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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00137

Full Text



Musculo e


Journal Pessoal A 2)
EclusaG.
L U C I 0O F L A VIO PI N T O proeto
ANO XI N 188 1 QUINZENA DE JUNHO DE 1998 R$ 2,00 desconfecido

ELEIAO (PAG. 5)
ELEICAO


Farinha do mesmo saco

A political brasileira costuma mudar como as nuvens no ceu, subita e radicalmente.
Mas empoucos lugares ela e tdo volhvel e inconsistent quanto no Pard. As vesperas
da oficializaqdo das principals candidaturas, todos aguardampela definiqdo do sena-
dor Jader Barbalho. 0 aliadopoderd se tornar inimigo, dependendQ dopronuncia-
mento do ex-governador Os discursos taytbhm mudardo.
't I *,,,kx.


Oss iltimos movimentos para
definir a dispute pelo gover-
no do Para dependem exclu-
sivamente do senador Jader
Barbalho, admitiu, na semana
passada, o ex-senador Jarbas
Passarinho. O pr6prio destine de Passari-
nho reforca essa posicao. O ex-ministro po-
derA ser o candidate situacionista ao sena-
do, corn forte cotagao, caso o lider do PMDB
aceite integrar a coligaqao que tentarA reele-
ger o governador Almir Gabriel. Mas se Ja-
der ficar de fora, talvez Passarinho se satis-
faga em ser o representante do seu partido, o
PPB, no comit6 que coordenarA a campanha
do president Fernando Henrique Cardoso.
EncerrarA, assim, sua carreira parlamentar.
Ainda permanecera na vida pfiblica, pordm,
na expectativa do segundo mandate de FHC.
Na primeira hip6tese, a alianca eleitoral
vitoriosa em 1994 se ampliarA, unindo exata-
mente os antagonistas principals de quatro
anos atrAs e excluindo dessa composiqAo o
ex-governador Hl1io Gueiros, o maior eleitor
de 1994, que agora ficaria isolado na tentati-
va de voltar ao senado. Na segunda hip6te-
se, a recomposiqao de forgas reembaralharia
todas as peas political: Jarbas, o grande
). ,_


aliado de Jader em 1994, passaria para o lado
do seu ex-contendor, Almir Gabriel, enquan-
to os dois grandes rivals na eleiqao passada
(Jarbas e Hdlio) estariamjuntos em outubro.
Tao subitas quanto imprevistas, essas
alternatives estao na dependencia de que
Jader Barbalho dcida comunicar ao distinto
piblico se sera ou nao candidate do PMDB
ao governor do Estado. Ele tem atd o dia 28,
data da convenqao do PMDB, para manter
ou quebrar o suspense. Depois de todos os
sinais de uma definiqao negative atd o final
do ano passado, estimulando o governador
a procurd-lo para negociarem um acordo, ele
agora emite indicadores cada vez mais posi-
tives de que se colocara no meio do cami-
nho de um novo mandate de Almir Gabriel.
Nao como uma pedra qualquer, mas como
toda uma pedreira de dificil transposiqco.
O dado mais forte nesse sentido foi a s6-
rie de encontros secrets por ele mantidos
com seu ex-aqui-inimigo Hdlio Gueiros. Du-
rante seis meses os dois conversaram sigi-
losamente sobre a conveniencia de esque-
cerem um passado recent de violentas reta-
liaq6es e retomarem o pacto politico cor ra-
izes no antigo baratismo, a origem comum
da combinaqao de autoritarismo corn popu-


lismo que os fez ocupar o topo da political
estadual. Ao long desse period, os dois
travaram longas conversas, em Beldm e em
Brasilia, sem qualquer vazamento para seus
pr6prios correligionArios e para a imprensa.
O segredo fazia parte dessa estratdgia
perigosa, assim como sua revelaao parece
mostrar que a uniao dois dois d produto de
suas convenidncias political, muito mais do
que de suas inclina6es pessoais. Se o go-
vernador nao tivesse estabelecido de forma
tao categ6rica o seu projeto de reeleicqo, tal-
vez uma ampla alianqa tivesse sido possivel.
Mas como o pressuposto das conversas de
Almir Gabriel 6 a sua candidatura, Jader e
Hdlio buscaram um territ6rio sigiloso para
compor uma estrategia comum sem o conhe-
cimento do governador (que s6 ficou saben-
do atrav6s da mat6ria que publiquei em A
Provincia do Pard). A tarefa nunca foi ficil
e pode atd nao ter sido plenamente realizada,
explicando a resistencia de Jader em ceder
As presses do seu partido para oficializar
sua decisao antes de ter a seguranga de po-
der enfrentar Almir em condi6es equivalen-
tes. Uma derrota ser-lhe-ia fatal.
Uma chapa corn o senador na cabeca, um
representante do PFL como vice-governador )


PARA SEM USINA DE COBRE (Pag.s)







2 JOURNAL PESSOAL I 1A QUINZENA DE JUNHO / 1998


)e H1lio Gueiros como candidate ao senado
estA muito mais pr6xima de materializar-se do
que todos os demais arranjos especulados.
S6 um candidate ao governor se disporia a
investor uma boa soma de dinheiro para ter um
aviao como o turbo-hdlice KingAir, que per-
mite deslocamentos mais rapidos e seguros
por um territ6rio cor as dimens6es do Estado
do Para, e, ao mesmo tempo, serve para via-
gens sfbitas a Brasilia, com a menor perda de
tempo possivel.
Jader sabe que objetivos mais amplos do
que sua satisfagao pessoal precisam mante-
lo numa frente no Para e outra no Distrito Fe-
deral. A primeira definirA a sobrevivencia do
seu esquema eleitoral, o mais forte A margem
do uso da mAquina official (que cor ela se
multiplica). A segunda servirA para assegurar
o pacto cor o governor federal, ou ao menos
neutralizar a solidariedade que o correligiond-
rio estadual (Almir) poderia cobrar do repre-
sentante mAximo do seu partido, o PSDB (no
caso, o president da Repiblica). No mcximo,
Fernando Henrique dividirA o palanque.
A presence do senador como representante
do PMDB na coordenaqio de campanha de
FHC nio significa necessariamente que ele
tenha renunciado A candidatura ao governor,
como muitos logo deduziram. Pode servir exa-
tamente ao oposto: imobilizaro Palcio do Pla-
nalto, impedindo que de la saiam apoios para
uma campanha estadual de hostilizacAo a um
politico aliado do president.


Um tanto disfarada, elaja faz parte da agen-
da de Almir Gabriel. Cor certa cautela, ele
comecou a enfatizar o discurso sobre a ho-
nestidade do seu govemo e carregar nas tin-
tas da image de corrupcilo associada ao seu
antecessor, o que virA a ser o principal mote
no seu palanque se houver o confront.
Mas comojustificar, para um eleitorado ao
alcance do program eleitoral gratuito, que
Almir Gabriel procurou esse mau administra-
dor e esperou tanto tempo por uma resposta
dele a um acordo que conteria, nos desvaos
dos gabinetes, a violencia verbal que comega
a extravasar para o publico s6 porque as in-
tenQ6es nAo se concretizaram? O Jader Bar-
balho aliado 6 para o governador uma pes-
soa. O Jader adversArio 6 outra.
E bem provavel que criar esse constrangi-
mento tenha sido o principal objetivo da es-
trat6gia do senador peemedebista. HA quase
cinco meses ele deve uma resposta A oferta
de acordo que o governador lhe apresentou
emjaneiro, no segundo encontro promovido
por Almir Gabriel. Ainda havera uma nova
reuniAo corn essa pauta?
Apostando nessa remota possibilidade, o
governador chegou a se referir a um encontro
em Brasilia entire os dois, como prova de que
as pontes para o entendimento nio foram eli-
minadas. Esqueceu de esclarecer aos rep6r-
teres que o encontro foi meramente casual e
protocolar, durante o vel6rio do deputado
Luis Eduardo MagalhAes.


