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V arnSCI: Toma l Pessoal -1' P PeSSOa anos ....... (PAc. 4) L C 0 F L A V I 0 P I N T AI-5.. O none da ANO XII NO 201 2' QUINZENA DE DEZEMBRO DE 1998 R$ 2,00 ditadLra POLITICAL P. O dedo do chefe A punigdo da capitd-jornalista Vanessa Vasconcelos ndo nasceu dentro da Policia Militar, nem se restringiu aos limits do quartel. o segundo epis6dio no confront entire osprincipais adversdrios n a zltima eleigdo, o governador Almir Gabriel e o senadorJader Barbalho, Um terceiro turn eleitoral jd comecou. Sd vai acabar na eleigdo municipal de 2002. At lid, h\ muito tiro ainda vai ser disparado. prisao por 30 dias da capital I anessa Corrda Vasconcelos, determinada pelo comando da Policia Militar no dia 30, pode fcr interpretada como o segun- do epis6dio na sucessao de con- frontos entire os dois principals grupos poli- ticos do Estado depois da eleigao de outu- bro. Seria uma especie de terceiro turno, em progressao ata a data prevista para uma nova medig5o de forqas: a eleicao municipal do ano 2000. Nao haverd trdgua ou armisticio no Para. A guerra continue sem interrupqao. Se a decisao da PM fosse meramente administrative, a capital (e tamb6m jorna- lista) Vanessa Vasconcelos poderia ter sido punida quando apareceu pela primeira vez na campanha eleitoral do 1 turno, contra- tada pela coligagao que apoiou para o go- verno o senador Jader Barbalho, do PMDB, o principal adversario do gover- nador Almir Gabriel. Vanessa, aliAs, po- deria ter sido punida muito antes, desde quando comeqou a apresentar a primeira edigao diaria do Jornal Liberal, no inicio 'da tarde o que nunca aconteceu. Nessas locuc6es, que faz seguindo um texto escrito por redatores da emissora de televisao, em alguns moments a capita- jornalista apresentou informag6es, temas e observances que poderiam ser conside- radas como "desprestigio para a Policia Military uma das razoes alegadas para sua procrastinada puniqao. Para todos os efei- tos legais e de direito, porem, a apresenta- dora do telejornal nao tem qualquer res- ponsabilidade sobre o que lI. A responsa- bilidade ter que ser cobrada da emissora e do director de redagao. L-L [ L[L2LEKLE L VkL:V SLLLL L LZ-/Ls.CZU LLLL/ ( 7) 2 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 ) Mas o comando da PM poderia considerar que, independentemente do conteuido do que 18, Vanessa simplesmente nao poderia acumu- lar sua funim o military con um outro emprego regular, qualquer que ele fosse, desde o gla- mouroso desempenho no mais poderoso canal de televisao (ainda mais, aliado do govemo), atd um bico em porta de festa. Nenhuma iniciativa foi tomada. Inclusive porque os militares fazem cadavez mais vista grossa para o trabalho informal de um cres- cente contingent de PMs, que precisam com- plementar o baixo saldrio pago pela corpora- co A esmagadora maioria dos seus integran- tes (excecao feita a alta oficialidade, especial- mente da reserve). Ter sido a maneira de ate- nuar atensao visivel que se irradia dos insatis- feitos quartdis. A natureza political da punicgo imposta a Vanessa 6 clara. A media foi adotada 40 dias depois da eleiqao, quando a official j havia se incorporado a sua rotina military. Isto significa que embora a participag~ o de Vanessa na cam- panha electoral, do lado oposto ao do seu che- fe maior (o governador 6 comandante-em-chefe da PM), tenha provocado desagrado e irrita- cqo, a decis~o de puni-la nao resultou de uma reaqio imediata. Nao houve a pronta puniCio porque, no ca- lor da dispute, ela seria usada eleitoralmente para dar dividends a Jader Barbalho. Admi- ta-se que os motives legais ou administrativos tenham sido temporariamente colocados de lado pela estrat6gia eleitoral. Nao 6 nada mo- ral, mas nio surpreende. Por que, no entanto, a formalizagC o de uma decision que ji estava to- mada demorou tanto tempo? S6 ha uma res- posta plausivel: porque o governador Almir Gabriel perdeu as esperangas de uma recom- posigqo com o senador peemedebista (ou nio a quer mais) e resolve partir para o confront ou aceiti-lo, olhando por sua 6tica. Talvez essa definiqAo tenha sido reforcada pela posiCqo que Jader assumiu em rela~io aos projetos de refinanciamento da divida do Es- tado e do BanparA. O pretexto de emendar os projetos para assegurar a manutengio do ban- co, cuja privatizag~ o seria uma exigencia dos beneficios concedidos pela Uniao para dimi- nuir o peso do endividamento estadual, nio foi reconhecido no Palicio dos Despachos. A posiqao do lider do PMDB foi entendida como pura retaliacqo, attitude revanchista de mau perdedor. Mais do que isso atd: como o fato desencadeador da campanha de Jader vi- sando novamente o govemo do Estado ou a reeleig o para o senado em 2002. Ou seja: nAo h perspective de que os interesses do PSDB e do PMDB possam ser compostos no Pard. Eles continuam a ser adversarios. A punig~o da capital nao seria apenas o tro- co ao boicote de Jader no senado. Serviria tam- b6m de recado a todos os servidores pfiblicos, mas especificamente a outros integrantes da PM, sobre a lei de Talido que vai vigorar des- de ji: olho por olho, dente por dente; e quenm nao estiver a favor do governor, estard contra, numa aplicaqao das inflexiveis lies do Ve- Iho Testamento, para ficar na inevitivel meti- fora biblica. Da mesma maneira como Jader Barbalho manterd uma posigFo critical em re- laiAo a administragio estadual, Almir Gabriel verd como adversarios os que ficarem corn Jader. Nao haverai meio-termo. A punicio de Vanessa 6 o recado pAblico, mas nao 6 o primeiro. O capitao FAbio Viana, tamb6m envolvido na campanha eleitoral do lado do PMDB,,embora estivesse em primei- ro lugar na lista depromoCqes, por merecimen- to e antigiiidade, nao passou a major no dia 25 de novembro. Surpreso e revoltado, o capitio cobrou explicag6es do coronel Fabiano Lo- pes, comandante-geral da PM. Seu gesto foi interpretado como indisciplina e elepegou 10 dias de prisao. V anessa recebeu a pena maxima, de 30 dias, igual a do coronel Mario Pantoja, que comandou a tropa da PM em Eldorado dos Ca- raj as, corn o agravante de que ela cumpre a prisao no quartel do 2 batalhao, enquanto Pantoja ficou em sua casa, mesmo sen- do responsabilizado por um conflito que resultou em 19 mortos e mais de 50 feridos. Por que a des- proporcgo flagrante? Porque em uma de suas locuq6es a capitA se referiu exatamente ao mesmo epis6dio, encerrando com um"e agora, governador?", que, em se tratando do tema, bate no calo seco de Almir Gabriel, provocando-lhe reaches descontroladas. Essa 6 uma causa mais do que evidence, como o Boletim Geral da PM do dia 30 nao deixou duvida. Mas ha uma outra inteng~o: 10 outros oficiais jaderistas devem voltar proximamente aos quart6is, encerran- do suas licengas. Ou se enquadram, ou po- dem ter o mesmo destino. A conclusao dessas mensagens 6 de que o regulamento s6 sera esquecido para favore- cer o governor, nao para criar-lhe aborrecimen- tos e contrariedades. Se tivesse continuado apenas a apresentar o