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jomal Pessoal (4 L U C.l 0 F L A V 1 0 P I N T 0 4 antas IY .86 2182 QUINZENA Dt RI_ O A doS biIh6 j EL.E; ,O r- (PAG. 3) I{ ik. '" i ELEIQAO--- i da political I a um novo projeto de I oder politico no mer cado: 6 o de Romulo Maiorana Jr., o princi Spal executive do grupo Liberal, o maior con- trolador das comunicac6es no Para. Desde que alcangou a maioridade, Ro- minho vem tentando ser politico, mas so no dia 3 tomou uma iniciativa mais concrete nessa diregao. No ultimo dia do prazo para a desincompatibilizaCao dos que pretendem concorrer a elei- co de outubro. o empresario se afas- tou da direcao do Sistema Romulo Maiorana de Comunicagao, do qual 6 vice-presidente. Seu nome foi retirado o novo astro da political paraense nunca foi politico, nunca disputou voto, nunca se Sinteressou pela vida Spublica. Mas comanda uma corporaado que pode influenciar, como poucas, o eleitorado de outubro. E SRomulo Maiorana Jr., o S // principal executive do grupo Liberal. Ele ndo admit ser menos do que senador. A secao Em Poucas Linhas, da co- luna Repdrter 70, que todos sabem ser a voz do dono em O Liberal, abriu no ultimo domingo, 12, cor duas notas bem do cabegalho e do expediente do jor- ao estilo do ventriloquo. Proclamava o nal O Liberal. primeiro potin: "Em resposta as lorotas O claro sinal de que Rominho estava de que seria candidate de A, B ou G, cumprindo a legislacgo eleitoral para Romulo Maiorana Junior responded ca- poder se apresentar como candidate pro- teg6rico: Vice, s6 de minha mae, D6a vocou uma onda avassaladora de boa- Maiorana". Completava a segunda nota: tos. Na maioria deles, atribuia-se ao ne- "Cargo eletivo, s6 de senador ou gover- 6fito em political a vice-goveradoria ou nador, pois s6 assim o povo do Para po- a suplencia do senado na coligacgo situ- dera realmente avaliar o meu trabalho". acionista. Mas se havia quem s6 conse- Em tao poucas linhas, alguns erros de guia visualizar o impresario em v6os linguagem. Citacao, por exemplo, deve mais baixos em funcgo de sua falta de ser reproduzida entire aspas. Se o pri- experiencia politico-partidaria ou de seus meiro titulo (Vice) 6 grafado cor mai- padries de vida, que combinam muito uscula, os segundos (senador, govera- pouco cor os de um politico profissio- dor) deveriam ter tido o mesmo padrao. nal, o pr6prio Rominho tratou de man- A repetiaio de uma expressao ("s6") no dar um recado adequado. mesmo period aconselhava um sin6ni-) CONVENIO DA FUNTELPA CONTINUE (PAo. 3) ) mo (no caso, "apenas"). Admite-se que um membro de senadinho (de bar, res- taurante ou clube) se refira a "lorotas", mas um aspirante ao senado da Repu- blica deveria empregar ainda mais por- que em texto impresso para o public - termo mais adequado (como boatos). Mas o estilo 6 o home, disse um dia Buffon. Sem pretender corrigir o estilo do novo candidate a cargo majoritario (tarefa estilistica, ademais, condenada antecipadamente ao fracasso), convem interpreter os atos e recados de Romulo Maiorana Jr. Eles significam, em primei- ro lugar, que um dos homes mais pode- rosos.do Estado resolve abandonar a informalidade do seu poder, sua dimen- sao tecnica, que deriva do seu grupo de comunicagco, para entrar na dispute po- litica aberta. E o primeiro Maiorana que deixa a posigao de intermediador para criar um polo aut6nomo de poder. Ate entao a familiar havia optado por usar seus veiculos de comunicacao, que dominam os segments de journal, radio e televisao, como instrumentos explici- tos de neg6cio e meios indiretos de po- der. Romulo Maiorana pai, o criador do imperio, apoiou candidates (as vezes ate em posic6es conflitantes, agindo explici- tamente em relacio a uns e nao-decla- radamente em relacgo a outros), mas jamais quis ele pr6prio ser politico. Sa- bia que, agindo assim, poderia limitar (e delimntar) seu campo de agco empresa- rial. Para superar essa restriCio, teria que assumir todas as conseqtincias de um embate aberto cor adversarios, muitos dos quais poderiam converter-se em ini- migos mortais. Preferiu ficar sempre como eminmncia parda. O mais famoso dos filhos (e o verda- deiro herdeiro no comando da corpora- C9o) decidiu finalmente dar o pass que ha muito tempo vinha ensaiando e o pai evitou. Logo depois de alcanCar a mai- oridade, Rominho filiou-se ao PMDB, junto cor seu amigo intimo (hoje inimi- go) Vic Pires Franco. A ficha foi abona- da pelo entio governador Jader Barba- Iho. Vic ingressou na political, chegando na iltima eleigao a deputado federal pelo PFL, ja rompido cor o amigo de muitos anos. Rominho ingressou no PL, na com- panhia de outro amigo do peito, o verea- dor Gervasio Morgado (seu outro irmao, Ronaldo Maiorana, director corporativo dojornal, entrou no ano passado no PPS, que derivou do antigo Partido Comunis- ta, o pecezdo, com a intengao de se can- didatar a deputado). As eleig6es se sucederam desde a pri- meira filiacao, mas Romulo Jr. n~o ha- via dado, ate o inicio do mes, nenhuma demonstraCgo de que superaria a inde- cisao e se apresentaria como candidate para valer. A desincompatibilizaCio da diregao da empresa, que fez pela primei- ra vez, mostra que, agora, ele e mesmo candidate. Nao pensem os desavisados, entretanto, que, por nunca haver partici- pado das batalhas eleitorais, Rominho, ainda sem ter chegado aos 40, vai se con- tentar cor um cargo honorifico. Como mandou dizer na coluna do seu journal, ele s6 aceita um cargo majoritario, go- vemador ou senador. O recado nao foi apregoado ao ar de- sintencionalmente. O observador mais atento notara que o redator nao usou a image do abecedario, citando A, B ou G (ao inves