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ornal Pessoal L A ml4 A maldiqaoi soal MFL i L V 10o P I Ndi Um ano depois de ter assumido aprefeitura, Edmilson Rodngues ainda ndo desceu do palanque. Ndo e um lugar adequadopara enfrentar as armadilhas deixadas pelo seu antecessor e os desafios que a ex-metr6pole da Amazonia impne. Mas, em epoca eleitoral, pode-se esperar algo que ndo sejapopulismo e demagogia? SI * r 1.. '-''- 4 V S' V . 1 .. .- .,. -4 2 / "-. / , ; ,.. f 'k *^ 'I ' I-\ *^ V.V ; [' -- v '^ <:-'':'* ** ' entao prefeito Hlio Guei- ros fez a primeira festa da sua administragao (1993/ 97) inaugurando o asfalta- mento de uma rua do Umarizal/Fdtima, a Anto- nio Barreto. O prefeito Edmi son Rodrigues, que venceu a dispu- ta eleitoral na sucesslo de Gueiros, co- memorou seu 1 ano de gestgo inauguran- do a urbanizaggo de meia quadra de uma rua do Marco, a Mauriti. Nos dois casos, a propaganda comemorativa foi despro- porcional em relag5o ao significado da obra. No auge do seu estilo boquirroto e des- bocado de fazer political, Gueiros compa- rou os medicos do Pronto Socorro Munici- pal, uma das mais importantes instancias piiblicas da cidade, ao sal, que 6 todo bran- co, custa pouco e pode ser encontrado em qualquer biboca da esquina. O atual prefei- to do PT foi ao PSM anunciar que puniria os medicos "pilantras e irresponsaveis", que faltam aos plantoes e deixam os pacientes morrer. Mas adverti-os: eles agora estavamn diante de um governor "que nao aceita sa- canagem contra o povo". Um ano depois de ter assumido a princi- pal prefeitura da Amaz6nia, capitalizando o voto de protest dos belemenses, ansiosos por se livrar do dualismo Barbalho/Gueiros, o arquiteto Edmilson Rodrigues teima em ad- ministrar do alto de um palanque. A falta de resultados significaticos para apresentar aos municipes, o que e ate justificavel para quem recebeu do antecessor divide de 51 milh6es de reais e muitas bombas de efeito retardado, o alcaide acha que pode compensar a vacui-) I 1, * ,; 4,, 4. 4 :~ . -.. I ( -Z ~ 1 46 L _51P ar ~trr L~-.~;~ I Lr 2 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JANEIRO / 1998 Sdade com sonoridade verbal e grandiloqiien- cia auto-conferida, como se bastasse ser ma- cho para enfrentar os problems no muque e resolve-los com um golpe de palavra. "Comandei as mais vigorosas greves deste Estado", lembrou o prefeito, na sua arenga desequilibrada contra os medicos. Raramen- te o bom comandante 6 aquele que mais ber- ra ou o que sai na frente, ao contrario do que insinua a pedagogia hollywoodiana, pela qual, A sua maneirajesuitica, Edmilson Ro- drigues parece haver-se formado. Ao con- trArio: o comandante eficiente 6 o que pla- neja e articula as acoes na v6spera dos corn- bates, mantendo-se na distancia adequada para acompanhar a evolugao do que conce- beu no teatro de operag6es. Parece provado que o atual prefeito nao 6 um comandante, um estrategista ou um pla- nejador. No maximo, sai-se como executor de ordens, capataz, capitao-do-mato. Sua sinceridade inquestionavel encontra ai o campo adequado e f6rtil, como provam suas incursoes de campo, condoendo-se dos ne- cessitados e entesando cor os desafetos. Mas um pronto-socorro que atende gratuita- mente 12 mil pessoas ao mrs, nao constitui exatamente esse tipo de cenario para politi- cos que arrastam consigo seus palanques m6veis mentais. Ao chegar ali, o chefe da administragAo tinha 6 que resolver problems e apontar acoes concretas, ao invds de posar para a galera militant que o acompanha e a midia que agora, ap6s o acerto commercial, repro- duz os seus atos corn boa-vontade mais do que pensadamente generosa. Nao se pode minimizar os desafios pos- tos diante de um prefeito p6s-Gueiros, que vislumbra no horizonte um emaranhado de acertos invisiveis e necessita se livrar de n6s cegos. Mas o alcaide petista ter se deixado apanhar infantilmente nas armadilhas mon- tadas pelo antecessor. Para se livrar do boi- cote da midia, por exemplo, sucumbiu pros- trado diante dos Maiorana, que elogia fora de hora e sem prop6sito sempre que 6 aco- Ihido em um dos veiculos do grupo empre- sarial (quase A maneira do governador Al- mir Gabriel), mesmo sabendo o quanto cus- ta ao erario municipal a subita mudanca de tratamento. Talvez para compensar esse maneirismo, diante da aguerrida mas nem sempre ilu- minada militAncia partiddria, o prefeito carrega no verbo, quando deveria intensifi- car a inteligencia e a criatividade, atributos indispensiveis para veneer os desafios e ul- trapassar as armadilhas postas diante do seu caminho. Na do leite houve outro tropeqAo, epis6- dio ainda A espera do devido esclarecimento porque desdobrou-se ja na administracio pe- tista (mas o alcaide acostumou-se As pergun- tas convenientes, pouco informando quando responded Quanto ao lixo, razao maior da perda de popularidade nesses 12 meses, o PT at6 comeCou a enfrentar adequadamente o pro- blema, fechando a tomeira de vazamento do dinheiro pfiblico atrav6s da fraude na conta- bilizagio do serviqo, mas nao teve competen- cia para o pass seguinte. O resultado 6 que a Terraplena boicotou a coleta, reduzindo a um tergo a sua frota na cidade, e s6 agora, nao muito cristalinamen- te (como nao ter sido transparentt" a his- t6ria da cooperative semi-oficial de habita- aio popular), a prefeitura esta se recompon- do para atravessar o semestre de transigio atW a nova licitacgo piublica. Al1m da heranga maldita que recebeu, Edmilson tamb6m 6 obrigado a travar um catch-on corn o governador, cada um que- rendo personalizar os eventuais feitos que estao sendo realizados na capital paraense. Por forga dessa porfia, que desnatura a fun- qAo pfiblica e avilta os padres de gestao, cada contender procura os efeitos mais po- pulares, independentemente do contefido do que executam, porque a safra de votos estA A vista. Deixam de perceber que, apesar de tudo, ainda ha opiniao pfiblica em Beldm. Confronte-se o jacobinismo fora de gpo- ca do prefeito no PSM A reaqao da entidade de classes dos m6dicos. Mesmo que seja uma attitude tatica, o urbanismo e a civilidade da nota da categoria reps a racionalidade: se a prefeitura sabe que hA pilantras, deve pro- curar identifica-los; seja os identificou, tern que puni-los, nem que seja, de imediato, colocando-os em disponibilidade. Mas ati- rar a esmo pode resultar em vitimizar alia- dos e parceiros, como aconteceu com a San- ta Casa de Miseric6rdia. A crise de Beldm ja 6 suficientemente profunda e grave para que as autoridades deem-se ao luxo e ao desprop6sito de trata-la corn leviandade. E claro que uma ma- neira de fugir do problema, aumentando-o emverdade, 6 apegar-se ao saudosismo. Essa 6 uma tendencia em expansao que uma certa midia estimula por puro escapismo ou ma- f6. I visivel a progressive descaracterizaaio de Belem, que a empobrece e Ihe tira vitali- dade. De todas as maneiras, deve-se salvar o que ainda esta disponivel e recompor o perfil hist6rico-arquitet6nico da cidade, as- segurando-lhe sua especificidade e origina- lidade. HA dois components nessa identidade. Um deles 6 dado hist6rico: a origem coloni- alportuguesa. Nenhuma outra cidade na face do planet expressava corn tanta riqueza essa adaptagio aos tr6picos da cultural colonial portuguesa. Atd algum tempo atras esse era apenas um dado cultural. Hoje, corn a ex- pansio do turismo, cada vez mais inteligen- te, 6 um fator potential de renda imico para a