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F 194 1 QU SonegaVAo fiscal deRS 41 milhbes 1 Pessoal L A V I 0 P I N T DO. mostrar DO: mnostrar IINZENA DE SETEMBRO DE 1998 R$ 2,00 OU esconder? (PA G. 7) ELEICAO to viciado Operiodo da campana eleitoral e um espago abertopara todos os tipos de manobras. Quando chega o dia da vota"do, o eleitor raramente e dono do seu livre arbitrio. Aspesquisas se transformaram no principal instrument de indu"do do voto porque ndo hd meios de arbitragem confidveis. Por isso, a tendencia eleitoral ainda estd camuflada no Para. Mas pelo menos nas pesquisas, ji um lider na preferencia. -il e uma media ponderada de S tantos resultados desencon- S" trados de tres pesquisas elei- Storais em andamento pode Um ci ser obtida e merecer cr6di- ra, entret to, na semana passada o sas sao m govemador Almir Gabriel conseguiu, pela tendencia primeira vez, liderar a dispute pelo princi- ponto elas pal mandate posto a premio na eleigdo do sobre deste ano. Colocou sobre o seu principal ou dos m; concorrente, o senador Jader Barbalho, do que as pe: PMDB, vantage que ultrapassa a mar- nentes; e gem de erro admitida pelos pesquisado- deiras ser res. O candidate a reeleigao pelo PSDB em algum teria 4% a mais de votos do que o ex- dos que ti governador, duas semanas depois de ini- do serving ciada a propaganda eleitoral gratuita pela ginal eve televised. E pouco mais do que os 3% de tada na h erro possivel na metodologia da pesquisa. O grup .. J"t-L" L'-L- .. *! _ -_ .- I dadao consciente se pergunta- anto, at6 que ponto as pesqui- ledidores eficazes e isentos da Sdo eleitorado, e a partir de que procuram manipulA-lo, influin- a vontade dos ainda indecisos al definidos. Ndo ha divida de squisas contem os dois compo- que, pelo menos ate as derra- nanas anteriores A eleigdo, elas la media refletem as inten96es sm dinheiro para pagar o custo o e alguma outra cobranga mar- ntualmente feita, para ser qui- ora ou depois da eleigco. o Liberal 6 quem ocupa a van- Lt L-,. L-.LZL _ ..-. ," .1_ .-",g guard no uso das pesquisas. NIo ape- nas ou nem principalmente por delibe- racgo pr6pria. A Rede Globo exige das emissoras afiliadas que fagam pesquisas sistematicas, atrav6s do Ibope, a partir do horario eleitoral do TRE, para poder exibir os resultados de todo o pais diaria- mente, assegurando sua lideranga de au- diencia. Antes, por6m, os Maiorana ja vinham fazendo sondagens pelo Vox Po- puli, institute de menos prestigio do que o Ibope e cor teias enredadas no passado com o ex-presidente Fernando Collor de Mello. E inovaram ao realizar pesquisas jL. ' r- ~ ,-. .-h I- 2 JOURNAL PESSOAL Ia QUINZENA DE SETEMBRO / 1998 simultaneas atrav6s de dois diferentes institutes de pesquisa. O Vox Populi provocou o maior con- tenciosojA surgido no TRE paraense em fung9o de pesquisas eleitorais. Relutou em fornecer os dados eminentemente t6cnicos (sobre locais pesquisados e amostragem) requeridos para o registro e entregar os resultados cobrados ap6s a divulgagao para que os partidos possam testar a consistencia da pesquisa. Por que essa recalcitrancia? Uma resposta talvez possa ser obtida atrav6s da simples visualizacao da capa da edigAo de O Liberal do filtimo domin- go. De um lado, a pesquisa do Ibope mostrando que, em relagao a uma sema- na antes, Almir e Jader continuaram evo- luindo, mas Almir (de 39% para 44%) com mais intensidade do que Jader (de 39% para 40%). JA o Vox Populi exibia nao apenas uma grande diferenga (de nove pontos percentuais) em favor do governador, como tend8ncias opostas entire os dois candidates: Almir disparan- do, de 34% para 40%, e Jader em decli- nio, de 33% para 31%. Como Ademir Andrade sofreu uma ligeira queda (de 11% para 10%) e caiu pela metade a quantidade de indecisos, a pesquisa apon- ta para um resultado previsivel: mantida a tendencia, Almir Gabriel poderia reele- ger-se ji no primeiro turno, acumulando mais votos do que todos os outros candi- datos somados. Este seria o component de induqao de uma pesquisa, influindo sobre a aferi- 9ao correta da outra, sem que, examinadas de per si, possa ser flagrada a ma- I nipulagao, exceto quando A prop vistas as duas sondagens do candida em conjunto. E uma pista Henrique para o necessario trabalho na prova d de verificago e checa- Feiic gem, para o qual, infeliz- 'iti Gu mente, ningu6m parece ter-se preparado no Para. O "sen Mesmo as coligag6es opo- impression sicionistas nao mostram por sua mi condig9es de contrapor is que fica d pesquisas uma analise t6c- novo) alge nica competent, perma- Num'. necendo num nivel ama- .lascou: "i doristico que impossibilita recltrdrz fiscalizar os abuses do Ot6vio pa poder econ6mico e da OUma n mAquina official, invaria- coragqo" velmente utilizados em fa- devidamer vor da chapa situacionis- ta. HA indicios de tenden- 'Em q ciosidade na pesquisa, seu progr mas ningu6m comprovou-os. Diante da fragilidade dos partidos e da passionalidade dos contendores, seria desejivel que institui95es arbitrais, em- penhadas em dar consistencia ao proces- so eleitoral e garantir sua influencia so- bre a consolidag~o democratic, como o Minist6rio Pfiblico, a OAB e o pr6prio TRE, pudessem exercer um papel revi- sor sobre as pesquisas. Mesmo que to- dos falhassem, ainda restaria a esperan- 9a de que a imprensa se sentisse obriga- da a exercer sua saudavel fungf o inves- tigativa, atuando como auditora popular. Mas nada disso existe no Pari. Ao contrario: o terreno 6 f6rtil para a disseminagao de praticas que viciam e deturpam a manifestagao do eleitor. Mais de dois tergos da populag9o economica- mente ativa do Pari esta desempregada ou subempregada, o que significa viver abaixo do minimo necessirio. O Pard 6 o primeiro Estado nao-nordestino cor a pior distribuig9o de renda do pais: os 10% mais ricos