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Na Political a jomal Pessoal erde L U C O F L A VI O PI N T O Santarem ANO XI N 189 2' QUINZENA DE JUNHO DE 1998 R$ 2,00 exorcisa 0 Passado ,P,. 7 JUSTICE Precedente perigoso 0 grupo Liberal ameagou retaliar a justiga paraense para impedir a publicapdo da sentenga do juiz Enivaldo Gama, que obriga o joral a pagar 100 mil reais de indenizagdo por danos morals causados ao desembargador Benedito Alvarenga. Uma reunido reservada apreciou a ameapa, mas o colegiado acabou decidindo resistir. uinze desembargadores se reuniram no ultimo dia 29 no gabinete do president do Tribunal de Justiga do Es- tado, Romdo Amo6do. Tema desse encontro reser- vado: a ameaga que a dire- cgo dojornal 0 Liberal havia feito, dias antes, de retaliar o TJE caso o Didrio da Justiga publicasse sentenga do juiz Eni- valdo da Gama Ferreira, da 5a vara civel do f6rum de Bel6m, proferida no dia 22. A sentenga condenou a Delta Publicida- de, do Sistema Romulo Maiorana de Co- municagAo, a pagar 100 mil reais ao de- sembargador Benedito de Miranda Alva- renga como indenizag9o por danos mo- rais de uma noticia publicada em OLibe- ral, considerada ofensiva ao magistrado. No mesmo dia em que datou sua sen- tenga, ojuiz a enviou ao setor de resenha para publicagqo. Mas quando o documen- toja estava pronto, sua publicagco foi sus- tada por ordem do president do Tribunal, encaminhada atraves do Corregedor Ge- ral de Justiga. O mal-estar provocado por essa decis.o, in6dita nos anais dojudicia- rio, forgou a convocaggo informal dos de- sembargadores, entire os quais o pr6prio Alvarenga, que protestou energicamente contra a iniciativa. Um dos desembargadores presents levantou a possibilidade de uma composi- 9do: ojornal faria uma retratagao pilblica e Alvarenga desistiria da agco. O desem- bargador ndo aceitou. Disse que antes de proper a agdo de indenizag~o, ha dois anos, atd admitira essa possibilidade. Chegou a procurar a diregdo do journal para acertar a publicaggo de uma nota retificando duas noticias que sairam, em margo de 1996, Gb ,jo 4a na coluna dojornalista Luiz Paulo Freitas, e que motivaram sua agao. Mas durante dois meses nao teve resposta. Temendo que tudo nao passasse de uma manobra para faz&-lo perder o direito de agir (que sucumbiria tres meses depois da publica- 9ao da noticia considerada ofensiva), re- solveu ajuizA-la. Depois de alguma discussio, os de- sembargadores concluiram que nada havia a fazer: a sentenga teria que ser publicada, mesmo acarretando uma cam- panha do grupo Liberal contra ojudicia- rio paraense. A edigdo do Didrio da Jus- tiga do dia 2 trouxe, finalmente, a deci- sao dojuiz Enivaldo Gama. Cor um de- talhe: apesar do carimbo de urgencia, passaram-se nove dias entire a data ofi- cial da resenha (25 de maio) e sua divul- gagao. Para recorrer, a Delta Publicida- de teria que depositar os R$ 100 mil da condenagdo, mais R$ 15 mil de honord- rios, al6m das custas do process. Nos dias 3 e 26 de margo de 1996 a) .LLL ['I Q, L. ,L L /". t L I 'L'U.' L 1: "' ', -.S ,* I ., . : ? .,'y tit:,,iS , ,...,,, .' ,1 ,* :* 2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENADE JUNHO / 1998 ,coluna Zing, de O Liberal, publicou duas notas que o desembargador Benedito Alva- renga considerou ofensivas. A primeira di- zia: "A mulher de um recem-desembarga- dor, que nio deve ser confundida como ra- inha da Inglaterra, reina absolute no Tribu- nal. As mulheres dos seus pares 6 que nio estao gostando. Nem o velho compare esta infenso a trajet6ria de traquinagens". A segunda nota era mais explicit: "Toma um novo rumo as traquinagens da Elizabeth, que nao e a rainha da Inglaterra, As esposas dos magistrados reuniram-se e fecharam questao: nao devera haver tra- quinagem entire os pares do tribunal. Eliza- beth pode at6 negociar decis6es como fa- zia cor os pareceres do traquinado, mas devera respeitar o decor familiar dos membros do tribunal. A decisao s6 nao foi unanime por causa da existEncia de rela- c5es de compadrio que admite e aceitatra- quinagens de comadre". Apesar de nao ser referido pessoalmente nas notas, Alvarenga identificou-se como o alvo delas. Era o mais novo dos desembar- gadores. Oriundo do Ministerio Publico, em sua atividade anterior emitia pareceres, en- quanto na nova 6 encarregado de tomar decis6es. O nome de sua esposa e Elizabe- th. O entao president do TJE, desembar- gador Manoel Clristo Alves (hoje aposen- tado), e seu compare. Alvarenga ajuizou duas ac6es. Uma, penal, contra ojomalista Luiz Paulo Freitas, responsavel pela coluna (mas nao o verda- deiro redator das duas notas, introduzidas a sua revelia), que acabou condenado na pri- meira instincia. Outra, civel, contra a Delta Publicidade, cobrando R$ 100 mil de inde- nizag~o por danos morais. Em novembro do ano passado o juiz Enivaldo Gama encerrou a instruno do pro- cesso, um ano e meio depois de hav6-lo ini- ciado. Um representante legal e um porta- voz do grupo Liberal procuraram, na segun- da quinzena de abril, estabelecer um enten- dimento que evitasse o sentenciamento da acgo. Nao sendo bem sucedidos, apesar de presses feitas sobre a cipula dojudiciario, tentaram uma ultima manobra: no dia 22 de maio arguiram a suspeicgo de Enivaldo Gama. Mas quando o advogado Jorge Borba mostroupara ojuiz apetigio, ja protocolada, pedindo seu afastamento do process, Gama explodiu: fazia quatro meses que ele prepa- rava sua decisao, depois de ter passado un ano a frente do process, cuja instrugAo foi encerrada em novembro do ano passado; nio admitia que s6 no instant final, corn a sen- tengaja pronta, fosse questionada sua impar- cialidade. Mandou a esposa buscar a sen- tenga, que estava em sua residencia, a espe- ra apenas de ser datada e assinada, assinou- a e remeteu-a para a resenha, onde o enca- minhamento regular foi sustado por causa das ameaas do grupo Liberal. Durante duas semanas ojudiciario para- ense tentou encontrar uma said para acal- mar os poderosos Maiorana. Nao a encon- trando, cedeu ao seu dever: fazerjustiga, in- dependentemente de suas conseqiiencias. * 