Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00136

Full Text




Jornalistas
e Poderosos

Journal Pessoal
LU C I 0 F L V I P I NT Os her6is
ANOX1-i I187'- 2dQUINZENA DE MAO DE 1998 R$ 2,00 do sertio
(PAGs. 4/5)
ENERGIA



De novo do rio


A reagdo international aos danos ecoldgicos das bidreldtrikbqpgb u o go.Iemo
a suspender as grades obras nos rios da Amazonia, iniciaa m Ti cunn. isse
ciclopode estar de volta cor a duplicaado da grande usina ai'TocantiUI.e o
aquecimento do mega-projeto do Xingu. Mas operigo j passou mesmo?


a no final deste mes a Eletronorte
podera receber da Sectam (Secreta-
ria de Ciencia, Tecnologia e Meio
Ambiente do Estado) a Licenga de
Operagdo para a duplicacgo da hi-
dreldtrica de Tucurui. Simultaneamente, esta-
ra em condig6es de poder instalar um canteiro
provis6rio de obras
em Altamira para
construir, no Xingu,
a maior de todas as
hidreldtricas, a de .
Belo Monte. Os dois
empreendimentos
movimentarao qua-
se 12 bilhoes de re-
ais e parecem indicar
que a era dos gran-
des aproveitamen-
tos hidrenerg6ticos
foi retomada no
Pard.
Por enquanto, a
usina de Belo Mon-
te, s6 inferior a de
Itaipu, superando-a,
entretanto, por ser inteiramente national (me-
tade de Itaipu 6 paraguaia), ainda 6 mat6ria
especulativa. Mas ji nao 6 tao abstrata quan-
to em passado recent. No pr6ximo mes, a
energia de Tucurui estara chegando a Altami-
ra, na tensgo e na quantidade necessArias para
garantir aquele que deverA ser o maior de to-
dos os canteiros de obras do pais. Os dirigen-
tes da Eletronorte tratam do projeto como se
ele estivesse prestes a ser desencadeado, a
despeito da reacio international aos impac-
tos ecol6gicos causados pelos grandes re-
presamentos de rios amazonicos para a gera-
qao de energia.
Se o projeto do Xingu, por ser novo, pode
reacender a chama das paix6es ambientalis-
tas, a finalizag~o da hidrel6trica de Tucurui


esta passando ao largo da ateng~ o da opiniao
pfblica. A Eletronorte nio estA obrigada a
apresentar um Relat6rio de Impacto Ambien-
tal (Rima) porque a usina comeqou a operar
(em novembro de 1984) antes que entrasse em
vigor essa exigencia legal entiree 1986 e 1987).
A empresa apenas teve que submeter a Sec-


tam os estudos que realizou at6 agora em rela-
cao aos efeitos da barragem sobre o meio am-
biente e sua populag~o, al6m de estabelecer
uma relagao de compromissos que assumird
no sentido de minimizar ou mitigar os efeitos
negatives da nova obra.
A Eletronorte faz questao de esclarecer que
as repercuss6es da duplicagdo de Tucurui
serao minimas comparativamente aos efeitos
do barramento do rio, s6 se fazendo sentir a
partir de 2002. As obras consistirao em im-
plantar uma segunda casa de forga, com 11
geradores (cadaumde 375 megawatts, 375 mil
quilowatts, mais do que o suficiente para aten-
der todo o consume de Bel6m), e em uma bar-
ragem que complementary o eixo da represa
principal, fechando o vo que atualmente exis-


te entire o local da segunda casa de forga e a
barrage da margem esquerda do Tocantins.
Com isso, assegura a empresa, o vasto lago
artificial formado pela barragem nao sera alte-
rado, mantendo seus limits atuais. Nao sera
precise desmatar mais nada, nem deslocar
pessoas. Nenhuma nova parcela da floresta
serA atingida. Nao se
repetirao os danos
ecol6gicos e sociais
que deram motivo a
um intense debate
que antecedeu e su-
cedeu o fechamento
do rio e o enchimento
do reservat6rio, al-
guns deles ainda nao
reparados.
Nao se trata de
uma obra qualquer
,-'., de engenharia, po-
r6m. Ela exigira 1,5
.. bilhlo de reals, qua-
se tanto quanto o in-
vestimento recalcu-
lado para extrair co-
bre de Caraj s, que viria a ser a maior ativi-
dade produtiva em territ6rio paraense. Pelo
menos quatro mil trabalhadores terao que
ser contratados, 3.200 deles na pr6pria re-
giao. Pelo cronograma aprovado, ja cor
certa defasagem, a primeira das 13 novas
maquinas a serem instaladas comeqara a
funcionar no iltimo dia de 2001, seguindo-
se a partir dai uma nova unidade a cada qua-
tro meses. Para isso, a concretagem teria que
ser iniciada em novembro deste ano. As es-
cabvaq6es ja deveriam estar em curso.
Colocar em funcionamento outros 13
enormes geradores naquela impressionan-
te estrutura de concrete (corn at 100 me-
tros de altura, o equivalent a um prddio de
30 andares) erguida sobre o leito do Tocan-)


ELI jOES: DEFINIeOES SO NO FIM '(Pa 3)







2 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO /1998


)tins, no entanto, 6 uma tarefa mais comple-
xa, delicada e pol6mica do que sugere o dis-
curso official.
Efetivamente, seu maior impacto in situ, que
seria afogar mais Areas do que as j inunda-
das, nao ocorrerA. Mas algo bem expressive
ja aconteceu, sem que ningu6m, ate agora, haja
registrado essa mudanga fora de um restrito
circulo de especialistas envolvidos na emprei-
tada, que geralmente nao falam (As vezes, pard
nao perder o precioso emprego).
At6 recentemente, todos os documents
oficiais diziam que a represa de Tucurui criara
um reservat6rio cor Area de 2.430 quil6me-
tros quadrados (o segundo maior lago artifici-
al do Brasil, superado apenas por Sobradi-
nho), acumulando 45,8 trilh6es de litros de
Agua (ou 45,8 bilh6es de metros c6bicos), com-
preendendo um perimetro de 5.400 quil6me-
tros. Esses nmueros mudaram significativa-
mente: agora, a rea 6 de 2.875 km2 (acrscimo
de 445 km2, ou 18%), o volume de Aguaalcan-
Ca 50,3 trilhoes de litros de Agua (quase cinco
trilh6es a mais, ou 10%) e o perimetro pulou
mais de 40%, para nada menos que 7.700 qui-
16metros (tres vezes e meia o percurso de Be-
16m a Brasilia). Esses cAlculos consideraram o
nivel mAximo normal de operagao, na cota de
72 metros. Mas o mAximo maximorum de pro-
jeto chega A cota 75,3 (embora seja quase im-
possivel que venha a ser atingida).
Naturalmente, os m6todos de observagqo
e andlise se sofisticaram e hA mais informa-
q6es de campo. Mas desde o inicio a avolu-
mac~ o das conseqiiencias do fechamento do
Tocantins vem numa espiral, crescente e mal
explicada. A primeira defini~ o do lago refe-
ria-se praticamente a metade da Area agora re-
conhecida, isso quando o rio ja tinha sido
desviado e estava sendo represado. Campa-
nhas topogrdficas permitiram corrigir em terra
medig6es obtidas por m6todos indiretos, mas
a margem de erro ter sido grande demais para
que a explicalo metodol6gica seja conside-
rada satisfat6ria.
AliAs, margens de erro inaceitAveis (a co-
megar pelo orgamento financeiro, que ultra-
passou em tres vezes o que estava previsto) e
a necessidade de recorrer a simulaCaes, mo-
delagens, extrapolac6es, infer8ncias e outros
mdtodos indiretos, A falta de pesquisa empiri-
ca e dados reais, ter sido uma caracteristica
marcante ao long da hist6ria de Tucurui e
que talvez expliquem melhor seus erros e de-
sacertos.
As sensiveis alteragqes nas dimens6es e
na composiclo do reservat6rio, por moti-
vos ainda nio satisfatoriamente explicados,
podem estar influindo sobre o pr6prio lago,
desencadeando processes ainda nao co-
nhecidos ou fora de control. A operagco
do reservat6rio pode estar sendo feita em
padres variantes em relaqAo aos declara-
dos. Ou, dito em linguagem mais simples: a
Eletronorte pode tanto nao estar dando con-
ta dos problems que estao surgindo no
lago em conseqiiuncia de sua pr6pria for-
magio, nem tendo dominio sobre o manejo
das Aguas para a geragilo de energia.