journal da TV Liberal, Vanessa nao estaria agora sujcit a ser levada a um conselho de justificaoo e arriscar-se a ser expulsa da PM. As eventuais falhas ou irregularidades do seu licenciamento da cor- poraco para tratamento m6dico (todas igno- radas quando ela foi reincorporada) seriam apagadas se ela tivesse feito campanha por Almir Gabriel. Mesmo porque, passando de tenente a ca- pita em quatro anos de carreira, aos 26 anos de idade Vanessa tinha uma ficha limpa e ir- repreensivel. Por falar ingles, entire as mis- s6es que recebeu no ano passado, alfm de servir como ajudante de ordens para ilustres visitantes estrangeiros, foi acompanhar a pri- meira dama aos Estados Unidos. Socorro Gabriel foi visitar uma filha, que estuda em terras americanas. Nao era, evidentemente, visit official. Mas Vanessa viajou com passa- gem e diarias pagas pelo erario para servir de intdrprete. A primeira dama 6 monoglota. E claro que opr6prio govemador age como se o assunto fosse questao estritamente inter- na da Policia Militar. Recusou at6 mesmo o pedido de audiencia da president da Federa- 9do Nacional dos Jornalistas, Beth Costa, que veio a Bel6m disposta a tratar do assunto como ato politico contra a liberdade de imprensa e o direito ao trabalho. Para efeitos externos, o governador foi t~o surpreendido pelo ato do coronel Fabiano quanto a opiniao public. Mas nao 6 assim. No pr6prio dia 30 de novembro, quando a puniqao foi anunciada no quartel-general, o secretArio de seguranga pAblica, Paulo Sette Camara, levou o assunto ao seu despacho cor o governador no assim chamado palAcio da Augusto Montenegro, a pedido do advogado Marcelo Freitas, vice- presidente do Conselho de Seguranca do Pard e president da Sociedade Paraense de Defe- sa dos Direitos Humanos. Cobrado sobre uma resposta no final des- se mesmo dia, Sette Camara disse para Mar- celo que o govemador nao iria se envolver com a questao. Mas quando Vanessa recor- reu Ajustiga para anular sua punigao, um im- portante auxiliar do governador no palacio foi visto circulando intensamente pelo f6rum de Bel6m. At6 mesmo uma decisuo sobre um pedido de habeas corpus, que costuma ser sumiria, foi protelada por falta de um magis- trado disposto a enfrentar o process. Se a ordem de punicio nao tivesse partido do governador, o problema teria sido resolvi- do mais cedo, cor puniqao ou perdao. Devi- damente instruida a assim proceder, Vanessa obteve uma declaracgo da diregao da TV RBA, datada de 31 de agosto, segundo a qual todas as suas participates no program elei- toral da coligacgo "Caminhando com o Tra- balho" foram gravadas em agosto mesmo - antes, portanto, do seu pedido de licenga. Seria um artificio, ja que Vanessa pediu de- missao da TV Liberal para participar da cam- panha. Mas deveria aplacar o chefao, se sua reaqgo nao fosse tao furiosa. 0 epis6dio reforga uma percepio que esta se tornando cadavez mais clara: comecou no Pari um terceiro turno eleitoral. 0 JOURNAL PESSOAL 24 QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 3 De Kennedy ao AI-5, um tempo de guerra Soube do assassinate de John Fitzgerald Kennedy aos 14 anos, quandojogavabasque- te, cor os filhos do coronel Anastacio Neves e um grupo de detentos entiree os quais ponti- ficava o homicide Sangue Novo), na quadra internal do Presidio Sao Jose, no fim de tarde de 22 de novembro de 1963. Em estado de cheque, fui para a sede do consulado dos Es- tados Unidos e, depois, para o CCBEU, am- bos entao na avenida Nazar6, atras de infor- mag6es. Fiquei por la at6 tarde da noite. Quando cheguei em casa meu pai me ra- Ihou. Eu nao havia pedido autorizagio para sair, nem avisara que ia demorar. Os fultimos vestigios de inocencia se dissiparam de den- tro de mim nesse dia. Amadureci. JA via a re- alidade sem as n6voas da ingenuidade. Mas idealismo e confianga ainda resistiam. Naquele 13 de dezembro de 1968, corn 19 anos, eu ja estava ha quase tres anos no jornalismo professional. Ficamos acantona- dos na redacgo de "A Provincia do Pard" acompanhando a evolugao da crise, iniciada - na sua fase mais virulenta cor o incon- seqiiente discurso do deputado federal (tam- bem jornalista) Marcio Moreira Alves con- tra os militares. Acho que cruzei cor MAr- cio dois anos antes, quando esperava numa ante-sala para entregar ao pai dele, ex-se- cretirio de educacgo no Rio de Janeiro, uma carta de apresentagao do meu pai. Alegando ofensa A honra das Forgas Ar- madas, os ministros militares forcaram o go- verno a pedir licenga da CAmara Federal para processar o parlamentar. A licenga foi nega- da no dia 12. Vinte e quatro horas depois, em meio a uma tensao explosive, o Conselho de Segu anga Nacional se reuniu para referen- dar o golpe dentro do golpe, o sinistro Ato Institucional nimero 5. Ouvi pelo radio a transmissao. Esperei o texto, que veio pela Agencia Meridional. Li com indignagao e assombro. Percebi ime- diatamente que a hist6ria vivida at6 ali che- gara ao fim. Tres meses antes eu varara a madrugada redigindo um relat6rio da co- missao paritAria de professors e alunos, formada com a ocupagao da Faculdade de Filosofia. Depois de discutir o acordo MEC-Usaid, sugeria-se medidas ao gover- no federal para o ensino superior. O docu- mento foi entregue a um assessor do presi- dente Costa e Silva, de passage por Be- 16m. Quando a comitiva presidential se foi, descobrimos o document numa lata de lixo do aeroporto. Ningu6m lera. Ja era de madrugada quando cheguei em casa disposto a deixar Bel6m do Para, onde o ambiente se tornaria sufocante pela rendi- cao geral, e me transferir para o que imagi- nava que viria a se tornar o olho do furacao. Em janeiro de 1969 eu ja estava morando em Sao Paulo. Ingressava de vez numa ou- tra fase da minha vida. Sao cinco anos entire esses dois momen- tos, dos mais traumAticos para a minha ge- ragco, relembrados porque um completou 35 anos e o outro, 30 anos. Cor a guerra do Vietnam, arremata-se a definiiAo da nossa consciencia de mundo, a nossa weltanschau- ung, como dizem os alemaes. Analisando retrospectivamente, sabe- mos agora que o president Kennedy nao foi o pacifista e o estadista que entao o imaginAvamos. Autores americanos de nao-ficqao, mas, sobretudo, de ficqao, tem se dedicado a cortar na came do pr6prio pais e desautorizar qualquer tipo de ilu- sao sobre os EUA. Made in USA nunca foi sinbnimo de inocencia. Ontem, como aindahoje, no entanto, Ken- nedy continue a representar para n6s uma ruptura cor a tensao, o farisaismo e a into- lerfncia cultivados desde a morte do grande Franklin Delano Roosevelt. Antes dele, Tru- man e J. Edgar Hoover representavam a ima- gem do Tio Sam carrancudo e iracundo com seu big stick (o popular porrete). Kennedy levara para o poder mAximo da terra a des- contraqao, o bom humor, o savoir-faire e o fair-play de uma pretendida "nova classes so- cial": osjovens. Podia nao ser muita coisa, mas era algo essencial para tornar a vida mais agradavel e realimentar a confianqa. 