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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00143

Full Text






F


194 1 QU


SonegaVAo fiscal
deRS 41 milhbes
1 Pessoal
L A V I 0 P I N T DO. mostrar
DO: mnostrar
IINZENA DE SETEMBRO DE 1998 R$ 2,00 OU esconder?
(PA G. 7)
ELEICAO



to viciado


Operiodo da campana eleitoral e um espago abertopara todos os tipos
de manobras. Quando chega o dia da vota"do, o eleitor raramente e
dono do seu livre arbitrio. Aspesquisas se transformaram no principal
instrument de indu"do do voto porque ndo hd meios de arbitragem
confidveis. Por isso, a tendencia eleitoral ainda estd camuflada no Para.
Mas pelo menos nas pesquisas, ji um lider na preferencia.


-il e uma media ponderada de
S tantos resultados desencon-
S" trados de tres pesquisas elei-
Storais em andamento pode Um ci
ser obtida e merecer cr6di- ra, entret
to, na semana passada o sas sao m
govemador Almir Gabriel conseguiu, pela tendencia
primeira vez, liderar a dispute pelo princi- ponto elas
pal mandate posto a premio na eleigdo do sobre
deste ano. Colocou sobre o seu principal ou dos m;
concorrente, o senador Jader Barbalho, do que as pe:
PMDB, vantage que ultrapassa a mar- nentes; e
gem de erro admitida pelos pesquisado- deiras ser
res. O candidate a reeleigao pelo PSDB em algum
teria 4% a mais de votos do que o ex- dos que ti
governador, duas semanas depois de ini- do serving
ciada a propaganda eleitoral gratuita pela ginal eve
televised. E pouco mais do que os 3% de tada na h
erro possivel na metodologia da pesquisa. O grup


.. J"t-L" L'-L-
.. *! _ -_ .-


I


dadao consciente se pergunta-
anto, at6 que ponto as pesqui-
ledidores eficazes e isentos da
Sdo eleitorado, e a partir de que
procuram manipulA-lo, influin-
a vontade dos ainda indecisos
al definidos. Ndo ha divida de
squisas contem os dois compo-
que, pelo menos ate as derra-
nanas anteriores A eleigdo, elas
la media refletem as inten96es
sm dinheiro para pagar o custo
o e alguma outra cobranga mar-
ntualmente feita, para ser qui-
ora ou depois da eleigco.
o Liberal 6 quem ocupa a van-


Lt L-,. L-.LZL
_ ..-. ," .1_ .-",g


guard no uso das pesquisas. NIo ape-
nas ou nem principalmente por delibe-
racgo pr6pria. A Rede Globo exige das
emissoras afiliadas que fagam pesquisas
sistematicas, atrav6s do Ibope, a partir
do horario eleitoral do TRE, para poder
exibir os resultados de todo o pais diaria-
mente, assegurando sua lideranga de au-
diencia. Antes, por6m, os Maiorana ja
vinham fazendo sondagens pelo Vox Po-
puli, institute de menos prestigio do que o
Ibope e cor teias enredadas no passado
com o ex-presidente Fernando Collor de
Mello. E inovaram ao realizar pesquisas


jL.


' r- ~
,-. .-h
I-





2 JOURNAL PESSOAL Ia QUINZENA DE SETEMBRO / 1998


simultaneas atrav6s de dois diferentes
institutes de pesquisa.
O Vox Populi provocou o maior con-
tenciosojA surgido no TRE paraense em
fung9o de pesquisas eleitorais. Relutou
em fornecer os dados eminentemente
t6cnicos (sobre locais pesquisados e
amostragem) requeridos para o registro
e entregar os resultados cobrados ap6s a
divulgagao para que os partidos possam
testar a consistencia da pesquisa. Por que
essa recalcitrancia?
Uma resposta talvez possa ser obtida
atrav6s da simples visualizacao da capa
da edigAo de O Liberal do filtimo domin-
go. De um lado, a pesquisa do Ibope
mostrando que, em relagao a uma sema-
na antes, Almir e Jader continuaram evo-
luindo, mas Almir (de 39% para 44%)
com mais intensidade do que Jader (de
39% para 40%). JA o Vox Populi exibia
nao apenas uma grande diferenga (de
nove pontos percentuais) em favor do
governador, como tend8ncias opostas
entire os dois candidates: Almir disparan-
do, de 34% para 40%, e Jader em decli-
nio, de 33% para 31%. Como Ademir
Andrade sofreu uma ligeira queda (de
11% para 10%) e caiu pela metade a
quantidade de indecisos, a pesquisa apon-
ta para um resultado previsivel: mantida
a tendencia, Almir Gabriel poderia reele-
ger-se ji no primeiro turno, acumulando
mais votos do que todos os outros candi-
datos somados.
Este seria o component de induqao
de uma pesquisa, influindo sobre a aferi-
9ao correta da outra, sem
que, examinadas de per si,
possa ser flagrada a ma- I
nipulagao, exceto quando A prop
vistas as duas sondagens do candida
em conjunto. E uma pista Henrique
para o necessario trabalho na prova d
de verificago e checa- Feiic
gem, para o qual, infeliz- 'iti Gu
mente, ningu6m parece
ter-se preparado no Para. O "sen
Mesmo as coligag6es opo- impression
sicionistas nao mostram por sua mi
condig9es de contrapor is que fica d
pesquisas uma analise t6c- novo) alge
nica competent, perma- Num'.
necendo num nivel ama- .lascou: "i
doristico que impossibilita recltrdrz
fiscalizar os abuses do Ot6vio pa
poder econ6mico e da OUma n
mAquina official, invaria- coragqo"
velmente utilizados em fa- devidamer
vor da chapa situacionis-
ta. HA indicios de tenden- 'Em q
ciosidade na pesquisa, seu progr


mas ningu6m comprovou-os.
Diante da fragilidade dos partidos e da
passionalidade dos contendores, seria
desejivel que institui95es arbitrais, em-
penhadas em dar consistencia ao proces-
so eleitoral e garantir sua influencia so-
bre a consolidag~o democratic, como o
Minist6rio Pfiblico, a OAB e o pr6prio
TRE, pudessem exercer um papel revi-
sor sobre as pesquisas. Mesmo que to-
dos falhassem, ainda restaria a esperan-
9a de que a imprensa se sentisse obriga-
da a exercer sua saudavel fungf o inves-
tigativa, atuando como auditora popular.
Mas nada disso existe no Pari.
Ao contrario: o terreno 6 f6rtil para a
disseminagao de praticas que viciam e
deturpam a manifestagao do eleitor. Mais
de dois tergos da populag9o economica-
mente ativa do Pari esta desempregada
ou subempregada, o que significa viver
abaixo do minimo necessirio. O Pard 6
o primeiro Estado nao-nordestino cor a
pior distribuig9o de renda do pais: os 10%
mais ricos ficam com quase 50% de toda
a renda gerada no Estado, enquanto os
40% mais pobres conseguem menos de
9% (em pior situag9o, na Amaz6nia, s6
o Acre).
Temos a 17a menor renda familiar, a
8a maior taxa de mortalidade infantil (num
Estado ha quase quatro anos dirigido por
um m6dico) e o 21 pior indice de esco-
laridade de todo o pais. Para arrematar,
somos o 110 Estado da federagao com
maior propor9ao (43%) de analfabetos
funcionais (aqueles que conseguem ler,


