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Quem ganhou Jomal Pessoala Suda L I C 0 F L A V 0 P I N T O A' A imprensa N., Quinzena Janeiro 1999 ANO XII N- Eio 202 DE DEZEMBRO DE 1998 R$ 2,00 domesticada POLITICAL . A crise do governor 0 deputado Luiz Otdvio Campos, o "senador do governador", porpouco ndo rompeu cor Almir Gabriel. A said de emergencia veio atravis da recomposigdo do secretariado especial, formado exclusivamente pelo governador, sem incorporar indicagdes de terceiros, inclusive do senador. Uma treguafoi estabelecida. Ogovemo conseguird se ' restabelecer depois que elapassar? esta vez, os inimigos e ad versdrios nem precisaram entrar em cena: foi o pr6prio govemador Almir Gabriel o responsavel pela maior crise de todo o seu governor, ge rada exatamente no inicio do segundo mandate. Ao decidir ignorar as in- dicacges dos seus aliados e former solitaria- mente o novo primeiro escalao da adminis- tragao especial, constituido por sete secreta- rias especiais, recentemente criadas e postas -cima das antigas secretaries, agora executi- vas, o govemador quase provocou o rompi- mento p6blico do senador eleito (e ainda de- putado) Luiz Otavio Campos. Uma discus- sao aspera entire os dois, na noite do dia 30, s6 nao resultou no fim da alianga political que venceu a eleigao de outubro porque, no dia seguinte, o topo do secretariado foi recom- posto para incluir o pr6prio Luiz OtAvio, en- quanto um novo acordo 6 providenciado. Mas se as fissuras forem fechadas, os pla- nos iniciais terao que ser alterados. A grande pergunta que se fazia nos basti- dores era por que o govemador desconsiderou tdo ostensivamente as indicagBes do seu sena- dor e os arranjos preliminares feitos na base political. Uma primeira explicaqao 6 a mais sim- ples: esse 6 o estilo autoritario de Almir Gabriel. -:'e achou que todos os aliados, mesmo contra- riados com a formagqo do abre-alas do gover- no, se submeteriam A decisao tomada isolada- mente por um governador que obteve nas ur- nas a renovao do I seu mandate. O estilo Almir Gabri- el tem sido realmente esse. Mas o governa- dor arriscou provocar reagbes de contrarie- dade porque assume outra vez com um pla- no jatragado: eleger-se senador e fazer o seu successor. Desta vez, ele nao podera dispu- tar a eleigco manten- do-se no cargo, com as r6deas da poderosa maquina pdblica. um risco a mais. E nao dis- pbe de um nome equi- paravel ao do candida- . to que ja est em cam- .. panha pelo governor em 2002: o senador Ja- der Barbalho. As sete secretaries teriam que ser ocupadas por pessoas de sua estrita confianga, capazes de executar seu pla- no politico e render-lhe dividends adminis- trativos. Seria uma esp6cie de guard pretori- ana, cumprindo as diretrizes da "reengenha- ria" do govemo, conforme o modelo do Ban- co Interamericano de Desenvolvimento, mas absolutamente dependent do chefe. Assim, ele poderia ser liberado dos encargos buro- craticos e dedicar mais tempo a political, final- mente conhecendo o interior do Estado e ten- tando fazer-se notar em Brasilia (nacionalmen- te, o Pard continue a ser uma abstragao). Talvez o governador nao tenha ido al6m desse limited. Mas alguns outros movimen- tos que fez foram interpretados como algo a mais. Dois dos sete cargos principals fica- ram diretamente (o da Producao) ou indire- ACLEL~LC .... .. < , . a- 'L: ; l r .. ....... " L--2 L 't L L t .- .Llt't LKY L"(-" '4) L ' 2 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 tamente (com o ex-secretArio-adjunto de Pla- nejamento, S6rgio Leao, na Gestao) cor Si- mao Jatene. Um ne6fito em politicapartidaria (mas nao em political Manoel Santino Jinior, atd en- tao chefe do Ministdrio Pfiblico, mas com o visor voltado para a Camara Federal, ficou cor toda a logistica internal (a Secretaria de Governo). Nenhum representante do "sena- dor do governador" ou dos seus aliados po- liticos foi contemplado na corte (ja que as sete secretaries funcionarao no Palacio dos Despachos). O candidate a successor pode- ria ja ter sido escolhido, atendendo pelo nome de Simao Robson Jatene. Imediatamente Luiz Otavio, que tern iden- tica pretensao, comegou a enviar queixas e critics em volume cada vez mais estridente atrav6s de interlocutores. Ameacou virar a mesa, dando uma entrevista para O Liberal (que suspended a fltima hora sua publica- qao, depois de entender-se com o PalAcio dos Despachos). Foi chamado A residencia ofici- al, a Granja do Icui. Durante aproximadamen- te uma hora, na noite da filtima quarta-feira do ano, o senador eleito do PPB discutiu corn o governador. Num dos muitos moments em que a troca de desaforos p6de ser ouvida fora do gabinete, Luiz Otavio prometeu nao ser uma reediqgo de Fernando Coutinho Jor- ge, "o senador que o sr. levava cinco horas para tender e ao qual nada comunicava". Saiu batendo a porta. No dia seguinte, poucas horas antes do anilncio de um secretariado que anoitecera formado e amanhecera desarrumado, Simao Jatene procurou Luiz Otavio para uma con- versa. Ofereceu seu lugar para uma composi- 5ao (na verdade, uma trigua) ao pr6prio se- nador, que, sem outra alternative, aceitou ser o improvisado ocupante do cargo que deve- ria ser a grande inovaio dessa mal explicada reform administrative, cujo carter reformis- ta foi turvado pelas rasteiras contaminag6es politiqueiras que andaram sendo criticadas no pr6prio reduto governmental. Com o ajuste secundario, de trocar Sei- xas Lourenqo por Edson Franco na inade- quadamente batizada Secretaria de Promo- gao Social (dedo do formalmente rebaixado secretario de Cultura, Paulo Chaves Fernan- des, ainda um cortesao, por6m), o naipe de ases do governador foi finalmente fechado, permitindo-lhe anunciar os sete secretarios sem submeter seu maior parceiro, o journal O Liberal, ao inconvenient de dar "furos" (soprados de cocheira) que, depois, preci- saram ser corrigidos. Fim da crise? Certamente nao. O que pa- recia ser o inicio de uma nova era no Para mostrou-se mais uma das muitas improvisa- q6es feitas no Estado atras dos cartazes mais vistosos e das promessas mais solenes. Um senador da Repfiblica esta condenado a ser secretario por pouco mais de um mes. Se tiver que continuar na secretaria precisara renunciar a ela, assumir seu lugar no Sena- do, licenciar-se do cargo e voltar a ser no- meado secretArio, numa manobra dificilmen- te compreensivel fora dos limits de uma provincia acanhada e primrria, mas sufici- entemente nebulosa para comprometer a image solar com a qual o governador pre- tendia projetar seu segundo mandate, gra- gas ao marketing. E pouco provavel, entretanto, que Luiz Otavio troque sua cadeira senatorial pela de secretario, mesmo que uma peripatetica interpretagao conspirativa veja nessa al- ternativa uma maneira de o governador ofe- recer o cargo ao suplente, um empresario de Santardm, langando uma isca para fisgar o prefeito Lira Maia, seu oponente no re- duto no qual sofreu sua maior derrota. Nao e exatamente o caso: a luz de Tucurui sera tao ou mais sedutora do que a complete incorporacqo do prefeito do PFL gueirista. A luz, como ninguem ignora, atrai os series heliotr6picos. Se Luiz Otavio nao quer ficar, quem o subs- tituira na estratdgica mas jA desvalorizada na bacia das almas das coxias political Se- cretaria da Producgo? Se ele for o vencedor da queda-de-brago, quem ele indicar, talvez o ex-secretArio e ex-candidato a prefeito e de- putado federal Ramiro Bentes, sua melhor opgAo. Mas nesse caso o governador tera sido o grande perdedor, o que estA fora de cogitagdo, por ser de pavorosa contradigao com o estilo Almir Gabriel. HA que ser tentada a inefAvel "terceira via", o que deve demandar tempo, mas nao muito, por precisar ser apresentada antes da posse de Luiz Otavio, em pouco mais de 30 dias. Confiante em seus trunfos, ele con- tinuarA proclamando ser o inico secretario cor acervo de votos, o unico representante politico na equipe e credor do governador, por