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ornal Pessoal a"eosro L U C IO F L A V IO P I N T O Jogo liVre ANO XI N 186 1 QUINZENA DE MAIO DE 1998 R$2,00 pela TV ELEIgAO Quem o n1? Teria mesmo o senadorJa pelas pesquisas, favorvel c, eleitorado para o governor trucagens, alimentam adv o intervalo de 15 dias, dois resultados aparentemente incongruentes foram pro- duzidos pelo Ibope. No primeiro, sob encomenda do grupo Liberal, o gover- nador Almir Gabriel passou pela primeira vez A frente do senador Jader Barbalho nas escolhas dos entrevistados so- bre o pr6ximo governador do Estado, com 35 a 34%, um empate tdcnico (porque o institu- to admite margem de erro de 3% na sua pes- quisa). No segundo, Jader obteve 45% das preferencias, contra 31% de Almir (e 17% de Ademir Andrade). O mais desnorteador na pesquisa encomen- dada a pedido do PMDB, via Confederaqao Nacional da Indfstria, 6 a mudanca brusca e radical da tendencia que vinha se manifestan- do nas sondagens eleitorais do pr6prio Ibo- pe, A candidatura do governador estava cres- cendo, aceleradamente a principio (graqas ao "fenbmeno" Hdlio Gueiros Jr., o Helinho), moderadamente agora. A prefer6ncia por Ja- der estava declinando, mas lentamente, esta- bilizando-se nas duas ultimas avaliaq6es em torno de sua fatia cativa do eleitorado paraen- se ha varios anos (um terqo dos votos vali- dos). Os resultados das pesquisas solicitadas pelo esquema de apoio a Almir indicavam que a candidatura dele estava se viabilizando, mas s6 sairia de uma faixa de risco elevado se con- tasse com o apoio de Jader. Tendo que enfren- tA-lo, a reeleiqAo era uma hip6tese incerta e nao sabida (como, em sentido contrario, a pos- sibilidade de vit6ria do lider do PMDB no se- nado). A iltima pesquisa que o Ibope reali- zou, entretanto, mudou completamente o qua- dro pr6-eleitoral. Se confirmada a grande diferenca aberta pelo senador, a inc6gnita mais important pas- saria a ser outra: entrando para valer na cam- panha eleitoral (o que nao fez atd agora, ao der Barbalho invertido uma tendencia eleitoral apurada 1o governador Almir Gabriel, e assumido a preferencia do do Estado? As pesquisas, divulgadas com truncamentos e as dutvidas. Mas, ao menos por enquanto, 'o principal ?rsdrio do governador e ele mesmo. pao -~ contririo do governador), Jader poderia ven- cer j no primeiro turno? Atd a intrigante pes- quisa, essa pergunta ji estava descartada. Talvez sem Jader na parada, o governador pudesse conquistar sua sonhada reeleiqao no primeiro turno. Contra ele, tinha a oportunida- de de derrotu-lo no segundo turno, numa dis- puta onde tudo seria possivel. No intervalo das duas semanas entire as pesquisas solicitadas pelos dois lados, ne- nhum fato ocorreu que pudesse ter causado alteraqo tao substantial. Antes, sim, a de- sastrada estratdgia montada por Hdlio Guei- ros atris do filho rendera dividends inespe- rados e positives para o governador, tirando a enorme vantage com a qual Jader aparecera na primeira pesquisa prd-eleitoral do Ibope. Aparentemente, os votos de Hdlio haviam flu- ido para Almir. Agora, com as evidencias pii- blicas de uma recomposiqao entire os dois an- tigos aliados, esses votos teriam retornado ao ninho original? Trata-se apenas de especulaqao, que pes- < -- quisas n~o divulgadas regularmente geram. S6 uma nesga de resultados 6 filtrada para o pu- blico, mantido no absolute desconhecimento da base metodol6gica e do universe de alcan- ce. A sondagem favoravel a Almir alcangou 1.200 entrevistados, enquanto a que colocou Jader na lideranqa disparada entrevistou 800 pessoas. Como ambas visaram todo o Estado, por que a diferenga na amostragem? Pode nao haver mistdrio algum na respos- ta, mas a aparente incongrudncia nos resulta- dos apurados entire duas semanas mostra que ja esta na hora de uma regulamentaio mais clara e categ6rica sobre a realizagao e a divul- gaao de pesquisas political. Essa normatiza- cao precisa abranger tanto as sondagens di- retamente eleitorais quanto as disfarcadas por temas administrativos, mas corn a nitida inten- cao de produzir votos como dividends. 0 Liberal, por exemplo, nao tem divulgado os resultados das pesquisas eleitorais que contrata, limitando-se a apresentar as pesqui- sas ditas administrativas. Os Maiorana s6 es- 3 DONO DO LIBERAL INELEGIVEL (Pag:2) <, 78 2 JOURNAL PESSOAL I 1' QUINZENA DE MAIO / 1998 tariam dispostos a abandonar essa attitude quando ficasse bem caracterizado que Jader Barbalho d suplantado por Almir Gabriel, oque ainda nio aconteceu. Ja o lider peemedebista utiliza-se do biombo da CNI, dirigida por seu correligionirio da Paraiba, para ter sua pr6pria afericao da situaqio, na amplitude que lhe per- mite o Ibope, sem o risco de repassar para ter- ceiros as informaqces. Essa estrategia levou a um paradoxo na semana passada: o Didrio do Pard, journal do senador, mesmo cor os dados nas mAos, no- ticiando a revelaqao do principal resultado da pesquisa pela Folha de S. Paulo. Deveria ha- ver um dispositivo legal obrigando os realiza- dores de pesquisas a deposita-las no Minis- terio Piblico para consult, tenham sido re- gistradas ou nao, divulgadas ou nao. E a ma- neira de reduzir a ampla margem de manobra que permit aos utilizadores de marketing ma- nipular a opiniao pfiblica. Foi a propaganda que fez Almir Gabriel es- tar na dispute para valer. As obras que come- cou a realizar neste seu final de mandate s6 tem repercussao popular porque s5o propa- gadas A exaustao atraves de uma midia aluga- da para esse fim. Sem isso, a falta de carisma teria sido fatal para as pretens6es political do governador. Seu indice de aprovagao em de- terminado municipio, inflado por esse esque- ma publicitArio, costuma declinar quando ele aparece no local, principalmente em situaq6es conflituosas. Essa inseguranga (que alguns politicos ji chamam abertamente de frouxidao) ter dois exemplos recentes. 0 governador cancelou sua viagem a Marabm em funiao da morte de dois lideres do Movimento dos Trabalhadores Ru- rais Sem-Terra, embora o fato tenha ocorrido em outro municipio e sua repercussao em Ma- raba fosse atenuada. Tamb6m deixou de visitar Marapanim porque o prefeito foi baleado horas antes da sua esperada chegada ao municipio. Almir Gabriel poderia estar afirmativamen- te em campanha, contando com os aliados ja declarados, sem a desgastante espera por Ja- der Barbalho, se seu maior adversario nao fos- se ele mesmo. A qualquer custo, o governa- dor quer evitar esse confront. Recorre a to- dos os meios para conseguir seu objetivo, ate mesmo deslocando uma figure menor do PSDB para vir a Beldm como se fosse emissario do president da Repfblica em busca de uma ampla composiqAo de forgas political. Mas o principal alvo ficou ao largo: Jader nem rece- beu Arthur Virgilio Neto. Em Brasilia ja se sabe que Fernando Henri- que Cardoso nAo consider prioritAria a dispu- ta no Para. Seu indice de aprovacao no Estado esti num patamar folgado, que lhe garante vi- t6ria contra qualquer adversArio se a situaq~ o national nao mudar. Qualquer que seja seu ali- ado ou opositor no Estado, FHC levard seus votos em um coldgio