do traditional C). E porque visava destinatarios certos: o "A" e do govemador Almir Gabriel; o "B" 6 do senador Jader Barbalho; e o "G" e do ex-prefeito Helio Gueiros. Se Rominho mandou recados orientados, restaria in- dagar: ele acha que pode ser incluido nos esquemas politicos de qualquer um dos citados, oferecendo a eles a possibilida- de de apresentarem seus lances? Esta- ria o cap do grupo Liberal promovendo um leillo electoral ndo declarado? Raciocinar sobre essa hip6tese signi- ficaria, em tese, que se HWlio Gueiros e/ ou Jader Barbalho (conforme saiam para a elei9do coligados ou sozinhos) viessem a oferecer o cargo de governador a Ro- mulo Jr., ele estaria disposto a fechar um acordo, mobilizando o poder da sua em- presa para trabalhar por essa inusitada alianga political? Se essa hip6tese fosse possivel, Almir Gabriel estaria disposto a disputar o governor contra Rominho? Ou esse seria um golpe de mestre (quem sabe, um xeque-mate) contra o projeto de reeleidao do governador? Nenhuma fonte consultada soube dar informac6es sobre articulagces que pu- dessem haver precedido a decisao de Romulo Jr. de tentar ser candidate a um dos dois cargos majoritarios da eleicao de outubro. Por isso, tanto nio 6 possi- vel simplesmente negar esses exercici- os ret6ricos, como nao se pode apontar as suas fontes externas de sustentagio. Tudo pode nao passar de mero balao de ensaio, mandado ao ar por alguem que disp6e de tempo e de meios para esse tipo de exercicio especulativo. Mesmo assim, a redagao da nota, por ter havido essa intencionalidade ou por sua falta de intimidade no trato das palavras, sugere que todo tipo de negociaao ainda esta em aberto nesse period final de corrida ao poder. E que o cap das comunica- c6es paraenses esta aberto a qualquer lance nesse leilao. O redator das duas notas poderia ter dito que Romulo Jr. s6 aceita participar da Uniio pelo Para como candidate a senador, ja que a coligacao official parte de uma premissa: o cargo de governa- dor pertence a Almir Gabriel. Mas o es- crivinhador (teria sido o director redator- chefe do journal, Walmir Botelho, orien- tado pelo pr6prio RMzinho) incluiu entire as hip6teses aceitaveis por seu chefe o cargo de governador. S6 para impressi- onar? S6 para despistar? Ha um interesse evidence: Romulo Maiorana Jr. quer ser um dos eixos de- cis6rios dessa fase final de ajuste eleito- ral. At6 sua iniciativa, as pendencias que ainda restavam no quatro sucess6rio deviam-se a relutincia do senador Ja- der Barbalho em oficializar sua candi- datura ao governor, que ja esta na fase executive junto aos seus correligionari- os. O governador ainda espera a resposta que o lider do PMDB no senado prome- teu dar-lhe a proposta de uma alianca entire ambos. Nao import que ja tenha trans- corrido, desde o segundo encontro, pro- movido pelo governador, tempo mais do que suficiente para uma defniriao e que todos os indicios indiquem como certo o langamento da candidatura de Jader ao governor. Como Jader ainda parece estar a espera de algum beneficio do Palacio do Planalto antes de assumir sua candi- datura, Almir tambrm julga-se corn tem- po para aguardar, como se o novo encon- tro pudesse vir a acontecer. Mas agora esta langada a proposta de Romulo Jr.: quem Ihe oferecer o cargo de govemador (o que, teoricamente, ape- nas Jader e Helio podem fazer, sendo para Almir questao fechada a reeleico) ou de senador (que Jader e Almir po- dem oferecer, mas nao Helio, ele pr6- prio candidate a esse cargo), tera sua companhia e os favors de uma maqui- na capaz de influenciar a opiniao public como nenhuma outra. Assim, ao menos em tese, Jader Bar- balho seria o candidate mais forte a par- ceria do empresario. Apoiando Rominho para o governor, ofereceria aos seus cor- religionarios peemedebistas uma inveja- vel estrutura de poder, ao mesmo tempo que tiraria da candidatura de Almir Ga- briel uma de suas bases de sustentaao, sem precisar descer do planalto a plani- cie para om corpo-a-corpo paroquial. JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE ABRIL / 1998 3 0 precario e transitorio Durante muitos anos, todas as vezes que os fiscais apre- endiam peles de animals sil- vestres na Amaz6nia, os que as comercializavam alegavam que as peles faziam parte do estoque remanescente, aque- le imcialmente autorizado pelo IBDF a partir da vig6ncia da lei protetora. O mesmo acon- teceu corn a castanheira: por various anos os extratores cir- cularam cor a arvore dizen- do que ela se originava da area que seria inundada pela barrage de Tucurui, onde, excepcionalmente, era auto- rizada a derrubada A desculpa csfarrapada se repete corn os tais agentss conmunitrios", a designagco utilizada pelo govemo em lu- gar de "comissarios de poli- cia" para, dessa maneira, re- apresentar um projeto ja der- rubado no legislative e con- tratar de novo os velhos e execrados "bate-pau" ou "en- costados" da engrenagem po- licial. 