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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00135

Full Text







ornal Pessoal a"eosro
L U C IO F L A V IO P I N T O Jogo liVre
ANO XI N 186 1 QUINZENA DE MAIO DE 1998 R$2,00 pela TV

ELEIgAO


Quem o n1?


Teria mesmo o senadorJa
pelas pesquisas, favorvel c,
eleitorado para o governor
trucagens, alimentam
adv

o intervalo de 15 dias, dois
resultados aparentemente
incongruentes foram pro-
duzidos pelo Ibope. No
primeiro, sob encomenda
do grupo Liberal, o gover-
nador Almir Gabriel passou
pela primeira vez A frente do senador Jader
Barbalho nas escolhas dos entrevistados so-
bre o pr6ximo governador do Estado, com 35
a 34%, um empate tdcnico (porque o institu-
to admite margem de erro de 3% na sua pes-
quisa). No segundo, Jader obteve 45% das
preferencias, contra 31% de Almir (e 17% de
Ademir Andrade).
O mais desnorteador na pesquisa encomen-
dada a pedido do PMDB, via Confederaqao
Nacional da Indfstria, 6 a mudanca brusca e
radical da tendencia que vinha se manifestan-
do nas sondagens eleitorais do pr6prio Ibo-
pe, A candidatura do governador estava cres-
cendo, aceleradamente a principio (graqas ao
"fenbmeno" Hdlio Gueiros Jr., o Helinho),
moderadamente agora. A prefer6ncia por Ja-
der estava declinando, mas lentamente, esta-
bilizando-se nas duas ultimas avaliaq6es em
torno de sua fatia cativa do eleitorado paraen-
se ha varios anos (um terqo dos votos vali-
dos).
Os resultados das pesquisas solicitadas
pelo esquema de apoio a Almir indicavam que
a candidatura dele estava se viabilizando, mas
s6 sairia de uma faixa de risco elevado se con-
tasse com o apoio de Jader. Tendo que enfren-
tA-lo, a reeleiqAo era uma hip6tese incerta e
nao sabida (como, em sentido contrario, a pos-
sibilidade de vit6ria do lider do PMDB no se-
nado). A iltima pesquisa que o Ibope reali-
zou, entretanto, mudou completamente o qua-
dro pr6-eleitoral.
Se confirmada a grande diferenca aberta
pelo senador, a inc6gnita mais important pas-
saria a ser outra: entrando para valer na cam-
panha eleitoral (o que nao fez atd agora, ao


der Barbalho invertido uma tendencia eleitoral apurada
1o governador Almir Gabriel, e assumido a preferencia do
do Estado? As pesquisas, divulgadas com truncamentos e
as dutvidas. Mas, ao menos por enquanto, 'o principal
?rsdrio do governador e ele mesmo.


pao -~


contririo do governador), Jader poderia ven-
cer j no primeiro turno? Atd a intrigante pes-
quisa, essa pergunta ji estava descartada.
Talvez sem Jader na parada, o governador
pudesse conquistar sua sonhada reeleiqao no
primeiro turno. Contra ele, tinha a oportunida-
de de derrotu-lo no segundo turno, numa dis-
puta onde tudo seria possivel.
No intervalo das duas semanas entire as
pesquisas solicitadas pelos dois lados, ne-
nhum fato ocorreu que pudesse ter causado
alteraqo tao substantial. Antes, sim, a de-
sastrada estratdgia montada por Hdlio Guei-
ros atris do filho rendera dividends inespe-
rados e positives para o governador, tirando a
enorme vantage com a qual Jader aparecera
na primeira pesquisa prd-eleitoral do Ibope.
Aparentemente, os votos de Hdlio haviam flu-
ido para Almir. Agora, com as evidencias pii-
blicas de uma recomposiqao entire os dois an-
tigos aliados, esses votos teriam retornado ao
ninho original?
Trata-se apenas de especulaqao, que pes-


< --
quisas n~o divulgadas regularmente geram. S6
uma nesga de resultados 6 filtrada para o pu-
blico, mantido no absolute desconhecimento
da base metodol6gica e do universe de alcan-
ce. A sondagem favoravel a Almir alcangou
1.200 entrevistados, enquanto a que colocou
Jader na lideranqa disparada entrevistou 800
pessoas. Como ambas visaram todo o Estado,
por que a diferenga na amostragem?
Pode nao haver mistdrio algum na respos-
ta, mas a aparente incongrudncia nos resulta-
dos apurados entire duas semanas mostra que
ja esta na hora de uma regulamentaio mais
clara e categ6rica sobre a realizagao e a divul-
gaao de pesquisas political. Essa normatiza-
cao precisa abranger tanto as sondagens di-
retamente eleitorais quanto as disfarcadas por
temas administrativos, mas corn a nitida inten-
cao de produzir votos como dividends.
0 Liberal, por exemplo, nao tem divulgado
os resultados das pesquisas eleitorais que
contrata, limitando-se a apresentar as pesqui-
sas ditas administrativas. Os Maiorana s6 es-


3 DONO DO LIBERAL INELEGIVEL (Pag:2)
<, 78








2 JOURNAL PESSOAL I 1' QUINZENA DE MAIO / 1998


tariam dispostos a abandonar essa attitude
quando ficasse bem caracterizado que Jader
Barbalho d suplantado por Almir Gabriel, oque
ainda nio aconteceu. Ja o lider peemedebista
utiliza-se do biombo da CNI, dirigida por seu
correligionirio da Paraiba, para ter sua pr6pria
afericao da situaqio, na amplitude que lhe per-
mite o Ibope, sem o risco de repassar para ter-
ceiros as informaqces.
Essa estrategia levou a um paradoxo na
semana passada: o Didrio do Pard, journal do
senador, mesmo cor os dados nas mAos, no-
ticiando a revelaqao do principal resultado da
pesquisa pela Folha de S. Paulo. Deveria ha-
ver um dispositivo legal obrigando os realiza-
dores de pesquisas a deposita-las no Minis-
terio Piblico para consult, tenham sido re-
gistradas ou nao, divulgadas ou nao. E a ma-
neira de reduzir a ampla margem de manobra
que permit aos utilizadores de marketing ma-
nipular a opiniao pfiblica.
Foi a propaganda que fez Almir Gabriel es-
tar na dispute para valer. As obras que come-
cou a realizar neste seu final de mandate s6
tem repercussao popular porque s5o propa-
gadas A exaustao atraves de uma midia aluga-
da para esse fim. Sem isso, a falta de carisma
teria sido fatal para as pretens6es political do
governador. Seu indice de aprovagao em de-
terminado municipio, inflado por esse esque-
ma publicitArio, costuma declinar quando ele


aparece no local, principalmente em situaq6es
conflituosas.
Essa inseguranga (que alguns politicos ji
chamam abertamente de frouxidao) ter dois
exemplos recentes. 0 governador cancelou sua
viagem a Marabm em funiao da morte de dois
lideres do Movimento dos Trabalhadores Ru-
rais Sem-Terra, embora o fato tenha ocorrido
em outro municipio e sua repercussao em Ma-
raba fosse atenuada. Tamb6m deixou de visitar
Marapanim porque o prefeito foi baleado horas
antes da sua esperada chegada ao municipio.
Almir Gabriel poderia estar afirmativamen-
te em campanha, contando com os aliados ja
declarados, sem a desgastante espera por Ja-
der Barbalho, se seu maior adversario nao fos-
se ele mesmo. A qualquer custo, o governa-
dor quer evitar esse confront. Recorre a to-
dos os meios para conseguir seu objetivo, ate
mesmo deslocando uma figure menor do PSDB
para vir a Beldm como se fosse emissario do
president da Repfblica em busca de uma
ampla composiqAo de forgas political. Mas o
principal alvo ficou ao largo: Jader nem rece-
beu Arthur Virgilio Neto.
Em Brasilia ja se sabe que Fernando Henri-
que Cardoso nAo consider prioritAria a dispu-
ta no Para. Seu indice de aprovacao no Estado
esti num patamar folgado, que lhe garante vi-
t6ria contra qualquer adversArio se a situaq~ o
national nao mudar. Qualquer que seja seu ali-


