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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00150

Full Text


V arnSCI:

Toma l Pessoal -1' P
PeSSOa anos
....... (PAc. 4)
L C 0 F L A V I 0 P I N T AI-5..
O none da
ANO XII NO 201 2' QUINZENA DE DEZEMBRO DE 1998 R$ 2,00 ditadLra

POLITICAL P.



O dedo do chefe
A punigdo da capitd-jornalista Vanessa Vasconcelos ndo nasceu dentro
da Policia Militar, nem se restringiu aos limits do quartel. o segundo
epis6dio no confront entire osprincipais adversdrios n a zltima eleigdo, o
governador Almir Gabriel e o senadorJader Barbalho, Um terceiro turn
eleitoral jd comecou. Sd vai acabar na eleigdo municipal de 2002. At lid,
h\ muito tiro ainda vai ser disparado.


prisao por 30 dias da capital
I anessa Corrda Vasconcelos,
determinada pelo comando da
Policia Militar no dia 30, pode
fcr interpretada como o segun-
do epis6dio na sucessao de con-
frontos entire os dois principals grupos poli-
ticos do Estado depois da eleigao de outu-
bro. Seria uma especie de terceiro turno, em
progressao ata a data prevista para uma nova
medig5o de forqas: a eleicao municipal do
ano 2000. Nao haverd trdgua ou armisticio
no Para. A guerra continue sem interrupqao.


Se a decisao da PM fosse meramente
administrative, a capital (e tamb6m jorna-
lista) Vanessa Vasconcelos poderia ter sido
punida quando apareceu pela primeira vez
na campanha eleitoral do 1 turno, contra-
tada pela coligagao que apoiou para o go-
verno o senador Jader Barbalho, do
PMDB, o principal adversario do gover-
nador Almir Gabriel. Vanessa, aliAs, po-
deria ter sido punida muito antes, desde
quando comeqou a apresentar a primeira
edigao diaria do Jornal Liberal, no inicio
'da tarde o que nunca aconteceu.


Nessas locuc6es, que faz seguindo um
texto escrito por redatores da emissora de
televisao, em alguns moments a capita-
jornalista apresentou informag6es, temas
e observances que poderiam ser conside-
radas como "desprestigio para a Policia
Military uma das razoes alegadas para sua
procrastinada puniqao. Para todos os efei-
tos legais e de direito, porem, a apresenta-
dora do telejornal nao tem qualquer res-
ponsabilidade sobre o que lI. A responsa-
bilidade ter que ser cobrada da emissora
e do director de redagao.


L-L [ L[L2LEKLE L VkL:V SLLLL L LZ-/Ls.CZU LLLL/ ( 7)




2 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998


) Mas o comando da PM poderia considerar
que, independentemente do conteuido do que
18, Vanessa simplesmente nao poderia acumu-
lar sua funim o military con um outro emprego
regular, qualquer que ele fosse, desde o gla-
mouroso desempenho no mais poderoso canal
de televisao (ainda mais, aliado do govemo),
atd um bico em porta de festa.
Nenhuma iniciativa foi tomada. Inclusive
porque os militares fazem cadavez mais vista
grossa para o trabalho informal de um cres-
cente contingent de PMs, que precisam com-
plementar o baixo saldrio pago pela corpora-
co A esmagadora maioria dos seus integran-
tes (excecao feita a alta oficialidade, especial-
mente da reserve). Ter sido a maneira de ate-
nuar atensao visivel que se irradia dos insatis-
feitos quartdis.
A natureza political da punicgo imposta a
Vanessa 6 clara. A media foi adotada 40 dias
depois da eleiqao, quando a official j havia se
incorporado a sua rotina military. Isto significa
que embora a participag~ o de Vanessa na cam-
panha electoral, do lado oposto ao do seu che-
fe maior (o governador 6 comandante-em-chefe
da PM), tenha provocado desagrado e irrita-
cqo, a decis~o de puni-la nao resultou de uma
reaqio imediata.
Nao houve a pronta puniCio porque, no ca-
lor da dispute, ela seria usada eleitoralmente
para dar dividends a Jader Barbalho. Admi-
ta-se que os motives legais ou administrativos
tenham sido temporariamente colocados de
lado pela estrat6gia eleitoral. Nao 6 nada mo-
ral, mas nio surpreende. Por que, no entanto, a
formalizagC o de uma decision que ji estava to-
mada demorou tanto tempo? S6 ha uma res-
posta plausivel: porque o governador Almir
Gabriel perdeu as esperangas de uma recom-
posigqo com o senador peemedebista (ou nio
a quer mais) e resolve partir para o confront
ou aceiti-lo, olhando por sua 6tica.
Talvez essa definiqAo tenha sido reforcada
pela posiCqo que Jader assumiu em rela~io aos
projetos de refinanciamento da divida do Es-
tado e do BanparA. O pretexto de emendar os
projetos para assegurar a manutengio do ban-
co, cuja privatizag~ o seria uma exigencia dos
beneficios concedidos pela Uniao para dimi-
nuir o peso do endividamento estadual, nio foi
reconhecido no Palicio dos Despachos.
A posiqao do lider do PMDB foi entendida
como pura retaliacqo, attitude revanchista de
mau perdedor. Mais do que isso atd: como o
fato desencadeador da campanha de Jader vi-
sando novamente o govemo do Estado ou a
reeleig o para o senado em 2002. Ou seja: nAo
h perspective de que os interesses do PSDB e
do PMDB possam ser compostos no Pard. Eles
continuam a ser adversarios.
A punig~o da capital nao seria apenas o tro-
co ao boicote de Jader no senado. Serviria tam-
b6m de recado a todos os servidores pfiblicos,
mas especificamente a outros integrantes da
PM, sobre a lei de Talido que vai vigorar des-
de ji: olho por olho, dente por dente; e quenm
nao estiver a favor do governor, estard contra,
numa aplicaqao das inflexiveis lies do Ve-


Iho Testamento, para ficar na inevitivel meti-
fora biblica. Da mesma maneira como Jader
Barbalho manterd uma posigFo critical em re-
laiAo a administragio estadual, Almir Gabriel
verd como adversarios os que ficarem corn
Jader. Nao haverai meio-termo.
A punicio de Vanessa 6 o recado pAblico,
mas nao 6 o primeiro. O capitao FAbio Viana,
tamb6m envolvido na campanha eleitoral do
lado do PMDB,,embora estivesse em primei-
ro lugar na lista depromoCqes, por merecimen-
to e antigiiidade, nao passou a major no dia 25
de novembro. Surpreso e revoltado, o capitio
cobrou explicag6es do coronel Fabiano Lo-
pes, comandante-geral da PM. Seu gesto foi
interpretado como indisciplina e elepegou 10
dias de prisao.

V anessa recebeu a

pena maxima, de

30 dias, igual a do

coronel Mario Pantoja,

que comandou a tropa da

PM em Eldorado dos Ca-

raj as, corn o agravante de

que ela cumpre a prisao

no quartel do 2 batalhao,

enquanto Pantoja ficou

em sua casa, mesmo sen-

do responsabilizado por

um conflito que resultou

em 19 mortos e mais de

50 feridos. Por que a des-

proporcgo flagrante?
Porque em uma de suas locuq6es a capitA
se referiu exatamente ao mesmo epis6dio,
encerrando com um"e agora, governador?",
que, em se tratando do tema, bate no calo seco
de Almir Gabriel, provocando-lhe reaches
descontroladas. Essa 6 uma causa mais do que
evidence, como o Boletim Geral da PM do
dia 30 nao deixou duvida. Mas ha uma outra
inteng~o: 10 outros oficiais jaderistas devem
voltar proximamente aos quart6is, encerran-
do suas licengas. Ou se enquadram, ou po-
dem ter o mesmo destino.
A conclusao dessas mensagens 6 de que o
regulamento s6 sera esquecido para favore-
cer o governor, nao para criar-lhe aborrecimen-
tos e contrariedades. Se tivesse continuado
apenas a apresentar o journal da TV Liberal,
Vanessa nao estaria agora sujcit a ser levada