eleitoral residual no pais. Por isso, o president preferiu desgastar- se ao abrigar o ex-collorido Renan Calheiros no ministdrio da Justiga, ajudando Teotonio Vilela Filho a eleger-se govemador de Alago- as, do que se empenhar por uma soluao liar- monizadora entire Jader e Almir. Como o go- vernador assumiu publicamente que indicara o senador do PMDB para o ministdrio, o nao atendimento do seu pedido gerou-lhe mais desprestigio do que desgaste para Jader, que nunca admitiu suas pretens6es ministeriais. A acomodaqao entire os dois, se vier, terA que ser um produto de geraqao puramente lo- cal, caso Jader desista de seu projeto politico national. Se tivesse que fazer sua pr6pria von- tade, ele iria se empenhar agora em preencher o vacuo criado pelas mortes de S6rgio Motta e Luis Eduardo Magalhaes. Mas para ter al- gum sucesso na empreitada, teria que se des- ligar da political local. Como a caminhada national 6 temerAria. apostar nela poderia significar para Jader repe- tir o erro que ele diz que Jarbas Passarinho co- meteu quando, em condicqes ainda mais favo- rAveis (e com resultados pessoais muito mais positives), tentou ser uma das liderangas mixi- mas do regime military. N6s, do Pard, estamos condenado a ficar corn os politicos que temos - o que, alias, nao 6 1A grande coisa. * Cochilo em 0 Liberal toma Rominho Maiorana inelegivel Se sentiram a falta, os leitores de Troppo, o caderno dominical de O Liberal, devem ter percebi- do que ficaram sem quatro pagi- nas da ediqCo do dia 19. E que os editors esqueceram de tirar do expediente da revista o nome do vice-presidente da empresa, Ro- mulo Maiorana Junior, subtraido do expediente geral dojornal des- de o dia 3, como determine a le- gislaCio para os que querem es- tar plenamente elegiveis em outu- bro. O erro podera custar a candi- datura de Rominho ao senado. Quando a falha foi verificada, a Troppo ja estava impressa. O jeito foi arrancar a folha dupla na qual d publicado o expediente, cor- respondente as paginas 3 e 4 e 29 e 30, mesmo desrespeitando os direitos do leitor enquanto con- sumidor (que nem alertado foi para a falha, ainda que ela tivesse outra explicaqAo). No iltimo do- mingo, 26, o expediente da publi- ca~io jA nao trazia mais o nome de Romulo Jr. Mas se o prop6sito foi o de li- vrar o cap do grupo Liberal do ris- co de ter sua eventual candidatura impugnada, o objetivo nao foi al- cancado. E que as ediq6es de 5 e 12 de abril da revista registraram o nome de Romulo Maiorana Jr. no expediente como vice-presidente da empresa. Se a imposiao da des- vinculaQCo valeu para o desliga- mento formal do dia 3 e para a reti- rada das pAginas no dia 19, numa operacAo de emergencia, entAo Romulo Jr. torou-se inelegivel, a nao ser como costumam dizer os advogados em seus pareceres - que haja melhorjuizo em contrArio. Cabe, entao, provoca-lo. Quem to- mara a iniciativa? Por enquanto, as que aparece- ram registradas nos veiculos da casa foram apenas loas unisso- nos. Com o estardalhaqo possi- vel, 0 Liberal registrou na sema- na passada o lanQamento da can- didatura de Rominho ao gover- no ou ao senado, as duas hip6te- ses admitidas por seu porta-voz informal, o vereador Gervasio Morgado. Embora o PL (que abri- ga a ambos) seja um partido inex- pressivo na composiqao do po- der local, a iniciativa de Gervasio foi imediatamente apoiada por ou- tros vereadores, os tucanos a fren- te de todos. Caso o governador Almir Ga- briel venha a levar a sdrio esses floreios de cortesaos, como ficara a composiQio da sua coligaio elei- toral? Certamente, a indicaao de Rominho para o governor 6 ape- nas figure de ret6rica. Num encon- tro social, na semana passada, o executive admitiu para um grupo de amigos que pretend mesmo 6 ser senador. Ele parece convenci- do de que seus veiculos de comu- nica~io, responsaveis pela eleiq~o do seu ex-amigo Vic Pires Franco como deputado federal, tambem poderao carrega-lo atd o senado. Esquece que Vic era locutor pro- fissional, com empatia na tela, e muito mais afeito as atividades po- liticas. Sao pesos diferentes. Independentemente disso, po- rdm, jA ha dois compromissos as- sumidos de pfublico pelo gover- nador para o preenchimento da 6nica vaga de senador que sera disputada neste ano. Ela seria do ex-senador Jarbas Passarinho se ele assumir formalmente que 6 essa a sua pretensao para a dis- puta de outubro. Mas o governa- dor tambem ofereceu a vaga ao senador Jader Barbalho, que fica- ria ainda com a vice-governado- ria, caso aceitasse engrossar as fileiras da "Uniao pelo Pard" com oPMDB. i claro que o aparente impasse poderd deixar de existir se Jarbas Passarinho for o candidate ao se- nado. E pouco provAvel que Ja- der decide vetA-lo, apesar de vAri- as sugestdes que tem recebido nesse sentido ante a hip6tese do acordo. Mas e quase impossivel que o lider peemedebista concor- de cor a destinagao dessa vaga ao representante do principal concorrente no mercado de comu- nicaqes (aldm de concorrente, ad- versirio pessoal e inimigo nao de- clarado). Mais do que apresentar-se para valer como candidate a um cargo eleitoral, em relacio ao qual tem sido tao idiossincratico, a inten- cao de Romulo Jr. nao serAjusta- mente a de contribuir para invia- bilizar um acordo entire Almir e Jader, forqando o primeiro a se definir e desestimulando a aproxi- magio do segundo? Essa 6 uma interpretacgo bem plausivel. Mas como a political no Para se tornou um monop6lio de families, as geradas pelo sangue e as formadas pela afinidade de interesses (ou as duas coisas com- binadas, as families naturais e as famiglias organizadas, como as mafias), entao tudo 6 possivel, atd mesmo Romulo Maiorana Jr. estar falando a sdrio. 0 JOURNAL PESSOAL I 1 QUINZENA DE MAIO / 1998 3 Serjao e Dudu: viver e morrer Acho que foi em 1979 que conheci Sdrgio Motta. Estava na redag~o de Movimento, em Sao Paulo, e li testemunhei uma reuniao de pauta do journal. Um dos editors apresen- tou-o, quando estranhei a desenvoltura da figure desconhecida, perguntando quem era: "6 o nosso home das finangas", disse, corn uma ponta de ironia. Movimento era uma reediao, mais aberta (e piorada, acho), agora com o PC do B, da sigilosa ligagao a AP que, involuntariamen- te, tivera o grande semanario Opinido, am- bos criaqao de Raimundo Rodrigues Pereira, um dos maiores jornalistas do pais ate virar profeta. No ano anterior Serjao tivera sua primeira experidncia no assunto: fora o home das finangas da campanha do professor Fernan- do Henrique Cardoso ao senado. Era um des- bravador do mundo dos neg6cios com cabe- Ca de esquerda, qualidade rara na dita cuja, requerendo romantismo, mas exigindo tam- bWm pragmatismo. Em 1981, quando comecei a cobrir o pro- jeto para a extragAo de madeira da area que o lago da hidrel6trica de Tucurui inunda- ria, voltei a ouvir falar dele. JA era entgo o home da Hidrobrasileira, a empresa de consultoria que viria a colocar chifre em Quem fica mais tempo ligado na TV Libe- ral deve ter assistido centenas de vezes a propaganda da promoqo "Ligue ou pague", mais um desses jogos mal disfarcados de loteria que se utilizam do poder da midia. No caso, o