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A boa gente dogoverno jomal PessoalT L c 1 0 F L A v i o P I N T O de volta ANO XI N2 191 2' QUINZENA DE JULHO DE 1998 R$ 2,00 ao Come o (PAG. 5) ELEIQAO 0 enredo de sempre Comega para valer a campanha eleitoral, que promote ser das mais disputadas dos ulti- mos tempos. Os quase-amigos de ontem sdo os inimigos de hoje. Como muito acerto de bastidores ndo deu certo, os antagonismos serdo fortes. Qualquer que seja o resultado, porim, o Pard estd condenado a comegar um novo seculo na contra-mdo da hist6ria. I o hli nenhum personagem no\ o na ultima dispute que sera travada neste s6culo pelo governor do Pard. O enredo da trama principal S\ pode ser previsto com mui- to tempo de antecedencia. Ainda assim, nos quatro dias que antecederam o pra- zo final para a definig9o dos partidos, a 30 dejunho, uma intense movimentagdo de bastidores, cor lances impensiveis (e, at6 agora, inenarrados), se desenvol- veu em torno de dois eixos. Um deles girou sobre o candidate do PMDB pela terceira vez ao cargo, o se- nador Jader Barbalho, duas vezes vitori- oso nesse tipo de dispute (em 1982 e em 1990). Jader decidiu se expor novamen- te a um dificil teste: enfrentar como ad- versario um governador que, pela primei- ra vez, tentara a reeleiygo sem se afas- tar do comando da maquina p6blica es- tadual. Jader esta assumindo o maior risco de sua carreira political, mesmo com o con- solo de, em caso de insucesso, dispor ain- da de quatro anos de mandate como se- nador. Mas experimentard ent~o a pri- meira derrota em oito elei96es disputa- das, perdendo a aura de invencibilidade e a hegemonia political. Nao faz essa es- colha por vontade pr6pria. E que nio lhe restava outra alternative. Com o pragmatismo de sempre, o li- der do PMDB no senado constatou que nao seria desta vez (e talvez nao venha a ser em dia algum) que sua carreira national poderia deslanchar. Em deter- minado moment das iltimas semanas ele teve a certeza de que poderia ocupar a presidencia national do partido, cre- denciando-se como interlocutor qualifi-1, S" 0'T, 0 " 2 JORNALPESSOAL *2-? QUINZENADE JULHO/ 1998 cado do president Fernando Henrique Cardoso e munindo-se de um forte trun- fo para forcar sua base eleitoral a acei- ta-lo fora da corrida pelo governor do Estado, porque bem escorado a nivel fe- deral. Essa possibilidade (ou ilusao) se desfez na vespera da convengco, inter- rompendo a sucessao de vit6rias que Jader vinha obtendo na political national e fechando-lhe o caminho da ascensio at6 a constelagao national do poder como estrela de primeira grandeza. Refazendo seus pianos pessoais, mas mantendo o discurso para consume ex- temo, o senador nao hesitou mais: assu- miu a candidatura ao governor. Aparen- temente, mais do que ele, somente Al- mir Gabriel parecia convencido de que Jader faria mesmo a op9io federal. No dia 25 o senador telefonou para o gover- nador comunicando-lhe que iria disputar a presid8ncia national do PMDB, tres dias depois, em Brasilia. Se vencesse, nao participaria diretamente da eleifio de outubro. Caso contrario, iria enfren- tar Almir. Era a resposta, ainda que tele- finica, aos dois encontros pessoais que o govemador patrocinara para tentar in- corporar Jader a sua coligagio eleitoral. Mesmo com esse aviso, Almir nio parece ter-se convencido de que deve- ria considerar consumada a volta de Ja- der ao ringue local. S6 no dia 28 6 que essa bolha de esperanga parece ter es- tourado, despejando desastradamente o govemador no mundo da realidade. Sua reaqio foi tentar quebrar a base de Ja- der voltando a atrair Helio Gueiros para a sua 6rbita. Foi providenciado um en- contro na resid8ncia do president regi- onal do PSDB, o empresario Femando Flexa Ribeiro. H6lio ficou rouco de tan- to ouvir, manifestou ceticismo diante de um novo acordo, mas aceitou examiner a hip6tese para uma resposta definitive no dia seguinte. Tao certa era a negative da resposta quanto a inutilidade (e mesmo inoportu- nidade) do estratagema tucano diante do ex-prefeito de Belem. No dia 25. depois da comunicaaio telef6nica de Jader a Almir, o lider do PMDB foi abordado pelo empresario Lutfalla Bitar para um en- contro cor Romulo Maiorana Jr. Um jantar foi marcado para o mesmo dia no apartamento do dono da Estacon, no du- plex de cobertura do luxuoso edificio Atalanta, na Doca de Souza Franco. Rominho chegou ao local com o ir- mao, Ronaldo Maiorana, a primeira sur- presa mal recebida por Jader. A segun- da, foi a proposta de que integrasse a Uniao pelo Para, apoiando a reeleigio do govemador. Rominho insistiu na con- veniencia de isolar H6lio Gueiros, exclu- indo-o de uma chapa invencivel: Almir para o governor, tendo um vice do PPB ou do PTB, Jader para o senado (permi- tindo ao pai, Laercio Barbalho, assumir a vaga que seria aberta), com Romulo Jr. na suplEncia. Jader responded com uma pergunta: por que a coligagao nao poderia ser feita em torno do seu nome, ao invs de pressupor o de Almir? A partir dai os interlocutores trataram de engolir o jantar e escapar da situa- cao. Rominho correu para relatar o que ocorrera ao govemador e preparar um alibi para apresentar. tres dias depois, aos leitores de O Liberal, dizendo-lhes que havia sido convocado para o encontro. A iniciativa foi atribuida a Lutfalla, mas Jader se convenceu de que tudo fora pla- nejado pelo pr6prio governador, ou a pe- dido do empresario do grupo Liberal, para que Romulo Jr. se credenciasse jun- to ao seu principal client e aparecesse como o responsavel pela derradeira ten- tativa de "uniao pelo Para", excluindo os traidores do povo e em defesa dos legiti- mos interesses do Estado. A Jader nao restou nem o console de alcangar seu objetivo no encontro: con- seguir uma neutralidade do grupo Libe- ral e uma isengao do govemador na cam- panha