a um conselho de justificaoo e arriscar-se a
ser expulsa da PM. As eventuais falhas ou
irregularidades do seu licenciamento da cor-
poraco para tratamento m6dico (todas igno-
radas quando ela foi reincorporada) seriam
apagadas se ela tivesse feito campanha por
Almir Gabriel.
Mesmo porque, passando de tenente a ca-
pita em quatro anos de carreira, aos 26 anos
de idade Vanessa tinha uma ficha limpa e ir-
repreensivel. Por falar ingles, entire as mis-
s6es que recebeu no ano passado, alfm de
servir como ajudante de ordens para ilustres
visitantes estrangeiros, foi acompanhar a pri-
meira dama aos Estados Unidos. Socorro
Gabriel foi visitar uma filha, que estuda em
terras americanas. Nao era, evidentemente,
visit official. Mas Vanessa viajou com passa-
gem e diarias pagas pelo erario para servir de
intdrprete. A primeira dama 6 monoglota.
E claro que opr6prio govemador age como
se o assunto fosse questao estritamente inter-
na da Policia Militar. Recusou at6 mesmo o
pedido de audiencia da president da Federa-
9do Nacional dos Jornalistas, Beth Costa, que
veio a Bel6m disposta a tratar do assunto como
ato politico contra a liberdade de imprensa e
o direito ao trabalho. Para efeitos externos, o
governador foi t~o surpreendido pelo ato do
coronel Fabiano quanto a opiniao public.
Mas nao 6 assim. No pr6prio dia 30 de
novembro, quando a puniqao foi anunciada
no quartel-general, o secretArio de seguranga
pAblica, Paulo Sette Camara, levou o assunto
ao seu despacho cor o governador no assim
chamado palAcio da Augusto Montenegro, a
pedido do advogado Marcelo Freitas, vice-
presidente do Conselho de Seguranca do Pard
e president da Sociedade Paraense de Defe-
sa dos Direitos Humanos.
Cobrado sobre uma resposta no final des-
se mesmo dia, Sette Camara disse para Mar-
celo que o govemador nao iria se envolver
com a questao. Mas quando Vanessa recor-
reu Ajustiga para anular sua punigao, um im-
portante auxiliar do governador no palacio foi
visto circulando intensamente pelo f6rum de
Bel6m. At6 mesmo uma decisuo sobre um
pedido de habeas corpus, que costuma ser
sumiria, foi protelada por falta de um magis-
trado disposto a enfrentar o process.
Se a ordem de punicio nao tivesse partido
do governador, o problema teria sido resolvi-
do mais cedo, cor puniqao ou perdao. Devi-
damente instruida a assim proceder, Vanessa
obteve uma declaracgo da diregao da TV
RBA, datada de 31 de agosto, segundo a qual
todas as suas participates no program elei-
toral da coligacgo "Caminhando com o Tra-
balho" foram gravadas em agosto mesmo -
antes, portanto, do seu pedido de licenga.
Seria um artificio, ja que Vanessa pediu de-
missao da TV Liberal para participar da cam-
panha. Mas deveria aplacar o chefao, se sua
reaqgo nao fosse tao furiosa.
0 epis6dio reforga uma percepio que esta
se tornando cadavez mais clara: comecou no
Pari um terceiro turno eleitoral. 0





JOURNAL PESSOAL 24 QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 3


De Kennedy ao AI-5,


um tempo de guerra


Soube do assassinate de John Fitzgerald
Kennedy aos 14 anos, quandojogavabasque-
te, cor os filhos do coronel Anastacio Neves
e um grupo de detentos entiree os quais ponti-
ficava o homicide Sangue Novo), na quadra
internal do Presidio Sao Jose, no fim de tarde
de 22 de novembro de 1963. Em estado de
cheque, fui para a sede do consulado dos Es-
tados Unidos e, depois, para o CCBEU, am-
bos entao na avenida Nazar6, atras de infor-
mag6es. Fiquei por la at6 tarde da noite.
Quando cheguei em casa meu pai me ra-
Ihou. Eu nao havia pedido autorizagio para
sair, nem avisara que ia demorar. Os fultimos
vestigios de inocencia se dissiparam de den-
tro de mim nesse dia. Amadureci. JA via a re-
alidade sem as n6voas da ingenuidade. Mas
idealismo e confianga ainda resistiam.
Naquele 13 de dezembro de 1968, corn
19 anos, eu ja estava ha quase tres anos no
jornalismo professional. Ficamos acantona-
dos na redacgo de "A Provincia do Pard"
acompanhando a evolugao da crise, iniciada
- na sua fase mais virulenta cor o incon-
seqiiente discurso do deputado federal (tam-
bem jornalista) Marcio Moreira Alves con-
tra os militares. Acho que cruzei cor MAr-
cio dois anos antes, quando esperava numa
ante-sala para entregar ao pai dele, ex-se-
cretirio de educacgo no Rio de Janeiro, uma
carta de apresentagao do meu pai.
Alegando ofensa A honra das Forgas Ar-
madas, os ministros militares forcaram o go-
verno a pedir licenga da CAmara Federal para
processar o parlamentar. A licenga foi nega-
da no dia 12. Vinte e quatro horas depois, em
meio a uma tensao explosive, o Conselho de
Segu anga Nacional se reuniu para referen-
dar o golpe dentro do golpe, o sinistro Ato
Institucional nimero 5.
Ouvi pelo radio a transmissao. Esperei
o texto, que veio pela Agencia Meridional.
Li com indignagao e assombro. Percebi ime-
diatamente que a hist6ria vivida at6 ali che-
gara ao fim. Tres meses antes eu varara a
madrugada redigindo um relat6rio da co-
missao paritAria de professors e alunos,
formada com a ocupagao da Faculdade de
Filosofia. Depois de discutir o acordo
MEC-Usaid, sugeria-se medidas ao gover-
no federal para o ensino superior. O docu-
mento foi entregue a um assessor do presi-
dente Costa e Silva, de passage por Be-
16m. Quando a comitiva presidential se foi,
descobrimos o document numa lata de lixo
do aeroporto. Ningu6m lera.
Ja era de madrugada quando cheguei em
casa disposto a deixar Bel6m do Para, onde
o ambiente se tornaria sufocante pela rendi-
cao geral, e me transferir para o que imagi-
nava que viria a se tornar o olho do furacao.
Em janeiro de 1969 eu ja estava morando
em Sao Paulo. Ingressava de vez numa ou-
tra fase da minha vida.
Sao cinco anos entire esses dois momen-
tos, dos mais traumAticos para a minha ge-
ragco, relembrados porque um completou 35