promoter 6 o mais poderoso veiculo de comunicaqao do Estado, da familiar Mai- orana. Nada menos que 500 mil bilhetes fo- ram espalhados no mercado. Representam, leoricamente, quase 20 milh6es de reais. Se apenas 10% deles retornem ao caixa de seus realizadores, permitirao faturamento de R$ 2 milh6es. Um autentico mana. Quem ligar para uma das derivacqes des- sa praga em disseminaqgo, o telefone 900, ou pagar a cartela em ag6ncias do correio ou credenciadas, podera concorrer aos pr6- mios oferecidos: um apartamento e dois car- ros. A propaganda anuncia que os sorteios, em duas etapas, ocorrerao no pr6ximo dia 10, em intervalos do program Sai de Baixo, da TV Globo, retransmitido pela Liberal. Em letras bem pequenas, no verso da car- tela, esta dito que o sorteio "tem como base a extragAo da Loteria Federal mais pr6xima". Deduz-se que 6 a extracgo imediatamente anterior ao program do dia 10. Mas qual sera a base? Como serA a composicAo do sorteio pela televisao cor a extraao da loteria? As respostas podem ser dadas cor facili- dade, mas por quem? Legalmente, o respon- sAvel pela promoqgo d indicado na cartela cabeqa de cavalo ("cubou" 12 milh6es de metros cfbicos de madeira comercializavel na area). O tempo passou, a Lusitana rodou, e S6r- gio Motta tornou-se superministro graqas as suas ligaq6es com o principle. Aliava prag- matismo, desenvolvido em anos de proximi- dade cor o poder, a umaja vaga ret6rica de esquerda. Teria que ser pessoa indispensa- vel para o soci6logo-presidente, que conti- nua afiado na ret6rica, mas nunca foi exata- mente um executive. Ningu6m, nos bastido- res, fez tanto pelo president quanto Serjao. Deixou um v~cuo maior do que o da outra baixa, o deputado federal Luis Eduardo Ma- galhaes, essencial como contrapeso ao po- der gravitacional e magn6tico do pantagru6- lico pai. Mas nao vou entrar nesses subterrane- os e bastidores, que, por acompanhar a dis- tincia, nao sao minha especialidade. Que- ria falar sobre uma conjunqgo de fatores que, psicologia a mao, se poderia denomi- nar de eros e tanatos. Serjao e Dudu ti- nham um invejAvel appetite pela vida, tao desenfreado (por motives distintos em cada um deles) que os colocava A beira da mor- te. Enfrentavam-na com uma naturalidade - quase se diria sensual. apenas pelas suas iniciais: SRMR. Trata-se, na verdade, do Sistema Romulo Maiorana de Radiodifusao, empresa organizada em Mara- ba (provavelmente em nome apenas dos ir- maos Romulo Jr. e Ronaldo) para ter direito a concessao de radiodifusto local. Estara a empresa em atividade? EstarA plenamente le- galizada para assumir a tarefa? Estas sao perguntas ainda mais relevan- tes. 0 jogo foi legalizado pela parceria do SRMR com o Centro Social Vicente Maria, o que garantiria a bemerencia da promocqo e a coniv6ncia das autoridades cor a expan- sao do jogo no Brasil atrav6s de um veiculo complex, a televisao (assistida por todos, inclusive jovens e criancas, independente- mente do seu discernimento sobre a ques- tao). Mas o Centro estaria em condiqoes de fiscalizar, como a lei lhe assegura, participa- cqo integral no lucro, expurgando do orCa- mento despesas superfaturadas, sup6rflu- as ou fantasmas, sobretudo na divulgaq~o da promoqAo atrav6s da midia? E bom nao esquecer que os realizadores do jogo fatu- ram, no caso, como administradores do sor- teio e como seus divulgadores, ganhando em todas as pontas. NAo caberia aos canais competentes fis- calizar a promoqao com mais atencqo para evitar fraudes maiores do que essa que ja praticada atraves do telefone 900 e do con- trole da midia? * Os que estiveram pr6ximos ao falecido ministry das Comunicaqces durante sua pas- sagem por Bel6m, a prop6sito do Cirio de Na- zard, admiravam-se de ver um home tao mul- tiplamente doente se exceder no manejo do garfo e do copo. Mesmo quem de saude ter o conhecimento dos suplementos de fim-de- semana passaria ao largo das extravagancias do ministry A mesa. "Esse home esta se matando", comen- tou um dos acompanhantes. Talvez. Mas nesse desafio ao risco 6bvio estA uma dimen- sao de grandeza muito mais elogiAvel no en- tao ministry do que sua grosseria vocabulary tao decantada (6 tempos: antes seria simples falta de educapao). Tamb6m se dizia de Luis Eduardo Maga- lhaes que buscava a morte fumando, beben- do e comendo tanto, em tao prolongados pro- gramas sem fronteiras e limits. A vontade de viver, As vezes, existe em tao intimo conta- to com a imindncia da morte que para perso- nalidades fortes e absorventes como os dois a opqgo conventional seria viver ou morrer. Optaram por viver e morrer e nisso foram realmente grandes, de uma grandeza que fal- ta aos incensadores que choraram sobre os tumulos dos dois com textos de arabescos faceis ou posturas de almanaque. * Reencontro Ningumr deu, mas, durante a convenago do PFL, em Brasilia, tr8s meses atris, o senador Jader Barbalho e o ex-prefeito H61io Gueiros trocaram entire si as primeiras palavras desde que substituiram as cordiais relates de amigos pelas de inimigos, ji 1~ se vio pelo menos oito anos. Foi apenas um cumprimento formal, embora amistoso, trocado pelos dois personagens. Eles se viram inesperadamente um diante do outro no "corredor do tempo", que liga o Senado A CUmara Federal. Como a guerra aberta do passado foi substituida pela possibilidade de uma nova alianca political, o acaso permitiu que rompessem a longa quarentena, mas nenhum dos dois achou ainda chegada a hora para uma conversa mais profunda do que o "tudo bem?" do reencontro. O deputado federal Vie Pires Franco, que ja carregou muita fita de video para H61io, vai continuar funcionando como pombo-correio, levando e trazendo mensagens entire os dois ex-quase-futuros amigos. 0 avango do jogo 4 JOURNAL PESSOAL I 1A QUINZENA DE MAIO / 1998 0 ex-presidente JoAo Belchior Marques Goulartja estava mais de nove anos no exilio uru- guaio quando, em outubro de 1973, recebeu um telefonema do ditador do Paraguai, Alfredo Stroessner (hoje vi- vendo um exilio dourado no Brasil). De- veria ir imediatamente a Assunqgo. Des- confiado, Jango embarcou num jatinho com a esposa, Teresa (a primeira bela Te- resa da alta political brasileira). Foi ao Mi- nist6rio das Relag6es Exteriores e, para sua surpresa, la j o aguardava um passaporte paraguaio, no qual estava impressa uma solicitagao official para permitir ao porta- dor do document "passar livremente" por onde fosse. Durante todo esse period, o governor brasileiro, controlado pelos militares, que haviam derrubado Jango, negavam o pas- saporte solicitado cor insistdncia por um ex-presidente da Repiblica. Jango vinha desejando ardentemente viajar para a Eu- ropa por tr8s motives: tratar da saide, ver os filhos e fugir das ameagas de morte que lhe vinham sendo feitas no Uruguai, onde, al6m de exilado, estava confinado pela fal- ta do passaporte. S6 tres anos ap6s a iniciativa de Stroes- sner, o govemo brasileiro fialmente for- neceu o document ao qual tinha direito um cidadao national. Mas Jango pouco uso poderia fazer do passaporte: seis me- ses depois, quando estava cor 58 anos de idade, morreu de enfarte, ainda fora das fronteiras do pais