Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00141

Full Text


FHC melhor
no seguSdo
Jomal Pessoal mandate
(PAG. 4)
LU C IO F L AV O PIN TO '" .....
Reeleiao: ......
ANO XI N9 192 1" QUINZENA DE AGOSTO DE 1998 R$ 2,00 SO esta
(Po. 5)
PASSARINHO



Fim de carreira

Jarbas Passarinho foi o politico paraense que esteve mais pr6ximo de se tornar
president da Republica. Trds vezes senador, quatro vezes ministry, uma vez
governador, teve gldrias como nenhum outro no Estado. Mas terminou sofrendo
coIto .castigo ficar de fora de uma eleicdo que ihe teria possibilitado aposentar-se
/ ...<.- .no exercicio de um cargo politico. Fim imerecido?
"''1.^,^$


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.-:.. uas regras ndo escritas ful
minaram a carreira de Jarbas
Gongalves Passarinho, o mais
... brilhante dos politicos que che
S garam ao poder no Para de-
pois do ciclo de Magalhdes Barata (1930/
59). Passarinho foi o paraense, embora
apenas de fato (de direito 6 acreano),
que mais perto chegou da presidencia da
Republica, mas esta encerrando uma
carreira eclipsado, melancolicamente.
Perdeu fragorosamente a l6tima eleig9o
que disputou, em 1994, para o governor
'38,


do Estado (que ocupou por 19 meses,
entire 1964 e 1966). Deveu a anterior, a
de 1986, para o senado, ao maior adver-
sArio da oposicgo, o hoje senador Jader
Barbalho. A ultima possivel, a deste ano,
nem vai poder disputar, mesmo tendo a
perspective de eleger-se sem dificulda-
des deputado federal.
As v6speras dos 79 anos, Jarbas Pas-
sarinho ja ndo tem mais cacife eleitoral
pr6prio para elei9oes majoritarias. Che-
ga ao fim de uma trajet6ria que se es-
tendeu por alguns dos mais importantes


cargos politicos da vida national ao Ion-
go de quatro d6cadas. Melancolicamen-
te. Os maisjovens eleitores deste ano j
nao t6m sequer uma palida id6ia do que
ele foi.
Cotadissimo para ser candidate a pre-
sidente da Repfiblica na d6cada de 70,
Passarinho foi fulminado por uma nor-
ma nao escrita imposta pelos chefes mi-
litares que ocuparam o poder em 1964,
recrutando na casera as vocao9es para
a nova modalidade de political que esta-
beleceram. Nenhum dos lideres transp6s


4 N.11
fli.
FER V A w
I Pv ; R!





2 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE AGOSTO / 1998


com mais compet6ncia os limits dos es-
tabelecimentos militares, passando para
a chefia de cargos politicos e os parla-
mentos, do que Passarinho.
Foi o mais agil dos "anfibios", milita-
res que viraram politicos sem se desfa-
zer de suas forma96es originals. Tinha
boa orat6ria, excelente mem6ria, inteli-
gencia viva e carisma. Mas nao era ge-
neral de quatro estrelas. Todos os cinco
presidents militares foram generals de
quatro estrelas. Albuquerque Lima era
general quando teve tudo para ser presi-
dente, mas s6 ostentava tres estrelas.
Tamb6m foi excluido daquele que pas-
sou a ser considerado o iltimo posto da
carreira dos generals, nenhum deles be-
neficiado, como Passarinho, pelo conjun-
to de dotes que qualificam um politico.
A pergunta que se deveria fazer, na
ocasiao, era: por que o coronel Jarbas
Passarinho nao chegou a general? Uma
resposta estritamente cronol6gica atro-
pela qualquer outra consideragao de va-
lor: ele estava cor 44 anos e era tenen-
te-coronel baseado no Estado-Maior da
88 Regiao Militar, em Bel6m, quando foi
convocado para substituir o cassado
Aurelio do Carmo no governor do Para.
Passarinho iniciara 28 anos antes a car-
reira military. Certamente chegaria a ge-
neral de brigada, mas nao a general de
exercito.
Como um home tao

brilhante ficara aquem

do topo, enquanto muitos

outros, bem menos dota-

dos bastaa lembrar dois

presidents, Costa e Sil-

va e Jodo Figueiredo),

chegaram ao generalato?
Cada caso ter sua hist6ria especifica,
mas todas elas confluem para uma mo-
ral: nem sempre (ou, pelo contrario, mui-
to raramente) os primeiros de turma sao
os melhores. Tamb6m nem todos os pri-
meiros sao os piores. Num e noutro sen-
tido, recorde-se que Cordeiro de Farias
chegou a marechal, enquanto Golbery do
Couto e Silva s6 alcangou a primeira eta-
pa do generalato (e isso porque, na 6po-
ca, quem era reformado subia um posto
ao passar para a reserve).
Por que, em 1964, Passarinho renun-
ciou A carreira political em favor da ativi-
dade political? Provavelmente porque
havia ji muito tempo a vida castrense
nao conseguia comportar a dimensao
political do seu interesse. O hibridismo
forgado causava prejuizos ao nome de


Passarinho dentro e fora dos quart6is,
gerando desconfiangas dos dois lados do
balcao, mesmo quando os civis eterna-
mente golpistas da UDN agiam como
sedutoras vivandeiras junto aos "anfibi-
os".
Para equilibrar a situagao, Passarinho
era obrigado a malabarismos nas diver-
sas situacoes e diante dos diferentes gru-
pos com que se envolveu. A decisao
adotada em 1964, portanto, estava coe-
rente cor a tendencia mais forte das
suas atividades. Sejamais viria a ser um
grande chefe military, poderia destacar-
se como chefe politico.
Passarinho se destacou tanto que ocu-
pou tr8s ministdrios distintos (Trabalho e
Previd6ncia Social, Educagao e Cultura
e Previd6ncia e Assistencia Social) em
tr6s diferentes governor militares (Cos-
ta e Silva, M6dici e Figueiredo). Foi ain-
da, por dois anos, ministry da Justiga do
primeiro president da Rep6blica eleito
pelo voto popular desde Janio Quadros,
com intervalo de 30 anos, no traumatico
governor Collor de Mello. Eleito senador
tres vezes, presidiu o senado no bienio
1981/82.
Nenhum dos militares catapultados
para a mais elevada fungao p6blica dis-
punha de tal curriculo. Se seus dados
pessoais fossem colocados numa matriz
para selecionar o mais apto A presid6n-
cia, considerando as atribuig9es ineren-
tes a fungao de governante do pais, Pas-
sarinho teria todas as condigoes de ven-
cer. Mas os generals que estabeleceram
as diretrizes da presidencia sob o regi-
me autoritario instaurado em 1964 se
recusavam a bater contin6ncia a um co-
lega de farda cor patente inferior. Pas-
sarinho jamais ganharia essa dispute.
Mas teve-a bem pr6xima de si. Chegou
a sonhar cor ela.
Outra norma consuetudinaria tamb6m
Ihe foi fatal: de que nao ha politico sem
voto, exceto quando formulas engenho-
sas dispensam a consult ao povo gra-
cas a golpes de mao (manu military,
geralmente). Politico federal, Passarinho
brilhou na corte brasiliense p6s-64 como
poucos. Seus duelos orat6rios com Pau-
lo Brossard no senado sao dos poucos
moments em que essa t6cnica (ou arte)
do didlogo, muito pr6xima do espetdculo
teatral, ressuscitou nos espiritos compa-
ragao com as freqilentes sess6es anto-
16gicas do parlamento at6 o congress
ser reduzido a caixa de ressonancia da
vontade do chefe, estimulando a medio-
cridade.
A unanimidade obtida era tao ampla
que Passarinho julgou possivel manter-
se na linha de frente parlamentar sem
precisar descer ao inferno dantesco da
provincia. Bastavam rdpidos retornos as
bases para avivar as brasas dos votos,
delegando a autenticos pr6-c6nsules a