electoral. Os veiculos das Organi- zac9es Romulo Maiorana ja assumiram posigio de hostilidade a ele e Almir nio deixa mais dividas de que valera tudo para a reeleigco. Ate mesmo expor-se num encontro com Helio Gueiros, depois que o ex-prefeito ja havia sido informa- do por Jader sobre o tema da reuniao no apartamento de Lutfalla, no qual sua cabega era a piece de rrsistence, como costumam dizer nesses ambientes. Por telefone, Gueiros mandou dizer a Almir, no dia seguinte, que nao havia mais condi96es para um acordo, depois de terem passado um ano sem conversa- rem sequer por telefone. E a uma nova oferta de mais um encontro, nem res- pondeu. O velho PSD dos baratistas, sob a roupagem de PMDB e PFL, voltava a se recompor para enfrentar um "coliga- do", agora disfargado de tucano. Tudo como dantes num quartel remotamente de Abrantes. Em tomo desse eixo gravitou uma das tend8ncias decisivas para a elei9io de outubro. O outro foi uma pesquisa da Vox Populi, encomendada pelo grupo Libe- ral, que chegou as maos do govemador um pouco antes de ele fechar os enten- dimentos eleitorais e bem antes de sua divulgagio pelo jomal da familiar Maio- rana. Os resultados deram 34% da pre- ferencia do eleitorado ao governador, 25% a Jader e 15% a Ademir Andrade. O governador parece ter ficado tio satisfeito com a maior vantage ja es- tabelecida sobre seu concorrente mais pr6ximo que julgou dispensivel escolher como companheiro de chapa um puxa- dor de votos. Optou pela image de um jovem, apontado como trabalhador e li- gado ao mundo da agropecuaria, ao in- terior tao vasqueiro de simpatia. Alem disso, Hildegardo Nunes, mal-sucedido como candidate a deputado estadual duas eleiq6es atras, traria consigo o pai, o ex-deputado federal Alacid Nunes (duas vezes governador, como Jader, derrotado na ultima eleig~o), sem ser precise ceder-lhe uma vaga para a Ca- mara Federal. Se Almir aceitou a pesquisa como ter- m6metro confiavel, o PMDB tratou de impugnar o trabalho da Vox Populi junto ao TRE. Os peemedebistas fizeram questionamentos pertinentes, a comegar pelo descumprimento da exigencia legal de entrega ao TRE, com cinco dias de antecedencia da divulgagio, de toda a base metodol6gica da pesquisa e do ma- terial utilizado pelos aplicadores dos ques- tionarios. A interfer8ncia das perguntas sobre a administragao Almir Gabriel, fei- tas antes da sondagem sobre a prefe- rencia do eleitor em tomo do govemo do Estado, realmente pode induzir em favor do governador na votaaio espontanea, alterando a realidade. O peso conferido a Belem e Ananindeua, redutos favora- veis a Almir, esta em desacordo com os dados censitarios. Alguns resultados nio conferem com a base documental, como as votag6es de Hlio Gueiros e Romulo Maiorana Jr. Mais do que a competencia do PMDB na impugnacio, 6 da seriedade e aplica- cio do TRE na apuragao da verdade que dependera a elucidagio do caso e seu uso como inibidor das manipulac6es pre-elei- torais, cada vez mais frequentes e sofisti- cadas. Ha um consenso nos bastidores de que as pesquisas de opiniao comegam sempre muito tendenciosas, apresentan- do um resultado mais de acordo cor o desejo do client. S6 ganham em consis- tencia quando se aproxima o dia da elei- 9~o, na presung~ o de que apenas a partir dai 6 que passa a existir uma fiscalizagio official mais conseqiiente. At6 esse mo- mento, por6m, as pesquisas ja terao cum- prido, para os que podem paga-las, sua fungio de instrument de manipulag~o da vontade do eleitor. Essa e uma ameaga terrivel para a democracia. * JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JULHO / 1998 3 Oportunidade perdida Ant6nio Carlos Jobim Uma bio- grafia, de S6rgio Cabral (Lumiar Edito- ra, 1997, 545 paginas, R$ 35), nao 6, de- finitivamente, "uma biografia complete", como a anuncia o dono da editor, Almir Chediak (que tambem produziu uma se- rie de preciosos song-books). A tercei- ra biografia escrita desde que o compo- sitor morreu, em dezembro de 1994, esta muito aqu6m do merecimento do perso- nagem e do melhor padrao desse tipo de trabalho, estabelecido pelos autores ame- ricanos (que dispbem de equipe, dinhei- ro e recursos para realizar seu trabalho, aqui geralmente atirado as costas de unm abnegado). S6rgio Cabral, um indiscutivel co- nhecedor da music brasileira, juntou- se a cinco mogas, encarregadas das Pouca gente tern diuvida de que Almir e Jader estao muito pr6ximos na lideranga da dispute e que ela s6 se definira no segundo tumo, quando o uso da maquina official cos- tumna ser decisive. 0 govemador toma-se favorite justamente em fungo de ter ao seu dispor uma estrutura de poder inacessivel aos seus adversarios e que nemmesmo uma boa fonte de financiamentos particulares conseguira igualar, ji que nem todos os me- canismos de transformai ao de poder em voto sao conversiveis tambem em dinheiro. Mas a eleigio s6 nao esta ganha por Almir Gabriel porque Ihe falta carisma pes- soal e densidade political em todo o territ6- rio paraense. Mesmo que a pesquisa da Vox Populi nao tivesse sido manipulada, ela teria mostrado uma situa~io antes da defi- nimCo do dia 30 de junho, quando as posi- c6es de Jader Barbalho e H61io Gueiros ainda nao estavam estabelecidas para o pfblico. Como se arrumou o eleitor a partir de entao? E o que o Ibope iria fazer agora, por encomenda do PMDB. A nova manifestagio tera componen- tes espontAneos e induzidos, que vao defi- nir a trajet6ria dos candidates at6 outubro. Uma das variaveis esta associada ao com- portamento da imprensa. O grupo Liberal devera participar da campanha da reelei- cio, hostilizando a dupla Jader-H61io. NAo e uma variavel desprezivel, muito pelo con- trario. Mas os lideres das comunicacoes no Estado ter perdido seguidas eleic6es, rno exatamente por azar intrinseco, como pensam os mais supersticiosos. A incom- pet8ncia talvez tenha um peso maior. pesquisas, para montar uma agenda comentada da vida de Jobim. Fez pou- cas entrevistas e passou superficial- mente por sobre temas que exigiriam maior aprofundamento, limitando-se a acrescentar opinioes e reminiscencia ao noticiario da imprensa e as apre- sentag6es dos discos. Tem muito mais informa96es do que o livro de Helena Jobim, mas 6 burocra- tico, sem a precisao e a riqueza das boas biografias, tamb6m sem a visao intimista da irma, que idealiza, mas da a media aproximada do final de Tom. Mesmo os dois livros reunidos, ainda 6 pouco para entender a pessoa e o artist Tom Jo- bim, o maior criador de milsica que ja apareceu no Brasil, um dos maiores de todos os tempos no mundo inteiro. 