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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00152

Full Text
(rNlV Y


Jorna Pessoat
C 1 F L A o P I TO0
ANO XII NP 203 21 QUINZENA DE JANEIRO DE 1999 R$ 2,00

POLITICAL



A cruise




de




verdade "

Num dia o senador Luiz Otdvio
Campos ameaga romper cor o governor
do qual e aliado por ndo aceitar que
SimdoJatene seja o segundo homem
maispoderoso. Num outro dia indica
Jatene para a principal das sete
secretaries especiais criadas do
segundo mandate, que ocupara no
lugar de mesmoJatene. Foi uma crise
para valer ou uma pantomima? C,


So dia 29 de dezembro o governador
Almir Gabriel parou em duas das
mesas de jomalistas que cor ele
faziam a confratemizagao de fim-
de-ano na residencia official, na
Granja do Icui. Deixou duas informag9es preci-
osas, nao repassadas A opiniao p6blica: nao ia
aceitar interferencias na formagao da linha de
frente do governor, "mesmo de quem tenha cen-
tenas de milhares de votos"; e que a principal
das novas secretaries especiais, a da produg9o,
ficaria com seu brago-direito, Simao Jatene.
O goverador estava mandando recado para
outro dos convivas, o senador Luiz OtAvio
Campos. O "senador do governador", desde
que se antecipara ao seu padrinho (ou patro-
no?), anunciando que haveria uma taxa de re-
novago de 70 a 80% na composigao da equi-
pe govemamental para o segundo mandate,
vinha desagradando Almir Gabriel. O gover-
nador nao tolera partilhar aquela parcela do
poder que consider pessoal. Mas continuava
a receber as ressonAncias das iniciativas do


senador aliado, que "vaza-
va" parajornalistas nomes
do primeiro escalao, al-
gunsjA convidados ou son-
dados, outros nada al6m do
que bales de ensaio.
O recado se materializou
no dia seguinte, quando, ex-
tra-oficialmente, foram re-
velados os nomes dos sete
secretArios especiais. Jate-
ne estava na produgfo e seu
lugar-tenente, S6rgio Leao,
na gestao, dois postos-cha-
ve. O ex-chefe do Minist6rio Piblico, Manoel
Santino, fora colocado na ante-sala do gover-
nador, que preencheu os outros postos corn no-
mes do seu circulo mais intimo. Nada de politi-
cos. Nenhumna tintura de Luiz OtAvio.
Enfurecido, o senador abandonou as su-
tilezas e as vias obliquas. Convocou O Li-
beral para uma entrevista bombastica, pra-
ticamente anunciando o rompimento com


Almir, e disparou misseis verbais no rumo
do Icui. Acabou sendo chamado para uma
conversa dificil e longa cor o governador
(ver Jornal Pessoal n" 202), que terminou
sem um final feliz. O empresArio Fernando
Flexa Ribeiro, president regional do PSDB,
que tentou apaziguar, foi repelido por Luiz
OtAvio com um palavrdo e um bater de apa-
relho telef6nico.


\ L 1LK L-/-(uLL L U LPLLK (I U )






2 JOURNAL PESSOAL 2` QUINZENA DE JANEIRO / 1999


O quase-secretario Jatene teve sucesso,
nao para uma conversa imediata, como pre-
tendia. O encontro ficou para a manha do
dia seguinte, moments antes do anincio do
hepta-secretariado especial, corn sua forma-
Cio "vazada" na vespera. Num impulso pro-
vocativo, Jatene colocou o cargo a disposi-
Cio de Luiz Ot6vio, que o agarrou na unha.
O govemador teve entdo que mudar seus pia-
nos e anunciar o senador como super-secre-
tario. enquanto Jatene virava um todo po-
deroso ad-hoc.
No dia 5, provbcado pelos rep6rteres
que fazem a cobertura do governor a adian-
tar o perfil do home que o substituiria
quando (e se) assumisse o senado, Luiz
Otavio surpreendeu a todos: "' uma pes-
soa suprapartidaria. Tem competencia, a
confianca pessoal do governador e sensi-
bilidade political. Ja coordenou pelo menos
uma campanha political. Aldm de ter a mi-
nha confianqa, 6 claro" Quem 6 o indigi-
tado? Sinmio Jatene, companheiro de en-
trevista do senador, ex-desafeto.
Estupefactos, os rep6rteres tentaram re-
cuperar a sanidade e o fio da meada, pressi-
onando o ex-quase-futuro-super-secretario
a dar uma explicaqco mais racional para o
enredo do sai-e-entra, do diz-e-ouve que
atordoou os bastidores do governor, corn a
minima repercussao na imprensa, durante
quase uma semana.
Jatene, corn seu silogismo inconcluso
(sempre fica faltando o terceiro elemento,
apresentou seu argument. Nao houve cri-
se. O que houve foi divergencia internal.
Dessa diverg6ncia nio resultou dano algum
porque nenhum dos envolvidos na contro-
versia defended projeto pessoal. Todos que-
rem o melhor para o Para. Sabem que es-
tio promovendo uma revoluqco no Esta-
do. Todos tamb6m sao pessoas civilizadas:
nao foi dita qualquer palavra mais rude nos
diilogos que travaram. E naquele exato
moment, num prazo bem mais curto do
que se poderia imaginar, a dissidencia es-
tava resolvida e o governor retomava o seu
caminho normal.
A explicacqo teria alguma coisa aver corn
a realidade se pelo menos um dos rep6rte-
res que ouviam embasbacados a ladainha do
secretirio tambem nao tivesse recebido as
duas infornma6es deixadas de bandeja pelo
governador na confraternizaq5o (mas nao
publicadas). Ou seja: Jatene seria sagrado
super-secretario, junto com os outros seis
especiais, se Luiz Otavio nao tivesse virado
a mesa. E por que o senador do PPB entor-
nou o caldo? Porque Jatene, al6m de super-
secretario, colocou mais um home de sua
confianqa entire os sete cortesaos, enquanto
Almir fechou o circulo com sua mIo-de-fer-
ro, deixando de fora a representaq~o que o
senador aliado ali quis estabelecer, no cora-
qao do poder, para dele nao ser afastado.
Toda a manobra desencadeada por Luiz
Otavio desde sua eleiqgo visava caracterizar
o ex-secretario de planejamento como um
tecnico. Sendo um tecnico, nao podia repre-
sentar a classes political, sem a qual Almirja-
mais teria conquistado seu tao almejado se-
gundo mandate. Nao sendo o porta-voz da
coligaqio eleitoral, Jatene, mesmo corn todo
o poder que o governador lhe transfer, nao
poderia ser trabalhado como candidate a su-


cessor do chefe. Nem avalista de um novo
acordo politico. Teria que se contentar corn
seu imenso papel de eminnricia parda.
O fiador desse novo pacto seria o sena-
dor, diretamente, se convenient, ou, indi-
retamente, atravds de um representante acei-
to no mais alto colegiado, que o governa-
dor, solitariamente, formou. Mesmo em Bra-
silia, ele manteria sua fatia de poder local,
garantindo um lugar para si ou para quemn
venha a indicar para os cargos politicos que
serao colocados em dispute em 2000 e 2002.
O "senador do governador", portanto, tern
seu pr6prio projeto politico, coincidente ou
nao corn o do governador, dependendo dos
movimentos da gangorra do poder. Luiz
Otivio comeqou a construir sua autonomia,
um element necessario para sua estratdgia
de abrir caminhos a partir de Brasilia, in-
clusive, se necessario, atrav6s do senator
Jader Barbalho.
Almir detectou essa movimentagao inde-
sejavel, reprimindo-a no nascedouro. De-
pois da conversa conflituosa do dia 30, ele
voltou a ter mais dois exauslivos encontros
corn seu senador atd poder fechar sua equi-
pe. O que ele fez para que, sob o risco da
desmoralizagao (s6 nao complete por causa
do silencio ciumplice da imprensa), Luiz
Ot~vio engolisse tudo o que havia dito e
aceitar a volta ao status quo ante'?
Alguns fatores. Em primeiro, a reduqgo
do topete de um politico que conquistou uma
important posiqgo contra todas as expec-
tativas, derrotando e humilhando um ex-
campeao de votos, seu ex-chefe Hdlio Guei-
ros. Luiz Otavio ji parecia convencido de
que sua empatia pessoal fora a razio nume-
ro um da vit6ria, mas deve ter-se resignado
a admitir que nio se elegeu "senador do
governador" por acaso. Sem a miquina ofi-
cial ele jamais chegaria a tanto. Afastar-se
ostensivamente dela agora, alem disso, pode
resultar na abreviacbo da sua carreira poll-
tica, mesmo coin o guarda-chuva de oito
anos de mandate que recebeu.
Em segundo lugar, por compensaFoes
pela renincia ao direito que reivindicava de
partilhar corn o governador a caneta de no-
meaaqes para o primeiro escalio. Aparen-
temente, a fnica indicacdo do senador foi a
de Ramiro Bentes para a presidencia da
Cosanpa, cargo esvaziado pela criaq~o das
secretaries de urbanismo e de infra-estrutu-
ra (e, principalmente, com o deslocamento
da jurisdig~o sobre as obras de macrodre-
nagem). Ramiro, embora do PDT, tern sido
o coordenador firanceiro das campanhas de
Luiz Otavio.
Esse seria um preqo muito baixo para tan-
to grito. Corn o tempo, podem aparecer ou-
tras concess6es feitas a ele, diretamente na
esfera piblica como em seus satelites. Se
nao surgir, sera a confirmagr o de que, tam-
b6m no grito, o governador conseguiu mi-
nimizar o preqo da quase rebeldia do seu
senador, reduzindo-o a uma posigio subal-
terna e mostrando, mesmo para os que nio
querem ver, quemn manda no governor, comno
disse a seus convidadosjornalistas (embora
o poder de mnando custe a descaracteriza-
cao programatica).
Almir acabou criando, para o seu segun-
do mandate consecutive, um aparato biso-
nho, nada condizente cor sua promessa de


