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Journal Pessoal L C I 0 F L A V I P I N T O COBRE/CARAIAS 1958 merecia nio acabar? (Pags 4/5) A hora e de investigar A poderosa e estratigica CVRD estatal e hoje uma arena de leoes e gladiadores. A opinido p iblica continue sem saber quem manda nela e o que o novo controlador pretend corn a empresa. A incerteza se aplica ao destino das jazidas de cobre de Carajds. Alguem precisa desvendar os misterios e esclarecer osfatos, envolvendo maior investimento em curso no pais. Quem se habilita? m abril do ano passado, quando foi privatizada, a Companhia Vale do Rio Doce era a 25" empresa mundial, a maior de todas as mineradoras, controlan- do quase um quarto do mi- S ndrio de ferro em circulagao no mercado international, operava as duas maiores ferrovias do pals, era a maior produ- tora national de alumfnio, alumina, bauxita e ouro e, entire outros titulos, comecava a des- pontar como uma das grandes produtoras de cobre. Mesmo sendo estatal, era respei- tada internacionalmente. Tinha entire seus parceiros grupos privados de peso em dife- rentes stores econ6micos e suas ag6es eram blue ships, isto 6, de grande poder de atra- 9do em bolsa. Vendiam fAcil. O governor passou em frente esse patri- m6nio por 3,3 bilhOes de reais. O grupo con- trolador, para bancar o lance, precisou fazer um papagaio international no valor de 800 milh6es de d6lares, dos quais US$ 500 mi- IhOes vencerao em maio, aldm de seus pr6- prios aportes. Entre os novos proprietarios havia empresas de perfil tao discutivel para o porte da empreitada que todos passaram a se perguntar sobre quem poderia estar por tras delas. Questionava-se mesmo os pro- p6sitos dos arrematantes: seria gente inte- ressada em produzir ou se trataria apenas de especuladores, que se langam sobre ativos com a intengao de estragalha-los para obter lucros rapidos e ficeis coisa de abutres -" iceiros, enfim. rtRTC Z / 3 re Menos de um ano depois da privatiza- g9o. essa 6 a grande questlo da CVRD. S6 os mal-intencionados ou os cegos continu- am a sustentar que se tratou de um bom ne- g6cio para o pais. Uma empresa que nasceu para tender um projeto estrat6gico no con- texto posterior A Segunda Guerra Mundial e, desde entao, mantinha sua funiAo estrat6- gica para o pals, agora 6 uma arena de le6es e gladiadores. Se, em bastidores privilegia- dos, alguem ter o flo da meada para des- vendar os mistdrios que hoje cercam a Vale, na opiniao p6blica o estado 6 de perplexida- de e tamb6m de ansiedade. HA uma serie de boatos em curso. Segun- do um deles, o maior especulador internaci- onal, George Soros, estA tentando se apode- rar da empresa atravds de um laranja sofis- ticado, o Banco Liberal. Soros estaria con- tando com o apoio de outro banco, o Opor- tunitty, que tern como um dos donos o eco- nomista P6rsio Arida, um dos "pais" do Pia- no Cruzado (6 um daqueles ex-academicos que cruzaram a linha divis6ria entire a admi- nistraqAo p6blica e os lucros privados, man- tendo a aura de olimpicos para consume ex- temo, cor a ajuda da midia). Soros, cor um lance de sagacidade fatal, liquidou o Banco Barings, da Inglaterra. Para' dar uma ideia do significado dessa mais que centenAria instituigao financeira inglesa. Ji- lio Verne incluiu-a entire os personagens do seu c6lebre A Volta ao Mundo em 80 Dias. O aparentemente espantoso 6 que tambbm estaria contando com a cumplicidade do Pre- vi, o maior fundo de pensAo do pais, que deveria orientar seus investimentos pelo cri- tdrio do long prazo, expressando, de algu- ma maneira, a vontade do govemo brasileiro (seria por isso que Soros elogiou a adminis- traglo FHC na Sulga?). Outra sdrie de boatos assegura que Ben- jamin Steinbruch, principal executive da nova CVRD, mesmo s6 controlando 1,6% das acOes da empresa, estaria sendo considera- do a Ancora do governor federal contra as ondas especulativas que batem na muralha da empresa, ameagando uma obra que pare-) WA DERSA& (P' A 3 2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE FEVEREIRO / 1998 cia s6lida. No ultimo lance do jogo de xa- drez, Steinbruch tentou fazer a Vale comprar a Sidor, a siderurgica privatizada na Vene- zuela, mas foi impedido pelos outros s6cios de fazer um neg6cio do mais alto interesse para a empresa (abrindo um novo caminho siderfrgico) porque o alvo maior 6 devolver o capital empatado. Ja o jornalista Janio de Freitas reconsti- tuiu uma teia de cumplicidade complex li- gando as critics do ministry S6rgio Motta ao program de privatizagao do setor el6tri- co, a partir da atuagao da Light (onde o gru- po Vicunha dos Steinbruch tamb6m estA pre- sente), como uma manobra para fortalecer Benjamin diante de seus s6cios. Arremata o jornalista em um dos seus recentes artigos na Folha de S. Paulo: "O grupo Steinbruch 6 considerado, em circulos politicos mais in- formados, o maior financiador da campanha de Fernando Henrique Cardoso. Nos mes- mos e em circulos empresariais ha quem o consider ate mais do que isso". O animo de Janio diante de FHC se tor- nou tao feroz que a grave informagao deve ser recebida com reserves. O problema 6 que uma acusagao dessa dimensao foi langada sem o menor eco, seja para desmenti-la ou, no caso do jornalista, em artigos posterio- res, confirma-la em detalhes que fossem alum da mera insinuagao. Essa amostra gratis da boataria que corre solta em ambientes supostamente mais so- fisticados da uma ideia do que esta sendo arquitetado a distancia do grande public. Independentemente do conteuldo de reali- dade das informacges sopradas por fontes an8nimas para uma imprensa demasiadamen- te conivente com esse tipo de manobra, o dado inquestionAvel 6 o enfraquecimento da Vale do Rio Doce como empresa estrat6gica e corporagAo produtiva. A privatizaago esti assumindo, com toda essa onda de boatos, novos contornos: o de sabotage, ainda que o mercado possa designa-la com o titulo mais simpatico de busca de lucros rApidos. A situadao se aplica a atua9ao local da CVRD. Ela 6 tao ou mais important para o Para do que para o Brasil. O Para 6 o s6timo Estado exportador, com 75% do seu com6r- cio exterior baseado em produtos de origem mineral, e o terceiro em saldo de divisas. Es- ses nurneros nao existed sem a Vale. Mas esses nuimeros ainda significam muito pou- co. O investimento realizado 6 desproporci- onalmente grande (6 tipicamente capital in- tensivo) e miltiplos problems acarretados pelas caracteristicas desse tipo de aplica9go diante de uma receita de exportagao de 2,2 bilhaes de d6lares e de um saldo de US$ 1,8 bilhao. A Vale pode ser o marco do empo- brecimento do Estado ou a alavanca do seu desenvolvimento, dependendo de como se- rao as relag9es entire as parties. Por enquanto, essas rela96es obedecem ao velho esquema colonial dos enclaves e nao ha no horizonte alguma evidencia de mudanga. Os paraenses nao tem a minima nogao do enredo do qual fazem parte, como se fossem figurantes daquelas super-produ- 96es hollywoodianas nas quais apenas um grande her6i individual sai ganhando. No iltimo nimero, o Jornal Pessoal re- velou o que estA por tris da dispute pelas jazidas de cobre de Carajas. Foium furo com- pleto. Nao 6 necessario que os outros 6r- gaos da imprensa reconhegam esse feito, obtido sem que