0 problema existe. Em pequenas cidades (abaixo de tres mil ou mil habitantes, fi- cou impreciso no projeto), nio ha policiais. Os que poderiam ser deslocados nao querem ir. ) Jader ainda poderia assegurar a vaga de senador para o RM junior, mas sem po- der nivelar sua oferta, nesse particular, a do governador, ja um parceiro comer- cial do Sistema Romulo Maiorana de Comunicagao. Ou sera que Rominho julga-se capaz de aglutinar a todos em tomo do seu nome, desfazendo as barreiras que mo- mentaneamente separam Almir de Ja- der e de Helio? E uma hip6tese a considerar em abs- trato, como as demais. Que todas elas possam entrar em cogitaqgo, gravitando em torno de uma personalidade como a de Romulo Jr., sem passado na vida pu- blica, sem antecedentes politicos, sem poder gravitacional pr6prio, que fez de sua poderosa corporacao empresarial um instrumehto de a9do pessoal, familiar e O salario oferecido nio esti- mula ningu6m. O recurso, entao, seria recrutar gente local e usa-la como se fosse policial. Ja esta ali mesmo e se contentara cor o que Ihe sera pago (um salario minimo, no caso). Mas isso 6 mesmo soluCgo, ainda que precaria, ditada pelas circunstincias? Um home da localidade, nomeado policial por apadri- nhamento politico ou reco- mendacio clientelista, ainda que nao receba uma anna do Estado e tenha sua compet6n- cia circunscrita a tal acgo co- munitaria (como se fosse abs- trata, aplicavel a todas as "co- munidades"), qual umjuiz de paz redivivo (quantas atroci- dades eles nao cometeram no passado?), 6 um candidate potential a d6spota. Seu pri- meiro discurso no cargo sera o inefavel "sabe com quern esta falando"? Quem nao sou- ber sera devidamente enqua- drado. Por bem ou por mal, a segunda alternative como re- gra. A intencio do projeto apre- sentado ao legislative na se- mana passada 6 usar esses policiais a titulo precnrio pelo mais breve period de tempo Process vai O juiz R6mulo Ferreira Nunes, da 21a vara civel de Belem, decidiu nao suspender limi- narmente o conv6nio assinado em setembro entire a Funtelpa e a TV Liberal para a trans- missao da programacao da emissora privada gerada via satellite, usando a rede em terra da fundaCgo estadual, como pediu-lhe o deputa- do federal Vic Pires Franco atrav6s de agao popular ajuizada no ano passado. O juiz deci- diu que a complexidade da questao e o envol- vimento politico-partidario que nela pode ha- ver exigem uma apreciaiao mais demorada e acurada, optando por indeferir a liminar re- querida e processar normalmente a instrunao da demand. Ele acha que essa decisao nao corporativa, evoluindo em sentido con- trario ao dos neg6cios piublicos, ja da uma media da pobreza dos quadros politicos do Para, de sua quase inanigco. Um nome novo como o dele nio represent renovagao alguma. E apenas um nome a mais que se acrescenta ao dos coro- ri6is detentores do poder no Estado, que ja foram de barranco, da guard nacio- nal, das forcas armadas e, agora, sao da midia. Talvez, mesmo sabendo que todo esse universe de especulag6es pudesse ser suscitado por sua iniciativa, Romulo Maiorana Jr. tenha visado apenas uma coisa: seus neg6cios. Nesse caso, o que ele estaria querendo seria uma vaga se- natorial na chapa official para usa-la como barreira de protego contra seu concorrente, o tamb6m senador e em- possivel (s6 at6 a eleigco?). Mas, alem de servir como mais um testemunho da falta de uma political de seguranca public para valer, proporcio- nal a gravidade do problema para o qual deveria ser a so- lugCo, ameaca tornar-se a pele do estoque remanescen- te e a castanheira do lago de Tucurui. Ou seja: um policial tao precArio e provisorio quanto a pele e a madeira - ou o governor que, mesmo quando nao gera tais situa- c6es, as coonesta e perpetua, mantendo a boca torta pelo mau habito do cachimbo. * para instrugao causara prejuizos ao patrim6nio public por nao vislumbrar nenhum risco iminente na ma- nutengdo do convenio. Ap6s esse despacho, o pr6ximo momen- to do process sera a realizacao de algu- mas das dilig6ncias solicitadas pelo repre- sentante do Minist6rio Piblico. O juiz defe- riu apenas a juntada aos autos de todos os documents do process que sobre o mes- mo assunto tramita no Tribunal de Contas do Estado, o envio a Embratel de um ques- tionario sobre custos e operacionalidade do "transponder" do Brasilsat utilizado pela TV Liberal e a obtencgo dos ultimos cinco ba- langos anuais da Funtelpa. * presario Jader Barbalho, e ariete para novos e mais rentaveis negocios. Um indicador nesse sentido 6 sua re- cusa era publicar as mais recentes pes- quisas do Ibope, por ele mesmo encomen- dadas. A ultima mostra que o governador ja esta um ponto a frente de Jader Bar- balho na intencgo de voto para o govemo do Estado (ver Jornal Pessoal 184), depois de ter estado bem atras. Mas a pesquisa s6 sera publicada quando a di- ferenca for superior a de um empate tec- nico ou suficiente para mostrar que o se- nador peemedebista ja nao tem o tradici- onal um tergo do eleitorado paraense. Ou seja: estara enfraquecido o suficiente para poder ser golpeado. E o que almeja Ro- mulo Maiorana Jinior? Sondar sua cabe- ca nao e tarefa ficil, mas, a partir de agora torna-se tarefa civica. 0 -__,: _._. -- ,_--.-._ _: --J-.. : _L ---_.F _: .- . ... B ...._:. .- 4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE ABRIL/ 1998 Todos comemoram: os Panara renasceram Foi um moment hist6rico aquele que umas 150 pessoas testemunharam no audit6rio do Sesc-Pompeia, na noite fria do outono paulistano do ilti- mo dia 6. Ali estava quase 10% da populacgo Panara, 12 homes e duas mulheres representando a tribo que teve seu contato documentado pela imprensa como nenhu- -4 ma outra. 