0 Liberal recusou-se deliberadamente a publicar a foto do ano no Para, na qual H61io e Jader aparecem abragados na con- vengao do PMDB. Ha os que acham que essa foto serve para anestesiar a reagao da opiniao piblica. At6 pouco tempo atras ela seria incapaz de admitir a reconcilia- cao de dois cidadaos que chegaram ao ni- vel mais baixo da ofensa pessoal mitua. Mas ha tamb6m os defensores de tese oposta: de que a foto avivara ainda mais o repidio do public, fazendo-o rejeitar nas urnas essa volta ao passado, tao agressiva a mem6ria dos que se permitem cultivar um padrao 6tico e moral. Qualquer que venha a ser a interpreta- Cao correta, a um jomal n~o cabe usa-la para agredir o que 6 o seu compromisso vital: nao brigar corn os fatos. Acima do seu significado, a foto de Jader e Heliojun- tos 6 a image political do ano (e, certa- mente, um retrato fiel do nivel das elites political paraenses). Teria que estar na primeira pagina. Ocupou essa posigco no Didrio do Pard, o jomal de Jader, que, mais uma vez, tenta nao se deixar arrastar pela onda eleitoral, mantendo-se numa an- cora professional (ate mesmo para nao per- der os anuncios oficiais), e por A Provin- cia do Pard, que fez uma discreta opaio por Almir. Mas ficou interditada em O Li- beral, que preferiu abrir sua manchete corn a escolha de Hildegardo Nunes para vice de Almir do que render-se ao que era ob- viamente o mais important (ainda que possa ser considerado nefasto): a terceira volta de Jader ao govemo do Para. Cabral refere-se varias vezes ao es- tranho habito do maestro de se solar nos hot6is das cidades onde se apresentava. Fosse em Paris ou em Jerusalem, Jobim se limitava ao trajeto do local do show ao hotel, isolando-se neste. Ao inv6s de passeios e visits, televisao e bebida no quarto. Como compatibilizar esse trago de misantropismo corn a exuberfncia da pessoa, a opcao burra de um home in- teligente? Como todo grande criador, Ant6nio Carlos Jobim era uma criatura comple- xa, misteriosa, multifacetada. Sergio Cabral reduziu-o a element de arquivo, pingado em recortes de jornais. A divida dos intelectuais brasileiros com o cria- dor de Garota de Ipanema permanece em aberto. At6 quando? * Os Maiorana da segunda geracao dei- xaram de lado, mais uma vez, a li9ao de sagacidade do pal, que jamais formalizou abertamente sua escolha political em elei- rao, para apostar naparceria de poder com um candidate, credenciando-se a obter dele ate a alma (nIo teria sido assim que se viabilizou o "convEnio" Funtelpa/TV Libe- ral?). Foram para o lado errado em duas ocasioes mais recentes e aceitaram ven- der a opiniao numa anterior. Erraram de novo ou acertarao pela primeira vez? E temerario responder categoricamen- te a esta e a muitas outras perguntas que sao feitas no moment, raras buscando al- guma li io moral. A campanha eleitoral s6 agora vai para as ruas, depois de ter arrombado todos os bastidores. Justamen- te porque ha muitas e bisicas incertezas, tudo indica que vai ser uma autentica guer- ra, a ser travada dentro de uma diretriz que s6 consider feio perder. Pelo menos uma coisa, entretanto, ja esta bem clara: qualquer que venha a ser o re- sultado final, em outubro ou novembro, quem sempre perde 6 o Para. Perde a pos- sibilidade de comecar um novo seculo com lideranga nova e cor um projeto digno do nome, compativel com o que lhe reserve o seculo XXI. A n~o ser que, por um desses milagres da surpreendente vontade huma- na, o eleitorado revire esse quadro politico estratificado e aposte na inc6gnita da equa- c5o, optando pela incerteza ao inv6s de sub- meter-se A certeza do velho e etemo na political paraense: a political dos coron6is, fardados ou nao. 4 JORNALPESSOAL 2' QUINZENADE JULHO/ 1998 Mais um junior na political do Para? As elei6oes que se realizaram no Para nos illtimos anos tiveram uma atragao especial. E, na verdade, suspense tipico de filme policial B (ou novela da Globo), que ameaga se renovar na pr6xima dis- puta eleitoral: Romulo Maiorana Jiunior sera candidate a um cargo majoritario? (Cargo proporcional nerm cogitado por sua excelencia.) Nao haveria nada de normal nessa pretensao, muito pelo contrario. Afinal, Rominho ja term sua disposigao uma das maiores estruturas de poder no Es- tado, o imp6rio de comunicaggo que her- dou do pai, corn os outros seis irmaos e a mae. Por isso, tambem se tomou um dos poderosos do lugar, mesmo sem aparato institutional. A pretensao de ir alem atin- giuu seu ponto mais avangado neste ano: Romulo Jr. chegou a se afastar de sua empresa e aceitar o lanaamento do seu nome como candidate do PL, partido ao qual esta filiado. Mas, no dia 30 de junho, antes de embarcar para Paris, onde daria sua ja famosa contribuinao moral e emotional para o resultado alcangado pelo Brasil na final da Copa do Mundo, RM n 2 assinou um artigo (bissexto, como de hAbito) na primeira pagina de O Liberal ("Ao nosso querido Para"), decorado no alto por sua pr6pria foto, comme-il-faut. Para frustradao dos eleitores, que ja o tornavam visivel nas pesquisas do Ibo- pe, Rominho acabou se submetendo ao "forte apelo" feito por sua