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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00140

Full Text


A boa gente
dogoverno
jomal PessoalT
L c 1 0 F L A v i o P I N T O de volta
ANO XI N2 191 2' QUINZENA DE JULHO DE 1998 R$ 2,00 ao Come o
(PAG. 5)
ELEIQAO



0 enredo de sempre

Comega para valer a campanha eleitoral, que promote ser das mais disputadas dos ulti-
mos tempos. Os quase-amigos de ontem sdo os inimigos de hoje. Como muito acerto de
bastidores ndo deu certo, os antagonismos serdo fortes. Qualquer que seja o resultado,
porim, o Pard estd condenado a comegar um novo seculo na contra-mdo da hist6ria.


I o hli nenhum personagem
no\ o na ultima dispute que
sera travada neste s6culo
pelo governor do Pard. O
enredo da trama principal
S\ pode ser previsto com mui-
to tempo de antecedencia. Ainda assim,
nos quatro dias que antecederam o pra-
zo final para a definig9o dos partidos, a
30 dejunho, uma intense movimentagdo
de bastidores, cor lances impensiveis
(e, at6 agora, inenarrados), se desenvol-
veu em torno de dois eixos.
Um deles girou sobre o candidate do


PMDB pela terceira vez ao cargo, o se-
nador Jader Barbalho, duas vezes vitori-
oso nesse tipo de dispute (em 1982 e em
1990). Jader decidiu se expor novamen-
te a um dificil teste: enfrentar como ad-
versario um governador que, pela primei-
ra vez, tentara a reeleiygo sem se afas-
tar do comando da maquina p6blica es-
tadual.
Jader esta assumindo o maior risco de
sua carreira political, mesmo com o con-
solo de, em caso de insucesso, dispor ain-
da de quatro anos de mandate como se-
nador. Mas experimentard ent~o a pri-


meira derrota em oito elei96es disputa-
das, perdendo a aura de invencibilidade
e a hegemonia political. Nao faz essa es-
colha por vontade pr6pria. E que nio lhe
restava outra alternative.
Com o pragmatismo de sempre, o li-
der do PMDB no senado constatou que
nao seria desta vez (e talvez nao venha
a ser em dia algum) que sua carreira
national poderia deslanchar. Em deter-
minado moment das iltimas semanas
ele teve a certeza de que poderia ocupar
a presidencia national do partido, cre-
denciando-se como interlocutor qualifi-1,


S" 0'T, 0 "





2 JORNALPESSOAL *2-? QUINZENADE JULHO/ 1998


cado do president Fernando Henrique
Cardoso e munindo-se de um forte trun-
fo para forcar sua base eleitoral a acei-
ta-lo fora da corrida pelo governor do
Estado, porque bem escorado a nivel fe-
deral. Essa possibilidade (ou ilusao) se
desfez na vespera da convengco, inter-
rompendo a sucessao de vit6rias que
Jader vinha obtendo na political national
e fechando-lhe o caminho da ascensio
at6 a constelagao national do poder como
estrela de primeira grandeza.
Refazendo seus pianos pessoais, mas
mantendo o discurso para consume ex-
temo, o senador nao hesitou mais: assu-
miu a candidatura ao governor. Aparen-
temente, mais do que ele, somente Al-
mir Gabriel parecia convencido de que
Jader faria mesmo a op9io federal. No
dia 25 o senador telefonou para o gover-
nador comunicando-lhe que iria disputar
a presid8ncia national do PMDB, tres
dias depois, em Brasilia. Se vencesse,
nao participaria diretamente da eleifio
de outubro. Caso contrario, iria enfren-
tar Almir. Era a resposta, ainda que tele-
finica, aos dois encontros pessoais que
o govemador patrocinara para tentar in-
corporar Jader a sua coligagio eleitoral.
Mesmo com esse aviso, Almir nio
parece ter-se convencido de que deve-
ria considerar consumada a volta de Ja-
der ao ringue local. S6 no dia 28 6 que
essa bolha de esperanga parece ter es-
tourado, despejando desastradamente o
govemador no mundo da realidade. Sua
reaqio foi tentar quebrar a base de Ja-
der voltando a atrair Helio Gueiros para
a sua 6rbita. Foi providenciado um en-
contro na resid8ncia do president regi-
onal do PSDB, o empresario Femando
Flexa Ribeiro. H6lio ficou rouco de tan-
to ouvir, manifestou ceticismo diante de
um novo acordo, mas aceitou examiner
a hip6tese para uma resposta definitive
no dia seguinte.
Tao certa era a negative da resposta
quanto a inutilidade (e mesmo inoportu-
nidade) do estratagema tucano diante do
ex-prefeito de Belem. No dia 25. depois
da comunicaaio telef6nica de Jader a
Almir, o lider do PMDB foi abordado pelo
empresario Lutfalla Bitar para um en-
contro cor Romulo Maiorana Jr. Um
jantar foi marcado para o mesmo dia no
apartamento do dono da Estacon, no du-
plex de cobertura do luxuoso edificio
Atalanta, na Doca de Souza Franco.
Rominho chegou ao local com o ir-
mao, Ronaldo Maiorana, a primeira sur-
presa mal recebida por Jader. A segun-
da, foi a proposta de que integrasse a
Uniao pelo Para, apoiando a reeleigio


do govemador. Rominho insistiu na con-
veniencia de isolar H6lio Gueiros, exclu-
indo-o de uma chapa invencivel: Almir
para o governor, tendo um vice do PPB
ou do PTB, Jader para o senado (permi-
tindo ao pai, Laercio Barbalho, assumir
a vaga que seria aberta), com Romulo
Jr. na suplEncia. Jader responded com
uma pergunta: por que a coligagao nao
poderia ser feita em torno do seu nome,
ao invs de pressupor o de Almir?
A partir dai os interlocutores trataram
de engolir o jantar e escapar da situa-
cao. Rominho correu para relatar o que
ocorrera ao govemador e preparar um
alibi para apresentar. tres dias depois, aos
leitores de O Liberal, dizendo-lhes que
havia sido convocado para o encontro.
A iniciativa foi atribuida a Lutfalla, mas
Jader se convenceu de que tudo fora pla-
nejado pelo pr6prio governador, ou a pe-
dido do empresario do grupo Liberal,
para que Romulo Jr. se credenciasse jun-
to ao seu principal client e aparecesse
como o responsavel pela derradeira ten-
tativa de "uniao pelo Para", excluindo os
traidores do povo e em defesa dos legiti-
mos interesses do Estado.
A Jader nao restou nem o console de
alcangar seu objetivo no encontro: con-
seguir uma neutralidade do grupo Libe-
ral e uma isengao do govemador na cam-
panha electoral. Os veiculos das Organi-
zac9es Romulo Maiorana ja assumiram
posigio de hostilidade a ele e Almir nio
deixa mais dividas de que valera tudo
para a reeleigco. Ate mesmo expor-se
num encontro com Helio Gueiros, depois
que o ex-prefeito ja havia sido informa-
do por Jader sobre o tema da reuniao no
apartamento de Lutfalla, no qual sua
cabega era a piece de rrsistence, como
costumam dizer nesses ambientes.
Por telefone, Gueiros mandou dizer a
Almir, no dia seguinte, que nao havia mais
condi96es para um acordo, depois de
terem passado um ano sem conversa-
rem sequer por telefone. E a uma nova
oferta de mais um encontro, nem res-
pondeu. O velho PSD dos baratistas, sob
a roupagem de PMDB e PFL, voltava a
se recompor para enfrentar um "coliga-
do", agora disfargado de tucano. Tudo
como dantes num quartel remotamente
de Abrantes.
Em tomo desse eixo gravitou uma das
tend8ncias decisivas para a elei9io de
outubro. O outro foi uma pesquisa da Vox
Populi, encomendada pelo grupo Libe-
ral, que chegou as maos do govemador
um pouco antes de ele fechar os enten-
dimentos eleitorais e bem antes de sua
divulgagio pelo jomal da familiar Maio-