que tanto amou. S6 vol- tou a tocar o territ6rio do seu Rio Grande morto: Por que um tipico ditador latino-ameri- cano, de extrema-direita, haveria de socor- rer o ex-presidente de um pais limitrofe que fora derrubado, por outros militares como ele, sob a acusagao de esquerdis- mo? Motivos oficiais aparentes existiam: Stroessner seria grato ao tratamento cor- dial que Jango lhe dispensou enquanto es- teve no poder no Brasil. Mas o epis6dio pode nao passar de mais um component da "vocacao latino-americana para o sur- realismo", como prefer arriscar o jorna- lista Geneton Moraes Neto. Essa incrivel hist6ria do passaporte ele a revela em Dossie Brasil A hist6ria por tras da Hist6ria recent do pais (Edi- tora Objetiva, 249 paginas, 1997, R$ 19,00). Por que ningu6m a contou antes? A ex-primeira dama Teresa Goulart, teste- munha privilegiada do epis6dio, guardou o segredo durante tantos anos porque "nao gosto de estar falando" e porque "nunca ninguem me perguntou". Geneton 6 dessa espdcie de jornalistas (em exting~o?) que ainda nIo esqueceram que sua principal tarefa 6 perguntar, fa- zendo da inquirig~o em geral um oficio, As perguntas vitais, mas sempre procurando formular as per- guntas certas para as pessoas certas. Os segredos s6 persistem ao long do tempo porque ninguem procura desvenda-los. No seu livro mais recent, Geneton saiu atras de personagens falantes, que falam por moto pr6prio ou estimulados por en- trevistador convincente que nem ele, e de documents, vasculhados em arquivos oficiais em Londres e Washington. Rela- t6rios guardados em repartigres piblicas como o Foreign Office britfnico ou o Na- tional Security Archive americano sao pe- riodicamente liberados para consult. S6 que nao 6 dado aos brasileiros ir la garim- par o que diz respeito A hist6ria do pais, ajudando a reconta-la a partir de uma pers- pectiva exterior, As vezes comprometida pelos preconceitos, mas desbloqueada dos provincianismos e localismos. Gragas a essa investigagao, Geneton contribui para a elucidag~ o de alguns mo- mentos cruciais da vida brasileira contem- poranea. Um deles 6 a morte de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, ocorrida em agos- to de 1976, quatro meses antes do desa- parecimento de seu aliado, JoAo Goulart. Outras coincidencias mais fortes continu- am a sugerir que o acidente automobilisti- co na estrada Rio-SAo Paulo, que vitimou o ex-presidente, tamb6m cassado pelos militares em 1964, nao teria sido exatamen- te accidental. Um element perturbador 6 uma carta confidencial que, um ano antes, o chefe da policia se- creta do general Pinochet (colocado no poder no Chile dois anos antes atraves de um golpe que derrubou da presidencia ou- tro esquerdista latino-americano, o medi- co Salvador Allende) mandou para o che- fe do Servigo Nacional de Informag6es bra- sileiro, general Joao Baptista Figueiredo (que em seguida se toraria o derradeiro president do ciclo military de 21 anos). A correspond6ncia, sugerindo a exist6n- cia de um piano para eliminar politicos in- c6modos aos dois paises que estavam fora de suas fronteiras, foi revelada, um ano ap6s a morte de JK, pelo jornalista ameri- cano Jack Anderson. Mas ainda nao 6 pos- sivel dizer se as mortes violentas de Jus- celino e Orlando Letelier, ex-chanceler chileno que fazia campanha nos Estados Unidos contra a ditadura em seu pais, re- sultaram de uma mesma ofensiva binacio- nal arquitetada nos subterrineos do apara- to official. HA indicios de que o choque entire o car- ro que conduzia JK e o 6nibus que vinha pela via Dutra em sentido contrario pode ter sido provocado. Mas tamb6m deve-se considerar que o ex-presidente decidiu voltar ao Rio de Janeiro de suibito, convo- cou seu cansado motorist particular e veio com ele num carro velho (como o pr6prio condutor), expondo-se ao acidente. Se houve um atentado, a hip6tese ainda esta pendente de prova. Mas indiscutivelmente houve impericia do condutor. Nem sem- pre o que parece, 6 (como provou Nor- man Mailer na sua reportagem-romance sobre Lee Harvey Oswald, o matador - solitario, no ponto de vista de Mailer do president John Kennedy). Se persiste a duivida a respeito, um dos testemunhos coletados por Geneton, o do medico Guilherme Romano, reconstitui o final dos dias do politico mineiro de tuna forma contrastante com a image por ele criada ao long de sua vida piiblica. Ro- mano diz que JK morreu "tao infeliz", "como um trapo", "com raiva". Nao 6 de admirar: fora cassado, impedido de voltar a presidencia da Repfblica (seu sonho maior: seria o segundo, depois de Getulio Vargas, a conseguir a faganha, cor a dife- renga de, nas duas vezes, alcangar a elei- lao pelo voto direto e universal), humilha- do nos Inqu6ritos Policiais-Militares (os IPMs, de triste mem6ria), forgado ao exi- lio, perdido as iltimas esperangas cor a extincgo da Frente Ampla (reunindo-o a Jango e Carlos Lacerda), derrotado na ten- tativa de ser "imortal" da Academia Brasi- leira de Letras e submetido a cirurgias que tiraram-lhe o vigor. Natural que o JK alegre, otimista e vo- luntarioso no exercicio de poder se tives- se tornado um home triste e depressive, inseguro, pessimista no ostracismo. Ou havera ainda outros segredos a espera de revelagdo? Romano apostava na segunda hip6tese. Ele arrecadou ("surrupiou" seria expressao muito dura?) cartas pessoais do ex-presidente que estavam num aparta- mento no qual JK se encontrava cor a amante. Essas cartas, se reveladas, pode- riam destruir "o mito de Juscelino", tea- traliza Romano. O medico morreu hi quase tres anos e as cartas, que ele diz ter guardado num cofre-forte, continuam secrets. Nem o pr6prio Geneton conseguiu ter acesso a elas. Mas, na entrevista que fez com Ro- mano antes de ele morrer, tamb6m nao foi muito elucidativo sobre quem era o perso- nagem. Talvez nem precisasse mesmo. Julgando estar se elogiando, Romano se declara homem que nao se vende a toa". Estaria querendo dizer cor isso que era JOURNAL PESSOAL I 1" QUINZENA DE MAIO / 1998 5 que nao sao feitas capaz de vender-se por um prego com- pensador? Mist6rio. Romano era um da- queles nebulosos amigos intimos do gene- ral Golbery do Couto e Silva, que desses assuntos aparentemente insondAveis enten- dia (tao impenetraveis eles eram quanto sua prosa geopolitica). A hist6ria, de resto, para ser elucidada, precisa que se faca a pergunta pela qual dona Teresa Goulart esperou tanto tempo, mesmo defrontando-se, nesse period, cor numerosos jornalistas todos des- provido da curiosidade recomendada por sua profissao. O pr6prio Geneton, que tern esse merito, nao alcanga as respostas que seu texto sugere. Seria porque nao 6 esse o prop6sito do jornalismo? Seria porque levou exageradamente a serio um limited que os grandes jornalistas, por ignord-lo, o ul- trapassaram cor sucesso? A corrupglo atribuida a Juscelino 6 um desses pontos. Em junho de 1964 o em- baixador ingles Leslie Fry garantia, em seu relat6rio confidential, revelado por Ge- neton, que a respeito "uma boa quantida- de de evid6ncias pode, sem difvida, ser apresentada". Mas 39 CPIs foram insta- ladas na Camara Federal para investigar a administrag~o