Por que essa notAvel capacidade de engolir
sapos e sufocar opini6es pessoais? Todos os
politicos, atd mesmo os tucanos que nibo sio
luas-pretas, sabem que corn Almir e Jader na
parada a definig~o da sucessio estadual s6
vird no segundo turn; e que, nesta, a dispute
pelos votos sera violent, de desfecho sem
previsio segura. O governador, que nao 6 do-
tado de carisma politico e de vibracio, quer
poupar-se de tal via crucis. Mas para alcanci-
la levard o observador mais atento da cena lo-
cal a concluir que sobre o teto de zinco quente
da alta political paraense todos os gatos sio
pretos, inclusive os pardos. Ou seja: os meios
sio sempre mais importantes do que os fins,
quando os sagazes manipuladores dos meios
tem alguma finalidade para a political que prati-
cam aldm do interesse pessoal e grupal.
Houve uma dpoca em que a political estadu-
al se dividia inconciliavelmente entire baratis-
tas e anti-baratistas (ou coligados). JA um pou-
co antes, entire carcomidos e revolucionarios.
Quando nao havia um projeto ou uma visio
ideol6gica, restava a fidelidade A pessoa e ao
que se imaginava que ela representava. Hoje, a
simples definiqio de um dos contendores tern
o poder de mudar radicalmente a posicio dos
outros principals no tabuleiro, sem que essa
evolugdo malabaristica sofra qualquer inibiqio
de ordem political, ideol6gica, filos6fica ou ou-
tra forma de expressio que nao seja a busca do
poder. A politicaparaense ficou mediocre como
nunca. Se isso 6 possivel. *


Prefeitura do PT serve a 0 Liberal


Permitir que o O Liberal
venda, a partir do dia 6, fitas
de video ao leitor do journal que
se dispuser a pagar mais qua-
tro reais (teoricamente, R$
3,99) sobre o prego de cada
exemplar, 6 um dos "interes-
ses fundamentals do Governo
do Povo". Por isso, Edmilson
Rodrigues tornou a prefeitura
de Beldm patrocinadora da
promoclo "Cinema em Casa",
do Sistema Romulo Maiorana
de Comunicaglo.
Em entrevista dada ao jor-
nal, o prefeito do PT disse, em
um patois caracteristico, que
a promocqo realize "mudangas
ao nivel da cultural criando
"a possibilidade do povo ter
acesso A cultural Assim, cria
"mudangas reais ao nivel da
qualidade de vida, porque nio
6 possivel pensar em boa qua-
lidade de vida, em um povo fe-
liz, se esse povo vive em uma
cidade sem alma. E cultural 6
alma".
Entre as "almas" que o gru-
po Liberal pretend inocular
no infeliz povo paraense du-
rante os pr6ximos 24
cabalisticos sAbados, estlo


"Robocop" e "Exterminador do
Futuro", dois sanguinArios fil-
mes que devem melhorar a cul-
tura do belenense. Se todas as
fitas fossem vendidas, os
Maiorana faturariam quase um
milhilo de reals. MasjA iniciam a
promoqaio com a verba de pa-
trocinio da prefeitura, que seria
de 100 mil reais, o suficiente para
poupd-los do custo direto da
iniciativa.
Normalmente, esse tipo de
encarte nio passa de transagao
commercial. Por isso, result da
iniciativa da pr6pria corporaqflo
que o langa ou de um patrocina-
dor particular. Beldm inovou
nesse tipo de marketing para-
jornalistico: a municipalidade 6
que vai apoiar a operagio. A
parceria com os Maiorana e he-
r6is do celul6ide, como o mus-
culoso (m6sculo d cultural )
Arnold Scchwazenegger, irao,
segundo o alcaide, "incentivar
a reflexAo critical e aumentar a
capacidade de sentir, a sensibi-
lidade do povo e a sua disposi-
glo de lutar por uma sociedade
mais solidaria e feliz".
Mas enquanto esses tao ele-
vados objetivos nAo sao alcan-


qados, o resultado da parceria
PMB-ORM d a inclusao da
logomarca da prefeitura na cam-
panha promocional do "Cinema
em Casa" e o aparecimento do
prefeito como mecenas da cul-
tura, talvez conquistando um
naco de simpatia da empresa
para os interesses eleitorais do
PT. O passado recent de amea-
cas reciprocas e de antipatia
mfitua foi deletado para a lixeira
da mem6ria, de onde s6
retornara se a insuspeitada afi-
nidade entire Edmilson
Rodrigues e os Maiorana ficar
os arguments sonantes que a
sustentam.
Quanto ao prefeito, a ret6ri-
ca de defensor da transparen-
cia e da verdade na conduqlo
do neg6cio pfiblico foi definiti-
vamente apagada. Ele nao se
dignou responder a um questi-
onArio que entreguei em seu
gabinete no iltimo dia 25, a ma-
neira de ouvi-lo antes de escre-
ver sobre os assuntos suscita-
dos, j que sua assessoria de co-
municailo social, A maneira de
H6lio Gueiros, foi transformada
em 6rgdo de relac6es puiblicas e
negociaqio cor a imprensa, nio


um interlocutor official para
jornalistas honestos e inde-
pendentes.
O questiondrio ignorado
pelo alcaide 6 o seguinte:
"1. Qual o valor da contri-
buigio da Prefeitura Munici-
pal de Beldm para a Coleqio
Cinema em Casa, das Organi-
zaq6es Romulo Maiorana, que
comeqara a ser distribuida no
pr6ximo dia 6 de junho? Qual
ajustificativa para a participa-
qAo da PMB em tal iniciativa?
Favor anexar c6pia do contra-
to ou convenio, e do proces-
so do qual resultou.
2. Qual a posiqco da divida
da PMB em relaqio aos veicu-
los sob o control das Orga-
nizaq6es Romulo Maiorana?
Favor indicar datas de paga-
mento e valor das respectivas
parcelas amortizadas.
3. Qual a posiqio da divida
do Para Folia [de Ronaldo
Maiorana] junto A PMB? JA
foi paga? Comprovar o paga-
mento, se A vista ou parcela-
do, corn datas e valores".
O prefeito de Bel6m, quem
diria, virou parceiro dos
Maiorana. *







JOURNAL PESSOAL I 1 QUINZENA DE JUNHO / 1998 3


Ainda e estrategica


a CVRD privatizada?


O principal resultado da Companhia Vale
do Rio Doce no seu primeiro ano como em-
presa privada foi o lucro record de 1997, de
756 milh6es de reais, 46% superior ao de 1996
(que foi de R$ 517 milhoes), quando ainda
era estatal. Preve-se para 1998 um novo re-
corde: o lucro poderia ficar entire um bilhao e
R$ 1,4 bilhao, faqanha que seria impossivel
de obter sob a gestAo do Estado. Roj6es ver-
bais da grande imprensa, sacramentando a
venda daj6ia da coroa brasileira, saudaram a
alienagio da CVRD como sAbia decisao do
govero.
Sem lucratividade, nenhuma empresa so-
brevive ou merece sobreviver na sociedade
econ6mica, qualquer que ela seja. As esta-
tais, quando saqueiam o erario por patina-
rem no prejuizo cronico, tnm mesmo 6 que
ser passadas em frente. Maximizar o lucro,
entretanto, n~o 6 o objetivo mais nobre de
uma empresa estratdgica. E exatamente o fato
de ela haver alcanqado a dificil e superior
condicqo de entidade estratdgica. Se a sua
taxa de lucro 6 suficiente para compor taxas
desejadas de investimento e reinvestimen-
to, a partir dai ela pode pensar em metas mais
amplas, numa estratdgia capaz de combinar
seus interesses cor os do pais.
Verificando a destinacao da receita da
empresa (o valor adicionado bruto, que 6 a
sua contribuicqo para o PIB national), tem-
se um indicador para andlises mais esclare-
cedoras. No iltimo exercicio da Vale estatal,
12% do resultado de suas atividades foram
aplicados no pagamento de dividends aos
acionistas. Na CVRD privada, esse indice
pulou para 22%, na mais significativa de to-
das as mudanqas realizadas (cresceu de R$
259 milh6es para R$ 515 milh6es, o equiva-
lente a todo o lucro de 1986). A taxa de rein-
vestimento baixou de 27% para 25%. A con-
tribuiqao para a receita tributAria (com o re-
colhimento de impostos), que havia sido de