ficam com quase 50% de toda a renda gerada no Estado, enquanto os 40% mais pobres conseguem menos de 9% (em pior situag9o, na Amaz6nia, s6 o Acre). Temos a 17a menor renda familiar, a 8a maior taxa de mortalidade infantil (num Estado ha quase quatro anos dirigido por um m6dico) e o 21 pior indice de esco- laridade de todo o pais. Para arrematar, somos o 110 Estado da federagao com maior propor9ao (43%) de analfabetos funcionais (aqueles que conseguem ler, Flashes da campanh mas t8m dificuldade para entdner o que leem) em relagao ao eleitorado. S6 ga- nhamos dos mais pobres Estados nordes- tinos e do Acre. Fazemos parte do 30 Brasil. Neste context, como prevenir, evitar ou remediar a manipulag9o do voto, co- mercializado em praga piblica e agenci- ado em escrit6rios refrigerados? E evi- dente que a conjugagao de capacidade, experiencia, carisma, simpatia e dinhei- ro, numa relagao de importancia inversa A dessa ordem mais salutar, 6 exigida para veneer uma elei9ao majoritAria num Estado tao dilacerado por disparidades e carencias. A demagogia, o engodo, o abuso do poder econ6mico e o apoio da maquina piublica tem efeito muito maior do que em Estados menos vulneriveis. Por isso tan- ta confusao infiltrada na cabega do elei- tor acaba favorecendo a condugao da sua vontade. Ele vota convencido de que vai chegar a um resultado e quando li che- ga se defronta com uma miragem. A cada elei9go o marketing se sofisti- ca para tirar ou reduzir o livre arbitrio do eleitor. Esse aparato consolida os candi- datos mais poderosos e debilita ainda mais os menos dotados. No meio do pi- cadeiro, o eleitor fica perdido e acaba se submetendo aos ardis. Os formadores de opiniao, ligados muito mais a grupos de poder do que A sociedade, defendendo seus interesses e desligados de um compromisso social, contribuem para esse desfecho de moral agenda da coligaqao governista diz que a soma do nmunero Ito Almir Gabriel (45) com o do president Fernando Cardoso (tamb6m 45) result em 90% de aprovacgo. Mas * los nove da zero. t outra maneira de ver o par tucano. siro, na linguagem do PT, vem grafado como feitieiro. 'iros pode exigir direito de resposta, sem cedilha. ador do governador", Luiz Otivio Campos, pode estar nando menos por seus arguments de pd quebrado do que imica mecfnica de boneco de marionete. A grande divida epois dos seus pronunciamentos 6: se suas mios forem (de .madas, ele deixard de falar? nomento original, dids, o ex-quase-futuro senador Eu tenho.um sonho':-Martin Luther? King nio direitos, mas nado -forar- demais a barra fazer .Luiz trafrasear algudi? ' nusiquinha de campariha coloca "Jesus no c6u, Almir no Pronto: Almir 6 um novo SAo Paulo ao tucupi, ite canonizado. e dia o senador Jader Barbalho vai abrir o livrinho do ania de governor e ler o que estd Id dentro? duvidosa. Como, nessa arena de leoes famintos, servir ao cidadao? Uma questao primaria impoe- se preliminarmente a essa: como chegar ao home comum que ira registrar seu voto na urna, conventional ou eletr6nica, sem os mes- mos recursos dos pode- rosos? Se a sociedade quer um dia chegar a elei96es que traduzam com mais nitidez a vontade do eleitor, precisatratar logo de expurgar a maior quantidade possivel de vicios do process elei- toral, sobretudo os vici- os insanaveis, como pes- quisas manipuladadas. Qualquer analista que tentar examiner as divul- JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1998 3 A suspeita celeridade da justiga Quando chegou ao forum de Belem para trabalhar, as 8,30 horas da manha do dia 13 do mds passado, ajuiza S6nia Pa- rente, titular da 20a vara civel da capital, tomou um susto. Um dos processes encaminhados pelo cart6rio quase no final do expediente da v6spera havia sido despachado, no lugar dela, por umjuiz-substituto. Jos6 Maria RosArio fora designado, na- quele mesmo dia, pelo president do Tribunal de Justiga do Estado, Romao Amoedo Neto, a pedido verbal do correge- dor geral de justiga, Humberto de Castro. Assinada e cumpri- da de pronto, a portaria s6 sairia no DiArio da Justiga do dia seguinte, quando Sonia Parente a leu. Ajuiza, depois de ter realizado duas audiencias, retirou-se do forum As 12,30hs do dia 12. Alegou um mal-estar sibito, por indisposicgo estomacal. As 10,50 uma acao monit6ria pro- posta por Osvaldo Ferreira contra a Brasileg Seguradora do Brasil foi distribuida e imediatamente encaminhada ao cart6rio respective, onde foi conclusa para a juiza e a ela remetida (o que, normalmente, s6 6 feito 24 horas depois). Como ajuizaja havia said, o process foi levado (provavel- mente pelo advogado do autor da ago) ao corregedor, que in- terferiu na tramitagao. O desembargador Humberto de Castro pediu a designagao imediata de um substitute, mesmo sabendo que a magistrada teria 48 horas para despachar o pedido, a par- tir do seu recebimento (norma raramente cumprida no forum de Bel6m, no qual a regra 6 a ultrapassagem dos prazos legais). Despacho dado pelojuiz-substituto, apenas duas horas depois de protocolado o pedido no cart6rio distribuidor, o process foi para a central de mandados As 13,17hs. Exatos 20 minutes de- paraense pois o despacho foi cumprido. O official dejustiga Ant6nio Qua- resma citou o representante da seguradora, Luis Augusto Gon- galves, na sede da empresa, A avenida Visconde de Souza Fran- co 345, As 13,37hs. O mandado foi entao recolhido e a empresa passou a ter 15 dias para pagar os 120 mil reais que Ihe estio sendo cobrados ou pagar o embargo. Uma faganha. Mas nao exatamente dajustiga. Ajuiza S6nia Parente, rea- gindo A surpresa, declarou-se "estarrecida" ao verificar, no mesmo dia 13, a publicagio do despacho do president do TJE que a substituia por outrojuiz, "sem que saiba o motivo", j que dispunha do prazo de dois dias para se manifestar, "nao se