tarefa de representa-lo, ocupando os
cargos que Ihe eram conferidos pelos
parceiros federais e intermediando a re-
lagao com os eleitores.
Como todos os homes de vaidade
desmedida, Passarinho sempre escolheu
mal esses delegados. Sabendo do tama-
nho do ego do chefe, seus subordinados,
dependents ou aderentes faziam da ba-
julad9o e do elogio facil a formula para
conseguir seus favors. Por isso, Pas-
sarinho cometeu erros terriveis, cultivan-
do falsas amizades e lealdades, que re-
duziam seus verdadeiros adversarios ou
inimigos a inocentes ameagas. Passari-
nho foi um contender de respeito para
seus antagonistas, mas inoperante dian-
te dos aliados de ocasiao. Esvaziou seu
poder por dentro. Ningudm fez-lhe mal
maior do que ele a si mesmo.
Em 1982, se o brilho reflexo do pla-
nalto Ihe tivesse permitido ver fora do
espelho, ele teria percebido na ampla
derrota electoral daquele ano uma grave
advertEncia. O conceito que o senador
obtivera na capital da rep6blica estava
se tornando uma moldura vazia em seu
Estado, na sua mina de votos. Esse es-
vaziamento foi maquilado pelo abrigo que
Passarinho conseguiu nos tr6s anos se-
guintes, como ministry da Previd6ncia e
Assistencia Social do general Figueire-
do, e com a volta ao senado em 1986,
quando ele nem precisou fazer campa-
nha (Jader, como governador, garantiu-
Ihe a eleigao, mandando-o cuidar da es-
posa doente, que viria a falecer).
Em 1994 Passarinho deveria ter sai-
do novamente candidate a senador, ou
mesmo deputado federal. Mas Jader
Barbalho cobrou-lhe a divida e ele se sub-
meteu: contra seus desejos mais intimos,
disputou o governor do Para com Almir
Gabriel. Ja era tarde demais, entretanto,
para um septuagendrio, amoldado As cor-
tesias da corte, regressar A arena des-
gastante do sertao paraense, da selva
selvaggia dantesca.
Em tres moments tive longas conver-
sas com Jarbas Passarinho, a s6s, a ulti-
ma delas a mais reveladora de todas,
quando ja nao havia mais ratos na nau e
na proa contava-se nos dedos de uma s6
mao a quantidade de acompanhantes.
Nao precisaria ser m6dico ou analista
para diagnosticar sua depressao profun-
da, que imobilizara sua iniciativa, conge-
lara sua intelig6ncia e enrijecera seu rosto.
A prostragao denunciava a contrarieda-
de extremada a que se expusera. Sofreu
uma derrota que s6 nao foi totalmente
desmoralizadora porque nao resultara
dos mdritos do vencedor, mas dos de-
meritos do perdedor.
Se pudesse penetrar no espelho vi-
ciado e superar as miragens que seu
ostracismo do Para fizeram surgir em
seu horizonte, Passarinho teria cons-





JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE AGOSTO / 1998 3


Statado ali que sua fonte de votos se
reduzira ao minimo. Ela ainda poderia
Ihe assegurar um cargo proporcional.
Nao mais, por6m, uma posigdo majori-
tdria. Deixara de ser um dos eixos de
poder, o principal deles entire 1964-82,
para ser apenas um personagem famo-
so, uma estampa, celebre pelo que foi,
mas esvaziado de densidade eleitoral,
de vitalidade.
Passarinho e seu companheiro de ar-
mas (depois, feroz inimigo), o tenente-
coronel Alacid Nunes, por seus erros e
sua incompet6ncia, contribuiram pode-
rosamente para devolver o poder, a par-
tir de 1982, aos inimigos que declaravam
haver derrotado: o populismo de origem
baratista.
Sem Alacid, Jader nao seria governa-
dor em 82. Como cor Alacid nio con-
seguiria governor, Jader se descartou
dele poucos meses depois de ter chega-
do ao poder, mostrando que a verdadei-
ra ast6cia political nao se aprende em es-
cola, nem mesmo em academia. E deu a
mio salvadora a Jarbas quatro anos de-
pois, usando-o para alcangar uma posi-
9ao federal que estaria fora de suas pos-
sibilidades por causa da ma fama que
estabeleceu ao long do primeiro man-
dato como governador. Ao mesmo tem-
po, agravou o antagonismo entire os dois
principals politicos militares, apressando
e onerando o fim deles.
E um castigo que Jarbas Passarinho
tenha esse fim, mas nao 6 de todo ime-
recido. Prendendo-se a Brasilia, ele foi
perdendo seus vinculos reais cor o Para,
credenciando-se a receber em seus lar-


gos costados muita culpa que nao 6 ob-
jetivamente dele, que nao resultou de sua
agdo, mas tem alguma coisa a ver corn
sua omissao (como o escoamento dos
min6rios de Carajis pelo litoral do Ma-
ranhdo, decisAo dosjaponeses que o in-
consciente coletivo paraense, espicaga-
do pelo sentiment de trai9go, colocou
nos ombros do seu mais brilhante politi-
co, transferindo os louros para os cr6di-
tos de Jos6 Sarney).
Procurando um impossivel ponto de
equilibrio desde a eleigdo de 1994, Pas-
sarinho foi se passando do lado do seu
aliado para o do seu algoz, evitando rom-
per, medindo as palavras, sondando o
terreno, mas fadado a fracassar nesse
jogo complicado e nervoso. Quando, ao
final dessa via crucis, foi chamado para
os atos derradeiros antes da batalha, cou-
be-lhe apenas ouvir que nada mais Ihe
restava. Ao contririo at6: a vaga de se-
nador fora imperialmente destinada pelo
governador para um candidate que s6
nominalmente pertence ao PPB (o ex-
gueirista Luiz Otavio Campos), enquan-
to a de vice-governador, reservada ao
PTB, seria ocupada pelo filho daquele a
quem Passarinho dedicou o desprezo que
cabe aos traidores.
Ou seja: de certa maneira, os (llti-
mos vestigios de fogo no reduto de
Alacid eram obtidos das cinzas de Pas-
sarinho. Encerrado o ato, como nas tra-
g6dias shakespeareanas, o resto, para
Jarbas Gongalves Passarinho, passa-
ria a ser sombra e sil6ncio, numa apo-
sentadoria precipitada pelos fatos e nao
pela vontade dele mesmo. Veio de Bra-


silia ja sem peso e voltou como peso
morto. Supremo escarnio: caberia a
Almir Gabriel despejar sobre ele a (ilti-
ma pd de cal politico.
Tamb6m a vida pfiblica de Passarinho
estara encerrada? Nao. Ele ainda tem
seu espago como conselheiro na Confe-
deraqgo Nacional da Ind6stria e na Fun-
dagdo Milton Campos, do PPB. Em ca-
rater honorifico, 6 o representante do seu
partido no comit6 da reeleigco de Fer-
nando Henrique Cardoso. Tamb6m nao
perdeu todos os seus muitos dotes pes-
soais, que tornavam proveitoso divergir
dele e enfrenta-lo, temendo-o e respei-
tando-o como um home experience,
inteligente, culto, que fala e 16 em outras
linguas al6m da sua e 16 al6m do que o
oficio exigia.
Olhando-se ao redor, pode-se perce-
ber que a vida pfiblica paraense esta des-
tituida de personagens corn tais qualifica-
tivos. Por isso, a ausencia de Passarinho
vai empobrec6-la ainda mais, amesqui-
nhando a political estadual abaixo do nivel
em que ja desceu. Se cabe fazer esse la-
mento, 6 tamb6m dever observer que em
alguma media a passage de Jarbas
Passarinho pela vida political do Para con-
tribuiu para esse resultado.
Ao fim de uma prolifica carreira, ele
experiment os efeitos de um feitigo que
n~o Ihe 6 estranho. Nao deve ser uma
sensagCo agradavel, mas ao menos deve
ficar com o ex-senador, ex-ministro e ex-
governador a convic9do de que o saldo
de sua vida piblica 6 altamente supera-
vitario. E que seus critics sinceros ja
sentem sua falta.