realizar profundas transformaa6es no Esta-
do. Estabelecida sua cidadela no primeiro
escaldo, combinou elements antagBnicos
na inspiragao para o segundo e o terceiro
circulo do poder, numa colcha de retalhos
que parece condenada a ter vida curta, jun-
tando elements desiguais e tentando con-
ciliar sua base eleitoral com o tilintar da
seducgo.
Havera seqiielas desse imbroglio (ou ope-
ra-bufa)? Mais uma vez o tempo 6 que res-
ponderb, conforme se formarem ou sumni-
rem as nuvens que costumam mudar bmsca
e radicalmente o ceu da political. Ha ainda
varias alternatives emjogo. Almir Gabriel
pode decidir permanecer no governor ate o
fim do novo mandate, garantindo o seu su-
cessor, embora expondo-se as incertezas de
ficar ao desamparo.
Nio parece ser a hip6tese mais prova-
vel, mas, se ela se concretizar, dificilmen-
te seu candidate sera aquele que jA foi o
"seu" senador. Corn a chave do cofre nas
pr6prias mios, ele podera escolher entire
Jatene (apesar do perfil desfavoravel, qua-
se inverossimil para a political Hildegar-
do Nunes e, como um "azario", o secreti-
rio de governor, Manoel Santino, corn mais
lastro no interior graqas A estrutura do Mi-
nisterio Ptiblico.
Se desincompatibilizar-se para concorrer
a um mandate de senador, e possivel que
Almir arraste consigo o vice, Hildegardo
Nunes, maltratado corn luva de pelica nas
tratativas para a constituiqio da equipe. mas
corn est6mago de camelo para absorver lo-
tes de batraquios. No governor ficaria o fu-
turo president da Assembleia Legislativa.
lugar reservado para Martinho Carmona. O
primeiro indicio nessa diregio poderia ser a
indicai5o do irmao do vice, Ricardo Nunes,
para a vaga que permanece aberta no Tribu-
nal de Contas dos Municipios (do qual 6 fun-
cionbrio nato, por assim dizer). O segundo
indicador seria um decidido apoio para que
o pai de ambos, o ex-governador Alacid
Nunes, finalmente alcance uma vit6ria elei-
toral, nos confins de Salinas (o que naio sera
nada facil, muito pelo contrario).
Cada um pode imaginar suas hip6teses e
jogar corn elas ad infinitum (ou ad nause-
am), sem qualquer empecilho. Ao contririo
do que recitou o secretario Jatene, o que nio
hi nessa queda de brago e projeto coletivo,
mas apenas interesse pessoal, variando e se
acomodando conforme e atendido (o que
nao envolve nada almn de assinar papeis c
mandar ordens para o erdrio).
Nao seria injusto dizer que um home
como Almir Gabriel e irmio-de-langa de
Luiz Otavio Campos, tamb6m conhecido
como "Pepeca", com iddias algo equivalen-
tes? Ou nio estaria mais pr6ximo da verda-
de quem dissesse que a fnica coisa que os
aproxima 6 a seducno fanatica pelo poder?
Foi poder pessoal o que esteve em jogo
nessa crise, que supostamente nio houve, en-
tre o apagar e o acender (de fato?) da nova
(nova?) luz do poder. Para bem descrevi-la,
s6 alguem corn o talent de Lewis Carrol. Se
cle inventou o "desaniversario" cerlamente
nao teria dificuldades em retratar a "descrise"
de um "desgoverno" que desceu um degrau i
mais na escala da seriedade, arrastando consi-
go para esse subsolo toda a sociedade. 0






JOURNAL PESSOAL 24 QUINZENA DE JANEIRO /1999 5


Em sen filtimo nimnero, a revista I eja deu
oito paiginas e a capa ao empresario Cecilio
Rego de Almeida, prometendo contar como
o dono da Construtora C. R. Alneida prati-
cou um Assalto a Amaz6ni; transforman-
do-se no "maior latifundiArio do pais ocu-
pando terra alheia no Pard" Mas a materia.
fartamente ilustrada, niio cumpriu o que pro-
meteu. Editorializada, parece ser nais um
capitulo da ja longa refrega cor o emprei-
teiro. paraense de origem, mas estabelecido
ha mais de quatro decadas no Parana. Nio
esclarece a opinioo p6blica national como e
tl;o ficil e rentlvel grilar terras na fronteira
amaz6nica.
O reporter Policarpo Jinior se esforgou,
durante um mis, para tentar "entender como
um empresario pode ser capaz de se apossar
de iuma area maior que a de muitos paises da
Europa nas barbas de um poder pilblico iner-
te" segundo a "carta ao leitor" do editor da
revisma paulista. Nao parece haver consegui-
do. Nem mesmo perceber que esta nio e
6poca de poucas chuvas, muito pelo contra-
rio.
Os temas amazonicos que escapam ao
ex6tico tornam-se aridos, desinteressantes e
primitivos para a grande imprensa national.
Componentes de um residue de capitalism
ou de um capitalism ainda embrionario (pri-
mitivo?) ao qual nao compensa dedicar mais
tempo e fosfato. Nao fosse assim, a revista
teria entendido como nio 6 muito diferente,
em sua mecanica, grilar mil ou um milhao
de hectares numa regiao fundiariamente fri-
gil como a nossa. Indefesa tanto pela incon-
sistencia de suas instituiaqes, como pelo des-
compasso da sua economic relativamente as
mais adiantadas, no pais e no exterior. A di-
ferenga de valor entire um hectare na Ama-
z6nia e o equivalent em Sao Paulo ajuda a
entender.
Os supostos documents utilizados por
Cecilio Rego de Almeida para reivindicar
para si propriedade corn 7 milhies de hecta-
res em um s6 Estado, o Para (que tem 120
milh6es de hectares), sao declarados no re-
gistro cartorial como "titulos hibeis" que
teriam sido expedidos pela Diretoria de
Obras, Terras e Viaq~o do Estado, sendo re-
gistrados em Altamira a partir de 1923. Es-
ses titulos nunca foram exibidos publicamen-
te. jamais foram identificados. Nao ha refe-
rencia ao ano em que teriam sido expedi-
dos. Evidente a grosseira fraude, advogados
da C. R. Almeida procuraram "esquentar"
os pap6is. encaixando-os em talonfrios exis-
lentes nos arquivos do Iterpa ou vinculan-
do-os a antigas cartas de data de sesmaria.
Mas a manobra nao deu certo. Ainda.
O cancelamento dos registros imobiliiri-
os 6 unna quest;o de tcmpo. Infelizmente,
por6im. de muito tempo. muito mais do que
a gravidadc da questao requer. Essa lenti-
dio se deve ai morosidade dajustica (e tam-


