Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00128

Full Text







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A maldiqaoi soal
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Um ano depois de ter assumido aprefeitura, Edmilson Rodngues ainda ndo desceu do

palanque. Ndo e um lugar adequadopara enfrentar as armadilhas deixadas pelo seu

antecessor e os desafios que a ex-metr6pole da Amazonia impne. Mas, em epoca eleitoral,

pode-se esperar algo que ndo sejapopulismo e demagogia?





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entao prefeito Hlio Guei-
ros fez a primeira festa da
sua administragao (1993/
97) inaugurando o asfalta-
mento de uma rua do
Umarizal/Fdtima, a Anto-
nio Barreto. O prefeito
Edmi son Rodrigues, que venceu a dispu-
ta eleitoral na sucesslo de Gueiros, co-
memorou seu 1 ano de gestgo inauguran-
do a urbanizaggo de meia quadra de uma
rua do Marco, a Mauriti. Nos dois casos,
a propaganda comemorativa foi despro-


porcional em relag5o ao significado da
obra.
No auge do seu estilo boquirroto e des-
bocado de fazer political, Gueiros compa-
rou os medicos do Pronto Socorro Munici-
pal, uma das mais importantes instancias
piiblicas da cidade, ao sal, que 6 todo bran-
co, custa pouco e pode ser encontrado em
qualquer biboca da esquina. O atual prefei-
to do PT foi ao PSM anunciar que puniria
os medicos "pilantras e irresponsaveis", que
faltam aos plantoes e deixam os pacientes
morrer. Mas adverti-os: eles agora estavamn


diante de um governor "que nao aceita sa-
canagem contra o povo".
Um ano depois de ter assumido a princi-
pal prefeitura da Amaz6nia, capitalizando o
voto de protest dos belemenses, ansiosos por
se livrar do dualismo Barbalho/Gueiros, o
arquiteto Edmilson Rodrigues teima em ad-
ministrar do alto de um palanque. A falta de
resultados significaticos para apresentar aos
municipes, o que e ate justificavel para quem
recebeu do antecessor divide de 51 milh6es
de reais e muitas bombas de efeito retardado,
o alcaide acha que pode compensar a vacui-)


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2 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JANEIRO / 1998


Sdade com sonoridade verbal e grandiloqiien-
cia auto-conferida, como se bastasse ser ma-
cho para enfrentar os problems no muque e
resolve-los com um golpe de palavra.
"Comandei as mais vigorosas greves deste
Estado", lembrou o prefeito, na sua arenga
desequilibrada contra os medicos. Raramen-
te o bom comandante 6 aquele que mais ber-
ra ou o que sai na frente, ao contrario do que
insinua a pedagogia hollywoodiana, pela
qual, A sua maneirajesuitica, Edmilson Ro-
drigues parece haver-se formado. Ao con-
trArio: o comandante eficiente 6 o que pla-
neja e articula as acoes na v6spera dos corn-
bates, mantendo-se na distancia adequada
para acompanhar a evolugao do que conce-
beu no teatro de operag6es.
Parece provado que o atual prefeito nao 6
um comandante, um estrategista ou um pla-
nejador. No maximo, sai-se como executor
de ordens, capataz, capitao-do-mato. Sua
sinceridade inquestionavel encontra ai o
campo adequado e f6rtil, como provam suas
incursoes de campo, condoendo-se dos ne-
cessitados e entesando cor os desafetos.
Mas um pronto-socorro que atende gratuita-
mente 12 mil pessoas ao mrs, nao constitui
exatamente esse tipo de cenario para politi-
cos que arrastam consigo seus palanques
m6veis mentais.
Ao chegar ali, o chefe da administragAo
tinha 6 que resolver problems e apontar
acoes concretas, ao invds de posar para a
galera militant que o acompanha e a midia
que agora, ap6s o acerto commercial, repro-
duz os seus atos corn boa-vontade mais do
que pensadamente generosa.
Nao se pode minimizar os desafios pos-
tos diante de um prefeito p6s-Gueiros, que
vislumbra no horizonte um emaranhado de
acertos invisiveis e necessita se livrar de n6s
cegos. Mas o alcaide petista ter se deixado
apanhar infantilmente nas armadilhas mon-
tadas pelo antecessor. Para se livrar do boi-
cote da midia, por exemplo, sucumbiu pros-
trado diante dos Maiorana, que elogia fora
de hora e sem prop6sito sempre que 6 aco-
Ihido em um dos veiculos do grupo empre-
sarial (quase A maneira do governador Al-
mir Gabriel), mesmo sabendo o quanto cus-
ta ao erario municipal a subita mudanca de
tratamento.
Talvez para compensar esse maneirismo,
diante da aguerrida mas nem sempre ilu-
minada militAncia partiddria, o prefeito
carrega no verbo, quando deveria intensifi-
car a inteligencia e a criatividade, atributos
indispensiveis para veneer os desafios e ul-
trapassar as armadilhas postas diante do seu
caminho.
Na do leite houve outro tropeqAo, epis6-
dio ainda A espera do devido esclarecimento
porque desdobrou-se ja na administracio pe-
tista (mas o alcaide acostumou-se As pergun-


tas convenientes, pouco informando quando
responded Quanto ao lixo, razao maior da
perda de popularidade nesses 12 meses, o PT
at6 comeCou a enfrentar adequadamente o pro-
blema, fechando a tomeira de vazamento do
dinheiro pfiblico atrav6s da fraude na conta-
bilizagio do serviqo, mas nao teve competen-
cia para o pass seguinte.
O resultado 6 que a Terraplena boicotou
a coleta, reduzindo a um tergo a sua frota na
cidade, e s6 agora, nao muito cristalinamen-
te (como nao ter sido transparentt" a his-
t6ria da cooperative semi-oficial de habita-
aio popular), a prefeitura esta se recompon-
do para atravessar o semestre de transigio
atW a nova licitacgo piublica.
Al1m da heranga maldita que recebeu,
Edmilson tamb6m 6 obrigado a travar um
catch-on corn o governador, cada um que-
rendo personalizar os eventuais feitos que
estao sendo realizados na capital paraense.
Por forga dessa porfia, que desnatura a fun-
qAo pfiblica e avilta os padres de gestao,
cada contender procura os efeitos mais po-
pulares, independentemente do contefido do
que executam, porque a safra de votos estA A
vista. Deixam de perceber que, apesar de
tudo, ainda ha opiniao pfiblica em Beldm.
Confronte-se o jacobinismo fora de gpo-
ca do prefeito no PSM A reaqao da entidade
de classes dos m6dicos. Mesmo que seja uma
attitude tatica, o urbanismo e a civilidade da
nota da categoria reps a racionalidade: se a
prefeitura sabe que hA pilantras, deve pro-
curar identifica-los; seja os identificou, tern
que puni-los, nem que seja, de imediato,
colocando-os em disponibilidade. Mas ati-
rar a esmo pode resultar em vitimizar alia-
dos e parceiros, como aconteceu com a San-
ta Casa de Miseric6rdia.
A crise de Beldm ja 6 suficientemente
profunda e grave para que as autoridades
deem-se ao luxo e ao desprop6sito de
trata-la corn leviandade. E claro que uma ma-
neira de fugir do problema, aumentando-o
emverdade, 6 apegar-se ao saudosismo. Essa
6 uma tendencia em expansao que uma certa
midia estimula por puro escapismo ou ma-
f6. I visivel a progressive descaracterizaaio
de Belem, que a empobrece e Ihe tira vitali-
dade. De todas as maneiras, deve-se salvar
o que ainda esta disponivel e recompor o
perfil hist6rico-arquitet6nico da cidade, as-
segurando-lhe sua especificidade e origina-
lidade.
HA dois components nessa identidade.
Um deles 6 dado hist6rico: a origem coloni-
alportuguesa. Nenhuma outra cidade na face
do planet expressava corn tanta riqueza essa
adaptagio aos tr6picos da cultural colonial
portuguesa. Atd algum tempo atras esse era
apenas um dado cultural. Hoje, corn a ex-
pansio do turismo, cada vez mais inteligen-
te, 6 um fator potential de renda imico para