cidade. Compreensivel que se tente recu pera-lo para uso e proveito, embora a possi bilidade de executar um projeto de express sao seja duvidosa. Mas seria a melhor pers pectiva de future (por ir6nico que possa pa recer), se Belem nao fosse uma cidade ta irracionalmente autofagica. O outro component 6 a ligagao da cida- de cor a paisagem em torno dela, corn Amaz6nia. Mesmo em sitio tao topografical mente desfavoravel (dificuldade agravada por ma concepgao de engenharia na 6tica governmental e empresarial), Bel6m 6 uma catalisadora e propagadora do ambiente, que absorve, filtra e enriquece tudo o que e ama- z8nico, em grande parte pela mesma locali- zagao que complica a expansdo da vida hu- mana nela. Por isso 6 uma cidade tao facil de querer bem, mesmo quando 6 dificil explicar racio- nalmente esse fascinio. Mas tamb6m, por esse dado natural, tao problematica 6 a ma- nutengao dessa atraqao, corn tantos fatores artificiais (porque humans) atrapalhando o cotidiano das pessoas na urbe. Pode-se perceber essa contradi9ao na s6- rie de postais que Luis Braga produziu por encomenda da Imprensa Oficial do Estado e do Shopping Iguatemi, em mais uma inicia- tiva para levantar o orgulho da cidade e in- duzir a auto-estima. A paisagem e vista de um prisma muito particularizado pelo fot6- grafo, numa adaptagao das naturezas-mor- tas dos pintores. Em apenas um dos postai,- hA gente e gente indistinta: a multiddo qu. se concentra A said do Cirio de Nossa Se- nhora de Nazard. O cenario 6 esse, bonito, atrativo. Mas, e os atores? Os atores sao uma populagao empobrecida, desvalorizada, sem horizontes, jogada na economic informal, sobrevivendo de expedientes e biscates, mentalmente adp- tada, com sua inventive, para seguir o cami- nho dos lideres, que mexem as pedras corn sagacidade, como se esse "jeito" suprissq toda a fonte de sabedoria que produz e sus- tenta a felicidade. Mais do que uma cidade terciaria, Bel6mr vai-se tornando uma cidade da informalida- de, da meta-legalidade, da supra-legitimidai de, com o imenso palanque armado para um arquiteto e um m6dico digladiarem-se, su- bindo os decib6is do discurso, comprando o meio de veiculacgo da mensagem, viciando os ouvidos para a adesao As propostas, lan- qando fogos de artificio no horizonte, encan- tando, As vezes, convencendo, raramente. Nao 6 tarefa para qualquer um veneer a quadratura desse circulo de empobrecimen- to em massa e afluencia seletiva, em an6is concentricos, um vasto, na base, o outro mi- crosc6pico, na cUpula, Criar fantasias que rendem de imediato 6 uma tentagco. Por isso, cada sAtrapa de plantao elege os seus icones JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE JANEIRO / 1998 3 ) afetivos, que podem ser o Museu do Estado, o Solar da Beira, o Museu de Beldm, a Feliz Lusitnncia, a Esta9lo das Docas, o Teatro Waldemar Henrique e outros bibel6s de en- canto certo e durabilidade pouca. Mas Be- 1dm melhora sua capacidade de sustentar-se a si pr6pria? A administration do PT nio 6 s6 acimulo de insucessos nesses 12 meses. HA muita gente de boa intengao, competent e atd fa- zendo certo na administraqao municipal, que dobrou seu contingent de barnabts nos 61- timos anos (agora sao 18 mil), perdendo em qualidade o que ganhou em massa nesse pe- riodo, no que por aqui jA e o process pre- dominante: a socializaglo da misdria. Mas tem cometido erros s6rios, com um agravan- te: nao os reconhece e, por isso, nao os cor- rige. Al6m de nAo ter descido do palanque, o prefeito parece ter encontrado um espelho mdgico para se contemplar com crescente embevecimento e irrealismo. Na epidemia de dengue em expanslo, o alcaide ter todos os motives para protestar contra a mi vontade do Estado e a tAtica do governador, de deixar as coisas se compli- carem a um ponto tal que lhe permitisse anunciar seu ingresso na a9ao anti-epidemi- ol6gica como o grande salvador. A dificul- dade do PT para p6r em prdtica sua ret6rica 6 legendAria e ainda procedente. Em Sao Paulo, na administracao Luisa Herundina, cadaveres se acumulavam no necrotdrio municipal enquanto a democracia socialist discutia procedimentos. Aqui nao 6 muito diferente. Encalacrado nas filigranas de um executive piblico, sobre o qual tinha a experincia do tribune oposicionista, o PT demorou muito para former as turmas que iriam combater a dengue corn o tamanho pro- porcional ao da ameaca. O resultado 6 que ago- ra s6 se pode falar em normalidade a mtdio e long prazos. At6 lA, os riscos da dengue he- morrigica e da febre amarela vAo marcar de sobressalto os belemenses. Talvez s6 nao para a militfncia fantAtica, estA provada a incapacidade de o PT respon- der isoladamente aos desafios que Ihe im- p6s a vit6ria de 1996. I precise abrir as fron- teiras de recrutamento e incorporar novos quadros, sem impor o catecismo partiddrio e o faccionismo das tendencias confessio- nais que o formal (e deformam). Chega de ret6rica, de discurso de campa- nha, de proselitismo de rua, de chavlo pro- gramatico. Mesmo que uma nova campanha eleitoral esteja A porta, corn suas imposi9Bes populistas e demag6gicas, o PT, que supor- tou heroicamente as perseguicqes no period de formag o e consolidagco partidAria, tem que acreditar para valer no long prazo da hist6ria. Sem isso, a vit6ria de 96 e sua per- sonalizaCao, o arquiteto Edmilson Rodrigues, logo serao levados cor a poeira do tempo e o geral voltara a soprar sobre a bela e querida Belem os miasmas que a tem atormentado jA hA tanto tempo. S6 f6 nao garante o que vird. O tempo chegou, mas, como Carolina na ja- nela, s6 o personagem nao viu. * Televisao public de outra galaxia O debate nos chega como se estivesse gem ao legislative. As objeaoes e sugestoes sendo travado em outra galixia. A Assem- que agora estAo sendo apresentadas viriam bl6ia Legislativa aprovou e o governador no moment certo e seriam incorporadas, Mario Covas sancionou uma lei instituindo evitando a acao direta de inconstitucionali- em Sao Paulo a Taxa Educaqao e Cultura, dade que a procuradoria paulistaja apresen- destinada ao custeio da Radio e da TV Cul- tou Ajustiga. tura, mantidas pela Fundaqlo Padre Anchi- Mesmo os que criticaram a nova taxa, eta. Essa taxa resultard de um acrdscimo de pordm, ressalvaram a importincia do siste- dois a cinco reais nas contas mensais de 78% ma pOblico de comunicaqao de Sao Paulo. dos consumidores de energia do Estado, que Infelizmente a administraqao MArio Covas sao os nao-isentos (consomem abaixo de 100 comevou a desmantelar a estrutura criada ao quilowatts/hora por mes). long dos 61timos anos, que fez da TV Cul- Com isso, o orqamento da fundag o man- tura uma refer6ncia sobre televislo inteligen- tenedora das duas emissoras pularia dos atu- te no Brasil (e corn indices de audiencia sur- ais R$ 24 milhoes para um valor entire R$ preendentes). HA dois anos o orgamento da 160 milh6es e R$ 360 milhoes, segundo as emissora 6 de RS 24 milh6es. Sem recursos, virias estimativas jA apresentadas. A RAdio perdeu gente important e programs de su- e a TV Cultura de Sao Paulo se tornariam cesso. Mas ainda mantdm um certo nivel, das mais ricas do pais, quase em pd de igual- capaz de contrastar diante das apelag9es sen- dade cor as maiores emissoras comerciais. sacionalistas da rede commercial. Poderiam retomar a programaqfo que as fez Os paulistas encontrarlo uma said melhor tornarem-se modelares no pais. e maisjusta do que essa lei aprovada a toque- Mas o que parecia