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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00130

Full Text







Journal Pessoal
L C I 0 F L A V I P I N T O


COBRE/CARAIAS


1958 merecia
nio acabar?

(Pags 4/5)


A hora e de investigar


A poderosa e estratigica CVRD estatal e
hoje uma arena de leoes e gladiadores.
A opinido p iblica continue sem saber

quem manda nela e o que o novo

controlador pretend corn a empresa. A
incerteza se aplica ao destino das jazidas de
cobre de Carajds. Alguem precisa desvendar
os misterios e esclarecer osfatos, envolvendo

maior investimento em curso no pais.

Quem se habilita?


m abril do ano passado,
quando foi privatizada, a
Companhia Vale do Rio
Doce era a 25" empresa
mundial, a maior de todas
as mineradoras, controlan-
do quase um quarto do mi-
S ndrio de ferro em circulagao
no mercado international, operava as duas
maiores ferrovias do pals, era a maior produ-
tora national de alumfnio, alumina, bauxita e
ouro e, entire outros titulos, comecava a des-
pontar como uma das grandes produtoras
de cobre. Mesmo sendo estatal, era respei-
tada internacionalmente. Tinha entire seus
parceiros grupos privados de peso em dife-
rentes stores econ6micos e suas ag6es eram
blue ships, isto 6, de grande poder de atra-
9do em bolsa. Vendiam fAcil.
O governor passou em frente esse patri-
m6nio por 3,3 bilhOes de reais. O grupo con-
trolador, para bancar o lance, precisou fazer
um papagaio international no valor de 800
milh6es de d6lares, dos quais US$ 500 mi-
IhOes vencerao em maio, aldm de seus pr6-
prios aportes. Entre os novos proprietarios
havia empresas de perfil tao discutivel para
o porte da empreitada que todos passaram a
se perguntar sobre quem poderia estar por
tras delas. Questionava-se mesmo os pro-
p6sitos dos arrematantes: seria gente inte-
ressada em produzir ou se trataria apenas de
especuladores, que se langam sobre ativos
com a intengao de estragalha-los para obter
lucros rapidos e ficeis coisa de abutres
-" iceiros, enfim.


rtRTC Z


/ 3
re


Menos de um ano depois da privatiza-
g9o. essa 6 a grande questlo da CVRD. S6
os mal-intencionados ou os cegos continu-
am a sustentar que se tratou de um bom ne-
g6cio para o pais. Uma empresa que nasceu
para tender um projeto estrat6gico no con-
texto posterior A Segunda Guerra Mundial e,
desde entao, mantinha sua funiAo estrat6-
gica para o pals, agora 6 uma arena de le6es
e gladiadores. Se, em bastidores privilegia-
dos, alguem ter o flo da meada para des-
vendar os mistdrios que hoje cercam a Vale,
na opiniao p6blica o estado 6 de perplexida-
de e tamb6m de ansiedade.
HA uma serie de boatos em curso. Segun-
do um deles, o maior especulador internaci-
onal, George Soros, estA tentando se apode-
rar da empresa atravds de um laranja sofis-
ticado, o Banco Liberal. Soros estaria con-
tando com o apoio de outro banco, o Opor-
tunitty, que tern como um dos donos o eco-
nomista P6rsio Arida, um dos "pais" do Pia-
no Cruzado (6 um daqueles ex-academicos
que cruzaram a linha divis6ria entire a admi-


nistraqAo p6blica e os lucros privados, man-
tendo a aura de olimpicos para consume ex-
temo, cor a ajuda da midia).
Soros, cor um lance de sagacidade fatal,
liquidou o Banco Barings, da Inglaterra. Para'
dar uma ideia do significado dessa mais que
centenAria instituigao financeira inglesa. Ji-
lio Verne incluiu-a entire os personagens do
seu c6lebre A Volta ao Mundo em 80 Dias.
O aparentemente espantoso 6 que tambbm
estaria contando com a cumplicidade do Pre-
vi, o maior fundo de pensAo do pais, que
deveria orientar seus investimentos pelo cri-
tdrio do long prazo, expressando, de algu-
ma maneira, a vontade do govemo brasileiro
(seria por isso que Soros elogiou a adminis-
traglo FHC na Sulga?).
Outra sdrie de boatos assegura que Ben-
jamin Steinbruch, principal executive da nova
CVRD, mesmo s6 controlando 1,6% das
acOes da empresa, estaria sendo considera-
do a Ancora do governor federal contra as
ondas especulativas que batem na muralha
da empresa, ameagando uma obra que pare-)


WA DERSA& (P' A 3








2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1998


cia s6lida. No ultimo lance do jogo de xa-
drez, Steinbruch tentou fazer a Vale comprar
a Sidor, a siderurgica privatizada na Vene-
zuela, mas foi impedido pelos outros s6cios
de fazer um neg6cio do mais alto interesse
para a empresa (abrindo um novo caminho
siderfrgico) porque o alvo maior 6 devolver
o capital empatado.
Ja o jornalista Janio de Freitas reconsti-
tuiu uma teia de cumplicidade complex li-
gando as critics do ministry S6rgio Motta
ao program de privatizagao do setor el6tri-
co, a partir da atuagao da Light (onde o gru-
po Vicunha dos Steinbruch tamb6m estA pre-
sente), como uma manobra para fortalecer
Benjamin diante de seus s6cios. Arremata o
jornalista em um dos seus recentes artigos
na Folha de S. Paulo: "O grupo Steinbruch
6 considerado, em circulos politicos mais in-
formados, o maior financiador da campanha
de Fernando Henrique Cardoso. Nos mes-
mos e em circulos empresariais ha quem o
consider ate mais do que isso".
O animo de Janio diante de FHC se tor-
nou tao feroz que a grave informagao deve
ser recebida com reserves. O problema 6 que
uma acusagao dessa dimensao foi langada
sem o menor eco, seja para desmenti-la ou,
no caso do jornalista, em artigos posterio-
res, confirma-la em detalhes que fossem alum
da mera insinuagao.
Essa amostra gratis da boataria que corre
solta em ambientes supostamente mais so-
fisticados da uma ideia do que esta sendo
arquitetado a distancia do grande public.
Independentemente do conteuldo de reali-
dade das informacges sopradas por fontes
an8nimas para uma imprensa demasiadamen-
te conivente com esse tipo de manobra, o
dado inquestionAvel 6 o enfraquecimento da
Vale do Rio Doce como empresa estrat6gica
e corporagAo produtiva. A privatizaago esti
assumindo, com toda essa onda de boatos,
novos contornos: o de sabotage, ainda que
o mercado possa designa-la com o titulo mais
simpatico de busca de lucros rApidos.
A situadao se aplica a atua9ao local da
CVRD. Ela 6 tao ou mais important para o
Para do que para o Brasil. O Para 6 o s6timo
Estado exportador, com 75% do seu com6r-
cio exterior baseado em produtos de origem
mineral, e o terceiro em saldo de divisas. Es-
ses nurneros nao existed sem a Vale. Mas
esses nuimeros ainda significam muito pou-
co. O investimento realizado 6 desproporci-
onalmente grande (6 tipicamente capital in-
tensivo) e miltiplos problems acarretados
pelas caracteristicas desse tipo de aplica9go
diante de uma receita de exportagao de 2,2
bilhaes de d6lares e de um saldo de US$ 1,8
bilhao. A Vale pode ser o marco do empo-
brecimento do Estado ou a alavanca do seu
desenvolvimento, dependendo de como se-
rao as relag9es entire as parties.
Por enquanto, essas rela96es obedecem
ao velho esquema colonial dos enclaves e
nao ha no horizonte alguma evidencia de
mudanga. Os paraenses nao tem a minima
nogao do enredo do qual fazem parte, como
se fossem figurantes daquelas super-produ-
96es hollywoodianas nas quais apenas um
grande her6i individual sai ganhando.
No iltimo nimero, o Jornal Pessoal re-
velou o que estA por tris da dispute pelas
jazidas de cobre de Carajas. Foium furo com-


