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ornal Pessoal L U C I 0 F L A V I 0 P I Ni T 0 ANO XI N 183 2@ QUINZENA DE MARQO DE 1998 RS 2,00 ESCAN1).\I. ) Tucurui coan torremoto (PA. 6) A banditagem "Os presidios (PAG. 7) O maior roubo do planet? Seprevalecer a sci tenca que mandou o Banco da Amazonia pagar 81 bilboes de ": ( I '! t ' / \ ':i w -lr' I reais de indenizapco a uma empresa que s6 funcionou durante dois anos, o quepode vir a ser o mais ousado ato de pirataria da hist6ria da .humanidade terd dado S.. certo. Uma investigated seria e competent Sdesse casopode abrir asportas para identificar e eliminar as seqfGelas dos incentives fiscais e as mazelas dojudicidrio. Y e tivesse que pagar a inde- nizagao que Ihe foi imposto por sentenga da juiza Ivete Pinheiro, da 8a vara civel de B Belem, a Uniao na condi- g5o de proprietaria do Ban- m ~ co da Amaz6nia teria que raspar todas as suas decantadas reserves cambiais, que somam 60 bilh6es de d61a- res, e ainda fazer um empr6stimo interna- cional de US$ 21 bilhaes. levando o pais a insolvencia e ao caos. O valor equivale a 40 anos de exportag6es do Estado do Para e a quase 100 anos de arrecadagCo tribu- taria paraense. Ou a dois anos e meio de exportao6es nacionais. Caso recebesse todo esse dinheiro, a Sabim (Sociedade Aninima Brasileira de Ind6stria Madeireira) se tornaria uma das mais poderosas corporacges do planet. Seu patrim6nio ultrapassaria em duas ve- zes e meia a fortune do home mais rico do globo terrestre, o americano Bill Ga- tes, dono da Microsoft (que, evidentemen- te, nio disp6e dessa riqueza em moeda sonante). Como esse absurdo materializou-se em Santa Maria de Bel6m do GrIo Para, que precisaria juntar quase 600 anos de im- posto arrecadado no municipio para ter a mesma montanha de dinheiro que sairia dos cofres publicos para os da Sabim? S6 se foi por alquimia produzida nos autos judiciais e suas extensoes invisiveis. A Sabim foi criada pelo advogado pau- lista Cyro Pires Domingues no final de dezembro de 1964. A empresa, por6m, s6 funcionou regularmente durante dois anos (1966 e 1967), usando dinheiro que o go- verno desviou do imposto de renda para aplicaiao incentivada na Amaz6nia. os polkmicos incentives fiscais. Em 1968 a Sabim iniciou um processao de concor- data preventive, dois anos depois trans- formado em falencia pela comprovada in- capacidade da empresa de honrar seus compromissos. O empresario alegou que o empreendi- mento comegou a afundar quando o di- nheiro dos incentives fiscais deixou de ser- lhe repassado, confonne o compromisso que a SPVEA (e depois a Sudam) havia assumido. Descapitalizado. tentou recom- por-se atrav6s da concordata, mas o Basa, principal dos credores, nao p6de ou nao quis esperar, precipitando a fal6ncia. O Basa, agent financeiro da Sudam, ) 0 JARI ACABOU; VIVA 0 JARI? (PAG. 4) I ,\ 2 JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE MARCO / 1998 ) foi duplamente responsabilizado: por n~o ter liberado a colaboraqao financeira e por ter sido p6ssimo administrator da massa falida, dilapidando-a. Da cobran- ca resultou a maior indenizacqo ja arbi- trada em toda a hist6riajudicial brasileira (quica do mundo?). Se este fosse um pais serio, a simples admissao de tal hip6tese teria bastado para provocar uma crise (quando nada, moral) de dimensdo naci- onal e repercussao mundial. A hist6ria real distancia-se muito das verses levadas aos jornais, ocupando es- pago desproporcionalmente minimizado. O nome de Cyro Pires Domingues ficou associado ao da grilagem de terras no Para. Ele surgiu na primeira safra da "in- tegraqao national", figurando entire os que se aproveitaram da primeira ligagio por terra da region ao pais, atrav6s da Be- 16m-Brasilia. Personagens dessa "corrida" se ante- ciparam a valorizadao das terras amaz6- nicas obtendo titulos junto a uma admi- nistragao estadual despreparada e as ve- zes corrompida (como a que havia no Para na passage dos anos 50 para os 60), esticando as dimens6es desses titu- los, fabricando-os ou utilizando-os como simples instrument especulativo, para sucessivas transaqoes imobiliarias sem qualquer preocupa~lo com o uso efetivo da terra. A "gleba Eico", uma das empreitadas imobiliarias da Colonizadora Belem-Bra- silia, de Pires Domingues, acabou se tor- nando um dos mais intrincados n6s fun- diarios do Para, inclusive ou sobretudo porque entire os que se sucederam nas transmiss6es de suposto dominion estava o Bradesco, client de uma poderosa e influence banca advocaticia local. Uma das finalidades da criagAo do Iterpa (Ins- tituto de Terras do Para), em 1975, foi justamente a regularizaiao fundiAria des- sa gleba, que se reduzira, na origem, a um loteamento cartografico. Um dos lo- tes, quando plotado, teve parte da sua area assentada no rio Tocantins. Outro, se- guindo as coordenadas geograficas, iria parar no Oceano Atlintico. Alem de vender lotes a terceiros, Pi- res Domingues reservou alguns deles para former uma empresa e habilitar-se a re- ceber dinheiro das deduc6es incentiva- das do imposto de renda. Tratou de su- perfaturar os valores na hora de incor- porar as glebas ao patrim6nio da Sabim, integralizando-as ao capital por 903 mil cruzeiros (valor da 6poca) para apenas CR$ 139 mil de recursos pr6prios aquela altura ja aplicados. Com isso, podia cre- denciar-se a receber contrapartida dos incentives fiscais. Antes, obviamente, a Sabim teve que aprovar o seu projeto, que previa a im- plantagdo de uma serraria e colonizag~o (seguida de plantio de dend6 com colo- nos japoneses). Mas a SPVEA (Superin- tend6ncia do Piano de Valorizacao Eco- n6mica da Amaz6nia, substituida em 1966 pela Sudam) nao concordou, ori- entada pela FAO (a ag6ncia da ONU), exigindo a reformulagAo do projeto. Ele foi final aprovado em outubro de 1965. Com a contrapartida de recursos pr6- prios (devidamente inflacionados pela in- corporagAo das terras), a Sabim habili- tou-se a CR$ 1,9 milhao de incentives fiscais. A SPVEA (e, depois, a Sudam) fez trAs liberaq6es, entire 1966 e 1967. Como adiantamento por conta dos recur- sos oficiais, o Basa fez um emprestimo a Sabim em maio de 1967. Em marco do ano seguinte a empresa pediu outro em- pr6stimo, no valor dos incentives fiscais dos quais se julgava credora junto a Su- dam (1,4 milhao de cruzeiros). A superintend&ncia argumentou que a empresa s6 teria direito a essa liberagqo se fizesse a