rana. Os resultados deram 34% da pre-
ferencia do eleitorado ao governador,
25% a Jader e 15% a Ademir Andrade.
O governador parece ter ficado tio
satisfeito com a maior vantage ja es-
tabelecida sobre seu concorrente mais
pr6ximo que julgou dispensivel escolher
como companheiro de chapa um puxa-
dor de votos. Optou pela image de um
jovem, apontado como trabalhador e li-
gado ao mundo da agropecuaria, ao in-
terior tao vasqueiro de simpatia. Alem
disso, Hildegardo Nunes, mal-sucedido
como candidate a deputado estadual
duas eleiq6es atras, traria consigo o pai,
o ex-deputado federal Alacid Nunes
(duas vezes governador, como Jader,
derrotado na ultima eleig~o), sem ser
precise ceder-lhe uma vaga para a Ca-
mara Federal.
Se Almir aceitou a pesquisa como ter-
m6metro confiavel, o PMDB tratou de
impugnar o trabalho da Vox Populi junto
ao TRE. Os peemedebistas fizeram
questionamentos pertinentes, a comegar
pelo descumprimento da exigencia legal
de entrega ao TRE, com cinco dias de
antecedencia da divulgagio, de toda a
base metodol6gica da pesquisa e do ma-
terial utilizado pelos aplicadores dos ques-
tionarios. A interfer8ncia das perguntas
sobre a administragao Almir Gabriel, fei-
tas antes da sondagem sobre a prefe-
rencia do eleitor em tomo do govemo do
Estado, realmente pode induzir em favor
do governador na votaaio espontanea,
alterando a realidade. O peso conferido
a Belem e Ananindeua, redutos favora-
veis a Almir, esta em desacordo com os
dados censitarios. Alguns resultados nio
conferem com a base documental, como
as votag6es de Hlio Gueiros e Romulo
Maiorana Jr.
Mais do que a competencia do PMDB
na impugnacio, 6 da seriedade e aplica-
cio do TRE na apuragao da verdade que
dependera a elucidagio do caso e seu uso
como inibidor das manipulac6es pre-elei-
torais, cada vez mais frequentes e sofisti-
cadas. Ha um consenso nos bastidores
de que as pesquisas de opiniao comegam
sempre muito tendenciosas, apresentan-
do um resultado mais de acordo cor o
desejo do client. S6 ganham em consis-
tencia quando se aproxima o dia da elei-
9~o, na presung~ o de que apenas a partir
dai 6 que passa a existir uma fiscalizagio
official mais conseqiiente. At6 esse mo-
mento, por6m, as pesquisas ja terao cum-
prido, para os que podem paga-las, sua
fungio de instrument de manipulag~o da
vontade do eleitor. Essa e uma ameaga
terrivel para a democracia. *




JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JULHO / 1998 3




Oportunidade perdida


Ant6nio Carlos Jobim Uma bio-
grafia, de S6rgio Cabral (Lumiar Edito-
ra, 1997, 545 paginas, R$ 35), nao 6, de-
finitivamente, "uma biografia complete",
como a anuncia o dono da editor, Almir
Chediak (que tambem produziu uma se-
rie de preciosos song-books). A tercei-
ra biografia escrita desde que o compo-
sitor morreu, em dezembro de 1994, esta
muito aqu6m do merecimento do perso-
nagem e do melhor padrao desse tipo de
trabalho, estabelecido pelos autores ame-
ricanos (que dispbem de equipe, dinhei-
ro e recursos para realizar seu trabalho,
aqui geralmente atirado as costas de unm
abnegado).
S6rgio Cabral, um indiscutivel co-
nhecedor da music brasileira, juntou-
se a cinco mogas, encarregadas das


Pouca gente tern diuvida de que Almir e
Jader estao muito pr6ximos na lideranga da
dispute e que ela s6 se definira no segundo
tumo, quando o uso da maquina official cos-
tumna ser decisive. 0 govemador toma-se
favorite justamente em fungo de ter ao seu
dispor uma estrutura de poder inacessivel
aos seus adversarios e que nemmesmo uma
boa fonte de financiamentos particulares
conseguira igualar, ji que nem todos os me-
canismos de transformai ao de poder em
voto sao conversiveis tambem em dinheiro.
Mas a eleigio s6 nao esta ganha por
Almir Gabriel porque Ihe falta carisma pes-
soal e densidade political em todo o territ6-
rio paraense. Mesmo que a pesquisa da
Vox Populi nao tivesse sido manipulada, ela
teria mostrado uma situa~io antes da defi-
nimCo do dia 30 de junho, quando as posi-
c6es de Jader Barbalho e H61io Gueiros
ainda nao estavam estabelecidas para o
pfblico. Como se arrumou o eleitor a partir
de entao? E o que o Ibope iria fazer agora,
por encomenda do PMDB.
A nova manifestagio tera componen-
tes espontAneos e induzidos, que vao defi-
nir a trajet6ria dos candidates at6 outubro.
Uma das variaveis esta associada ao com-
portamento da imprensa. O grupo Liberal
devera participar da campanha da reelei-
cio, hostilizando a dupla Jader-H61io. NAo
e uma variavel desprezivel, muito pelo con-
trario. Mas os lideres das comunicacoes
no Estado ter perdido seguidas eleic6es,
rno exatamente por azar intrinseco, como
pensam os mais supersticiosos. A incom-
pet8ncia talvez tenha um peso maior.


pesquisas, para montar uma agenda
comentada da vida de Jobim. Fez pou-
cas entrevistas e passou superficial-
mente por sobre temas que exigiriam
maior aprofundamento, limitando-se a
acrescentar opinioes e reminiscencia
ao noticiario da imprensa e as apre-
sentag6es dos discos.
Tem muito mais informa96es do que
o livro de Helena Jobim, mas 6 burocra-
tico, sem a precisao e a riqueza das boas
biografias, tamb6m sem a visao intimista
da irma, que idealiza, mas da a media
aproximada do final de Tom. Mesmo os
dois livros reunidos, ainda 6 pouco para
entender a pessoa e o artist Tom Jo-
bim, o maior criador de milsica que ja
apareceu no Brasil, um dos maiores de
todos os tempos no mundo inteiro.