pleto. Nao 6 necessario que os outros 6r-
gaos da imprensa reconhegam esse feito,
obtido sem que nenhuma fonte tenha sopra-
do o que aqui se publicou (alcangado apos
levantamento de informag9es parciais junto
a diversas fontes, checando-se cada dado
obtido at6 chegar a uma visao de conjunto).
Esse 6 um detalhe irrelevant. Mas a infor-
magao, nao.
O que ela significa? Os novos donos da
CVRD dizem que seus antecessores foram
irresponsaveis ou levianos. Iniciaram um in-
vestimento, que hoje oscila em torno de US$
2 bilhoes, sem detalhar o projeto de enge-
nharia no grau necessario para assegurar a
viabilidade do empreendimento. Bastou os
novos controladores submeterem o projeto
a revisao rigorosa para as falhas se eviden-
ciarem. Hoje, ao inv6s do Salobo, a jazida
interessante para aproveitamento econ6mi-
co seria a Liberdade/Sossego. Os dados do
confront, aqui reproduzidos sem maior cri-
tica (por impossivel no momento, nao dei-
xam duvida sobre o argument. Mas ele 6
realmente verdadeiro?
Responder a essa d6vida nao 6 tarefa
academica. Como 6 que um projeto de mine-
raago e metalurgia tao tosco conseguiu a
aprovagAo do BNDES, a principal agancia
de fomento do pais? Como 6 que hA sete
anos uma empresa do porte da Anglo Ame-
rican se incorporou e se mantem nessa em-
preitada, sem perceber que embarcou numa
canoa furada? Como 6 que uma vasta comu-
nidade t6cnico-cientifica foi ludibriada pe-
los dirigentes da CVRD estatal? Como 6 que
a opiniao p6blica, escaldada pela traumatica
hist6ria da Caraiba, ainda comprou um novo
mico cupifero como o do Salobo?
Pode-se continuar navegando nas ondas
encapeladas das especulag6es, mas vai-se
perder tempo e corre-se o risco de encalhar
na praia, morrendo nela depois de haver na-
dado tanto, como o naufrago azarado. Esta
na hora de limpar os pratos desse banquet
pantagruelicamente ca6tico (ou caoticamente
pantagruBlico).
Infelizmente, nao ha interlocutores habi-
litados para a CVRD no Para. O govemo Al-
mir Gabriel ter se desmoralizado ao long
da negociagao com a empresa. Nao acompa-
nhou tecnicamente o intermediario creden-
ciado na fase estatal, o ex-ministro Paulo
Haddad. E virou marionete na fase privatis-
ta, apesar dos socos na mesa (s6 a furia esta
long de impor respeito nesse tipo de mer-
cado). Mas 6 urgentemente necessario im-
por esse outro lado da mesa de negociag9o,
enquanto 6 tempo.
Benjamin Steinbruch anunciou a 0 Glo-
bo que "a partir de junho, vamos estar corn
os neg6cios estruturados e prontos para
qualquer tipo de neg6cio, seja compra, ven-
da ou associagAo", No caso do cobre de
CarajAs, o maior projeto produtivo em anda-
mento no pais, este anfncio se desdobra em
vArias hip6teses, mas nenhuma delas con-
templa a ret6rica do governador de que a
implantayao do projeto de US$ 2 bilh6es da
Salobo continuarA em Maraba do ponto em
que foi interrompido ha quase um ano, per-
dendo apenas prazo. Esse projeto foi para o
espago.
Ele s6 prosseguira se a composigao acio-
nAria atual for modificada. Observe-se que a


empresa especificamente responsAvel pelo
projeto, a Salobo Metais, foi colocada para
escanteio. Os homes de confianya da
CVRD privatizada assumiram as r6deas do
neg6cio. Isso indica que os dois parceiros,
a Vale e a Anglo American, nao mais se en-
tendem a respeito. Cada um procurou seu
reduto pr6prio.
De sua part, a CVRD diz que continuara
no neg6cio se um novo s6cio, com dominio
de mercado, a ele der confiabilidade (alem
de vir cor dinheiro, claro). Mas as entreli-
nhas sugerem que a Vale pretend mesmo e
passar-se para a nova jazida, sem, no entan-
to, deixar atras um concorrente em potential
que vai complicar seus pr6ximos lances. As
coisas nao estariam tao tensas se uma com-
posigao triangular, incluindo a Phelps Dod-
ge, fosse possivel. Mas nao 6. A Anglo
American, por sua vez, se os dados da Vale
sao corretos, age em CarajAs com algo mais
do que meros interesses comerciais. Por isso,
teria aceitado bancar a taxa de risco do Salo-
bo, vendo mais long e mais largamente.
Essa mera sinopse mostra que a luta e
braba e esta sendo travada por gigantes,
tendo como pano de fundo um cenario in-
ternacional e nao apenas a par6quia paraen-
se. Um protagonista, ainda que meramente
potential, contudo, estA ausente: o Para.
Como faz6-lo entrar na hist6ria? Tenho uma
sugestao: a Assembl6ia Legislativa poderia
criar uma comissao especial para reunir in-
formay6es e tentar formular uma proposta
de aago para o Estado. As sess8es nao de-
veriam se transformar em palco para estrelas
cadentes ou destituidas de luz pr6pria, nem
palanque para comicios ret6ricos, que sem-
pre levam a coisa nenhuma. Parte-se da pre-
missa que o Estado encontra-se desarmado,
por falta de informay6es seguras. O que pre-
cisa, de imediato, 6 obt6-las. Sem elas, o
maximo que se conseguira sera colocar mo-
inhos de vento diante de Quixotes mal en-
jambrados.
A epoca 6 eleitoral e nao facility esse tipo
de iniciativa. Mas se o legislative nao e ca-
paz de um minimo de atos vitais, entao e
melhor enrolar a bandeira. Para prevenir mais
uma pizzaria, tecnicos de reconhecida com-
petencia seriam reunidos aos deputados da
comissao, que requisitaria um fundo sufici-
ente, arrolaria os nomes certos para tratar
do assunto e trabalharia em tempo integral
para conseguir esses depoimentos, entire os
quais se incluem, como prioritarios, os anti-
gos dirigentes da CVRD, os novos, a An-
glo, a Phelps, o BNDES, os 6rgaos oficiais
do setor e fontes credenciadas.
Este e o tema prioritario do Para de hoje,
mesmo cor eleig9es, Gabrieis, Barbalhos,
Gueiros et caterva, que, se formos reparar
bem, nao passam de miragens, quando nao
pesadelos. O important 6 nao permitir que
a defini9Ao sobre a exploraygo das jazidas
de cobre de CarajAs, num acerto microeco-
n6mico entire empresas, atenda apenas aos
interesses delas, em relagao aos quais co-
megam a ser apontados sinais de mera espe-
cula9ao predat6ria. Se montar uma estrat6-
gia de interesse ao Pard nao chega a ser um
mote de campanha eleitoral varejista, repre-
senta a prova dos nove sobre o future: o
Para parou de vez ou ainda pode ser con-
temporaneo de sua hist6ria? *








JOURNAL PESSOAL 2Q QUINZENA DE FEVEREIRO /1998 3


Jimena BeltrAo pode ter falado nao ape-
nas por ela, mas dando voz a muito mais gen-
te, quando fez a observagdo, num seminario
intemo promovido, duas semanas atras, pelo
departamento de difusao cientifica do Mu-
seu Emilio Goeldi. Ela disse queja havia acom-
panhado varias das minhas palestras, con-
cordava com muita coisa do que eu dizia,
mas terminava deprimida com as informa96es
que eu divulgava. A moral da hist6ria pode-
ria ser a de que nao ha said, nem mesmo o
que fazer. A derrota nos precederia.
Alguns dias depois me vi diante de uma
situagdo algo assemelhada, ainda que mais
domestic. Assistia a um documentArio so-
bre Nelson Mandela e a Africa do Sul, em
pleno domingo. Quando minha filha passou
diante do video havia a cena de um cadaver
na rua, um negro morto durante as muitas
manifesta96es no Soweto. Minha filha se
espantou: nao seria melhor um program
dominical mais suave?
Certamente. Mas eu nao estava ali atraido
pela violnncia. O que me interessava era a
Africa do Sul, um pais que me sugere muita
coisa aplicavel a n6s mesmos, num paralelis-
mo que cada vez mais busco fazer. A violen-
cia 6 um component dessa hist6ria, na deles
abertamente, na nossa corn mais disfarce, mas
derivando para resultados comparAveis. Sao
dois enredos pesados, mas se quero apren-
der nao devo tangenciar epis6dios desagra-
daveis. E se os dias correntes da semana nAo
sao suficientes para fazer a ligao, que venham
os descansos regulamentares.
Ningu6m mudara a realidade retocando-a.
Para saber o que fazer, 6 precise encarar as
coisas como elas sao. Mas s6 tendo uma per-
cep9ao de como elas poderiam ou deveriam
ser 6 que se conseguira veneer o fatalismo,
superando determinismos e criando alternati-
vas, escapando A tentagao do cinismo con-
veniente (que acaba se tomando conivente).
Desde que li a frase pela primeira vez num
livro de Antonio Gramsci, quase 20 anos atras,
guardo-a como um tesouro: 6 precise ter pes-
simismo na inteligencia e otimismo na vonta-
de. O pessimismo no raciocinio pbe em ques-
tao o conhecimento existente e abre as portas
para a renovag9o. E assim que a ciencia avan-
9a. O otimismo impede o agent da mudanga
de cair na prostra9ao ou no niilismo. Mas nao
ha formulas panglossianas para esses esta-
dos de espirito e para as attitudes positivas.
At6 Picasso, que era Picasso, exigia 99% de
transpiragqo para 1% de inspiragqo.
O Equador estava em estado de sitio
quando o visitei pela primeira vez, em 1971
(foi quando deixei momentaneamente o Ban-
deira 3, o suplemento sustentado em A Pro-
vincia do Pard por Claudio Augusto de SA
Leal). Velasco Ibarra havia sido deposto pelo
general Guillermo Lara. Mas no centro de
Guayaquil, nao a capital, mas a principal ci-
dade do pais, a livraria do Partido Comunista
funcionava normalmente, atW cor uma ban-
deira da Uniao Sovi6tica na entrada.
Entrei, olhei meio assustado (depois des-
cobri o incrivel indice de analfabetismo, que
explicava o liberalism dos militares, entire