atualizagao do seu projeto, permitindo-lhe receber at6 dois tercos (e nao mais metade) do valor do investimen- to total de incentives fiscais para um ter- co (nao mais metade) de recursos pr6- prios. Mas a Sabim nunca fez essa atua- lizagAo. O projeto era apenas de fachada, para fiscal ver, se quisesse, como mui- tos que passaram pela carteira da Sudam e do Basa. ma inspe ao da Sudam constatou que grande parte dos recur- sos da colaborago fman- ceira havia sido desviada, que a parcela de recursos proprios efeti- vamente aplicada estava aquem do decla- rado e necessario para a habilitagao a con- trapartida, que a transferencia das terras da Colonizadora Belem-Brasilia para a Sa- bim nao havia sido consumada (e, por dever imposto de renda, a colonizadora estava cor seu patrim6nio comprometi- do por cobranga da receita federal) e que a situaqio dominial das terras nao era re- gular. O projeto da Sabim acabou sendo cancelado pela Sudam. Como principal credor, o Basa foi no- meado sindico da massa falida pela juiza Climenie Pontes (hoje desembargadora), em 1970. Mas durante os anos seguintes o banco se queixaria da impossibilidade de reunir os bens, avalia-los, conferir as contas da empresa e sanear o seu passi- vo. As dificuldades eram atribuidas a ma vontade dos empresarios, ao sumigo do comissario da concordata anterior, a irre- gularidade patrimonial da empresa e at6 a uma sabotagem do cart6rio da 8" vara ci- vel. Os autos do process, distribuidos atu- almente em cinco volumes, registraram as reclamac6es do representante do Basa. Ele aponta o desaparecimento de nada menos do que 90 folhas do process, incluindo uma nota promiss6ria, e denuncia a recu- sa nao-declarada do cart6rio de dar-lhe acesso aos livros da escriturag~o da Sa- bim (uma das justificativas e de que a cha- ve da sala onde eles se encontravam, no pr6dio do f6rum da capital, fora perdida). Em abril de 1974 a juiza reconhecia a "atitudedesrespeitosado cart6rio", que nAo cumpria "as ordens emanadas deste jui- zo" entiree as quais, um despacho de no- vembro de 1971). A pr6pria magistrada tinha razbes para queixa, ja que somente "depois de 2 anos e meses 6 que me vie- ram conclusos os autos e assim mesmo, sem ao menos as informac6es determina- das". No final de 1976 o Basa ainda reclama- va da "falta de provid6ncias cartorarias" para tender as determina6es do juizo e reparar falhas, como o desaparecimento de folhas dos autos. Pedia mediaa coer- citiva" contra o cartorario. Mas a pr6pria juiza continuava a lamentar que a escri- vao "esteja a desafiar o juizo", como se uma aqao mais drastica e pratica devesse originar-se de outra instAncia, talvez dos ceus (onde esta jurisdicionado o juiz su- premo). Os sucessivos incidents e protelaq6es que tumultuaram o andamento processual ao long de toda uma decada culminaram em 1980, quando Roxane Pires Domin- gues requereu e, por surpreendente que pudesse parecer, obteve a destituicio do sindico da massa falida. Ela nao era cre- dora habilitada e sua qualificadao mostra- va que tinha o mesmo enderego (rua Hei- tor de Moraes, 57, em Sao Paulo) do dono da Sabim, alem do mesmo sobrenome. Ainda assim seu pedido foi deferido. Para culminar o inferno astral, a juiza Cli- menie Pontes rejeitou a prestagio de con- tas do Basa, em janeiro de 1981, entire outros motives porque o banco nao havia cumprido o prazo legal de dois anos para a conclusao do process falimentar, nao inventariara o patrim6nio colocado sob a sua responsabilidade, nao arrecadara os bens e contribuira para a ruina da firma, desviando recursos que deveriam nela ter sido aplicados (o que caracterizaria um "alcance"). Em apenas um mAs, o novo sindico, o - paulista como Domingues Nelson Bar- rionuevo, conseguiria realizar tudo o que o Basa alegara nao ter feito em 10 anos. inclusive estimular uma incondicional boa vontade por parte dos dirigentes da Sa- bim. Em 1981 os peritos fizeram a avalia- cAo patrimonial da empresa e os danos por ela sofridos em conseqiiUncia da inepcia do Basa e a juiza sentenciou, condenando o banco ao pagamento da indenizacio ava- liada. O Supremo Tribunal Federal anulou essa sentenga em 1985, acolhendo recurso JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE MAR(O / 1998 3 extraordinario do banco. Segundo a emen- ta da decisao uninime, "nula 6 a sentenga que defere aos peritos a fixacao da res- ponsabilidade por alcance na prestagao de ccntas". o inves de determi- nar novas pericias, como queria o Basa, interpretan- do a decision do STF, aju- iza mandou apenas atua- lizar o laudoj a existente, restabelecendo o process do ponto em que ele ficara quando a questdo subiu para Brasilia. O banco agravou dessa decisao em abril de 1987. O agravo foi recebido em duplo efeito (o devolutivo, que garan- te prazo para os recursos cabiveis, e o suspensivo, que suspended a tramitacAo do process principal ate a decisao final so- bre o recurso utilizado) seis meses depois, mas os autos permaneceram inertes no cart6rio da 8" vara civel. O agravado (no caso, a Sabim) nao foi intimado e a conta nao foi apontada (o que, em linguagem tecnica. significa que nao houve o prepa- ro do agravo). A juiza Ivete Pinheiro, que pegou o process ao assumir a vara, deu-lhe prosseguimento normal, aprovando os laudos periciais e dando vistas as par- tes. Em outubro de 1996, o principal da indenizagco somava 541 milhoes de re- ais (valor que, incluindo atualizagoes, juros e cominaq6es legais, chegou no ultimo calculo a R$ 81 bilhaes). Incluia tao-somente tr6s glebas de 35 mil hec- tares em Paragominas. outra de 4.356 hectares a margem da Belem-Brasilia, uma area industrial em Icoaraci, benfei- torias, equipamentos e os creditos da Sabim, sem qualquer indagacqo sobre a condigao juridica ou mesmo fatica dos bens. O terreno industrial fora levado a hasta public antes da falencia. Quase todas as areas rurais foram invadidas porque seus donos jamais as ocuparam. Os equipamentos foram retirados. Di- nheiro public foi desviado. A Sabim imediatamente concordou corn os laudos. O advogado do Basa, Deusdedith Ribeiro, que se manifestou pela primeira vez nos autos em agosto do ano passado, pediu mais 20 dias de prazo, alegando a complexidade da ques- tao. A juiza deu-lhe metade do tempo, 10 dias. A 26 de novembro o advogado voltou a carga: queria que os 10 dias se multiplicassem por tr6s. Nesse mesmo dia a Uniao pediu vista dos