0 dominio da mediocridade O Sistema Romulo Maiorana de Comunicaqco transformou-se num pe- rigoso super-poder no Pard. Inventan- do suas pr6prias regras, ameaga os poderes estabelecidos constitucional- mente, colocando-se acima deles. Como nao cncontra resistancia nas normas legais e nas autoridades pii- blicas, ousa cada vez mais. Age como se fosse um senhor feudal, com direi- to de vida e de morte, ou, para usar uma expressao mais ao gosto da nos- sa hist6ria, senhor de barago e cute- lo. Pode destruir a reputagio e mes- mo a vida de qualquer cidadao que se coloque contra seus interesses, ou mesmo caprichos. A ameaga feita a justiga paraense pelo grupo Liberal exemplifica a pa- roxia desse poder, exercido sem co- medimento ou mesmo pudor. Ao acei- tar a pressao e tentar uma solugao ne- gociada para o litigio entire a familiar Maiorana e o desembargador Bene- dito Alvarenga, a dire9do do TJE acei- tou, como se fora pressao legitima, o que, em linguagem nao muito polida, mas exata, ter uma designacgo cer- ta: chantagem. Um dos mais cultivados brocados do mundo juridico assegura que ajus- tiga s6 interessa o que faz parte do process: "o que nao esta nos autos, nio esta no mundo", diz o principio. No entanto, o president do Tribunal decidiu reunir seus pares para tentar encontrar uma formula que nao pro- vocasse a ira dos donos da opiniao pLi- blica. Publicada a sentenca condena- t6ria da empresa, que represalia po- deria adotar o Sistema Romulo Maio- rana de Comunicaqao? Publicar mais algumas notas cavilosas contra magis- trados? Ou desencadear uma campa- nha de reportagens sobre a morosi- dade ou a impericia do judiciario, como a que saiu na edigao dominical do dia 7 (sintomaticamente, citando o cart6rio pelo qual tramitou a aago in- denizat6ria)? Na primeira hip6tese, cabe a cada juiz ou desembargador, quando atin- gido, procurar seus direitos enquanto cidadao, como o fez o desembarga- dor Benedito Alvarenga. Alguns cri- ticaram o pedido de indenizagao que ele fez, achando que bastaria uma sangao moral para reparar o dano ale- gado. Mas a lei resguarda o direito a indenizaago e, ao busca-la, o desem- bargador pode ter procurado atingir os Maiorana em seu ponto mais sensi- vel: o bolso. Na segunda hip6tese, sendo a jus- tiga uma instituicao permanent e se- cular, seus erros, por mais graves que sejam (e sao realmente), nao elimina- riam a necessidade da sua existencia. Mesmo que viesse a sofrer os mais violentos ataques, justos ou injustos, sobreviveria. O pior foi o tribunal le- var em considerag~o uma ameaga que deveria ser rejeitada de pronto, in li- mine, como dizem os advogados, por- que ofende a dignidade intrinseca da instituigo. Ainda bem que o bom senso aca- bou prevalecendo, mas sobrestar o en- caminhamento regular do process abriu um precedent nocivo. Parece- ra ao usuario da justiga que sempre ha a possibilidade de barganha, mes- mo quando envolvendo apenas o cum- primento do rito processual, que de- veria ser automatic. O juiz senten- ciou a a9ao e mandou publicar sua decisdo. Durante duas semanas, en- tretanto, uma mao invisivel interrom- peu a administracao da justica, en- quanto moments nao previstos em nenhum c6digo eram criados para uma negociagao que nao poderia vir aos au- tos, nem mesmo a luz do dia. Ao observador atento, por outro lado, parecera que uma organizaago empresarial de grande dimensao soci- al e political, por lidar com a informa- cao, nao respeita qualquer tipo de res- tricao ou pudor quando seu interesse nao 6 acolhido. Ao inv6s de guiar-se por parametros coletivos, legitimando sua existencia, o grupo Liberal desce aos niveis mais mesquinhos para atin- gir os que, num crime equiparado ao de lesa-majestade, ousam contraria-lo. JOURNAL PESSOAL 29 QUINZENA DE JUNHO / 1998 3 E o que aconteceu cor o desem- bargador Benedito Alvarenga. Quan- do ainda era procurador de justica, ele teve a audacia de dar um parecer con- tra as pretens6es de Rosangela Maio- rana Kzan. Nao importa que, antes, agindo de acordo cor sua convic0ao, tenha emitido um parecer contrario as minhas pretensoes, em uma das mui- tas movimentag9es havidas nas quatro ac6es penais contra mim propostas pela s6cia-diretora do grupo Liberal. De minha parte, aceitei a decisao do entao procurador (quando nao se aceita, recorre-se, diz outra maxima processual). Mas ao reconhecer mi- nha legitima pretensao, de argfiir a sus- peigao da juiza que me condenou, Al- varenga tornou-se persona non gra- ta (todo reporter setorista de O Libe- ral no TJE recebe uma lista corn os nomes dos "indesejaveis", que jamais devem aparecer no noticiario, exceto para serem criticados). Acabou alcan- cado por duas notas s6rdidas. A sordidez nao esta no ataque ao desembargador, que o direito de criti- ca autoriza, mas na forma pela qual ele foi atacado. Se o desembargador realmente vende pareceres e deci- s6es, caberia ao journal prestar um ver- dadeiro service de utilidade piblica, sustentando a denuncia corn provas ou indicios veementes. Se houve uma reu- niao das esposas de outros desembar- gadores, a nota teria que dizer quais foram essas senhoras, ou qualtas ti- veram essa iniciativa, quando ela cor- reu, onde, o temario e uma tal riqueza de detalhes suficiente para demons- trar sua veracidade. Se houve quebra de decoro familiar, em que consistiu? Ao inv6s de informac6es, O Libe- ral publicou apenas insinuagoes ve- nenosas, sem qualquer consistencia. O responsavel pelas notas diz, na lin- guagem tortuosa dos que escondem a verdade, que elas "ocorreram ten- do em vista seu carter folcl6rico". Sustenta ainda que essas notas tinham carterr informative", "ainda que contivessem conteudo indicative de duvida". Corrupado no Minist6rio Pfiblico e no judiciario 6 folclore? Honra pessoal e folclore? Na divi- da, contra o reu? Sao esses os axio- mas do jornalismo nas empresas da familiar Maiorana? Alguma tempo atras a desembar- gadora Maria de Nazar6 Brabo de Souza sofreu o mesmo enxovalhamen- to. No exercicio de seu oficio, ela acei- tou um pedido de pericia que fiz (para verificar se foi a juiza Ruth