15% em 1996, caiu para 12% no ano passa-
do. Os demais itens (empregados e juros)
mantiveram-se estaveis.
Ora, os funds estrangeiros e os ADR,
do mercado norte-americano de ac6es, de-
tem 52% das ac6es preferenciais da empre-
sa. Logo, tnm prioridade no recebimento dos
dividends, mesmo que n~o controlem (ain-
da ou nao formalmente) a administrag~o da
ex-estatal. Explica-se por que o pagamento
de dividends por aqao duplicou entire 1996
e 1997 (de 67 centavos para R$ 1,33). Em con-
trapartida, os ativos totais da Vale foram re-
duzidos de R$ 14,1 bilh6es para R$ 13,9 bi-
lh6es, enquanto o patrim6nio liquid sofreu
contrag~o ainda maior: de R$ 10,2 bilhoes
para R$ 9,4 bilhoes. Assim, o valor patrimo-
nial de cada aqao, que era de R$ 26,33, ficou
em R$ 24,46. A Vale remunerou melhor seus
s6cios, mas encolheu um pouco. Seguira por
essa trilha?
O braqo financeiro dentro da empresa 6
mais extenso do que a simples soma dos fun-
dos estrangeiros corn os ADR. Incluidos os
funds nacionais e o clube dos funcionari-
os, os s6cios que opera mais e melhor (com
mais expertise, para usar uma expressAo ao
gosto do client) com pap6is do que com
produg~ o t&m 85% das ages preferenciais.
E um dado que deve ser levado na devida
conta quando os n(meros sobre a destina-
qCo da renda intema da Vale sao apresenta-
dos (o que a grande imprensa nao faz). Prin-
cipalmente quando a nova estrutura admi-
nistrativa, com todos os poderes ao conse-
Iho de administraqao, e, por referendo, ao
seu president, Benjamin Steinbruch, faz
pensar sobre o control efetivo da empresa.
Isso nao quer dizer, evidentemente, que
haja uma conspiragao para implodir a Vale.
Alguns dos resultados relatados pela dire-
toria (o relat6rio annual traz, pela primeira vez,
fotos dos executives, destacando-se Stein-


Tucurui: cavalo troiano de energia no Para


"E dramaticamente important parao Esta-
do duplicar Tucurui", dramatizou o govema-
dor Almir Gabriel, em Brasilia, depois de uma
audiencia corn Fernando Henrique Cardoso,
na semana passada, quando o president pro-
meteu vir ao Pari, no dia 15, para assinar a
ordem de service para iniciar a obra. Para o
Pard, na verdade, nio hA nenhuma necessida-
de dramatica em executar a segunda etapa da
hidreldtrica. Toda a energia a ser adicionada A
capacidade da usina de Tucurui sera transferi-
da para o Nordeste e o Sudeste, consolidando
oPard como a grande provincial energ6tica bra-
sileira. E naio serA nem tanta energia quanto se
anuncia.
Teoricamente, as 11 miquinas que serao
acrescentadas as 12 ji em funcionamento po-
derao gerar 4,2 mil megawatts de energia, a
mesma capacidade nominal atual (porque cada
um dos novos geradores serA ligeiramente mais
potente do que cada um dos atuais). Mas a


potencia firme (isto 6, a energia que a usina
garante fornecer o ano inteiro, independente-
mente do regime do rio) sera de 1,1 mil mega-
watts, muito menos da metade da potncia fir-
me atual da usina, que 6 de 2,8 mil mw. A dife-
renca decorre da indisponibilidade de Agua no
reservat6rio.
Essa enorme diferenca de geraCgo entire o
regime normal e o pique da estiagem desesti-
mulou os grandes consumidores de energia
da regiao de assumir a duplicacao de Tucurui.
Eles chegaram a former o GEN (Grupo Executi-
vo do Norte) para arrematar a usina no leilio
de privatizaiao, mas precisavam de pelo me-
nos 1,7 mil mw firmes, o que a duplicacio da
usina nao lhes poderia assegurar. O governor
teve que assumir o custo da obra, no valor de
US$ 1,3 bilhlo de d6lares, deixando a privati-
zaqao para uma segunda etapa, quando as
empresas privadas podem vir a se interessar
pelo neg6cio.


As novas mAquinas tnm importAncia dra-
matica d para o Nordeste e o Sudeste. Faiscas
de energia ficarao no Park, um Estado no qual
um (nico consumidor, a Albris (o segundo
maior consumidor individual de energia do
pais), absorve dois tergos de toda a demand
energdtica estadual. Incluindo-se mais dois
grandes consumidores (Companhia Vale do Rio
Doce e Camargo Correa Metals), o percentual
sobe para 71% do consume paraense.
O Plano 2000, da Eletrobris (substituidopelo
Plano 2015), ja previa que da energia que viesse
a ser obtida nas bacias dos rios Tocantins/Ara-
guaia, XingueBaixo Tapaj6s, 3.800 mwficariam
no Norte (concentrados nos p6los de aluminio
de Beldm e de Sao Luis), 4.900 iriampara o Nor-
deste e 12.000 para o Sudeste. Os nfimeros ab-
solutos podemvariar, mas aproporAo seraman-
tida. O governador comemoraporque quer: Tu-
curui continuari a ser um maravilhoso cavalo
de Tr6ia encravado no nosso territ6rio. *


bruch) merecem mesmo aplausos (cada em-
pregado rendeu mais 20% em vendas, estan-
do enxutissimo o quadro de pessoal; na mes-
ma proporqAo foi contraido o volume de pa-
gamentos a terceiros; os conhecidos canais
de vazamento foram tampados). Mas pergun-
ta-se: qual passou a ser a dimensao estratd-
gica da CVRD?
A atual diretoria assegura que ao long
de 1998 se completara "a restruturaqao es-
tratdgica de todos os neg6cios da compa-
nhia". Diz que, atravds das bases de um pla-
no de expansio da produqio de bauxita pela
Mineragdo Rio do Norte,ji lancadas, abrem-
se perspectivess para a redefinic~o de todo
o setor de aluminio no Norte do pais".
Pelo jeito, essas perspectives consisted
em expandir a producqo ao mAximo possivel,
cor reducao de custos, para obter receitas
brutas maiores, independentemente de pre-
qos de venda rebaixados (ou para compen-
si-los). E por isso que records na minera-
cAo e transport de ferro e na produq~o de
alumina e aluminio foram batidos no ano pas-
sado, numa conjuntura de modest recupe-
racqo de preqos. O modelo sera aplicado a
"todos os neg6cios da companhia"?
Lucros crescentes sempre contituem un
bom motive para comemorar, mas nito devem
ser o suficiente para a opiniao piiblica es-
quecer que a CVRD, uma verdadeira empre-
sa estratdgica quando essa expresso nao
era tao usada assim, pode ter perdido grande
parte dessa dimensao, agora que se procla-
ma como tal. Os fatos estao demonstrando
que a sociedade precisa buscar, fora da gran-
de imprensa e da pr6pria empresa, una nova
maneira de estabelecer a prova dos nove. A
comemorac o do 10 ano da nova Vale foi para
ingles ver. Os brasileiros ainda tem que con-
ferir, antes de crer. Sao eles que costumam
pagar o pato do banquet, para o qual rara-
mente sao convidados. 0