outros motives). Vi que era um centro devo-
cional, catequ6tico. Resolvi pegar uma pega.
Perguntei se tinham um exemplar da Critica
da Critica Critica. 0 dono, militant do PC,
me olhou como se eu fosse Lucifer. Nao, nao
tinha me responded de ma-vontade. E 0
Rei da Prussia e a Reforma.Social?, insist.
De cara fechada, me devolveu o insulto ao
demo, lui-meme: quem seria o autor do tal
livro?. Devolvi: Karl Marx. Explodiu: Marx
jamais havia escrito essas heresias. Esses
livros nio existiam. E s6 faltou me expulsar.
Eu teria feito menos estrago, talvez, se tives-
se jogado uma bomba ali.
Narro o epis6dio cor a pretensao de con-
tar uma fabula sobre a importAncia da critical
(o Marx-profeta esmagou o Marx-critico, fa-
zendo mal A sociedade). Mesmo quando le-
viana ou superficial, ela tem a utilidade de
agitar o mundo das id6ias, impedindo que se
estratifiquem em monolitos refratArios, o que
6 bom, ainda que dessa agitaygo resultem
apenas bolhas de ar.
E claro que a critical nao 6 apenas uma
fabrica de bolhas. Ela precisa ter fundamen-
to para contribuir socialmente. Critica nao 6
mera inspiragao. Para critical 6 necessario
estudar muito, observer, circular, inquirir,
checar. Cumpridas essas etapas, a critical fun-
ciona como um feixe de luz no escuro. Mes-
mo tendo um campo de luz restrito, servirA
de refer8ncia para os que sabem caminhar
usando todos os referenciais de orienta9ao,
al6m da luz. 1 o que lhe assegura o papel de
vanguard.

A critical 6, assim, pedag6gia, son-
dando novos temas, atualizando
a agenda dos cidadaos, trazendo
para o centro do palco events
pioneiros que surgem nos bastidores, indi-
cando as fontes e refer8ncias. Um critic sem
utopias mergulharA na amargura, mas o oti-
mismo cego s 6 possivel, como alertou Ber-
tolt Brecht com a igenuidade. A ingenuidade,
fora do period biol6gico pr6prio, 6 apenas
prova de insensibilidade. Ingenuo 6 aquele
que ainda nao recebeu a filtima noticia.
Tenho dito e repetido que viver no Para,
hoje, 6 um privildgio. Aqui pode-se realmen-
te fazer hist6ria, produto indisponivel em
muitos outros mercados aparentemente me-
Ihores. Mas tamb6m 6 uma exasperante fon-
te de angustias porque a hist6ria que se tem
escrito nao exibe a nossa assinatura. Perma-
nece imperturbavelmente feliz aquele que
ainda nao percebeu essa contradi9go. Enun-
cia-la em abstrato pode ser fhcil: basta apli-
car models colonials correntes ou do pas-
sado. Mas demonstrA-la e apontar os meios
de supera-la 6 tarefa terrivelmente exigente.
O jomalista nao pode minimizar a drama-
ticidade desse desafio, se o acompanha pari-
passu. Mesmo quando se consegue montar
um diagn6stico satisfat6rio da conjuntura,.
o quejA 6 uma faganha em area pioneira como
a nossa, com seu continuum hist6rico cons-
tantemente atropelado pelos saltos hist6ri-
cos dados pelos enclaves, que marcam o rit-
mo das decisOes, na maioria das vezes nao


A critical faz mal?


se consegue ver o moment seguinte, o da
a9Mo. Mas a militancia na critical afia as ar-
mas da percep9ao.
Na semana passada um representante da
Companhia Vale do Rio Doce fez, em entre-
vista ao jomal Opinido!, de Maraba, um pa-
ralelismo que, segundo ele, ajudaria a enten-
der a crise do Salobo. Disse que a CVRD
cometeu um erro no passado, quando ini-
ciou o p61o de aluminio em Barcarena pela
metalurgia sem dispor, antes, da alumina. A
Alunorte s6 surgiu 10 anos depois que a
Albras comegou a funcionar, obrigando o
pais, nesse period, a gastar divisas com a
importagao da alumina para a transformagao
em metal. O erro poderia ser repetido em Ca-
rajas se a Vale instalasse a metalurgia de co-
bre sem antes definir melhor a concentragdo
do min6rio. Nesta etapa do process haveria
s6rios problems tecnol6gicos que nao fo-
ram equacionados durante a gestao estatal.
At6 entao a primeira parte desse argu-
mento s6 aparecia na boca de critics. Foi a
primeira vez que um executive o assumiu.
Mas o atraso da Alunorte, que, s6 em divi-
sas, nos custou mais de dois bilh6es de d6-
lares em 10 anos, nao se deveu a qualquer
problema tecnol6gico, como agora se diz que
existe no Salobo, inviabilizando economica-
mente a concentragdo do cobre.
Foi porque a CVRD, em momentAnea difi-
culdade de caixa, agiu como uma empresa
privada qualquer (e nao como a empresa es-
trat6gica que sempre alegou ser): aceitou
suspender o investimento em sua pr6pria
unidade de alumina, passando a receber o
produto da Alcoa. Era um evidence dumping,
pelo qual pagariamos tao caro, de fato, mas
porque as razaes de estado foram preteridas
por interesses privados.
Na 6poca, fui a unica pessoa que, de pd-
blico e documentadamente, denunciou essa
manobra e mostrou os danos que ela acarre-
taria ao Para e ao Brasil. A inica resposta
que recebi aos sucessivos artigos, publica-
dos na 6poca em O Liberal, veio de Sao Pau-
lo. C6pias dos artigos chegaram as maos dos
dirigentes da Abranfe, a associag9o dos pro-
dutores de nao-ferrosos, e eles me concede-
ram o Pr8mio Abranfe de Jomalismo de 1982,
sem que eu tivesse tido a iniciativa de me
inscrever (simplesmente desconhecia o pre-
mio). Agora, um representante do principal
personagem da hist6ria, que era a CVRD, in-
corpora a critical, embora usando-a num pa-
ralelismo incabivel, evidenciando, assim, a
necessidade de renovagao da critical para
restabelecer a verdade.
A condi9ao para a critical 6 a existencia de
liberdade e um regime democritico. S6 por
essa fun9ao ela jA 6 positive. Ao menos fun-
ciona como aquela velha biruta dos velhos
aeroportos da infAncia, indicando a existAn-
cia e a direao dos ventos. Isso nAo 6 tudo e
muitas vezes nAo 6 o suficiente, mas 6 bem
melhor do que a calmaria. E se o critic for
um aplicado aprendiz, sempre a cata de in-
forma96es, permanentemente empenhado em
checar o que soube, disposto a submeter-se
aos questionamentos pfblicos, entao a criti-
ca s6 faz bem. Mesmo quando deprime, ali-
As. Se nao se deprimissem, muitos grandes
criadores nao teriam motives para comemo-
rar suas vit6rias, com a sensag9o de realiza-
9ao ao olhar o que ficou para tras. 0