do Couto Gurjio quem produziu sentenga que assinou contra mim). Foi o que bas- tou para a coluna Rep6rter 70 ataca- la, pretextando vinculago da magis- trada ao senador Jader Barbalho no exercicio da presid6ncia do TRE. Escrevi uma nota mostrando o ver- dadeiro motivo do ataque e a falsida- de dos arguments de O Liberal. Nao consegui publicar essa nota nem como mat6ria paga na grande imprensa lo- cal. inclusive nos concorrentes. Ficou Salomao Laredo escreveu um livro provavelmente inico na hist6ria da hu- manidade. Ouvindo Histdrias do Ima- gindrio Amaz6nico, em agradavel pe- queno format, da (por que nao?) Salo- mao Laredo Editora, tem 115 paginas. Quatro delas repetem a capa, em su- cessivas e ineditas paginas de rosto. O livro acaba tendo como se fossem cin- co capas, exatamente iguais, cor o ti- tulo e o nome do autor, que realize ou- tra facanha, at6 entao jamais perpetra- da em in-folios: inclui na edicgo duas fotografias suas, ambas coloridas, na- turalmente (mais as da mae, do pai e do tio). Alem de ter seu nome reluzindo nas cinco quase-capas, o autor assina uma esp6cie de introdugao e grava suas ini- ciais no que poderia ser torado como parafrase, alem de comparecer, corn sua inspiragao e assinatura (rides again), no epilogo. O texto propriamente dito do li- vro s6 emerge na pagina 29. Dai, ate a pagina 68, sempre em adequado peque- no format, seria o que James Joyce chamaria, se a tanto se atrevesse, de retrato do artist quando jovem: uma composigao em eu-maior de como o au- tor se tornou esse grande intellectual que ele pr6prio tanto admira. Nove paginas fmais repetem "dados bio-bibliograficos" do autor e sua prolifica obra, que 6 para ninguem se meter a besta de esquecer quem produziu esse livro singular. Corn modstia, Laredo confessa: "Na apenas a "verdade" de O Liberal, uma dentre as muitas que costuma impor a opiniao public porque todos, temen- do-o, se acachapam e se encolhem. Deixam que um anao se transform em gigante simplesmente por vestir uma roupagem tecnol6gica de impres- sionar. Permitem este vasto e medio- cre monop6lio, que exerce sua acao nefasta sobre este rico e infeliz Esta- do, fazendo-o a sua imagem e seme- lhanga. E o castigo merecido? Quem tiver culpa que o receba. * minha cabega, os livros todos estao pron- tos e sempre ha centenas deles queren- do sair, ganhar vida pr6pria e correr mun- do". Em pouco mais de 30 anos, 14 ja escaparam do redil mental, um latiffindio de inspiracao, sete apenas nesta d6ca- da. A central de livros ameaca com no- vos cometimentos ainda para este ano. Salomao Laredo, que ja integra varias academias, inclusive a dos imortais das letras, vai acabar entrando no Guiness, o livro dos records. Como o autor que mais falou de si mesmo. Fora dessa es- pecialidade, 6 um conselheiro Acacio ao tucupi, didaticamente ensinando aos can- didatos a sumidades, que nem ele, o cul- tivo de abobrinhas. Dos seus muitos e festejados livros, ponho f6 no primeiro, publicado em 1972, que atende pelo titulo alias, muito ori- ginal de "C~nticos do Amor Amado", uma edigio mimeografada de 30 exem- plares, todos esgotados, da qual o autor "nao ter nenhum exemplar". Razao ti- nha o pai do escritor quando, inspirado na sabedoria popular, vivia repetindo o - como ele diz axioma: "O tempo per- guntou ao tempo/ qual 6 o tempo que o tempo/ tem. E o tempo responded ao/ tempo, que s6 corn o tempo se/ sabe o tempo que o tempo tem". O brilhante author ben que poderia, do tempo, apren- der a li~go que Ihe foi dada logo no pri- meiro livro e, aos poucos, tamb6m dar um sumigo nos demais. A literature bra- sileira, penhorada, agradeceria. * 0 grande artist, por ninguem menos do que ele mesmo 4 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE JUNHO / 1998 A viciada bolsa de Como quem tivesse vencido uma aposta, o empresario abriu um sorriso ao declarar: Nao te disse que o Jader nao vinha ser governador? E verdade: disse. Mas nao havia ain- da, na semana passada, nenhuma con- firmacio de que o senador do PMDB disputara o govemo do Estado. O pr6- prio nao assumira sua candidatura, nem a negara. Continuava mudo e trabalhan- do ativamente nos bastidores. De Il, gre- gos e troianos vinham para proclamar em ambientes publicos, dizendo-se capazes de decifrar o grande enigma do momen- to pr-eleitoral no Para. Enquanto o gran- de empresario estava seguro da confir- ma9ao de sua previsao, um dos politicos mais pr6ximos de Jader, depois de muita insistencia, revelava: Ele ja nos disse que sera candidate. Sussurrando, o politico informava: milhares de cartazes e camisas de cam- panha ja estao prontos e sao espalhados por todo o Estado. O anincio official, se- gundo uma versao, sera feito ainda nes- ta semana, logo depois que a diredao do PMDB national decidir se continue com o deputado Paes de Andrade ou se ira procurar novo president. O candidate natural para o cargo, que ja foi de Ulys- ses Guimaraes, seria Jader Barbalho. Nesse caso, ele desistiria de baixar a rinha estadual e continuaria tentando al- Car v6o national. Teria a presid8ncia national do PMDB como argument compensat6rio para calar seus correligi- onArios paraenses, ansiosos por seu re- torno ao govemo estadual. Evitaria a di- aspora que essa frustragdo desencadea- ria. Outra versao, entretanto, nao conce- de: a confirmagao da candidatura ficara mesmo para o dia 30, quando o PMDB local escolhera em convengao se vai enfrentar o govemador Almir Gabriel ou embarcar na sua esquadra. Se depen- der da maioria esmagadora do partido, Jader pode voltar a Granja do Icui e di- zer ao seu ilustre inquilino que nao have- ra fusao de palanques. Consultar as ba- ses antes de uma definicao foi a condi- cionante que o senador estabeleceu an- tes de responder ao convite que, em dose dupla, o govemador Ihe fez para que se coligassem. As bases nao querem acor- do. Mas o PMDB e urma ficcao sem Ja- der Barbalho. Ele ouve a si pr6prio, con- , encido de ser a voz de uma multidao. Ele sempre quis isso, mas, pela pri- meira vez, sofre os efeitos do feitico. Se tivesse um nome para colocar a frente de uma candidatura