4 JOURNAL PESSOAL I 1" QUINZENA DE JUNHO / 1998


A alma das redao6es


Nem sempre quem admite que o reporter
6 a alma da empresa jornalistica estA dis-
posto a levar esse principio fundamental As
suas iiltimas conseqiiencias. Por conside-
rA-lo apenas para fins ret6ricos, muito dono
de journal e revista cometeu erros desastro-
sos. Na d6cada de 70, por exemplo, O Esta-
do de S. Paulo achou que os "engenhei-
ros" tinham o segredo do sucesso. Embora
criticando em seus editorials a tecnocracia
do governor, o journal paulista deixou que
seus pianos de expansfo e mesmo sua ati-
vidade rotineira fossem conduzidos pelos


administradores,
mortais pelo ti-
tulo de "enge-
nheiros". Por
pouco o mais
traditional jor-
nal brasileiro
nAo naufragou,
A semelhanqa
do pais.
Muitos conti-
nuam seguindo
na mesma dire-
Co: em momen-
tos de crise de-
legamcartabran-
ca aos responsa-
veis pelo tom de
pragmatismo da
organizaqio,
contrastando
com o romantis-
mo e a irrespon-
sabilidade atri-
buidos aos jor-
nalistas. E claro
que um e outro
element da em-


distinguidos dos pobres


preitada jornalistica se completam. Os ho-
mens da redago precisam adequar-se s im-
posicOes do cAlculo econ6mico, mas o pro-
duto da empresa s6 terA qualidade se for tra-
balhado pelos profissionais da informagAo.
E o principal deles 6 o reporter.
Essa polmica figure, ora supervaloriza-
da, ora (o que 6 mais comum) desprezada, di
o tempero sem o qual jornais, revistas, tele-
jornais e rAdiojornais se transformariam em
boletins burocratizados. Poderiam talvez al-
cancar atd uma qualidade formal inatacAvel,
mas nAo teriam vibraqo. NSo reproduziriam
a vida que pretended relatar, noticiar.
O verdadeiro reporter 6 un professional
da rua, um home de mifltiplos contatos, ata-
vicamente voltado para encarar de frente os
fatos, mobilizando todos os seus instintos
(que se fortalecem quando exercitados so-
bre uma vasta quantidade de situaq6es) para
ver, sentir, tocar, testar. Um bom reporter de-
pende de reportagens de rua para sua forma-
qfo. Ter que possuir ligacqo gravitacional


corn os acontecimentos, sendo atraido por
eles (por isso tem que estar se deslocando
sempre da redag~o para as ruas) e atraindo-
os (sem o que a sorte nao o encontrard nos
locais e moments oportunos).
A ferramenta de poder mais preciosa de
um reporter 6 a malicia. Mas um tipo espe-
cial de malicia, baseada no uso intensive
da experidncia, aplicada a uma multiplici-
dade de acontecimentos, que nenhuma
outra profissao encara em seu oficio (em
escala pr6xima, policia e mddicos se apro-
ximam) e que o leva a contrapor uma boa
pergunta a cada resposta que recebe, for-
qando a eluci-
daqio de qual-
quer assunto.
Esse 6 o princi-
pio da investi-
gagio jornalis-
ta. Logo, por
definigio, o ini-
co jornalismo
que conta 6 o
investigative, jA
que o reporter 6
So auditor popu-
lar ad-hoc, semr
precisar de su-
porte institucio-
nal.
Para louvar e
abrir alas para
esse profissio-
nal, AudAlio
Dantas organi-
zou um livro, que
a Editor Senac,
de Sso Paulo,
estA langando
(un primeiro mo-
mento foi na Bienal do Livro, outro no dia
26, na Livraria Cultura, e o iltimo seri neste
mes, na sede do Sindicato dos Jornalistas
de Slo Paulo). Em Repdrteres, 10jornalistas
selecionados por Audalio marcam presenga
corn depoimentos: Caco Barcelos, Carlos
Wagner, Domingos Meirelles, Joel Silveira,
Josd Hamilton Ribeiro, Luiz Fernando Mer-
cadante, Marcos Faerman, Mauro Santaya-
na, Ricardo Kotscho e eu, o 6nico de fora do
eixo hegemrnico do pais (minha indicaggo
apenas atesta a importancia da Amaz6nia
como tema). O 11 reporter 6 o pr6prio Au-
dalio, autor de reportagens antol6gicas pu-
blicadas no lugar onde elas foram melhor pro-
duzidas em toda a hist6ria da imprensa bra-
sileira, a revista Realidade, da Editora Abril
(*1966+1974).
O livro j esta na praga. Pode at6 nao en-
sinar como ser reporter. Confirma, por6m, o
que todos sabem nas redacqes, mas nem
todos estlo empenhados em aplicar: o cora-
9qo dojoralismo 6 a reportagem. *


Uma hist6ria

nao-convencional
HA escritores que magnetizam: uma vez
iniciada a leitura de seus livros, vai-se de um
s6 impulso atd o fim. Escrevem bem, a trama
que montam 6 atraente, nos enriquecem, mas
nao conseguem fazer parte daquele seleto
clube dos verdadeiros criadores, conforme a
classificagqo de Ezra Pound. Quem 18 Ana
Karenina, de Tolstoi, 6 arrebatadojA na pri-
meira frase do romance, equagqo fundamen-
tal para a qual as centenas de paginas do
livro irao servir de demonstraqco: "Todas as
families felizes se parecem, as families infeli-
zes sio infelizes cada qual ao seu modo". Ou
pelo"Nonada" que inaugura, neologicamen-
te, o Grande Sertdo: Veredas, de Guimaraes
Rosa.
E um prazer e uma experi8ncia valiosa ler
Gore Vidal. Mas a cada novo livro que nos
oferece, terminamos corn a sensacgo de que
ele esteve bem perto de ter escrito uma obra
de primeiro time, sem ter realmente chegado
hi. Qualquer pessoa aprendera mais sobre a
hist6ria dos Estados Unidos lendo os cinco
volumes da sua "crbnica americana". Toda a
estrutura ficcional, contudo, serve apenas
de instrument para ele colocar a historio-
grafia official de cabega para baixo, desnu-
dando os mitos para ver a sua grande nacqo
como ela foi e continue a ser e nao como a
versao utilitAria corrente pretend que tenha
sido, d e serA.
E o caso de 1876, o 6ltimo dos cinco ro-
mances (nao me atrevo a escrever pentalogia)
a ser traduzido e publicado no Brasil (Editora
Rocco, 1997, 466 piginas), mas o segundo na
ordem cronol6gica. Ainda falta para o publi-
co brasileiro o primeiro romance, sabe-se 1i
por qual critdrio pendente de iniciativa edito-
rial. Esse zigue-zague impede o leitor de acom-
panhar a evolucio dos personagens que pas-
sam de um livro para o outro e a pr6pria cro-
nologia dos EUA. Mas se algudm quiser to-
mar o pulso da naqio mais poderosa do mun-
do, sem se submeter a notas de pd de pd de
pagina, bibliografias massacrantes, estilos
enfadonhos e narrativas sem brilho, o recei-
tuario 6 simples: ler Vidal. *



Prestigio
0 bailarino Carlinhos de Jesus tem mes-
mo muito prestigio junto ao grupo Liberal.
Ele se apresentou no late Clube no dia 16 de
maio. Exatamente uma semana depois, a 23,
ojornal publicou uma matdria (mais promo-
cional do quejornalistica) a respeito, finali-
zando o texto corn este primor de marketing:
"Quem perdeu a noite animada no late s6
pode esperar e torcer para que os pianos do
dancarino se concretizem [uma nova apre-
sentaago]".
Uma das regras de ouro do jornalismo diz
que as matdrias precisam ter um gancho. Ou
seja: um acontecimento tern que ser noticia-
do o mais pr6ximo possivel de sua realiza-
qAo. Mas para os "amigos da casa", uma se-
mana 6 pouco. Nos funds do Bosque, quan-
do nao d neg6cio, jornalismo 6 uma aCLo entire
amigos. *