autos (re- querimento indeferido por falta de pro- curacao). A 1 de dezembro Deusdedith lem- brou em petiiao que o process preci- sava ter seu curso sobrestado em vir- tude do recebimento do agravo no du- plo efeito. No dia 23 do mesmo mrs o procurador-chefe da Uniao no Para, Adao Paes da Silva, solicitou o deslo- camento do process para a justica fe- deral, que deveria ser a instincia com- petente. A 6 de fevereiro deste ano a juiza sentenciou, rejeitando a prestaclo de contas do Basa e mandando-o pagar a indenizagao. S6 seis dias depois che- gou a 8" vara oficio da desembargado- ra Albanira Bemerguy, solicitando ju- iza informag6es sobre outro agravo do Basa, cujo pedido de liminar ja havia indeferido. Ivete Pinheiro informou que ja sentenciara a aqao, tirando o objeto do recurso. A 17 de fevereiro Deusdedith apre- senta embargos de declaragio. Duas se- manas depois a juiza rejeita o recurso, mantendo sua sentenga. No ultimo dia 9 o procurador-geral da Uniao, Walter Ba- cletta, protocolou sua apelagao, pega preparada em Brasilia. Ele protestou contra o trancamento de gaveta dado ao agravo do Basa de 1987, observou que a decisao do Supremo Tribunal Federal de 1985 nAo foi cumprida, que a pericia aprovada pela juiza nao passou de "atu- alizagAo do laudo anteriormente feito" e que a questao teria que ser deslocada para a esfera judiciaria federal. O impasse esta armado. Se simples- mente a sentenqa tivesse que ser execu- tada, tendo o process transitado emjul- gado pela perda de prazo do Basa, como argument ajuiza, a Sabim sairia do nada para se tornar a maior empresa do Bra- sil, ficando entire as 10 maiores do mun- do. Seu advogado, se a ele fossem arbi- trados honorarios minimos, de 1%, te- ria direito a 800 milh6es de reais, a mai- or conta de advocacia de todos os tem- pos. iz-se, nos corredo- res do f6rum, que a em- presa, muito compreen- siva, estaria disposta a assinar um acordo pela modest quantia de dois bilhoes de reais (receita de impostos de dois anos e meio do governor do Para). A Uniao ja pediu a Policia Federal para apurar o contrato pelo qual a Sabim transfer para a Bras- plan Assessoria, Planejamento e Con- sultoria 1,5% do dinheiro que espera re- ceber. A partir dos valores envolvidos em algum nivel abaixo de R$ 81 bilh6es, tudo 6 possivel. Sempre havera lugar para uma pilhagem bem sucedida. A voz official nos autos diz que o res- ponsavel por esse prejuizo 6 o Banco da Amaz6nia, secundando as vezes a voz da empresa. Para a Sabim, o Basa tu- multuou o process porque transferiu irregularmente incentive official compro- metido corn a Sabim para outros grupos e nao queria ver seu golpe descoberto. Num scenario quase sempre sombreado, que foi e continue a ser a political de in- centivos fiscais, uma acusagao dessas sempre cai em terreno f6rtil. A empre- sa, por exemplo, confessa nos autos que pagou 35% do valor do incentive rece- bido para um intermediario da captagio dinheiro, numa corretagem que a lei nao acolhe. Outros dizem que a fiscalizagAo nao foi seria e que hi um jogo de favo- recimento nos bastidores, situaqao que ainda hoje se repete (ver o atual epis6- dio envolvendo um grupo de Mato Gros- so, denunciado justiga pelo Minist6rio P~blico). Ainda mais porque o Basa, a despei- to de todos os seus protests e da evi- dente ma vontade geral para a sua atu- agao como sindico, sempre pareceu a um pass da media certa para trans- formar em algo mais pratico sua ret6- rica de lisura. O advogado Deusdedith Ribeiro apontou o fato an6malo de que um advogado nao habilitado no proces- so, Aldebaro Klautau Neto, ficou com dois volumes dos autos (o terceiro e o quarto) de 23 de outubro de 1987 a 1 de dezembro de 1997, quando o cart6- rio certificou que os volumes perma- neciam com o advogado, mais de 10 anos depois. Durante todo esse perio- do o representante do banco nao per- cebeu essa anormalidade? Pode-se argumentar que o atual pro- curador do banco, independentemente de exigir o sobrestamento do process em fungdo do duplo efeito dado ao agra- vo interposto em 1987 pelo Basa, pode- ria logo ter contestado o laudo e apelado da sentenga da juiza, assegurando seus prazos, enquanto procurava fazer pre- valecer a boa ordem processual. Tantos "se" pode-se suscitar e tao poucos "por- ques" existed nessa hist6ria que, evi- dentemente, ela esta muito mal contada. Mas o que se sabe dela at6 agora e o suficiente para escandalizar o mais britanico s6dito ingles. Um deles, dos mais celebres, se vivo estivesse nesta maltratada Santa Maria de Belem do Grao Para, certamente diria que ha algo de podre (e coloque-se podridao nis- so) no reino de caruanas, tucanos & bacanacos e que esta mais do que na hora de sanear essas baixadas judici- ais e sua marginalia acompanhante. 0 caso Sabim pode ser esse detonador. Espera-se, ao menos para que este Estado, esta regiao e este pais possam passar a exigir o respeito a que os se- rios tem direito. S 4 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE MARCO / 1998 Cabanagem: em aberto 0 pesquisador americano William L. Overal, do Departamento de Zoologia do Museu Goeldi, enviou aojornal a carta publicada abaixo. Ela toca, ainda que telegraficamente, em temas tdo importantes, que me atrevo afazer comentirios a seguir Primeiro a integra da carta de Overal: S:ostei muito do seu artigo so- S bre a Cabanagem, no iultimo numero do JP, e tenho certeza que o David Cleary vai apre- ciar o reconhecimento do gesto dele em depositar os documents da "Admiralty" britinica no Arquivo Publico do Para. Nao sei ainda se n6s podemos con- cluir, como fizeram facilmente os ingle- ses na epoca, que a Cabanagem fosse uma "race war". Seja qual for, a verdade sempre vale a pena, mas confesso que estou long de acreditar que mais docu- mentos, tardiamente descobertos, vio poder resgatar a Cabanagem da mitolo- gia que a circunda e distorce. Nao espere a chegada de funds para a traducao deste valioso acervo em in- gles. Va cor dicionario. Os documents trazidos por Cleary estavam disponiveis durante decadas em Londres, a espera de um pesquisador cor a necessaria persistincia, mas ha em Washington um acervo muito mais recent que tamb6m trata da Amazonia. Depois de 50 anos de fechamento sob o r6tulo de "top secret", os arquivos do govemo dos Estados Unidos estao sen- do liberados aos poucos. Um livro re- c6m-publicado, "Thy Will Be Done: The Conquest of