ter aceitado ser o candidate da coliga- qao ao Senado, quando tinha lugar certo na Camara Federal e todos consideravam im- possivel vencer Hdlio Gueiros. Como ainda d jovem e terA o guarda-chuva do mandate pelos pr6ximos oito anos, poderia absorver qualquer desatino. Alguns apostam em que o problema rapi- damente perderA sua gravidade atual. Apos- tam que tudo foi produto do temperament explosive do senador, que, assim, teria reagi- do num arroubo irrefletido. Serenadas as coi- sas, ele se reconciliara corn Almir Gabriel e a coesao sera restabelecida. E uma hip6tese. Mas hA outra. A parte a maneira de ser de Luiz Otavio agasalhar a especulagao mercurial, a firmeza exibida di- ante do governador sugere que ele pode nao ter dfividas quanto aos pianos de Almir. Acei- ta-los significaria sujeitar-se a um destiny semelhante ao de Coutinho Jorge (lembrado mais de uma vez no bate-boca do Icui), sen- do um senador de cabresto, um boneco de marionete do governador, obrigado a aceitar seu diktat imperial. A rebeliAo de Luiz Otavio foi a u'nica a emergir, mas nao e a inica a sobrenadar na superficie de aparente calmaria das Aguas governamentais, falsa situagao favorecida pela conivEncia da imprensa com o script dos press-releases orais (nem assumir a for- ma escrita 6 mais necessArio para eles pro- duzirem seus efeitos). HA o destiny do vice- governador Hildegardo Nunes, que transi- tou por pelo menos duas secretaries antes de ser ombreado num novo cargo sem pasta cor Simao Jatene. O que especificamente cada um desses guards pretorianos farA vai defender do que Almir Gabriel quiser que facam. A esse inconvenient ainda inson- dAvel soma-se a frustra5ao do vice, que se julgava preparado para ter fungao vital no governor, comandando a producgo que o governador imagine desencadear em seu mandate reprisado. A dimensao shakespeareana do vice como possivel successor em 2002 ainda pas- sara pelo teste das urnas do ano 2000. Mais uma derrota a terceira consecutive em Soure, o reduto por excelEncia dos Nunes na ilha do Maraj6, podera ser fatal para as pretensbes do ex-quase-futuro candidate ao governor do Estado. O que poderA ser bom ou ruim para Almir Gabriel, conforme estiver sua estrat6gia (constantemente reciclada) naquele moment. E ha ainda o future do assessor especial- secretario-guru Simao Jatene, que, segundo a meliflua ironia do senador Luiz Otavio (s6 adota por quem pensa num caminho sem retorno), "goza de perfeita saude fisica e de virilidade". Jatene nao foi A cerim6nia de posse do governador, no dia 1. JA nao sen- do mais um dos sete homes de ouro. ele bem podia dar-se ao luxo (nada desejAvel, entretanto) de preencher uma lacuna cor sua ausencia. Teria sido uma forma de manifestar seu desagrado por oferecer seu cargo no altar da recomposigao do governor? Ou teria sido simplesmente porque naquele momen- to ele articulava a composigao da chapa que venceria a dispute pelo comando da CAmara Municipal de Belem, primeiro pas- so para assegurar, na Assembl6ia Legisla- tiva, um substitute de confianqa na even- tualidade de Almir e Hildegardo precisa- rem se desincompatibilizar para a eleigao de 2002, ainda na superior estima do go- vernador, apesar de tudo? Muita informaqao precisara ser recupera- da nos pr6ximos dias e alguns mist6rios des- feitos para que se tenha uma avaliaqao com- pleta e segura do terremoto que abalou por dentro o governor Almir Gabriel, por geracqo pr6pria, medindo-a na escala Richter muito pr6pria dos politicos. Mas uma coisa 6 fora de dfivida: o gover- nador nao engolirA o sapo que colocaram dentro da sua boca, a meio caminho do est6- mago, para uma digestao que nao se consu- mara. Dele, o president nao empossado Tan- credo Neves poderia dizer o mesmo que dis- se do governador Itamar Franco, um politico que guard seus rancores no congelador. Mais dia. menos dia, a crise dos dias 30 e 31 descongelarA, a despeito da conspiraqao de silencio que se fez nesses dias, cor a decisi- va participagao de uma midia conivente. * JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 A democracia utilitarian no reino do dr. Gabriel Na unissona entrevista que na semana passada se permitiu conceder, do alto do tro- no, no "chavesessimo" gas6metro do Par- que da Residencia, transmitida pela TV Cul- tura, o governador Almir Gabriel admitiu que, no seu primeiro mandate, praticou uma forma pessoal e restritiva de democracia. Aquele tipo universal, baseado na pluralidade e na controversial, na dialetica dos opostos e dos contrarios, construido penosamente pela humanidade ao long de seculos, este foi deixado de lado. Perde-se muito tempo com conversa, ge- ralmente fiada, explicou sua excelencia. t melhor trabalhar muito e ouvir pouco. "Nao fechamos a porta, mas ouvimos naquilo que precisavamos", disse o governador, assumin- do-se como o te6rico da "fazegao", segundo um dos neologismos alias, muito tucano - que cunhou na ocasiao (a "nao-sa-ide" e outra tortuosa construqao vernacular). S6 agora, em seu segundo mandate, sua exce- l1ncia estA disposta a ouvir, tanto que criou uma cadeia de comando centrada num vice- rei ad-hoc, o doutor SimAo Jatene, para dis- por de mais tempo. Diz o povo que o hlbito faz o monge e o uso do cachimbo entorta a boca. Se quase nada ouviu durante quatro anos, estara o go- vemador em condic6es de ouvir no quatrianio que se inicia? t de duvidar. Sua excelencia estava entretida numa prosa agradavel com seus pares jornalistas. logo depois da posse, confetes voando de um lado para outro, sorri- sos retribuidos corn sorrisos, num prolonga- mento da festival confraternizagao de uma tres dias antes, quando uma impertinente reporter tentou perguntar-lhe sobre a sentida ausencia do super-secretario-Jatene na cerim6nia. O grande ausente... ensaiou ajornalista. O governador deixou a pergunta pelo ini- cio e as reticencias sem seqiiencia, virou as costas e foi-se. Deixou atras um rastro de es- panto, constrangimento e risos amarelos, condescendentes, entretanto. 0 atual gover- nador Almir Jos6 de Oliveira Gabriel sempre foi uma pessoa que, quando ouve, nao fala. E quando fala, nao ouve. Nunca foi, por isso, uma fontejornalistica. Tem, para bons jorna- listas, o mau habito de extrair tudo o que lhe interessa e nao retribuir cor o minimo das informacres que, por sua posicao no tabulei- ro do poder, chegam-lhe ao conhecimento. Talvez se tivesse continuado a ser ape- nas (o que nao 6 pouco) um excelente cirur- giao de pulmao, o cidadao Almir fosse, ad aeternum, um home agradavel, um papo fascinante, alguem em quem acreditar e apos- tar as fichas. A seducio do poder, entretan- to, o transformou numa maquina de maqui- naqao, se a necessAria redundancia d admi- tida como reforqo de ideia. Infelizmente, o governador Almir Gabriel construiu, nestes quatro anos, uma impren- sa A sua imagem e semelhanga. Uma impren- sa que nao incomoda, nao pensa, nao ques- tiona, pretendendo ser uma extensio da von- tade do poderoso. Entrevistas coletivas se transformaram num iimulacro dejornalismo. Qualquer pessoa letrada sabe que ninguem cede voluntariamente o que ter e sabe nes- ses encontros. As coletivas s6 se justificam porque os rep6rteres questionam e instigam o entrevistado. De outra maneira, estao tra- indo o compromisso cor a opiniAo pfblica. Faria bem o governador Almir Gabriel dan- do um pulo a Washington, ele que 18 pouco e raramente sai dos limits da provincia, para assistir a uma entrevista coletiva do presi- dente dos Estados Unidos em plena Casa Branca. O home mais poderoso do planet, que pode tentar resolver com misses, em parte distant do planet inc6modos pesso- ais de alcova, 6 levado as cordas e fustigado at6 soar o gongo, sem poder refazer as regras segundo suas conveniencias de poderoso acusado. Fazer perguntas inconvenientes nio 6 crime. Respond8-las nao e privilegio monocratico. Entre os contendores ha a so- ciedade americana. Lembro quando o Washington Post