pr6pria cor possi- bilidade de amealhar votos em todo o Estado e enfrentar o discurso tucano, nao estaria tendo que armar e desarmar es- quemas conforme aceita ou rejeita a tese do seu retorno a chefia do executive es- tadual, sem poder realizar seu desejo mais intimo: permanecer como parlamen- tar em Brasilia, sem perder sua base de poder no Para. Fernando Coutinho Jorge 6 a pega que faltou ao esquema dos sonhos de Jader. Em todas as ocasi6es semelhan- tes no passado, Coutinho confiou cega- mente em Jader e o resultado foi uma frustrago. O lider Ihe prometia uma coisa (ou ao menos aquilo que Coutinho interpretava como prometido) e fazia outra. A carreira do ex-peemedebista rumo ao topo do poder sofria um embar- go. No ultimo confront, Coutinho resol- veu nao esperar mais por Jader. Pulou para o barco do PSDB. Mas onde havia um banco esperando-o apareceu um bu- raco e ele afundou (embora com sinecu- ra vitalicia). A vaga pela qual tanto es- perou finalmente abriu-se, mas ele nio estava mais la para ser o escolhido. Sem- pre houve uma falta de sincronia entire a hist6ria e o ex-senador e future conse- Iheiro Coutinho Jorge. Se nao for Jader, o PMDB fica sem altemativa para a dispute do govero. Tera mesmo que apoiar Almir Gabriel, mesmo que uma parte consideravel do partido acabe optando pelo chamado voto camarao (nao votando no cabega de cha- pa), fluindo para H6lio Gueiros. O PMDB nao nem mesmo um can- didato de expressao para o senado, cir- cunstincia que alimenta uma especula- cio meio delirante: Jader esqueceria os quatro anos que ainda tem como sena- dor para vir disputar novamente a vaga, colocando o pai, Laercio Barbalho, em seu lugar. Em favor dessa tese ha a cir- cunstancia, nada desprezivel para a cor- rida presidential de 2002, de que ficaria como dono de duas vagas no senado, reforgando seu cacife national. Mas se 6 para especular, outros ima- ginam que Jader simplesmente mante- nha-se a margem da dispute local, pou- pando-se dos desgastes inevitaveis de uma campanha eleitoral. Nao apoiaria ninguem, preservando-se para os pr6xi- mos quatro anos, ou seria o avalista de uma ampla composicgo para reeleger Almir Gabriel e colocar H61io Gueiros no senado, trazendo o president Fernan- do Henrique Cardoso para um acerto: todos os cargos federais ficariam sob o seu control. As variantes nesses raciocinios sao infinitesimais. Todo o despistamento fei- to por Jader serviria a um xeque-mate contra H61io Gueiros: no final, o senador do PMDB coligaria com o goverador e deixaria seu ex-quase-futuro amigo ao relento. Gueiros teria que escolher: con- correr ao senado, sem candidate a go- vemador, tendo que enfrentar Jader (na hip6tese de ele candidatar-se outra vez) e deixando 6rfao o PFL, ou arriscar-se a enfrentar Almir Gabriel, com possibilida- des ainda menores de vit6ria. Imaginar situag6es a partir de dedu- 95es 16gicas, qualquer um pode fazer - e 6 at6 um exercicio saudavel para a mente, se em abstrato (em carter apli- cado, vira fonte de angustia). Mas acom- panhar todos os passes de uns poucos personagens, sondar seus interlocutores, apurar seus movimentos reais e decifrar o que esta em suas mentes exige um esforgo muito grande, e nada compen- sador para quem quer mais do que "es- tar por dentro". Ainda mais porque e extremamente reduzido o nimero dos que decide. No moment, alias, a equa- cao esta pendente de uma unica inc6g- nita: a definiaio de Jader Barbalho. E constrangedor que num regime de- mocratico de massas a decisao esteja tao concentrada assim, condicionada a ma- nobras de sagacidade, a movimentos que nada tnm a ver com o mundo real. Nes- te, os atores tem que produzir objetos, gastar energies, consumer seu capital in- telectual, mobilizar muita gente. No mun- do politico, uma pega mexida tem as ve- zes uma importancia que nao se pode imaginar diante de sua aparente singele- za. E o imaginario que cria o real e nao o contrArio. Todas as especula96es sobre o que ocorrera nos pr6ximos dias deveriam ba- lizar-se por alguns fatos. Sem seqilncia cronol6gica, nem peso relative, pode-se lembrar alguns. O ex-senador Jarbas Pas- sarinho, por exemplo, esta a beira do rom- pimento com seu ex-aliado em 1994. No iltimo dos seus artigos para 0 Liberal, Passarinho responded a "um amigo", que o acusou de apego exagerado ao poder, JOURNAL PESSOAL 2E QUINZENA DEJUNHO / 1998 5 apostas da eleicao independentemente de quem seja o pode- roso (Collor, Almir, FHC), a ponto de nio manter a menor das coer8ncias. O Amigoo", Jader Barbalho, ainda nao foi identificado, mas o tom do arti- go ja saiu do comedimento em que Pas- sarinho se manteve depois da derrota de quatro anos atras. Os dois politicos estao a caminho de uma separagco de- finitiva e nao de uma recomposiCgo num grande acordo, como o que O Liberal anunciou no "Rep6rter 70", sem a me- nor relagao cor a realidade. E pouco provavel tambem que H1lio Gueiros e Almir Gabriel venham a es- tar juntos nessa arca de No6 estilizada. O ex-prefeito aproveitou uma replica, bem ao estilo do Velho Testamento, dada ao deputado tucano Martinho Carmo- na, para sapecar no governador o titulo de "herege", ignorando os recentes es- forgos de Almir Gabriel para parecer mais crente do que o ex-ateu Fernando Henrique. Tambrm 6 fantasia de verao que o empresario Romulo Maiorana Jr. esteja levando a serio sua candidatura ao se- nado. Enquanto os correligionarios do PL se esgoelavam em pr6-convencgo louvando seu nome at6 nao mais poder, Rominho voava para uma temporada de quase duas semanas nos Estados Unidos. Bisa o feito com uma excursao a Copa do Mundo na Franca, no exato moment em que se fecham as alian- cas. Sua candidatura serve apenas para elevar o cacife sonante dos seus veicu- los de comunicagco na bolsa, enquanto sacia a fome de prestigio de um ego in- flado (ou inflacionado). Nao se pode subestimar a relevan- cia desses components num moment em que a corrida ao poder esquenta. Talvez o president da Republica nao tivesse avocado o direito de assinar as ordens de servigo em Tucurui e presidir a inaugurauao em Altamira se sua