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Journal Pessoal Li- C 0 F L A V I P IN T O tero0mo tera 500 ANO XI N 190 *11 QUINZENA DE JULHO DE 1998 R$ 2,00 bate-paus POLTCA (PAG. A vontade A ira do governadorAlmir Gabriel estd abrindo uma crisepolitica. Ao inves de reagir normalmente as restrio&esfeitaspelo TCE a sua prestagdo de contas de tribunal. 0 legislative , acompanhou a reagdo. , Criado o impasse, quem encontrard a sada? Ela existe? do rei go ernador Almir Gabriel e\iblu uma face de autorita- risino. arrogincia e incompe- enc la ao reagir a aprovagao, corn ressalvas, pelo Tribunal de Contas do Estado, de suas contas re- ferentes ao ano passado. As 17 ressal- vas feitas eram formais, diziam respeito a auxiliares e ndo diretamente ao gover- nador, e nao contaminavam de ilegalida- de a prestag~o de contas, embora pelo menos uma das ressalvas, sobre a acu- mulagio de uma divida de 92 milh6es de reais junto ao Ipasep, o institute de pre- vid6ncia do funcionalismo piblico, cau- se apreensdo. A votagco no plendrio, al6m disso, ficou dividida: trds conselhei- ros acompanharam a aprovagco corn restri6oes recomendada pelo conselhei- ro Lucival Barbalho, e dois votaram pela aprovagao integral das contas, entire eles o president do TCE, Nelson Chaves.. A reagdo do governador, por6m, foi fulminante. Seu assessor parlamentar, o ex-deputado (do PPB) Jorge Arbage, preparou uma emenda a LDO (Lei de Diretrizes OrgamentArias) para 1999, em) 41)( ;7 7i -t r c 1L21- L _L; 1-2 HULL C C 12., LIZLL'L-LL (Ld. t'5), ) 2 JORNALPESSOAL 1 QUINZENADE JULHO/ 1998 ,tramitacgo na Assembleia Legislativa, reduzindo a aliquota do TCE em mais de 15% (de 1,8% para 1,5% do orgamen- to). Ainda manuscrita, a emenda foi en- xertada pelo lider do governor, Zenaldo Coutinho, entire os pap6is lidos pela mesa da AL, na apreciag9o final da LDO, e aprovada de roldao pela maioria parla- mentar. Corn isso, o TCE podera vir a perder R$ 4 milh6es no pr6ximo ano, o que significaria, inclusive, demissao de funcionarios (96% dos seus recursos sao comprometidos com a folha de pessoal). Essa inedita forma de reagao amea- ca desembocar numa crise political de maiores proporc5es, que fatalmente fara parte da agenda dos candidates contra- rios ao projeto de reeleigao do governa- dor. A ffiria de Almir Gabriel teria de- corrido exatamente da intengdo political por ele detectada no parecer de Lucival Barbalho, tio e ex-correligionario do se- nador Jader Barbalho. O governador ficou convencido de que o arrolamento das falhas, nenhuma delas envolvendo malversagco do dinhei- ro plblico, nem de responsabilidade di- reta do governador, e a convocacao de uma sessao solene para a apreciacao do relat6rio, teriam tido o prop6sito de am- plificar o efeito do puxao de orelhas do TCE no ordenador das contas estaduais. Com isso, o tribunal teria oferecido, de bandeja, um tema para a exploracao eleitoreira da oposicao. Nos palanques, as diferengas substanciais entire falhas formais e corrupnpo seriam ignoradas, soando ao eleitor como "prova provada" de que a administraqdo Almir Gabriel nio 6 exatamente esse exemplo de lisura e moralidade que ela pr6pria apregoa e que 6, justamente, um de seus uiltimos bord6es de campanha. Se procede essa suspeita, no entan- to, ainda assim o governador reagiu como uma potestade ultrajada por um ato de lesa-majestade, nao um rei qual- quer, mas um monarca de origem divi- na, como nos velhos (e invejados?) tem- pos da tirania unipessoal. Os tecnicos do governor acompanharam todo o tra- balho dos auditors do TCE e foram notificados previamente do parecer fi- nal, alem do voto do relator. A secreta- ria-adjunta da Fazenda, Tereza Cativo, esteve present a sessao solene com assessores e fez a sustentacgo oral em defesa do govemo, que naquele momen- to representava. Mas nao conseguiu convencer a maioria dos conselheiros. dois deles auditors convocados para substituir os titulares, em ferias. Segundo observagao de um dos t6c- nicos presents a sessao, a secretaria realmente solicitou a supressao das res- salvas do texto do ac6rdao do TCE, mas nao rebateu tecnicamente, individualizan- do-os, os arguments que as ensejaram. Mesmo que houvesse um motivador po- litico oculto, a posigao dos conselheiros majoritarios estava sustentada formal- mente. A reaCgo recomendavel ao go- verno era mesmo recorrer, como fez, pedindo a reconsideragao da decisao, mas s6 depois de ter precipitado a reta- liaago ao tribunal. No dia seguinte ao da sessao, o se- cretario de Planejamento, Simao Jatene, foi ao gabinete de Nelson Chaves discu- tir uma solugao para a crise que se for- mava. Mas poucas horas depois de ele ter encerrado a conversa amistosa, a As- sembleia aprovava a reduggo da aliquo- ta devida ao TCE no orgamento estadu- al, sem qualquer discussao previa sobre antecedentes e conseqtiuncias de tal decisao. Foi um golpe de forca, que apontou numa unica dire9ao: o tribunal deveria, acolhendo o recurso do governor, elimi- nar de vez as ressalvas. Voltando atras, se credenciaria a recuperar a aliquota original; resistindo, sofreria o corte de verbas. Para o TCE, nao ha boa altemativa: cor qualquer decisao, ira se desgastar. Ratificando a primeira decisao, continua- ra sujeito a punigao branca; reformando- a, deixara a impressao de que se curvou a coadao (para nao dizer chantagem). Em ambos os casos, ojogo politico tera prevalecido sobre os procedimentos ins- titucionais, minando a base de sustenta- cao do pr6prio tribunal, permanentemente questionada pelos que o consideram su- perfluo, pouco util ou simplesmente des- necessario. Se o govemo nao se dispoe a seguir as normas processuais e esgotar os re- cursos disponiveis contra uma decisao adversa, entao 6 porque o tribunal existe apenas para um faz-de-conta, para coo- nestar a vontade dos poderosos. E mais barato e mais 16gico extingui-lo, hip6te- se a ser considerada