mae, Dea, "para que permanecesse pelo menos mais tres anos a frente das Organiza- cbes Romulo Maiorana, period este necessario para a consolidaiao e a tran- sicgo para uma nova, modern e atuan- te estrutura organizacional" da empre- sa. A julgar pelo nao muito claro texto subscrito por Rominho, em 2001 ele po- dera se apresentar, finalmente, como candidate ao govemo do Estado. na elei- gao que se realizara no ano seguinte. Essa seria a maneira de por fim "a essa political de traidores e traidos que s6 nos avilta e prejudice o nosso progresso, conforme diz no artigo. Mesmo na direcgo de sua corporaqao, entretanto, RM-2 ja teve essa oportuni- dade, quando surgiu a possibilidade de enfrentar o traidor de seu pai, H6lio Guei- ros (Romulo reconciliou-se com o ex- amigo antes de morrer, mas os filhos di- ziam que jamais engoliriam os batraqui- os morais despejados por H6lio de seu bem cuidada criacao de improperios). Na hora do vamos ver, porem, o grupo Li- beral preferiu deixar principios de lado e apoiar o home que fizera ataques vio- lentos a familiar e a pr6pria Dea. Os ci- frOes manejados por Gueiros falaram mais alto do que a hist6ria, a moral e os bons costumes. Nao pela primeira, nem pela iltima vez. Na vida political o comportamento de Rominho poderia vir a ser diferente? Ele promete se tornar "um legitimo de- fensor dos interesses do meu Estado, em tempo integral", se conquistar um mandate (o possivel, na eleicao deste ano, teria sido o de senador). Milagres sempre podem ocorrer e o que trans- mutaria o ardiloso comerciante, uma maquina de ganhar dinheiro, sempre pensando s6 em si e no grupo sob seu control, em um paladino das causes coletivas, nao seria o primeiro, mas tal- vez viesse a ser dos mais celebres na sofrida terra paraense, anemica de ver- dadeiras liderangas piblicas. Mesmo ainda nao tendo chegado aos palanques, o principal executive do O que justifica a existencia da classes political e a sua ligaCgo professional ao povo. Nenhum trabalhador ter uma de- pendEncia tcnica tao extremada do povo quanto o politico. Com o voto, o politico desfruta de um poder que, muitas vezes, nao ter qualquer outro atributo pessoal como sustentaculo. Sem o voto, toma o caminho do ostracismo e, as vezes, da absolute inutilidade. Paradoxal, porem, e o distanciamento que o politico costume estabelecer a media que sobe na hie- rarquia do poder. Chega a ignorar de onde veio e despreza o povo que lhe con- grupo Liberal ja parece iniciado na lin- guagem promesseira e obliqua dos ve- Ihos politicos. Comunica ao distinto public, por exemplo, ter sido "chama- do para uma reuniao cor as mais ex- pressivas liderangas political do Esta- do, tentando concretizar uma uniao que realmente beneficiasse o Para, dando inicio a uma nova era" no Estado, sem os traidores de sempre. Emocionante, mas muito pouca in- formaago para excessive ret6rica. A reuniao, ao que parece, foi menos para defender os mais altos interesses do Para e sim para tender as conveniEn- cias de alguns personagens. Por mais que tivesse sido bem sucedida, o maxi- mo que dela resultaria seria melhorar a posicao de uns poucos, traidores ou nao, jamais da maioria. Mesmo porque, de maioria e de povo, Romulo Maiora- na Jr. nao foi, nao e e e provavel que jamais venha a ser propriamente um especialista, nem mesmo um interpre- te. Se agora ele optou pelo sabio apelo da mae, a nao que que se opere um milagre nos pr6ximos tr8s anos, espe- ramos que repita a dose em 2001. Para o bem de todos e felicidade geral do Para, que imite, em escala local, a op- cao de um reizinho de verdade, 157 anos atras. * feriu o mandate. Exonera-o at6 da prer- rogativa de ter inteligencia. Chico Anisio popularizou esse mode- lo patol6gico de politico atraves de um personagem de televisao. Mas nao e pre- ciso ir a reprodugao em caricature para descobrir o original. Basta analisar-lhe o discurso, confrontando a ret6rica com a realidade. No discurso de oficializagao da sua candidatura, na convenqao do PSDB, ja seguindo o roteiro de seus marqueteiros (esperangosos de atribuir-lhe um caris- ma medi6nico), o governador Almir Ga- A linguagem dos politicos JORNALPESSOAL 2- QUINZENADE JULHO/ 1998 5 briel bateu forte em seu concorrente direto, o se- nador Jader Barbalho. Nao importa que, ate a v6spera, Almir tivesse feito tudo para contar corn o mesmo cidadio na sua coligacio. Como Ja- der nao aceitou, passou a exemplificar o mal. Ti- vesse aderido, ganharia o silencio obsequioso do govemador, no minimo. " Contrariado, Almir Gabriel tratou de lembrar seus ouvintes para as n6- doas de um passado ainda bem recent. "Quem ja se esqueceu do atraso do pa- gamento do funcionalismo?", comegou o governador, transferindo para os enor- mes ombros e o vasto reposit6rio de cul- pas de Jader faganha de seu successor em fatidicos nove meses, o vice Carlos Santos (maestro de uma rapinagem de fim de festa). Tudo bem: Carlos Santos 6 responsa- bilidade de Jader, que o escolheu para companheiro de chapa e sabia muito bem o que estava preparando para a popula- c9o (ja nao bastasse o chefe). Mas quem foi mesmo que, por livre e espontanea vontade, selecionou Helio Gueiros Jr. como seu vice-goverador? "Nao aceitamos panelinhas de uma familiar ou de um grupo", tonitroou sua excel8ncia. Mas quando o prefeito H6- lio Gueiros lhe mandou a lista triplice de candidates a vice, por que Almir esco- lheu outro Gueiros (houve ate sugestao para o aproveitamento da professor Terezinha, descartada de pronto pelo marido)? Por que nao escolheu Luiz Ota- vio Campos, que haveria de ungir, quan- do outra ja era a conjuntura, como lider do governor, president da Assembleia Legislative e, agora, por falta de outra opcao, candidate ao senado (e, depois, quem sabe, conselheiro do Tribunal de Contas dos Municipios)? Preferiu o Guei- ros Jr. para tirar proveito de um nome de maior apelo eleitoral, independente- mente do aspect etico ou moral dessa decisao. 