van- tagem sobre seu concorrente direto nao se tivesse evaporado. Agora ele ate volta a posar em public junto ao nada querido correligionario do Para, mas sem permitir que ele monopolize o usu- fruto do epis6dio. Ber que a assessoria do governa- dor tentou aplicar um golpe de mestre em Jader Barbalho, esvaziando os efei- tos da sua presenga na comitiva presi- dencial desde a partida, de Brasilia. Para isso, convocou os ex-governado- res para a solenidade, transportando-os de Belem. Vivo, H6lio Gueiros excluiu- se da caravana, evitando sacramentar a "uniao pelo Para" em torno de Almir e minimizar a presenga de Jader. Tantas manobras e volteios, com tan- tas possibilidades de mudangas bruscas, s6 sao possiveis, alias, porque nao ha program algum, nem qualquer visao de mundo a ser discutida em tomo dessa coligag~o. Ela envolve apenas pessoas e esquemas de poder. Por isso, a con- juntura da vespera podera tornar-se outra no dia seguinte ao da candidatura de Jader Barbalho ou de um acerto de todos os coroneis da political paraense. At6 que eles decidam como se posicio- nar no tabuleiro, os espectadores, mais pr6ximos ou mais distantes deles, po- dem continuar com suas especula96es ou suas "informaaoes de primeira", di- zendo que sim ou que nao, ganhando ou perdendo numa aposta viciada. Viciada porque quem perde, perde. E quem ga- nha, nao leva. * O Para enterrou na semana passada um grande home. Mas as homenagens prestadas a Daniel Queima Coelho de Souza nao estiveram a altura do reco- nhecimento de que se fez merecedor dos seus conterraneos em seus quase 82 anos de vida (que completaria em no- vembro). Foi um home digno, honest, brilhante, culto, competent adjetivos que nao costumam associar-se numa unica biografia. Foi um professor excepcional, o pen- sador que melhor refletiu entire n6s so- bre a teoria do direito, um fil6sofo do mundojuridico como poucos houve e ha neste pais, um advogado brilhante. Fez uma longa caminhada pela vida pfiblica sem um incident que a enodoasse. Mor- reu discretamente, como viveu. Mas quando sua vontade ja nao mais podia prevalecer, faltou ao adeus dos paraen- ses a marca da grande perda. Era a hora de dizer aos sucessores quanta falta fara Daniel Coelho de Souza por sua singula- ridade. Outros bi6grafos mais preparados certamente surgirao para fazer o balan- Mestre imortal co dessa vida que se encerrou. Gostaria de registrar aqui, entretanto, a grandeza do personagem, mesmo para quem o acompanhou a distfncia. O "doutor Daniel", como todos o tra- tavam, menos pelo formalismo de sua qualificaqco do que pela sua essencia de ser, deixou muitas lic6es. Algumas delas estao registradas em uns poucos textos que produziu a margem de suas exem- plares peas de advogado, concisas e precisas, claras e fluentes. A licao de que a dignidade 6 um atributo pessoal que nao pode ser reduzido pelas circuns- tancias. Daniel Coelho de Souza formou-se advogado quando as teorias autoritarias estavam em ascensao, no mundo e no Brasil, cobrindo-os de tensao. Mas as primeiras manifestac5es do seu pensa- mento visavam a democracia e o huma- nismo. Nunca foi um tribune, como vari- os de seus contemporaneos, nem se ca- racterizou pela contundencia da manifes- tagao, como outros. Discreto e sistema- tico, nas salas de aula como nos gabine- tes, ocupou cargos de confianga durante o regime military, sem, entretanto, subme- ter-se a voz do dono. Nao traiu seus ideas de liberdade e humanismo, embora acomodando-os aos compromissos das fun95es exercidas por delegagco de um governor mais que au- toritario. Pode-se continuar a exercer cargos publicos, mesmo nesses periods de trevas, sem baixar a cabega, curvar a coluna ou tapar os olhos, os ouvidos e a boca. Sem heroismos, mas tamb6m sem indignidade. Altivo como Daniel Coelho de Souza. E uns poucos que nao se avil- taram numa epoca propicia ao carter menor. Como um mestre socratico, ele dei- xou seus ensinamentos guardados na mem6ria dos que tiveram o privil6gio de receb6-los, ditados como se fossem a coisa mais natural do mundo, da manei- ra limpida e definitive como s6 os sabios sabem usar. Por isso, ainda que as ho- menagens formais nao tenham estado a altura do que Ihe cabia, ele se foi corn o maior dos elogios: permanecendo vivo na mem6ria dos que o conheceram e jamais deixarao de admira-lo. * 6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO / 1998 Entre baratistas e tucanos, a memorial e que fica na pior O secretario de Cultura do Estado, Paulo Chaves Femandes, foi atropelado quando seu projeto de mudar a destina- qao do Memorial Magalhaes Barata ja estava em andamento ha quatro meses. Bastou Lucid6a Batista Maiorana assi- nar um "suelto" (ou pequeno editorial) em seu jomal, fundado por seu tio-av6, para o governor providenciar uma desas- trada errata, desdizendo tudo o que ha- via declarado e desfazendo tudo o que havia realizado. O resultado 6 que Joa- quim Cardoso de Magalhaes Barata, de destronado, passara a ter dois templos: o ex-quase-ameagado memorial e uma nova sala toda sua no Museu do Estado, ex-Palacio Lauro Sodrd. O tucanato nio volta atras: volta alem. Nao paira a menor duivida sobre as inten95es originals do secretario de Cul- tura. Paulo Chaves mandou evacuar do polemico pr6dio do memorial os 3.500 itens do acervo, entire os quais uma es- cova de dentes, da raramente visitada exposiaio permanent (mesmo porque o im6vel nao disp5e de paredes nas quais se possa armar pain6is ou telas). Essas peas foram levadas para o Museu do Estado, onde ficariam de vez, numa future sala (talvez tao future quanto a reservada para o maestro e composi- tor Waldemar Henrique). O esvaziado memorial seria usado para a apresenta- 9co de muisica popular e folcl6rica, se tal atividade couber realmente no local. O desapreco do secretario e da ad- ministraq~o tucana pelo memorial sem- pre foi flagrantemente visivel. Nos seis anos em que dois goveradores "bara- tistas" o administraram, o memorial foi mantido como um baluarte inexpugnavel. Bem que os grafiteiros e pichadores ten- tavam suja-lo, mas uma guard, constant e atenta, os