anos e o outro, 30 anos. Cor a guerra do
Vietnam, arremata-se a definiiAo da nossa
consciencia de mundo, a nossa weltanschau-
ung, como dizem os alemaes.
Analisando retrospectivamente, sabe-
mos agora que o president Kennedy nao
foi o pacifista e o estadista que entao o
imaginAvamos. Autores americanos de
nao-ficqao, mas, sobretudo, de ficqao, tem
se dedicado a cortar na came do pr6prio
pais e desautorizar qualquer tipo de ilu-
sao sobre os EUA. Made in USA nunca foi
sinbnimo de inocencia.
Ontem, como aindahoje, no entanto, Ken-
nedy continue a representar para n6s uma
ruptura cor a tensao, o farisaismo e a into-
lerfncia cultivados desde a morte do grande
Franklin Delano Roosevelt. Antes dele, Tru-
man e J. Edgar Hoover representavam a ima-
gem do Tio Sam carrancudo e iracundo com
seu big stick (o popular porrete). Kennedy
levara para o poder mAximo da terra a des-
contraqao, o bom humor, o savoir-faire e o
fair-play de uma pretendida "nova classes so-
cial": osjovens. Podia nao ser muita coisa,
mas era algo essencial para tornar a vida mais
agradavel e realimentar a confianqa. 0 ar se
torara respiravel.
Kennedy descobrira que n6s, do lado (li-
teralmente) de baixo da Amdrica, existia-
mos. Recorreu a instituig6es ambiguas e
melifluas, a Alianga para o Progresso e o
Peace Corps. Mas, independentemente das
inteng6es de Washington, surgiu a proximi-
dade e pudemos nos conhecer melhor. Mui-
tos anos depois conheci em San Francisco
um ex-integrante dos Corpos de Paz que
continuava kennediano, numa versao cali-
forniana, corn um pouco de contra-cultura
no modo de viver, mas ainda se julgando
membro da corte de Camelot, atras da nova
fronteira. Mesmo que os simbolos ocultas-
sem distorg6es, acreditAvamos neles. E isso,
se nao era garantia de chegar ao fim da bus-
ca, era a certeza de inicia-la.
O AI-5 nos despejou na porta dos funds
da hist6ria, nos marginalizou. O ~nico para-
ense naquela lhgubre reuniao de 23 homes
cinzentos no Palacio das Laranjeiras, no fi-
nal da tarde de uma sexta-feira, 13, o minis-
tro do Trabalho, Jarbas Passarinho, 6 o au-
tor da frase mais tristemente exata para sau-
dar a nova e velha era que comegava naque-
le instant: como se instaurava de vez a di-
tadura, que nAo surgira de imediato em 1964,
Passarinho decidiu mandar as favas "todos
os escrnpulos de consciencia".
Ter escrfipulos e consciencia, entretan-
to, era o maior patrim6nio daquelas gera-
gces impulsionadas para a vida plblica
pelo otimismo irradiante de JK e o mais
demorado period de democracia na Re-
pfiblica. O AI-5 nos impunha a desnatura-
ico. Exigia que deixassemos de pensar,
aceitando dogmas, verdades apresentadas
ja prontas para serem adoradas como o
bezerro de ouro.


Da mesma maneira como nao havia ma-
terial corn substancia parajustificar em 1964
uma contra-revolucio (apesar dos minoriti-
rios grupos radicals, naverdade o Brasilpas-
sava por uma evoluqgo conseqiiente e nao
propriamente por uma revolugao), em 1968
a ameaca que fez o regime partir para uma
ditadura aberta era risivel. O AI-5 foi o mo-
mento dos radicals de direita, que desenca-
dearia, em seguida, o moment dos radicals
de esquerda, corn suas formas de luta arma-
da para a conquista do poder (mais do que
uma utopia, uma sandice).
O discurso de MArcio Moreira Alves em
1968 era tao irresponsavelmente provocador
quanto o do cabo Anselmo (marinheiro, em
realidade) em 1964. Se sobre Anselmo per-
siste a suspeita de ser um mercendrio, do hoje
acomodado colunista de O Globo deve-se
cobrar apenas a inconseqiiencia de uma cer-
ta intelectualidade urbana bern posta que
anda sempre cor p6lvora numa das maos e
uma passage para o exterior na outra. Some
quando o pais explode. O pals que se vire.
Atd o AI-5 eram pensadores e militants de
esquerda. Depois, na maioria das vezes, eco-
nomistas do sistema.
A progressao do Behemoth foi voraz. Ler
virou uma atividade perigosa, mesmo quan-
do se lia um livro inofensivo, como O Ver-
melho e o Negro, de Sthendal, ou A Capital,
de Eca de Queiroz, que poderiam ser toma-
dos pelo que nao eram. Lembro que com-
prei uma biblioteca inteira de um ex-simpa-
tizante do velho Partidao, a prego de bana-
na, porque o amigo estava mudando de de-
canato. Ler alguns desses livros, s6 encapa-
dos corn papel de present. Pensar s6 estava
livre de riscos se o pensamento nao fosse
exteriorizado. Surgiram c6digos para despis-
tar. Escrevia-se nas entrelinhas, pensava-se
nas esquinas. O censor as vezes agia invisi-
vel, as vezes sentava-se ostensivamente na
redagao. Independentemente da forma ado-
tada, o objetivo era um s6: impor o medo.
Nada avilta mais a condiqgo humana do
que o impdrio do medo, do qual result a
covardia sancionada, premiada. Muitos dos
membros da minha geraqao, ao tentar rea-
gir, perderam o control de sua pr6pria rea-
Gio, entrando num labirinto viciado que aca-
baria levando-os as maos do algoz. Ha os
que fizeram opgqo consciente pela luta ar-
mada e nela acreditaram. Muitas pessoas,
entretanto, eram pacificas, cordatas e inofen-
sivas. Dotadas de uma grande capacidade de
indignacao, foram apresentadas como peri-
gosos terrorists.
Cito apenas um caso pr6ximo, o do frade
dominicano Tito de Alencar, colega nas Cien-
cias Sociais da USP (como em todos os campi
de entao, instaladas em estigmatizadosbarra-
c6es). Vitima das torturas do delegado S6rgio
Paranhos Fluery, Tito fugiupara a Franga quan-
do foi solto. Mas nio recuperou a sanidade:
num cendrio buc6lico, foi encontrado enfor-
cado. Era a finica paz que lhe restou.
Nunca poderemos esquecer o imp6rio das
trevas sancionado pelo AI-5. Nunca deixa-
remos que se esqueqa enquanto vivermos.
Nao por vinganga ou rancor. Mas para con-
tinuarmos a crer que estarA sempre de p6 a
liqao aprendida na primeira escola: de que
ha uma licgo a aprender na hist6ria, cum-
prindo nunca olvidA-la. *





4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998




0 pequeno grande Antonio,



entire brasileiros ha 30 anos


Era maio de 1967. Estu-
dante secundarista de 17
t- ;' anos do coldgio (ainda
S experimental a dpoca)
Andrd Maurois, no Le-
,y blon, eu garimpava num
dos sebos da saudosa
Rua da Carioca, no cen-
tro do Rio de Janeiro. Meu olhar, treinado
desde muito cedo no sebo do Dudu (ajA ex-
tinta Livraria Econ6mica, de Eduardo Fai-
lache, na rua Campos Sales, centro de Be-
16m), foi atraido por um volume encaderna-
do que estava embaixo de uma pilha de li-
vros velhos, ao lado de uma estate. Eram
exemplares da revista Rinascita de janeiro
de 1947 a margo de 1948, numa excelente
encadernacio corn frisos dourados.
A revista, do Partido Comunista Italiano,
editada em Roma sob a direcio de Palmiro
Togliatti, comegara a circular tres anos antes
daqueles nimeros da colegAo encadernada
que se tornava minha. Dedicada a political e
cultural, a revista viria a se tornar famosa. Era
uma preciosidade. Fui ao balcao me informar
sobre o prego apenas por curiosidade. Mas,
para minha alegre surpresa, o prego era de
galinha morta (o equivalent a uns tr8s d61a-
res da dpoca). Algu6m devia ter-se desfeito
do volume de qualquer maneira, talvez rece-
oso de complicacoes naqueles tempos de in-
tolerfncia. Comprei de imediato.
Comecei a ler no bnibus de volta a Copa-
cabana, onde eu morava. Continue no ca-
minho para a escola, dirigida (com amor e
liberdade) por Henriette Amado (e reprimi-
da pelos militares, que a desnaturaram). Pros-
segui no recreio eja quase terminava quan-
do fui dormir, tarde da noite. O que mais me
impressionou foram os textos de um certo
Antonio Gramsci. Atd entao eu o desconhe-
cia completamente. E, como eu, quase to-
dos os brasileiros letrados. Ele quase s6 era
acessivel em italiano.
Atd a Rinascita colocar Gramsci na pri-
meira pagina da edicio de abril de 1947,
"comemorando" (conforme a infeliz expres-
sao do discurso de Togliatti, transcrito na
revista) os 10 anos da morte do fundador do
PCI, nao havia exatamente um livro de Gra-
msci publicado na ItAlia, mas apenas artigos
dele em revistas ejornais. O primeiro s6 sur-
giria em 1948: II Materialismo storico e la
filosofia de Benedetto Croce.
Com o titulo modificado para Concepgdo
Dialdtica da Histdria, este tambdm seria, em
1968, o primeiro livro de Gramsci publica-
do no Brasil. O livro surgiu exatamente 30
anos ap6s a estr6ia italiana, tamb6m 30 anos
atrAs. Esperei ate a und6cima hora por um
registro dessa data na grande imprensa bra-
sileira. E nada. Fago entAo esta modest ho-
menagem A facanha editorial da Civilizacgo
Brasileira, de Enio Silveira (ja falecido), para