0 Liberal recusou-se deliberadamente
a publicar a foto do ano no Para, na qual
H61io e Jader aparecem abragados na con-
vengao do PMDB. Ha os que acham que
essa foto serve para anestesiar a reagao
da opiniao piblica. At6 pouco tempo atras
ela seria incapaz de admitir a reconcilia-
cao de dois cidadaos que chegaram ao ni-
vel mais baixo da ofensa pessoal mitua.
Mas ha tamb6m os defensores de tese
oposta: de que a foto avivara ainda mais o
repidio do public, fazendo-o rejeitar nas
urnas essa volta ao passado, tao agressiva
a mem6ria dos que se permitem cultivar
um padrao 6tico e moral.
Qualquer que venha a ser a interpreta-
Cao correta, a um jomal n~o cabe usa-la
para agredir o que 6 o seu compromisso
vital: nao brigar corn os fatos. Acima do
seu significado, a foto de Jader e Heliojun-
tos 6 a image political do ano (e, certa-
mente, um retrato fiel do nivel das elites
political paraenses). Teria que estar na
primeira pagina. Ocupou essa posigco no
Didrio do Pard, o jomal de Jader, que,
mais uma vez, tenta nao se deixar arrastar
pela onda eleitoral, mantendo-se numa an-
cora professional (ate mesmo para nao per-
der os anuncios oficiais), e por A Provin-
cia do Pard, que fez uma discreta opaio
por Almir. Mas ficou interditada em O Li-
beral, que preferiu abrir sua manchete corn
a escolha de Hildegardo Nunes para vice
de Almir do que render-se ao que era ob-
viamente o mais important (ainda que
possa ser considerado nefasto): a terceira
volta de Jader ao govemo do Para.


Cabral refere-se varias vezes ao es-
tranho habito do maestro de se solar nos
hot6is das cidades onde se apresentava.
Fosse em Paris ou em Jerusalem, Jobim
se limitava ao trajeto do local do show
ao hotel, isolando-se neste. Ao inv6s de
passeios e visits, televisao e bebida no
quarto. Como compatibilizar esse trago
de misantropismo corn a exuberfncia da
pessoa, a opcao burra de um home in-
teligente?
Como todo grande criador, Ant6nio
Carlos Jobim era uma criatura comple-
xa, misteriosa, multifacetada. Sergio
Cabral reduziu-o a element de arquivo,
pingado em recortes de jornais. A divida
dos intelectuais brasileiros com o cria-
dor de Garota de Ipanema permanece
em aberto. At6 quando? *


Os Maiorana da segunda geracao dei-
xaram de lado, mais uma vez, a li9ao de
sagacidade do pal, que jamais formalizou
abertamente sua escolha political em elei-
rao, para apostar naparceria de poder com
um candidate, credenciando-se a obter dele
ate a alma (nIo teria sido assim que se
viabilizou o "convEnio" Funtelpa/TV Libe-
ral?). Foram para o lado errado em duas
ocasioes mais recentes e aceitaram ven-
der a opiniao numa anterior. Erraram de
novo ou acertarao pela primeira vez?
E temerario responder categoricamen-
te a esta e a muitas outras perguntas que
sao feitas no moment, raras buscando al-
guma li io moral. A campanha eleitoral
s6 agora vai para as ruas, depois de ter
arrombado todos os bastidores. Justamen-
te porque ha muitas e bisicas incertezas,
tudo indica que vai ser uma autentica guer-
ra, a ser travada dentro de uma diretriz que
s6 consider feio perder.
Pelo menos uma coisa, entretanto, ja esta
bem clara: qualquer que venha a ser o re-
sultado final, em outubro ou novembro,
quem sempre perde 6 o Para. Perde a pos-
sibilidade de comecar um novo seculo com
lideranga nova e cor um projeto digno do
nome, compativel com o que lhe reserve o
seculo XXI. A n~o ser que, por um desses
milagres da surpreendente vontade huma-
na, o eleitorado revire esse quadro politico
estratificado e aposte na inc6gnita da equa-
c5o, optando pela incerteza ao inv6s de sub-
meter-se A certeza do velho e etemo na
political paraense: a political dos coron6is,
fardados ou nao.





4 JORNALPESSOAL 2' QUINZENADE JULHO/ 1998




Mais um junior



na political do Para?


As elei6oes que se realizaram no Para
nos illtimos anos tiveram uma atragao
especial. E, na verdade, suspense tipico
de filme policial B (ou novela da Globo),
que ameaga se renovar na pr6xima dis-
puta eleitoral: Romulo Maiorana Jiunior
sera candidate a um cargo majoritario?
(Cargo proporcional nerm cogitado por
sua excelencia.)
Nao haveria nada de normal nessa
pretensao, muito pelo contrario. Afinal,
Rominho ja term sua disposigao uma
das maiores estruturas de poder no Es-
tado, o imp6rio de comunicaggo que her-
dou do pai, corn os outros seis irmaos e a
mae. Por isso, tambem se tomou um dos
poderosos do lugar, mesmo sem aparato
institutional. A pretensao de ir alem atin-
giuu seu ponto mais avangado neste ano:
Romulo Jr. chegou a se afastar de sua
empresa e aceitar o lanaamento do seu
nome como candidate do PL, partido ao
qual esta filiado.
Mas, no dia 30 de junho, antes de
embarcar para Paris, onde daria sua ja
famosa contribuinao moral e emotional
para o resultado alcangado pelo Brasil
na final da Copa do Mundo, RM n 2
assinou um artigo (bissexto, como de
hAbito) na primeira pagina de O Liberal
("Ao nosso querido Para"), decorado no
alto por sua pr6pria foto, comme-il-faut.
Para frustradao dos eleitores, que ja
o tornavam visivel nas pesquisas do Ibo-
pe, Rominho acabou se submetendo ao
"forte apelo" feito por sua mae, Dea,
"para que permanecesse pelo menos
mais tres anos a frente das Organiza-
cbes Romulo Maiorana, period este
necessario para a consolidaiao e a tran-
sicgo para uma nova, modern e atuan-
te estrutura organizacional" da empre-
sa.
A julgar pelo nao muito claro texto
subscrito por Rominho, em 2001 ele po-
dera se apresentar, finalmente, como
candidate ao govemo do Estado. na elei-
gao que se realizara no ano seguinte.
Essa seria a maneira de por fim "a essa
political de traidores e traidos que s6 nos
avilta e prejudice o nosso progresso,
conforme diz no artigo.
Mesmo na direcgo de sua corporaqao,
entretanto, RM-2 ja teve essa oportuni-
dade, quando surgiu a possibilidade de