ado ou opositor no Estado, FHC levard seus
votos em um coldgio eleitoral residual no pais.
Por isso, o president preferiu desgastar-
se ao abrigar o ex-collorido Renan Calheiros
no ministdrio da Justiga, ajudando Teotonio
Vilela Filho a eleger-se govemador de Alago-
as, do que se empenhar por uma soluao liar-
monizadora entire Jader e Almir. Como o go-
vernador assumiu publicamente que indicara
o senador do PMDB para o ministdrio, o nao
atendimento do seu pedido gerou-lhe mais
desprestigio do que desgaste para Jader, que
nunca admitiu suas pretens6es ministeriais.
A acomodaqao entire os dois, se vier, terA
que ser um produto de geraqao puramente lo-
cal, caso Jader desista de seu projeto politico
national. Se tivesse que fazer sua pr6pria von-
tade, ele iria se empenhar agora em preencher
o vacuo criado pelas mortes de S6rgio Motta
e Luis Eduardo Magalhaes. Mas para ter al-
gum sucesso na empreitada, teria que se des-
ligar da political local.
Como a caminhada national 6 temerAria.
apostar nela poderia significar para Jader repe-
tir o erro que ele diz que Jarbas Passarinho co-
meteu quando, em condicqes ainda mais favo-
rAveis (e com resultados pessoais muito mais
positives), tentou ser uma das liderangas mixi-
mas do regime military. N6s, do Pard, estamos
condenado a ficar corn os politicos que temos
- o que, alias, nao 6 1A grande coisa. *


Cochilo em 0 Liberal toma Rominho Maiorana inelegivel


Se sentiram a falta, os leitores
de Troppo, o caderno dominical
de O Liberal, devem ter percebi-
do que ficaram sem quatro pagi-
nas da ediqCo do dia 19. E que os
editors esqueceram de tirar do
expediente da revista o nome do
vice-presidente da empresa, Ro-
mulo Maiorana Junior, subtraido
do expediente geral dojornal des-
de o dia 3, como determine a le-
gislaCio para os que querem es-
tar plenamente elegiveis em outu-
bro. O erro podera custar a candi-
datura de Rominho ao senado.
Quando a falha foi verificada,
a Troppo ja estava impressa. O
jeito foi arrancar a folha dupla na
qual d publicado o expediente, cor-
respondente as paginas 3 e 4 e 29
e 30, mesmo desrespeitando os
direitos do leitor enquanto con-
sumidor (que nem alertado foi
para a falha, ainda que ela tivesse
outra explicaqAo). No iltimo do-
mingo, 26, o expediente da publi-
ca~io jA nao trazia mais o nome
de Romulo Jr.
Mas se o prop6sito foi o de li-
vrar o cap do grupo Liberal do ris-
co de ter sua eventual candidatura
impugnada, o objetivo nao foi al-
cancado. E que as ediq6es de 5 e
12 de abril da revista registraram o


nome de Romulo Maiorana Jr. no
expediente como vice-presidente
da empresa. Se a imposiao da des-
vinculaQCo valeu para o desliga-
mento formal do dia 3 e para a reti-
rada das pAginas no dia 19, numa
operacAo de emergencia, entAo
Romulo Jr. torou-se inelegivel, a
nao ser como costumam dizer os
advogados em seus pareceres -
que haja melhorjuizo em contrArio.
Cabe, entao, provoca-lo. Quem to-
mara a iniciativa?
Por enquanto, as que aparece-
ram registradas nos veiculos da
casa foram apenas loas unisso-
nos. Com o estardalhaqo possi-
vel, 0 Liberal registrou na sema-
na passada o lanQamento da can-
didatura de Rominho ao gover-
no ou ao senado, as duas hip6te-
ses admitidas por seu porta-voz
informal, o vereador Gervasio
Morgado. Embora o PL (que abri-
ga a ambos) seja um partido inex-
pressivo na composiqao do po-
der local, a iniciativa de Gervasio
foi imediatamente apoiada por ou-
tros vereadores, os tucanos a fren-
te de todos.
Caso o governador Almir Ga-
briel venha a levar a sdrio esses
floreios de cortesaos, como ficara
a composiQio da sua coligaio elei-


toral? Certamente, a indicaao de
Rominho para o governor 6 ape-
nas figure de ret6rica. Num encon-
tro social, na semana passada, o
executive admitiu para um grupo
de amigos que pretend mesmo 6
ser senador. Ele parece convenci-
do de que seus veiculos de comu-
nica~io, responsaveis pela eleiq~o
do seu ex-amigo Vic Pires Franco
como deputado federal, tambem
poderao carrega-lo atd o senado.
Esquece que Vic era locutor pro-
fissional, com empatia na tela, e
muito mais afeito as atividades po-
liticas. Sao pesos diferentes.
Independentemente disso, po-
rdm, jA ha dois compromissos as-
sumidos de pfublico pelo gover-
nador para o preenchimento da
6nica vaga de senador que sera
disputada neste ano. Ela seria do
ex-senador Jarbas Passarinho se
ele assumir formalmente que 6
essa a sua pretensao para a dis-
puta de outubro. Mas o governa-
dor tambem ofereceu a vaga ao
senador Jader Barbalho, que fica-
ria ainda com a vice-governado-
ria, caso aceitasse engrossar as
fileiras da "Uniao pelo Pard" com
oPMDB.
i claro que o aparente impasse
poderd deixar de existir se Jarbas


Passarinho for o candidate ao se-
nado. E pouco provAvel que Ja-
der decide vetA-lo, apesar de vAri-
as sugestdes que tem recebido
nesse sentido ante a hip6tese do
acordo. Mas e quase impossivel
que o lider peemedebista concor-
de cor a destinagao dessa vaga
ao representante do principal
concorrente no mercado de comu-
nicaqes (aldm de concorrente, ad-
versirio pessoal e inimigo nao de-
clarado).
Mais do que apresentar-se para
valer como candidate a um cargo
eleitoral, em relacio ao qual tem
sido tao idiossincratico, a inten-
cao de Romulo Jr. nao serAjusta-
mente a de contribuir para invia-
bilizar um acordo entire Almir e
Jader, forqando o primeiro a se
definir e desestimulando a aproxi-
magio do segundo?
Essa 6 uma interpretacgo bem
plausivel. Mas como a political no
Para se tornou um monop6lio de
families, as geradas pelo sangue
e as formadas pela afinidade de
interesses (ou as duas coisas com-
binadas, as families naturais e as
famiglias organizadas, como as
mafias), entao tudo 6 possivel, atd
mesmo Romulo Maiorana Jr. estar
falando a sdrio. 0







JOURNAL PESSOAL I 1 QUINZENA DE MAIO / 1998 3



Serjao e Dudu: viver e morrer


Acho que foi em 1979 que conheci Sdrgio
Motta. Estava na redag~o de Movimento, em
Sao Paulo, e li testemunhei uma reuniao de
pauta do journal. Um dos editors apresen-
tou-o, quando estranhei a desenvoltura da
figure desconhecida, perguntando quem era:
"6 o nosso home das finangas", disse, corn
uma ponta de ironia.
Movimento era uma reediao, mais aberta
(e piorada, acho), agora com o PC do B, da
sigilosa ligagao a AP que, involuntariamen-
te, tivera o grande semanario Opinido, am-
bos criaqao de Raimundo Rodrigues Pereira,
um dos maiores jornalistas do pais ate virar
profeta.
No ano anterior Serjao tivera sua primeira
experidncia no assunto: fora o home das
finangas da campanha do professor Fernan-
do Henrique Cardoso ao senado. Era um des-
bravador do mundo dos neg6cios com cabe-
Ca de esquerda, qualidade rara na dita cuja,
requerendo romantismo, mas exigindo tam-
bWm pragmatismo.
Em 1981, quando comecei a cobrir o pro-
jeto para a extragAo de madeira da area que
o lago da hidrel6trica de Tucurui inunda-
ria, voltei a ouvir falar dele. JA era entgo o
home da Hidrobrasileira, a empresa de
consultoria que viria a colocar chifre em