25 anos atras, na divisa de Mato Grosso com o Para, 9 Entre 1972 e 1973, quando foram "pacificados" no rio 1 Peixoto de Azevedo, eles eram os indios gigantes", os Kreen-akarore (ou qualquer outra das muitas denomina- l 9ces alternatives que se qui- sesse adotar). Quando se des- cobriu que apenas um deles era realmente grande, corn mais de dois metros de altura, . o interesse que ate entao era j mundial diminuiu. Nem mes- mo a ma noticia de que aquela t o nacao primitive estava desapa- recendo por causa da BR-163, i com suas doenqas e seqiielas, conseguiu reavivar as atenc6es. Or.ando e Claudio Villas Boas. que haviam comandado a frente de atracgo para per- mitir a passage da estrada, li- gando Cuiaba a Santarem, deci- diram levar os 30% que haviam sobrevivido desde seu primeiro encontro, na floresta, para o Parque Nacional do Xingu. En- tre indios inimigos e uma paisa- gem estranha, os Panara vive- ram ali seu exilio durante um quarto de seculo ate decidirem, sete anos atras, voltar a terra de origem. No auditorio do Sesc-Pom- peia de Sao Paulo, o principal I aliado dos indios nessa emprei- I tada, o Instituto Socioambien- I tal, programou uma festa para celebrar o renascimento dos Panara, agora com seu nome verdadeiro. Houve o langa- mento de um belo album documental (Panarc, a volla dos indios gigan- tes, com impressionantes fotos de Pe- dro Martinelli e texto de Ricardo Arnt, Raimundo Josd Pinto e minha partici- pac~o). a apresentacgo de um do- Scumentario dirigido por Aurelio SMichiles e uma mesa-redon- Sda. Ela confrontou mais uma vez o ultimo sobrevivente dos Sirmaos Villas Boas (Leonar- - do morreu primeiro e Claudio j foi-se no mes passado) e os indios que eles forcaram a ser incorporados a sociedade na- cional. Orlando, cor mais de 80 anos, p6de passar o brago sobre o ombro do cacique Aka e dizer-lhe paternalmente: "encontrei pela primeira vez seu pai ou seu av6 em 1949". Uma ou duas gerac6es de ,Panara desapareceram sob os olhos dos Villas Boas nao S por causes naturais. mas pelos azares da integra- I Scao compuls6ria dos indi- Sos a civilizagao dos bran- % Scos, que impoe suas regras I (e suas mazelas). Se Claudio e Orlando nao se 0 Stivessem antecipado aos pe6es e soldados do SBatalhao de Engenharia ode Construcao do Ex6rcito, que vinham Srasgando a floresta, ou k jdos garimpeiros, colo- I nos e fazendeiros que Sos seguiram, os sobre- Sf viventes Panara teriam sido menos numerosos. E %se nao os tivessem for-i I cado a abrigar-se no Par- que do Xingu, talvez ne- lnhum deles pudesse estar) present a festa de Sao Paulo. SComo haviam feito quase * um ano antes, quando as ima- gens de sua hist6ria foram-lhes apre- sentadas pela primeira vez, no Museu de Arte de Sao Paulo, os Panara apon- taram seus dedos e fizeram acusagoes a Orlando (desta vez, Claudio ja nao estava presente. Mas as sentidas quei- xas poderiam ser interpretadas como a revolta de um passageiro que sobre- vive a um acidente aereo e reclama pela perda de toda a sua bagagem, com tudo de valioso que tinha dentro (inclusive, na hist6ria Real dos indios, families intei- ras). % Estara ao alcance dos in- r i dios brasileiros a possibilida- de de escolher entire duas boas alternatives, ou so Ihes Sresta preferir a menos ruim? O ideal d uma utopia ainda a es- tpera de melhor formulacao. mas os que participaram dos dois dias de programaago em S torno dos Panara puderam S medir a importancia da evolu- gao. Mesmo excluidos das me- thores alternatives e limitados por sua pr6pria estrutura tribal |1 (que os faz ver sempre apenas S o cenario imediato e exigir ade- Ssao incondicional por parte de seus aliados, mesmo que eles Snao Ihes possam conceder o tempo integral e equipes intei- I ras, como sempre querem), os p Lindios estao mais bem equipados e tem adeptos melhor prepara- S dos. Foram os Panara. contra to- das as possibilidades entao ad- mitidas, que decidiram embar- car na aventura da volta a terra native. Mas eles nao alcanCari- l aam o objetivo sem companhei- S ros de viagem como o ISA, que. alem de bem intencionados, sao %competentes no assunto. Claro que as comemorag6es da sema- i na passada nao sao absolutas I kainda esta pendente o pagamen- to de indenizagao aos indios e a demarcacao de sua nova reser- p ^va, com quase 500 mil hectares I(a maior parte dela ja do lado i do Para, nas nascentes do rio Iriri). Mas pelo menos os parti- cipantes daquele moment historic do dia 6 tinham o que comemorar, uma motivagao rara (mas cor frequencia crescente nos tltimos tempos) na his- t6ria do indigenismo brasileiro. * JORNALPESSOAL 2' QUINZENADE ABRIL/ 1998 5 0 desafio: salvar o maior banco genetic do planet Ate o final do pr6ximo ano, depois de ab- sorver nove milhoes de reais de investimen- to. o Centro de Biotecnologia da Amaz6nia devera estar pronto para funcionar em Ma- naus. Mais uma vez o Para ficara para tras num setor de ponta do conhecimento. vital para a regido que abriga a maior de todas as florestas tropi- cais. Mas o centro nao estara mal situado na capi- tal amazonense. Afora o provinciano bairrismo, o inico prejuizo de Belem nao ser a sedc da nova instituict o talvez esteja na menor massa critical disponivel em Ma- naus para um acompanhamento mais eficaz do que uq la se fara, sob a lideranca internal dos paulistas (atra- a ves da Universidade de Sao Paulo e do Instituto Butanta) e a vivissima parceria (como se diz no jar- gao) dos estrangeiros. Este e um detalhe que cabe as elites paraenses aprofundar. O Estado vinha acumulando o melhor conhecimento sobre a regiio amaz6nica, assegu- rando sua lideranca cultural e intellectual, mesmo quando (como agora) ela nao correspondia aos indices econ6micos. Nao e so ner principalmente que o Amazonas haja su- perado o Para, mas que a pr6pria Amaz6nia tenha perdido em densidade e atualidade na reflexao sobre ela mesma, no dominio de sua hist6ria e de seu destiny. Estaria menos apta agora a interpreter scus interesses do que antes. Um centro especializado em biotecnologia. com capacida- de real para acompanhar o melhor padrao mundial, chega tarde a Amaz6nia Quinze anos atras os consumidores ame- ricanos ja gastavam 12 bilh6es de d6lares na compra de re- medios extraidos de plants medicinais de florestas tropicais, que correspondiam a um quarto de todas as drogas que as industries farmaceuticas