que ela nao passe nas chamadas brancas nu-
vens e permanega no esquecimento.
A incorporagao do pensamento de Anto-
nio Gramsci enriqueceu o patrim6nio intelec-
tual brasileiro. Da mesma maneira como aque-
les artigos transcritos em Rinascita me mar-
caram profundamente, o contato com a pro-
duCio mais sistematizada dos cadernos escri-
tos por Gramsci no carcere do Estado fascis-
ta italiano teve o efeito de uma revelagio.
Antes de baixarem as trevas do AI-5, a
13 de dezembro, a Editora CivilizagAo Bra-
sileira pbde publicar, ao long de 1968, mais
quatro livros de Gramsci: Os Intelectuais e
a Organizacgo da Cultura; Literatura e Vida
Nacional; Maquiavel, a Politica e o Estado
Moderno e as emocioriantes Cartas do C6r-
cere. Afora o editor Enio, os brasileiros tnm
uma imensa divida de gratidAo para corn
Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder e
Luiz MArio Gazzaneo, que traduziram, or-
ganizaram e comentaram os livros.
A leitura dos cinco volumes 6 suficiente
para dar acesso ao essencial da produgio de
Gramsci, mas, passados 30 anos, a influen-
cia que positivamente ele ter exercido so-
bre intelectuais brasileiros ji deveria ter es-
timulado alguma editor a langar as obras
completes do grande italiano. Aldm das ano-
taq6es contidas nos 32 "cadernos do circe-
re", nem todas incorporadas aos volumes tra-
duzidos, hi os anteriores artigos de impren-
sa. Em edigao lusitana de 1976, da editor
Seara Nova, eles ocuparam quatro volumes.
Talvez essa edi9do integral jamais saia,
mesmo porque editar Gramsci em italiano
(como o Marx por inteiro em russo) jAi em-
preitada temerAria. HA sectarismos e tabus
se interpondo entire a totalidade de Gramsci
e a image cultuada por cada um dos vArios
grupos dele derivados. Embora Gramsci seja
um poderoso antidote contra facciosismos,
eles brotaram de dentro dele deturpando-
o ou manipulando-o, 6 claro. Por isso, os
"donos" desses Gramscis parciais nao que-
rem-no exposto por complete.
Um observador atento dabiografia do pen-
sador italiano percebera que, emvida, ele in-
comodoutanto seu inimigo, Benito Mussoli-
ni, quanto seus correligionarios doutrinArios
e dogmdticos. Se o primeiro foi responsAvel
pela abreviagqo da vida de Gramsci, aos 46
anos, os segundos nao fizeram tudo o que es-
tava ao seu alcance para preserva-la. Certa-
mente nao desejavam sua morte, mas nao o
queriam inteiramcnte livre. O primeiro temia
o combat que Gramsci Ihe dava. Os segun-
dos receavam a clareza de raciocinio do com-
panheiro comunista, inc6moda num period
de submissao.A ditadura stalinista.
Estreiteza de visao nro combine cor Gra-
msci. Algumas pessoas tentam extrair um sis-
tema acabado do que ele escreveu (um "mar-
xismo gramsciano"), esquecendo que as ano-


taqes dos 32 cadernos que sobreviveram A
censura fascist foram produzidas em condi-
c5es desfavoraveis: numa cela, entire sofri-
mentos fisicos, sem acesso a fontes organiza-
das, com uma linguagem quase cifrada para
poder vencer a fiscalizaFio prisional.
Nem sempre o resultado desse pensar 6
o mais important ou seu ponto alto, mas
o pr6prio desenvolvimento do pensamen-
to, a construcgo do raciocinio liberto de
amarras e indexes. Na solidao da cela,
aprofundando a solidao que o marcou des-
de a idade consciente, Gramsci s6 tinha
compromisso com essa edificaqao dialdti-
ca, nao necessariamente com o produto
dela. Ele nao oferece iddias prontas, mui-
to menos incontroversas, mas um m6todo
de pensamento. Por ser sistemAtico e ri-
goroso, esse m6todo pode ser aplicado a
outras cultures e hist6rias, o que o torna
fecundo. Poucos pensadores deixaram uma
obra-em-progresso tao exemplificativa
enquanto anatomia do pensar.
Quem nao quiser absorver toda essa obra
deveria pelo menos ler as Cartas do C-r-
cere. E um dos mais deslumbrantes teste-
munhos humans em todos os tempos. Vale
mais do que toda a literature de auto-ajuda
existente no mercado, sem se reduzir a psi-
cologia, esoterismo ou filosofia aguada.
Tem uma moral renovadora, como se fosse
um conto de fadas com leitura A Bruno Bet-
telheim. Seria uma espdcie de Branca de
Neve adaptada As tiranias de hoje.
Dois homes, a principio aliados num
projeto socialist, seguem depois por cami-
nhos opostos que se cruzariam no future, pro-
vocando colisAo. Mussolini, como seu par-
ceiro alemiro, Adolf Hitler, faz de seu socia-
lismo um fascismo, regime de partido uni-
co, da hegemonia compuls6ria (como os
comunistas fariam usando como ariete a di-
tadura do proletariado, rejeitada por Grams-
ci). Gramsci quer que seu socialismo seja
resultante de uma hegemonia progressive,
aceita organicamente pela maioria, dela con-
vencida. Um vira o novo Cdsar romano, il
Duce. 0 outrojunta o poder do pensamento
A organizaalo de massas em tomo da peda-
gogia political.
O poderoso manda prender o antigo alia-
do comr uma ordem: aquela cabega tem que
parar de funcionar. Na prisao por 10 anos,
Gramsci, de constituigiao fisica frAgil, v8 seus
6rgaos entraremprogressivamente em colap-
so. A cabega, atormentada por ang-istias e
depresses, por6m, resisted: gem agudas ano-
taq6es e cartas cheias de humanidade, amor
e humor, sentiments realizados e por reali-
zar, o desejo de superar a solidao impedido
(mas por isso mesmo acalmado) pelas gra-
des da prisAo.
O ditador pergunta ao espelho quem d
mais inteligente na ItAlia fascist. E o espe-






JOURNAL PESSOAL 24 QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 5


A7
S- . '






..
"....... '.. ....... .,.......


....... .


Iho, a despeito da furia refletida na image,
diz que, no fund de uma cela, ainda 6 An-
tonio Gramsci. Para nao manchar sua bio-
grafia cornm uma n6doa que feria fundo sua
vaidade intellectual, Mussolini, que nao era
um ditadorzinho qualquer, finalmente liber-
tou o adversArio agonizante. Sabia o que es-
tava fazendo: reconquistada a liberdade, em
abril de 1937, o c6rebro privilegiado de
Ant6nio Gramsci sofreu uma hemorragia.
Dois dias depois ele morreu.
Hoje, por6m, esta mais vivo do que o al-
goz que o derrotou 60 anos atras e parecia
reeditar um Impnrio Romano milenar. Em
algum lugar do planet sempre haverA al-
gu6m que, em meio a incertezas, decepa8es
e tristezas, lerd co confianga renovada na
humanidade este parigrafo que o pequeno e
feio cidadao da Sardenha, o melhor dentre
eles naquela parte pobre da gloriosa ItAlia,
anotou em um dos seus caderos do cArcere,
a prop6sito de iddias bizarras (ou lorianas):
"Todos os mais ridicules fantasistas, que
em seus esconderijos de g6nios incompre-
endidos fazem descobertas brilhantissimas
e definitivas, atiram-se sobre todo movimen-
to novo, persuadidos de powder vender suas
tolices. Outrossim, todo colapso traz consi-
go desordem intellectual e moral. E necessA-
rio criar homes s6brios, pacientes, que nAo
se desesperem diante dos piores horrores e
que nao se exaltem em face de qualquer to-
lice. Pessimismo da inteligncia, otimismo
da vontade".
B o pessimism da inteligzncia que leva
os homes a renovar suas id6ias, a buscar
novas verdades, como Galileu contestando
o estAtico mundo medieval construido pela
Igreja. Mas sem o otimismo da vontade essa
negagco da ordem estabelecida vira niilis-
mo, pessimism, mera destruigso. "Pessimis-
mo da inteligencia, otimismo da vontade", um
lema que Antonio Gramsci deixou para to-
dos os homes em todos os tempos acessi-
vel aos brasileiros ha 30 anos. Mesmo sem
registry fulgurante, ji nao 6 mais possivel
apagar o legado que essa cabega privilegiada
nos deixou por nunca ter aceitado renunciar
ao ato que define o ser human: pensar. 0