a cidade. Compreensivel que se tente recu
pera-lo para uso e proveito, embora a possi
bilidade de executar um projeto de express
sao seja duvidosa. Mas seria a melhor pers
pectiva de future (por ir6nico que possa pa
recer), se Belem nao fosse uma cidade ta
irracionalmente autofagica.
O outro component 6 a ligagao da cida-
de cor a paisagem em torno dela, corn
Amaz6nia. Mesmo em sitio tao topografical
mente desfavoravel (dificuldade agravada
por ma concepgao de engenharia na 6tica
governmental e empresarial), Bel6m 6 uma
catalisadora e propagadora do ambiente, que
absorve, filtra e enriquece tudo o que e ama-
z8nico, em grande parte pela mesma locali-
zagao que complica a expansdo da vida hu-
mana nela.
Por isso 6 uma cidade tao facil de querer
bem, mesmo quando 6 dificil explicar racio-
nalmente esse fascinio. Mas tamb6m, por
esse dado natural, tao problematica 6 a ma-
nutengao dessa atraqao, corn tantos fatores
artificiais (porque humans) atrapalhando o
cotidiano das pessoas na urbe.
Pode-se perceber essa contradi9ao na s6-
rie de postais que Luis Braga produziu por
encomenda da Imprensa Oficial do Estado e
do Shopping Iguatemi, em mais uma inicia-
tiva para levantar o orgulho da cidade e in-
duzir a auto-estima. A paisagem e vista de
um prisma muito particularizado pelo fot6-
grafo, numa adaptagao das naturezas-mor-
tas dos pintores. Em apenas um dos postai,-
hA gente e gente indistinta: a multiddo qu.
se concentra A said do Cirio de Nossa Se-
nhora de Nazard.
O cenario 6 esse, bonito, atrativo. Mas, e
os atores? Os atores sao uma populagao
empobrecida, desvalorizada, sem horizontes,
jogada na economic informal, sobrevivendo
de expedientes e biscates, mentalmente adp-
tada, com sua inventive, para seguir o cami-
nho dos lideres, que mexem as pedras corn
sagacidade, como se esse "jeito" suprissq
toda a fonte de sabedoria que produz e sus-
tenta a felicidade.
Mais do que uma cidade terciaria, Bel6mr
vai-se tornando uma cidade da informalida-
de, da meta-legalidade, da supra-legitimidai
de, com o imenso palanque armado para um
arquiteto e um m6dico digladiarem-se, su-
bindo os decib6is do discurso, comprando o
meio de veiculacgo da mensagem, viciando
os ouvidos para a adesao As propostas, lan-
qando fogos de artificio no horizonte, encan-
tando, As vezes, convencendo, raramente.
Nao 6 tarefa para qualquer um veneer a
quadratura desse circulo de empobrecimen-
to em massa e afluencia seletiva, em an6is
concentricos, um vasto, na base, o outro mi-
crosc6pico, na cUpula, Criar fantasias que
rendem de imediato 6 uma tentagco. Por isso,
cada sAtrapa de plantao elege os seus icones







JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE JANEIRO / 1998 3


) afetivos, que podem ser o Museu do Estado,
o Solar da Beira, o Museu de Beldm, a Feliz
Lusitnncia, a Esta9lo das Docas, o Teatro
Waldemar Henrique e outros bibel6s de en-
canto certo e durabilidade pouca. Mas Be-
1dm melhora sua capacidade de sustentar-se
a si pr6pria?
A administration do PT nio 6 s6 acimulo
de insucessos nesses 12 meses. HA muita
gente de boa intengao, competent e atd fa-
zendo certo na administraqao municipal, que
dobrou seu contingent de barnabts nos 61-
timos anos (agora sao 18 mil), perdendo em
qualidade o que ganhou em massa nesse pe-
riodo, no que por aqui jA e o process pre-
dominante: a socializaglo da misdria. Mas
tem cometido erros s6rios, com um agravan-
te: nao os reconhece e, por isso, nao os cor-
rige. Al6m de nAo ter descido do palanque,
o prefeito parece ter encontrado um espelho
mdgico para se contemplar com crescente
embevecimento e irrealismo.
Na epidemia de dengue em expanslo, o
alcaide ter todos os motives para protestar
contra a mi vontade do Estado e a tAtica do
governador, de deixar as coisas se compli-
carem a um ponto tal que lhe permitisse
anunciar seu ingresso na a9ao anti-epidemi-
ol6gica como o grande salvador. A dificul-
dade do PT para p6r em prdtica sua ret6rica
6 legendAria e ainda procedente. Em Sao
Paulo, na administracao Luisa Herundina,
cadaveres se acumulavam no necrotdrio
municipal enquanto a democracia socialist
discutia procedimentos.
Aqui nao 6 muito diferente. Encalacrado nas
filigranas de um executive piblico, sobre o qual
tinha a experincia do tribune oposicionista, o
PT demorou muito para former as turmas que
iriam combater a dengue corn o tamanho pro-
porcional ao da ameaca. O resultado 6 que ago-
ra s6 se pode falar em normalidade a mtdio e
long prazos. At6 lA, os riscos da dengue he-
morrigica e da febre amarela vAo marcar de
sobressalto os belemenses.
Talvez s6 nao para a militfncia fantAtica,
estA provada a incapacidade de o PT respon-
der isoladamente aos desafios que Ihe im-
p6s a vit6ria de 1996. I precise abrir as fron-
teiras de recrutamento e incorporar novos
quadros, sem impor o catecismo partiddrio
e o faccionismo das tendencias confessio-
nais que o formal (e deformam).
Chega de ret6rica, de discurso de campa-
nha, de proselitismo de rua, de chavlo pro-
gramatico. Mesmo que uma nova campanha
eleitoral esteja A porta, corn suas imposi9Bes
populistas e demag6gicas, o PT, que supor-
tou heroicamente as perseguicqes no period
de formag o e consolidagco partidAria, tem
que acreditar para valer no long prazo da
hist6ria. Sem isso, a vit6ria de 96 e sua per-
sonalizaCao, o arquiteto Edmilson Rodrigues,
logo serao levados cor a poeira do tempo e
o geral voltara a soprar sobre a bela e querida
Belem os miasmas que a tem atormentado jA
hA tanto tempo. S6 f6 nao garante o que vird.
O tempo chegou, mas, como Carolina na ja-
nela, s6 o personagem nao viu. *


Televisao public

de outra galaxia
O debate nos chega como se estivesse gem ao legislative. As objeaoes e sugestoes
sendo travado em outra galixia. A Assem- que agora estAo sendo apresentadas viriam
bl6ia Legislativa aprovou e o governador no moment certo e seriam incorporadas,
Mario Covas sancionou uma lei instituindo evitando a acao direta de inconstitucionali-
em Sao Paulo a Taxa Educaqao e Cultura, dade que a procuradoria paulistaja apresen-
destinada ao custeio da Radio e da TV Cul- tou Ajustiga.
tura, mantidas pela Fundaqlo Padre Anchi- Mesmo os que criticaram a nova taxa,
eta. Essa taxa resultard de um acrdscimo de pordm, ressalvaram a importincia do siste-
dois a cinco reais nas contas mensais de 78% ma pOblico de comunicaqao de Sao Paulo.
dos consumidores de energia do Estado, que Infelizmente a administraqao MArio Covas
sao os nao-isentos (consomem abaixo de 100 comevou a desmantelar a estrutura criada ao
quilowatts/hora por mes). long dos 61timos anos, que fez da TV Cul-
Com isso, o orqamento da fundag o man- tura uma refer6ncia sobre televislo inteligen-
tenedora das duas emissoras pularia dos atu- te no Brasil (e corn indices de audiencia sur-
ais R$ 24 milhoes para um valor entire R$ preendentes). HA dois anos o orgamento da
160 milh6es e R$ 360 milhoes, segundo as emissora 6 de RS 24 milh6es. Sem recursos,
virias estimativas jA apresentadas. A RAdio perdeu gente important e programs de su-
e a TV Cultura de Sao Paulo se tornariam cesso. Mas ainda mantdm um certo nivel,
das mais ricas do pais, quase em pd de igual- capaz de contrastar diante das apelag9es sen-
dade cor as maiores emissoras comerciais. sacionalistas da rede commercial.
Poderiam retomar a programaqfo que as fez Os paulistas encontrarlo uma said melhor
tornarem-se modelares no pais. e maisjusta do que essa lei aprovada a toque-
Mas o que parecia fato consumado cor a de-caixa pelo legislative. Qualquer que seja
sangco da lei estd gerando uma grande pole- o desdobramento, pordm, o caso paulista re-
mica em Sao Paulo. Cresce a reaqdo a essa vela o fosso imenso que o separa do nosso. A
forma de financiamento das emissoras, mes- funda~go que administra a TV Cultura em Slo
mo da parte dos que as admiram. Argumen- Paulo existe hA 30 anos, corn um conselho
ta-se que a taxa 6 onerosa. Equivale A TV curador que funciona. Aqui, ela 6 uma exten-
paga, considerando-se a amplitude de opioes sao dos bragos (frequentemente transforma-
oferecidas pelas tev6s por assinatura. Atin- dos em garras) do governador. Nao ha nenhu-
ge indistintamente quem tem ou nao apare- ma ligagio direta da populag9o corn a emis-
Iho de televisao, assisted ou nao as emissoras sora e sua programaalo serve de pretexto ou
piblicas, aceita ou nao subsidiA-las. Ade- biombo para a propaganda official personali-
mais, como estd alegando a Procuradoria zada, que 6 o que conta no sistema de comu-
Geral do Estado, a lei 6 inconstitucional, jA nicacao dito pbblico. E enquanto os paulistas
que os Estados nao podem estabelecer taxas tentam colocar mais recursos na sua emisso-
para serviqos de radiodifusao e televisao. ra, por aqui o governador a faz descapitali-
Tudo indica que o governor de Sao Paulo zar-se para favorecer o parceiro commercial de
sera obrigado a recuar. Poderia ter-se pou- empreitada eleitoral.
pado desse movimento tipicamente tucano. Em mat6ria de sistema pOblico de comu-
Bastaria submeter a iniciativa a uma ampla nicaqao, Sao Paulo estA distant sdculos des-
discussao pAblica antes de remeter a mensa- te pobre Pard. *