entao comercializavam nos Esta- dos Unidos (varias, naturalmente, sao pura quimica). Se tivessemos como meta de medio prazo tender a meta- de dessa demand (o que seria perfeitamente factivel, bas- tando para isso investor na proporiao correspondente, pode- riamos faturar US$ 6 bilh6es, umas 15 vezes mais do que obtemos no moment com a venda de madeira s6lida. que e - e, infelizmente, ainda continuara a ser por muito tempo - uma atividade sem sustentabilidadc. Como observou o cientista Timothy Ferris, "todo esse lu- cro foi obtido de menos de 50 entire milh6es de plants en- contradas nas selvas c florestas do mundo", a mais impor- tante das quais e a nossa. At6 o inicio desta decada, apenas 2% das 250 mil species de plants superiores da Terra (80 mil delas nativas da Amaz6nia) haviam sido investigadas para finalidades medical. Constatacgo que levou Ferris a obser- var: "Frente a floresta tropical, o botanico modemo se senate tao pequeno na sua ignorancia quanto o astr6nomo ao refletir sobre a vida entire as galaxias". Os paises mais ricos e as empresas mais audaciosas con- cordam cor Ferris que a riqueza deste planet esta nos ban- cos de dados do mundo natural. Processes destrutivos simul- taneamente velozes e caoticos. como os que ocorrem ha quase quatro decadas na Amaz6nia, com patrocinio official, signifi- cam a destruigao de "terabytes de dados geneticos". Se preferimos continuar passando ao mundo um atestado de idiotia coletiva, os mais inteligentes (ou sagazes) es- Stao tomando suas providEncias tanto para nos substi- tuir quanto para nos deixar para tras. Dois meses atras, as duas maiores companhias farmac6uticas da Inglaterra e das maiores do mun- do, a Glaxo Wellcome e a SmithKline, anuncia- ram sua fusao. Ao se concretizar, sera a maior da hist6ria empresarial do setor. Unindo seus faturamentos (que somariam 27 bilh6es de Sd6lares) e seu valor de mercado (de US$ 195 bilh6es), as duas empresas visam um inico objetivo: fortalecer a capacidade de pes- quisa de ambas. Juntas, elas passarao a ter um or- camento para o desenvolvimento de medicamentos (de US$ 3 bilhoes ao ano, 10 vezes os incentives fiscais administrados pela Sudam) superior ao da atual lider do setor, a suiga Novartis, que em 1996 aplicou US$ 2,4 bilhoes em novos remedios. O mercado mundial de medicamentos tem o tamanho de US$ 222 bilhoes (um quarto do PIB brasileiro a cada ano). Glaxo e SmithKline reunidas movimentarao 9% da Bolsa de Londres. O Brasil, que tern na Amaz6nia terabytes de dados gen6ticos, sem competitor visivel, portanto (ao menos em these conta pouco mais do que zero porque seu investimento em pesquisa e desprezivcl. O pais gastara quase US$ 300 milh6es ao ano, durante os proximos cinco anos, para montar o incrivel Sivam (Sistema de Vigilancia da Amaz6nia), de raizes geopoliticas, mas me- nos de uma decima parte disso no conhecimento desse for- midavel banco de dados gendticos para o qual se viram os olhos arregalados de gigantes empresariais como as gemeas britanicas (que investirao dois Sivam a cada ano, mas nao visando fantasmas matutinos). Enquanto derrubamos arvores antes de sequer identifica- las botanicamente, para no lugar plantar capim ou cultures de subsistencia que nao se sustentam mais do que duas ou tres safras, corn baixa ou nula capacidade de chegar ao mer- cado, essas corporac6es buscam na nossa maltratada vege- ta go os meios de cura para doengas como o cancer e a AIDS e para um faturamento que supera o nosso comercio exterior. Podem tentar manter integras nossas florestas o tempo necessario para coletar as informaqces de que ncces- sitam, se isso for possivel. Mas, e depois? Se nao consegui- rem, terao perdido dinheiro. N6s perderemos o nosso future. Vamos chorar a sombra das savanas que sobrevierem as florestas calcinadas. O centro que esta sendo instalado em Manaus vai co- mecar a mudar essa lamentavel situacdo, ou apenas vai aproximar de n6s o confront corn a nossa incapacidade de encarar a serio o desafio da floresta amaz6nica? Quem puder apresentar uma resposta categ6rica, que arrisque. Mas nao deve demorar. O tempo conspira contra esta nacao de insensatos. * 6 JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE ABRIL / 1998 O Para tem o 120 potential de consu- mo do Brasil, liderando nesse aspect a regiao amaz6nica (o Amazonas, que vem a seguir, esta em 170 lugar). Infelizmen- te, O Estado de S Paulo, como parece comum nesse tipo de jornalismo infor- matizado, que se preocupa mais corn a visualidade grafica do que cor a con- sistincia da informaa.o, publicou a ta- bela sem nada dizer a respeito da sua base metodologica. Informou apenas que a pesquisa medium o potential de gasto de cada uma das unidades federativas brasileiras. Como era de esperar, Sao Paulo con- centra um terco do consume national, embora apresente um ligeiro declinio. O Rio de Janeiro vem muito atras no se- gundo lugar. corn pouco mais de um ter- co do consume paulista (mas com mo- desta evolugao de 1996 para 1997). Mi- nas Gerais ter 10,4% do potential de gasto, declinando em proporqdo maior do que Sao Paulo nessa suave descentrali- zac o. A quarta posicao e do Rio Gran- de do Sul. cor 7,4%. A seguir vem Pa- rana (6,1%), Bahia (4,8%), Pernambu- co (3,3%), Santa Catarina (3,1%), Goi- as (2,6%), Ceara (2,5%), Distrito Fede- ral (1,77%) e Para (1,73%). Observa-se que Brasilia apresentou um dos maiores indices de queda de consume nos ultimos dois anos (con- sequjncia do empobrecimento relati- vo da burocracia official) A do Para foi quase imperceptivel, assim como pouco significativo foi o crescimento do Amazonas (cor 1,1% do consume brasileiro). Fonte de