<%BANNER%>
Jornal pessoal
ALL VOLUMES CITATION THUMBNAILS PAGE IMAGE ZOOMABLE
Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00139
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00139

Full Text





Journal Pessoal
Li- C 0 F L A V I P IN T O tero0mo
tera 500
ANO XI N 190 *11 QUINZENA DE JULHO DE 1998 R$ 2,00 bate-paus

POLTCA (PAG.


A vontade
A ira do governadorAlmir Gabriel estd abrindo
uma crisepolitica. Ao inves de reagir
normalmente as restrio&esfeitaspelo
TCE a sua prestagdo de contas de

tribunal. 0 legislative ,
acompanhou a reagdo. ,
Criado o impasse,
quem encontrard a
sada? Ela existe?


do rei


go ernador Almir Gabriel
e\iblu uma face de autorita-
risino. arrogincia e incompe-
enc la ao reagir a aprovagao,
corn ressalvas, pelo Tribunal
de Contas do Estado, de suas contas re-
ferentes ao ano passado. As 17 ressal-
vas feitas eram formais, diziam respeito
a auxiliares e ndo diretamente ao gover-


nador, e nao contaminavam de ilegalida-
de a prestag~o de contas, embora pelo
menos uma das ressalvas, sobre a acu-
mulagio de uma divida de 92 milh6es de
reais junto ao Ipasep, o institute de pre-
vid6ncia do funcionalismo piblico, cau-
se apreensdo. A votagco no plendrio,
al6m disso, ficou dividida: trds conselhei-
ros acompanharam a aprovagco corn


restri6oes recomendada pelo conselhei-
ro Lucival Barbalho, e dois votaram pela
aprovagao integral das contas, entire eles
o president do TCE, Nelson Chaves..
A reagdo do governador, por6m, foi
fulminante. Seu assessor parlamentar, o
ex-deputado (do PPB) Jorge Arbage,
preparou uma emenda a LDO (Lei de
Diretrizes OrgamentArias) para 1999, em)


41)(


;7 7i


-t
r


c 1L21- L _L; 1-2 HULL C C 12., LIZLL'L-LL (Ld. t'5), )








2 JORNALPESSOAL 1 QUINZENADE JULHO/ 1998


,tramitacgo na Assembleia Legislativa,
reduzindo a aliquota do TCE em mais de
15% (de 1,8% para 1,5% do orgamen-
to). Ainda manuscrita, a emenda foi en-
xertada pelo lider do governor, Zenaldo
Coutinho, entire os pap6is lidos pela mesa
da AL, na apreciag9o final da LDO, e
aprovada de roldao pela maioria parla-
mentar. Corn isso, o TCE podera vir a
perder R$ 4 milh6es no pr6ximo ano, o
que significaria, inclusive, demissao de
funcionarios (96% dos seus recursos sao
comprometidos com a folha de pessoal).
Essa inedita forma de reagao amea-
ca desembocar numa crise political de
maiores proporc5es, que fatalmente fara
parte da agenda dos candidates contra-
rios ao projeto de reeleigao do governa-
dor. A ffiria de Almir Gabriel teria de-
corrido exatamente da intengdo political
por ele detectada no parecer de Lucival
Barbalho, tio e ex-correligionario do se-
nador Jader Barbalho.
O governador ficou convencido de
que o arrolamento das falhas, nenhuma
delas envolvendo malversagco do dinhei-
ro plblico, nem de responsabilidade di-
reta do governador, e a convocacao de
uma sessao solene para a apreciacao do
relat6rio, teriam tido o prop6sito de am-
plificar o efeito do puxao de orelhas do
TCE no ordenador das contas estaduais.
Com isso, o tribunal teria oferecido,
de bandeja, um tema para a exploracao
eleitoreira da oposicao. Nos palanques,
as diferengas substanciais entire falhas
formais e corrupnpo seriam ignoradas,
soando ao eleitor como "prova provada"
de que a administraqdo Almir Gabriel nio
6 exatamente esse exemplo de lisura e
moralidade que ela pr6pria apregoa e
que 6, justamente, um de seus uiltimos
bord6es de campanha.
Se procede essa suspeita, no entan-
to, ainda assim o governador reagiu
como uma potestade ultrajada por um
ato de lesa-majestade, nao um rei qual-
quer, mas um monarca de origem divi-
na, como nos velhos (e invejados?) tem-
pos da tirania unipessoal. Os tecnicos
do governor acompanharam todo o tra-
balho dos auditors do TCE e foram
notificados previamente do parecer fi-
nal, alem do voto do relator. A secreta-
ria-adjunta da Fazenda, Tereza Cativo,
esteve present a sessao solene com
assessores e fez a sustentacgo oral em
defesa do govemo, que naquele momen-
to representava. Mas nao conseguiu
convencer a maioria dos conselheiros.
dois deles auditors convocados para
substituir os titulares, em ferias.


Segundo observagao de um dos t6c-
nicos presents a sessao, a secretaria
realmente solicitou a supressao das res-
salvas do texto do ac6rdao do TCE, mas
nao rebateu tecnicamente, individualizan-
do-os, os arguments que as ensejaram.
Mesmo que houvesse um motivador po-
litico oculto, a posigao dos conselheiros
majoritarios estava sustentada formal-
mente. A reaCgo recomendavel ao go-
verno era mesmo recorrer, como fez,
pedindo a reconsideragao da decisao,
mas s6 depois de ter precipitado a reta-
liaago ao tribunal.
No dia seguinte ao da sessao, o se-
cretario de Planejamento, Simao Jatene,
foi ao gabinete de Nelson Chaves discu-
tir uma solugao para a crise que se for-
mava. Mas poucas horas depois de ele
ter encerrado a conversa amistosa, a As-
sembleia aprovava a reduggo da aliquo-
ta devida ao TCE no orgamento estadu-
al, sem qualquer discussao previa sobre
antecedentes e conseqtiuncias de tal
decisao.
Foi um golpe de forca, que apontou
numa unica dire9ao: o tribunal deveria,
acolhendo o recurso do governor, elimi-
nar de vez as ressalvas. Voltando atras,
se credenciaria a recuperar a aliquota
original; resistindo, sofreria o corte de
verbas.
Para o TCE, nao ha boa altemativa:
cor qualquer decisao, ira se desgastar.
Ratificando a primeira decisao, continua-
ra sujeito a punigao branca; reformando-
a, deixara a impressao de que se curvou
a coadao (para nao dizer chantagem).
Em ambos os casos, ojogo politico tera
prevalecido sobre os procedimentos ins-
titucionais, minando a base de sustenta-
cao do pr6prio tribunal, permanentemente
questionada pelos que o consideram su-
perfluo, pouco util ou simplesmente des-
necessario.
Se o govemo nao se dispoe a seguir
as normas processuais e esgotar os re-
cursos disponiveis contra uma decisao
adversa, entao 6 porque o tribunal existe
apenas para um faz-de-conta, para coo-
nestar a vontade dos poderosos. E mais
barato e mais 16gico extingui-lo, hip6te-
se a ser considerada em um debate e
nao resolvida cirurgicamente por um 6dito
baixado do trono (ou, tratando-se de tu-
cano, do ninho?).
O problema e que parece impossivel
sincronizar os dois movimentos: a recon-
sideradao do assunto no TCE e a rea-
preciagao da emenda no legislative. O
parecer previo do tribunal sobre as con-
tas do governador, que ja estava na Co-