Flashes da campanh


mas t8m dificuldade para entdner o que
leem) em relagao ao eleitorado. S6 ga-
nhamos dos mais pobres Estados nordes-
tinos e do Acre. Fazemos parte do 30
Brasil.
Neste context, como prevenir, evitar
ou remediar a manipulag9o do voto, co-
mercializado em praga piblica e agenci-
ado em escrit6rios refrigerados? E evi-
dente que a conjugagao de capacidade,
experiencia, carisma, simpatia e dinhei-
ro, numa relagao de importancia inversa
A dessa ordem mais salutar, 6 exigida
para veneer uma elei9ao majoritAria num
Estado tao dilacerado por disparidades e
carencias.
A demagogia, o engodo, o abuso do
poder econ6mico e o apoio da maquina
piublica tem efeito muito maior do que em
Estados menos vulneriveis. Por isso tan-
ta confusao infiltrada na cabega do elei-
tor acaba favorecendo a condugao da sua
vontade. Ele vota convencido de que vai
chegar a um resultado e quando li che-
ga se defronta com uma miragem.
A cada elei9go o marketing se sofisti-
ca para tirar ou reduzir o livre arbitrio do
eleitor. Esse aparato consolida os candi-
datos mais poderosos e debilita ainda
mais os menos dotados. No meio do pi-
cadeiro, o eleitor fica perdido e acaba se
submetendo aos ardis.
Os formadores de opiniao, ligados
muito mais a grupos de poder do que A
sociedade, defendendo seus interesses e
desligados de um compromisso social,
contribuem para esse desfecho de moral


agenda da coligaqao governista diz que a soma do nmunero
Ito Almir Gabriel (45) com o do president Fernando
Cardoso (tamb6m 45) result em 90% de aprovacgo. Mas *
los nove da zero. t outra maneira de ver o par tucano.
siro, na linguagem do PT, vem grafado como feitieiro.
'iros pode exigir direito de resposta, sem cedilha.
ador do governador", Luiz Otivio Campos, pode estar
nando menos por seus arguments de pd quebrado do que
imica mecfnica de boneco de marionete. A grande divida
epois dos seus pronunciamentos 6: se suas mios forem (de
.madas, ele deixard de falar?
nomento original, dids, o ex-quase-futuro senador
Eu tenho.um sonho':-Martin Luther? King nio
direitos, mas nado -forar- demais a barra fazer .Luiz
trafrasear algudi? '
nusiquinha de campariha coloca "Jesus no c6u, Almir no
Pronto: Almir 6 um novo SAo Paulo ao tucupi,
ite canonizado.
e dia o senador Jader Barbalho vai abrir o livrinho do
ania de governor e ler o que estd Id dentro?


duvidosa. Como, nessa
arena de leoes famintos,
servir ao cidadao? Uma
questao primaria impoe-
se preliminarmente a
essa: como chegar ao
home comum que ira
registrar seu voto na
urna, conventional ou
eletr6nica, sem os mes-
mos recursos dos pode-
rosos?
Se a sociedade quer
um dia chegar a elei96es
que traduzam com mais
nitidez a vontade do
eleitor, precisatratar logo
de expurgar a maior
quantidade possivel de
vicios do process elei-
toral, sobretudo os vici-
os insanaveis, como pes-
quisas manipuladadas.
Qualquer analista que
tentar examiner as divul-





JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1998 3


A suspeita celeridade


da justiga

Quando chegou ao forum de Belem para trabalhar, as 8,30
horas da manha do dia 13 do mds passado, ajuiza S6nia Pa-
rente, titular da 20a vara civel da capital, tomou um susto. Um
dos processes encaminhados pelo cart6rio quase no final do
expediente da v6spera havia sido despachado, no lugar dela,
por umjuiz-substituto. Jos6 Maria RosArio fora designado, na-
quele mesmo dia, pelo president do Tribunal de Justiga do
Estado, Romao Amoedo Neto, a pedido verbal do correge-
dor geral de justiga, Humberto de Castro. Assinada e cumpri-
da de pronto, a portaria s6 sairia no DiArio da Justiga do dia
seguinte, quando Sonia Parente a leu.
Ajuiza, depois de ter realizado duas audiencias, retirou-se
do forum As 12,30hs do dia 12. Alegou um mal-estar sibito,
por indisposicgo estomacal. As 10,50 uma acao monit6ria pro-
posta por Osvaldo Ferreira contra a Brasileg Seguradora do
Brasil foi distribuida e imediatamente encaminhada ao cart6rio
respective, onde foi conclusa para a juiza e a ela remetida (o
que, normalmente, s6 6 feito 24 horas depois).
Como ajuizaja havia said, o process foi levado (provavel-
mente pelo advogado do autor da ago) ao corregedor, que in-
terferiu na tramitagao. O desembargador Humberto de Castro
pediu a designagao imediata de um substitute, mesmo sabendo
que a magistrada teria 48 horas para despachar o pedido, a par-
tir do seu recebimento (norma raramente cumprida no forum de
Bel6m, no qual a regra 6 a ultrapassagem dos prazos legais).
Despacho dado pelojuiz-substituto, apenas duas horas depois
de protocolado o pedido no cart6rio distribuidor, o process foi
para a central de mandados As 13,17hs. Exatos 20 minutes de-