Quem fica mais tempo ligado na TV Libe-
ral deve ter assistido centenas de vezes a
propaganda da promoqo "Ligue ou pague",
mais um desses jogos mal disfarcados de
loteria que se utilizam do poder da midia. No
caso, o promoter 6 o mais poderoso veiculo
de comunicaqao do Estado, da familiar Mai-
orana. Nada menos que 500 mil bilhetes fo-
ram espalhados no mercado. Representam,
leoricamente, quase 20 milh6es de reais. Se
apenas 10% deles retornem ao caixa de seus
realizadores, permitirao faturamento de R$ 2
milh6es. Um autentico mana.
Quem ligar para uma das derivacqes des-
sa praga em disseminaqgo, o telefone 900,
ou pagar a cartela em ag6ncias do correio
ou credenciadas, podera concorrer aos pr6-
mios oferecidos: um apartamento e dois car-
ros. A propaganda anuncia que os sorteios,
em duas etapas, ocorrerao no pr6ximo dia
10, em intervalos do program Sai de Baixo,
da TV Globo, retransmitido pela Liberal.
Em letras bem pequenas, no verso da car-
tela, esta dito que o sorteio "tem como base a
extragAo da Loteria Federal mais pr6xima".
Deduz-se que 6 a extracgo imediatamente
anterior ao program do dia 10. Mas qual sera
a base? Como serA a composicAo do sorteio
pela televisao cor a extraao da loteria?
As respostas podem ser dadas cor facili-
dade, mas por quem? Legalmente, o respon-
sAvel pela promoqgo d indicado na cartela


cabeqa de cavalo ("cubou" 12 milh6es de
metros cfbicos de madeira comercializavel
na area).
O tempo passou, a Lusitana rodou, e S6r-
gio Motta tornou-se superministro graqas as
suas ligaq6es com o principle. Aliava prag-
matismo, desenvolvido em anos de proximi-
dade cor o poder, a umaja vaga ret6rica de
esquerda. Teria que ser pessoa indispensa-
vel para o soci6logo-presidente, que conti-
nua afiado na ret6rica, mas nunca foi exata-
mente um executive. Ningu6m, nos bastido-
res, fez tanto pelo president quanto Serjao.
Deixou um v~cuo maior do que o da outra
baixa, o deputado federal Luis Eduardo Ma-
galhaes, essencial como contrapeso ao po-
der gravitacional e magn6tico do pantagru6-
lico pai.
Mas nao vou entrar nesses subterrane-
os e bastidores, que, por acompanhar a dis-
tincia, nao sao minha especialidade. Que-
ria falar sobre uma conjunqgo de fatores
que, psicologia a mao, se poderia denomi-
nar de eros e tanatos. Serjao e Dudu ti-
nham um invejAvel appetite pela vida, tao
desenfreado (por motives distintos em cada
um deles) que os colocava A beira da mor-
te. Enfrentavam-na com uma naturalidade
- quase se diria sensual.


apenas pelas suas iniciais: SRMR. Trata-se,
na verdade, do Sistema Romulo Maiorana de
Radiodifusao, empresa organizada em Mara-
ba (provavelmente em nome apenas dos ir-
maos Romulo Jr. e Ronaldo) para ter direito a
concessao de radiodifusto local. Estara a
empresa em atividade? EstarA plenamente le-
galizada para assumir a tarefa?
Estas sao perguntas ainda mais relevan-
tes. 0 jogo foi legalizado pela parceria do
SRMR com o Centro Social Vicente Maria, o
que garantiria a bemerencia da promocqo e
a coniv6ncia das autoridades cor a expan-
sao do jogo no Brasil atrav6s de um veiculo
complex, a televisao (assistida por todos,
inclusive jovens e criancas, independente-
mente do seu discernimento sobre a ques-
tao). Mas o Centro estaria em condiqoes de
fiscalizar, como a lei lhe assegura, participa-
cqo integral no lucro, expurgando do orCa-
mento despesas superfaturadas, sup6rflu-
as ou fantasmas, sobretudo na divulgaq~o
da promoqAo atrav6s da midia? E bom nao
esquecer que os realizadores do jogo fatu-
ram, no caso, como administradores do sor-
teio e como seus divulgadores, ganhando
em todas as pontas.
NAo caberia aos canais competentes fis-
calizar a promoqao com mais atencqo para
evitar fraudes maiores do que essa que ja
praticada atraves do telefone 900 e do con-
trole da midia? *


Os que estiveram pr6ximos ao falecido
ministry das Comunicaqces durante sua pas-
sagem por Bel6m, a prop6sito do Cirio de Na-
zard, admiravam-se de ver um home tao mul-
tiplamente doente se exceder no manejo do
garfo e do copo. Mesmo quem de saude ter
o conhecimento dos suplementos de fim-de-
semana passaria ao largo das extravagancias
do ministry A mesa.
"Esse home esta se matando", comen-
tou um dos acompanhantes. Talvez. Mas
nesse desafio ao risco 6bvio estA uma dimen-
sao de grandeza muito mais elogiAvel no en-
tao ministry do que sua grosseria vocabulary
tao decantada (6 tempos: antes seria simples
falta de educapao).
Tamb6m se dizia de Luis Eduardo Maga-
lhaes que buscava a morte fumando, beben-
do e comendo tanto, em tao prolongados pro-
gramas sem fronteiras e limits. A vontade
de viver, As vezes, existe em tao intimo conta-
to com a imindncia da morte que para perso-
nalidades fortes e absorventes como os dois
a opqgo conventional seria viver ou morrer.
Optaram por viver e morrer e nisso foram
realmente grandes, de uma grandeza que fal-
ta aos incensadores que choraram sobre os
tumulos dos dois com textos de arabescos
faceis ou posturas de almanaque. *



Reencontro
Ningumr deu, mas, durante a
convenago do PFL, em Brasilia, tr8s
meses atris, o senador Jader
Barbalho e o ex-prefeito H61io
Gueiros trocaram entire si as
primeiras palavras desde que
substituiram as cordiais relates de
amigos pelas de inimigos, ji 1~ se vio
pelo menos oito anos. Foi apenas um
cumprimento formal, embora
amistoso, trocado pelos dois
personagens. Eles se viram
inesperadamente um diante do outro
no "corredor do tempo", que liga o
Senado A CUmara Federal.
Como a guerra aberta do passado
foi substituida pela possibilidade de
uma nova alianca political, o acaso
permitiu que rompessem a longa
quarentena, mas nenhum dos dois
achou ainda chegada a hora para
uma conversa mais profunda do que
o "tudo bem?" do reencontro. O
deputado federal Vie Pires Franco,
que ja carregou muita fita de video
para H61io, vai continuar funcionando
como pombo-correio, levando e
trazendo mensagens entire os dois
ex-quase-futuros amigos.


0 avango do jogo







4 JOURNAL PESSOAL I 1A QUINZENA DE MAIO / 1998


0 ex-presidente JoAo Belchior
Marques Goulartja estava mais
de nove anos no exilio uru-
guaio quando, em outubro de
1973, recebeu um telefonema do ditador
do Paraguai, Alfredo Stroessner (hoje vi-
vendo um exilio dourado no Brasil). De-
veria ir imediatamente a Assunqgo. Des-
confiado, Jango embarcou num jatinho
com a esposa, Teresa (a primeira bela Te-
resa da alta political brasileira). Foi ao Mi-
nist6rio das Relag6es Exteriores e, para sua
surpresa, la j o aguardava um passaporte
paraguaio, no qual estava impressa uma
solicitagao official para permitir ao porta-
dor do document "passar livremente" por
onde fosse.
Durante todo esse period, o governor
brasileiro, controlado pelos militares, que
haviam derrubado Jango, negavam o pas-
saporte solicitado cor insistdncia por um
ex-presidente da Repiblica. Jango vinha
desejando ardentemente viajar para a Eu-
ropa por tr8s motives: tratar da saide, ver
os filhos e fugir das ameagas de morte que
lhe vinham sendo feitas no Uruguai, onde,
al6m de exilado, estava confinado pela fal-
ta do passaporte.
S6 tres anos ap6s a iniciativa de Stroes-
sner, o govemo brasileiro fialmente for-
neceu o document ao qual tinha direito
um cidadao national. Mas Jango pouco
uso poderia fazer do passaporte: seis me-
ses depois, quando estava cor 58 anos de
idade, morreu de enfarte, ainda fora das
fronteiras do pais que tanto amou. S6 vol-
tou a tocar o territ6rio do seu Rio Grande
morto:
Por que um tipico ditador latino-ameri-
cano, de extrema-direita, haveria de socor-
rer o ex-presidente de um pais limitrofe
que fora derrubado, por outros militares
como ele, sob a acusagao de esquerdis-
mo? Motivos oficiais aparentes existiam:
Stroessner seria grato ao tratamento cor-
dial que Jango lhe dispensou enquanto es-
teve no poder no Brasil. Mas o epis6dio
pode nao passar de mais um component
da "vocacao latino-americana para o sur-
realismo", como prefer arriscar o jorna-
lista Geneton Moraes Neto.
Essa incrivel hist6ria do passaporte ele
a revela em Dossie Brasil A hist6ria
por tras da Hist6ria recent do pais (Edi-
tora Objetiva, 249 paginas, 1997, R$
19,00). Por que ningu6m a contou antes?
A ex-primeira dama Teresa Goulart, teste-
munha privilegiada do epis6dio, guardou o
segredo durante tantos anos porque "nao
gosto de estar falando" e porque "nunca
ninguem me perguntou".
Geneton 6 dessa espdcie de jornalistas
(em exting~o?) que ainda nIo esqueceram
que sua principal tarefa 6 perguntar, fa-
zendo da inquirig~o em geral um oficio,