nenhuma fonte tenha sopra- do o que aqui se publicou (alcangado apos levantamento de informag9es parciais junto a diversas fontes, checando-se cada dado obtido at6 chegar a uma visao de conjunto). Esse 6 um detalhe irrelevant. Mas a infor- magao, nao. O que ela significa? Os novos donos da CVRD dizem que seus antecessores foram irresponsaveis ou levianos. Iniciaram um in- vestimento, que hoje oscila em torno de US$ 2 bilhoes, sem detalhar o projeto de enge- nharia no grau necessario para assegurar a viabilidade do empreendimento. Bastou os novos controladores submeterem o projeto a revisao rigorosa para as falhas se eviden- ciarem. Hoje, ao inv6s do Salobo, a jazida interessante para aproveitamento econ6mi- co seria a Liberdade/Sossego. Os dados do confront, aqui reproduzidos sem maior cri- tica (por impossivel no momento, nao dei- xam duvida sobre o argument. Mas ele 6 realmente verdadeiro? Responder a essa d6vida nao 6 tarefa academica. Como 6 que um projeto de mine- raago e metalurgia tao tosco conseguiu a aprovagAo do BNDES, a principal agancia de fomento do pais? Como 6 que hA sete anos uma empresa do porte da Anglo Ame- rican se incorporou e se mantem nessa em- preitada, sem perceber que embarcou numa canoa furada? Como 6 que uma vasta comu- nidade t6cnico-cientifica foi ludibriada pe- los dirigentes da CVRD estatal? Como 6 que a opiniao p6blica, escaldada pela traumatica hist6ria da Caraiba, ainda comprou um novo mico cupifero como o do Salobo? Pode-se continuar navegando nas ondas encapeladas das especulag6es, mas vai-se perder tempo e corre-se o risco de encalhar na praia, morrendo nela depois de haver na- dado tanto, como o naufrago azarado. Esta na hora de limpar os pratos desse banquet pantagruelicamente ca6tico (ou caoticamente pantagruBlico). Infelizmente, nao ha interlocutores habi- litados para a CVRD no Para. O govemo Al- mir Gabriel ter se desmoralizado ao long da negociagao com a empresa. Nao acompa- nhou tecnicamente o intermediario creden- ciado na fase estatal, o ex-ministro Paulo Haddad. E virou marionete na fase privatis- ta, apesar dos socos na mesa (s6 a furia esta long de impor respeito nesse tipo de mer- cado). Mas 6 urgentemente necessario im- por esse outro lado da mesa de negociag9o, enquanto 6 tempo. Benjamin Steinbruch anunciou a 0 Glo- bo que "a partir de junho, vamos estar corn os neg6cios estruturados e prontos para qualquer tipo de neg6cio, seja compra, ven- da ou associagAo", No caso do cobre de CarajAs, o maior projeto produtivo em anda- mento no pais, este anfncio se desdobra em vArias hip6teses, mas nenhuma delas con- templa a ret6rica do governador de que a implantayao do projeto de US$ 2 bilh6es da Salobo continuarA em Maraba do ponto em que foi interrompido ha quase um ano, per- dendo apenas prazo. Esse projeto foi para o espago. Ele s6 prosseguira se a composigao acio- nAria atual for modificada. Observe-se que a empresa especificamente responsAvel pelo projeto, a Salobo Metais, foi colocada para escanteio. Os homes de confianya da CVRD privatizada assumiram as r6deas do neg6cio. Isso indica que os dois parceiros, a Vale e a Anglo American, nao mais se en- tendem a respeito. Cada um procurou seu reduto pr6prio. De sua part, a CVRD diz que continuara no neg6cio se um novo s6cio, com dominio de mercado, a ele der confiabilidade (alem de vir cor dinheiro, claro). Mas as entreli- nhas sugerem que a Vale pretend mesmo e passar-se para a nova jazida, sem, no entan- to, deixar atras um concorrente em potential que vai complicar seus pr6ximos lances. As coisas nao estariam tao tensas se uma com- posigao triangular, incluindo a Phelps Dod- ge, fosse possivel. Mas nao 6. A Anglo American, por sua vez, se os dados da Vale sao corretos, age em CarajAs com algo mais do que meros interesses comerciais. Por isso, teria aceitado bancar a taxa de risco do Salo- bo, vendo mais long e mais largamente. Essa mera sinopse mostra que a luta e braba e esta sendo travada por gigantes, tendo como pano de fundo um cenario in- ternacional e nao apenas a par6quia paraen- se. Um protagonista, ainda que meramente potential, contudo, estA ausente: o Para. Como faz6-lo entrar na hist6ria? Tenho uma sugestao: a Assembl6ia Legislativa poderia criar uma comissao especial para reunir in- formay6es e tentar formular uma proposta de aago para o Estado. As sess8es nao de- veriam se transformar em palco para estrelas cadentes ou destituidas de luz pr6pria, nem palanque para comicios ret6ricos, que sem- pre levam a coisa nenhuma. Parte-se da pre- missa que o Estado encontra-se desarmado, por falta de informay6es seguras. O que pre- cisa, de imediato, 6 obt6-las. Sem elas, o maximo que se conseguira sera colocar mo- inhos de vento diante de Quixotes mal en- jambrados. A epoca 6 eleitoral e nao facility esse tipo de iniciativa. Mas se o legislative nao e ca- paz de um minimo de atos vitais, entao e melhor enrolar a bandeira. Para prevenir mais uma pizzaria, tecnicos de reconhecida com- petencia seriam reunidos aos deputados da comissao, que requisitaria um fundo sufici- ente, arrolaria os nomes certos para tratar do assunto e trabalharia em tempo integral para conseguir esses depoimentos, entire os quais se incluem, como prioritarios, os anti- gos dirigentes da CVRD, os novos, a An- glo, a Phelps, o BNDES, os 6rgaos oficiais do setor e fontes credenciadas. Este e o tema prioritario do Para de hoje, mesmo cor eleig9es, Gabrieis, Barbalhos, Gueiros et caterva, que, se formos reparar bem, nao passam de miragens, quando nao pesadelos. O important 6 nao permitir que a defini9Ao sobre a exploraygo das jazidas de cobre de CarajAs, num acerto microeco- n6mico entire empresas, atenda apenas aos interesses delas, em relagao aos quais co- megam a ser apontados sinais de mera espe- cula9ao predat6ria. Se montar uma estrat6- gia de interesse ao Pard nao chega a ser um mote de campanha eleitoral varejista, repre- senta a prova dos nove sobre o future: o Para parou de vez ou ainda pode ser con- temporaneo de sua hist6ria? * JOURNAL PESSOAL 2Q QUINZENA DE FEVEREIRO /1998 3 Jimena BeltrAo pode ter falado nao ape- nas por ela, mas dando voz a muito mais gen- te, quando fez a observagdo, num seminario intemo promovido, duas semanas atras, pelo departamento de difusao cientifica do Mu- seu Emilio Goeldi. Ela disse queja havia acom- panhado varias das minhas palestras, con- cordava com muita coisa do que eu dizia, mas terminava deprimida com as informa96es que eu divulgava. A moral da hist6ria pode- ria ser a de que nao ha said, nem mesmo o que fazer. A derrota nos precederia. Alguns dias depois me vi diante de uma situagdo algo assemelhada, ainda que mais domestic. Assistia a um documentArio so- bre Nelson Mandela e a Africa do Sul, em pleno domingo. Quando minha filha passou diante do video havia a cena de um cadaver na rua, um negro morto durante as muitas manifesta96es no Soweto. Minha filha se espantou: nao seria melhor um program dominical mais suave? Certamente. Mas eu nao estava ali atraido pela violnncia. O que me interessava era a Africa do Sul, um pais que me sugere muita coisa aplicavel a n6s mesmos, num paralelis- mo que cada vez mais busco fazer. A violen- cia 6 um component dessa hist6ria, na deles abertamente, na