fato consumado cor a de-caixa pelo legislative. Qualquer que seja sangco da lei estd gerando uma grande pole- o desdobramento, pordm, o caso paulista re- mica em Sao Paulo. Cresce a reaqdo a essa vela o fosso imenso que o separa do nosso. A forma de financiamento das emissoras, mes- funda~go que administra a TV Cultura em Slo mo da parte dos que as admiram. Argumen- Paulo existe hA 30 anos, corn um conselho ta-se que a taxa 6 onerosa. Equivale A TV curador que funciona. Aqui, ela 6 uma exten- paga, considerando-se a amplitude de opioes sao dos bragos (frequentemente transforma- oferecidas pelas tev6s por assinatura. Atin- dos em garras) do governador. Nao ha nenhu- ge indistintamente quem tem ou nao apare- ma ligagio direta da populag9o corn a emis- Iho de televisao, assisted ou nao as emissoras sora e sua programaalo serve de pretexto ou piblicas, aceita ou nao subsidiA-las. Ade- biombo para a propaganda official personali- mais, como estd alegando a Procuradoria zada, que 6 o que conta no sistema de comu- Geral do Estado, a lei 6 inconstitucional, jA nicacao dito pbblico. E enquanto os paulistas que os Estados nao podem estabelecer taxas tentam colocar mais recursos na sua emisso- para serviqos de radiodifusao e televisao. ra, por aqui o governador a faz descapitali- Tudo indica que o governor de Sao Paulo zar-se para favorecer o parceiro commercial de sera obrigado a recuar. Poderia ter-se pou- empreitada eleitoral. pado desse movimento tipicamente tucano. Em mat6ria de sistema pOblico de comu- Bastaria submeter a iniciativa a uma ampla nicaqao, Sao Paulo estA distant sdculos des- discussao pAblica antes de remeter a mensa- te pobre Pard. * A corte E publico e not6rio o control de O Liberal sobre o mercado dejomais impresses no Para. Constantemente a empresa public resultado de pesquisa indicando 980'o ou mais de indice de leitura do journal dos Maiorana. Esse e um fato objetivo, que talvez pudesse ser um pouco relativizado se a Delta Publicidade se dignasse a publicar mais dads das pesquisas. Masjamais pode ser negado. Nem exaltado, por6m: um tal dominion s6 desfa- vorece a riqueza e a pluralidade da informaqao, ajudando a manipular a opiniso pdblica. Poucas tem se mostrado tro desinformadas, por isso, quanto a nossa. As lideranqas da sociedade t6m que ver o fato objetivo, mas nao curvar-se desfibrada- mente diante dele. Muito pelo contrario: devem procurar estimular a formaq9o de novas fontes informativas, prevenindo efeitos danosos do monop6lio, ainda mais graves no caso de meios de comunicaqao. Mas nao tern sido assim. Toda a imprensa, inclusive a de Maraba (Correio do Tocan- tins e Opinido!), noticiou a suspensAo do Projeto Salobo. O Liberal foi o ultimo a aportar no tema, mesmo assim atraves de um telefonema dado de Belem para Jobo Salame, editor de Opinido!, que, de amealhador de fontes, tornou-se ele pr6prio a fonte das informa8fes publicadas por O Liberal (sem ser identificado ou receber o crtdito, porem). Mas s6 entao as chatnadas elites resolveram se movimentar, ainda que fosse para mudar a posiqAo em suas cadeiras burocratizadas. Nao se permitiram perceber que desde tr6s semanas antes aquelas mesmas informaqoes ji havian sido divulgadas por outros veiculos. A assim que estamos servidos de elites. 4 JOURNAL PESSOAL 2D QUINZENA DE JANEIRO / 1998 Volete A reporter Mariza Romlo, da TV Liberal em Maraba, fugiu para Brasilia, sob a proteqto da Federacgo Nacional dos Jornalistas. A reporter denunciou ameagas de morte feitas anonimamen- te contra ela por telefone. Seria uma tentative de intimidA-la como testemunha do massacre de 19 lavradores sem-terra em Eldorado de CarajAs. no sul do Para. Julgando-se insegura e sem a prote- qto devida. Mariza conseguiu o apoio da Fenaj e saiu de MarabA no final do ano passado. O caso exige reflexes sCrias e consequences. Qualquer ameaca A vida tem que merecer a aten- qto e as provid6ncias devidas, o que parece nao ter havido no caso de Mariza Romao, celebriza- da por integrar a mnica equipe jonalistica pre- sente ao incident de Eldorado e que produziu a n(ica prova independent sobre o traumAtico e polemico incident. Na entrevista ao Jornalista, 6rgao official da Fenaj, Mariza diz que comecou a receber as ame- acas em novembro do ano passado. No total, aten- deu a scis telefonemas dados para a sua casa. Ouvia sempre a mesma frase: "Se voct falar vai morrer mais cedo. Eles nio vAo deixar que voce prejudique mais do que j foram prejudicados". Ou: "nao divulgue na imprensa". O autor dos telefonemas disse a Mariza "que nao participou do massacre, mas que sabe que um grupo de policiais estA armando para calar minha boca. me tirar de circulaqAo. tudo de uma forma accidental como um acidente de carro, por exemplo. Depois de seis telefonemas semelhan- tes, ela decidiu tomar uma iniciativa: registrou queixa na policia. Nao sentindo apoio, recorreu A Fenaj. Ameaca de morte, mesmo por telefone e sem identificaqao, 6 uma das experiencias mais desa- gradAveis que um ser human pode ter. Nem to- dos conseguem reagir cor racionalidade e san- gue frio, nem este 6 o padrao que sc pode exigir. Por isso, os que sao expostos a uma situaqao dessas devem procurar ajuda, de preferencia um auxilio professional. Ameaqa de morte nunca 6 um acontecimento individual: interessa Acoleti- vidade. Se nAo reprimido com rigor, o que 6 in- dividual pode expandir-se, transformando-se em patologia social. Por isso, todo epis6dio isolado requer muita atenqAo. t um dos testes de avalia- aio da forqa da democracia. Mariza Romao era umajovem jomalista ama- dora quando o choque de Eldorado colocou-a no olho do furacao. Reagiu com bravura e calma em circunstancia extremamente dificil. embora se possa fazer reparos ao acerto professional na cobertura do acontecimento (falha perfeitamen- te desculpAvel, ainda mais pela inexperidncia e por se achar s6 naquele momento. Mas pode estar um pouco desnorteada diante da nova ad- versidade em sua vida. Na verificaqao que fiz em MarabA. ainda que indiretamente, nao fiquei convencido de que ela esgotou as instancias oficiais pertinentes a pon- to de poder declarar-se desamparada. Nao hA evid6ncia segura de uma rede de omissao e coni- v6ncia nos organisms policiais oujudiciais para acobertar ou estimular a coagao an6nima. Muito pelo contrArio: algumas fontes consul- tadas garantiram que nto foram procuradas e mostraram-se voluntariamente dispostas a dar cobertura A reporter. E Mariza nem veio a Be- e6m: foi diretamente a Brasilia, pulando um es- tigio necessario. ainda que fosse para atestar a indiferenca das autoridades. Na entrevista ao Jornalista, Mariza deixa uma contradiqAo. Num trecho ela diz ter sido orienta- da pela "direplo da empresa", que se presume ser a TV Liberal, a denunciar a ameaqa. Pcrgun- tada depois se recebeu apoio da empresa, ela res- ponde: "Acredito que os donos da empresa nao tenham conhecimento do que estd acontecendo, pois eles nao tomaram nenhuma attitude, como fez a Fenaj". A contradipAo nao permit esclarecer se a re- p6rter comunicou o fato A empresa e nao contou corn apoio dela ou se nao informou a empresa. nem a procurou. e por isso a TV Liberal deixou de dar-lhe a cobertura recomendada. o que ca- racterizaria um comportamcnto 6tico-moral con- denAvel (ainda mais porque a emissora faturou amplamente o servico jornalistico, mcsmo sem ser a proprietAria original da fita). Na sondagemn que fiz A emissora, ouvi de uma fontc a informa- cAo de que a direcAo s6 soube da situacao de Mariza quando ela ji estava em Brasilia. Se um primeiro telefonema an6nimo corn ameaga de morte ter o poder de abalar uma pes- soa comum. a repetiqao ja permit ao ameacado raciocinar melhor e atW. quando a persistencia se along sem a consuma;Ao da ameaga, reagir corn o maximo de eficAcia. anulando a fonte da ame- aga a partir da identificacao da origem. Funda- mental coletar o maximo possivel de dados confiaveis para tirar o ameaqador do anonimato convenient, iluminando o ambiente no qual ele se movimenta, cor o pleno dominion do scenario. Ura das primeiras providencias, que pode- se perceber em qualquer filme policial. 