Estes publicitarios...


O filmete publicitario produzido para
o grupo Y. Yamada, na minha opinido, 6
infeliz e de mau gosto. Seu 6nico m6rito
6 ser pol6mico. Atrair a ateng9o a qual-
quer prego tem um nome, que deve ser
escrito cor todas as letras: sensaciona-
lismo (ou apelagao). Pode dar resulta-
dos, como esta dando. Mas tem um pre-
9o 6tico e moral.
E ruim, em primeiro lugar, por nao ser
original. Todos os que o viram associa-
ram-no imediatamente A sua inspiragao,
as peas da Benetton. Quando os filmes
desse grupo italiano foram exibidos, pro-
vocaram natural impact porque estavam
inaugurando uma nova maneira de fazer
publicidade (seria p6s-modernismo?). A
meu ver, ultrapassando o estreito limited
entire a inovacgo e a falta de escripulo.
Trazer para ca esse modusfaciendi nio
eleva e nem chega a ser atualizagao, tan-
to tempo jA se passou da ousadia (diluida
e mal copiada). Em segundo lugar, o efei-
to criado pelo home gravido 6 bizarre


em seu realismo r6stico. Nesse caso, o
trago e a caricature alcangariam um re-
sultado melhor, salpicando um tom de
humor saudavel onde, se hA humor, 6 de
negrissimo sentido. Duvido que Y. Ya-
mada tenha atraido os pais e estes se
sintam homenageados.
Ja a campanha do Formosa 6 boa, mas
hi um descompasso entire a situagao ar-
mada na sala de aula, corn um aluno fla-
grado colando, e sua associagdo A es-
perteza de fazer compra no supermer-
cado (a professor nio se deixar enrolar
pela conversa engenhosa do colador). E
uma liga9go forgada entire a premissa e
sua conseqiiencia, produto, talvez, de
uma aula mal assimilada de 16gica for-
mal.
PS Tr6s dias depois que escrevi esta
nota, a Y. Yamada cancelou a veicula-
gao do filme, por nao ter sido "do agrado
de alguns clientss. Em meia pagina nos
jornais dominicais, Yamada sejustificou
como "uma empresa que faz uma pro-


paganda objetiva, que nao esquece de
sua parcela de responsabilidade corn a
sociedade e que, acima de tudo, respeita
o consumidor em sua intelig6ncia e pre-
fer6ncia".
Como, entao, a empresa aprovou a
campanha, retirando-a do ar poucos dias
depois? Seu compromisso sera tao fu-
gaz que nao Ihe permitiu antever a rea-
g9o negative entire clients de uma tipi-
ca empresa de varejo, cor forte apelo
popular? E como 6 que uma agencia nao
menos conservadora e conventional,
como a Borges, arriscou um salto ao
vanguardismo tao de s6bito, sem maior
prepare?
O saldo de uma desastrada tentative
de inovagio foi esse ins6lito recuo. De-
pois de um paso A frente, 10 atras. Tao
sem-jeito que o anincio dominical ficou
sem a identificacgo de quem, ao produ-
zi-lo, deu umas cochiladas no verniculo
- e, quem sabe, para usarjargao do meio,
na transpar6ncia.





4 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENADE AGOSTO/ 1998


Um autor em busca

do seu personagem


Um amigo envolvido na campanha de
reelei9o de Fernando Henrique Cardoso
me prop6e a seguinte questao para refle-
xao: no seu segundo mandate, o president
sera um reformador social. Tendo promovi-
do boa parte da reform do Estado, segun-
do os pardmetros de um projeto possivel de
modemizagCo do capitalism brasileiro, po-
dera conciliar suas biografias de intellectual
e politico, assegurando-se a perenidade de
estadista. JI nio precisara limitar-se pelos
arranjos cor seus aliados conservadores.
Sua vaidade, se nao for por nenhum outro
motive, Ihe import apagar as n6doas visi-
veis de sua presid8ncia, concentradas na
area social. "FHC quer ficar na hist6ria
como um president tio marcante quanto
Getilio ou JK", diz o amigo jomalista, numa
conversa que a coincidEncia de ficarmos no
mesmo hotel, em Vitoria, nos permitiu.
0 que ainda me faz nao rejeitar de todo
e de imediato essa hip6tese 6 o livro O
President visto pelo soci6logo, com a
transcrigao da mais longa entrevista ja
concedida pelo president, a Roberto Pom-
peu de Toledo, parcialmente publicada em
Veja no final do ano passado. O livro e
agradavel e muito instrutivo, nao apenas
por causa das perguntas de Roberto Pom-
peu, representante (em declinio) do jor-
nalista culto.


Fernando Henrique 6 um eficiente
apresentador da hist6ria e da conjuntu-
ra brasileiras. Exp5e com brilho, viva-
cidade e acuidade suas opinibes, finca-
das em bases informativas bastante s6-
lidas. Parece um livro promocional, uma
acao entire amigos (editor-jornalista-au-
toridade). Pode at6 ser, mas qualquer
leitor aprendera mais lendo-o do que
consultando a maioria dos textos supos-
tamente independents e critics dispo-
niveis nas prateleiras.
Mas por que um intellectual tao bem
informado e mais bem formado ainda
- sobre este pais compete erros tao pri-
marios e desastrosos no exercicio da
mais important fungao public do pais?
E a duvida shakespeareana que me fica
do confront do livro cor minha pr6-
pria avaliacgo do mandate de FHC e
da conversa cor meu querido amigo
(tambem paulistano). Nao penso ape-
nas em grandes decis6es, como o pro-
grama de privatizagao (nao por ele em
si, mas pela sua opqao de implementa-
cao). Consider ate mesmo comporta-
mentos menores, que revelam mais so-
bre o dedo do gigante.
Uma pessoa inteligente permitir-se-
ia declarar o que FHC disse dos apo-
sentados? Algubm sensato pode, no


meio de uma palestra academica, bus-
car inspiracao para um exemplo como
o que o president deu, apresentando
uma viagem de sua empregada dom6s-
tica a Europa como testemunho da me-
Ihoria das condigSes de vida do povo
brasileiro?
A mesma vaidade que meu amigo
apresentou como a razao para Fernan-
do Henrique poder vir a ser um presi-
dente completamente diferente no se-
gundo mandate (um pouco a maneira
de Getiilio Vargas, entire 1930/45 e 1951/
54) 6 o element oculto que me leva z
buscar explicagao para o descompasso
entire tudo o que FHC pode e o que esta
efetivamente realizando no Brasil.
Os analistas mais rigorosos descar-
tarao esse element como delet6rio, pro-
curando raizes mais profundas e, a
meu juizo, convencionais para o di-
v6rcio entire o que o intellectual promete
ser e o que o politico 6. Minha cabega,
feita pela literature, prefer nao despre-
zar esses components subjetivos, tio
fortes em personagens como Hamlet
que se tornaram (se tal 6 possivel) ar-
quetipicos do comportamento human.
Ha o moment em que as brumas da
solidao se dissipam e as paredes dos
ambientes intimistas se abrem para o
palco. E quando a hist6ria se realize.
Ela dira qual a hip6tese verdadeira e se
as mudanqas, previstas, possiveis ou de-
sejadas, se realizar~o. Mas bem que a
hist6ria poderia se conciliar com a lite-
ratura. O saldo haveria de ser positive.