justificando, pois, a violencia da substituigao". Ela ainda tentou pedir explica96es ao corregedor, "autor da ilegalidade", mas foi informada de que ele nao viria trabalhar, s6 retornando no dia seguinte, "sem que haja algu6m que o substitua!!!" Diante da situag9o, ajuiza viu-se obrigada a se declarar sus- peita para funcionar na agao, "constrangida com a ilegalidade e abuso de poder, mas coerente, contudo, cor os ideas dejustiga e dignidade que tenho defendido ao long dos trinta e dois peno- sos anos de magistrada, apesar das constantes presses das 'emi- nencias pardas', violentada em minha funcgo judicante, posto que assegurada pela lei fundamental de meu pais". Com essa decisao, a juiza negava-se "terminantemente a participar de atos desta natureza, mormente quando, pela vio- 16ncia, perdi a isengco de Animo para atuar". Mais uma vez, fez-se profundo sil8ncio no forum como eco As contundentes palavras da juiza titular da 21a vara civel da comarca da capital. 0 gadas pela imprensa, com base no que foi publicado pelosjornais, acabara num beco de dificil said, tal o labirinto de in- consistencias e contradi96es. Mesmo assim, arriscando-se a, de alguma maneira, sofrer um toque de in- dugao dos manipuladores, pode-se fa- zer algumas observag9es sobre a situ- agao atual e seu possivel desdobramen- to at6 o primeiro e o segundo turno elei- torais. O governador Almir Gabriel esta li- geiramente A frente do senador Jader Barbalho na preferencia do eleitorado. Nio 6, por6m, uma margem capaz de assegurar que ele serd o mais votado a 4 de outubro. Muito menos autoriza pen- sar em defini9go ji no 1 turno. HA al- guma probabilidade de mudanga de po- sigco entire os dois, mas esta pratica- mente descartada a hip6tese de o sena- dor Ademir Andrade sair de um distan- te 30 lugar, surgindo como opgao real de vit6ria. Ele vai ter importancia maior no 2 turno porque ha uma tendencia mais forte de migragao de votos favorAvel a Jader nessa segunda vota9go, contra- balangada pelo indice de rejeigao maior ao senador peemedebista. Para evitar que esse refluxo ocorra do 1 para o 20 turno, os marqueteiros do governador estao tentando conven- cer os eleitores que aprovam a admi- nistragao Almir Gabriel a votar nele para um segundo mandate, o que pare- cem ainda se recusar a fazer, por mo- tivos nao muito claros. A imagem de frouxiddo do governa- dor, que seria uma das explicag9es, jA nao 6 mais tao marcante quanto at6 pouco tempo, mas nao desapareceu de todo do inconsciente coletivo. O elei- tor m6dio paraense quer algu6m deci- dido, mesmo que nao seja o melhor. Pode at6 roubar, desde que o roubo nao seja grande e permit realizar obras ou servigos acessiveis ao maior n6mero possivel de pessoas. A necessidade do liderado glamouriza a imagem do lider. Nao 6 por ser tao diferente de Jader Barbalho que Almir Gabriel esta cres- cendo, mas por apresentar obras visi- veis no moment da votagao, mesmo sem t6-las iniciado ou poder apresen- ta-las concluidas (a forga dessa obser- vagdo ter sido sufocada pela estriden- cia da propaganda). Num Estado tao pobre, mas acalen- tado por sonhos de grandeza, quem ti- ver maior capacidade de sedugdo ga- nhara. Mesmo que nao esteja dizendo a verdade, nem realize o que prome- teu, ser capaz de convencer 6 o mais important, principalmente porque nIo hi uma instancia para fazer a prova dos nove de todos os artificios de campa- nha, nem a massa do eleitorado esta em condig9es de uma avaliagio criti- ca. Num clima de liberdade sem para- lelo, a eleiggo de 1998 pode consumar- se como uma das mais viciadas de to- dos os tempos. 0 arcr~ ~- Ir rre I Icl ~r III 1 I I I 4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1998 0 critic, o artist e o cao Os amigos podem fazer o mal mesmo quando agem visando apenas o bem; e causar mais danos do que os inimigos do beneficiado imagindrio. A sabedoria po- pular esti tAo alerta para esse perigo que, em um de seus ditos, aconselha recorrer A ajuda divina para se livrar dos amigos; os inimigos podem ser vencidos apenas com os recursos humans. Os amigos dojomalista ClAudio de La Rocque Leal mobilizaram-se para uma grande homenagem a ele. Encomenda- ram reportagens generosamente desta- cadas no journal O Liberal e um filme de chamada na TV Liberal para anunciar a exposigao Retrato do Critico Quando Jovem CAo, que ficou durante duas se- manas, at6 o dia 30, na Galeria da Una- ma Espago da Mem6ria. O catAlogo da exposigao 6 o mais com- pleto, luxuoso e bem cuidado dos 61timos anos, corn 60 paginas em papel especial, reprodugao da maioria dos trabalhos apre- sentados e textos de analise, entire os quais nada menos do que um "Dicionario de Claudio de La Rocque Leal", produ- zido com empenho exeg6tico por Paulo HerkenhoffFilho, colega de metier artis- tico do homenageado, devidamente exi- bido, por sua vez, em fotos na capa e na orelha do catilogo (depois de ter sido o ator do filme na TV). Dois sales da galeria foram ocupa- dos por 60 desenhos de La Rocque. Se todas as obras fossem vendidas, o fatu- ramento da exposigao seria record para o padrao corrente desse tipo de trabalho: 50 mil reais. No dia em que 14 estive, 25, havia o registro de oito aquisigces (duas haviam sido canceladas), feitas por tries pessoas, ao custo de R$ 7.200,00, resul- tado de entusiasmar qualquer artist plas- tico em qualquer capital do pais. Um auto-retrato de La Rocque, em pastel e giz sobre papel, foi avaliado em R$ 3 mil, enquanto a cotaqAo de um tra- gado com prosaica Bic azul chegou a mil reais, o mesmo valor alcan9ado por dois simpl6rios nanquins ("A Nudez dos Ob- jetos" e "Clandestinidade"), mesmo corn mancha (involuntAria, por certo). Uma outra variago do trago com Bic, desta vez "em escrita grossa", que o au- tor classificou como uma "Revisao de Sant'Anna" (deduzindo-se facilmente