em um debate e nao resolvida cirurgicamente por um 6dito baixado do trono (ou, tratando-se de tu- cano, do ninho?). O problema e que parece impossivel sincronizar os dois movimentos: a recon- sideradao do assunto no TCE e a rea- preciagao da emenda no legislative. O parecer previo do tribunal sobre as con- tas do governador, que ja estava na Co- missao de Fiscalizacqo Financeira e Or- 9amentaria da AL (e, em tese, uma in- formaqao de natureza tecnica colocada a disposicao dos deputados, para que eles fagam sua competent apreciagao political foi devolvido ao 6rgao de ori- gem para reapreciagao (a legalidade des- se movimento foi posta em questao pelo deputado Jose Carlos Lima, do PT, mas ignorada pela maioria). Depois da mani- festagao da assessoria juridica do tribu- nal, sera precise seguir todo um rito at6 que o process, conduzido pelo mesmo relator que fez as ressalvas, retorne ao plenario para nova deliberagao, o que so podera acontecer a partir de agosto. A LDO, entretanto, ja esta toda apro- vada, restando apenas apreciar uma questao de ordem provocada ainda pelo deputado Ze Carlos. Ele alegou que a emenda responsavel pela redugco da ali- quota do TCE foi apresentada diretamen- te a mesa, sem passar pela CFFO, a co- missao t6cnica que deveria dar parecer a respeito. Por isso, sua aprovagao seria nula de pleno direito, voltando a AL a posigao original. O president da assembleia, Luiz Ota- vio Campos, ficou de se manifestar a respeito em 72 horas, mas os dias se passaram sem uma decisao. E provavel que nao se trate de mero esquecimento, mas de um novo instrument de pressio sobre o tribunal. Se o legislative vai manter essa espa- da pendente ate o TCE voltar atras, nio podera entrar em recesso emjulho, como ansiam os parlamentares, ja que a apro- vagao da LDO tamb6m continuara em suspense, como determine a Constitui- gao. Nesse rumo, a desmoralizagco sera partilhada pelos dois poderes, sem que se vislumbre uma alternative para evitar esse desgaste perante a opiniao pfiblica. Assim, se 6 verdade que havia uma manobra politico-eleitoral nas iniciativas do conselheiro Lucival Barbalho, ao re- agir de pronto, com autoritarismo, arro- gfncia e incompetencia, ao inves de se- guir o caminho processual regular (re- correr e desfazer toda a base de argu- mentagdo das ressalvas) ou esgotar as vias do dialogo e da negociagao, o go- vernador Almir Gabriel acabou fazen- do o jogo dos adversarios que vislum- brou por tras da decisao do TCE. Re- duziu tudo a politicagem. Nao se pou- para dos ataques de campanha eleitoral e ainda contribuira para enfraquecer tres institui~aes: o tribunal de contas, o legislative e, apesar de toda a forga apa- rente, o executive. JORNALPESSOAL P 1' QUINZENADE JULHO/ 1998 3 Uma idea para salvar o umbigo desta cidade A prefeitura ja tein dois projetos par- ticulares propondo um novo uso para o tristemente conhecido "buraco da Pal- meira". As indicaqbes seriam de que a segunda das propostas. do arquiteto Mil- ton Monte, foi melhor acolhida pelo pre- feito Edmilson Rodrigues do que a pri- meira, de Alcyr Meira. O prefeito ja se antecipa (agodadamente?) em reservar recursos no orgamento do pr6ximo ano para executar a alternative que imperi- almente escolheu. Antes de avaliar o merito de ambas, entretanto, e definir a melhor (o que se espera que nio seja um process fe- chado), deveria a prefeitura estabele- cer uma political geral para o centro de Belem. Alguns acham que o nicleo comer- cial mais velho da cidade esti perdido. engolido por um caos total. A deterio- ragdo e a decadencia sao chocantemen- te visiveis. Os imoveis estao desvalori- zados e muitos vazios, sem uso. As pla- cas de venda e aluguel envelhecem sem produzir resultados comerciais. O que era o ponto chic de vendas da cidade virou um grande mercado persa, com tendas a carter ou disfarcadas de estabelecimento commercial convencio- nal. A marca de tempos passados, a ele- gante combinaca o da Jodo Alfredo com a Santo Ant6nio, foi trocada pelo mer- cador ambulance, o camel. Sob a in- descartavel justificativa de que todos precisam de um lugar ao sol, aboliu-se o pr6prio sol, restando a todos sobrevi- ver a sombra (onde e melhor o comba- te, como dizia Mill6r Fernandes, mas nio o bom combate. As iniciativas oficiais no centro tem sido cosmnticas, epis6dicas e infrutife- ras, um gasto de dinheiro atirado ao ven- to da imprevidencia. Bons prop6sitos nao faltam e algum placebo sempre e trazido dos gabinetes governamentais para esconder a gravidade da situagao. Pensa-se em redecorar algo que exige mesmo e reconstrugdo. Nao havera mesmo mais solugio para o centro? Ha uns pequenos e muito volateis si- nais de esperanca. Em pleno caos da President Vargas ji se pode tomar o melhor cafe i italiana da cidade. Nao muito distant dali, na in6spita Assis de Vasconcelos, abriu-se uma peque- na venda dos melhores doces portu- gueses. Sao neg6cios novos, de gente que, apesar de tudo, nao desistiu do centro, um sitio com hist6ria, tradigao e os restos de um potential de espe- ranga que nao se deve desperdigar. O centro nao pode ser mais consi- derado um tapete ao qual se pode re- correr para esconder sujeira ou o pos- ta-restante de um comercio de mera sobrevivencia, absolutamente desregu- lamentado (a principal ag6ncia de um banco na 15 de Novembro virou esta- cionamento de carros). Tambem ji chega de obras de meia-sola, como a que a prefeitura fez, supostamente ini- ciando a recuperagco da Jodo Alfre- do. Novamente foram assentados os paralelepipedos, mas agora de uma maneira tal que andar sobre eles ficou muito mais dificil, os intervalos entire as pedras mais largos, ou, quando nao, nesses vios foi despejado asfalto, tor- nando o erro mais dificil de remediar. E para gente andar ou para os micro- 6nibus passarem que essa primeira obra foi realizada? Tudo o que se falou sobre revalori- zagco dos pr6dios