6 gram- pear o telefone. Quando nada, essa media per- mite documentary o incident. desfazendo even- tuais ceticismos e descrengas. Feita por profissi- onais, a gravacgo fornece uma riqueza insuspei- tada de informaqdes, inclusive sobre registro vocal da pessoa. Ao que parece. Mariza nao to- mou essa iniciativa. nem a requercu da autorida- de competent. Sequer solicitou o monitoramento na empresa tclef6nica (o quc dcve ser fcito. corn as cautelas devidas). Portanto. a reporter, talvez porquc abalada emocionalmente. nlo reagiu da maneira que seu caso indicava. Tamb6m nao estA processando as informaqoes que reuniu. Nao ha coerencia apa- rente nos atos do home que a ameaqou. Se ele 6 um PM ou ligado a um dos policiais militares que participou da repressao ao protest do MST em Eldorado. por que iria ameacar Mariza? A hip6tese 6 que ela pode contribuir para a conde- napco dos 153 integrantes da corporatlo denun- ciados najustiva por homicidio. Mas a participaqAo de Mariza na apuraAio judicial dos fatos estA concluida. Ela fez parte da equipe de televisso que documentou o epis6dio. As imagens nao provam que os PMs executaram o massacre. Particularmente, jd as vi dezenas e dezenas de vezes. Pelo que ali se v6, a conclusao de algu6m dotado de boa-f6 6 que os policiais recuaram ao avango dos sem-terra, empunhando foices, faces e outras armas brancas. at6 o limi- te possivel, que era o 6nibus atravessado na es- trada. S6 entao reagiram, atirando. Mas minha impresslo das imagens. tecnica- mente deficientes, 6 de que nAo foi desses tiros que os manifestantes morreram (talvez dados para o ar, cor balas de festim ou no chao), mas dos disparos feitos da retaguarda (e dos golpes se- guintes), per onde chegava a tropa de Parauape- bas, no exato moment em que o destacamento de MarabA estava acuado e comegava a reagir. Nesse moment 6 que comeou verdadeiramen- te o massacre, que resultou em 19 vitimas de um n(ico lado. Mas a partir dal deixou de haver as imagens da televisao. Homisiada num casebre cor ou- tros lavradores, a equipe parou de operar. Mari- za, corajosamente. saiu gritando para os polici- ais, pedindo-lhes que nao atirassem mais. Se houvesse mais experiencia ou as circuns- tancias assim o permitissem, a equipe deveria ter encontrado umjeito de burlar os policiais e per- manecer filmando. Nessas horas, sempre me lem- bro de um cineasta sueco (cujo nome As vezes esqueco. como agora). Diante da ocupacao mili- tar no PalAcio La Moneda, em Santiago do Chi- le, no "Tancazo" de 29 de junho. exercicio para o golpe military posterior do general Augusto Pi- nochet contra Salvador Allende, ele nao baixou a cAmera mesmo quando o soldado do exdrcito levantou contra ele o seu fuzil, ameaando-o. E continuou filmando at6 receber o primeiro tiro. Caiu filmando. Morreu filmando. Nao por ser her6i. mas por atavismo professional, longamen- te formado em sucessivas experi6ncias. Jorna- lista more por ser professional, nao exatamente por heroismo. Nao quero dizer que preferia isso no epis6dio sanguinariamente primbrio de Eldorado de Ca- rajas. Apenas destaco que se a equipe tivesse conseguido produzir imagens posteriores e es- capar A censura military, pela qual acabou imobi- lizada, ai, sim, Mariza Romao seria uma ameaga para os policiais que agora responded a proces- so per homicidio. Mas as imagens disponiveis tanto foram usa- das pela defesa como pela promotoria, cada lado partindo da mesma base material para desenvol- ver argumentaqAo discrepante, conflitante. As imagens em si nho sao peqa probat6ria contra os militares, muito pelo contrArio. Nem o que a re- p6rter declarou na fase de instrucao processual. Certamente, se vier a depor novamente, quan- do (e se) o process chegar A fase dejulgamento popular. Mariza Romio repetira o que jA disse e ajudou a mostrar. Nem a prova material (as ima- gens de televisio), nem seu testemunho sAo ele- mentos capazes de condenar os militares. Por que eles se sentiriam tao ameaqados, a ponto de ini- ciar a campanha de telefonemas ameaqadores. que terao efeitojustamente inverso ao desejado? Agora que denunciou as ameacas. Mariza nao podera mais mudar o que j6 disse, ao contrArio do que seria a intenqao do ameacador antnimo. A questao 6 que o testemunho dela nao ameaca os PMs. Marisa estaria, entao, sendo vitima de um tro- te, de uma brincadeira de mau gosto? O proble- ma desse tipo de ameaca c que cla abre um leque muito vasto de hip6teses. Sem submet-las ao control devido (e possivel, quando o assunto 6 entregue a um especialista). pode-se tomar gato por lebre. Superestimaao, subestimaao. descaso e neglig6ncia podem acabar abrindo a porta para um desfecho trAgico ou para a desmoralizaqAo, ambos desservindo o interesse coletivo e a evo- luqao do process democratic, que todos n6s. sobretudo os gatos escaldados do jornalismo de linha de frente, tanto desejamos. Portanto, se queremos evitar qualquer um desses fins ingl6rios, fundamental 6 que Mariza Romao retome ao Para com todas as garantias que Ihe sao devidas, e em torno dela as autorida- des piblicas mobilizem tudo o que 6 possivel para esclarecer adequadamente este caso. Vida, s6 te- mos uma. E 6 a garantia maxima conferidaa cada vida individual que nos permit viver em con- junto corn a sensaqao de formarmos urna socie- dade de homo sapiens e nao de selvagens e bAr- baros. Desejo para Mariza Romao long vida - e, usando-a como prova dos nove. para n6s to- dos tambdm. 0 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JANEIRO / 1998 5 A Cobra Grande em Carajas A pedido de Parab6licas, boletim do Instituto Socioambiental editado em Sao Paulo, escrevi uma resenha sobre a obra coletiva de pesquisadores paraenses a respeito da historia de Carajds. Reproduzo aqui a integra. do texto, que, por questao editorial do boletim, sofreu alguns cortes. strabalhos de 16 pesquisadores e varias origens, atuando sobre emas complementares e afins, oram reunidos para assinalar a primeira d6cada de funcionamen- to da ferrovia de Carajas, completada em fe- vereiro de 1995. Mas o livro (10 anos da Es- trada de Ferro de Carajas, Maria Celia Co- elho e Raymnundo Cota, organizadores, Uni- versidade Federal do Para, Bel6m, 1997, 356 paginas) acabou saindo somente dois anos de- pois. O atraso pode ate ter sido proveitoso: al- guns dos academicos ja tentam antecipar como sera a gestao e o destiny da maior provincia mineral do planet por uma empresa privada, cujas ligay9es internacionais ainda nAo sao sa- tisfatoriamente conhecidas, exatamente quan- do comega, com o cobre, uma segunda etapa na hist6ria de Caraj as. O mundo descrito e analisado por esse subs- tancioso livro vinha sendo moldado por uma estatal, a Companhia Vale do Rio Doce, a mai- or vendedora de