JOURNAL PESSOAL I 1 QUINZENA DE JUNHO / 1998 5


Para ficara mesmo


sem usina de cobre


Os novos pianos para o aproveitamento
dasjazidas de cobre de Carajas nao incluem
mais a instalaqio de uma usina metalirgica
no Para, apenas a concentraqdo do mindrio.
Essa foi a principal informaqC o filtrada de um
conjunto de dados, as vezes desencontra-
dos, que tem circulado nos bastidores do
setor mineral, dentro e fora do pais. Segundo
uma versao, a Companhia Vale do Rio Doce
e seus s6cios nao pretendem implantar uma
metalurgia de cobre nos pr6ximos anos por-
que aguarda-se profundas modificaq6es tec-
nol6gicas no beneficiamento do metal.
Assim, nao seria propriamente porque a
usina foi cancelada no Pard e remanejada
para outro ponto do territ6rio national (Ma-
ranhao e Bahia eram as alternatives admiti-
das), mas porque uma usina, montada pelos
padres atuais, estaria ameaqada de tornar-
se completamente obsoleta nos pr6ximos
anos se novas tecnologias em experimenta-
ocio se mostrarem viaveis economicamente.
Os t6cnicos estariam recomendando aguar-
dar pelos resultados das pesquisas em an-
damento, embora nao se tenha conseguido
apurar em que consiste exatamente essa
anunciada inovaqio tecnol6gica, ameaqan-
do sucatear as atuais usinas de cobre.
Outras fontes manifestam ceticismo em
relacao a essa explicaqco. Elas dizem que a
inexistdncia de novos projetos de cobre deve-
se A queda nos preqos da commodity, ao
suprimento de energia, ao menor consume
mundial e a um excess de oferta, que avolu-
ma os estoques. Mas acham que hA espaqo
para o surgimento de novas minas, desde
que elas desloquem concorrentes. Para isso,
precisam dispor de boas jazidas, de custos
de producAo inferiores e de infra-estrutura
mais barata. Carajas reuniria essas condicoes
para abrir uma cunha no topo do mercado,


despejando de 1I alguns dos atuais lideres.
Por isso, produziu impact um despacho
de Santiago do Chile, capital do pais que
mais produz cobre, o Chile. A agencia inter-
nacional de noticias Bloomberg News anun-
ciou que a CVRD esta pretendendo abrir nao
uma, mas nada menos do que tres minas de
cobre em Carajds, caso consiga obter, entire
1999 e 2001, 2,5 bilh6es de d6lares para in-
vestir nessas tres frentes. Com isso, a em-
presa estaria em condiq6es de produzir 500
mil toneladas de cobre metalico por ano (o
dobro do que vem sendo anunciado), a par-
tir das minas de Salobo, Sossego e Alemao,
onde haveria 529 milh6es de toneladas de
cobre contido.
As informaq6es foram atribuidas ao dire-
tor da divisao de metais nao ferrosos da Vale,
Jose Viveiros, mas ele negou at6 que tivesse
dado entrevista a qualquerjornalista. Tam-
b6m desautorizou as revelaqces, consideran-
do-as despropositadas. Ha erros fiticos no
despacho da ag6ncia e ele colide com os
dados at6 entAo disponiveis. Mas parece-se
a fumaqa indicadora da presenqa de fogo no
ambiente. A realidade pode nao ser exata-
mente como o que esti dizendo, mas alguma
coisa do que esta dizendo tem algum fundo
de verdade.
A Vale tern s6cios diferentes no dominio
dasjazidas de Salobo e de Sossego/Liberda-
de. Na primeira, a sul-africana Anglo Ameri-
can, atrav6s de sua subsidiiria brasileira, a
Minorco. Na segunda, a norte-americana
Phelps Dodge. A CVRD ji esta atris de um
terceiro s6cio para o projeto Salobo, recru-
tando-o entire os maiores produtores de co-
bre. Os interessados ji receberam os dados
basicos do projeto e agora vAo aprofundar a
analise do empreendimento. Seria a maneira
de suprir a falta de conhecimento especifico


do setor, tanto da Vale quanto da Anglo (ou
tirar poder do parceiro). Mas um empreendi-
mento independent para uma terceirajazida
constitui absolute novidade. Se isso acon-
tecer, CarajAs subira para o segundo posto
no ranking do cobre, atris apenas do Chile.
Viveiros diz que essa noticia n~o ter fun-
damento. Mesmo assim, produzida em Santi-
ago, nos bastidores de um encontro interna-
cional sobre cobre, ela mostra que hi muita
coisa sendo negociada por baixo dos panos,
sem a minima participaqao do Estado que
guard essa riqueza em seu subsolo. Se por
acaso a Vale iniciar a exploraq~o do cobre em
tres ou mesmo duas frentes, tudo o que a
atual administracqo j disse da anterior per-
derA sua validade. Por que, entao, os com-
promissos assumidos anteriormente deixa-
ram de ter validade?
De qualquer maneira, uma coisa 6 certa: a
producio de cobre no ParA sera feita pelo
mesmo padrio da extraao do mindrio de fer-
ro. Ou seja: exportaremos apenas materia pri-
ma e insumo bAsico, perdendo o direito de
realizar a transformaqio industrial, a niica
capaz de dar efeito multiplicador a uma ativi-
dade de baixo valor agregado. Continuare-
mos a ser uma mera col6nia, mesmo no caso
do cobre, quando chegou-se a assinar con-
venio estabelecendo cronograma para a im-
plantaqAo da metalurgia, que gem mais ren-
da, mais emprego e abre perspectives de ver-
ticalizaqio da produIo.
Qual a situagao real no meio desses ditos
e nao-ditos, vais-e-vens? Nao sabemos. Nao
nos preparamos para saber. Nio somos in-
terlocutores autorizados e categorizados dos
verdadeiros protagonistas de uma hist6ria
que, de n6s, leva apenas o nosso nome, abrin-
do buracos na nossa geografia, na nossa
hist6ria e nas nossas contas. *


Eclusa: checar antes


de soltar foguetes


O governor federal modificou
o projeto basico da hidreldtrica
de Tucurui para que as obras da
barrage fossem realizadas si-
multaneamente corn as do siste-
ma de transposigao, que, pelo or-
camento da dpoca, representaria
10% do custo total. As eclusas,
que inicialmente seriam constru-
idas na margem direita do rio
Tocantins, foram remanejadas
para a margem esquerda e por
isso o projeto da represa sofreu
adaptaq6es. Mas apenas o "en-
cabegamento" de montante, in-
crustrado na estrutura de con-
creto que bloqueou o rio, foi
construido. A Eletronorte foi
desobrigada de responsabilida-
de sobre as eclusas e as obras


ficaram paralisadas. Calcula-se
que uns 180 milh6es de d6lares
foram gastos apenas na porta de
entrada do canal de navegaq~o.
Para ser concluido, o sistema
de transposiqAo do desnivel de
70 metros que a barragem criou
no Tocantins exigiria R$ 300 mi-
lhoes. O Ministdrio dos Transpor-
tes garante que a obra sera reali-
zada por R$ 210 milh6es. A dife-
renca viria tanto de altera6es no
projeto quanto de desconto de
20% que a Construtora Camargo
Correa daria. Enquanto a Eletro-
norte constr6i a segunda casa de
maquinas da usina, o ministdrio
toca as eclusas com dinheiro do
orgamento federal, concluindo o
serviqo em dois anos.


No meio da euforia geral pela
possibilidade de, finalmente, se
conseguir transport o Tocantins
em Tucurui, cabem algumas
quest6es. Por que a Camargo
Correa assumirA sem licitacFo as
obras das eclusas (e, pelo que
se deduz, da 2a etapa da pr6pria
hidreldtrica, seis vezes mais
cara)? 0 contrato original vai ser
simplesmente aditado, mesmo
envolvendo tanto dinheiro? E
para conseguir esse prosaico
aditamento que a empresaestA
oferecendo o tal desconto? E um
esquema do interesse national?
Pode ate ser, mas 6 precise, an-
tes, demonstri-lo o que nin-
gu6m, atd agora, se dignou fazer.
Outra iniciativa preliminary ne-


cessaria 6 apresentar o projeto
bAsico das eclusas. Se elejA esta
concluido (o que nunca chegou
a ser feito na primeira etapa da
obra), os responsaveis tmn que
apresentA-lo A sociedade. Seria
atd a forma de suprir a falta de
uma audiencia p6blica conven-
cional. Esse debate prdvio 6 fun-
damental para que tecnicos e re-
presentantes de entidades inde-
pendentes possam avaliar as
"simplificacges" que parecem ter
sido feitas para diminuir o custo
do sistema de transposic~o.
Corn a aprovago do novo pro-
jeto, poderemos soltar foguetes e
comemorar a realizaio da obra,
sabendo que ela nos seri provei-
tosa e nao o contrArio. 0