4 JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1998




Pistas e suspeitas em um ano


que merecia nao terminar


O produto mais nobre do govemo Jus-
celino Kubitscheck (1956-1961) foi a li-
berdade. Os que estavam em idade cons-
ciente nesse perfodo usufrufram do brilho
e do encantamento dessa j6ia rara na his-
t6ria brasileira. Poucas geraq6es tiveram
esse privilgio. A atual pode ser incluida
no rol exclusivista de uma nova era de
liberdade, cor os acr6scimos
agravantes do neoliberalismo
por conta do mimetismo sem
pudor do novo (neo?) JK, o
nosso FHC.
Para os mais velhos, Fe-
liz 1958, o ano que nao
devia terminar, livro
de Joaquim Ferreira dos
Santos (Editora Record,
190 paginas, 20 reais),
um chud. Permite refle-
tir um pouco sobre a im-
portdncia da liberdade na
vida social, mas nao tanto: seu maior m6-
rito 6 conduzir, pelas linhas de um texto
bem escrito, uma onda positive de saudo-
sismo para os que ja cruzaram ha tempos
a linha tordesilha dos 40 anos.
Corn conhecimento de causa ou por
mera intuiqao, quem nao gostaria de ter
vivido naqueles "anos dourados"? Eles vAo
do fim do Estado Novo e da Segunda
Guerra Mundial, em 1945, ate o golpe
military contra o president JoAo Goulart,
em 1964, segundo a cronologia clAssica.
Nao houve fase mais duradoura de res-
peito as liberdades e garantias individuals
e institucionais em toda a Reptiblica. Mas
eu nao fecharia o ciclo con a queda de
Jango. Iria at6 1968, "o ano que nto ter-
minou" (o Pif-Paf a Folha de Debates, a
Revista CivilizagLo Brasileira e muitas
outras publicac9es surgiram no periodo,
com a ediqao, no fatidico 13 de dezem-
bro, do pegonhento Ato Institucional n0 5,
que reimplantou as trevas medievais no
pais e sufocou a liberdade, com ferocida-
de sem paralelo no passado republican.
I claro que o jomalista Joaquim Fer-
reira dos Santos esta citando o livro do
tamb6m jornalista Zuenir Ventura (1968,
o ano que nao terminou). Mas escolheu
1958 para tema do seu livro apenas por
causa dos 10 anos exatos que o separam
da data destacada pelo primeiro livro?
Apenas porque o titulo primoroso dado
por Zuenir poderia ser aproveitado no se-
gundo cometimento em flash-back? Seria
1958 o ano paradigmatico (para usar um


jargao academico desta epoca), emblemA-
tico (idem) ou arquetipico (ja ndo tanto)
dos "anos dourados"?
E uma tese, ou tema de enquete. Corn
suas razbes de fundo ou por mero palpite,
Joaquim Ferreira adotou 1958, ele pr6prio
ne6fito testemunhante des-
sa epoca (tinha sete anos,
eu nove), tomando por
4 esse ano tudo o que se
passou nos 19 ou 23 anos
edulcorados. Seu livro 6
delicioso, como tern que
ser a melhor produqao de
um bom jornalista. E urma
reportagem em escala ampli-
ada: o autor foi as coleqoes
de jornais e revistas, selecio-
nou material exemplificativo ou
demonstrative, costurou tudo corn
sensibilidade e bom humor, recor-
rendo a vinhetas e joguinhos para
aumentar o prazer intellectual,
mnem6nico, visual e quem
sabe at6 olfativo dos seus lei-
I stores.
Mas 6 isso o mAximo que o
jornalismo pode oferecer? Confesso ha-
ver terminado a leitura, rapidamente (o que
deve ser creditado como mrrito ao autor),
mas insatisfeito. Se o livro 6 apenas uma
entrada, que boa entrada que ele 6: esti-
mula o leitor a lanqar-se sobre algo mais
substancioso e mais bem definido. Se pre-
tendeu-se a prato principal, 6 insatisfat6-
rio. Mas certamente ganharia em densi-
dade e rigor, sem perder em leveza e gra-
9a, se o autor tivesse aplicado mais tempo
e empenho em sua pesquisa.
A "era do radio", por exemplo, nao
ter em 1958 o seu moment de
ouro. Os novos transistores
foram inventados em
1947. Marlene, a fa-
vorita da AeronAuti-
ca, foi eleita a rainha
do radio em 1949,
enquanto Emilinha,
sua arquirrival, favo- '
rita da Marinha, subiu ao
trono da Radio Nacional em
1953. O 100 aniversArio do Progra-
ma Cdsar de Alencar, reunindo 20 mil
pessoas no Maracanazinho, foi comemo-
rado em 1955, quando dizem que o radio
chegou ao apogeu, declinando a partir dai
por causa do avango da televisao, surgida
no Brasil cinco anos antes (a geracao de


imagens precedeu a existencia para valer
de aparelhos receptores, coisa do patrono
do feito, o ainda insuficientemente biogra-
fado Assis Chateaubriand).
O munidor de lAminas Gilete, por exem-
plo, um dos produtos tipicos da 6poca,
foi langado em 1953 e nao em 1958, ao
contrario do que diz o livro. O record de
tiragem de uma revista brasileira foi al-
cancada por O Cruzeiro cor a ediqao es-
pecial sobre a morte de Get6lio Vargas,
em 1954 foramm 790 mil exemplares,
enquanto o journal Ultima Hora tirava 200
mil em edigoes continues).
Sao visiveis deficiencias, que s6 a pres-
sa pode explicar. Joaquim Ferreira diz que
ClAudio Bojunga escreveu "a mais com-
pleta" biografia de JK, mas o autor 6 Ge-
raldo Mayrink (e ainda assim o elogio 6
indevido). Os valores monetArios nao sao
atualizados (ou pelo menos convertidos
para d6lar). Ha erros nas letras de milsi-
cas. Alguns fatos destacados sAo cario-
quices sem qualquer interesse national.
Capitulo inteiro ocupado por "um passeio
corn Carmen Mayrink Veiga" 6 dose exa-
gerada, ainda mais por indefinicqo tempo-
ral nas observaqOes da hoje socialite.
Em compensacao, muito pouco sobre o
mundo proibido dos gibis, o fascinio dos
seriados, o impact de produtos como o
naylon, o ban Ion, o 6culos Ray-Ban.
Cada um poderA preparar sua pr6pria
relacao e nenhuma, exceto se A custa de
chateaago, sera complete. Ademais, nem
esse foi o prop6sito de Joaquim Ferreira.
Entretanto, acho que osjornalistas se im-
p6em limits muito artificialmente estrei-
tados para o Ambito de suas incursoes. E
como nas palestras: s6 quando as per-
guntas provocam o raciocinio e
questionam o saber at6
ali acumulado 6 que
.j elas se tornam
interessantes.
L Justamente ai o
tempo disponi-
vel acaba.
Com essa in-
tima sensagao de
frustrafto cheguei
ao final de bons livros dejornalis-
tas lanqados recentemente, como Cha-
16, de Fernando Moraes, Mau6, de Jorge
Caldeira, a trilogia de Ruy Castro (sobre a
Bossa Nova, Nelson Rodrigues e Garrin-
cha) e, agora, este 1958, de Joaquim Fer-
reira. O segredo para agregar aos bons







JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE FEVEREIRO / 1998 5


ingredients do texto leve e solto, que to-
dos os citados possuem, a informacio
exata e relevant, 6 fazer todas as pergun-
tas necessArias A compreensao do tema,
sem deixar perguntas irrrespondidas ao
long do texto.
Num mesmo ano, 1976, a
Editora Nova Fronteira
langou um li ro s. -
academico escrito
A maneirajor-
nalistica (Os
Bolchevi- '
ques, de ,.
Adam Ulam) e um "
trabalhojornalistico .
de rigor academic _
(Hitler, de Joaquin Fets).
A coincidencia serviria para forgar os
acad8micos a se tornarem inteligiveis e
mesmo atraentes, e os jornalistas a serem
profundos. Corn essa combinaao de qua-
lidades a sociedade sairia fortalecida e a
mem6ria serviria nao s6 a deleite passadis-
ta, mas tamb6m de instrument para a com-
preensao do present e antevisto do futu-
ro, sem o que estaremos condenados a
colidir na quadratura do circulo.
A liberdade que JK conferiu como mar-
ca indeldvel aos "anos dourados" nao pode
ser apropriada contabilmente. nem media
por indicadores econ6micos quantitativos,
como o PIB (Produto Interno Bruto), mas
6 ela que da o temper da hist6ria e dife-
rencia os tempos. O "milagre" dos 50 anos
em cinco de JK difere em qualidade do
"milagre" do "Brasil Grande" dos militares
(e nfo exige um custo tao elevado quanto
o atual de FHC): o que era imperative ca-
teg6rico na fantasia do general Me-
dici, era adesao espontanea, vo-
litiva ao menos, no "vira-vira"
de JK.
A onda de consumismo
e obras pfiblicas da alianga
tecnocrata-militar, financia-
da corn petrod6lares, nao ge-
rou rissorgimento cultural algum.
muito pelo contrario, enquanto teatro,
cinema, mbsica, artes pldsticas, arquite-
tura, urbanismo, ciencias sociais, ciencias
exatas e todas as manifestaqges do pensar
human foram fermentadas pelo otimismo
exuberante e o bom-pracismo de Non6 Spu-
tinik (era assim que o Acido Gondin da Fon-
seca tratava o entreguista das Alterosas,
sem ser por ele molestado). O diferencial
estA na liberdade, tao essencial A vida hu-
mana quanto o oxigenio, jA que nossa di-
mensao simb6lica nao se dissocia do ente
biol6gico, diferentemente do que sempre
pensam os ditadores.
Esse 6 o motive essencial da sobrevida
do impdrio americano diante do imprio
sovidtico, confrontados pela era da infor-





matica, personalizada e individualizada. O
peso da utopia kubitscheckiana nao deve
ser mais leve do que a dos generals anco-
rados em scholars gananciosos como Ro-
berto Campos e Delfim Neto. Alguns er-
ros de JK foram palmares e nos cobram
remissao atd hoje.
Para cumprir promessa feita em cam-
,. panha presidential pelo sertlo goiano e
mostrar que era politico de outra cepa,

S clAusula constitutional, implan-
''I tando Brasilia. Ela foi mesmo in-
dispensAvel para dar a corrida
S ao Oeste um conte6do de realidade
c calar a ironia multissecular de Frei
Vicente de Salvador?
Nem mesmo a Bel6m-Brasi-
lia foi uma combinaato de au-
ddcia e discemimento. A capital provavel-
mente permanecerd artificial e onerosa para
sempre. O rodoviarismo ainda continuard
provocando seqllelas por muito tempo. E
transferir a capital federal seria mesmo a
via certa para extirpar os males do buro-
cratismo parasitario do Rio de Janeiro, tro-
cando politicos por bicheiros? Delenda,
Rio, disse Rubem Braga antes de todos.
O neologismo de belacap foi mais ironia
do que compensaqfo.
Industria de bens de consume duraveis
antecedendo a ampliafao e consolidaqAo
da ind6stria de base nao foi como colocar
a carroqa antes dos bois? O superfatura-
mento de obras piblicas, pretextado pela
urgencia na execugao, nao inoculou um
virus indestrutivel no organismo national,
esse vids de corrupato que existe mesmo
quando nAo se prova (como as bru-
\ J do ditado espanhol, ator-
mentando nossas melhores
utopias)? Sim, tudo isso
^ ,. 6 heranga de JK, que,
I se nfo a criou, engor-
S\ dou o acervo. Mas
S. estAvamos cientes do
Srisco e dispostos a pagar
por ele. Talvez fosse mes-
mo impossivel prever o des-
Svario castrense-farisaico das vi-
0 vandeiras, fardadas ou nAo, ge-
radas pela terrivel UDN (que,
como em qualquer tragddia grega, seria
levada no torvelino). Todos estavam au-
torizados, menos os profetas.
Aquele, por6m, foi um sonho que va-
leu a pena, principalmente para os que o
viveram. t o que, homeopaticamente,
sugere o livro de Joaquim Ferreira dos
Santos, um relicArio como os Albuns de
fotografias e de recortes, A espera de quem
o venha repassar corn percepqao mais
acurada e demonstraqao mais convincen-
te. Continuaremos a esperar, como quis
Samuel Beckett. Mas at6 quando, Jos6?O


Fundo falso
Houve um tempo em que o magistral
Luchino Visconti andou se alvoroqando
para filmar A Montanha Aldgica. roman-
ce de Thomas Mann. Criou uma expecta-
tiva enorme. Muitos criticaram a versau
cinematografica que ele criou para lorne
em Vene:a, do mesmo Mann. De minha
part. achei todo aquele convescote cri-
rico em torno da fidelidade a Mahler e da
natureza da relaqco dele com Tadzio firu-
la historiogrAfica. O film e de uma beleza
deslumbrante. a interpretaqAo de Dirk Bo-
garde e anrologica e a sensaqao de opres-
sao. alegria e decadencia da novela so-
brevive no celuloide. E tambem o loque
superior de Visconti em O Leopardo e
Deuses Aalditos.
Mas o projeto da Montanha ldgica
nao se realizou. Continue a ser um desa-
fio para o cinema, embora desde logo se
saiba que quem decidir enfrentar o desa-
fio da esfinge seri engolido. Nada se
equipara A literature mais elevada. como
a que Mann nos deu com a minade de
vida tecida em tono do Berghoff, de Cas-
torp. Joachim. ClaudiaChauchai. Settem-
brini, Naphia.
Mas tudo ficou subitamente prosaico
e insosso. Bastou o nosso augusto pre-
sidente Fernando Henrique Cardoso po-
sar tendo ao fundo a montanha magica
de Davos-Platz. nos Alpes suiqos, para
o gosto do parvenu contaminar o ambi-
ente criado no romance immortal. Talez
essa quebra de encanto nao livesse ocor-
rido se o principle tivesse deixado de lado
o seu estrelismo e fosse conremplar a
paisagem como o fez Hans Casrorp, meti-
do num pesado cobertor e estendido so-
bre uma chaise-longue. Em silencio. de
preferencia. E sem emuourage.

Bicho solto
Talvez o govemador A mir Gabriel. ge-
ralmente desatento a informaqces. nao te-
nha percebido que esta cada vez mais cer-
cado de bicheiros. Antes mesmo dejun-
tar as foras do Estado as da Beija-Flor.
escola de samba que lava o dinheiro da
contravenqAo penal com muita pluma,
paete e alegria (e a maior contribuiqAo
verde-amarela ao crime organizado), o
governador ja havia recebido, em pleno
Palacio dos Despachos (cor perdlo da
palavra), o dono da Beija-Flor, o deputa-
do federal Farid Abrahto. irmio do bi-
cheiro Anisio Abrahio. E nenhum outro
governador abriu tantas alas ao bicho,
que agora funciona com toda a desen-
voltura na capital, inclusive atrav6s do
"'ligue-bicho" (as mafias, explicitas ou
nao, estAo tomando conta das linhas te-
lefonicas de consulta.
A troco de que? Ou sera apoio riso-
nho e franco?