enfrentar o traidor de seu pai, H6lio Guei-
ros (Romulo reconciliou-se com o ex-
amigo antes de morrer, mas os filhos di-
ziam que jamais engoliriam os batraqui-
os morais despejados por H6lio de seu
bem cuidada criacao de improperios). Na
hora do vamos ver, porem, o grupo Li-
beral preferiu deixar principios de lado e
apoiar o home que fizera ataques vio-
lentos a familiar e a pr6pria Dea. Os ci-
frOes manejados por Gueiros falaram
mais alto do que a hist6ria, a moral e os
bons costumes. Nao pela primeira, nem
pela iltima vez.
Na vida political o comportamento de
Rominho poderia vir a ser diferente?
Ele promete se tornar "um legitimo de-
fensor dos interesses do meu Estado,
em tempo integral", se conquistar um
mandate (o possivel, na eleicao deste
ano, teria sido o de senador). Milagres
sempre podem ocorrer e o que trans-
mutaria o ardiloso comerciante, uma
maquina de ganhar dinheiro, sempre
pensando s6 em si e no grupo sob seu
control, em um paladino das causes
coletivas, nao seria o primeiro, mas tal-
vez viesse a ser dos mais celebres na
sofrida terra paraense, anemica de ver-
dadeiras liderangas piblicas.
Mesmo ainda nao tendo chegado aos
palanques, o principal executive do


O que justifica a existencia da classes
political e a sua ligaCgo professional ao
povo. Nenhum trabalhador ter uma de-
pendEncia tcnica tao extremada do povo
quanto o politico. Com o voto, o politico
desfruta de um poder que, muitas vezes,
nao ter qualquer outro atributo pessoal
como sustentaculo. Sem o voto, toma o
caminho do ostracismo e, as vezes, da
absolute inutilidade. Paradoxal, porem, e
o distanciamento que o politico costume
estabelecer a media que sobe na hie-
rarquia do poder. Chega a ignorar de
onde veio e despreza o povo que lhe con-


grupo Liberal ja parece iniciado na lin-
guagem promesseira e obliqua dos ve-
Ihos politicos. Comunica ao distinto
public, por exemplo, ter sido "chama-
do para uma reuniao cor as mais ex-
pressivas liderangas political do Esta-
do, tentando concretizar uma uniao que
realmente beneficiasse o Para, dando
inicio a uma nova era" no Estado, sem
os traidores de sempre.
Emocionante, mas muito pouca in-
formaago para excessive ret6rica. A
reuniao, ao que parece, foi menos para
defender os mais altos interesses do
Para e sim para tender as conveniEn-
cias de alguns personagens. Por mais
que tivesse sido bem sucedida, o maxi-
mo que dela resultaria seria melhorar
a posicao de uns poucos, traidores ou
nao, jamais da maioria. Mesmo porque,
de maioria e de povo, Romulo Maiora-
na Jr. nao foi, nao e e e provavel que
jamais venha a ser propriamente um
especialista, nem mesmo um interpre-
te. Se agora ele optou pelo sabio apelo
da mae, a nao que que se opere um
milagre nos pr6ximos tr8s anos, espe-
ramos que repita a dose em 2001. Para
o bem de todos e felicidade geral do
Para, que imite, em escala local, a op-
cao de um reizinho de verdade, 157
anos atras. *


feriu o mandate. Exonera-o at6 da prer-
rogativa de ter inteligencia.
Chico Anisio popularizou esse mode-
lo patol6gico de politico atraves de um
personagem de televisao. Mas nao e pre-
ciso ir a reprodugao em caricature para
descobrir o original. Basta analisar-lhe o
discurso, confrontando a ret6rica com a
realidade.
No discurso de oficializagao da sua
candidatura, na convenqao do PSDB, ja
seguindo o roteiro de seus marqueteiros
(esperangosos de atribuir-lhe um caris-
ma medi6nico), o governador Almir Ga-


A linguagem dos


politicos





JORNALPESSOAL 2- QUINZENADE JULHO/ 1998 5


briel bateu forte em seu
concorrente direto, o se-
nador Jader Barbalho.
Nao importa que, ate a
v6spera, Almir tivesse
feito tudo para contar
corn o mesmo cidadio na
sua coligacio. Como Ja-
der nao aceitou, passou a
exemplificar o mal. Ti-
vesse aderido, ganharia o
silencio obsequioso do
govemador, no minimo. "
Contrariado, Almir
Gabriel tratou de lembrar
seus ouvintes para as n6-
doas de um passado ainda bem recent.
"Quem ja se esqueceu do atraso do pa-
gamento do funcionalismo?", comegou
o governador, transferindo para os enor-
mes ombros e o vasto reposit6rio de cul-
pas de Jader faganha de seu successor
em fatidicos nove meses, o vice Carlos
Santos (maestro de uma rapinagem de
fim de festa).
Tudo bem: Carlos Santos 6 responsa-
bilidade de Jader, que o escolheu para
companheiro de chapa e sabia muito bem
o que estava preparando para a popula-
c9o (ja nao bastasse o chefe). Mas quem
foi mesmo que, por livre e espontanea
vontade, selecionou Helio Gueiros Jr.
como seu vice-goverador?
"Nao aceitamos panelinhas de uma
familiar ou de um grupo", tonitroou sua
excel8ncia. Mas quando o prefeito H6-
lio Gueiros lhe mandou a lista triplice de
candidates a vice, por que Almir esco-
lheu outro Gueiros (houve ate sugestao
para o aproveitamento da professor
Terezinha, descartada de pronto pelo
marido)? Por que nao escolheu Luiz Ota-
vio Campos, que haveria de ungir, quan-
do outra ja era a conjuntura, como lider
do governor, president da Assembleia
Legislative e, agora, por falta de outra
opcao, candidate ao senado (e, depois,
quem sabe, conselheiro do Tribunal de
Contas dos Municipios)? Preferiu o Guei-
ros Jr. para tirar proveito de um nome
de maior apelo eleitoral, independente-
mente do aspect etico ou moral dessa
decisao. 0 goverador 6 mesmo contra
todas as panelinhas e grupos, ou s6 con-
tra os que nao fazem parte do seu pane-
dlo e do seu grupao?
Sua moral utilitaria (ou camale6nica,
para usar qualificativo mais apropriado
a tucanos de plumagem furta-cor) faz
cor que pega ao eleitor a desclassifica-
9ao do oponente, alegando que ele nao
ter a competencia, a experiencia e a
honradez exigidas de um administrator


da coisa public, mas se
disponha a esquecer essas
condigces caso o indigita-
S do se tome seu aliado. Uma
verdade para o piblico.
Outra para Almir Gabriel.
Palavras, palavras e des-
mem6ria. A mesma des-
mem6ria que leva Jader
62 Barbalho a, candidamente,
dizer que volta a se unir a
quern mais o xingou na vida
S pfblica (e vice-versa) por-
que nao 6 homem que olhe
para o passado, quem quer
caminhar para frente olhan-
do para tras nao consegue caminhar