missao de Fiscalizacqo Financeira e Or-
9amentaria da AL (e, em tese, uma in-
formaqao de natureza tecnica colocada
a disposicao dos deputados, para que
eles fagam sua competent apreciagao
political foi devolvido ao 6rgao de ori-
gem para reapreciagao (a legalidade des-
se movimento foi posta em questao pelo
deputado Jose Carlos Lima, do PT, mas
ignorada pela maioria). Depois da mani-
festagao da assessoria juridica do tribu-
nal, sera precise seguir todo um rito at6
que o process, conduzido pelo mesmo
relator que fez as ressalvas, retorne ao
plenario para nova deliberagao, o que so
podera acontecer a partir de agosto.
A LDO, entretanto, ja esta toda apro-
vada, restando apenas apreciar uma
questao de ordem provocada ainda pelo
deputado Ze Carlos. Ele alegou que a
emenda responsavel pela redugco da ali-
quota do TCE foi apresentada diretamen-
te a mesa, sem passar pela CFFO, a co-
missao t6cnica que deveria dar parecer
a respeito. Por isso, sua aprovagao seria
nula de pleno direito, voltando a AL a
posigao original.
O president da assembleia, Luiz Ota-
vio Campos, ficou de se manifestar a
respeito em 72 horas, mas os dias se
passaram sem uma decisao. E provavel
que nao se trate de mero esquecimento,
mas de um novo instrument de pressio
sobre o tribunal.
Se o legislative vai manter essa espa-
da pendente ate o TCE voltar atras, nio
podera entrar em recesso emjulho, como
ansiam os parlamentares, ja que a apro-
vagao da LDO tamb6m continuara em
suspense, como determine a Constitui-
gao. Nesse rumo, a desmoralizagco sera
partilhada pelos dois poderes, sem que
se vislumbre uma alternative para evitar
esse desgaste perante a opiniao pfiblica.
Assim, se 6 verdade que havia uma
manobra politico-eleitoral nas iniciativas
do conselheiro Lucival Barbalho, ao re-
agir de pronto, com autoritarismo, arro-
gfncia e incompetencia, ao inves de se-
guir o caminho processual regular (re-
correr e desfazer toda a base de argu-
mentagdo das ressalvas) ou esgotar as
vias do dialogo e da negociagao, o go-
vernador Almir Gabriel acabou fazen-
do o jogo dos adversarios que vislum-
brou por tras da decisao do TCE. Re-
duziu tudo a politicagem. Nao se pou-
para dos ataques de campanha eleitoral
e ainda contribuira para enfraquecer
tres institui~aes: o tribunal de contas, o
legislative e, apesar de toda a forga apa-
rente, o executive.







JORNALPESSOAL P 1' QUINZENADE JULHO/ 1998 3


Uma idea para salvar


o umbigo desta cidade


A prefeitura ja tein dois projetos par-
ticulares propondo um novo uso para o
tristemente conhecido "buraco da Pal-
meira". As indicaqbes seriam de que a
segunda das propostas. do arquiteto Mil-
ton Monte, foi melhor acolhida pelo pre-
feito Edmilson Rodrigues do que a pri-
meira, de Alcyr Meira. O prefeito ja se
antecipa (agodadamente?) em reservar
recursos no orgamento do pr6ximo ano
para executar a alternative que imperi-
almente escolheu.
Antes de avaliar o merito de ambas,
entretanto, e definir a melhor (o que se
espera que nio seja um process fe-
chado), deveria a prefeitura estabele-
cer uma political geral para o centro de
Belem.
Alguns acham que o nicleo comer-
cial mais velho da cidade esti perdido.
engolido por um caos total. A deterio-
ragdo e a decadencia sao chocantemen-
te visiveis. Os imoveis estao desvalori-
zados e muitos vazios, sem uso. As pla-
cas de venda e aluguel envelhecem sem
produzir resultados comerciais.
O que era o ponto chic de vendas da
cidade virou um grande mercado persa,
com tendas a carter ou disfarcadas de
estabelecimento commercial convencio-
nal. A marca de tempos passados, a ele-
gante combinaca o da Jodo Alfredo com
a Santo Ant6nio, foi trocada pelo mer-
cador ambulance, o camel. Sob a in-
descartavel justificativa de que todos
precisam de um lugar ao sol, aboliu-se
o pr6prio sol, restando a todos sobrevi-
ver a sombra (onde e melhor o comba-
te, como dizia Mill6r Fernandes, mas
nio o bom combate.
As iniciativas oficiais no centro tem
sido cosmnticas, epis6dicas e infrutife-
ras, um gasto de dinheiro atirado ao ven-
to da imprevidencia. Bons prop6sitos
nao faltam e algum placebo sempre e
trazido dos gabinetes governamentais
para esconder a gravidade da situagao.
Pensa-se em redecorar algo que exige
mesmo e reconstrugdo. Nao havera
mesmo mais solugio para o centro?
Ha uns pequenos e muito volateis si-
nais de esperanca. Em pleno caos da
President Vargas ji se pode tomar o
melhor cafe i italiana da cidade. Nao
muito distant dali, na in6spita Assis
de Vasconcelos, abriu-se uma peque-


na venda dos melhores doces portu-
gueses. Sao neg6cios novos, de gente
que, apesar de tudo, nao desistiu do
centro, um sitio com hist6ria, tradigao
e os restos de um potential de espe-
ranga que nao se deve desperdigar.
O centro nao pode ser mais consi-
derado um tapete ao qual se pode re-
correr para esconder sujeira ou o pos-
ta-restante de um comercio de mera
sobrevivencia, absolutamente desregu-
lamentado (a principal ag6ncia de um
banco na 15 de Novembro virou esta-
cionamento de carros). Tambem ji
chega de obras de meia-sola, como a
que a prefeitura fez, supostamente ini-
ciando a recuperagco da Jodo Alfre-
do. Novamente foram assentados os
paralelepipedos, mas agora de uma
maneira tal que andar sobre eles ficou
muito mais dificil, os intervalos entire
as pedras mais largos, ou, quando nao,
nesses vios foi despejado asfalto, tor-
nando o erro mais dificil de remediar.
E para gente andar ou para os micro-
6nibus passarem que essa primeira
obra foi realizada?
Tudo o que se falou sobre revalori-
zagco dos pr6dios hist6ricos ficou sem
sentido cor a reformm" do grupo
Big-Ben em sua nova loja moderno-
sa, de nouveau riche, na Santo An-
t6nio. E corn a mais recent agressTo
a Farmacia Cesar Santos. predio mais
que centenario, uma das preciosida-
des do centro. Quem aprovou essas
barbaridades? Ou, sem ter aprovado,
quem foi conivente?
Assim, antes de escolher o melhor
projeto para o "buraco da Palmeira",
e precise definir o que se quer do e
para o centro da cidade. Nao se admi-
te mais ag6es isoladas: cada obra tem
que estar associada e enquadrada em
um piano director para a area.
De minha parte, sem que me tenham
pedido a opiniao, digo logo que sou con-
tra os dois projetos apresentados. Nio
porque nao sejam bons, mas porque de-
fendo uma destinagao completamente
diferente para essa area. Acho que ela
nao deve ser edificada. Teria que per-
manecer como um vao livre, um espa-
go de respiragco para o centro sufo-
cante de uma cidade asfixiada.
Em cima, externamente, teria uma