6 JOURNAL PESSOAL I 1A QUINZENA DE JUNHO / 1998


Aurelio Meira teve, algum tempo atrAs,
a id6ia de um projeto de recuperaqio da
area do Reduto. A iddia era boa, mas sua
execugao exigia muito al6m do que estava
ao alcance da equipe que o arquiteto po-
deria liderar. Ficou no papel. Outro dia
pensei numa iniciativa bem menor, mas
tambdm relevant: por que nAo se faz um
projeto para o "Ferro de Engomar", o tri-
Angulo formado pela Veiga Cabral, Arci-
preste Manoel Teodoro e Padre Eutiquio?
O ponto alto desse perimetro 6 a resi-
dncia da familiar do ex-deputado (ja fale-
cido) Paulo Itaguahy. Mas hA outros pr6-
dios valiosos e o conjunto ainda estA razo-
Avel e surpreendentemente preservado. O
local 6 quase um refigio idilico, apesar da
presenga massacrante do Shopping Igua-
temi na vizinhanga. Deve-se, com urgen-
cia, fazer um projeto urbanistico para a
Area, especializando seu uso commercial e
estimulando a manutengio dos tragos ar-
quitet6nicos das residencias. E um dos
raros conjuntos integrados do perimetro
central de Bel6m.
Os cursos de arquitetura das duas uni-
versidades paraenses, a UFPA e a Unama,
bem que poderiam destinar bolsas para os
alunos do filtimo ano fazerem projetos
completes (urbanistico, arquitet6nico, eco-
n6mico, fiscal, tributArio) para proprieti-
rios de im6veis que, mesmo nio estando
tombados e nio figurando na listagem das
edificacqes mais notAveis da cidade, tnm
valor incontestavel para sua hist6ria.
Refiro-me nIo s6 a pr6dios coloniais,
nem principalmente a eles. O alvo prefe-
rencial sao as edificacoes levantadas entire
o final do s6culo passado e as primeiras
d6cadas do atual, espalhados pela cidade.
As vezes o que falta 6 um estimulo e uma
orientagao t6cnica, que os estudantes es-
pecializados podem dar, eles pr6prios am-
parados por bolsas de iniciaqio cientifica,

Nogao d
Em margo de 1988 Aquilon Bezerra ape-
lou ao Tribunal de Justica do Estado para
ser reintegrado A CAmara Municipal de Be-
16m, depois da rejeicgo de um mandado de
seguranga que impetrara contra seu afasta-
mento das funq6es de vereador e a convo-
caqAo do suplente. Na semana passada, o
Didrio da Justiga publicou o voto da juiza
convocada Marta Inds Antunes Lima decla-
rando extinto o process.
Nesse period de 10 anos exauriu-se o
mandate para o qual Aquilon foi eleito pelo
voto popular. Como, em sua agao, ele ndo
props nenhuma indenizago, ainda penden-
te de apreciaco, mesmo que viesse a ter
ganho de causa, o prazo do seu mandate jA
se exauriu. O recurso perdeu o objeto.


ao inv6s de serem obrigados a trabalhar
de graqa. A prefeitura poderia prover esse
fundo.
Por sinal, esta 6 uma linha de baixo in-
vestimento com alto significado. A pre-
feitura multiplicaria o efeito do dinheiro
com um projeto de sinalizaq~o e orienta-
cAo da cidade. Em conv6nio cor o Se-
brae, poderia dar um curso sobre urba-
nismo, voltado especificamente para a si-
nalizagao e indicagao gr6fica e visual. Os
freqiientadores teriam apoio do Sebrae
para organizer firmas e se habilitariam para
construir places de ruas e indicadores de
orientag~o.
Os recursos alocados nesse program
seriam divididos por lotes, segundo valo-
res compativeis cor a proporgao dessas
firms. S6 aquelas habilitadas no curso
pr6vio teriam acesso, a partir de um ter-
mo de refer6ncia bem elaborado. Muita
gente capaz poderia liderar pequenos em-
preendimentos, garantindo-se a qualidade
do serving e gerando efeito em cascata
sobre a renda. Todos sairiam ganhando, a
comegar do cidadao.
Este, aliAs, ter sido o grande mudo des-
de que, no numero 178, institui uma se-
95o para absorver comentarios e suges-
tWes do morador de Bel6m sobre a sua ci-
dade. O mestre Roberto La Roque Soares
fez uma 6tima observaqao por telefone,
mas nao chegou a formaliza-la por escri-
to.
JA estA na hora de n6s, belenenses, fa-
zermos alguma coisa pela cidade que tan-
to amamos sem esperar por iniciativas ins-
titucionais. Podemos acabar como o Pe-
dro Penseiro, de Chico Buarque de Ho-
llanda, ou esperando Godot, como na pega
de Samuel Becket. Esperando em bergo
esplendido pelo que vird, sem nunca vir, A
maneira da malandragem national ou do
surrealismo europeu. *


e tempo
Mas, independentemente do m6rito da
questao suscitada (o entao vereador esta
long de poder se apresentar como injusti-
cado), o que impression 6 a morosidade pro-
cessual da justica. Em fevereiro de 1989 o
representante do Ministdrio PAblico opinou
pelo nao conhecimento do apelo por falta de
objeto. Desde entao o process hibernou em
cart6rio.
Com a morte do relator, desembargador
Calixtrato Alves de Mattos, os autos foram
redistribuidos at6 chegar As maos da juiza
convocada para auxiliar o TJE. Ela reconhe-
ceu o que ja era mais do que 6bvio. Mais
desconfortAvel, por6m, 6 a lentidao dajusti-
ca para decidir, atd o quejA o tempo, supleti-
vamente, decidiu por ela. 0


Fazer por Belem: a

nossa parte


A listagem

do TRE
Apesar de ja terem morrido, Guilher-
me de La Penha, ex-secretario de cultu-
ra do Estado, e o advogado Edgar Con-
tente continuam integrando a lista de fili-
ados do PMDB, cujo registry foi deferi-
do pelajustica no dia 12 do mes passado
e publicado no Didrio Oficial uma se-
mana depois. Essas listagens de militan-
tes continuam a ser sancionadas com
erros flagrantes, colocando sob reserve
sua validade como pega informative e
mesmo document legal.
O ex-secretario de agriculture Joao
Batista Bastos, por exemplo, aparece si-
multaneamente filiado ao PMDB e ao
PT. No primeiro partido ele ingressou em
novembro de 1981. No segundo, em maio
de 1988. E dupla filiaCio, vetada legal-
mente, ou apenas nao houve a baixa do
desligamento? Da mesma maneira, An-
tonio Fontelles de Lima ainda aparece
como filiado do PMDB, embora ja este-
ja no PPS.
A relagio divulgada pela justiga elei-
toral permit algumas observag6es inte-
ressantes:
Apesar de ter se colocado ao
lado de Hlio Gueiros, quando ele rom-
peu com Jader Barbalho, o ex-govema-
dor Aurelio do Carmo se filiou ao PMDB
em 1993, quando Jader era govemador.
m O empresArio Dl6io Mutran se
filiou ao PMDB em setembro do ano pas-
sado. Estara pretendendo fazer carreira
political?
m Joercio Barbalho, irmao de Ja-
der, voltou ao PMDB em outubro do ano
passado.
Apesar de ter sido um dos prin-
cipais auxiliares de Jader no primeiro go-
verno, Hamilton Guedes, ex-diretor do
BanparA, s6 se tornou peemedebista em
abril do ano passado.
m Paulo Erico Moraes Gueiros, fi-
Iho mais velho de H6lio Gueiros, 6 dado
como ainda pertencendo ao PMDB, ao
qual se filiou em 1984.
O empresArio Fernando Flexa
Ribeiro desceu de para-quedas no
PSDB: tornou-se president do partido
pouco depois de ter-se filiado, em janei-
ro de 1994 (cinco anos depois da exis-
tencia do tucanato).
O secretario de educagao, Joao
de Jesus Paes Loureiro, s6 incorporou-
se ao PSDB em outubro do ano passa-
do, provavelmente pensando em candi-
datar-se neste ano.
A secretaria de administraqao,
Rosa Freitas, acompanhou a iniciativa de
Jesus na mesma data. 0