Benedito Nunes:


unanimidade viva


A unanimidade 6 burra, disse Nelson Ro-
drigues, numa frase que agora todos repe-
tem. Mais do que burra, a unanimidade 6 pe-
rigosa quando transform em estatua ou en-
troniza em santudrio uma pessoa viva.
Benedito Jos6 Viana da Costa Nunes,
finalmente, 6 uma unanimidade. Confor-
me o velho esquema colonial e provincia-
no, primeiro alcangou a consagraqgo na-
cional: um col6gio eleitoral formado por
tr8s mil pessoas consultadas em todo o pais
colocou-o entire os tres premiados pelo
journal O Estado de S. Paulo como desta-
ques do ano no mundo da cultural brasilei-
ra. Quantos intelectuais fora do eixo he-
geminico de producao do pais poderiam
sair vencedores em uma votagio dessa? HA
algum outro no Pard?
No m8s passado, ap6s intervalo de dois
anos entire a decisao e sua concessao, a
Universidade Federal conferiu a Benedito
Nunes o titulo de professor em6rito. Um
tanto rusticamente, deixando a suspeita de
press, um folheto e um CD dedicados ao
mestre foram langados na ocasiao para
marcar a data.
O Para, assim, reconheceu a posicgo in-
vejAvel alcangada por seu ilustre filho, fa-
zendo-lhe aquele tipo de homenagem que,
como lembra um samba de Nelson Cavaqui-
nho, ter que ser dada em vida ou esqueci-
da, para nao se tornar saudade. O professor-
advogado-fil6sofo-ensaista e grande conver-
sador Benedito Nunes 6 uma unanimidade
por inquestionavel merecimento. Todas as
honrarias que os paraenses Ihe puderem con-


ceder ainda nao serdo suficientes para cor-
responder as suas virtudes.
Benedito tem mais do que o Pard merece
receber de um intellectual. Por isso ultrapas-
sou as fronteiras do seu Estado de nascimen-
to e domicilio sem precisar inventar notas nos
jornais, nem superdimensionar o conceito
extemo. Quemji andou por centros de cultu-
ra da Europa e dos Estados Unidos, em al-
gum moment, ao se apresentar como brasi-
leiro (e nem precisa ser como paraense), ja
ouviu a pergunta: "entao, vocal conhece o pro-
fessor Benedito Nunes?" Apresentar-se como
amigo de Benedito, entao, eqitivale a umpas-
saporte para o bomtratamento, recebendo por
contagio o respeito que a ele 6 dedicado.
A unanimidade em torno do mestre da rua
Estrela, portanto, nao 6 burra. Muito pelo
contrArio, 6 sabia. Poupa-nos do sempre ame-
acador desgosto e da vergonha de nao reco-
nhecer o valor excepcional de uma pessoa
com ela ainda em vida. Mas pode ser perigo-
sa se colocarmos num pedestal um home
que, As v6speras dos 70 anos, continue muito
vivo, interessado em mudanqas, inquieto, in-
satisfeito, sempre embusca de mais saber, em
sua ampla acepqao de substantive e verbo,
doja incorporado ao patrim6nio e do que ain-
da se pretend conquistar.
Queremos que Benedito Nunes conti-
nue a ser homenageado. Mas, antes de
tudo, desejamos que seja lido. Que suas
conversag6es dial6ticas, que valem mais
do que toda uma vida acad8mica, estejam
sempre ao alcance da nossa ignorancia.
Para diminui-la. *


Por causa de sua longa e multifacetada
carreira de home sempre puiblico, no ve-
Iho e permanentemente atualizado sentido
greco-romano, onde quer que esteja atuan-
do (alim de polemico), Armando Dias Men-
des comandou uma rara festa, que combi-
nou os prazeres do espirito com os da came,
no lancamento do seu livro A Cidade Tran-
sitiva, no jardim enluarado do Parque da
Residencia, na semana passada.
Gente representative de um amplo univer-
so de iddias, posig6es e interesses foi congre-
gada por un ponto em comum: o amor dedi-
cado a esta her6ica Santa Maria de Bel6m do
Grlo ParA, cuja vida nos anos 40 e 50 Ar-
mando reconstituiu atrav6s das suas lentes de
anatomista social (As vezes tamb6m patolo-
gista), ampliadas pela posigo filos6fica as-
sumida diante daqueles dias de reconstruqo.
Ler o livro de Armando (belo trabalho da
Imprensa Oficial do Estado, 258 paginas,
fartamente ilustrado, R$ 25,00) nao propor-
ciona apenas o prazer da "recordAncia",
como ele diz, para matar saudades. Serve


tambdm para refletir sobre a nova recons-
trumao que se imp6e neste moment, antes
que desapareqam motives que ainda restam
para futures Armando Mendes trabalharem
com a mem6ria. Como fica claro nesse livro
de riqueza humana, reconstruir uma cidade
nao 6 puro trabalho de engenharia ou arqui-
tetura, de decoragao ou "cenarizaqao" (em
sua dimensao teatral e s6cio-econ6mica).
Nem se reduz ao "imaginario", por mais
competent que seja o seu manejo propagan-
distico, e por melhor que seja a intenqao do
Goebbels ao tucupi.
Armando Mendes teve o que lembrar por-
que fez pelo human e o social, o sempre
imperfeitamente human que recomenda,
como o poeta Drummond alertou, estar cor
os homes, entire eles, fazendo. Como este-
ve Armando na bela noite de aut6grafos da
cidade transitiva hoje, talvez, ja intransiti-
va -, que recuperou para alegria e desfrute
dos seus convivas, ao menos enquanto con-
viveram e enquanto lerem seu caderno de
(e)ternas notas. *