espre- mia Richard Nixon. O porta-voz, Ronald Zie- gler, dava respostas amolecadas as consul- tas dos rep6rteres do journal e ate agredia a dona ("vamos secar as tetas de Katherine Graham", vociferou), mas o Post nao foi ex- cluido da cobertura da presidencia. As re- gras continuaram a prevalecer, apesar da vi- rulencia do ataque de um president como Nixon, formado nos mais sujos laborat6rios do poder dos Estados Unidos (o dirty Dick). E claro que raramente pode-se extrair a verdade da Casa Branca, mas busca-la 6 uma prerrogativa da imprensa, enquanto repre- sentante da sociedade institucionalmente re- conhecida. I. F. Stone deixou de participar de coletivas quando fez o seu I. F Stone's Weekly, dedicando-se a investigar nas fon- tes primarias e nao nas suas verses elabo- radas. Stone, aos 45 anos, professional esta- belecido, tinhajA condicges de interpreter o que os poderosos diziam a opiniio pfiblica atrav6s dos rep6rteres. Mas estes continu- avam fazendo a sua parte. E das parties que se forma o todo. Quanto mais pluralidade ha, tanto mais tolerante o regime se torna, nao s6 (nem so- bretudo) pela tolerancia voluntaria de um in- dividuo, mas pela imposicao institutional e constitutional da aceitacao das minorias. E assim que a democracia se aprimora. A do governador Almir Gabriel, sendo uma demo- cracia condicionada, tdo relative quanto a do general Ernesto Geisel (durante cujo manda- to ele foi secretario de safide do governador indireto Alacid Nunes) e de outros ditadores (mal) disfarqados, 6 uma pobre democracia, uma democracia pobre. Age pessimamente a imprensa, traindo sua mais nobre fiunco, quando torna-se coro unissono sob a batuta de um poderosb, sem uma conseqtiente e bem adestrada voz dis- sonante. Os principios estao sendo abolidos, mesmo os elementares, que impediriamjor- nalistas de receber presents cars ou de valor commercial, capazes de afetar sua isen- qao e independ6ncia ante o presentador, mes- mo presents de valor mediocre comparati- vamente a esses principios, como telefones celulares e suas respectivas linhas. O poderoso transforma-se em ditador (ain- da que cordial) e os aderentes em seus lacai- os, levando essa mix6rdia ao empobrecimen- to da vida social e da democracia que lhe daria sanidade political. E o rei desfila nu pela avenida sem o risco de enfrentar a coragem de um menino hicido. No conto de Ander- sen, alias, e a conivencia geral que impressi- ona mais do que a ousadia do menino que solitariamente v6. 0 I rrrelev n cia Irawaldyr Rocha morreu em junho de 1997. Um ano e meio depois, seu cargo de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municipios ainda nao foi preenchido. Desde entao, o goverador Almir Gabriel usa essa funio como instrument de negociacio political. E umna pea valiosa: pelo powder que confere e pela sinecura que propicia (sobretudo pela vitaliciedade do cargo, uma excrescencia que seus membros mais s6rios em todo o pais minoritariamentetentam eliminar). E impressionante que o pr6prio tribunal atd hoje nada haja feito de conseqiiente para obrigar o goverador a preencher a vaga. Esse v~cuo torna-se argument poderoso para os que querem acabar com o TCM. Se ele tem funcionado regularmente com seis conselheiros (um a menos do que o niunero legal), pode existir comments. Ou deixar de existir. No Park, o TCM nasceu como um feudo do governador, gracas is nomeaq6es iniciais feitas sem concurso pfblico, que permitiram colocar na ciipula do 6rgao apaniguados, dependents e parents de Alacid Nunes e Jader Barbalho. 0 salutar process seletivo foi instituido. Mas a n6doa de ilegitimidade pemianece, aberrante. 4 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 Dupla ausencia na Sudam: do governador e da verdade O govemador Almir Gabriel encerrou seu O milagre da conciliacgo dos contrarios primeiro mandate de quatro anos sem compa- foi conseguida matreiramente por O Libe- recer uma vez sequer as reunites do Conselho ral, hoje o verdadeiro porta-voz de Almir Deliberativo da Sudam, embora sistematica- Gabriel, literalmente. Segundo a folha dos mente convidado pelos dois superintenden- Maiorana, o Para saiu ganhando porque a tes que se sucederam nesse period (o anteri- Vale, em troca de diminuir a aliquota ou nao or, Frederico Andrade, e o atual, Arthur Touri- dever imposto algum sobre a parte paraen- nho Neto) no comando do mais important se no lucro esperado de um bilhao de reais 6rgao federal da regiao. O governador nao para o exercicio de 1998, promete industria- assimilou at6 hoje o desgosto de haver consi- lizar ou beneficiary, atd 2005, as mat6rias-pri- derado nomeado o superintendent que indi- mas que arranca do sub-solo paraense, a cou ao president da Reptblica, o empresario prego cada vez mais aviltado (a tonelada do Fernando Flexa Ribeiro, logo depois de sua rico mindrio de ferro de Carajasja nem che- posse, e ver seu compare e correligionario ga a 15 d6lares). ser "desnomeado" no dia seguinte por inter- Numa dispute algo semelhante, 20 anos ferencia do senador Jader Barbalho. atrAs, o grupo Joao Santos prometeu instalar Como Barbalho foi visto por tras da colo- e colocar em funcionamento, simultaneamen- caC o de Frederico e Tourinho na Sudam, Al- te, as fabricas de cimento de Manaus e de mir lA nunca p6s os p6s, embora prometesse ir Beldm, para que os dois projetos fossem apro- As reunites a cada vez que recebia o superin- vados, vencendo a resistencia do represen- tendente no Palacio de Despachos do Estado, tante do ParA (na 6poca, Fernando Coutinho cor o convite entregue em maos. A confirma- Jorge, secretario de Planejamento de Aloysio 9go pessoal da reserve nunca foi honrada, o Chaves). A ind6stria amazonense funciona ha que, al6m de ser atestado de rancor politico, 15 anos, utilizando matdria-prima (o calcArio) passou a ser prova de incivilidade. do Para. A usina paraense espera ate hoje por A ultima reuniao do Condel, no dia 28, sua uma energia que se comprometeu instalar. Nem excelencia mais uma vez fez-se ausente. Man- por isso o grupo deixou de receber os incenti- dou o entdo secretArio-adjunto de Planejamen- vos fiscais. E nem assim o Para conseguiu fa- to, Sdrgio Leao, com um parecer contrdrio A zer respeitar o compromisso. aprovagco de isen9go e redugao de imposto de A diferenga 6 que naquela 6poca havia renda a Companhia Vale do Rio Doce, o mais mais vozes dispostas a mostrar os embustes polemico dos temas da pauta e o de maior re- e manipulacoes escondidos pela incondicio- percussao no Para. As razoes do secretario nal subserviencia ao discurso official. A his- perderam a forga que teriam se fossem apresen- t6ria correta das conseqiiencias da decisao tadas pelo pr6prio governador, mas ainda as- do iltimo Condel ter que ser buscada, ago- sim Almir saiu vitorioso, apesar de a CVRD -jA ra, do outro lado da terceira margem da ver- privatizada ter obtido tudo o que pretendia. dade made in Para. * A permuta que nao houve Se o senador Jader Barbalho estava real- mente convencido de que a intencfo real por tras da renegociagao da divida do Banpara e do pr6prio Estado 6 de privatizar o banco, nao devia oferecer essa posigao doutrinAria como moeda de negociaggo para a libertaago da capital Vanessa Vasconcelos. Nesse caso, o objetivo do senador deixara de ser a salvagAo do Banpara como banco es- tatal, ameagada pelas vantagens oferecidas pela Uniao na renegociafao da divida, segun- do seu discurso. Passara a ser deixar o gover- nador Almir Gabriel em situagAo dificil: man- dando libertar a military, mantida presa durante 16 dias em regime fechado num quartel da Po- licia Militar (ver Jornal Pessoal 201), o gover- nador estaria reconhe- cendo o carAter politi- co da media. Para evitar o xeque- mate, a libertacao da official foi efetivada atrav6s de um ato do comandante geral da corporaqao, coronel Fabiano Lopes, publi- cado no boletim geral da PM. Ele decidiu "re- levar a punigao disci- plinar imposta a cada policial military, no Am- bito das Unidades da Capital e do Interior, nos casos em quej tenham cumpridos [sic] pelo menos metade da punigao", conside- rando que os objetivos da punigao foramm atingidos" e o espirito da dpoca natalina e de fim de ano. Indo al6m, o goverador negou que sequer tivesse telefonado para o president do Sena- do, Antonio Carlos Magalhaes, pedindo-lhe para interferir na tramitagao do process da renegociagao divida, para que ele fosse apro- vado ainda em 1998, sob pena de inviabilizar o Banpara. O senador baiano, falando em plena- rio, disse que a ligagao partira do goverador Colonialismo A Eletronone 6 a setlunda inaior em- presa do Distrito Federal. de acordo corn o mais recence le\antamento da Funda- qJo Getrllo V\"args A empresa cs.i co- meniorando a faqanha nunm nuncio insti- tucional. Que tal finalmente se apresentar corno uma verdadeira einpre~a dJ Amna- zonia. aqui sediada. e nio conmo uma cor- pora;,o merropolitana que por aqui balia corn seu modelo enlcrLerico coloniajlo '- u4Pr.