manteve a distancia. Aquele chapeu colonial ingles de concrete, de alguma serventia para contemplacgo exterior, de nenhuma para uso interno, permaneceu limpo. Alguns meses depois da chegada do doutor Almir Gabriel, o predio ficou ao alcance dos bandos de desajustados que sujam a cidade. Nao s6 foi pichado, como depredado e saqueado. Vidragas foram quebradas, luminArias roubadas e o lixo se acumulou. O pr6dio esta na- quele ponto geralmente buscado pelas administracges publicas para justificar custosas obras de reform ou restaura- Vco (como o palacete residential da - outra vez -avenida Magalhaes Barata, os palacetes Bolonha e Pinho, etc, & etc.). Ou, no caso, para sepultar, ainda que simbolicamente, o baratismo, que deve atazanar a mem6ria e as estrategi- as conjunturais do nosso "coligado" go- vernador, as voltas com os dois princi- pais remanescentes da escola do coro- nel Barata (os agora reconciliados Hlio Gueiros e Jader Barbalho). Na pele de dona Dea Maiorana, teria feito a mesma coisa, protestando contra o atentado a obra realizada e defenden- do a mem6ria da pessoa querida. Legiti- ma a posiCao dela, surpreendendo os bocejantes leitores da edi9ao dominical de seujomalao com seu suelto bem pos- to. Magalhaes Barata continue provocan- do paix6es ainda hoje, quatro d6cadas depois de ter morrido (eu, menino de menos de 10 anos, o vi pessoalmente, de perto, um pouco antes de sua morte, ao dar posse ao meu pai na comissao de planejamento da SPVEA, hoje Sudam, numa de suas ultimas aparig9es publi- cas). Tenho opiniao extremamente critical sobre o home, que s6 significou a mu- danga e o progress por pouco tempo (apenas enquanto foi verdadeiramente tenente). O melhor que fez foi meio, ple- no de populismo, e nao fim. Desperdi- cou um talent invejavel para abrir ca- minhos e conquistar simpatia, com seu forte carisma. Mas s6 um parvo ignorara que Bara- ta foi o principal politico da Republica paraense, que girou em torno dele du- rante 20 anos. Nao sou contra qualquer homenagem que se queira fazer a ele. Apenas acho que se homenageia quase sempre mal nesta terra. Imobiliza-se o personagem num sarc6fago de concre- to, Barata naquele disco-voador estiliza- do e a Cabanagem naquele simulacro de simbolismo. Barata estaria melhor servido se ti- vesse inspirado uma Fundag~o, como a Joaquim Nabuco em Recife ou a Rui Barbosa no Rio de Janeiro, ou mesmo uma institugiao como a Casa Jorge Ama- do, em Salvador. Afinal, ele lia livros (uma raridade entire politicos) e gastava seu francs colonial, aprendido em Caiena. Mas como paraense quer ver a hist6ria de costa, trata de isolar a vida sob con- creto armado. Incensa um her6i que nao entende, nem mesmo conhece. Se quisesse levar as iltimas conse- qiuncias a intengao original, Paulo Cha- ves at6 poderia criar um projeto melhor. O acervo tem que ser organizado tecni- camente e o memorial precisaria de ati- vidade inteligente, ao inves de ser um dep6sito sem vida e sem atracao, que de memorial virara sarc6fago. Mas se mu- dou tao bruscamente de id6ia, das duas, uma: ou se comportava apenas para in- gles ver ou nao levava a serio as pr6pri- as ideias. O just protest de dona D6a foi se- guido por uma debandada sem ordem e sem pejo do tucanato. O secretario que desencadeou o imbroglio tirou o sono do goverador enquanto aprontava uma nota official que s6 alcancou os jornais num fim de noite, certamente mal-dor- mida. A maneira de um Lewis Carrol tropicalizado, vinha o secretario esclare- cer ao distinto public que onde se lia "desomenagem", dever-se-ia passar a ler "homenagem dobrada". Gastando sua parca semiologia, Pau- lo Chaves jurou, de p6s provavelmente juntos, que estava mesmo era empenha- do em preservar o her6i "enquanto sig- no", dando tratamento t6cnico ao acer- vo que registra o "percurso lendario" do "insigne politico" (ja agora descendo para a ret6rica de solenidade official . Convencido de ter produzido uma nota energica (algum tempo atras dir-se- ia miscula), o secretario terminava com uma advertdncia em tom biblico: "espe- ro que se desfagam quaisquer especula- 96es que nao sejam pertinentes a me- m6ria cultural do Estado e que possam servir a desdobramentos de outra natu- reza e outros interesses". S6 faltou acres- centar: publique-se e cumpra-se. Reforcando a nota official, o govema- dor foi aldm: garantiu que tudo o que se vinha fazendo era para valorizar a me- m6ria de Barata. Nao explicou como se valoriza quando se tira de todo um pre- dio a condigao de memorial do persona- gem para acomodar seu questionavel acervo numa hipotetica sala em edifica- 0ao de uso miultiplo. JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENADE JUNHO / 1998 7 Mas isso 6 detalhe. Ansioso por apre- sentar-se intimo do her6i, Almir Gabriel lembrou que, ao receber das maos do pr6prio Barata um pr8mio por seu bom desempenho como academico de medi- cina, ouviu dele a recomendacao para que "utilizasse o dinheiro para comprar livros e nao para gastar em farra". O governador nao esclareceu se se- guiu o conselho. Mas devia. Pode ser mais um detalhe, mas teria fungio eluci- dativa. Como o enredo de mais esse epi- s6dio de trapalhadas e faz-de-conta, no qual o que acaba se saindo pior e justa- mente quem se quer tanto engrandecer. A mem6ria 6 o que menos ganha, ao fim e ao cabo, como costumam dizer nossos basicos antepassados. Santarem: exorcizando os males do passado 0 hino de Santarem, criado pelo maestro Wilson (Isoca) Fonseca, faz um orgulhoso inventario das belas prai- as que recebiam, a epoca, o limpido rio Tapaj6s ao long de toda a orla fluvial da cidade. O cais de arrimo, construi- do numa extensao de tr8s quil6metros, tornou algumas dessas praias apenas presenga na mem6ria dos seus mais an- tigos habitantes. Projetada originalmente para proteger a cidade do movimento das aguas, a mu- rada passou a ser usada como se fosse um ancoradouro. Todos os dias dezenas de embarcag6es ali atracam, ou desa- tracam, quase sem control, recebendo ou despejando cargas e passageiros. Diz- se que a qualquer moment o muro, sem condi9ges de suportar