nossa corn mais disfarce, mas derivando para resultados comparAveis. Sao dois enredos pesados, mas se quero apren- der nao devo tangenciar epis6dios desagra- daveis. E se os dias correntes da semana nAo sao suficientes para fazer a ligao, que venham os descansos regulamentares. Ningu6m mudara a realidade retocando-a. Para saber o que fazer, 6 precise encarar as coisas como elas sao. Mas s6 tendo uma per- cep9ao de como elas poderiam ou deveriam ser 6 que se conseguira veneer o fatalismo, superando determinismos e criando alternati- vas, escapando A tentagao do cinismo con- veniente (que acaba se tomando conivente). Desde que li a frase pela primeira vez num livro de Antonio Gramsci, quase 20 anos atras, guardo-a como um tesouro: 6 precise ter pes- simismo na inteligencia e otimismo na vonta- de. O pessimismo no raciocinio pbe em ques- tao o conhecimento existente e abre as portas para a renovag9o. E assim que a ciencia avan- 9a. O otimismo impede o agent da mudanga de cair na prostra9ao ou no niilismo. Mas nao ha formulas panglossianas para esses esta- dos de espirito e para as attitudes positivas. At6 Picasso, que era Picasso, exigia 99% de transpiragqo para 1% de inspiragqo. O Equador estava em estado de sitio quando o visitei pela primeira vez, em 1971 (foi quando deixei momentaneamente o Ban- deira 3, o suplemento sustentado em A Pro- vincia do Pard por Claudio Augusto de SA Leal). Velasco Ibarra havia sido deposto pelo general Guillermo Lara. Mas no centro de Guayaquil, nao a capital, mas a principal ci- dade do pais, a livraria do Partido Comunista funcionava normalmente, atW cor uma ban- deira da Uniao Sovi6tica na entrada. Entrei, olhei meio assustado (depois des- cobri o incrivel indice de analfabetismo, que explicava o liberalism dos militares, entire outros motives). Vi que era um centro devo- cional, catequ6tico. Resolvi pegar uma pega. Perguntei se tinham um exemplar da Critica da Critica Critica. 0 dono, militant do PC, me olhou como se eu fosse Lucifer. Nao, nao tinha me responded de ma-vontade. E 0 Rei da Prussia e a Reforma.Social?, insist. De cara fechada, me devolveu o insulto ao demo, lui-meme: quem seria o autor do tal livro?. Devolvi: Karl Marx. Explodiu: Marx jamais havia escrito essas heresias. Esses livros nio existiam. E s6 faltou me expulsar. Eu teria feito menos estrago, talvez, se tives- se jogado uma bomba ali. Narro o epis6dio cor a pretensao de con- tar uma fabula sobre a importAncia da critical (o Marx-profeta esmagou o Marx-critico, fa- zendo mal A sociedade). Mesmo quando le- viana ou superficial, ela tem a utilidade de agitar o mundo das id6ias, impedindo que se estratifiquem em monolitos refratArios, o que 6 bom, ainda que dessa agitaygo resultem apenas bolhas de ar. E claro que a critical nao 6 apenas uma fabrica de bolhas. Ela precisa ter fundamen- to para contribuir socialmente. Critica nao 6 mera inspiragao. Para critical 6 necessario estudar muito, observer, circular, inquirir, checar. Cumpridas essas etapas, a critical fun- ciona como um feixe de luz no escuro. Mes- mo tendo um campo de luz restrito, servirA de refer8ncia para os que sabem caminhar usando todos os referenciais de orienta9ao, al6m da luz. 1 o que lhe assegura o papel de vanguard. A critical 6, assim, pedag6gia, son- dando novos temas, atualizando a agenda dos cidadaos, trazendo para o centro do palco events pioneiros que surgem nos bastidores, indi- cando as fontes e refer8ncias. Um critic sem utopias mergulharA na amargura, mas o oti- mismo cego s 6 possivel, como alertou Ber- tolt Brecht com a igenuidade. A ingenuidade, fora do period biol6gico pr6prio, 6 apenas prova de insensibilidade. Ingenuo 6 aquele que ainda nao recebeu a filtima noticia. Tenho dito e repetido que viver no Para, hoje, 6 um privildgio. Aqui pode-se realmen- te fazer hist6ria, produto indisponivel em muitos outros mercados aparentemente me- Ihores. Mas tamb6m 6 uma exasperante fon- te de angustias porque a hist6ria que se tem escrito nao exibe a nossa assinatura. Perma- nece imperturbavelmente feliz aquele que ainda nao percebeu essa contradi9go. Enun- cia-la em abstrato pode ser fhcil: basta apli- car models colonials correntes ou do pas- sado. Mas demonstrA-la e apontar os meios de supera-la 6 tarefa terrivelmente exigente. O jomalista nao pode minimizar a drama- ticidade desse desafio, se o acompanha pari- passu. Mesmo quando se consegue montar um diagn6stico satisfat6rio da conjuntura,. o quejA 6 uma faganha em area pioneira como a nossa, com seu continuum hist6rico cons- tantemente atropelado pelos saltos hist6ri- cos dados pelos enclaves, que marcam o rit- mo das decisOes, na maioria das vezes nao A critical faz mal? se consegue ver o moment seguinte, o da a9Mo. Mas a militancia na critical afia as ar- mas da percep9ao. Na semana passada um representante da Companhia Vale do Rio Doce fez, em entre- vista ao jomal Opinido!, de Maraba, um pa- ralelismo que, segundo ele, ajudaria a enten- der a crise do Salobo. Disse que a CVRD cometeu um erro no passado, quando ini- ciou o p61o de aluminio em Barcarena pela metalurgia sem dispor, antes, da alumina. A Alunorte s6 surgiu 10 anos depois que a Albras comegou a funcionar, obrigando o pais, nesse period, a gastar divisas com a importagao da alumina para a transformagao em metal. O erro poderia ser repetido em Ca- rajas se a Vale instalasse a metalurgia de co- bre sem antes definir melhor a concentragdo do min6rio. Nesta etapa do process haveria s6rios problems tecnol6gicos que nao fo- ram equacionados durante a gestao estatal. At6 entao a primeira parte desse argu- mento s6 aparecia na boca de critics. Foi a primeira vez que um executive o assumiu. Mas o atraso da Alunorte, que, s6 em divi- sas, nos custou mais de dois bilh6es de d6- lares em 10 anos, nao se deveu a qualquer problema tecnol6gico, como agora se diz que existe no Salobo, inviabilizando economica- mente a concentragdo do cobre. Foi porque a CVRD, em momentAnea difi- culdade de caixa, agiu como uma empresa privada qualquer (e nao como a empresa es- trat6gica que sempre alegou ser): aceitou suspender o investimento em sua pr6pria unidade de alumina, passando a receber o produto da Alcoa. Era um evidence dumping, pelo qual pagariamos tao caro, de fato, mas porque as razaes de estado foram preteridas por interesses privados. Na 6poca, fui a unica pessoa que, de pd- blico e documentadamente, denunciou essa manobra e mostrou os danos que ela acarre- taria ao Para e ao Brasil. A inica resposta que recebi aos sucessivos artigos, publica- dos na 6poca em O Liberal, veio de Sao Pau- lo. C6pias dos artigos chegaram as maos dos dirigentes da Abranfe, a associag9o dos pro- dutores de nao-ferrosos, e eles me concede- ram o Pr8mio Abranfe de Jomalismo de 1982, sem que eu tivesse tido a iniciativa de me inscrever (simplesmente desconhecia o pre- mio). Agora, um representante do principal personagem da hist6ria, que era a CVRD, in- corpora a critical, embora usando-a num pa- ralelismo incabivel, evidenciando, assim, a necessidade de renovagao da critical para restabelecer a verdade. A condi9ao para a critical 6 a existencia de liberdade e um regime democritico. S6 por essa fun9ao ela jA 6 positive. Ao menos fun- ciona como