0 ar se torara respiravel. Kennedy descobrira que n6s, do lado (li- teralmente) de baixo da Amdrica, existia- mos. Recorreu a instituig6es ambiguas e melifluas, a Alianga para o Progresso e o Peace Corps. Mas, independentemente das inteng6es de Washington, surgiu a proximi- dade e pudemos nos conhecer melhor. Mui- tos anos depois conheci em San Francisco um ex-integrante dos Corpos de Paz que continuava kennediano, numa versao cali- forniana, corn um pouco de contra-cultura no modo de viver, mas ainda se julgando membro da corte de Camelot, atras da nova fronteira. Mesmo que os simbolos ocultas- sem distorg6es, acreditAvamos neles. E isso, se nao era garantia de chegar ao fim da bus- ca, era a certeza de inicia-la. O AI-5 nos despejou na porta dos funds da hist6ria, nos marginalizou. O ~nico para- ense naquela lhgubre reuniao de 23 homes cinzentos no Palacio das Laranjeiras, no fi- nal da tarde de uma sexta-feira, 13, o minis- tro do Trabalho, Jarbas Passarinho, 6 o au- tor da frase mais tristemente exata para sau- dar a nova e velha era que comegava naque- le instant: como se instaurava de vez a di- tadura, que nAo surgira de imediato em 1964, Passarinho decidiu mandar as favas "todos os escrnpulos de consciencia". Ter escrfipulos e consciencia, entretan- to, era o maior patrim6nio daquelas gera- gces impulsionadas para a vida plblica pelo otimismo irradiante de JK e o mais demorado period de democracia na Re- pfiblica. O AI-5 nos impunha a desnatura- ico. Exigia que deixassemos de pensar, aceitando dogmas, verdades apresentadas ja prontas para serem adoradas como o bezerro de ouro. Da mesma maneira como nao havia ma- terial corn substancia parajustificar em 1964 uma contra-revolucio (apesar dos minoriti- rios grupos radicals, naverdade o Brasilpas- sava por uma evoluqgo conseqiiente e nao propriamente por uma revolugao), em 1968 a ameaca que fez o regime partir para uma ditadura aberta era risivel. O AI-5 foi o mo- mento dos radicals de direita, que desenca- dearia, em seguida, o moment dos radicals de esquerda, corn suas formas de luta arma- da para a conquista do poder (mais do que uma utopia, uma sandice). O discurso de MArcio Moreira Alves em 1968 era tao irresponsavelmente provocador quanto o do cabo Anselmo (marinheiro, em realidade) em 1964. Se sobre Anselmo per- siste a suspeita de ser um mercendrio, do hoje acomodado colunista de O Globo deve-se cobrar apenas a inconseqiiencia de uma cer- ta intelectualidade urbana bern posta que anda sempre cor p6lvora numa das maos e uma passage para o exterior na outra. Some quando o pais explode. O pals que se vire. Atd o AI-5 eram pensadores e militants de esquerda. Depois, na maioria das vezes, eco- nomistas do sistema. A progressao do Behemoth foi voraz. Ler virou uma atividade perigosa, mesmo quan- do se lia um livro inofensivo, como O Ver- melho e o Negro, de Sthendal, ou A Capital, de Eca de Queiroz, que poderiam ser toma- dos pelo que nao eram. Lembro que com- prei uma biblioteca inteira de um ex-simpa- tizante do velho Partidao, a prego de bana- na, porque o amigo estava mudando de de- canato. Ler alguns desses livros, s6 encapa- dos corn papel de present. Pensar s6 estava livre de riscos se o pensamento nao fosse exteriorizado. Surgiram c6digos para despis- tar. Escrevia-se nas entrelinhas, pensava-se nas esquinas. O censor as vezes agia invisi- vel, as vezes sentava-se ostensivamente na redagao. Independentemente da forma ado- tada, o objetivo era um s6: impor o medo. Nada avilta mais a condiqgo humana do que o impdrio do medo, do qual result a covardia sancionada, premiada. Muitos dos membros da minha geraqao, ao tentar rea- gir, perderam o control de sua pr6pria rea- Gio, entrando num labirinto viciado que aca- baria levando-os as maos do algoz. Ha os que fizeram opgqo consciente pela luta ar- mada e nela acreditaram. Muitas pessoas, entretanto, eram pacificas, cordatas e inofen- sivas. Dotadas de uma grande capacidade de indignacao, foram apresentadas como peri- gosos terrorists. Cito apenas um caso pr6ximo, o do frade dominicano Tito de Alencar, colega nas Cien- cias Sociais da USP (como em todos os campi de entao, instaladas em estigmatizadosbarra- c6es). Vitima das torturas do delegado S6rgio Paranhos Fluery, Tito fugiupara a Franga quan- do foi solto. Mas nio recuperou a sanidade: num cendrio buc6lico, foi encontrado enfor- cado. Era a finica paz que lhe restou. Nunca poderemos esquecer o imp6rio das trevas sancionado pelo AI-5. Nunca deixa- remos que se esqueqa enquanto vivermos. Nao por vinganga ou rancor. Mas para con- tinuarmos a crer que estarA sempre de p6 a liqao aprendida na primeira escola: de que ha uma licgo a aprender na hist6ria, cum- prindo nunca olvidA-la. * 4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 0 pequeno grande Antonio, entire brasileiros ha 30 anos Era maio de 1967. Estu- dante secundarista de 17 t- ;' anos do coldgio (ainda S experimental a dpoca) Andrd Maurois, no Le- ,y blon, eu garimpava num dos sebos da saudosa Rua da Carioca, no cen- tro do Rio de Janeiro. Meu olhar, treinado desde muito cedo no sebo do Dudu (ajA ex- tinta Livraria Econ6mica, de Eduardo Fai- lache, na rua Campos Sales, centro de Be- 16m), foi atraido por um volume encaderna- do que estava embaixo de uma pilha de li- vros velhos, ao lado de uma estate. Eram exemplares da revista Rinascita de janeiro de 1947 a margo de 1948, numa excelente encadernacio corn frisos dourados. A revista, do Partido Comunista Italiano, editada em Roma sob a direcio de Palmiro Togliatti, comegara a circular tres anos antes daqueles nimeros da colegAo encadernada que se tornava minha. Dedicada a political e cultural, a revista viria a se tornar famosa. Era uma preciosidade. Fui ao balcao me informar sobre o prego apenas por curiosidade. Mas, para minha alegre surpresa, o prego era de galinha morta (o equivalent a uns tr8s d61a- res da dpoca). Algu6m devia ter-se desfeito do volume de qualquer maneira, talvez rece- oso de complicacoes naqueles tempos de in- tolerfncia. Comprei de imediato. Comecei a ler no bnibus de volta a Copa- cabana, onde eu morava. Continue no ca- minho para a escola, dirigida (com amor e liberdade) por Henriette Amado (e reprimi- da pelos militares, que a desnaturaram). Pros- segui no recreio eja quase terminava quan- do fui dormir, tarde da noite. O que mais me impressionou foram os textos de um certo Antonio Gramsci. Atd entao eu o desconhe- cia completamente. E, como eu, quase to- dos os brasileiros letrados. Ele quase s6 era acessivel em italiano. Atd a Rinascita colocar Gramsci na pri- meira pagina da edicio de abril de 1947, "comemorando" (conforme a infeliz expres- sao do discurso de Togliatti, transcrito na revista) os 10 anos da morte do fundador do PCI, nao havia exatamente um livro de Gra- msci publicado na ItAlia, mas apenas artigos dele em revistas ejornais. O primeiro s6 sur- giria em 1948: II Materialismo storico e la filosofia de Benedetto Croce. Com o titulo modificado para Concepgdo Dialdtica da Histdria, este tambdm seria, em 1968, o primeiro