que refere-se a "Sant'Ana, a Virgem e o Menino", que Leonardo da Vinci pintou ao redor de 1510, ainda sem o embalo da Fundag~o Romulo Maiorana, infelizmen- te, mas, mesmo assim, a obra favorite do ent~o modesto pintor-escultor-arquiteto- engenheiro-fil6sofo-poeta-fisico- astr6nomo&etc), s6 nao foi arrematada por ji integrar o acervo de Dea Maiora- na, a patroa-m6r de ClAudio. Como o desenho foi criado em 1979 sobre uma singela lauda de redag~o de O Liberal, entende-se a reserve de mercado. Tudo isso para quem? Para o dese- nhista? Para o critic? Para o amigo? Ou para o assessor de uma fundag~ o cor o mais important canal de divulgagdo e promogao da terra? Cada um tera a sua resposta e deve-se aceitar seu livre arbi- trio, mas at6 o limited em que a a9ao en- tre amigos, filantr6pica, sentimental ou seja lA qual o seu impulse, extrapola os limits do grupo para se transformar em fato p6blico. Ai, ao inv6s de educar e former piblico, ela contribui para defor- mar, inclusive o mercado, se encararmos a questao pelo angulo mercantil, que cos- tuma comandar as opC6es nos sales de artes plasticas. exceptional di- vulgagao da ex- posiqdo atraiu Luma considerd- vel afluencia de pesso- as. Tres delas fizeram aquisigoes significativas. Com o lance minimo, poderiam ter aces- so a originals de Luis Trimano, a meu ver autor da melhor composigao de colagens e esferogrAfica em desenhos ja concebi- da no Brasil (embora ele seja argentino). O belo Album de Trimano, publicado no ano passado simultaneamente A sua po- bremente organizada exposigio, no Mu- seu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (ver Jornal Pessoal n 165), cus- ta 70 reais. Esse valor talvez ajude a ajus- tar as ordens de grandeza e, por anti- noma, nesse caso, de qualidade. ClAudio 6 uma pessoa inteligente, sen- sivel, criativa. Conseguiu ultrapassar os limits freqiientemente estreitos do jornalismo (e As vezes outros limits nem tAo restritivos assim). Seu valor como jomalista, ou como qualquer dessas ou- tras etiquetas (curador, promoter cultu- ral) afixadas em quem realize no mundo das artes, 6 inquestionavel. Mas nao como artist plAstico ou, especificamen- te, como desenhista. Conhecendo muito bem o meio no qual circula, ele, preventivamente, adverte no "Retrato Critico" que escreveu para seu pr6prio catalogo, certamente com base em experi8ncia pr6pria: "Em uma cidade como Belem, onde as pessoas s6 conse- guem prestar atengdo nos erros das ou- tras para poderem falar, falar e falar, ou, quando falam de si mesmas, contar as vantagens, inventar mis6rias, na tentati- va de recriar um universe invariavelmente em cruise, criar 6 um exercicio perigoso". Perigoso nao apenas numa cidade de muro baixo e inclinada ao fuxico como Belem: em qualquer lugar do planet. O novo 6 uma temeridade porque abala a boa ordem estabelecida, obriga a rever tudo, quando p6e tudo em questAo. Como todos estIo cansados de saber, o fnico client de van Gogh em vida foi o seu irmAo Theo. Hoje, as telas de van Gogh valem milhoes de d6lares. O vulcao que explodia dentro dele extinguiu-se com essa mercantilizagdo vil da sua obra? Claro que nio. As almas sensiveis conti- nuam indo renovar-se nele como fonte inspiradora, at6 no cinema, como Kuro- sawa fez, ja na velhice, devolvendo da- quela parte remota do mundo o intercam- bio ao qual van Gogh chegou numa fase da sua carreira. Van Gogh nao sabia desenhar corre- tamente quando comegou a pintar, em idade relativamente avangada. Mas os genios de ocasiao, desde que nZo domi- nados pelo narcisismo, aprenderiam muito lendo a correspondEncia dele com Theo. Humildemente, Vincent recorreu A sua extrema sensibilidade visual e emotiva para guiar seu aplicado aprendizado t6c- nico no trago e no dominio da cor (leva- da ao paroxismo pela combinagao do seu estado fisico-emocional com a luminosi- dade de Aries). E tautologia afirmar que s6 se pode negar aquilo que se domina. Mas at6 o 6bvio 6 esquecido quando a presung9o precede e As vezes elimina a percepgCo da realidade. O nivel t6cnico dos desenhos de La Rocque 6 o de um aluno de belas-artes. Nem mesmo uma assinatura definida ele JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1998 5 (quando jovem) no salao tem para imprimir a griffe dos seus tra- balhos. Falta-lhe estilo, embora ele ex- ceda em comentarios e ironia. Genero- samente, Benedito Nunes diz de sua obra que ela 6 "o desenho no desejo de ser escrita". Talvez a ordem 16gica esteja invertida por um critic que superestimou intengao e relevou a obra: 6 a escrita desejando ser desenho. Se ha uma "gimnospermia da forma", como diz Benedito, nao 6 por intenciona- lidade, mas por impossibilidade de pre- encher o vacuo, de obter, atrav6s do "ad- jut6rio da palavra", o que nao compete a palavra no universe da forma, da cor e do movimento, desde que van Gogh e C6zanne deram autonomia A pintura (e As artes plasticas como um todo). Como ilustraglo de sua palavra, La Rocque teria todo o direito de nos apre- sentar seus desenhos, que tem humor e ironia, mesmo quando, num deboche que nao poderia garantir ser intencional, for- 9a uma socialite qualquer a comprar uma obra de arte-com-moldura mancha- da por uma gota de nanquim manejada com impericia, imaginando ser um pas- saporte para o bom gosto (ou, quem sabe, para o registro dos patrocinado- res, os barberinicos Maiorana, cor per- dAo da doce Roberta). Se Claudio de La Rocque Leal ja ti- vesse uma obra realizada (possivel para sua idade), esse "Retrato do Critico Quando Jovem CIo" teria o gostoso sig- nificado de um revival, ou uma dessas imprevisiveis varri9oes de arquivos a cata de in6ditos e inacabados (que, le- vados ao piublico, nem sempre deixam de ser frustrantes). Mas para montar a primeira individual do critic quando jovem cao (nao tdojo- vem assim, nem