Da Agua que chega A parede de concrete
quebarra orio, umaparte, a menor(uns 15%), 6
"engolida" pelas turbines para gerar energia.
Cada uma das 12 turbines hoje em funciona-
mento "engole" ate 600 mil litros de Agua por
segundo (ou 600 metros cfbicos). Cada uma
das 11 novas turbines, mais potentes, absor-
verA quase 700 mil litros por segundo. Atual-
mente, a vazAo turbinada esta em torno de seis
milh6es de litros por segundo. Cor a usina
concluida, ultrapassarA 12 milh6es de litros.
A outra parte da Agua que nao 6 levada
para a casa de forga (em torno de 85% do to-
tal) passa pelo vertedouro para jusante da
barrage, fluindo Tocantins abaixo. Na pri-
meira etapa da usina, estava previsto um ver-
tedouro de fundo, dotado de oito comportas,
para manter o fluxo constant do rio, que aca-
bou cancelado. Para a segunda etapa, que co-
mega agora, ficou de ser construido um verte-
douro complementary, acrescentando 10% A ca-
pacidade atual de vertimento da barragem,
garantindo-lhe uma vazao de 110 milh6es de
litros de Agua por segundo.
Essa margem de seguranca reforcaria ain-
da mais a operac o do reservat6rio. O Tocan-
tins, cor sua vasta bacia, de 780 mil quil6me-
tros quadrados (cobrindo quase 10% do terri-
t6rio national), tem sido uma fonte de surpre-
sas, que vnm se amiudando nos iltimos tem-
pos. Em 1980, uma vazao record, nao previs-
ta, de quase 70 milh6es de litros de Agua por
segundo, quase arrastou a ensecadeira prin-
cipal, por pouco n5o obrigando a Eletronorte
a comegar tudo de novo para o desvio do To-
cantins. Entre 1978 e 1980 ocorreram tres dos
quatro maiores picos de cheia registrados en-
tre 1949 e 1980.
Esses fatos obrigaram a Eletronorte a em-
preender uma revisgo do projeto corn as obras
em pleno andamento. Concluidos os novos
estudos, que acarretaram adaptaq6es estru-
turais, a vazao de projeto, que era original-
mente de 100 milhoes de litros por segundo,
foi elevada em mais 10 milh6es, enquanto o
nivel mAximo maximorum da represa passou
de 72 para 75,3 metros. Como a barrage ja
estava praticamente concluida e para nAo atra-
sar o enchimento do reservat6rio e o inicio da
geraqao, foi decidido que esse vertedouro
complementary s6 seria construido na segun-
da etapa, de duplica~io da usina.
Acolhendo sugestio dos consultores, a
Eletronorte decidiu eliminar o vertedouro com-
plementar. Os tAcnicos asseguraram que a atual
capacidade de vertimento 6 suficiente para
assegurar a operaiao, livre de surpresas. Aldm
disso, o orgamento da segunda etapa teria que
ser acrescido de R$ 200 milh6es, um investi-
mento a mais considerado desnecessArio. E
pesado, numa conjuntura desfavorAvel A ob-
tengdo de financiamento para esse tipo de pro-
jeto.
Essa supressao foi realizada cor toda a
tranqiiilidade, mas ha um dado que preocupa
um leigo. Durante 10 anos, a partir do inicio
do funcionamento do primeiro gerador, em
novembro de 1984, a Eletronorte operou o re-
servat6rio de Tucurui entire a cota mAxima de


72 metros e a minima de 65. Apartir de 1995a
depleclo (retirada de Agua) do reservat6rio
baixou para at6 60 metros, segundo a empresa
"devido a fatores hidroclimiticos adversos e
ao aumento da demand de energia". Ou seja:
o aumento da deplelio ate niveis minimos
operacionais records seria um fenomeno ape-
nas sazonal, por causa de fortes estiagens e
porque hA mais consume de energia.
Entretanto, um relat6rio de abril do ano
passado de uma comissao interministerial, cri-
ada para tratar das 1.660 ilhas que se forma-
ram com o enchimento do lago (geralmente o
topo dos morros que permaneceram desco-
bertos), admitiu: "Atualmente se desconhece
os problems relacionados com o depleciona-
mento do reservat6rio, bem como sua exten-
sao". Nao s6 neste aspect desconhece-se a
dinamica da Area: s6 agora serao desenvolvi-
dos estudos de modelagem matemAtica para
verificar as alteracqes na qualidade da Agua
no reservat6rio e abaixo da barragem.
Tambdm ainda nao foi definida uma alter-
nativa satisfat6ria para ter um control ade-
quado do lago. Os satelites cujas imagens tnm
sido usadas apresentam o inconvenient de
nao poderem ser produzidas durante boa par-
te do ano, quando ha muitas nuvens. O satd-
lite canadense Radarsat nao 6 afetado por
nuvens, mas os resultados das imagens obti-
das atrav6s dele em novembro de 1996 nio
foram considerados satisfat6rios por causa da
grande quantidade de troncos e Arvores mor-
tas (mais conhecidos como paliteiros) exis-
tentes acima do nivel da Agua e na Area expos-
ta, uma chaga ainda hoje a impressionar nega-
tivamente os visitantes.
Sao dados fundamentals para saber como
sera o abastecimento de Agua para as popula-
q6es situadas a jusante da represa e qual a
repercussao sobre o ambiente e os moradores
em torno do lago. Com mais miquinas "engo-
lindo" Agua, o reservat6rio sera mais exigido.
A variaC5o entire as cotas sera menor entiree 72
e 62 metros, cor 10 metros de deplegao), mas
o deplecionamento sera mais frequente e mais
duradouro.
Em funoio do nivel permanecer mais baixo
do rio mais freqiientemente e por periods mais
prolongados, os tecnicos preveem dificulda-
des de acesso a alguns trechos das margens
do lago e das ilhas, formacAo de ambientes
propicios A proliferagdo de insetos (alguns
deles vetores de doencas) e aprisionamento
de peixes em pogas e "lagoas marginais". Os
moradores ajusante terio menos Agua, de qua-
lidade inferior, menos oxigenada. Pode estar
acabando a fase de suprimento de Agua po-
tavel pelo rio. Alem das alteracqes de quali-
dade, poderi haver tamb6m um desequilibrio
hidrico.
Sera que esses pontos est~o suficientemente
esclarecidos, na posiqao atual em que se en-
contra o projeto, para que ele possa entrar numa
nova etapa? E uma das perguntas que se faz.
H ainda muitas outras a responder antes que
a Sectam possa expedir a Licenga de Operag o
para Tucurui dar o largo pass que fechard o
segundo ciclo da sua hist6ria.







JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO/ 1998 3



Eleiao: definicoes apenas a ultima hora


O quadro sucess6rio no Para s6 sera
definido no final de junho, no derradeiro
prazo estabelecido pela legislaqFo elei-
toral para a oficializacio das candidatu-
ras. At6 la, as especulaces se multipli-
car2o e se intensificarao, mas an6ncios
bombisticos podem n~o passar de balio
de ensaio. Como acontece em um jogo
como o poquer, havera ainda espago para
o blefe. E antes que os nomes indicados
para disputar o govemo do Estado e o
senado possam ser sacramentados pelas
convenqoes partidArias, muitas negocia-
96es de bastidores (al6m de ameagas
veladas) ainda se desenrolarao. Como
ningu6m, sozinho, esti seguro da vit6ria,
os candidates mais cotados tentam re-
forgar seus esquemas antes de partir para
a campanha aberta.
Os ultimos movimentos mais signifi-
cativos estao sendo dados por Romulo
Maiorana Jr. No pr6ximo domingo, corn
todo o estardalhaco possivel, O Liberal
divulgara pesquisa encomendada a Vox
Populi mostrando que Rominho jad o
terceiro nome mais apontado para o se-
nado, atras apenas de H6lio Gueiros e
Jarbas Passarinho. Havia tanta certeza
de um bom resultado, gracas a divulga-
9io mais intense do nome do principal
executive do grupo Liberal nos veiculos
da empresa (ate como patrono de fute-
bol ele apareceu), que, pela primeira vez,
uma pesquisa encomendada pelos Maio-
rana foi devidamente registrada no TRE.
As anteriores haviam sido pagas, mas
nio registradas. Por isso, nao podiam ser
divulgadas.
Tomando public que nenhuma outra
candidatura cresceu tanto quanto a dele,
Romulo Jr. acredita estar estabelecendo


uma posicio fortificada na linha de fren-
te eleitoral. Sua candidatura deixa de ser
um mero capricho para se torar uma
hip6tese viAvel, apesar do risco de im-
pugnacdo (ver, a prop6sito, Jornal
Pessoal n0 166). Mas ele quer mesmo
ser candidate ou criou essa possibilidade
apenas para impedir o acordo entire Al-
mir Gabriel e Jader Barbalho?
As fontes mais pr6ximas ao empresa-
rio garantem que ele quer mesmo ser
senador, mas admitem que a conseqiidn-
cia natural dessa disposicgo 6 anular a
aproximaqgo entire o govemador e o se-
nador peemedebista, alem de criar uma
variavel antes impensavel: a derrota de
Hlio Gueiros. Um terceiro efeito seria
o de fechar o caminho de volta de Jar-
bas Passarinho ao senado, como candi-
dato da coalizao PSDB-PMDB, apesar
do apoio que Dea Maiorana, a principal
controladora da empresa (tem 51% das
acoes), vinha dando a Passarinho.
Quem, no entanto, pode assegurar que
vantagens empresariais nao podem esti-
mular a desistEncia de Rominho a ultima
hora? Numa etapa do calendario em que
o povo, a fonte da decisao final com o
seu voto, ainda 6 apenas detalhe, tudo 6
possivel. Muitos deduziram automatica-
mente da participac~o do senador Jader
Barbalho no ultimo program do PMDB,
duas semanas atris, que ele ja e, de fato,
novamente candidate ao governor, empur-
rado por uma relag~o de 45% a 31%
sobre Almir Gabriel na prefer8ncia dos
entrevistados pela filtima pesquisa do Ibo-
pe, realizada por encomenda da CNI
(Confederacgo Nacional da Indfistria).
Mas a sondagem da Vox Populi devera
restabelecer uma correlaao mais com-


pativel corn a situac~o de fato: um em-
pate tdcnico entire os dois principals con-
tendores pelo govemo.
Este ultimo resultado volta a animar a
equipe do governador, mas nao 6 o bas-
tante para faz8-lo tomar uma decisao
antes de esgotar todas as possibilidades
de manifestaao de Jader Barbalho so-
bre um acordo. Almir ainda pretend
veneer no 10 tumo. Isso s6 sera possivel
com o lider peemedebista no mesmo pa-
lanque. As iltimas esperancas estao sen-
do depositadas na funmco de represen-
tante do PMDB no comity de reeleigio
de Fernando Henrique Cardoso que Ja-
der passou a desempenhar. Por ter de-
sistido de candidatar-se, o govemador do
Rio de Janeiro, Marcelo Allencar, pas-
sou a integrar esse comite. As duas atu-
aq6es seriam inconciliaveis.
Teoricamente, sim, inclusive porque
essa posicgo estrat6gica tornaria o se-
nador paraense credor de muitos favo-
res junto ao president da Repiblica,
podendo cobrar-lhe como poucos politi-
cos. Mas Jader acredita realmente nes-
se seguro contra traices na political bra-
sileira? No minimo, ele continue manten-
do uma pema em Brasilia e outra no
Para, um equilibrismo condenado a du-
rar pouco e nao gerar efeitos duradouros
em nenhum dos p6los. Equilibrismo cos-
tuma ser a maior virtude dos politicos
brasileiros. Em muitos casos, a ulnica.
Todos esses protagonistas sabem que
tomar uma decisao agora, sem todas as
altemativas amadurecidas e o jogo mais
adiantado, pode implicar ser blefado ou
pagar caro por uma ousadia precipitada. A
novela continue, corn enredo de quinta ca-
tegoria e efeitos especiais de primeira. *


Pesquisar a pesquisa


O descompasso entire as
iltimas pesquisas eleitorais
realizadas no Para pode ser a
oportunidade de ouro para a
sociedade fazer o teste de con-
sistencia dessas sondagens,
hoje moeda de ouro no mer-
cado do voto. Sera que as
empresas de pesquisa estio
permitindo aos clients inter-
ferir na selegio dos municipi-
os nos quais sao aplicados os
questiondrios, quando a sonda-
gem tem amplitude estadual?
Indicar determinados munici-
pios e excluir outros pode equi-


valer a viciar o resultado. O
mesmo se aplica a bairros.
Sem falar na definicio do per-
fil dos entrevistados.
Um outro ponto polemico 6
o das amostragens. Num in-
tervalo de duas semanas o Ibo-
pe ouviu 1,200 pessoas para
uma pesquisa e 800 para ou-
tra pesquisa, ambas abrangen-
do todo o Estado, basicamen-
te corn o mesmo objetivo.
Havia rigoroso control da
amostra, ou ela esticou e en-
colheu conforme a vontade do
client?


O pr6prio institute deveria
tomar a iniciativa de realizar,
com recursos pr6prios, uma
nova pesquisa, tratando de re-
gistra-la no TRE, oferecen-
do-a a todos os partidos poli-
ticos, gratuitamente, como
uma espdcie de prova dos
nove. Evitaria mas interpre-
tag6es ou dedug6es equivo-
cadas em funcgo dos desen-
contros dos resultados, que
vazaram para a opinion pf-
blica aos pedagos. Assim,
seria restabelecido um nivel
aceitavel de credibilidade e


confianga, essencial para que
a eleiiao seja o moment
mais nobre do process poli-
tico e nao apenas um produto
de arranjos mercadol6gicos e
mercantis.
Se ninguem se mexer, que
tal o Ministerio Publico, en-
quanto fiscal da lei, requisitar
todas as pesquisas e subme-
t8-las a uma pericia compe-
tente, evitando que o eleitor,
o cidadAo e o consumidor se-
jam fraudados? Nao seria
exigir demais. Ou seria? Cor
a palavra, o MP. *