livro de Gramsci publica- do no Brasil. O livro surgiu exatamente 30 anos ap6s a estr6ia italiana, tamb6m 30 anos atrAs. Esperei ate a und6cima hora por um registro dessa data na grande imprensa bra- sileira. E nada. Fago entAo esta modest ho- menagem A facanha editorial da Civilizacgo Brasileira, de Enio Silveira (ja falecido), para que ela nao passe nas chamadas brancas nu- vens e permanega no esquecimento. A incorporagao do pensamento de Anto- nio Gramsci enriqueceu o patrim6nio intelec- tual brasileiro. Da mesma maneira como aque- les artigos transcritos em Rinascita me mar- caram profundamente, o contato com a pro- duCio mais sistematizada dos cadernos escri- tos por Gramsci no carcere do Estado fascis- ta italiano teve o efeito de uma revelagio. Antes de baixarem as trevas do AI-5, a 13 de dezembro, a Editora CivilizagAo Bra- sileira pbde publicar, ao long de 1968, mais quatro livros de Gramsci: Os Intelectuais e a Organizacgo da Cultura; Literatura e Vida Nacional; Maquiavel, a Politica e o Estado Moderno e as emocioriantes Cartas do C6r- cere. Afora o editor Enio, os brasileiros tnm uma imensa divida de gratidAo para corn Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder e Luiz MArio Gazzaneo, que traduziram, or- ganizaram e comentaram os livros. A leitura dos cinco volumes 6 suficiente para dar acesso ao essencial da produgio de Gramsci, mas, passados 30 anos, a influen- cia que positivamente ele ter exercido so- bre intelectuais brasileiros ji deveria ter es- timulado alguma editor a langar as obras completes do grande italiano. Aldm das ano- taq6es contidas nos 32 "cadernos do circe- re", nem todas incorporadas aos volumes tra- duzidos, hi os anteriores artigos de impren- sa. Em edigao lusitana de 1976, da editor Seara Nova, eles ocuparam quatro volumes. Talvez essa edi9do integral jamais saia, mesmo porque editar Gramsci em italiano (como o Marx por inteiro em russo) jAi em- preitada temerAria. HA sectarismos e tabus se interpondo entire a totalidade de Gramsci e a image cultuada por cada um dos vArios grupos dele derivados. Embora Gramsci seja um poderoso antidote contra facciosismos, eles brotaram de dentro dele deturpando- o ou manipulando-o, 6 claro. Por isso, os "donos" desses Gramscis parciais nao que- rem-no exposto por complete. Um observador atento dabiografia do pen- sador italiano percebera que, emvida, ele in- comodoutanto seu inimigo, Benito Mussoli- ni, quanto seus correligionarios doutrinArios e dogmdticos. Se o primeiro foi responsAvel pela abreviagqo da vida de Gramsci, aos 46 anos, os segundos nao fizeram tudo o que es- tava ao seu alcance para preserva-la. Certa- mente nao desejavam sua morte, mas nao o queriam inteiramcnte livre. O primeiro temia o combat que Gramsci Ihe dava. Os segun- dos receavam a clareza de raciocinio do com- panheiro comunista, inc6moda num period de submissao.A ditadura stalinista. Estreiteza de visao nro combine cor Gra- msci. Algumas pessoas tentam extrair um sis- tema acabado do que ele escreveu (um "mar- xismo gramsciano"), esquecendo que as ano- taqes dos 32 cadernos que sobreviveram A censura fascist foram produzidas em condi- c5es desfavoraveis: numa cela, entire sofri- mentos fisicos, sem acesso a fontes organiza- das, com uma linguagem quase cifrada para poder vencer a fiscalizaFio prisional. Nem sempre o resultado desse pensar 6 o mais important ou seu ponto alto, mas o pr6prio desenvolvimento do pensamen- to, a construcgo do raciocinio liberto de amarras e indexes. Na solidao da cela, aprofundando a solidao que o marcou des- de a idade consciente, Gramsci s6 tinha compromisso com essa edificaqao dialdti- ca, nao necessariamente com o produto dela. Ele nao oferece iddias prontas, mui- to menos incontroversas, mas um m6todo de pensamento. Por ser sistemAtico e ri- goroso, esse m6todo pode ser aplicado a outras cultures e hist6rias, o que o torna fecundo. Poucos pensadores deixaram uma obra-em-progresso tao exemplificativa enquanto anatomia do pensar. Quem nao quiser absorver toda essa obra deveria pelo menos ler as Cartas do C-r- cere. E um dos mais deslumbrantes teste- munhos humans em todos os tempos. Vale mais do que toda a literature de auto-ajuda existente no mercado, sem se reduzir a psi- cologia, esoterismo ou filosofia aguada. Tem uma moral renovadora, como se fosse um conto de fadas com leitura A Bruno Bet- telheim. Seria uma espdcie de Branca de Neve adaptada As tiranias de hoje. Dois homes, a principio aliados num projeto socialist, seguem depois por cami- nhos opostos que se cruzariam no future, pro- vocando colisAo. Mussolini, como seu par- ceiro alemiro, Adolf Hitler, faz de seu socia- lismo um fascismo, regime de partido uni- co, da hegemonia compuls6ria (como os comunistas fariam usando como ariete a di- tadura do proletariado, rejeitada por Grams- ci). Gramsci quer que seu socialismo seja resultante de uma hegemonia progressive, aceita organicamente pela maioria, dela con- vencida. Um vira o novo Cdsar romano, il Duce. 0 outrojunta o poder do pensamento A organizaalo de massas em tomo da peda- gogia political. O poderoso manda prender o antigo alia- do comr uma ordem: aquela cabega tem que parar de funcionar. Na prisao por 10 anos, Gramsci, de constituigiao fisica frAgil, v8 seus 6rgaos entraremprogressivamente em colap- so. A cabega, atormentada por ang-istias e depresses, por6m, resisted: gem agudas ano- taq6es e cartas cheias de humanidade, amor e humor, sentiments realizados e por reali- zar, o desejo de superar a solidao impedido (mas por isso mesmo acalmado) pelas gra- des da prisAo. O ditador pergunta ao espelho quem d mais inteligente na ItAlia fascist. E o espe- JOURNAL PESSOAL 24 QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 5 A7 S- . ' .. "....... '.. ....... .,....... ....... . Iho, a despeito da furia refletida na image, diz que, no fund de uma cela, ainda 6 An- tonio Gramsci. Para nao manchar sua bio- grafia cornm uma n6doa que feria fundo sua vaidade intellectual, Mussolini, que nao era um ditadorzinho qualquer, finalmente liber- tou o adversArio agonizante. Sabia o que es- tava fazendo: reconquistada a liberdade, em abril de 1937, o c6rebro privilegiado de Ant6nio Gramsci sofreu uma hemorragia. Dois dias depois ele morreu. Hoje, por6m, esta mais vivo do que o al- goz que o derrotou 60 anos atras e parecia reeditar um Impnrio Romano milenar. Em algum lugar do planet sempre haverA al- gu6m que, em meio a incertezas, decepa8es e tristezas, lerd co confianga renovada na humanidade este parigrafo que o pequeno e feio cidadao da Sardenha, o melhor dentre eles naquela parte pobre da gloriosa ItAlia, anotou em um dos seus caderos do cArcere, a prop6sito de iddias bizarras (ou lorianas): "Todos os mais ridicules fantasistas, que em seus esconderijos de g6nios incompre- endidos fazem descobertas brilhantissimas e definitivas, atiram-se sobre todo movimen- to novo, persuadidos de powder vender suas tolices. Outrossim, todo colapso traz consi- go desordem intellectual e moral. E necessA- rio criar homes s6brios, pacientes, que nAo se desesperem diante dos piores horrores e que nao se exaltem em face de qualquer to- lice. Pessimismo da inteligncia, otimismo da vontade". B o pessimism da inteligzncia que leva os homes a renovar suas id6ias, a buscar novas verdades, como Galileu contestando o estAtico mundo medieval construido pela Igreja. Mas sem o otimismo da vontade essa negagco da ordem estabelecida vira niilis- mo, pessimism, mera destruigso. "Pessimis- mo da inteligencia, otimismo da vontade", um lema que Antonio Gramsci deixou para to- dos os homes em todos os tempos acessi- vel aos brasileiros ha 30 anos. Mesmo sem registry fulgurante, ji nao 6 mais possivel apagar o legado que essa cabega privilegiada nos deixou por nunca ter aceitado renunciar ao ato que define o ser human: pensar. 