hist6ricos ficou sem sentido cor a reformm" do grupo Big-Ben em sua nova loja moderno- sa, de nouveau riche, na Santo An- t6nio. E corn a mais recent agressTo a Farmacia Cesar Santos. predio mais que centenario, uma das preciosida- des do centro. Quem aprovou essas barbaridades? Ou, sem ter aprovado, quem foi conivente? Assim, antes de escolher o melhor projeto para o "buraco da Palmeira", e precise definir o que se quer do e para o centro da cidade. Nao se admi- te mais ag6es isoladas: cada obra tem que estar associada e enquadrada em um piano director para a area. De minha parte, sem que me tenham pedido a opiniao, digo logo que sou con- tra os dois projetos apresentados. Nio porque nao sejam bons, mas porque de- fendo uma destinagao completamente diferente para essa area. Acho que ela nao deve ser edificada. Teria que per- manecer como um vao livre, um espa- go de respiragco para o centro sufo- cante de uma cidade asfixiada. Em cima, externamente, teria uma praca; no subterrineo, quadras de es- porte, patinagio e outras atividades se- melhantes. A praqa nao seria aberta. As gra- des, que precederam qualquer uso na recem-encerrada era do ferro na PMB, seriam mantidas. O acesso seria con- trolado para que ninguem entrasse tra- zendo seu comercio illegal. Na praga, s6 atividades artisticas programadas, sem artesanato (teoricamente, basea- do na Praca da Republica). Ali poderi- am se apresentar grupos de jovens, es- tudantes, poetas, mesmo e principal- mente no horario commercial. Have- ria seguranga permanent, mas rondan- te e nao apenas fixa. A praga teria various desniveis, com pequenas arqui- bancadas, favorecendo os encontros. Ao subsolo. alem do public, teriam acesso apenas atletas cadastrados. Nao atletas formalmente, mas crian- cas e adolescents reunidos em clubes organizados, desses que formam na rua em fins de semana e feriados, desafi- ando as condig6es adversas. Os que nao tivessem condic6es de adquirir suas indumentarias e instruments es- portivos, seriam subsidiados pela pre- feitura. Os 100 mil reais desperdiga- dos cor o grupo Liberal seriam um mana dos c6us para incrementar es- sas atividades. Gostaria que, antes de examiner as ideas sobre o "buraco da Palmeira" (que e tambem mais um capitulo da in- sensibilidade coletiva), as pessoas se permitissem contemplar a igreja de Santana a partir da igreja do Rosario. Por enquanto, a percep9ao do espa- Co livre que existe entire elas esta com- prometida pela sindrome do "buraco", um espago perdido ou condenado a ser ocupado por um espigao qualquer. Mas se esse espago livre for consolidado ri- gorosamente como espaco livre (e nao ocioso, segundo a 16gica mercantil), com destinagao compativel, o visual na- quela parte do centro mudara comple- tamente. Ficara mais agradavel, con- vidativa, simpatica, humanizada. Talvez nos ajude a voltar a acreditar que o um- bigo de Belem do Para nao esta perdi- do de vez. ESse valor simb6lico com- pensa o risco de pensar fora do pa- drao conventional. * 4 JOURNAL PESSOAL 1 a QUINZENA DE JULHO/ 1998 Emogoes da bossa nova Foi como num filme. Cheguei cansado de uma viagem "pela estrada" (como se dizia, at6 a Belem-Brasilia, de tudo o que nao fosse Bel6m, no "sertao"paraense, explicando o pioneirismo bem sucedido de Magalhaes Barata na d6cada de 30), to- mei banho, relaxei e me estirei no sofa, di- ante da soporifera televisao. A primeira imagem que apareceu no video foi a do apresentador do Jornal National, o cosm6tico William Bonner. Simplesmente anunciava a morte de An- tonio Carlos Brasileiro de Almeida Jo- bim. Dei um pulo. Ouvi, catat6nico, todo o noticiario. Depois, fui para ajanela atras de ar. Respirei e chorei. Calma e silenci- osamente. Sempre a distAncia, Tom Jobim foi mais important na minha vida do que muitas pessoas pr6ximas e queridas. Talvez por ser um pouco do que eu era e ter sido mui- to mais do que eujamais conseguirei ser, mesmo querendo e precisando ser, nesse misto de identidade plena e proje9ao gene- rosa que aproxima as almas, acalmando a solidao. Naquele final de 1994 eu era um dos milhares que se sentiam 6rfaos dele. E muito gratos a ele. Mais de trinta anos antes, adolescent, consegui que meu pai trouxesse, em uma das suas muitas viagens ao Rio, o Chega de Saudade, o primeiro disco inteiramen- te bossa nova gravado no Brasil. Era o que dizia na apresentag9o, feita na contra-capa do long-play, o pr6prio Tom de Joao Gil- berto, "esse baiano bossa nova". Nossa turma, gravitando em torno da Vila Leticia. reduto dos inrmos Valdemar e Palmerio Vasconcelos (e tambem do Ro- nald Pastor e, mais adiante, do Jos6 OtAvio Figueiredo, o maior conhecedor de misica dentre todos), foi uma das primeiras bos- sanovistas de Bel6m. Mas s6 soubemos da exist6ncia de Joao Gilberto atrav6s de uma entrevista que o cantor francs Sa- cha Distel deu ao chegar ao Rio. Quem e o maior cantor brasileiro?, perguntaram. Joao Gilberto, responded Distel de bate- pronto. Quid, cara-palida? Trazido o disco, foi amor A primeira vis- ta forte como as paixoes, mas tambem perene como a amizade. A batida do vio- lao e o compasso do Joao, sua voz alquimi- ca, a inimitavel combinagao de melodia e hannonia do Tom (tao mnica que deixou em injusto segundo piano sua maestria como letrista), o universe que fizeram emergir naquele Brasil inquieto, propicio a criacao, tudo isso se tornou parte insepa- ravel do nosso modo de ser, da nossa per- sonalidade. Era impossivel nao chorar com a noticia da sua morte. Morte? Tom continue vivissimo ao nos- so lado. Na semana passada, em outro inicio de noite extenuante, coloquei na vi- trola (como se dizia na 6poca de ouro da bossa nova), mais uma vez, o CD que substituiu a introdugao de Chico Buarque de Holanda ao livro de Helena Jobim so- bre o irmao (Antonio Carlos Jobim - Um Home Iluminado, Editora Nova Fronteira, 1996, 443 pAginas, R$ 35,00). Sabiamente, Chico