producao de bens para uma parcela consideravel do con- sumo national, a Zona Franca de Ma- naus nao consegue ela pr6pria evoluir como consumidora, o que traduz inca- pacidade de reter a renda gerada. O efeito multiplicador vai ocorrer long. Mesmo preso a camisa-de-forga de um modelo classicamente colonial, nesse particular o Para sai-se melhor do que seu vizinho. Mas falta a ambos moti- vos para comemoracio. Antunes, nao Augusto Trajano de Aze\ edo Antunes, o dono da Icomi. no Amapa. nao inter- mediou em 1966, junto corn hoje deputado federal Roberto Campos (a epoca mlinstro do Planejamento), a aproximario entire o nilionario Daniel Keith Lu- d\%ig co president Castclo Branco "Em nome da verdade", o general Otavio Costa envia do Rio de Janeiro o seu testemunho, a prop6sito de materia publica- da no n:fnmcro 183 deste jomal ("0 Jari em crise: historias e est6rias"). "A prineira %ez que o elho Antunes ouI iu falar de DKL foi quando. ja auto- nzado a implantar seu proleto. o norte-americano pediu ao gerente da Iconu no Amapa para ajuda-lo no desembarque de seus pnmeiros equipamentos destina- dos a Monte Dourado. \alendo-se do porto de Santana Ao tender o pedido. Antunes tornou-se credor do agradecimento de Ludwig. que veio visita-lo no Rio. tomando-se amigos postenormente. a partir da more do filho do Antunes, quando Daniel foi muito solidario com Augusto". Por se tratar de fonte fidediana, esta feita a corrcA0o apenas Roberto Cam- pos (conhecido na esquerda como Bob Fields, por sua amencanofilia) levou Ludwig a audiencia corn o marechal Castelo no Paldcio das Laran.leras. no Rio, em 1966. mccntitando o milionario americano a inicir seu empreendimento anaz6mco coin todo o apoio federal (--enha, sr Lud\.ig o Brasil e. hoje. urn pais seguro para os inestimentos estrangeiros". teria dio o president ao seu interlocutor) Embora afastado ha quase oito anos dos negocios do grupo Caemi, no qual ocupou cargo de direg o, o general Ota\io Costa considerou "correta" a apreci- aq;o que fiz do Jan. corn exce;io da participaqio de Antunes, detalhe que aqui se retifica Como rmlitar. inrelectual e cidadao, o general ter autoridade para prestar o depoimento "'ei nome da verdade". A migragao do consume Previsao desfavoravel Os astros nao estao muito favoraveis ao governador Almir Gabriel neste peri- odo pre-eleitoral. O leilao de privatiza- cao da Celpa pode atrasar ainda um pou- co mais, privando-o por mais tempo de uma formidavel receita de investimento. Os bastidores desse leilao ficaram mui- to agitados nas ultimas semanas, tanto pelos que querem fazer da Celpa um bor neg6cio, como pelos que querem impe- dir sua consumaiao, por considera-la ruinosa. Ainda na area energ6tica, comeca a ficar impossivel garantir que a linha de Tucurui chegue a Santar6m e Itaituba em outubro ou mesmo em dezembro, a data com a qual a Eletronorte ja esta traba- lhando. O problema 6 que a Eletronorte s6 se interessa pela obra ate Altamira, onde espera retomar um grande projeto hidreletrico. Itaituba e Santarem nao Ihe dizem respeito. Quanto a hidrovia do Araguaia, conti- nua valendo apenas ate Maraba, o que nao 6 suficiente para compensar a frus- tracao do Salobo. Tudo isto quer dizer que no Sul e no Oeste do Estado a safra de votos para o governador nao promote ser boa. Interesse public Ngo poderia a Secretaria da Fazenda dar um melhor tratamento grafico ao de- monstrativo resumido da receita estadu- al, que e obrigada a publicar todos os me- ses? A ma elaboraiao pode levar o ob- servador a achar que a Sefa nao quer que o contribuinte entenda o que esta sen- do dito ali. Ou seja: o demonstrative e publicado apenas para cumprir uma obni- gagco legal, mas nao para manter o ci- dadao bem informado. Como o secreta- rio Paulo Ribeiro e um tecnico serio, po- deria determinar a seus assessores para caprichar na montagem das tabelas de tal maneira a que eles transformem em realidade a ret6rica da transparencia, contumaz como despauterio na boca dos governantes. O 60 termo aditivo ao contrato entire a Secretaria de Educa9ao e a Vale Refei- cao, publicado no Diario Oficial de nove de janeiro, foi tornado sem efeito exata- mente um mes depois. Por qua? JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE ABRIL / 1998 7 Suicidio: as marcas da partida antecipada Bud Dwyer, um home de meia-ida- de, calvo, forte, ajeitou o palet6 bem ta- lhado, a gravata de bom gosto, e interro- gou os presents. As cameras de televi- sao ja estavam ligadas? O som estava ok? Pediu atencao. Leu uma pequena declaracao de inoc6ncia, depois deixou o papel de lado e, diante de muitos jor- nalistas convocados para sua entrevista coletiva, tirou de um saco de supermer- cado um revolver 38. Exibiu-o rapida- mente para os presents estarrecidos, colocou o cano da arma dentro da boca, voltando-o para a cabega, e disparou. A sala foi tomada de horror. Foi essa a maneira que o secretario do Tesouro da Pensilvania, uma das mais antigas e tradicionais unidades da fede- radao americana, encontrou para defen- der-se da acusagao de corrupcao que a imprensa vinha Ihe fazendo. Telespec- tadores no mundo inteiro ficaram cho- cados. Dwyer nao teria outra forma de desfazer as provas de corrupco levan- tadas na imprensa e no parlamento? Mesmo que todas as denincias fossem verdadeiras, 300 mil dolares (o valor do "alcance" a ele atribuido) justificavam o gesto extreme? Antes de estourar os miolos a partir do c6u da boca, o home das financas da Pensilvinia pediu que "o sacrificio da minha vida nao seja em vao". Nao foi. Na distant Belem do Para um reporter fez uma comparacao: se o rombo de US$ 300 mil nas contas do tesouro daquele