0 Benedito Nunes: unanimidade viva A unanimidade 6 burra, disse Nelson Ro- drigues, numa frase que agora todos repe- tem. Mais do que burra, a unanimidade 6 pe- rigosa quando transform em estatua ou en- troniza em santudrio uma pessoa viva. Benedito Jos6 Viana da Costa Nunes, finalmente, 6 uma unanimidade. Confor- me o velho esquema colonial e provincia- no, primeiro alcangou a consagraqgo na- cional: um col6gio eleitoral formado por tr8s mil pessoas consultadas em todo o pais colocou-o entire os tres premiados pelo journal O Estado de S. Paulo como desta- ques do ano no mundo da cultural brasilei- ra. Quantos intelectuais fora do eixo he- geminico de producao do pais poderiam sair vencedores em uma votagio dessa? HA algum outro no Pard? No m8s passado, ap6s intervalo de dois anos entire a decisao e sua concessao, a Universidade Federal conferiu a Benedito Nunes o titulo de professor em6rito. Um tanto rusticamente, deixando a suspeita de press, um folheto e um CD dedicados ao mestre foram langados na ocasiao para marcar a data. O Para, assim, reconheceu a posicgo in- vejAvel alcangada por seu ilustre filho, fa- zendo-lhe aquele tipo de homenagem que, como lembra um samba de Nelson Cavaqui- nho, ter que ser dada em vida ou esqueci- da, para nao se tornar saudade. O professor- advogado-fil6sofo-ensaista e grande conver- sador Benedito Nunes 6 uma unanimidade por inquestionavel merecimento. Todas as honrarias que os paraenses Ihe puderem con- ceder ainda nao serdo suficientes para cor- responder as suas virtudes. Benedito tem mais do que o Pard merece receber de um intellectual. Por isso ultrapas- sou as fronteiras do seu Estado de nascimen- to e domicilio sem precisar inventar notas nos jornais, nem superdimensionar o conceito extemo. Quemji andou por centros de cultu- ra da Europa e dos Estados Unidos, em al- gum moment, ao se apresentar como brasi- leiro (e nem precisa ser como paraense), ja ouviu a pergunta: "entao, vocal conhece o pro- fessor Benedito Nunes?" Apresentar-se como amigo de Benedito, entao, eqitivale a umpas- saporte para o bomtratamento, recebendo por contagio o respeito que a ele 6 dedicado. A unanimidade em torno do mestre da rua Estrela, portanto, nao 6 burra. Muito pelo contrArio, 6 sabia. Poupa-nos do sempre ame- acador desgosto e da vergonha de nao reco- nhecer o valor excepcional de uma pessoa com ela ainda em vida. Mas pode ser perigo- sa se colocarmos num pedestal um home que, As v6speras dos 70 anos, continue muito vivo, interessado em mudanqas, inquieto, in- satisfeito, sempre embusca de mais saber, em sua ampla acepqao de substantive e verbo, doja incorporado ao patrim6nio e do que ain- da se pretend conquistar. Queremos que Benedito Nunes conti- nue a ser homenageado. Mas, antes de tudo, desejamos que seja lido. Que suas conversag6es dial6ticas, que valem mais do que toda uma vida acad8mica, estejam sempre ao alcance da nossa ignorancia. Para diminui-la. * Por causa de sua longa e multifacetada carreira de home sempre puiblico, no ve- Iho e permanentemente atualizado sentido greco-romano, onde quer que esteja atuan- do (alim de polemico), Armando Dias Men- des comandou uma rara festa, que combi- nou os prazeres do espirito com os da came, no lancamento do seu livro A Cidade Tran- sitiva, no jardim enluarado do Parque da Residencia, na semana passada. Gente representative de um amplo univer- so de iddias, posig6es e interesses foi congre- gada por un ponto em comum: o amor dedi- cado a esta her6ica Santa Maria de Bel6m do Grlo ParA, cuja vida nos anos 40 e 50 Ar- mando reconstituiu atrav6s das suas lentes de anatomista social (As vezes tamb6m patolo- gista), ampliadas pela posigo filos6fica as- sumida diante daqueles dias de reconstruqo. Ler o livro de Armando (belo trabalho da Imprensa Oficial do Estado, 258 paginas, fartamente ilustrado, R$ 25,00) nao propor- ciona apenas o prazer da "recordAncia", como ele diz, para matar saudades. Serve tambdm para refletir sobre a nova recons- trumao que se imp6e neste moment, antes que desapareqam motives que ainda restam para futures Armando Mendes trabalharem com a mem6ria. Como fica claro nesse livro de riqueza humana, reconstruir uma cidade nao 6 puro trabalho de engenharia ou arqui- tetura, de decoragao ou "cenarizaqao" (em sua dimensao teatral e s6cio-econ6mica). Nem se reduz ao "imaginario", por mais competent que seja o seu manejo propagan- distico, e por melhor que seja a intenqao do Goebbels ao tucupi. Armando Mendes teve o que lembrar por- que fez pelo human e o social, o sempre imperfeitamente human que recomenda, como o poeta Drummond alertou, estar cor os homes, entire eles, fazendo. Como este- ve Armando na bela noite de aut6grafos da cidade transitiva hoje, talvez, ja intransiti- va -, que recuperou para alegria e desfrute dos seus convivas, ao menos enquanto con- viveram e enquanto lerem seu caderno de (e)ternas notas. * A cidade transitiva de Armando Mendes 6 JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE DEZEMBRO / 1998 0 maltratado lado esquerdo do peito O exercicio do jornalismo independent exige a critical. Muita gente acha que 6 mui- to facil critical: basta sair atras de erros e exp6-los. O problema comeca com a circuns- tAncia de que nem sempre os erros sAo visi- veis a olho nu. Quando quem os compete tern a possibilidade de manipular e camuflar o que deliberadamente faz de errado, seus er- ros ficam protegidos por camadas de dissi- mulagAo e tamb6m de dissuasao. As vezes 6 precise ter competencia espe- cifica para desfazer essa camuflagem (a cri- tica nao 6 s6 empirismo). As vezes a neces- sidade 6 de ter coragem para ir alWm da cou- raca colocada no caminho daverdade (a cri- tica nao 6 s6 vontade). Ja ai a rimplicidade se desfaz e o nfimero das pessoas dispostas a critical nesses terms se reduz. Mas ha erros e erros, vicios e vicios. Um jornalista independent ter que ser capaz de selecionar aqueles erros ou vici- os de interesse coletivo, que afetam o pa- trim6nio pfiblico e prejudicam a vida so- cial, dos que sAo prerrogativas da privaci- dade de cada cidadAo. HA bons critics de vaudeville, do trivial variado. Precisam existir. Mas, como naquele poema de