deixou de lado as es- crivinha95es (que j resultaram em dois cometimentos literarios: Fazenda Mode- lo e Estorvo, refer6ncias dolorosas que fazem lembrar, cor alivio, o genial com- positor) e mandou para Helena uma pega rara da sua fitoteca. A fita prensada no CD (prensa-se CD? Claro que nao: continue estacionado men- talmente no universe das imortais bola- chas pretas) 6 a gravagao de um encon- tro de Chico com Tom, na maravilhosa casa dos Jobim. (Ber que o prefeito Edmilson Rodri- gues poderia trocar de patrocinio: ao inv6s das cenas sanguindrias dos videos empur- rados ao desavisado leitor pelo grupo Li- beral, deveria era distribuir o CD, encarta- do no livro da belissima Helena, sem seu Heitor, mas tao a altura de uma guerra mi- tol6gica. Alias, bem que mais peas da fi- toteca buarqueana poderiam virar CD para serem colocadas ao alcance dos pobres mortais, socializando antol6gicas reuniOes como essa. O CD poderia ser tocado nos fins de semana etilicos da populaqao que o pre- feito do PT declara representar, mesmo porque na noite em que Tom e Chico se reuniram nao faltou alcool, muitissimo pelo contrario. Pobres e ricos, aqueles cor mais verve, estes com mais ervas (corn ou sem aspas), costumam aprovei- tar o embalo para descontrair, deixando o espirito livre de amarras para apreciar o belo, da boa conversa a boa muisica, ludicamente, como se fossemos todos uns helenos atemporais). O CD 6 um document hist6rico. Tom apresenta a Chico duas das mais belas musicas populares que algu6mja comp6s: Anos Dourados ("a coisa mais singela do mundo", define o criador) e Luiza. Quer letras de Chico. Nao s6 para essas obras- primas. Sente que Bate-boca precisa de outro arranjo, flauta e cavaquinho aduzi- dos ao piano para abrasileira-la, senao "fica muito Tchaikovski". A musica, por sinal, se parece bastante cor Construfdo, diz Tom, emendando logo, cor bom humor: "6 comentario da empregada". Riem as mancheias, como tamb6m se dizia. Sem o alcool, a transcrigao da samba- session seria tao encantadora? Duvi-de- o-d6 (macaxeira, mocot6 acrescentava- mos por aqui). Meu Amigo Miguel, por exemplo, foi composta na churrascaria Plataforma, sem instruments, "todo mun- do b6bado". Tocando-a para Chico, Tom tenta lembrar a letra, cantarolando nos hi- atos da mem6ria, que capta um trecho e some em seguida, fazendo o compositor lascar uma improvisagao pornografica do refrao em torno do tal Miguel ("deixa ele se f*..."), logo corrigida: "deixa ele apren- der". E ambos riem, e rimos corn eles, gragas ao CD. Que imensa felicidade e impagavel pri- vil6gio terms sido contemporaneos de se- res humans iluminados (definigao de He- lena) como Tom e como Chico. Um pouco da luz deles sempre sobra para n6s, sateli- tes de pouco brilho. Todos deviam ter uma c6pia a mao para as necessidades daquela parcela do nosso mundo spiritual mais intimo, composta de humor, picardia e emogao, de fraternidade santissacana, se me permitem Guimaraes Rosa e Santo Agostinho (mais o livro de Helena, que, sem ser inteiramente satisfa- t6rio, 6 um produto editorial que emociona e um deleite para os olhos). Findo o CD, sem perder o tom, fui bus- car Getz/Gilberto, o disco gravado em dois dias de marco de 1963, em Nova York, por Stan Getz e Joao Gilberto, e "estrelando" Antonio Carlos Jobim. E, para mim, o disco que melhor traduz o brilhante resultado da fusao da bossa nova brasileira corn aquelejazz americano ma- tizado em suas origens africanas pela cul- tura ocidental. Se fossemos um povo mais s6lido, se fosse maior nossa confianca e ~~~TIr. 4 ' -'p~ '1. )1-. JORNALPESSOAL 1QUINZENADEJULHO/ 1998 5 se tivesse havido um outro JK depois de JK, desse hibridismo de classes m6dia te- ria resultado a mais poderosa misica po- pular do mundo. O imperialismo cultural americano e nossa sindrome dejeca-tatu, tdo bem es- pelhada (desintencionalmente) no rude Jos6 Ramos Tinhordo (ele sustentava que Tom era a desdenhosa e denunciadora americanizagao de Ant6nio; era, na ori- gem, o tratamento carinhoso da mana Helena para o maninho Tom-tom, depois abreviado), bloquearam esse caminho. Perdemos o dominio do process e, des- de entdo, dizemos am6m, pagando royal- ties pela lerdeza, ou leseira, ou fatalismo hist6rico (escolham). Podemos e devemos abstrair essa com- plicago sociol6gica sempre que a bolacha preta da Verve rodar na Hi-Fi. Fico arre- piado quando o sax tenor de Getz, o que mais toca a minha alma entire os saxofo- nistas (mesmo sabendo que John Coltrane ou Sonny Rollins sdo maiores), abre em solo aspero O Grande Amor, de Tom e Vinicius de Morais, o maior poeta da musi- ca popular brasileira (na poesia, propria- mente, a colocag9o 6 outra, mas tambdm honrosa). Depois surge Joao com seu violaio sincopado e sua voz elAstica, manhosa, educadamente baiana, um novo Caym- mi para o qual a rua substitui o mar e o c6rebro articula-se corn o coragdo, evi- tando sua hipertrofia. Milton Banana, sem credito no disco, fotografado na me- dida certa por um David Drew Zingg que ainda nio era o tio turista de hoje, da o ritmo, sem a regressio civilizat6- ria do atual bati-cum-bum neolitico que ecoa da Bahia. O disco, que todos deveriam ter o di- reito de ouvir pelo menos uma vez, pos- sui oito faixas, em duas delas Astrud Gil- berto (a melhor int6rprete de Garota de Ipanema, a segunda music mais toca- da no mundo) disparando para uma fama que a colocaria, comercialmente, muito al6m do (futuramente ex) entdo marido. Mas nada se equivale a 0 Grande Amor. O poetinha, cravando seus versos como dardos aqucarados, sussurra cor uma sabedoria que a beleza da letra As vezes oculta da razao: "Haja o que houver ha sempre um home para uma mulher. E ha de sempre haver para esquecer um falso amor e uma vontade de morrer. Seja como for ha de veneer o grande amor que hA de ser um coragao como um perdao pra quem chorou". E para guardar e usar, ou chorar, quan- do a mem6ria