bem A sua insensibilidade) e a leniancia do
governor. O problema fundiario continue a
ser figure de ret6rica para a administra~iao
Almir Gabriel. que se afastou do seu com-
promisso desde o epis6dio de Eldorado de
Caraj;is. Quanto a gestilo FHC, depois que
formal e abstratamente devolveu o dominio
das terras federais ao Estado. em 1996, corn
fanfarra e fantasia, lavou as miros. Nio quer
saber de se envolver com esse rabo de fo-
guete, mesmo que o foguete esteja provo-
cando um rombo medonho no patrim6nio
p6blico. pillando o erArio e multiplicando
ilicitamente fortunas pessoais.
Enquanto o caso permanece sub-judice,
a C. R. Almeida, que no maiximo poderia
requerer a legitimagio da area efetivamente
ocupada pela empresa, como qualquer pos-
seiro, vai montando um vasto dominion terri-
torial no vale do Xingu. Para isso, utiliza
todos os tipos de manobra. Desde a triste-
mente traditional nesse tipo de empreitada,
que e a violencia, ate as mais sutis e inteli-
gentes, como seduzir os indios Xipaias e fa-
zer relaq6es pfiblicas junto a personagens
influentes.
Atraves desse estratagema, a empresa ja
exerce um real poder de policia na area, alem
de violar a exigencia legal de se abster de
fazer transformaq6es no im6vel litigioso. Ela
desencadeou (ensoes e ativou conflitos que
se transformarlo em sdrios problems de
seguranca pfblica se o governor continuar
assistindo impavidamente ao desenrolar des-
sa novela de mau gosto, como se o enredo
nio fosse constituido pela apropriaq~o ilici-
ta de patrim6nio plblico.


0 assalto as terras


do Para, que Veja


deixou de explicar


Estilo
Uma nota do Reporter 70, de O Liberal, do dia 22 de dezembro, revela o
estilo da empresa de se manifestar sobre assuntos polemicos quando ja nao hi
aneira de evitar que ele se infiltre nas pAginas, imagens e ondas hertzeanas do
grupo de comunicai5o. Diz a nota, a prop6sito da punicao da capital da Policia
Mflitar Vanessa Vasconcelos:
"A capital Vanessa est6 de volta a propaganda bem comportada, o que um leitor
diz ser o que preferia: torcia para va-la nas telinhas e nao em uniform de PM. So
torcia. porem, por entender que a capiti mesmo sendojornalista diplomada e re-
gistrada no Sindicato, nao exercia funqao jornalistica. Era apresentadora de tele-
jornal ou de propaganda eleitoral. Portanto, radialista sem a protecao, dada ao
jornalismo, de ser compativel corn qualquer outra funqgo, mesmo political.
O problema e que, na pratica, alguns sio menos compativeis, como a capital, do
que outros, como os seguranqas"
Quem se atrcve a seguir por esse labirinto de palavras? Ha esperanca de che-
gar a alguma definii-o sobre o problema? Ou, como no inferno de Dante, e pre-
ciso deixar la fora a esperanqa? O leitor referido foi claro: quer a capital de volta
A televisilo como simples apresentador; sem as complicaqoes e interferencias
dojornalismo. Ji o journal. gostaria de censurar Vanessa, mas nio quer chegar;
lanto. Por isso, deu mais uma de madame Natasha. a personagem criada por Elio
GAspari. que pensa tao mal quanto escreve.


Do ponto de vista fundiario, o principal
event do primeiro quatrianio do governor
Almir Gabriel foi ter-se mantido indiferente
a ocupacio fraudulent, desordenada e pre-
dat6ria do-6ltimo grande vale da margem
esquerda do Amazonas em territorio para-
ense. Especuladores de terra, grileiros, ex-
tratores de madeira e outros personagens
estlo se apoderando dessa regido, enquanto
o suposto proprietario, fiscal e gerente, o
Estado, mantern-se congelado.
Cecilio Rego de Almeida e apenas o mais
audacioso, esperto e articulado desses pira-
tas fundiirios. Dele pode-se dizer que tanto
pode ter planejado pilhar a principal reserve
florestal do Xingu, como usa-la enquanto
decoraqgo e pano de fundo para ficticios pro-
jetos ecol6gicos, cor os quais percorren
instituicoes estrangeiras suscetiveis a discur-
so ambientalista supostamente elnpresarial
e executive. Algo. em forma mais rapida e
rasteira, como o que a dona da rede Body
Shop fez coin os indios Kayap6.
Apesar da farta ilustraCgo e da pororoca
de adjetivos, a matdria de Teja nio e demons-
trativa da pilhagem das terras amaz6nicas.
Nem poderia explicar o que parece nio ha-
ver entendido, tantos sao os erros de infor-
maiao e tantas as omissoes sobre pontos es-
senciais da questAo. Pode, talvez, bloquear
a circulagfo de Cecilio Almeida por gabine-
tes governamentais e particulares de various
paises, onde algum caixa poderia ser suges-
tionado a aderir ao seu Amazon Dream de
pessima extrago. Ieja produziu mais um
editorial contra um de seus ininmigos favori-
tos, mas n5o prestou a causa amazOnica a
valiosa ajuda que estaria ao seu alcance se
equiparasse a tematica Amazonia aos assun-
tos que Ihe sao mais cars e pr6ximos.
Ouso sugerir ao distinto leitor vArias
edicqes deste journal entire maio e dezem-
bro de 1996, nos quais essa mesma ques-
tao foi examinada a partir de uma perspec-
tiva mais amaz6nica (e, quem sabe, mais
correta) do que a 6tica tutelar da imprensa
do sul-maravilha. 0






4 JOURNAL PESSOAL 2s QUINZENA DE JANEIRO / 1999


A universidade sem cultural


A Universidade Federal do
Para deveria mandar imprimir
o discurso que Benedito Nu-
nes leu ao receber o titulo de
professor emerito da institui-
glo, no final do ano passado,
e oferec8-lo como tema de re- -
flexao para toda a comunida-
de academica. Trata-se de
uma manifestaq o corajosa,
al6m de sabia. Mas, talvez por
isso mesmo, quase expurgada
dos camp paraenses.
Indiferente as honrarias da
concessao, mas fiel a um com-
promisso de vida, o mestre de
tantas gerac6es teve a coragem
de declarar: "fago questio de
dizer que pouco ou nada devo
a Universidade. Escrevi sem-
pre em casa, em geral consul-
tando os meus pr6prios livros,
a maioria dos quais a institui-
9ao nao tinha"
Acrescentou: "Nos iultimos
tempos que la passed, antes de
aposentar-me, pugnei contra o
populismo reinante, a contra-
faqco internal da democracia
(quando nlo se ter democra-
cia na sociedade, tenta-se re-
cupera-la intramuros), o novo
didatismo, muitas vezes disfar-
qando a incompetencia e a ne-
ga Ao do elitismo pr6prio as
Universidades. Nao pode a ins-
tituigio universitaria abdicar
da escolha seletiva dos melho-
res; nesse sentido ela 6 elitist
e s8-lo-a enquanto subsistir
como Universidade"
Encerrando o balanqo de


uma longa carreira no magis-
terio, Benedito se orgulha de
haver ensinado aos estudantes
"a boa arte do cepticismo: a
duvidar de tudo, a tudo inter-
rogar adequadamente com co-


nhecimento de causa. Nao me
limited a sentar praga numa fi-
losofia determinada, ao som
do clarim da especialidade.
Serei c6ptico? Sim, enquanto
critic de ideologias, crengas


Visao rasa


Ninguem pode dizer que conhece o folclore bra-
sileiro sem pelo menos passar pelo Diciondrio do
Folclore, de Luis da Cimara Cascudo (minha edi-
gio, a segunda, revista e aumentada, 6 de 1962, do
Institute Nacional do Livro, com 795 paginas; hA
uma mais nova, mas nio hI uma ediqAo recent,
como seria necessArio). E uma das indispensAveis
obras de referencia da cultural national, um monu-
mento de amor e devogio as coisas brasileiras.
Todos os que tanto estimam Cnmara Cascudo
devem ter ficado chocados com uma das materials da
flltima ediiao do ano de \Mais!, o suplemento cultu-
ral da Folia de S. Paulo. A reportagem acusou o
grande intellectual potiguar de ser "simpatizante do
nazismo" por sua vinculacao ao integralismo.
Um dos filhos dele, Fernando CAmara Cascu-
do, procurado pelo reporter da Folha, deu-lhe "to-
dos os esclarecimentos" sobre a questao, mas suas


informagoes foram ignoradas. 0 journal publicou
uma carta de Fernando protestando contra a "infa-
mia" cometida, mas nio se dignou a responder.
Quem cala, consent. Mas journal que cala sobre
um error desse tamanho perde, tambem, um pouco
da sua grandeza, se a possuia.
Quanto a de Camara Cascudo, ela permanece
intacta. Nio 6 precise nem aprofundar o paralelis-
mo coin Heidegger, nazista de carteirinha que so-
breviveu corn sua obra nAo-datada a esse terrivel
crro. Basta lembrar que grandes personagens, como
d. Hdlder Camara e San Tiago Dantas, tambdm fo-
lamn integralistas num moment de opcqes radicals
contra a velha ordem liberal, A esquerda e A direita
dela. O moment hist6rico explica o que entao fi-
zeram. A mesma hist6ria que se encarregou de re-
conhecer-lhes os mdritos. A despeito de avaliaqoes
apressadas e equivocadas, como a da Folha.