Ber- tolt Brecht, nao sao os essenciais. Podem enriquecer umjornal, mas nao o definem, nao Ihe dao a substancia vital. O valor da critical sera estabelecido pela sua militAncia. HA critics que comegam como uma promessa ejamais passam desse estagio. Outros hA que regridem at6 a insig- nificAncia. S6 com o tempo, de duraqAo um tanto imprevisivel, a opiniAo pliblica poderA separar o bom do mau critic, aquele que simplesmente abre a boca e diz o que Ihe vem a cabega (ou que usa para tirar vanta- gem pessoal) daquele que sabe efetivamen- te do que estA falando e fala para servir ao avango da consciencia social. Sem este, nao hA democracia que valha a pena. As melhores cabegas que pensaram so- bre o cultivo dessa tenra plant political, des- de que suas sementes comegaram a ser plan- tadas modernamente, ainda na revolugio constitucionalista inglesa do s6culo 17, nao tiveram dfvida a esse respeito. Tambdm pu- deram perceber que 6 precise haver muita critical, inclusive infundada e superficial, para que desse vasto plantio possa brotar a boa critical. E da pluralidade e da controversial que se alimenta a clarividencia humana e nAo da unidimensionalidade (como advertiu Herbert Marcuse na d6cada de 60, seduzindo os jo- vens com seus sl6idos arguments libertari- os, sem propriamente conseguir se fazer en- tender por eles). Um critic em crescimento saudAvel chegara as proposiq6es. E quase ineviti- vel para o critic passar da revelaqAo do que efetivamente 6, a despeito da lingua- gem, da ret6rica e da ideologia em sentido contrario, levada ao convencimento pelo uso massive e persuasive (o que pressu- p6e riqueza de meios), para alcanqar o que deveria ser. Mas nem sempre 6 positive o resultado dessa transicao. Um exemplo definitive 6 o de Karl Marx. Sua critical do capitalism nao teve resposta ao seu tempo. A critical nao resultou de uma inspiraqdo sibita, de um estalo ou de um chute inspirado. Marx abreviou seus dias estudando e analisando A exaustao aquele sistema prodnwti'n crntr1 o equal se insurgiu. Antes de negA-lo, conheceu-o como nenhum outro, indo As suas raizes. Os radicals de fa- chada, ontem como hoje, tomam radicalis- mo por ser "do contra" A simples apresenta- qAo das raz6es do adversArio. O capitalism s6 sobreviveu a Marxpor- que mudou, em parte por ter que apresen- tar uma resposta aos arguments irrespon- diveis do pr6prio Marx. NAo s6 uma res- posta te6rica, mas uma prAtica nova. Marx desmontou as estruturas padres daquela cathedral da producgo em sdrie e em escala de produtividade crescente, A custa do ho- mem, que se universalizaria (globalizaria, como se diz hoje). Mas o grande pensador nao resistiu A sua dimensAo de profeta. Ao proper a constru- cio de uma sociedade sem classes, de uma IcAria tornada real por uma ideologia final- mente fundada na ciencia (como se tal idi- ossincrasia, que deu no marxismo, fosse pos- sivel), Marx abriu avenidas para a passage de algumas das piores tiranias que o home ja experimentou e sofreu. A "nova classes" burocratizada revelou uma selvageria pou- cas vezes assinalada na rota da humanidade. Melhor teria sido que Marx nunca tives- se se sentido obrigado a pular do papel de critic para o de profeta, o que ele atd ten- tou evitar, justica se Ihe faqa. Impulsionado pela militancia na Internacional Socialista, Karl Marx tornou-se um prot6tipo dos dita- dores que surgiriam na esteira de seu pensa- mento, negando-o. Mas ainda desfrutou de um moment de lucidez ao contemplar o que tinha sido provocado por esse novo positi- vismo revolucionArio: "se isso 6 o marxis- mo, eu nao sou marxista", teria dito o velho alemAo, vendo seus brilhantes raciocinios reduzidos a catecismo de vids oriental (por isso foi "inaugurado" na RAssia czarista). Um critic, portanto, pode ser mais fitil A humanidade "apenas" como critic, en- quanto pensador que assume a funcAo de parteiro da hist6ria, fazendo nascer um novo tempo sobre ruinas que, atd entao, eram vis- tas como estruturas saudaveis. E claro que um papel dessa importAncia esta reservado a c6rebros privilegiados, como Arist6teles, Descartes, Pascal, Montaigne s6 para ci- tar alguns que servem de referencia demar- cadora do tempo. Parajornalistas, apretensao 6 imensamen- te mais modest: sua missSo 6 contribuir para dissipar a ndvoa da dissimulaqao e fazer bri- lhar o terreno da verdade em sua pr6pria 6poca. Sobre esse territ6rio minimo devem evoluir os chamados atores sociais, cada um deles com suas pr6prias id6ias e projetos. Cabe ao jornalista estabelecer essa base fac- tual, por mais que seja tentadora a seduqco de colocar a versao antes e acima dos fatos. Se ela vier, que venha depois. Para criar esse ambiente, por6m, jorna- listas independents tnm que enfrentar aque- les grupos e pessoas dotados de maior po- der. Ainda quando a concessao desse poder seja legitima, pela via eleitoral ou pela dele- gaqAo de poderes, o exercicio de um man- dato ou de um cargo de confianqa leva fre- qiientemente ao paroxismo e ao desvario. Cabe A imprensa digna desse nome contro- lar os excesses, aproximar os governantes dos governados, mesmo que aqueles nio queiram e estes considered desnecessAria essa proximidade. Jornalismo, por isso, 6 critical e oposiqao sempre. E, quando possi- vel, proposiqao e sugestao. Mas poucos dos que se colocaram ou fo- ram colocados acima da massa dos cidadaos concorda com essa necessidade. Primeiro tentam seduzir o critic. Nao conseguindo esse objetivo, procuram desautorizar o cri- tico recalcitrant. E se permanecem mal su- cedidos, empenham-se em calar ou destruir o personagem inc8modo. Nao 6 pontilhada de flores a trajet6ria percorrida por um jornalista atd que se te- nha tornado um critic respeitado, cujas palavras sao lidas e meditadas por se ha- ver estabelecido o convencimento de que elas resultam de pesquisa, investigaqAo, analise e maturadao. O percurso de um taljornalista esta mar- cado por desentendimentos, desencontros, crises, ameaqas, agress6es, desesperancas. Tambdm por muitas amizades destruidas, abandonadas, ou que se transformaram em inimizades quando amigos entraram na li- nha de critical. E por aquela solidao que se tora uma condiqao para critical sem os an- teparos da relagao pessoal, do querer bem que mantdm suspense o rigor na avaliagao. Por tudo isso, 6 com prazer e alegria que me permit publicar a carta que Iza Ayres, esposa do doutor Manuel Ayres, me escre- veu a prop6sito do registro sobre o livro BioEstat (ver Jornal Pessoal n' 200). Corn ela, homenageio todos os poucos amigos' que compreenderam a fungAo do critic e nao deserdaram. Que aceitaram a pouc' atengio deste apressado e tAo imperfeitc- jornalista, retribuindo ao descaso desinten cional amizade aplicada, vigorosa e pesso- JOURNAL PESSOAL 24 QUINZENA DE DEZEMBRO /1998 7 0 que seria de Belem sem suas mangueiras? Todos os belenenses repetem como ligao decorada que esta cidade nao seria a mesma sem as suas mangueiras. Tao repetida e acaciana, essa percepcqo perdeu sua vivacidade. Para mim, ela se reavivou quando