remete ao corag o a sen- sagao de alegria e tristeza que, insepara- vel, toma conta da gente quando perde- mos e ganhamos, morremos e continua- mos, a sensa~go de dor e agridoce me- lancolia que a noticia da morte de Tom provocou naquelejA distant inicio de noite daquele 1994 que terminava comegando, como tem que ser e como sera. * 0 risco de assinar uma procuragao em branco A democracia, invenqao mais do que bissecular, sempre criticada, mas nunca igualada ou superada, continue a basear- se na divisAo de poderes. Essa regulagao, por6m, s6 funciona para valer quando ium poder respeita o outro. E um poder s6 respeita o outro que se respeita a si pr6- prio, impondo respeito aos demais. Sem isso, os dois poderes materialmente de- sarmados, o legislative e ojudiciario, con- tinuarao "menos iguais" do que o execu- tivo, o que sempre podera mais na trade teoricamente ison6mica, inclusive porpos- suir a chave do cofre. O poder mais indicado para confrontar a hipertrofia do executive 6 o legislative, que tem capacidade de iniciativa, da qual ojudiciario, o poder arbitral por excelin- cia, e desprovido (por isso mesmo, o Mi- nisterio Piblico cresceu de importAncia). Mas os parlamentares, invariavelmente, preferem credenciar-se as migalhas que Ihes sao atiradas pelo executive do que levar as ultimas conseqiiencias sua rai- son d'etre, que justifica sua existencia. Nossos deputados estaduais assinaram, duas semanas atrAs, mais um cheque em branco para o governador preencher. Nio exatamente em branco, alias: a lei 6.139, sancionada no ultimo dia 19 por Almir Gabriel, da ao governador o poder da li- vre nomeado, depois apenas de ouvir o delegado-geral de policia civil, sobre mais 500 cargos pfiblicos no Estado. Ele pode- ra indicar ate 500 agentss comunitarios de seguranga" para qualquer das locali- dades do Estado cor mais de 500 habi- tantes, que, tendo solicitado autoridade policial, em fungo de um "consideravel indice de ocorrencias delituosas", estej am desprovidas de delegados de carreira. Os adversarios do projeto dizem que essa lei servira de biombo para a arregi- mentagdo, no chamado frigir dos ovos, de cabos eleitorais no interior. Os represen- tantes da categoria professional v6em na iniciativa a ressurrei~go da figure dos "bate-paus" ou "encostados", policiais avant-la-lettre que a institui9go da poli- cia de carreira deveria extinguir. Isto, formalmente, foi conseguido pela lei. Os agentss comunitArios de seguran- ga" acabaram cor todas as formas de delegados, comissarios e escrivaos que nao estavam previstas no quadro de carreira da policia civil. Tais cargos foram extintos para que prevalega apenas um, embora de uma amplitude e uma generalidade que a boa t6cnica nao recomendaria. Digamos, contudo, que houve um avan- 9o: foram estabelecidas algumas exigEn- cias para ser recrutado o novo tipo de agent comunitario (ja havia para saide e educagAo). Entre elas, nao estar res- pondendo a process quando da nomea- 9,o e jamais haver sido condenado "por qualquer infragAo penal" (porque nao in- cluir crime civel?). Admitindo-se (apenas para efeito de raciocinio em abstrato) que tudo tenha sido bem elaborado e as autoridades ajam com seriedade e honestidade na execuii9o da lei, ainda assim, por principio, a Assem- bleia Legislativa tinha uma obrigagao: exi- gir que os processes de nomeagao fossem a ela submetidos, exercendo um poder re- visional que equilibraria a relagio, ja que as nomea6es serdo feitas como se fosse ad referendum. Quem garantird que a aplicadao da lei nao atropelara as cautelas nela estabelecidas (para ingles ver?), trans- formando as boas inten96es num instru- mento para a involugio da carreira policial e a formagdo de uma guard pretoriana de cangaceiros descaracterizados? Entre os poderes dados ao tal do agent comunitario esta o de "manter a ordem public na comunidade", o que, na pratica, costuma ser um passe para a arbitrarieda- de. Um outro element favorAvel ao desa- tino e a remuneragAo desse novo tipo de "encostado": ele recebera um salario mi- nimo por mrs. Tendo a Assembleia lavado as mdos quanto as conseqiiencias de sua procuragao em branco, nao sera de sur- preender que todos os temores em rela9go a essa nova materializagao de suspeita boa vontade reforce o risco de ela resultar em mais cangago no sertao paraense. * 6 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE JULHO / 1998 Segunda etapa de Tucurui: um debate indispensavel Corn a publicaqdo da carta do engenheiro Trajano Oliveira, abaixo, e a resposta que Ihe dei, espero estabelecer nestejornal, um debate que a sociedade ndo est6 travando sobre as obras da segunda etapa da hidreletrica de Tucurui, autorizadas ha duas semanas pelo president Fernando Henrique Cardoso. Outras manifestaqges serdo bem-vindas. A carta de Trajano: "Li o seu JP de no 188 e gostaria de fazer alguns comentArios a respeito de alguns assuntos relacionados. TUCURUI: CAVALO TROIANO DE ENERGIA NO PARA. 1) A neces- sidade dramAtica de se executar a 2a eta- pa da referida usina 6 important em ter- mos de Brasil e nao s6 para o Para. Afi- nal de contas, somos brasileiros e deve- mos pensar como tal. A necessidade energ6tica do centro-sul e sul do pais, com os "black outs" constantes duran- te a 6poca da seca, 6 que esta fazendo o governor concluir as usinas, que estavam paralisadas. E important para o Para, sim, pois al6m de contribuir para dimi- nuir o nhmero de desempregados, aumen- tara a arrecadag9o do estado decorren- te da venda desta energia para os esta- dos mais necessitados deste produto que os estados do norte do pais, que a tem em abundAncia, mas que j esta pratica- mente esgotada no sul e sudeste. 