Poesia escondida
Paul Heiinqucs Brilo e uin boin iradulor e um razo\ el po-
cia No caderno hieta., de 2 de laneiro do furnal di.. Jra.sl dA
umia coclulada que nao coindz coui sua inteligencia Diz ,le que
in.itca de Lim,l7,a i experiencia do irlandes Janies Jo ce corn
os ersos no period de sulI fornijiio Iteraria. agorn traduzida
para o pornigues do Brasil ijia ha unla \ersio lusuiana. n5o refe-
nda por Brillo). 6 obr,.i deu wn escrlirr lqute jaJll.as coniseguii. i se
realizar pleniajente 11o erso Compara-o a acliado de Assis.
outro grande prosador e poeia mediocre
Brnio poderia ter ido uin ponLo alien Gujinar.ies Rosa nios-
so equity alente de Jolce. era umn inm.j poeta Al/iwma. seu i\t ro
de esircia cm \ersos icoino Jovce. preinnado pela Acadeinia
Brasileira de Letras. Leml interesse apenas biograiico Rosa coin
toda ra;.io. nlo o queria imnpresso A public:qio pos-inorte foi
uma lraii'ao. Dessas coisas bem anlericaniis, de ir a dispersao na
inais bi.,anlina ninullcia p.lrai 11o en:itedr o odo
A prosa foi a forini correct de e\prcssiio para RosJ. omino
para Josce e Michlado Queniit itra em Graii. SI-c.'i, li el._la
njo lemn qu:ilquer du ida, ajndi na prinicira pagina wi ale na
prilmera pala ra do roniance. o ianoso nonada i. de c ar dian-
te da nuis pura poesia. combinada com irorua e liwnor refina-
dos So que fornialniente cpressa 1r;m1 es de prosa Ncsle cas,.
nada mais do que deralbe
A sensaio c a mnesma em quise lodo o Uhses de .loyce le
nenos cm Machado par causa da exireuna concts.o ate .1 arldez
do quebra-cabeg a psicologico que mnonia seni errar na exprcssjo
ocabular que os inui.IesI.ta Se a frase csi interroinpida por urua
queslio de meuica, ruiL. ninio ou Msuabdade. ou se \ai linear-
Inenie a a margem da pigina d detallie irreleva\ne laimbl.i.
Logo. a resiriqio que faz Paulo Henrques Brito e improce-
dente Porque obtusa.


polilicas e religiosas Pelo
menos. no acariciei as ilus6es
intelectuais dos estudantes.
nao Ihes adulei os preconcei-
tos" O "ganho da vida" do
professor sao os seus melho-
res alunos, alguns deles hoje
professors tambem.
Homem cordial, tolerante e
educado, de uma simplicida-
de excepcional para quem
sabe tanto, Benedito agrade-
ceu a outorga do titulo. efeti-
vada dois anos depois da con-
cessao (e logo ap6s haver ele
recebido o Pr6mio Multicul-
tural do journal O Estado de S.
Paulo). Quem meditou sobre
suas palavras, entretanto, deve
ter percebido nelas um tom de
certo desalento.
A Universidade populista,
miopemente iluminista, dei-
xou de ser um centro de cul-
tura e de acumulagio de saber
por excelincia. Essa incultu-
ra explica por que, ate hoje,
aguarde-se a reedigio da obra
complete de Platao, traduzida
por Carlos Alberto Nunes, tio
de Benedito. Ele nao s6 trans-
feriu sem 6nus a UFPA os di-
reitos da ilnica traducio com-
pleta da maior de todas as
obras filos6ficas do Ocidente.
como doou uma rica platoni-
ana, formada por livros de e
sobre Platio em varias lin-
guas, principalmente o ale-
mao. Os 11 volumes dos Dii-
logos foram publicados ao
long de sete anos e de tres
administra96es university, rias.
Mas corn tal displicencia que
exigiram uma revisao exaus-
tiva e cuidadosa para a elimi-
nagao de numerosas falhas.
Concluido o trabalho, o
material estava pronto para
uma reedigo digna. "Mas dc-
pois disso nao mais se ouviu
falar no Platio. embora tives-
se chegado a Universidade
vantajosa proposta de co-edi-
9io. Ignora-se, at6, o paradei-
ro dos volumes" disse Bene-
dito Nunes em seu contido la-
mento, um contraponto numa
solenidade que deveria ser o
moment de louvaqio a inte-
ligencia, i rara intelig6ncia de
um grande paracnse. Que
agradeceu a lembranga do seu
nonm, mas denuncion o es-
quecimento do que o fez gran-
de: a cultural. 0


lig 1M1 M I lil 1iig 111


~wrs~siab~





JOURNAL PESSOAL 24 QUINZENA DE JANEIRO / 1999 5


A lista de livros da Folha:


casa de ferreiro sem espeto


Todos os recursos capazes de mo-
tivar as pessoas para a leitura sao
bem-vindos. Elogiavel, por isso, a
iniciativa da Folha de S. Paulo de re-
servar boa parte do seu caderno cul-
tural de domingo, o Mais!, edigdo do
dia 3, para divulgar duas listas dos
100 melhores romances do seculo e
dos 30 principals do Brasil de todos
os tempos.
Normalmente esses arrolamentos
tem a importancia de um Guine. mais
para a cultural initial do que para o sa-
ber. Ninguem precisa mais consultar
critic algum para saber quais os mais
importantes romances surgidos neste
planet desde 1900. Ha suficientes le-
vantamentos realizados, impossibili-
tando novidades, como n~o as hi nas
indica96es dos 10 intelectuais brasilei-
ros consultados pelo Folhao 0 6bvio
estampado nos 10 livros dispensaria
tanto trabalho e tanto espago.
0 original (ou, pelo menos, o mais
estimulante) teria sido se o journal dos
Frias tivesse perguntado aos mesmos
intelectuais quais os romances cuja
leitura mais prazer lhes deu, ou que
mais os influenciaram. Duvido que
Walnice Nogueira Galvao tivesse
apontado Finnegans Wake, o labirin-
tico experiment de James Joyce,
como sua segunda preferencia, abai-
xo de Em Busca do Tempo Perdido,
de Marcel Proust.
Nas varias vezes em que tentei avan-
gar nesse livro, fiquei cor a sensagao
de estar lendo em hebraico, apesar de
nao ser tao iletrado assim na lingua do
irlandes. Na uiltima tentative, tive o
bom senso de dar minha edigao a Be-
nedito Nunes. E me esqueci de pergun-
tar-lhe se foi bem sucedido.
E claro que nao li o Ulisses no ori-
ginal. Meu ingles nao chega a tanto.
Mas cotejar o original cor tradug9es
mais acessiveis me permitiu ter uma
ideia melhor da grandeza de Joyce,
perceptivel mesmo tendo Ant6nio
Houaiss como mediador. No Finne-
gans jamais fui alem de cego em ti-
roteio, e sem guia ou cajado, mesmo
tendo i mto o exercicio fragmenta-
rio dos Campos cor seu "Panaroma"
Acredito que ninguem que nao tenha
o ingles como lingua de origem e
capaz de tirar prazer desse suadouro