the Amazon", utiliza docu- mentos at6 pouco tempo classificados como segredo de estado, para explicar a rela~go entire missionarios norte-ameri- canos, a exploracio petrolifera e a con- tra-revoluRuo na Amaz6nia pos-guerra. Os nomes de informants da CIA, na sua insana guerra suja contra o comunismo na America Latina, estao ali revelados. Sera que um pesquisador quer abrir esta caixa de Pandora ou temos que espe- rar mais cem anos? Keep up the good work. Agora as minhas observag6es. Numa das minhas idas ao Arquivo P6blico, no final do ano passado, fiquei sabendo pelo Marcio Meira, entao di- retor da instituiqao (hoje na Fumbel), dos documents que o David Cleary havia mandado de Londres. Pedi e ob- tive uma c6pia do que estava no mi- crofilme. Li e reli cor muita atencao, espanto e indignacao o que diziam aqueles pap6is. Esperei durante certo tempo que al- gum especialista da material se manifes- tasse, espicacado pelos estimulos do Marcio. Continuaria a esperar ate agora se nao tivesse torado a iniciativa de tra- duzir alguns dos trechos mais represen- tativos da correspondencia diplomatic britinica (toda em ingles, of course) e colocado a questao em circuit piblico (nao fiquei, portanto, a espera de urma iniciativa official: armei-me logo dos meus dicionarios: mas o Estado pode e deve mandar publicar tudo, devidamente tra- duzido, em um volume dos Anais do Ar- quivo Piublico). Suspendendo a regra de abrir este jor- nal cor materials de conjuntura, resolvi ocupar a primeira pagina da edigao an- terior cor uma materia sobre os docu- mentos do Foreign Office britanico. Quis que a reportagem coincidisse cor o re- torno as aulas, na esperanca de que o grave assunto fosse levado as escolas pelos professors de hist6ria. Seria, afi- nal, um excelente tema de abertura do ensino. Desconfio que nao consegui alcancar meu objetivo. A persistencia do silencio dos especialistas (e dos intelectuais em geral) e inquietante. A grande imprensa, exceto pelas referencias do Acyr Cas- tro e do Rubens Silva, esta passando completamente ao largo, talvez esgota- da pela cobertura da Beija-Flor. A ma- nifestag o de Overal, um estrangeiro como Cleary, permit acreditar em al- gum eco neste desert de ideias, como diz Benedito Nunes, infelizmente com toda a razao. Estou convencido de que so um apli- cado esforco de pesquisa sobre fontes primarias de informagao podera desfa- zer as brumas da mitologia que impede a compreensao da cabanagem. Docu- mentos ainda ineditos estao armazena- dos, a espera dos historiadores, nao s6 em Washington, Lisboa ou Londres, mas aqui em Belem mesmo. E inacreditavel que, ap6s tantos livros escritos sobre a cabanagem, o Barao de Guajara ainda seja a origem de 80 a 90% dos docu- mentos primarios utilizados pelos "inter- pretes" e "ide6logos" do movimento ca- bano (que, invariavelmente, esquecem Ladislau Baena, cujo Comp6ndio das Eras e um referencial precioso sob a vi- olenta tensao social anterior a Cabana- gem) por isso. eles costumam avancar teorias e mitologias sobre o terreno mo- vedico. Tambdm espanta a fragilidade da do- cumentacgo pra ca trazida ap6s as mis- s6es de historiadores ao exterior, patro- cinadas pelos cofres publicos. Numa das idas a Washington, passei pelo Arquivo Nacional e la recolhi documents inedi- tos, isso numa incursao rapida. De umr trabalho de quatro anos no Arquivo Pui- blico do Para, acumulei dados que nc- nhum dos especialistas citou at6 agora (como a identificac9o dos rebeldes pre- sos que morreram na corveta Defenso- ra). Nao se trata de merito meu, mas e demerito daqueles que julgam poder es- crever a hist6ria baseados em tao pou- cas informac6es. O material bruto esta a disposigao de todos. Basta dispor de metodo, paciancia e humildade operati- va. So a boa execucgo desse trabalho preliminary de montagem da ossatura dos fatos possibility o ensaismo ou as anali- ses interpretativas, o recheio qualitati- vo que permit compreender a hist6ria. Por isso, acredito que a abertura dos arquivos ainda possibilitara significati- vos enbriquecimentos no trabalho de re- constituigio da hist6ria real. indepen- dentemente de nossas espectativas em relagao a ela. Seja a hist6ria colonial. como a que ocorreu meio seculo atras. ambas, frequentemente, tao pouco co- nhecidas. Mas para isso e necessario que haja pessoas ativas e instituig6es vivas, nao esse consorcio mumificado que fez do conhecimento hist6rico um objeto de deuses laicos e numismatas de trivialidades. Ah, Overal: esse livro cor enredo de escola de samba que voce citou eu nao conheco. Se quiser me mandar uma copia, sera bem recebida, corn di- cionario e tudo. * JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE MAR(O /1998 ) Um sabio ,. :---:-, a .mdo Para Quem leu, pelas paginas de A Pro- vincia do Para, a entrevista que original- mente Benedito Nunes deu a 0 Estado de S. Paulo, deve ter desconfiado da fal- ta de uma abertura para a mat6ria. Des- confiou certo: o journal paraense engoliu a primeira parte da entrevista, publicada na capa do Cadero 2. A reprodugao foi feita a partir da continuacdo do texto nas pagias interas dojornal paulista, quan- do Jose Castello observa que Maria Sil- via Nunes, esposa do fil6sofo, cuida dos discos dele. Nao exatamente. Todos os discos exis- tentes na bela casa do casal, na rua da Estrela, foram comprados por Maria Sil- via. Quando ela entra em uma loja de discos, Benedito estanca a porta e, muitas vezes, espera de costas, inquieto. Mas a sala de musica de Bene e Maria Silvia d um dos lugares mais acolhedo- res e propicios para estar, conversar e - por que nao? ouvir musica em exce- lente companhia. A entrevista feita por Josd Castello, publicada com destaque no Estadao, acompanha duas caracteristicas das aproximarqes da grande imprensa naci- onal ao maior dos nossos fil6sofos. O espago dado a ele pelas bandas de la d maior e mais respeitoso do que o daqui. Mas sempre as materials publicadas no outro Brasil ficam a desejar. Ha algumas pequenas imprecisaes na descrigio da mansarda do fil6sofo, as informac6es sobre sua obra nao sao jus- tas e as perguntas ficam a desejar em acuidade, apesar de Castello ser um dos mais conceituados jornalistas culturais do pais, com livros publicados (sobre Vini- cius de Moraes e Rubem Braga, embo- ra fracos, a meu ver). Ha um trecho da entrevista exemplar de um tipo de (neo? falso?) culturalismo que se vem