2) A 2a Etapa da UHE Tucurui estava progra- mada para ser executada logo em segui- da a conclusao da 1 Etapa e s6 nao o foi devido a Uao necessidade energ6tica do pais na 6poca (1988/1989) e tamb6m devido a crise econ6mico-financeira, que nao permitia ao pais levantar novos em- pr6stimos. A quantidade de Agua no re- servat6rio 6 suficiente para a instalagdo das turbines da 2' Etapa, principalmen- te agora que esta em funcionamento a UHE Serra da Mesa (GO). Devemos pensar tamb6m que uma obra deste por- te necessitara de 2 a 3 anos para ser concluida (parte civil) e de pelo menos mais 5 a 6 anos para a parte eletrome- cdnica (cada turbo-gerador demora cer- ca de 6 meses para montagem). Logo, 6 como eu sempre digo: energia, quando se precisa, nao se apanha na prateleira. Quando nao se precisa 6 que 6 precise investor. ECLUSA: CHECAR ANTES DE SOLTAR FOGUETES. 1) 0 Projeto BAsico da UHE Tucurui nao foi modifi- cado, mas sim o Projeto Executivo da Usina para a inclusdo das Eclusas, que nao tinham sido contempladas durante a execugao do Projeto BAsico da Usina (1975/1976). 2) Na 6poca em que se decidiu a construgao das Eclusas, foi feito um Projeto Basico para as Eclusas integrado-as ao projeto da Usina, o que 6 completamente certo. Foram feitos estudos econ6micos de varias alternati- vas, inclusive cor as eclusas na mar- gem direita da Usina. Uma forte razao, que influenciou a econ6mica, para a implantagao das Eclusas na ME, foi a localizacgo do canteiro de obras nessa margem, evitando, corn isso, a constru- 9co de um outro canteiro na MD [mar- gem direita]. 3) A obra jA esta com o seu local definido e nao podera ser mu- dado, logo, nao vejo a necessidade de apresenti-la a sociedade, o que acarre- tara mais atrasos a obra, que 6 tdo ne- cessaria para integragao na navegagao. 4) Quanto A questdo de custo, aditamen- to de contrato, Camargo Correa, descon- tos etc., voc6 sabe mais do que eu, pois 6 muitissimo mais bem informado". Minha resposta O ParA, como a Amaz6nia, faz parte do Brasil. Podemos especular sobre como seriamos se nos tiv6ssemos tor- nado um pais independent e quando, efetivamente, houve essa possibilidade na nossa hist6ria. Mas nenhuma dessas regressoes ou digresses elidira o fato de pertencermos a federagco brasileira como unidade-membro. Questionamos, por6m, a forma dessa insergco. Ela nos reserve uma posicao secundaria e de- pendente. Nao nos permit superar a dis- tancia que nos separa dos Estados mais desenvolvidos, aos quais somos obriga- dos a servir atrav6s de relacaes de troca desfavoraveis e desiguais. Nao por uma regra de mercado, nao por sua regula- cgo te6rica, mas por uma imposigco po- litica. A "vocagao" pr6-determinada da Amaz6nia, nesse modelo que comanda a sua integracgo a economic national, e a de fornecedora de mat6rias primas e insumos bAsicos, al6m de central de mo- eda forte a qualquer prego. Estou inteiramente de acordo, por isso, que a energia, escassa ou esgotada no Sul e no Centro-Sul, seja compensada e suplementada pela geraggo hidrel6trica da Amaz6nia. Mas nao concordo cor os terms de produCgo e comercializa- gao vigentes. Qual o nosso ganho real se mais de dois tergos da energia nao transferida 6 absorvida por consumido- res eletrointensivos protegidos por sub- sidios leoninos, deixando os demais a mingua ou sujeitos a restric6es? A ener- gia 6 fator de multiplicacgo de efeitos econ6micos, mas que fatia nos cabe se os principals beneficiaries sdo empreen- dimentos tipicamente de enclave, favo- recendo o comprador ultramarino a cus- ta do vendedor compungido? Essa injustiga 6 agravada por uma base tributAria que isenta as transfer6ncias de energia interestaduais, permitindo ao nos- so vizinho Maranhdo oferecer a energia de Tucurui mais barata em seu territ6rio do que a disponivel na terra de origem desse bem, na qual incide o ICMS de ali- quota pesada. O querido Ceara vai no mesmo caminho, combinando saudavel- mente energies de diferentes fontes (da hidricaao gAs) paraviabilizar um sistema ferroviario em expansio e a primeira gran- de siderurgia do Norte-Nordeste (nesta, tamb6m beneficiando nosso min6rio de ferro de CarajAs). E claro que cabe aos paraenses, cons- cientizados da situaqgo real (e nao a modelada por ret6ricas), lutar pela alte- ragao dessas regras e pela mAxima re- tengao possivel de energia em empreen- dimentos capazes de multiplicar interna- mente os efeitos sobre renda, salArio e JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JULHO /1998 7 emprego, sem o que estamos condena- dos a ser, ao mesmo tempo, e para sem- pre, provincia energ6tica e mineral. O Sul, mais experience, mais adiantado, por6m, nao nos ajuda nessa necessaria reflexdo, embora exija e mesmo impo- nha nossa solidariedade. Por 1d reclamam que a Amaz6nia 6 uma absorvedora voraz de investimen- tos e que pesa sobre seus irmdos ao re- ceber tratamento tarifirio diferenciado. O contrato Eletronorte-Albris, de 1984, 6, de fato, um escdndalo. No entanto, a decisao de realizi-lo baixou imperial- mente de Brasilia, como caixa-preta. Nao hi, nesse p6lo de aluminio, qual- quer element da vontade ou da pericia dos paraenses. Entramos nessa hist6ria como bois de pres6pio, apenas para compor o quadro, cedendo nossas rique- zas em bruto para beneficiamento e agregagdo de valor em terras japone- sas e dos outros compradores. Claro que esse autoritarismo nao isen- ta nossas responsabilidades. Agora mes- mo o governor do Estado comemora, com a tipica irreflexao dos tempos eleitorais (que por aqui parecem praga eterna), a conclusao da primeira etapa do "linhao" de Tucurui para o Oeste paraense. Se d6ssemos ao dinheiro federal (e tamb6m ao estadual) o valor que a car6ncia atual recomenda, noo teriamos construido essa linha onerosa, que nao ter retorno visu- alizavel. Buscariamos solugdo t6cnica e econ6mica compativel com a demand, a atual e a possivel de projetar. Ao inv6s disso, busca-sej ustificar essa sangria alegando que ela, finalmente, permitirA que uma fibrica de cimento, paralisada hi quase 15 anos, entire em funcionamento. Esquece-se, por ser con- veniente