JK, ao long dos cinco anos que ela durou, sem conseguir apresentar provas do que se comentava a boca pe- quena sobre a promiscuidade cor os em- preiteiros de obras (o que, em depoimen- to divulgado p6s-morte, Samuel Wainer relataria, dando nomes aos bois, sem agregar, entretanto, provas das acusa- 9oes). Ha doses de leviandade, superficialida- de, press e preconceito nos despachos diplomAticos e outros pap6is oficiais tro- cados entire as representag6es no Brasil das duas superpot6ncias e suas sedes ultrama- rinas. Um dossi6 do governor americano de margo de 1964 diz que Tancredo Ne- ves "se destaca pela intelig6ncia (embora nio por sua honestidade financeira)", sem sentir-se nem levemente obrigado a ir alem desse nivel de fofoquinha, talvez porque, como declara um relat6rio confidential de julho de 1964, da embaixada britdnica, "isto 6 Brasil". JA n6s, brasileiros, nao podemos nos permitir tal simplificag~o, ainda que ela parega produzida pela melhor antropologia inglesa, sempre tao refmada quanto colo- nialista. Temos que forgar a verdade a apa- recer confrontando pessoas e documen- tos. Geneton Moraes Neto ainda conseguiu encontrar vivo Jos6 de Moura Cavalcanti, que foi jovem governador nomeado do Ter- rit6rio Federal do Amapa, em 1961, antes de vir a ser, nas administra69es militares posteriores, president do Incra, ministry da agriculture e governador de Pernambu- co. Membro de uma traditional familiar de usineiros pernambucanos, Cavalcanti nar- rou para ojornalista o cabalistico epis6dio em que o entao president Janio Quadros pretendeu duas faganhas: anexar a Guiana Francesa ao Brasil e impedir que a pode- rosa Icomi fizesse o que queria com o embarque e transport do mangan8s do Amapa para os Estados Unidos. Moura Cavalcanti s6 nao disse e Ge- neton nao perguntou que ao saber que os navios levavam mais min6rio do que o declarado oficialmente, JAnio (talvez num moment mais etilico) mandou uma corveta do IV Distrito Naval fazer em alto-mar um disparo de advertancia con- tra a proa da embarcalao, trazendo-a de volta a Porto Santana para a confer6ncia da carga. A operag~o foi realizada, mas antes de o navio aportar em Santana, a Icomi e a embaixada americana, agindo energicamente, jA haviam convencido o president (quem sabe, menos etilico) a mudar de id6ia como acabou mudan- do. O pr6prio Moura Cavalcanti, num mo- mento descontraido de conversa (igual- mente etilica), no Hotel Grao Para, em Belem, no final de 1971, quando coman- dava o Incra (e o maior patrim6nio fundi- ario do planet, expropriado na marra dos Estados da Amaz6nia), me contou a hist6- ria, sob compromisso de sigilo. Quando ela aparecerA em document official? Quan- do documents vitais da hist6ria imediata serao bem analisados e interpretados? O livro de Geneton Moraes Neto 6 um bom estimulo. Mas se ele tivesse dado uma forma menos circunstancial aos tex- tos, rescrevendo-os (al6m de esclarecer o distinto leitor sobre quais jA foram pu- blicados pela imprensa, datando-os) e transcrito a integra dos principals docu- mentos, ou feito mais perguntas a respei- to desses pap6is e dos testemunhos que ouviu, nao se chegaria (com prazer e flu- 6ncia, 6 verdade e nao 6 absolutamente pouco) ao final de seu livro cor a sensa- 95o de que ali estao contidos mais segre- dos do que os revelados. E que seu jor- nalismo parou antes de ter chegado ao mAximo na sua missao de ir ate o fim na investigag9o. Em jornalismo, s6 se chega ao final da investigag~o quando nao se tern mais perguntas a fazer. Geneton parou antes. As perguntas continuam. * Inabilidade Para os padres do maestro, o progra- ma eleitoral apresentado na televisao pelo PFL, na semana passada, at6 que foi com- portado. Hl6io Gueiros, que espertamente sugeriu ao pfublico pretender disputar no- vamente o governor, criando espaqo para poder alvejar o que realmente esta ao seu alcance, a vaga para o senado, bateu ape- nas em dois pontos mais incisivos. Com ironia, garantiu que nao precisou de pajelanqa para governor o Par. Corn sar- casmo, protestou contra o uso dado ao ter- minal pesqueiro que, em ferro, como convi- nha, mandou construir quando prefeito de Bel6m. E tao desastrada a destinaiao que o PT estA dando ao malfadado terminal que H6lio Gueiros pode armar-se de sua lingua- gem biblica para contar a falsa hist6ria para o pfiblico, conquistando sua simpatia. Se, ao inv6s de transformar aquela es- trutura em restaurant improvisado da Ct- bel, agora, e centro cultural, no future, o PT tivesse convocado o Minist6rio Pilbli- co para apurar a mA aplicacao do dinheiro pfiblico, o ex-alcaide (raivinha como o atu- al) nao estaria posando com seu falso dis- curso de indignaqAo. Depois de ter derrotado o candidate dos Gueiros, Edmilson vai acabar ajudan- do a eleger H6lio no ano 2000. Quando nao se sabe o que se faz, faz-se o que nao se quer. Tamb6m deve estar na Biblia. Utopia Foi dupla a vit6ria alcangada por Bene- dito Nunes no mss passado. A primeira foi ser selecionado pelos promotores do Pre- mio Multicultural dojornal O Estado de S. Paulo para fazer parte da relacio dos can- didatos A premiaqao, submetidos a um co- 16gio eleitoral de tr6s mil pessoas espalha- das pelo pais. Era o imico nortista no rol. A segunda vit6ria foi a de ficar entire os tres premiados, embora a ponderaqao eleitoral do Estado e da regiao amaz6nica fossem insignificantes no total de votos dados. Ou seja: foi o restante do pais que ele- geu Benedito, ultrapassando os acordos paroquiais para consagrA-lo como um dos grandes intelectuais em atividade no Bra- sil, independentemente do reconhecimen- to dos seus conterrAneos. NAo 6 faganha que algu6m possa desmerecer, numa terra de superlatives mediocres e de consagra- 9qo que nao vai al6m do entroncamento (onde digladiam-se, aliAs, como no velho faroeste que continuamos a ser, o gover- nador e o alcaide). Benedito Nunes revela-se maior do que o Para de hoje, do tamanho do Para de sempre, ou do ParA que esperamos ver al- gum dia reconciliado com essa forja natu- ral de grandeza que torna possivel gente como Benedito. 