minerio de ferro do mundo. Ela chegou atrasada a Carajas, um territ6rio no sul do Para corn area de pouco mais de 10 mil quil8metros quadrados, delimitado por serras de insuspeitada altitude para o padrao amaz6nico entiree 400 e 600 metros). Para esse local correram as grades side- rurgicas americanas, atraidas pelo sucesso al- cangado pela segunda maior delas, a Beth- lehem Steel. Em 1955 a Bethlehem comegou a transferir de Serra do Navio, no Amapa, do outro lado do rio Amazonas, enormes volumes de manganes (um milhao de toneladas anuais, em m6dia), dos quais a indftstria dos EUA era carente. Nao s6 carente, como dependent de poucos fomecedores, um dos mais importan- tes sendo o Gabao, na Africa. Um quarto de s6culo depois a Bethlehem cortou seus frageis vinculos cor o Amapa: a jazida fora exaurida do minerio de melhor teor. No final do ano passado, com a antecipa9do em seis anos do vencimento do contrato de 50 anos, que a Icomi (a s6cia da Bethlehem) quer realizar, sera mais um buraco na vilipendiada hist6ria da mineragao brasileira. Se havia min6rios na formaygo geol6gica mais antiga da margem esquerda do Amazo- nas, tamb6m deveria haver os mesmos mineri- os do lado direito, cor estrutura semelhante. Em 1966 outra multinational americana, a Codim, encontraria uma jazida menor de man- ganes, na Serra do Sereno. E no ano seguinte, provavelmente na mais rapida e bem-sucedi- da campanha geol6gica de todos os tempos, a United States Steel, a n" 1 do setor, se apossa- ria da melhor jazida de minerio de ferro que se conhece, com 18 bilh6es de toneladas susceti- veis de extrayao a ceu aberto (o suficiente para 400 anos de exploraglo intensive). Durante tres anos as multinacionais, como acontecia em todos os outros pontos de interes- se geol6gico comprovadamente econ6mico na Amaz6nia, mandavam em Carajas. No final da decada de 60 os militares passaram a pressio- nar fortemente ate que a US Steel aceitou se associar a CVRD, constituida na metade da decada de 40 para possibilitar a extragao do ferro de Minas Gerais, a grande fonte desse min&rio at6 a entrada de Carajas em atividade. Ao long de sete anos, USS e CVRD tenta- ram acomodar interesses conflitantes ate a re- tirada da multmacional, em 1977, cor uma indenizapgo de 55 milhoes de dolares pela fa- 9anha da descoberta do macigo de hematita. Nos oito anos seguintes, ate a partida do pri- meiro trem, cobrindo os 870 quil6metros en- tre a mina, no coray9o amaz6nico, e o porto da Ponta da Madeira, aolado de Sao Luis, a capi- tal do Maranhao, a Vale suou suor, sangue e d6lares para viabilizar Carajas. Ao contrario de todos os "grandes projetos" concebidos pelo regime military para fazer da Amaz8nia uma fonte adicional de poupanga e de receita cambial, essenciais para realizar o sonho do "Brasil grande", Carajas chegou a operaglo gastando menos do que estava orga- do, de US$ 5 bilh6es para US$ 3,1 bilhaes (a hidrel6trica de Tucurui, por exemplo, comegan- do corn previsao de US$ 2,1 bilh6es, foi inau- gurada ao custo de US$ 5,4 bilh6es, sem juros incluidos). Para montar o de qualquer ma- neira apreciavel funding, fundamental foi o aval do Banco Mundial, que concede um pe- queno emprestimo, de US$ 300 milh6es, mas cor isso deu o seu sinete ao projeto da Vale. Os compradores e financiadores intemaci- onais podiam acreditar naquela empreitada, apesar das suas caracteristicas audaciosas: minerio extraido de uma mina a quase 900 quil6metros do literal, no meio da floresta amazonica, para ser levado a um comprador preferencial situado a 20 mil quil6metros, no Japao, deslocando o concorrente, a Australia, a apenas um tergo da distancia do comprador, contando corn um atrativo: o min6rio de Cara- jas 6 muito mais rico. Para que esse esquema logistico-financeiro desse certo, o minerio teria que ser vendido a US$ 36 a tonelada, calculou o Banco Mundi- al. Hoje, a Vale o vende aos japoneses, res- ponsaveis por um tergo das compras (que lhe garantem 15% de todo o consume de suas si- deruirgicas), a US$ 16 a tonelada. Para com- pensar os prepos declinantes, os volumes cres- ceram, chegando a 43 milh6es de toneladas no ano passado. Carajas ja 6 a maior mina expor- tadora de ferro do mundo, desbancando o dis- trito ferrifero de Minas Gerais, que se especi- alizou na demand internal. Esse esquema antecipou a aproximagao cada vez maior do Brasil face ao Japao, atenu- ando o peso dos EUA (de uma fabrica instala- da as proximidades de Bel6m, atrav6s de urma coligada, a Vale remote 15% do aluminio pri- mario utilizado pelas industries japonesas). E um feito de engenharia econ8mico-financeira notavel, alcanyado a custa da constituigao de um modelo de enclave puro. Ou seja: os elos de Carajas sao fortes corn seus mercados in- temacionais e tenues (e perversos) corn o mun- do ao redor, do sertao, da jungle assolada por desmatamento, garimpos, conflitos fundiarios, desajustes socials, rejeieio racial e outros mi- asmas de realidades atrasadas de s6culos. Duas experinncias permitem sentir esse con- traste. Como a de acompanhar excursoes de japoneses a Carajas. Acostumados as paisagens aridas dos centros mineradores, os nip6nicos se entusiasmam com aquele scenario exuberan- te, de uma mina monumental ao lado de densa floresta, muita agua, fauna e flora riquissimas. Outra experiencia pedag6gica 6 a visit ao ga- binete do president da CVRD, no centro do Rio de Janeiro, inteiramente decorado corn motives japoneses. Os japoneses, alias, con- sumaram uma faganha t5o maior do que a de seus parceiros brasileiros, assegurando uma rota de materials primas a preyos baixos sem igual na historia industrial. Os pesquisadores que deram sua contribui- 9yo para este livro percorreram tamb6m o mun- do espraiado pelas bases do conjunto de ser- ras, um mundo excluido dessa engenharia de sucesso (nao por acaso, ha uma s6lida guarita na entrada de Carajas), do qual indios, garim- peiros, posseiros, madeireiros, fazendeiros e outros personagens fazem parte, nem sempre por op9io. Mostram que um artefato do s6cu- lo XXI, a locomotive eficaz que garante a re- novagao constant de montanhas de minario em Ponta da Madeira, a espera dos supergra- neleiros sugadores que a irao levar entire ocea- nos, passa sobre mundos situados socialmente em seculos anteriores. E, funcionando como no Amapa, deixara no rastro mais buracos, no solo e nas contas nacionais. Se era assim com uma estatal no comando unico do process, o que acontecera corn uma empresa privada em ambiente crescentemente cartelizado, cuja controladora, para veneer o leilao, precisou emprestar 80% do valor do seu lance junto a agents financeiros internacio- nais, obrigando-se a devolver os quase 900 milhSes de d6lares em um ano, cor juros de 9%? Se a privatizagao da Vale era inevitivel, exp8-la na venda ao control international, num mercado onde poucos restarao, tinha a mesma inevitabilidade? Pelo menos dois dos 16 pesquisadores colocam a pergunta no ar. Mas, como sempre, estamos atrasados na ava- liagao dos atos praticados pelos estrangeiros, que, como em Carajas, Serra do Navio, Trom- betas e outros locais, saem na frente, deixan- do a poeira do tempo para os que vem atras, condenados a engolir muita poeira e a nao dis- cernir o tempo. Assim tem sido. Assim conti- nuara a ser? 0 6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1998 Na ediflo passada iniciei esta secao com o prop6sito de abrir um canal de comunica- 9io entire os