0 goverador 6 mesmo contra todas as panelinhas e grupos, ou s6 con- tra os que nao fazem parte do seu pane- dlo e do seu grupao? Sua moral utilitaria (ou camale6nica, para usar qualificativo mais apropriado a tucanos de plumagem furta-cor) faz cor que pega ao eleitor a desclassifica- 9ao do oponente, alegando que ele nao ter a competencia, a experiencia e a honradez exigidas de um administrator da coisa public, mas se disponha a esquecer essas condigces caso o indigita- S do se tome seu aliado. Uma verdade para o piblico. Outra para Almir Gabriel. Palavras, palavras e des- mem6ria. A mesma des- mem6ria que leva Jader 62 Barbalho a, candidamente, dizer que volta a se unir a quern mais o xingou na vida S pfblica (e vice-versa) por- que nao 6 homem que olhe para o passado, quem quer caminhar para frente olhan- do para tras nao consegue caminhar O president da Assembleia Legisla- tiva, Luiz Otavio Campos, aproveitou uma questao de ordem, apresentada pelo deputado Jos6 Carlos Lima, e suprimiu da Lei de Diretrizes Orgamentarios para 1999 a emenda que reduzia de 1,8% para 1,5% a aliquota do Tribunal de Contas do Estado. Ze Carlos argumentou que a emenda fora apresentada por Zenaldo Coutinho, do PSDB, diretamente a mesa do legislative, sem passar pela comissao tecnica competent, como manda o re- gimento interno. Por isso, seria nula (ver Jornal Pessoal 190). Admitida a pro- cedencia do raciocinio, a participaqgo do TCE no orgamento estadual voltou, as- sim, aos 1,8% originals. E ninguem mais falou no assunto. O que levou o PSDB, autor da inicia- tiva, a voltar atras? Segundo a versao oficiosa. tudo teria decorrido da combi- nagao de excess de zelo dos assesso- res do govero cor uma impetuosidade partiddria. Solidarios cor o goverador diante da decisao do TCE de fazer 17 ressalvas a sua prestagao de contas re- lativa ao ano passado, os tucanos for- mais e informais decidiram retaliar o tribunal, suprimindo-lhe quatro milh6es de reais da sua previsao de receita para o pr6ximo ano. Mas a vinganca foi tao drastica que o pr6prio govero resolve contemporizar, restabelecendo o status quo ante, para citar expressao de largo uso entire os articuladores da manobra. O pr6prio TCE, entretanto, nao se beneficiary dessa restauracgo. Se man- tiver as ressalvas propostas pelo conse- bem". Jader diz que o que o preocupa e o future do Para e, por isso, se une "com quem quiser somar conosco". Mas qual o projeto que Jader e H61io tnm para o Para, capaz de anular as verdades que cada um proclamou ao atacar o outro, estabelecendo uma nova credibilidade em substituicao a que destruiram no exercicio do poder? Assim, quanto menos consciencia ti- ver da hist6ria, mais manobravel se tor- na o eleitor, menos cidadao ele e. Es- quecendo o passado, fica mais exposto as manobras do present e do future. Passa a ser a razao maior de existir dos politicos e, tambem, a causa da sua destruig9o. 0 Iheiro Lucival Barbalho, tio do senador Jader Barbalho, estara sujeitando-se a recibar a acusag~o de partidarismo. Se reformula-las ou retira-las, dara a impres- sao de que houve um entendimento pa- ralelo e acabou se submetendo a pres- sao do executive. Em ambas as circuns- tancias, o tribunal se enfraquecera dian- te da opiniao public, exatamente quan- do o governor faz ou program o preen- chimento de vagas no TCE e no TCM (Tribunal de Contas dos Municipios) por explicit motivacao political. Enfraquecer esses tribunals tera sido o objetivo maquiave1ico do govemo? Tal- vez. Enquanto seus assessores estuda- vam a retaliagao, o governador recebeu dossies mostrando que a familiar de um conselheiro do TCE, incluindo aderen- tes, fatura em torno de 130 mil reais por mes, tendo no alto a esposa do conse- lheiro (aposentada e recontratada), en- quanto no TCM a familiar do maior dos marajas chega a embolsar quase R$ 100 mil mensais. O goverador teria ficado indignado com os nmimeros que lhe foram apresen- tados, mas tanto o que o fez inspirar a emenda clandestine do deputado tuca- no, quanto a sua retirada posterior, nao foi a moralidade public. A motivagao atende por outra classifica9ao: conveni- encia political. A mesma atribuida a ori- gem de todo o imbroglio, findo o qual talvez ninguem mais se lembre de por que e como foi que tudo comegou. Acon- selha a sabedoria popular nao se falar de corda em casa de enforcado. * A historia de volta ao ponto de partida vil 6 JOURNAL PESSOAL 29 QUINZENA DE JULHO / 1998 SCartas 111 C' omo seu leitor assiduo, hoje tomo a liberdade de escrever-lhe sobre seu comentario do Buraco da Palmeira. Sua id6ia 6 aceitavel, por6m jamais a Prefeitura construira uma Praca. Ela quer contiuar bagunqando o centro. A noticia sobre o projeto do buraco 6 inviavel. Sera que a Prefeitura nao sabe que nao podera construir para vender? O municipio nao pode ser incorporador imobiliario, o que o Prefeito quer fazer. Estude o assunto. Paulo da Silva Moraes D esde meus 13 anos ja opinava que Joao Gilberto era e 6 o maior cantor do mundo. Por que nao? E apesar das vis6es delet6rias de Jos6 Ramos Ti- nhorao e Wilson Martins, um pais que tem Tom "Brasileiro" Jobim, Vinicius de Mo- raes, Chico Buarque, Baden Powell, Car- los Lira, Newton Mendonga, Silvio C6sar, Ronaldo B6scoli, Marcos e Paulo S6rgio Vale, Johnny Alf e Os Cariocas nao pode deixar de acreditar no seu future musical. Contudo, pena que a nossa juventude (e a velha guard tamb6m) pouco conhega aquilo que tu falas sobre as emog9es e sen- sac9es da Bossa Nova. Como dificilmente encontro artigos como o teu nos jomais lo- cais, parab6ns, impoluto Licio, por comen- tar o prazeroso livro da Helena. Eduardo Andr6 Risuenho Lauande Final ingl6rio O final da carreira political do ex- senador Jarbas