aquela velha biruta dos velhos aeroportos da infAncia, indicando a existAn- cia e a direao dos ventos. Isso nAo 6 tudo e muitas vezes nAo 6 o suficiente, mas 6 bem melhor do que a calmaria. E se o critic for um aplicado aprendiz, sempre a cata de in- forma96es, permanentemente empenhado em checar o que soube, disposto a submeter-se aos questionamentos pfblicos, entao a criti- ca s6 faz bem. Mesmo quando deprime, ali- As. Se nao se deprimissem, muitos grandes criadores nao teriam motives para comemo- rar suas vit6rias, com a sensag9o de realiza- 9ao ao olhar o que ficou para tras. 0 4 JOURNAL PESSOAL 2 QUINZENA DE FEVEREIRO / 1998 Pistas e suspeitas em um ano que merecia nao terminar O produto mais nobre do govemo Jus- celino Kubitscheck (1956-1961) foi a li- berdade. Os que estavam em idade cons- ciente nesse perfodo usufrufram do brilho e do encantamento dessa j6ia rara na his- t6ria brasileira. Poucas geraq6es tiveram esse privilgio. A atual pode ser incluida no rol exclusivista de uma nova era de liberdade, cor os acr6scimos agravantes do neoliberalismo por conta do mimetismo sem pudor do novo (neo?) JK, o nosso FHC. Para os mais velhos, Fe- liz 1958, o ano que nao devia terminar, livro de Joaquim Ferreira dos Santos (Editora Record, 190 paginas, 20 reais), um chud. Permite refle- tir um pouco sobre a im- portdncia da liberdade na vida social, mas nao tanto: seu maior m6- rito 6 conduzir, pelas linhas de um texto bem escrito, uma onda positive de saudo- sismo para os que ja cruzaram ha tempos a linha tordesilha dos 40 anos. Corn conhecimento de causa ou por mera intuiqao, quem nao gostaria de ter vivido naqueles "anos dourados"? Eles vAo do fim do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial, em 1945, ate o golpe military contra o president JoAo Goulart, em 1964, segundo a cronologia clAssica. Nao houve fase mais duradoura de res- peito as liberdades e garantias individuals e institucionais em toda a Reptiblica. Mas eu nao fecharia o ciclo con a queda de Jango. Iria at6 1968, "o ano que nto ter- minou" (o Pif-Paf a Folha de Debates, a Revista CivilizagLo Brasileira e muitas outras publicac9es surgiram no periodo, com a ediqao, no fatidico 13 de dezem- bro, do pegonhento Ato Institucional n0 5, que reimplantou as trevas medievais no pais e sufocou a liberdade, com ferocida- de sem paralelo no passado republican. I claro que o jomalista Joaquim Fer- reira dos Santos esta citando o livro do tamb6m jornalista Zuenir Ventura (1968, o ano que nao terminou). Mas escolheu 1958 para tema do seu livro apenas por causa dos 10 anos exatos que o separam da data destacada pelo primeiro livro? Apenas porque o titulo primoroso dado por Zuenir poderia ser aproveitado no se- gundo cometimento em flash-back? Seria 1958 o ano paradigmatico (para usar um jargao academico desta epoca), emblemA- tico (idem) ou arquetipico (ja ndo tanto) dos "anos dourados"? E uma tese, ou tema de enquete. Corn suas razbes de fundo ou por mero palpite, Joaquim Ferreira adotou 1958, ele pr6prio ne6fito testemunhante des- sa epoca (tinha sete anos, eu nove), tomando por 4 esse ano tudo o que se passou nos 19 ou 23 anos edulcorados. Seu livro 6 delicioso, como tern que ser a melhor produqao de um bom jornalista. E urma reportagem em escala ampli- ada: o autor foi as coleqoes de jornais e revistas, selecio- nou material exemplificativo ou demonstrative, costurou tudo corn sensibilidade e bom humor, recor- rendo a vinhetas e joguinhos para aumentar o prazer intellectual, mnem6nico, visual e quem sabe at6 olfativo dos seus lei- I stores. Mas 6 isso o mAximo que o jornalismo pode oferecer? Confesso ha- ver terminado a leitura, rapidamente (o que deve ser creditado como mrrito ao autor), mas insatisfeito. Se o livro 6 apenas uma entrada, que boa entrada que ele 6: esti- mula o leitor a lanqar-se sobre algo mais substancioso e mais bem definido. Se pre- tendeu-se a prato principal, 6 insatisfat6- rio. Mas certamente ganharia em densi- dade e rigor, sem perder em leveza e gra- 9a, se o autor tivesse aplicado mais tempo e empenho em sua pesquisa. A "era do radio", por exemplo, nao ter em 1958 o seu moment de ouro. Os novos transistores foram inventados em 1947. Marlene, a fa- vorita da AeronAuti- ca, foi eleita a rainha do radio em 1949, enquanto Emilinha, sua arquirrival, favo- ' rita da Marinha, subiu ao trono da Radio Nacional em 1953. O 100 aniversArio do Progra- ma Cdsar de Alencar, reunindo 20 mil pessoas no Maracanazinho, foi comemo- rado em 1955, quando dizem que o radio chegou ao apogeu, declinando a partir dai por causa do avango da televisao, surgida no Brasil cinco anos antes (a geracao de imagens precedeu a existencia para valer de aparelhos receptores, coisa do patrono do feito, o ainda insuficientemente biogra- fado Assis Chateaubriand). O munidor de lAminas Gilete, por exem- plo, um dos produtos tipicos da 6poca, foi langado em 1953 e nao em 1958, ao contrario do que diz o livro. O record de tiragem de uma revista brasileira foi al- cancada por O Cruzeiro cor a ediqao es- pecial sobre a morte de Get6lio Vargas, em 1954 foramm 790 mil exemplares, enquanto o journal Ultima Hora tirava 200 mil em edigoes continues). Sao visiveis deficiencias, que s6 a pres- sa pode explicar. Joaquim Ferreira diz que ClAudio Bojunga escreveu "a mais com- pleta" biografia de JK, mas o autor 6 Ge- raldo Mayrink (e ainda assim o elogio 6 indevido). Os valores monetArios nao sao atualizados (ou pelo menos convertidos para d6lar). Ha erros nas letras de milsi- cas. Alguns fatos destacados sAo cario- quices sem qualquer interesse national. Capitulo inteiro ocupado por "um passeio corn Carmen Mayrink Veiga" 6 dose exa- gerada, ainda mais por indefinicqo tempo- ral nas observaqOes da hoje socialite. Em compensacao, muito pouco sobre o mundo proibido dos gibis, o fascinio dos seriados, o impact de produtos como o naylon, o ban Ion, o 6culos Ray-Ban. Cada um poderA preparar sua pr6pria relacao e nenhuma, exceto se A custa de chateaago, sera complete. Ademais, nem esse foi o prop6sito de Joaquim Ferreira. Entretanto, acho que osjornalistas se im- p6em limits muito artificialmente estrei- tados para o Ambito de suas incursoes. E como nas palestras: s6 quando as per- guntas provocam o raciocinio e questionam o saber at6 ali acumulado 6 que .j elas se tornam interessantes. L Justamente ai o tempo disponi- vel acaba. Com essa in- tima sensagao de frustrafto cheguei ao final de bons livros dejornalis- tas lanqados recentemente, como Cha- 16, de Fernando Moraes, Mau6, de Jorge Caldeira, a trilogia de Ruy Castro (sobre a Bossa Nova, Nelson Rodrigues e Garrin- cha) e, agora, este 1958, de Joaquim Fer- reira. O segredo para agregar aos bons JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE FEVEREIRO / 1998 5 ingredients do texto leve e solto, que to- dos os citados possuem, a informacio exata e relevant, 6 fazer todas as pergun- tas necessArias A compreensao do tema, sem deixar perguntas irrrespondidas ao long do texto. Num mesmo ano, 1976, a Editora Nova Fronteira langou um li ro s. - academico escrito A maneirajor- nalistica (Os Bolchevi- ' ques, de ,. Adam Ulam) e um " trabalhojornalistico . de rigor academic _ (Hitler, de Joaquin Fets). A coincidencia