como cao), esbogos ra- biscados sem a intengao (nem a possibi- lidade) de virarem obras (at6 a datag~o 6 desconexa: um trabalho de 1975 6 apre- sentado como sendo de 1978 e outro, de 1981, vai para 1982), fizeram como se diz na linguagem neol6gica e neolitica dos bares "forgagao de barra". Pode-se fazer aqui o coro (ou sera um solil6quio?) dos descontentes sem qual- quer maledicencia, apenas em defesa de um padrAo cultural. N~o para punir o cri- tico por haver tentado criar o artist, mas alertando-o, na contramao dos perigosos amigos, de que ambos perderdo nessa tentative fadada ao fracasso em outro circuit que nao o da badalag9o utilitAria. Sem outro arrimo senno o da sempre sau- davel dial6tica socratica e do bom hu- mor em defesa do saber coletivo. Como fizeram, quatro d6cadas atras, os faci- norosos irmAos Farah (Jos6 e Alexan- dre), colocando de ponta-cabega os pri- meiros exemplares da arte abstrata exi- bidos em Bel6m, todos elogiadissimos no livro de impresses do salao, a despeito de a firme assinatura do pintor (j faleci- do) ter ficado, invertida, no alto das te- las, ao contrrio do que convencional- mente fazem os artists. A despeito disso, a arte abstrata pros- seguiu seu caminho e, entire mortos e fe- ridos, todos se salvaram, como conv6m quando o que separa os homes sao as id6ias e nao as armas do com6rcio e da promogio de vaidades. 0 Adist ncia Ha areas de terra que tem notavel importancia para a coletividade. Por motivo al- gum podem ser invadidas, seja Ia por quem for. Uma delas 6 a reserve florestal em torno de Carajas. Quem a control nao 6 mais uma empresa es- tatal, mas a privatizada Com- panhia Vale do Rio Doce. Nao importa. Aquele cintu- rao vegetal garante um con- trapeso ambiental para a mais important provincia mineral do planet. Nao po- demos permitir que a aridez tome conta da area. Aquela rara combinagao paisagisti- ca e de recursos naturais 6 um present da natureza (ou de Deus). O Para nao pode desperdiga-la. O Aura 6 a p6rola da fra- gil coroa florestal que ainda existe em Bel6m. Um acaso, a existdncia do paiol do Ex6r- cito naquele local, permitiu que ela sobrevivesse A devas- tagao geral em torno. E um milagre. Mas milagre nao perdura eternamente entire os homes se eles nada fazem para merec--lo. Os belenen- ses tnm que proteger a vege- tagao em torno dos cursos d'agua que ainda ha nessa inacreditavelmente grande e bela reserve natural. Tambr m nao se deve sa- crificar a plantagao da Pirelli As necessidades do MST, re- ais ou fabricadas. Ao menos enquanto nao se inventariar a area e se esclarecer o ne- g6cio que ali o governor pre- tende realizar. Natureza tamb6m 6 soci- al e, em alguns casos, como esses, constitui principio in- violavel. O MST que esco- lha outros alvos e, se quer legitimidade, submeta-os a avaliagao da sociedade an- tes de atribuir-se um direito do qual nao 6 a fonte, e pode nao ser o int6rprete. Tempo do tempo Arnaldo Cl6io da Costa Azevedo foi excluido do pro- cesso no qual o atual vere- ador (e candidate a deputa- do estadual) Andr6 Dacier Lobato (mais conhecido como Kaveira), juntamente com outros seis r6us, res- pondem pela acusagdo de traficar entorpecentes. A desembargadora Maria de Nazar6 Brabo de Souza acolheu o habeas corpus para trancamento da a9ao penal, requerido as Cama- ras Criminais Reunidas, re- conhecendo a prescrigao em relagao a Arnaldo e de- cretando a exting9o da sua punibilidade. Arnaldo Azevedo foi in- cluido na a9go penal sob a acusagdo de ter cometido crime de prevaricag9o. Como delegado de policia encarregado da prisao em flagrante dos acusados de fazerem trafico de drogas, ele teria se omitido "na ado- 9 o das providEncias neces- sarias ao enquadramento de todos os participants do event delituoso", segundo o relat6rio da desembarga- dora Brabo. Mas a prescri- 9Fo (pelo prazo legal haver estourado) impediu a apre- ciagao do m6rito da acusa- 9ao. Ela foi submetida ao TJE porque Arnaldo tornou- se promoter de justiga, nao mais podendo ser processa- do em primeira instancia. Os demais acusados, en- tre os quais um filho do ex- governador Carlos Santos, continuam respondendo na vara penal de origem. Se for eleito deputado, Kaveira tamb6m passara a ter foro privilegiado. Ja o process, este talvez continue escoan- do como a areia nas velhas ampulhetas. 6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1998' Cerpasa: muita cerveja para pouco imposto Os promotores p6blicos Estevam Sam- paio Filho e Milton de Menezes requere- ram A juiza da 16a vara penal de Bel6m, na ultima segunda-feira, 31, o seqiiestro de todos os bens e a quebra do sigilo ban- cArio da Cerpasa e de cinco de seus dire- tores, dois deles alemaes. Os represen- tantes do Minist6rio P6blico acusam a empresa de se apropriar de 41 milh6es de reais de ICMS que deveria pagar e de nao recolher ao tesouro estadual o impos- to ji retido, mesmo quando o desconta de seus clients, revendedores varejistas, atrav6s da substituigio tributaria. A sone- gagao corresponde a tudo o que o Estado arrecada em duas semanas. A Cerpasa, maior fabricante de cer- veja e refrigerate do Para, responded a nove processes por sonegag9o, em seis dos quais j foi denunciada perante ajus- tiga, por fatos apurados pelos fiscais es- taduais desde maio do ano passado. Os dois promotores acusam a Cerpasa de estar "causando estorvos ao sistema da arrecadagdo tributaria, seja na recusa em tomar ci6ncia dos terms de autuagdo, seja em dificultar a adgo dos agents do Fisco, na sua missao de coligir dados, receber livros e documents fiscais, para os levantamentos de sua compet6ncia". Para "reparar o dano que vem sendo causado A Fazenda Piblica", decidiram entao pedir o seqtiestro dos bens da fir- ma e dos seus responsaveis, com a que- bra de seu sigilo bancario e fiscal. Os promotores