Passarinho foi tao me- lanc6lico, por exclusive erro de avalia- cao dele, que a grande imprensa nem se dignou a registra-lo. No entanto, nenhum politico foi tanta coisa no Para depois de 64 quanto ele. Poucos, em toda a hist6ria republican paraense, tiveram o brilho de Passarinho. De di- mensao national, apenas Lauro Sodr6 e Serzedelo Corr8a ombrearam-se a ele entire os nossos politicos, mas alguns centimetros abaixo. No entanto, nas tr8s iltimas eleig6es de que participou, na primeira usando as muletas de Jader Barbalho, Passari- nho nao fez jus a pr6pria biografia. Des- ta iltima foi excluido nas preliminares e ainda teve que engolir um batraquio imenso, sem direito a reclamaiao. Mes- mo assim, merece uma analise equipa- ravel a sua importincia, ao menos um requiem de luxo. Jornalismo da pesada Ha um novo tipo de jomalismo inves- tigativo na praca. Na terminologia do mo- mento, seria dark, heavy ou seja la que expressao inglesa corresponda ao velho "botar pra quebrar", obviamente adap- tado. Um dos expoentes desse "ultimo grito" no setor, Claudio Tognolli, deu uma "entrevista explosive", como ela foi apre- sentada, a Caros Amigos, publicacqo mensal paulista que esta encantando os leitores mais jovens. A entrevista 6 um perigo porque jus- tamente os mais novos podem leva-la a serio. Esperei que profissionais mais competentes se manifestassem. Desde entao, passados dois niumeros de Caros Amigos, o 6nico que tentou enquadrar o barbarismo de Tognolli foi Myltainho (Mylton Severiano Filho), um dos maio- res textos da imprensa brasileira. Mas Myltainho limitou-se a um ir6nico puxar- de-orelha, apenas pedagogia individual, sem maior valor demonstrative. Tomando como liW6es peripat6ticas as declaraq6es do reporter da Folha de S. Paulo, um joralista aprende como nao deve fazer. Para fazer uma reportagem sobre cor- rupcio policial, Tognolli passou uma sema- na "fumando crack [na praga da S6] corn os caras para ver como a policia extor- quia". Nao dava para praticar o tal do "jor- nalismo-verdade" sem fumar crack? Para fazer reportagem sobre prostituieao, uma jomalista tem que se prostituir? Ou, indo ao extreme do paroxismo: para falar sobre assassinatos, 6 indispensavel morrer? Tognolli parece ser o mais intimorato dos rep6rteres (embora ja nao se consi- dere mais um Mciver armado de cane- ta), ao denunciar a "Mafia do dend8". Ela teria sido montada em toro dos bai- anos, sobretudo dos artists, como Cae- tano Veloso e Gilberto Gil, mas contando cor a cobertura de poderosos, como Ant6nio Carlos Magalhaes. "Muita gen- te foi demitida [nas redagoes] por falar mal da Mafia do dend8", garante o re- p6rter. "Quem fala muito mal deles em grande 6rgao de imprensa nao dura". Agressivo na entrevista, ainda assim Tognolli acha "delicado citar o jomal", naturalmente membro da mafia, que en- comendou a ele uma entrevista cor Gil- berto Gil, apedido do pr6prio compositor baiano. Tamb6m nao da o nome de um amigo seu que "quase foi subornado" (existe o "quase-suborno"?) por um "ico- ne" da mesma mafia (da a entender que 6 Caetano, mas nao se atreve a dizer claramente, talvez para nao esticar sua lista de processes, 32, segundo diz). Se a "mafia do dendU" 6 tao podero- sa, como 6 que Paulo Francis, um critic feroz de Caetano Veloso, dos baianos e dos nordestinos em geral, permaneceu tanto tempo com prestigio em alta cons- tante na grande imprensa, at6 morrer? Estranho, ja que Francis era amigo de ACM e este, amigo de Caetano, al6m de ser quem, "ate alguns anos atras", "mandava na revista Veja". Tudo muito mais intrincado do que o jornalismo messianico de gente que nas reda96es, muitas vezes at6 com sinceri- dade, simplifica o quanto pode para se estabelecer, nivelando o mundo por si pr6prio. Felizmente, nao consegue. Pobre imprensa Em entrevista a A Provincia do Pard, Ana Diniz 6 apresentada como "a primeira mulher a atuar como reporter na imprensa paraense". E uma conquis- ta dela que ninguem pode tirar. Sua bio- grafia no jornalismo local esta definida e seus meritos lhe permitem sustentar as opini8es que emite. Concordo corn a maioria delas, mas fiquei surpreso e cho- cado cor um trecho da entrevista (pu- blicada no caderno Mulher do dia 5). A partir de uma premissa correta (o baixo nivel de informagao dos estudan- tes de comunicagao), Ana chega a uma attitude pol8mica (deixar de "perder tem- po" cor eles) e a uma conclusio equi- vocada: "Eles precisam estudar Biologia para entender como o c6rebro human funciona". Ora, alguns dos melhores c6rebros nunca entenderam como funcionavam, nunca dominaram o process de criagao e jamais se preocuparam cor a anato- mia, a fisiologia, a quimica ou que seja - a biologia desse misculo. Nem preci- savam, alias. Poucos foram completes nesse particular; apenas para dar dois exemplos, T. S. Elliot e Octavio Paz. Mas a media que seus entendimentos analiticos melhoraram, sua melhor cria- cao declinou e vice-versa. Quem pos- sui um cerebro criador ter que deixar a tarefa analitica ou explicativa para os critics, ao menos para nao ameagar-lhes o emprego, nem complicar-lhes a com- petencia, ja de si tao mal definida. JORNALPESSOAL 2- QUINZENADE JULHO/ 1998 7 De bons servidores publicos ao novo ceu e velhas estrelas Mesmo no period critic da censura, do control e da repressao political do regime military, sobreviveram, sobretudo nos escales medios da administragao pilblica, servidores decentes, honestos, competentes e corajosos. Nem todos mantinham essas virtudes por opgco po- litica. A maioria, alias, o fazia por impul- so 6tico ou moral, mas tamb6m por auto- respeito professional. Gragas a essa gen- te, an6nima e vital, o govemo nao se re- duziu a uma maquina totalitaria, nem sua fortaleza se manteve inexpugnavel a im- prensa independent. Os jornalistas que tamb6m atuaram cor dignidade nesse period