JOURNAL PESSOAL I 1" QUINZENA DE JUNHO / 1998 7


Interesse public


A Assembl6ia Legislativa do Estado
contratou diretamente com a Editora Ce-
jup a publicacao de 10 mil exemplares do
novo C6digo de Trinsito Brasileiro. A ine-
xigibilidade de licitagio foi adotada com
base em um parecer da procuradoria do
legislative. Para que nio pairem duividas
sobre a operago, pede-se ao president
da AL, deputado Luiz Otavio Campos, que
fomega copia desse parecer e de todo o
process.
Ha muitas graficas em Bel6m, o texto
do codigo 6 de dominio public e sua edi-
cao nao constitui qualquer desafio. A ofer-
ta feita pela Cejup 6 tao vantajosa que dis-
pensa qualquer modalidade licitat6ria, at6
mesmo a tomada de preco? A ideia de edi-
tar os 10 mil volumes do c6digo foi inici-
ativa do poder legislative ou da empresa?
A Secretaria de Planejamento do
Estado considerou desnecessaria lici-
tacAo piiblica para a contratacgo da
Treide Apoio Empresarial Ltda, que
realizara um curso sobre oraamento
program e execulio orqamentAria,
"conforme parecer da assessoria juri-
dica" da Seplan. Tanto a declaracio de
inexigibilidade como a ratificacao do
ato, publicadas no Diario Oficial de 18
de maio, foram datadas de um mes de-
pois, 18 de junho. Um lapso?
Quando retificcd-lo, a Seplan poderia
explicar ao distinto publico de quemfoi a
id6ia desse curso: da Treide ou daprOpria


Fernando Henrique Cardoso
poderia ter entrado para a his-
t6ria brasileira como o presiden-
te que reconciliou o Brasil com
um padrao monetirio sdrio. Ne-
nhuma naqio 6 respeitada se sua
moeda 6 um buracb sem fundo,
como a nossa foi ate Itamar Fran-
co. O Piano Real conquistou re-
putaqto como um dos mais s6-
lidos esquemas anti-inflaqAoja
concebidos em todos os tempos
por qualquer povo. Era o sufici-
ente para glorificar um estadis-
ta. Foijusto que elegesse o can-
didato do PSDB ji no 10 turno,
em 1990.
Mas Fernando Henrique
quis mais um mandate, violan-
do a constituicqo quejurou res-
peitar. Poderia atW proper e co-
mandaruma reform que inovas-
se corn a possibilidade da ree-
leiqio (para mim, nociva), mas
teria feito um enorme bem A na-
cio (e a ele mesmo) se o dispo-
sitivo s6 entrasse vigor a partir
do mandate do novo presiden-
te.
Fernando Henrique nao pre-


secretaria? Serd que
ria dar esse curso?
nem ao menos uma to
prop6sito: qual o va
Treide? Qualfoi opa
juridica?
AliAs, a Seplan (lo1
ponsavel pelo planej
6 exageradamente
gistros que envia p
mesma edicio, por
do 2 termo aditivo
prefeitura de Soure
que o aditamento vis
de AplicacAo e Prorr
Viggncia", sem dize
E exigir demais a es
jeto original do con
se existente?
A Celpa precisa a
padrdo na administrc
v&s de adotar uma nu
os aditivos que assina
tamentos por cada u
norma atual impossib
tas vezes um determine
tado. Pode-se saber a
tamentos em geral a C
ponto important: se,
contratofor aditado.
cionado. e necessdrio
que o valor original
exemplo: em 18 de m
nou 145 mil reais a


Espelho
cisaria amputar os dedos que
garantiam o compromisso soci-
al de sua mao empalmada na
campanha de quatro anos atras,
mantendo apenas os dedos da
alianga conservadora que, nio
tendo sido a responsivel por
sua eleiggo, garantiu-lhe, no
entanto, a maioria em um con-
gresso majoritariamente fisiol6-
gico para poder governor
FHC poderia atd estar encer-
rando seu mandate como um
verdadeiro reformador social.
Ao contrArio, anulou as melho-
res propostas do seu projeto e
chega A fase critical da negocia-
cqo political com um deficit pii-
blico alarmante, um indice de
desemprego sem igual e tendo
abdicado ao poder de corrigir as
distorq6es deste pais disforme
e injusto.
Cor um mandate de quatro
anos, Fernando Henrique teria
os quatro anos seguintes para
avaliar seu desempenho, defi-
nir os rumos de sua vida e cre-
denciar-se na mem6ria do povo
para voltar (com direito a mais


ningudm maispode- Phase Projetos e Servicos de Engenharia,
Por que ndo houve mas ndo diz qual eraovalor original. Com
imada depreqos? A os dois dados 6possivel ter-se uma id6ia
lor da proposta da correta da alteragao.
recer da assessoria A Secretaria de Justica esqueceu de
declarar o valor do contrato assinado
go a secretaria res- cor a Sucesso Comercio Servioes e Re-
amento do Estado) presenta ces para o fornecimento de
economica nos re- Agua mineral durante um ano. Aguar-
sara o DO. Nessa da-se a informaclo, que k essential.
exemplo, o extrato A Secretaria de EducagVo aditoupela
ao conv8nio corn a s6tima vez dois diferentes contratos de lo-
Sse limita a dizer cacao com o Col6giolndependencia, so-
sa alterar "o Piano mando quase oito mil reais por m&s. 0
ogagio do Prazo de contratofoi assinado com dispensa de li-
r a que se refere. citacdo. Ajustificativa seriaporque os dois
pecificagao do ob- im6veis se localizam no interior do Esta-
ivenio e seu valor, do, ndo havendo outros disponiveis ou
com as caracteristicas requeridaspara o
dotar a convengao funcionamento de uma escola?
iaopuzblica: ao in- A mesma Seduc aditou pela terceira
neracaopara todos vez o contrato assinado no ano passado
, especificar os adi- com a Uirapuru Turismo para o forneci-
m dos contratos. A mento de passagens. O aditamento tor-
'ilita de saber quan- nou-se necessArio para a empresa poder
ado contratofoi adi- fomecer mais passagens requisitadas pela
rpenas quantos adi- secretaria, em viagens nacionais e inter-
elpajd fez. Um outro nacionais, at6 o limited de 35 mil reals (se-
mpre que o valor do ria de R$ 303 mil o valor original do con-
al6m do valor adi- trato?), entire oito de maio e 6 de novem-
que a empresa indi- bro deste ano. Pergunta-se: por que au-
l do contrato. Por mentou o quantitative de viagens? Para
aio a Celpa adicio- que pais se imagine ser necessario enviar
um contrato com a gente da Seduc? *



viciado


um quatri6nio suplementar),
caso seu successor, que s6 se
tornaria possivel gracas ao es-
pirito superior de FHC, come-
tesse os erros que Fernando
Henrique esti praticando, seja
em beneficio da elite predadora,
seja fazendo clientelismo popu-
lista corn o povo. Ao invds dis-
so, a vaidade isolou o presiden-
te na corte e a vontade de mais
poder a qualquer custo tirou-lhe
a sintonia corn o pais.
Nao ha outra maneira de en-
tender o que o president tem
dito e feito. As vezes age com
menos tirocinio que um verea-
dor de aldeia, incapaz de enten-
der o alcance dos seus atos.
Ningu6m causou mais danos
politicos ao president do que
ele mesmo, o maior dos prejui-
zos resultando do seu mais re-
cente destempero verbal. Um
politico professional jamais cha-
maria de vagabundos cidadaos
que se aposentam aos 50 anos.
Digamos que nao haja qual-
quer mdrito e apenas oportunis-
mo no silencio que a maioria dos


politicos cultivaria em tal cir-
cunstincia. Admitamos que, ao
inv6s de ser cinico e sonso, o
president optou por ser since-
ro. Mas uma sinceridade conta
pouco quando serve a um des-
prop6sito. Ningudm pode ser
acusado de vagabundo por usar
um dispositivo legal em plena
vig6ncia, que garante aposen-
tadoria aos 50 anos aos que,
desde cedo, contribuiram para
a previdencia.
Como pode um home tao
inteligente e vivido como Fer-
nando Henrique Cardoso ser
tao parvo, al6m de insensivel?
Talvez porque o hAbito do ca-
chimbo entorte a boca, tomar a
imagem refletida no espelho
como representative de todo o
universe tambdm 6 capaz de
gerar esse despautdrio. O pre-
sidente chega ao limiar da dis-
puta por um novo mandate
como um p6ssimo personagem
de sua pr6pria criaqao, do que
nela havia de saudAvel e posi-
tivo. Recoloca o pals A beira de
um novo abismo. *









Jogo
escondido
0 Centro Social Vicente
Maria prestaria um inestimA-
vel serving de utilidade pu-
blica se informasse qual o
valor da sua participag~o na
promono "Ligue ou Pague",
do Sistema Romulo Maiora-
na de Comunica&ao. Por lei,
esse tipo de jogo s6 pode ser
realizado se uma instituiclo
de caridade on benemer&n-
cia dele participar. Ao final
da promogao, o responsivel
tern que apresentar un balan-
co complete dos resultados
e destinarparcela do lucro ao
beneficiario. Para evitar que
essa prAtica se transform
numa burla, a instituiqco
social que viabilizou o sor-
teio (ver Jornal Pessoal
186) deveria dar acesso pfi-
blico a esses dados, possi-
bilitando uma fiscalizacAo
adequada. Ou 6 mesmo s6
para ingles ver?