6 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE FEVEREIRO / 1998



Entre livros para sempre


Como geragao, estamos entire aquelas
que, quando remontam as origens, avan-
gam pela mem6ria entire livros. Dos 13 lan-
camentos literarios daquele ano arrolados
por Joaquim Ferreira no seu 1958, o ano
que ndo devia terminar, li oito nao, 6
claro, naquele mesmo ano: O Ventre, de
Carlos Heitor Cony (ainda o romance
exemplar da inchada obra); Gabriela, Cra-
vo e Canela, de Jorge Amado (o iultimo
que me deu prazer); A Nova Hist6ria da
Musica, de Otto Maria Carpeaux (sinteti-
ca e exata); Presenga na Politica, de Gil-
berto Amado (um aristocrata amAvel); A
Cidade Vazia, de Fernando Sabino (sem
suspeitar que acabaria bi6grafo de dona
Z6lia Cardoso de Mello Show); 100 Cr6-
nicas Escolhidas, de Rubem Braga (o 6ni-
co urso suave); Hist6ria do Carnaval
Carioca, da nossa querida Eneida; e Su-
persti9des e Costumes, do mestre potiguar
Luis da Cimara Cascudo.
Nao li Encontro no Aeroporto, de Hen-
rique Pongetti, mas era como se o tivesse
feito: acompanhava as cr6nicas de Pon-
getti na Folha Vespertina (quem nio lesse
cr6nicas naquela 6poca era filho de pa-
dre). Na 6poca, gostava. Depois, o prato
ficou intragavel passedi definitivamente
para Braga, Sabino, Cony, Paulo Mendes
Campos, Otto Lara Resende). O Homem
ao Lado 6 o unico livro de S6rgio Porto
que nao li: nunca o encontrei em sebos.
Mas me garantem que nao perdi nada.
Maria Beata do Egito tamb6m nao 6 das
melhores coisas da irregular Rachel de
Queiroz, que vale como causeur.
Mas um livro que eu ji havia lido nessa
6poca e de cuja importincia s6 me dei conta
muito tempo depois foi Hist6ria da Revo-
lugdo Francesa, de Frangois Mignet. Num
dos trechos das suas Mem6rias Imorais,
Serguei Eisenstein diz que esse tamb6m foi
um dos primeiros livros da sua vida. Em
lugares tao distantes e em 6pocas distintas,
dois meninos se encantaram pelo mesmo
livro, que Ihes chegou as maos entire ma-
nuais escolares pouco valorizados (o meu
em dois volumes, edi9go da Briguet) em
paises que se aproximam muito, apesar de
tudo (e nao s6 por Gogol e Machado de
Assis, Dostoievski e Graciliano Ramos).
Mignet nao era um narrador distancia-
do dos acontecimentos, um frio taxider-
mista dos fatos. Era um tribune eloqiien-
te, sem desviar-se do rigor. Trazia-nos a
intensidade da revolugao e a beleza de uma
narrative sem atropelos ou interrupg9es,
fluente em caudal ou mansidao como um
rio verbal (sem notas de p6-de-pagina ou
desconstrucionismos supostamente de-
monstrativos).


Mesmo sem compreender tudo, lia fe-
brilmente, como s6 conseguimos ler nas
fases iniciais da vida ou diante de uma
verdadeira obra-prima, naquele tipo de his-
t6ria encantat6ria que a gaficha Editora do
Globo (antes do doutor Roberto Marinho)
nos dava com H. G. Wells, Henry Tho-
mas, Van Loon, Emil Ludwig. Um histori-
ador A maneira de Her6doto; alias, mais
perto de Homero, historiador-poeta, que
nao concede um intervalo a mente para o
leitor respirar, aliviando-se da tensio da
narrative (quando conclui a Iliada, era
uma chaga s6).
Mem6rias Imorais 6 tambem um livro
primoroso. Com sutileza e inteligencia, um
home excepcional explica aos p6steros
por que nao foi tao grande quanto poderia
ter sido. Assim ele se concilia com sua
predestinagao, sem transferir responsabi-
lidades suas, mas sem deixar de imputar
os danos devidos a ditadura stalinista
(como tamb6m fez outro personagem
com centenario em curso, o poeta-teatr6-
logo Bertolt Brecht: Aos que Vdo Nascer 6
a ode de toda uma 6poca).
A imoralidade, ao contrario do que hi
de pensar um interauta doidivanas, nio
adv6m de licenciosidade: como livre pen-
sar 6 s6 pensar (Mill6r Fernandes dixit),
Eisenstein se permitia a imoralidade de ser
um individuo at6 a raiz no reino do cen-
tralismo (sardonicamente batizado de de-
mocratico apenas para efeito externo), do
planejamento pra la de autoritario de Papai
Stalin (a lessienin nao foi dada essa alter-
nativa e Maiak6vski nem a tentou).
No centenirio de Eisenstein (leia-se
como se escreve e nao Aisenstain, como
erradamente prefer a maioria, esquecen-
do que ele 6 russo e nAo americano ou
alemio), voltei as mem6rias, ja que os fil-
mes nao nos foram oferecidos na provin-
cia (EncouraGado Potenkim, a iltima vez
que o revi, envelhecera assustadoramente
- eis ai um definitive alerta aos formalis-
tas). Ao menos o eterno Mignet, cujo sa-
bor superior desfrutei na releitura motiva-
da pelo cineasta russo, nos une indepen-
dentemente da voracidade do tempo e do
determinismo relative do espago.
A mem6ria associa logo Eisenstein a
Brecht, centenarios ao mesmo tempo nes-
te convidativo 1998, mas traz tamb6m au-
tomaticamente Federico Garcia Lorca, tr6s
das maiores influ6ncias que recebi na ado-
lescencia. Todos foram sensiveis demais
para o seu tempo. Decididamente nio nas-
ceram na hora certa (nao 6 essa a fatali-
dade mais desgragada dos profetas, fazen-
do-os e destruindo-os?): Eisenstein foi
sufocado por Stilin, Brecht por Hitler e


Lorca por Franco, poetas em sua arte ten-
do que receber ordens de ditadores nada
afeitos a simbolismos de linguagem.
Todos tr6s estavam cientes dessa con-
ting6ncia. Nenhum a tangenciou. Perde-
ram a luta de seu tempo, o que significa
dor fisica impossivel de aliviar, sensagao
amarga de derrota. Mas sobreviveram aos
seus algozes. Ao inves de meter uma bala
no corpo, como o doce Maiak6vski (emol-
durado por uma falsa apar6ncia corporal
de forga), Einsenstein sabotou como p6de
o stalinismo com sua fina ironia e sua sa-
gacidade.
Ivd, o Terrivel, paramim sua opera pri-
ma, e uma prova dessa disposig~o (ha no
filme individuos reais, tao imorais quanto
Einsenstein em suas mem6rias, e nao ape-
nas her6is postigos, como os do Encou-
raqado e Alexander Nevsky, tao nocivos
que Brecht, pela boca de Galileu, precisou
advertir: infeliz da nagao que precisa de
her6is). Mas, ao contrario da lenda, Stalin
nao era burro como era sanguinario: lia
muito e entendia o que lia. S6 nao aceitava
que a hist6ria nao fosse como queria, he-
r6i avant la lettre. Apagou as reticencias
imorais na obra de Eisenstein e matou-o
intelectualmente, aos poucos. Foi mais
bem sucedido do que Benito Mussolini
com Antonio Gramsci.
Brecht satirizou o quanto p6de o pin-
tor-de-paredes alemao do Reich preten-
samente milenar, mas teve que usar sua
argficia mesmo foi contra os inquisido-
res americanos do maccarthismo na guer-
ra fria (que nao suportou, como Eisens-
tein, de que da prova o inconcluso Que
Viva Mexico!). Seu depoimento diante do
Comit6 de Atividades Anti-Americanas
deveria constar das aulas de 6tica: ensi-
naria como preservar a pr6pria cabega
sem abjurar as ideias, revolvendo o de-
safio que custou caro a Giordano Bruno,
mas que Galileu Galilei contornou gragas
a um jeitinho da parentela num Vaticano
bem latino.
Respeito o teatro brechtiano, mas o Bre-
cht que mais me atrai 6 o das baladas e
can96es, o home que procurava nao se
consumer na amargura (como letrista, o
que Chico Buarque de Hollanda ter de
melhor 6 sub-Brecht), fumando seu cha-
ruto, enquanto nosso barroco compositor
entorna quantidades industrials de alcool,
nao s6 por hedonismo, claro.
Ainda hoje nao consigo ler nada sobre
o assassinate de Garcia Lorca sem me
aproximar das lagrimas. Ele 6 a vitima
exemplar da viol6ncia cega, gratuita, ab-
surda. Mata-lo nao ajudou a prolongar a
exist6ncia da ditadura franquista, nem a








JOURNAL PESSOAL QUINZENA DE FEVEREIRO /1998 7


sobrevivencia do maior de todos os gita-
nos a abreviaria. Ele era a quintessencia
da doqura, uma personalidade que supera
a pr6pria obra. Dos seus versos emanava
o cheiro da terra, a gostosura de seus fru-
tos. Suas rimas eram perpassadas pelo
vento das colinas. Eram tamb6m clausu-
ras de sal y mirto.
Li pela primeira vez o Canto para Ig-
nacio Mejias num inesquecivel ensaio fo-
tografico que Life publicou em varias pi-
ginas, numa daquelas edig6es que justifi-
cam o jornalismo ilustrado. Anos depois,


revivi essa sensagao fortissima em um dis-
co americano que reconstituia, com dife-
rentes autores e em distintas linguas (mas
sobretudo na altura do canadense Leonard
Cohen), Um Poeta em Nova York, essa
mistura de pureza, singeleza e forga que
torna Lorca essencial e atraiu contra ele
a selvageria cega que outro espanhol, Pa-
blo Picasso, registraria para sempre na
Guernica.
Tempos muitissimos dificeis foram es-
ses, mas nem por isso menos vitais ou
justamente por isso foram de valer a pena


viver. Todos esses homes imicos deixa-
ram no trajeto sinais que, demarcando
cada moment que entao assinalaram,
corn vida e obra, iluminam o future para
os que, vindo depois, souberem colher
os frutos do que foi plantado, como pe-
dia o agora centenario Bertolt Brecht. O
muro de Berlim caiu, a RDA acabou, o
comunismo deixou de ser utopia, mas o
pobre B. B., o da floresta negra, cresceu
ainda mais, desamparado e forte como
os poetas.
Ndo 6 s6 1958 que nAo devia terminar.O