dirigentes piblicos e o povo. Ao contrario de algumas secoes da grande im- prensa, neste espaqo o leitor nao apresentard queixas ou reivindica6es pessoais. Sua mis- slo 6 de verificar a exaqao dos atos piblicos, fiscalizando-os atrav6s do meio regular de sua divulgaqIo, que 6 o Diirio Oficial. Leitor regular dos DOs hA mais de duas d6cadas e meia, estou convencido de que ele pode se tomar important instrument de de- mocratizaclo se o governor se auto-impuser normas honestas na divulgacao dos atos da administrator phblica. A crena na forga da democracia como o melhor sistema politico se renova atrav6s da possibilidade de me- Ihor control social do governor, de tal ma- neira a bloquear os impulses autoritArios e inibir as modemas t6cnicas de manipulagao de massa por parte dos que eventualmente detem o poder. A criagao de instincias como o ouvidor geral ou o ombudsman result da busca dis- so que viroujargAo na ret6rica fonnalista: a transparencia. O bom servidor p6blico, fi- gura indispensavel A constituic&o de uma burocracia professional que funcione como espinha dorsal do governor do povo, pelo povo e parao povo, tem que aprender a pres- tar contas sem se ofender e sem dissimula- 9A0. O pfblico, por sua vez, precisa apren- der tambtm que cobrar corn energia nao 6 sin6nimo de grosseria. t principio elementary do direito que to- dos somos inocentes at6 prova em contrA- rio. A culpa precisa ser provada, a inocen- cia se presume. Questionar civilizadamente nto significa imputar crime, nern mesmo le- vantar suspeitas. t direito fundamental do contribuinte e dever bAsico do servidor pu- blico. A legitimidade da burocracia se forta- lece e se renova na resposta que apresenta ao questionamento, nAo na recusa em expli- car-se. Um govemo que atravessa inc6lume sucessivas sabatinas, oferecendo-se a elas ao inv6s de fugir delas, 6 verdadeiramente um govemo do povo e nao apenas um produ- to de boa propaganda (nem sempre sinoni- mo de verdade, muito pelo contrario). Esta seqlo vai procurar realizar o que o atual governor prometeu, quando anunciou a criag o de uma ouvidoria popular, e frustrou. De um lado, cobrar explicaQ6es dos servi- dores pdblicos e ceder-lhes espago para suas manifesta9es. E, de outro, participar corn os leitores do aprendizado quanto ao acom- panhamento dos atos p6blicos atravds do DO. t precise forgar o governor a seguir nor- mas mais rigorosas na prestaASo de infor- maqaes ao ptblico, procurando impedir que o 6rgao official se constitua em caixa de pan- dora, ou instrument para a ocultaQgo da verdade atravds de c6digos e macetes, aos quais nem os iniciados tnm acesso. Bons servidores p6blicos (que, felizmen- te, ainda os hA) certamente se alegrarAo corn esta iniciativa. JA os cidadios que relaxam de seus deveres haverAo de perceber o qulo despreparados se acham para cobrar seus direitos se esta coluna deixar de receber as devidas contribuiq6es do p6blico. Todos sabemos, de longinquas eras, que uma andorinha s6 nao faz verfo. E que, na democracia, a pior das tenta96es 6 acreditar na eficAcia de predestinados messiAnicos. Num primeiro moment iluminam as espe- rancas. No segundo, ofuscam-nas cor suas tiranias pessoais. Vamos, portanto, ao apren- dizado coletivo. Desde ja louvo a atencqo do president e do director administrative da Empresa P6bli- ca Ofir Loyola, Arnaldo Gama da Rocha e Oton Garcia Damasceno. Como autenticos homes pfblicos, eles responderam imedia- tamente aos questionamentos feitos aqui no n6mero passado, "considerando a not6ria credibilidade que V. Sa. mantdm na Area da informafo". Os dois dirigentes sustentam que os sete aditivos sucessivamente acrescidos ao con- trato original, assinado em 1994 cor a Puma - Servisos Especializados de VigilAncia (o que aqui se estranhou), estfo plenamente justificados. O primeiro, quatro meses ap6s o estabelecimento da relagao contratual, re- Revisao OctAvio Avertano Rocha estA anuncian- do uma revisao critical da literature paraen- se atraves das paginas de A Provincia do Pard. Consider nossos literatos injustiqa- dos, subestimados "no panorama geral do Brasil". Boa part da culpa seria dos pr6- prios intelectuais paraenses: quando saem de Bel&m, eles "fazem questio absolute de esquecer as suas origens, escondendo-as enquanto podem". argument Avertano. Aponta como exemplo o auto-exilado Haroldo Maranhao: "cor um texto no nl- vel de Guimaries Rosa, s6 se lembra do Pard pelo aned6tico e para ajustar velhas contas cor desafetos, reals ou imaginArios, seus e de sua famflia". Menas verdade, doutor Avertano. Harol- do realmente fez alguns ajustes de contas em'Cabelos no Coradco, Rio de Raivas e Os AnOes, neste ultimo compondo persona- gem sobre decalque do pr6prio Avertano (o pano de fundo 6 o Projeto Jari, do milion&- rio Daniel Ludwig). Nada a obstar, entre- tanto: do acerto resultou literature de alto nlvel, de valoraut6nomo, independentemen- Interesse public: primeira resposta literaria te dos fatos reais que a inspiraram. Sao ro- mances a clef. mas sempre literature de pri- meira linha. A Divina Comddia nao 6 acer- to de Dante cor os contemporineos que o injustigaram? E. mais recentemente, os Dublinenses, de James Joyce, nlo 6 uma conta de chegada cor a Irlanda? Mas ven- ceram a barreira do tempo e o rancor mdtuo de ocasioo. sem imobilzar-se na transit6ria atracao pelo fuxico. A distancia nao fez Haroldo Maranhao esquecer suas origens, muito pelo contrario. Seus principals livros sno uma volta a elas. revistas e atualizadas, projetadas a um pata- mar que poucos atingiram, nio s6 aqui, mas em todo o pals. 0 experimentalismo linguis- tico e o aprofundamento hist6rico em Tetra- neto del-Rei e, sobretudo, em Cabelos no Coracdo, sao finicos. Nesse aspect, Harol- do esta A frente de ur Osman Lins, por exem- plo e s6 critics academicos ressentidos, cor razao ou sem ela, nao reconhecem. Se 6 para rever a serio a produco literd- ria paraense, o comego de Avertano Rocha ja nao foi bom. sultou de "elevaqao do prego dos services adotada em process de dissidio coletivo perante a Justica do Trabalho". Cinco me- ses depois, ur novo aditivo decorreu "de necessArio acrescimo em dois postos de vi- gilancia de oito horas cada um", que se tor- naram necessArios pelo crescimento fisico do Hospital dos Servidores do Estado. JA o ter- ceiro aditivo significou, de fato, a primeira prorrogaqAo do contrato, "mantido, todavia, o preqo vigente" para o segundo aditivo. O quarto tambem foi provocado por dis- sidio coletivo da categoria, que afetou os preqos da empresa. Na quinta adiqao o con- trato foi prorrogado pela segunda vez para todo o ano de 1997, "tendo sido acrescenta- dos um posto de 24 horas e elevaqao dos postos de 8 para 12 horas". Outro dissidio acarretou o sexto aditamento. E o s6timo e dltimo promoveu a terceira prorrogaleo, cor a ressalva dos dirigentes do "Ofir Loyola" de que "o prego do ano de 97 permaneceu inalterado para este exercfcio", de 1998. Aceitas as explicavoes, refaz-se para os dirigentes da instituigao a pergunta: um con- trato assinado em 1994 com base em toma- da de preqos, renovado por duas vezes quan- to a prazo e alterado quanto a valores, em funCao de adiqao de servigo, para ser reno- vado globalmente por uma terceira vez, nao deveria ser precedido nova tomada de con- tas, a fim de prevenir as clAusulas contratu- ais e assegurar vantagens A administracao p6blica? Ou os responsAveis pelo contrato estfo absolutamente