As perguntas vitais,


mas sempre procurando formular as per-
guntas certas para as pessoas certas. Os
segredos s6 persistem ao long do tempo
porque ninguem procura desvenda-los.
No seu livro mais recent, Geneton saiu
atras de personagens falantes, que falam
por moto pr6prio ou estimulados por en-
trevistador convincente que nem ele, e de
documents, vasculhados em arquivos
oficiais em Londres e Washington. Rela-
t6rios guardados em repartigres piblicas
como o Foreign Office britfnico ou o Na-
tional Security Archive americano sao pe-
riodicamente liberados para consult. S6
que nao 6 dado aos brasileiros ir la garim-
par o que diz respeito A hist6ria do pais,
ajudando a reconta-la a partir de uma pers-
pectiva exterior, As vezes comprometida
pelos preconceitos, mas desbloqueada dos
provincianismos e localismos.
Gragas a essa investigagao, Geneton
contribui para a elucidag~ o de alguns mo-
mentos cruciais da vida brasileira contem-
poranea. Um deles 6 a morte de Juscelino
Kubitscheck de Oliveira, ocorrida em agos-
to de 1976, quatro meses antes do desa-
parecimento de seu aliado, JoAo Goulart.
Outras coincidencias mais fortes continu-
am a sugerir que o acidente automobilisti-
co na estrada Rio-SAo Paulo, que vitimou
o ex-presidente, tamb6m cassado pelos
militares em 1964, nao teria sido exatamen-
te accidental.

Um element perturbador
6 uma carta confidencial
que, um ano antes, o chefe da policia se-
creta do general Pinochet (colocado no
poder no Chile dois anos antes atraves de
um golpe que derrubou da presidencia ou-
tro esquerdista latino-americano, o medi-
co Salvador Allende) mandou para o che-
fe do Servigo Nacional de Informag6es bra-
sileiro, general Joao Baptista Figueiredo
(que em seguida se toraria o derradeiro
president do ciclo military de 21 anos).
A correspond6ncia, sugerindo a exist6n-
cia de um piano para eliminar politicos in-
c6modos aos dois paises que estavam fora
de suas fronteiras, foi revelada, um ano
ap6s a morte de JK, pelo jornalista ameri-
cano Jack Anderson. Mas ainda nao 6 pos-
sivel dizer se as mortes violentas de Jus-
celino e Orlando Letelier, ex-chanceler
chileno que fazia campanha nos Estados
Unidos contra a ditadura em seu pais, re-
sultaram de uma mesma ofensiva binacio-
nal arquitetada nos subterrineos do apara-
to official.
HA indicios de que o choque entire o car-
ro que conduzia JK e o 6nibus que vinha


pela via Dutra em sentido contrario pode
ter sido provocado. Mas tamb6m deve-se
considerar que o ex-presidente decidiu
voltar ao Rio de Janeiro de suibito, convo-
cou seu cansado motorist particular e veio
com ele num carro velho (como o pr6prio
condutor), expondo-se ao acidente. Se
houve um atentado, a hip6tese ainda esta
pendente de prova. Mas indiscutivelmente
houve impericia do condutor. Nem sem-
pre o que parece, 6 (como provou Nor-
man Mailer na sua reportagem-romance
sobre Lee Harvey Oswald, o matador -
solitario, no ponto de vista de Mailer do
president John Kennedy).
Se persiste a duivida a respeito, um dos
testemunhos coletados por Geneton, o do
medico Guilherme Romano, reconstitui o
final dos dias do politico mineiro de tuna
forma contrastante com a image por ele
criada ao long de sua vida piiblica. Ro-
mano diz que JK morreu "tao infeliz",
"como um trapo", "com raiva". Nao 6 de
admirar: fora cassado, impedido de voltar
a presidencia da Repfblica (seu sonho
maior: seria o segundo, depois de Getulio
Vargas, a conseguir a faganha, cor a dife-
renga de, nas duas vezes, alcangar a elei-
lao pelo voto direto e universal), humilha-
do nos Inqu6ritos Policiais-Militares (os
IPMs, de triste mem6ria), forgado ao exi-
lio, perdido as iltimas esperangas cor a
extincgo da Frente Ampla (reunindo-o a
Jango e Carlos Lacerda), derrotado na ten-
tativa de ser "imortal" da Academia Brasi-
leira de Letras e submetido a cirurgias que
tiraram-lhe o vigor.
Natural que o JK alegre, otimista e vo-
luntarioso no exercicio de poder se tives-
se tornado um home triste e depressive,
inseguro, pessimista no ostracismo. Ou
havera ainda outros segredos a espera de
revelagdo? Romano apostava na segunda
hip6tese. Ele arrecadou ("surrupiou" seria
expressao muito dura?) cartas pessoais do
ex-presidente que estavam num aparta-
mento no qual JK se encontrava cor a
amante. Essas cartas, se reveladas, pode-
riam destruir "o mito de Juscelino", tea-
traliza Romano.
O medico morreu hi quase tres anos e
as cartas, que ele diz ter guardado num
cofre-forte, continuam secrets. Nem o
pr6prio Geneton conseguiu ter acesso a
elas. Mas, na entrevista que fez com Ro-
mano antes de ele morrer, tamb6m nao foi
muito elucidativo sobre quem era o perso-
nagem. Talvez nem precisasse mesmo.
Julgando estar se elogiando, Romano se
declara homem que nao se vende a toa".
Estaria querendo dizer cor isso que era