Cultura global
Cica Ribeiro estava "cantan-
do" o resultado do sorteio de
carros no program do FaustAo,
na TV Globe, domingo passado.
Saiu um numero para Vilhena. O
letreiro trouxe a sigla do Estado:
RO. Cica proclamou: saiu para
Roraima. Ningu6m corrigiu. RO,
qualquer (ex)ginasiano sabe, 6
Rond6nia. Roraima fica nooutro
extreme do Brasil e atende pela
sigla RR. Cica nlo parece parti-
cularmente informada a respeito
de Brasil ou de siglas. Mas isso
nao ter importancia: os dois Es-
tados ficam no "outro Brasil".
Logo, nao existem para o padrao
Globe de cultural. E Cica nem C
loura.

Opgao
S6 o nosso president impe-
rial para comprar o sertao nor-
destine a uma paisagem lunar. A
intengio pode ter sido poctica,
numa nada adequada est6tica da
fome, mas nenhuma licenca au-
toriza o desbaratinado paralelo.
Mas s6 o nosso lider opera-
rio para interpreter a frase como
se o president tivesse se referi-
do a "paisagem lunAtica". Ou ha
um microcosmo de ironia meta-
lurgica no palavreado de Lula?
Na duivida, "desacredite" e
enfie-se no pais das maravillas
de Lewis Carroll.


Sedugao
O Journal Pssoal, quem diria, acabou na Sexy. Por re d
seu editor, Palmerio Vasconcelos, o iltimo nfimero pbi
paulistana trouxe o registro sentimental de um amigo que s
atrAs, na mais antiga das amizades fora do mais intimo circulo famili-
ar, e que as conting6ncias da vida fizeram ir para long. Nao sei como
os leitores-atletas da Sexy irao entendd-la, mas a nota, publicada sob
o titulo "Ex6rcito de urn home s6", escrita cor diab6lico poder de
sedugfo, que transcrevo para partilhar o gozo da leitura (usando
verbo apropriado ao caso) 6 a seguinte:
"Na adolescencia, Lfcio Flivio Pinto se destacava entire a mole-
cada do Reduto, bairro de Bel6m do ParA, pelas cabeqadas descon-
certantes que dava no gol a gol da Vila Leticia. Hoje continue dando
belas cabecadas em outros campos.
Licio, que brilhou em boa parte da imprensa no Sul Maravilha, 6
ojornalista mais alterativo do mundo. Dirige na capital paraense o
'Jornal Pessoal', onde joga em todas as posiqces, compra todas as
brigas que ningudm quer comprar e vai firmando a sua reputacao de
intellectual mais respeitado da Amazonia.
Um Asterix movido a tucupi".
Alerta, leitores: o Bode da Vila Leticia estA querendo me comprar.

Diregao torta
Houve 6poca em que o professional do guidom nao era apenas o
trabalhador que tirava seu sustento da conduqao de um carro de
aluguel. Era tambrm o que melhor dirigia. Esses tempos passaram.
Qualquer um pode relatar numerosos casos testemunhados (ou so-
fridos) de impericia e imprudencia de motorists de taxi (sem falar
dos de inibus, respaldado no tamanho e no peso dos veiculos, que
manobram como se fossem verdadeiros carros de combate.
Esta situaqgo deve-se A enxurrada de places de tAxi, distribuidas
segundo critdrios politicos e nao por diretriz tccnica. O nimero de
taxis em circula Ao 6 excessive, provavelmente mais do que o dobro
do suportAvel pela cidade. O assalariamento e a pauperizaqao do
professional do volante, corn a reducao da quantidade de profissio-
nais aut6nomos enquanto se ampliam as frotas, tambdm sao eviden-
tes. Mas nao inevitAveis.
Deixando de lado uma visso tacanha de corporativismo, o sindi-
cato da categoria deveria liderar uma campanha de ajuste da frota e
de valorizaqo do professional para que a relaqao atual, sufocando
os bons motorists que hi na praca. seja invertida. S6 assim os maus
exemplos poderao ser contados nos dedos, isolados e eliminados,
ao invds da classes sofrer o estigma social. O problemaja 6 suficien-
temente grave para merecer, dos chamados canals competentes, mais
do que discurso eleitoral.

Transparencia
Quem quiser analisar o Quadro de Detalhamento da Quota Tri-
mestral (QDQT) da despesa do executive estadual para o segundo
trimestre do ano vai precisar de lupa, paciencia e boa vontade. Pri-
meiro, porque o trimestre 6, na verdade, bimestre (maio e junho).
Abril foi publicado a parte. Segundo, porque o document original
foi fotografado para reproduqio, em escala reduzida, no Diario Ofici-
al (de 12 de maio). Terceiro, porque nao houve a menor preocupaio
em facilitar a consult, muito pelo contrArio (a continuago do qua-
dro, na pigina seguinte, perdeu as referdncias). Foi a pior divulga-
ao do QDQT que pude constatar at6 agora.
SMera coincidencia?


lSA ic6
ionil rtstimo de
800 miles de d6lares, em maio
do ano passado, para poder li-
derar a compra da Companhia
Vale do Rio Doce, sobrepujando
o cons6rcio comandado pel
grupo Votorantim. 0 emprstimn
um autentico mega-papagaio
venceu no mes passado, mas
CSN s6 conseguiu reunir US
300 milhSes. Para completar i
quitago, fez um novo emprdsti
mo, de US$ 500 milhoes, con
vencimento em dois anos. No!
dois casos. quem organizou
sindicato de bancos foi o Nati
onsBank, dos Estados Unidos
que estA cor um p6 dentro
outro pd fora da CVRD, mas ga
nhando nas duas posic6es.
O que motiva refazer a per
gunta: quem 6, de fato, o done
daCVRD?


Idiotia rural
Como acontece com os livroi
do Paulo Coelho, por quatro o
cinco vezes tentei, sem suces
so, me ligar A novela "Po
Amor", que encerrou seu reina
do no horArio das oito (do coi-
to, segundo Agammenon Mend
des Pedreira). Dizem que pes,
soas como eu nlo veem novel
por puro preconceito. Que a te-
ledramaturgia ter valor, que ex-
pressa um "modo brasileiro" de
criacqo e que as novelas sao a
versao mais adequada ao gostq
national do que as peas de te-
atro.
Tudo pela causa. Armei-mn
de algo para comer (ejustificar
o imobilismo diante do video)
fiz esforgo para me incorporar a
trama. Mas nao mais do que 10
minutes depois jA estava ente-
diado e atd irritado com o prima.
rismo e o artificialismo da hist6-
ria. Nao faz parte do mundo,
vivo, nem da salutar imaginaao
criadora, que uma mae substi-
tua o filho natimorto da filha
pelo seu pr6prio filho, nascido
A mesma Cpoca, assim agindo
para poupar a filha de tal dissa-
bor. Atraves da caricature gros-
seira e inverossimil, a central de
ideologia da Globo projeta seu
telespectador para um mundo de
prostracao, de imobilismo e de
tudo aquilo que fez Marx cha-
mar de "idiotia rural".
Esta nova maneira de agir
cor os mesmos prop6sitos ter
uma velha denominacao: 6 lava-
gem cerebral.


Journal Pessoal
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