*~.. --a c.- IL.^.1 _... ....... paraense, oferecendo a liberdade da capital como arma contra a obstrugao que Jader vinha fazendo. Almir disse que o telefonema fora iniciativa de ACM. Pano rApido foi providenciado por to- das as parties. Seus interesses imediatos tinham sido alcanca- dos. JA os do povo fi- carAo para outra opor- tunidade. S 0 onus do segredo Afinal, sobre o que conversaram e o que acer- taram o govemador Almir Gabriel e o prefeito Edmilson Rodrigues na reuniao a s6s, sem qual- quer testemunha, que tiveram no dia 14, no Pala- cio dos Despachos do Estado? A audiencia foi solicitada pelo prefeito de Belem e atendida ime- diatamente pelo governador, graqas a um acerto pr6vio para a reaproximagao dos dois, atd entio inconciliAveis adversirios. O prefeito levou con- sigo tres auxiliares, chamados ap6s a conversa reservada, A qual nem o onipresente Simao Jate- ne teve acesso direto. Disse Edmilson a imprensa (foi o nico a falar ap6s o encontro) que a agenda foi estritamente t6cnica, para estabelecerum entendimento a res- peito de obras de interesse comum, como o pro- longamento da avenida 1 de Dezembro, o Eleva- do do Entroncamento e a rodovia Augusto Montenegro. Mas, evidentemente, esse nao foi o temArio principal de um encontro rigorosamen- te a dois. Se houve alguma composigao political, entre- tanto, ela se desfez quando, mais uma vez, 10 dias depois, Almir Gabriel intrometeu-se na poli- tica municipal para fazer a mesa diretora da CA- mara de Beldm, marginalizando novamente os petistas. Foi a reprise da derrota anterior de Ed- milson, pelo mesmo motivo. Uma prova desse desfecho, que restabeleceria a posifio anterior do affaire, seria a ausencia do prefeito A posse do governador. Mas essa pode ser uma meia-derrota: de qual- quer maneira, o prefeito, ja em campanha pela reeleicao, manteve fora desse posto estrat6gico o vereador Raul Meireles. Candidate da vice- prefeita, Ana Juilia Carepa, ele seria um reforco a pretensao da quase-senadora de bater chapa corn Edmilson na convencgo do PT e impor seu nome para sucede-lo no Palacio Ant6nio Lemos, con- tra a vontade do alcaide. Um acerto tortuoso nesse sentido entire Al- mir e Edmilson, contudo, e dose exagerada ate para urn Maquiavel de botequim. A apresenta- 9ao dessa hip6tese 6 um resultado indesejado - mas previsivel do carter sigiloso do encontro do govemador com o prefeito. Se ojogo tivesse sido feito absolutamente As claras, sem ter o que esconder, todos seriam obrigados a aplaudir esse necessArio entendimento entire as duas maiores autoridades puiblicas baseadas na capital do Es- tado, em beneficio da sua populagco. Mas como nenhum fato novo surgiu, entire as escaramugas que se sucediam infantilmente atd uma semana antes e a data do encontro, ca- paz de explicar a nova disposigio dos dois poli- ticos, eles ainda vao pagar o prego de s6 conver- sar entire si o que devia ser partilhado lealmente corn a opinito puiblica. * Diferen9a A Revista do Instituto Hist6rico e Geografi- co Brasileiro 6 publicada ininterruptamente ha 150 anos. No mes passado saiu o nimero 400, corn nada menos do que 1.563 paginas, conten- do o indice geral de todas as matdrias at6 hoje publicadas na revista. A do Instituto Hist6rico e GeogrAfico do ParA nao 6 publicada ha um quarto de sdculo. 0 iltimo nimero ainda foi de responsabilidade do historiador Emesto Cruz, jA falecido. Isto talvez se deve a que a esmaga- dora maioria dos s6cios do institutojamais sou- be o que fosse publicar sequer um artigo, ou para que serve a hist6ria e a geografia. 0 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 5 0 lirismo do discurso e a aspera realidade Em 1970 o general Garrastazu Medici, o ter- ceiro president do ciclo military estabelecido em 1964, foi A sede da Sudene, em Recife, e leu um discurso lirico-emotivo sobre a terrivel seca centenaria que entao flagelava o Nordeste. O texto era de primeira qualidade sob este as- pecto. Dele resultaram, como medidas prati- cas, as mesmas frentes de trabalho integradas por flagelados e a abertura de mais um fluxo migrat6rio de nordestinos para a Amaz6nia. Muita gente lacrimejou no audit6rio da Sude- ne, mas ambas as regi6es sairam perdendo em conseqtincia dos arroubos po6tico-reformis- tas do general-presidente. O discurso que o govemador Almir Gabriel leu, no plendrio da Assembl6ia Legislativa, logo depois de receber seu segundo mandate consecutive, pode provocar paralelismo corn o imperturbAvel e populist tirano de quase 30 anos antes. Escapando ao bitolamento forma- lista do cerimonial, o m6dico Almir Gabriel ten- tou transformar seu pronunciamento numa convocaqco geral A uniao de todas as pesso- as de f6 e boa vontade, tocando-as corn sua mensagem de confianga e otimismo. Tudo isso, 6 claro, desde que todos os es- colhidos aceitem sua lideranca e seu coman- do. Entre os "rigorosamente todos" convoca- dos no preambulo de sua oraqAo, sintomatica- mente, o goverador nao incluiu a oposiiao e os critics. nem mesmo os bafejados pelo de- sejo de construir e a intenqAo de acertar. A uniao "gabrielina" de todos 6 um unis- sono sem matizes, que define cada um dos personagens conforme eles se posicionem em rela o A mensagem do chefe ou, dito corn mais precisao hist6rica, do condottiere (falar em flihrer seria evidence injustiga, mesmo por- que o padrao 6 latino e nao germanico). Quem aceita 6 bom, merece os afagos do poder. Quem nao aceita 6 mau; a ele, o 6leo dos infernos - ou os rigores da lei, para nao ser mais uma vez injusto, embora sua excelncia se mostre cada vez mais inesperadamente biblico. Um governador que, em seu agradecimen- to aos que contribuiram para sua bi-gover- nanga, nivela o marketing e a imprensa, sabe jnuito bem como manejar uma verdade e uma meia-verdade, apresentando-as como se fos- sem uma s6 e a mesma coisa, algo muito mais perigoso do que a mentira aberta. Como quase todos os politicos, inclusive os ana- tematizados em sua locunao, o governador tem razao apenas quando critical, nao quan- do propbe, apresentando-se como modelo ou alternative. E mais do que certo que a perda de peso relative do Para ao long deste s6culo 6, em boa media, produto das political conc6ntri- cas de poder praticadas nesse period. Elas foram a gazua que deu acesso aos cofres pfi- blicos a uma elite minima de privilegiados. Era- rio virou sininimo de butim. Enquanto isso, os mais importantes investimentos produti- vos agravavam na estrutura econ6mica, pelo seu pouco ou nenhum efeito distributivo e reprodutivo, essa atrofia combinada de rique- za, renda e poder num Estado que caiu do 30 para o 180 lugar na federaco brasileira entire o alvorecer e o crepfisculo deste s6culo. O govemador esta certo em atacar o pas- sado, mas ele 6 tambdm esse passado. Em al- gum moment, depois de haver servido a deus e ao diabo na terra do sol, Almir se apresentou como o demiurgo de suas origens. Mas a mai- or novidade que