lembram que em to- das as pend6ncias arbitradas a inica vi- t6ria da Cerpasa foi a exclusao de multa que Ihe foi aplicada por reincid6ncia. No mais, prevaleceu o entendimento de que a empresa vem praticando sonegagco, tanto a de sua responsabilidade direta, como daqueles em relag9o aos quais apa- rece como contribuinte substitute. Embora question a constitucionalida- de do regime de substituigao tributAria, a empresa segundo as denincias conti- nuou a emitir nota fiscal de venda inclu- sive com destaque do ICMS na fonte. S6 nao repassava ao Estado esse ICMS retido. "Ou seja, ganhava duas vezes, quando da inclusao no prego de venda do ICMS na fonte, em prejuizo do com- prador, e tambhm no moment de nao recolher o imposto ao Estado do Para", relata a den6ncia. Essa attitude caracte- rizaria uma apropriagao ind6bita. Entre junho e agosto do ano passado, por exemplo, a Cerpasa deveria pagar 1,9 milhao de reais de ICMS, mas s6 reco- lheu R$ 46 mil, isto 6, em toro de 2,5% da divida real (que, com multa ejuros, al- canga agora R$ 2,4 milhhes). Com o que a empresa nao pagou de imposto no peri- odo investigado, o Para poderia cobrir sua parte no program de macrodrenagem das baixadas de Bel6m, o mais important em execugao na capital paraense. 0 0 Diario do Pard esti de parabins. Charge do brilhante Alorres, na primeira pdgina, mostra um cidaddo comendo a mesa e sentado sobre un aparelho de lelevisao que exibe o hordrio do TRE, mas que so consegue servir de suceddneo a cadeira. Como se sabe, Jader Barbalho unm dos artists principals desse hortirio. uando penso sobre a mediocridade da imprensa brasileira, o que mais me an- gustia 6 perceber que nao se pode atribuir a maior parte da culpa aos patries. Pelo que te- nho observado, o maior pro- blema 6 a falta de viv6ncia e de saber, tanto de quem es- creve quanto de quem 16. Acredite: muitos dos que le- ram o "liquidificador de emo- 9~es apertando no botao ni- mero dois" podem noo ter en- tendido o que o Apoenan quis dizer (sera que o Apoenan sabia?), mas acharam a frase extremamente po6tica, emo- cionante, excitante. F pensar se sdo metaforas? Quem se importa com isso? Isto 6 "academicismo", o que inte- ressa 6 sentir. O resto 6 "out". O pior 6 que as pessoas in- teligentes, criativas e consci- entes estao deixando de ler os jornais diArios e as revistas se- manais. E quando leem, com certo esforgo, ja levam as in- forma95es muito a s6rio, ou ficam ainda mais desgostosas com o produto. As conseqiiEncias dessa falta de leitores argutos estao nas "noticias", "artigos", "re- portagens" e "cr6nicas" pu- blicadas pela grande impren- sa. Em todos os estilos, ojor- nalismo esta cada vez mais, sem qualidade, sem rumo, mesmo. Talvez seja por esse motive que hoje em dia, quan- do se pergunta para algu6m sobre sua profissio, e esse algu6m nao sabe ao certo o que faz na vida (profissional- mente), depois de se esforgar um pouco, responded: Pode colocar ai: jornalis- ta! (E chique e nio se sabe mais muito bem o que signifi- ca. O que eu acho uma pena). P.S. Quanto aos "papos cabega", onde se "receita a arte de viver", nao 6 vocd mesmo que diz: quem sabe faz e quem nao sabe ensina? Marcos Viana Minha resposta Ndo digo, Marcos: ape- nas costume repetir esse di- tado popular. E evidence que quem sabe fazer ter mais autoridade ao ensinar. Nem sempre, porem, essa e uma condido indispens6vel. Um professor de literature, por exemplo, podefazer seu alu- no aprender a sentir e en- tender uma poesia, sem pre- cisar, necessariamente, es- crever poesia. 0 melhor cri- tico de Mozart enquanto ele esteve vivo ndo foi Salieri? No entanto, uma distdncia abissal separa um do outro enquanto criadores musi- cais. No jornalismo, que e mais um oficio do que uma arte, o professor tem que es- tar em condio6es de sair da sua banca e ocupar a car- teira do aluno para mostrar- lhe como se executa aquilo que estd receitando. E como fez Hermeto Paschoal na gravaqdo do seu primeiro disco, no estzdio da Eldo- rado (o primeiro de 14 ca- nais), em Sdo Paulo, no ini- cio dos anos 70: pegava cada instrument e mostra- va ao musico qual era exa- tamente o som que estava querendo no acompanha- mento. Isso e autoridade positive, porque pedag6gi- ca, como ter que ser a dos verdadeiros lideres. No mais, estamos de acordo. JOURNAL PESSOAL 1P QUINZENA DE SETEMBRO / 1998 7 Comunicagao dirigida, do governor ao public Imagine-se o Didrio Oficial vinculado a uma funda9ao com regimento pr6prio e autonomia financeiro-administrativa, a ela jurisdicionada toda a comunicacao do go- verno. Continue-se a imaginar essa fun- dag9o controlada por um conselho de cu- radores, com mandate pr6prio e forma- 9do paritaria (metade deles originando-se de instituirges, a outra indicada diretamente pela sociedade). Conceba-se, por fim, o Diario Oficial submetido a um ombuds- man ou auditor, com espago na publica- 9ao para sua avaliagao (diaria ou sema- nal) e emprego garantido, e teremos a uto- pia estabelecida nas relag6es entire o go- verno e os cidadaos, imensamente distan- te da realidade corrente. Os pr6prios cidadaos nao se dao conta da importancia do Diario Oficial. Costu- mam encara-lo como uma publicagdo en- fadonha, mantida apenas para cumprir - sem a menor utilidade pratica obrigag9o legal. No entanto, em alguns Estados bra- sileiros, entire os quais, a partir de data re- cente, inclui-se o Para, o DO passou a ficar mais atraente e a publicizar corn mais 6nfase os atos oficiais. Comegou a dar uma id6ia de como seria proveitoso para as duas parties (o governor e o p6blico) que a publicacgo tanto servisse para ecoar o funcionamento da miquina official, como para ajudar os cidadaos a fiscalizar o apa- rato do Estado. Tenho procurado, pelo Jornal Pessoal, interessar mais pessoas pela leitura do DO. Ao mesmo