paraense
pois o despacho foi cumprido. O official dejustiga Ant6nio Qua-
resma citou o representante da seguradora, Luis Augusto Gon-
galves, na sede da empresa, A avenida Visconde de Souza Fran-
co 345, As 13,37hs. O mandado foi entao recolhido e a empresa
passou a ter 15 dias para pagar os 120 mil reais que Ihe estio
sendo cobrados ou pagar o embargo. Uma faganha.
Mas nao exatamente dajustiga. Ajuiza S6nia Parente, rea-
gindo A surpresa, declarou-se "estarrecida" ao verificar, no
mesmo dia 13, a publicagio do despacho do president do TJE
que a substituia por outrojuiz, "sem que saiba o motivo", j que
dispunha do prazo de dois dias para se manifestar, "nao se
justificando, pois, a violencia da substituigao". Ela ainda tentou
pedir explica96es ao corregedor, "autor da ilegalidade", mas
foi informada de que ele nao viria trabalhar, s6 retornando no
dia seguinte, "sem que haja algu6m que o substitua!!!"
Diante da situag9o, ajuiza viu-se obrigada a se declarar sus-
peita para funcionar na agao, "constrangida com a ilegalidade e
abuso de poder, mas coerente, contudo, cor os ideas dejustiga
e dignidade que tenho defendido ao long dos trinta e dois peno-
sos anos de magistrada, apesar das constantes presses das 'emi-
nencias pardas', violentada em minha funcgo judicante, posto
que assegurada pela lei fundamental de meu pais".
Com essa decisao, a juiza negava-se "terminantemente a
participar de atos desta natureza, mormente quando, pela vio-
16ncia, perdi a isengco de Animo para atuar".
Mais uma vez, fez-se profundo sil8ncio no forum como
eco As contundentes palavras da juiza titular da 21a vara
civel da comarca da capital. 0


gadas pela imprensa, com base no que
foi publicado pelosjornais, acabara num
beco de dificil said, tal o labirinto de in-
consistencias e contradi96es.
Mesmo assim, arriscando-se a, de
alguma maneira, sofrer um toque de in-
dugao dos manipuladores, pode-se fa-
zer algumas observag9es sobre a situ-
agao atual e seu possivel desdobramen-
to at6 o primeiro e o segundo turno elei-
torais.
O governador Almir Gabriel esta li-
geiramente A frente do senador Jader
Barbalho na preferencia do eleitorado.
Nio 6, por6m, uma margem capaz de
assegurar que ele serd o mais votado a
4 de outubro. Muito menos autoriza pen-
sar em defini9go ji no 1 turno. HA al-
guma probabilidade de mudanga de po-
sigco entire os dois, mas esta pratica-
mente descartada a hip6tese de o sena-
dor Ademir Andrade sair de um distan-
te 30 lugar, surgindo como opgao real de
vit6ria. Ele vai ter importancia maior no


2 turno porque ha uma tendencia mais
forte de migragao de votos favorAvel a
Jader nessa segunda vota9go, contra-
balangada pelo indice de rejeigao maior
ao senador peemedebista.
Para evitar que esse refluxo ocorra
do 1 para o 20 turno, os marqueteiros
do governador estao tentando conven-
cer os eleitores que aprovam a admi-
nistragao Almir Gabriel a votar nele
para um segundo mandate, o que pare-
cem ainda se recusar a fazer, por mo-
tivos nao muito claros.
A imagem de frouxiddo do governa-
dor, que seria uma das explicag9es, jA
nao 6 mais tao marcante quanto at6
pouco tempo, mas nao desapareceu de
todo do inconsciente coletivo. O elei-
tor m6dio paraense quer algu6m deci-
dido, mesmo que nao seja o melhor.
Pode at6 roubar, desde que o roubo nao
seja grande e permit realizar obras ou
servigos acessiveis ao maior n6mero
possivel de pessoas. A necessidade do


liderado glamouriza a imagem do lider.
Nao 6 por ser tao diferente de Jader
Barbalho que Almir Gabriel esta cres-
cendo, mas por apresentar obras visi-
veis no moment da votagao, mesmo
sem t6-las iniciado ou poder apresen-
ta-las concluidas (a forga dessa obser-
vagdo ter sido sufocada pela estriden-
cia da propaganda).
Num Estado tao pobre, mas acalen-
tado por sonhos de grandeza, quem ti-
ver maior capacidade de sedugdo ga-
nhara. Mesmo que nao esteja dizendo
a verdade, nem realize o que prome-
teu, ser capaz de convencer 6 o mais
important, principalmente porque nIo
hi uma instancia para fazer a prova dos
nove de todos os artificios de campa-
nha, nem a massa do eleitorado esta
em condig9es de uma avaliagio criti-
ca. Num clima de liberdade sem para-
lelo, a eleiggo de 1998 pode consumar-
se como uma das mais viciadas de to-
dos os tempos. 0


arcr~ ~- Ir rre I Icl ~r III 1 I I I





4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1998




0 critic, o artist e o cao


Os amigos podem fazer o mal mesmo
quando agem visando apenas o bem; e
causar mais danos do que os inimigos do
beneficiado imagindrio. A sabedoria po-
pular esti tAo alerta para esse perigo que,
em um de seus ditos, aconselha recorrer
A ajuda divina para se livrar dos amigos;
os inimigos podem ser vencidos apenas
com os recursos humans.
Os amigos dojomalista ClAudio de La
Rocque Leal mobilizaram-se para uma
grande homenagem a ele. Encomenda-
ram reportagens generosamente desta-
cadas no journal O Liberal e um filme de
chamada na TV Liberal para anunciar a
exposigao Retrato do Critico Quando
Jovem CAo, que ficou durante duas se-
manas, at6 o dia 30, na Galeria da Una-
ma Espago da Mem6ria.
O catAlogo da exposigao 6 o mais com-
pleto, luxuoso e bem cuidado dos 61timos
anos, corn 60 paginas em papel especial,
reprodugao da maioria dos trabalhos apre-
sentados e textos de analise, entire os
quais nada menos do que um "Dicionario
de Claudio de La Rocque Leal", produ-
zido com empenho exeg6tico por Paulo
HerkenhoffFilho, colega de metier artis-
tico do homenageado, devidamente exi-
bido, por sua vez, em fotos na capa e na
orelha do catilogo (depois de ter sido o
ator do filme na TV).
Dois sales da galeria foram ocupa-
dos por 60 desenhos de La Rocque. Se
todas as obras fossem vendidas, o fatu-
ramento da exposigao seria record para
o padrao corrente desse tipo de trabalho:
50 mil reais. No dia em que 14 estive, 25,
havia o registro de oito aquisigces (duas
haviam sido canceladas), feitas por tries
pessoas, ao custo de R$ 7.200,00, resul-
tado de entusiasmar qualquer artist plas-
tico em qualquer capital do pais.
Um auto-retrato de La Rocque, em
pastel e giz sobre papel, foi avaliado em
R$ 3 mil, enquanto a cotaqAo de um tra-
gado com prosaica Bic azul chegou a mil
reais, o mesmo valor alcan9ado por dois
simpl6rios nanquins ("A Nudez dos Ob-
jetos" e "Clandestinidade"), mesmo corn
mancha (involuntAria, por certo).
Uma outra variago do trago com Bic,
desta vez "em escrita grossa", que o au-
tor classificou como uma "Revisao de
Sant'Anna" (deduzindo-se facilmente
que refere-se a "Sant'Ana, a Virgem e o
Menino", que Leonardo da Vinci pintou
ao redor de 1510, ainda sem o embalo da


Fundag~o Romulo Maiorana, infelizmen-
te, mas, mesmo assim, a obra favorite do
ent~o modesto pintor-escultor-arquiteto-
engenheiro-fil6sofo-poeta-fisico-
astr6nomo&etc), s6 nao foi arrematada
por ji integrar o acervo de Dea Maiora-
na, a patroa-m6r de ClAudio. Como o
desenho foi criado em 1979 sobre uma
singela lauda de redag~o de O Liberal,
entende-se a reserve de mercado.
Tudo isso para quem? Para o dese-
nhista? Para o critic? Para o amigo? Ou
para o assessor de uma fundag~ o cor o
mais important canal de divulgagdo e
promogao da terra? Cada um tera a sua
resposta e deve-se aceitar seu livre arbi-
trio, mas at6 o limited em que a a9ao en-
tre amigos, filantr6pica, sentimental ou
seja lA qual o seu impulse, extrapola os
limits do grupo para se transformar em
fato p6blico. Ai, ao inv6s de educar e
former piblico, ela contribui para defor-
mar, inclusive o mercado, se encararmos
a questao pelo angulo mercantil, que cos-
tuma comandar as opC6es nos sales de
artes plasticas.


exceptional di-

vulgagao da ex-

posiqdo atraiu

Luma considerd-


vel afluencia de pesso-

as. Tres delas fizeram

aquisigoes significativas.
Com o lance minimo, poderiam ter aces-
so a originals de Luis Trimano, a meu ver
autor da melhor composigao de colagens
e esferogrAfica em desenhos ja concebi-
da no Brasil (embora ele seja argentino).
O belo Album de Trimano, publicado no
ano passado simultaneamente A sua po-
bremente organizada exposigio, no Mu-
seu Nacional de Belas Artes do Rio de
Janeiro (ver Jornal Pessoal n 165), cus-
ta 70 reais. Esse valor talvez ajude a ajus-
tar as ordens de grandeza e, por anti-
noma, nesse caso, de qualidade.
ClAudio 6 uma pessoa inteligente, sen-
sivel, criativa. Conseguiu ultrapassar os
limits freqiientemente estreitos do
jornalismo (e As vezes outros limits nem


tAo restritivos assim). Seu valor como
jomalista, ou como qualquer dessas ou-
tras etiquetas (curador, promoter cultu-
ral) afixadas em quem realize no mundo
das artes, 6 inquestionavel. Mas nao
como artist plAstico ou, especificamen-
te, como desenhista.
Conhecendo muito bem o meio no qual
circula, ele, preventivamente, adverte no
"Retrato Critico" que escreveu para seu
pr6prio catalogo, certamente com base
em experi8ncia pr6pria: "Em uma cidade
como Belem, onde as pessoas s6 conse-
guem prestar atengdo nos erros das ou-
tras para poderem falar, falar e falar, ou,
quando falam de si mesmas, contar as
vantagens, inventar mis6rias, na tentati-
va de recriar um universe invariavelmente
em cruise, criar 6 um exercicio perigoso".
Perigoso nao apenas numa cidade de
muro baixo e inclinada ao fuxico como
Belem: em qualquer lugar do planet. O
novo 6 uma temeridade porque abala a
boa ordem estabelecida, obriga a rever
tudo, quando p6e tudo em questAo. Como
todos estIo cansados de saber, o fnico
client de van Gogh em vida foi o seu
irmAo Theo. Hoje, as telas de van Gogh
valem milhoes de d6lares. O vulcao que
explodia dentro dele extinguiu-se com
essa mercantilizagdo vil da sua obra?
Claro que nio. As almas sensiveis conti-
nuam indo renovar-se nele como fonte
inspiradora, at6 no cinema, como Kuro-
sawa fez, ja na velhice, devolvendo da-
quela parte remota do mundo o intercam-
bio ao qual van Gogh chegou numa fase
da sua carreira.
Van Gogh nao sabia desenhar corre-
tamente quando comegou a pintar, em
idade relativamente avangada. Mas os
genios de ocasiao, desde que nZo domi-
nados pelo narcisismo, aprenderiam muito
lendo a correspondEncia dele com Theo.
Humildemente, Vincent recorreu A sua
extrema sensibilidade visual e emotiva
para guiar seu aplicado aprendizado t6c-
nico no trago e no dominio da cor (leva-
da ao paroxismo pela combinagao do seu
estado fisico-emocional com a luminosi-
dade de Aries). E tautologia afirmar que
s6 se pode negar aquilo que se domina.
Mas at6 o 6bvio 6 esquecido quando a
presung9o precede e As vezes elimina
a percepgCo da realidade.
O nivel t6cnico dos desenhos de La
Rocque 6 o de um aluno de belas-artes.
Nem mesmo uma assinatura definida ele





JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1998 5




(quando jovem) no salao


tem para imprimir a griffe dos seus tra-
balhos. Falta-lhe estilo, embora ele ex-
ceda em comentarios e ironia. Genero-
samente, Benedito Nunes diz de sua obra
que ela 6 "o desenho no desejo de ser
escrita". Talvez a ordem 16gica esteja
invertida por um critic que superestimou
intengao e relevou a obra: 6 a escrita
desejando ser desenho.
Se ha uma "gimnospermia da forma",
como diz Benedito, nao 6 por intenciona-
lidade, mas por impossibilidade de pre-
encher o vacuo, de obter, atrav6s do "ad-
jut6rio da palavra", o que nao compete a
palavra no universe da forma, da cor e
do movimento, desde que van Gogh e
C6zanne deram autonomia A pintura (e
As artes plasticas como um todo).
Como ilustraglo de sua palavra, La
Rocque teria todo o direito de nos apre-
sentar seus desenhos, que tem humor e
ironia, mesmo quando, num deboche que
nao poderia garantir ser intencional, for-
9a uma socialite qualquer a comprar
uma obra de arte-com-moldura mancha-
da por uma gota de nanquim manejada


com impericia, imaginando ser um pas-
saporte para o bom gosto (ou, quem
sabe, para o registro dos patrocinado-
res, os barberinicos Maiorana, cor per-
dAo da doce Roberta).
Se Claudio de La Rocque Leal ja ti-
vesse uma obra realizada (possivel para
sua idade), esse "Retrato do Critico
Quando Jovem CIo" teria o gostoso sig-
nificado de um revival, ou uma dessas
imprevisiveis varri9oes de arquivos a
cata de in6ditos e inacabados (que, le-
vados ao piublico, nem sempre deixam
de ser frustrantes).
Mas para montar a primeira individual
do critic quando jovem cao (nao tdojo-
vem assim, nem como cao), esbogos ra-
biscados sem a intengao (nem a possibi-
lidade) de virarem obras (at6 a datag~o
6 desconexa: um trabalho de 1975 6 apre-
sentado como sendo de 1978 e outro, de
1981, vai para 1982), fizeram como se
diz na linguagem neol6gica e neolitica dos
bares "forgagao de barra".
Pode-se fazer aqui o coro (ou sera um
solil6quio?) dos descontentes sem qual-


quer maledicencia, apenas em defesa de
um padrAo cultural. N~o para punir o cri-
tico por haver tentado criar o artist, mas
alertando-o, na contramao dos perigosos
amigos, de que ambos perderdo nessa
tentative fadada ao fracasso em outro
circuit que nao o da badalag9o utilitAria.
Sem outro arrimo senno o da sempre sau-
davel dial6tica socratica e do bom hu-
mor em defesa do saber coletivo. Como
fizeram, quatro d6cadas atras, os faci-
norosos irmAos Farah (Jos6 e Alexan-
dre), colocando de ponta-cabega os pri-
meiros exemplares da arte abstrata exi-
bidos em Bel6m, todos elogiadissimos no
livro de impresses do salao, a despeito
de a firme assinatura do pintor (j faleci-
do) ter ficado, invertida, no alto das te-
las, ao contrrio do que convencional-
mente fazem os artists.
A despeito disso, a arte abstrata pros-
seguiu seu caminho e, entire mortos e fe-
ridos, todos se salvaram, como conv6m
quando o que separa os homes sao as
id6ias e nao as armas do com6rcio e da
promogio de vaidades. 0


Adist ncia
Ha areas de terra que tem
notavel importancia para a
coletividade. Por motivo al-
gum podem ser invadidas, seja
Ia por quem for. Uma delas 6
a reserve florestal em torno
de Carajas. Quem a control
nao 6 mais uma empresa es-
tatal, mas a privatizada Com-
panhia Vale do Rio Doce.
Nao importa. Aquele cintu-
rao vegetal garante um con-
trapeso ambiental para a
mais important provincia
mineral do planet. Nao po-
demos permitir que a aridez
tome conta da area. Aquela
rara combinagao paisagisti-
ca e de recursos naturais 6
um present da natureza (ou
de Deus). O Para nao pode
desperdiga-la.
O Aura 6 a p6rola da fra-
gil coroa florestal que ainda
existe em Bel6m. Um acaso,
a existdncia do paiol do Ex6r-
cito naquele local, permitiu


que ela sobrevivesse A devas-
tagao geral em torno. E um
milagre. Mas milagre nao
perdura eternamente entire os
homes se eles nada fazem
para merec--lo. Os belenen-
ses tnm que proteger a vege-
tagao em torno dos cursos
d'agua que ainda ha nessa
inacreditavelmente grande e
bela reserve natural.
Tambr m nao se deve sa-
crificar a plantagao da Pirelli
As necessidades do MST, re-
ais ou fabricadas. Ao menos
enquanto nao se inventariar
a area e se esclarecer o ne-
g6cio que ali o governor pre-
tende realizar.
Natureza tamb6m 6 soci-
al e, em alguns casos, como
esses, constitui principio in-
violavel. O MST que esco-
lha outros alvos e, se quer
legitimidade, submeta-os a
avaliagao da sociedade an-
tes de atribuir-se um direito
do qual nao 6 a fonte, e pode
nao ser o int6rprete.


Tempo

do tempo
Arnaldo Cl6io da Costa
Azevedo foi excluido do pro-
cesso no qual o atual vere-
ador (e candidate a deputa-
do estadual) Andr6 Dacier
Lobato (mais conhecido
como Kaveira), juntamente
com outros seis r6us, res-
pondem pela acusagdo de
traficar entorpecentes. A
desembargadora Maria de
Nazar6 Brabo de Souza
acolheu o habeas corpus
para trancamento da a9ao
penal, requerido as Cama-
ras Criminais Reunidas, re-
conhecendo a prescrigao
em relagao a Arnaldo e de-
cretando a exting9o da sua
punibilidade.
Arnaldo Azevedo foi in-
cluido na a9go penal sob a
acusagdo de ter cometido
crime de prevaricag9o.
Como delegado de policia


encarregado da prisao em
flagrante dos acusados de
fazerem trafico de drogas,
ele teria se omitido "na ado-
9 o das providEncias neces-
sarias ao enquadramento de
todos os participants do
event delituoso", segundo
o relat6rio da desembarga-
dora Brabo. Mas a prescri-
9Fo (pelo prazo legal haver
estourado) impediu a apre-
ciagao do m6rito da acusa-
9ao. Ela foi submetida ao
TJE porque Arnaldo tornou-
se promoter de justiga, nao
mais podendo ser processa-
do em primeira instancia.
Os demais acusados, en-
tre os quais um filho do ex-
governador Carlos Santos,
continuam respondendo na
vara penal de origem. Se for
eleito deputado, Kaveira
tamb6m passara a ter foro
privilegiado. Ja o process,
este talvez continue escoan-
do como a areia nas velhas
ampulhetas.





6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE SETEMBRO / 1998'


Cerpasa: muita cerveja


para pouco imposto


Os promotores p6blicos Estevam Sam-
paio Filho e Milton de Menezes requere-
ram A juiza da 16a vara penal de Bel6m,
na ultima segunda-feira, 31, o seqiiestro
de todos os bens e a quebra do sigilo ban-
cArio da Cerpasa e de cinco de seus dire-
tores, dois deles alemaes. Os represen-
tantes do Minist6rio P6blico acusam a
empresa de se apropriar de 41 milh6es de
reais de ICMS que deveria pagar e de
nao recolher ao tesouro estadual o impos-
to ji retido, mesmo quando o desconta de
seus clients, revendedores varejistas,
atrav6s da substituigio tributaria. A sone-
gagao corresponde a tudo o que o Estado
arrecada em duas semanas.
A Cerpasa, maior fabricante de cer-
veja e refrigerate do Para, responded a
nove processes por sonegag9o, em seis
dos quais j foi denunciada perante ajus-
tiga, por fatos apurados pelos fiscais es-
taduais desde maio do ano passado. Os
dois promotores acusam a Cerpasa de
estar "causando estorvos ao sistema da
arrecadagdo tributaria, seja na recusa em
tomar ci6ncia dos terms de autuagdo,


seja em dificultar a adgo dos agents do
Fisco, na sua missao de coligir dados,
receber livros e documents fiscais, para
os levantamentos de sua compet6ncia".
Para "reparar o dano que vem sendo
causado A Fazenda Piblica", decidiram
entao pedir o seqtiestro dos bens da fir-
ma e dos seus responsaveis, com a que-
bra de seu sigilo bancario e fiscal.
Os promotores lembram que em to-
das as pend6ncias arbitradas a inica vi-
t6ria da Cerpasa foi a exclusao de multa
que Ihe foi aplicada por reincid6ncia. No
mais, prevaleceu o entendimento de que
a empresa vem praticando sonegagco,
tanto a de sua responsabilidade direta,
como daqueles em relag9o aos quais apa-
rece como contribuinte substitute.


Embora question a constitucionalida-
de do regime de substituigao tributAria, a
empresa segundo as denincias conti-
nuou a emitir nota fiscal de venda inclu-
sive com destaque do ICMS na fonte.
S6 nao repassava ao Estado esse ICMS
retido. "Ou seja, ganhava duas vezes,
quando da inclusao no prego de venda
do ICMS na fonte, em prejuizo do com-
prador, e tambhm no moment de nao
recolher o imposto ao Estado do Para",
relata a den6ncia. Essa attitude caracte-
rizaria uma apropriagao ind6bita.
Entre junho e agosto do ano passado,
por exemplo, a Cerpasa deveria pagar 1,9
milhao de reais de ICMS, mas s6 reco-
lheu R$ 46 mil, isto 6, em toro de 2,5%
da divida real (que, com multa ejuros, al-
canga agora R$ 2,4 milhhes). Com o que
a empresa nao pagou de imposto no peri-
odo investigado, o Para poderia cobrir sua
parte no program de macrodrenagem das
baixadas de Bel6m, o mais important em
execugao na capital paraense. 0


0 Diario do Pard esti de parabins. Charge do brilhante Alorres, na
primeira pdgina, mostra um cidaddo comendo a mesa e sentado sobre un
aparelho de lelevisao que exibe o hordrio do TRE, mas que so consegue
servir de suceddneo a cadeira. Como se sabe, Jader Barbalho unm dos
artists principals desse hortirio.


uando penso sobre
a mediocridade da
imprensa brasileira,
o que mais me an-
gustia 6 perceber que nao se
pode atribuir a maior parte da
culpa aos patries. Pelo que te-
nho observado, o maior pro-
blema 6 a falta de viv6ncia e
de saber, tanto de quem es-
creve quanto de quem 16.
Acredite: muitos dos que le-
ram o "liquidificador de emo-
9~es apertando no botao ni-
mero dois" podem noo ter en-
tendido o que o Apoenan quis
dizer (sera que o Apoenan
sabia?), mas acharam a frase
extremamente po6tica, emo-
cionante, excitante. F pensar
se sdo metaforas? Quem se
importa com isso? Isto 6
"academicismo", o que inte-
ressa 6 sentir. O resto 6 "out".
O pior 6 que as pessoas in-
teligentes, criativas e consci-


entes estao deixando de ler os
jornais diArios e as revistas se-
manais. E quando leem, com
certo esforgo, ja levam as in-
forma95es muito a s6rio, ou
ficam ainda mais desgostosas
com o produto.
As conseqiiEncias dessa
falta de leitores argutos estao
nas "noticias", "artigos", "re-
portagens" e "cr6nicas" pu-
blicadas pela grande impren-
sa. Em todos os estilos, ojor-
nalismo esta cada vez mais,
sem qualidade, sem rumo,
mesmo. Talvez seja por esse
motive que hoje em dia, quan-
do se pergunta para algu6m
sobre sua profissio, e esse
algu6m nao sabe ao certo o
que faz na vida (profissional-
mente), depois de se esforgar
um pouco, responded:
Pode colocar ai: jornalis-
ta! (E chique e nio se sabe
mais muito bem o que signifi-


ca. O que eu acho uma pena).
P.S. Quanto aos "papos
cabega", onde se "receita a
arte de viver", nao 6 vocd
mesmo que diz: quem sabe faz
e quem nao sabe ensina?

Marcos Viana

Minha resposta

Ndo digo, Marcos: ape-
nas costume repetir esse di-
tado popular. E evidence que
quem sabe fazer ter mais
autoridade ao ensinar. Nem
sempre, porem, essa e uma
condido indispens6vel. Um
professor de literature, por
exemplo, podefazer seu alu-
no aprender a sentir e en-
tender uma poesia, sem pre-
cisar, necessariamente, es-
crever poesia. 0 melhor cri-
tico de Mozart enquanto ele
esteve vivo ndo foi Salieri?


No entanto, uma distdncia
abissal separa um do outro
enquanto criadores musi-
cais. No jornalismo, que e
mais um oficio do que uma
arte, o professor tem que es-
tar em condio6es de sair da
sua banca e ocupar a car-
teira do aluno para mostrar-
lhe como se executa aquilo
que estd receitando. E como
fez Hermeto Paschoal na
gravaqdo do seu primeiro
disco, no estzdio da Eldo-
rado (o primeiro de 14 ca-
nais), em Sdo Paulo, no ini-
cio dos anos 70: pegava
cada instrument e mostra-
va ao musico qual era exa-
tamente o som que estava
querendo no acompanha-
mento. Isso e autoridade
positive, porque pedag6gi-
ca, como ter que ser a dos
verdadeiros lideres. No mais,
estamos de acordo.





JOURNAL PESSOAL 1P QUINZENA DE SETEMBRO / 1998 7


Comunicagao dirigida,


do governor ao public


Imagine-se o Didrio Oficial vinculado
a uma funda9ao com regimento pr6prio e
autonomia financeiro-administrativa, a ela
jurisdicionada toda a comunicacao do go-
verno. Continue-se a imaginar essa fun-
dag9o controlada por um conselho de cu-
radores, com mandate pr6prio e forma-
9do paritaria (metade deles originando-se
de instituirges, a outra indicada diretamente
pela sociedade). Conceba-se, por fim, o
Diario Oficial submetido a um ombuds-
man ou auditor, com espago na publica-
9ao para sua avaliagao (diaria ou sema-
nal) e emprego garantido, e teremos a uto-
pia estabelecida nas relag6es entire o go-
verno e os cidadaos, imensamente distan-
te da realidade corrente.
Os pr6prios cidadaos nao se dao conta
da importancia do Diario Oficial. Costu-
mam encara-lo como uma publicagdo en-
fadonha, mantida apenas para cumprir -
sem a menor utilidade pratica obrigag9o
legal. No entanto, em alguns Estados bra-
sileiros, entire os quais, a partir de data re-
cente, inclui-se o Para, o DO passou a
ficar mais atraente e a publicizar corn mais
6nfase os atos oficiais. Comegou a dar
uma id6ia de como seria proveitoso para
as duas parties (o governor e o p6blico) que
a publicacgo tanto servisse para ecoar o
funcionamento da miquina official, como
para ajudar os cidadaos a fiscalizar o apa-
rato do Estado.
Tenho procurado, pelo Jornal Pessoal,
interessar mais pessoas pela leitura do DO.
Ao mesmo tempo, venho investindo con-
tra os maus servidores p6blicos, que ma-
nipulam os atos do seu oficio ou sonegam
muitos de seus dados para impedir que
eles cheguem legiveis e cristalinos ao co-
nhecimento da sociedade.
A busca de um padrAo t6cnico para os
atos oficiais esbarra na inexistencia de um
controlador que imponha normas mais ri-
gorosas, obrigando os responsaveis em cada


uma das esferas do govemo a acrescentar
as informag6es necessArias para que o
public possa entender e avaliar o que foi
remetido para divulga9go no DO (os sint6-
ticos terms aditivos e extratos e o esqud-
lido QDQT sao tres exemplos constantes
numa administragao que prometia respei-
tar as prerrogativas da cidadania, mas atW
provocou involuggo neste aspecto.
No inicio da sua gestdo, o governador
Almir Gabriel chegou a anunciar a cria-
9ao de uma Ouvidoria P6blica, que, ao
menos em parte, poderia cumprir essa ta-
refa. Como varias de suas outras boas
inten9oes iniciais, essa tambbm nao se
materializou.
E verdade que, hoje, certos vicios do
passado parecem expurgados da Impren-
sa Official do Estado. Elaji nao mais pro-
tela ou simplesmente elimina a publicagao
dos documents que Ihe sao encaminha-
dos, a pedido de alguma parte, mais ou
menos pr6xima dos escaninhos centrais
do poder, como foi freqiiente no passado.
Material de uso, como papel, tinta ou cha-
pas, tamb6m nao 6 mais contrabandeado
para 6rgao de imprensa particular, nem as
maquinas sao tomadas de assalto nas ma-
drugadas para executar servigos de ter-
ceiros.
O tamanho das letras ji guard pro-
porcionalidade com a capacidade de vi-
sualizaiio do leitor normal, ao inv6s de
quase impossibilitar a leitura, principalmen-
te para os que tnm alguma defici8ncia.
Administrativamente, a Imprensa Oficial
deu um salto qualitative notavel, mas ain-
da esta distant do tipo de relacionamen-
to com o p6blico que soa como utopia ir-
realizAvel nesta terra de tiranos mais ou
menos simpAticos.
E o que dizer da Imprensa Oficial de
Bel6m? Embora completando seu 400 ani-
versArio, ela continue pouco mais do que
clandestine. Edmilson Rodrigues se apro-


xima da metade do seu mandate e fez
muito pouco (ou quase nada) para trans-
formar em fato concrete suas promessas
eleitoreiras de "transparencia". Ele deve-
ria comegar por expor ao contribuinte tudo
o que esta fazendo. Mas houve poucas
mudangas em relagdo A divulgag9o limi-
tadissima feita por seus antecessores.
O Diario Oficial do Municipio tem uma
tiragem de 250 exemplares. Metade de-
ambula pelas repartigoes do executive e
legislative. Os assinantes nao somam nem
10%. Uma duzia de pessoas vai A sede da
secretaria de administragao comprar seu
exemplar avulso (mesmo os assinantes
tem que ir li porque nao ha distribuigao
domiciliar). O restante da tiragem enca-
lha. Nem interesse de mercado existe: em
tamanho oficio, com seis pAginas em m6-
dia, o DO de Bel6m custa dois reais. E
muito caro.
Ubiratan Diniz, ha apenas dois meses
dirigindo a Semad, promete dinamizar o
6rgao official do municipio, colocando-o na
Internet, nas bancas e mais atrativamente
para assinantes, al6m de refor9a-lo quali-
tativamente. Deve aproveitar o fato de que,
na m6dia, as secretaries municipals dao
mais informa9ges do que as estaduais atra-
v6s dos seus resumes e extratos, muitos
deles irrepreensiveis. Mas o Diario Oficial
nao parece ser prioridade para o prefeito,
que gasta cada vez mais corn a informa-
9ao tratada (aquela que chega A grande
imprensa como mat6ria publicitAria) do que
corn a informag9o bruta sobre seus atos.
t tipico de quem, nao convivendo bem
corn o julgamento de terceiros, quer for-
mar opiniao conduzindo-a. E por isso que
os DO continuam a ser primos pobres na
comunicagao entire os governor e a soci-
edade. Que o governor aja assim, nao che-
ga a surpreender. Que a sociedade se aco-
mode, 6 algo a exigir mudanga. Quando?
Com a resposta, o distinto p6blico. 0


*..... Atras ***.........................*


Mais de trAs bilh6es de d6lares serao investidos em 11
projetos industrials de papel e celulose no Brasil nos pr6xi-
mos 18 meses. Esse 6 o setor privilegiado do piano national
de investimentos para o period, que supera US$ 12 bilh6es
em seu orgamento global.
Nao hA um s6 tostio previsto para o ParA, o maior produtor
national de caulim e tamb6m produtor de celulose, dois dos


principals insumos para essa ind6stria. O Estado det6m ainda
um vasto potential madeireiro sub-utilizado (quando nao dila-
pidado) e enorme extensao territorial.
Em mais esse setor, estamos.condenados a uma fungao co-
lonial. Tudo porque, nada antecipando, deixamo-nos surpreen-
der pelo avango da hist6ria. Esse tipo de imprevidencia tam-
bem atende pelo nome de mediocridade. 0






0 autor
* A coluna de Ricardo
Boechat do dia 12 de
agosto ganhou um
acriscimo ao ser
republicada pelo journal 0
Liberal. No original, que
sai em 0 Globo, no Rio de
Janeiro, ndo consta a nota
"Doutrina Ricutpero", que,
em 0 Liberal, recebeu o
seguinte texto: 0 Ibope e
censurado pela primeira
vez em 98. 0 PMDB do
Par6 pediu ontem, ao TRE,
o embargo da pesquisa
que a TV Liberal daria
domingo. 0 senador Jader
Barbalho, parece, ndo
gostou dos nwimeros".
* No dia seguinte, o
journal abriu o Rep6rter 70
com a nota "Censura", na
qual dizia: "A liminar que
suspended a divulgacgo da
pesquisa eleitoral
encomendada pela TV
Liberal ao Ibope ganha
repercussdo national corn
a nota publicada na coluna
de Ricardo Boechat,
distribuida pela Agnncia 0
Globo. 0 Pais fica
sabendo, assim, que no
Pard o fantasma da
censura ressurge das trevas
e volta a pairar
ameacadoramente sobre a
liberdade de imprensa, um
direito sagrado e
inaliendvel do cidaddo,
duramente reconquistado".
* Antes dos aplausos,
duas questoes. A primeira:
foi mesmo Ricardo Boechat
quem escreveu a tal nota,
que 0 Globo ndo
publicou? A segunda: a
TV Liberal ndo foi
impedida de divulgar a
pesquisa. Foi impedida de
divulgar uma pesquisa
cujo pedido de registro
ndo foi acompanhado das
informagoes legalmente
exigidas para a sua
liberacdo. Prestadas as
informacges, que sdo de
natureza ticnica, a
pesquisa foi liberada e
divulgada pela TV Liberal
e 0 Liberal. 0 resultado,
alids, foi o empate entire
Almir Gabriel e Jader
Barbalho.
* Em matiria de crime
contra a liberdade de
informadao, o grupo
Liberal costuma ser pdlo
ativo e ndo passive.


Todos os companheiros de trabalho ou admi-
radores mais distantes de Carlos-Leonam sem-
pre esperaram pelo livro no qual ele socializaria
todo o saber que acumulou em anos de atenta
militancia na mais brilhante das noites urbanas
brasileiras, a do cons6rcio Copacabana/Ipane-
ma, no Rio de Janeiro. A non-chalance de Leo-
nam era tao festivamente consagrada no legen-
dario eixo bo8mio que se esperava a quintessen-
cia do prazer lidico quando, finalmente, seus "cau-
sos" fossem reunidos em livro, deixando de ser
privil6gio dos seus interlocutores de mesa.
Mas a passage da tradicao oral para a lin-
guagem escrita foi uma frustragao: Os De-
graus de Ipanema (Editora Record, 1997, 285
paginas) 6 um fiasco. Os artigos de journal e
revista reunidos no livro, numa discutivel sele-
9Co, envelheceram tanto que as notas margi-
nais apenas ressaltam o comodismo (ou opor-
tunismo?) do autor. Ao inv6s da sumiria ten-
tativa de requentar material congelado (ou, em
alguns casos, definitivamente necrosado), Leo-
nam deveria ter-se dado ao trabalho de rees-
crever tudo. Usaria o material jornalistico j
publicado como refernncia para o livre exerci-
cio da sua boa mem6ria. Cor o cuidado de
aproveitar apenas o que permitisse reconsti-
tuir a hist6ria intima da noite no mais belo ce-


Bruxaria


Outro dia certo advogado,
que tem as mesmas iniciais de
um uisque e de um politico fa-
mosos, fez palestra sobre a lei
de imprensa. Faganha digna de
elogio. Merecia mais do que sim-
ples registro em coluna cl6ebre
de journal, independentemente
dos fundados temores sobre a
concepaio de lei de imprensa do
palestrante. Afinal, desta vez o
causidico parece que nao esque-
ceu o que Ihe foi dito, mesmo
enfrentando o percurso entire
seu escrit6rio e o audit6rio cas-


nArio urban brasileiro, entire as decadas de
50 e 60, quando houve a maxima liberdade sob
a autoritaria republica brasileira.
Por que reproduzir textos enterrados pelo
tempo, como as mat6rias sobre Ray Charles,
Michelangelo Antonioni ou a eleigao do papa,
entire varias outras datadas? Podem ser im-
portantes moments na carreira dojornalista,
mas o melhor prop6sito do livro nao seria o de
converter-se em autobiografia (mesmo porque
o carter de -antologia nao permitiria). Teria
sido preferivel que Leonam reunisse seus pa-
res para gravar numa entrevista a reconstitui-
9 o da epoca, usando os interlocutores para
provoca-lo e controla-lo.
Se era para agradar o autor, muito melhor
seria uma edi9io reservada, que circularia en-
tre os amigos e aderentes. Mas se o prop6sito
era o de informar o distinto piblico sobre urma
era de criatividade, bom humor e otimismo da
alma brasileira, como raramente se repetiu em
toda a sua hist6ria, entao faria melhor a Re-
cord reeditando o livro de Fernando Lobo so-
bre o bar Vilarifio, em outro sitio da capital
carioca (A Mesa do Vilarifio, 1991, 204 pagi-
nas). Estariamos melhor servidos. E o encan-
to guardado na mem6ria sobre Leonam nao
teria sofrido um golpe mortal.


Ordem legal?
Se a Ordem dos Advogados
do Para/Segao do Para queria
uma motivagao formal para se
manifestar a respeito da chan-
tagem que o grupo Liberal ten-
tou fazer corn a justiga (ver
Jornal Pessoal 189, 190 e 192),
j a tem.
Rejeitando uma desajeitada
excecao de suspeigao contra si
proposta pela Delta Publicida-
de, ojuiz Enivaldo da Gama Fer-
reira, do 5 oficio da capital, lem-
bra que sua sentenga (conde-
nando a empresa a pagar 100 mil
reais de indenizagao por danos
morais causados ao desembar-
gador Benedito Alvarenga) fora
proferida tres dias antes da
apresentalao do recurso, "ou
seja, no dia 12 do mencionado
m&i de maio, e depois publica-
da, em que pese os percalgos
havidos para sua publica~9o.
obstada por ordem superior"
(grifo meu).
Em que c6digo esta confe-
rida a prerrogativa de ordem
superior obstar a publicagao
de sentenga regularmente pro-
ferida por juiz singular, com
powder maoncratico? Se existe,
tudo b m, Se nao exte, a or-
'detil lgal foi violada e a OAB
tem alguni'a coisa,a yer com
issq .iOu nao?.


trense no qual se apresentou.
Em outras ocasibes a mem6ria
nao resistiu a tanto esforgo e
apagou a liqao, recebida 30 me-
tros acima do nivel do mar, na
curva da primeira esquina, ou no
caminho da Presidente Vargas ao
forum de Bel6m, onde as saga-
zes estrategias penais concebi-
das sempre tiveram sofrivel exe-
cugao. Algumas delas, infeliz-
mente, contra a liberdade de im-
prensa e o direito de critical, tao
retoricamente defendidos em
tese pelo rAbula diplomado.


Estilo


A pagina cinco do primeiro ca-
demo da ediqio de 0 Liberal do
iltimo domingo, 30, foitotalmente
ocupada por "Informe PublicitA-
rio" do prefeito Edmilson Rodri-
gues. A manchete dessa pagina
paga anuncia que a unidade de


safide do Tapana "serd entregue
em outubro". Abaixo, uma foto
destacada do alcaide petista em
sua mais marcante atuagao: discur-
sando. A obra propagandeada 6
de 270 mil reais. O prego de tabela
da pagina paga 6 de R$ 40 mil.


Journal Pessoal


Editor: Licio Flavio Pinto
Sede: Rua Aristides Lobo. 871/66 053-040
Fones: 223-1929, 241-7626 e 241-7924 (fax)
Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/6&0 -q
Fone: 223-7690 e-mail: lucio@exper.cpm-.b -
Ediqao de Arte: Luiz Pinto/241-1859 "
1 !


Frustragao


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