecido pela historiografia
dominant: o caboclo, o "pardo imprecisa-
mente definido para efeito estatistico.
0 que Eimar quis mesnmofoi oferecer um
mote para conversajogada ludicamente en-
tre vizinhos de rede, balangadas na e.spago-
sa varanda de qualquer das casas grades
que restaram se e que alguma restou -nas
ilhargas do grande e maltratado rio, que vi-
bra aquelaparte insonddvel do nosso ser que
chamamos de alma.
A do Eimar Franco e grande e licida. Me-
Ihor para todos n6s, por ela convocados para
a tarefa de reconciliar a civilizagdo nessa ulti-
ma grande fronteira planetiria corn o homemn
e a paisagem que emerged vivos e belos nessa
conversa mansa de beira de rio sem fimn.








A propaganda

municipal
E salutar a empreitada da pre-
feitura de procurar cultivar a
auto-estima da cidade. Esse es-
tado de espirito favorece a mo-
bilizagao da coletividade para
um projeto dificil, a recuperagao
fisica, funcional, espacial e eco-
n8mica de Belem. Mas a cam-
panha promocional ter um li-
mite: o da realidade. O moto
continue da criagao acabara por
fazer a administragao municipal
acreditar no paroxismo da ima-
ginagao, gerando aquilo que, em
psiquiatria, costuma-se diagnos-
ticar por esquizofrenia.
Em primeiro lugar, Belem
nao e pelo menos ainda nao 6
- a Capital das Luzes, como se
fora uma Paris tropical sedian-
do um iluminismo redivivo. Be-
lem 6 uma CalcutA amaz6nica
que tenta escapar desse estig-
ma. Como abriga a elite inte-
lectual da regiao, parece acre-
ditar que a formula9~o de um
piano de trabalho pode servir
de ponte para atravessar o fos-
so de pobreza e miseria que a
sufoca, estabelecendo uma ca-
bega-de-ponte que sirva de
abrigo para um combat urba-
nistico de vanguard. Mas to-
mar a proposicqo como realida-
de, ao inves de servir a uma uto-
pia, podera desencadear um po-
pulismo demag6gico, anestesi-
ando consciencias at6 que elas
cheguem ao Nirvana (ou desa-
bem de vez no fosso quando a
ponte intellectual romper-se).
Uma segunda limitagao a
esse projeto 6 o seu peso mer-
cantil. Essa sensagao de entu-
siasmo esta sendo conseguida
a peso de ouro, atraves de cam-
panha publicitAria paga. Al-
guns moments dessa campa-
nha sao ate de alto nivel, mas
constituem excecgo. A midia
aderiu ao projeto municipal
fascinada pelas 30 m.oedas.
Mas se elas faltarem? Tinha
que ser as 30 moedas?
O risco de a prefeitura estar
construindo um castelo no ar 6
muito grande. Principalmente se
a campanha, elevada As alturas
no period de comemorag5o dos
383 anos da cidade, criar aque-
le circulo vicioso que os depen-
dentes de droga bem conhecem.
Cor a aproximagao da eleicAo
do pr6ximo ano, a espiral deve-