Estado americano havia provocado uma onda de indignaqio na opiniao public local, como 6 que um golpe 100 vezes maior, praticado na capital paraense con- tra o patrim6nio do unico banco regio- nal, permanecia sob complete silencio? Nenhum dos envolvidos no desfalque de US$ 30 milh6es cometido contra o Banco da Amaz6nia parecia ter o senso extremado (ou desequilibrado) de honra de Bud Dwyer, nem a sociedade para- ense se dava conta da dimensao da pi- rataria. A comecar pela imprensa: cien- te dos fatos, omitia deliberadamente sua divulgacao por interesses pessoais. A conivencia geral fazia corn que um es- candalo de valor 100 vezes maior con- trastasse, pela impunidade, com o des- fecho sangrento (e, naturalmente, inde- sejado) na Pensilvania. Foi precise que este pequeno journal sustentasse a cober- tura do assunto, sozinho, durante meses, at6 que uma sentenqa condenat6ria em um inddito process por crime de colari- nho branco rompesse as comportas do acobertamento official e jornalistico. Mas se a sangria praticada contra o Basa foi estancada, a custa de 10 anos de provisionamentos desgastantes, o ges- to de Bud Dwyer continue a ser uma interrogacgo. Essa pergunta 6 refeita em Or Not To Be A Collection of Suici- de Notes, de Marc Etkind, um pequeno e inquietador livro que saiu no ano pas- sado nos Estados Unidos. Teria o secretario do Tesouro se ma- tado se nao houvesse imprensa, princi- palmente a que pratica o jornalismo ele- tr6nico "ao vivo" (ou criando a realida- de virtual) das nossas televises? Sem impulses anatematizantes, 6 uma inda- gagao que cabe aos jornalistas respon- saveis fazer, principalmente diante da constatacgo de Etkind de que ha uma coincidencia entire o crescimento do nu- mero de bilhetes de suicidio e a expan- sao da imprensa no s6culo passado. A imprensa estaria iduzindo suicidios ou, na verdade, estimulando suicides a co- municagao derradeira corn um mundo com o qual ja nao t6m ligac~o? O livro e uma coletanea de cartas, bi- ihetes e notas deixadas por suicides. Um em cada cinco deles teve essa preocu- pagao, registrando seu adeus ou testa- mento final. Muitas dessas despedidas eu ja conhecia e me causaram um forte impact, como o diario do grande escri- tor italiano Cesare Pavese, transforma- do no livro Oficio de Viver (viver e um oficio que se aprende, que se ter que aprender?). Pavese, autor de um inven- tario unico na passage de uma Italia campestre (mas nao necessariamente buc6lica) para a industrializacao avas- saladora, fez a iltima observacao no di- ario, levantou-se e, como quem toma um gole de agua, matou-se. Alberto Moravia escreveu a respeito um artigo devastador, execrando o pes- simismo e a prostracao niilista de Pave- se. Dei-lhe alguma razao, mas nao fi- quei convencido de que nao escreveu por despeito (ou que sua suposta coragem fosse mais afirmativa do que a aparente covardia de Pavese). Assim como a vida (nao a que se tern, mas a que se vive enquanto oficio, pe- noso ou prazeiroso, conforme o caso ou a alternancia dos momentss, o suicidio nao tem explicacao, ou nao tem uma unica explicagao, ou a explicagao que se apresenta nao esgota a complexidade do fen6meno. Pode-se dizer apenas que estar so (ou, dito melhor: ser s6) nao e um estado natural nos animals humans. Todos buscamos companhia, ou registra- mos nosso insucesso quando nao a con- seguimos. As vezes pode ter parecido que salvar um suicide era tao facil, estava tao ao al- cance de nossas possibilidades, que nos sentimos culpados por nao havermos sal- vado tais pessoas. Mas nao e bem assim - e nunca 6 assim como proclamam os simplistas ou os acusadores faceis, como Moravia me saiu diante de Pavese. Mo- ravia, 6 claro, viveu muito, vivendo inten- samente at6 o fim de seus longos anos. Mas a constelaio de Pavese era forma- da por outras estrelas. Era nelas e nio na exuberancia um tanto 6bvia de Mora- via que estava escrito o seu final (al- guns diriam: destino). Beethoven, por exemplo, nao se suici- dou, mas o que foram os seus anos fi- nais? Solitario e (por isso) surdo, espera- va apenas por uma formalidade. A abre- via~io de Mozart deve ter qual nome? Me pergunto as vezes se foi a bala do revolver que matou mesmo Van Gogh, tao singelo teria sido salva-to. Sao os misteri- os da vida e da morte, inesgotaveis, inde- cifraveis, mas nao tao angustiantes que nao permitam aos vivos enterrar seus mortos com o misto de melancolia, de- sespero, serenidade e esperanga que nos mantem deste lado de ca de um espectro que esta muito long de se dividir entire vivos e mortos, havendo entire estes al- mas tao mais vivas do que as que perma- necem, como muitos destes nossos invo- luntarios companheiros de viagem. A coletanea do americano Etkind parece-se as pedrinhas ou ao miolo de pao orientador na lenda de Jodo e Maria. A uns cabem aquelas. A outros, este. E assim caminha a humanidade. As vezes, sem saber, direto para a casa da bruxa.