deparei, na semana passada, com dois quar- teir6es depenados da avenida Presidente Vargas. JA fazia algum tempo que um fato aparentemente tao trivial nao me provocava tao forte impact. Muitas pessoas talvez nao tive- ram a mesma reacgo porque a Presidente Vargas tem sido maltra- tada corn uma selvageria que da d6 e dessensibiliza ao mesmo tempo, porque a devastagoo prossegue em escalada sem control. Era a nossa mais parisiense avenida. O boulevard da Castilho Franga sobrevive apenas no nome e quando, a noite, ao chegar-se de barco a Belem, pode-se agradecer pela graqa de ainda haver sobrado alguma coisa e lamentar pelo queja desapareceu. Em Sgo Paulo, o unico lugar que me lembrava Bel6m era a rua Sao Luis, em um s6 quarteirao, entire a Ipiranga e a Consolacqo. A arboriza- cao cria a cobertura de copas verdes, a luz filtrada e um cheiro que nao se compare cor o das nossas mangueiras, mas, de qualquer maneira, era um cheiro de natureza no concret6rio desvairado. Carecas, os dois quarteir6es da Presidente Vargas passaram a ser uma via qualquer de uma cidade massacradamente urbaniza- da, nao a Bel6m da sombra e do cheiro, que ainda resisted A selva- almente desinteressada (mas comprometi- da corn o valor social da verdade), sem a qual tudo teria sido muito mais dificil, quan- do nao impossivel. Amizade que nao resisted A divergencia nao 6, verdadeiramente, amizade. Se ela nao con- segue preservar o dialogo racional da even- tual contrariedade causada por uma critical que afeta o criticado, entao 6 agrilhoamen- to, limitaq~o. Infelizmente, 6 a regra, impon- do un. preqo caro, demasiadamente caro no estrito aspect pessoal, a quem quer cum- prir sua mission de jornalista independent ate as filtimas conseqiiencias. Diz a carta de Iza Ayres: "Dei-me conta da minha vaidade corn um telefonema de um amigo, falando-me do seu comentario em seu Jornal Pessoal sobre o BioEstat e, portanto, dos Ayres, entire os quais voce me incluiu. Ele assim se expres- sou: '0 Lucio Fldvio nao e de elogios e muito menos de confetes'. Como bem diz em sua nota, temos ami- .de com voc& hc longos anos, desde aque- ; tempo no largo da Trindade, hd cerca de *es dkcadas, onde Mdrcio, Jinior, Hele- i, Ana Rita e Licio Flavio divertiam-se )mo irmaos. Fico-lhe sinceramente agradecida pelo rinho do seu noticidrio, chegando a com- ir vdrios exemplares do seu journal, dis- .'.indo-os entire amigos e parents (veja .Wmanho da minha vaidade), cor tanta ria que mais parecia o langamento do "'star de autoria dos Ayres, o qual cor- 'nde, na opiniao de um outro amigo, a epotismo cultural"'. * geria descaracterizadora e encanta quem percebe as p6rolas in- crustadas na lama. A administraqao municipal diz que apodagem era inevitavel porque as Arvores estavam condenadas. Cabe A opi- niao pfiblica da cidade responder A pergunta que essa constatagao imp6e: sera impossivel prevenir ou combater os fatores que estio levando nossas mangueiras A morte? Estamos fazendo o que 6 possivel ou esta ao nosso alcance para proteger essas Arvores? Seguramente a resposta 6 nao. Ela deveria forgar os stores responsaveis a investor mais e melhor no trato da arborizaago da cidade. Arvores que nao tenham conseguido resistir a condig6es urbanas ambientais desfavoraveis devem rapidamente ser subs- tituidas por outras. Mas para que nao seja uma troca apenas sim- b6lica, o manejo tern que ser aprimorado. Tamb6m a educac9o da populaqao para lidar cor a arborizagao e as medidas de puni- qao aos infratores. Acho que todo morador desta cidade devia dar um pulo aos dois quarteir6es do mercado persa ca6tico da Presidente Vargas para ter uma vivida sensagao da perda e do prejuizo que a des- truigao das mangueiras causara a Belem. Precisamos impedir que mais essa chaga se expand, enquanto isso ainda esta ao nosso alcance. Ficara mais dificil manter a paixao por Bel6m sem o refrigerio dessas queridas Arvores. Interesse public * S6 a manutencao dos aparelhos de ar condicionado, iluminagco ejardins do Par- que da Residencia e do Museu de Arte Sa- cra do Estado custard quase 50 mil reais du- rante um semestre. E o que revelam os ex- tratos de cinco contratos publicados na edi- ~io do Diario Oficial do dia quatro. Ne- nhum desses documents indica a origem dos contratos (se por licitacgo, tomada de pregos ou dispensa de licitagao). As despesas corn os servigos no Parque da Residencia e no complex da Feliz Lusi- tania ainda irao crescer. O mesmo DO traz tres dispensas de licitacao aprovadas pelo secretArio de cultural, Paulo Chaves Fernan- des. Atravds de tomada de prego, a Secult selecionou a Progresso Serviqos Especiali- zados de Seguranga e Vigilancia para cuidar dos pr6dios do museum e do parque, enquan- to a Serlinc vai tratar da conservagao e lim- peza do museu e a Vijubel realizarA traba- Iho identico no parque. Como os extratos dos contratos nao foram publicados no mesmo DO (apenas os resultados da habilitag~o e a dispensa de licitaqgo), nao se sabe ainda o custo desses servigos. E o comego da bola de digamos neve. U Em 1996 a Secretaria de Educadao assi- nou cor a Puma (Servigos Especializados de Vigildncia e Transporte de Valores) um con- trato de vigildncia e ronda escolar Desde en- tdo, 15 terms aditivos foram assinados, o iltimo publicado no DO do dia quatro (sem indicar a origem do contrato original), para o acrescimo de mais dois postos de vigildn- cia e mais 90 dias de prazo. Ao valor do con- trato original, de 86,5 mil reais, foram adici- onados nada menos que R$ 640 mil, nos su- cessivos aditamentos. Isso e legalmente pos- sivel, diante das restrigoes estabelecidaspela lei 8.666? Ndo seria necessdrio assinar um novo contrato? Como um valor contratual original e elevado em mais de sete vezes atra- vis de meros aditamentos? Cor a resposta, os canais competentes. M 0 DO do dia 1 public os extratos de cinco terms aditivos acrescentando quase 450 mil reais aos contratos originals de prestagdo de servigos do Ipasep (Instituto de Previdencia e Assistencia dos Servido- res do Estado do Para) cor diversas em- presas particulares. Em dois dos extratos o valor dos aditamentos (R$ 100 mil e R$ 30 mil) 6 equivalent ao dos contratos origi- nais. Os documents nao seguem integral- mente o modelo que o Tribunal de Contas adotou no mes passado. Nao justificado o motivo do novo aditamento, nem especifi- cada a data do 1 aditivo. Falta ainda a ori- gem do contrato original. AliAs, seria salutar que o TCE fizesse uma inspeqao extraordinaria, por amostragem, nos 6rgaos da administraq9o pfiblica estadual para verificar se realmente estao seguindo o novo padrao. E claro que media punitive podera ser adotada quando das prestag6es de contas anuais. Mas teria efeito pedag6gi- co prevenir erros e estimular acertos. 