6 JOURNAL PESSOAL I 1' QUINZENA DE MAIO / 1998 A triste I M memonr de uma epoca negra Um dos mais fieis retratos do sempre polemico Karl Marx, de cujo cdlebre Manifesto Comu- nista registra-se agora os 150 anos, foi produzido por ningudm menos do que a policia prussia- na, aquela mesma que tanto de- sejava prende-lo. Entre 1852 e 1853, o agent que espionava a familiar Marx, exilada em Londres, produziu um informede secret" para seus chefes que, se nao dig- nifica a funqao, mostra que ela pode ser exercida corn profissio- nalismo. Logo no primeiro paragrafo o "araponga" (como hoje o chama- riamos, A brasileira) justifica o cuidado de descrever a persona- lidade do visado, por ser ele "a alma do partido" dos comunistas, que ameaqavam o Estado prussi- ano corn a revoluqao (e nao mais corn a critical filos6fica radical, a que se satisfaziam os discipulos esquerdistas de Hegel). Nessa epoca, muitos poderiam reivindi- car o titulo (como Engels, Freili- grath, Wolff, Heine ou Weyde- meyer), mas o autor do informed (nao identificado no document) diz que todos nao passam de pouco mais que militants: o "es- pirito condutor e criativo" era Marx. Acertou na mosca. Nao 6 pontaria de se desprezar. Mesmo que muitos atribuis- sem ao demoniaco comunista to- das as mas qualidades cataloga- veis, o policial procurava ser im- parcial e exato na avaliaqao, fu- gindo ao maniqueismo empobre- cedor. Escreveu, entire outras coi- sas: "A primeira vista jA se nota que O um home de genio e ener- gia. Sua superioridade intelectu- al exerce um powder irresistivel sobre quantos o rodeiam. Em sua vida privada 6 uma pessoa ao extreme desordenada, cinica; um mau administrator, que leva uma aut6ntica vida bodmia. O lavar- se, pentear-se e mudar a de roupa constituem para ele atos muito pou- co freqiientes. Gosta de embriagar-se. Freqiientemente farreia dias inteiros, mas, quan- do tem muito trabalho, suporta-o incansavelmente dia e noite. Nio existe para ele um horArio deter- minado para dormir e outro para star acordado; a despeito de permanecer desperto noites intei- ras, ao meio-dia se acha comple- tamente vestido no sofa, onde dorme atd o entardecer, sem pre- ocupar-se em absolute corn o que ocorre ao seu redor". Lembrei-me desse informed da policia prussiana (incluido por Hans Magnus Enzensberger em seu volumoso Conversafoes cor Marx e Engels [Frankfurt, 1973], infelizmente nunca tradu- zido para o portugues) ao ler o dossier que a DivisAo de Segu- ranqa e Informacqes do Ministd- rio da Justiqa formou sobre o en- tao professor Fernando Henrique Cardoso, entire 1964 e 1985. Toda aquela papelada, divul- gada duas semanas atrAs pela imprensa, e um amontoado de inutilidades. Jamais poderia ser usada em defesa da razao de Es- tado, mesmo um Estado autoritA- rio (como diria o pr6prio Fernan- do Henrique, antes de tornar-se FHC) e policial, um Estado san- guinariamente barroco, mas nAo modern. O profissionalismo do agent prussiano (que preferia conhecer o inimigo, ao inv6s de simplesmente anatematizA-lo) passou muito long das cabeqas (do tamanho da cabeqa de um al- finete, como o Jornal do Brasil diria de uma censora em atuaqAo por aqui nessa mesma 6poca) dos homes que produziram as asnei- ras reunidas no dossi6 do DASI. Sao eles simpl6rias reencarna- C6es de sub-Torquemadas ten- tando ser agradaveis ao chefe (como sempre, nas burocracias mediocres). O que nao teriam escrito os arapongas (ja sem aspas) do Mi- nistdrio da Justiga se defronta- dos com a besta-fera, lui-meme Karl Marx? Esconjurariam, decer- to. Pois garantem em seus assen- tamentos que Fernando Henrique "faz doutrinagio comunista, de massificaco". Teriam mesmo lido um texto do "epigrafado" (con- forme o patois burocrat6s do documento? Nao precisaria muito: bastaria um "v6o de passaro" (como cos- tuma dizer em francs, natural- mente o ex-senador Jarbas Pas- sarinho) sobre a introdugao me- todol6gica ao clAssico trabalho do nosso soci6logo, Capitalis- mo e Escravidao no Brasil Me- ridional, para tirar da cabega a iddia de que algum dia, antes de se tornar estrela global, Fernan- do Henrique pudesse ter aspira- do a massificacao. Escrevia complicado, escre- vendo mal, o nosso FHC (que agora nao mais escreve: usa ghost-writers). L8-lo exige paci- 6ncia, discipline, espirito de re- signagio e, 6 claro, certa forma- qlo academica. Nao 6 para mas- sas. Nao era, antes de recorrer As liq6es e trucagens da political, atravds do uso da midia (embora, dando aula, fosse incomparavel- mente mais claro do que escre- vendo; para as alunas, um encan- to: o que dizia era acess6rio, ou supdrfluo). Estupidez do mesmo quilate 6 o "araponga" do Ministdrio da Justica, ao tempo do nosso im- perial general Geisel, acusar o professor Cardoso de "instigar a violencia como formula de solu- cionar a problematica marxista" (qual "problemitica", cara-pAli- da?), ou que suas id6ias deixas- sem clara "sua bitolagem aos dogmas marxistas" (luta de clas- ses, ditadura do proletariado e imperialismo sao e sempre foram conceitos ex6ticos e hostis para ele e os demais uspeanos do seu grupo, que se empenharam jus- tamente em negar esses dogmas, comn razao ou sem). O prontuArio do DASI regis- tra, em 1964, queentre 1955 e 1956 o future FHC "convenceu-se do erro [de rela- cionar-se por dois ou tirs anos corn intelectu- ais comunistas] e afastou-se em definitive" do Par- tido Comunista, nunca mais exer- cendo "qualquer tipo de atividade ou de militAncia political comunis- ta, socialist ou que fosse". No entanto, 11 anos depots, ao analisar o livro Autoritaris- mo e Democratizafao, os ara- pongas constatam "ser o epigra- fado comprometido cor elemen- tos comunistas". Teria o profes- sor recaido na doenga em rela- q~o a qual seus pr6prios espi- 6es o declaravam jA imunizado, ou os analistas de araque nao se deram sequer ao trabalho de ir olhar as fichas do Ministdrio (anotadas cumulativamente, sem preocupagao cor coerencia e continuidade, uma anotagAo posterior podendo contraditar a anterior). O prontuario sobre o "mnargi- nado" (outra preciosidade do burocrat6s) cont6m muitas outras sandices. Fernando Henrique 6 acusado de ter introduzido no Brasil "cerca de 50 padres reden- tores [nao seriam redentoris- tas?] que nao usam batina", cri- me considerado atentat6rio a se- guranqa national em 1969. Dois anos depois, quando vinha "ori- entando o jomal Opiniao, seus titulos eram "te6logo e professor universitario", mesmo sendo apontado um ano antes, no dos- si&, como "cripto-comunista". Seu Centro Brasileiro de AnAlise e Planejamento (Cebrap) vira ora Sociedade Brasileira de Planeja- mento, ora Instituto de Pesqui- sas Econ6micas (nem ir A lista telefonica os "arapongas" foram para conferir a designaqco cer- ta). Um espiao infiltrado em Ge- nebra (que prefer escrever Ge- neve, talvez para demonstrar cosmopolitismo), num trabalho que deve ter-lhe rendido elogi- os, descobriu entire os crimes do "marginado" em 1972 o de ha- ver recebido na Suiqa "o livro intitulado Polgmica" (quanto a naqao deve ter gasto para obter no exterior tao vital informa- Cao?). Mas outro crime o nosso professor nAo conseguiu con- sumar: ao arvorar-se a traduzir o recdm-lancado (em 1974) Osmi- litares na political, hoje um es- tudo clAssico sobre o tema, do brasilianist Alfred Stepan, Fer- nando Henrique pretendia (ve- jam s6) usar a traducao para "deturpar a verdadeira atuaqao das Forqas Armadas no proces- so politico brasileiro". Ainda bem que nao conseguiu essa fa- qanha lingiiistica: antes de ser alvejado pela policia brasileira, certamente iria ser processado pelo historiador americano. JOURNAL PESSOAL I 1" QUINZENA DE MAIO / 1998 7 No primeiro dia de aula pedi aos alunos para citar um livro que os tivesse marcado. Um deles referiu-se a Brida, de Paulo Coe- Iho. Perguntei se tambdmjA lera Herman Hes- se. Tanto podia ser Demian como OLobo da Estepe. Um outro aluno interrompeu para di- zer que havia lido Sidarta, talvez motivado pelo filme. Quem, na idade certa (talvez entire os 13 e os 15 anos), tivesse lido um desses tr6s livros de Hesse dificilmente iria ao Coe- lho. Chegaria, por certo, ao Jogo das Contas de Vidro e iria bem aldm a partir dai. Quem sabe, a Thomas