praca; no subterrineo, quadras de es-
porte, patinagio e outras atividades se-
melhantes.
A praqa nao seria aberta. As gra-
des, que precederam qualquer uso na
recem-encerrada era do ferro na PMB,
seriam mantidas. O acesso seria con-
trolado para que ninguem entrasse tra-
zendo seu comercio illegal. Na praga,
s6 atividades artisticas programadas,
sem artesanato (teoricamente, basea-
do na Praca da Republica). Ali poderi-
am se apresentar grupos de jovens, es-
tudantes, poetas, mesmo e principal-
mente no horario commercial. Have-
ria seguranga permanent, mas rondan-
te e nao apenas fixa. A praga teria
various desniveis, com pequenas arqui-
bancadas, favorecendo os encontros.
Ao subsolo. alem do public, teriam
acesso apenas atletas cadastrados.
Nao atletas formalmente, mas crian-
cas e adolescents reunidos em clubes
organizados, desses que formam na rua
em fins de semana e feriados, desafi-
ando as condig6es adversas. Os que
nao tivessem condic6es de adquirir
suas indumentarias e instruments es-
portivos, seriam subsidiados pela pre-
feitura. Os 100 mil reais desperdiga-
dos cor o grupo Liberal seriam um
mana dos c6us para incrementar es-
sas atividades.
Gostaria que, antes de examiner as
ideas sobre o "buraco da Palmeira"
(que e tambem mais um capitulo da in-
sensibilidade coletiva), as pessoas se
permitissem contemplar a igreja de
Santana a partir da igreja do Rosario.
Por enquanto, a percep9ao do espa-
Co livre que existe entire elas esta com-
prometida pela sindrome do "buraco",
um espago perdido ou condenado a ser
ocupado por um espigao qualquer. Mas
se esse espago livre for consolidado ri-
gorosamente como espaco livre (e nao
ocioso, segundo a 16gica mercantil),
com destinagao compativel, o visual na-
quela parte do centro mudara comple-
tamente. Ficara mais agradavel, con-
vidativa, simpatica, humanizada. Talvez
nos ajude a voltar a acreditar que o um-
bigo de Belem do Para nao esta perdi-
do de vez. ESse valor simb6lico com-
pensa o risco de pensar fora do pa-
drao conventional. *







4 JOURNAL PESSOAL 1 a QUINZENA DE JULHO/ 1998


Emogoes


da bossa nova


Foi como num filme. Cheguei cansado
de uma viagem "pela estrada" (como se
dizia, at6 a Belem-Brasilia, de tudo o que
nao fosse Bel6m, no "sertao"paraense,
explicando o pioneirismo bem sucedido de
Magalhaes Barata na d6cada de 30), to-
mei banho, relaxei e me estirei no sofa, di-
ante da soporifera televisao.
A primeira imagem que apareceu no
video foi a do apresentador do Jornal
National, o cosm6tico William Bonner.
Simplesmente anunciava a morte de An-
tonio Carlos Brasileiro de Almeida Jo-
bim. Dei um pulo. Ouvi, catat6nico, todo
o noticiario. Depois, fui para ajanela atras
de ar. Respirei e chorei. Calma e silenci-
osamente.
Sempre a distAncia, Tom Jobim foi mais
important na minha vida do que muitas
pessoas pr6ximas e queridas. Talvez por
ser um pouco do que eu era e ter sido mui-
to mais do que eujamais conseguirei ser,
mesmo querendo e precisando ser, nesse
misto de identidade plena e proje9ao gene-
rosa que aproxima as almas, acalmando a
solidao. Naquele final de 1994 eu era um
dos milhares que se sentiam 6rfaos dele. E
muito gratos a ele.
Mais de trinta anos antes, adolescent,
consegui que meu pai trouxesse, em uma
das suas muitas viagens ao Rio, o Chega
de Saudade, o primeiro disco inteiramen-
te bossa nova gravado no Brasil. Era o que
dizia na apresentag9o, feita na contra-capa
do long-play, o pr6prio Tom de Joao Gil-
berto, "esse baiano bossa nova".
Nossa turma, gravitando em torno da
Vila Leticia. reduto dos inrmos Valdemar e
Palmerio Vasconcelos (e tambem do Ro-
nald Pastor e, mais adiante, do Jos6 OtAvio
Figueiredo, o maior conhecedor de misica
dentre todos), foi uma das primeiras bos-
sanovistas de Bel6m. Mas s6 soubemos
da exist6ncia de Joao Gilberto atrav6s de
uma entrevista que o cantor francs Sa-
cha Distel deu ao chegar ao Rio. Quem e
o maior cantor brasileiro?, perguntaram.
Joao Gilberto, responded Distel de bate-
pronto. Quid, cara-palida?
Trazido o disco, foi amor A primeira vis-
ta forte como as paixoes, mas tambem
perene como a amizade. A batida do vio-
lao e o compasso do Joao, sua voz alquimi-
ca, a inimitavel combinagao de melodia e
hannonia do Tom (tao mnica que deixou