O president da Assembleia Legisla-
tiva, Luiz Otavio Campos, aproveitou
uma questao de ordem, apresentada pelo
deputado Jos6 Carlos Lima, e suprimiu
da Lei de Diretrizes Orgamentarios para
1999 a emenda que reduzia de 1,8% para
1,5% a aliquota do Tribunal de Contas
do Estado. Ze Carlos argumentou que a
emenda fora apresentada por Zenaldo
Coutinho, do PSDB, diretamente a mesa
do legislative, sem passar pela comissao
tecnica competent, como manda o re-
gimento interno. Por isso, seria nula (ver
Jornal Pessoal 190). Admitida a pro-
cedencia do raciocinio, a participaqgo do
TCE no orgamento estadual voltou, as-
sim, aos 1,8% originals. E ninguem mais
falou no assunto.
O que levou o PSDB, autor da inicia-
tiva, a voltar atras? Segundo a versao
oficiosa. tudo teria decorrido da combi-
nagao de excess de zelo dos assesso-
res do govero cor uma impetuosidade
partiddria. Solidarios cor o goverador
diante da decisao do TCE de fazer 17
ressalvas a sua prestagao de contas re-
lativa ao ano passado, os tucanos for-
mais e informais decidiram retaliar o
tribunal, suprimindo-lhe quatro milh6es de
reais da sua previsao de receita para o
pr6ximo ano. Mas a vinganca foi tao
drastica que o pr6prio govero resolve
contemporizar, restabelecendo o status
quo ante, para citar expressao de largo
uso entire os articuladores da manobra.
O pr6prio TCE, entretanto, nao se
beneficiary dessa restauracgo. Se man-
tiver as ressalvas propostas pelo conse-


bem". Jader diz que o que o preocupa e
o future do Para e, por isso, se une "com
quem quiser somar conosco". Mas qual
o projeto que Jader e H61io tnm para o
Para, capaz de anular as verdades que
cada um proclamou ao atacar o outro,
estabelecendo uma nova credibilidade
em substituicao a que destruiram no
exercicio do poder?
Assim, quanto menos consciencia ti-
ver da hist6ria, mais manobravel se tor-
na o eleitor, menos cidadao ele e. Es-
quecendo o passado, fica mais exposto
as manobras do present e do future.
Passa a ser a razao maior de existir dos
politicos e, tambem, a causa da sua
destruig9o. 0


Iheiro Lucival Barbalho, tio do senador
Jader Barbalho, estara sujeitando-se a
recibar a acusag~o de partidarismo. Se
reformula-las ou retira-las, dara a impres-
sao de que houve um entendimento pa-
ralelo e acabou se submetendo a pres-
sao do executive. Em ambas as circuns-
tancias, o tribunal se enfraquecera dian-
te da opiniao public, exatamente quan-
do o governor faz ou program o preen-
chimento de vagas no TCE e no TCM
(Tribunal de Contas dos Municipios) por
explicit motivacao political.
Enfraquecer esses tribunals tera sido
o objetivo maquiave1ico do govemo? Tal-
vez. Enquanto seus assessores estuda-
vam a retaliagao, o governador recebeu
dossies mostrando que a familiar de um
conselheiro do TCE, incluindo aderen-
tes, fatura em torno de 130 mil reais por
mes, tendo no alto a esposa do conse-
lheiro (aposentada e recontratada), en-
quanto no TCM a familiar do maior dos
marajas chega a embolsar quase R$ 100
mil mensais.
O goverador teria ficado indignado
com os nmimeros que lhe foram apresen-
tados, mas tanto o que o fez inspirar a
emenda clandestine do deputado tuca-
no, quanto a sua retirada posterior, nao
foi a moralidade public. A motivagao
atende por outra classifica9ao: conveni-
encia political. A mesma atribuida a ori-
gem de todo o imbroglio, findo o qual
talvez ninguem mais se lembre de por
que e como foi que tudo comegou. Acon-
selha a sabedoria popular nao se falar
de corda em casa de enforcado. *


A historia de volta

ao ponto de partida


vil





6 JOURNAL PESSOAL 29 QUINZENA DE JULHO / 1998


SCartas 111

C' omo seu leitor assiduo, hoje tomo a
liberdade de escrever-lhe sobre seu
comentario do Buraco da Palmeira.
Sua id6ia 6 aceitavel, por6m jamais a
Prefeitura construira uma Praca. Ela quer
contiuar bagunqando o centro.
A noticia sobre o projeto do buraco 6
inviavel. Sera que a Prefeitura nao sabe
que nao podera construir para vender?
O municipio nao pode ser incorporador
imobiliario, o que o Prefeito quer fazer.
Estude o assunto.
Paulo da Silva Moraes

D esde meus 13 anos ja opinava que
Joao Gilberto era e 6 o maior cantor
do mundo. Por que nao? E apesar
das vis6es delet6rias de Jos6 Ramos Ti-
nhorao e Wilson Martins, um pais que tem
Tom "Brasileiro" Jobim, Vinicius de Mo-
raes, Chico Buarque, Baden Powell, Car-
los Lira, Newton Mendonga, Silvio C6sar,
Ronaldo B6scoli, Marcos e Paulo S6rgio
Vale, Johnny Alf e Os Cariocas nao pode
deixar de acreditar no seu future musical.
Contudo, pena que a nossa juventude (e a
velha guard tamb6m) pouco conhega
aquilo que tu falas sobre as emog9es e sen-
sac9es da Bossa Nova. Como dificilmente
encontro artigos como o teu nos jomais lo-
cais, parab6ns, impoluto Licio, por comen-
tar o prazeroso livro da Helena.
Eduardo Andr6
Risuenho Lauande


Final ingl6rio
O final da carreira political do ex-
senador Jarbas Passarinho foi tao me-
lanc6lico, por exclusive erro de avalia-
cao dele, que a grande imprensa nem
se dignou a registra-lo. No entanto,
nenhum politico foi tanta coisa no Para
depois de 64 quanto ele. Poucos, em
toda a hist6ria republican paraense,
tiveram o brilho de Passarinho. De di-
mensao national, apenas Lauro Sodr6
e Serzedelo Corr8a ombrearam-se a ele
entire os nossos politicos, mas alguns
centimetros abaixo.
No entanto, nas tr8s iltimas eleig6es
de que participou, na primeira usando
as muletas de Jader Barbalho, Passari-
nho nao fez jus a pr6pria biografia. Des-
ta iltima foi excluido nas preliminares e
ainda teve que engolir um batraquio
imenso, sem direito a reclamaiao. Mes-
mo assim, merece uma analise equipa-
ravel a sua importincia, ao menos um
requiem de luxo.