A corte
E publico e not6rio o control de O Liberal sobre o mercado dejomais impresses no
Para. Constantemente a empresa public resultado de pesquisa indicando 980'o ou mais
de indice de leitura do journal dos Maiorana. Esse e um fato objetivo, que talvez pudesse
ser um pouco relativizado se a Delta Publicidade se dignasse a publicar mais dads das
pesquisas. Masjamais pode ser negado. Nem exaltado, por6m: um tal dominion s6 desfa-
vorece a riqueza e a pluralidade da informaqao, ajudando a manipular a opiniso pdblica.
Poucas tem se mostrado tro desinformadas, por isso, quanto a nossa.
As lideranqas da sociedade t6m que ver o fato objetivo, mas nao curvar-se desfibrada-
mente diante dele. Muito pelo contrario: devem procurar estimular a formaq9o de novas
fontes informativas, prevenindo efeitos danosos do monop6lio, ainda mais graves no
caso de meios de comunicaqao.
Mas nao tern sido assim. Toda a imprensa, inclusive a de Maraba (Correio do Tocan-
tins e Opinido!), noticiou a suspensAo do Projeto Salobo. O Liberal foi o ultimo a aportar
no tema, mesmo assim atraves de um telefonema dado de Belem para Jobo Salame, editor
de Opinido!, que, de amealhador de fontes, tornou-se ele pr6prio a fonte das informa8fes
publicadas por O Liberal (sem ser identificado ou receber o crtdito, porem).
Mas s6 entao as chatnadas elites resolveram se movimentar, ainda que fosse para
mudar a posiqAo em suas cadeiras burocratizadas. Nao se permitiram perceber que desde
tr6s semanas antes aquelas mesmas informaqoes ji havian sido divulgadas por outros
veiculos.
A assim que estamos servidos de elites.








4 JOURNAL PESSOAL 2D QUINZENA DE JANEIRO / 1998






Volete


A reporter Mariza Romlo, da TV Liberal em
Maraba, fugiu para Brasilia, sob a proteqto da
Federacgo Nacional dos Jornalistas. A reporter
denunciou ameagas de morte feitas anonimamen-
te contra ela por telefone. Seria uma tentative de
intimidA-la como testemunha do massacre de 19
lavradores sem-terra em Eldorado de CarajAs. no
sul do Para. Julgando-se insegura e sem a prote-
qto devida. Mariza conseguiu o apoio da Fenaj e
saiu de MarabA no final do ano passado.
O caso exige reflexes sCrias e consequences.
Qualquer ameaca A vida tem que merecer a aten-
qto e as provid6ncias devidas, o que parece nao
ter havido no caso de Mariza Romao, celebriza-
da por integrar a mnica equipe jonalistica pre-
sente ao incident de Eldorado e que produziu a
n(ica prova independent sobre o traumAtico e
polemico incident.
Na entrevista ao Jornalista, 6rgao official da
Fenaj, Mariza diz que comecou a receber as ame-
acas em novembro do ano passado. No total, aten-
deu a scis telefonemas dados para a sua casa.
Ouvia sempre a mesma frase: "Se voct falar vai
morrer mais cedo. Eles nio vAo deixar que voce
prejudique mais do que j foram prejudicados".
Ou: "nao divulgue na imprensa".
O autor dos telefonemas disse a Mariza "que
nao participou do massacre, mas que sabe que
um grupo de policiais estA armando para calar
minha boca. me tirar de circulaqAo. tudo de uma
forma accidental como um acidente de carro, por
exemplo. Depois de seis telefonemas semelhan-
tes, ela decidiu tomar uma iniciativa: registrou
queixa na policia. Nao sentindo apoio, recorreu
A Fenaj.
Ameaca de morte, mesmo por telefone e sem
identificaqao, 6 uma das experiencias mais desa-
gradAveis que um ser human pode ter. Nem to-
dos conseguem reagir cor racionalidade e san-
gue frio, nem este 6 o padrao que sc pode exigir.
Por isso, os que sao expostos a uma situaqao
dessas devem procurar ajuda, de preferencia um
auxilio professional. Ameaqa de morte nunca 6
um acontecimento individual: interessa Acoleti-
vidade. Se nAo reprimido com rigor, o que 6 in-
dividual pode expandir-se, transformando-se em
patologia social. Por isso, todo epis6dio isolado
requer muita atenqAo. t um dos testes de avalia-
aio da forqa da democracia.
Mariza Romao era umajovem jomalista ama-
dora quando o choque de Eldorado colocou-a no
olho do furacao. Reagiu com bravura e calma
em circunstancia extremamente dificil. embora
se possa fazer reparos ao acerto professional na
cobertura do acontecimento (falha perfeitamen-
te desculpAvel, ainda mais pela inexperidncia e
por se achar s6 naquele momento. Mas pode
estar um pouco desnorteada diante da nova ad-
versidade em sua vida.
Na verificaqao que fiz em MarabA. ainda que
indiretamente, nao fiquei convencido de que ela
esgotou as instancias oficiais pertinentes a pon-
to de poder declarar-se desamparada. Nao hA
evid6ncia segura de uma rede de omissao e coni-
v6ncia nos organisms policiais oujudiciais para
acobertar ou estimular a coagao an6nima.
Muito pelo contrArio: algumas fontes consul-
tadas garantiram que nto foram procuradas e
mostraram-se voluntariamente dispostas a dar
cobertura A reporter. E Mariza nem veio a Be-
e6m: foi diretamente a Brasilia, pulando um es-
tigio necessario. ainda que fosse para atestar a
indiferenca das autoridades.
Na entrevista ao Jornalista, Mariza deixa uma
contradiqAo. Num trecho ela diz ter sido orienta-
da pela "direplo da empresa", que se presume