em injusto segundo piano sua maestria
como letrista), o universe que fizeram
emergir naquele Brasil inquieto, propicio a
criacao, tudo isso se tornou parte insepa-
ravel do nosso modo de ser, da nossa per-
sonalidade. Era impossivel nao chorar com
a noticia da sua morte.
Morte? Tom continue vivissimo ao nos-
so lado. Na semana passada, em outro
inicio de noite extenuante, coloquei na vi-
trola (como se dizia na 6poca de ouro da
bossa nova), mais uma vez, o CD que
substituiu a introdugao de Chico Buarque
de Holanda ao livro de Helena Jobim so-
bre o irmao (Antonio Carlos Jobim -
Um Home Iluminado, Editora Nova
Fronteira, 1996, 443 pAginas, R$ 35,00).
Sabiamente, Chico deixou de lado as es-
crivinha95es (que j resultaram em dois
cometimentos literarios: Fazenda Mode-
lo e Estorvo, refer6ncias dolorosas que
fazem lembrar, cor alivio, o genial com-
positor) e mandou para Helena uma pega
rara da sua fitoteca.
A fita prensada no CD (prensa-se CD?
Claro que nao: continue estacionado men-
talmente no universe das imortais bola-
chas pretas) 6 a gravagao de um encon-
tro de Chico com Tom, na maravilhosa
casa dos Jobim.
(Ber que o prefeito Edmilson Rodri-
gues poderia trocar de patrocinio: ao inv6s
das cenas sanguindrias dos videos empur-
rados ao desavisado leitor pelo grupo Li-
beral, deveria era distribuir o CD, encarta-
do no livro da belissima Helena, sem seu
Heitor, mas tao a altura de uma guerra mi-
tol6gica. Alias, bem que mais peas da fi-
toteca buarqueana poderiam virar CD para
serem colocadas ao alcance dos pobres
mortais, socializando antol6gicas reuniOes
como essa.
O CD poderia ser tocado nos fins de
semana etilicos da populaqao que o pre-
feito do PT declara representar, mesmo
porque na noite em que Tom e Chico se
reuniram nao faltou alcool, muitissimo
pelo contrario. Pobres e ricos, aqueles
cor mais verve, estes com mais ervas
(corn ou sem aspas), costumam aprovei-
tar o embalo para descontrair, deixando
o espirito livre de amarras para apreciar
o belo, da boa conversa a boa muisica,
ludicamente, como se fossemos todos
uns helenos atemporais).