JOURNAL PESSOAL I 1" QUINZENA DE MAIO / 1998 5


que nao sao feitas


capaz de vender-se por um prego com-
pensador? Mist6rio. Romano era um da-
queles nebulosos amigos intimos do gene-
ral Golbery do Couto e Silva, que desses
assuntos aparentemente insondAveis enten-
dia (tao impenetraveis eles eram quanto sua
prosa geopolitica).
A hist6ria, de resto, para ser elucidada,
precisa que se faca a pergunta pela qual
dona Teresa Goulart esperou tanto tempo,
mesmo defrontando-se, nesse period,
cor numerosos jornalistas todos des-
provido da curiosidade recomendada por
sua profissao. O pr6prio Geneton, que tern
esse merito, nao alcanga as respostas que
seu texto sugere. Seria porque nao 6 esse
o prop6sito do jornalismo? Seria porque
levou exageradamente a serio um limited que
os grandes jornalistas, por ignord-lo, o ul-
trapassaram cor sucesso?
A corrupglo atribuida a Juscelino 6 um
desses pontos. Em junho de 1964 o em-
baixador ingles Leslie Fry garantia, em seu
relat6rio confidential, revelado por Ge-
neton, que a respeito "uma boa quantida-
de de evid6ncias pode, sem difvida, ser
apresentada". Mas 39 CPIs foram insta-
ladas na Camara Federal para investigar a
administrag~o JK, ao long dos cinco anos
que ela durou, sem conseguir apresentar
provas do que se comentava a boca pe-
quena sobre a promiscuidade cor os em-
preiteiros de obras (o que, em depoimen-
to divulgado p6s-morte, Samuel Wainer
relataria, dando nomes aos bois, sem
agregar, entretanto, provas das acusa-
9oes).
Ha doses de leviandade, superficialida-
de, press e preconceito nos despachos
diplomAticos e outros pap6is oficiais tro-
cados entire as representag6es no Brasil das
duas superpot6ncias e suas sedes ultrama-
rinas. Um dossi6 do governor americano
de margo de 1964 diz que Tancredo Ne-
ves "se destaca pela intelig6ncia (embora
nio por sua honestidade financeira)", sem
sentir-se nem levemente obrigado a ir alem
desse nivel de fofoquinha, talvez porque,
como declara um relat6rio confidential de
julho de 1964, da embaixada britdnica, "isto
6 Brasil".
JA n6s, brasileiros, nao podemos nos
permitir tal simplificag~o, ainda que ela
parega produzida pela melhor antropologia
inglesa, sempre tao refmada quanto colo-
nialista. Temos que forgar a verdade a apa-
recer confrontando pessoas e documen-
tos.
Geneton Moraes Neto ainda conseguiu
encontrar vivo Jos6 de Moura Cavalcanti,
que foi jovem governador nomeado do Ter-


rit6rio Federal do Amapa, em 1961, antes
de vir a ser, nas administra69es militares
posteriores, president do Incra, ministry
da agriculture e governador de Pernambu-
co.
Membro de uma traditional familiar de
usineiros pernambucanos, Cavalcanti nar-
rou para ojornalista o cabalistico epis6dio
em que o entao president Janio Quadros
pretendeu duas faganhas: anexar a Guiana
Francesa ao Brasil e impedir que a pode-
rosa Icomi fizesse o que queria com o
embarque e transport do mangan8s do
Amapa para os Estados Unidos.
Moura Cavalcanti s6 nao disse e Ge-
neton nao perguntou que ao saber que
os navios levavam mais min6rio do que
o declarado oficialmente, JAnio (talvez
num moment mais etilico) mandou uma
corveta do IV Distrito Naval fazer em
alto-mar um disparo de advertancia con-
tra a proa da embarcalao, trazendo-a de
volta a Porto Santana para a confer6ncia
da carga. A operag~o foi realizada, mas
antes de o navio aportar em Santana, a
Icomi e a embaixada americana, agindo
energicamente, jA haviam convencido o
president (quem sabe, menos etilico) a
mudar de id6ia como acabou mudan-
do.
O pr6prio Moura Cavalcanti, num mo-
mento descontraido de conversa (igual-
mente etilica), no Hotel Grao Para, em
Belem, no final de 1971, quando coman-
dava o Incra (e o maior patrim6nio fundi-
ario do planet, expropriado na marra dos
Estados da Amaz6nia), me contou a hist6-
ria, sob compromisso de sigilo. Quando
ela aparecerA em document official? Quan-
do documents vitais da hist6ria imediata
serao bem analisados e interpretados?
O livro de Geneton Moraes Neto 6 um
bom estimulo. Mas se ele tivesse dado
uma forma menos circunstancial aos tex-
tos, rescrevendo-os (al6m de esclarecer
o distinto leitor sobre quais jA foram pu-
blicados pela imprensa, datando-os) e
transcrito a integra dos principals docu-
mentos, ou feito mais perguntas a respei-
to desses pap6is e dos testemunhos que
ouviu, nao se chegaria (com prazer e flu-
6ncia, 6 verdade e nao 6 absolutamente
pouco) ao final de seu livro cor a sensa-
95o de que ali estao contidos mais segre-
dos do que os revelados. E que seu jor-
nalismo parou antes de ter chegado ao
mAximo na sua missao de ir ate o fim na
investigag9o. Em jornalismo, s6 se chega
ao final da investigag~o quando nao se tern
mais perguntas a fazer. Geneton parou
antes. As perguntas continuam. *


Inabilidade
Para os padres do maestro, o progra-
ma eleitoral apresentado na televisao pelo
PFL, na semana passada, at6 que foi com-
portado. Hl6io Gueiros, que espertamente
sugeriu ao pfublico pretender disputar no-
vamente o governor, criando espaqo para
poder alvejar o que realmente esta ao seu
alcance, a vaga para o senado, bateu ape-
nas em dois pontos mais incisivos.
Com ironia, garantiu que nao precisou
de pajelanqa para governor o Par. Corn sar-
casmo, protestou contra o uso dado ao ter-
minal pesqueiro que, em ferro, como convi-
nha, mandou construir quando prefeito de
Bel6m. E tao desastrada a destinaiao que o
PT estA dando ao malfadado terminal que
H6lio Gueiros pode armar-se de sua lingua-
gem biblica para contar a falsa hist6ria para
o pfiblico, conquistando sua simpatia.
Se, ao inv6s de transformar aquela es-
trutura em restaurant improvisado da Ct-
bel, agora, e centro cultural, no future, o
PT tivesse convocado o Minist6rio Pilbli-
co para apurar a mA aplicacao do dinheiro
pfiblico, o ex-alcaide (raivinha como o atu-
al) nao estaria posando com seu falso dis-
curso de indignaqAo.
Depois de ter derrotado o candidate
dos Gueiros, Edmilson vai acabar ajudan-
do a eleger H6lio no ano 2000. Quando
nao se sabe o que se faz, faz-se o que nao
se quer. Tamb6m deve estar na Biblia.


Utopia
Foi dupla a vit6ria alcangada por Bene-
dito Nunes no mss passado. A primeira foi
ser selecionado pelos promotores do Pre-
mio Multicultural dojornal O Estado de S.
Paulo para fazer parte da relacio dos can-
didatos A premiaqao, submetidos a um co-
16gio eleitoral de tr6s mil pessoas espalha-
das pelo pais. Era o imico nortista no rol. A
segunda vit6ria foi a de ficar entire os tres
premiados, embora a ponderaqao eleitoral
do Estado e da regiao amaz6nica fossem
insignificantes no total de votos dados.
Ou seja: foi o restante do pais que ele-
geu Benedito, ultrapassando os acordos
paroquiais para consagrA-lo como um dos
grandes intelectuais em atividade no Bra-
sil, independentemente do reconhecimen-
to dos seus conterrAneos. NAo 6 faganha
que algu6m possa desmerecer, numa terra
de superlatives mediocres e de consagra-
9qo que nao vai al6m do entroncamento
(onde digladiam-se, aliAs, como no velho
faroeste que continuamos a ser, o gover-
nador e o alcaide).
Benedito Nunes revela-se maior do que
o Para de hoje, do tamanho do Para de
sempre, ou do ParA que esperamos ver al-
gum dia reconciliado com essa forja natu-
ral de grandeza que torna possivel gente
como Benedito.







6 JOURNAL PESSOAL I 1' QUINZENA DE MAIO / 1998


A triste
I M

memonr



de uma



epoca



negra


Um dos mais fieis retratos do
sempre polemico Karl Marx, de
cujo cdlebre Manifesto Comu-
nista registra-se agora os 150
anos, foi produzido por ningudm
menos do que a policia prussia-
na, aquela mesma que tanto de-
sejava prende-lo. Entre 1852 e
1853, o agent que espionava a
familiar Marx, exilada em Londres,
produziu um informede secret"
para seus chefes que, se nao dig-
nifica a funqao, mostra que ela
pode ser exercida corn profissio-
nalismo.
Logo no primeiro paragrafo o
"araponga" (como hoje o chama-
riamos, A brasileira) justifica o
cuidado de descrever a persona-
lidade do visado, por ser ele "a
alma do partido" dos comunistas,
que ameaqavam o Estado prussi-
ano corn a revoluqao (e nao mais
corn a critical filos6fica radical, a
que se satisfaziam os discipulos
esquerdistas de Hegel). Nessa
epoca, muitos poderiam reivindi-
car o titulo (como Engels, Freili-
grath, Wolff, Heine ou Weyde-
meyer), mas o autor do informed
(nao identificado no document)
diz que todos nao passam de
pouco mais que militants: o "es-
pirito condutor e criativo" era
Marx. Acertou na mosca. Nao 6
pontaria de se desprezar.
Mesmo que muitos atribuis-
sem ao demoniaco comunista to-
das as mas qualidades cataloga-
veis, o policial procurava ser im-
parcial e exato na avaliaqao, fu-
gindo ao maniqueismo empobre-
cedor. Escreveu, entire outras coi-
sas: "A primeira vista jA se nota
que O um home de genio e ener-
gia. Sua superioridade intelectu-
al exerce um powder irresistivel
sobre quantos o rodeiam. Em sua