4 JOURNAL PESSOAL 2! QUINZENA DE MAIO /1998


Pr6ximo dos 85 anos, Orlan-
do Villas Boas 0 o maior ser-
tanista do Brasil. Durante 35
anos seguidos, de 1943 a
1978, andou pela selva aju-
dando o sertao a crescer, alcangando
seus limits mais a Oeste num pais de
dimens6es continentais e com a maior das
fronteiras tropicais do planet. Colecio-
nou mais de 200 malArias nesse period,
sem seqiielas aparentes. Mesmo aposen-
tado, nao se afastou das Areas interiores,
nem das populag6es indias e sertanejas:
tem escrito livros, proferido palestras,
ajudado misses e partilhado sua sabe-
doria sobre essa estranha e brava gente
brasileira.
Orlando 6 o mais velho e o inico dos
irmios Villas BWas ainda vivo. Claudio
morreu em fevereiro, com 81 anos. Leo-
nardo, o maisjovem, se foi em 1961, com
apenas 33. S6 os 18 anos de atuacio
conjunta do trio (seguidos por outros 17
anos da dupla Orlando-ClAudio de quase
confinamento na floresta) Ihes garantiria
uma biografia poucas vezes igualada em
qualquer outro lugar do mundo. Mas os
brasileiros desconhecem a hist6ria des-
ses tres paulistas, que trocaram a vida
urbana na mais desenvolvida unidade
federativa do pais por uma das mais no-
tAveis facanhas de devassamento deste
s6culo, entire Goias, Mato Grosso e Para.
Um documentario cinematografico
sobre os Villas B6as foi anunciado na
semana passada, para estar concluido em
agosto. E patrocinado pela Forga A6rea
Brasileira, que os irmaos (atrav6s do
Correio A6reo Nacional) tanto ajudaram
e da qual tanto se valeram. Os critics
dos Villas BWas verio nessa circunstin-
cia mais um estimulo para atacar o ofici-
alismo que sempre marcou a mentalida-
de dos irmios, sobretudo de Orlando, e
particularmente durante a convivEncia
com o regime military, ao qual serviram
com a boca nem sempre justificadamen-
te fechada.
Nao s6 essa critical procede. O indivi-
dualismo, o personalismo, algumas vezes
o oportunismo e a demagogia de Orlan-
do, espraiando-se pelos irmios e provo-
cando conflitos na personalidade de ClAu-
dio, os graves erros que cometeram, tudo
isso e mais alguns itens sao passiveis de
critical. Nada disso, entretanto, diminui a
grandiosidade da obra e o fascinio de
cada um dos Villas BWas.
Como todos os que realizaram uma
grande obra, eles erraram muito. O sal-
do, entretanto, 6 amplamente superavi-
tArio. Garante-lhes um lugar elevado e


unico na hist6ria brasileira. Foram os
bandeirantes redivivos e redimidos, numa
versao a favor dos indios e nio contra
eles, na intend o e na prAtica, ainda quan-
do a conta de chegar n~o tenha indicado
um saldo compensador para os indios.
Bastava estar ao lado de um dos Vi-
las-B6as para sentir a forca e o magne-
tismo caracteristicos dos tipos hist6ricos,
daqueles que se tornam hist6ricos ainda
em vida, conscientes desse privil6gio, sem
se deixarem imobilizar numa estAtua de
came e osso. Se fossem ingleses, os Vi-
llas B8as seriam her6is nacionais. A di-
mensao mundial de sua importdncia ex-
plica terem recebido mais honrarias fora
de seu pais, para alguns um trago de exo-
tismo cosmopolita. Na verdade, esse re-
conhecimento intemacional express a
exata percepaio de que eles se situavam
no nivel de exploradores como o brithni-
co Sir Richard Burton (nio 6 o ator que
foi marido de Elizabeth Taylor, esclare-
ca-se).
A Marcha para o Oeste, livro que
reconstitui a epop6ia da expedigao Ron-
cador-Xingu, publicado em 1994 pela
Editora Globo, 6 um relate t~o apaixo-
nante quanto o de Burton. Deveria ser
leitura obrigat6ria nas escolas, apesar de
(ou sobretudo por) suas 600 paginas (ler,
ainda na escola primaria, Os Sete Pila-
res da Sabedoria, de T. E. Lawrence,
mais volumoso do que o livro dos Villas-
B6as, foi um present dos c6us para ati-
car meu interesse pela geografia e as
aventuras, que nunca poderei pagar).
Orlando e ClAudio contam causess"
inacreditAveis, escrevem fluentemente
(nao 6 identificado um ghost-writer) e
registram um moment decisive da for-
ma io do pais, com honestidade sufici-
ente para fomecer informaqnes aos que
critical os resultados da expedicao da
qual participaram.


Pode-se especular sobre o que seria
essa parte do territ6rio national, justa-
mente o centro geografico brasileiro (al-
guns dizem ser o corag~o, outros o rite-
ro, conforme o paralelismo mitol6gico que
tragam), mas o que os Villas B8as reali-
zaram 6 notavel. Entre outras faganhas
que Orlando sempre relata cor embe-
vecimento estAo os mil quil6metros de
picadas que abriram a muque, vencendo
diversos tipos de solos e vegetagbes, cri-
ando uma intimidade rara com a terra
devassada (mas nao exatamente conquis-
tada: o que se seguiu escapou ao contro-
le dos irmaos e contrariou suas expecta-
tivas; com algum exagero, pode-se dizer
que a obra realizada virou feitigo, ferin-
do o silEncio amargurado e depressive
de ClAudio).
ClAudio e Orlando se aposentaram em
1978, mas continuaram ligados a Funai,
dela recebendo uma renda. As novas ge-
raqces foram cultivando em relagdo a
dupla um misto de desconfianga e nega-
0ao, sentiment disfargado de ficiao que
Antonio Callado colocou na pele de um
personagem de Quarup, romance (ou-
tro exigindo inclusao obrigat6ria no cur-
riculo escolar) que ter no Parque Naci-
onal do Xingu, a maior das realiza69es
dos Villas-B6as, um dos seus cenarios
(ou estagdo, para usar a martirizadora
image biblica).
Chico Fontoura (na verdade, Francis-
co Meirelles, outro grande sertanista) se
irrita com o legalismo dos Vilaverde (na
verdade, Villas B6as) e delira com um
fim mais nobre para os guerreiros indi-
genas: descer no Rio de Janeiro, entio
capital federal, e flechar todo mundo, at6
o iltimo guerreiro ser morto, mas numa
guerra, nao esvaindo-se em fezes e san-
gue pelo ataque de uma virose civilizada.
Criar um escindalo para denunciar um
genocidio lento e formalmente nao ca-


A epopeia



do sertao



dos irmaos



Villas-Boas







JOURNAL PESSOAL 22 QUINZENA DE MAIO /1998 5


racterizado, e que por isso incomo-
da pouco os algozes civilizados, mas
efetivo.
O tempo se encarregou de mos-
trar que os Villas B6as foram su-
cedidos pelas predat6rias frentes
de expansio da economic na-
cional (de que 6 exemplo
Nova Floresta, em
Mato
Gros-

mas
rn a s
sem eles teria
sido muito pior, nem
haveria muitas hist6rias para
contar e testemunhos vivos para conti-
nuar a fazd-la, ainda que cor limitaqoes,
nas dreas indigenas. Empenhados e ho-
nestos na realizagio de suas id6ias, a eles
cabe o mais autEntico relato sobre os 55
anos de hist6ria que viveram desde que
se incorporaram 6 expedigio que iria ao
centro do Brasil.
Orlando tem afastado as cobrangas da
consciencia com seu modo exuberante
de viver, alegre e generoso. Quando o
cumprimentei, um pouco antes do langa-
mento do livro sobre os Panari (ver Jor-
nal Pessoal 185), em Sdo Paulo, ndo
me reconheceu. No moment em que en-
cerrei minha breve intervened na sole-
nidade, ele fez questao de pegar o mi-
crofone de volta e dizer para a plateia


que "agora, sim, estou me lembran-
do de vocF". Em seguida me abracou especialistas, de antrop6logos ajornalis-
com aquela efusdo bem caracteristica tas, nio saldaram essa enorme divida.
dele. Era muito desprendimento da parte Infelizmente, o mais apaixonante dos ir-
de algu6m tao important para com o jo- mios, Claudio, ja morreu.
vem e obscurojornalista que cor ele con- Espero que alguem mais intimo, com


versou entire 1969 e 1974, conversas vi-
vissimas contrastando com o cenario da
recem-inaugurada Praga Roosevelt, com
seu pombal de concrete armado, diante
do apartamento.
Naquela 6poca eu me perguntava por
que nao se fazia um filme ou nao se es-
crevia um livro mais denso do que as bre-
ves e superficiais biografias sobre os Vi-
llas B6as. O tempo passou e os diversos


acesso a seus preciosos diarios e anota-
c9es, consiga transformar esse material
bruto num livro a altura do personagem. E
que o primeiro documentario cinematogrA-
fico tenha a qualidade necessAria para dar
a Orlando, o iltimo, nio dos moicanos, mas
dos txukarramie, ou suya, oujuruna, o re-
conhecimento a que ele e seus irmaos fi-
zeram jus. Um agradecimento do tamanho
do Brasil que tio bem amaram. *