O CD 6 um document hist6rico. Tom
apresenta a Chico duas das mais belas
musicas populares que algu6mja comp6s:
Anos Dourados ("a coisa mais singela do
mundo", define o criador) e Luiza. Quer
letras de Chico. Nao s6 para essas obras-
primas. Sente que Bate-boca precisa de
outro arranjo, flauta e cavaquinho aduzi-
dos ao piano para abrasileira-la, senao "fica
muito Tchaikovski". A musica, por sinal,
se parece bastante cor Construfdo, diz
Tom, emendando logo, cor bom humor:
"6 comentario da empregada". Riem as
mancheias, como tamb6m se dizia.
Sem o alcool, a transcrigao da samba-
session seria tao encantadora? Duvi-de-
o-d6 (macaxeira, mocot6 acrescentava-
mos por aqui). Meu Amigo Miguel, por
exemplo, foi composta na churrascaria
Plataforma, sem instruments, "todo mun-
do b6bado". Tocando-a para Chico, Tom
tenta lembrar a letra, cantarolando nos hi-
atos da mem6ria, que capta um trecho e
some em seguida, fazendo o compositor
lascar uma improvisagao pornografica do
refrao em torno do tal Miguel ("deixa ele
se f*..."), logo corrigida: "deixa ele apren-
der". E ambos riem, e rimos corn eles,
gragas ao CD.
Que imensa felicidade e impagavel pri-
vil6gio terms sido contemporaneos de se-
res humans iluminados (definigao de He-
lena) como Tom e como Chico. Um pouco
da luz deles sempre sobra para n6s, sateli-
tes de pouco brilho.
Todos deviam ter uma c6pia a mao para
as necessidades daquela parcela do nosso
mundo spiritual mais intimo, composta de
humor, picardia e emogao, de fraternidade
santissacana, se me permitem Guimaraes
Rosa e Santo Agostinho (mais o livro de
Helena, que, sem ser inteiramente satisfa-
t6rio, 6 um produto editorial que emociona
e um deleite para os olhos).
Findo o CD, sem perder o tom, fui bus-
car Getz/Gilberto, o disco gravado em
dois dias de marco de 1963, em Nova
York, por Stan Getz e Joao Gilberto, e
"estrelando" Antonio Carlos Jobim. E,
para mim, o disco que melhor traduz o
brilhante resultado da fusao da bossa nova
brasileira corn aquelejazz americano ma-
tizado em suas origens africanas pela cul-
tura ocidental. Se fossemos um povo mais
s6lido, se fosse maior nossa confianca e


~~~TIr.
4 '


-'p~


'1. )1-.








JORNALPESSOAL 1QUINZENADEJULHO/ 1998 5


se tivesse havido um outro JK depois de
JK, desse hibridismo de classes m6dia te-
ria resultado a mais poderosa misica po-
pular do mundo.
O imperialismo cultural americano e
nossa sindrome dejeca-tatu, tdo bem es-
pelhada (desintencionalmente) no rude
Jos6 Ramos Tinhordo (ele sustentava que
Tom era a desdenhosa e denunciadora
americanizagao de Ant6nio; era, na ori-
gem, o tratamento carinhoso da mana
Helena para o maninho Tom-tom, depois
abreviado), bloquearam esse caminho.
Perdemos o dominio do process e, des-
de entdo, dizemos am6m, pagando royal-
ties pela lerdeza, ou leseira, ou fatalismo
hist6rico (escolham).
Podemos e devemos abstrair essa com-
plicago sociol6gica sempre que a bolacha
preta da Verve rodar na Hi-Fi. Fico arre-
piado quando o sax tenor de Getz, o que
mais toca a minha alma entire os saxofo-
nistas (mesmo sabendo que John Coltrane
ou Sonny Rollins sdo maiores), abre em
solo aspero O Grande Amor, de Tom e
Vinicius de Morais, o maior poeta da musi-


ca popular brasileira (na poesia, propria-
mente, a colocag9o 6 outra, mas tambdm
honrosa).
Depois surge Joao com seu violaio
sincopado e sua voz elAstica, manhosa,
educadamente baiana, um novo Caym-
mi para o qual a rua substitui o mar e o
c6rebro articula-se corn o coragdo, evi-
tando sua hipertrofia. Milton Banana,
sem credito no disco, fotografado na me-
dida certa por um David Drew Zingg
que ainda nio era o tio turista de hoje,
da o ritmo, sem a regressio civilizat6-
ria do atual bati-cum-bum neolitico que
ecoa da Bahia.
O disco, que todos deveriam ter o di-
reito de ouvir pelo menos uma vez, pos-
sui oito faixas, em duas delas Astrud Gil-
berto (a melhor int6rprete de Garota de
Ipanema, a segunda music mais toca-
da no mundo) disparando para uma fama
que a colocaria, comercialmente, muito
al6m do (futuramente ex) entdo marido.
Mas nada se equivale a 0 Grande Amor.
O poetinha, cravando seus versos como
dardos aqucarados, sussurra cor uma


sabedoria que a beleza da letra As vezes
oculta da razao:
"Haja o que houver
ha sempre um home
para uma mulher.
E ha de sempre haver
para esquecer
um falso amor
e uma vontade de morrer.
Seja como for
ha de veneer
o grande amor
que hA de ser
um coragao
como um perdao
pra quem chorou".
E para guardar e usar, ou chorar, quan-
do a mem6ria remete ao corag o a sen-
sagao de alegria e tristeza que, insepara-
vel, toma conta da gente quando perde-
mos e ganhamos, morremos e continua-
mos, a sensa~go de dor e agridoce me-
lancolia que a noticia da morte de Tom
provocou naquelejA distant inicio de noite
daquele 1994 que terminava comegando,
como tem que ser e como sera. *


0 risco de assinar uma procuragao em branco


A democracia, invenqao mais do que
bissecular, sempre criticada, mas nunca
igualada ou superada, continue a basear-
se na divisAo de poderes. Essa regulagao,
por6m, s6 funciona para valer quando ium
poder respeita o outro. E um poder s6
respeita o outro que se respeita a si pr6-
prio, impondo respeito aos demais. Sem
isso, os dois poderes materialmente de-
sarmados, o legislative e ojudiciario, con-
tinuarao "menos iguais" do que o execu-
tivo, o que sempre podera mais na trade
teoricamente ison6mica, inclusive porpos-
suir a chave do cofre.
O poder mais indicado para confrontar
a hipertrofia do executive 6 o legislative,
que tem capacidade de iniciativa, da qual
ojudiciario, o poder arbitral por excelin-
cia, e desprovido (por isso mesmo, o Mi-
nisterio Piblico cresceu de importAncia).
Mas os parlamentares, invariavelmente,
preferem credenciar-se as migalhas que
Ihes sao atiradas pelo executive do que
levar as ultimas conseqiiencias sua rai-
son d'etre, que justifica sua existencia.
Nossos deputados estaduais assinaram,
duas semanas atrAs, mais um cheque em
branco para o governador preencher. Nio
exatamente em branco, alias: a lei 6.139,
sancionada no ultimo dia 19 por Almir
Gabriel, da ao governador o poder da li-
vre nomeado, depois apenas de ouvir o
delegado-geral de policia civil, sobre mais


500 cargos pfiblicos no Estado. Ele pode-
ra indicar ate 500 agentss comunitarios
de seguranga" para qualquer das locali-
dades do Estado cor mais de 500 habi-
tantes, que, tendo solicitado autoridade
policial, em fungo de um "consideravel
indice de ocorrencias delituosas", estej am
desprovidas de delegados de carreira.
Os adversarios do projeto dizem que
essa lei servira de biombo para a arregi-
mentagdo, no chamado frigir dos ovos, de
cabos eleitorais no interior. Os represen-
tantes da categoria professional v6em na
iniciativa a ressurrei~go da figure dos
"bate-paus" ou "encostados", policiais
avant-la-lettre que a institui9go da poli-
cia de carreira deveria extinguir.
Isto, formalmente, foi conseguido pela
lei. Os agentss comunitArios de seguran-
ga" acabaram cor todas as formas de