Jornalismo da pesada


Ha um novo tipo de jomalismo inves-
tigativo na praca. Na terminologia do mo-
mento, seria dark, heavy ou seja la que
expressao inglesa corresponda ao velho
"botar pra quebrar", obviamente adap-
tado. Um dos expoentes desse "ultimo
grito" no setor, Claudio Tognolli, deu uma
"entrevista explosive", como ela foi apre-
sentada, a Caros Amigos, publicacqo
mensal paulista que esta encantando os
leitores mais jovens.
A entrevista 6 um perigo porque jus-
tamente os mais novos podem leva-la a
serio. Esperei que profissionais mais
competentes se manifestassem. Desde
entao, passados dois niumeros de Caros
Amigos, o 6nico que tentou enquadrar o
barbarismo de Tognolli foi Myltainho
(Mylton Severiano Filho), um dos maio-
res textos da imprensa brasileira. Mas
Myltainho limitou-se a um ir6nico puxar-
de-orelha, apenas pedagogia individual,
sem maior valor demonstrative.
Tomando como liW6es peripat6ticas as
declaraq6es do reporter da Folha de S.
Paulo, um joralista aprende como nao
deve fazer.
Para fazer uma reportagem sobre cor-
rupcio policial, Tognolli passou uma sema-
na "fumando crack [na praga da S6] corn
os caras para ver como a policia extor-
quia". Nao dava para praticar o tal do "jor-
nalismo-verdade" sem fumar crack? Para
fazer reportagem sobre prostituieao, uma
jomalista tem que se prostituir? Ou, indo
ao extreme do paroxismo: para falar sobre
assassinatos, 6 indispensavel morrer?
Tognolli parece ser o mais intimorato
dos rep6rteres (embora ja nao se consi-
dere mais um Mciver armado de cane-
ta), ao denunciar a "Mafia do dend8".
Ela teria sido montada em toro dos bai-
anos, sobretudo dos artists, como Cae-
tano Veloso e Gilberto Gil, mas contando
cor a cobertura de poderosos, como
Ant6nio Carlos Magalhaes. "Muita gen-
te foi demitida [nas redagoes] por falar
mal da Mafia do dend8", garante o re-
p6rter. "Quem fala muito mal deles em
grande 6rgao de imprensa nao dura".
Agressivo na entrevista, ainda assim
Tognolli acha "delicado citar o jomal",
naturalmente membro da mafia, que en-
comendou a ele uma entrevista cor Gil-
berto Gil, apedido do pr6prio compositor
baiano. Tamb6m nao da o nome de um
amigo seu que "quase foi subornado"
(existe o "quase-suborno"?) por um "ico-
ne" da mesma mafia (da a entender que
6 Caetano, mas nao se atreve a dizer


claramente, talvez para nao esticar sua
lista de processes, 32, segundo diz).
Se a "mafia do dendU" 6 tao podero-
sa, como 6 que Paulo Francis, um critic
feroz de Caetano Veloso, dos baianos e
dos nordestinos em geral, permaneceu
tanto tempo com prestigio em alta cons-
tante na grande imprensa, at6 morrer?
Estranho, ja que Francis era amigo de
ACM e este, amigo de Caetano, al6m
de ser quem, "ate alguns anos atras",
"mandava na revista Veja".
Tudo muito mais intrincado do que o
jornalismo messianico de gente que nas
reda96es, muitas vezes at6 com sinceri-
dade, simplifica o quanto pode para se
estabelecer, nivelando o mundo por si
pr6prio. Felizmente, nao consegue.


Pobre

imprensa
Em entrevista a A Provincia do
Pard, Ana Diniz 6 apresentada como "a
primeira mulher a atuar como reporter
na imprensa paraense". E uma conquis-
ta dela que ninguem pode tirar. Sua bio-
grafia no jornalismo local esta definida e
seus meritos lhe permitem sustentar as
opini8es que emite. Concordo corn a
maioria delas, mas fiquei surpreso e cho-
cado cor um trecho da entrevista (pu-
blicada no caderno Mulher do dia 5).
A partir de uma premissa correta (o
baixo nivel de informagao dos estudan-
tes de comunicagao), Ana chega a uma
attitude pol8mica (deixar de "perder tem-
po" cor eles) e a uma conclusio equi-
vocada: "Eles precisam estudar Biologia
para entender como o c6rebro human
funciona".
Ora, alguns dos melhores c6rebros
nunca entenderam como funcionavam,
nunca dominaram o process de criagao
e jamais se preocuparam cor a anato-
mia, a fisiologia, a quimica ou que seja
- a biologia desse misculo. Nem preci-
savam, alias. Poucos foram completes
nesse particular; apenas para dar dois
exemplos, T. S. Elliot e Octavio Paz.
Mas a media que seus entendimentos
analiticos melhoraram, sua melhor cria-
cao declinou e vice-versa. Quem pos-
sui um cerebro criador ter que deixar a
tarefa analitica ou explicativa para os
critics, ao menos para nao ameagar-lhes
o emprego, nem complicar-lhes a com-
petencia, ja de si tao mal definida.