esquecer, que essa fibrica obri- gou-se a ser auto-supridora de energia, sem o que a Sudam nao aprovaria o pro- jeto, tamb6m obrigado a implantar-se si- multaneamente A outra fibrica do mes- mo grupo, iniciada muito depois, que fun- ciona plenamente em Manaus desde 1985. Este pecado estatal, porque bene- ficia o empresario privado, nio consta da cartilha neoliberal. Muitas coisas precisamos ainda dis- cutir, mesmo o debate acontecendo en- quanto os fatos sao consumados, para nao nos tornamos vitimas de obras que nos deveriam libertar e desenvolver. E espantoso recorder que em 1975 o pro- jeto bisico da hidrel6trica de Tucurui nao incluia a transposig o da barragem. Isto, duas d6cadas depois de muitas lic6es, amargas e custosas, aprendidas pela hu- manidade sobre efeitos indesejaveis ou imprevistos do represamento de rios (o Colimbia, nos Estados Unidos, e o Nilo, no Egito, para dar apenas dois exemplos). A contragosto, a Eletronorte fez o pro- jeto basico das eclusas, mas descartou-o. 0 "abacaxi" foi passado a Portobras, que simplismente desmilingiiu-se pelo cami- nho. Apenas uma parte do sistema de transposigao foi executada: a estrutura de concrete da entrada de uma das duas ci- maras da eclusa. Pelo projeto original, essa seria a maior eclusa do mundo, com ca- nal de concretado de cinco quil6metros e dois "elevadores" para veneer desnivel de 70 metros. Nao 6 esse o projeto que se vai executar a partir de agora. Houve "simplifica96es". Quais? Ningu6m expli- cou at6 agora, nem sua repercussdo, se vai reduzir em escala e volume o que se esperava. Acho que essa explicagao 6 ne- cessaria, como indispensavel 6 rever o contrato original. I legal aditar algo que vai custar acima de 200 milh6es de reais (sem falar da posi9do legal em relagao ao aditamento da pr6pria duplicapgo da usina)? E moral? Quanto A segunda etapa da usina, o mais impressionante, como mostrei no JP n0 188, 6 a diferenga entire a capacidade nominal e aquilo (dois tergos menos) que se vai gerar no period de seca. Esse dado recomenda aos t6cnicos partilhar corn a sociedade uma reflexao s6ria e corajosa sobre a operacgo do reservat6- rio de Tucurui, explicando a razdo da sur- preendente diferen9a que surgiu entire as duas refer6ncias oficiais disponiveis, a que havia desde a 6poca do enchimento e a que apareceu na iltima revisao. Os pros- pectos da Eletronorte, batendo em unis- sono sobre a duplicag9o da capacidade nominal (de quatro para oito milhoes de kw), sem refer6ncia A potencia fire des- proporcionalmente menor da segunda eta- pa, tornam o custo de cada kw invejavel, capaz de justificar por si s6 a aplicagao de mais R$ 1,3 bilhio na obra. Mas essa 6 a "verdade verdadeira"? Nenhum povo serio inicia um empre- endimento desse porte sem os dados consolidados A mro. E possivel que os t6cnicos o tenham. Mas o que, a duras penas, como sempre, conseguimos filtrar desses ambientes concentricamente fe- chados, nao nos da essa seguranga. Es- pero que manifestac9es positivas, como a de Trajano Oliveira, ajudem a instau- rar um debate necessario e proveitoso. Final, corn Tucurui duplicada (ou nomi- nalmente duplicada), ja seremos o ter- ceiro maior gerador de energia do pais - e, talvez, nao muito gloriosamente como poderia parecer, o segundo maior expor- tador, em vias de ser o "primeirdo" se o projeto do Xingu for retomado. * Cartas ou assinante de seujornal, e ape- sar de te-lo recebido hA 3 dias, somcnie hoje pude ler e fiquei inl Lto comovida e igualmente mi- nha mae, ao ler o que voc6 escreveu sobre meu pai, Daniel Coelho de Sou- za. Como voc6 bem escreveu, ele se foi como viveu, discretamente. Eis uma verdade, meu pai nunca foi vaidoso, era de uma humildade tocante, raras ve- zes o vi se orgulhar de algo que fez, pois acreditava que a retiddo e o cara- ter de um home era um dever natu- ral. Sobre as pessoas que poderiam falar sobre suas obras, creio ser pos- sivel, certamente. Entretanto, o Dani- el, home, s6 mesmo minha mae Na- zar6 podera faz6-lo, pois mesmo n6s, os filhos, apesar do imenso amor e res- peito que sempre tivemos por ele, ain- da assim seria uma visao parcial. S6 ela o conheceu profundamente, nao apenas pelos 42 anos de vida em co- mum, mas principalmente pelo grande amor que os uniu, numa relagAo quase po6tica, o qual ele mesmo sempre di- zia terem ficado juntos por teimosia e a certeza de seu amor. Juntas agrade- cemos as suas palavras, escritas cor tanta propriedade e carinho. Maria Cristina Fonseca de Carvalho elo iespeito quanto a sua inde- pendnic ia. fidelidade e responsa- bilidade. venho cor a present, retificar nota do Jornal Pesso- al, sob o titulo "Turismo Ecol6gico". A propriedade do Grupo REICON na ilha Mexiana 6 de 38.000 hA., sendo 29.000 ha. De campos naturais e 9.000 hA. De florestas tipicas. O Maraj6 Park Re- sort foi construido em area de campos naturais, n~o tendo sido derrubada, se- quer, uma Arvore para a sua edifica- 9do. O contrast que existe nas fotos vistas pelojornalista decorre da paisa- gem natural da ilha. Esta, entire tantas outras, sao belezas admiradas e res- saltadas por turistas, principalmente amantes da natureza e defensores do meio ambiente. Somente o conheci- mento, in loco, permit uma avaliag9o mais precisa, pelo que convido o ilus- tre jornalista para conhecer o empre- endimento, todo ele realizado cor re- cursos pr6prios do Grupo. Jos6 Viegas assessor da diretoria Perd o, leitores Alguns leitores tem obser- vado erros diversos no JP. HA os de digitagao, muito eviden- tes. Outros indicam falhas de atengdo tipicas de cansago. Todas depoem contra a revi- sdo, que, infelizmente, devido a precariedade da produgAo deste journal, nao houve nos filtimos n6meros. Espero que os pacientes leitores relevem essas defici- encias e, mesmo sem deixar de apontA-las, exigindo sua corregco, acreditem que, um dia, o corretivo virA. Cor ci- vilidade e boa vontade. Prestigio