praticando no Brasil, a base de muita informacio e pouco conheci- mento, muito juizo de valor (categorico, quase sempre, alem de aliptico) e pouca demonstracqo. Castello se interessa em saber de que maneira a muisica refinada, pega do cotidiano de Benedito, "pode atu- ar no pensamento filos6fico". Prosaicamente, cor a luminosidade dos que pensam claro e com conviccio, Benedito explica que a musica ter a fun- Vao de corrigir e equilibrar o peso livres- co em sua vida, criando um moment inico, "porque nao ougo musica de fun- do enquanto escrevo ou leio". Ele arris- ca classificar esse moment de "contem- plativo, de said, de exteriorizagao ou de esvaziamento. Catartico? Nao sei". Generosamente, o entrevistado procu- ra aproveitar a pergunta do entrevista- dor, sem conceder-lhe, contudo, o man- do do raciocinio, como convdm num dia- logo civilizado: "E possivel seguir a mu- sica sem pensar ou so pensando no que se ouve? Por6m acho que a musica pode atuar em qualquer forma de invenc~o e assim tambem no pensamento filos6fi- co. Mas isso indiretamente, por resso- nincia ou repercussao, assim como as imagens ou metaforas" (ou Castello ima- gina que os os aforismos intercalam os acordes?). Claro? Ora, as coisas sao claras quan- do, pensando cor clareza, nos expres- samos sem artificio. "Quanto melhor a forma de linguagem, maiores sio a exa- tidao e a clareza do pensamento, mes- mo quando complex e obscure. Nio se deve sacrificar a complexidade, dobre- se-a pela escrita maleavel, sem orna- mentos, mas bem temperada pelas cla- ves sonoras e ritmicas da lingua portu- guesa da lingua portuguesa", recomen- da o filosofo. Talvez esse ensinamento esteja fora de circulagio na Universidade a qual Benedito Nunes serviu durante tantos anos. A complexidade postica e a sim- plicidade catequ6tica estio na moda (fa- vorecendo, talvez, a militancia political, mas nao a racionalidade a sabedoria da acio political A linguagem fica empo- lada porque o pensamento d confuso. Ja um pensamento polim6rfico ou caleidos- c6pico (cor uma linguagem pr6pria, como a de Heiddegger, que Benedito tao bem estudou) 6 reduzido as regras de um catecismo. Outro dia vi, na bibliografia indicada por um professor de economic, uma lista de textos de apologia marxista, modela- dos pelos manuals que a Academia de Ciencias de Moscou editava (nada a ver, porem, com o "ouro de Moscou"). Nin- gudm vai entender a dialdtica marxista, um mdtodo de pensamento definitiva- mente incorporado ao raciocinio huma- no, porque o iluminou e fez avanCar, atra- ves desses livros. Ao procurar a simplificaio, eles adul- teram a riqueza original do pensador. E por isso que Marx deu nos marxistas (la- mentou a ma sorte no fim da vida), Trotsky nos trotskistas: tentando trans- formar a hist6ria e nao apenas interpre- ta-la (fungio secular dos intelectuais), fizeram desabrochar os components messianicos de seus pensamentos, ge- ralmente autoritarios, resultando em ma profecia. Corn o fim do marxismo enquanto dog- ma, teoria salvifica e vademecum do co- nhecimento (mas nao como ontologia), e um absurdo que um professor universita- rio continue a indicar aos seus alunos es- ses guias da salvagio, que nao resisted enquanto teoria ao teste de qualidade e viraram mesinha intellectual (se intelectu- al) enquanto praxis revolucionaria. Temos d que aprofundar o entendi- mento da complexidade com tal aplica- cao que ela se tome clara. Ser simples, ensina o fil6sofo, exige muito esforgo (quem foi mesmo que comecou um dis- curso alertando: "desculpem-me, hoje nao tive tempo para preparar uma exposiaio simples"?). A simplicidadee a clareza represen- tam o patamar superior da capacidade mental. Por isso ha tao poucos Beneditos com o nosso, que desmerecemos aqui e os de fora nao conseguem dar o mereci- mento adequado. Mas, felizmente, o fil6- sofo vai em frente, iluminando o caminho e nos impondo o maior desafio human: superar sempre, superando-se. 0 Indefinigao 0 principalproblema do ex-presidente Itamar Franco e que ele ajoelha espalhafatosamente de pziblico, mas ndo reza nem entire quatro paredes. Por que, entdo, ajoelha? 6 JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE MARO / 1998 ma empresa americana do setor, a Trillium, concordou em assumir o control do moribundo Jari. Corn >U uma condicio: ficaria responsivel apenas pelo funcionamento do complex pro- dutivo, desde que pudesse contar com crd- ditos adequados para o giro da atividade. A conta financeira, que e o que esta fazendo o empreendimento naufragar, ficaria com o go- verno. A proposta era inaceitavel. Agora os bancos credores vem cor uma oferta do mesmo nivel: tirando um misero real do bolso (insuficiente para um sorvete), passariam a ser os donos da empresa. Ai veriam como enquadrar sua divida, de 270 milh6es de reais, contratando um operator para levar o barco por rotas menos turbulen- tas. Desde, e claro, que o governor aportasse mais um pouco de dinheirinho algo como R$ 25 milh6es, para ser mais precise. Este seria o preco a pagar para nao criar efeitos sociais ainda mais funestos: a anula- cqo de cinco mil empregos, a inviabilizaqao de dois municipios, a supressao de efeitos multiplicadores sobre uma area mais exten- sa, reduqao drastica de receita cambial na conta de dois Estados e algumas centenas de milh6es, a maior parte deles said dos cofres piiblicos, definitivamente enterrados. O impact local seria poderoso, mas o que isso represent para o poder central e os Es- tados hegembnicos? O Jari nao tem mais o glamour celestial ou infernal, conforme a otica do passado. Nao passa de uma fabrica de celulose de porte mddio, a fnica do setentrifo, e de uma fonte de caulim que perdeu um pouco de sua expressao pela abertura de outras duas, mai- ores, As proximidades de Beldm, capazes de produzir quase o triple da quantidade. Mas em 1981, quando o milionrrio americano Da- niel Ludwig emitiu sinais de seu desinteres- se pelo celebrado projeto que iniciara 14 anos antes (para nio ter que pagar o empr6stimo japonds, que entao comecava a vencer), ame- aqas sobre aquele impdrio tropical eram caso de seguranqa national. Ludwig viera para o Brasil, estimulado por um burocrata de primeiro time (o entio mi- nistro e hoje deputado federal Roberto Cam- pos) e um empresArio lendArio (Augusto Tra- jano de Azevedo Antunes, ji falecido, o maior parceiro de multinacionais da Repfiblica bra- sileira). Com sua disposiCgo de investor A lar- ga na jungle in6spita, Ludwig criaria um sim- bolo dos novos tempos de parceria com o capital international, sem a qual os ide6lo- gos da Sorbonne national nao viam viabili- dade no Brasil Grande. Por isso, tambdm en- trou a seguir na demonologia da linha-dura, a corrente nacionalista das Forqas Armadas que preferia um Brasil grande autirquico, grande pela pr6pria natureza, como cr8 o hino ufanista e ainda lhe dao guarida os herdei- ros do destiny manifesto na geopolitica. O duplo equivoco nunca permitiu uma ava- liaqao realista do que significava o projeto Jari sob Ludwig e o que ele viria a ser depois. 