o uso intense e nao previsto, pode ruir. O jeito e cons- truir um verdadeiro pier para tender adequadamente a intense navegacgo flu- vial centralizada em Santar6m. Ja ha dinheiro do govemo federal alo- cado para os quase mil metros da obra e mais dinheiro previsto para os outros ser- vigos que ampliarao o porto santareno (no total, 11 milh6es de reais), para que, finalmente, ele escoe os grandes volu- mes de carga, previstos e nunca materi- alizados. Mas a execucgo do projeto esta de- pendendo da resolugdo de um impasse. ONGs denunciaram ao Minist6rio Publi- co que uma das fltimas praias louvadas pelo hino do mestre Isoca, a Vera Paz, vai ser aterrada pelo pier. Achando ina- ceitavel esse custo ecol6gico, querem o embargo das obras. Na manhazinha de um domingo, duas semanas atras, percorri a pe toda a area do porto e uma grande parte da cidade que foi meu dominion em tempos juve- nis. Da Vera Paz havia apenas uma nesga de 100 metros que o Tapaj6s, no maximo da cheia, ainda nao cobrira. Toda a sobra de areia, entire o rio e a vegetagdo remanescente, esta ocupa- da por 30 barracas. Quando por la passava, uns poucos barraqueiros estavam acordados, to- mando um banho matinal ou fazendo um levantamento de estoque para tender a demand dominical. Barracas de ma- deira e palha, precarias. Ambiente po- bre e sujo, nao o suficiente, contudo, para eliminar de todo a beleza buc6lica da paisagem, a mais bonita da frente da cidade quando a unica marca humana fincada em suas areas era o trapiche da Prainha. E possivel salvar a Vera Paz? E sal- va-la para que? Se ainda e possivel pre- servar as palmeiras e o capim ciliar ou recuperar a alvura da areia, a agua esta definitivamente contaminada. E para que salvar uma praia enquistada entire um cais de arrimo e um porto? Como reliquia? Para adocicar a mem6ria, man- tendo uma amostra do que foi a Santa- rem de outrora? Tudo isso e mais os riscos para a saude de quem freqUienta a praia, a uiltima em uso como tal no perimetro urban? Vale a pena? Sio apenas perguntas. Os defenso- res do projeto oferecem uma compen- sag o: com a construgao de um novo cais de arrimo, projetado com essa fi- nalidade, o atual poderia ser desativa- do, permitindo a volta da praia, mesmo que seja apenas como cartdo postal (a agua continuara contaminada pelos des- pejos dos esgotos), as tais janelas para o rio com as quais Bel6m vive sonhan- do. Fazer as perguntas e buscar hones- tamente as respostas 6 muito mais po- sitivo do que simplesmente impor o pro- jeto, como seus executores vinham fa- zendo. E claro que a abertura do deba- te traz consigo alguma besteira e mui- tas impropriedades, mas isso e melhor do que um sil6ncio conivente ou desin- formado. Poucas cidades sofreram tanto os males do autoritarismo quanto San- tarem, um centro de inquietagio e cria- tividade progressivamente sufocado pelo intervencionismo federal, aliado a mA f6 de varios natives. Foi justamente em Santar6m que o regime military mais investiu fora de Be- 16m. Durante esse period foram reali- zadas as tris obras mais cobradas pe- los anseios locais: a hidreletrica de Cu- ruA-Una, a rodovia Santar6m-Cuiaba e um porto modern. A despeito da mon- tagem dessa infra-estrutura, o munici- pio nao alcangou a redeng~o, nem mes- mo o desenvolvimento. O garimpo de ouro continuou a ter maior influencia. Sua decadencia afetou mais para mal do que as tr8s obras para bem. Os militares e seus prepostos nao consultaram ninguem quando decidiram incorporar Santarem ao Brasil Grande. Areia da praia de Maria Jos6 foi retira- da irracionalmente para ajudar a cons- truir o novo aeroporto. As praias da frente da cidade eram apenas um deta- Ihe no tragado que a cidade passou a ter em sua orla. Escolheu-se o que pa- recia ser o melhor sitio para o porto, ig- norando-se alternatives menos conven- cionais, e nada mais foi levado em con- sideraqao. O governor realizou a trade tAo de- sejada e achou que bastava. A estrutu- ra portuaria era pequena, mas a area transferida para a CDP, de 62 hectares, atenderia as ampliac6es que o cresci- mento econ6mico iria exigir. Mas hoje apenas um tergo dessa Area esta em uso. Dentro dela ha campos de futebol, pastagem e recantos que poderiam at6 ser aproveitados para o turismo. Talvez por isso a diregao da companhia tenha aceitado a presenga dos barraqueiros, que hoje sao a inspiragio para a resis- tencia aos pianos oficiais. Santar6m foi ficando para tras porque o beneficiador extirpou-lhe o que era essencial para ampliar os efeitos positives de obras fi- sicas: a vontade. Qualquer que venha a ser o desfe- cho da atual controversial, elaja tem esse saldo positive: 6 mais um pass para re- tirar de Santar6m a mordaga autoritaria que lhe foi imposta desde que perdeu sua autonomia, tomando-se municipio de se- guranca national, sem o direito de esco- Iher o seu principal administrator. Ago- ra, pelo menos, ha a possibilidade de dis- cutir a compatibilidade que deve haver entire os meios necessarios para o bem estar material e os anseios espirituais da coletividade, aqueles que nao se esgo- tam em indicadores econ6micos. Essa conciliacgo 6 que permit o desenvolvi- mento. E que alimentava os melhores sonhos de Santar6m. * Prefeitura e grupo Liberal: enfim, o ponto em comum Os leitores de O Liberal que se dispuseram a pagar 3,99 reais al6m do prego de capa dojoral puderam comprar, na semana passada, o segundo vi- deo (de uma sdrie de 24) da promogao "Cinema em Casa", do Sistema Romulo Maiorana de Comunicacgo. Depois de "O Exterminador do Futuro", o filme oferecido foi "Plato- on", juntamente com o que os promotores chamam de uma "revista-p6ster". Duas carac- teristicas comuns neles: a vio- lIncia e a linguagem comerci- al. Nao por acaso, como res- saltam os realizadores da pro- mogao sem meias-palavras, sao best-sellers. A primeira pergunta que se faz a prop6sito da adeslo da prefeitura de Bel6m a essa ini- ciativa: sem a verba municipal, de 100 mil reais, os donos do jomal, que control quase como monop6lio esse segment do mercado, nao teriam podido realizar o "Cinema em Casa"? Ou