ser a TV Liberal, a denunciar a ameaqa. Pcrgun-
tada depois se recebeu apoio da empresa, ela res-
ponde: "Acredito que os donos da empresa nao
tenham conhecimento do que estd acontecendo,
pois eles nao tomaram nenhuma attitude, como
fez a Fenaj".
A contradipAo nao permit esclarecer se a re-
p6rter comunicou o fato A empresa e nao contou
corn apoio dela ou se nao informou a empresa.
nem a procurou. e por isso a TV Liberal deixou
de dar-lhe a cobertura recomendada. o que ca-
racterizaria um comportamcnto 6tico-moral con-
denAvel (ainda mais porque a emissora faturou
amplamente o servico jornalistico, mcsmo sem
ser a proprietAria original da fita). Na sondagemn
que fiz A emissora, ouvi de uma fontc a informa-
cAo de que a direcAo s6 soube da situacao de
Mariza quando ela ji estava em Brasilia.
Se um primeiro telefonema an6nimo corn
ameaga de morte ter o poder de abalar uma pes-
soa comum. a repetiqao ja permit ao ameacado
raciocinar melhor e atW. quando a persistencia se
along sem a consuma;Ao da ameaga, reagir corn
o maximo de eficAcia. anulando a fonte da ame-
aga a partir da identificacao da origem. Funda-
mental coletar o maximo possivel de dados
confiaveis para tirar o ameaqador do anonimato
convenient, iluminando o ambiente no qual ele
se movimenta, cor o pleno dominion do scenario.
Ura das primeiras providencias, que pode-
se perceber em qualquer filme policial. 6 gram-
pear o telefone. Quando nada, essa media per-
mite documentary o incident. desfazendo even-
tuais ceticismos e descrengas. Feita por profissi-
onais, a gravacgo fornece uma riqueza insuspei-
tada de informaqdes, inclusive sobre registro
vocal da pessoa. Ao que parece. Mariza nao to-
mou essa iniciativa. nem a requercu da autorida-
de competent. Sequer solicitou o monitoramento
na empresa tclef6nica (o quc dcve ser fcito. corn
as cautelas devidas).
Portanto. a reporter, talvez porquc abalada
emocionalmente. nlo reagiu da maneira que seu
caso indicava. Tamb6m nao estA processando as
informaqoes que reuniu. Nao ha coerencia apa-
rente nos atos do home que a ameaqou. Se ele
6 um PM ou ligado a um dos policiais militares
que participou da repressao ao protest do MST
em Eldorado. por que iria ameacar Mariza? A
hip6tese 6 que ela pode contribuir para a conde-
napco dos 153 integrantes da corporatlo denun-
ciados najustiva por homicidio.
Mas a participaqAo de Mariza na apuraAio
judicial dos fatos estA concluida. Ela fez parte da
equipe de televisso que documentou o epis6dio.
As imagens nao provam que os PMs executaram
o massacre. Particularmente, jd as vi dezenas e
dezenas de vezes. Pelo que ali se v6, a conclusao
de algu6m dotado de boa-f6 6 que os policiais
recuaram ao avango dos sem-terra, empunhando
foices, faces e outras armas brancas. at6 o limi-
te possivel, que era o 6nibus atravessado na es-
trada. S6 entao reagiram, atirando.
Mas minha impresslo das imagens. tecnica-
mente deficientes, 6 de que nAo foi desses tiros
que os manifestantes morreram (talvez dados para
o ar, cor balas de festim ou no chao), mas dos
disparos feitos da retaguarda (e dos golpes se-
guintes), per onde chegava a tropa de Parauape-
bas, no exato moment em que o destacamento
de MarabA estava acuado e comegava a reagir.
Nesse moment 6 que comeou verdadeiramen-
te o massacre, que resultou em 19 vitimas de um
n(ico lado.
Mas a partir dal deixou de haver as imagens
da televisao. Homisiada num casebre cor ou-


tros lavradores, a equipe parou de operar. Mari-
za, corajosamente. saiu gritando para os polici-
ais, pedindo-lhes que nao atirassem mais.
Se houvesse mais experiencia ou as circuns-
tancias assim o permitissem, a equipe deveria ter
encontrado umjeito de burlar os policiais e per-
manecer filmando. Nessas horas, sempre me lem-
bro de um cineasta sueco (cujo nome As vezes
esqueco. como agora). Diante da ocupacao mili-
tar no PalAcio La Moneda, em Santiago do Chi-
le, no "Tancazo" de 29 de junho. exercicio para
o golpe military posterior do general Augusto Pi-
nochet contra Salvador Allende, ele nao baixou
a cAmera mesmo quando o soldado do exdrcito
levantou contra ele o seu fuzil, ameaando-o. E
continuou filmando at6 receber o primeiro tiro.
Caiu filmando. Morreu filmando. Nao por ser
her6i. mas por atavismo professional, longamen-
te formado em sucessivas experi6ncias. Jorna-
lista more por ser professional, nao exatamente
por heroismo.
Nao quero dizer que preferia isso no epis6dio
sanguinariamente primbrio de Eldorado de Ca-
rajas. Apenas destaco que se a equipe tivesse
conseguido produzir imagens posteriores e es-
capar A censura military, pela qual acabou imobi-
lizada, ai, sim, Mariza Romao seria uma ameaga
para os policiais que agora responded a proces-
so per homicidio.
Mas as imagens disponiveis tanto foram usa-
das pela defesa como pela promotoria, cada lado
partindo da mesma base material para desenvol-
ver argumentaqAo discrepante, conflitante. As
imagens em si nho sao peqa probat6ria contra os
militares, muito pelo contrArio. Nem o que a re-
p6rter declarou na fase de instrucao processual.
Certamente, se vier a depor novamente, quan-
do (e se) o process chegar A fase dejulgamento
popular. Mariza Romio repetira o que jA disse e
ajudou a mostrar. Nem a prova material (as ima-
gens de televisio), nem seu testemunho sAo ele-
mentos capazes de condenar os militares. Por que
eles se sentiriam tao ameaqados, a ponto de ini-
ciar a campanha de telefonemas ameaqadores.
que terao efeitojustamente inverso ao desejado?
Agora que denunciou as ameacas. Mariza nao
podera mais mudar o que j6 disse, ao contrArio
do que seria a intenqao do ameacador antnimo.
A questao 6 que o testemunho dela nao ameaca
os PMs.
Marisa estaria, entao, sendo vitima de um tro-
te, de uma brincadeira de mau gosto? O proble-
ma desse tipo de ameaca c que cla abre um leque
muito vasto de hip6teses. Sem submet-las ao
control devido (e possivel, quando o assunto 6
entregue a um especialista). pode-se tomar gato
por lebre. Superestimaao, subestimaao. descaso
e neglig6ncia podem acabar abrindo a porta para
um desfecho trAgico ou para a desmoralizaqAo,
ambos desservindo o interesse coletivo e a evo-
luqao do process democratic, que todos n6s.
sobretudo os gatos escaldados do jornalismo de
linha de frente, tanto desejamos.
Portanto, se queremos evitar qualquer um
desses fins ingl6rios, fundamental 6 que Mariza
Romao retome ao Para com todas as garantias
que Ihe sao devidas, e em torno dela as autorida-
des piblicas mobilizem tudo o que 6 possivel para
esclarecer adequadamente este caso. Vida, s6 te-
mos uma. E 6 a garantia maxima conferidaa cada
vida individual que nos permit viver em con-
junto corn a sensaqao de formarmos urna socie-
dade de homo sapiens e nao de selvagens e bAr-
baros. Desejo para Mariza Romao long vida -
e, usando-a como prova dos nove. para n6s to-
dos tambdm. 0








JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JANEIRO / 1998 5





A Cobra Grande em Carajas

A pedido de Parab6licas, boletim do Instituto Socioambiental editado em Sao Paulo, escrevi uma

resenha sobre a obra coletiva de pesquisadores paraenses a respeito da historia de Carajds.

Reproduzo aqui a integra. do texto, que, por questao editorial do boletim, sofreu alguns cortes.