passaram a respeitar os poucos bons interlocuto- res que restaram. Neles depositaram parte das esperancas de que algum dia o governor voltasse a ser (ou passasse a ser) a representagao da sociedade, e nao feudo de uns poucos usurpadores do po- der. Desde que ganhassemos a confianga desses verdadeiros servidores publicos, eles aceitavam expor-se a riscos, con- versando conosco, nos passando infor- maa6es ou nos alertando sobre o que acontecia na alta cfpula, onde se con- centravam as mais importantes decisbes referentes ao pais, nem todas reveladas a sociedade, ou cujos processes decis6- rios eram escamoteados do piublico. Sem esses cidadaos, os tempos teriam sido mais negros, ou o negrume ter-se-ia pro- longado por mais tempo. Em qualquer escaninho do servigo public e em qualquer ponto do territ6rio national, mesmo sendo francamente mi- noritarios, esses bons t6cnicos sempre conseguiam preservar seu compromisso com o interesse superior da nacao. Ra- ras vezes apareceram, seja porque agir de outra maneira era expor-se a guilho- tina, seja por uma natural identificacao cor o anonimato. Claro que em outras circunstincias e sob outra motivacao, o simbolo desse tipo de personalidade 6 o "Deep-Throat". A fonte secret que ajudou os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein a re- velar o escdndalo do Watergate atraves das paginas do Washington Post, cul- minando na renincia do president dos Estados Unidos, Richard Nixon. Suspei- ta-se da identidade do informant (a mais verossimil e o general Alexander Haig, chefe da casa military de Nixon), mas ela permanece um mist6rio, passado um quarto de s6culo dos acontecimentos. Penso em dois brasileiros que, no ven- tre da baleia, como o biblico Jonas, sem- pre serviram de referencia para jornalis- tas dispostos a bem informar seu publi- co, enfrentando o combat da intimida- ,o e da censura official. Breno Augusto dos Santos era uma fonte segura e con- fiavel mesmo transitando por um univer- so que envolvia uma estatal (a Compa- nhia Vale do Rio Doce e sua subsidiaria mais diretamente afeta a ele, a Doce- geo), uma aco espuria do SNI (no ga- rimpo de Serra Pelada), muitos interes- ses sujos e um perigoso jogo de pres- soes. 0 mundo em torno de Breno, corn seus colegas e empregados, era como uma rocha no mar encapelado talvez dificil na aproximagao, mas porto segu- ro para os salvados da desinformaqio (ou da contra-informagao). Num outro lado desse mesmo univer- so, Maria de Lourdes Davies de Freitas abrigava conversas s6rias sobre a nova (naquela 6poca) intrusao da ecologia no mundo dos neg6cios (e vice-versa), uma novidade propicia as manipulac6es e mistificag6es (como, de resto, ainda hoje). Mesmo os que divergissem dela ou que a confrontassem nao encontravam sua porta fechada, nem tinham o dissabor de v8-la batida na cara. Lourdinha sempre foi uma interlocutora democratic, mes- mo quando defendia ardorosamente seus pontos de vista, muitas vezes opostos ao do entrevistador. E melanc6lico ver t6cnicos de quali- dade, como esses dois, afastados ou ali- jados do nivel decis6rio de suas esferas de competencia. Ruim para o govemo, pior para a opinido piiblica. Ainda com- prometidos com suas consci8ncias, so- breviventes como eles do servigo ver- dadeiramente pfblico procuram resistir a um massacre sistematico por parte da- queles que, mirando no corporativismo, acertam tamb6m e especialmente na essencia do Estado. Ha muitos meses, por exemplo, Lour- dinha esta envolvida no "Ceu do Novo Mundo", um projeto de largo espectro por ela idealizado. Seu ponto alto seria um festival cientifico-cultural sobre a Amaz6nia, que seria realizado neste ano, na Alemanha. Tantas foram as dificul- dades que o projeto se reduziu a um li- vro, no qual ela reuniu especialistas em Amaz6nia baseados no Brasil (poucos ainda, infelizmente, na pr6pria regiao) e no exterior. O livro esta quase pronto, devendo ser langado at6 o final do ano. Mas, por en- quanto, apenas em ingl8s e alemro. Lourdinha nao disp6e dos recursos ne- cessarios para fazer a edigAo em portu- gues, apesar do apoio que teve do presi- dente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnol6- gico), Jose Galizia Tundisi. Ao que parece, o c6u do novo mundo esta condenado a ser abrilhantado pelas estrelas do velho mundo, estas sempre co- lonizando, aquele sempre colonizado. * Poucos de n6s conseguirao ser com- pletos, capazes de entender a obra que realizam. Ja satisfaz fazer uma ou outra coisa, obrar ou explicar, para sermos lu- sitanamente basicos. Entendo o m6vel do desabafo de Ana Diniz, mas 6 preci- so circunscrev8-lo para que os estudan- tes, sempre carentes de investimento, como tamb6m sempre justificando-o, nio fagam ilag6es desbaratinadas de liqbes incorretamente dadas. Talvez tudo sejus- tifique por um bordio malicioso, embora nao improcedente: quem sabe, faz; quem nao sabe, ensina. Nem sempre um bom mestre gera um bom discipulo. Mas 6 pouco provavel que de um mestre ruim result um proveitoso aluno, a nao ser que este negue aquele. Um te6rico nem sempre 6 um bom execu- tor de id6ias, inclusive das suas, do que da prova nosso principesco president. Mas nem sempre ganha-se em pragmatismo confiando-se num mestre de obras, como, domesticamente, mostra Alacid Nunes. Assim, 6 melhor ser didatico e pedag6- gico, mesmo no extravasamento da just indignacgo. Quando nada, para nAo ser mais mal compreendido do que de costu- me nos moments em que a imprensa faz a mediagdo entire o personagem e o publi- co (rela56es cada vez mais mididticas, para usar a infeliz expressao), especialmen- te a partir do monop6lio dos cursos de co- municagdo, que o Brasil ostenta com ex- clusividade no planet sem qualquer hon- ra, alias. * Ao contrario Mensagem publicitaria e para ser aceita sem maior re- flexao, ou sem reflexdo algu- ma. E assim que funciona. Mas coloquei-me diante de um out- door da prefeitura de Bel6m e ousei pensar na sua mensagem: "Quem acredita ve acontecer". No subconsciente, o alvo sao os sao tom6s da vida, cri- ticados por Cristo porque s6 acreditam no que veem. Cris- to exigia f6 dos que pretendi- am entrar na sua igreja, ben- dizendo os que, mesmo sem ver, ainda assim acreditavam. O problema 6 que: 1) Edmilson Rodrigues noo e (ainda) Cristo. 