seguros de que conse- guiram o melhor preqo e as melhores condi- q6es mantendo a mesma empresa, num setor - o de seguranca particular que tern so- frido crescente dispute de mercado? Quais as bases concretas dessa convicqto? JOURNAL PESSOAL 2Y QUINZENA DE JANEIRO / 1998 7 Agradeceria se os dois dirigentes do "Ofir Loyola" aceitassem responder publicamen- te a essas questoes. Um bom enquadramen- to contribuiria para definir um padrao geral para todos os casos de aditamento, al6m de forqar todos os escaninhos do govero a en- riquecer os extratos contratuais, sovinamente resumidos em alguns casos, corn a omissAo de dados fundamentals para a compreenslo do que se trata ali. Ja da Secretaria de Planejamento do Es- tado nao veio qualquer resposta sobre a di- ferenqa de valores na compra de motonive- ladoras para Aurora do Pard e Anapu. O questionamento permanece de p6. Ainda te- nho esperanga de que, entire uma e outra reu- nido, algu6m se disponha a apresentar escla- recimentos. Se a Seplan se mantiver muda, 6 o caso de os representantes das duas admi- nistraqces municipals se estimularem a nos esclarecer por que uma motoniveladora custa R$ 100 mile a outra, R$ 144 mil. O pr6ximo questionamento 6 para a Se- cretaria de Transportes. No iltimo dia 30 de dezembro o DO publicou aditivo atrav6s do qual a Setran acresceu quase 1,2 milhao de reais ao contrato de empreitada assinado comn a Queiroz Galvao. O extrato nao permit saber a que serviqo se refere porque a plani- Iha, embora considerada como parte anexa do termo aditivo, nao foi transcrita ou ao menos descrita sumariamente (uma falha a ser corrigida, senlo por iniciativa da pr6pria Setran, talvez a instAncias do Tribunal de Contas do Estado ou do Minist6rio Piblico, tdo sumido nos l6timos tempos). Deveria a Setran informer qual o valor do contrato ori- ginal, se houve dispensa de licitaqgo (por inexigibilidade) e qual a razao do aditamen- to, se ele 6 legal. A mesma edicao do DO public quatro contratos, atrav6s dos quais a Setran pagard R$ 3,7 milhoes ao long de 14 meses a trds empresas (Maia Melo Engenharia, corn dois contratos, os maiores, Efunorte e Sertoplan, cada uma com um contrato) pela supervisAo de obras rodovidrias que outras empresas executam. Nao hA nenhuma informaiAo so- bre o process licitat6rio adotado, nem mai- ores informaq6es sobre a natureza dessa su- pervisao, exceto que a Melo Maia verificard "obras de melhoramento e pavimentaqao", enquanto as outras apenas a pavimentaqco. Finalmente, o mesmo DO abriga dois con- venios da Setran corn a prefeitura de Almei- rim. Em um dos convdnios o Estado repassa R$ 75 mil para a prefeitura construir 240 metros quadrados de trapiche corn passare- la em madeira de lei em Monte Dourado. O segundo, de R$ 42 mil, 6 para a construgao de 135 m2 de trapiche com passarela em madeira de lei, mas nao diz onde, o que difi- culta a compreensao dos valores desiguais por metro quadrado de trapiche. Onde fica o segundo trapiche? Aldm disso, os valores dos metros quadrados estdo grafados com erro, cor um algarismo a mais. Esperemos que o bom exemplo dos diri- gentes do "Ofir Loyola" seja seguido. 0 Em memorial do grande editor Minha geraqao fixou seu gosto pelos livros transitando das coleqoes da Companhia Edi- tora Nacional, de Octalles Marcondes Ferrr- reira, para as de Enio Silveira, seu genro. Enio pegou a Editora Civilizaqao Brasileira, na metade da d6cada de 50, para imprimir-lhe um perfil bem mais pr6ximo da nossa identi- ficaqio do que a CEN, a Jos6 Olympio e a Globo, os principals fornos que atendiam a nossa fome de livro fresco e quente. Um dos seus achados foi Eugenio Hirsch. Ele deu a Civilizaco uma marca inconfundi- vel, nlo s6 nas capas, mas at6 mesmo nas peas publicitArias, que via-se por inteiro an- tes de qualquer contato corn o conteido. A percepcSo dos livros da editor era inconsci- ente, por absorcao instintiva, graqas a Hirsch (que, fora da Civilizaqco, eclipsou-se), Entre os 13 e os 18 anos eu vinha sema- nalmente da Martins carregado de livros da CivilizaaLo (e, em raqao menor, da Zahar). la pegando nas prateleiras como um aspira- dor de p6. S6 em casa ia inventariar o pro- duto da caqada, registrado no livro de con- ta-corrente dos clients preferenciais para ser pago quando fosse possivel (contra o imper- ceptivel acr6scimo de 10%). Ai comecava verdadeiramente o ritual de passar os dedos pela capa, sentindo a nervura do papel, a consistencia da plastificacao, cap- tando o odor da tinta, a combinacao de cores, percebendo a "mensagem" do artist e anotan- do as informaCBes t6cnicas da produgao. Com- prando livros proibidos, sentiamo-nos Cimpli- ces de uma conspiraao. Em outros, era a ale- gria do encantamento e da descoberta. Esperavamos ansiosos por cada nOmero da Revista CivilizagJo Brasileira, da Politi- ca Externa Independente e da Paz e Terra, al6m do journal Revisao, que durou tao pou- co (Jader Barbalho acabou ficando com o exemplar que Ihe emprestei, naqueles olim- picos tempos de estrat6gica distancia do po- der). O pescador vergado sob o enorme pei- xe que carregava, simbolo da revista, foi um achado, simples e cheio de energia. Enio Silveira ajudou-nos todos a resistir, quando nada con a inteligencia, praticando- a, crendo nela, como Unamuno diante dos fascistas espanh6is. Graqas a ele pudemos ler Isaac Deutscher, Antonio Gramsci (cujo Os Intelectuais e a Organizaqdo da Cultura 6 de um grafismo primoroso), Roger Garau- dy (maravilhosa foi a capa de Hirsch para Perspective do Homem), Norman Mailer, Mary McCarthy, Carlos Heitor Cony, Cam- pos de Carvalho, Jos6 J. Veiga e tantos ou- tros. Eles nao caberiam neste registro, que faqo apenas para incluir este jomal na rela- qFo dos devotados cultivadores da membria de Enio Silveira, que se foi do nosso convi- vio no dia 1 de janeiro, dois anos atras. Para marcar a data, vem af o livro Enio Silveira, Arquiteto de Liberdades, cor entre- vistas e depoimentos sobre o grande editor, provavelmente louvando-o, mas talvez sem dar-lhe a obra que ele merece. Enio perdeu a editor e terminou a vida escrevendo orelhas de livros e selecionando ediq6es para os do- nos da empresa que havia sido dele. Perdeu poder sem perder dignidade. Bern que esta na hora de contar para valer a hist6ria da Ci- vilizaqao Brasileira, com seus altos e baixos, corn seus acertos e erros. mas como um dos exemplos maiores de dificeis moments em que no Brasil houve resistencia A barbArie. 