Fale. leitor


O Jornal Pessoal completou tres
anos com o mesmo prego. Para atu-
alizar-se pela inflaggo,jA deveria cus-
tar 2,50 reais. Um amigo sugere R$
3. O prego de capa, por6m, sera man-
tido. Por quanto tempo, nao sei. Pra-
ticamente toda a imprensa vem sus-
tentando seus pregos de venda avul-
sa desde a estabilizacgo da moeda.
Hoje, um jomal brasileiro acompa-
nha os valores da imprensa interna-
cional, embora diversos grandes jor-
nais de outros paises ainda estejam
mais baratos do que os nossos.
A equa2io de sucesso no mundo
do jornalismo impresso busca um
prego de custo para o exemplar uni-
tirio, suficiente apenas para cobrir
o custo industrial. Dentro desse li-
mite, torna-se possivel alargar o uni-
verso de leitores. Com mais jomais
(ou revistas) vendidos, melhor sera
a cotagIo da publicagAo na progra-
maaio das agencias de publicidade.
Quando o veiculo concorre num mer-
cado segmentado (e principalmente
quando o segment 6 de alto poder
de compra), a credibilidade que al-
canca cria uma relagio direta com o
faturamento, deslocando para segun-
do piano a tiragem. Isso explica o
triunfo de publica 6es de tiragem


restrita, mas de notoriedade, como
New Yorker ou New York Review of
Books.
Em todos os casos, a receita de
publicidade 6, no minimo, tres vezes
superior A da venda avulsa. E ela que
responded pelos custos indiretos de
produqAo da publicacgo, administra-
tivos e financeiros, e pelo lucro. A
proporgao de jomais e revistas so-
brevivendo apenas da vendagem de
seus exemplares junto ao p6blico e
cada vez menor; no Brasil, insignifi-
cante. Os que se mantAm passam a
ter circula~lo dirigida, apenas entire
assinantes, a um prego bem mais alto
do que o deste JP (aldm de contarem
- no chamado Primeiro Mundo -
com funds nao-reversiveis). t por
isso que o mesmo amigo garante a
possibilidade de o leitor suportar os
R$ 3 que se viesse a cobrar pelo Jor-
nal Pessoal.
Chegar a esse valor, entretanto,
significaria excluir mais leitores do
aceso ao journal. Seu prego ja o torna
uma publicaaio de elite (sem que a
elite assuma para valer, no piano
moral e dtico, o papel corresponden-
te is imposi96es da sua renda). E um
valor relativamente alto para o for-
mato grafico da publicagio, compa-


rada aos jornalies. Mas 6 um prego
insuficiente para compensar a dire-
triz editorial de nao incorporar As
suas contas a vital receita de publi-
cidade. Como resolver o impasse?
Atrav6s de um inico caminho: tra-
zendo mais leitores.
Um ponto de equilibrio seria al-
cangado com uma tiragem de cinco
mil exemplares. Essa meta parece
ut6pica, passadas duas ddcadas. Em
1975, a tiragem do Bandeira 3 foi
de dois mil exemplares, a mesma do
JP de hoje (com 20 a 30% de encalhe
e cortesias). Pode-se creditar parte
desse congelamento a deficiencias
empresariais da publicagao, mais do
que evidentes. Mas outra parcel diz
respeito ao p6blico.
Expandir o universe de leitores nao
6 uma tarefa que se impre apenas aos
jomalistas: 6 um desafio para toda a
sociedade. Ela necessita de mais pes-
soas realmente alfabetizadas e de ci-
dadaos plenos. Sem uma imprensa in-
dependente isso 6 impossivel. Sem
pessoas conscientes, continuaremos
expostos a uma meteorologia political
instavel: a trajet6ria de um nascente
sol democrAtico pode ser interrompi-
da de sibito por uma borrasca do mais
negro autoritarismo.


Nenhuma das alternatives con-
vencionais, como mecenato (su-
postamente iluminista) ou funds
p6blicos (sempre dirigidos para os
objetivos do concedente de verba),
sao saudAveis. A inica soluglo tem
que vir do p6blico. O mesmo ami-
go que conversou comigo sobre o
impasse do JP sugeriu a distribui-
9Ao do journal em escolas. Nesse
caso, os leitores com renda maior
comprariam vArios exemplares e os
fariam chegar a alunos da rede de
ensino, acertando com a diregpo ou
professors a entrega em sala de
aula. Eventualmente a leitura po-
deria ser complementada por um
debate com os estudantes. Assim,
tambdm nao se deixaria a 0 Libe-
ral o monop6lio da disseminagdo
entire os jovens de um jornalismo
de resultados, mercantil, oportu-
nista apenas, apesar da presenga
do professor Meirevaldo Paiva na
comissio de frente.
No JP, defender exclusivamente
do leitor nao 6 uma frase de efeito. t
a verdade absolute. A necessidade
de mais leitores chegou ao seu mo-
mento critic. Esse 6 um rito de pas-
sagem ao qual nao pode faltar os que
nos leem. A resposta virA deles. 0






6 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE MAIO /1998


Dois dos mais influentesjornalistas bra-
sileiros da atualidade, Arnaldo Jabor e Elio
Gaspari, foram apanhados em falta grave.
O primeiro foi denunciado. O segundo
apontou e corrigiu o erro de moto pr6-
prio. Tornados p6blicos os fatos, a vida
prosseguiu como se nada tivesse aconte-
cido. Nem penitmncia foi exigida. Ojorna-
lismo, vitimado nos dois cometimentos,
continuou a ser o que 6, o que 6 cada vez
mais distant do que deveria ser.
O pecado de Jabor foi mortal. Ele pe-
gou um artigo que havia escrito em 23 de
janeiro de 1996 e republicou-o, como se
fora novo, nas mesmas paginas da Folha
de S. Paulo, em 21 de abril deste ano,
mudando apenas um tergo do texto, que
continha 1.018 palavras.
Nao foram os editors de Jabor que
descobriram a fraude: foi uma professor
de hist6ria de Sao Paulo, leitora assidua
do jornalista e sua admiradora. Ela des-
confiou que o novo texto era o antigo re-
fundido porque utilizara em sala de aula o
artigo original. Ligou para o ombudsman
da Folha, Renata Lo Prete, que verificou
e atestou a reprodu9go alterada, um caso
in6dito na hist6ria do journal dos Frias.
Ningu6m esta proibido de citar-se, mes-
mo porque 6 o que mais faz agora o nosso
president. Mas todos estgo moral e etica-
mente obrigados a alertar o leitor para a
auto-citacao, se o pudor autorizar o uso
desse perigoso recurso (hA autores de li-
vros cuja bibliografia quase se reduz is
pr6prias obras).
Em nenhum moment Arnaldo Jabor
indicou que reutilizava seu pr6prio texto,
atualizando-o e adaptando-o. Esse erro re-
velaria que ele 6 daqueles profissionais
capazes de usar qualquer recurso para pre-
encher um espago em branco quando fal-
ta tempo ou criatividade. E uma tentaqco
para todos os profissionais da imprensa
diAria. S6 os jornalistas s6rios resisted a
essa tentagAo.
Mas este nAo 6 o aspect mais impor-
tante, ao contrario do que assinalou o om-
budsman, cor o vies estatistico dos bu-
rocratas e a pratica taxidermista dos aca-
demicos. O principal 6 que observagoes
incluidas no primeiro artigo como se ti-
vessem sido feitas durante uma caminha-
da pela 5a Avenida, em Nova York, passa-
ram a ter como sitio a Broadway, em ou-
tra circunstincia. E a conversa que o jor-