0 Jari em cruise: A intelectualidade brasileira continue a dever esse enquadramento, mas nao parece dispos- ta a quita-lo agora que o tema passa a ter urn sem-sabor de agenda regionalista, de um res- tos a pagar que tem sua origem em combina- cAo de erros crassos que j nao interessa iden- tificar e menos ainda corrigir. No ultimo domingo Elio Gaspari, um dos nossos mais brilhantes jornalistas, ocupou a maior parte da sua coluna (aqui reproduzi- da em 0 Liberal) para demonstrar que essa conta pode ficar em aberto para sempre. A pretexto de defender a viuva, ameacada de ter seus bolsos mais uma vez arrombadas para financial um arranjo de seus mal-inten- cionados tutores, repete uma sdrie de incor- reqes quanto a fatos e deturpacqes quanto a entendimento sobre o Jari. Diz Gaspari que o Jari privatizado "tera custado aos contribuintes a bagatela de US$ 205 milh6es". Em primeiro lugar, US$ 205 mi- lh6es nao 6 bagatela em lugar nenhum do planet. a nao ser que se continue condes- cendente corn o descomprometido uso des- sa vertente peripat6tica da lingua (usa-se uma expressfo querendo dar-lhe um significado exatamente oposto ao que ela tern, cada um fazendo o que quer nesse passeio alienado pelo portugues de Cam6es e derivados). Em segundo lugar, ni o sio US$ 205 mi- lh8es. BNDES e Banco do Brasil (este, es- quecido no arrolamento de Gaspari)ja des- pejaram algo entire US$ 400 milhOes e 500 milh6es no Jari (falta uma apropriaqAo sem maquilagem dessa conta), transformados numa acio preferencial especial para evitar a estatizaqao desse simbolo do capitalism a partir da mais exemplar (e daninha) ativida- de capitalist: a aquisiqao do control acio- nArio pela subscricao de aces (neste caso, sem passar por bolsa, ja que estava em ativi- dade o pronto-socorro do capital privado emn dificuldades no Brasil: o erario). Gaspari diz que Ludwig jogou US$ 1,5 bi- lhao no Jari. Provei no meu livro (que, natu- ralmente, o jornalista nunca lerA), de 1984, que a aplicapco de capital de risco foi de apenas 10% desse valor. O restante era di- nheiro alheio, na forma de empr6stimos e fi- nanciamentos. Como a esmagadora maioria dos cr6ditos tinha aval da Uniao (um escin- dalo, principalmente porque o governor isen- tou a Jari da similaridade national para a aqui- siqao de miquinas e equipamentos, exceto em casos negociados face-to-face, como o dos avi6es agricolas Ipanema substituindo os Gruman, que Gaspari aponta, por razdes do establishment industrial-militar. que ele nao cita), a principal operaqco de salvamen- to do Jari, em 1982 (orquestrada na linha de frente por Delfim Neto e Bulh6es Pedreira, e, nas sombras, pelo general Golbery do Cou- to e Silva e Azevedo Antune ) tinha por ob- jetivo continuar mandando a conta para a viiva, de quem Gaspari se apresenta agora como intdrprete e salvador. Por isso nao houve estatizaqao, mas na- cionalizaq~o em 1982. Cada representante dos 23 grupos privados nacionais intimados a associar-se ao empreendimento em substi- tuiqCo a Ludwig (todos deviam favors e fa- turamentos ao governor federal) tirou do bol- so US$ 300 mil d6lares, integralizados a pra- zo. Gorjeta de um ano, talvez. BNDES e, de- pois, para nao estourar a conta. Banco do Brasil responderam pelo pagamento das par- celas semestrais da divida contraida no Ja- pdo por Ludwig para a construnio da fabrica de celulose e da usina de energia (num esta- leiro da Ishikawajima que o general MacAr- thur tirara dos japoneses para deixar sob o control do seu amigo americano na gestAo p6s-guerra). Ao inv6s de rubricarem as apli- cacoes como emprestimos, conforme o figu- rino capitalist, os dois bancos estatais (con- tra parecer interno de seus t6cnicos) lanqa- ram-nas como subscricoes de aqies. Teriam de volta o dinheiro quando a Jari desse lu- cros. Isso ocorrera quando o meteoro fatal se chocar cor esta terra azulada. que Caeta- no Veloso viu cor outros olhos de dentro da cadeia dos militares.. Agora tenta-se uma operacao semelhan- te. masja nao hi clima. como diria um meteo- rologista da Globo. Para quejogar mais di- nheiro nesse insaciavel projeto de fim-de- mundo? Agora tudo 6 um escAndalo, embo- ra suavizado pela aritmetica de Gaspari. Ele v6 o problema pela 6tica dos capitalistas ra- paces c do fisiologismo social. Mas o Jari tern outra dimensao para a Amaz6nia, aquela que nao entra no raciocinio do sul-maravi- lha: depois de quase 20 anos de operacqo, aquele desastrado sonho megalomaniaco de Ludwig (que nunca ameacou a seguranca national. muito pelo contrArio: ameaqou sem- pre a racionalidade e a intelig6ncia, alem de certa dec6ncia), tera o destino deteriorado do Projeto Ford sem ter provocado efeitos econ6micos para frente ou para trs., uma fabrica de celulose ao lado de outra de cau- lirn sem nenhuma de papel? Nasceu colonial e morrera colonial, mesmo que a hist6ria te- nha deixado de ser escrita por um tycoon e seja resenhada por um jornalista aparente- mente national? A intelligentsia do primeiro mundo brasi- leiro continue se interessando apenas late- ralmente pela Amaz6nia, sem despender qual- quer esforco maior de compreensao genui- na. Por isso, nem checa informac es para saber se sua interpretaqco esta bem planta- da em fatos ou se levita em um cenArio virtu- al, criado pelo poder arbitrario da imagina- cdo, um biscuit valioso quando aplicada a imaginaq~o, erro primario emjornalismo. Parece encantador tratar Daniel Keith Lu- dwig como um eremita maluco. Mas, ao con- JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE MARCO / 1998 7 histrias e est as histon as e estonas trario do que informa Gaspari, ele tinha mu- Iher e uma filha. A mulher morreu de cancer e ele nao a amparou atrav6s do institute que criou na Suiqa corn essa finalidade (apresen- tou