JORNALPESSOAL 2- QUINZENADE JULHO/ 1998 7



De bons servidores publicos

ao novo ceu e velhas estrelas


Mesmo no period critic da censura,
do control e da repressao political do
regime military, sobreviveram, sobretudo
nos escales medios da administragao
pilblica, servidores decentes, honestos,
competentes e corajosos. Nem todos
mantinham essas virtudes por opgco po-
litica. A maioria, alias, o fazia por impul-
so 6tico ou moral, mas tamb6m por auto-
respeito professional. Gragas a essa gen-
te, an6nima e vital, o govemo nao se re-
duziu a uma maquina totalitaria, nem sua
fortaleza se manteve inexpugnavel a im-
prensa independent.
Os jornalistas que tamb6m atuaram
cor dignidade nesse period passaram
a respeitar os poucos bons interlocuto-
res que restaram. Neles depositaram
parte das esperancas de que algum dia o
governor voltasse a ser (ou passasse a
ser) a representagao da sociedade, e nao
feudo de uns poucos usurpadores do po-
der.
Desde que ganhassemos a confianga
desses verdadeiros servidores publicos,
eles aceitavam expor-se a riscos, con-
versando conosco, nos passando infor-
maa6es ou nos alertando sobre o que
acontecia na alta cfpula, onde se con-
centravam as mais importantes decisbes
referentes ao pais, nem todas reveladas
a sociedade, ou cujos processes decis6-
rios eram escamoteados do piublico. Sem
esses cidadaos, os tempos teriam sido
mais negros, ou o negrume ter-se-ia pro-
longado por mais tempo.
Em qualquer escaninho do servigo
public e em qualquer ponto do territ6rio
national, mesmo sendo francamente mi-
noritarios, esses bons t6cnicos sempre
conseguiam preservar seu compromisso
com o interesse superior da nacao. Ra-
ras vezes apareceram, seja porque agir
de outra maneira era expor-se a guilho-


tina, seja por uma natural identificacao
cor o anonimato.
Claro que em outras circunstincias e
sob outra motivacao, o simbolo desse tipo
de personalidade 6 o "Deep-Throat". A
fonte secret que ajudou os jornalistas
Bob Woodward e Carl Bernstein a re-
velar o escdndalo do Watergate atraves
das paginas do Washington Post, cul-
minando na renincia do president dos
Estados Unidos, Richard Nixon. Suspei-
ta-se da identidade do informant (a mais
verossimil e o general Alexander Haig,
chefe da casa military de Nixon), mas ela
permanece um mist6rio, passado um
quarto de s6culo dos acontecimentos.
Penso em dois brasileiros que, no ven-
tre da baleia, como o biblico Jonas, sem-
pre serviram de referencia para jornalis-
tas dispostos a bem informar seu publi-
co, enfrentando o combat da intimida-
,o e da censura official. Breno Augusto
dos Santos era uma fonte segura e con-
fiavel mesmo transitando por um univer-
so que envolvia uma estatal (a Compa-
nhia Vale do Rio Doce e sua subsidiaria
mais diretamente afeta a ele, a Doce-
geo), uma aco espuria do SNI (no ga-
rimpo de Serra Pelada), muitos interes-
ses sujos e um perigoso jogo de pres-
soes. 0 mundo em torno de Breno, corn
seus colegas e empregados, era como
uma rocha no mar encapelado talvez
dificil na aproximagao, mas porto segu-
ro para os salvados da desinformaqio
(ou da contra-informagao).
Num outro lado desse mesmo univer-
so, Maria de Lourdes Davies de Freitas
abrigava conversas s6rias sobre a nova
(naquela 6poca) intrusao da ecologia no
mundo dos neg6cios (e vice-versa), uma
novidade propicia as manipulac6es e
mistificag6es (como, de resto, ainda hoje).
Mesmo os que divergissem dela ou que


a confrontassem nao encontravam sua
porta fechada, nem tinham o dissabor de
v8-la batida na cara. Lourdinha sempre
foi uma interlocutora democratic, mes-
mo quando defendia ardorosamente seus
pontos de vista, muitas vezes opostos ao
do entrevistador.
E melanc6lico ver t6cnicos de quali-
dade, como esses dois, afastados ou ali-
jados do nivel decis6rio de suas esferas
de competencia. Ruim para o govemo,
pior para a opinido piiblica. Ainda com-
prometidos com suas consci8ncias, so-
breviventes como eles do servigo ver-
dadeiramente pfblico procuram resistir
a um massacre sistematico por parte da-
queles que, mirando no corporativismo,
acertam tamb6m e especialmente na
essencia do Estado.
Ha muitos meses, por exemplo, Lour-
dinha esta envolvida no "Ceu do Novo
Mundo", um projeto de largo espectro
por ela idealizado. Seu ponto alto seria
um festival cientifico-cultural sobre a
Amaz6nia, que seria realizado neste ano,
na Alemanha. Tantas foram as dificul-
dades que o projeto se reduziu a um li-
vro, no qual ela reuniu especialistas em
Amaz6nia baseados no Brasil (poucos
ainda, infelizmente, na pr6pria regiao) e
no exterior.
O livro esta quase pronto, devendo ser
langado at6 o final do ano. Mas, por en-
quanto, apenas em ingl8s e alemro.
Lourdinha nao disp6e dos recursos ne-
cessarios para fazer a edigAo em portu-
gues, apesar do apoio que teve do presi-
dente do CNPq (Conselho Nacional de
Desenvolvimento Cientifico e Tecnol6-
gico), Jose Galizia Tundisi.
Ao que parece, o c6u do novo mundo
esta condenado a ser abrilhantado pelas
estrelas do velho mundo, estas sempre co-
lonizando, aquele sempre colonizado. *


Poucos de n6s conseguirao ser com-
pletos, capazes de entender a obra que
realizam. Ja satisfaz fazer uma ou outra
coisa, obrar ou explicar, para sermos lu-
sitanamente basicos. Entendo o m6vel
do desabafo de Ana Diniz, mas 6 preci-
so circunscrev8-lo para que os estudan-
tes, sempre carentes de investimento,
como tamb6m sempre justificando-o, nio
fagam ilag6es desbaratinadas de liqbes
incorretamente dadas. Talvez tudo sejus-
tifique por um bordio malicioso, embora


nao improcedente: quem sabe, faz; quem
nao sabe, ensina.
Nem sempre um bom mestre gera um
bom discipulo. Mas 6 pouco provavel que
de um mestre ruim result um proveitoso
aluno, a nao ser que este negue aquele.
Um te6rico nem sempre 6 um bom execu-
tor de id6ias, inclusive das suas, do que da
prova nosso principesco president. Mas
nem sempre ganha-se em pragmatismo
confiando-se num mestre de obras, como,
domesticamente, mostra Alacid Nunes.


Assim, 6 melhor ser didatico e pedag6-
gico, mesmo no extravasamento da just
indignacgo. Quando nada, para nAo ser
mais mal compreendido do que de costu-
me nos moments em que a imprensa faz
a mediagdo entire o personagem e o publi-
co (rela56es cada vez mais mididticas,
para usar a infeliz expressao), especialmen-
te a partir do monop6lio dos cursos de co-
municagdo, que o Brasil ostenta com ex-
clusividade no planet sem qualquer hon-
ra, alias. *






Ao contrario
Mensagem publicitaria e
para ser aceita sem maior re-
flexao, ou sem reflexdo algu-
ma. E assim que funciona. Mas
coloquei-me diante de um out-
door da prefeitura de Bel6m e
ousei pensar na sua mensagem:
"Quem acredita ve acontecer".
No subconsciente, o alvo
sao os sao tom6s da vida, cri-
ticados por Cristo porque s6
acreditam no que veem. Cris-
to exigia f6 dos que pretendi-
am entrar na sua igreja, ben-
dizendo os que, mesmo sem
ver, ainda assim acreditavam.
O problema 6 que:
1) Edmilson Rodrigues noo e
(ainda) Cristo.
2) Obra p6blica nao 6 religiao:
esta requer f6; aquela, fatos.
3) Transformar atos da adminis-
tragFo publica em questao de f6
e empulhaao ou ilusionismo. 0
saudivel 6 conquistar a confi-
anga com obras, nao com pro-
messas. OPT pretendia inovar
nesse aspect. Desistiu de vez?
Como critical construtiva e
colaboragao desinteressada,
al6m de gratuita, proponho a
PMB um outro slogan, menos
milenarista e mais secular:
"Quem ve acontecer,
acredita".
Tenho esperangas de acre-
ditar, nem que seja um pouco.