o prego cobrado do leitorja 6 mais do que suficiente para cobrir todos os custos e ainda dar lucro, entrando o poder pi- blico municipal no arranjo para aumentar essa taxa de lucro? Para ajudar a responder a essa primeira pergunta, basta comparar a promocgo de O Liberal A da Folha de S. Pau- lo, que esta oferecendo um CD e uma revista (e nao um mero poster) sobre um g&nero musi- cal brasileiro por R$ 3,90 adici- onais, sem precisar recorrer ao erario (como nenhum outrojor- nal ou revista havia feito em todo o mundo at6 a in6dita par- ceria da prefeitura do PT corn o grupo Liberal). A outra pergunta 6 a seguin- te: constitui uma justificavel political cultural do govemo Ed- milson Rodrigues apoiar a co- mercializagao de fitas de video de filmes comerciais, plena- mente acessiveis no mercado e que constituem um tipico ne- g6cio commercial? Os 24 filmes fazem parte de um pacote que 6 oferecido, em todo o pais e em muitos outros lugares do mundo, por empresas interes- sadas apenas em ganhar di- nheiro. O pacote reune filmes de viol6ncia, de sexo e roman- ticos que nao estdo preocupa- dos com ganhos culturais, com algo que nao integre o circuit de venda em massa, mas com retorno ampliado do investi- mento. No mesmo moment em que a PMB se associa aos Maiorana nessa empreitada, o governor do Estado traz a Be- 16m o bale Kirov. O espetaculo da companhia russajamais che- garia por aqui sem apoio ofici- al. Nao se pagaria apenas com a venda de ingressos ao p6bli- co. Ningu6m, na iniciativa pri- vada, ousaria bancar a iniciati- va sem a garantia de que o ine- vitivel buraco nas contas fos- se preenchido pelo govemo. Pode-se questioner o elitis- mo dessa political cultural, mas nao se pode acusa-la de incon- sistente, ou de ser um mero ca9a-niqueis. Dificilmente um ser human deixara de se emo- cionar ao assistir a um espeta- culo do Kirov. A beleza da apresentagao toca todos os gos- tos e penetra todas as resisten- cias. Aos que nunca viram bald classico bastarA que aceitem enfrentar a experiencia para sairem recompensados. O po- der public poderia permitir-se oferecer essa oportunidade a um grupo de cidadaos, mesmo que venha a ser um event ini- co em suas vidas. Se a prefei- tura gastasse os 100 mil reais que deu aos Maiorana com- prando ingressos e distribuindo- os entire os alunos mais desta- cados da rede municipal de en- sino de 2 grau, por exemplo, aplicaria melhor o dinheiro. Muitas outras alternatives para a destinag9o dessa verba seriam mais proveitosas do que aditar a lucratividade de uma empresa ja tdo rentavel. No entanto, somas cada vez mais expressivas do orgamento mu- nicipal sao gastas com propa- ganda de interesse pessoal, po- litico ou institutional, que pou- co tem a ver cor a necessAria comunicagao entire goveran- te e govemados, mas cor os projetos de poder do primeiro que requerem a manipulagao dos segundos (a prop6sito: nio esta na hora de o Minist6rio Publico sair do sono bem re- munerado e verificar se hA pro- paganda enganosa na abundan- te publicidade official, tanto do municipio quanto do Estado?). Edmilson Rodrigues quarter mais espago e boa vontade (ou seja: propaganda e nao jorna- lismo) nos veiculos do Sistema Romulo Maiorana de Comuni- cagao. Tendo desistido de com- bater a oligarquia, que atacava em seus discursos de candida- to e prefeito recdm-empossa- do, ilude-se de poder se associ- ar a ela. O pudor inicial aca- bou: o prefeito nao apenas qui- tou a divida ardilosamente for- mada por seu antecessor, como deu outras vantagens, jA cria- 9~o sua, ao grupo Liberal. Perdida a inocencia, resta o que mant6m essa alianga: ver- bas piblicas. Nem H4lio Guei- ros programou os veiculos do SRM com essa combinagao de generosidade desbragada e cri- atividade sem limits, aldm de cinismo deslavado. O prefeito do PT mant6m integral a pro- gramag o publicitiria que rece- beu (e que criticava quando era baladeira). Trata de inventar motives para estar todos os dias natelevisao, e endossa propos- tas indecorosas, colno essa do "Cinema em Casa", com an- gelicais arguments, que tem o peso de isopor. O prefeito faz de conta nao perceber que, estabelecida essa moeda de troca, s6 se mantera como figurante incensado nos veiculos do grupo Liberal en- quanto mantiver escancaradas as burras do erario municipal. Quando isso deixar de aconte- cer, voltara a ser, para os Mai- orana, o que, no intimo, nunca deixou de ser para eles (e vice- versa): um estorvo ou, quan- do muito, um mal necessario. As parties, enfim, encontraram um denominador comum que as aproxima e define. * Novidade Nao se pode dizer que a nova revista semanal de infor- macges, a Epoca, da Globo, nao tenha inovado. Inovou: o texto virou ilustragao para as abundantes fotos, graficos, tabelas e outros recursos en- genhosos do computador, que se transformaram no princi- pal. Se o computador 6 um instrument burro, Epoca 6 o seu profeta. Turismo ecol6gico Vi o anincio de pagina in- teira com o qual o grupo Rei- con anunciou a inauguragao do seu Maraj6 Park Resort, o maior investimento do genero no Estado. Fico emocionado de ver seus empreendedores enumerarem as dificuldades que precisaram enfrentar e superar para realizar o proje- to, inaugurando-o cor um encontro international sobre direito ambiental. Mas vendo a fotografia da sede do proje- to nao pude reprimir uma ob- servacao: para construi-la foi necessirio desbastar toda a vegetag~o em volta, ou ali nao havia uma inica Arvore para compor com a floresta que aparece ao fundo? Sera que os turistas nao vao notar essa aussncia? Espero que a Reicon, cor esta observagco, nao me in- clua entire os "olhares contrA- rios" ao sucesso de seu em- preendimento. Esta nota deve ser tomada, no minimo, como uma critical construtiva. Jomal Pessoal Editor: Licio FIivio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo, 871 I CEP: 66 053-020 Fone: 223-1929, 241-7626 e 241-7924(fax) Contato: Try. Benjamin Constant, 845/203 I 66 053-020 Fone: 223-7690 e.mail: lucio@expert.com.br Editora(;o de arte: Luizpb I 2411859 |
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