serviria para forgar os acad8micos a se tornarem inteligiveis e mesmo atraentes, e os jornalistas a serem profundos. Corn essa combinaao de qua- lidades a sociedade sairia fortalecida e a mem6ria serviria nao s6 a deleite passadis- ta, mas tamb6m de instrument para a com- preensao do present e antevisto do futu- ro, sem o que estaremos condenados a colidir na quadratura do circulo. A liberdade que JK conferiu como mar- ca indeldvel aos "anos dourados" nao pode ser apropriada contabilmente. nem media por indicadores econ6micos quantitativos, como o PIB (Produto Interno Bruto), mas 6 ela que da o temper da hist6ria e dife- rencia os tempos. O "milagre" dos 50 anos em cinco de JK difere em qualidade do "milagre" do "Brasil Grande" dos militares (e nfo exige um custo tao elevado quanto o atual de FHC): o que era imperative ca- teg6rico na fantasia do general Me- dici, era adesao espontanea, vo- litiva ao menos, no "vira-vira" de JK. A onda de consumismo e obras pfiblicas da alianga tecnocrata-militar, financia- da corn petrod6lares, nao ge- rou rissorgimento cultural algum. muito pelo contrario, enquanto teatro, cinema, mbsica, artes pldsticas, arquite- tura, urbanismo, ciencias sociais, ciencias exatas e todas as manifestaqges do pensar human foram fermentadas pelo otimismo exuberante e o bom-pracismo de Non6 Spu- tinik (era assim que o Acido Gondin da Fon- seca tratava o entreguista das Alterosas, sem ser por ele molestado). O diferencial estA na liberdade, tao essencial A vida hu- mana quanto o oxigenio, jA que nossa di- mensao simb6lica nao se dissocia do ente biol6gico, diferentemente do que sempre pensam os ditadores. Esse 6 o motive essencial da sobrevida do impdrio americano diante do imprio sovidtico, confrontados pela era da infor- matica, personalizada e individualizada. O peso da utopia kubitscheckiana nao deve ser mais leve do que a dos generals anco- rados em scholars gananciosos como Ro- berto Campos e Delfim Neto. Alguns er- ros de JK foram palmares e nos cobram remissao atd hoje. Para cumprir promessa feita em cam- ,. panha presidential pelo sertlo goiano e mostrar que era politico de outra cepa, S clAusula constitutional, implan- ''I tando Brasilia. Ela foi mesmo in- dispensAvel para dar a corrida S ao Oeste um conte6do de realidade c calar a ironia multissecular de Frei Vicente de Salvador? Nem mesmo a Bel6m-Brasi- lia foi uma combinaato de au- ddcia e discemimento. A capital provavel- mente permanecerd artificial e onerosa para sempre. O rodoviarismo ainda continuard provocando seqllelas por muito tempo. E transferir a capital federal seria mesmo a via certa para extirpar os males do buro- cratismo parasitario do Rio de Janeiro, tro- cando politicos por bicheiros? Delenda, Rio, disse Rubem Braga antes de todos. O neologismo de belacap foi mais ironia do que compensaqfo. Industria de bens de consume duraveis antecedendo a ampliafao e consolidaqAo da ind6stria de base nao foi como colocar a carroqa antes dos bois? O superfatura- mento de obras piblicas, pretextado pela urgencia na execugao, nao inoculou um virus indestrutivel no organismo national, esse vids de corrupato que existe mesmo quando nAo se prova (como as bru- \ J do ditado espanhol, ator- mentando nossas melhores utopias)? Sim, tudo isso ^ ,. 6 heranga de JK, que, I se nfo a criou, engor- S\ dou o acervo. Mas S. estAvamos cientes do Srisco e dispostos a pagar por ele. Talvez fosse mes- mo impossivel prever o des- Svario castrense-farisaico das vi- 0 vandeiras, fardadas ou nAo, ge- radas pela terrivel UDN (que, como em qualquer tragddia grega, seria levada no torvelino). Todos estavam au- torizados, menos os profetas. Aquele, por6m, foi um sonho que va- leu a pena, principalmente para os que o viveram. t o que, homeopaticamente, sugere o livro de Joaquim Ferreira dos Santos, um relicArio como os Albuns de fotografias e de recortes, A espera de quem o venha repassar corn percepqao mais acurada e demonstraqao mais convincen- te. Continuaremos a esperar, como quis Samuel Beckett. Mas at6 quando, Jos6?O Fundo falso Houve um tempo em que o magistral Luchino Visconti andou se alvoroqando para filmar A Montanha Aldgica. roman- ce de Thomas Mann. Criou uma expecta- tiva enorme. Muitos criticaram a versau cinematografica que ele criou para lorne em Vene:a, do mesmo Mann. De minha part. achei todo aquele convescote cri- rico em torno da fidelidade a Mahler e da natureza da relaqco dele com Tadzio firu- la historiogrAfica. O film e de uma beleza deslumbrante. a interpretaqAo de Dirk Bo- garde e anrologica e a sensaqao de opres- sao. alegria e decadencia da novela so- brevive no celuloide. E tambem o loque superior de Visconti em O Leopardo e Deuses Aalditos. Mas o projeto da Montanha ldgica nao se realizou. Continue a ser um desa- fio para o cinema, embora desde logo se saiba que quem decidir enfrentar o desa- fio da esfinge seri engolido. Nada se equipara A literature mais elevada. como a que Mann nos deu com a minade de vida tecida em tono do Berghoff, de Cas- torp. Joachim. ClaudiaChauchai. Settem- brini, Naphia. Mas tudo ficou subitamente prosaico e insosso. Bastou o nosso augusto pre- sidente Fernando Henrique Cardoso po- sar tendo ao fundo a montanha magica de Davos-Platz. nos Alpes suiqos, para o gosto do parvenu contaminar o ambi- ente criado no romance immortal. Talez essa quebra de encanto nao livesse ocor- rido se o principle tivesse deixado de lado o seu estrelismo e fosse conremplar a paisagem como o fez Hans Casrorp, meti- do num pesado cobertor e estendido so- bre uma chaise-longue. Em silencio. de preferencia. E sem emuourage. Bicho solto Talvez o govemador A mir Gabriel. ge- ralmente desatento a informaqces. nao te- nha percebido que esta cada vez mais cer- cado de bicheiros. Antes mesmo dejun- tar as foras do Estado as da Beija-Flor. escola de samba que lava o dinheiro da contravenqAo penal com muita pluma, paete e alegria (e a maior contribuiqAo verde-amarela ao crime organizado), o governador ja havia recebido, em pleno Palacio dos Despachos (cor perdlo da palavra), o dono da Beija-Flor, o deputa- do federal Farid Abrahto. irmio do bi- cheiro Anisio Abrahio. E nenhum outro governador abriu tantas alas ao bicho, que agora funciona com toda a desen- voltura na capital, inclusive atrav6s do "'ligue-bicho" (as mafias, explicitas ou nao, estAo tomando conta das linhas te- lefonicas de consulta. A troco de que? Ou sera apoio riso- nho e franco? 