Em frente ao espelho


Gastei 20 horas dentro de avibes e
aeroportos num ir-e-vir de 36 horas a
Vit6ria, seguindo roteiros de Alice no pais
das maravilhas (na volta, por exemplo:
Vit6ria-Belo Horizonte-Sao Paulo-Bra-
silia-Bel6m, quase uma viagem a Euro-
pa em duracao, em poltronas cano-cur-
to da terrivel Vasp). Mas como valeu a
pena. Revi na capital capixaba amigos
que foram ficando pelo meio do cami-
nho, sem nunca terem said da mem6ria
e do coragao. Eles estavam no caf6-da-
manha promovido pelo Banco de Desen-
volvimento do Espirito Santo, uma inici-
ativa inusitada.
Varios desses encontros ja foram re-
alizados pelo Bandes desde a posse de
Vitor Buaiz, quase quatro anos atras. Re-
finem mensalmente alguns dos principals
formadores de opiniao do Estado e colo-
cam-nos em contato corn algu6m de fora
capaz de Ihes trazer uma mensagem util.
Minha missao, reiniciando a ativida-
de, na sua iltima etapa, at6 o final do
mandate de Buaiz (os pr6ximos convi-
dados, tambemjornalistas, serao Frank-
lin Martins e Luis Nassif), foi estabele-


cer paralelos entire o Para e o Espirito
Santo, terra que um dos mais nobres ca-
pixabas, Rog6rio Medeiros (jornalista
que assumiu o pesado 6nus de ser se-
cretario da Fazenda), me fez amar 26
anos atras.
Fomos, ambos, "vocacionados" a pro-
duzir semi-manufaturados. Por isso a
"lei Kandir" nos garfou, aos capixabas
mais pesadamente porque o governa-
dor Buaiz (que nao se candidatou a re-
eleicio) nao 6 par do principle (ja o nos-
so tucano governador parece, na ver-
dade, mais impar do que exatamente
par). Vocagdo imposta 6 caracteristica
de uma relagao colonial.
Para e Espirito Santo sofrem-na, no
passado como hoje. Nao conseguem as-
sumir o comando de sua hist6ria. Sao
surpreendidos por decisbes prontas, que
visam a exploragao (em sentido literal)
de seus abundantes recursos naturals.
Em alguns casos, como em materia fun-
diaria e florestal, hist6ria flui em cadeia:
a floresta amaz6nica foi alcangada ap6s
a pilhagem do vale do rio Doce, um dos
lugares paradisiacos do planet. Perso-


nagens-chave e algozes ha iguais, la e
ca, como a Companhia Vale do Rio Doce,
que sequer um interlocutor autorizado
mant6m em territ6rio capixaba. La, ain-
da nao p6s seus preciosos p6s o dr. Stein-
bruch (doutor mesmo, como diria H6lio
Fernandes).
Temos que intensificar esse inter-
cfmbio, tirando o maximo de li96es que
o paralelismo proporciona e poupando-
nos de tristes situaq5es que a condicao
de Estados-enclave nos tem acarreta-
do. Senti, na reuniao patrocinada pelo
Bandes, um vasto e fertil terreno, que
se podera adubar atrav6s de um pro-
grama de intercambio cor o Espirito
Santo. Nao podemos, por enquanto,
apresentar contrapartida a uma iniciati-
va como a do governor capixaba, que
invested na conscientizaqao de uma elite
organicamente comprometida com um
projeto melhor para o seu Estado. Mas
ja esta na hora de pensarmos nessa pos-
sibilidade. Nada temos a perder, exceto
a letargia do atraso. Pelo menos esta 6
uma perda que podemos comemorar.
Nao seria sem tempo.





JORNALPESSOAL 1 QUINZENADE AGOSTO /1998 5


Carajas: ferrovia


ainda e segura?


Cada trem que sai de Carajds para o
litoral do Maranhao, a quase 900 quil6-
metros de distancia, carrega em minerio
de ferro, nos seus 200 vag6es, o equiva-
lente a 300 mil d1lares. A cada dia, 40
trens circulam nas duas direc6es, movi-
Smentando, ao final do ano, mais de US$
600 milh6es. Sao 58 locomotives, corn
3.200 vag6es, operadas por 400 maqui-
nistas, no segundo maior eixo ferroviario
de exportagao do pais.
No mes passado, o mais grave acidente
ocorrido nessa ferrovia desde 1984, quando
ela entrou em atividade commercial, mostrou
que sua concessionaria, a Companhia Vale
do Rio Doce, pode estar operando em con-
dicses distantes do ideal, ou mesmo de um
padrao aceitavel para a complexidade da
linha. E provavel que a colisio de dois trens


de minrio, que causou a morte de tr8s fun-
cionarios, tenha decorrido de falha huma-
na. Mas o que provocou essa falha: imperi-
cia dos maquinistas ou condi6es inadequa-
das de trabalho?
Uma deficiencia foi implicitamente reco-
nhecida pela CVRD, quando decidiu, na
semana passada, recontratar os 150 auxili-
ares de maquinistas que, por media de eco-
nomia ditada pela privatizac2o da estatal,
haviam sido demitidos. O acidente pode ter
mostrado que eles nao eram dispensiveis
para secundar os titulares na condugao de
um comboio tao grande por uma ferrovia
cuja sinalizaqio esta inconclusa (o que se
prev6 apenas para o pr6ximo ano).
A ferrovia de Carajfs foi concebida ori-
ginalmente para transportar at6 35 milh6es
de toneladas de minerio de ferro, alem de


um volume infinitamente inferior de carga
geral e passageiros. Hoje, escoa quase 50
milh6es de toneladas de minerio. Para isso
foram feitos desvios e patios de manobra,
mas sera que esse arranjo 6 conveniente-
mente complementado por um suficiente
control de trifego? Sera possivel reduzir o
grau de dominio manual da linha, sem uma
retaguarda suficientemente sofisticada para
isso? Sera queja nio ha um volume de car-
gaimpondo a complete duplicaco da linha?
Sao quest6es a serem apuradas. Mas,
ao inves de ir a fundo nos problems, a im-
prensa resolve tratar sensacionalisticamen-
te o acidente, enquanto a diregCo da Vale
procurava manter todos a distincia, com
uma arrogdncia que sempre provoca rea-
qco em contrario, as vezes de forma passi-
onal. Os incidents, alcangando os familia-
res dos mortos, mostraram que faltou matu-
ridade e responsabilidade as duas parties. O
que era important, a reconstituido do gra-
ve acidente, com suas vitimas humans, e a
avaliagco da operacio da ferrovia, ficou de
lado. Como quase sempre nesse tipo de
acontecimento na fronteira.


Reeleicao: go home


Na revisao constitutional, as pessoas
dotadas de bom senso e boa fe, mesmo
se insistirem na defesa da reeleig~o dos
detentores de mandates politicos no exe-
cutivo, haverao de aceitar uma pondera-
9co: para subsistirem as instituic6es, os
bi-candidatos terao que se licenciar do
cargo para participar da campanha elei-
toral (quatro ou seis meses antes do 1
tumo eleitoral). Mais do que igualar as
condi96es entire todos os candidates, essa
elementary providencia de profilaxia 6tico-
moral, ajustada a realidade brasileira, e
indispensavel para a safude do moment
mais important do process politico, a
eleiqao.
Qual seria a cotagao do governador
Almir Gabriel se ele tivesse que se desin-
compatibilizar para concorrer a reeleigdo?
Concretamente, ele poderia acabar abai-
xo do senador Ademir Andrade, ja que
seu vice (e desafeto), Helio Gueiros Jr.,
poderia posicionar-se explicitamente (o
que seria legal) e at6 usar a maquina (o
que seria illegal) em favor da coligagao
integrada pelo pai, sem expor-se ao risco
da infidelidade partidaria (a coligacgo do
PFL corn o PMDB foi aprovada em con-
vengao, gerando todos os efeitos legais).
Teriamos uma cena inusitada: o gover-
nador licenciado acionando najustiga seu
substitute por uso irregular da maquina
public estadual. Nessa circunstfncia,
Almir Gabriel iria fiscalizar o governador
interino para que ele permanecesse o mais
isento possivel em relaGao a dispute. Ha-
veria ainda um outro component interes-


sante: para substituir o titular, Helinho
(hoje candidate a suplente de senador corn
o pai) nao poderia participar da eleigco.
Se decidisse o contrario, o lugar deveria
ser ocupado pelo president da Assem-
bleia Legislativa.-
0 impasse seria, entao, transferido para
Luiz Otavio Campos (atual candidate a
senador na coligagao situacionista) e, su-
cessivamente, a todos na linha sucess6-
ria. Provavelmente o president do Tribu-
nal de Justiga do Estado acabaria tendo
que ser o governador durante a eleigio,
sendo desafiado a estabelecer principios
mais justos para vigir durante a tempora-
da. Ou, o que seria mais provavel, Almir
Gabriel nao se exporia a tao alto risco e
ficaria no cargo at6 o final do seu manda-
to.
Em alguns Estados, como no Rio Gran-
de do Sul e em Sao Paulo, mesmo poden-
do permanecer no cargo, os govemado-
res se licenciaram, ambos por estrat6gia
political. Mario Covas, numa inc6moda
terceira posicao nas pr6vias paulistas, bem
abaixo dos primeiros colocados, ofereceu
a interinidade como compensagao para
segurar seu vice na coligag~o e poder usar
mais intensamente seu carisma pessoal
no tal do corpo-a-corpo. Ja o ga-icho An-
t6nio Brito precisou levar as uiltimas con-
seqiincias seu recurso de marketing, de-
monstrando coerencia na oposicgo ao
principio da reeleigao. Isso, naturalmen-
te, por confiar na sua capacidade de ge-
rar votos de moto pr6prio, independente-
mente do calor da maquina.