tempo, venho investindo con- tra os maus servidores p6blicos, que ma- nipulam os atos do seu oficio ou sonegam muitos de seus dados para impedir que eles cheguem legiveis e cristalinos ao co- nhecimento da sociedade. A busca de um padrAo t6cnico para os atos oficiais esbarra na inexistencia de um controlador que imponha normas mais ri- gorosas, obrigando os responsaveis em cada uma das esferas do govemo a acrescentar as informag6es necessArias para que o public possa entender e avaliar o que foi remetido para divulga9go no DO (os sint6- ticos terms aditivos e extratos e o esqud- lido QDQT sao tres exemplos constantes numa administragao que prometia respei- tar as prerrogativas da cidadania, mas atW provocou involuggo neste aspecto. No inicio da sua gestdo, o governador Almir Gabriel chegou a anunciar a cria- 9ao de uma Ouvidoria P6blica, que, ao menos em parte, poderia cumprir essa ta- refa. Como varias de suas outras boas inten9oes iniciais, essa tambbm nao se materializou. E verdade que, hoje, certos vicios do passado parecem expurgados da Impren- sa Official do Estado. Elaji nao mais pro- tela ou simplesmente elimina a publicagao dos documents que Ihe sao encaminha- dos, a pedido de alguma parte, mais ou menos pr6xima dos escaninhos centrais do poder, como foi freqiiente no passado. Material de uso, como papel, tinta ou cha- pas, tamb6m nao 6 mais contrabandeado para 6rgao de imprensa particular, nem as maquinas sao tomadas de assalto nas ma- drugadas para executar servigos de ter- ceiros. O tamanho das letras ji guard pro- porcionalidade com a capacidade de vi- sualizaiio do leitor normal, ao inv6s de quase impossibilitar a leitura, principalmen- te para os que tnm alguma defici8ncia. Administrativamente, a Imprensa Oficial deu um salto qualitative notavel, mas ain- da esta distant do tipo de relacionamen- to com o p6blico que soa como utopia ir- realizAvel nesta terra de tiranos mais ou menos simpAticos. E o que dizer da Imprensa Oficial de Bel6m? Embora completando seu 400 ani- versArio, ela continue pouco mais do que clandestine. Edmilson Rodrigues se apro- xima da metade do seu mandate e fez muito pouco (ou quase nada) para trans- formar em fato concrete suas promessas eleitoreiras de "transparencia". Ele deve- ria comegar por expor ao contribuinte tudo o que esta fazendo. Mas houve poucas mudangas em relagdo A divulgag9o limi- tadissima feita por seus antecessores. O Diario Oficial do Municipio tem uma tiragem de 250 exemplares. Metade de- ambula pelas repartigoes do executive e legislative. Os assinantes nao somam nem 10%. Uma duzia de pessoas vai A sede da secretaria de administragao comprar seu exemplar avulso (mesmo os assinantes tem que ir li porque nao ha distribuigao domiciliar). O restante da tiragem enca- lha. Nem interesse de mercado existe: em tamanho oficio, com seis pAginas em m6- dia, o DO de Bel6m custa dois reais. E muito caro. Ubiratan Diniz, ha apenas dois meses dirigindo a Semad, promete dinamizar o 6rgao official do municipio, colocando-o na Internet, nas bancas e mais atrativamente para assinantes, al6m de refor9a-lo quali- tativamente. Deve aproveitar o fato de que, na m6dia, as secretaries municipals dao mais informa9ges do que as estaduais atra- v6s dos seus resumes e extratos, muitos deles irrepreensiveis. Mas o Diario Oficial nao parece ser prioridade para o prefeito, que gasta cada vez mais corn a informa- 9ao tratada (aquela que chega A grande imprensa como mat6ria publicitAria) do que corn a informag9o bruta sobre seus atos. t tipico de quem, nao convivendo bem corn o julgamento de terceiros, quer for- mar opiniao conduzindo-a. E por isso que os DO continuam a ser primos pobres na comunicagao entire os governor e a soci- edade. Que o governor aja assim, nao che- ga a surpreender. Que a sociedade se aco- mode, 6 algo a exigir mudanga. Quando? Com a resposta, o distinto p6blico. 0 *..... Atras ***.........................* Mais de trAs bilh6es de d6lares serao investidos em 11 projetos industrials de papel e celulose no Brasil nos pr6xi- mos 18 meses. Esse 6 o setor privilegiado do piano national de investimentos para o period, que supera US$ 12 bilh6es em seu orgamento global. Nao hA um s6 tostio previsto para o ParA, o maior produtor national de caulim e tamb6m produtor de celulose, dois dos principals insumos para essa ind6stria. O Estado det6m ainda um vasto potential madeireiro sub-utilizado (quando nao dila- pidado) e enorme extensao territorial. Em mais esse setor, estamos.condenados a uma fungao co- lonial. Tudo porque, nada antecipando, deixamo-nos surpreen- der pelo avango da hist6ria. Esse tipo de imprevidencia tam- bem atende pelo nome de mediocridade. 0 0 autor * A coluna de Ricardo Boechat do dia 12 de agosto ganhou um acriscimo ao ser republicada pelo journal 0 Liberal. No original, que sai em 0 Globo, no Rio de Janeiro, ndo consta a nota "Doutrina Ricutpero", que, em 0 Liberal, recebeu o seguinte texto: 0 Ibope e censurado pela primeira vez em 98. 0 PMDB do Par6 pediu ontem, ao TRE, o embargo da pesquisa que a TV Liberal daria domingo. 0 senador Jader Barbalho, parece, ndo gostou dos nwimeros". * No dia seguinte, o journal abriu o Rep6rter 70 com a nota "Censura", na qual dizia: "A liminar que suspended a divulgacgo da pesquisa eleitoral encomendada pela TV Liberal ao Ibope ganha repercussdo national corn a nota publicada na coluna de Ricardo Boechat, distribuida pela Agnncia 0 Globo. 0 Pais fica sabendo, assim, que no Pard o fantasma da censura ressurge das trevas e volta a pairar ameacadoramente sobre a liberdade de imprensa, um direito sagrado e inaliendvel do cidaddo, duramente reconquistado". * Antes dos aplausos, duas questoes. A primeira: foi mesmo Ricardo Boechat quem escreveu a tal nota, que 0 Globo ndo publicou? A segunda: a TV Liberal ndo foi impedida de divulgar a pesquisa. Foi impedida de divulgar uma pesquisa cujo pedido de registro ndo foi acompanhado das informagoes legalmente exigidas para a sua liberacdo. Prestadas as informacges, que sdo de natureza ticnica, a pesquisa foi liberada e divulgada pela TV Liberal e 0 Liberal. 