delegados, comissarios e escrivaos que nao
estavam previstas no quadro de carreira
da policia civil. Tais cargos foram extintos
para que prevalega apenas um, embora de
uma amplitude e uma generalidade que a
boa t6cnica nao recomendaria.
Digamos, contudo, que houve um avan-
9o: foram estabelecidas algumas exigEn-
cias para ser recrutado o novo tipo de
agent comunitario (ja havia para saide
e educagAo). Entre elas, nao estar res-
pondendo a process quando da nomea-
9,o e jamais haver sido condenado "por


qualquer infragAo penal" (porque nao in-
cluir crime civel?).
Admitindo-se (apenas para efeito de
raciocinio em abstrato) que tudo tenha sido
bem elaborado e as autoridades ajam com
seriedade e honestidade na execuii9o da
lei, ainda assim, por principio, a Assem-
bleia Legislativa tinha uma obrigagao: exi-
gir que os processes de nomeagao fossem
a ela submetidos, exercendo um poder re-
visional que equilibraria a relagio, ja que
as nomea6es serdo feitas como se fosse
ad referendum. Quem garantird que a
aplicadao da lei nao atropelara as cautelas
nela estabelecidas (para ingles ver?), trans-
formando as boas inten96es num instru-
mento para a involugio da carreira policial
e a formagdo de uma guard pretoriana de
cangaceiros descaracterizados?
Entre os poderes dados ao tal do agent
comunitario esta o de "manter a ordem
public na comunidade", o que, na pratica,
costuma ser um passe para a arbitrarieda-
de. Um outro element favorAvel ao desa-
tino e a remuneragAo desse novo tipo de
"encostado": ele recebera um salario mi-
nimo por mrs. Tendo a Assembleia lavado
as mdos quanto as conseqiiencias de sua
procuragao em branco, nao sera de sur-
preender que todos os temores em rela9go
a essa nova materializagao de suspeita boa
vontade reforce o risco de ela resultar em
mais cangago no sertao paraense. *







6 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE JULHO / 1998




Segunda etapa de Tucurui:



um debate indispensavel


Corn a publicaqdo da carta
do engenheiro Trajano
Oliveira, abaixo, e a
resposta que Ihe dei, espero
estabelecer nestejornal,
um debate que a sociedade
ndo est6 travando sobre as
obras da segunda etapa
da hidreletrica de
Tucurui, autorizadas ha
duas semanas pelo
president Fernando
Henrique Cardoso.
Outras manifestaqges
serdo bem-vindas.

A carta de Trajano:
"Li o seu JP de no 188 e gostaria de
fazer alguns comentArios a respeito de
alguns assuntos relacionados.
TUCURUI: CAVALO TROIANO
DE ENERGIA NO PARA. 1) A neces-
sidade dramAtica de se executar a 2a eta-
pa da referida usina 6 important em ter-
mos de Brasil e nao s6 para o Para. Afi-
nal de contas, somos brasileiros e deve-
mos pensar como tal. A necessidade
energ6tica do centro-sul e sul do pais,
com os "black outs" constantes duran-
te a 6poca da seca, 6 que esta fazendo o
governor concluir as usinas, que estavam
paralisadas. E important para o Para,
sim, pois al6m de contribuir para dimi-
nuir o nhmero de desempregados, aumen-
tara a arrecadag9o do estado decorren-
te da venda desta energia para os esta-
dos mais necessitados deste produto que
os estados do norte do pais, que a tem
em abundAncia, mas que j esta pratica-
mente esgotada no sul e sudeste. 2) A 2a
Etapa da UHE Tucurui estava progra-
mada para ser executada logo em segui-
da a conclusao da 1 Etapa e s6 nao o foi
devido a Uao necessidade energ6tica do
pais na 6poca (1988/1989) e tamb6m
devido a crise econ6mico-financeira, que
nao permitia ao pais levantar novos em-
pr6stimos. A quantidade de Agua no re-


servat6rio 6 suficiente para a instalagdo
das turbines da 2' Etapa, principalmen-
te agora que esta em funcionamento a
UHE Serra da Mesa (GO). Devemos
pensar tamb6m que uma obra deste por-
te necessitara de 2 a 3 anos para ser
concluida (parte civil) e de pelo menos
mais 5 a 6 anos para a parte eletrome-
cdnica (cada turbo-gerador demora cer-
ca de 6 meses para montagem). Logo, 6
como eu sempre digo: energia, quando
se precisa, nao se apanha na prateleira.
Quando nao se precisa 6 que 6 precise
investor.
ECLUSA: CHECAR ANTES DE
SOLTAR FOGUETES. 1) 0 Projeto
BAsico da UHE Tucurui nao foi modifi-
cado, mas sim o Projeto Executivo da
Usina para a inclusdo das Eclusas, que
nao tinham sido contempladas durante a
execugao do Projeto BAsico da Usina
(1975/1976). 2) Na 6poca em que se
decidiu a construgao das Eclusas, foi
feito um Projeto Basico para as Eclusas
integrado-as ao projeto da Usina, o que
6 completamente certo. Foram feitos
estudos econ6micos de varias alternati-
vas, inclusive cor as eclusas na mar-
gem direita da Usina. Uma forte razao,
que influenciou a econ6mica, para a
implantagao das Eclusas na ME, foi a
localizacgo do canteiro de obras nessa
margem, evitando, corn isso, a constru-
9co de um outro canteiro na MD [mar-
gem direita]. 3) A obra jA esta com o
seu local definido e nao podera ser mu-
dado, logo, nao vejo a necessidade de
apresenti-la a sociedade, o que acarre-
tara mais atrasos a obra, que 6 tdo ne-
cessaria para integragao na navegagao.
4) Quanto A questdo de custo, aditamen-
to de contrato, Camargo Correa, descon-
tos etc., voc6 sabe mais do que eu, pois
6 muitissimo mais bem informado".

Minha resposta
O ParA, como a Amaz6nia, faz parte
do Brasil. Podemos especular sobre
como seriamos se nos tiv6ssemos tor-
nado um pais independent e quando,
efetivamente, houve essa possibilidade
na nossa hist6ria. Mas nenhuma dessas
regressoes ou digresses elidira o fato
de pertencermos a federagco brasileira
como unidade-membro. Questionamos,


por6m, a forma dessa insergco. Ela nos
reserve uma posicao secundaria e de-
pendente. Nao nos permit superar a dis-
tancia que nos separa dos Estados mais
desenvolvidos, aos quais somos obriga-
dos a servir atrav6s de relacaes de troca
desfavoraveis e desiguais. Nao por uma
regra de mercado, nao por sua regula-
cgo te6rica, mas por uma imposigco po-
litica. A "vocagao" pr6-determinada da
Amaz6nia, nesse modelo que comanda
a sua integracgo a economic national, e
a de fornecedora de mat6rias primas e
insumos bAsicos, al6m de central de mo-
eda forte a qualquer prego.
Estou inteiramente de acordo, por isso,
que a energia, escassa ou esgotada no
Sul e no Centro-Sul, seja compensada e
suplementada pela geraggo hidrel6trica
da Amaz6nia. Mas nao concordo cor
os terms de produCgo e comercializa-
gao vigentes. Qual o nosso ganho real
se mais de dois tergos da energia nao
transferida 6 absorvida por consumido-
res eletrointensivos protegidos por sub-
sidios leoninos, deixando os demais a
mingua ou sujeitos a restric6es? A ener-
gia 6 fator de multiplicacgo de efeitos
econ6micos, mas que fatia nos cabe se
os principals beneficiaries sdo empreen-
dimentos tipicamente de enclave, favo-
recendo o comprador ultramarino a cus-
ta do vendedor compungido?
Essa injustiga 6 agravada por uma base
tributAria que isenta as transfer6ncias de
energia interestaduais, permitindo ao nos-
so vizinho Maranhdo oferecer a energia
de Tucurui mais barata em seu territ6rio
do que a disponivel na terra de origem