trouxe consigo quando su- biu as escadarias do principal cargo pfiblico do Estado foi o da ret6rica. Gracas a ela, o discurso ficou mais limpo, mais convincente, podendo ser melhor traba- Ihado pelo marketing, que tanto seduz sua excel8ncia, fazendo-a conceder aos malaba- ristas da mensagem ou aos controladores monopolistas da informaqao tudo o que rei- vindicam, at6 transformar num event do Es- tado festa de fim-de-ano privd (como se diz nas boas rodas). Seria como se a SS fosse ao baile de mascaras dos Krupp, se a inspiraqAo fosse germanica e, efetivamente, nao o 6. E melhor pensar mesmo num condottiere meri- dional, napolitano talvez. Onde abundou a pretensao po6tica, filos6- fica ou pastoril faltou o que faz a diferenqa quando se trata da linguagem: grandeza. Num document concebido para construir para o future, o governador se permit dar alfineta- das de colunismo social e fazer charada de politicamunicipal. O senador Jader Barbalho 6 mimoseado com o ataque ao "prestigio eventual que atra- palha e retarda, ainda que carregado de ma- goa travestida em cuidados antes nao havi- dos". Por que nao dar nome ao boi, expurgan- do as sutilezas codificadas, que nada contri- buem para a pedagogia do povo? Ou o nome do boi, ou nao se fala em manada. O recurso As indiretas poupa os riscos, mas nao atrai merecimento algum pela ousadia de falar, quan- do ousadia nao h. Por que nao dizer que o Tribunal de Contas do Estado estA entire aquelas instituig6es que "nao conseguem se enquadrar nos percentu- ais orgamentArios preestabelecidos, embora esse percentual se aplique sobre um volume maior de receita global do Estado", forgando o executive estadual a "repassar suplementa- cao substanciosa de recursos, at6 o valor de quatro milh6es de reals, para um 6rgAo que continue produzindo a mesma coisa ha d6ca- das, que se modernizou com computador, tra- balha com conforto e remunera servidores de nivel m6dio acima do que pode o Executivo pagar a um m6dico comespecializaqao de anos na Alemanha"? Se o discurso fosse realmente programati- co, um toque de reunir para combater os males e chagas que consomem o ParA, em torno de um projeto superior, que deslocasse a peque- nez contumaz da elite dirigente, sua excelen- cia nao deveria diminui-lo cor referencias lo- calizadas, datadas, especificas, ainda que ba- tendo no ferro corn martelo envolto em panos grossos, na melhor tradigio (inventada, como apontaria Hobsbawn) tucana. Se o faz, 6 por- que o senador peemedebista nao embarcou em sua esquadra eleitoral e o TCE censurou sua prestagao de contas. Tocassem pela parti- tura do maestro, nio seriam citados como exem- plo de opr6brio, mas abarcados pelo afago de urso do chefe. Proclama o governador, antecipando-se aos historiadores (e ao mesmo tempo excluindo- os), que seu governor se caracterizou "pela busca da uniao e pela construgAo de um proje- to coletivo de Estado". Para ser pelo Pard, en- tretanto, a uniAo pressupunha a submissao ao governador. O Estado era ele, A maneira de Luis XIV, porque, como o pr6prio Almir desta- cou na coletiva televisada e "marketizada" do gas6metro, ele s6 consultou terceiros quando precisou. Isto 6 democracia cor tutor, se de- mocracia pode ser. No s6culo 18 esse modo de gerir o Estado foi chamado de despotismo esclarecido. Mas entao havia Rousseau, Voltaire, Molibre e at6 o nosso Vieira na base ou na fiscalizagao des- sa reform a partir da vontade do principle, apontando-lhe a nudez, quando o caso. O caos administrative estabelecido por Ja- der Barbalho, ante-sala da promiscuidade en- tre o piblico e o privado, entire o erario e fortu- nas pessoais, isto realmente foi estancado (ou se tornou organizado, se nos permitimos ceti- cismo). De mais ordem administrative e efici- encia formal dos serviqos do que havia sob o nazismo, entretanto, hA poucos exemplos na hist6ria. Esta melhoria nao e tudo e pode ser quase nada, dependendo a que serve. Infeliz- mente, o goverador Almir Gabriel nao apre- sentou no seu primeiro quatrienio um projeto de future para o Para, nem suas credenciais de um condutor do povo como se fora um novo Mois6s made in Castanhal. O caminho ao im- passe apenas foi melhorado. Alem de inconsistent na correspond6n- cia entire o discurso e a realidade, seu texto, forgadamente literdrio, tropecou nas pr6prias pernas, acidente inevitavel quando algu6m tenta um pass maior do que a envergadura do seu caminhar. "S6 seremos nacao quando todos amarmos e defendermos nossos simbo- los e quando estes simbolos forem expurga- dos da exclusao social", leu o goverador. Talvez tivesse querido ler: "S6 seremos naqao quando todos amarmos e defendermos nos- sos simbolos e destes simbolos for expurgada a exclusao social". Este, sim, 6 um erro sutil, mas talvez sua excel6ncia se aperceba melhor do seu signifi- cado se der-se ao trabalho de ler o trecho de A Montanha Mdgica, o grande romance do tam- bem alemao Thomas Mann, no qual Luigi Set- tembrini e Leo Naphta refazem o percurso da humanidade atrav6s de um estonteante con- fronto de id6ias. Todos ganharemos, inclusi- ve o cidadao Almir Jos6 de Oliveira Gabriel, se dessa leitura resultar uma condug~o mais ver- dadeiramente humanista, lirica e po6tica dos destinos do Pard do que deixa crer o discurso de posse. Talvez possamos perceber que ele 6 uma mensagem do corag o, da mente e da alma, nao uma construgao do marketing, que tanto fascina condottieres, fuhrers e outros d6spo- tas, mais ou menos esclarecidos. * 6 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 l k 1 "111 l . * Esta secio permanece, apesar de dois fa- tos desestimulantes: o leitor nao escreve e os poucos servidores pilblicos que tem tido a dignidade de responder as cobrancas aqui feitas nao retornam ao assunto quando seus esclarecimentos sao posts em questao. Mais uma vez ressalto que as observances desta secao nao tme o carter de denuncia, nem devem ser entendidas como dem6rito aplicado aos 6rgaos suscitados. O objetivo 6 duplo: instruir o cidadio sobre o acompanhamento das atividades do servico puiblico e prestar-lhe as infor- mades que sao do seu interesse (embora nem sempre ele esteja ciente dessa circuns- tAncia). E uma secao finica na imprensa na- cional. Tambem jamais vi algo parecido no jornalismo international. O minimo que se pode conseguir 6 tornar habitual a leitura do Diario Oficial, contribuir para a aproxi- manao de governantes e governados e adestrar o home letrado na decifracgo dos atos da administracAo pfiblica. Algum inconvenient nisso? S6 para os autocratas, os incompetentes, os manipula- dores e os servidores de mA f6. Lembro que, no seu segundo mandate de governador, o hoje senador Jader Barbalho adotou como norma mandar seus secretirios a Assembl6ia Legislative sempre que ali aparecia uma de- nincia contra a administracao estadual. Os secretarios e demais auxiliares do governor se colocavam A disposiqao dos deputados para debates e sabatinas. Com isso nao se pode dizer que no segundo governor de Jader nao houve irregularidades e corrupiao. Mas pode-se escrever que a classes political nio foi capaz de provar como elas ocorreram. A partir dessa constatacio talvez seja mais correto concluir que a classes political esta desprovida de meios para provar o que denuncia do que atestar a lisura do gover- no. Mas essa norma estabelecida 6 mais salutar e proveitosa para a democracia do que a attitude de fechamento e resistencia do atual governor. Ele pretend ser o anti- poda da mulher de Cesar, para a qual nao bastava ser honest, mas tambdm era ne- cessArio parecer honest. A administraq~o Almir Gabriel transfor- ma os que ainda resisted ao sufocamento da liberdade de critical, cobrando a verdade, em suspeitos de ma fd simplesmente por te-' rem questionado o satrapa do principle. Dai provavelmente decorre o mutismo imposto aqueles poucos servidores pfiblicos que nao encaram a critical como pecado mortal, con- denando automaticamente o critic