lingiiistico. E, dentre os que nasce-
ram falando ingles, uma minoria
equivalent ao grao de area de uma
praia pode dizer o que significa a al-
garavia joyceana sem uma bispada
em algum critic autorizado.
Portanto, a maioria dos critics re-
pete o que ja se sabia, num mimetismo
que nem mesmo os express enquanto
critics. Para os leitores contumazes,
as listas servirao apenas para checar
seus indices de leitura. Para quem nun-
ca leu, elas dificilmente servirao de
incentive. A propria redagao do suple-
mento nao esteve a altura do signifi-
cado pedag6gico e cultural que sua ta-
refa deveria ter.
O editor, ao que parece, nao sabe
que O Deserto dos Tartaros, do italia-
no Dino Buzzati (290 melhor livro),
tern traduao no Brasil (da Nova Fron-
teira), recomendando o original da
Mondadori. Duvido que seja mais fa-
cil (sem falar em mais barato) encon-
trar a ediaio italiana do que a nossa,
mesmo ela sendo mais antiga. Ja en-
contrei o livro em varias promo96es de
"ponta-de-estoque" e em sehos A re-
fernncia a traducao em portugues, alem
disso, era obrigat6ria.
O erro se repete em relacao a Umna
Tragedia Americana (540 da lista), do
americano Theodore Dreiser. A indi-
cacao e a da New America Library,
mas ha traduqao brasileira (patrocina-
da, alias, pela embaixada dos EUA),
nao tao facil de achar, mas freqilente
em sehos 0 mesmo acontece cor O0
Imoralista, do frances Andre Gide,
cor ediqgo da Gallimard (quando ha,
uma infelizmente encalhada edi-
gao da Nova Fronteira).
Cabe ainda questioner o crit6rio do
editor de citar verses lusitanas de ro-
mances traduzidos (e varios deles me-
lhor traduzidos) no Brasil, como, entire
muitos exemplos, O Grande Gatsby, de
F Scott Fitzgerald, America, de Franz
Kafka, Passagem para a India, de E.
M. Forster, A Sangue Frio, de Truman
Capote, Absalao, Absalao, de William
Faulkner, Fogo P6lido, de Vladimir Na-
bokov, e Herzog, de Saul Bellow e
isso para nao enfastiar o leitor.
Essas falhas sugerem que, recebidas
as indicaq6es dos critics, alguem do
suplemento, nao muito versado (ou


prosado, para tender Paulo Henriques
Britto) no assunto, percorreu trss livra-
rias da cidade de Sao Paulo (Sicilia-
no, Shopping Atica e Saraiva) atras das
informag6es usadas na edigao. Como
nao encontrou as edicdes nacionais de
various romances nessas livrarias, re-
correu as estrangeiras.
Julgando prestar relevant servigo
ao leitor, o journal indicou onde com-
prar as edicges em inglss, frances, es-
panhol e italiano. Esqueceu de dizer
onde o leitor da Folha deve encomen-
dar as numerosas ediC6es em portugu-
es de Portugal. Ainda que nio tivesse
cometido essa omissao, entretanto, di-
ficilmente o journal estaria bem servin-
do os leitores menos iniciados. As tra-
du9ces lusitanas, em geral, sao mais
convencionais, raramente permitindo-
se inovag6es linguisticas. t o portu-
gues correto, mas basico. No caso de
alguns autores, como Joyce, Kafka e
Faulkner, para ficar s6 nos tres, e uma
diferenga que faz falta. Alem disso, os
livros de Portugal sao bem mais caros.
O que parece e que, entregue o aba-
caxi para os critics convidados des-
cascarem, a editoria do journal se limi-
tou ao menor dos trabalhos, o mais bu-
rocratico e superficial. A ponto de in-
dicar a traduiao inglesa de O Tambor
do alemao Ginter Grass, ao inves de
recomendar o original ou a tradudao
em lingua portuguesa feita no Brasil,
que mereceu uma publicacao de alta
tiragem, a prego popular, pela Rio Gra-
fica Editora, em 1987 Ai o resultado
ja e uma conjuminagao de preguiga
corn incultura, revelando que o recei-
tuario de bons livros do Mais! nao ter
uso interno.
O que faz a diferenga, nessas ho-
ras, e a cultural. Quem nao a possui,
nao consegue disfarcar, ao contrario
do que acredita a revista Veja (ver
Journal Pessoal n 200). 0 home
culto pode esquecer nomes, n6meros
ou mesmo enredos. Mas nunca reco-
mega do zero. Como na hist6ria de
Joao e Maria, em versao inteligente,
deixa em seu rastro as pedras que vao
servir-lhe de referencia se precisar
voltar a trilhar o caminho ja percorri-
do na vida, nao como algo imaginat-
rio, mas muito vivo. Se livro e vida
foram igualmente vividos. 0






6 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE JANEIRO / 1999


4 A prop6sito de nota publicada
nesta se o., na edicgio anterior, a
nova secretaria de educaqao (que
ainda assinou seu oficio, datado do
dia 7, colno adjunta), Rosineli Guer-
reiro Salame, enviou ao journal os se-
guintes esclarecimentos, tendo a
gentileza de anexar a documentaygo
comprobat6ria de suas afirmativas e
se colocar a disposigio para "quais-
quer esclarecimentos adicionais,
caso haja novidade" Diz o oficio:
"1 Ha umr equivoco de interpre-
tacao quando 6 dito que os aditivos
ao Contrato de Vigillncia adiciona-
ram nada menos que RS 640.000,00
(seiscentos e quarenta mil reais) nos
sucessivos aditamentos' visto que os
aditamentos nao sao para prorrogar a
pennan6ncia dos services.
2 Esses aditamentos tern sido
imprescindiveis, considerando-se
que o process licitat6rio, na moda-
lidade Tomada de Prego, que levou
o nrumero 037/97 SEDUC, perma-
nece 'sub-judice', ressaltando-se, na
ocasilo, que as publicapaes no Dia-
rio Oficial do Estado, evidenciam,
expressamente, a origem do Contra-
to original, bern como as razdes do
termo aditivo, conform se demons-
tra em c6pia anexa.
3 Vale ressaltar, ainda, que a
Lei numero 8.666/93, no seu Artigo
57, inciso II, prev&: 'A prestagio de
servios a serem executados de for-
ma continue, que poderao Ter sua
duragAo prorrogada por iguais e su-
cessivos periods corn vistas a ob-
teng~o de prego e condi9ges mais
vantajosas para a Administraggo, li-
mitada a sessenta meses' NAo po-
deremos, portanto, ultrapassar a ses-
senta meses, no entanto, lembramos,
esta Secretaria providenciou o pro-
cesso licitat6rio em tempo hAbil. fal-
tando, apenas, a decision judicial.
4 Quanto ao 15 termo de acres-
cimo de mais 02 (dois) postos, o mes-
mo represent uma situaqao tempora-
ria, apenas 03 (trds) meses, paraa guar-
da de galpio onde estao annazenados
materials desta SEDUC. para distri-
buigao, at6 a conclusao da entrega.
Os documents em anexo compro-
vam as nossas afirmativas, inclusive,
o Contrato initial, lembrando-se que
o mesmo se refere a valores mensais e
que os unicos aumentos ocorridos di-
zem respeito aos dissidios da catego-
ria, o que esta previsto no Contrato"
4 Agradego os prontos esclare-
cimentos prestados por Nilo Alves
de Almeida, president, e Othon
Garcia Damasceno, director adminis-
trativo. da Empresa Piblica Ofir
Loyola. a prop6sito de observaggo
feita nesta secao na edigco anterior
do JP No caso do contrato de vigi-
lancia assinado coin a Puma, os re-
ajustes se deveram aos dissidios co-
letivos dos funcionarios da empre-
sa determinados pela justiga do tra-
balho e pela crialao de mais dois
postos de servigo. para tender A
ampliaqAio fisica da inslituicio,
"comno facil de constatar"
Como o valor mensal pago a
Puma pulou de 12,7 mil reais por
mes em 1995 para RS 29.5 mil no
9 term aditivo. assinado para vi-
gorar neste ano ate ser definida unma
nova licitagiao. ultrapassando assimn


o limited legal de 25% para acresci-
mo do valor do contrato original,
sem a necessidade de ser feita nova
concorr&ncia, pergunto: o valor de-
corrente dos dissidios judiciais nao
i incluido nessa margem. o que te-
ria possibilitado ultrapassa-la?
Em relagco ao contrato para ser-
vigos de limpeza, esclarecem os dois
dirigentes do Ofir Loyola que o va-
lor de RS 89,7 mil se refere aos 45
dias finais do exercicio de 1995, en-
quanto os RS 915 mil abrangem um
period de 12 meses em 1999 ou atd
ser concluido "o process licitat6rio
deflagrado" O pagamnento mensal,
portanto, passou de RS 59,8 mil em
1995 para RS 76,3 mil neste ano,
ainda dentro do limited de 25%.
Embora a lei das licitac6es pui-
blicas (a 8.666, de 1993) admit que
contratos de prestagao de servigos
podem ser prorrogados por ate cin-
co anos sucessivos, "com vistas a
obtenqao de pregos e condig6es
mais vantajosas para a Administra-
g o", a diregio do Otir Loyola "re-
solveu aditar a prorrogagao ate a
conclus'o do process licitat6rio
que serA realizado ap6s aprovaglo
do orgamento para 1999"
Uma questao final: o orgamento
ji nao deveria ter sido aprovado? E
comum iniciar o exercicio sem or-
gamento definido?
4 A antiga Secretaria de Admi-
nistragqo, que deveria dar o exem-
plopositivo, pode star dando exenm-
plo negative. 0 Diario Oficial de 30
de dezembro trouxe o termo aditivo
n 028/98 ao contrato n 012/97 da
SEAD, de servigo de vigildncia pres-
tado pela Blitz. Logo vent a ddtvida:
esse e o 280 aditamento a esse con-
trato especifico, ou a secretaria ado-