A cidade transitiva


de Armando Mendes





6 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998


0 maltratado lado



esquerdo do peito


O exercicio do jornalismo independent
exige a critical. Muita gente acha que 6 mui-
to facil critical: basta sair atras de erros e
exp6-los. O problema comeca com a circuns-
tAncia de que nem sempre os erros sAo visi-
veis a olho nu. Quando quem os compete tern
a possibilidade de manipular e camuflar o
que deliberadamente faz de errado, seus er-
ros ficam protegidos por camadas de dissi-
mulagAo e tamb6m de dissuasao.
As vezes 6 precise ter competencia espe-
cifica para desfazer essa camuflagem (a cri-
tica nao 6 s6 empirismo). As vezes a neces-
sidade 6 de ter coragem para ir alWm da cou-
raca colocada no caminho daverdade (a cri-
tica nao 6 s6 vontade). Ja ai a rimplicidade
se desfaz e o nfimero das pessoas dispostas
a critical nesses terms se reduz.
Mas ha erros e erros, vicios e vicios.
Um jornalista independent ter que ser
capaz de selecionar aqueles erros ou vici-
os de interesse coletivo, que afetam o pa-
trim6nio pfiblico e prejudicam a vida so-
cial, dos que sAo prerrogativas da privaci-
dade de cada cidadAo. HA bons critics de
vaudeville, do trivial variado. Precisam
existir. Mas, como naquele poema de Ber-
tolt Brecht, nao sao os essenciais. Podem
enriquecer umjornal, mas nao o definem,
nao Ihe dao a substancia vital.
O valor da critical sera estabelecido pela
sua militAncia. HA critics que comegam
como uma promessa ejamais passam desse
estagio. Outros hA que regridem at6 a insig-
nificAncia. S6 com o tempo, de duraqAo um
tanto imprevisivel, a opiniAo pliblica poderA
separar o bom do mau critic, aquele que
simplesmente abre a boca e diz o que Ihe
vem a cabega (ou que usa para tirar vanta-
gem pessoal) daquele que sabe efetivamen-
te do que estA falando e fala para servir ao
avango da consciencia social. Sem este, nao
hA democracia que valha a pena.
As melhores cabegas que pensaram so-
bre o cultivo dessa tenra plant political, des-
de que suas sementes comegaram a ser plan-
tadas modernamente, ainda na revolugio
constitucionalista inglesa do s6culo 17, nao
tiveram dfvida a esse respeito. Tambdm pu-
deram perceber que 6 precise haver muita
critical, inclusive infundada e superficial,
para que desse vasto plantio possa brotar a
boa critical.
E da pluralidade e da controversial que se
alimenta a clarividencia humana e nAo da
unidimensionalidade (como advertiu Herbert
Marcuse na d6cada de 60, seduzindo os jo-
vens com seus sl6idos arguments libertari-
os, sem propriamente conseguir se fazer en-
tender por eles).
Um critic em crescimento saudAvel


chegara as proposiq6es. E quase ineviti-
vel para o critic passar da revelaqAo do
que efetivamente 6, a despeito da lingua-
gem, da ret6rica e da ideologia em sentido
contrario, levada ao convencimento pelo
uso massive e persuasive (o que pressu-
p6e riqueza de meios), para alcanqar o que
deveria ser. Mas nem sempre 6 positive o
resultado dessa transicao.
Um exemplo definitive 6 o de Karl Marx.
Sua critical do capitalism nao teve resposta
ao seu tempo. A critical nao resultou de uma
inspiraqdo sibita, de um estalo ou de um
chute inspirado. Marx abreviou seus dias
estudando e analisando A exaustao aquele
sistema prodnwti'n crntr1 o equal se insurgiu.
Antes de negA-lo, conheceu-o como nenhum
outro, indo As suas raizes. Os radicals de fa-
chada, ontem como hoje, tomam radicalis-
mo por ser "do contra" A simples apresenta-
qAo das raz6es do adversArio.
O capitalism s6 sobreviveu a Marxpor-
que mudou, em parte por ter que apresen-
tar uma resposta aos arguments irrespon-
diveis do pr6prio Marx. NAo s6 uma res-
posta te6rica, mas uma prAtica nova. Marx
desmontou as estruturas padres daquela
cathedral da producgo em sdrie e em escala
de produtividade crescente, A custa do ho-
mem, que se universalizaria (globalizaria,
como se diz hoje).
Mas o grande pensador nao resistiu A sua
dimensAo de profeta. Ao proper a constru-
cio de uma sociedade sem classes, de uma
IcAria tornada real por uma ideologia final-
mente fundada na ciencia (como se tal idi-
ossincrasia, que deu no marxismo, fosse pos-
sivel), Marx abriu avenidas para a passage
de algumas das piores tiranias que o home
ja experimentou e sofreu. A "nova classes"
burocratizada revelou uma selvageria pou-
cas vezes assinalada na rota da humanidade.
Melhor teria sido que Marx nunca tives-
se se sentido obrigado a pular do papel de
critic para o de profeta, o que ele atd ten-
tou evitar, justica se Ihe faqa. Impulsionado
pela militancia na Internacional Socialista,
Karl Marx tornou-se um prot6tipo dos dita-
dores que surgiriam na esteira de seu pensa-
mento, negando-o. Mas ainda desfrutou de
um moment de lucidez ao contemplar o que
tinha sido provocado por esse novo positi-
vismo revolucionArio: "se isso 6 o marxis-
mo, eu nao sou marxista", teria dito o velho
alemAo, vendo seus brilhantes raciocinios
reduzidos a catecismo de vids oriental (por
isso foi "inaugurado" na RAssia czarista).
Um critic, portanto, pode ser mais fitil
A humanidade "apenas" como critic, en-
quanto pensador que assume a funcAo de
parteiro da hist6ria, fazendo nascer um novo


tempo sobre ruinas que, atd entao, eram vis-
tas como estruturas saudaveis. E claro que
um papel dessa importAncia esta reservado
a c6rebros privilegiados, como Arist6teles,
Descartes, Pascal, Montaigne s6 para ci-
tar alguns que servem de referencia demar-
cadora do tempo.
Parajornalistas, apretensao 6 imensamen-
te mais modest: sua missSo 6 contribuir para
dissipar a ndvoa da dissimulaqao e fazer bri-
lhar o terreno da verdade em sua pr6pria
6poca. Sobre esse territ6rio minimo devem
evoluir os chamados atores sociais, cada um
deles com suas pr6prias id6ias e projetos.
Cabe ao jornalista estabelecer essa base fac-
tual, por mais que seja tentadora a seduqco
de colocar a versao antes e acima dos fatos.
Se ela vier, que venha depois.
Para criar esse ambiente, por6m, jorna-
listas independents tnm que enfrentar aque-
les grupos e pessoas dotados de maior po-
der. Ainda quando a concessao desse poder
seja legitima, pela via eleitoral ou pela dele-
gaqAo de poderes, o exercicio de um man-
dato ou de um cargo de confianqa leva fre-
qiientemente ao paroxismo e ao desvario.
Cabe A imprensa digna desse nome contro-
lar os excesses, aproximar os governantes
dos governados, mesmo que aqueles nio
queiram e estes considered desnecessAria
essa proximidade. Jornalismo, por isso, 6
critical e oposiqao sempre. E, quando possi-
vel, proposiqao e sugestao.
Mas poucos dos que se colocaram ou fo-
ram colocados acima da massa dos cidadaos
concorda com essa necessidade. Primeiro
tentam seduzir o critic. Nao conseguindo
esse objetivo, procuram desautorizar o cri-
tico recalcitrant. E se permanecem mal su-
cedidos, empenham-se em calar ou destruir
o personagem inc8modo.
Nao 6 pontilhada de flores a trajet6ria
percorrida por um jornalista atd que se te-
nha tornado um critic respeitado, cujas
palavras sao lidas e meditadas por se ha-
ver estabelecido o convencimento de que
elas resultam de pesquisa, investigaqAo,
analise e maturadao.
O percurso de um taljornalista esta mar-
cado por desentendimentos, desencontros,
crises, ameaqas, agress6es, desesperancas.
Tambdm por muitas amizades destruidas,
abandonadas, ou que se transformaram em
inimizades quando amigos entraram na li-
nha de critical. E por aquela solidao que se
tora uma condiqao para critical sem os an-
teparos da relagao pessoal, do querer bem
que mantdm suspense o rigor na avaliagao.
Por tudo isso, 6 com prazer e alegria que
me permit publicar a carta que Iza Ayres,
esposa do doutor Manuel Ayres, me escre-
veu a prop6sito do registro sobre o livro
BioEstat (ver Jornal Pessoal n' 200). Corn
ela, homenageio todos os poucos amigos'
que compreenderam a fungAo do critic e
nao deserdaram. Que aceitaram a pouc'
atengio deste apressado e tAo imperfeitc-
jornalista, retribuindo ao descaso desinten
cional amizade aplicada, vigorosa e pesso-





JOURNAL PESSOAL 24 QUINZENA DE DEZEMBRO /1998 7





0 que seria de Belem


sem suas mangueiras?