* Vale-tudo 0 artist Nessa queda-de-braCo en- tre a prefeitura de Bel6m e o governor do Estado pela area do entroncamento, ningu6m esta completamente certo, mas o Estado e o mais erra- do de todos. A prefeitura tem toda a razao quando exige que o projeto da Secretaria de Transportes Ihe seja subme- tido antes de poder ser exe- cutado. O contririo seria des- respeitar suajursdigao muni- cipal. Mas 6 evidence que a Praca da Biblia, naquele lo- cal, naqueles terms, 6 uma tentative de arenga. Toda a imprensa trombeteou que o lucro da Companhia Vale do Rio Doce no ano passado foi 46% maior do que o de 1996. Mesmo os que nio fizeram ex- plicitamente a declaraao, sutil- mente infiltravam a propaganda da privatizaqco. Bastaram sete meses de conduqao dos neg6ci- os por empresarios particulars para a CVRD apresentar um de- sempenho muito melhor do que sob a gestao estatal. Nao exatamente. Os resulta- dos do balanco de 1997 refletem, em acentuada proporao, as pro- vid&ncias da administration es- tatal, sobretudo na reducqo do custo administrative e na rene- gociaqco do custo financeiro, algo como um aqougueiro lim- pando o file para o client. Mas nao so nesse aspect. Se o lu- Chego ao meu hotel, noite alta em Sao Paulo. O portei- ro me entrega um documen- to que deixaram para mim. Nao ha qualquer identifica- Cao. Poderia chamar de dos- si6. mas e. na verdade, um clipping de artigos da impren- sa. Todos denunciam a mal- versa~io de recursos publicos pelo senador Jader Barbalho. Algumas materias se referem a atuacao dele como gover- nador do Para. Outras sao sobre sua participacao como ministry da Reforma Agraria e da Previdncia 'Social. Ha recortes dejornais e revistas, Ja a Setran quer criar uma situacio de fato irreversivel sobre um projeto aprovado irregularmente, que esta so- ,iendo inspegco do Tribunal de Contas do Estado, corn fortes indicios de que as fa- lhas apontadas nao poderao ser sanadas (ver Jornal Pes- soal n 176). E isso sem que outra instincia competent, o DNER, haja se manifestado, ao menos de pilblico. Todo esse agodamento por causa da dispute eleitoral. O que nao se vera ao Ion- go dos pr6ximos meses? cro liquid da Vale cresceu 46%, a parcela destinada aos acionis- tas, na forma de dividends, sim- plesmente dobrou. Isto quer di- zer que a empresa nao manteve a taxa de reinvestimento do ca- pital, preferindo colocar mais di- nheiro nos bolsos dos seus no- vos donos (que, naturalmente, poderao usar a grana como qui- serem). Esta 6 a marca mais profunda da mudanga que houve: uma em- presa estrat6gica foi substituida por uma fonte de enriquecimen- to para os seus controladores. Se isso 6 privatizaqAo inteligen- te, troco o nosso FHC por Mar- gareth Thatcher e ainda dou uma dizia de Steinbruchs de troco. A imitagdo nunca 6 melhor do que o original. do Rio e de Sao Paulo. Per- gunto ao porteiro quem dei- xou aquele document. Nao sabe. O portador nao se iden- tificou. Mas um comit6 con- tra corrupcm o se responsabi- liza. Uma conclusao acima de qualquer controversial 6 de que Jader Barbalho atrai velhos inimigos em sua tra- jetoria pela notoriedade na- cional. Para onde vai, eles vao atras. Fen6meno seme- lhante nao impediu o cresci- mento de Adhemar de Bar- ros. Mas fez dele uma mar- ca: a de Adhemar de Bar- ros. Certa vez o filosofo ingles Bertrand Russel pediu descul- pas a plat6ia. Nao tivera tem- po para preparar uma pales- tra tao simples e clara quanto se esperaria de uma manifes- tacgo natural. Ao inves da natural verve, sairia uma ex- posigao arrastada. A lembranca me veio en- quanto contemplava os traba- Ihos que Benedicto Mello reu- niu em sua mais recent ex- posig o, Caminhos, no Mu- seu do Estado. Tanta beleza e espontaneidade requerem uma s6lida maestria, aquela aplicagao exigida ironicamen- te por Russell para um traba- lho intellectual de profundida- de nao parecer artificioso. Benedito 6 o mais comple- to artist plastico paraense, hic et nunc. Um pintor clas- sico, antol6gico. Ceramista e escultor. Um t6cnico em res- taurac.o perfeccionista. Um , Como parece ser norma de marketing p6s-moderno para tempos de inseguranga maxi- ma, nao ha nenhuma indica- cao externa. Mas deduzo que aquele pr6dio imponente ao lado do qual pass na Aveni- da das Na5qes Unidas, em Sao Paulo, e a sede da Abril. Consultado, o motorist con- firma. orgulhoso. O edificio tem 25 andares, segundo consigo calcular, aco- modados em tras etapas, com uma antena destacada no alto. O imperio da Editora Abril 6 formado por 27 empresas e 22 revistas. Cresceu muito desde a construiao do primeiro edifi- cio-sede, na marginal do Tiet6, no nada aristocratic bairro do Limio. Ali osjornalistas se de- professor de artes plasticas Advogado. Figura humana que qualifica e enriquece os que tem como amigos. Al- guem precioso: diante de suas telas pode-se experi- mentar sentiments nobres, prazer est6tico superior. Be- nedicto Mello nao deixa es- pago para duvidas e questio- namentos: 6 um mestre ma- nejador de pinceis e espatu- las, de 6leos e aquarelas. Sabe-se que ele sabe tudo porque nada precisa exibir e nada na obra dele deixa es- capar a espontaneidade dos grandes criadores, cuja obra parece preexistir aos seus criadores. Longa vida, Bene: com os intoxicantes 6leos essenciais ou as matutinas aquarelas, para nosso deleite de apreci- adores e alegria de amigos. E um privil6gio t--lo de volta as galerias. frontaram com surpresas. Um excelente restaurant, por exemplo. Um garcon enfatio- tado que passava cor seu car- rinho luxuoso servindo cafe, cha e sandwiches a larga. Al- moxarifado mais do que gene- roso (pedia-se algumas laudas. recebia-se uma resma). Far- macia bem fomida (caixa de analgesico para uma dor de cabeca vagabunda). Tudo cif, ou quase (mais-valia relative, aprendi, sem a ajuda do doutor Marx, que prendia corpos e anestesiava consciencias). Pergunto-me, agora a dis- tancia. sem um cracha prote- tor, se o servigo no novo tem- plo 6 o mesmo. Quanto aojor- nalismo, nao tenho duvidas. Infelizmente. Odedo do dono Jornalismo Marca national Joral Pessoal Editor: Lucio Flavio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo. 871 / CEP: 66 053-020 Fone: 223-1929, 241-7626 e 241-7924(fax) Contato: Try. Benjamin Constant, 845/203 1 66 063-020 Fone: 223-7690 e mail- luclo@expert com.br Editora.ao de arte: Luizpe I 241-1859 |
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