a mesma recusa quando Ihe pediram aju- da para Fernando Guilhon, que acabara de deixar o governor, no qual fora atencioso para com a Jari, quando o cancer se manifestou). O Jari nunca foi "urn dos maiores proje- tos industrials do mundo". como Gaspari o classifica. Certamente era inovador, manten- do a tradicqo de inventive tecnol6gica e au- dacia (beirando o cinismo) commercial que multiplicara a fortune de Ludwig na constru- cio de supergraneleiros mais leves, seguros e potentes (mas o faria fracassar na produ- Cio de fibras e cereais para um mundo famin- to). A fabrica de celulose da Jari represent pouco mais de um terco da Aracruz, enfren- tando custos de produqgo bern maiores. Um dos traoes inovadores de Ludwig na engenharia de seu projeto era usar subprodu- tos da producqo de celulose residuess flores- tais e de insumos) para alimentar a usina de energia, tamb6m montada sob plataformas para flutuar e ser trazida pelo mar do Japao ao C O vereador Tennyson Ra- Jader B poso ingressou no PMDB deve te pela cozinha da casa do se- que o lib nador Jader Barbalho. Foi o cada. que ele revelou num discur- Indel so pronunciado na Camara contenc Municipal de Belem, no ini- se torno cio do mes. Tennyson protes- Liberal tava contra "um process de to de m fritura" preparado contra ele means p por O Liberal. O vereador re- contrary clamou que o journal public empresa mentiras a seu respeito e nao precise acolhe os esclarecimentos para rec que faz, talvez por ser um poupanc evangelico e um politico no- texto d vato, enquanto promove os Tennysc membros do "alto clero" que dades c ocupam lugares na mesa da de mex camara. mais (q Tennyson negou que seu mas), a lider na camara, Ronaldo v6s), ra Porto, houvesse proposto avel), D sua expulsao do partido, Diana). como noticiara ojomal (Por- O ilu to, consultado, esclareceu geu o en que apenas pensou na id6ia). president Embora tenha votado contra dos e in uma posigao peemedebista, tos secr Tennyson s6 o fez depois de tor de u consultar o filho do senador 1987 (q Para. Mas nao houve materia-prima suficien- te para manter esse esquema. Acabou tendo que consumer petr6leo, masjabem depois dos choques de 1973/79 (quando usar madeira se tomara atd mais caro, aldm de inviavel pelas regras legais ecologicamente influenciadas). Mas nao comeqou assim, mesmo que Gaspari queira que tenha sido assim. A elevacgo do preco do petr6leo foi imediatamente fatal para o plantio de arroz, assim como a elevaqco dos juros internacionais para todo o complex. Nao podendo mais evoluir para hidreldtrica, aumento da producqo de celulose e produ- cio de papel, tornou-se artimeticamente invi- ivel, escorado pelo governor e sobrecarrega- do pela inciria, inepcia ou inapetencia dos irmros Frering, sucessores do av6 Antunes, principal controlador. A doenca que ocorreu no Jari em 1973 (e nao 1974) foi meningite e nao encefalite. De la a doenca migrou para Sao Paulo, criando a maior epidemia do tipo C ocorrida at6 entio em todo o mundo. Mostrava, 50 anos de- pois da revolta do cearense Cesario, que as condiq6es sociais de trabalho no Jari eram as mesmas do velho seringal do coronel Jose ultura arbalho (o pai nao r sido encontrado), 'erou de seguir a ban- pendentemente do ioso, que em Bel6m u extenso (ja que O outorgou-se o direi- atar em vida os ho- iblicos que ousam ar os interesses da i), o nobre vereador contratar alguem ligir seus discursos, do-se de vexames. O o discurso lido por n contem preciosi- omo meche (em vez e), poncil6quio (?), uando o cabivel era travez ( e nao atra- soavel (isto C, razo- )aiana (e a princess strado vereador ele- ipresario Henry Ford ite dos Estados Uni- dicou um dos supos- tiarios dele como au- im suicidio que, em tuando Ford, de ha nunicip muito, sem nunca t president dos EUA morto), chocou o m secretario de financa lad6lfia deu um tiro diante das cameras visao que o filmavar resposta a uma camp imprensa que o respo zava por um desfalqu mil d6lares. Rezamos para que son Raposo jamais c tanto, mesmo send uma das vitimas de perdao da palavra - beral. Cochil petistt A bancada do P ria ter evitado a ap da CPI sobre o conj sidencial Felizcidad vesse acompanha atengao a votag~o n( rio da camara muni Belem. Votaram c Comissao Parlame Inqu6rito os veread Julio de Andrade e seus sucessores portu- gueses. Mas em 1922 os brasileiros se es- pantaram mais do que meio seculo depois, talvez porque osjornalistas nao tenham de- sempenhado satisfatoriamente sua missao de descrever a realidade. A hist6ria da rebeliao do brabo CesArio foi esquecida, apesar do esforgo do na 6po- ca major Jarbas Passarinho de reediti-la, ain- da que depois submetendo a versao roman- tizada a uma censura parcial da moral e dos bons costumes. Mas nao 6 de surpreender se a hist6ria dos her6is e demais persona- gens 6 tao distorcida, como vimos em 1982 e estamos revendo, corn ligeiras alteraq6es, em 1998. Talvez quando todos os arquivos fo- rem abertos ou devassados, as verses plan- tadas na imprensa e as meias-verdades (mais perigosas do que as mentiras explicitas) pos- sam ceder espaCo A verdade. Elio Gaspari podera contribuir para isso tanto quanto em sua atividadejornalistica corrente. Revelan- do, por exemplo, os arquivos do general Gol- bery, que lhe foram confiados para escrever a hist6ria de um period sobre o qual o Jari diz muito e muito oculta. 0 al er sido debaro Klautau, Haroldo estava Martins, Ronaldo Porto, Cle- undo: o to Fonseca, Marinor Brito, s da Fi- Carlito Aragao, Carlos Al- na boca berto Pina, Raul Meireles, de tele- Nazareno Ribeiro, Sandra a, como Batista e Tennyson Raposo. anha de A favor votaram Guto Cou- nsabili- tinho, Mario Corrma, Joa- e de 300 quim Passarinho, Eloy San- tos, Andre Lobato, Gervasio Tenny- Morgado, Expedito Fernan- .hegue a dez, Orlando Correa e Jose [o mais Carlos Araiijo. Henrique com Soares Jr. se absteve. Li- A votagao correta, por- tanto, foi de 11 votos contra a CPI, 10 a favor e uma abs- 0 tencgo. Mas a mesa mandou a registrar empate em 11 vo- tos, permitindo ao presiden- r pode- te da casa, Zeca Araijo, de- rovacao sempatar em favor da insta- unto re- lagio da CPI com seu voto [e se ti- de Minerva. 