Todos os belenenses repetem como ligao decorada que esta
cidade nao seria a mesma sem as suas mangueiras. Tao repetida
e acaciana, essa percepcqo perdeu sua vivacidade. Para mim, ela
se reavivou quando deparei, na semana passada, com dois quar-
teir6es depenados da avenida Presidente Vargas.
JA fazia algum tempo que um fato aparentemente tao trivial nao
me provocava tao forte impact. Muitas pessoas talvez nao tive-
ram a mesma reacgo porque a Presidente Vargas tem sido maltra-
tada corn uma selvageria que da d6 e dessensibiliza ao mesmo
tempo, porque a devastagoo prossegue em escalada sem control.
Era a nossa mais parisiense avenida. O boulevard da Castilho
Franga sobrevive apenas no nome e quando, a noite, ao chegar-se
de barco a Belem, pode-se agradecer pela graqa de ainda haver
sobrado alguma coisa e lamentar pelo queja desapareceu. Em Sgo
Paulo, o unico lugar que me lembrava Bel6m era a rua Sao Luis,
em um s6 quarteirao, entire a Ipiranga e a Consolacqo. A arboriza-
cao cria a cobertura de copas verdes, a luz filtrada e um cheiro que
nao se compare cor o das nossas mangueiras, mas, de qualquer
maneira, era um cheiro de natureza no concret6rio desvairado.
Carecas, os dois quarteir6es da Presidente Vargas passaram a
ser uma via qualquer de uma cidade massacradamente urbaniza-
da, nao a Bel6m da sombra e do cheiro, que ainda resisted A selva-


almente desinteressada (mas comprometi-
da corn o valor social da verdade), sem a
qual tudo teria sido muito mais dificil, quan-
do nao impossivel.
Amizade que nao resisted A divergencia nao
6, verdadeiramente, amizade. Se ela nao con-
segue preservar o dialogo racional da even-
tual contrariedade causada por uma critical
que afeta o criticado, entao 6 agrilhoamen-
to, limitaq~o. Infelizmente, 6 a regra, impon-
do un. preqo caro, demasiadamente caro no
estrito aspect pessoal, a quem quer cum-
prir sua mission de jornalista independent
ate as filtimas conseqiiencias.
Diz a carta de Iza Ayres:
"Dei-me conta da minha vaidade corn um
telefonema de um amigo, falando-me do seu
comentario em seu Jornal Pessoal sobre o
BioEstat e, portanto, dos Ayres, entire os
quais voce me incluiu. Ele assim se expres-
sou: '0 Lucio Fldvio nao e de elogios e
muito menos de confetes'.
Como bem diz em sua nota, temos ami-
.de com voc& hc longos anos, desde aque-
; tempo no largo da Trindade, hd cerca de
*es dkcadas, onde Mdrcio, Jinior, Hele-
i, Ana Rita e Licio Flavio divertiam-se
)mo irmaos.
Fico-lhe sinceramente agradecida pelo
rinho do seu noticidrio, chegando a com-
ir vdrios exemplares do seu journal, dis-
.'.indo-os entire amigos e parents (veja
.Wmanho da minha vaidade), cor tanta
ria que mais parecia o langamento do
"'star de autoria dos Ayres, o qual cor-
'nde, na opiniao de um outro amigo, a
epotismo cultural"'. *


geria descaracterizadora e encanta quem percebe as p6rolas in-
crustadas na lama. A administraqao municipal diz que apodagem
era inevitavel porque as Arvores estavam condenadas. Cabe A opi-
niao pfiblica da cidade responder A pergunta que essa constatagao
imp6e: sera impossivel prevenir ou combater os fatores que estio
levando nossas mangueiras A morte? Estamos fazendo o que 6
possivel ou esta ao nosso alcance para proteger essas Arvores?
Seguramente a resposta 6 nao. Ela deveria forgar os stores
responsaveis a investor mais e melhor no trato da arborizaago da
cidade. Arvores que nao tenham conseguido resistir a condig6es
urbanas ambientais desfavoraveis devem rapidamente ser subs-
tituidas por outras. Mas para que nao seja uma troca apenas sim-
b6lica, o manejo tern que ser aprimorado. Tamb6m a educac9o
da populaqao para lidar cor a arborizagao e as medidas de puni-
qao aos infratores.
Acho que todo morador desta cidade devia dar um pulo aos
dois quarteir6es do mercado persa ca6tico da Presidente Vargas
para ter uma vivida sensagao da perda e do prejuizo que a des-
truigao das mangueiras causara a Belem. Precisamos impedir que
mais essa chaga se expand, enquanto isso ainda esta ao nosso
alcance. Ficara mais dificil manter a paixao por Bel6m sem o
refrigerio dessas queridas Arvores.


Interesse public


* S6 a manutencao dos aparelhos de ar
condicionado, iluminagco ejardins do Par-
que da Residencia e do Museu de Arte Sa-
cra do Estado custard quase 50 mil reais du-
rante um semestre. E o que revelam os ex-
tratos de cinco contratos publicados na edi-
~io do Diario Oficial do dia quatro. Ne-
nhum desses documents indica a origem
dos contratos (se por licitacgo, tomada de
pregos ou dispensa de licitagao).
As despesas corn os servigos no Parque
da Residencia e no complex da Feliz Lusi-
tania ainda irao crescer. O mesmo DO traz
tres dispensas de licitacao aprovadas pelo
secretArio de cultural, Paulo Chaves Fernan-
des. Atravds de tomada de prego, a Secult
selecionou a Progresso Serviqos Especiali-
zados de Seguranga e Vigilancia para cuidar
dos pr6dios do museum e do parque, enquan-
to a Serlinc vai tratar da conservagao e lim-
peza do museu e a Vijubel realizarA traba-
Iho identico no parque. Como os extratos dos
contratos nao foram publicados no mesmo
DO (apenas os resultados da habilitag~o e a
dispensa de licitaqgo), nao se sabe ainda o
custo desses servigos. E o comego da bola
de digamos neve.
U Em 1996 a Secretaria de Educadao assi-
nou cor a Puma (Servigos Especializados de
Vigildncia e Transporte de Valores) um con-
trato de vigildncia e ronda escolar Desde en-
tdo, 15 terms aditivos foram assinados, o
iltimo publicado no DO do dia quatro (sem
indicar a origem do contrato original), para


o acrescimo de mais dois postos de vigildn-
cia e mais 90 dias de prazo. Ao valor do con-
trato original, de 86,5 mil reais, foram adici-
onados nada menos que R$ 640 mil, nos su-
cessivos aditamentos. Isso e legalmente pos-
sivel, diante das restrigoes estabelecidaspela
lei 8.666? Ndo seria necessdrio assinar um
novo contrato? Como um valor contratual
original e elevado em mais de sete vezes atra-
vis de meros aditamentos? Cor a resposta,
os canais competentes.
M 0 DO do dia 1 public os extratos de
cinco terms aditivos acrescentando quase
450 mil reais aos contratos originals de
prestagdo de servigos do Ipasep (Instituto
de Previdencia e Assistencia dos Servido-
res do Estado do Para) cor diversas em-
presas particulares. Em dois dos extratos o
valor dos aditamentos (R$ 100 mil e R$ 30
mil) 6 equivalent ao dos contratos origi-
nais. Os documents nao seguem integral-
mente o modelo que o Tribunal de Contas
adotou no mes passado. Nao justificado o
motivo do novo aditamento, nem especifi-
cada a data do 1 aditivo. Falta ainda a ori-
gem do contrato original.
AliAs, seria salutar que o TCE fizesse uma
inspeqao extraordinaria, por amostragem,
nos 6rgaos da administraq9o pfiblica estadual
para verificar se realmente estao seguindo o
novo padrao. E claro que media punitive
podera ser adotada quando das prestag6es
de contas anuais. Mas teria efeito pedag6gi-
co prevenir erros e estimular acertos. 0


~w~w~w~







Duas faces
Existe um Centro Cultural
Brasil-Estados Unidos iluminis-
ta, que ter apoiado a cultural e
vem formando um excepcional
acervo nas artes plasticas, tor-
nando-se refernncia obrigat6ria
quando se trata de criacoes do
espirito em Bel6m, a par de sua
funcgfo de escola de lingua ingle-
sa e educagAo artistic.
Mas parece que hA outro, di-
ametralmente oposto. Um CC-
BEU que reagiu com intoleran-
cia a uma controversial internal,
por falta de diAlogo engendrou
um litigio e resolveu-o com o
argument da forca, punindo a
professor Bernadete Reale com
a demissio sumaria. Tentou as-
sim eliminar, por seu suposto
perigo, um movimento de reafao
que s6 pode ser ameagador para
quem nao se expoe aos riscos da
controversial.
Bernadete levou seus argu-
mentos dos limits do CCBEU
para a imprensa, sensibilizando
os que a ouviram e viram seus
documents. Torgo para que o
Centro reconsider sua intole-
rancia, reabra a discussao e s6
fire uma decisao depois que o
assunto estiver esclarecido na-
quele ponto de amadurecimento
que permit aos derrotados acei-
tar a forga do argument vitori-
oso e a ele se submeter, ao inves
de vergar apenas sob o exerci-
cio da forga, que vence, mas nem
sempre se imppe.