vida privada 6 uma pessoa ao
extreme desordenada, cinica; um
mau administrator, que leva uma
aut6ntica vida bodmia. O lavar-
se, pentear-se e mudar
a de roupa constituem
para ele atos muito pou-
co freqiientes. Gosta de
embriagar-se. Freqiientemente
farreia dias inteiros, mas, quan-
do tem muito trabalho, suporta-o
incansavelmente dia e noite. Nio
existe para ele um horArio deter-
minado para dormir e outro para
star acordado; a despeito de
permanecer desperto noites intei-
ras, ao meio-dia se acha comple-
tamente vestido no sofa, onde
dorme atd o entardecer, sem pre-
ocupar-se em absolute corn o que
ocorre ao seu redor".
Lembrei-me desse informed da
policia prussiana (incluido por
Hans Magnus Enzensberger em
seu volumoso Conversafoes
cor Marx e Engels [Frankfurt,
1973], infelizmente nunca tradu-
zido para o portugues) ao ler o
dossier que a DivisAo de Segu-
ranqa e Informacqes do Ministd-
rio da Justiqa formou sobre o en-
tao professor Fernando Henrique
Cardoso, entire 1964 e 1985.
Toda aquela papelada, divul-
gada duas semanas atrAs pela
imprensa, e um amontoado de
inutilidades. Jamais poderia ser
usada em defesa da razao de Es-
tado, mesmo um Estado autoritA-
rio (como diria o pr6prio Fernan-
do Henrique, antes de tornar-se
FHC) e policial, um Estado san-
guinariamente barroco, mas nAo
modern. O profissionalismo do
agent prussiano (que preferia
conhecer o inimigo, ao inv6s de
simplesmente anatematizA-lo)
passou muito long das cabeqas
(do tamanho da cabeqa de um al-
finete, como o Jornal do Brasil
diria de uma censora em atuaqAo
por aqui nessa mesma 6poca) dos
homes que produziram as asnei-
ras reunidas no dossi6 do DASI.
Sao eles simpl6rias reencarna-
C6es de sub-Torquemadas ten-
tando ser agradaveis ao chefe
(como sempre, nas burocracias
mediocres).
O que nao teriam escrito os
arapongas (ja sem aspas) do Mi-
nistdrio da Justiga se defronta-
dos com a besta-fera, lui-meme
Karl Marx? Esconjurariam, decer-
to. Pois garantem em seus assen-
tamentos que Fernando Henrique
"faz doutrinagio comunista, de
massificaco". Teriam mesmo lido
um texto do "epigrafado" (con-


forme o patois burocrat6s do
documento?
Nao precisaria muito: bastaria
um "v6o de passaro" (como cos-
tuma dizer em francs, natural-
mente o ex-senador Jarbas Pas-
sarinho) sobre a introdugao me-
todol6gica ao clAssico trabalho
do nosso soci6logo, Capitalis-
mo e Escravidao no Brasil Me-
ridional, para tirar da cabega a
iddia de que algum dia, antes de
se tornar estrela global, Fernan-
do Henrique pudesse ter aspira-
do a massificacao.
Escrevia complicado, escre-
vendo mal, o nosso FHC (que
agora nao mais escreve: usa
ghost-writers). L8-lo exige paci-
6ncia, discipline, espirito de re-
signagio e, 6 claro, certa forma-
qlo academica. Nao 6 para mas-
sas. Nao era, antes de recorrer As
liq6es e trucagens da political,
atravds do uso da midia (embora,
dando aula, fosse incomparavel-
mente mais claro do que escre-
vendo; para as alunas, um encan-
to: o que dizia era acess6rio, ou
supdrfluo).
Estupidez do mesmo quilate 6
o "araponga" do Ministdrio da
Justica, ao tempo do nosso im-
perial general Geisel, acusar o
professor Cardoso de "instigar a
violencia como formula de solu-
cionar a problematica marxista"
(qual "problemitica", cara-pAli-
da?), ou que suas id6ias deixas-
sem clara "sua bitolagem aos
dogmas marxistas" (luta de clas-
ses, ditadura do proletariado e
imperialismo sao e sempre foram
conceitos ex6ticos e hostis para
ele e os demais uspeanos do seu
grupo, que se empenharam jus-
tamente em negar esses dogmas,
comn razao ou sem).
O prontuArio do DASI regis-
tra, em 1964, queentre 1955 e 1956
o future FHC

"convenceu-se

do erro [de rela-

cionar-se por

dois ou tirs anos

corn intelectu-

ais comunistas]
e afastou-se em definitive" do Par-
tido Comunista, nunca mais exer-
cendo "qualquer tipo de atividade
ou de militAncia political comunis-
ta, socialist ou que fosse".


No entanto, 11 anos depots,
ao analisar o livro Autoritaris-
mo e Democratizafao, os ara-
pongas constatam "ser o epigra-
fado comprometido cor elemen-
tos comunistas". Teria o profes-
sor recaido na doenga em rela-
q~o a qual seus pr6prios espi-
6es o declaravam jA imunizado,
ou os analistas de araque nao
se deram sequer ao trabalho de
ir olhar as fichas do Ministdrio
(anotadas cumulativamente,
sem preocupagao cor coerencia
e continuidade, uma anotagAo
posterior podendo contraditar a
anterior).
O prontuario sobre o "mnargi-
nado" (outra preciosidade do
burocrat6s) cont6m muitas outras
sandices. Fernando Henrique 6
acusado de ter introduzido no
Brasil "cerca de 50 padres reden-
tores [nao seriam redentoris-
tas?] que nao usam batina", cri-
me considerado atentat6rio a se-
guranqa national em 1969. Dois
anos depois, quando vinha "ori-
entando o jomal Opiniao, seus
titulos eram "te6logo e professor
universitario", mesmo sendo
apontado um ano antes, no dos-
si&, como "cripto-comunista".
Seu Centro Brasileiro de AnAlise
e Planejamento (Cebrap) vira ora
Sociedade Brasileira de Planeja-
mento, ora Instituto de Pesqui-
sas Econ6micas (nem ir A lista
telefonica os "arapongas" foram
para conferir a designaqco cer-
ta).
Um espiao infiltrado em Ge-
nebra (que prefer escrever Ge-
neve, talvez para demonstrar
cosmopolitismo), num trabalho
que deve ter-lhe rendido elogi-
os, descobriu entire os crimes do
"marginado" em 1972 o de ha-
ver recebido na Suiqa "o livro
intitulado Polgmica" (quanto a
naqao deve ter gasto para obter
no exterior tao vital informa-
Cao?). Mas outro crime o nosso
professor nAo conseguiu con-
sumar: ao arvorar-se a traduzir o
recdm-lancado (em 1974) Osmi-
litares na political, hoje um es-
tudo clAssico sobre o tema, do
brasilianist Alfred Stepan, Fer-
nando Henrique pretendia (ve-
jam s6) usar a traducao para
"deturpar a verdadeira atuaqao
das Forqas Armadas no proces-
so politico brasileiro". Ainda
bem que nao conseguiu essa fa-
qanha lingiiistica: antes de ser
alvejado pela policia brasileira,
certamente iria ser processado
pelo historiador americano.