desse bem, na qual incide o ICMS de ali-
quota pesada. O querido Ceara vai no
mesmo caminho, combinando saudavel-
mente energies de diferentes fontes (da
hidricaao gAs) paraviabilizar um sistema
ferroviario em expansio e a primeira gran-
de siderurgia do Norte-Nordeste (nesta,
tamb6m beneficiando nosso min6rio de
ferro de CarajAs).
E claro que cabe aos paraenses, cons-
cientizados da situaqgo real (e nao a
modelada por ret6ricas), lutar pela alte-
ragao dessas regras e pela mAxima re-
tengao possivel de energia em empreen-
dimentos capazes de multiplicar interna-
mente os efeitos sobre renda, salArio e







JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JULHO /1998 7


emprego, sem o que estamos condena-
dos a ser, ao mesmo tempo, e para sem-
pre, provincia energ6tica e mineral. O
Sul, mais experience, mais adiantado,
por6m, nao nos ajuda nessa necessaria
reflexdo, embora exija e mesmo impo-
nha nossa solidariedade.
Por 1d reclamam que a Amaz6nia 6
uma absorvedora voraz de investimen-
tos e que pesa sobre seus irmdos ao re-
ceber tratamento tarifirio diferenciado.
O contrato Eletronorte-Albris, de 1984,
6, de fato, um escdndalo. No entanto, a
decisao de realizi-lo baixou imperial-
mente de Brasilia, como caixa-preta.
Nao hi, nesse p6lo de aluminio, qual-
quer element da vontade ou da pericia
dos paraenses. Entramos nessa hist6ria
como bois de pres6pio, apenas para
compor o quadro, cedendo nossas rique-
zas em bruto para beneficiamento e
agregagdo de valor em terras japone-
sas e dos outros compradores.
Claro que esse autoritarismo nao isen-
ta nossas responsabilidades. Agora mes-
mo o governor do Estado comemora, com
a tipica irreflexao dos tempos eleitorais
(que por aqui parecem praga eterna), a
conclusao da primeira etapa do "linhao"
de Tucurui para o Oeste paraense. Se
d6ssemos ao dinheiro federal (e tamb6m
ao estadual) o valor que a car6ncia atual
recomenda, noo teriamos construido essa
linha onerosa, que nao ter retorno visu-
alizavel. Buscariamos solugdo t6cnica e
econ6mica compativel com a demand,
a atual e a possivel de projetar.
Ao inv6s disso, busca-sej ustificar essa
sangria alegando que ela, finalmente,
permitirA que uma fibrica de cimento,
paralisada hi quase 15 anos, entire em
funcionamento. Esquece-se, por ser con-
veniente esquecer, que essa fibrica obri-
gou-se a ser auto-supridora de energia,
sem o que a Sudam nao aprovaria o pro-
jeto, tamb6m obrigado a implantar-se si-
multaneamente A outra fibrica do mes-
mo grupo, iniciada muito depois, que fun-
ciona plenamente em Manaus desde
1985. Este pecado estatal, porque bene-
ficia o empresario privado, nio consta
da cartilha neoliberal.
Muitas coisas precisamos ainda dis-
cutir, mesmo o debate acontecendo en-
quanto os fatos sao consumados, para
nao nos tornamos vitimas de obras que
nos deveriam libertar e desenvolver. E
espantoso recorder que em 1975 o pro-
jeto bisico da hidrel6trica de Tucurui nao
incluia a transposig o da barragem. Isto,
duas d6cadas depois de muitas lic6es,
amargas e custosas, aprendidas pela hu-
manidade sobre efeitos indesejaveis ou
imprevistos do represamento de rios (o


Colimbia, nos Estados Unidos, e o Nilo,
no Egito, para dar apenas dois exemplos).
A contragosto, a Eletronorte fez o pro-
jeto basico das eclusas, mas descartou-o.
0 "abacaxi" foi passado a Portobras, que
simplismente desmilingiiu-se pelo cami-
nho. Apenas uma parte do sistema de
transposigao foi executada: a estrutura de
concrete da entrada de uma das duas ci-
maras da eclusa. Pelo projeto original, essa
seria a maior eclusa do mundo, com ca-
nal de concretado de cinco quil6metros e
dois "elevadores" para veneer desnivel de
70 metros. Nao 6 esse o projeto que se
vai executar a partir de agora. Houve
"simplifica96es". Quais? Ningu6m expli-
cou at6 agora, nem sua repercussdo, se
vai reduzir em escala e volume o que se
esperava. Acho que essa explicagao 6 ne-
cessaria, como indispensavel 6 rever o
contrato original. I legal aditar algo que
vai custar acima de 200 milh6es de reais
(sem falar da posi9do legal em relagao
ao aditamento da pr6pria duplicapgo da
usina)? E moral?
Quanto A segunda etapa da usina, o
mais impressionante, como mostrei no JP
n0 188, 6 a diferenga entire a capacidade
nominal e aquilo (dois tergos menos) que
se vai gerar no period de seca. Esse
dado recomenda aos t6cnicos partilhar
corn a sociedade uma reflexao s6ria e
corajosa sobre a operacgo do reservat6-
rio de Tucurui, explicando a razdo da sur-
preendente diferen9a que surgiu entire as
duas refer6ncias oficiais disponiveis, a que
havia desde a 6poca do enchimento e a
que apareceu na iltima revisao. Os pros-
pectos da Eletronorte, batendo em unis-
sono sobre a duplicag9o da capacidade
nominal (de quatro para oito milhoes de
kw), sem refer6ncia A potencia fire des-
proporcionalmente menor da segunda eta-
pa, tornam o custo de cada kw invejavel,
capaz de justificar por si s6 a aplicagao
de mais R$ 1,3 bilhio na obra. Mas essa
6 a "verdade verdadeira"?
Nenhum povo serio inicia um empre-
endimento desse porte sem os dados
consolidados A mro. E possivel que os
t6cnicos o tenham. Mas o que, a duras
penas, como sempre, conseguimos filtrar
desses ambientes concentricamente fe-
chados, nao nos da essa seguranga. Es-
pero que manifestac9es positivas, como
a de Trajano Oliveira, ajudem a instau-
rar um debate necessario e proveitoso.
Final, corn Tucurui duplicada (ou nomi-
nalmente duplicada), ja seremos o ter-
ceiro maior gerador de energia do pais -
e, talvez, nao muito gloriosamente como
poderia parecer, o segundo maior expor-
tador, em vias de ser o "primeirdo" se o
projeto do Xingu for retomado. *


Cartas

ou assinante de seujornal, e ape-
sar de te-lo recebido hA 3 dias,
somcnie hoje pude ler e fiquei
inl Lto comovida e igualmente mi-
nha mae, ao ler o que voc6 escreveu
sobre meu pai, Daniel Coelho de Sou-
za. Como voc6 bem escreveu, ele se
foi como viveu, discretamente. Eis uma
verdade, meu pai nunca foi vaidoso, era
de uma humildade tocante, raras ve-
zes o vi se orgulhar de algo que fez,
pois acreditava que a retiddo e o cara-
ter de um home era um dever natu-
ral. Sobre as pessoas que poderiam
falar sobre suas obras, creio ser pos-
sivel, certamente. Entretanto, o Dani-
el, home, s6 mesmo minha mae Na-
zar6 podera faz6-lo, pois mesmo n6s,
os filhos, apesar do imenso amor e res-
peito que sempre tivemos por ele, ain-
da assim seria uma visao parcial. S6
ela o conheceu profundamente, nao
apenas pelos 42 anos de vida em co-
mum, mas principalmente pelo grande
amor que os uniu, numa relagAo quase
po6tica, o qual ele mesmo sempre di-
zia terem ficado juntos por teimosia e
a certeza de seu amor. Juntas agrade-
cemos as suas palavras, escritas cor
tanta propriedade e carinho.
Maria Cristina
Fonseca de Carvalho


elo iespeito quanto a sua inde-
pendnic ia. fidelidade e responsa-
bilidade. venho cor a present,
retificar nota do Jornal Pesso-
al, sob o titulo "Turismo Ecol6gico". A
propriedade do Grupo REICON na ilha
Mexiana 6 de 38.000 hA., sendo 29.000