0 resultado, alids, foi o empate entire Almir Gabriel e Jader Barbalho. * Em matiria de crime contra a liberdade de informadao, o grupo Liberal costuma ser pdlo ativo e ndo passive. Todos os companheiros de trabalho ou admi- radores mais distantes de Carlos-Leonam sem- pre esperaram pelo livro no qual ele socializaria todo o saber que acumulou em anos de atenta militancia na mais brilhante das noites urbanas brasileiras, a do cons6rcio Copacabana/Ipane- ma, no Rio de Janeiro. A non-chalance de Leo- nam era tao festivamente consagrada no legen- dario eixo bo8mio que se esperava a quintessen- cia do prazer lidico quando, finalmente, seus "cau- sos" fossem reunidos em livro, deixando de ser privil6gio dos seus interlocutores de mesa. Mas a passage da tradicao oral para a lin- guagem escrita foi uma frustragao: Os De- graus de Ipanema (Editora Record, 1997, 285 paginas) 6 um fiasco. Os artigos de journal e revista reunidos no livro, numa discutivel sele- 9Co, envelheceram tanto que as notas margi- nais apenas ressaltam o comodismo (ou opor- tunismo?) do autor. Ao inv6s da sumiria ten- tativa de requentar material congelado (ou, em alguns casos, definitivamente necrosado), Leo- nam deveria ter-se dado ao trabalho de rees- crever tudo. Usaria o material jornalistico j publicado como refernncia para o livre exerci- cio da sua boa mem6ria. Cor o cuidado de aproveitar apenas o que permitisse reconsti- tuir a hist6ria intima da noite no mais belo ce- Bruxaria Outro dia certo advogado, que tem as mesmas iniciais de um uisque e de um politico fa- mosos, fez palestra sobre a lei de imprensa. Faganha digna de elogio. Merecia mais do que sim- ples registro em coluna cl6ebre de journal, independentemente dos fundados temores sobre a concepaio de lei de imprensa do palestrante. Afinal, desta vez o causidico parece que nao esque- ceu o que Ihe foi dito, mesmo enfrentando o percurso entire seu escrit6rio e o audit6rio cas- nArio urban brasileiro, entire as decadas de 50 e 60, quando houve a maxima liberdade sob a autoritaria republica brasileira. Por que reproduzir textos enterrados pelo tempo, como as mat6rias sobre Ray Charles, Michelangelo Antonioni ou a eleigao do papa, entire varias outras datadas? Podem ser im- portantes moments na carreira dojornalista, mas o melhor prop6sito do livro nao seria o de converter-se em autobiografia (mesmo porque o carter de -antologia nao permitiria). Teria sido preferivel que Leonam reunisse seus pa- res para gravar numa entrevista a reconstitui- 9 o da epoca, usando os interlocutores para provoca-lo e controla-lo. Se era para agradar o autor, muito melhor seria uma edi9io reservada, que circularia en- tre os amigos e aderentes. Mas se o prop6sito era o de informar o distinto piblico sobre urma era de criatividade, bom humor e otimismo da alma brasileira, como raramente se repetiu em toda a sua hist6ria, entao faria melhor a Re- cord reeditando o livro de Fernando Lobo so- bre o bar Vilarifio, em outro sitio da capital carioca (A Mesa do Vilarifio, 1991, 204 pagi- nas). Estariamos melhor servidos. E o encan- to guardado na mem6ria sobre Leonam nao teria sofrido um golpe mortal. Ordem legal? Se a Ordem dos Advogados do Para/Segao do Para queria uma motivagao formal para se manifestar a respeito da chan- tagem que o grupo Liberal ten- tou fazer corn a justiga (ver Jornal Pessoal 189, 190 e 192), j a tem. Rejeitando uma desajeitada excecao de suspeigao contra si proposta pela Delta Publicida- de, ojuiz Enivaldo da Gama Fer- reira, do 5 oficio da capital, lem- bra que sua sentenga (conde- nando a empresa a pagar 100 mil reais de indenizagao por danos morais causados ao desembar- gador Benedito Alvarenga) fora proferida tres dias antes da apresentalao do recurso, "ou seja, no dia 12 do mencionado m&i de maio, e depois publica- da, em que pese os percalgos havidos para sua publica~9o. obstada por ordem superior" (grifo meu). Em que c6digo esta confe- rida a prerrogativa de ordem superior obstar a publicagao de sentenga regularmente pro- ferida por juiz singular, com powder maoncratico? Se existe, tudo b m, Se nao exte, a or- 'detil lgal foi violada e a OAB tem alguni'a coisa,a yer com issq .iOu nao?. trense no qual se apresentou. Em outras ocasibes a mem6ria nao resistiu a tanto esforgo e apagou a liqao, recebida 30 me- tros acima do nivel do mar, na curva da primeira esquina, ou no caminho da Presidente Vargas ao forum de Bel6m, onde as saga- zes estrategias penais concebi- das sempre tiveram sofrivel exe- cugao. Algumas delas, infeliz- mente, contra a liberdade de im- prensa e o direito de critical, tao retoricamente defendidos em tese pelo rAbula diplomado. Estilo A pagina cinco do primeiro ca- demo da ediqio de 0 Liberal do iltimo domingo, 30, foitotalmente ocupada por "Informe PublicitA- rio" do prefeito Edmilson Rodri- gues. A manchete dessa pagina paga anuncia que a unidade de safide do Tapana "serd entregue em outubro". Abaixo, uma foto destacada do alcaide petista em sua mais marcante atuagao: discur- sando. A obra propagandeada 6 de 270 mil reais. O prego de tabela da pagina paga 6 de R$ 40 mil. Journal Pessoal Editor: Licio Flavio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo. 871/66 053-040 Fones: 223-1929, 241-7626 e 241-7924 (fax) Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/6&0 -q Fone: 223-7690 e-mail: lucio@exper.cpm-.b - Ediqao de Arte: Luiz Pinto/241-1859 " 1 ! Frustragao i |
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