Mann, com quem Herman Hesse trocaria cartas interessantissimas, es- critas e recebidas As margens de um lago su- ico. Observa-se, corretamente, que Paulo Co- elho ter sido a principal porta de entrada dos jovens atuais ao mundo dos livros. De- duz-se incorretamente, a meu ver que depois desse choque inaugural o leitor esta- rd definitivamente apresentado A literature, nao mais abandonando-a. Observo, ao con- trario, que quando um livro de Paulo Coelho d o primeiro que umjovem 16, s6 outro Paulo Coelho se Ihe segue, ou produto equivalen- te. Poucos escapam A quadratura desse cir- culo de ma literature e mensagens muito falsas. quando nao supinamente superficiais (que, devotamente, tento sem sucesso ler). Nao consegui conciliar o sono quando terminei, na idade certa, a leitura dos livros de Herman Hesse. A interpretacqo que ele dava A marca de Caim era para mim, Aquela altura, originalissima e revolucionaria (Cairn nio era o invejoso estigmatizado pela Biblia: era o diferente). Pensei sem parar nessa nova maneira de ver uma velha hist6ria. Marcou-me cor o fogo das iddias fortes. Uma simples palavra (quirguiz) me fez saltar de Demian para a Montanha Mdgica, intuindo um paralelismo entire Hesse e Mann do qual s6 viria a ter consci8ncia plena ao ler-lhes a correspon- d6ncia. Aprendi a tirar liq6es do mimetismo. O olhar quirguiz de Clauwdia Chauchat e de Demian expressavam a ubiqtiidade (ou ambi- giuidade) dos seus criadores (como, na nos- sa literature, de Guimaraes Rosa, com seu Riobaldo/Diadorim). O Paulo Coelho de hoje 6 o mesmo de on- tem, lembram os seus defensores. E verdade. Nao se pode acusA-lo de charlatfio. O pfubli- co 6 que mudou. Quer respostas positivas, formulas prontas, fAceis ou acessiveis, que, nao podendo (ou nao querendo) alterar em substAncia as estruturas de poder deste mun- do, tornam-se esotdricas, miraculosas, mas fazendo-as uma extensao do corpo, a supra- materialidade que as religi6es classicas j nao dominam, restritas a ura espiritualidade transcedental (ur ponto alnm em matdria de metafisica, mas inapropriada para o atual mercado. que busca outra linguagem). O Paulo Coelho que era a face B de Raul Seixas acomodou-se como luva a esse vasto circuit de sub-literatura e sub-sabedoria, um dos elements universais dessa tal de globa- lizagio. Os que se extasiarem corn ele, ficarao nele e nos seus equivalentes. E um mercado poderoso e invejAvel para os que criam vi- sando fama e dinheiro. O que me espanta 6 que algudm qualitativamente abaixo de Raul Seixas tenha agora um sucesso que o mestre, em sua dpoca, jamais teria, nem mesmo se atreveria a sonhar com. Mais do que porta de acesso ao mundo inexcedivel dos Homero, Dante, Shakespea- re ou Joyce, que alargam a percepcqo dos homes e dAo-lhe a dimensao do que 6 a so- ciedade humana, o seu mistdrio real, incorpo- rado A mente, Paulo Coelho 6 uma bela e bem cultivada rua sem said. Ele, que nao mudou, sabe disso. Os que mudaram tamb6m sabe- rao um dia, que nao esta tao long quanto o brilho do fogo-fAtuo poderia sugerir. * 0 intense brilho do fogo-fatuo Ler o papel6rio desencavado dos arquivos soturnos do Mi- nistdrio da Justica (sob o reina- do de Armando FalcAo, aquele que comeu abil) s6 nao foi um exercicio inftil por tres motives. Em primeiro lugar, fez-me lembrar da palestra que, a nosso pedi- do, do Centro Academico da Escola de Sociologia e Politica de Sao Paulo, o admirado Fer- nando Henrique fez em 30 deju- nho de 1971, naquele bangal6 simpatico que a plutocracia pau- lista instalou na ddcada de 30 na rua General Jardim (e nao Caio Prado, como aparece no prontu- ario), de cuja existdncia a repres- sao se tinha esquecido (feliz- mente). Cor seu terno de linho bran- co, o professor, jA aposentado compulsoriamente da USP (o que multiplicou seu carisma), falou sobre a "teoria da depen- dencia" para uma platdia que lo- tou a sala acanhada, todos com uma orelha antenada na estrela falante (sem grilo) e outra ras- treando ruidos suspeitos que pudessem vir de 16 de fora, um armisticio nao reconhecido que se estabeleceu entire os exilios do soci6logo naqueles tempos incertos. Recordar (tambem) 6 viver. O outro motive foi rir da estul- tice dos nossos espioes verde- amarelos, um riso inc6modo por- que se associa imediatamente A irracionalidade congenita no Es- tado policial, seja ele um Leviata ou um Behemoth. E estA ai a ter- ceira razao pedag6gica da leitu- ra: exorcizar os riscos de uma re- cidiva autoritAria e policialesca no pais. O nosso principle dos soci6logos. que deu motive a esse festival de asneiras, agora que 6 apenas (apenas?) principle, bem que poderia empenhar-se um pouco mais para ajudar a dissi- par do horizonte os indicios da presenqa dessas bruxas, que, mesmo quando parecem invisi- veis, nao sao exatamente invisi- veis deste lado do rio Grande. Como diria Goethe, no seu fi- nal: luz, mais luz. E a maneira de espantar as trevas, as que exis- tem e as que podem voltar a exis- tir, consumindo nosso dinheiro, nosso tempo e nossa inteligen- cia, al6m de numerosas de nos- sas vidas, cor demonologias como essa, extraida do sarc6fa- go do minist6rio de Armando Falcao, o mudo convenient. * Grilagem jomalistica Sem a preocupacdo de fazer um levantamento exaustivo, outro dia contei 21 colunas em A Provincia do Pard e 10 seq6es fixas. No Di6rio do Para havia 24 colunas e cinco seqces. Em 0 Liberal, 15 colunas e 16 secqes ou espagos cativos de articulistas. O Liberal se da ao luxo (luxo?) de ser ojornal brasileiro com mais colunas sociais diArias: sao cinco, duas locais e tres nacionais (estas, "ilustradas" cor fotos de jovens da sociedade local, em nenhum moment referidas nos textos das colunas). Gracas A venda em pacote feita pelas ag6ncias nacionais de noticias, o leitor de Beldm pode ter contato cor colunas e articulistas importantes, antes inacessiveis. Mas esse facilitario engendrou um excess, que se infiltrou localmente. Pessoas sem experiencia ou prepare ganharam colunas na grande imprensa sabe-se la por quais motives (nao por saberem escrever ou serem bem informadas). Certas colunas dao vexame todas as vezes em que sao publicadas e ningudm toma uma providencia corretiva. A figure do colaborador 6 salutar na imprensa, desde que seja algudm de not6rio saber, que se haja tornado important fonte de informaqAo ou cujas avaliaq6es enriquecam o saber coletivo. Parte considerAvel dos colunistas nao se enquadra nesses critdrios. Logo, eles nao podem ocupar o espago que lhes foi aberto. Tornaram-se usurpadores da opiniao pfiblica. Algumas colunas viraram gazuas. O abuso deve ser combatido. Por quem? Legalmente, pelo sindicato dos jornalistas. Nao eliminando os colaboradores, mas mantendo-os na margem recomendada pela lei e pelo bom senso. Antes que os jornais virem neg6cio entire compadres. * Errat,' Ancelmo Gois dasst npncil- i timo Radar de Veja que a Parana- panema "produz mais prejuizo do que manganes". Quantd'ao pre- juizo, estA certo. Mas d estanho o que a empresa extrai do Ama- zonas, na maior mina do mundo, a do Pitinga (o fnico produtor de manganes que conta 6 a Compa- nhia Vale do Rio Doce). Quando Octavio