Interesse puablico


E com satisfacio que pu-
blico aqui os esclarecimentos
dados a esta segAo por duas
servidoras publicas (seria
afortunada coincid&ncia tra-
tar-se de mulheres, ou isso
indicaria que, em mat6ria de
etica, as mulheres invertem
o predominio masculine ge-
ral?). Lea Dantas Ribeiro
como representante de Dul-
ce Souza e Rosineli Salame
falando pela Seduc incorpo-
raram o espirito deste espa-
co, reservado As relagaes en-
tre os cidadios e os represen-
tantes da administracgo pii-
blica, que sAo (ou deveriam
ser) primeiro representantes
da sociedade antes de o se-
rem do governor. SAo iniciati-
vas tio louviveis que a elas
fica reservado todo o espago
desta edicgo, deixando-se
para a pr6xima as observa-
V5es e cobrancas que se acu-
mulam no balcio.
Atendendo o leitor Lucival-
do Barros, que expressou suas
duvidas atrav6s desta segio, a
Ouvidora da Junta Comercial
do Estado, Lea Santos Dantas
Ribeiro, prestou as seguintes
explica6oes, acompanhadas da
respective documentag~o:
1. A president da Jucepa,
Dulce Leoncy Souza, recebe
pelo exercicio do cargo (que 6
em comissao ou de confianga)
a remuneracgo corresponden-"
te a DAS 6, cujo valor (estabe-
lecido em 1995 pela Secretaria
de Administraglo) 6 de R$
3.612,66 (ao contrario do que
afirmou o leitor, esse valor esta
publicado corretamente no Di-
ario Oficial do Estado de 20 de
janeiro deste ano).


2. Uma resolugdo de 1991
confere a president da Juce-
pa umjeton, limitado ao nime-
ro de quatro ao m6s e restrito
a presenga nas plenarias do
colegiado. Como cada jeton 6
de R$ 75,27, o maximo de ren-
dimento possivel atinge R$
301,08 mensais.
3. Sobre essa remuneragAo
(vencimento mais vantagem)
incidem os descontos legais de
imposto de renda, Ipasep-Pe-
culio e Ipasep-ContribuigAo
(deixando um liquid de R$ 2,6
mil, sem incluir os jetons).
4. O enquadramento da re-
muneragao no demonstrative
publicado no DO e a nomen-
clatura nele utilizada, atribui96es
desempenhadas pela Sead (que,
por zerar os campos reserva-
dos no quadro para a indica9lo
dos salaries e vantagens pecu-
nirias, provocou o natural in-
teresse e as justificadas obser-
va.9es do leitor), "sao atos for-
mais que, mesmo na eventuali-
dade de estarem ferindo a me-
Ihor tecnica, nto afetam, por si
s6, a legalidade do ato essenci-
al: o pagamento", garante a
Ouvidora, que parabeniza este
jomal "pelo espago aberto em
favor do interesse piblico".
Jd a subsecretaria de Edu-
cagdo, Rosineli Guerreiro Sa-
lame, enviou um extenso dos-
sie para provar que a Seduc
"ndo comp6s um novo 'samba
do crioulo doido' e nem tam-
pouco procedeu com dolo ou
md ft na contratagdo de
ag&ncias de turismo para o
fornecimento depassagens ae-
reas a secretaria, tema das edi-
o5es destejornal de dezembro
do ano passado e da primeira


quinzena dejaneiro deste ano.
Explica a subsecretdria que
em dezembro de 1996, com
base em uma dispensa de lici-
tagco aprovada naquele mes-
mo ano que resultou em dois
contratos, comprometeu-se
com as agOncias Uirapuru Tu-
rismo e Dinastia Viagens e
Turismo para o fornecimento
de passagens areas d Seduc
ate 23 de dezembro de 1997.
Em setembro do anopassa-
do a secretaria iniciou novo
process licitat6rio com o mes-
mo para aplicagdo neste ano.
A primeira tomada depregofoi
declarada desert no dia 25
daquele mOs. Uma segunda li-
cita9ao teve igual desfecho,
"embora ambos [os processes
de tomada de prego] tenham
sido amplamente divulgados
no Didrio Oficial do Estado e
jornais de grande circula9do ".
"Diante dos dois processes
licitat6rios sem exito, a Asses-
soria Juridica desta Secretaria
foi favordvel d Dispensa de
LicitaCdo, com fundamento no
art. 24inciso VdaLei n8.666/
96, que preve: 'Quando ndo
acudirem interessados d licita-
cqo anterior e esta, justificada-
mente, ndo puder ser repetida
sem prejuizo para a Adminis-
tra9do, mantidas, neste caso,
todas as condi&Gespreestabele-
cidas'", argument a subsecre-
tdria. Ela esclarece que os sal-
dos financeiros e as vigencias
dos dois contratos estavam se
esgotando. Por isso, a 22 de
outubrofoipublicada a dispen-
sa de licitacgo para a contra-
taqdo dos objetos licitados.
A crescenta Rosineli Salame
que a secretariat ainda teve o


cuidado de consultar cinco
agencies de passagens areas
para serem credenciadasjunto
a Seduc, mas s6 duas delas,
justamente a Uirapuru e a Di-
nastur, quejdprestavam oser-
vigo, responderam favoravel-
mente. A 7 de novembro o se-
cretdrio Jodo de Jesus Paes
Loureiro rescindiu amigavel-
mente os contratos. Nesse mes-
mo dia foram assinados os
novos contratos, de R$ 303 mil
cor a Uirapuru e de R$ 323
mil com a Dinastia.
Reconhece a secretaria que
"houve um descuido por parte
do Nz~cleo de Contratos e Con-
vOnios da Seduc quando da
revisdo dos extratos daspubli-
cagoes no Didrio Oficial do
Estado, gerando um lapso
quanto ao nome do ordenador
de despesas ", o que foi corri-
gido logo depois.
Rosineli Salamejulgar haver
demonstrado "de forma clara
que ndo houve nenhuma irregu-
laridade nos procedimentos e
contrataVoes; todos os passes
foram amplamente divulgados
com apublicidade legal exigida
para tender os preceitos de
transparOncia que norteiam as
aCoes desta administrator ".
Expressa a este reporter a certe-
za "de que sua conhecida pos-
turajornalistica, aliada ao no-
t6rio senso dejustiga que o ca-
racteriza, promoverdo os escla-
recimentos ptiblicos que se fa-
zem necessdrios, em espago de
seuprestigiosoperidico ". A do-
cumenta9do juntada sustenta a
exposigao da subsecretaria de
EducagCo, uma prestaCdo de
contas que realga sua condi5do
de correta servidorapublica.









Memoria
jornalistica
A edigio especial dedicada por
iVja A Amaz6nia no final do ano
passado bateu o record da revis-
ta de venda em bancas em 1997
(200 mil exemplares) e ganhou "um
pr6mio" (nao especificado) do Par-
lamento Latino-Americano. Ani-
mada, a revista deslocou um jor-
nalista pemambucano para ser seu
correspondent em Belem. Pode
parecer um avango in6dito na co-
bertura dada pela maior revista bra-
sileira A regiao, mas nao 6.
IVja JA teve em Bel6m uma su-
cursal com dois rep6rteres, um fo-
t6grafo, uma secretAria e um con-
tinuo. Desfez tudo isso em mais
um dos desastradamente freqtien-
tes espasmos de contra9Ao da
grande imprensa national, que a
reduzem ao Brasil do Centro-Sul e
a fazem ignorar a dimensao conti-
nental e multifacetada deste pais.
O pernambucano Klester Caval-
canti deve ser bem-recebido entire
n6s, mas na 6poca da sucursal to-
dos os tres jomalistas eram para-
enses (dois estao agora em Brasi-
lia e um em Nova York, atuando na
linha de frente). Sera que nao ha
maisjomalistas locais habilitados?
Quanto & edig o consagrada:
ela ignore o Para, ainda o centro
de decisOes amaz6nicas e um p6n-
dulo dos destinos regionais. Pre-
ciso dizer mais alguma coisa? Duas
decadas e meia atrAs, corn as so-
bras da edigdo especial de Reali-
dade (a melhor revista que atd hoje
saiu dos foros da Abril), Raimun-
do Rodrigues Pereira escreveu
uma reportagem que 6 o melhor
texto de Veja sobre a Amaz6nia.
Mas nao tinha a holografia que
deve ter encantado a todos nesta
tltima ediqao.
Assim caminha o jornalismo
brasileiro.