aos 61e- os dos infernos. Esta secbo ainda acredita na possibilida- de de um dialogo, por mais asperamente que ele venha a ser travado, * A Secretaria de Transportes aditou em 3,2 milh6es de reais o contrato originario (de R$ 15,6 milhoes) assinado no ano passado com a Estacon para a restauracAo da PA-150. O termo aditivo nao 6 muito claro, mas pode-se deduzir que houve o acr6scimo de um sub- trecho de 148,4 quil6metros ao trecho origi- nal, de 424 km (de Moju a MarabW). Diz o extrato que o acr6scimo de servio "e6 neces- sirio em virtude de nao ter sido previsto na Planilha do Contrato". A dvvida 6: embora nio incluido na planilha, esse sub-trecho fa- zia parte do contrato original? Se assim for, o aditamento tem mero efeito corretivo. Se as- sim nao 6, o aditivo pode ser indevido. Em seulugar, deveriater sido realizada nova con- correncia ou ao menos redigida nova justi- ficativa. Outra dfuvida: por que apenas E$ 100 mil do aditivo foram empenhados, ficando para depois R$ 3,1 milhoes? * Os 6rgAos da administration estadual de- veriam tomar como modelo de extrato deter- mo aditivo o que a extinta Secretaria Especial de Desenvolvimento Estrat6gico publicou no Diario Oficial do fltimo dia 29, caderno 1, pigina 9. Sumarizoutanto o aditivo quanto o contrato original, ao invds de simplesmente fazer o arrolamento dos atos anteriores no final do extrato do termo aditivo, como tern sido a pritica. Esse document mostra que, quando ha boa f6 e boa intengao, o trabalho adicional 6 mais do que compensado pela sensaqao do dever cumprido da parte de quem realizou o servigo como pela satisfa- cqo de ser bem informado da parte do cida- dao comum. Essa forma de comunicacio s6 nao 6 aperfeicoada porque nao se quer aper- feigoA-la. Parab6ns p6stumos A SEDE. * Nesse DO a Empresa Puiblica Ofir Loyo- la, sob a alegagdo de que os respectivospro- cessos licitat6rios s6 foram deflagrados "ap6s aprovaodo do orgamento ", aditou seis contratos de prestacdo de servigos, que vi- gorarao por prazo indefinido de 1999, "ate o tirmino do Processo Licitatorio que serd deflagrado ". Nao se sabe se em algum des- ses contratos a licitaadojd estava em curso (embora tendo comegado quando o respec- tivo orgamento jd fora concluido), ou se to- das s6 serao iniciadas agora (o que poria em questdo ajustificativa da prorrogagco). Todos os seis aditivos merecem reparos, mas vou me concentrar em dois. Em 1995 o Ofir Loyola assinou um contrato de vigilan- cia cor a Puma, no valor de R$ 152 mil. Des- de entao, esse contrato vein sendo prorroga- do e alterado. No nono e 6ltimo aditivo, o valor do contrato pulou para R$ 335 mil. Como isso 6 possivel sem uma nova licitagAo, ja que o valor mais do que duplicou? Como em outros contratos, o reajuste 6justificado corn os dissidios coletivos dos empregados do prestador do service e em seu reequilibrio econ6mico e financeiro. Mas estard realmen- tejustificado? E mesmo que economicamen- te o seja, essa ampliagio ter amparo legal'? E, efetivamente, do interesse pilblico? Ainda mais impressionante 6 a evoluqgo do contrato de limpeza e higienizaqgo do Ofir Loyola com a KM Servigos Gerais. Em sua origem, em 1995, o valor do contrato era de R$ 89,7 mil. No oitavo e derradeiro adita- mento, que entrou em vigor no dia 1'. sem data definida para se encerrar ao long do exercicio (e ate a tal conclusao do "proces- so licitat6rio deflagrado"), o valor saltou para R$ 915 mil, 10 vezes mais. Como expli- car tal incremento? Quem puder, que respond. Ou quem queira. * No mesmo DO a Cosanpa publicou aditi- vo de prorrogaciao, por 90 dias, do contrato de prestaFio de services de guard e vigilAn- cia ostensiva com a Bertillon. O contrato ori- ginario, assinado em 1996, erade R$ 104 mil, sofrendo tres aditamentos ao long de 1998 (ao contririo do que fez a SEDE, essas remis- sbes nao sao satisfat6rias). A Cosanpa nio informa qual o valor dessa prorrogacgo. Tam- b6m fica-se sem saber como um contrato de 1996 foi prorrogado para 1997e 1998. Ouqual o significado dos R$ 10 mil referidos no se- gundo aditivo. * 0 DO do dia 14 publicou a prorrogaado para abril do prazo para a conclusdo da obra da sede do Departamento de Trdnsito. F o segundo aditamento de um contrato as- sinado em 1997. Oprimeirofoi emjulho do ano passado. 0 extrato ndo disse para que foi assinado esse primeiro aditivo. 0 con- trato originario 6 no valor de 4,5 milhoes de reais, mas um press-release do pr6prio governojdfalava em R$ 5,5 milhoes. Foi o 1 aditivo que efetivou esse acr6scimo? Ou- trapergunta: qual ajustificativa para apli- car tanto dinheiro na monumental sede (ins- talada na Augusto Montenegro) de um dr- gao estadual que vai ter boa parte das suas fungoes municipalizadas? Nio e desperdi- cio de dinheiro? Oufaz parte da mesma 16- gica que possibilitou os estouros orCamen- tdrios do Parque da ResidOncia, Feliz Lusi- tdnia e Estagdo das Docas? S O conv6nio, com vig6ncia de quatro anos, da Policia Militar com o Grupo Fraternal Mi- liciano para o "gerenciamento" da alfaiataria instalada no Quartel do Comando Geral da PM, "destinada a confeccao de uniforms para os integrantes da Corporagco", 6 gratui- to, benem6rito? O extrato do conv6nio, pu- blicado no DO do dia 23, nao faz qualquer referencia a valor. Se bem apurado o service voluntArio por nada menos do que quatro anos, e assegurado o carter filantr6pico da instituigio 6 o caso de o governador provi- denciar uma medalha para ela. NA Secretaria de Transportes assinou um con- trato de R$ 174,5 mil corn a Tri A 4reo Itaitu- ba, vdlido por seis meses, para fretamento de um aviao para servirr ao governor do Estado (que ter sua pr6priafrota). 0 extrato, publi- cado no DO, deixa em divida se se trata de um contrato origindrio ou de aditivo. Se 6 con- trato, por que ndo foi indicada a modalidade da contratatao? Foi atrav6s de licitacdo ou essa formalidade foi dispensada? 0 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE DEZEMBRO 1998 7 Menos narcisismo, jovens jornalistas Lucas Tavares, jornalista de 24 anos, foi ao Oregon, nos Estados Unidos, entrevistar o escritor Ken Kessey, notabilizado na d6ca- da de 60 por defender o uso de drogas. Na apresentacao da sua matdria, publicada no fltimo nimero da revista Repfiblica, Lucas diz: "Em vez de encontrar um hippie velho e largado, achei um vov6 muito ligado A fami- lia, cor a mesma inventividade e juventude de trinta anos atris". A boa t6cnica recomenda ao jornalista s6 dar testemunho a prop6sito do que conhece diretamente, pessoalmente. Experiencias hau- ridas indiretamente exigem a citagio da fonte primaria. Ora, 30 anos antes Lucas sequer havia nascido. Como pode declarar que en- controu algu6m tao inventive ejovem quan- to antes? Deveria ter dito: Kessey esta tao jovem e inventive quanto o descreveu fula- no de tal 30 anos antes. Aspas nao 6 decora- gAo, como faz Veja. E o element devincula- qSo formal com uma realidade incorporada na essencia pelos sentidos do reporter. Escolher a primeira e nao a segunda al- ternativa nao 6 um erro individual, isolado: express uma patologia mais geral. E o refle- xo da cultural narcisista especificamente so- bre o jornalismo. Aldm de sempre pretender criar uma frase de efeito, como se a hist6ria da inventive humana estivesse dando um novo salto naquele exato moment, e o es- pirito de Moliere pairasse sobre todos, dis- posto a descer sobre qualquer um, o jorna- listas deste fin-de-sidcle faz levianamente seu o famoso "meninos, eu vi", sem na ver- dade ter visto e sem ainda poder se referir aos outros como meninos. O verdadeiro lugar de um jornalista 6 na ra, testemunhando acontecimentos, apren- dendo com fatos vivos, quebrando suas id6i- as preconcebidas, eliminando preconceitos, educando sua sensibilidade para poder cap- tar o novo, o inusitado, o inico, o marcante (sem os tais paradigmas "estuturantes" dos cientistas na cabega, que eles tnm uma fun- cqo e n6s, outra). S6 depois de muita estrada