strabalhos de 16 pesquisadores
e varias origens, atuando sobre
emas complementares e afins,
oram reunidos para assinalar a
primeira d6cada de funcionamen-
to da ferrovia de Carajas, completada em fe-
vereiro de 1995. Mas o livro (10 anos da Es-
trada de Ferro de Carajas, Maria Celia Co-
elho e Raymnundo Cota, organizadores, Uni-
versidade Federal do Para, Bel6m, 1997, 356
paginas) acabou saindo somente dois anos de-
pois. O atraso pode ate ter sido proveitoso: al-
guns dos academicos ja tentam antecipar como
sera a gestao e o destiny da maior provincia
mineral do planet por uma empresa privada,
cujas ligay9es internacionais ainda nAo sao sa-
tisfatoriamente conhecidas, exatamente quan-
do comega, com o cobre, uma segunda etapa
na hist6ria de Caraj as.
O mundo descrito e analisado por esse subs-
tancioso livro vinha sendo moldado por uma
estatal, a Companhia Vale do Rio Doce, a mai-
or vendedora de minerio de ferro do mundo.
Ela chegou atrasada a Carajas, um territ6rio
no sul do Para corn area de pouco mais de 10
mil quil8metros quadrados, delimitado por
serras de insuspeitada altitude para o padrao
amaz6nico entiree 400 e 600 metros).
Para esse local correram as grades side-
rurgicas americanas, atraidas pelo sucesso al-
cangado pela segunda maior delas, a Beth-
lehem Steel. Em 1955 a Bethlehem comegou
a transferir de Serra do Navio, no Amapa, do
outro lado do rio Amazonas, enormes volumes
de manganes (um milhao de toneladas anuais,
em m6dia), dos quais a indftstria dos EUA era
carente. Nao s6 carente, como dependent de
poucos fomecedores, um dos mais importan-
tes sendo o Gabao, na Africa.
Um quarto de s6culo depois a Bethlehem
cortou seus frageis vinculos cor o Amapa: a
jazida fora exaurida do minerio de melhor teor.
No final do ano passado, com a antecipa9do
em seis anos do vencimento do contrato de 50
anos, que a Icomi (a s6cia da Bethlehem) quer
realizar, sera mais um buraco na vilipendiada
hist6ria da mineragao brasileira.
Se havia min6rios na formaygo geol6gica
mais antiga da margem esquerda do Amazo-
nas, tamb6m deveria haver os mesmos mineri-
os do lado direito, cor estrutura semelhante.
Em 1966 outra multinational americana, a
Codim, encontraria uma jazida menor de man-
ganes, na Serra do Sereno. E no ano seguinte,
provavelmente na mais rapida e bem-sucedi-
da campanha geol6gica de todos os tempos, a
United States Steel, a n" 1 do setor, se apossa-
ria da melhor jazida de minerio de ferro que se
conhece, com 18 bilh6es de toneladas susceti-
veis de extrayao a ceu aberto (o suficiente para
400 anos de exploraglo intensive).
Durante tres anos as multinacionais, como
acontecia em todos os outros pontos de interes-


se geol6gico comprovadamente econ6mico na
Amaz6nia, mandavam em Carajas. No final da
decada de 60 os militares passaram a pressio-
nar fortemente ate que a US Steel aceitou se
associar a CVRD, constituida na metade da
decada de 40 para possibilitar a extragao do ferro
de Minas Gerais, a grande fonte desse min&rio
at6 a entrada de Carajas em atividade.
Ao long de sete anos, USS e CVRD tenta-
ram acomodar interesses conflitantes ate a re-
tirada da multmacional, em 1977, cor uma
indenizapgo de 55 milhoes de dolares pela fa-
9anha da descoberta do macigo de hematita.
Nos oito anos seguintes, ate a partida do pri-
meiro trem, cobrindo os 870 quil6metros en-
tre a mina, no coray9o amaz6nico, e o porto da
Ponta da Madeira, aolado de Sao Luis, a capi-
tal do Maranhao, a Vale suou suor, sangue e
d6lares para viabilizar Carajas.
Ao contrario de todos os "grandes projetos"
concebidos pelo regime military para fazer da
Amaz8nia uma fonte adicional de poupanga e
de receita cambial, essenciais para realizar o
sonho do "Brasil grande", Carajas chegou a
operaglo gastando menos do que estava orga-
do, de US$ 5 bilh6es para US$ 3,1 bilhaes (a
hidrel6trica de Tucurui, por exemplo, comegan-
do corn previsao de US$ 2,1 bilh6es, foi inau-
gurada ao custo de US$ 5,4 bilh6es, sem juros
incluidos). Para montar o de qualquer ma-
neira apreciavel funding, fundamental foi o
aval do Banco Mundial, que concede um pe-
queno emprestimo, de US$ 300 milh6es, mas
cor isso deu o seu sinete ao projeto da Vale.
Os compradores e financiadores intemaci-
onais podiam acreditar naquela empreitada,
apesar das suas caracteristicas audaciosas:
minerio extraido de uma mina a quase 900
quil6metros do literal, no meio da floresta
amazonica, para ser levado a um comprador
preferencial situado a 20 mil quil6metros, no
Japao, deslocando o concorrente, a Australia,
a apenas um tergo da distancia do comprador,
contando corn um atrativo: o min6rio de Cara-
jas 6 muito mais rico.
Para que esse esquema logistico-financeiro
desse certo, o minerio teria que ser vendido a
US$ 36 a tonelada, calculou o Banco Mundi-
al. Hoje, a Vale o vende aos japoneses, res-
ponsaveis por um tergo das compras (que lhe
garantem 15% de todo o consume de suas si-
deruirgicas), a US$ 16 a tonelada. Para com-
pensar os prepos declinantes, os volumes cres-
ceram, chegando a 43 milh6es de toneladas no
ano passado. Carajas ja 6 a maior mina expor-
tadora de ferro do mundo, desbancando o dis-
trito ferrifero de Minas Gerais, que se especi-
alizou na demand internal.
Esse esquema antecipou a aproximagao
cada vez maior do Brasil face ao Japao, atenu-
ando o peso dos EUA (de uma fabrica instala-
da as proximidades de Bel6m, atrav6s de urma
coligada, a Vale remote 15% do aluminio pri-


mario utilizado pelas industries japonesas). E
um feito de engenharia econ8mico-financeira
notavel, alcanyado a custa da constituigao de
um modelo de enclave puro. Ou seja: os elos
de Carajas sao fortes corn seus mercados in-
temacionais e tenues (e perversos) corn o mun-
do ao redor, do sertao, da jungle assolada por
desmatamento, garimpos, conflitos fundiarios,
desajustes socials, rejeieio racial e outros mi-
asmas de realidades atrasadas de s6culos.
Duas experinncias permitem sentir esse con-
traste. Como a de acompanhar excursoes de
japoneses a Carajas. Acostumados as paisagens
aridas dos centros mineradores, os nip6nicos
se entusiasmam com aquele scenario exuberan-
te, de uma mina monumental ao lado de densa
floresta, muita agua, fauna e flora riquissimas.
Outra experiencia pedag6gica 6 a visit ao ga-
binete do president da CVRD, no centro do
Rio de Janeiro, inteiramente decorado corn
motives japoneses. Os japoneses, alias, con-
sumaram uma faganha t5o maior do que a de
seus parceiros brasileiros, assegurando uma
rota de materials primas a preyos baixos sem
igual na historia industrial.
Os pesquisadores que deram sua contribui-
9yo para este livro percorreram tamb6m o mun-
do espraiado pelas bases do conjunto de ser-
ras, um mundo excluido dessa engenharia de
sucesso (nao por acaso, ha uma s6lida guarita
na entrada de Carajas), do qual indios, garim-
peiros, posseiros, madeireiros, fazendeiros e
outros personagens fazem parte, nem sempre
por op9io. Mostram que um artefato do s6cu-
lo XXI, a locomotive eficaz que garante a re-
novagao constant de montanhas de minario
em Ponta da Madeira, a espera dos supergra-
neleiros sugadores que a irao levar entire ocea-
nos, passa sobre mundos situados socialmente
em seculos anteriores. E, funcionando como
no Amapa, deixara no rastro mais buracos, no
solo e nas contas nacionais.
Se era assim com uma estatal no comando
unico do process, o que acontecera corn uma
empresa privada em ambiente crescentemente
cartelizado, cuja controladora, para veneer o
leilao, precisou emprestar 80% do valor do seu
lance junto a agents financeiros internacio-
nais, obrigando-se a devolver os quase 900
milhSes de d6lares em um ano, cor juros de
9%? Se a privatizagao da Vale era inevitivel,
exp8-la na venda ao control international,
num mercado onde poucos restarao, tinha a
mesma inevitabilidade? Pelo menos dois dos
16 pesquisadores colocam a pergunta no ar.
Mas, como sempre, estamos atrasados na ava-
liagao dos atos praticados pelos estrangeiros,
que, como em Carajas, Serra do Navio, Trom-
betas e outros locais, saem na frente, deixan-
do a poeira do tempo para os que vem atras,
condenados a engolir muita poeira e a nao dis-
cernir o tempo. Assim tem sido. Assim conti-
nuara a ser? 0