eraldo MArtires Coelho, presi-
dente do Instituto Histbrico e
Geografico do Para, enviou a
seguinte carta:
"A prop6sito da nota 'Diferenga',
said neste niumero [202] do Jornal,
poderiamos conversar horas. Afinal,
tambem pelo IHGB, desde a sua fun-
dagAo, passaram s6cios que nao es-
creveram nada durante o tempo que
la estiveram e antes tamb6m! Como
instincia cultural atrelada ao nocleo
do poder e a representagao political,
quase sempre chegava-se ao Institu-
to ao Brasileiro e aos estaduais -
por conta do lugar ocupado na teia
do Estado ou da sua corresponden-
cia, em terms de sociedade.
Quanto ao nosso Instituto, quando
assumi a Presidencia, ano passado,
vindo de uma tambnm Presid6ncia na
Junta Governativa que iniciou o tra-
balho de reorganizaqio da Casa. o
I-GP vinha de una cruise que se arras-
tava por mais de vinte anos. Das suas
quarenta Cadeiras, dezesseis estavam
vagas. Em pouco mais de um ano, eji
refletindo um novo moment da vida
da associacio, as Cadeiras foram no-
vamente preenchidas. Da safra nova,
alinham, por exemplo, Heraldo Mau-
es, Roberto Santos. Marcio Meira.
Anaiza Vergolino-Henri, Jussara De-


ta nurneracao corrida para os ter-
mos aditivos de todos os contratos?
Observando corn mais atengo, ve-
rifica-se que a Segunda hipolese e a
verdadeira ja que esse TA i 028faz
remissdo aos aditivos anteriores. de
numeeragdo 013 e 025, amibos bai-
xados em 1998.
A primeira sugest/o e para que
a SEAD incorpore o procedimento
geral. Ou seja: amarre a lnmera-
qao dos aditivos aos respectivos con-
tralos a que se referent. Se assim ti-
vessefeito, esse TA seria o de n 03
e nao 028. Os atos da secretariat po-
deriant ser melhor acompanhados.
0 tal aditivo eleva os recursos
financeiros "para cobrir as despe-
sas do contrato" que era, original-
mente, de 27,8 mil reals efoi eleva-
do, em janeiro do anopassado, para
nada nienos que R$ 153,1 iil (coimo
esse aumento foi promovido sent
contrariar a restrig o legal, acima
citada, e algo a esclarecer). 0 aditi-
vo, porem, nio faz qualquer referin-
cia a valor? Foi o contrato nova-
mente aumentado? Isso e possivel?
4 A Secretaria de Cultura tanmb6m
nio esta seguindo rigorosamente o
modelo de aditivos estabelecido pelo
Tribunal de Contas do Estado em
novembro do ano passado (ve;r a
prop6sito, Jornal Pessoal no 199),
do que da prova o extrato publicado
no DO do iltimo dia 6, assinado coin
a Norauto Rent a Car.
E4 gratuitamente que a Yo Bu-
ffetfornece refeiges e lanchespara
os servidores da Governadoria do
Estado? E o que sugere ato da Casa
Civil publicado no DO do dia 7
Tanto o contrato original, de 1997,
quanto os Itrs aditamentos (dois
deles sent data especificada, o iti/i-




renji, Ruth Burlamaqui de Moraes,
Ubiratan Rosario, dentre outros.
Agora, a question: a tunna, reconhe-
cidamente, escreve, mas somente agora
estd sendo possivel pensar em relan-
gar a Revista. As dificuldades sao
exemplares, inclusive as sempre finan-
ceiras, o que eu comecei a contomar
com a cobranga de anuidade dois s6-
cios (para tal, mudamos o Estatuto).
Agora, you buscar apoio financeiro
junto ao poder piblico, inclusive para
tornar realidade um Protocolo. nesse
sentido tinnado entire a PMB e o IHGP
Bern, uma outra noticia: em no-
vembro passado, no Rio de Janeiro,
na reunilo dos Institutos Brasileiros,
foi aprovada uma Carta do Rio de Ja-
neiro, reclamando, dentre outras coi-
sas, uma maior participa;iio do poder
p6blico c da sociedade em geral, no
apoio a essas instituiobes. Aprovou-
se. tambemn, que a reuniao do ano 2000
sera feita em BelCm, no "centenirio"
do IHGP, fundado em 1900. Gra;as a
um trabalho que envolveu boa dose de
diplomacia (Mario Barata, Victorino
Chermont) e que contou corn o empe-
nho do Presidente do --IGB, colega
meu de vclha data, Amo Wehling. con-
seguimos urma estupenda faganha: des-
bancamos a Bahia, que tambem prc-


Interesse pdblico


nto do proprio dia 7), nido eni vu-
lor Foi um lapso?
Ja o contrato coin a Uirapuru
para o fornecinmento de passages
areas, que come ou em 1997 no
valor de R$ 60 mil, foi elevado (ern
data nldo indicada, nmas qe sit-
pve ser de 1998) prineiro para RS
80 mril e. agora, para RS 90 rail,
mini reajuste de 50%. Esti legal?
Encontra-se na niesima situacdo
o contrato de prestagdo de setrvios
de treinamento e consultoria assina-
do com a Fundagdo Christiano Ot-
toni, que conmeqou em 1997 corn va-
lor deR$ 414 mil, foi adiado em RS
150 nil (1998?) e RS 185 mil ago-
ra? Aguarda-se esclarecimentos.
4 Em 1995 a Casa Civil da Go-
vernadoria assinou um contrato de
prestasao de servigos de publicida-
de corn a Galvao Propaganda. Para
o period de 14 de novembro a 31
de dezembro daquele ano, o valor
foi deRS 150 mil. De 1996 para ci
foram assinados 11 aditivos, o ulti-
mo dos quais publicado no DO do
dia 8. O valor acumulado 6 de RS
5,6 milh6es. Se admite-se que o
valor annual do contrato e em torno
de RS 1,2 milhalo, o limited legal ja
estourou algumas vezes. Como, en-
tao, foi mantido o contrato original?
4 0 DO do dia 4 republicou o
contrato n35, para a prestagdo de
servigos de vigildncia para os pre-
dios do Parque da Residencia e do
Museum de Arte Sacra, assinado en-
tre a Secretaria de Cultura e a em-
presa Progresso, no valor de RS
68,2 mil, para ter vigincia apenas
durante o m&s de dezembro do ano
passado, e que teria sido assinado
pelo secretario Paulo Chaves no
dia 1 Duasperguntas: o valor ndo
e alto para 30 dias? Por que a re-
publicaqgo? 0



tendia fazer 1d a reuniao, como umn
event a mais da agenda dos 500 anos.
Fica por aqui, pois ja parece um
relat6rio. Segue o abrago afetuoso
do Geraldo"
N. da R. 0 que no institute brasilei-
ro era umra excegdo, ossdcios que ndo
escreviam, no paraense era uma re-
gra. Mas havia uma outra diferenfa:
alem de nada escreverem sobre listo-
ria, muitos dos sdcios do assim clia-
mado silogeu sequer tinlarn irn ca-
coete da material. Podia-se observar
em algumas das raras reunites corn
tematica historica, que opinides alli
apresentadas eram de merospalpitei-
ros, neofitos em questoes que deveri-
am ser tomnadas como premissas en-
tre membros de um institute historico.
Mas espero que os compromiissos aqui
apresentadospor Geraldo, tin verda-
deiro historiador; corno os que ele ii
atraiu para o IHGP iransforenem-se
em realidade. Se remons imstituifoes
como essa, elas precisam fincionar
No passado fuicionou o Consellho
Estadual de Cultura, hoje ,e sono
profuido, leldrgico. Continia a fim-
cionat; a sua maneira, a Academia
Paraense de Letras. Que o instituito
listdrico, portanto, reionie ao mnln-
do dos vivos. Que est(o Ninito caren-
tes de produiFo hisltrica. c





JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE JANEIRO / 1999 7


acaso fizeram coin que o langamen-
to de Querido Ivan, o mais novo li
vro de Haroldo Maranhko (Ediyqo
Journal Pessoal/Grafisa, 118 paginas, 15 re-
ais), acontecesse na estadao do 383 aniver-
sArio de Beldm. A cidade nao poderia ter
como present um livro melhor.
Nenhum paraense alcangou dominio tao
complete sobre a lingua brasileira como
Haroldo. Poucos brasileiros chegaram a tan-
to. Dos vivos, conta-se nos dedos quem pos-
sui maestria igual (um estudo comparado
cor Osman Lins, por exemplo, engrande-
cera ainda mais o iltimo dos Maranho jor-
nalistas). Por isso, antes de mais nada, o
livro e um prazer imenso para quem gosta
de ler. Os paraenses estao tendo esse privi-
legio por miopia (ou estrabismo) das gran-
des editors. Mas elas acabarao se subme-
tendo ao valor excepcional de um escritor
que nio faz parte de igrejinhas, nem culti-
va a reverencia subserviente ao establish-
ment cultural.
Em segundo lugar, e a melhor descriCgo
que a cidade ja teve. A Beldm das d6cadas
de 20 a 40 emerge viva, gostosa, contradit6-
ria, fnica. E um mundo que desapareceu e
nio deixaria registro fiel se Haroldo, ao es-


Parecia chegada a hora da vinganqa
contra a natureza (ou deus), tao generosa
cor Chico Buarque de Holanda e sovina
cor todos n6s. O filho do professor Sdr-
gio levou cinco anos para lancar um novo
disco. Para As Cidades, pordm, s6 conse-
guiu criar 11 mfisicas (uma delays ja gra-
vada), dividindo quatro cor parceiros,
nenhuma composiqao cor sabor de ver-
dadeira novidade.
Vozes e novos sons foram acrescenta-
dos para dar sustentacgo ao compositor.
Cor isso, o arranjador, regente e princi-
pal instrumentista, Luis Carlos Ramos, a
alma do disco, ganhou um destaque ex-
cepcional. Tudo e mais alguma coisa -
reforqando a convicqyo de que, enfim,
Chico avanpa na decadencia. Ja nio seria
merecedor de tanta inveja de todos n6s,
distantes dele na beleza, na inspiragbo e
na aplicaqyo, que multiplica os dons na-
turais. E atd na voz limitada, mas encan-
tadora, como a de Nara Lero. O Chico
que provoca os sentiments maternos das
mulheres, no que ji se torna covardia to-
tal contra os menos favorecidos na com-
petigio.
Mas na segunda audigbo qualquer sen-
timento menos nobre se esfuma, como diz
aquele bolero interpretado por Ndlson


crever, do Rio de Janeiro, 21 cartas ao ir-
mao Ivan, que morria em Beldm, nio tives-
se retornado ao tempo de origem de ambos,
indo e vindo cor sua prosa solta, livre, pi-
cando aqui, soprando ali, mas a tudo tocan-
do cor sua sensibilidade, seu modo todo
pr6prio de ver e de expressar, corn literature
de qualidade universal.
HA tamb6m a valiosa iconografia nas pi-
ginas finals do livro, mostrando por dentro
o legendario pr6dio da Folha do Norte, a
residencia dos Maranhio, bastilha e tfimulo
do incendiArio Paulo d'Albuquerque Mara-
nhao, um dos maioresjornalistas da hist6ria
brasileira. Algumas dessas fotografias che-
gam ao pfiblico pela primeira vez.
Se as circunstbncias fizeram o livro ir para
bancas e livrarias no just moment em que
a cidade avanqa mais um pouco no tempo,
para se tornar quatrocentona, elas tambem
me tornaram o feliz intermediArio entire os
distinguidos leitores e o grande criador. Es-
pero que faqamos jus a esse sopro de felici-
dade que soprou do alto como sopra o vento
camarada no geral dos fins-de-tarde, desvi-
ado do seu rumo natural pelo traqado verti-
cal de uma cidade que ainda nao se reencon-
trou cor o seu espaqo e o seu tempo, apesar
de toda a propaganda corrente. *


Gonqalves, e la estamos de novo, contra
toda a nossa resistencia, nos enternecen-
do cor Chico Buarque de Holanda. E um
privildgio ter crescido junto cor ele, pre-
sente em tantos moments das nossas vi-
das nessas quase quatro d6cadas, referin-
cia para does e alegrias, nostalgias e en-
tusiasmos.
Mesmo quando nos oferece um disco
menor, como esse filtimo, Aos derretemos
corn o lirismo de Cecilia, um novo pris-
ma na aproximacyo buarqueana do tema
feminine, ou partilhamos uma forma mais
densa de expressio (na roseana Assenta-
mento, sem-terra no nome, de porteira
aberta ao indistinto mundo do sertAo na
sintaxe).
Num universe de ritmos mon6tonos e
pobres, ainda dispor de Chico Buarque 6
um luxo s6, como diria Ary Barroso. E
relaxar, esquecer impulses de revanche e
curtir, como nos velhos tempos e sempre.
que o bom nio tem data, embora tenha
autoria certa.

PS Mas, no fundo, quem criou esse
Chico nao foi deus, nem o professor Sdrgio:
foi o capeta. Para nos envenenar de raiva e
de paixao, sem distinqao. Vade retro. Corn
rima e tudo, quc soluqio nao hi. U


leitura dos

Mara nh


Entre


artists
Para retomar o mote lanpado pelo
principle FHC, agora o 2, ano pas-
sado: a diferenga entire Chico Buar-
que de Holanda e Caetano Veloso 6
que o baiano continue revolucionan-
do, nos surpreendendo quase a cada
disco, depois daquele congelamento
em odaras e dangaras, desfeito pelo
hino dos anos 90, o Haiti.
Ainda nao ouvi o iultimo disco de
Caetano, mas Livro, o anterior, e uma
preciosidade. Ten duas faixas ruins
e uma fraca. Sao concess6es bem bai-
anas aos ritmistas da "boa terra" e ao
filho Moreno. Mas qual ritmista teria
feito Onde o Rio e mais baiano, fe-
chando com o achado de que a Man-
gueira "d onde o Rio 6 mais baiano"?
Qual jovem compositor e capaz de
transformar O Navio Negreiro, de
Castro Alves, num rap'?
A hist6ria de Alexandre Magno,
culta e polifonica, 6 uma esp6cie de
samba-enredo que nenhum outro com-
positor da MPB poderia criar. No seu
melhor estilo, Caetano revisita Na
Baixa do Sapateiro, um dos clAssicos
de Ary Barroso (que a gente aprecia
melhor ao sair do Brasil), descolando
a milsica do seu arranjo traditional e
estabelecendo uma relacdo de canto e
contracanto entire letra e mfisica. Re-
visita ele pr6prio em Voc& & linda.
Nao enche, forte e bela, e o qua?
Marcha? Hino? Manhata atesta a
enorme capacidade que Caetano ter
de lidar com as palavras e tornar mu-
sical qualquer construqgo vocabular
(como em Pra Ninguem). Minha voz,
minha vida d poesia de alto nivel:
"Meu amor, acredite/ Que se pode
crescer assim pra n6s/ Uma flor sem
limited/ E somente porque eu trago a
vida aqui na voz" (em Mamde Cora-
gem ele j dissera ter "um beijo pre-
so na garganta").
Se muita gente boa, que hoje olha
Caetano cor certo desd6m, levar a
s6rio a mmisica-titulo, Livros, poderi
prestar um grande servigo A cultural
humana, considerando a advertencia
do compositor baiano aos que plane-
jam escrever livros: "Ou o que 6
muito pior por odiarmo-los/ Pode-
mos simplesmente escrever um:/ En-
cher de vas palavras muitas pAginas/
E de mais confuses as prateleiras".
Caetano, que ainda le, escreveu s6
um, autobiografico. Chico decidiu
tentar varios, de ficqco (umna compe-
ti(ao inconsciente cor o pai?). A
cada novo livro nos convince de que
deveria mesmo continuar apenas a
compor miisicas, sua arte divina.
Como a de Caetano. Cada um na sua,
felizmente. Que o c6u 6 ilimitado.