Voz do dono
A editoria da TV Globo, no Rio
de Janeiro, cobrou da TV Liberal,
em Bel6m, o silencio em tomo do
caso da capital Vanessa Vasconce-
los, at6 antes da campanha eleito-
ral apresentadora da emissora. "Or-
dem superior", foi aexplicaqio dada.
E aceita sem o menor sussurro.


Campanha
Foto do prefeito Edmilson
Rodrigues ocupou espago desta-
cado na primeira pigina de A
Provincia do Pard na edigao
dominical de 28 de novembro,
com entrevista de pagina inteira
dentro do journal. Nesse mesmo
dia, finalmente a Prefeitura de
Belem, corn atraso de tres sema-
nas, reproduziu em A Provincia
os quatro anOncios que jA veicu-
lara em O Liberal (duas vezes)
e no Didrio do Pard.
O toma lA, da cA prossegue.
Deve se intensificar atd o ano 2000.


Bom final
M6nica Regina Machado
Mescouto retirou, na semana
passada, o pedido de aposenta-
doria proporcional que havia
apresentado ao Tribunal de Con-
tas do Estado (ver Jornal Pes-
soal n 200). Com essa decisao,
todos saem ganhando, inclusive
quem aparenta haver perdido.
Poderia ter perdido mais.


Edi go

natalina
Espero que o leitor incorpo-
re a intencgo de impregnar
esta edigao de um produtivo
espirito natalino, entrando no
clima da 6poca sem envergar
sua vestimenta commercial.
Corn matdrias menos datadas
e ainda mais pessoais, espero
ter conseguido desejar a todos
os bravos leitores deste jor-
nal boas festas e um ano a al-
tura dos nossos merecimen-
tos, apesar do sinistro sinete
do principle.


Corregao
No ultimo numero, nosso in-
submisso computador aprontou
mais uma, no final da nota "No
Palanque". Estava escrito que
o prefeito Edmilson Rodrigues
"ainda nao desceu do palanque
de 1996. E jA subiu no do ano
2000". Mas a diab6lica mdqui-
na trocou os nimeros: ficou
1986 e 200, respectivamente.
Como punigio, a indigitada vai
ficar uma quinzena fazendo as
contas num Abaco.


Ajuste pessoal
A crise 6 braba (ou brava)
e o horizonte incerto e nao sa-
bido. Por isso, decidi suspen-
der a renovagao das assinatu-
ras do Jornal Pessoal. Serao
mantidos apenas os assinantes
de fora de Beldm. No caso de
um fim s6bito deste journal, a
obrigagAo de devolver valores
sera menor e suportAvel. NAo
estou desistindo do JP, apenas
ajustando-o ao ritmo da mfi-
sica. Espero que os leitores
tambdm partilhem dessa re-
sistencia, empenhando-se
mais um pouco na busca do
seu exemplar, enfrentando
hAbitos e costumes belenen-
ses tendentes ao comodismo
e a lei do menor esforgo. Tal-
vez possamos sobreviver A
ressaca. Sem ressaca.


Mem6ria judicial
No dia 26 do mis passado o
computador que 6 usado na dis-
tribuiqao de processes no Tribu-
nal de Justipa do Estado encami-
nliou, ap6s cinco redistribui96es
anteriores. oprocesso 98302205
(ur mandado de seguranqa civel,
apresentado ao Orgao Especial)
para o desembargador Calistrato
Alves de Matos, que estA morto
ha um ano.


Maioral
Todos os jornais diarios de
Beldm publicaram, de graca, um
anincio do Movimento Rep6bli-
ca de Emar s sobre mais uma
campanha da entidade em favor
do menino de rua. Todos, menos
o maioral deles, O Liberal. A
direqao da empresa condicionou
a publicacgo A sua exclusivida-
de: s6 sairia em O Liberal. Fe-
lizmente, o pessoal da Repdbli-
ca nao se curvou A exigencia.
Ela nao foi feita s6 por vai-
dade ou auto-promogao. O gru-
po Liberal esta de olho no fundo
financeiro (com possibilidade de
chegar a 8,5 milh6es de reais)
que comegou a ser formado na
semana passada, na FederaqAo
das Indfstrias, absorvendo dedu-
9ao do imposto de renda para dar
assistincia aos menores abando-
nados. E, quem sabe, a algum
maior abonado, mas que sempre
quer mais. De preferencia, tudo.


O que 6 mais espantoso ver
pela televisao: o vice-governa-
dor Helio Gueiros Jr. elogiando
a administracao do prefeito Ed-
milson Rodrigues ou a prefeitu-
ra do PT buscando e divulgando
a mensagem de Helinho?
Talvez os marqueteiros do
PalAcio (e da mosca) Azul, ven-
do o filho de Helio Gueiros
como o 6nico representante da
administracao estadual no Con-
gresso da Cidade, realizado pela
PMB no dia 1, tenham arquite-
tado uma jogada para irritar o
governador Almir Gabriel, regis-
trando a presenga do seu inc6-


Entre livros
Ser homenageado por uma
instituigao que trata de livros
me conforta porque me deixa
em casa. Por isso, fui no dia
26 de novembro corn alegria a
sede da Academia Paraense de
Letras receber o diploma que
a Camara Paraense do Livro
concede pela primeira vez a
personalidades que se destaca-
ram neste ano. Tamb6m foram
lembrados o escritor Bcnedic-
to Monteiro, o reitor tdson
Franco e o editor Gengis Frei-
re, aldm de Tereza Azevedo,
proprietaria da rede Ponto e
Virgula, indicada como livrei-
ra do ano.
E corn razao: Tereza (a
principio corn Silvia, sua s6-
cia paulista) acabou com o
monop6lio masculine no setor,
que se manteve por tanto tem-
po, ao abrir sua primeira livra-
ria, 11 anos atras. Agora sao
tres, atestando a importAncia
do toque feminine num seg-
mento que requer sensibilida-
de e acuidade. Nao deve ser
por acaso que na loja mais an-
tiga todas as atendentes conti-
nuam a ser mulheres. Deus
guard esse saudavel clube da
Luluzinha, que guia corn aten-
9fo os clients.
A sessao de premiagao, reu-
nindo pessoas para as quais o
livro 6 vital, foi discreta e agra-
dAvel, como convdm.


modo parceiro de primeiro man-
dato. c
Mas se foi essa a inteng9o, ela
atingiu primeiro o cidadao de
Beldm e o militant petista. Sera
que o alcaide continue pensan-
do que Maquiavel disse que um
fim considerado nobre justifica
todos os meios usados para al-
canda-lo?
Alias, a campanha que esta
sendo veiculada pela televisao
da um salto no culto A persona-
lidade do prefeito. Se continuar
assim, ele vai acabar sendo cha-
mado de Josef Rodrigues, ou
Edmilson StAlin.lPor ai.


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041 .J.


Quem diria?