6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JANEIRO / 1998


Na ediflo passada iniciei esta secao com
o prop6sito de abrir um canal de comunica-
9io entire os dirigentes piblicos e o povo. Ao
contrario de algumas secoes da grande im-
prensa, neste espaqo o leitor nao apresentard
queixas ou reivindica6es pessoais. Sua mis-
slo 6 de verificar a exaqao dos atos piblicos,
fiscalizando-os atrav6s do meio regular de sua
divulgaqIo, que 6 o Diirio Oficial.
Leitor regular dos DOs hA mais de duas
d6cadas e meia, estou convencido de que ele
pode se tomar important instrument de de-
mocratizaclo se o governor se auto-impuser
normas honestas na divulgacao dos atos da
administrator phblica. A crena na forga da
democracia como o melhor sistema politico
se renova atrav6s da possibilidade de me-
Ihor control social do governor, de tal ma-
neira a bloquear os impulses autoritArios e
inibir as modemas t6cnicas de manipulagao
de massa por parte dos que eventualmente
detem o poder.
A criagao de instincias como o ouvidor
geral ou o ombudsman result da busca dis-
so que viroujargAo na ret6rica fonnalista: a
transparencia. O bom servidor p6blico, fi-
gura indispensavel A constituic&o de uma
burocracia professional que funcione como
espinha dorsal do governor do povo, pelo
povo e parao povo, tem que aprender a pres-
tar contas sem se ofender e sem dissimula-
9A0. O pfblico, por sua vez, precisa apren-
der tambtm que cobrar corn energia nao 6
sin6nimo de grosseria.
t principio elementary do direito que to-
dos somos inocentes at6 prova em contrA-
rio. A culpa precisa ser provada, a inocen-
cia se presume. Questionar civilizadamente
nto significa imputar crime, nern mesmo le-
vantar suspeitas. t direito fundamental do
contribuinte e dever bAsico do servidor pu-
blico. A legitimidade da burocracia se forta-
lece e se renova na resposta que apresenta
ao questionamento, nAo na recusa em expli-
car-se. Um govemo que atravessa inc6lume
sucessivas sabatinas, oferecendo-se a elas ao
inv6s de fugir delas, 6 verdadeiramente um
govemo do povo e nao apenas um produ-
to de boa propaganda (nem sempre sinoni-
mo de verdade, muito pelo contrario).
Esta seqlo vai procurar realizar o que o
atual governor prometeu, quando anunciou a
criag o de uma ouvidoria popular, e frustrou.
De um lado, cobrar explicaQ6es dos servi-
dores pdblicos e ceder-lhes espago para suas
manifesta9es. E, de outro, participar corn
os leitores do aprendizado quanto ao acom-
panhamento dos atos p6blicos atravds do
DO.
t precise forgar o governor a seguir nor-
mas mais rigorosas na prestaASo de infor-
maqaes ao ptblico, procurando impedir que
o 6rgao official se constitua em caixa de pan-


dora, ou instrument para a ocultaQgo da
verdade atravds de c6digos e macetes, aos
quais nem os iniciados tnm acesso.
Bons servidores p6blicos (que, felizmen-
te, ainda os hA) certamente se alegrarAo corn
esta iniciativa. JA os cidadios que relaxam
de seus deveres haverAo de perceber o qulo
despreparados se acham para cobrar seus
direitos se esta coluna deixar de receber as
devidas contribuiq6es do p6blico.
Todos sabemos, de longinquas eras, que
uma andorinha s6 nao faz verfo. E que, na
democracia, a pior das tenta96es 6 acreditar
na eficAcia de predestinados messiAnicos.
Num primeiro moment iluminam as espe-
rancas. No segundo, ofuscam-nas cor suas
tiranias pessoais. Vamos, portanto, ao apren-
dizado coletivo.
Desde ja louvo a atencqo do president e
do director administrative da Empresa P6bli-
ca Ofir Loyola, Arnaldo Gama da Rocha e
Oton Garcia Damasceno. Como autenticos
homes pfblicos, eles responderam imedia-
tamente aos questionamentos feitos aqui no
n6mero passado, "considerando a not6ria
credibilidade que V. Sa. mantdm na Area da
informafo".
Os dois dirigentes sustentam que os sete
aditivos sucessivamente acrescidos ao con-
trato original, assinado em 1994 cor a Puma
- Servisos Especializados de VigilAncia (o
que aqui se estranhou), estfo plenamente
justificados. O primeiro, quatro meses ap6s
o estabelecimento da relagao contratual, re-


Revisao
OctAvio Avertano Rocha estA anuncian-
do uma revisao critical da literature paraen-
se atraves das paginas de A Provincia do
Pard. Consider nossos literatos injustiqa-
dos, subestimados "no panorama geral do
Brasil". Boa part da culpa seria dos pr6-
prios intelectuais paraenses: quando saem
de Bel&m, eles "fazem questio absolute de
esquecer as suas origens, escondendo-as
enquanto podem". argument Avertano.
Aponta como exemplo o auto-exilado
Haroldo Maranhao: "cor um texto no nl-
vel de Guimaries Rosa, s6 se lembra do Pard
pelo aned6tico e para ajustar velhas contas
cor desafetos, reals ou imaginArios, seus e
de sua famflia".
Menas verdade, doutor Avertano. Harol-
do realmente fez alguns ajustes de contas
em'Cabelos no Coradco, Rio de Raivas e
Os AnOes, neste ultimo compondo persona-
gem sobre decalque do pr6prio Avertano (o
pano de fundo 6 o Projeto Jari, do milion&-
rio Daniel Ludwig). Nada a obstar, entre-
tanto: do acerto resultou literature de alto
nlvel, de valoraut6nomo, independentemen-


Interesse public:


primeira resposta


literaria
te dos fatos reais que a inspiraram. Sao ro-
mances a clef. mas sempre literature de pri-
meira linha. A Divina Comddia nao 6 acer-
to de Dante cor os contemporineos que o
injustigaram? E. mais recentemente, os
Dublinenses, de James Joyce, nlo 6 uma
conta de chegada cor a Irlanda? Mas ven-
ceram a barreira do tempo e o rancor mdtuo
de ocasioo. sem imobilzar-se na transit6ria
atracao pelo fuxico.
A distancia nao fez Haroldo Maranhao
esquecer suas origens, muito pelo contrario.
Seus principals livros sno uma volta a elas.
revistas e atualizadas, projetadas a um pata-
mar que poucos atingiram, nio s6 aqui, mas
em todo o pals. 0 experimentalismo linguis-
tico e o aprofundamento hist6rico em Tetra-
neto del-Rei e, sobretudo, em Cabelos no
Coracdo, sao finicos. Nesse aspect, Harol-
do esta A frente de ur Osman Lins, por exem-
plo e s6 critics academicos ressentidos,
cor razao ou sem ela, nao reconhecem.
Se 6 para rever a serio a produco literd-
ria paraense, o comego de Avertano Rocha
ja nao foi bom.


sultou de "elevaqao do prego dos services
adotada em process de dissidio coletivo
perante a Justica do Trabalho". Cinco me-
ses depois, ur novo aditivo decorreu "de
necessArio acrescimo em dois postos de vi-
gilancia de oito horas cada um", que se tor-
naram necessArios pelo crescimento fisico do
Hospital dos Servidores do Estado. JA o ter-
ceiro aditivo significou, de fato, a primeira
prorrogaqAo do contrato, "mantido, todavia,
o preqo vigente" para o segundo aditivo.
O quarto tambem foi provocado por dis-
sidio coletivo da categoria, que afetou os
preqos da empresa. Na quinta adiqao o con-
trato foi prorrogado pela segunda vez para
todo o ano de 1997, "tendo sido acrescenta-
dos um posto de 24 horas e elevaqao dos
postos de 8 para 12 horas". Outro dissidio
acarretou o sexto aditamento. E o s6timo e
dltimo promoveu a terceira prorrogaleo, cor
a ressalva dos dirigentes do "Ofir Loyola"
de que "o prego do ano de 97 permaneceu
inalterado para este exercfcio", de 1998.
Aceitas as explicavoes, refaz-se para os
dirigentes da instituigao a pergunta: um con-
trato assinado em 1994 com base em toma-
da de preqos, renovado por duas vezes quan-
to a prazo e alterado quanto a valores, em
funCao de adiqao de servigo, para ser reno-
vado globalmente por uma terceira vez, nao
deveria ser precedido nova tomada de con-
tas, a fim de prevenir as clAusulas contratu-
ais e assegurar vantagens A administracao
p6blica? Ou os responsAveis pelo contrato
estfo absolutamente seguros de que conse-
guiram o melhor preqo e as melhores condi-
q6es mantendo a mesma empresa, num setor
- o de seguranca particular que tern so-
frido crescente dispute de mercado? Quais
as bases concretas dessa convicqto?