Didrio Oficial do dia 27 trouxe um ato no minimo
ins6lito na hist6ria da administragao piblica estadu-
al. Em portaria que assinou no dia 18, o novo dele-
gado geral de policia, Joao Nazareno Nascimento Moraes,
excluiu o mesmo Joao Nazareno Nascimento Moraes do Am-
bito de uma portaria anterior, que o punira com suspensao de
30 dias, a mais drAstica inigao antes da expulsao do servi-
dor. Joao Moraes teve direito ainda a ressarcimento pecunid-
rio pelo dano sofrido.
I certo que o delegado geral abonou o beneficio em causa
pr6pria com base em decisAo do governador do Estado, data-
da de 31 de dezembro. Louvando-se em diversos pareceres, o
governador Almir Gabriel deu provimento a um recurso hie-
rarquico que o entao delegado de policia apresentara contra
ato de seu superior imediato, o delegado geral (ja afastado)
Gilvandro Furtado.
Gilvandro havia mandado instaurar inqu6rito policial para
apurar denuncia feita por Joao Moraes., juntamente com o
delegado Armando Mourao (igualmente promovido no novo
mandate governmentall. Os dois anunciaram que os trafi-
cantes de drogas e contrabandistas de Abaetetuba haviam dado
dinheiro A "c6pula da policia" para transferir o delegado Athos
Threptow da seccional da Sacramenta para a delegacia de
entorpecentes. Antes de exercer esta iltima fungao, Athos
havia sido delegado de policia em Abaetetuba.
A den6ncia se desdobrava em duas: Athos tinha ligacao
cor o cartel e a "c6pula da policia" havia sido corrompida.
Sentindo-se atingido, Gilvandro determinou a instaurag~o do
inquerito. Suas conclusSes: nem havia qualquer nexo de Athos
cor os criminosos de Abaetetuba, nem sequer fora cogitado
o seu remanejamento. A sindicancia que se seguiu resultou na
suspensao de Moraes e MourAo por 30 dias. O primeiro re-
correu, mas seus pedidos foram rejeitados pelo delegado ge-
ral. Ele apelou, entao, para o governador.
Almir Gabriel nao apenas isentou o delegado de culpa: no-
meou-o substitute de Gilvandro, mandado para cuidar do rou-
bo de veiculos. Assim, o ex-apenado p6de sacramentar sua pr6-
pria reabilitagao, uma situaqlo inusitada em qualquer hist6ria
administrative. Poderia ter deixado que um substitute ocasio-
nal assinasse a portaria, mas decidiu conferir-se o privildgio,
talvez para nao deixar divida sobre quem 6 o novo chefe.
Tao cioso do que julga Ihe caber que sua primeira iniciati-
va de repercussao foi passar por sobre os regulamentos legais
e determinar o fechamento de bares e boates A meia-noite,
uma velha e nunca eficiente formula que poderosos circuns-
tanciais costumam adotar em periods autoritArios a pretexto
de defender a seguranqa. Mas como, no loteamento do gover-
no a partir das secretaries de segunda classes, o goverador
entregou a justiga e a policia civil ao PPB, pode-se esperar
que isso 6 apenas o comeco da ida ao passado.



Jornal Pessoal

Editor: Lticio FlAvio Pinto
Sede: Rua Aristides Lobo, 871/66 053-040
Fones: 223-1929, 241-7626 e 241-7924 (fax).
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EdirAo de Arte: Luiz Antonio de Faria Pinto/241-1859


rd seguir uma tendencia ascen-
dente exponencial, abalando os
ja andmicos cofres municipals.
O prefeito Edmilson Rodrigues
pode acabar repetindo seu ante-
cessor, Helio Gueiros, e various
outros que, no comando do Es-
tado ou de sua capital, gastavam
mais dinheiro com a promocao
da inauguragao do que com a
construgao da obra. Nao foi para
isso que o povo, ajudado pelos
fados, escolheu o PT.


Dois pesos
Segundo o Diario Oficial da
UniAo do dia 22, a Fiat e a Vo-
Ikswagen cederam 16 autom6-
veis A Presidencia da Rep6blica.
Foram 11 Marea e cinco Santa-
na 2.000, os mais luxuosos mo-
delos das duas empresas. A ces-
sao foi realizada em regime de
comodato. Ou seja: a cessao e
gratuita, ou ao menos assim 6
declarada.
Durante algum tempo Celso
Pitta circulou em Sao Paulo com
um carro "emprestado" por um
empresArio. Quase foi crucifica-
do, nao sem razao. Um outro car-
ro em condicqes similares foi
poderoso argument contra Fer-
nando Collor de Mello.
E que ninguem mais acredita
em contos da carochinha, nem
que uma empresa d8 algo sem
querer retribuigao. Por que, en-
tao, a imprensa continue a man-
ter o reino da fantasia em torno
de uns, enquanto desfaz essa bo-
lha em relacao a outros?
Quem responder a esta iltima
perguntaterarespondido s demais.


Pela vida
Acabar com as assinaturas sig-
nificaria abreviar ainda mais a
vida deste journal, transformando
sua morte numa questao de cur-
to prazo. Por isso, estamos ten-
tando restabelecer as assinaturas,
mesmo sujeitas As incertezas de
uma existencia frAgil. Aqueles
que desejarem renovar suas as-
sinaturas, devidamente alertados
para o risco da empreitada, de-
vem entrar em contato com Juli-
ana e Angelim Pinto pelos tele-
fones 241-7626 e 223-1929. Es-
pero que nos pr6ximos dias o
joraljA possa funcionar na Pas-
sagem Bolonha 60, recebendo
correspondencias, amigos e cli-
entes. Em nlmero crescente, se
possivel.