Lacombe vivia, a Para- napanema era sua cara. Hoje, 6 a dos funds de pensio. Parece que nao melhorou nada com essa mudanga. Apenas ficou mais pa- quid6rmica. Precocidade O Encontro da Juventude do PSDB, realizado em Bel6m no 6lti- mo dia 25, poderia ter provocado em Rosamundo, o desligado per- sonagem criado por S6rgio Porto enquanto Stanislaw Ponte Preta, a reflexao: taojovens eja tucanos. Nossa luta A melhor maneira de ajudar o Jornal Pessoal a resistir 6 com- prando-o nas bancas ou fazendo uma assinatura, para si ou para outras pessoas (de preferencia, de fora de Belem). Uma assinatu- ra trimestral custa 15 reals. Uma semestral (que comeqamos a ad- mitir, atendendo pedido de leito- res), R$ 30,00. A forma mais ade- quada de fazer assinatura 6 pre- enchendo um cheque nominal para Licio Flavio de Faria Pinto e enviando-o pelo correio para rua Aristides Lobo, 871, Bel6m, Pard, 66.053-020, juntamente com os dados pessoais nomee complete, profissao, endereco, c6digo pos- tal, forma de assinatura). Dep6- sito tamb6m pode ser feito na conta 201.512-0 da ag6ncia 0208 do Unibanco, em Bel6m. E assim que um journal identificado com os interesses do povo sobrevi- ve: com o povo sustentando-o - e nao anunciantes, o governor ou um mecenas oculto. SRS I~~~ ~ -' *' I Gileno Miiller Chaves esta distribuindo entire os amigos um texto precioso: "A Evoluqco das Artes PlAsticas no Pard (vesao preliminary" que recons- titui seu depoimento A Unama, paralelamente ao IV Salao de Pequenos Formatos, no m6s passado. E um document precioso porque recolhe ca- cos que ficaram no meio do caminho da evolucio da arte no Estado, gracas a essa virtude (cada vez mais rara) de perceber em fragments o todo que os comp6e, explica e define. Gileno consegue, por isso, dar uma visdo em perspective e sistematiza- dora de algo sobre cuja exist6ncia muitas vezes nem conseguimos nos aperceber. Mas tamb6m 6 um texto valioso pelo sense of humour tipico e definidor desse nosso mais impor- tante marchand, mais do que tudo um conversa- dor apreciAvel e um observador implacAvel por tr6s do seu espirito sard6nico. Gileno nao abre mao de pensar e de dizer o que pensa, mesmo que venha a pagar caro por isso numa terra avessa a disso- nancias. Ganham seus leitores pelas infonnaaqes que preservou e organizou. Mas ganham tamb6m pelo humor e a ironia na apresentac~o, complemen- tados por um tom de indignaqgo que Ihe advdm da autoridade moral e do "saber fazer". Como esse texto xerocopiado estA em verso preliminary, espero que Gileno Ihe d8 a feiqgo defini- tiva e o transform em livro. EstA a altura da nossa car6ncia de uma hist6ria das artes plasticas no Es- tado. O texto de Gileno nao deixa dfvida de que essa hist6ria 6 muito mais rica at6 do que suspeitA- vamos, mas nao tem a solenidade que Ihe atribuem os que, nao a conhecendo de fato, usam-na em proveito pr6prio, aproveitando-se das convenien- cias dominantes. Enquanto o livro nao sai, ampliando o universe de leitores dessas menos de 50 paginas, pego o mote e transcrevo um trecho que diz respeito a este journal, dividindo com meus leitores o generoso es- timulo de Gileno. Diz ele: "'Por aqui, osjornais, como o Jornal da Tarde, de Sao Paulo, nao precisaram publicar 'receitas de bolo' em lugar de matdrias censuradas. Os proprie- tarios dos jornais faziam voluntariamente essa se- leqgo, em consondncia com as leis consuetudindri- as da obediencia irrestrita. Assim aconteceu atd setembro de 1987, quando apareceu o 'Jornal Pes- soal' e o tinel. Por isso mesmo, o Pard pode e deve participar da hist6ria da prensa e da imprensa, sem- pre que nos referirmos a imprensa alternative, in- dependente e democritica resistente. O Jornal Pes- soal convive com a verdade; com a noticia limpa, cristalina, do interesse pfublico. Por isso, convive corn cinco processes, costumeiras ameacas de morte e, comecando pela Delta Publicidade, deve ter passado por seis grdficas. E o tal do silencio conivente: as almas pequenas ainda nao entende- ram que ser ou estar a favor do 'Jornal Pessoal' nao importa em ser contra nada". Gileno toca num ponto important das relaq6es da imprensa com o poder: a aceitaqgo pacifica da auto-censura. Jornais que nunca deixaram de ex- pressar um pensamento de elite, que se mantive- ram nos pardmetros do seu neg6cio, ainda assim. nao renunciando ao compromisso obrigat6rio cor a opiniao pfiblica (o que nio deixa de ser uma razio de neg6cio, s6 que neg6cio especial, nto o de uma quitanda), resistiram a repressio official. Tiveram que ser submetidos A forqa, atravds da censura go- vernamental. Nunca poderiam ser apontados como subversivos. Mas tamb6m nao seriam acusados de coniventes com aquilo que deveria ser coisa sagra- da para os proprietArios de empresas jornalisticas de verdade: a liberdade necessdria para informar corretamente a sociedade. Entre esses jornais resistentes esta o Jornal da Tarde, o vespertino da familiar Mesquita, proprieta- ria de O Estado de S. Paulo. Enquanto o journal principal (e mais antigo) publicava duas vezes a integra de Os Lusiadas, a obra-prima de Cam6es, para cobrir os espacos abertos pela aqgo da censu- ra, ojovem vespertino recorria as receitas culindri- as. Num fim de noite, estou encerrando o plantao na redaqao paulistana do Estadao quando toca o telefone. E uma leitora, pedindo para registrar seu protest. Usando expresses mais sofisticadas, de- clara-se antiga leitora do tradicionaljornal. E nesse dia notara um grave erro no vespertino da casa: estavam publicando a mesma receita pela segunda vez. Ao ler a receita, desconfiara. Uma ida ao cader- no de recortes confirmara: aquela receita ji havia said. "Nao se faz maisjornais como antigamente", protestou. Tive de Ihe explicar o que estava acon- tecendo de fato. Elajamais supusera que aquele rol de receitas era um present involuntArio, forqado pela censura. O texto aqui reproduzido de Gileno Chaves ter essa func6o de advertir os incautos, aqueles que, como no poema de Bertolt Brecht, sao ing6nuos porque sao insensiveis. Desse mal o nosso insubs- tituivel marchandjamais poderd ser acusado. Marketing Das 424 primeiras pIginas da iltima ediCio do catilogo telefonico de Bel6m, rec6m-distribuido ao pfblico, 255 pdginas tnm annicio da Funda- OCo Nacional de Saide. A publicidade se resume a um selo no alto da pagina corn a logomarca da FNS e seu telefone. Nenhuma mensagem de utilidade piblica. Ou nao entendi o segredo desse marketing, ou nio hA segredo mesmo: trata-se de malversag~o de dinheiro pfiblico. Que tal incluir esse item na relagFo dos temas a serem apurados sobre a administraco anterior da fundado, que tanta polemica tem provocado? A coragem Sdo critic Journal Pessoal Editor: Lucio FIlvio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo, 871 / CEP: 66 053-020 Fone: 223-1929, 241-7626 e 241-7924(fax) * Contato: Try. Benjamin Constant, 845/203 / 66 053-020 Fone: 223-7690 e.mail: lucio@expert.com.br Editorag o de arte: Luizpe / 241-1859 |
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| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 40 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |