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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00134

Full Text





jomal Pessoal (4
L U C.l 0 F L A V 1 0 P I N T 0 4 antas
IY .86 2182 QUINZENA Dt RI_ O A doS biIh6 j
EL.E; ,O r- (PAG. 3)
I{ ik. '" i ELEIQAO---


i da political


I a um novo projeto de
I oder politico no mer
cado: 6 o de Romulo
Maiorana Jr., o princi
Spal executive do grupo
Liberal, o maior con-
trolador das comunicac6es no Para.
Desde que alcangou a maioridade, Ro-
minho vem tentando ser politico, mas
so no dia 3 tomou uma iniciativa mais
concrete nessa diregao. No ultimo dia
do prazo para a desincompatibilizaCao
dos que pretendem concorrer a elei-
co de outubro. o empresario se afas-
tou da direcao do Sistema Romulo
Maiorana de Comunicagao, do qual 6
vice-presidente. Seu nome foi retirado


o novo astro da political paraense
nunca foi politico, nunca
disputou voto, nunca se
Sinteressou pela vida
Spublica. Mas comanda
uma corporaado que pode
influenciar, como poucas,
o eleitorado de outubro. E
SRomulo Maiorana Jr., o
S // principal executive do grupo
Liberal. Ele ndo admit ser
menos do que senador.



A secao Em Poucas Linhas, da co-
luna Repdrter 70, que todos sabem ser
a voz do dono em O Liberal, abriu no
ultimo domingo, 12, cor duas notas bem
do cabegalho e do expediente do jor- ao estilo do ventriloquo. Proclamava o
nal O Liberal. primeiro potin: "Em resposta as lorotas
O claro sinal de que Rominho estava de que seria candidate de A, B ou G,
cumprindo a legislacgo eleitoral para Romulo Maiorana Junior responded ca-
poder se apresentar como candidate pro- teg6rico: Vice, s6 de minha mae, D6a
vocou uma onda avassaladora de boa- Maiorana". Completava a segunda nota:
tos. Na maioria deles, atribuia-se ao ne- "Cargo eletivo, s6 de senador ou gover-
6fito em political a vice-goveradoria ou nador, pois s6 assim o povo do Para po-
a suplencia do senado na coligacgo situ- dera realmente avaliar o meu trabalho".
acionista. Mas se havia quem s6 conse- Em tao poucas linhas, alguns erros de
guia visualizar o impresario em v6os linguagem. Citacao, por exemplo, deve
mais baixos em funcgo de sua falta de ser reproduzida entire aspas. Se o pri-
experiencia politico-partidaria ou de seus meiro titulo (Vice) 6 grafado cor mai-
padries de vida, que combinam muito uscula, os segundos (senador, govera-
pouco cor os de um politico profissio- dor) deveriam ter tido o mesmo padrao.
nal, o pr6prio Rominho tratou de man- A repetiaio de uma expressao ("s6") no
dar um recado adequado. mesmo period aconselhava um sin6ni-)


CONVENIO DA FUNTELPA CONTINUE
(PAo. 3)









) mo (no caso, "apenas"). Admite-se que
um membro de senadinho (de bar, res-
taurante ou clube) se refira a "lorotas",
mas um aspirante ao senado da Repu-
blica deveria empregar ainda mais por-
que em texto impresso para o public -
termo mais adequado (como boatos).
Mas o estilo 6 o home, disse um dia
Buffon. Sem pretender corrigir o estilo
do novo candidate a cargo majoritario
(tarefa estilistica, ademais, condenada
antecipadamente ao fracasso), convem
interpreter os atos e recados de Romulo
Maiorana Jr. Eles significam, em primei-
ro lugar, que um dos homes mais pode-
rosos.do Estado resolve abandonar a
informalidade do seu poder, sua dimen-
sao tecnica, que deriva do seu grupo de
comunicagco, para entrar na dispute po-
litica aberta. E o primeiro Maiorana que
deixa a posigao de intermediador para
criar um polo aut6nomo de poder.
Ate entao a familiar havia optado por
usar seus veiculos de comunicacao, que
dominam os segments de journal, radio
e televisao, como instrumentos explici-
tos de neg6cio e meios indiretos de po-
der. Romulo Maiorana pai, o criador do
imperio, apoiou candidates (as vezes ate
em posic6es conflitantes, agindo explici-
tamente em relacio a uns e nao-decla-
radamente em relacgo a outros), mas
jamais quis ele pr6prio ser politico. Sa-
bia que, agindo assim, poderia limitar (e
delimntar) seu campo de agco empresa-
rial. Para superar essa restriCio, teria que
assumir todas as conseqtincias de um
embate aberto cor adversarios, muitos
dos quais poderiam converter-se em ini-
migos mortais. Preferiu ficar sempre
como eminmncia parda.
O mais famoso dos filhos (e o verda-
deiro herdeiro no comando da corpora-
C9o) decidiu finalmente dar o pass que
ha muito tempo vinha ensaiando e o
pai evitou. Logo depois de alcanCar a mai-
oridade, Rominho filiou-se ao PMDB,
junto cor seu amigo intimo (hoje inimi-
go) Vic Pires Franco. A ficha foi abona-
da pelo entio governador Jader Barba-
Iho. Vic ingressou na political, chegando
na iltima eleigao a deputado federal pelo
PFL, ja rompido cor o amigo de muitos
anos. Rominho ingressou no PL, na com-
panhia de outro amigo do peito, o verea-
dor Gervasio Morgado (seu outro irmao,
Ronaldo Maiorana, director corporativo
dojornal, entrou no ano passado no PPS,
que derivou do antigo Partido Comunis-
ta, o pecezdo, com a intengao de se can-
didatar a deputado).
As eleig6es se sucederam desde a pri-


meira filiacao, mas Romulo Jr. n~o ha-
via dado, ate o inicio do mes, nenhuma
demonstraCgo de que superaria a inde-
cisao e se apresentaria como candidate
para valer. A desincompatibilizaCio da
diregao da empresa, que fez pela primei-
ra vez, mostra que, agora, ele e mesmo
candidate. Nao pensem os desavisados,
entretanto, que, por nunca haver partici-
pado das batalhas eleitorais, Rominho,
ainda sem ter chegado aos 40, vai se con-
tentar cor um cargo honorifico. Como
mandou dizer na coluna do seu journal,
ele s6 aceita um cargo majoritario, go-
vemador ou senador.
O recado nao foi apregoado ao ar de-
sintencionalmente. O observador mais
atento notara que o redator nao usou a
image do abecedario, citando A, B ou
G (ao inves do traditional C). E porque
visava destinatarios certos: o "A" e do
govemador Almir Gabriel; o "B" 6 do
senador Jader Barbalho; e o "G" e do
ex-prefeito Helio Gueiros. Se Rominho
mandou recados orientados, restaria in-
dagar: ele acha que pode ser incluido nos
esquemas politicos de qualquer um dos
citados, oferecendo a eles a possibilida-
de de apresentarem seus lances? Esta-
ria o cap do grupo Liberal promovendo
um leillo electoral ndo declarado?
Raciocinar sobre essa hip6tese signi-
ficaria, em tese, que se HWlio Gueiros e/
ou Jader Barbalho (conforme saiam para
a elei9do coligados ou sozinhos) viessem
a oferecer o cargo de governador a Ro-
mulo Jr., ele estaria disposto a fechar um
acordo, mobilizando o poder da sua em-
presa para trabalhar por essa inusitada
alianga political? Se essa hip6tese fosse
possivel, Almir Gabriel estaria disposto
a disputar o governor contra Rominho?
Ou esse seria um golpe de mestre (quem
sabe, um xeque-mate) contra o projeto
de reeleidao do governador?
Nenhuma fonte consultada soube dar
informac6es sobre articulagces que pu-
dessem haver precedido a decisao de
Romulo Jr. de tentar ser candidate a um
dos dois cargos majoritarios da eleicao
de outubro. Por isso, tanto nio 6 possi-
vel simplesmente negar esses exercici-
os ret6ricos, como nao se pode apontar
as suas fontes externas de sustentagio.
Tudo pode nao passar de mero balao
de ensaio, mandado ao ar por alguem que
disp6e de tempo e de meios para esse
tipo de exercicio especulativo. Mesmo
assim, a redagao da nota, por ter havido
essa intencionalidade ou por sua falta de
intimidade no trato das palavras, sugere
que todo tipo de negociaao ainda esta


em aberto nesse period final de corrida
ao poder. E que o cap das comunica-
c6es paraenses esta aberto a qualquer
lance nesse leilao.
O redator das duas notas poderia ter
dito que Romulo Jr. s6 aceita participar
da Uniio pelo Para como candidate a
senador, ja que a coligacao official parte
de uma premissa: o cargo de governa-
dor pertence a Almir Gabriel. Mas o es-
crivinhador (teria sido o director redator-
chefe do journal, Walmir Botelho, orien-
tado pelo pr6prio RMzinho) incluiu entire
as hip6teses aceitaveis por seu chefe o
cargo de governador. S6 para impressi-
onar? S6 para despistar?
Ha um interesse evidence: Romulo
Maiorana Jr. quer ser um dos eixos de-
cis6rios dessa fase final de ajuste eleito-
ral. At6 sua iniciativa, as pendencias que
ainda restavam no quatro sucess6rio
deviam-se a relutincia do senador Ja-
der Barbalho em oficializar sua candi-
datura ao governor, que ja esta na fase
executive junto aos seus correligionari-
os.
O governador ainda espera a resposta
que o lider do PMDB no senado prome-
teu dar-lhe a proposta de uma alianca entire
ambos. Nao import que ja tenha trans-
corrido, desde o segundo encontro, pro-
movido pelo governador, tempo mais do
que suficiente para uma defniriao e que
todos os indicios indiquem como certo o
langamento da candidatura de Jader ao
governor. Como Jader ainda parece estar
a espera de algum beneficio do Palacio
do Planalto antes de assumir sua candi-
datura, Almir tambrm julga-se corn tem-
po para aguardar, como se o novo encon-
tro pudesse vir a acontecer.
Mas agora esta langada a proposta de
Romulo Jr.: quem Ihe oferecer o cargo
de govemador (o que, teoricamente, ape-
nas Jader e Helio podem fazer, sendo
para Almir questao fechada a reeleico)
ou de senador (que Jader e Almir po-
dem oferecer, mas nao Helio, ele pr6-
prio candidate a esse cargo), tera sua
companhia e os favors de uma maqui-
na capaz de influenciar a opiniao public
como nenhuma outra.
Assim, ao menos em tese, Jader Bar-
balho seria o candidate mais forte a par-
ceria do empresario. Apoiando Rominho
para o governor, ofereceria aos seus cor-
religionarios peemedebistas uma inveja-
vel estrutura de poder, ao mesmo tempo
que tiraria da candidatura de Almir Ga-
briel uma de suas bases de sustentaao,
sem precisar descer do planalto a plani-
cie para om corpo-a-corpo paroquial.







JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE ABRIL / 1998 3




0 precario e transitorio


Durante muitos anos, todas
as vezes que os fiscais apre-
endiam peles de animals sil-
vestres na Amaz6nia, os que
as comercializavam alegavam
que as peles faziam parte do
estoque remanescente, aque-
le imcialmente autorizado pelo
IBDF a partir da vig6ncia da
lei protetora. O mesmo acon-
teceu corn a castanheira: por
various anos os extratores cir-
cularam cor a arvore dizen-
do que ela se originava da
area que seria inundada pela
barrage de Tucurui, onde,
excepcionalmente, era auto-
rizada a derrubada
A desculpa csfarrapada se
repete corn os tais agentss
conmunitrios", a designagco
utilizada pelo govemo em lu-
gar de "comissarios de poli-
cia" para, dessa maneira, re-
apresentar um projeto ja der-
rubado no legislative e con-
tratar de novo os velhos e
execrados "bate-pau" ou "en-
costados" da engrenagem po-
licial.
0 problema existe. Em
pequenas cidades (abaixo de
tres mil ou mil habitantes, fi-
cou impreciso no projeto), nio
ha policiais. Os que poderiam
ser deslocados nao querem ir.


) Jader ainda poderia assegurar a vaga de
senador para o RM junior, mas sem po-
der nivelar sua oferta, nesse particular,
a do governador, ja um parceiro comer-
cial do Sistema Romulo Maiorana de
Comunicagao.
Ou sera que Rominho julga-se capaz
de aglutinar a todos em tomo do seu
nome, desfazendo as barreiras que mo-
mentaneamente separam Almir de Ja-
der e de Helio?
E uma hip6tese a considerar em abs-
trato, como as demais. Que todas elas
possam entrar em cogitaqgo, gravitando
em torno de uma personalidade como a
de Romulo Jr., sem passado na vida pu-
blica, sem antecedentes politicos, sem
poder gravitacional pr6prio, que fez de
sua poderosa corporacao empresarial um
instrumehto de a9do pessoal, familiar e


O salario oferecido nio esti-
mula ningu6m. O recurso,
entao, seria recrutar gente
local e usa-la como se fosse
policial. Ja esta ali mesmo e
se contentara cor o que Ihe
sera pago (um salario minimo,
no caso). Mas isso 6 mesmo
soluCgo, ainda que precaria,
ditada pelas circunstincias?
Um home da localidade,
nomeado policial por apadri-
nhamento politico ou reco-
mendacio clientelista, ainda
que nao receba uma anna do
Estado e tenha sua compet6n-
cia circunscrita a tal acgo co-
munitaria (como se fosse abs-


trata, aplicavel a todas as "co-
munidades"), qual umjuiz de
paz redivivo (quantas atroci-
dades eles nao cometeram no
passado?), 6 um candidate
potential a d6spota. Seu pri-
meiro discurso no cargo sera
o inefavel "sabe com quern
esta falando"? Quem nao sou-
ber sera devidamente enqua-
drado. Por bem ou por mal, a
segunda alternative como re-
gra.
A intencio do projeto apre-
sentado ao legislative na se-
mana passada 6 usar esses
policiais a titulo precnrio pelo
mais breve period de tempo


Process vai
O juiz R6mulo Ferreira Nunes, da 21a vara
civel de Belem, decidiu nao suspender limi-
narmente o conv6nio assinado em setembro
entire a Funtelpa e a TV Liberal para a trans-
missao da programacao da emissora privada
gerada via satellite, usando a rede em terra da
fundaCgo estadual, como pediu-lhe o deputa-
do federal Vic Pires Franco atrav6s de agao
popular ajuizada no ano passado. O juiz deci-
diu que a complexidade da questao e o envol-
vimento politico-partidario que nela pode ha-
ver exigem uma apreciaiao mais demorada e
acurada, optando por indeferir a liminar re-
querida e processar normalmente a instrunao
da demand. Ele acha que essa decisao nao


corporativa, evoluindo em sentido con-
trario ao dos neg6cios piublicos, ja da uma
media da pobreza dos quadros politicos
do Para, de sua quase inanigco. Um
nome novo como o dele nio represent
renovagao alguma. E apenas um nome
a mais que se acrescenta ao dos coro-
ri6is detentores do poder no Estado, que
ja foram de barranco, da guard nacio-
nal, das forcas armadas e, agora, sao da
midia.
Talvez, mesmo sabendo que todo esse
universe de especulag6es pudesse ser
suscitado por sua iniciativa, Romulo
Maiorana Jr. tenha visado apenas uma
coisa: seus neg6cios. Nesse caso, o que
ele estaria querendo seria uma vaga se-
natorial na chapa official para usa-la
como barreira de protego contra seu
concorrente, o tamb6m senador e em-


possivel (s6 at6 a eleigco?).
Mas, alem de servir como
mais um testemunho da falta
de uma political de seguranca
public para valer, proporcio-
nal a gravidade do problema
para o qual deveria ser a so-
lugCo, ameaca tornar-se a
pele do estoque remanescen-
te e a castanheira do lago de
Tucurui. Ou seja: um policial
tao precArio e provisorio
quanto a pele e a madeira -
ou o governor que, mesmo
quando nao gera tais situa-
c6es, as coonesta e perpetua,
mantendo a boca torta pelo
mau habito do cachimbo. *


para instrugao
causara prejuizos ao patrim6nio public por
nao vislumbrar nenhum risco iminente na ma-
nutengdo do convenio.
Ap6s esse despacho, o pr6ximo momen-
to do process sera a realizacao de algu-
mas das dilig6ncias solicitadas pelo repre-
sentante do Minist6rio Piblico. O juiz defe-
riu apenas a juntada aos autos de todos os
documents do process que sobre o mes-
mo assunto tramita no Tribunal de Contas
do Estado, o envio a Embratel de um ques-
tionario sobre custos e operacionalidade do
"transponder" do Brasilsat utilizado pela TV
Liberal e a obtencgo dos ultimos cinco ba-
langos anuais da Funtelpa. *


presario Jader Barbalho, e ariete para
novos e mais rentaveis negocios.
Um indicador nesse sentido 6 sua re-
cusa era publicar as mais recentes pes-
quisas do Ibope, por ele mesmo encomen-
dadas. A ultima mostra que o governador
ja esta um ponto a frente de Jader Bar-
balho na intencgo de voto para o govemo
do Estado (ver Jornal Pessoal 184),
depois de ter estado bem atras. Mas a
pesquisa s6 sera publicada quando a di-
ferenca for superior a de um empate tec-
nico ou suficiente para mostrar que o se-
nador peemedebista ja nao tem o tradici-
onal um tergo do eleitorado paraense. Ou
seja: estara enfraquecido o suficiente para
poder ser golpeado. E o que almeja Ro-
mulo Maiorana Jinior? Sondar sua cabe-
ca nao e tarefa ficil, mas, a partir de agora
torna-se tarefa civica. 0


-__,: _._. -- ,_--.-._ _: --J-.. : _L ---_.F _: .- . ... B ...._:. .-







4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE ABRIL/ 1998


Todos comemoram:


os Panara renasceram


Foi um moment hist6rico aquele que
umas 150 pessoas testemunharam no
audit6rio do Sesc-Pompeia, na noite
fria do outono paulistano do ilti-
mo dia 6. Ali estava quase
10% da populacgo Panara,
12 homes e duas mulheres
representando a tribo que teve
seu contato documentado
pela imprensa como nenhu- -4
ma outra. 25 anos atras, na
divisa de Mato Grosso com o
Para, 9
Entre 1972 e 1973, quando
foram "pacificados" no rio 1
Peixoto de Azevedo, eles
eram os indios gigantes", os
Kreen-akarore (ou qualquer
outra das muitas denomina- l
9ces alternatives que se qui-
sesse adotar). Quando se des-
cobriu que apenas um deles
era realmente grande, corn
mais de dois metros de altura, .
o interesse que ate entao era j
mundial diminuiu. Nem mes-
mo a ma noticia de que aquela t o
nacao primitive estava desapa-
recendo por causa da BR-163, i
com suas doenqas e seqiielas,
conseguiu reavivar as atenc6es.
Or.ando e Claudio Villas
Boas. que haviam comandado
a frente de atracgo para per-
mitir a passage da estrada, li-
gando Cuiaba a Santarem, deci-
diram levar os 30% que haviam
sobrevivido desde seu primeiro
encontro, na floresta, para o
Parque Nacional do Xingu. En-
tre indios inimigos e uma paisa-
gem estranha, os Panara vive-
ram ali seu exilio durante um
quarto de seculo ate decidirem,
sete anos atras, voltar a terra de
origem.
No auditorio do Sesc-Pom-
peia de Sao Paulo, o principal I
aliado dos indios nessa emprei- I
tada, o Instituto Socioambien- I
tal, programou uma festa para celebrar
o renascimento dos Panara, agora com
seu nome verdadeiro. Houve o langa-
mento de um belo album documental
(Panarc, a volla dos indios gigan-


tes, com impressionantes fotos de Pe-
dro Martinelli e texto de Ricardo Arnt,
Raimundo Josd Pinto e minha partici-
pac~o). a apresentacgo de um do-
Scumentario dirigido por Aurelio
SMichiles e uma mesa-redon-
Sda.
Ela confrontou mais uma
vez o ultimo sobrevivente dos
Sirmaos Villas Boas (Leonar- -
do morreu primeiro e Claudio
j foi-se no mes passado) e os
indios que eles forcaram a ser
incorporados a sociedade na-
cional. Orlando, cor mais de
80 anos, p6de passar o brago
sobre o ombro do cacique Aka
e dizer-lhe paternalmente:
"encontrei pela primeira vez
seu pai ou seu av6 em 1949".
Uma ou duas gerac6es de
,Panara desapareceram sob
os olhos dos Villas Boas nao
S por causes naturais. mas
pelos azares da integra- I
Scao compuls6ria dos indi-
Sos a civilizagao dos bran- %
Scos, que impoe suas regras I
(e suas mazelas). Se
Claudio e Orlando nao se 0
Stivessem antecipado aos
pe6es e soldados do
SBatalhao de Engenharia
ode Construcao do
Ex6rcito, que vinham
Srasgando a floresta, ou
k jdos garimpeiros, colo- I
nos e fazendeiros que
Sos seguiram, os sobre-
Sf viventes Panara teriam
sido menos numerosos. E
%se nao os tivessem for-i
I cado a abrigar-se no Par-
que do Xingu, talvez ne-
lnhum deles pudesse estar)
present a festa de Sao
Paulo.
SComo haviam feito quase *
um ano antes, quando as ima-
gens de sua hist6ria foram-lhes apre-
sentadas pela primeira vez, no Museu
de Arte de Sao Paulo, os Panara apon-
taram seus dedos e fizeram acusagoes
a Orlando (desta vez, Claudio ja nao
estava presente. Mas as sentidas quei-


xas poderiam ser interpretadas como
a revolta de um passageiro que sobre-
vive a um acidente aereo e reclama
pela perda de toda a sua bagagem,
com tudo de valioso que tinha
dentro (inclusive, na hist6ria
Real dos indios, families intei-
ras).
% Estara ao alcance dos in-
r i dios brasileiros a possibilida-
de de escolher entire duas
boas alternatives, ou so Ihes
Sresta preferir a menos ruim? O
ideal d uma utopia ainda a es-
tpera de melhor formulacao.
mas os que participaram dos
dois dias de programaago em
S torno dos Panara puderam
S medir a importancia da evolu-
gao. Mesmo excluidos das me-
thores alternatives e limitados
por sua pr6pria estrutura tribal
|1 (que os faz ver sempre apenas
S o cenario imediato e exigir ade-
Ssao incondicional por parte de
seus aliados, mesmo que eles
Snao Ihes possam conceder o
tempo integral e equipes intei-
I ras, como sempre querem), os
p Lindios estao mais bem equipados
e tem adeptos melhor prepara-
S dos.
Foram os Panara. contra to-
das as possibilidades entao ad-
mitidas, que decidiram embar-
car na aventura da volta a terra
native. Mas eles nao alcanCari-
l aam o objetivo sem companhei-
S ros de viagem como o ISA, que.
alem de bem intencionados, sao
%competentes no assunto. Claro
que as comemorag6es da sema-
i na passada nao sao absolutas
I kainda esta pendente o pagamen-
to de indenizagao aos indios e a
demarcacao de sua nova reser-
p ^va, com quase 500 mil hectares
I(a maior parte dela ja do lado
i do Para, nas nascentes do rio
Iriri). Mas pelo menos os parti-
cipantes daquele moment historic do
dia 6 tinham o que comemorar, uma
motivagao rara (mas cor frequencia
crescente nos tltimos tempos) na his-
t6ria do indigenismo brasileiro. *







JORNALPESSOAL 2' QUINZENADE ABRIL/ 1998 5



0 desafio: salvar o maior


banco genetic do planet


Ate o final do pr6ximo ano, depois de ab-
sorver nove milhoes de reais de investimen-
to. o Centro de Biotecnologia da Amaz6nia
devera estar pronto para funcionar em Ma-
naus. Mais uma vez o Para ficara para tras
num setor de ponta do conhecimento. vital para a
regido que abriga a maior de todas as florestas tropi-
cais. Mas o centro nao estara mal situado na capi-
tal amazonense.
Afora o provinciano bairrismo, o inico prejuizo
de Belem nao ser a sedc da nova instituict o talvez
esteja na menor massa critical disponivel em Ma-
naus para um acompanhamento mais eficaz do que uq
la se fara, sob a lideranca internal dos paulistas (atra- a
ves da Universidade de Sao Paulo e do Instituto
Butanta) e a vivissima parceria (como se diz no jar-
gao) dos estrangeiros.
Este e um detalhe que cabe as elites paraenses
aprofundar. O Estado vinha acumulando o melhor
conhecimento sobre a regiio amaz6nica, assegu-
rando sua lideranca cultural e intellectual, mesmo quando
(como agora) ela nao correspondia aos indices econ6micos.
Nao e so ner principalmente que o Amazonas haja su-
perado o Para, mas que a pr6pria Amaz6nia tenha perdido
em densidade e atualidade na reflexao sobre ela mesma, no
dominio de sua hist6ria e de seu destiny. Estaria menos apta
agora a interpreter scus interesses do que antes.
Um centro especializado em biotecnologia. com capacida-
de real para acompanhar o melhor padrao mundial, chega
tarde a Amaz6nia Quinze anos atras os consumidores ame-
ricanos ja gastavam 12 bilh6es de d6lares na compra de re-
medios extraidos de plants medicinais de florestas tropicais,
que correspondiam a um quarto de todas as drogas que as
industries farmaceuticas entao comercializavam nos Esta-
dos Unidos (varias, naturalmente, sao pura quimica).
Se tivessemos como meta de medio prazo tender a meta-
de dessa demand (o que seria perfeitamente factivel, bas-
tando para isso investor na proporiao correspondente, pode-
riamos faturar US$ 6 bilh6es, umas 15 vezes mais do que
obtemos no moment com a venda de madeira s6lida. que e
- e, infelizmente, ainda continuara a ser por muito tempo -
uma atividade sem sustentabilidadc.
Como observou o cientista Timothy Ferris, "todo esse lu-
cro foi obtido de menos de 50 entire milh6es de plants en-
contradas nas selvas c florestas do mundo", a mais impor-
tante das quais e a nossa. At6 o inicio desta decada, apenas
2% das 250 mil species de plants superiores da Terra (80
mil delas nativas da Amaz6nia) haviam sido investigadas para
finalidades medical. Constatacgo que levou Ferris a obser-
var: "Frente a floresta tropical, o botanico modemo se senate
tao pequeno na sua ignorancia quanto o astr6nomo ao refletir
sobre a vida entire as galaxias".
Os paises mais ricos e as empresas mais audaciosas con-
cordam cor Ferris que a riqueza deste planet esta nos ban-
cos de dados do mundo natural. Processes destrutivos simul-
taneamente velozes e caoticos. como os que ocorrem ha quase


quatro decadas na Amaz6nia, com patrocinio official, signifi-
cam a destruigao de "terabytes de dados geneticos". Se
preferimos continuar passando ao mundo um atestado
de idiotia coletiva, os mais inteligentes (ou sagazes) es-
Stao tomando suas providEncias tanto para nos substi-
tuir quanto para nos deixar para tras.
Dois meses atras, as duas maiores companhias
farmac6uticas da Inglaterra e das maiores do mun-
do, a Glaxo Wellcome e a SmithKline, anuncia-
ram sua fusao. Ao se concretizar, sera a maior
da hist6ria empresarial do setor. Unindo seus
faturamentos (que somariam 27 bilh6es de
Sd6lares) e seu valor de mercado (de US$
195 bilh6es), as duas empresas visam um
inico objetivo: fortalecer a capacidade de pes-
quisa de ambas. Juntas, elas passarao a ter um or-
camento para o desenvolvimento de medicamentos
(de US$ 3 bilhoes ao ano, 10 vezes os incentives
fiscais administrados pela Sudam) superior ao da
atual lider do setor, a suiga Novartis, que em 1996
aplicou US$ 2,4 bilhoes em novos remedios.
O mercado mundial de medicamentos tem o tamanho de
US$ 222 bilhoes (um quarto do PIB brasileiro a cada ano).
Glaxo e SmithKline reunidas movimentarao 9% da Bolsa de
Londres. O Brasil, que tern na Amaz6nia terabytes de dados
gen6ticos, sem competitor visivel, portanto (ao menos em
these conta pouco mais do que zero porque seu investimento
em pesquisa e desprezivcl.
O pais gastara quase US$ 300 milh6es ao ano, durante os
proximos cinco anos, para montar o incrivel Sivam (Sistema
de Vigilancia da Amaz6nia), de raizes geopoliticas, mas me-
nos de uma decima parte disso no conhecimento desse for-
midavel banco de dados gendticos para o qual se viram os
olhos arregalados de gigantes empresariais como as gemeas
britanicas (que investirao dois Sivam a cada ano, mas nao
visando fantasmas matutinos).
Enquanto derrubamos arvores antes de sequer identifica-
las botanicamente, para no lugar plantar capim ou cultures
de subsistencia que nao se sustentam mais do que duas ou
tres safras, corn baixa ou nula capacidade de chegar ao mer-
cado, essas corporac6es buscam na nossa maltratada vege-
ta go os meios de cura para doengas como o cancer e a
AIDS e para um faturamento que supera o nosso comercio
exterior. Podem tentar manter integras nossas florestas o
tempo necessario para coletar as informaqces de que ncces-
sitam, se isso for possivel. Mas, e depois? Se nao consegui-
rem, terao perdido dinheiro. N6s perderemos o nosso future.
Vamos chorar a sombra das savanas que sobrevierem as
florestas calcinadas.
O centro que esta sendo instalado em Manaus vai co-
mecar a mudar essa lamentavel situacdo, ou apenas vai
aproximar de n6s o confront corn a nossa incapacidade
de encarar a serio o desafio da floresta amaz6nica? Quem
puder apresentar uma resposta categ6rica, que arrisque.
Mas nao deve demorar. O tempo conspira contra esta
nacao de insensatos. *







6 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE ABRIL / 1998


O Para tem o 120 potential de consu-
mo do Brasil, liderando nesse aspect a
regiao amaz6nica (o Amazonas, que vem
a seguir, esta em 170 lugar). Infelizmen-
te, O Estado de S Paulo, como parece
comum nesse tipo de jornalismo infor-
matizado, que se preocupa mais corn a
visualidade grafica do que cor a con-
sistincia da informaa.o, publicou a ta-
bela sem nada dizer a respeito da sua
base metodologica. Informou apenas que
a pesquisa medium o potential de gasto
de cada uma das unidades federativas
brasileiras.
Como era de esperar, Sao Paulo con-
centra um terco do consume national,
embora apresente um ligeiro declinio. O
Rio de Janeiro vem muito atras no se-
gundo lugar. corn pouco mais de um ter-
co do consume paulista (mas com mo-
desta evolugao de 1996 para 1997). Mi-
nas Gerais ter 10,4% do potential de
gasto, declinando em proporqdo maior do
que Sao Paulo nessa suave descentrali-
zac o. A quarta posicao e do Rio Gran-


de do Sul. cor 7,4%. A seguir vem Pa-
rana (6,1%), Bahia (4,8%), Pernambu-
co (3,3%), Santa Catarina (3,1%), Goi-
as (2,6%), Ceara (2,5%), Distrito Fede-
ral (1,77%) e Para (1,73%).
Observa-se que Brasilia apresentou
um dos maiores indices de queda de
consume nos ultimos dois anos (con-
sequjncia do empobrecimento relati-
vo da burocracia official) A do Para
foi quase imperceptivel, assim como
pouco significativo foi o crescimento
do Amazonas (cor 1,1% do consume
brasileiro). Fonte de producao de bens
para uma parcela consideravel do con-
sumo national, a Zona Franca de Ma-
naus nao consegue ela pr6pria evoluir
como consumidora, o que traduz inca-
pacidade de reter a renda gerada. O
efeito multiplicador vai ocorrer long.
Mesmo preso a camisa-de-forga de um
modelo classicamente colonial, nesse
particular o Para sai-se melhor do que
seu vizinho. Mas falta a ambos moti-
vos para comemoracio.


Antunes, nao

Augusto Trajano de Aze\ edo Antunes, o dono da Icomi. no Amapa. nao inter-
mediou em 1966, junto corn hoje deputado federal Roberto Campos (a epoca
mlinstro do Planejamento), a aproximario entire o nilionario Daniel Keith Lu-
d\%ig co president Castclo Branco "Em nome da verdade", o general Otavio
Costa envia do Rio de Janeiro o seu testemunho, a prop6sito de materia publica-
da no n:fnmcro 183 deste jomal ("0 Jari em crise: historias e est6rias").
"A prineira %ez que o elho Antunes ouI iu falar de DKL foi quando. ja auto-
nzado a implantar seu proleto. o norte-americano pediu ao gerente da Iconu no
Amapa para ajuda-lo no desembarque de seus pnmeiros equipamentos destina-
dos a Monte Dourado. \alendo-se do porto de Santana Ao tender o pedido.
Antunes tornou-se credor do agradecimento de Ludwig. que veio visita-lo no
Rio. tomando-se amigos postenormente. a partir da more do filho do Antunes,
quando Daniel foi muito solidario com Augusto".
Por se tratar de fonte fidediana, esta feita a corrcA0o apenas Roberto Cam-
pos (conhecido na esquerda como Bob Fields, por sua amencanofilia) levou
Ludwig a audiencia corn o marechal Castelo no Paldcio das Laran.leras. no Rio,
em 1966. mccntitando o milionario americano a inicir seu empreendimento
anaz6mco coin todo o apoio federal (--enha, sr Lud\.ig o Brasil e. hoje. urn
pais seguro para os inestimentos estrangeiros". teria dio o president ao seu
interlocutor)
Embora afastado ha quase oito anos dos negocios do grupo Caemi, no qual
ocupou cargo de direg o, o general Ota\io Costa considerou "correta" a apreci-
aq;o que fiz do Jan. corn exce;io da participaqio de Antunes, detalhe que aqui
se retifica Como rmlitar. inrelectual e cidadao, o general ter autoridade para
prestar o depoimento "'ei nome da verdade".


A migragao


do consume


Previsao

desfavoravel
Os astros nao estao muito favoraveis
ao governador Almir Gabriel neste peri-
odo pre-eleitoral. O leilao de privatiza-
cao da Celpa pode atrasar ainda um pou-
co mais, privando-o por mais tempo de
uma formidavel receita de investimento.
Os bastidores desse leilao ficaram mui-
to agitados nas ultimas semanas, tanto
pelos que querem fazer da Celpa um bor
neg6cio, como pelos que querem impe-
dir sua consumaiao, por considera-la
ruinosa.
Ainda na area energ6tica, comeca a
ficar impossivel garantir que a linha de
Tucurui chegue a Santar6m e Itaituba em
outubro ou mesmo em dezembro, a data
com a qual a Eletronorte ja esta traba-
lhando. O problema 6 que a Eletronorte
s6 se interessa pela obra ate Altamira,
onde espera retomar um grande projeto
hidreletrico. Itaituba e Santarem nao Ihe
dizem respeito.
Quanto a hidrovia do Araguaia, conti-
nua valendo apenas ate Maraba, o que
nao 6 suficiente para compensar a frus-
tracao do Salobo.
Tudo isto quer dizer que no Sul e no
Oeste do Estado a safra de votos para o
governador nao promote ser boa.


Interesse

public
Ngo poderia a Secretaria da Fazenda
dar um melhor tratamento grafico ao de-
monstrativo resumido da receita estadu-
al, que e obrigada a publicar todos os me-
ses? A ma elaboraiao pode levar o ob-
servador a achar que a Sefa nao quer
que o contribuinte entenda o que esta sen-
do dito ali. Ou seja: o demonstrative e
publicado apenas para cumprir uma obni-
gagco legal, mas nao para manter o ci-
dadao bem informado. Como o secreta-
rio Paulo Ribeiro e um tecnico serio, po-
deria determinar a seus assessores para
caprichar na montagem das tabelas de
tal maneira a que eles transformem em
realidade a ret6rica da transparencia,
contumaz como despauterio na boca dos
governantes.
O 60 termo aditivo ao contrato entire a
Secretaria de Educa9ao e a Vale Refei-
cao, publicado no Diario Oficial de nove
de janeiro, foi tornado sem efeito exata-
mente um mes depois. Por qua?







JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE ABRIL / 1998 7




Suicidio: as marcas



da partida antecipada


Bud Dwyer, um home de meia-ida-
de, calvo, forte, ajeitou o palet6 bem ta-
lhado, a gravata de bom gosto, e interro-
gou os presents. As cameras de televi-
sao ja estavam ligadas? O som estava
ok? Pediu atencao. Leu uma pequena
declaracao de inoc6ncia, depois deixou
o papel de lado e, diante de muitos jor-
nalistas convocados para sua entrevista
coletiva, tirou de um saco de supermer-
cado um revolver 38. Exibiu-o rapida-
mente para os presents estarrecidos,
colocou o cano da arma dentro da boca,
voltando-o para a cabega, e disparou. A
sala foi tomada de horror.
Foi essa a maneira que o secretario
do Tesouro da Pensilvania, uma das mais
antigas e tradicionais unidades da fede-
radao americana, encontrou para defen-
der-se da acusagao de corrupcao que a
imprensa vinha Ihe fazendo. Telespec-
tadores no mundo inteiro ficaram cho-
cados. Dwyer nao teria outra forma de
desfazer as provas de corrupco levan-
tadas na imprensa e no parlamento?
Mesmo que todas as denincias fossem
verdadeiras, 300 mil dolares (o valor do
"alcance" a ele atribuido) justificavam o
gesto extreme?
Antes de estourar os miolos a partir
do c6u da boca, o home das financas
da Pensilvinia pediu que "o sacrificio da
minha vida nao seja em vao". Nao foi.
Na distant Belem do Para um reporter
fez uma comparacao: se o rombo de US$
300 mil nas contas do tesouro daquele
Estado americano havia provocado uma
onda de indignaqio na opiniao public
local, como 6 que um golpe 100 vezes
maior, praticado na capital paraense con-
tra o patrim6nio do unico banco regio-
nal, permanecia sob complete silencio?
Nenhum dos envolvidos no desfalque
de US$ 30 milh6es cometido contra o
Banco da Amaz6nia parecia ter o senso
extremado (ou desequilibrado) de honra
de Bud Dwyer, nem a sociedade para-
ense se dava conta da dimensao da pi-
rataria. A comecar pela imprensa: cien-
te dos fatos, omitia deliberadamente sua
divulgacao por interesses pessoais. A
conivencia geral fazia corn que um es-
candalo de valor 100 vezes maior con-
trastasse, pela impunidade, com o des-
fecho sangrento (e, naturalmente, inde-


sejado) na Pensilvania. Foi precise que
este pequeno journal sustentasse a cober-
tura do assunto, sozinho, durante meses,
at6 que uma sentenqa condenat6ria em
um inddito process por crime de colari-
nho branco rompesse as comportas do
acobertamento official e jornalistico.
Mas se a sangria praticada contra o
Basa foi estancada, a custa de 10 anos
de provisionamentos desgastantes, o ges-
to de Bud Dwyer continue a ser uma
interrogacgo. Essa pergunta 6 refeita em
Or Not To Be A Collection of Suici-
de Notes, de Marc Etkind, um pequeno
e inquietador livro que saiu no ano pas-
sado nos Estados Unidos.
Teria o secretario do Tesouro se ma-
tado se nao houvesse imprensa, princi-
palmente a que pratica o jornalismo ele-
tr6nico "ao vivo" (ou criando a realida-
de virtual) das nossas televises? Sem
impulses anatematizantes, 6 uma inda-
gagao que cabe aos jornalistas respon-
saveis fazer, principalmente diante da
constatacgo de Etkind de que ha uma
coincidencia entire o crescimento do nu-
mero de bilhetes de suicidio e a expan-
sao da imprensa no s6culo passado. A
imprensa estaria iduzindo suicidios ou,
na verdade, estimulando suicides a co-
municagao derradeira corn um mundo
com o qual ja nao t6m ligac~o?
O livro e uma coletanea de cartas, bi-
ihetes e notas deixadas por suicides. Um
em cada cinco deles teve essa preocu-
pagao, registrando seu adeus ou testa-
mento final. Muitas dessas despedidas
eu ja conhecia e me causaram um forte
impact, como o diario do grande escri-
tor italiano Cesare Pavese, transforma-
do no livro Oficio de Viver (viver e um
oficio que se aprende, que se ter que
aprender?). Pavese, autor de um inven-
tario unico na passage de uma Italia
campestre (mas nao necessariamente
buc6lica) para a industrializacao avas-
saladora, fez a iltima observacao no di-
ario, levantou-se e, como quem toma um
gole de agua, matou-se.
Alberto Moravia escreveu a respeito
um artigo devastador, execrando o pes-
simismo e a prostracao niilista de Pave-
se. Dei-lhe alguma razao, mas nao fi-
quei convencido de que nao escreveu por
despeito (ou que sua suposta coragem


fosse mais afirmativa do que a aparente
covardia de Pavese).
Assim como a vida (nao a que se tern,
mas a que se vive enquanto oficio, pe-
noso ou prazeiroso, conforme o caso ou
a alternancia dos momentss, o suicidio
nao tem explicacao, ou nao tem uma
unica explicagao, ou a explicagao que se
apresenta nao esgota a complexidade do
fen6meno. Pode-se dizer apenas que
estar so (ou, dito melhor: ser s6) nao e
um estado natural nos animals humans.
Todos buscamos companhia, ou registra-
mos nosso insucesso quando nao a con-
seguimos.
As vezes pode ter parecido que salvar
um suicide era tao facil, estava tao ao al-
cance de nossas possibilidades, que nos
sentimos culpados por nao havermos sal-
vado tais pessoas. Mas nao e bem assim
- e nunca 6 assim como proclamam os
simplistas ou os acusadores faceis, como
Moravia me saiu diante de Pavese. Mo-
ravia, 6 claro, viveu muito, vivendo inten-
samente at6 o fim de seus longos anos.
Mas a constelaio de Pavese era forma-
da por outras estrelas. Era nelas e nio
na exuberancia um tanto 6bvia de Mora-
via que estava escrito o seu final (al-
guns diriam: destino).
Beethoven, por exemplo, nao se suici-
dou, mas o que foram os seus anos fi-
nais? Solitario e (por isso) surdo, espera-
va apenas por uma formalidade. A abre-
via~io de Mozart deve ter qual nome?
Me pergunto as vezes se foi a bala do
revolver que matou mesmo Van Gogh, tao
singelo teria sido salva-to. Sao os misteri-
os da vida e da morte, inesgotaveis, inde-
cifraveis, mas nao tao angustiantes que
nao permitam aos vivos enterrar seus
mortos com o misto de melancolia, de-
sespero, serenidade e esperanga que nos
mantem deste lado de ca de um espectro
que esta muito long de se dividir entire
vivos e mortos, havendo entire estes al-
mas tao mais vivas do que as que perma-
necem, como muitos destes nossos invo-
luntarios companheiros de viagem.
A coletanea do americano Etkind
parece-se as pedrinhas ou ao miolo de
pao orientador na lenda de Jodo e Maria.
A uns cabem aquelas. A outros, este. E
assim caminha a humanidade. As vezes,
sem saber, direto para a casa da bruxa.*









Vale-tudo


0 artist


Nessa queda-de-braCo en-
tre a prefeitura de Bel6m e o
governor do Estado pela area
do entroncamento, ningu6m
esta completamente certo,
mas o Estado e o mais erra-
do de todos. A prefeitura tem
toda a razao quando exige
que o projeto da Secretaria de
Transportes Ihe seja subme-
tido antes de poder ser exe-
cutado. O contririo seria des-
respeitar suajursdigao muni-
cipal. Mas 6 evidence que a
Praca da Biblia, naquele lo-
cal, naqueles terms, 6 uma
tentative de arenga.


Toda a imprensa trombeteou
que o lucro da Companhia Vale
do Rio Doce no ano passado foi
46% maior do que o de 1996.
Mesmo os que nio fizeram ex-
plicitamente a declaraao, sutil-
mente infiltravam a propaganda
da privatizaqco. Bastaram sete
meses de conduqao dos neg6ci-
os por empresarios particulars
para a CVRD apresentar um de-
sempenho muito melhor do que
sob a gestao estatal.
Nao exatamente. Os resulta-
dos do balanco de 1997 refletem,
em acentuada proporao, as pro-
vid&ncias da administration es-
tatal, sobretudo na reducqo do
custo administrative e na rene-
gociaqco do custo financeiro,
algo como um aqougueiro lim-
pando o file para o client. Mas
nao so nesse aspect. Se o lu-


Chego ao meu hotel, noite
alta em Sao Paulo. O portei-
ro me entrega um documen-
to que deixaram para mim.
Nao ha qualquer identifica-
Cao. Poderia chamar de dos-
si6. mas e. na verdade, um
clipping de artigos da impren-
sa. Todos denunciam a mal-
versa~io de recursos publicos
pelo senador Jader Barbalho.
Algumas materias se referem
a atuacao dele como gover-
nador do Para. Outras sao
sobre sua participacao como
ministry da Reforma Agraria
e da Previdncia 'Social. Ha
recortes dejornais e revistas,


Ja a Setran quer criar uma
situacio de fato irreversivel
sobre um projeto aprovado
irregularmente, que esta so-
,iendo inspegco do Tribunal
de Contas do Estado, corn
fortes indicios de que as fa-
lhas apontadas nao poderao
ser sanadas (ver Jornal Pes-
soal n 176). E isso sem que
outra instincia competent, o
DNER, haja se manifestado,
ao menos de pilblico. Todo
esse agodamento por causa
da dispute eleitoral.
O que nao se vera ao Ion-
go dos pr6ximos meses?


cro liquid da Vale cresceu 46%,
a parcela destinada aos acionis-
tas, na forma de dividends, sim-
plesmente dobrou. Isto quer di-
zer que a empresa nao manteve
a taxa de reinvestimento do ca-
pital, preferindo colocar mais di-
nheiro nos bolsos dos seus no-
vos donos (que, naturalmente,
poderao usar a grana como qui-
serem).
Esta 6 a marca mais profunda
da mudanga que houve: uma em-
presa estrat6gica foi substituida
por uma fonte de enriquecimen-
to para os seus controladores.
Se isso 6 privatizaqAo inteligen-
te, troco o nosso FHC por Mar-
gareth Thatcher e ainda dou uma
dizia de Steinbruchs de troco.
A imitagdo nunca 6 melhor do
que o original.


do Rio e de Sao Paulo. Per-
gunto ao porteiro quem dei-
xou aquele document. Nao
sabe. O portador nao se iden-
tificou. Mas um comit6 con-
tra corrupcm o se responsabi-
liza. Uma conclusao acima
de qualquer controversial 6
de que Jader Barbalho atrai
velhos inimigos em sua tra-
jetoria pela notoriedade na-
cional. Para onde vai, eles
vao atras. Fen6meno seme-
lhante nao impediu o cresci-
mento de Adhemar de Bar-
ros. Mas fez dele uma mar-
ca: a de Adhemar de Bar-
ros.


Certa vez o filosofo ingles
Bertrand Russel pediu descul-
pas a plat6ia. Nao tivera tem-
po para preparar uma pales-
tra tao simples e clara quanto
se esperaria de uma manifes-
tacgo natural. Ao inves da
natural verve, sairia uma ex-
posigao arrastada.
A lembranca me veio en-
quanto contemplava os traba-
Ihos que Benedicto Mello reu-
niu em sua mais recent ex-
posig o, Caminhos, no Mu-
seu do Estado. Tanta beleza
e espontaneidade requerem
uma s6lida maestria, aquela
aplicagao exigida ironicamen-
te por Russell para um traba-
lho intellectual de profundida-
de nao parecer artificioso.
Benedito 6 o mais comple-
to artist plastico paraense,
hic et nunc. Um pintor clas-
sico, antol6gico. Ceramista e
escultor. Um t6cnico em res-
taurac.o perfeccionista. Um


, Como parece ser norma de
marketing p6s-moderno para
tempos de inseguranga maxi-
ma, nao ha nenhuma indica-
cao externa. Mas deduzo que
aquele pr6dio imponente ao
lado do qual pass na Aveni-
da das Na5qes Unidas, em
Sao Paulo, e a sede da Abril.
Consultado, o motorist con-
firma. orgulhoso.
O edificio tem 25 andares,
segundo consigo calcular, aco-
modados em tras etapas, com
uma antena destacada no alto.
O imperio da Editora Abril 6
formado por 27 empresas e 22
revistas. Cresceu muito desde
a construiao do primeiro edifi-
cio-sede, na marginal do Tiet6,
no nada aristocratic bairro do
Limio. Ali osjornalistas se de-


professor de artes plasticas
Advogado. Figura humana
que qualifica e enriquece os
que tem como amigos. Al-
guem precioso: diante de
suas telas pode-se experi-
mentar sentiments nobres,
prazer est6tico superior. Be-
nedicto Mello nao deixa es-
pago para duvidas e questio-
namentos: 6 um mestre ma-
nejador de pinceis e espatu-
las, de 6leos e aquarelas.
Sabe-se que ele sabe tudo
porque nada precisa exibir e
nada na obra dele deixa es-
capar a espontaneidade dos
grandes criadores, cuja obra
parece preexistir aos seus
criadores.
Longa vida, Bene: com os
intoxicantes 6leos essenciais
ou as matutinas aquarelas,
para nosso deleite de apreci-
adores e alegria de amigos.
E um privil6gio t--lo de volta
as galerias.


frontaram com surpresas. Um
excelente restaurant, por
exemplo. Um garcon enfatio-
tado que passava cor seu car-
rinho luxuoso servindo cafe,
cha e sandwiches a larga. Al-
moxarifado mais do que gene-
roso (pedia-se algumas laudas.
recebia-se uma resma). Far-
macia bem fomida (caixa de
analgesico para uma dor de
cabeca vagabunda). Tudo cif,
ou quase (mais-valia relative,
aprendi, sem a ajuda do doutor
Marx, que prendia corpos e
anestesiava consciencias).
Pergunto-me, agora a dis-
tancia. sem um cracha prote-
tor, se o servigo no novo tem-
plo 6 o mesmo. Quanto aojor-
nalismo, nao tenho duvidas.
Infelizmente.


Odedo do dono


Jornalismo


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