Qualquer que seja a motivacao, en-
tretanto, nos dois casos o process elei-
toral 6 que saiu ganhando. Tornou-se
menos viciado, deixando os candidates
mais expostos ao sol e a chuva a que a
conquista da simpatia popular sujeita os
pretendentes aos votos. Pode nao ser o
melhor dos caminhos para a chegada ao
poder, mas excede em muito o que esta-
mos vendo aqui no Para, a ostensiva ou
mal-disfarcada utilizacao dos mecanis-
mos oficiais para favorecer a candidatu-
ra do goverador, que esta no pleno exer-
cicio do cargo.
Sempre foi mais ou menos assim no
Estado, mas agora 6 "mais assim" do que
antes, quando o satrapa pedia votos para
si e nao para terceiros. Por mais que pro-
tegido pelo guarda-chuva govemamen-
tal da inclemrncia do sol e da chuva elei-
torais, o terceiro precisava veneer o va-
cuo da transferencia de votos, menos
automatic do que na atual situacio, na
qual o medico 6 tamb6m o monstro, nao
permitindo a opiniao piblica saber onde
comega um e terminal o outro.
No cenario paraense, essa alegoria do
m6dico e do monstro 6 mais realista ain-
da, por motives mais do que 6bvios. Jus-
tamente por isso, serve como nenhuma
outra como muniao para os que miram
essa excrescencia que o nosso principe-
presidente apadrinhou. Que esta seja sua
estr6ia e, ao mesmo tempo, sua iiltima
apresentagao numa eleigao no Brasil.
Para o bem de todos e felicidade geral
da naqdo.






6 JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE AGOSTO / 1998


Cartas


Para que serve
os tribunais?

Em tua mat6riada edico dejulho/98, primei-
ra quinzena, sob o titulo "A Vontade do Rei",
relatas a hist6ria das 17 ressalvas sobre as contas
p6blicas do exercicio de 1997 da gestao Almir
Gabriel, feitas pelo TCE, sob o aconselhamento
de um not6rio, e circunstancial (pois assim 6 a
political no Brasil), inimigo politico do governa-
dor. Parece 6bvio, pelo carAter das ressalvas, que
o event 6 eleitoreiro.
Tal fato foi o estopim de ameaqas de retalia-
iao por parte do governor do Estado Aquele 6rgAo,
num braseiro de vaidades tecnocriticas, muito
comuns no poder publico dos paises cor frageis
instituic6es democraticas.
Ora, mais A frente, em outro texto (Uma Idiia
para Salvar o Umbigo desta Cidade), elogias a
"democracia" como a maior das invenq6es da or-
ganizag o humana sem entretanto distinguir a
"democracia burguesa" de outras formas, tam-
b6m democrAticas de organizacio social, histori-
camente determinadas, sequer das distorcoes que
modernamente este fen6meno politico apresen-
ta, especialmente nas Areas mais pobres do pla-
neta, em particular, no terceiro mundo.
Sob esse argument, a meu juizo, o TCE esta
long de ser um organismo de control clAssico
dos direitos democraticos, muito pelo contrario,
sempre foi um avalista, em iltima instancia, das
attitudes autoritarias dos nossos governantes. Nao
tenho registro de algum governador ter sido acu-
sado de corruppfes cor o dinheiro piblico por
esse 6rgio. Pero, las hay!
Trata-se de um 6rgao que apenas verifica a
coerAncia dos registros contAbeis, numa avalia-
cao essencialmente tecno-burocrAtica, sem qual-
quer base metodol6gica para acompanhar "de-
mocraticamente" as contas p6blicas, sob o es-
pectro de uma political de receitas e gastos que
respeite os principios da cidadania.
Meu amigo, nao existe cidadania no Brasil.
Sequer o governor, por motives 6bvios, tem preo-
cupaqOes cor essa ausdncia.
Assim te pergunto: tem o Estado uma political
para as contas publicas, political esta que possa
ser tomada como instrugao para avalialio dos
numeros? Resposta: nao! Qual o crit6rio que de-
termina que 1 milhio de reais devam ser entre-
gues a ricos madeireiros, ao inv6s de serem usa-
dos na construaio de escolas ou na formacio de
professors? Quem sabe qual 6 o montante da
nossa divida p6blica?
Todos sabemos, caro L:cio, que a SEFA orde-
na o dinheiro p6blico como faz um caixa de mer-
cearia. E 6 at6 ai que vai a nossa cidadania. Somos
capazes de espancar um ladrio de biscoitos de
um supermercado, mas o que ojudiciArio, o legis-
lativo e o executive fazem com o nosso dinheiro,
ningu6m se toca. Nao parece que somos lesados,
e o pior, num pais com uma estrutura tributaria
regressiva e indireta, o que faz com que o 6nus da
tributagao recaia fundamentalmente sobre o tra-
balho.
Meu amigo, sem cidadania, a democracia 6 s6
uma farsa para mascarar um sistema de privil6gi-
os e confundir a political cor trafico de influinci-
as e mercenarismo deslavado.
Antonio Ponte Souza
Professor de Macroeconomia do DMM/UFPa.

Minha resposta
A democracia, como sabemos, A inven~ao dos
antigos gregos. Mas a forma representative mo-
derna 6 uma criagao da burguesia revolucionaria
do s6culo 18 (ou evolucionAria e um pouco mais
antiga, se pensamos no movimento constitucio-
nalista ingles). De 1 para ca ela vem se aperfeigo-


ando, mesmo quando not6rios vicios de origem
se mantem. As rupturas feitas em nome de uma
democracia revolucionAria do povo, como tam-
bdm sabemos, nao deram certo. Acabaram em
tirania. Das promessas da ditadura do proletari-
ado ficaram apenas as promessas e a ditadura.
Aproximar o regime democratic do ideal expres-
so por seus fundadores 6 uma tarefa que ainda
consumird geraq6es.
Mas provavelmente seu sucesso dependera
da capacidade de cada segment ou instituicao
social controlar o outro (ou a outra), no duplo
movimento de vir de cima para baixo e ir de baixo
para cima. O fio condutor dessa fluencia 6 a in-
formacao. Ela precisa estar ao alcance de todo
cidaddo para que ele, intervindo no process,
saiba cobrar resultados. De fato, todo o castelo
de interdependencias e controls torna-se mera-
mente formal quando sua essencia e vazia.
E o caso dos tribunais de contas. Enquanto
eles se limitarem A analise contAbil-financeira, vai
ser possivel, como no caso dos remddios, forjar
fraudes. Basta relacionar verbas aplicadas a ru-
bricas disponiveis e arranjar papdis comproba-
t6rios. E certo que, em casos numerosos, nem
isso os administradores p6blicos fazem. Os mais
espertos, porem, ja escapam a esse frouxo con-
trole: podem roubar e ter suas contas aprovadas,
a despeito da variagao patrimonial inexplicavel
em suas declaragOes de rendimentos.
O caso do TCE 6 muito grave. Acumula todos
os exemplos de vicios que o desnaturam: interfe-
rAncia political, falta de independencia dos servi-
dores p6blicos responsaveis, em iltima instan-
cia, pela exagao das contas p6blicas, reagao a con-
vivencia democratic, manipulaa.o do poder, etc.
E, arrematando tudo, o silencio da imprensa, que
trai o seu compromisso com a opiniao piblica ao
deixar de fornecer as informag6es e avaliac6es
sobre a questao, desinteressando-se pelo assun-
to depois de tratA-lo superficialmente, quando o
trata. Felizmente, porem, os cidadaos estao co-
meeando a cumprir sua parte, como o professor
Ant6nio nesta carta questionadora.