nalista afirmou haver travado com um
motorist de taxi em janeiro de 1996 foi
colocada na boca de um vendedor de ca-
chorro-quente no m6s passado. Esse erro
revela que Arnaldo Jabor 6 daqueles jor-
nalistas que, quando nao disp6e de fatos,
inventa-os. Todo cuidado 6 pouco corn
esse tipo de professional.
Nao 6 segredo. Arnaldo Jabor tudo tem
feito para ser o successor de Paulo Francis
- em histrionismo, em suposto cosmopo-
litismo, em cultural, em efeitos especiais,
em pretense aristocratismo e naquilo que,
fora do futebol, .nao tern valor algum: o
"chute", acrescido de aspas extra-campo.
Mas em tudo Jabor 6 uma reproduqAo de
mA qualidade do modelo, que nunca foi
exatamente original. Depois da identifica-
cAo dessa fraude, quem continuar ouvin-
do e lendo Jabor vai se tornar personagem
daquele samba que ter como refrAo "me
engana que eu gosto".
Elio Gaspari nAo 6 feito do mesmo bar-
ro, mas o erro que cometeu 6 simplesmente
inacreditAvel. Na quarta-feira da semana
passada, 6, dia no qual brinda leitores es-
palhados por todo o pais cor sua segun-
da coluna da semana (a primeira, maior, 6
publicada aos domingos), aqui reproduzi-
da em O Liberal, GAspari flagrou o presi-
dente Fernando Henrique Cardoso num
erro de citag~o. Mais at6 do que erro: frau-
dando Maquiavel.
Falando tr6s dias antes para destacados
integrantes do Interaction Council, reuni-
dos no Rio de Janeiro, o president disse a
seguinte frase:
No moment das reforms, o politico
deve ser muito cuidadoso, porque os que
melhor vAo se beneficiary com as reforms
ainda nIo sabem disso. E os que come-
9am a perder sabem de imediato. Isso 6
Maquiavel.
Nao, isso nIo 6 Maquiavel, contraditou
Gaspari. O verdadeiro Maquiavel, segun-
do o jornalista, disse foi o seguinte:
"As ofensas devem se fazer todas de
uma vez, a fun de que, tomando-se-lhes
menos o gosto, ofendam menos. E os be-
neficios precisam ser realizados pouco a
pouco, para serem mais bem saboreados".
GAspari acusou o president, a quem
trata pela sigla onomatopaica FFHH, de
fazer citagbes tortuosas e apropriagdes in-
d6bitas de pensamento alheio para legiti-
mar seus pr6prios atos e intimidar os ad-


Maquiaveis,


principles e


jornalistas


versrios: contrariar o ex-soci6logo, em
tal circunstfncia, "significa chafurdar na
ignorincia, por nao entender o que ele diz
e por n2o saber o que Maquiavel escre-
veu". Mas ao mimosear tAo ilustre plat6ia
com um falso Maquiavel, o president es-
taria dando razto ao Machado de Assis que
Gaspari foi buscar em reforgo de seu ata-
que, corn esta citagao do bruxo do Cosme
Velho:
"Talvez a ci8ncia economic e fmancei-
ra seja isto mesmo, o avesso do que di-
zem os discutidores de bonds. Quantas
verdades escondidas em frases trocadas!
(...) Grande consolaqAo 6 persuadir-se de
que os outros sao asnos".
Gaspari nem esperou pelo domingo: logo
no dia seguinte, quinta-feira, surpreendeu
seus leitores com uma retificacao bombbs-
tica, nmica nos anais da imprensa brasilei-
ra. Admitindo ter sido vitima de uma pes-
quisa "profissionalmente inepta", feita por
ele mesmo, s6 faltou sintetizar o que viria
a seguir cor uma frase: onde se 16 esta
errado, leia-se esta certo.
"O president nao s6 citou cor felici-
dade e correIAo, como dentro do contex-
to. Melhor: falando de improvise, repro-
duziu cor fidelidade a id6ia exposta pelo
fil6sofo", atestou o jornalista. A tal id6ia
nao estava contida na citacao de Maquia-
vel que GAspari apresentara, mas em ou-
tro trecho, por ele nao detectado, que se-
ria o seguinte:
"Deve-se lembrar que nada hA de mais
dificil para se fazer, mais perigoso para se
conduzir, do que liderar a construgAo de
uma nova ordem de coisas. Isso porque o
inovador tem como inimigos aqueles que
tiraram proveito das velhas condigces e
como defensores timidos aqueles que po-
dem tirar proveito da nova ordem. Essa
frieza deriva, em parte, do medo dos ad-
versbrios, que t6m a lei do seu lado, e em
parte da incredulidade dos homes, que
nao estao propensos a acreditar logo em
coisas novas, at6 que as tenham experi-
mentado por bom tempo".
Na retificacao, GAspari flagelou-se por
ter dado aos leitores "informag9es desqua-
lificadas" e por ter sido mal leitor de Ma-
quiavel, cometendo uma "asneira, sem
qualquer consolagao possivel, visto que
tinha todos os meios para preveni-la". Nao
content com esse martiriol6gico de cau-
sar inveja ao mais sofredor dos masoquis-
tas, GAspari proclama: o president, por
ser "ur governante que absorve as criti-
cas corn elegincia", nao merecia tamanho
desrespeito.
Hi duas maneiras, nio-excludentes, de
ver o epis6dio. Pode-se louvar a coragem
e a honestidade do jornalista: colocado di-
ante do seu flagrante equivoco (talvez por
um colega, talvez pelo pr6prio FFHH), nao
hesitou em fazer o mea culpa, batendo no
peito (nio tera sido no rosto?) ate com
exagerada viol&ncia. A contrigao foi um







JOURNAL PESSOAL 2? QUINZENA DE MAIO/ 1998 7


tanto medieval, mas deveria servir de mo-
delo para jornalistas afeigoados a desres-
peitar fatos, fontes e leitores.
Nao 6 o corretivo, entretanto, o que mais
impression: 6 a natureza da falha. Gaspa-
ri faz seus leitores suspeitarem de jamais
ter lido Maquiavel, ou ter ficado numa an-
tologia, ou ter pulado entire cita9ges, ou de
ser vitima de uma dessas apostilas que
fazem os estudantes tomar a parte pelo todo
e nunca encarar a totalidade.
Realmente, era tio ficil nao ter errado
que o desastrado impulso de um experience
e consagrado jornalista causa perplexida-
de. Nao sendo intimo do bardo florentino,
apesar da origem italiana, Gispari ousou dar
uma de especialista sendo tao-somente um
observador de orelha, coisa comum quan-
do o ultimo grito 6 produto da audacia de
quem ouviu apenas o galo cantar.
E um trago da nossa 6poca e, especifi-
camente, da nossa profissAo. Um sem-nui-