0 ....Bicho calado .. . . Bicho calado O jogo do bicho 6 o mais brasileiro dos jogos do mercado. E democrAtico: basta um sonho para fazer a aposta. Ganha-se muito pouco, mas ha a ilusao da acessibilidade fi- cil ao pr6mio. Seu ritual 6 engenhoso, mas o povo o domina, apesar da complexidade. E illegal, mas o brasileiro tem uma compulsao por fazer sua f6 no bicho. Por isso, sobrevi- ve a todas as represses. S6 nao se legaliza o bicho porque nAo interessa aos maiores beneficiaries (e n.o 6 o povo apostador, na- turalmente). Dessa ambiguidade valem-se os que ti- ram proveito da contravenqao. Uma taxa 6 cobrada dos bicheiros para que o olho go- vernamental permaneca fechado (ou semi- cerrado: de vez em quanto vem uma batida, para atualizar os valores). Sempre houve um agent autorizado para recolher as contribui- qoes e dar-lhes uma destinaqAo aparente, de caridade ou aqao social, e um uso clandesti- no, em geral no financiamento de campa- nhas political e enriquecimento ilicito. Mas nunca ojogo do bicho foi tAo ousa- do como agora. A rede JB jA ter at6 tres lojas de luxo, se comparadas ao padrao an- terior, informatizadas e corn acesso telef6- nico As apostas, aldm de instalacqes devida- mente amareladas, para seguir a cromatiza- qAo da moda. Resta perguntar: quem libe- rou geral? Quem recolhe as contribuiqoes? Quem intermedia as relac6es entire o gover- no e a contravenqco? Quanto se arrecada? Para onde vai o dinheiro? Sera que a opiniao p6blica e seu princi- pal veiculo, a imprensa, at6 se esqueceram de fazer perguntas que, como diz um ve- Iho bordRo, nunca ofendem? Como nos clas- sicos da literature policial, cabe sempre aquela pergunta bAsica: a quem o crime in- teressa? E o sil6ncio? Respostas A redagqo. * Tempo liberal Louvavel a iniciativa de 0 Liberal de langar um caderno especial gobre Clarice Lispector. Mas, como sempre, ojornal che- gou atrasado. As duas grandes datas de Clarice foram lembra- das nos dias 9 e 10 de dezem- bro. Em 9 de dezembro de 1977 ela morreu e a imprensa na- cional registrou os 20 anos da data no dia certo. Ja a 10 de de- zembro de 1920 ela nasceu. O caderno de 0 Liberal saiu a 8 de janeiro ja sem gancho, por- tanto. Pegou os outrosjornais no regresso da empreitada. Mas, para os padres da folha dos Maiorana, pode ser considerado uma faganha. Gostaria de merecer um es- clarecimento do editor, Claudio de La Rocque Leal: o que ele quis dizer, na apresentagao, ao declarar que Clarice construiu uma obra "corn um T graniti- co"? Simbologia p6s-moderna, talvez? Vocaqio Se nada sobrar para o caro senador Fernando Coutinho Jor- ge, bem que ele poderia candi- datar-se a pega Esperando Go- dot, de Samuel Beckett. A voca- G9o para esse papel parece natu- ral. Coisa de predestinagao. Cabe tamb6m interpreter Pedro Pedreiro, de Chico Buarque de Hollanda, ou O Esperado, de Plinio Salgado. Glac6 Atd algum tempo atras o re- p6rter-padrao do jornalismo cultural brasileiro eram profis- sionais como Ruy Castro e S6r- gio Augusto. Agora o setor foi invadido por gente que tern in- formagao padronizada, sobretu- do de show-bizz, mas pouca ou nenhuma formaqao cultural. t cada vez mais frequent ler-se coisas como uma que pes- quei outro dia em algum journal do Rio ou Sao Paulo. O redator se referia ao livro Trhs Profe- tas, de Isaac Deutscher, como um dos que tnio Silveira lan- cara. Na verdade, trata-se de uma trilogia sobre Leon Trotsky, mas nenhum dos livros se intitula Trds Profetas. Sao O ProfetaArmado, 0ProfetaDe- sarmado e Oprofeta Banido (li- vros que os cultores de biogra- fiastado podem perder). Menos recheio, mais enchi- mento. Voz do dono 20 1. O govemo ja oficializou a estimativa de gastos coma -- propaganda official neste ano: serlo 10,7 milhbes de reals. SConsiderando-se a receita pr6pria prevista, em tomo de R$ 888 Smilhdes, represent pouco mais de 1%, Mesmo restringindo-se aos RS 693 milhOes de custeio, nao vai alfm de 1,5%. t at6 menos do que os tries projetos urbano-turisticos conduzidos em Beldm pelo secrethrio de Cultura, Paulo Chaves Femandes (Feliz Lusitincia, Esta~io das Docas e Park da Residencia). Mas ha dois senOes. Provavelmente a rubrica nao abrange realmente tudo o que vai sair para propaganda e publicidade , (ou serh que foram fechados todos os canais de vazamento?). , Como boa part da midia official serve apenas ao govemador e tem finalidade political pessoal e nao verdadeiramente administrative. a verba pass a ser poderosamente elevada. SPrincipalmente em ano eleitoml. Quem pode concorrer em Smatiria de marketing politico cor o govemador. candidate a reeleiqo? Convtm a todos e nbo apenas (nem principalmente) aos adversarios do govemrnador fiscalizar a executio orqamentdria sob essa ou outras rubricas de aluguel. Pelo menos para que nao haja um cidadao tio flagrantemente mais igual do que os outros. O outro lado Termina no dia 23 o prazo, prorrogado por mais 15 dias, que o Tribunal de Contas do Estado concede a Funtelpa. A Fundaqlo de Telecomunicagoes do ParA ira se manifestar sobre a representagao formulada pelo Departamento de Control Externo do TCE contra o jA famoso convenio cor a TV Liberal. Os tucanos vAo tentar demonstrar que o Estado 6 que saiu ganhando cor o pagamento de 200 mil reals por mes e a cessAo da rede de estaqoes terrestres da Funtelpa para a televisAo dos Maiorana. Ao contrArio do que se especula, a peqa nao serd assinada por Lewis Carroll. Mais uma O BNDES jA anunciou que gastara neste ano 40 milhies de reais nos 260 municipios brasileiros nos quais a Companhia Vale do Rio Doce atua. Mas se a empresa realmente atingir sua meta, de um bilhao de d61ares de lucro liquido, o fund de investimento deveria somar o dobro, R$ 80 milh6es, para ser mantida a proporgqo de 8% do RDRI, que foi extinto. Bem feito, mais uma vez, para quem apoiou a privatizacao. TrAnsito Outro dia o Detran repassou de uma s6 vez para a Secretaria de Transportes 6,3 milhoes de reals. Tudo recursos pr6prios. Joao Mar- ques esta materializando o que todos estavam cansados de sussur- rar: o Detran 6 uma mina. Trans- formou-se agora numa fonte de investimentos do Estado. Muito bem. Mas por que o dinheiro arrecadado com o tran- sito de Belem nao pode ser rea- plicado em Belem mesmo? Por que simplesmente investor em rodovias intermunicipais, que vbo, ao menos por um lado, in- duzir ainda mais o trafego de veiculos sem um convenient acompanhamento governamen- tal? E porque ha tres instancias oficiais no transit da capital e o governor do Estado nao se as- socia ao do municipio, fornecen- do recursos apenas ao Bptran (mas jamais a Ctbel)? Resposta de quem de direito. Indicacao Pela quantidade de outdoors que saudaram o aniversArio de Ana Jilia Carepa, ela 6 candida- ta mesmo ao govemo do Estado. 'rrT rr rr (j Igaai utdoorda a ret irurAii~e estA nas ruas, voltamos em material de propaganda A era do Proletkult, sem qualquer revisao e adaptagao. Mesmo assim, quem confiou ainda espera acontecer. Ao menos se ainda s6 se cre no que se v8. Novela Os repdrteres colocaram os microfones diante do governador atrds de uma reagao a anunciada desativacdo do Projeto Salobo, para a exploracdo da jazida de cobre de Carajds. 0 governador anunciou para o dia seguinte um encontro corn um representante da Companhia Vale do Rio Doce, a principal responsdvel pelo empreendimento, quando teria novidades, talvez desfazendo o clima de pessimismo estabelecido na opiniao public por uma sucessao de mds noticias. Mas a tal reunido do dia seguinte ndo passava de um encontro informal do governador cor o gerente regional da CVRD em Beldm, o afdvel David Leal, a pedido deste, que nao tem qualquer poder decisdrio na empresa, como puderam os repdrteres constatar, frustrados, ao cobrir o event. Serd que, por ndo ter - como sempre lido os jornais daquela manhd, o governador ndo sabia exatamente do que tratavam osjornalistas e que repercussdo buscavam, dando uma resposta qualquer para esvaziar a tensao e sair imediatamente dali para informar-se? Ou e mesmo puro despistamento? Ou d mais um capitulo da sdrie de vacilos governamentais? Quem souber a melhor resposta que se habilite. Jomal Pessoal Editor: LOcio Flavio Pinto Sede: Rua Aristides Lobo, 871 / CEP: 66 053-020 Fone: 223-1929 e 241-7626 Contato: Try. Benjamin Consant, 8481203 166 053-20 Fone: 223-7690 e.mail: lucio@expert.com.br Editorauqo de arte: Luizp I 241-1859 |
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