As eternas obras
que nunca acabam

E grande o clamor popular quando acontece
algum tipo de acidente cor a estrutura de um
edificio de apartamentos, o que, alias, 6 compre-
ensivel, levando-se em consideragao que, nao ra-
ras vezes, vidas sao ceifadas, economies de mui-
tos anos v8m abaixo, levando engenheiros e cons-
trutoras a execraqio piblica. A imprensa acom-
panha o caso A exaustao, mostrando a opiniao de
tdcnicos e peritos nem sempre tao peritos. E evi-
dente que nao se deseja aqui minimizar a culpa de
quem quer que seja; final, edificios nao foram
feitos para desabar. O que se quer 6 levantar uma
questao: por que nao 6 dado o mesmo tratamento
para a qualidade da construgao em nossas estra-
das e vias piblicas?
Esta pergunta me veio a prop6sito da entre-
vista concedida pelo president da Construtora
Andrade Gutierrez para o jornalista Elio GAspa-
ri, quando afirmou serjusto que o governor fede-
ral assumisse as dividas dos Estados junto as
empreiteiras. Afinal, ponderou ele, se a nagao
assumiu, atravds do Proer, o passive de grandes
bancos, algo de certa maneira bastante abstrato,
por que nao assumir o d6bito de Estados oriundo
de algo tao palpAvel quanto as estradas, que es-
tao ai para todo mundo ver, aproveitando para
citar 900 kms. de estradas contratadas em 1986,
no governor do atual senador Jader Barbalho, di-
vida no valor de 125 milh6es de reais, que, segun-
do ele, o governor Almir Gabriel reconhece, mas


nao ter como pagar.
Aqui, algumas sugest6es. Primeiro: onde es-
tao os tais 900 kms. de estradas para se ver? Se
for a PA-150, nao vale, porque o Governo do
Estado esta mandando construir de novo. Segun-
do: como 6 que uma empresa executa uma obra
deste porte sem recebe-la?
Por que sera que a construcao de nossas estra-
das e vias p6blicas nAo apresentam qualidade que
Ihes permitam uma duracio razoAvel? Como es-
tao equipados nossos 6rgaos que fiscalizam os
projetos e as construg6es? Como se chegou ao
prego? Que tribunal e que rigor usa parajulgar
estas contas?
Exemplificando cor uma pergunta imperti-
nente: onde estA a tal Rodovia dos Trabalhado-
res, tao falada, tao concluida? Pergunta de facil
resposta: uma pequena parte dela se transformou
na Estrada do Mangueirao (quejA precisa de re-
forma). Outra parte foi literalmente roubada.
Melhor explicando: pa mecnica e cagambas le-
varam o aterro correspondent As pistas conti-
guas ao Cj. Catalina. O restante, que nao 6 pouco,
esta inacabado e praticamente abandonado, se tor-
nando um emblema do desperdicio de dinheiro
pablico.
A situadao 6 grave e o problema aumenta de
proporgio porque as estradas nao tem dono para
Ihes fiscalizar a qualidade e a duraiao, o que nao
acontece cor os edificios residenciais, cujos vici-
os de construgao dao mais Ibope. A verdade 6
que os contratos para constru go de estradas (con-
tradizendo o president da Andrade Gutierrez)
tern valores, volumes e especifica6oes tao abstra-
tos quanto a fiscalizaAgo de sua execucio.
"O Brasil 6 imenso e nele tudo ainda esta para
construir. Nossa meta urgente 6 ocupA-lo e levar
o progress as Areas abandonadas". Sabias as pa-
lavras de Oscar Niemeyer, por6m dificeis de se-
rem colocadas em pratica. E facil constatar que
apesar de estar sendo construido hA quase 500
anos, o Brasil nao tem jeito de ficar "pronto", atW
porque nossos parcos recursos sao mal aprovei-
tados, entire muitas outras coisas refazendo a cada
quatro anos estradas j construidas ou construin-
do estradas ja executadas... nos bern produzidos
relat6rios anuais dos governor.
Josd Otdvio Figueiredo
Engenheiro Civil

Minha resposta
Refletindo sobre justas ponderagoes, como a
do engenheiro Jos6 Otavio Figueiredo, a vov6
Zulmira, criagao de Stanislaw Ponte Preta (por
sua vez, produto de Sdrgio Porto), concluia bibli-
camente: ou restaure-se a moral, ou todos nos
locupletemos. De minha parte, defend uma raz-
zia sobre todas essas ilegalidades, irregularida-
des e imoralidades que, de per si e por vez, As
vezes expressando visoes parciais e interesses
corporativos, pessoas como Jos6 Otavio susci-
tam cor carradas de razoes (para usar expressgo
do setor, que invariavelmente result em super-
faturamento).
Que qualquer governor precisaria intervir no
setor financeiro de sua economic para evitar o
desmoronamento das contas nacionais, intrinca-
damente conexas cor as contas interacionais, 6
ponto fora de questao. Mas se agiu no tempo
certo, com as medidas corretas e foi ate o limited
do demonstrAvel para punir os fraudadores, sao
pontos a serem devidamente apurados, raramen-
te o sendo no Brasil. Ganhariamos todos na con-
dugao de investigaq es do mais alto interesse
p6blico se os profissionais de cada um dos seto-
res envolvidos tivesse a iniciativa de revelar o
que sabe, de orientar os investigadores, de escla-
recer debates nem sempre bem conduzidos pela
midia.





JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE AGOSTO / 1998 7


Cartas como a do engenheiro Jose Otavio de-
veriam se multiplicar, aprofundando-se e ampli-
ando-se. S6 assim poder-se-ia evoluir da consta-
tag.o do dano para sua prevencao, reparaqAo e
punic.o dos responsaveis. Na carta sao apresen-
tados dois exemplos: a PA-150 e a Rodovia dos
Trabalhadores. A primeira 6 um projeto que co-
menou a ser executado hA um quarto de s6culo, na
administragao Fernando Guilhon (sem falar no
seu antepassado, a Bel-Can, iniciada no governor
Aurdlio do Carmo, na metade da ddcada de 60,
resultando na PA-70, hoje BR-222).
Quanto ja se gastou nessa declarada estrada
de integragao estadual? Quanto ela acarretou de
endividamento (ponto de origem das diverg6nci-
as que levaram ao rompimento de Jader Barbalho
corn H6lio Gueiros, hoje novamente aliados, sem
deslindar o passado)? Quantos quil8metros de
asfalto foram sobrepostos aos 1.100 quil6metros
da rodovia, evaporando-se essa cobertura asfalti-
ca antes de terminar o mandate do governor que a
realizou? Por que um governor retoma a obra de
Santa EngrAcia sem auditar o acervo maldito do
antecessor? Por que hA muita retdrica e pouca
aago pratica em torno dessa estrada e de obras
semelhantes?
Quanto a Rodovia dos Trabalhadores, perfei-
tamente enquadrAvel em todas essas perguntas
sem resposta, o que espanta 6 ela situar-se na
capital e nao no remote sertio, como a PA-150.
O governador Almir Gabriel, que tanto criticou a
acao anterior de JAder entiree intervalos de conve-
niente silencio, como de seu estilo), reinaugurou
parte do que havia sem a menor refernncia a essa
mula rodoviaria sem cabeca, talvez porque qui-
sesse faturar o velho requentado como sendo novo
(um dos tracos do seu marketing).
Para nao ocupar muito espago, que espero ver
preenchido por outros profissionais do setor,
capazes de langar mais luzes sobre essas nebulo-
sas questOes, lembro minha pr6pria experiencia a
respeito. ia num inicio de noite de Colinas de
Goias para Conceigao do Araguaia. JA no cami-
nho, o bom senso me recomendou voltar, dormir
ali mesmo e prosseguir s6 cor o dia claro. A
decisao foi tomada quando o nosso carro estava
sobre uma esplendida e extensa ponte de concre-
to, passando sobre um c6rrego situado bem em-
baixo. No dia seguinte voltamos A ponte para
descobrir, corn calafrio, que, mesmo sendo bela
obra de arte, ela terminava no vacuo. Entre sua
extremidade e o outro lado haviam bem dois me-
tros A espera de conclusao. Morreriamos caindo
naquele buraco. Aquele era um simples ramal
iniciado e, ento, inconcluso. Apesar da con-
diFgo de pista primAria, tinha ponte de concrete
de primeiro nivel para os padres locais.
Por que o absurd? Fiz a mesma pergunta na
primeira visit a Santos. Ao lado das pistas de
rolamento havia um viaduto de concrete, come-
qando no nada e terminando no nada. Obra de
Adhemar de Barros, me explicaram. Monumento
A pilantragem bem sucedida neste pais de pilan-
tras rapaces, mas simpAticos. Nao estA na hora
de ajustar as contas com todos eles? Cor a pala-
vra (e o voto), a opiniao public.



Corre0ao
Pensando em Rolando Boldrin,
escrevi Ricardo Boldrin. E o
cansaqo. Agradego a vigildncia
dos amigos leitores. Vamos ficar
s/ulIprc atentos para errar
menos. Mas convenhamos: pior
do que Rolando ser chamado de
Ricardo e nosso aqai virar suco.


Imprensa


chinfrim
Talvez os leitores possam apresentar, em
relagAo a estejornal, queixa semelhante A que
fago sobre a maioria da grande imprensa bra-
sileira: como ela anda chata e como estao
escrevendo mal muitos dos colegas. Se nao
sou excefio, perdao, leitores: baixem o ma-
Iho.
Para ler as mais not6rias publica6Aes do
pais 6 precise fazer um enorme esforgo. A
menor desatengAo, nos desligamos do tex-
to. Compreende-lo requer um permanent tra-
balho de analogia, de associagao de id6ias,
de complementagao, de auto-motivagao. Na
6poca da censura, lia-se nas entrelinhas.
Hoje, para entender, 6 imprescindivel ir alem
das linhas.
Houve uma 6poca em que se combatia o
cliche burocratico. Ele consistia na repeti-
gdo de formulas prontas, de solucges pa-
dronizadas, que dispensavam o raciocinio e
a inventive. A armagAo do texto estava pron-
ta para center qualquer enredo. Uma vez, na
redagao de Veja, em seu aptote6tico inicio,
Raimundo Rodrigues Pereira, entao no fres-
cor do seu anarquismo (que mofaria algum
tempo depois, na gaveta do doutrinarismo),
aproximou-se de um redator que quebrava a
cabeca em busca da abertura certa para sua
mat6ria: "Abra aquele armArio e pegue 1 um
dos mil tides da revista", recomendou o ir6-
nico Raimundo.
Hoje, ha uma outra matriz em acao: a da
criatividade em sdrie. Todos querem ser ori-
ginais, inovadores. Mas falta substancia
para criar. O resultado sAo produtos extrava-
gantes. Uma originalidade estandardizada.
Texto representative desse estilo: "Aborre-
cido. Foi assim que fulano reagiu ao antn-
cio...".
Leio o perfil da cantora Marina Lima tra-
gado por Apoenan Rodrigues, editor de cul-
tura de Istoe. Ele fala em "liquidificador de
emogoes apertado no botao nimero dois" e
em "eletro-samba". Diz que os arranjos do
filtimo disco de Marina "deram-lhe um carA-
ter antropofAgico, bem ao jeito de a cantora
tecer seu pop cor griffe". Nao consigo en-
tender nada disso, nem vejo luz nessas me-
taforas (serao mesmo metAforas, meu Deus?).
Escreve-se essas coisas porque deixou-
se de ler? Quando se 1l, o que se 1e sao ore-
lhas ou trechos de livros, a cultural da apos-
tila? Os livros que se le sao de divulgacgo,
obras rapidas e rasteiras, como as de vArios
jornalistas? Ou o que se conhece 6 obtido
nos interminaveis "papos-cabega" de bares
e botequins, onde gente que ainda nao vi-
veu o suficiente (As vezes sequer o minimo
necessArio) receita sobre a arte de viver. A
sempre limitada sabedoria oral, as vezes bri-
lhante, quase sempre superficial, 6 a matriz
finica do saber.
Nao sei se sei a resposta certa. Mas como
ficou insipida a grande imprensa brasileira!
Sera porque vendeu a alma, expurgou ajusta
e fundamentada indignagao, trota com ar-
reio curto, seguindo um roteiro pr6-determi-
nado, buscando o glamour a qualquer pre-
go como se fosse o Santo Graal?


Fica a pergunta e o protest de um in-
veterado leitor dejornais e revistas, que quer
voltar a fazer corn prazer uma atividade trans-
formada em oficio sofrido. Aos bons e jo-
vens profissionais, desejosos de aprender
para valer, sugiro que leiam Imperium, um
relate de Capuszinsky sobre o fim da Uniao
Sovidtica, enquanto buscam sua pr6pria res-
posta. O melhor que ojornalisnlo pode pro-
duzir esta nas paginas desse livro. Tomem-
no como espelho, um bom reflexo, nit o o oa--
sis que a TelebrAs esta criando. Quem for
capaz de escrever como o jornalista polo-
nes, apresentando testemunhos como os que
ele enfileira no livro e associando suas leitu-
ras A hist6ria conjuntural, 6 mesmo jomalis-
ta. Dos bons. Parab6ns.




Segao


Liberal
A seg5o, corn vArios titulos ("Aconteceu
na hist6ria" e "Efemdrides" eram as mais co-
muns), foi uma coqueluche na imprensa ate
duas d6cadas atras, ficando atras em popu-
laridade para os folhetins e as colunas mun-
danas da "vida social". Perdeu fascinio, mas
vArios jomais ainda a mantnm como compro-
misso corn a mem6ria hist6rica. O problema e
que nem sempre os responsaveis pela cro-
nologia contam cor os meios ou os auxilia-
res exigidos por um trabalho de qualidade e
consistencia, ainda mais quando diArio. Em
drops, a hist6ria se torna bizarre ou vira com-
pleto bestial6gico.
0 Liberal tem a sua secao, Hoje na vida
do Pard, assinada por Jose Valente. Na mai-
or parte, sao reprodugbes de outros autores
e pesquisa em manuals e nas colecges de
jomais, a sintetizaqio em poucas linhas de
acontecimentos complexes nem sempre sen-
do feita com equilibrio, ou a inexistencia de
event merecedor de registry em determina-
da data (por nao haver mesmo, ou por inves-
tigagdo insuficiente) forgando a inclusao de
fatos absolutamente sem valor hist6rico,
quando nao totalmente sem valor mnem6ni-
co.
Como na edigco de 27 julho. Valente en-
cerrou a segao daquele dia com um registro
de 1940, provavelmente obtido na permanen-
cia da Central pelo setorista joralistico de
entao: "Foi preso o 'chauffeur' Odon Fran-
cisco dos Santos, de 48 anos, natural da Pa-
raiba, por ter agredido a socos e a pontapes
o portugues Francisco Fernandes Chipelo,
no Bar Ultramarino, onde Chipelo trabalha-
va".
Sim, e dai?, perguntara um Her6doto ao
tucupi, talvez procurando na resposta aque-
la popular image que associa a calla Aque-
la determinada parte do corpo que a indu-
mentaria cobre, no limited da cintura, como se
ousa argumentar, cor linguagem chula, in-
felizmente, em bares como esse em que o lu-
sitano empregado sofreu bordoadas do cho-
fer paraibano e atd ai Ines continuou mor-
ta, nem o leite parou de derramar.
Coisa de p6s-modernismo arretado, tal-
vez, quem sabe.