mero de obras de refernncia, o auxilio com-
putadorizado, a inteligencia agil do autor e
uma incultura generalizada na plat6ia favo-
recem esse tipo de embuste. No caso de
Maquiavel, mesmo no Brasil, nem ha moti-
vos para primarismo: no inicio da d6cada
de 30, com pouco mais de 20 anos, OctA-
vio de Faria escreveu um livro pequeno e
primoroso (Maquiavel e o Brasil), tragan-
do program para um principle (Getulio
Vargas) que o atual quer enterrar de vez,
detetando o Estado no 6ter privatizante.
Basta lembrar como exemplo desse ir-
racionalismo que um dos mais notaveis
int6rpretes do marxismo, Louis Althus-
ser, adotado em todos os curriculos uni-
versitirios de esquerda entire as d6cadas
de 60 e 70, admitiu em suas mem6rias
jamais ter lido Karl Marx. Interpretou in-
tdrpretes e sugou fontes secundarias,
uma praga que se espraia do mundo aca-
demico para a liga jornalistica cor a in-


clemencia de um virus tecnol6gico que
se alimenta do saber inconsolidado e da
cultural postiqa.
No seu discurso, pronunciado como se
fora uma aula magna, o president nao fez
propriamente uma citacAo de Maquiavel.
Atribuiu aos seus atos o valor pedag6gico
que Maquiavel exigia do politico enquanto
reformador social. Mas se o principle vira
tirano, a responsabilidade nao 6 do pre-
ceptor. Este teve o cuidado de tamb6m
alertar os cidadaos sobre a tirania e a li-
vrar-se dos tiranos. Ao inv6s de Maquia-
vel, aliAs, o president estaria em melhor
companhia, na organiza9io da sua repu-
blica, se fosse busca-la em S6crates.
Quanto a Elio Gispari, se ele pretendeu
credenciar-se ainda mais na estima do prin-
cipe, nao poderia ter engendrado estrata-
gema mais sagaz. Foi tremendamente ma-
quiav6lico, para usar a nogqo de maquia-
velismo que esti ao alcance dele. *


O prefeito do PT, o que 6 ?


Infelizmente a carta do economis-
ta Marco Antonio Baeta de Moura
extraviou-se. So agora, com grande
atraso, publico-a. Ei-la, talcomofoi
escrita:
Li no JP n 179 a matdria de pri-
meira pAgina "A maldicao do sal" cujo
teor gtrata da relag~o do nosso Pre-
feito cor seus comandados e o que
se estA fazendo a nivel estratdgico
para se ter uma administragao que
coloque nossa cidade preparada para
um future que gere emprego e renda,
e no que concede ao turismo inteli-
gente. t eviddente que voce saiu em
defesa dos m6dicos do Pronto So-
corro e contra o Prefeito, reclaman-
do-lhe uma postura mais urbana
quando a eles se referisse. Existem
moments de urbanidade e outros em
que se deve agir energicamente, mas
poderia-se achar expresses menos
rotundas, o que nao desvirtuaria a
classificag o original, pois faltar a
planties, faltar com o dever que se
reconhece em salvar vidas evidencia-
se em ato que poderia dizer "crimi-
noso". Existiria uma just denomi-
nacao para uma falta desse tipo?
Passou-se um ano e no seu en-
tender pouca coisa foi feita pela Ad-
ministralao Municipal, situa9ao na-
tural pelos 51 milhaes de reais de
dividas e dos n6s e bombas de efeito
retardado, como admits no teu jor-
nal. Ressalte-se que um ano 6 muito
pouco tempo para se fazer obras de
grande envergadura, mas um gover-
no que pode trazer resultados para
sua populagao nao 6 apenas aquele
que faz obras, tambbm 6 o que am-
plia a participagao popular, 6 o que
toma a iniciativa em projetos nao
conservadores, como por exemplo:
Orgamento Participativo;
Banco do Povo;
Bolsa Escola;
etc;


V8-se que o poder estatal muni-
cipal ficou mais pr6ximo das pes-
soas, mais aberto A participag~o po-
pular, mais auscultador da socie-
dade, e isso faz evoluir liderancas
e a comunidade fica mais conscien-
te de seus deveres e direitos. Te-
nho certeza de que essa postura
render bons frutos a nossa cida-
de. Me pareceu que voc& nao acis-
ta nenhuma oportunidade de ver-
mos nossa cidade mudar. Muito
pelo contrArio, a ansiedade de so-
lu~5es (contraditoriamente "A ma-
neira hollywoodiana" proposta no
trecjho "tinha 6 que resolver o pro-
blema") causou-me um desagrado
que pareceu torcida do contra.
O nosso municipio precisa de
lideres honestos, pois os grandes
estadistas da nossa terra nao fize-
ram-na merecer os loiros das suas
renomadas inteligencias estrat6gi-
cas, pelo menos para a grande mai-
oria da populagao. Beldm encon-
tra-se numa posiqAo delicada, to-
talmente importadora de seus bens
consumiveis e necessita de meca-
nismos fomentadores (dinheiro) e
capacidade gerencial para mover
political que gerem renda e empre-
go. As perspectives de long pra-
zo deverao basear-se em estudos
qualitativos das nossas potenciali-
dades e devem ser realizadas a fim
de se incentivar nao s6 o turismo,
mas outras fontes de recursos na-
turais implementadoras do nosso
desenvolvimento.
Como cidadao comum, acredito
que o nosso Prefeito vislumbre
nossa cidade num process de cres-
cimento corn obras que sejam es-
trat6gicas tanto do ponto de vista
do saneamento, como no do indus-
trial, e no do turismo. Tenho espe-
ranga neste horizonte que se agi-
ganta.


Minha resposta
Nao torgo para que o prefeito
Edmilson Rodriguesfracasse. Por
muitas razaes civicas, dticas ou
pessoais esperava justamente o
contrdrio. Afinal, ele se elegeu con-
tra o desejo de Hdlio Gueiros, seu
antecessor E poderiafechar o vai-
e-vem da porta municipal as ve-
lhas lideranqas political do Para,
impedindo o retorno desse entulho
de anacronismo que socobrou do
geral baratista. Mastanto isso ndo
estd acontecendo que Gueiros jd
se alvoroqa no rumo do erdrio be-
lenense, certo de que no ano 2000
poderd retomar a chave do cofre,
gastissima por tanto uso.
Ningudm de bom senso espe-
raria resultados hollywoodianos
de quem veio apds a Familia Guei-
ros Ltda. Edmilson ndo se trans-
forma em capitao marvel cor o
raio do shazam, embora parera
convencido de tal poder. Mas um
ano e o bastante para imprimir
uma marca administrative, higie-
nizar os mecanismos de aqro e,
quando nada, fazer pequenas e
boas obras fertilizadoras. 0 lei-
tor s6 consegue se lembrar das
peas moldadas na linha de mon-
tagem petista. A trade orfamento
participativo-banco do povo-bol-
sa-escola, segue-se um "etc. bem
sugestivo.
Em essincia, excluindo as sau-
ddiveis excev6es, o governor de Ed-
milson tem sido uma administraFio
de etcitereas. Hd muita espuma
para pouca dgua. Como sua con-
trafafdo, o governador Helio Guei-
ros, elejd se comunica mais atra-
vs da propaganda do quepormeio
de um didlogo corajoso e produti-
vo, sem o qual sua boa-fe deixard
de ser presumida. Quer avaliaF6es
conduzidas, mesmo que compradas


cor as 30 moedas religiosamente
pagas ao grupo Liberal. Os criti-
cos jd sdo mantidos a distancia,
como personas non gratas, &s quais
ate o cumprimento e negado. A in-
formagao jjd d sonegada. Transpa-
rincia d apenasfigura de retorica
para quem s6 parece ter aprendido
a ser baladeira.
Nao sai em defesa dos mddi-
cos, mesmo porque o crime que
Ihesfoi imputado nao foiprovado
pelo acusador. Crime se caracte-
riza e se tipifica. Ndo d cor inci-
vilidade e md-educaado. Ndo se
mede energia em decibdis, nem
seriedade corn cara feia. Sefosse
assim, os Gueiros, prolificos nos
dois itens, seriam donos atdvicos
da verdade.
Acostumado dspasseatas epa-
lanques, Edmilson parece que li-
mitou-se a esse agitprop ao tucu-
pi. Sem eles (passeata epalanque),
parecepeixefora da dgua. Embo-
ra, como o alcaide que o antece-
deu, tambem se diga intimo dos
textos biblicos, nao hd de querer
exigir de seus municipes a f da-
queles que, ndo vendo, ainda as-
sim acreditam. Receando contra-
rid-lo, devo dizer-lhe que ele ndo
e um deus para dispor de tanta
fd. Precisa dizer para que veio,
sem elevar a voz, sem esticar o
brago, sem apontar o dedo, sem
ordens tonitruantes, proclamadas
como se fora um Jeovd sibilante
- e nao s6 criando processes su-
postamente democrdticos, mas
produtos concretes, saindo dos
meios para os fins, do discurso
para a realidade. E, por Deus do
cdu, descendo de uma vezpor to-
das do palanque. Nao sendo da
torcida do contra, muitopelo con-
trario, espero, com muitafd, que
o milagre venha. 4