JOURNAL PESSOAL I 1" QUINZENA DE MAIO / 1998 7


No primeiro dia de aula pedi aos alunos
para citar um livro que os tivesse marcado.
Um deles referiu-se a Brida, de Paulo Coe-
Iho. Perguntei se tambdmjA lera Herman Hes-
se. Tanto podia ser Demian como OLobo da
Estepe. Um outro aluno interrompeu para di-
zer que havia lido Sidarta, talvez motivado
pelo filme. Quem, na idade certa (talvez entire
os 13 e os 15 anos), tivesse lido um desses
tr6s livros de Hesse dificilmente iria ao Coe-
lho. Chegaria, por certo, ao Jogo das Contas
de Vidro e iria bem aldm a partir dai. Quem
sabe, a Thomas Mann, com quem Herman
Hesse trocaria cartas interessantissimas, es-
critas e recebidas As margens de um lago su-
ico.
Observa-se, corretamente, que Paulo Co-
elho ter sido a principal porta de entrada
dos jovens atuais ao mundo dos livros. De-
duz-se incorretamente, a meu ver que
depois desse choque inaugural o leitor esta-
rd definitivamente apresentado A literature,
nao mais abandonando-a. Observo, ao con-
trario, que quando um livro de Paulo Coelho
d o primeiro que umjovem 16, s6 outro Paulo
Coelho se Ihe segue, ou produto equivalen-
te. Poucos escapam A quadratura desse cir-
culo de ma literature e mensagens muito
falsas. quando nao supinamente superficiais
(que, devotamente, tento sem sucesso ler).
Nao consegui conciliar o sono quando
terminei, na idade certa, a leitura dos livros
de Herman Hesse. A interpretacqo que ele
dava A marca de Caim era para mim, Aquela
altura, originalissima e revolucionaria (Cairn
nio era o invejoso estigmatizado pela Biblia:
era o diferente).
Pensei sem parar nessa nova maneira de
ver uma velha hist6ria. Marcou-me cor o
fogo das iddias fortes. Uma simples palavra
(quirguiz) me fez saltar de Demian para a
Montanha Mdgica, intuindo um paralelismo
entire Hesse e Mann do qual s6 viria a ter


consci8ncia plena ao ler-lhes a correspon-
d6ncia. Aprendi a tirar liq6es do mimetismo.
O olhar quirguiz de Clauwdia Chauchat e de
Demian expressavam a ubiqtiidade (ou ambi-
giuidade) dos seus criadores (como, na nos-
sa literature, de Guimaraes Rosa, com seu
Riobaldo/Diadorim).
O Paulo Coelho de hoje 6 o mesmo de on-
tem, lembram os seus defensores. E verdade.
Nao se pode acusA-lo de charlatfio. O pfubli-
co 6 que mudou. Quer respostas positivas,
formulas prontas, fAceis ou acessiveis, que,
nao podendo (ou nao querendo) alterar em
substAncia as estruturas de poder deste mun-
do, tornam-se esotdricas, miraculosas, mas
fazendo-as uma extensao do corpo, a supra-
materialidade que as religi6es classicas j nao
dominam, restritas a ura espiritualidade
transcedental (ur ponto alnm em matdria de
metafisica, mas inapropriada para o atual
mercado. que busca outra linguagem).
O Paulo Coelho que era a face B de Raul
Seixas acomodou-se como luva a esse vasto
circuit de sub-literatura e sub-sabedoria, um
dos elements universais dessa tal de globa-
lizagio. Os que se extasiarem corn ele, ficarao
nele e nos seus equivalentes. E um mercado
poderoso e invejAvel para os que criam vi-
sando fama e dinheiro. O que me espanta 6
que algudm qualitativamente abaixo de Raul
Seixas tenha agora um sucesso que o mestre,
em sua dpoca, jamais teria, nem mesmo se
atreveria a sonhar com.
Mais do que porta de acesso ao mundo
inexcedivel dos Homero, Dante, Shakespea-
re ou Joyce, que alargam a percepcqo dos
homes e dAo-lhe a dimensao do que 6 a so-
ciedade humana, o seu mistdrio real, incorpo-
rado A mente, Paulo Coelho 6 uma bela e bem
cultivada rua sem said. Ele, que nao mudou,
sabe disso. Os que mudaram tamb6m sabe-
rao um dia, que nao esta tao long quanto o
brilho do fogo-fAtuo poderia sugerir. *


0 intense brilho



do fogo-fatuo


Ler o papel6rio desencavado
dos arquivos soturnos do Mi-
nistdrio da Justica (sob o reina-
do de Armando FalcAo, aquele
que comeu abil) s6 nao foi um
exercicio inftil por tres motives.
Em primeiro lugar, fez-me lembrar
da palestra que, a nosso pedi-
do, do Centro Academico da
Escola de Sociologia e Politica
de Sao Paulo, o admirado Fer-
nando Henrique fez em 30 deju-
nho de 1971, naquele bangal6
simpatico que a plutocracia pau-
lista instalou na ddcada de 30 na
rua General Jardim (e nao Caio
Prado, como aparece no prontu-


ario), de cuja existdncia a repres-
sao se tinha esquecido (feliz-
mente).
Cor seu terno de linho bran-
co, o professor, jA aposentado
compulsoriamente da USP (o
que multiplicou seu carisma),
falou sobre a "teoria da depen-
dencia" para uma platdia que lo-
tou a sala acanhada, todos com
uma orelha antenada na estrela
falante (sem grilo) e outra ras-
treando ruidos suspeitos que
pudessem vir de 16 de fora, um
armisticio nao reconhecido que
se estabeleceu entire os exilios
do soci6logo naqueles tempos


incertos. Recordar (tambem) 6
viver.
O outro motive foi rir da estul-
tice dos nossos espioes verde-
amarelos, um riso inc6modo por-
que se associa imediatamente A
irracionalidade congenita no Es-
tado policial, seja ele um Leviata
ou um Behemoth. E estA ai a ter-
ceira razao pedag6gica da leitu-
ra: exorcizar os riscos de uma re-
cidiva autoritAria e policialesca
no pais. O nosso principle dos
soci6logos. que deu motive a
esse festival de asneiras, agora
que 6 apenas (apenas?) principle,
bem que poderia empenhar-se um


pouco mais para ajudar a dissi-
par do horizonte os indicios da
presenqa dessas bruxas, que,
mesmo quando parecem invisi-
veis, nao sao exatamente invisi-
veis deste lado do rio Grande.
Como diria Goethe, no seu fi-
nal: luz, mais luz. E a maneira de
espantar as trevas, as que exis-
tem e as que podem voltar a exis-
tir, consumindo nosso dinheiro,
nosso tempo e nossa inteligen-
cia, al6m de numerosas de nos-
sas vidas, cor demonologias
como essa, extraida do sarc6fa-
go do minist6rio de Armando
Falcao, o mudo convenient. *


Grilagem

jomalistica
Sem a preocupacdo de fazer um
levantamento exaustivo, outro dia contei
21 colunas em A Provincia do Pard e 10
seq6es fixas. No Di6rio do Para havia 24
colunas e cinco seqces. Em 0 Liberal, 15
colunas e 16 secqes ou espagos cativos
de articulistas. O Liberal se da ao luxo
(luxo?) de ser ojornal brasileiro com mais
colunas sociais diArias: sao cinco, duas
locais e tres nacionais (estas,
"ilustradas" cor fotos de jovens da
sociedade local, em nenhum moment
referidas nos textos das colunas).
Gracas A venda em pacote feita pelas
ag6ncias nacionais de noticias, o leitor de
Beldm pode ter contato cor colunas e
articulistas importantes, antes
inacessiveis. Mas esse facilitario
engendrou um excess, que se infiltrou
localmente. Pessoas sem experiencia ou
prepare ganharam colunas na grande
imprensa sabe-se la por quais motives
(nao por saberem escrever ou serem bem
informadas). Certas colunas dao vexame
todas as vezes em que sao publicadas e
ningudm toma uma providencia corretiva.
A figure do colaborador 6 salutar na
imprensa, desde que seja algudm de
not6rio saber, que se haja tornado
important fonte de informaqAo ou cujas
avaliaq6es enriquecam o saber coletivo.
Parte considerAvel dos colunistas nao se
enquadra nesses critdrios. Logo, eles nao
podem ocupar o espago que lhes foi
aberto. Tornaram-se usurpadores da
opiniao pfiblica. Algumas colunas
viraram gazuas.
O abuso deve ser combatido. Por
quem? Legalmente, pelo sindicato dos
jornalistas. Nao eliminando os
colaboradores, mas mantendo-os na
margem recomendada pela lei e pelo bom
senso. Antes que os jornais virem
neg6cio entire compadres. *









Errat,'
Ancelmo Gois dasst npncil- i
timo Radar de Veja que a Parana-
panema "produz mais prejuizo do
que manganes". Quantd'ao pre-
juizo, estA certo. Mas d estanho
o que a empresa extrai do Ama-
zonas, na maior mina do mundo,
a do Pitinga (o fnico produtor de
manganes que conta 6 a Compa-
nhia Vale do Rio Doce). Quando
Octavio Lacombe vivia, a Para-
napanema era sua cara. Hoje, 6 a
dos funds de pensio. Parece
que nao melhorou nada com essa
mudanga. Apenas ficou mais pa-
quid6rmica.