0 PT engoliu io com mosca diante da manobra. o plena- Nao resolvendo os proble- cipal de mas em plenario, transfere- ontra a os para a assessoria juridica ntar de da prefeitura tentar contor- ores Al- na-los. A. ., k-r. Entre o jornalismo e o sensacionalismo A Provincia do Para deve ter provocado um novo susto, desta vez retrospective, a po- pulaiao de Tucurui, anuncian- do, em manchete de primeira pagina, que ali havia ocorrido um terremoto na madrugada do dia 2. A rigor, o journal po- dia usar a expressao terremo- to, mas como ela se aplica tan- to ao maior abalo ji registra- do, que se supoe ter sido o de 1755, em Lisboa (que teria alcancado grau 9 na escala de Richter e matado quase seis mil pessoas), como o simples impact de um adulto pulan- do de uma mesa de altura media (registrado com o grau zero), A Provincia nao deve- ria ter dado tanto destaque ao fato; ou, dando destaque, te- ria que optar pela expressao abalo sismico (ou tremor). Dessa maneira, daria a opi- niao piblica uma exata di- mensao do acontecimento e a prepararia para ter maior dominio sobre um fen6meno que podera se tornar mais fre- qiiente (e, talvez, ate intense) na area de influ6ncia do re- servat6rio da hidrel6trica. Ao contrario, no dia seguin- te o assunto foi expurgado das paginas do journal e de toda a imprensa paraense, embora houvesse muitas perguntas ainda a fazer. A energia libe- rada pelo tremor nao chegou a criar alteracSes na vida das pessoas ou danos materials, alcancando 3,8 graus na es- cala de Richter. De qualquer maneira, porem, foi o maior abalo ja sentido pela popula- cao de Tucurui, que acordou assustada na madrugada do dia 2, temendo que tivesse acontecido uma grande explo- sao. A estrutura da enorme bar- ragem de concrete que retem as aguas do rio Tocantins nao foi abalada, segundo a avalia- cio da Eletronorte, mas, at6 o ultimo comunicado pfiblico, ainda nao havia sido determi- nado o epicentro do fen6me- no (s6 que ele ficava a 22 qui- 16metros de distancia da es- tagao de Tucurui). Pode-se admitir que a retengao de aguas no lago, de 2.430 quil6- metros quadrados, cor 45 bi- lh5es de metros cubicos de agua acumulados, numia area de falha geol6gica (falou-se ate de "cupins" solapando a base da barragem), esta pro- vocando acomodacqes cada vez mais sensiveis. Esse process 6 absoluta- mente normal? Ou eventuais deficiencias na operacgo do reservat6rio podem estar con- tribuindo para esse fato? Tern o El Nifo alguma influencia no que aconteceu? Muita agua foi vertida pelos canais de passage na barragem em tempo muito curto? Ou o con- trario? Enfim, esta faltando jorna- lismo e sobrando sensaciona- lismo para tratar de uma ques- tAo que chegou para ficar en- tre n6s. Se a imprensa esti- vesse melhor preparada, at6 poderia contribuir para dispor- mos, por aqui mesmo, das in- formag6es e dos meios t6cni- cos de avaliagao aos quais precisamos recorrer, em Bra- silia ou outros lugares, para saber o que esta ocorrendo no nosso quintal, sob os nossos desaparelhados narizes. Assinaturas Os leitores do Jornal Pessoal poderdo fazer diretamente suas as- sinaturas. Os interessados terao que devolver a ficha de assinatura, cor o respective pagamento, pessoalmente ou atrav6s do correio (ou, se for mais fAcil, creditando o valor de 15 reais na conta 201.512- 0 da agdncia 0208 do Unibanco, e nos comunicando). Agradecemos pela iniciativa dos que resolverem assumir o encargo, mantendo suas assinaturas destejornal. Tamb6m serao bem-vindas as assina- turas para amigos e parents, ampliando-se o circuit de leitores para que o JP possa continuar a resistir, sobrevivendo. A rigor, nio foi uma rebe- liio que explodiu no presidio Sao Jose, enquanto figurinhas premiadas do tucanato local dangavam no samb6dromo carioca. Foi uma tentative de fuga, que, frustrada, tentou virar rebeliao, mas, sem con- seguir a adesao dos lideres mais antigos da casa, acabou sendo reprimida internamen- te, antes que a policia pudes- se intervir para sufoca-la. Nesse interim, os velhos pre- sidiarios do "Sao Jose" exe- cutaram o que a policia nao p6de ou nao quis fazer, por a lei nao Ihe permitir ou seus interesses nao recomenda- rem: eliminar Jose Augusto Viana David, o "Ninja", crimi- noso perigoso que a policia e a imprensa transformaram em vedete da banditagem. A opiniio public agradece- ria uma resposta convincente para a seguinte pergunta: por que tantos criminosos pericu- losos sao reunidos numa casa de detengao adaptada para ge- races atras em mat6ria de criminalidade? (Parantesis em flash-back: eu jogava basque- te na quadra internal cor os filhos do coronel Anastacio das Neves, director do presidio, e gente fia como o homicide Sangue Novo, como faziamos todas as semanas, tendo pre- sidiarios na plateia, quando sou- be que John Kennedy havia sido assassinado em Dallas, em 1963.) Se o agrupamento de gen- te como Ninja e o pistoleiro professional Francenildo Pe- reira, acusado de matar o de- putado Jose Nassar foi um ato equivocado da administracao penitenciaria, a "contra-revo- lucao" dos press domesticos do "Sao Jose" serviu para res- tabelecer o status quo ante, uma combinagao de omissao e coniv6ncia que faz do pre- sidio uma bem acomodada confraria policial-delinquente da qual personagens aCoda- das como Ninja tem que ser excluidos. Sutil, sutil Quando acabou a "rebeliao" (na verdade, tentative de fuga) no Presidio So Jose, a TV Liberal publicou no journal da cor- poracao um anincio, carregado nas tintas, anunciando: "Aca- bou!". Como foi obrigada pela Globo News. do Rio. a ficar cobrindo pennanentemente o fato, ao inves de simplesmente dar flashes do local, a TV se julgava no direito de comemorar a incomum cobertura jornalistica e o final digamos assim - relativamente feliz. Mas provavelmente no subconsciente de muita gente deve ter sido registrado um outro tipo de raciocinio: acabada a fantasia do reinado do patu-anu, voltavamos a realidade de um Estado desa- justado para enfrentar seus dramas, inclusive os do jomalismo. O fundo musical deve ter sido ate carnavalesco. como no samba que proclama: "agora e cinzas/ tudo acabado/ e nada mais". Parab6ns, agencia da casa, pela sutileza da mensagem. S6 assim as verdades tem condiq6es de passar pelo crivo da censura internal. Joral Pessoal Editor LOcio Flavio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo. 871 1 CEP: 66 053-020 Fone: 223-1929. 241-7626 e 241-7924(tax) Contato: Try. Benjamin Constant. 845/203 / 66 053-020 Fone: 223-7690 e mail lucio@expert.com br Editora;ao de arte: Luizpe 1 241-1859 Atras dbs murose |
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