6 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE FEVEREIRO / 1998 Entre livros para sempre Como geragao, estamos entire aquelas que, quando remontam as origens, avan- gam pela mem6ria entire livros. Dos 13 lan- camentos literarios daquele ano arrolados por Joaquim Ferreira no seu 1958, o ano que ndo devia terminar, li oito nao, 6 claro, naquele mesmo ano: O Ventre, de Carlos Heitor Cony (ainda o romance exemplar da inchada obra); Gabriela, Cra- vo e Canela, de Jorge Amado (o iultimo que me deu prazer); A Nova Hist6ria da Musica, de Otto Maria Carpeaux (sinteti- ca e exata); Presenga na Politica, de Gil- berto Amado (um aristocrata amAvel); A Cidade Vazia, de Fernando Sabino (sem suspeitar que acabaria bi6grafo de dona Z6lia Cardoso de Mello Show); 100 Cr6- nicas Escolhidas, de Rubem Braga (o 6ni- co urso suave); Hist6ria do Carnaval Carioca, da nossa querida Eneida; e Su- persti9des e Costumes, do mestre potiguar Luis da Cimara Cascudo. Nao li Encontro no Aeroporto, de Hen- rique Pongetti, mas era como se o tivesse feito: acompanhava as cr6nicas de Pon- getti na Folha Vespertina (quem nio lesse cr6nicas naquela 6poca era filho de pa- dre). Na 6poca, gostava. Depois, o prato ficou intragavel passedi definitivamente para Braga, Sabino, Cony, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende). O Homem ao Lado 6 o unico livro de S6rgio Porto que nao li: nunca o encontrei em sebos. Mas me garantem que nao perdi nada. Maria Beata do Egito tamb6m nao 6 das melhores coisas da irregular Rachel de Queiroz, que vale como causeur. Mas um livro que eu ji havia lido nessa 6poca e de cuja importincia s6 me dei conta muito tempo depois foi Hist6ria da Revo- lugdo Francesa, de Frangois Mignet. Num dos trechos das suas Mem6rias Imorais, Serguei Eisenstein diz que esse tamb6m foi um dos primeiros livros da sua vida. Em lugares tao distantes e em 6pocas distintas, dois meninos se encantaram pelo mesmo livro, que Ihes chegou as maos entire ma- nuais escolares pouco valorizados (o meu em dois volumes, edi9go da Briguet) em paises que se aproximam muito, apesar de tudo (e nao s6 por Gogol e Machado de Assis, Dostoievski e Graciliano Ramos). Mignet nao era um narrador distancia- do dos acontecimentos, um frio taxider- mista dos fatos. Era um tribune eloqiien- te, sem desviar-se do rigor. Trazia-nos a intensidade da revolugao e a beleza de uma narrative sem atropelos ou interrupg9es, fluente em caudal ou mansidao como um rio verbal (sem notas de p6-de-pagina ou desconstrucionismos supostamente de- monstrativos). Mesmo sem compreender tudo, lia fe- brilmente, como s6 conseguimos ler nas fases iniciais da vida ou diante de uma verdadeira obra-prima, naquele tipo de his- t6ria encantat6ria que a gaficha Editora do Globo (antes do doutor Roberto Marinho) nos dava com H. G. Wells, Henry Tho- mas, Van Loon, Emil Ludwig. Um histori- ador A maneira de Her6doto; alias, mais perto de Homero, historiador-poeta, que nao concede um intervalo a mente para o leitor respirar, aliviando-se da tensio da narrative (quando conclui a Iliada, era uma chaga s6). Mem6rias Imorais 6 tambem um livro primoroso. Com sutileza e inteligencia, um home excepcional explica aos p6steros por que nao foi tao grande quanto poderia ter sido. Assim ele se concilia com sua predestinagao, sem transferir responsabi- lidades suas, mas sem deixar de imputar os danos devidos a ditadura stalinista (como tamb6m fez outro personagem com centenario em curso, o poeta-teatr6- logo Bertolt Brecht: Aos que Vdo Nascer 6 a ode de toda uma 6poca). A imoralidade, ao contrario do que hi de pensar um interauta doidivanas, nio adv6m de licenciosidade: como livre pen- sar 6 s6 pensar (Mill6r Fernandes dixit), Eisenstein se permitia a imoralidade de ser um individuo at6 a raiz no reino do cen- tralismo (sardonicamente batizado de de- mocratico apenas para efeito externo), do planejamento pra la de autoritario de Papai Stalin (a lessienin nao foi dada essa alter- nativa e Maiak6vski nem a tentou). No centenirio de Eisenstein (leia-se como se escreve e nao Aisenstain, como erradamente prefer a maioria, esquecen- do que ele 6 russo e nAo americano ou alemio), voltei as mem6rias, ja que os fil- mes nao nos foram oferecidos na provin- cia (EncouraGado Potenkim, a iltima vez que o revi, envelhecera assustadoramente - eis ai um definitive alerta aos formalis- tas). Ao menos o eterno Mignet, cujo sa- bor superior desfrutei na releitura motiva- da pelo cineasta russo, nos une indepen- dentemente da voracidade do tempo e do determinismo relative do espago. A mem6ria associa logo Eisenstein a Brecht, centenarios ao mesmo tempo nes- te convidativo 1998, mas traz tamb6m au- tomaticamente Federico Garcia Lorca, tr6s das maiores influ6ncias que recebi na ado- lescencia. Todos foram sensiveis demais para o seu tempo. Decididamente nio nas- ceram na hora certa (nao 6 essa a fatali- dade mais desgragada dos profetas, fazen- do-os e destruindo-os?): Eisenstein foi sufocado por Stilin, Brecht por Hitler e Lorca por Franco, poetas em sua arte ten- do que receber ordens de ditadores nada afeitos a simbolismos de linguagem. Todos tr6s estavam cientes dessa con- ting6ncia. Nenhum a tangenciou. Perde- ram a luta de seu tempo, o que significa dor fisica impossivel de aliviar, sensagao amarga de derrota. Mas sobreviveram aos seus algozes. Ao inves de meter uma bala no corpo, como o doce Maiak6vski (emol- durado por uma falsa apar6ncia corporal de forga), Einsenstein sabotou como p6de o stalinismo com sua fina ironia e sua sa- gacidade. Ivd, o Terrivel, paramim sua opera pri- ma, e uma prova dessa disposig~o (ha no filme individuos reais, tao imorais quanto Einsenstein em suas mem6rias, e nao ape- nas her6is postigos, como os do Encou- raqado e Alexander Nevsky, tao nocivos que Brecht, pela boca de Galileu, precisou advertir: infeliz da nagao que precisa de her6is). Mas, ao contrario da lenda, Stalin nao era burro como era sanguinario: lia muito e entendia o que lia. S6 nao aceitava que a hist6ria nao fosse como queria, he- r6i avant la lettre. Apagou as reticencias imorais na obra de Eisenstein e matou-o intelectualmente, aos poucos. Foi mais bem sucedido do que Benito Mussolini com Antonio Gramsci. Brecht satirizou o quanto p6de o pin- tor-de-paredes alemao do Reich preten- samente milenar, mas teve que usar sua argficia mesmo foi contra os inquisido- res americanos do maccarthismo na guer- ra fria (que nao suportou, como Eisens- tein, de que da prova o inconcluso Que Viva Mexico!). Seu depoimento diante do Comit6 de Atividades Anti-Americanas deveria constar das aulas de 6tica: ensi- naria como preservar a pr6pria cabega sem abjurar as ideias, revolvendo o de- safio que custou caro a Giordano Bruno, mas que Galileu Galilei contornou gragas a um jeitinho da parentela num Vaticano bem latino. Respeito o teatro brechtiano, mas o Bre- cht que mais me atrai 6 o das baladas e can96es, o home que procurava nao se consumer na amargura (como letrista, o que Chico Buarque de Hollanda ter de melhor 6 sub-Brecht), fumando seu cha- ruto, enquanto nosso barroco compositor entorna quantidades industrials de alcool, nao s6 por hedonismo, claro. Ainda hoje nao consigo ler nada sobre o assassinate de Garcia Lorca sem me aproximar das lagrimas. Ele 6 a vitima exemplar da viol6ncia cega, gratuita, ab- surda. Mata-lo nao ajudou a prolongar a exist6ncia da ditadura franquista, nem a JOURNAL PESSOAL QUINZENA DE FEVEREIRO /1998 7 sobrevivencia do maior de todos os gita- nos a abreviaria. Ele era a quintessencia da doqura, uma personalidade que supera a pr6pria obra. Dos seus versos emanava o cheiro da terra, a gostosura de seus fru- tos. Suas rimas eram perpassadas pelo vento das colinas. Eram tamb6m clausu- ras de sal y mirto. Li pela primeira vez o Canto para Ig- nacio Mejias num inesquecivel ensaio fo- tografico que Life publicou em varias pi- ginas, numa daquelas edig6es que justifi- cam o jornalismo ilustrado. Anos depois, revivi essa sensagao fortissima em um dis- co americano que reconstituia, com