Precocidade
O Encontro da Juventude do
PSDB, realizado em Bel6m no 6lti-
mo dia 25, poderia ter provocado
em Rosamundo, o desligado per-
sonagem criado por S6rgio Porto
enquanto Stanislaw Ponte Preta, a
reflexao: taojovens eja tucanos.


Nossa luta
A melhor maneira de ajudar o
Jornal Pessoal a resistir 6 com-
prando-o nas bancas ou fazendo
uma assinatura, para si ou para
outras pessoas (de preferencia,
de fora de Belem). Uma assinatu-
ra trimestral custa 15 reals. Uma
semestral (que comeqamos a ad-
mitir, atendendo pedido de leito-
res), R$ 30,00. A forma mais ade-
quada de fazer assinatura 6 pre-
enchendo um cheque nominal
para Licio Flavio de Faria Pinto
e enviando-o pelo correio para rua
Aristides Lobo, 871, Bel6m, Pard,
66.053-020, juntamente com os
dados pessoais nomee complete,
profissao, endereco, c6digo pos-
tal, forma de assinatura). Dep6-
sito tamb6m pode ser feito na
conta 201.512-0 da ag6ncia 0208
do Unibanco, em Bel6m. E assim
que um journal identificado com
os interesses do povo sobrevi-
ve: com o povo sustentando-o -
e nao anunciantes, o governor ou
um mecenas oculto.


SRS
I~~~ ~ -' *' I


Gileno Miiller Chaves esta distribuindo entire os
amigos um texto precioso: "A Evoluqco das Artes
PlAsticas no Pard (vesao preliminary" que recons-
titui seu depoimento A Unama, paralelamente ao IV
Salao de Pequenos Formatos, no m6s passado.
E um document precioso porque recolhe ca-
cos que ficaram no meio do caminho da evolucio
da arte no Estado, gracas a essa virtude (cada vez
mais rara) de perceber em fragments o todo que
os comp6e, explica e define. Gileno consegue, por
isso, dar uma visdo em perspective e sistematiza-
dora de algo sobre cuja exist6ncia muitas vezes
nem conseguimos nos aperceber.
Mas tamb6m 6 um texto valioso pelo sense of
humour tipico e definidor desse nosso mais impor-
tante marchand, mais do que tudo um conversa-
dor apreciAvel e um observador implacAvel por tr6s
do seu espirito sard6nico. Gileno nao abre mao de
pensar e de dizer o que pensa, mesmo que venha
a pagar caro por isso numa terra avessa a disso-
nancias. Ganham seus leitores pelas infonnaaqes
que preservou e organizou. Mas ganham tamb6m
pelo humor e a ironia na apresentac~o, complemen-
tados por um tom de indignaqgo que Ihe advdm da
autoridade moral e do "saber fazer".
Como esse texto xerocopiado estA em verso
preliminary, espero que Gileno Ihe d8 a feiqgo defini-
tiva e o transform em livro. EstA a altura da nossa
car6ncia de uma hist6ria das artes plasticas no Es-
tado. O texto de Gileno nao deixa dfvida de que
essa hist6ria 6 muito mais rica at6 do que suspeitA-
vamos, mas nao tem a solenidade que Ihe atribuem
os que, nao a conhecendo de fato, usam-na em
proveito pr6prio, aproveitando-se das convenien-
cias dominantes.
Enquanto o livro nao sai, ampliando o universe
de leitores dessas menos de 50 paginas, pego o
mote e transcrevo um trecho que diz respeito a este
journal, dividindo com meus leitores o generoso es-
timulo de Gileno. Diz ele:
"'Por aqui, osjornais, como o Jornal da Tarde,
de Sao Paulo, nao precisaram publicar 'receitas de
bolo' em lugar de matdrias censuradas. Os proprie-
tarios dos jornais faziam voluntariamente essa se-
leqgo, em consondncia com as leis consuetudindri-
as da obediencia irrestrita. Assim aconteceu atd
setembro de 1987, quando apareceu o 'Jornal Pes-
soal' e o tinel. Por isso mesmo, o Pard pode e deve
participar da hist6ria da prensa e da imprensa, sem-
pre que nos referirmos a imprensa alternative, in-
dependente e democritica resistente. O Jornal Pes-


soal convive com a verdade; com a noticia limpa,
cristalina, do interesse pfublico. Por isso, convive
corn cinco processes, costumeiras ameacas de
morte e, comecando pela Delta Publicidade, deve
ter passado por seis grdficas. E o tal do silencio
conivente: as almas pequenas ainda nao entende-
ram que ser ou estar a favor do 'Jornal Pessoal' nao
importa em ser contra nada".
Gileno toca num ponto important das relaq6es
da imprensa com o poder: a aceitaqgo pacifica da
auto-censura. Jornais que nunca deixaram de ex-
pressar um pensamento de elite, que se mantive-
ram nos pardmetros do seu neg6cio, ainda assim.
nao renunciando ao compromisso obrigat6rio cor
a opiniao pfiblica (o que nio deixa de ser uma razio
de neg6cio, s6 que neg6cio especial, nto o de uma
quitanda), resistiram a repressio official. Tiveram
que ser submetidos A forqa, atravds da censura go-
vernamental. Nunca poderiam ser apontados como
subversivos. Mas tamb6m nao seriam acusados de
coniventes com aquilo que deveria ser coisa sagra-
da para os proprietArios de empresas jornalisticas
de verdade: a liberdade necessdria para informar
corretamente a sociedade.
Entre esses jornais resistentes esta o Jornal da
Tarde, o vespertino da familiar Mesquita, proprieta-
ria de O Estado de S. Paulo. Enquanto o journal
principal (e mais antigo) publicava duas vezes a
integra de Os Lusiadas, a obra-prima de Cam6es,
para cobrir os espacos abertos pela aqgo da censu-
ra, ojovem vespertino recorria as receitas culindri-
as.
Num fim de noite, estou encerrando o plantao
na redaqao paulistana do Estadao quando toca o
telefone. E uma leitora, pedindo para registrar seu
protest. Usando expresses mais sofisticadas, de-
clara-se antiga leitora do tradicionaljornal. E nesse
dia notara um grave erro no vespertino da casa:
estavam publicando a mesma receita pela segunda
vez. Ao ler a receita, desconfiara. Uma ida ao cader-
no de recortes confirmara: aquela receita ji havia
said. "Nao se faz maisjornais como antigamente",
protestou. Tive de Ihe explicar o que estava acon-
tecendo de fato. Elajamais supusera que aquele rol
de receitas era um present involuntArio, forqado
pela censura.
O texto aqui reproduzido de Gileno Chaves ter
essa func6o de advertir os incautos, aqueles que,
como no poema de Bertolt Brecht, sao ing6nuos
porque sao insensiveis. Desse mal o nosso insubs-
tituivel marchandjamais poderd ser acusado.


Marketing
Das 424 primeiras pIginas da iltima ediCio do catilogo telefonico de
Bel6m, rec6m-distribuido ao pfblico, 255 pdginas tnm annicio da Funda-
OCo Nacional de Saide. A publicidade se resume a um selo no alto da
pagina corn a logomarca da FNS e seu telefone. Nenhuma mensagem de
utilidade piblica. Ou nao entendi o segredo desse marketing, ou nio hA
segredo mesmo: trata-se de malversag~o de dinheiro pfiblico.
Que tal incluir esse item na relagFo dos temas a serem apurados sobre
a administraco anterior da fundado, que tanta polemica tem provocado?


A coragem


Sdo critic


Journal Pessoal
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