e de muitas estradas, umjornalista estA auto- rizado a declarar: "'meninos, eu vi". Mas corn comedimento e, ai sim, um senso verdadeiro do tempo hist6rico, formado por tantos tem- pos conjunturais, mas nao por todos eles. Todo aprendiz de jornalismo e todos os jornalistas que nunca aprenderam deveriam ser obrigados a ler o livro de mem6rias de Walter Cronkite (Walter Cronkite Rep6rter, DBA, 1998, 407 paginas). Nenhum outrojor- nalista, vivo ou morto, foi ou 6 mais influence do que ele. Ter sua base nos Estados Uni- dos, atuar mais intensamente na televisao, ser testemunha de alguns dos principals acon- tecimentos do s6culo e dispor de um aprecia- vel senso de equilibrio deram a Cronkite um poder inico. Apenas o atestado mais famo- so: Lyndon Johnson teria desistido de vez de um segundo mandate como president ame- ricano quando Cronkite o criticou pela TV "Se perdi Cronkite, perdi a classes m6dia, con- cluiu o hamletiano Johnson, um personagem indigno do seu papel, mas escolhido pelos sarcasticos deuses para desempenhA-lo. Pois bem: no seu livro, Cronkite trata mui- to mais dos seus erros e desacertos do que dos seus acertos e triunfos", o valor destes filtimos relativizando quase sempre. Teria motives mais do que suficientes para agir de maneira inversa, imitando centenas de anOnimos profissionais que escrevem pre- cocemente sobre suas suspeitas facanhas, antecipando-se ao sAbiojuizo do tempo e, com isso, expondo-se ao ridicule. Quanta sabedoria na humildade operacional de Cronkite, o maior dentre todos n6s, ilustres coadjuvantes! Quando suspeitarmos que nossa vaidade esta comegando a ultrapassar limits decen- tes, conv6m ler as palavras de Cronkite. Elas podem nos restituir o senso da proporcgo e do equilibrio, ajudando nosso modestissimo jornalismo a dar a contribuigao que a socie- dade dele 6 cada vez mais carente. 0 Um olhar sobre a Bragantina Quem, no moment, atua na decadente Zona Bragantina corn os olhos do futuro? AcertarA cer- to quem responder: a Alemanha. Os alemaes fazemparte de umpro- jeto para o estudo dos mangues do litoral paraense. Os brasileiros estao juntos, mas nao exatamente ombreados. Quem efetivamente comanda e sabe a destinaQgo dos conhecimentos sao os alemaes. Eles querem reconstituir os man- gues de seu pr6prio litoral, que foi devastado. Os mangues sao uma preciosa fonte de alimenta- iao e de equilibrio ecol6gico. Como j nio tem mais apaisagem natural, os europeus buscam re- constitui-lautilizando como labo- rat6rio o literal de paises subde- senvolvidos, como o supostamen- te "emergente" (qual a diferenga substantial?) Brasil. S6 por isso vamos ser contra os estrangeiros, no estrAbico na- cionalismo dos patriots formais? Claro que nao. Pesquisas de am- plitude interacional como essa sao indispensAveis. S6 que o co- mando de qualquer coisa em terri- t6rio brasileiro deve ser dos naci- onais. As fontes de referincia que constituem abase te6rica do pro- jeto tem que ser vertidas para a lingua national, os equipamentos tem que perder a couraga de cai- xas-pretas e se estrangeiros vem para cA com o dominion do proces- so, brasileiros devemirpara la para incorporar esse mesmo dominion, tudo rigorosamente paritario. Ao contrArio dos europeus, ainda nao destruimos nosso lito- ral como complex ecol6gico. Nio por terms melhor consciencia: 6 por falta de tempo mesmo. Mas se eles jA tnm a perfeita nogao da imprescindibilidade desses ambi- entes, devemostrazer sua altatec- nologia para interromper a rota predat6ria e tirar vantage de es- tarmos A frente nessa recomposi- ao. Claro que, tratando-se de pro- jeto bipartite, os dois lados tnm que tirar vantage do esforqo co- mum. Mas nao podemos renunci- ar ao nosso potential. O estudo dos mangues, como fonte de ciencia pura e aplicada, 6 um dos temas de uma nova agenda para a Zona Bragantina. Nao 6 a inica iniciativa inovado- ra. T6cnicos da Embrapa tamb6m pesquisam a reutilizagao das are- as degradadas pelo uso irracio- nal na colonizaqlo aberta entire o final do s6culo passado e as pri- meiras d6cadas do atual. Sao es- forqos de alto nivel. Mas falta um piano integrando-os As praticas correntes, todas visivelmente destituidas de capacidade com- petitiva no cenArio mais amplo da economic external. A fltima vez em que um go- verno (no caso, o federal) pen- sou na Bragantina como um todo, propondo-se a desenvolv6-la, foi hA um quarto de s6culo. Mas o Polonordeste do Para, criaqao de iltima hora, comegou equivoca- do e evoluiu claudicante at6 a morte premature. Nao s6 vale a pena tentar outra vez e melhor? t vital para estancar a progressive decadencia dessa Area estrat6gi- ca do ParA (do atual e do que so- cobrar A eventualidade de um desmembramento), encoberta por n6voas de confianga e em- preitadas sem solidez. Por tudo isso, e muito mais, merece louvor o seminario "Ato- res e Autores da Bragantina", re- alizado no mis passado pelos in- tegrantes do projeto de pesqui- sa "O Para e as bases de uma so- ciedade agrAria". do Departamen- to de Sociologia da Universida- de Federal do Para. Precisa ter apoio para continuar, se aprofun- dar, se enriquecer. E dar os bons frutos de que a regiao 6 tao ur- gentemente carecedora. Para tanto, nao custa lembrar que o golpe mais letal aplicado at6 hoje A Bragantina, a extinio da sua estrada de ferro, consumou- se a despeito de toda a resisten- cia oposta pela sociedade para- ense. Nao faltou vontade de im- pedir esse crime. O que faltou foi saber que alternative real e exe- qiivel apresentar para evitar que o ex-vice-rei do Norte, Juarez TA- vora, executasse as ordens desa- justadas da realidade local do seu marechal Castelo Branco. Nao basta querer: 6 precise sa- ber como transfomiar avontade em realidade. Oprojeto daUFPA, com- binado com as boas iniciativas em curso, pode colocar essa preciosa ferramenta nas maos dos que que- rem transformar essa regiao, con- denada A decadencia pela letargia de todos e a falta de imaginagao criadora da sua elite. 0 Hist6ria 0 go erno jura de ps jun- tos que o Banco do Estado do Pari n.o sera pri alizado. No mnximo, podera se Iransfor- mar em agincia de fomenlo. F uma deslin qho m uito mais saudaiel do que a forma atu- al, embora vA acarretar de- miss6es e encolhimento. Mas se essi e uma mela para \a- ler, por que a Secretaria do Planejamento do doulor Ja- tene continuous manobrando conio % arejeira o fundo de de- sent ohl imento do Esiado. de- dicando olimpica indiferena.i ao Banpara? 0 fundo, bern en- quadrado e lit re do parasitis- mo clientelislico-eleitural. seria a melhor fonie de recur- Nos para o banco de fomento. Berm distincia de sua exce- 18ncia, o ocupante da cadeira go ernamental, qualquer que ele fosse. Mas ai palavras teriam que ser ditas para valer. Nto 6 o caso. Ameaga H6lio Gueiros Jr. comegou sua carreira political lI no topo, em 1994, jA como vice-governador. Nao por mbritos pr6prios, mas como produ- to de uma barganha do pai. Nunca foi testado para se saber se tinha votos, a prova dos nove desse mer- cado em democracies. Junior ficou sem mandate no dia 1, muitos apos- tam que para nunca mais voltar A political. A maioria acha isso, mas nao o indigitado. No seu cartao de natal, que dis- tribuiu a larga (provocando, em re- presAlia, uma nota do Rep6rter 70, de O Liberal, como de costume sem identificar o personagem referido), ele deixa implicita sua intenqAo de tentar o retorno, em carreira indivi- dual e nao mais como adoro de quem realmente 6 votado. Diz Helinho que nao compac- tuou com os atos infelizes do go- verno que integrou, "nem corn os milhoes de reais destinados ao pa- gamento da propaganda do Gover- no". Por suas attitudes em defesa do que entende serem os verdadei- ros interesses do Estado, "sofri uma s6rdida campanha de difama- qgo sob o comando do Grupo Li- beral (o maior dos beneficiados pel,o Governo)". Mas manifesta a confianga de que "um dia o ParA terA os dirigentes que o povo de- seja e merece". Helinho