dife- rentes autores e em distintas linguas (mas sobretudo na altura do canadense Leonard Cohen), Um Poeta em Nova York, essa mistura de pureza, singeleza e forga que torna Lorca essencial e atraiu contra ele a selvageria cega que outro espanhol, Pa- blo Picasso, registraria para sempre na Guernica. Tempos muitissimos dificeis foram es- ses, mas nem por isso menos vitais ou justamente por isso foram de valer a pena viver. Todos esses homes imicos deixa- ram no trajeto sinais que, demarcando cada moment que entao assinalaram, corn vida e obra, iluminam o future para os que, vindo depois, souberem colher os frutos do que foi plantado, como pe- dia o agora centenario Bertolt Brecht. O muro de Berlim caiu, a RDA acabou, o comunismo deixou de ser utopia, mas o pobre B. B., o da floresta negra, cresceu ainda mais, desamparado e forte como os poetas. Ndo 6 s6 1958 que nAo devia terminar.O Interesse puablico E com satisfacio que pu- blico aqui os esclarecimentos dados a esta segAo por duas servidoras publicas (seria afortunada coincid&ncia tra- tar-se de mulheres, ou isso indicaria que, em mat6ria de etica, as mulheres invertem o predominio masculine ge- ral?). Lea Dantas Ribeiro como representante de Dul- ce Souza e Rosineli Salame falando pela Seduc incorpo- raram o espirito deste espa- co, reservado As relagaes en- tre os cidadios e os represen- tantes da administracgo pii- blica, que sAo (ou deveriam ser) primeiro representantes da sociedade antes de o se- rem do governor. SAo iniciati- vas tio louviveis que a elas fica reservado todo o espago desta edicgo, deixando-se para a pr6xima as observa- V5es e cobrancas que se acu- mulam no balcio. Atendendo o leitor Lucival- do Barros, que expressou suas duvidas atrav6s desta segio, a Ouvidora da Junta Comercial do Estado, Lea Santos Dantas Ribeiro, prestou as seguintes explica6oes, acompanhadas da respective documentag~o: 1. A president da Jucepa, Dulce Leoncy Souza, recebe pelo exercicio do cargo (que 6 em comissao ou de confianga) a remuneracgo corresponden-" te a DAS 6, cujo valor (estabe- lecido em 1995 pela Secretaria de Administraglo) 6 de R$ 3.612,66 (ao contrario do que afirmou o leitor, esse valor esta publicado corretamente no Di- ario Oficial do Estado de 20 de janeiro deste ano). 2. Uma resolugdo de 1991 confere a president da Juce- pa umjeton, limitado ao nime- ro de quatro ao m6s e restrito a presenga nas plenarias do colegiado. Como cada jeton 6 de R$ 75,27, o maximo de ren- dimento possivel atinge R$ 301,08 mensais. 3. Sobre essa remuneragAo (vencimento mais vantagem) incidem os descontos legais de imposto de renda, Ipasep-Pe- culio e Ipasep-ContribuigAo (deixando um liquid de R$ 2,6 mil, sem incluir os jetons). 4. O enquadramento da re- muneragao no demonstrative publicado no DO e a nomen- clatura nele utilizada, atribui96es desempenhadas pela Sead (que, por zerar os campos reserva- dos no quadro para a indica9lo dos salaries e vantagens pecu- nirias, provocou o natural in- teresse e as justificadas obser- va.9es do leitor), "sao atos for- mais que, mesmo na eventuali- dade de estarem ferindo a me- Ihor tecnica, nto afetam, por si s6, a legalidade do ato essenci- al: o pagamento", garante a Ouvidora, que parabeniza este jomal "pelo espago aberto em favor do interesse piblico". Jd a subsecretaria de Edu- cagdo, Rosineli Guerreiro Sa- lame, enviou um extenso dos- sie para provar que a Seduc "ndo comp6s um novo 'samba do crioulo doido' e nem tam- pouco procedeu com dolo ou md ft na contratagdo de ag&ncias de turismo para o fornecimento depassagens ae- reas a secretaria, tema das edi- o5es destejornal de dezembro do ano passado e da primeira quinzena dejaneiro deste ano. Explica a subsecretdria que em dezembro de 1996, com base em uma dispensa de lici- tagco aprovada naquele mes- mo ano que resultou em dois contratos, comprometeu-se com as agOncias Uirapuru Tu- rismo e Dinastia Viagens e Turismo para o fornecimento de passagens areas d Seduc ate 23 de dezembro de 1997. Em setembro do anopassa- do a secretaria iniciou novo process licitat6rio com o mes- mo para aplicagdo neste ano. A primeira tomada depregofoi declarada desert no dia 25 daquele mOs. Uma segunda li- cita9ao teve igual desfecho, "embora ambos [os processes de tomada de prego] tenham sido amplamente divulgados no Didrio Oficial do Estado e jornais de grande circula9do ". "Diante dos dois processes licitat6rios sem exito, a Asses- soria Juridica desta Secretaria foi favordvel d Dispensa de LicitaCdo, com fundamento no art. 24inciso VdaLei n8.666/ 96, que preve: 'Quando ndo acudirem interessados d licita- cqo anterior e esta, justificada- mente, ndo puder ser repetida sem prejuizo para a Adminis- tra9do, mantidas, neste caso, todas as condi&Gespreestabele- cidas'", argument a subsecre- tdria. Ela esclarece que os sal- dos financeiros e as vigencias dos dois contratos estavam se esgotando. Por isso, a 22 de outubrofoipublicada a dispen- sa de licitacgo para a contra- taqdo dos objetos licitados. A crescenta Rosineli Salame que a secretariat ainda teve o cuidado de consultar cinco agencies de passagens areas para serem credenciadasjunto a Seduc, mas s6 duas delas, justamente a Uirapuru e a Di- nastur, quejdprestavam oser- vigo, responderam favoravel- mente. A 7 de novembro o se- cretdrio Jodo de Jesus Paes Loureiro rescindiu amigavel- mente os contratos. Nesse mes- mo dia foram assinados os novos contratos, de R$ 303 mil cor a Uirapuru e de R$ 323 mil com a Dinastia. Reconhece a secretaria que "houve um descuido por parte do Nz~cleo de Contratos e Con- vOnios da Seduc quando da revisdo dos extratos daspubli- cagoes no Didrio Oficial do Estado, gerando um lapso quanto ao nome do ordenador de despesas ", o que foi corri- gido logo depois. Rosineli Salamejulgar haver demonstrado "de forma clara que ndo houve nenhuma irregu- laridade nos procedimentos e contrataVoes; todos os passes foram amplamente divulgados com apublicidade legal exigida para tender os preceitos de transparOncia que norteiam as aCoes desta administrator ". Expressa a este reporter a certe- za "de que sua conhecida pos- turajornalistica, aliada ao no- t6rio senso dejustiga que o ca- racteriza, promoverdo os escla- recimentos ptiblicos que se fa- zem necessdrios, em espago de seuprestigiosoperidico ". A do- cumenta9do juntada sustenta a exposigao da subsecretaria de EducagCo, uma prestaCdo de contas que realga sua condi5do de correta servidorapublica. Memoria jornalistica A edigio especial dedicada por iVja A Amaz6nia no final do ano passado bateu o record da revis- ta de venda em bancas em 1997 (200 mil exemplares) e ganhou "um pr6mio" (nao especificado) do Par- lamento Latino-Americano. Ani- mada, a revista deslocou um jor- nalista pemambucano para ser seu correspondent em Belem. Pode parecer um avango in6dito na co- bertura dada pela maior revista bra- sileira A regiao, mas nao 6. IVja JA teve em Bel6m uma su- cursal com dois rep6rteres, um fo- t6grafo, uma secretAria e um con- tinuo. Desfez tudo isso em mais um dos desastradamente freqtien- tes espasmos de contra9Ao da grande imprensa national, que a reduzem ao Brasil do Centro-Sul e a fazem ignorar a dimensao conti- nental e multifacetada deste pais. O pernambucano Klester