0 ~w~w~w~ Duas faces Existe um Centro Cultural Brasil-Estados Unidos iluminis- ta, que ter apoiado a cultural e vem formando um excepcional acervo nas artes plasticas, tor- nando-se refernncia obrigat6ria quando se trata de criacoes do espirito em Bel6m, a par de sua funcgfo de escola de lingua ingle- sa e educagAo artistic. Mas parece que hA outro, di- ametralmente oposto. Um CC- BEU que reagiu com intoleran- cia a uma controversial internal, por falta de diAlogo engendrou um litigio e resolveu-o com o argument da forca, punindo a professor Bernadete Reale com a demissio sumaria. Tentou as- sim eliminar, por seu suposto perigo, um movimento de reafao que s6 pode ser ameagador para quem nao se expoe aos riscos da controversial. Bernadete levou seus argu- mentos dos limits do CCBEU para a imprensa, sensibilizando os que a ouviram e viram seus documents. Torgo para que o Centro reconsider sua intole- rancia, reabra a discussao e s6 fire uma decisao depois que o assunto estiver esclarecido na- quele ponto de amadurecimento que permit aos derrotados acei- tar a forga do argument vitori- oso e a ele se submeter, ao inves de vergar apenas sob o exerci- cio da forga, que vence, mas nem sempre se imppe. Voz do dono A editoria da TV Globo, no Rio de Janeiro, cobrou da TV Liberal, em Bel6m, o silencio em tomo do caso da capital Vanessa Vasconce- los, at6 antes da campanha eleito- ral apresentadora da emissora. "Or- dem superior", foi aexplicaqio dada. E aceita sem o menor sussurro. Campanha Foto do prefeito Edmilson Rodrigues ocupou espago desta- cado na primeira pigina de A Provincia do Pard na edigao dominical de 28 de novembro, com entrevista de pagina inteira dentro do journal. Nesse mesmo dia, finalmente a Prefeitura de Belem, corn atraso de tres sema- nas, reproduziu em A Provincia os quatro anOncios que jA veicu- lara em O Liberal (duas vezes) e no Didrio do Pard. O toma lA, da cA prossegue. Deve se intensificar atd o ano 2000. Bom final M6nica Regina Machado Mescouto retirou, na semana passada, o pedido de aposenta- doria proporcional que havia apresentado ao Tribunal de Con- tas do Estado (ver Jornal Pes- soal n 200). Com essa decisao, todos saem ganhando, inclusive quem aparenta haver perdido. Poderia ter perdido mais. Edi go natalina Espero que o leitor incorpo- re a intencgo de impregnar esta edigao de um produtivo espirito natalino, entrando no clima da 6poca sem envergar sua vestimenta commercial. Corn matdrias menos datadas e ainda mais pessoais, espero ter conseguido desejar a todos os bravos leitores deste jor- nal boas festas e um ano a al- tura dos nossos merecimen- tos, apesar do sinistro sinete do principle. Corregao No ultimo numero, nosso in- submisso computador aprontou mais uma, no final da nota "No Palanque". Estava escrito que o prefeito Edmilson Rodrigues "ainda nao desceu do palanque de 1996. E jA subiu no do ano 2000". Mas a diab6lica mdqui- na trocou os nimeros: ficou 1986 e 200, respectivamente. Como punigio, a indigitada vai ficar uma quinzena fazendo as contas num Abaco. Ajuste pessoal A crise 6 braba (ou brava) e o horizonte incerto e nao sa- bido. Por isso, decidi suspen- der a renovagao das assinatu- ras do Jornal Pessoal. Serao mantidos apenas os assinantes de fora de Beldm. No caso de um fim s6bito deste journal, a obrigagAo de devolver valores sera menor e suportAvel. NAo estou desistindo do JP, apenas ajustando-o ao ritmo da mfi- sica. Espero que os leitores tambdm partilhem dessa re- sistencia, empenhando-se mais um pouco na busca do seu exemplar, enfrentando hAbitos e costumes belenen- ses tendentes ao comodismo e a lei do menor esforgo. Tal- vez possamos sobreviver A ressaca. Sem ressaca. Mem6ria judicial No dia 26 do mis passado o computador que 6 usado na dis- tribuiqao de processes no Tribu- nal de Justipa do Estado encami- nliou, ap6s cinco redistribui96es anteriores. oprocesso 98302205 (ur mandado de seguranqa civel, apresentado ao Orgao Especial) para o desembargador Calistrato Alves de Matos, que estA morto ha um ano. Maioral Todos os jornais diarios de Beldm publicaram, de graca, um anincio do Movimento Rep6bli- ca de Emar s sobre mais uma campanha da entidade em favor do menino de rua. Todos, menos o maioral deles, O Liberal. A direqao da empresa condicionou a publicacgo A sua exclusivida- de: s6 sairia em O Liberal. Fe- lizmente, o pessoal da Repdbli- ca nao se curvou A exigencia. Ela nao foi feita s6 por vai- dade ou auto-promogao. O gru- po Liberal esta de olho no fundo financeiro (com possibilidade de chegar a 8,5 milh6es de reais) que comegou a ser formado na semana passada, na FederaqAo das Indfstrias, absorvendo dedu- 9ao do imposto de renda para dar assistincia aos menores abando- nados. E, quem sabe, a algum maior abonado, mas que sempre quer mais. De preferencia, tudo. O que 6 mais espantoso ver pela televisao: o vice-governa- dor Helio Gueiros Jr. elogiando a administracao do prefeito Ed- milson Rodrigues ou a prefeitu- ra do PT buscando e divulgando a mensagem de Helinho? Talvez os marqueteiros do PalAcio (e da mosca) Azul, ven- do o filho de Helio Gueiros como o 6nico representante da administracao estadual no Con- gresso da Cidade, realizado pela PMB no dia 1, tenham arquite- tado uma jogada para irritar o governador Almir Gabriel, regis- trando a presenga do seu inc6- Entre livros Ser homenageado por uma instituigao que trata de livros me conforta porque me deixa em casa. Por isso, fui no dia 26 de novembro corn alegria a sede da Academia Paraense de Letras receber o diploma que a Camara Paraense do Livro concede pela primeira vez a personalidades que se destaca- ram neste ano. Tamb6m foram lembrados o escritor Bcnedic- to Monteiro, o reitor tdson Franco e o editor Gengis Frei- re, aldm de Tereza Azevedo, proprietaria da rede Ponto e Virgula, indicada como livrei- ra do ano. E corn razao: Tereza (a principio corn Silvia, sua s6- cia paulista) acabou com o monop6lio masculine no setor, que se manteve por tanto tem- po, ao abrir sua primeira livra- ria, 11 anos atras. Agora sao tres, atestando a importAncia do toque feminine num seg- mento que requer sensibilida- de e acuidade. Nao deve ser por acaso que na loja mais an- tiga todas as atendentes conti- nuam a ser mulheres. Deus guard esse saudavel clube da Luluzinha, que guia corn aten- 9fo os clients. A sessao de premiagao, reu- nindo pessoas para as quais o livro 6 vital, foi discreta e agra- dAvel, como convdm. modo parceiro de primeiro man- dato. c Mas se foi essa a inteng9o, ela atingiu primeiro o cidadao de Beldm e o militant petista. Sera que o alcaide continue pensan- do que Maquiavel disse que um fim considerado nobre justifica todos os meios usados para al- canda-lo? Alias, a campanha que esta sendo veiculada pela televisao da um salto no culto A persona- lidade do prefeito. Se continuar assim, ele vai acabar sendo cha- mado de Josef Rodrigues, ou Edmilson StAlin.lPor ai. Jomal Pessoal Editor: Licio Flavio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo, 871/66 053-040 Fones: 223-1929, 241-7626 e 241-7924 (fax) Contato: Tv Benjamin Constant 845/203/66 053-040. Fone: 223-7690 e-mail: lornal@amazon corn br "- ''-', 'e Arte: Luiz Pinto/241-1859 041 .J. Quem diria? |
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