Colonialismo
0 Piano Decenal de Ex-
pansdo 1998/2007, entregue
no final do mis passado pela
Eletrobris ao Minist6rio de
Minas e Energia, prev6 que
nesse peiiodo estara conclui-
da a interligaggo da regiAo
Norte corn o Nordeste e o Sul
do pais. O Para chegara ao
final dessas obras como o mai-
or exportador de energia do
pais, desbancando das primei-
ras posi9ces o Parana e Mi-
nas Gerais.
Quem soltar foguetes para
comemorar 6 porque nio sabe
das coisas.

Estilo
0 Dicrio Oficial de 27 de
julho publicou o QDQT que
detalha as quotas do terceiro
trimestre do ano (de julho a
setembro). E um desrespeito
A opinido piblica. As letras do
texto sdo diminutas. Quem
possui problema de vista nao
conseguira ler. Quem ler, es-
tara favorecendo futuras com-
plicagces de visio. A totali-
zagdo feita dos valores orga-
mentarios 6 setorial. Quem
quiser saber qual a totalidade
dos recursos a serem aplica-
dos no trimestre tem que fa-
zer a soma geral. Nao ha um
quadro identificando as fon-
tes dos recursos, citadas em
c6digo. Sete milh6es de reais
brotam na conta de setembro
da Secretaria de Educagio e
nao ha uma nota explicativa.
O governor Almir Gabriel 6
o pior que apareceu nos ilti-
mos tempos em mat6ria de
prestagdo de contas. Cor re-
t6rica social-democrata, ocul-
ta o que pode, sonega infor-
macges. Justifica a mAxima
de Buffon: o estilo 6 o home.

Proposta
Aos amigos que se ofere-
cem para ajudar este journal,
dou uma sugestao. Os que
tam condiG6es para isso, po-
deriam comprar uma quanti-
dade maior de exemplares e
mandar distribui-los na peri-
feria da cidade, gratuitamen-
te. Tenho andado pelos subfir-
bios nos finals de semana e
acho que essa seria a f6rmu-
la capaz de ultrapassar o fos-


so que separa o Jornal Pes-
soal do grande p6blico, insu-
perAvel pelos meios pr6prios,
e testar como seria a recep-
9go a uma publicag9o dirigida
como esta pela massa da po-
pulagao. As observa96es fei-
tas nessas semanas de cami-
nhada me t6m crer que nao
hi incompatibilidade entire o
JP e o grande pufblico, apesar
do prego, da linguagem, do
format e dos temas deste tipo
dejornalismo, mais elitista.
Assim, se alguem quer aju-
dar o nossojornal, a nossa su-
gestao 6 esta: compare uma
certa quantidade de exempla-
res, design uma pessoa para
fazer a distribuigdo e escolha
um setor da cidade para meta.
Numeros atrasados do enca-
Ihe podem ser comprados a
pregos rebaixados e distribui-
dos nas escolas. Pode at6 nao
dar certo, mas s6 tentar que-
brar a incomunicabilidade ja
seria uma faganha.

Linhas tortas
O marketing politico 6
mais ou menos como a p61-
vora: uma vez inventado,
nio pode ser desinventado,
como diria o Ant6nio Ma-
gri. Usa-lo para o bem ou
para o mal passa a ser a
opC9o dos homes. Desde
que bons conselhos ajuda-
ram John Kennedy a ven-
eer Richard Nixon na dis-
puta pela presid6ncia dos
Estados Unidos, trabalhan-
do melhor sua imagem di-
ante da televisio, quatro
d6cadas atras, o marketing
6 recurso indissociAvel da
dispute political. Quando os
candidates estdo empare-
lhados, faz a diferenga. E
quando um candidate nao
tem outra qualidade indis-
pensAvel (como o carisma,
a orat6ria, o prepare inte-
lectual), ajuda a arrasta-lo.
O marketing s6 faz mal A
democracia, virando bruxa-
ria ou ilusionismo, quando
praticA-lo cor sigilo ou mis-
t6rio 6 a condi9go para o seu
sucesso.
Por isso, 6 lamentavel
que no debate convocado
pelo Sindicato dos Jornalis-
tas, no m6s passado, para


discutir o marketing politi-
co na eleicgo deste ano, to-
dos os cinco marqueteiros
convidados tenham faltado.
Pode ter sido mera coinci-
d6ncia a impossibilidade de
todos eles poderem compa-
recer. Mas sinas como es-
sas tamb6m podem ser to-
mados por maus pressagi-
os. No caso, de que 6 muito
mais para manipular do que
para esclarecer que o ma-
rketing politico esta sendo
usado na eleigdo deste ano
no ParA.
Nos textos biblicos a
omissdo 6 considerada o
pior dos pecados. Na Divi-
na Comeedia, de Dante,
tamb6m.

Cofre aberto
A Funtelpa acrescentou
400 mil reais ao rumoroso
"conv6nio" que assinou no
ano passado cor a TV Li-
beral, atrav6s do qual paga-
ri a emissora dos Maiora-
na 12 milh6es de reais ao
long de cinco anos. Como
aconteceu no "conv6nio"
original, o Diario Oficial do
dia 30 de julho limitou-se
a publicar um minusculo ex-
trato, permitindo-se informar
ao distinto pfblico apenas
que os R$ 400 mil sao um
"aditamento dos recursos fi-
nanceiros".
Sera que os R$ 250 mil
que a Funtelpa repassa todo
mrs A TV Liberal, para que
a emissora utilize sua rede
para a captag9o de sinal de
sat6lite pelo interior do Es-
tado, serAo engordados por
mais R$ 400 mil mensais.
Ou esse 6 um valor a ser di-
luido no trimestre? 1 preci-
so investigar, ji que o gover-
no Almir Gabriel sonega esse
tipo de informag9o. Ou en-
tdo esperar que o vice, H6-
lio Gueiros Jr., publique a in-


tegra do aditamento ao as-
sumir a titularidade, por
qualquer acidente de percur-
so, como aconteceu no "im-
broglio" do ano passado.
Triste sina. A falta de serie-
dade e respeitabilidade na
condug9o dos neg6cios pu-
blicos, dependemos das es-
caramugas dos poderosos
para dispor do que 6 abun-
dante apenas na ret6rica de-
les: a tal da transpar6ncia.

Sepulcral
Agora que a Copa do
Mundo ja acabou e que o
veraneio dejulho se foi, pre-
sume-se que a Ordem dos
Advogados do Brasil, Sec-
9ao do Para, tera tempo e
motivagao para se interes-
sar pelo grave precedent
aberto dois meses atras no
Tribunal de Justiga do Esta-
do, quando os desembarga-
dores foram convocados
para deliberar, secretamen-
te, se uma sentenga de juiz
singular seria ou nao publi-
cada, diante da ameaga do
prejudicado (o grupo Libe-
ral) de retaliar contra ojudi-
ciario caso esse moment
sagrado do process fosse
respeitado (ver Jornal Pes-
soal n 189 e 190).
Se essa mat6ria nao inte-
ressa a OAB, deve-se enten-
der entao que o compromisso
da entidade cor a administra-
g9o da justiga aplica-se ape-
nas quando a ameaga 6 feita
por fracos e deserdados da
terra, nao pelos poderosos lo-
cais? E isso, Avelina, Ophyr,
Angela e demais amigos, cu-
jos nomes tinha-se como ga-
rantia de seriedade, indepen-
dancia e coragem na condu-
9ao da Ordem?
Se nao forem capazes de
uma attitude, ao menos que
deem uma resposta. JI serve
para alguma coisa.


Jomal Pessoal
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