Corretivo
Raul Jungmann, ministry da
Political Fundiaria, deu uma tirada
de brilho ao se referir a "elite eixo
Morumbi-MarabA". Como ele ex-
plicou em entrevista A Folha de S.
Paulo, "sAo pessoas que moram
em Sao Paulo e especulam comn
terras do Norte do pais. Sfo pes-
soas que, durante os anos 70, os
anos 80, foram em busca de recur-
sos fWceis da Sudam, dos grandes
projetos agropecuirios, madeirei-
ros, etc.". Jungmann observa que
esse pessoal estava "com um gran-
de mico na mao" porque o preqo
da terra por ele retida "despencou,
nao existed mais recursos fkceis.
E temos o ITR (Imposto Territorial
Rural)".
No Para, um desses micos ao
qual se referiu o ministry, sem po-


r ---------------------

i htelectualidade
JAentei, sinceramente, ler os livros do Paulo Coelho, ao menos
para tentar seinlais simphtico ao retumbante sucesso de vendas do
primo do Mauricinho edo Frederico Coelho de Souza. Nunca con-
segui iral6m das prineiras p Aginas. Alm do ranco de falsidade edo
cheiro de chabu, travel no gosto literArio. Talvez o mago de Ipanenma
fosse mais digerivel se na juventude eu nao tivesse passado por
Stodo Herman Hesse.
S Pelojeilo. ajuventude do ex-primeiro-ministro israelense Shimon
SPeres, Pr6mio Nobel da Paz, foi diferente. Ele nAo s6 leu o Coelho de
Scabo a rabo. como mandou chamar o autor num hotel em Davos, na
SSuila. onde ambos se encontravam, para felicitt-lo e com ele travar
uma tenrrlia supostamenre intellectual, como sugeriram as agencies
internacionais de noticia. Mas. ao que parece, reunidos, os dois
preencheram uma lacuna cultural, que, aberta na 6poca em que jA
devia estar suprida. cria suscetibilidade para o resto da vida. u uma
espdcie de sarampo mental sem antidoto conhecido.lntelectualidade
JA tentei, sinceramente. ler os livros do Paulo Coelho, ao menos
Spar tentar ser mais simprtico ao retumbante sucesso de vendas do
primo do Mauricinho e do Frederico Coelho de Souza. Nunca con-
segui iraldm das prirneiras paginas. Altm do rango de falsidade e do
Scheiro de chabu, travel no gosto literArio. Talvez o mago de Ipanenma
Sfosse mais digerivel se na juventude eu nso tivesse passado por
todo Herman Hesse.
Pelo jeito. ajuventude do ex-primeiro-ministro israelense Shimon
Peres, Prdmio Nobel da Paz, foi diferente. Ele nao s6 leu o Coelho de
Sabo a rabo. como mandou chamar o autor num hotel em Davos, na
Suiga. onde ambos se encontravam, para felicitd-lo e corn ele travar
uma tertilia supostamente intelectual, como sugeriram as agencies
intemacionais de noticia. Mas. ao que parece, reunidos. os dois
I preencheram uma lacuna cultural que, aberta na epoca em que jA
I devia estar suprida. cria suscetibilidade para o resto da vida. t unma
I esp6cie de sarampo mental sem antidote conhecido.
L. ------------------ J


der prever a inventive, encontrou
uma said, a da indenizaglo judi-
cial. A Sabim, em torno da qual
eclodiu uma questao poldmica, 6
um dos tipicos projetos especula-
tivos engendrados por essa incri-
vel colaboragAo financeira official
atravts de incentives fiscais da
Sudam. E depois de ter engolido
recursos do tesouro, agora amea-
9a abocanhar na mesma fonte essa
soma inimaginavel, esdr6xula e
chocante de 55 bilh6es de reais.
S6 de novo con enxofre e fogo,
Senhor.

Profilaxia
Quando 6 que os concluintes
universitArios vAo deixar de co-
mercializar interesses para publi-
car a inefAvel fotografia nos jor-
nais? A pr6pria pAgina ja deveria
ter sido abolida. Mas se mante-la
e o preqo a pagar por um modis-
mo local, jA expurgado das capi-
tais do pais, por que nao ser sin-
cero e homenagear quem realmen-
te merece e nto quem paga a con-
ta? Por causa desse mau h6bito,
o ex-prefeito H6lio Gueiros dei-
xou uma conta em aberto para o
seu successor quitar. Tudo por-
que Gueiros deu ordem para pa-
gar todas as faturas (nem sempre
empenhadas, por6m), desde que
sua foto e o registry do seu nome


aparecessem no meio das turmas
de colandos universitArios.
Nao 6 um p6ssimo comego de
carreira professional?

De orelha
Na entrevista que deu a Mau-
ro Bonna, na RBA, o senador
Jader Barbalho anunciou que
nAo selecionarA interlocutor po-
litico na negociaglo da compo-
sig o eleitoral: "nao estou preo-
cupado em olhar para o passa-
do, at6 porque nAo quero virar
estAtua de sal como as mulheres
de Sodoma e Gomorra".
O senador precisa de uma ur-
gente revisAo biblical (nAo a Oni-
ca, aliAs). Apenas uma mulher,
em today a trag6dia de Sodoma e
Gomorra, virou estitua de sal: foi
a mulher de L6 (ou Lot), que con-
trariou a ordem do anjo e tentou
dar uma bispada na onda de fogo


e enxofre que destruiu as duas
cidades.
Talvez o encontro corn o ex-
prefeito H61io Gueiros, ainda a
acontecer (a despeito dos anon-
cios em contrArio), tenha ao me-
nos essa serventia: ajudar o li-
der do PMDB a aspirar um pou-
co do enxofre biblico, de que 6
especialista seu ex-quase-futu-
ro aliado.


Puxagao
O Onico anltncio (e em cores)
que saudou o aniversArio do em-
presario Romulo Maiorana Jr. nas
paginas de O Liberal foi patro-
cinado pela prefeitura de Para-
gominas. Se o prefeito pagou do
seu pr6prio bolso, tudo bem em
terms ptblicos (acerto privado
6 outra esfera). Se foi cor recur-
sos municipals, 6 um bom moti-
vo para o TCM glosar a presta-
9Ao de contas. Afinal. qual o in-
teresse superior que poderia ti-
rar essa iniciativa da classifica-
05o de mero puxa-saquismo?


By Celpa
As variaqoes de tensao e os
bugs eletricos de dona Celpa ex-
tenninaram toda a mem6ria do meu
computador, deixando-o como
veio ao mundo, sequer coberto
por ramo de parreira. Em conse-
qllencia, todas as mensagens en-
viadas pela Internet se perderam.
Rogo aos mensageiros que mu-
nam-se de paci&ncia franciscana
e refagam suas mensagens, acen-
dendo um cirio no altar da tecno-
logia de ponta(p6). Obrigado.

Carnaval,
desengano
As m6sicas de carnaval que
mais me tocam sao tristes. Anda,
Luzia, de Joao de Barro, por
exemplo. Ou Marcha de Quarta-
Feira de Cinzas, de Carlos Lyra
e Vinicus de Moraes, Baile dos
Mascarados, de Chico Buarque
de Hollanda, Estrela d'Alva, de
Lamartine Babo. Por isso, pego
aos leitores que considered este
numero do JP como uma ediqao
carnavalesca, ainda que A moda
do chefe.


Jomal Pessoal
Editor: LOcio FIAvio Pinto
Sede: Rua Aristides Lobo, 871 I CEP: 66 0534-20
Fone: 223-1929 e 241-7626 Contato: Trv. Benjamin
Constant, 845/203 1 66 053-020 Fone: 223-7690
e.mail: lucio@expert.com.br
.Edltoragqo de arte: Lulzp$ I 241-1859