estA certo nesse diagn6s- tico, mas errado se pensa em se in- cluir como a resposta messianica a essa efetiva necessidade de bons li- deres. A democracia, contudo, Ihe possibility arriscar avolta. Nao por cima, como na estrdia biOnica, mas bem pelo inicio. Disputando um car- go de vereador no ano 2000, por exemplo. Talvez assim o pai deixe de ser o lnico Gueiros vivo a passar no teste das urnas. Mesmo porque, muito mais dificil do que a reentrada do filho, 6 a volta do pai. NOmeros Um tanto irritado com uma per- gunta menos adocicada a respeito da repercussao que a criaqao das sete secretaries especiais devera ter so- bre a folha de pessoal do Estado, o governador Almir Gabriel retrucou: "Nao ter nenhum, nenhum, nenhum impact sobre a folha". Prometeu que todos os servidores dessas se- cretarias serao remanejados de ou- tros 6rgaos ou funqOes (o que deve incluir os DAS). A principio, estabeleceu em 20 o limited de cargos por secretaria. ele- vando-o em seguida para 30 e 40. A imprensa, depois, ja se referiu a 50 cargos em cada uma dessas secreta- rias, sobrepostas as existentes. De 140, o maximo possivel cresceu para 350. Nao 6 um bom comeeo. O governador se orgulha de lidar bem cor os nimeros. Sera um orgu- Iho procedente? Na mosca Na reuniao do dia 30 com repre- sentantes do governador Almir Ga- briel, realizada no Palicio AntBnio Lemos, paratratar do prolongamen- to da avenida 1 de Dezembro, o prefeito Edmilson Rodrigues chocou seus interlocutores ao usar, varias vezes, a expressao pentelho. Inclu- sive para definir-se. Chocou. Mas nao foi contestado. Manipulaq o Entre meia-noite e urma hora da madrugada do dia 31 de dezembro a manchete de primeira pagina de O Liberal foi trocada j na oficina. A primeira manchete anunciava que a nomeaago do secretariado havia pro- vocado insatisfa9ao. Internamente, a noticia falava na reaqao do senador eleito Luiz OtAvio Campos A com- posiqAo das sete secretaries especi- ais do novo governor. Em seu lugar, foi colocada nova manchete: Gover- no aumenta imposto para arrecadar mais R$ 5,4 bilhoes. O noticiArio sobre o primeiro escalao do governor voltou a ser risonho e franco. Tudo ficaria intramuros se os ci- rurgioes da noticia nao tivessem es- quecido que a manchete do journal tamb6m havia sido colocada na In- ternet e lida pelos internautas at6 ser tamb6m convenientemente deletada. A leitura dos jornais na iltima semana do ano mostrou que o mundo reconstituido pela grande imprensa paraense d um e a reali- dade 6 bem outra. Mesmo o Did- rio do Pard, que faz oposicao a Almir Gabriel, s6 recolheu miga- lhas da crise que abalou e parece ter marcado definitivamente a co- ligacao que propiciou o segundo mandate ao governador. Na era Nixon, Jules Feiffer tor- nou famosa a sua c6tica frase, ex- pressando a manipulacgo de Water- gate: "quem quiser uma mentira, vA a uma entrevista coletiva; quem qui- ser uma verdade, roube-a". Agora, no ParA, quem quiser fi- car mal informado deve limitar-se a grande imprensa. Quem quiser sa- ber o que realmente acontece, ter que circular por ruas e gabinetes. Gengis Freire marcou o inicio do seu terceiro ano a frente de A Provincia do Pard cor as primeiras greves ain- da que mete6ricas de funcionArios, tanto na reda io como na oficina. Difi- culdade em fechar seu orgamento nao 6 privildgio do antigo jomal dos Associ- ados. E pouco provavel que os funcio- narios estivessem dispostos a recorrer A paralisaao se os problems causa- dos pelo sistemtico atraso nos paga- mentos fossem compensados pela con- fianca e crenca na empreitada. Mas 6 justamente acapacidade de Gengis de representar um comando respeitado e acatado por seus comandados que en- trou em crise, talvez colapso. Emjaneiro de 1996, feitos todos os cortes pelo governador Almir Ga- briel, a folha de pessoal do Estado tinha 113.375 servidores, consumin- do 52,6 milhoes de reais do erdrio a cada mes. Em marqo do ano seguinte o funcionalismo piblico fora reduzi- do para 110.926, mas o valor da fo- lha crescera para R$ 53,6 milhbes. Em outubro do ano passado, data do iltimo levantamento realizado. o qua- dro de pessoal se expandira discreta- mente (para 111.269 empregados), enquanto o custo da folha pulara para R$ 68 milhBes (30% mais cara do que emjaneiro de 66). Emjaneiro de 1996 estavam lota- das 400 pessoas no gabinete do go- vernador, ao custo de R$ 460 mil (m6- dia, portanto, pouco superior a R$ 1 mil "per capital) Em maio de 1997 j havia 444 pessoas no gabinete de Al- mir Gabriel, absorvendo R$ 642 mil. Em outubro do ano passado o gabine- te governmental estava ocupado por 655 pessoas, que custavam pouco mais de um milhao de reais aos cofres p6blicos. Ou seja. em menos de tres anos o gabinete do govemador expan- diu em mais de 50% o seu efetivo. Se Fo Contal Foni Edi E uma pena se essa tendencia real- mente se consumer. Beldm e o Para precisam de uma altemativajornalis- tica ao dominio do grupo Liberal. A tarefa estA muito distant de ser facil, mas nao e impossivel. No entanto, se 6 para repetir os mesmos vicios do impprio dos Maiorana e nao inovar em relacgo as limitaoqes congenitas nos dominios de Jader Barbalho, en- tao inexiste lugar no mercado e o destino de A Provincia se tornarA fa- tal. Se a empresa nao se tornar uma boa altemativa para o seu p6blico in- terno, como diziam os militares, nao serb tambdm alternative para a socie- dade. Infelizmente. Se todo esse ex6rcito, que consti- tuiria uma grande empresa no Para, comparecesse ao trabalho no mesmo dia em que 1I fossem instaladas as sete secretaries especiais (cor o menor dos seus efetivos projetados), o PalAcio dos Despachos abrigaria mais de mil pes- soas em seu interior. Isto e: abrigaria se o milagre da acomodaqao, contrariando as leis da fisica, fosse realizado. Seria interessante, alias, verifi- car quantos, dos 655 servidores lo- tados no gabinete, entire os quais 444 detentores de cargos comissionados (o equivalent ao total da lotacgo do gabinete em 1997), alguma vezj ifoi ao suposto palacio da avenida Au- gusto Montenegro. Ali efetivamen- te trabalham, ganhando pouco, al- guns aplicados servidores. Mas boa parte dos melhor remunerados (85 assessores especiais II, com m6dia salarial de R$ 3 mil), que costumam freqiuentar colunas sociais, primam pela ausencia. Algunsjustificam sua presenqa onerosa na folha com ser- vigos politico-eleitorais prestados pessoalmente ao governador. Tudo mudo. Para tudo ficar na mesma. Journal Pessoal Editor: Ltcio Flavio Pinto ide: Rua Aristides Lobo. 871/66 053-040 nes: 223-1929, 241-7626 e 241-7924 (fax) to: Tv Benjamin Constant 845/203/66 053-040. e: 223-7690 e-mail: jornal@amazon.com.br ;9o de Arte: Luiz A de Faria Pinto/241-1859 218F18 I 5 89/83/02 34768 ' Sem future? Moralidade Era dezembro de 1984. La nos altos da livraria Jinkings, ainda como militant estudantil, Raimundo Jinkings e Augusto Barros convidavam- me para deixar o PT e ingressar no clandestine Partiddo. Dois dias de- pois, ainda nos altos da livraria Jinkings, e com os mesmos camaradas dirigentes do PCB/PA, disse que aceitava o convite. E para presentear o novo militant, Jinkings ofereceu-me 0 Manifesto, de Marx/Engels. Agra- deci na hora, por6m, fiz um pleito: -Jinkings, tupodespresentar este teu amigo corn esse livro que estd do lado direito da mesa? Posso, mas ele e muito reformista! Esse livro era Os Intelectuais e a Organizadio da Cultural. Gramsci foi um marco na minha vida political e academica. Como tamb6m foram influentes na minha formagiao os pupilos de Gramsci no Brasil, tais como: Carlos Nelson [Coutinho] em A Democracia como valor universal, em 1979; Francisco Weffort em Por que democracia? Em 1984 e Leandro Konder em A derrota da dialetica em 1986. Por este motive, fiquei emocionado cor teu artigo (JP/201), pois concordo conti- go ipisis litteris sobre o juizo humanista e pluralista de Gramsci. Eduardo Lauande |
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