Dois dias depois que o Jornal Pessoal circulou corn minha critical ao iltimo livro de Salomao Laredo, coorde- nador do projeto "O Liberal na escola", a coluna "Rep6r- ter 70", dojornal dos Maiora- na, publicou a seguinte nota: "A Biblioteca do Congres- so americano, por grande in- teresse em suas obras, solici- tou ao escritor Salomio La- r6do o envio de seu livro 'Chap6u Virado a lenda do boto'. Anteriormente, a bibli- oteca pedira o livro 'Sibele Mendes de Amor e Luta'. Ambos os livros ja estao es- gotados". Das duas, as duas: 1) 0 Jornal Pessoal 6 lido inten- samente em Washington; 2) Salomao Laredo 6 grande amigo de Bill Clinton. Te cuida, Tom Clancy. Aguardem Preferi nao esperar pelo dia 30, das conven96es finals de- finindo todas as candidaturas ao govemo. Mas, no dia 28, data do fechamento desta edi- gio, o resultado jA era previ- sivel (e tantas vezes aqui an- tecipado), embora surpreen- da (e espante, ou choque) sa- ber de tudo o que aconteceu nos bastidores. Literalmente, valeu tudo. Mas nem tudo foi conseguido. Mat6ria para a pr6xima edigco. Paquiderme Todas as empresas que conduziram os grandes projetos con- cebidos peto regime military para integrar a Amaz6nia A econo- mia national j transferiram suas sedes administrativas para a area na qual atuam. Depois de Albras e Alunorte, 6 a vez da Mineragdo Rio do Norte, outra subsidiaria da Companhia Vale do Rio Doce, que, privatizada, trocou a sensibilidade political pelo registro de caixa. A MRN fechou seu escrit6rio no Rio de Janeiro e concen- trou tudo em Porto Trombetas, Oriximina, sede da mineragao de bauxita. O que 6 simples de explicar: cor os modernos recursos de comunicag9o, nao ter mais sentido manter uma esp6cie de legagao consular no chamado sul maravilha. E per- der dinheiro. E agravar o escarnio do native Desse elementary bom senso nao partilha a Eletronorte. So- brevivendo A razzia de privatiza96es do governor federal, a estatal continue encastelada em Brasilia, fora dos limits do territ6rio que constitui suajurisdigao. Continue sendo a Onica nessa condig9o, dentre todas as empresas do grupo Eletro- brAs. Quem apadrinha esse anacronismo? Ningu6m consegue arrombar essa bastilha? Nem tentar vale? No Xingu o novo grande projeto Agora que a linha de alta tensdo que transmite energia de Tucurui para Altamira esta em operaqgo (da Rur6polis Brasil Novo para Itaituba e Santar6m a responsabilidade pass a ser da Celpa), a Eletronorte da inicio A execugdo do maior projeto do setor el6trico em todo o pais: a construg9o da hidrel6trica de Belo Monte, no rio Xingu. E uma obra muito maior do que a de Tucurui, embora a Eletro- norte garanta ser tamb6m muito mais atraente e barata: i!nundando apenas uma Area de 440 quil6metros quadrados seiss vezes me- nos do que no Tocantins), ira gerar bem mais energia (11 mil megawatts contra 8 mil MW com a segunda etapa de Tucurui, s6 agora iniciada), cor investimento de oito bilh6es de d6lares, menos do que Tucuruija nos custou, na ponta do lapis. Nas pr6ximas semanas a Eletronorte e a Eletrobras montarao o modelo para a formagio de um cons6rcio com a iniciativa privada para a execugao do projeto. Segundo as primeiras informai6es transmitidas de Brasilia, o govemo federal adiantaria os recursos necessarios para instalar o canteiro de obras, contratar os primeiros servigos e encomendar as maquinas, at6 que se defina a parte do investidor particular. Toda a energia que for obtida sera transferida para o sul do pais. Ou seja: tudo o que uns poucos analistas previram estA se confir- mando. Ja nio 6 hora de as representag6es da sociedade paraense convocarem a Eletronorte para a ptimeira apresentagio do project hidrel6trico do Xingu? Ou, mais urna vez, iremos esperar os fatos consumados para tomar alguma iniciativa, fi6is Aquele hAbito bem brasileiro de s6 cuidar da seguranga depois da casa arrombada? Journal Pessoal Editor: LOcio IJavio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo,871 I CEP: 66 053-020 Fone: 223-1929, 241-7626 e 241-7924(fax)~. Contato: Try. Benjamin Constant, 845/203 1 66 053-020 Fone: 223-7690 e.mail: lucio@expert.com.br Editoragio de arte: Luizp& I 241-1859 Silencio incomodo E provavel que'a atual sai- son da Copa do Mundo e a proximidade das f6rias de ju- Iho nao tenha permitido A Or- dem dos Advogados do Bra- sil, Seccao do ParA, prestar atengao ao incident envolven- do ajustiga estadual e o grupo Liberal. Talvez, em outras cir- cunstAncias, a entidade pode- ria ter-se imaginado no dever de pedir informa96es a respei- to. Afinal, a questao envolve o sagrado direito A prestagaoju- risdicional, como dizem os ad- vogados, e o acatamento ao poder arbitral dojudiciario, sem o que os cidadaos podem se sentir desprotegidos e sujeitos aos humores dos poderosos, "mais iguais" do que o comum dos mortais. Quem sabe em agosto a nossa OAB tome uma atitu- de. Ou ter essa esperanga nao 6 mais do que devaneio, alimen- tado pela confianga nos nomes de alguns dos responsaveis pela entidade? La e ca As audi&ncias publicas para o debate do impact ambien- tal da hidrovia que o governor do Estado quer construir no Maraj6, serao realizadas nes- te m6s em AnajAs e Afua. Correto. Mas por que nio se prev6 nenhuma sessao na ca- pital do Estado, onde se con- centram as institui9oes e as pessoas tecnicamente mais habilitadas para avaliar os re- lat6rios e estudos ecol6gicos? A legislaCao, por descuido, talvez, nao estabeleceu essa .provid&ncia. Mas o bom sen- so e 'a boa f6 deveriam prev&- la. Assim, combina-se o saber te6rico com o conhecimento empirico, os intelectuais e o povo, todos ganhando nessa simbiose, de preferencia ela comegando pela capital e se estendendo, em seguida, aq interior, municiando o.cida d cor boa informa9I:, 'T' Ber que a Secttt poderia inovar positivameite, servindo mais A ciencia do que ao poder. |
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