Magister
Nosso primeiro professor
de sociologia na faculdade
esqueceu seu exemplar do
manual de Alfredo Povifia
sobre a carteira. Quando vol-
tou do interval, tinhamos "ri-
fado" o livro. O mestre pas-
sou duas ou tres semanas sem
dar aula. Para nosso desalen-
to, entretanto, conseguiu ou-
tro exemplar e logo estava 1,
pontificando com suas mis li-
c9es bem decoradas.
Lembrei disso ao ler uma
nota no "Rep6rter 70" sobre
o furto do material diditico de
um mestre da casa. Ainda
bem que estamos em period
de f6rias. Talvez d8 para re-
por tudo antes que voltem as
aulas e antes que os alunos
descubram a fonte de tanta
sapiencia.


Por aqui
O Boston Globe demitiu
sua premiada colunista Patri-
cia Smith depois de ela haver
confessado que inventava par-
te de seus textos. Ja foi pro-
vado que Arnaldo Jabor co-
mete o mesmo pecado em re-
lagco aos seus "ensaios", cor
o agravante de nao ter feito o
arrependimento piblico de
Patricia. Mas no Brasil, ao
que parece, a imprensa nio
tem a mesma preocupagao
com a 6tica e nao tem o mes-
mo respeito com seu p6blico.
Pior para n6s. Jabor continue
emitindo seu brilho da Folha
de S. Paulo e 0 Globo para
seus satelites.

Espirito de

epoca
O leitor deve considerar
esta como uma tipica edicgo
de julho. Alguns temas mais
densos ficardo para agosto. E
me permit nao ir atras de tan-
tos detalhes politicos para nio
agravar a tensdo destes dias
de trabalho pesado com o de-
sejo de colocar as pernas para
o ar. Feliz retorno a realidade,
veranistas.


A voz
A coluna Nhenhenhem, que Jorge Bastos Moreno escreve
aos sabados pm 0 Globo, publicou 13 notas (que antigamente
se chamavamn gossips) na edig9o de 27 dejunho. Oito delas
citavam o president Fernando Henrique Cardoso. Duas se
Seferiam ao senador Ant6nio Carlos Magalhies, que poderia
ser tornado como a fonte das informagies sobre o president.
Jornalismo nao 6 isso ai.


Sem eco
A Prefeitura de Bel6m sur-
preendeu cor 24 meias-pi-
ginas de anincio institutional,
seis em cada um dos tres jor-
nais didrios de Bel6m (mais a
edigAo local da Gazeta Mer-
cantil), num s6 domingo. Qual
a motivagao? O encerramen-
to do prazo da propaganda ins-
titucional do governor do Es-
tado, em fung9o das restrig6es
impostas pela legislago elei-
toral ao candidate A reeleigao
governmental. O PT pode-
ria, assim, retrucar aos ata-
ques de Almir Gabriel, que se
declara dono das principals
obras p6blicas executadas em
Bel6m, sem correr o risco de
replica.
Mais um round da guerri-
nha governor do Estado-PMB.
Maquiavel, muito mais que
Lenin, pode te-lo inspirado.


Portucales
Seguindo fielmente o model do manual dejornalismo da
casa, um reporter da Folha de S. Paulo escreveu a
seguinte preciosidade sobre ojogo Brasil e Holanda, depois
do gol de Ronaldo, marcado aos 40 segundos do segundo
tempo: "At6 entao, o esquema calculista predominou. A
disposigao receosa resultava em agoes ofensivas apenas
quando garantida a seguranga defensive".
Que lingua essa nossa.


ALERTA
Senhores assinantes: ao rehovar a assinatura exiga a
identidade de quem se apresentar para fazer essa
renovagco. S6 uma pessoa, devidamente autorizada, esta
incumbida dessa tarefa. Assim se evitard a acgo de algum
oportunista. Faga contato direto com a redag~o do JP em
caso de dfivida.


Journal Pessoal
Editor: Licio FIavio Pinto
Sede: Rua Aristides Lobo, 871 I CEP: 66 053-020
Fone: 223-1929, 241-7626 e 241-7924(fax) Contato: Try. Benjamin
Constant, 845/203 I 66 053-020 Fone: 223-7690
e.mail: lucio@expert.com.br
Editoragio de arte: Luizp6 I 241-1859


Marketing?
Diz um porta-voz da
PMB que a prefeitura, ao
patrocinar a promogdo Ci-
nema em Casa, dojornal O
Liberal, nada mais fez do
que uma escolha de marke-
ting. Acompanhando os vi-
deos, iria o selo do "gover-
no do povo", al6m da midia
obrigat6ria, mais do que
compensando os 100 mil
reais comprometidos com as
Organizac9es Romulo Mai-
orana.
A 16gica da explicagao
nao inclui o laudat6rio dis-
curso do prefeito Edmilson
Rodrigues sobre o alto sig-
nificado cultural da promo-
9~o. Admitindo-se, porem,
que seja apenas marketing,
a prefeitura precisa correr
atris dos resultados. Muito
comprador das fitas esti in-
satisfeito, indignado ou re-
voltado com o produto, ad-
quirido pela bagatela de R$
3,99. Ha trechos em bran-
co, chuviscos, desajustes e
uma serie de defeitos, ine-
rentes a um neg6cio de alto
risco e duvidosa qualidade.
Esse 6 o padrdo Liberal.
E tamb6m o padrao PT? O
consumidor-cidadio-elei-
tor pode fazer a associaCao.
E, nesse caso, a PMB esta-
ra pagando para se desmo-
ralizar.


Quase
Para parecer "da casa",
Ricardo Boldrin aparece na
televisAo, num commercial do
"Brasil em Agao", de FHC,
oferecendo "suco de agai".
S6 parece "de casa". Tao
paraense quanto FHC. E os
marqueteiros que apronta-
ram mais essa. Suco de
agai... Nem direito a titulo
n6s temos.