JOURNAL PESSOAL 2Y QUINZENA DE JANEIRO / 1998 7


Agradeceria se os dois dirigentes do "Ofir
Loyola" aceitassem responder publicamen-
te a essas questoes. Um bom enquadramen-
to contribuiria para definir um padrao geral
para todos os casos de aditamento, al6m de
forqar todos os escaninhos do govero a en-
riquecer os extratos contratuais, sovinamente
resumidos em alguns casos, corn a omissAo
de dados fundamentals para a compreenslo
do que se trata ali.
Ja da Secretaria de Planejamento do Es-
tado nao veio qualquer resposta sobre a di-
ferenqa de valores na compra de motonive-
ladoras para Aurora do Pard e Anapu. O
questionamento permanece de p6. Ainda te-
nho esperanga de que, entire uma e outra reu-
nido, algu6m se disponha a apresentar escla-
recimentos. Se a Seplan se mantiver muda,
6 o caso de os representantes das duas admi-
nistraqces municipals se estimularem a nos
esclarecer por que uma motoniveladora custa
R$ 100 mile a outra, R$ 144 mil.
O pr6ximo questionamento 6 para a Se-
cretaria de Transportes. No iltimo dia 30 de
dezembro o DO publicou aditivo atrav6s do
qual a Setran acresceu quase 1,2 milhao de
reais ao contrato de empreitada assinado comn
a Queiroz Galvao. O extrato nao permit
saber a que serviqo se refere porque a plani-
Iha, embora considerada como parte anexa
do termo aditivo, nao foi transcrita ou ao
menos descrita sumariamente (uma falha a
ser corrigida, senlo por iniciativa da pr6pria
Setran, talvez a instAncias do Tribunal de
Contas do Estado ou do Minist6rio Piblico,
tdo sumido nos l6timos tempos). Deveria a
Setran informer qual o valor do contrato ori-
ginal, se houve dispensa de licitaqgo (por
inexigibilidade) e qual a razao do aditamen-
to, se ele 6 legal.
A mesma edicao do DO public quatro
contratos, atrav6s dos quais a Setran pagard
R$ 3,7 milhoes ao long de 14 meses a trds
empresas (Maia Melo Engenharia, corn dois
contratos, os maiores, Efunorte e Sertoplan,
cada uma com um contrato) pela supervisAo
de obras rodovidrias que outras empresas
executam. Nao hA nenhuma informaiAo so-
bre o process licitat6rio adotado, nem mai-
ores informaq6es sobre a natureza dessa su-
pervisao, exceto que a Melo Maia verificard
"obras de melhoramento e pavimentaqao",
enquanto as outras apenas a pavimentaqco.
Finalmente, o mesmo DO abriga dois con-
venios da Setran corn a prefeitura de Almei-
rim. Em um dos convdnios o Estado repassa
R$ 75 mil para a prefeitura construir 240
metros quadrados de trapiche corn passare-
la em madeira de lei em Monte Dourado. O
segundo, de R$ 42 mil, 6 para a construgao
de 135 m2 de trapiche com passarela em
madeira de lei, mas nao diz onde, o que difi-
culta a compreensao dos valores desiguais
por metro quadrado de trapiche. Onde fica o
segundo trapiche? Aldm disso, os valores dos
metros quadrados estdo grafados com erro,
cor um algarismo a mais.
Esperemos que o bom exemplo dos diri-
gentes do "Ofir Loyola" seja seguido. 0


Em memorial do


grande editor


Minha geraqao fixou seu gosto pelos livros
transitando das coleqoes da Companhia Edi-
tora Nacional, de Octalles Marcondes Ferrr-
reira, para as de Enio Silveira, seu genro. Enio
pegou a Editora Civilizaqao Brasileira, na
metade da d6cada de 50, para imprimir-lhe
um perfil bem mais pr6ximo da nossa identi-
ficaqio do que a CEN, a Jos6 Olympio e a
Globo, os principals fornos que atendiam a
nossa fome de livro fresco e quente.
Um dos seus achados foi Eugenio Hirsch.
Ele deu a Civilizaco uma marca inconfundi-
vel, nlo s6 nas capas, mas at6 mesmo nas
peas publicitArias, que via-se por inteiro an-
tes de qualquer contato corn o conteido. A
percepcSo dos livros da editor era inconsci-
ente, por absorcao instintiva, graqas a Hirsch
(que, fora da Civilizaqco, eclipsou-se),
Entre os 13 e os 18 anos eu vinha sema-
nalmente da Martins carregado de livros da
CivilizaaLo (e, em raqao menor, da Zahar).
la pegando nas prateleiras como um aspira-
dor de p6. S6 em casa ia inventariar o pro-
duto da caqada, registrado no livro de con-
ta-corrente dos clients preferenciais para ser
pago quando fosse possivel (contra o imper-
ceptivel acr6scimo de 10%).
Ai comecava verdadeiramente o ritual de
passar os dedos pela capa, sentindo a nervura
do papel, a consistencia da plastificacao, cap-
tando o odor da tinta, a combinacao de cores,
percebendo a "mensagem" do artist e anotan-
do as informaCBes t6cnicas da produgao. Com-
prando livros proibidos, sentiamo-nos Cimpli-
ces de uma conspiraao. Em outros, era a ale-
gria do encantamento e da descoberta.
Esperavamos ansiosos por cada nOmero
da Revista CivilizagJo Brasileira, da Politi-


ca Externa Independente e da Paz e Terra,
al6m do journal Revisao, que durou tao pou-
co (Jader Barbalho acabou ficando com o
exemplar que Ihe emprestei, naqueles olim-
picos tempos de estrat6gica distancia do po-
der). O pescador vergado sob o enorme pei-
xe que carregava, simbolo da revista, foi um
achado, simples e cheio de energia.
Enio Silveira ajudou-nos todos a resistir,
quando nada con a inteligencia, praticando-
a, crendo nela, como Unamuno diante dos
fascistas espanh6is. Graqas a ele pudemos
ler Isaac Deutscher, Antonio Gramsci (cujo
Os Intelectuais e a Organizaqdo da Cultura
6 de um grafismo primoroso), Roger Garau-
dy (maravilhosa foi a capa de Hirsch para
Perspective do Homem), Norman Mailer,
Mary McCarthy, Carlos Heitor Cony, Cam-
pos de Carvalho, Jos6 J. Veiga e tantos ou-
tros. Eles nao caberiam neste registro, que
faqo apenas para incluir este jomal na rela-
qFo dos devotados cultivadores da membria
de Enio Silveira, que se foi do nosso convi-
vio no dia 1 de janeiro, dois anos atras.
Para marcar a data, vem af o livro Enio
Silveira, Arquiteto de Liberdades, cor entre-
vistas e depoimentos sobre o grande editor,
provavelmente louvando-o, mas talvez sem
dar-lhe a obra que ele merece. Enio perdeu a
editor e terminou a vida escrevendo orelhas
de livros e selecionando ediq6es para os do-
nos da empresa que havia sido dele. Perdeu
poder sem perder dignidade. Bern que esta
na hora de contar para valer a hist6ria da Ci-
vilizaqao Brasileira, com seus altos e baixos,
corn seus acertos e erros. mas como um dos
exemplos maiores de dificeis moments em
que no Brasil houve resistencia A barbArie. 0


....Bicho calado .. .

Bicho calado


O jogo do bicho 6 o mais brasileiro dos
jogos do mercado. E democrAtico: basta um
sonho para fazer a aposta. Ganha-se muito
pouco, mas ha a ilusao da acessibilidade fi-
cil ao pr6mio. Seu ritual 6 engenhoso, mas o
povo o domina, apesar da complexidade. E
illegal, mas o brasileiro tem uma compulsao
por fazer sua f6 no bicho. Por isso, sobrevi-
ve a todas as represses. S6 nao se legaliza
o bicho porque nAo interessa aos maiores
beneficiaries (e n.o 6 o povo apostador, na-
turalmente).
Dessa ambiguidade valem-se os que ti-
ram proveito da contravenqao. Uma taxa 6
cobrada dos bicheiros para que o olho go-
vernamental permaneca fechado (ou semi-
cerrado: de vez em quanto vem uma batida,
para atualizar os valores). Sempre houve um
agent autorizado para recolher as contribui-
qoes e dar-lhes uma destinaqAo aparente, de
caridade ou aqao social, e um uso clandesti-


no, em geral no financiamento de campa-
nhas political e enriquecimento ilicito.
Mas nunca ojogo do bicho foi tAo ousa-
do como agora. A rede JB jA ter at6 tres
lojas de luxo, se comparadas ao padrao an-
terior, informatizadas e corn acesso telef6-
nico As apostas, aldm de instalacqes devida-
mente amareladas, para seguir a cromatiza-
qAo da moda. Resta perguntar: quem libe-
rou geral? Quem recolhe as contribuiqoes?
Quem intermedia as relac6es entire o gover-
no e a contravenqco? Quanto se arrecada?
Para onde vai o dinheiro?
Sera que a opiniao p6blica e seu princi-
pal veiculo, a imprensa, at6 se esqueceram
de fazer perguntas que, como diz um ve-
Iho bordRo, nunca ofendem? Como nos clas-
sicos da literature policial, cabe sempre
aquela pergunta bAsica: a quem o crime in-
teressa? E o sil6ncio?
Respostas A redagqo. *