2) Obra p6blica nao 6 religiao: esta requer f6; aquela, fatos. 3) Transformar atos da adminis- tragFo publica em questao de f6 e empulhaao ou ilusionismo. 0 saudivel 6 conquistar a confi- anga com obras, nao com pro- messas. OPT pretendia inovar nesse aspect. Desistiu de vez? Como critical construtiva e colaboragao desinteressada, al6m de gratuita, proponho a PMB um outro slogan, menos milenarista e mais secular: "Quem ve acontecer, acredita". Tenho esperangas de acre- ditar, nem que seja um pouco. Magister Nosso primeiro professor de sociologia na faculdade esqueceu seu exemplar do manual de Alfredo Povifia sobre a carteira. Quando vol- tou do interval, tinhamos "ri- fado" o livro. O mestre pas- sou duas ou tres semanas sem dar aula. Para nosso desalen- to, entretanto, conseguiu ou- tro exemplar e logo estava 1, pontificando com suas mis li- c9es bem decoradas. Lembrei disso ao ler uma nota no "Rep6rter 70" sobre o furto do material diditico de um mestre da casa. Ainda bem que estamos em period de f6rias. Talvez d8 para re- por tudo antes que voltem as aulas e antes que os alunos descubram a fonte de tanta sapiencia. Por aqui O Boston Globe demitiu sua premiada colunista Patri- cia Smith depois de ela haver confessado que inventava par- te de seus textos. Ja foi pro- vado que Arnaldo Jabor co- mete o mesmo pecado em re- lagco aos seus "ensaios", cor o agravante de nao ter feito o arrependimento piblico de Patricia. Mas no Brasil, ao que parece, a imprensa nio tem a mesma preocupagao com a 6tica e nao tem o mes- mo respeito com seu p6blico. Pior para n6s. Jabor continue emitindo seu brilho da Folha de S. Paulo e 0 Globo para seus satelites. Espirito de epoca O leitor deve considerar esta como uma tipica edicgo de julho. Alguns temas mais densos ficardo para agosto. E me permit nao ir atras de tan- tos detalhes politicos para nio agravar a tensdo destes dias de trabalho pesado com o de- sejo de colocar as pernas para o ar. Feliz retorno a realidade, veranistas. A voz A coluna Nhenhenhem, que Jorge Bastos Moreno escreve aos sabados pm 0 Globo, publicou 13 notas (que antigamente se chamavamn gossips) na edig9o de 27 dejunho. Oito delas citavam o president Fernando Henrique Cardoso. Duas se Seferiam ao senador Ant6nio Carlos Magalhies, que poderia ser tornado como a fonte das informagies sobre o president. Jornalismo nao 6 isso ai. Sem eco A Prefeitura de Bel6m sur- preendeu cor 24 meias-pi- ginas de anincio institutional, seis em cada um dos tres jor- nais didrios de Bel6m (mais a edigAo local da Gazeta Mer- cantil), num s6 domingo. Qual a motivagao? O encerramen- to do prazo da propaganda ins- titucional do governor do Es- tado, em fung9o das restrig6es impostas pela legislago elei- toral ao candidate A reeleigao governmental. O PT pode- ria, assim, retrucar aos ata- ques de Almir Gabriel, que se declara dono das principals obras p6blicas executadas em Bel6m, sem correr o risco de replica. Mais um round da guerri- nha governor do Estado-PMB. Maquiavel, muito mais que Lenin, pode te-lo inspirado. Portucales Seguindo fielmente o model do manual dejornalismo da casa, um reporter da Folha de S. Paulo escreveu a seguinte preciosidade sobre ojogo Brasil e Holanda, depois do gol de Ronaldo, marcado aos 40 segundos do segundo tempo: "At6 entao, o esquema calculista predominou. A disposigao receosa resultava em agoes ofensivas apenas quando garantida a seguranga defensive". Que lingua essa nossa. ALERTA Senhores assinantes: ao rehovar a assinatura exiga a identidade de quem se apresentar para fazer essa renovagco. S6 uma pessoa, devidamente autorizada, esta incumbida dessa tarefa. Assim se evitard a acgo de algum oportunista. Faga contato direto com a redag~o do JP em caso de dfivida. Journal Pessoal Editor: Licio FIavio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo, 871 I CEP: 66 053-020 Fone: 223-1929, 241-7626 e 241-7924(fax) Contato: Try. Benjamin Constant, 845/203 I 66 053-020 Fone: 223-7690 e.mail: lucio@expert.com.br Editoragio de arte: Luizp6 I 241-1859 Marketing? Diz um porta-voz da PMB que a prefeitura, ao patrocinar a promogdo Ci- nema em Casa, dojornal O Liberal, nada mais fez do que uma escolha de marke- ting. Acompanhando os vi- deos, iria o selo do "gover- no do povo", al6m da midia obrigat6ria, mais do que compensando os 100 mil reais comprometidos com as Organizac9es Romulo Mai- orana. A 16gica da explicagao nao inclui o laudat6rio dis- curso do prefeito Edmilson Rodrigues sobre o alto sig- nificado cultural da promo- 9~o. Admitindo-se, porem, que seja apenas marketing, a prefeitura precisa correr atris dos resultados. Muito comprador das fitas esti in- satisfeito, indignado ou re- voltado com o produto, ad- quirido pela bagatela de R$ 3,99. Ha trechos em bran- co, chuviscos, desajustes e uma serie de defeitos, ine- rentes a um neg6cio de alto risco e duvidosa qualidade. Esse 6 o padrdo Liberal. E tamb6m o padrao PT? O consumidor-cidadio-elei- tor pode fazer a associaCao. E, nesse caso, a PMB esta- ra pagando para se desmo- ralizar. Quase Para parecer "da casa", Ricardo Boldrin aparece na televisAo, num commercial do "Brasil em Agao", de FHC, oferecendo "suco de agai". S6 parece "de casa". Tao paraense quanto FHC. E os marqueteiros que apronta- ram mais essa. Suco de agai... Nem direito a titulo n6s temos. |
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