ha. De campos naturais e 9.000 hA. De
florestas tipicas. O Maraj6 Park Re-
sort foi construido em area de campos
naturais, n~o tendo sido derrubada, se-
quer, uma Arvore para a sua edifica-
9do. O contrast que existe nas fotos
vistas pelojornalista decorre da paisa-
gem natural da ilha. Esta, entire tantas
outras, sao belezas admiradas e res-
saltadas por turistas, principalmente
amantes da natureza e defensores do
meio ambiente. Somente o conheci-
mento, in loco, permit uma avaliag9o
mais precisa, pelo que convido o ilus-
tre jornalista para conhecer o empre-
endimento, todo ele realizado cor re-
cursos pr6prios do Grupo.
Jos6 Viegas
assessor da diretoria







Perd o, leitores
Alguns leitores tem obser-
vado erros diversos no JP. HA
os de digitagao, muito eviden-
tes. Outros indicam falhas de
atengdo tipicas de cansago.
Todas depoem contra a revi-
sdo, que, infelizmente, devido
a precariedade da produgAo
deste journal, nao houve nos
filtimos n6meros.
Espero que os pacientes
leitores relevem essas defici-
encias e, mesmo sem deixar
de apontA-las, exigindo sua
corregco, acreditem que, um
dia, o corretivo virA. Cor ci-
vilidade e boa vontade.


Prestigio
Dois dias depois que o
Jornal Pessoal circulou corn
minha critical ao iltimo livro
de Salomao Laredo, coorde-
nador do projeto "O Liberal
na escola", a coluna "Rep6r-
ter 70", dojornal dos Maiora-
na, publicou a seguinte nota:
"A Biblioteca do Congres-
so americano, por grande in-
teresse em suas obras, solici-
tou ao escritor Salomio La-
r6do o envio de seu livro
'Chap6u Virado a lenda do
boto'. Anteriormente, a bibli-
oteca pedira o livro 'Sibele
Mendes de Amor e Luta'.
Ambos os livros ja estao es-
gotados".
Das duas, as duas: 1) 0
Jornal Pessoal 6 lido inten-
samente em Washington; 2)
Salomao Laredo 6 grande
amigo de Bill Clinton.
Te cuida, Tom Clancy.


Aguardem
Preferi nao esperar pelo dia
30, das conven96es finals de-
finindo todas as candidaturas
ao govemo. Mas, no dia 28,
data do fechamento desta edi-
gio, o resultado jA era previ-
sivel (e tantas vezes aqui an-
tecipado), embora surpreen-
da (e espante, ou choque) sa-
ber de tudo o que aconteceu
nos bastidores. Literalmente,
valeu tudo. Mas nem tudo foi
conseguido. Mat6ria para a
pr6xima edigco.


Paquiderme

Todas as empresas que conduziram os grandes projetos con-
cebidos peto regime military para integrar a Amaz6nia A econo-
mia national j transferiram suas sedes administrativas para a
area na qual atuam. Depois de Albras e Alunorte, 6 a vez da
Mineragdo Rio do Norte, outra subsidiaria da Companhia Vale
do Rio Doce, que, privatizada, trocou a sensibilidade political
pelo registro de caixa.
A MRN fechou seu escrit6rio no Rio de Janeiro e concen-
trou tudo em Porto Trombetas, Oriximina, sede da mineragao
de bauxita. O que 6 simples de explicar: cor os modernos
recursos de comunicag9o, nao ter mais sentido manter uma
esp6cie de legagao consular no chamado sul maravilha. E per-
der dinheiro. E agravar o escarnio do native
Desse elementary bom senso nao partilha a Eletronorte. So-
brevivendo A razzia de privatiza96es do governor federal, a
estatal continue encastelada em Brasilia, fora dos limits do
territ6rio que constitui suajurisdigao. Continue sendo a Onica
nessa condig9o, dentre todas as empresas do grupo Eletro-
brAs. Quem apadrinha esse anacronismo? Ningu6m consegue
arrombar essa bastilha? Nem tentar vale?


No Xingu o novo

grande projeto
Agora que a linha de alta tensdo que transmite energia de
Tucurui para Altamira esta em operaqgo (da Rur6polis Brasil
Novo para Itaituba e Santar6m a responsabilidade pass a ser
da Celpa), a Eletronorte da inicio A execugdo do maior projeto
do setor el6trico em todo o pais: a construg9o da hidrel6trica de
Belo Monte, no rio Xingu.
E uma obra muito maior do que a de Tucurui, embora a Eletro-
norte garanta ser tamb6m muito mais atraente e barata: i!nundando
apenas uma Area de 440 quil6metros quadrados seiss vezes me-
nos do que no Tocantins), ira gerar bem mais energia (11 mil
megawatts contra 8 mil MW com a segunda etapa de Tucurui, s6
agora iniciada), cor investimento de oito bilh6es de d6lares, menos
do que Tucuruija nos custou, na ponta do lapis.
Nas pr6ximas semanas a Eletronorte e a Eletrobras montarao o
modelo para a formagio de um cons6rcio com a iniciativa privada
para a execugao do projeto. Segundo as primeiras informai6es
transmitidas de Brasilia, o govemo federal adiantaria os recursos
necessarios para instalar o canteiro de obras, contratar os primeiros
servigos e encomendar as maquinas, at6 que se defina a parte do
investidor particular. Toda a energia que for obtida sera transferida
para o sul do pais.
Ou seja: tudo o que uns poucos analistas previram estA se confir-
mando. Ja nio 6 hora de as representag6es da sociedade paraense
convocarem a Eletronorte para a ptimeira apresentagio do project
hidrel6trico do Xingu? Ou, mais urna vez, iremos esperar os fatos
consumados para tomar alguma iniciativa, fi6is Aquele hAbito bem
brasileiro de s6 cuidar da seguranga depois da casa arrombada?



Journal Pessoal
Editor: LOcio IJavio Pinto
Sede: Rua Aristides Lobo,871 I CEP: 66 053-020
Fone: 223-1929, 241-7626 e 241-7924(fax)~. Contato: Try. Benjamin
Constant, 845/203 1 66 053-020 Fone: 223-7690
e.mail: lucio@expert.com.br
Editoragio de arte: Luizp& I 241-1859


Silencio

incomodo
E provavel que'a atual sai-
son da Copa do Mundo e a
proximidade das f6rias de ju-
Iho nao tenha permitido A Or-
dem dos Advogados do Bra-
sil, Seccao do ParA, prestar
atengao ao incident envolven-
do ajustiga estadual e o grupo
Liberal. Talvez, em outras cir-
cunstAncias, a entidade pode-
ria ter-se imaginado no dever
de pedir informa96es a respei-
to. Afinal, a questao envolve o
sagrado direito A prestagaoju-
risdicional, como dizem os ad-
vogados, e o acatamento ao
poder arbitral dojudiciario, sem
o que os cidadaos podem se
sentir desprotegidos e sujeitos
aos humores dos poderosos,
"mais iguais" do que o comum
dos mortais.
Quem sabe em agosto a
nossa OAB tome uma atitu-
de. Ou ter essa esperanga nao
6 mais do que devaneio, alimen-
tado pela confianga nos nomes
de alguns dos responsaveis
pela entidade?


La e ca
As audi&ncias publicas para
o debate do impact ambien-
tal da hidrovia que o governor
do Estado quer construir no
Maraj6, serao realizadas nes-
te m6s em AnajAs e Afua.
Correto. Mas por que nio se
prev6 nenhuma sessao na ca-
pital do Estado, onde se con-
centram as institui9oes e as
pessoas tecnicamente mais
habilitadas para avaliar os re-
lat6rios e estudos ecol6gicos?
A legislaCao, por descuido,
talvez, nao estabeleceu essa
.provid&ncia. Mas o bom sen-
so e 'a boa f6 deveriam prev&-
la. Assim, combina-se o saber
te6rico com o conhecimento
empirico, os intelectuais e o
povo, todos ganhando nessa
simbiose, de preferencia ela
comegando pela capital e se
estendendo, em seguida, aq
interior, municiando o.cida d
cor boa informa9I:, 'T'
Ber que a Secttt poderia
inovar positivameite, servindo
mais A ciencia do que ao poder.