Tempo liberal
Louvavel a iniciativa de 0
Liberal de langar um caderno
especial gobre Clarice Lispector.
Mas, como sempre, ojornal che-
gou atrasado. As duas grandes
datas de Clarice foram lembra-
das nos dias 9 e 10 de dezem-
bro. Em 9 de dezembro de 1977
ela morreu e a imprensa na-
cional registrou os 20 anos da
data no dia certo. Ja a 10 de de-
zembro de 1920 ela nasceu. O
caderno de 0 Liberal saiu a 8 de
janeiro ja sem gancho, por-
tanto. Pegou os outrosjornais no
regresso da empreitada. Mas,
para os padres da folha dos
Maiorana, pode ser considerado
uma faganha.
Gostaria de merecer um es-
clarecimento do editor, Claudio
de La Rocque Leal: o que ele
quis dizer, na apresentagao, ao
declarar que Clarice construiu
uma obra "corn um T graniti-
co"? Simbologia p6s-moderna,
talvez?

Vocaqio
Se nada sobrar para o caro
senador Fernando Coutinho Jor-
ge, bem que ele poderia candi-
datar-se a pega Esperando Go-
dot, de Samuel Beckett. A voca-
G9o para esse papel parece natu-
ral. Coisa de predestinagao.
Cabe tamb6m interpreter Pedro
Pedreiro, de Chico Buarque de
Hollanda, ou O Esperado, de
Plinio Salgado.

Glac6
Atd algum tempo atras o re-
p6rter-padrao do jornalismo
cultural brasileiro eram profis-
sionais como Ruy Castro e S6r-
gio Augusto. Agora o setor foi
invadido por gente que tern in-
formagao padronizada, sobretu-
do de show-bizz, mas pouca ou
nenhuma formaqao cultural.
t cada vez mais frequent
ler-se coisas como uma que pes-
quei outro dia em algum journal
do Rio ou Sao Paulo. O redator
se referia ao livro Trhs Profe-
tas, de Isaac Deutscher, como
um dos que tnio Silveira lan-
cara. Na verdade, trata-se de
uma trilogia sobre Leon
Trotsky, mas nenhum dos livros
se intitula Trds Profetas. Sao O
ProfetaArmado, 0ProfetaDe-
sarmado e Oprofeta Banido (li-
vros que os cultores de biogra-
fiastado podem perder).
Menos recheio, mais enchi-
mento.


Voz do dono 20 1.
O govemo ja oficializou a estimativa de gastos coma --
propaganda official neste ano: serlo 10,7 milhbes de reals.
SConsiderando-se a receita pr6pria prevista, em tomo de R$ 888
Smilhdes, represent pouco mais de 1%, Mesmo restringindo-se
aos RS 693 milhOes de custeio, nao vai alfm de 1,5%. t at6
menos do que os tries projetos urbano-turisticos conduzidos em
Beldm pelo secrethrio de Cultura, Paulo Chaves Femandes
(Feliz Lusitincia, Esta~io das Docas e Park da Residencia).
Mas ha dois senOes. Provavelmente a rubrica nao abrange
realmente tudo o que vai sair para propaganda e publicidade
, (ou serh que foram fechados todos os canais de vazamento?).
, Como boa part da midia official serve apenas ao govemador e
tem finalidade political pessoal e nao verdadeiramente
administrative. a verba pass a ser poderosamente elevada.
SPrincipalmente em ano eleitoml. Quem pode concorrer em
Smatiria de marketing politico cor o govemador. candidate a
reeleiqo?
Convtm a todos e nbo apenas (nem principalmente) aos
adversarios do govemrnador fiscalizar a executio
orqamentdria sob essa ou outras rubricas de aluguel. Pelo
menos para que nao haja um cidadao tio flagrantemente mais
igual do que os outros.


O outro lado
Termina no dia 23 o prazo,
prorrogado por mais 15 dias,
que o Tribunal de Contas do
Estado concede a Funtelpa.
A Fundaqlo de
Telecomunicagoes do ParA
ira se manifestar sobre a
representagao formulada
pelo Departamento de
Control Externo do TCE
contra o jA famoso convenio
cor a TV Liberal. Os
tucanos vAo tentar
demonstrar que o Estado 6
que saiu ganhando cor o
pagamento de 200 mil reals
por mes e a cessAo da rede de
estaqoes terrestres da
Funtelpa para a televisAo dos
Maiorana. Ao contrArio do
que se especula, a peqa nao
serd assinada por Lewis
Carroll.

Mais uma
O BNDES jA anunciou que
gastara neste ano 40
milhies de reais nos 260
municipios brasileiros nos
quais a Companhia Vale do
Rio Doce atua. Mas se a
empresa realmente atingir
sua meta, de um bilhao de
d61ares de lucro liquido, o
fund de investimento
deveria somar o dobro, R$
80 milh6es, para ser
mantida a proporgqo de 8%
do RDRI, que foi extinto.
Bem feito, mais uma vez,
para quem apoiou a
privatizacao.


TrAnsito
Outro dia o Detran repassou de
uma s6 vez para a Secretaria de
Transportes 6,3 milhoes de reals.
Tudo recursos pr6prios. Joao Mar-
ques esta materializando o que
todos estavam cansados de sussur-
rar: o Detran 6 uma mina. Trans-
formou-se agora numa fonte de
investimentos do Estado.
Muito bem. Mas por que o
dinheiro arrecadado com o tran-
sito de Belem nao pode ser rea-
plicado em Belem mesmo? Por
que simplesmente investor em
rodovias intermunicipais, que
vbo, ao menos por um lado, in-
duzir ainda mais o trafego de
veiculos sem um convenient
acompanhamento governamen-
tal? E porque ha tres instancias
oficiais no transit da capital e
o governor do Estado nao se as-
socia ao do municipio, fornecen-
do recursos apenas ao Bptran
(mas jamais a Ctbel)?
Resposta de quem de direito.

Indicacao
Pela quantidade de outdoors
que saudaram o aniversArio de
Ana Jilia Carepa, ela 6 candida-
ta mesmo ao govemo do Estado.


'rrT rr rr
(j Igaai utdoorda a
ret irurAii~e estA nas ruas,
voltamos em material de
propaganda A era do
Proletkult, sem qualquer
revisao e adaptagao. Mesmo
assim, quem confiou ainda
espera acontecer. Ao menos se
ainda s6 se cre no que se v8.

Novela
Os repdrteres colocaram os
microfones diante do
governador atrds de uma
reagao a anunciada
desativacdo do Projeto
Salobo, para a exploracdo da
jazida de cobre de Carajds. 0
governador anunciou para o
dia seguinte um encontro corn
um representante da
Companhia Vale do Rio
Doce, a principal responsdvel
pelo empreendimento,
quando teria novidades,
talvez desfazendo o clima de
pessimismo estabelecido na
opiniao public por uma
sucessao de mds noticias.
Mas a tal reunido do dia
seguinte ndo passava de um
encontro informal do
governador cor o gerente
regional da CVRD em
Beldm, o afdvel David Leal,
a pedido deste, que nao tem
qualquer poder decisdrio na
empresa, como puderam os
repdrteres constatar,
frustrados, ao cobrir o
event.
Serd que, por ndo ter -
como sempre lido os
jornais daquela manhd, o
governador ndo sabia
exatamente do que tratavam
osjornalistas e que
repercussdo buscavam,
dando uma resposta
qualquer para esvaziar a
tensao e sair imediatamente
dali para informar-se? Ou e
mesmo puro despistamento?
Ou d mais um capitulo da
sdrie de vacilos
governamentais? Quem
souber a melhor resposta
que se habilite.


Jomal Pessoal
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