Caval- canti deve ser bem-recebido entire n6s, mas na 6poca da sucursal to- dos os tres jomalistas eram para- enses (dois estao agora em Brasi- lia e um em Nova York, atuando na linha de frente). Sera que nao ha maisjomalistas locais habilitados? Quanto & edig o consagrada: ela ignore o Para, ainda o centro de decisOes amaz6nicas e um p6n- dulo dos destinos regionais. Pre- ciso dizer mais alguma coisa? Duas decadas e meia atrAs, corn as so- bras da edigdo especial de Reali- dade (a melhor revista que atd hoje saiu dos foros da Abril), Raimun- do Rodrigues Pereira escreveu uma reportagem que 6 o melhor texto de Veja sobre a Amaz6nia. Mas nao tinha a holografia que deve ter encantado a todos nesta tltima ediqao. Assim caminha o jornalismo brasileiro. Corretivo Raul Jungmann, ministry da Political Fundiaria, deu uma tirada de brilho ao se referir a "elite eixo Morumbi-MarabA". Como ele ex- plicou em entrevista A Folha de S. Paulo, "sAo pessoas que moram em Sao Paulo e especulam comn terras do Norte do pais. Sfo pes- soas que, durante os anos 70, os anos 80, foram em busca de recur- sos fWceis da Sudam, dos grandes projetos agropecuirios, madeirei- ros, etc.". Jungmann observa que esse pessoal estava "com um gran- de mico na mao" porque o preqo da terra por ele retida "despencou, nao existed mais recursos fkceis. E temos o ITR (Imposto Territorial Rural)". No Para, um desses micos ao qual se referiu o ministry, sem po- r --------------------- i htelectualidade JAentei, sinceramente, ler os livros do Paulo Coelho, ao menos para tentar seinlais simphtico ao retumbante sucesso de vendas do primo do Mauricinho edo Frederico Coelho de Souza. Nunca con- segui iral6m das prineiras p Aginas. Alm do ranco de falsidade edo cheiro de chabu, travel no gosto literArio. Talvez o mago de Ipanenma fosse mais digerivel se na juventude eu nao tivesse passado por Stodo Herman Hesse. S Pelojeilo. ajuventude do ex-primeiro-ministro israelense Shimon SPeres, Pr6mio Nobel da Paz, foi diferente. Ele nAo s6 leu o Coelho de Scabo a rabo. como mandou chamar o autor num hotel em Davos, na SSuila. onde ambos se encontravam, para felicitt-lo e com ele travar uma tenrrlia supostamenre intellectual, como sugeriram as agencies internacionais de noticia. Mas. ao que parece, reunidos, os dois preencheram uma lacuna cultural, que, aberta na 6poca em que jA devia estar suprida. cria suscetibilidade para o resto da vida. u uma espdcie de sarampo mental sem antidoto conhecido.lntelectualidade JA tentei, sinceramente. ler os livros do Paulo Coelho, ao menos Spar tentar ser mais simprtico ao retumbante sucesso de vendas do primo do Mauricinho e do Frederico Coelho de Souza. Nunca con- segui iraldm das prirneiras paginas. Altm do rango de falsidade e do Scheiro de chabu, travel no gosto literArio. Talvez o mago de Ipanenma Sfosse mais digerivel se na juventude eu nso tivesse passado por todo Herman Hesse. Pelo jeito. ajuventude do ex-primeiro-ministro israelense Shimon Peres, Prdmio Nobel da Paz, foi diferente. Ele nao s6 leu o Coelho de Sabo a rabo. como mandou chamar o autor num hotel em Davos, na Suiga. onde ambos se encontravam, para felicitd-lo e corn ele travar uma tertilia supostamente intelectual, como sugeriram as agencies intemacionais de noticia. Mas. ao que parece, reunidos. os dois I preencheram uma lacuna cultural que, aberta na epoca em que jA I devia estar suprida. cria suscetibilidade para o resto da vida. t unma I esp6cie de sarampo mental sem antidote conhecido. L. ------------------ J der prever a inventive, encontrou uma said, a da indenizaglo judi- cial. A Sabim, em torno da qual eclodiu uma questao poldmica, 6 um dos tipicos projetos especula- tivos engendrados por essa incri- vel colaboragAo financeira official atravts de incentives fiscais da Sudam. E depois de ter engolido recursos do tesouro, agora amea- 9a abocanhar na mesma fonte essa soma inimaginavel, esdr6xula e chocante de 55 bilh6es de reais. S6 de novo con enxofre e fogo, Senhor. Profilaxia Quando 6 que os concluintes universitArios vAo deixar de co- mercializar interesses para publi- car a inefAvel fotografia nos jor- nais? A pr6pria pAgina ja deveria ter sido abolida. Mas se mante-la e o preqo a pagar por um modis- mo local, jA expurgado das capi- tais do pais, por que nao ser sin- cero e homenagear quem realmen- te merece e nto quem paga a con- ta? Por causa desse mau h6bito, o ex-prefeito H6lio Gueiros dei- xou uma conta em aberto para o seu successor quitar. Tudo por- que Gueiros deu ordem para pa- gar todas as faturas (nem sempre empenhadas, por6m), desde que sua foto e o registry do seu nome aparecessem no meio das turmas de colandos universitArios. Nao 6 um p6ssimo comego de carreira professional? De orelha Na entrevista que deu a Mau- ro Bonna, na RBA, o senador Jader Barbalho anunciou que nAo selecionarA interlocutor po- litico na negociaglo da compo- sig o eleitoral: "nao estou preo- cupado em olhar para o passa- do, at6 porque nAo quero virar estAtua de sal como as mulheres de Sodoma e Gomorra". O senador precisa de uma ur- gente revisAo biblical (nAo a Oni- ca, aliAs). Apenas uma mulher, em today a trag6dia de Sodoma e Gomorra, virou estitua de sal: foi a mulher de L6 (ou Lot), que con- trariou a ordem do anjo e tentou dar uma bispada na onda de fogo e enxofre que destruiu as duas cidades. Talvez o encontro corn o ex- prefeito H61io Gueiros, ainda a acontecer (a despeito dos anon- cios em contrArio), tenha ao me- nos essa serventia: ajudar o li- der do PMDB a aspirar um pou- co do enxofre biblico, de que 6 especialista seu ex-quase-futu- ro aliado. Puxagao O Onico anltncio (e em cores) que saudou o aniversArio do em- presario Romulo Maiorana Jr. nas paginas de O Liberal foi patro- cinado pela prefeitura de Para- gominas. Se o prefeito pagou do seu pr6prio bolso, tudo bem em terms ptblicos (acerto privado 6 outra esfera). Se foi cor recur- sos municipals, 6 um bom moti- vo para o TCM glosar a presta- 9Ao de contas. Afinal. qual o in- teresse superior que poderia ti- rar essa iniciativa da classifica- 05o de mero puxa-saquismo? By Celpa As variaqoes de tensao e os bugs eletricos de dona Celpa ex- tenninaram toda a mem6ria do meu computador, deixando-o como veio ao mundo, sequer coberto por ramo de parreira. Em conse- qllencia, todas as mensagens en- viadas pela Internet se perderam. Rogo aos mensageiros que mu- nam-se de paci&ncia franciscana e refagam suas mensagens, acen- dendo um cirio no altar da tecno- logia de ponta(p6). Obrigado. Carnaval, desengano As m6sicas de carnaval que mais me tocam sao tristes. Anda, Luzia, de Joao de Barro, por exemplo. Ou Marcha de Quarta- Feira de Cinzas, de Carlos Lyra e Vinicus de Moraes, Baile dos Mascarados, de Chico Buarque de Hollanda, Estrela d'Alva, de Lamartine Babo. Por isso, pego aos leitores que considered este numero do JP como uma ediqao carnavalesca, ainda que A moda do chefe. Jomal Pessoal Editor: LOcio FIAvio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo, 871 I CEP: 66 0534-20 Fone: 223-1929 e 241-7626 Contato: Trv. Benjamin Constant, 845/203 1 66 053-020 Fone: 223-7690 e.mail: lucio@expert.com.br .Edltoragqo de arte: Lulzp$ I 241-1859 |
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