Chico, sempre






Coisa boa
O Minist6rio Pfiblico do Es-
tado produziu um calendArio de
extreme bom gosto, talvez o
melhor ja feito por aqui, com
antol6gicas fotos de Bel6m sai-
das da lente de Luiz Braga. Um
primor realmente. JA o Arquivo
Publico montou seu calendario
com exemplares da preciosa in-
conografia setecentista e oitocen-
tista ali existente, amostra gratis
do catAlogo iconografico que o
Arquivo fara publicar em breve,
revelando para o grande piblico
elements importantes da hist6-
ria da Amaz6nia.
Quem nao conseguiu o seu
exemplar desses dois catalogos,
deve correr para busca-los. Alem
de 6timo present, 6 material
para guardar e usar sempre, como
devem ser as obras resultantes de
dinheiro pdblico bem emprega-
do.

Origem
O coronel-aviador Luis Rodri-
gues Rodriguez disse que o aci-
dente no novo aeroporto de Be-
16m foi provocado por sabota-
gem. Noo apresentou as
provas dessa gra \e
den ncia.
Pela respon-
sabilidade do ^
seu cargo, devia
faze-lo. Ea i
hip6tese me- -
nos crivel den-
tre todas as
que foram
apresentadas are
agora para exph-
car o desabamen-
to de parte da co-bertura do
terminal de passageiros. Os mais
cdticos podem achar que o ofici-
al, ex-chefe do SNI em Bel6m,
continue agindo como se ainda
estivesse nesse cargo e nada ti-
vesse mudado desde aquela dpo-
ca.


O que restava
Cunha Coimbra, lambe-botas
do general Magalhaes Barata,
atacou Paulo Maranhao, inimigo
figadal do chefe. Admirou-se de
alguem tao menor critical um
home da estatura de Barata, a
quem estaria disposto a tudo dar.
No dia seguinte foi tratado pelo
panfletario da Folha do Norte
cono Nha Imbra. Explicou-se
Maranhao: era o que restara de
Cunha Coimbra depois que ele
deu para Barata aquelas silabas
iniciais suprimidas do seu nome.
Este nao 6 o meu estilojorna-
listico. Mas, de qualquer manei-
ra, 6um estilo. O pior a impren-
sa nto ter estilo algum, como
agora. Nem mesmo dentes cor-
porativos, que intimidam e con-


Errata
Como o leitor deve ter observado, o qdestrador do nosso
endiabrado computador mais uma vez aprontou das suas.
A ediado anterior foi datada com erro. Evidentemente,
ela abrangia a primeira quinzena de janeiro de 1999,
corn o numero 202, e ndo a 2a quinzena de dezembro de
1998, como saiu. Espero que o leitor tenha observado a
correJo feita as pressas, para diminuir o vexame. Mas,
como diz a musica, perddo foi feito pra gente pedir.


II
dI

.


ferem respeito A sua fun9to de
guardian da sociedade.
Nossa imprensa se reduziu a
balcao de neg6cios, marca im-
pressa pelos que a controlam
monopolisticamente. Porque nao
inspira mais respeito, nem de lon-
ge algo como o temor que a pena
incendidria de Paulo Maranhao
provocava entire seus desafetos,
os pr6-homens do poder fizeram
o que fizeram nestes dias. Nao
s6 desrespeitando a verdade: in-
sultando a inteligencia coletiva,
que tem ou, por aqui, tinha -
como seu delegado a imprensa.
A inteligencia era a tltima
sustentacgo antes da queda no
precipicio da desmoraliza-
.'io Era. Agora
estabeleceu-
se, de vez e
*o completamen-
Sd or m e, o padrno
SLiberal de
r t jornalismo,
um subpro-
Si duto, dimi-
o nuido, em-
pobrecido e
at iltado, de algo
maior, que o mantem: o pa-
drao Globo.
Temos o que merecemos?


Verdade
Agora comeqou um diAlogo
mais verdadeiro. A Rede, nova
dona da Celpa, diz que o grupo
Joeo Santos nio colocou em fun-
cionamento sua fdbrica de ci-
mento de Itaituba porque ndo
quer mudar as peas do cartel que
control no Norte do pais a par-
tir de Capanema, na Amaz6nia
Oriental, e de Manaus, na part
Ocidental. Energia ndo falta. Fal-
ta 6 vontade ao grupo empresa-
rial. E vergonha ao governor para
obrigd-lo a cumprir um compro-
misso que jogou na lata de lixo
de suas convenifncias.


Goleada
Apresentando comojustifica-
tiva a recessio no mercado inter-
nacional de mindrio de ferro e de
ago, a Companhia Vale do Rio
Doce suspended a execuCqo de
dois projetos que estavam em
andamento no Sistema Norte: a


ampliagao da produgqo da mina
de Carajas (para a qual obteve os
incentives da Sudam) e a cons-
trugdo de uma usina de pelotiza-
9ao em Sao Luis, no Maranhao.
O president do centro corpo-
rativo da empresa, Gabriel Sto-
liar, que anunciou essas mAs no-
vidades, disse ainda que o proje-
to de cobre da Salobo Metals
continuarA "em revisdo" Nada
disse a respeito de pianos mais
remotos (se considerada a visao
de estrito curto prazo dos atuais
proprietarios da ex-estatal),
como a industrializagao do mi-
n6rio de CarajAs no Para mesmo,
promessa que demoveu o repre-
sentante do Estado da posigao
contrAria A reduqao ou isencgo do
imposto de renda da CVRD (ver
Jornal Pessoal n 202).
O governador Almir Gabriel
continue apanhando de goleada
no seujogo corn a Vale. 0 placar
se dilatou ainda mais depois da
privatizacgo. Biblica punigao
pela omissao?


Valor
Objetam-me, a prop6sito da
nota sobre a vaga em aberto de
Irawaldyr Rocha no Tribunal de
Contas dos Municipios (ver
Jornal Pessoal n 202), que
essa ausdncia em nada prejudi-
cou o funcionamento da corte.
Um auditor foi convocado para
substituir o conselheiro e exer-
ceu todos os poderes do cargo.
E verdade. Se cabe uma retifi-
cagqo, ela aqui estA feita. Mas
nada altera, nem na substancia
nem no significado, a observa-
9ao que fiz.
Por media de economic, se-
ria melhor, entao, que ds con-
selheiros fossem substituidos
pelos auditors, mudando-se
(talvez corn melhor definigao


t6cnica) a designaqao para Au-
ditoria de Contas dos Munici-
pios (e Auditoria de Contas do
Estado), sem o penduricalho de
um Ministdrio Puiblico que e
apenas intermediario entire as
deliberagbes da corte e o ver-
dadeiro locus das denuncias, o
MP tout court, com seus promo-
tores e procuradores, que sfo os
fiscals da lei para valer.
Assim, a sociedade ganha-
ria uma instancia de auditagem
independent e efetivamente
externa a administration publi-
ca, amplamente necessaria, ao
invds de continuar a manter
um 6rgao de semi-tons, mais
politico do que tecnico. De
valor tao pouco convincente
que Carlos Kayath refugou sua
indicagao, alegando ainda nao
estar em idade de ser arquiva-
do num mausolku de ouro. Os
que IA se encontram, sentem-
se arquivados?

Brasileirissimo
Poucas pessoas tnm feito
tanto pela cultural brasileira na
Franga quanto Michel Riaudel.
HA 15 anos ele comanda, em
Paris, uma equipe de franceses
e brasileiros que edita o Infos
Bresil, um boletim mensal de
atualidade que alcanqou seu
1400 ncmero em novembro, a
ltima edi9ao que chega As mi-
nhas maos. Riaudel e desses
estrangeiros no qual a paixao
pelo Brasil 6 tao avassaladora
que deixa envergonhados os
nacionais.
Tenho conhecido pessoas
assim nas andancas pelo exte-
rior. Pessoas que nao perdem
o senso critic sobre o nosso
pais, mas veem-no sempre por
uma 6tica otimista, positive,
sem ser estreitamente naciona-
lista, nem reducionista ao fol-
clore. Seu entusiasmo 6 com-
binado cor uma perspective
ampla da cultural, vendo-lhe as
manifesta96es sem desliga-las
de suas origens e evolugdo his-
t6rica. Pessoas vitais, como foi
Pierre Verger na sua incorpo-
rag.o baiana. E continue a ser
o parisiense Riaudel com seus
amaveis guerreiros do Infos
Bresil. A despeito da falta de
reconhecimento ao seu traba-
Iho her6ico pelas autoridades
brasileiras.


Journal Pessoal

Editor: Llcio Flavio Pinto
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Fones: 223-1929, 241-7626 e 241-7924 (fax).
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