Interesse public
No nimero 185 estranhou-se que o 60 termo aditivo ao
contrato entire a Seduc e a Vale Refeicao tivesse sido
tornado sem efeito um mes depois da sua assinatura. Em
correspondencia ao journal, acompanhada da documentaiao
comprobat6ria, a secretaria em exercicio da Secretaria de
Educacao, Rosineli Guerreiro Salame, explica que, ao fim
de cada exercicio financeiro, "todos os Convenios e
Contratos que ultrapassem esse exercicio sao,
obrigatoriamente, aditados com o objetivo de alteraaio da
fonte de recursos. Este fato se deu com, aproximadamente,
40 documents e, por um lapso, o Contrato da Vale
Refei~io tamb6m foi aditado para tal fim".
Detectada a falha, o extrato imediatamente foi tornado
sem efeito. Antes mesmo dessa providencia, entretanto, ja
havia sido homologada a tomada de preqos para a
contratagao da nova firma fornecedora de tiquete-
alimentagao, que 6 a Amazon Cards.
Acreditando ter esclarecido devidamente "a falha
detectada por V. Sa.", a secretaria em exercicio agradece
"a atengio e a oportunidade que nos for dada para aclarar
a natureza dos nossos atos, lembrando que o lapso nao
ocasionou qualquer esp6cie de transtorno functional e nem,
tampouco, prejuizos ao erario pfblico" (na verdade, erario).
A atencgo de Rosineli Salame, que mais uma vez
presta as devidas informa96es, dd-nos a sensadao de
estar lidando com uma administraqao piiblica s6ria e
democratic. Renova o empenho desta se9go. Apesar do


desinteresse dos leitores e do
ditos servidores piiblicos.


Escravizagao
ainda

Ao comemorar, no mes
passado, os 150 anos da abo-
ligio da escravatura nas co-
18nias francesas de ultramar
(que se antecipou em 40
anos a nossa "libertaqgo"
assinada pela princess Isa-
bel), o Le Monde dedicou
suas pdginas aos remanes-
centes do trabalho escravo.
O Brasil foi escolhido como
o modelo dessa forma de ex-
ploracio do home expurga-
da do horizonte civilizado. O
alvo principal do influence
journal europeu sao os pedes
da Amaz6nia, submetidos,
atrav6s dos gatos, a uma su-
cessao de agents produti-
vos.
Nao hi nada, na mat6ria
do Le Monde, que a maioria
dos jornais brasileiros ji nio
tenha publicado. Nao falta
informagqo: o que falta as
pessoas 6 a capacidade de
se indignar e a indignaao


descaso da maioria dos


desencadear as providnci-
as definitivas de corregao. O
journal parisiense constatou
que quatro em cada cinco
processes abertos para apu-
rar trabalho escravo sao ar-
quivados ou se perdem nos
desvaosjudiciais.
Tamb6m isso sabemos.
Mas 6 constrangedor ver a
situacgo a partir de fora: isso
nos da a exata percepdao do
nosso atraso e da impotdn-
cia dos homes de bern para
modificar estruturas injustas
que perduram ao long do
tempo. Alem de terms abo-
lido muito tarde a escravidao,
nio a expurgamos por intei-
ro. E nada indica que o fare-
mos tao cedo.


Principescamente

O deputado federal Rai-
mundo Santos, do PFL. seri
"castigado" por Brasilia
porque votou con-
tra o projeto official
da reform da pre-
videncia social.
Isso nao surpreen- Tc
de. O que espanta as p
e o parlamentar ter mas
merecido premios adeu
ao long de mais de ha d
tr8s anos de man- porti
dato do president ~io,
Fernando Henrique ta, c
Cardoso. Entre m6ri
eles, o de transfor- pess
mar a Fundacao das r
National de Saide, quai,
so9obrada da estru- gum
tura administrative mo s
anterior, em casa hertz
da mae Joana, mas fala
tao Joana que co- tulo
meteu o absurdo da nal P
propaganda na lista para
telef6nica, denun- encia
ciado no numero que
passado deste jor- Cass
nal (alguem tomara Edyr
alguma provid8ncia co. NI
a respeito). H(
Ah, o principle: tiplic
quando acerta, ji 6 pai.
tarde. vivio
mais
Premonig o vida
de ca
O dono da sigla xoes
JB devia jogar nao ma d
no bicho, mas numa em t
dessas loterias mi- sua
lionirias. Ficaria bom.
corn o grande pre- Ed
mio. Como outros
bicheiros, acertou
na mosca anteci-
pando-se aos parlamentares
que estao liberando o jogo
e instalando-se escancara-
damente, apesar de sua ati-
vidade ainda ser contraven-
Nco penal.


Isto 6 o que se pode cha-
mar, com toda propriedade,
de formagio de mentalida-
de, Q esito e \\eberianisio
aqucarado.



Ldeus, Edyr
)das as cores ideol6gicas, todas
)sic6es political, todas as for-
de expressao se reuniram no
s a Edyr Proenga, que morreu
tas semanas. Ele foi locutor es-
vo, empresario da comunica-
compositor, violonista, cronis-
antor, torcedor fanatico, a me-
a viva do radio paraense e uma
oa que enriqueceu cada uma
nilhares de outras pessoas as
Sfoi dado o privil6gio de ter al-
tipo de contato corn ele, mes-
se apenas atrav6s das ondas
eanas da PRC-5, "a voz que
e canta para a planicie" (subti-
que dei ao meu primeiro Jor-
'essoal, mandado de Sao Paulo
Bel6m, reconhecendo a influ-
da "Aldeia do Radio"). Dizem
Sc6lebre homem cordial" de
iano Ricardo nao existe, mas
ProenCa foi esse ser mitol6gi-
ao na literature: na vida real.
erdeiro de Edgar ProenCa, mul-
ou o patrim6nio deixado pelo
Ao despedir-se do nosso con-
,deixou com sua familiar o ben
valioso que construiu numa
alegre e prolifica: a dignidade
irater, irrepreensivel entire pai-
e bonomias, que fez dele, aci-
.e tudo e congregando a todos
rno do seu nome (e, agora, de
nem6ria), um grande home

lyr nao foi-se. Foi para outra.




Record
0 prego de compra da
Celpa ningu6m pode dizer,
agora, qual sera. Mas inde-
pendentemente de como foi
o leilao da nossa empresa de
energia, o governor Almir Ga-
briel ja assinalou um marco
no process de privatizagao:
foi o que mais adiou a ven-
da, sem precisar enfrentar
oposigao judicial e resistdn-
cia a porta da Bolsa de Va-
lores do Rio de Janeiro. Tu-
canear e o verbo.


Journal Pessoal
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